Produced by Pedro Saborano. Para comentrios transcrio visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) RUY O ESCUDEIRO. Conto. POR L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE. Remedios contra o somno buscar querem, Historias conto, casos mil referem. Cames, Lusiadas, Canto 6., Est. 39. LISBOA: 1844. _Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do Pelouriho, N. 24._ _O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu illustre Auctor, feita Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, que desejando corresponder a to obsequioso offerecimento empenhou os recursos artisticos, de que podia dispor, para que a edio fosse primorosa, e provasse o adiantamento da gravura em madeira e da typographia em Portugal nestes ultimos annos._ _Os Editores._ RUY O ESCUDEIRO. CANTO PRIMEIRO. Desbaratado, e roto o mouro hispano, Tres dias o gro Rei no campo fica. Cames, Lusiadas, C. 3., E. 53. A Cruz azul, que em campo prateado No escudo de Henrique reluzia, Em cinco o Filho j tinha cortado Por memoria dos Reis, que roto havia: De Castro-verde o campo dilatado O novo Rei com o arraial cobria, Livres os seus, e os mouros fugitivos, Partio os despojos, e os captivos. Do arraial no meio se elevava Do grande Affonso a lenda triumfante, Em torno qual o vento balanava As dos Cabos do Exercito prestante, De Pero Pais, que seu pendo guiava, Dos Vengas do Aio prole ovante, De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes. Em seguida do Rei se distinguia Tenda semi-real, que alli plantra Heroe, cujo valor no desmentia O sangue da Borgonha, que o formra; Pedro Affonso, a quem dra a luz do dia Amor, que o hymineo no consagrra, Digna estirpe de Henrique, e em obras suas Galardo do cuidado ao aio Fuas. No circumstante campo, vasto, aberto, Que inda ha dois ses medroso, e trepidante Vra a furia cruel, conflicto incerto Do Sarraceno em lanas abundante Contra o Christo, que anima o Chefe experto, E no Deus de seus pais a f constante, Trombetas, e ataballes uns tangiam, Outros em novo canto assim diziam. HYMNO. Vai fugindo o Sarraceno Mais prompto do que avanou, Que todo o poder terreno Por Christo desbaratou O brao aos perros fatal De Affonso de Portugal. Cada um dos Cavalleiros, Que por Christo ao campo vem, Cem dos infieis guerreiros Na peleja ante si tem; Mas tudo cede ao real Affonso de Portugal. Cinco Reis de infieis mouros Contra os de Christo vieram, D'elles teve Affonso os louros, As costas a Affonso deram, Deu Deus esforo immortal A Affonso de Portugal. Sobre o campo da victoria, Onde Christo lhe appar'ceu, E pr'a o escudo em memoria As proprias Chagas lhe deu, Ao throno alcemos real Affonso de Portugal. Este Heroe, que Deus ajuda Tome a nossa vassallagem: Sempre ao povo seu acuda Ou Elle, ou sua linhagem: Seja pr'a sempre real A coroa de Portugal. Sempre entro ns haja Rei Natural de nossa terra, Que na paz conduza a grei, E que a defenda na guerra, Qual o primeiro real Affonso de Portugal. Em quanto uns assim cantam dos soldados, Vo outros pelo campo divagando: Estes colhem despojo inda espalhado, Aquelles secco matto vo cortando; Ascende ao r o fumo, que enrolado Das accezas fogueiras vem manando, Onde est'outros preparam o alimento Dos membros lassos prvido sustento. J o Sol menos ardente Para o ponente descia, Temperando a calma do dia A fresca brisa nascente, No occaso reluzente, De ouro e de purpura ornado, Guarnece o ceo azulado A orla de nevoa espessa, Novo dia que arremessa Pintando um dia acabado. Tinha chegado A hora amena, Nos nossos climas To suave, to doce, e to serena, Hora, que em tempos De paz dourada, Dos lavradores to presada; Quando termina Do dia a lida, Quando o descano Restaura a vida. Sopra da tarde Grata frescura Reanimando Murcha verdura. Vem o novilho, J libertado Do duro jugo, Pascer no prado. Sobem dos campos Os segadores. Ledos cantando Ternos amores. Gentil mancebo, Que amor encanta, Ao som das crdas As penas canta, Em quanto em giros Linda pastora Co'a dana leve Mais o namora, Hora sem par, em que o cadente dia Traz repouso, ternura, e alegria! Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito A pr da intrepidez mra a piedade, Guerreiro sem igual, Christo perfeito, Vai demandando a erma soledade Do provecto Ermito, asilo estreito Onde fugindo as pompas, e a vaidade, A Deus e penitencia consagrra O venerando velho a vida cra. N'uma colina, apenas exalada Sobre a vasta planicie calorosa, Uma exigua Capella era elevada N'aquella idade barbara, e piedosa: Do velho Ermita a cellula acanhada Jazia ao lado, uma sobreira annosa, Co'a larga rama o tecto protegia, E do profano olhar a defendia. Ante a porta do sacro monumento Com toscos pus estava retratado O sacrosanto lenho do tormento, Em que o Filho de Deus fra pregado: Dentro sculptado via-se o momento Em que o Corpo sem vida, reclinado Da Mi nos braos, vai, qual creatura. O Creador baixar sepultura. Alli da noute na primeira vela P'ra o Rei, do sacro livro possuido, A campana soou, que o tempo assella Do celeste Emissario promettido, P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella Fosse Christo por elle percebido, Promettendo-lhe a coroa, e a victoria Da sua estirpe, e do seu povo a gloria. Naquelle instante o velho venerando, De giolhos aos ps da Cruz alada, Estava o fim do dia consagrando, Como do dia consagrra a entrada. Raros alvos cabellos fluctuando Se viam sobre a frente despojada; E a barba, que lhe o vento sacudia Em ondas, sobre o peito lhe descia. Na piedosa orao todo engolfado Estava o santo velho por tal sorte, Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado, Do Escudeiro seguido, o Varo forte. Pedro Affonso parou, seu peito, armado De audacia contra os perigos, contra a morte, Toca a vista do Ermita por tal geito, Que no sabe se medo, se respeito. Mas o moo Escudeiro, que o seguia Bem diversa impresso experimentava, Do Ermita a quietao, quasi a apathia Da sua alma c'o estado contrastava; Em seu peito um volco latente ardia, Dos desejos no pelago nadava, Estava n'essa idade, em que o repouso no s mal; mas mal o mais penoso. Ruy era o seu nome. luz viera Sob o tecto paterno junto ao Douro; Seu Pai, no nome igual, a vida dera Com Henrique pugnando contra o mouro. Jmais paterno affago conhecera, Que a triste viuvez, envolta em chro Ruy, unico bem que lhe restra, No bero filho posthumo embalra. Unica flr, que lhe esmaltasse a vida, A mi no tenro filho cultivava, Nelle a imagem do pai, reproduzida, Embellezada ainda, idolatrava. No Joven desde a infancia alma atrevida Namorada da gloria se mostrava, Com corao ardente, e generoso, E a um tempo amante, meigo, e carinhoso. Indole a tudo prompta, a tudo ousada No porte do mancho transluzia: Na estatura esbelta, e levantada Co'a ligeireza a robustez se unia: Sobre a frente morena, e dilatada A negra liza comma lhe descia, Nos olhos vivos, e de cr escura Temperava o fogo bellico a ternura. No era lindo, no, que expresso tanta Destroe a symetria da lindeza; Porem mais do que o lindo arrastra, encanta, Interessa, move, e a atteno tem presa. Sem ter severo olhar, que o riso espanta, Sria a sua expresso, toca em tristeza, Trasborda n'ella uma alma forte e ardente, Que tudo pde ser, salvo indiff'rente. Tal era formado No vulto, e nas cores, Que era a Marte asado, Era asado a amores. Qual brilha entre as flores O cravo fragrante, Tal elle prestante Entre os mais brilhra, Ou tal se elevra Entre os companheiros, Como nos outeiros O olmo alteroso Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso. No patrio tecto, desde o bero vira Do nobre pai o escudo pendurado, A cota, que inimigo ferro abrira, Inda tinta do sangue no vingado. Mil vezes entre pranto mi ouvira Contar paterna gloria e triste fado, Mil co'a infantina mo tocado havia A herdada lana, que ha brandir um dia. Entre memorias taes do patrio dano Do filho de Ruy crescera a idade; Volvido haviam j anno apoz anno Conduzindo o vigor da mocidade, Quando a mi, que respeita como arcano Do extincto Esposo a ultima vontade, No dia em que seu lucto revivia Ao filho bem amado assim dizia. Martyr da f Christa teu Pai na guerra Pela Cruz deu a vida peleijando; Fatal golpe o prostrou na propria terra, Que para Christo andava conquistando. Ah! se l donde o summo bem se encerra Elle, oh filho, nos v, ver-me-ha chorando, Dar-te o preceito, que houve do Consorte Quando a alma entregou nas mos da morte. Alli fica, me disse, aquella lana, Que s de infiel sangue foi manchada, Alli deixo esse escudo por herana, Esse elmo, essa cota, e essa espada: Se o summo Deus tiver de ns lembrana, E que um filho haja em ti, oh bem amada, Meu nome lhe dars, e essa armadura Sob a qual encontrei a morte dura. Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo Do peito a separou por vez primeira, E o brao, j sem fora, a custo erguendo, Aos labios a levou por derradeira. Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo A esta insignia a devo verdadeira, Devo-a de Christo f, que a vida guia, Que ensina a fallecer sem agonia. Dize-lhe que a conserve ao peito unida, Que ao lado seu cinja a paterna espada, Aquella p'ra o guiar eterna vida, Esta p'ra ser a seu Senhor votada; Que indomito na pugna asp'ra e renhida, A fraqueza respeite desarmada; Que preze a honra; fuja da cobia, E da moleza vil, que o vicio atia. Assim fallou teu Pai.... e a penetrante Ferida em rouxo sangue se esvaia. Sumiu-se a voz no peito palpitante, Aos olhos se apagou a luz do dia: Soou da minha dita ultimo instante, J d'esta alma a ametade no vivia; Mas dentro de meu seio palpitava Penhor, que a ficar viva me obrigava. Vivi, a fora achei, que me vigora No maternal amor, oh filho amado, Cro penhor de um lao, doce outr'ora; Mas roto, quando apenas estreitado! A ti mancebo, a ti pertence agora Restituir-me aquelle que hei chorado, Se, como espero, em ti vir renascida A virtude d'essa alma ao ceo subida. Da tua infancia os dias acabaram, J teus membros tem fora e tem destreza, Aquelles, que o esposo me roubaram, Saibam que no fiquei s, sem defeza. Sangue vil minhas veias no herdaram, Nem corao sugeito a tal fraqueza, Que ao filho de Ruy estorve a gloria De ter por Deus, e pelos seus victoria. De Ruy a viuva, assim fallando, Do muro antigo as armas desprendia, E os humidos olhos enchugando, O filho de Ruy d'ellas cobria. O mancebo, de nobre ardor crando. Com respeito a armadura recebia, Que j na dura guerra exp'rimentada, Fra do pai com o sangue consagrada. Um captivo entretanto apparelhava O bruto ardente, que se apraz na guerra, Que impaciente o freio mastigava, Co'a vigorosa mo cavando a terra; J armado sobre elle cavalgava Quem do ninho paterno se desterra, A procurar do mundo as aventuras, Gratas a poucos, para tantos duras. Da triste mi os olhos macerados Por largo espao a marcha lhe seguiram; Ao perde-lo porem entre os silvados De uma nevoa de pranto se cobriram. Seus animos, do filho sustentados, Ao arrancar-se d'elle sucumbiram. Sentiu a triste, a dr, magoa, anciedade, Que s conhece a maternal saudade. Segue no emtanto o moo a varia estrada Que o Mondego do Douro distanceia, Na terra, dos Beroens Beira chamada, Onde o Vouga entre as serras serpenteia, Do Bussaco transpe serra elevada, E bem depressa a vista lhe recreia Valle ameno, co'as flores e a verdura Que nutre do Mondego a limfa pura. De risonha colina no vertente, Que o rio carinhoso em baixo lava, A cidade Conimbrica jacente, Que ento de espesso muro se cercava; N'ella ajuntando estava armada gente Affonso, que attacar apparelhava O agareno Ismar chefe animoso Do transtagano mouro bellicoso. Era Affonso acompanhado D'esse Irmo, de Henrique filho Cavalleiro de alto brilho, Por Dom Fuas educado. Fuas era aparentado De Ruy com os ascendentes, E o sangue de seus parentes No Joven reconhecendo, Seus destinos protegendo, Por escudeiro o ligou A Pedro, que o aceitou, E entregando-lhe a lana, Poz n'elle tal confiana, Que como a filho o tratou. L na peleija de Ourique No mais forte das batalhas Rachou elmos, rompeu malhas Ruy, com o filho de Henrique. Ao som da tuba guerreira Seu corao se accendeu; Qual touro, aberta a barreira, Com o mouro accommetteu. Aos golpes da herdada lana Muitos mouros expiraram, Muitos da espada a provana Cro co'a vida pagaram; E no sangue de inimigos, Que pela F derramou, Entre azares, e perigos, Do pai a morte vingou. Do defunto Ruy tal era o filho, Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava. J do cadente Sol o ultimo brilho Nas bordas do horisonte se apagava, De altas idas no inspirado trilho O provecto Ermito continuava: Quando subito o rosto alevantando Volveu aos dois o aspecto venerando. ERMITO. Salve prole de Henrique, heroe preclaro, Salve sangue de Reis, a quem a gloria Predestinada est no assento claro De ter, mais que de imigos, a victoria: Sim, tu triumfars do abysmo avaro, Do mundo calcars pompa, e vangloria, Todo o fulgr da humana heroicidade Sepultando no asilo da piedade. Onde dos teus a estirpe triumfante Teve origem irs, nobre e animoso, Do teu sangue encontrar varo prestante, Que em ti fecundar germen piedoso; Depors a couraa rutilante, O elmo, o escudo, o ferro temeroso, Para aspirar gloria, que no passa, No retiro e silencio de Alcobaa. Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos Cheio para ti campo da vida, Em que mar procelloso, entre que escolhos Teus de seguir a rta combatida, Que lagrimas amargas de teus olhos Devem correr, no peito que feridas Pungentes sofrers, sem ter conforto Antes que possas recolher-te ao porto! Melhor fra p'ra ti, se a natureza De partes menos bellas te dotra, Se insensivel s graas e belleza Ao pondenor, gloria te formra, Se menos corao, menos viveza Avara p'ra comtigo te outhorgra; Que esse, em quem mais esmero pe natura, Raras vezes mimoso da ventura. Os contrarios do Rei que alevantaste Os menores sero de teus imigos, Outro mais p'ra temer, outro encontraste Muito maior no damno, e nos perigos, Da dr por esse o calix esgotaste; Mas, cumpridos teus fados inimigos, Olhar Deus p'ra ti, e fonte pura Te guiar da solida ventura. Assim disse o Ermita, e reclinando A cabea no peito, alguns momentos Recolhido ficou; alfim voltando P'ra os dois, que quedos s'to mudos e atentos Acrescentou com tom solemne, e brando. Que somos ns mortaes, mais que instrumentos Dos designios de Deus, da alta sciencia Da insondavel eterna Providencia? Marcha aquelle no trilho da grandeza De tantos precipicios circumdado; Estoutro das paixes entre a braveza no duro combate acrisolado; Nada um na abundancia e na riqueza; Outro do escasso po at privado; Mas se a boa ou m sorte os no illude, L tem todos a coroa da virtude. Estes, e outros discursos repetia O velho, de uno cheios extremada, Que Pedro Affonso n'alma recebia, Qual a semente a terra preparada: O mancebo porem a alma sentia Com violencia tal preoccupada, Que, orando a pr dos dois no monumento, Tinha longe da boca o pensamento. Mas j da noute o estrellado manto Toda a vasta planicie acobertava, Quando Pedro deixando o logar santo Para o regio arraial se encaminhava; Segue em silencio o Joven, em quem tanto Desassocego do Ermito gerava O vaticinio, que debalde intenta Dissimular a agitao violenta. Alertas vlas passaram, Que do campo a guarda tem, No arraial penetraram, Descobrindo quem e alm Os fgos abandonados Pelos dormentes soldados. Baixou sobre Pedro o amigo Lethargo restaurador; Mas vigilia traz comsigo O cuidado roedor Que no Joven escudeiro Deixou o Ermita agoureiro. Em vo suffocar tentava Curiosidade indiscreta, Que, mal os olhos cerrava, Logo na mente inquieta Se renovava a impresso Das palavras do Ermito. Assim oppresso, agitado, Da noute as horas seguiu, At que o corpo canado Ao somno alfim succumbiu, E o repouso ao pensamento Deu vigor, e deu alento. Ao romper do dia A trompa soava, Cada qual surgia. Cada qual se armava. Aqui os infantes Cerram as fileiras Junto s ondeantes Variadas bandeiras; Alli vem rinchando Cavallos de guerra O p levantando Da arida terra. A rosada aurora No ao esplandece. Que co'a luz, que o cra, Em chammas parece. De todos na frente O Rei cavalgava, E da heroica gente Os brios dobrava: As Quinas sagradas A cota lhe ornavam, No pendo lavrados Ao ar tremolavam. Emtanto abatidos A marcha seguiam Os mouros rendidos, Que algemas prendiam. Assim vencedores Os christos marchavam, E aos frescos verdores Das margens do Mondego se tornavam, Nas campinas de Ourique Alado rei, o heroe filho de Henrique. FIM DO PRIMEIRO CANTO. CANTO SEGUNDO. A tomar vai Leiria, que tomada Fra mui pouco havia do vencido. Cames, Lusiadas, C. 3., E. 55. Para unir n'um s leito amantes aguas Vem o Liz, sobre os seixos murmurando, O Lena vem, nascido de entre as fraguas; Em seu curso modesto, alegre, e brando, Entre a relva mimosa, entre a verdura Cada qual mollemente serpejando. Jmais turvou a limfa clara, e pura O forte remo, a quilha recurvada Com que a industria mortal dma a natura; Smente a braa da arvore quebrada, A folha que no outomno cahe sem vida Pelo placido curso foi levada. Nas margens a aveleira entretecida Com o espinheiro est de flr fragante, A madre silva co'a roseira unida. No espelho das aguas inconstante Reflectida balana alta ramagem De alamo bicolr, choupo elegante; Dos vimes, e salgueiros a folhagem, Molles chores, as braas incurvando, Vedam do sol aos raios a passagem. Alli, na primavera, sussurrando, Recolhe a abelha o mel por entre as flres, E a borboleta as beija volitando, Quando o cantor sublime dos verdores Da aurora ao despontar, e tarde canta Em frente ao brando ninho os seus amores. A rda leve as aguas alevanta, Que em canaes variados circulando, Levam frescura sequiosa planta; Em quanto, dos invernos triumfando, Altos pinheiros sempre verdes frontes Reunidos se vem aos ceos alando Na encosta, e cumes dos visinhos montes. No meio d'este valle a natureza Um penhasco erigiu, morro isolado, Que das aridas rochas a braveza Abruptas volve aos raios do sol nado; Com aridez igual, igual asp'reza Do occaso, e do sul encara o lado; Orna-o do norte apenas a verdura Em mais suave encosta, e menos dura. Do forte morro s abas se abrigaram Da destruida Liria os habitantes, Quando da natal terra os expulsaram Dos romanos as armas triumfantes; Para alli seus penates transportaram, E da perdida patria sempre amantes, De Liria ao novo asilo o nome deram, Que os tempos em Leiria converteram. De Vandalos, e Godos povoada Foi depois, gente forte e valerosa, Que com o tempo tambem cedeu espada Da sarracena raa bellicosa, Na epocha em que a terra celebrada Das Hespanhas sofreu perda affrontosa, E s cantabrios serros abrigaram Os que ao jugo africano se escaparam. Mas alfim vencedor da maura gente, Affonso, no penhasco edificra Recinto marcial forte, e potente, Que de Agostinho aos filhos confira, Quando do rto Ismar a ira fremente No povo e no presidio se vingra, E unido a Hauzeri, mouro esforado Tinha de Affonso os muros conquistado. Ai! daquelle, que atrevido Com temeraria ousadia Do Leo adormecido Os furores desafia! O animal irritado, De crua raiva espumando, Corre o campo, arrebatado Morte e ruina espalhando: Com seus urros espantosos A bronca serra estremece, A luz do raio esplandece Nos seus olhos furiosos. Fora no ha to potente Que a carreira lhe embarace, Que a garra no despedace, Que no rasgue iroso o dente: T que em fim o imigo alcana, E no crpo ensanguentado Partido, e dilacerado, Sva as iras e a vingana. Assim de novo a trompa bellicosa Nos valles retumbava, Assim de Affonso a gente valerosa J de novo se armava, E as bandeiras, que as Quinas adornavam Os Alferes de novo ao vento davam. Nobres, e ricos-homens porfia Se apromptam sem demra A castigar dos mouros a ousadia, E em lide vencedora Punir os damnos, com que Ismar irado Todo o transito seu tinha marcado. O escudo embraou p'ra nobre empreza Pedr'Affonso incansavel, Ao Rei da crua guerra na aspereza Consorte inseparavel, E com elle Ruy para a vingana Com ardor empunhou a herdada lana. Moveu-se a gente bellica segura Na esperana da victoria, Que a quem temer no sabe a lide dura Nunca desmente a gloria, E n'um teso, ao Castello apropinquado O campo expugnador foi collocado. De annoso pinheiro, Que em frente se alava Do campo guerreiro, Nos ramos pousava Um corvo agoureiro Que abrindo o rostro infausto, e s azas dando, Parecia estar os mouros malfadando. Os de Agar bramaram Quando alevantadas Em frente enchergaram As Quinas sagradas, E irosos juraram Illeso conservar o logar forte Seus muros defendendo at morte. Alcaide da gente Seu brio excitava Hauzeri valente, Que a lana empunhava; Mouro forte e ardente, Entre os do bravo Ismar um dos primeiros Denodados, e intrepidos guerreiros. Com garbo, e presteza Discorre a muralha, Dispondo a defeza, Prevendo a batalha, O alcaide, e a firmeza A audacia, e o valor no rosto ostenta Com que dos seus a galhardia augmenta. Ao lado de Hauzeri bella apparece, Piedosa vista em lance to p'rigoso! Filha linda qual luz quando amanhece Ao romper d'alva em dia caloroso, O turbante, que a frente lhe guarnece Remata alvo penacho precioso Em quanto vo os zephiros brincando Com os anneis sobre os hombros fluctuando. De seda as calas tem da cr da neve, Sobre ellas desce a tunica bordada, Cerulea faixa a cinta circumscreve, Qual a hastea do lirio delicada, Cobre o virginal seio a tea leve Onde a seda co'a la fra tramada, De vermelhos coraes um fio brando Do collo airoso a base contornando. Suaves de Fatima os olhos eram, Vivos ao mesmo tempo e magestosos, Quaes unicos os nossos climas geram, Climas caros ao Sol, climas ditosos; Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam Quer languidos, quer meigos, quer irosos; Olhos taes, que se pranto derramaram As mesmas brutas penhas abrandaram. Nas pudibundas faces reluzia A viva cr da nacarada rosa, Que em leve gradao se esvaecia Pela macia pelle melindrosa; Virgem, filha gentil do meio-dia, A cr tinha morena, e to formosa, Como a que a luz de um Sol claro e brilhante Communica do prado flr fragante. Da larangeira em flr com o deleitoso Aroma o r da tarde embalsamado Cede em suavidade ao amoroso Hlito de seus labios exhalado. O murmurio do arroio saudoso Entro meudos seixos derivado, O meigo sussurrar do brando vento, Menos magia tem que o seu accento. Quem viu a vermelha rosa N'um ramalhete de flres De todas a mais formosa Quer nas formas, quer nas cres: Quem da noute socegada No silencioso vo Viu a lua prateada Entre as estrellas do co: Quem na belleza prestante Do palacio, ou templo santo Viu a corinthia elegante Que remata o molle achanto: Quem entre a familia leve, Habitante da espessura, Viu a pomba cr da neve, Vivo emblema da candura: No viu mais que uma imperfeita Imagem das maravilhas, Com que Fatima deleita Os olhos, do seu povo entre as mais filhas. Porem, j sequiosos da vingana Os Christos se aparelham p'ra peleija. Em batalhas o Rei divide as lanas, Marcando a cada uma quem a reja: P'ra o assalto prescreve sem tardana De cada Capito qual dever seja, A qual compete de ir na frente a gloria, A qual mais tarde ha de colher victoria. A aquelle, que no nome, qual no peito Tem dos fortes a nobre galhardia, Entrega o grande Affonso satisfeito. Entre as batalhas, a que a frente guia: Na mesma linha pe e de igual geito A que o pendo de Mem Moniz seguia; Bem como a forte gente, cujo ousado Valor tem vido a Sousa confiado. As reservas intrepidas e ardentes, Onde a lucta attrahir maior perigo, Viegas com Martim, e outros valentes Promptos conduziro sobre o inimigo; Porem de Pedro Affonso armipotente Brao e conselho o Rei quer ter comsigo; Nem desdenha reter junto a seu lado O Joven Escudeiro denodado. As trompas guerreiras O signal entoam, Ao combatte voam As bravas fileiras. Os mouros defendem Debalde a campina, Debalde pretendem, Que os Christos bradando Co'a lana arremetem, A quanto accommettem Rompendo e prostrando. Qual da serra alpina Partiu destacada A rocha gelada, Que o valle domina, E em foras crestando Na queda espantosa Co'a massa assombrosa Vai tudo rompendo; Assim as batalhas Aos mouros foravam, E em fuga os lanavam Ao p das muralhas. Na rocha escarpada O mouro confia; O Christo porfia, E a rocha trepada. Embora, galgando Por entre os rochedos, Inteiros penedos Descendem troando: As penhas, nas penhas Caindo, arrebentam; Heroicas faanhas Faanhas sustentam; Setas sibilantes Cruzam por milhares Das fundas girantes Com os tiros nos ares. Em quanto os archeiros A morte arremedam, Mais brava os lanceiros J lucta comeam, O escudo, a couraa, A malha cerrada, De morte esfaimada A lana transpassa, E aos golpes da espada O elmo partido No craneo fendido Lhe franqueia a entrada. A escada tremente muralha erguida J foi erigida Pela ousada gente; Do escudo coberto, Com o ferro empunhado, Mais de um segue ousado No r trilho incerto, E sobre as ameias Mais de um temerario, Entrega ao contrario O sangue das veias. A pugna engrandece, Redobra a fereza, Do ataque e defeza A teima recresce. J os muros altos Por todos os lados Sentem renovados Continuos assaltos; Hauzeri no emtanto Resiste esforado, Fero e denodado Desconhece o espanto; Tal, j quasi exangue, Javali ferido Com o dente buido Derrama inda o sangue, E a um tronco acuado, O collo cerdoso Revolve animoso A um, e outro lado. N'isto o intrepido Affonso, a si chamando As reservas, que cauto tem poupado, O decisivo esforo emfim tentando, Ao assalto as impelle denodado. Mal das gentes desliga o regio mando O valor tanto a custo sopeado Armas, clamor de guerra, e tubas soam, E contra o mouro irrisistiveis voam. De todos o primeiro ao morro avana O mancebo Ruy leve, e esforado, Os penhascos transpe sem mais tardana Que a anta o precipicio congelado; Fere, derriba, e mata a herdada lana, Foge o mauro tropel desordenado, Ruy segue qual raio a rta gente Pela porta, que aos seus torna patente. Por ella ruina e morte Penetra, de horror cercada, O valor fallece ao forte, Com a esp'rana abandonada. Cada qual as armas lana, Cada qual arrja a espada. O vencedor na vingana Irritado se enfurece, Cva as iras na matana, A humanidade estremece, Mas a sanha do soldado A sua voz desconhece: Nada p'ra elle ha sagrado, E na crueza incendido Se cr pelo ceo armado, Sobre o infeliz vencido Julgar infidelidade Sentir-se compadecido; Nem o sexo nem a idade Salva do ferro cruento, E de horror e crueldade o penhasco inteiro um monumento. O Sol cobriu de horror a clara fronte, Espessas negras nuvens o toldaram; As nevoas sobre a borda do horisonte Da roixa cr do sangue se pintaram; Os crvos carniceiros sobre o monte Com o faro da atroz prza esvoaaram, E enlutados os ceos, a noute fria Mais cedo pareceu pr termo ao dia. Farto o soldado emfim de crueldade, Extinctos quasi os miseros vencidos, Amainou pouco a pouco a tempestade, Cessaram os clamores, e os gemidos, J o Chefe recobra a authoridade Sem fora entre os primeiros alaridos, E da victoria no seguro goso Abandonam-se as gentes ao repouso. Mas Ruy, cujo joven peito encerra O preceito da Mi, do Pai legado, O descano dos olhos seus desterra, Vagando no Castello desolado. De quente sangue v fumando a terra, O cadaver encontra abandonado E o misero, que em mais tyranna sorte Sem asar de viver lucta co'a morte. No peito o corao em horror tanto De Ruy se apertou, a alma sensivel Viu, a um tempo com dr, terror e espanto, P'ra quanto no fera a scena horrivel; No podendo suster amargo pranto, Quasi maldiz victoria to terrivel, Fugindo ao quadro atroz por mais no ve-lo Se entranha para o centro do Castello. Da menagem a torre alli se erguia, No mais alto do morro alevantada, Torre rectangular que descobria Em redor a campina variada, L na alta noute, inda hoje triste pia Na muralha com o tempo descarnada O infausto mocho, e no seu seio escuro Se abriga contra a luz morcego impuro. De vigia servia o cume erguido, Na parte media as armas se guardavam, No mais baixo recinto denegrida Em priso dura os crimes se expiavam. Por caracol estreito, e retorcido Os planos entre si communicavam. Na masmorra o soldado fatigado No tinha a aquelle tempo penetrado. Na torre entra Ruy, e parecia Fatidico o instincto que o guiava; medida que o caracol descia Ancioso seu peito se agitava, Na escurido completa se immergia, Palpando o muro os passos tenteava, Quando na marcha subito impedido Sente um corpo cahir, e ouve um gemido. Estremece o mancebo co'a surpresa; Mas prompto do repente recobrado, A mo ao corpo estende, e em vez de asp'reza Sente o tacto macio e delicado De anneladas madeichas na leveza, N'um seio feminil brando, agitado; Mais no hesita, o corpo em braos toma, Fra da torre com o fardo assoma. Mas o corpo que leva entre seus braos Sem movimento est, e a voz perdida, Pendem-lhe os membros com o mover dos passos Qual a vide de olmeiro desprendida; Se o corao, batendo por espaos, No debil ser no revelra a vida, O mancebo por certo acreditra Que da morte os mysterios profanra. Mais o fardo apertava contra o peito, Mais do mancebo o peito se agitava. Parecendo-lhe sentir passo suspeito Que apoz elle nas sombras caminhava, A marcha aprssa, e n'um carreiro estreito Entra a mata, que a um lado a serra brava Selvatica produz, e na espessura Mais densa, o fardo pe sobre a verdura. Qual pasmo sem igual, quando encarando Aquella, que das trevas arrancra, Da lua lhe revla um raio brando Do peregrino rosto a forma rara; Quando, no vulto immovel attentando, Descobre do mancebo a vista avra As bellezas, que prodiga a natura De Fatima juntou na formosura. A pallidez da morte realava Merencoria a expresso de seu semblante; Os apagados olhos lhe cerrava A palpebra de cilias abundante; Do seio, que opprimido palpitava, Parecia que um suspiro a cada instante Ia partir, que o moo a vida dra Se nos labios gentis o recolhera. Extatico de pasmo e de surpreza Jaz Ruy com tal vista captivado, Sem cogitar de tanta gentileza Qual seja o miserando infausto estado. Co'a alma em goso estranho absorta e preza Ficra o moo alli como encantado, Se na Bella afllico mais dura e forte No parecesse estender o vo da morte. Contrahiram-se as faces melindrosas. Os membros delicados se obduraram, Os labios virginaes, murchas as rosas, Com um moto convulso trepidaram, De sur frio as gotas abundosas Pallida a frente, e o collo lhe banharam, Alevantou-se o seio seu mimoso, Tomou-se o respirar mais afanoso. O imprudente Ruy sahe do lethargo Recobra com o terror o pensamento, Do abandono da triste se faz cargo Naquelle transe horrivel de tormento; Dos olhos lhe rebenta pranto amargo, A Bella aperta ao peito to violento Como quem quer partir com ella a vida, Ou com ella a existencia ver perdida. No foi do moo inutil o transporte, Que a Bella entre seus braos estreitada; Ou fosse por que assim o quiz a sorte, Ou milagre de amor: reanimada, De subito escapando s mos da morte. Move o collo, ergue a frente debruada, Cessa a suffocao, livre respira, Abre os formosos olhos, e suspira. Na mesma situao mais de um instante Um e outro ficaram sem fallar-se; Elle de puro goso delirante, Ella como quem busca recordar-se: Mas breve de Ruy vendo o semblante, Sentindo entre seus braos estreitar-se, D'elles se arranca, e em pranto debulhada, Fallando assim, lhe cahe aos ps prostrada. Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade Entrada pode ter dentro em teu peito, De uma innocente a misera orfandade, Desamparo, e miseria tem respeito! Sei que cahi na tua potestade; Mas antes de sentir o seu effeito Morrerei!...... Disse, e as renascidas rosas Pudibunda escondeu nas mos formosas. Que do Deus que nos ouve um raio ardente Te vingue, e me anniquille neste instante, Se um sentimento indigno esta alma sente De que haja de crar o teu semblante! Perde o terror, oh Virgem, tens presente Um amigo, um irmo cuja constante Ambio ser s de obedecer-te E contra qualquer perigo defender-te! Assim fallou Ruy, e alevantando A prostrada Fatima, em mil maneiras Foi seu terror primeiro dissipando, Com gestos, com palavras verdadeiras. N'um penedo que cobre o musgo brando A Virgem se assentou, co'as lisongeiras Expresses de Ruy cobrando alento, Sentiu raiar a esperana em seu tormento. FIM DO SEGUNDO CANTO. CANTO TERCEIRO. Onde est aquella imagem pura, e bella Artificio divino entre ns raro? Onde aquelle olhar brando, que to caro Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella? Ferreira, Soneto, 15. FATIMA Cavalleiro, se verdade O que acabas de dizer, Na minha triste orfandade S tu me podes valer. No buscarei disfarar-te Qual minha condio, De tudo vou informar-te, Ou sejas sincero, ou no. Nas terras da Andaluzia Mouro altivo me gerou, Cujo nome e valentia Longe a fama propagou. De seu brao o nobre Ismar Conhecendo a fortaleza, D'estes muros confiar Quiz a guarda e a defeza. Do Tjo a margem deixada, Onde outra arce regia, Mandou-me vir malfadada Para a sua companhia. Sobre o perigo a que me expunha Saudade lhe dra antolhos, Que elle em mim seu prazer punha, Que eu era a luz dos seus olhos! Nascendo perdi a Madre, Que em seu seio me formou; Mas achei tudo no Padre Que amoroso me creou. Quer na tregoa socegado, Quer na fadiga guerreira, Jmais fui d'elle apartada, Antes sempre a companheira. Quando, ainda tenra infante, Nos campos o acompanhava, Sobre o cavallo possante Um captivo me tomava; E quando em foras crescida Quiz-me elle mesmo ensinar A tomar nas mos a brida, Os ginetes a domar. Ora correr me fazia, Dado ao venatorio trato, O gamo, que parecia Nadar nas pontas do matto; Ora..... Mas ha! que aproveita Recordar carinho seu?.... Minha desgraa perfeita, J no vive o Padre meu! No vive; que se vivra Por certo que a filha cra O seu brao soccorrra, E a todo o custo a salvra! Hauzeri meu Padre morto!... Cavalleiro, ah por piedade, Se desejas dar conforto minha dura anciedade, Corre ao campo da batalha, Ao posto o mais arriscado, L na torre, ou na muralha Acha-lo-has traspassado. Do seu escudo brilhante Aro de ouro em torno gira, De ouro e purpura o turbante Tem por tope uma saphira: seu alfange pendente De rico talim bordado, Obra da filha, e presente Destinado a melhor fado! Corre, corre, cavalleiro, Se tens de mim compaixo, Se teu peito verdadeiro, Se te doe minha afflico: Busca o cadaver querido, Faze-o filha entregar; Que eu possa o sangue espargido Com o triste pranto lavar: Que eu possa triste e mesquinha Dar seu corpo terra dura, E de quanto caro eu tinha Expirar na sepultura! Assim a Virgem moura se exprimia, Mais de um suspiro as vozes lhe cortava, E o pranto, que dos olhos lhe corria, Da linda face as rosas lhe banhava. O mancebo dos labios seus pendia Que no ardor de servi-la se abrazava, E mal ella acabou, aos ps prostrado, D'esta sorte lhe volve transportado: Por piedade, anjo de graa, Mitiga a acerba afflico Que a alma me despedaa, Que me parte o corao. Salvarei, pois o desejas, Esses despojos presados; E se ao furor das peleijas, Foram seus dias poupados, Vers teu pai a teu lado, Oh bella, n'um curto instante: Feliz de adoar teu fado O teu extremoso amante! No semblante da Virgem peregrina Rubor vivo a taes vozes apparece; Qual ao raiar da aurora purpurina A viva cr nas nuvens resplandece; Em seu peito porem, que a dr domina, A surpreza de prompto se esvaece, Com gesto firme, e com solemne accento Confirma assim do moo o nobre intento. Cavalleiro generoso, Segue o proposito teu. Se o ceo para mim piedoso Salvo tem o Padre meu, Se ve-lo, abraa-lo ainda Eu dever a teu cuidado Pela gratido infinda Ters meu peito ligado; Mas se o Padre, vivo, ou morto, Me no fr restituido, No busques p'ra mim conforto, Meu fado ha de ser cumprido. Jmais Fatima opprimida Escrava de um vencedor, A tal extremo abatida Servir sob um senhor; Que antes de ver-me aviltada Saberei da abjecta sorte, Da condio exasperada, Achar allivio na morte. No por certo, exclama o moo Prompto o corpo alevantando, Se teu mal prevenir posso, Eu vo j ao teu mando. Alenta o peito formoso, Minra tanta afflico, Confia no ceo piedoso, Angelica perfeio; Que aqui pela chamma ardente, Que n'este peito ateaste, Juro, que ante o Sol nascente Vers esse que choraste. Diz, e qual parte a pedra sibilante Da volteada funda despedida, De Fatima veloz parte o amante, Obedecendo ordem recebida, De penhasco em penhasco salta avante, Desdenhando escolher senda seguida, Chega ao Castello, ao campo de batalha, s torres, mortifera muralha. Uma vez, outra vez corre o recinto; Mas em vo, com o empenho no atina. Cada corpo examina em sangue tinto, Busca de balde, e em buscar se obstina; mais forte o amor do que o instincto, Entre as scenas de horror, entre a ruina S Fatima divisa e seu tormento, Suffoca amor todo o outro sentimento. Desenganado de que em vo procura, Volve Ruy ao centro do Castello, Com um facho acceso desce cella escura D'onde ha pouco arrancra o fardo bello; Interroga os soldados, a armadura De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo Nenhum lhe d signaes; exasperado Volta outra vez ao campo ensanguentado. Na pesquiza injucunda em vo porfia, Inutil tedio! infructuosa lida! Nem novas nem signaes achar podia, Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida. No emtanto com o raiar de novo dia Era a Lua no brilho amortecida, E as estrellas mais proximas do oriente Se engolfavam na luz do Sol nascente. Do mancebo o valor succumbe ideia Da exasp'rao do ser idolatrado; Fatima de antemo de afflico cheia Contempla em todo o peso de seu fado. Por ve-la anhella; mas ve-la receia, Receia o seu pesar exasperado, Vacilla, treme; mas amor o excita E da matta na senda o precipita. As muralhas transpe, na brenha escura J seus tremulos passos avanavam, Receio, impaciencia, horror, ternura Em tropel dentro n'alma lhe luctavam; Tanto mais progredia na espessura Tanto mais seus transportes se exaltavam, Os pensamentos se lhe confundiam, E convulsos os membros lhe tremiam. Fra de si, sem tino, e delirante Chega emfim ao logar onde deixra O prodigio de amor, cujo semblante De todo o ser antigo lhe mudra...... Mas, oh pungente dr! funesto instante! deserto o penedo..... a forma rara Se esvaeceu na sua ausencia breve, Qual com o romper do dia o sonho leve. Ligeira barca, que a favor do vento, Em demanda da praia desejada, Vai rapida cortando o salso argento, Deixando apoz a esteira prolongada, Perde o impulso, a fora, o movimento, Em banco ignoto subito encalhada: Tal fica aniquilado, immovel, quedo O surpreso Ruy ante o penedo. Mas depois, prolongando um doce engano, Luctando ainda contra a desventura, Pela Moura clamando, o moo insano Discorre aquem e alem pela espessura; Porem o infausto, extremo desengano No pode recusar, quando a verdura, J pelo Sol nascido alumiada, Se lhe antolha deserta, abandonada. Tudo perdi, desgraado, Exclama o moo insensato, S n'esta alma o seu retrato Dura com fogo gravado! Chamma horrivel me devra, Fogo intenso, fogo interno! Tu foges impia e traidora, Deixas em meu peito o inferno! Como?... com quem?... para onde!... Serpe em meu seio esquecida! Que valle, ou que serra esconde, Perversa, a tua fugida?..... Juro pela f sagrada, Que de meus avs herdei, Que em tua raa odiada Meu tormento vingarei! Dos teus no perfido sangue Este ferro hei de ensopa-lo, De teu pai no corpo exangue Hei de a teus olhos crava-lo! Salvei-te a vida, e meus dias Daria por defender-te, Mal teu desejo enuncias, Prompto vo a obedecer-te. Volvo de amor transportado, De puro extremo incendido; Sou trahido, abandonado, Enganado, escarnecido!...... Nem se quer um monumento Restar de opprobrio tanto; Nem tu, oh musgoso assento, Nem tu, oh vioso manto. Isto diz... Desatinado Prostra co'a espada a verdura. Fere fogo o ao temp'rado Percutindo a pedra dura. Qual co, de raiva atacado, Distilando a baba impura, Tinto em sangue o olho ardente, T na pedra imprime o dente; Ou qual o touro insofrido, A cr jogo abandonado, Ardente dardo incendido Tendo no corpo cravado, Salta, brame, urra, e pungido Do fogo sempre ateado, Em corcovos accommette, E contra a ta arremette: Tal o moo furioso Musgo, relva, arbustos, flores, Prostra, arranca, impetuoso Nada poupa em seus furores; T que emfim com gesto iroso Volve espaldas aos verdores, E do sitio triste, e infausto Se arranca de fora exhausto. Affonso, em tanto, em pompa respeitosa Dos ministros de Deus marcha cercado capella da Virgem gloriosa, Que no forte Castello havia alado. Segue-o dos seus a turba numerosa Exultando por ver desagravado Do insulto agareno o logar santo Com o christo sacrificio sacrosanto. J tinham descendido a curta escada, Que ao pavimento interno conduzia, Da porta o cume agudo transpassado Onde esculptado o Trino Deus se via; Co'a sagrada asperso tinham mundado Do sacro pavimento a lagem fria, Em canto baixo e triste repetido Psalmo do Rei profeta arrependido. O merencorio som no templo escuro Vagaroso, e solemne resoava, piedosa effuso de um zelo puro Devota a multido se abandonava; Quando Ruy com passo mal seguro Do Castello nos muros penetrava E levado da lugubre harmonia Na Capella entre os mais se confundia. Neste mesmo momento o Celebrante Ante o altar sagrado reverente Se inclinava, e o povo circumstante Baixava at terra humilde a frente. A tal vista o mancebo delirante Seu barbaro furor desmaiar sente, Sente expirar a raiva, e a fereza, Trocar-se a ira em luto e em tristeza. Os musculos contractos se relaxam, A frente, hirta at alli, no peito inclina, Sobre os olhos as palpebras se abaixam, O fogo abrazador cede e declina. No de outra sorte as plantas vigor acham Do orvalho na frescura matutina, Como adoa ao mancebo o horrendo estado A pompa augusta, o cantico sagrado. Tal quando arrebatado, e possuido De furias infernaes, castigo horrendo, O do povo de Deus primeiro ungido, Co'espirito das trvas combatendo, Fora de si, convulso, enfurecido, Se estava entre agonias debatendo, Da harpa de David a melodia Seu soffrimento acerbo adormecia. Findou porem a pompa veneranda, Os canticos, e os ritos terminaram; E em alas logo de uma e outra banda Do vestibulo as gentes se formaram; Ao pio vencedor que os rege e manda Mil triumfaes applausos elevaram; E em marcha triumfal, dos seus seguido, Affonso ao Alcacer conduzido. Alli chegado, prve na defeza Dos muros novamente conquistados, Para que nem por fora, nem surpreza Possam mais ser dos mouros retomados. Confia defender-lhe a fortaleza Ao valor de Monteiro, e seus soldados, Em vez de Payo, que perdido a havia De Theotonio co'a gente a quem regia. Mas j n'aquelle tempo o Prior Santo, Que tal era o pensar n'aquella idade! O baculo depondo, e o sacro manto, Alliando a vingana co'a piedade, Entre os mouros fizera estrago tanto Em despique da perda da Cidade, Que em Arronches, por elle aos seus rendida, Fra de Affonso a lei reconhecida. Ao tempo em que entre os sabios conselheiros O Rei a paz e a guerra discutia, E ao longo das muralhas os guerreiros Folgavam da conquista na alegria; Ruy, a joven flr dos escudeiros, Monta o cavallo, que da Andaluzia Aos corceis os mais bellos fra inveja Do manejo na pompa, ou na peleija. Mas no sustenta o moo a redea leve Co'a costumada e dextra gentileza, Que ao soberbo animal motos prescreve Que lhe dobram as graas e a belleza, Deixa-a pender no collo airoso e breve, E submergido em lugubre tristeza, Sair faz ao acaso o bruto bello Pela primeira porta do Castello. O bruto a mo usada no sentindo Co'a frente baixa o trilho proseguia, Tardo no passo, o collo distendido, Partir do damno as magoas parecia; Abandonado a si, no conduzido, Do Lena para a margem progredia; No sitio onde hoje sua perenne fonte Transpe o passageiro sobre a ponte. O quadrupede docil, como esp'rando A lei de seu senhor na fresca borda Um momento parou, e o moo olhando Com torvos olhos, como quem acorda De sonho ingrato, e raso tomando, Mres penas reaes sente, e recorda, Distrahido lhe affaga o collo, e clina, E para a dextra a leve redea inclina. No longe do logar onde se achava Graciosa a corrente se torcia, Alli viosa a margem se adornava Das plantas, que o remanso mais nutria, Com graa ao lado opposto se elevava Um mamillo gentil, donde surdia Um fio de agua clara murmurando Qual rla entre a verdura suspirando. A curta elevao faz que se aviste D'alli do valle ameno a gentileza, Ondulado terreno em frente existe D'onde o cultura tem banido a asp'reza, Alternada co'a vinha alli subsiste A pallida oliveira, e a riqueza Da loura Ceres; fecha o quadro bello Do ceo sobre o azul negro o Castello. Aqui pra Ruy e desmontando A um ramo o corcel liga, e lentamente Vai a placida fonte procurando Onde s gemer possa livremente; Mas junto um peregrino v, tomando A simples refeio, na herva jacente Seu pobre alforje est desenvolvido, Viatorio bordo jaz estendido. A gorra de aba espaosa Calva a frente lhe obumbrava, A concha da praia ondosa O capello lhe adornava; De uma correia nodosa, Que o pardo saio apertava, Pendente a cabaa tinha Que a bebida em si continha. Escravo por longos annos De um mouro, que o captivra, Mo gentil da sorte os damnos Compassiva lhe adora. Quebrou-lhe os ferros tyrannos; E liberto lhe inspirra Sua devoo singella Ir romeiro a Compostella. Tal se mostrava o Romeiro, Que assim Ruy saudou: Deus vos salve, Cavalleiro, Vosso humilde servo sou. Se do trato meu grosseiro, Que aqui consumindo estou, Vos pode o uso ser grato, Partiremos do meu trato. RUY. Graas mil bom peregrino, Deus vos d feliz successo At o vosso destino E bem assim no regresso. Ao Apostolo divino Bom Romeiro o que vos peo que na vossa orao Vos alembreis d'este irmo. ROMEIRO. Dizei-me, bom Cavalleiro, Se com o nosso Rei andais, De Pedro Affonso o escudeiro Que nome tem, que signaes? Dizem-me ser to guerreiro, De tal prte, e de obras taes Que as gentes na lide espanta E fra d'ella as encanta. RUY. Esse escudeiro que dizes De Ruy o nome tem, Dos signaes para que ajuizes Elle mesmo a ver-te vem. Mais no busques nem pesquizes Novas; se as trazes de alguem, Falla palavras seguras Que eu sou esse que procuras. ROMEIRO. A nova de que ora tracto, Senhor, to delicada, Que heis perdoar o recato Com que ha de ser confiada. Dizei-me, onde existe um matto Com um penedo musgado, Onde na noute apparecem Sombras que se desvanecem? RUY. Onde existe?...... O atrevimento Quem te deu de pergunta-lo Venha de sangue sedento Em proprio, e armado indaga-lo; Que face do firmamento Eu juro que hei de ensina-lo A no juntar a ousadia mais baixa covardia! ROMEIRO. Por Christo! no te enfureas Escudeiro generoso, P'ra que a verdade conheas Traz-me acaso venturoso. As apparencias so essas, Mas em caso duvidoso Quem a apparencias se afferra Muitas vezes troca e erra. Attenta no que te digo Que quem partiu me dictou: --Tu me salvaste de um p'rigo A que o padre me guiou, Fujo-te, o padre quem sigo, Foi elle quem te espiou, Quem te seguiu espessura Da noute na sombra escura. Mal par'o buscar te apartaste O Padre me appareceu, Tu enganado ficaste S elle o engano teceu; Mas se acaso te agastaste Com este proceder meu Sabe que maior desgraa Do que a tua em mim se passa. Essa, que p'ra sempre grata Te prometteu jurou ser, Bem longe de ser ingrata, Vai muito alm do dever; Amor a consume, e a mata, E se t'o ousa dizer com a esperana perdida De mais t'o dizer na vida. Distancia, muralha armada E das seitas o rancr Com barreira triplicada Circumdam a sua dr: De saudades definhada Triste victima de amor Ser de Fatima a sorte Suspirar at morte.-- Assim carpindo a formosa Ouvi, que nunca enganou, Essa cuja voz piedosa Liberdade me alcanou, Ouvi-lhe a queixa afanosa Que puro amor lhe arrancou. Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia A paz no ceo, na terra a alegria.-- Em quanto assim fallava o viandante O alforge e o bordo alevantava, E mal que terminou, no mesmo instante Da cristalina fonte se apartava. O enternecido, transportado amante Debalde uma, e mil cousas perguntava, Mais no volveu resposta o peregrino, E mudo foi seguindo o seu destino. FIM DO CANTO TERCEIRO. CANTO QUARTO. Mas quem pde livrar-se por ventura Dos laos que amor arma brandamente Entre as rosas, e a neve humana pura, O ouro, e o alabastro transparente? Cames, Lus., C. 3., E. 142. Da socegada noite o astro cadente P'ra plaga occidental j se inclinava: Precursora do Sol resplandecente A matutina estrella scintilava. Do Tjo sobre a placida corrente Nem a mais leve brisa volitava, Jazia a folha immovel no arvoredo Tudo dormia socegado, e quedo. Apenas o silencio prolongado L do longinquo charco interrompia A grasnadora ra, do ramo alado O triste mocho, que agoureiro pia. Eis que ao longo do rio socegado Um fraco som parece que se ouvia Compassado, moroso, e similhante Ao surdo murmurar de agua distante. Distingue-se melhor, em fora cresce Pouco a pouco se vem approximando, Com o murmurio das aguas j parece Ouvir-se o som do lenho em lenho dando, Saltando a limpha a espaos resplandece, O cristal se desliza sussurrando. Alerta companheiros com presteza Os remos esforai, que certa a preza! Assim brada uma voz, e vigorosos Montam nove o batel, que a sombra escura Dos salgueiros encobre, que viosos A orla adornam da corrente pura: Oito aos remos se lanam pressurosos, Em quanto o Chefe empunha a cana dura, Guiando a barca, que qual seta va Ao mourisco batel, que tem na pra. Nazarenos!... na lingua arabia grita A gente do batel sobresaltada. Nazarenos bradando, esfora, excita O maioral a gente ao remo usada. Leva remos p'ra j, raa maldicta, Rendei-vos, perros, ou ireis espada, Gritam da barca, que veloz singrando Vai o batel dos mouros alcanando. Lana o croque, a fateicha, afferra, atraca, Que no possa escapar-se a gente infida, Brada o Chefe Christo, que prompto ataca O batel que desiste da fugida. Por defende-lo o mouro a espada sacca, Trava-se atroz peleija to renhida Nos barcos afferrados, qual na terra Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra. Do christo bando ao impeto primeiro Dos infieis o barco fra entrado, No sem que tres christos o derradeiro Termo houvessem nas aguas encontrado; Mas logo, atraz dos bancos do remeiro, Peleija o bando mouro intrincheirado Como quem no curando j da vida Antes do que captiva a quer perdida. Brilha no r vibrando a espada na, Penetra pelas armas a estocada, Cva no roxo sangue a raiva cra Do talhador alfange a cutilada. Nenhum pensa em ceder, nenhum reca Em quanto a fora em sangue derramada Ao brao no fallece, e a mo pendente No deixa o ferro matador jacente. J dos nove christos que accommetteram Tres a morte nas aguas encontraram, Cinco do peito aberta a vida deram Que estocada os mouros lhe arrancaram; Mas as vidas bem caras lhes venderam Que oito tambem dos perros expiraram, E dos sete que restam, tres feridos Vo a vida exhalando entre gemidos. Mas o Chefe Christo s no perigo Crescer sente o valor co'horror e estrago, Qual raio abrazador sobre o inimigo Cahe, bradando em voz alta San-Tiago. Morte, espanto, e terror leva comsigo, Faz-se o batel de sangue um bruto lago, Onde o maioral mouro acaba a vida E o Christo Chefe a dextra tem ferida. Dos mouros uns ao ferro a vida entregam Outros da barca pavidos saltando Escapados morte margem chegam Com o sangue as puras aguas maculando. Assim ao s Ruy a barca legam, Que era elle o que indomito pugnando Tinto no proprio sangue generoso De tantos triumfra valoroso. Ruy, que junto aos muros de Leiria, Principal instrumento da victoria, O que perdra em paz, e em alegria Co'indomito valor ganhra em gloria, Que Affonso prezador da valentia, Conservando seus feitos na memoria, Quando mo de Mafalda a mo ligra Com pompa augusta Cavalleiro armra, E depois, quando o genio seu guerreiro A empreza concebeu agigantada De surprehender com bando aventureiro, Com imprevista, subita escalada, O sitio forte, erguido, e sobranceiro, Onde a Virgem Irene sepultada Do Tjo, que soberbo aos mares vem, Por milagrosa campa as aguas tem, Para que gente moura, ou rica preza Com mais difficuldade lhe escapasse, De Ruy commettra a gentileza Que nas margens do Tjo se emboscasse, E com a usada, indomita braveza Qualquer batel no rio lhe tomasse P'ra que os de Agar vencidos no sentissem N'agua ou terra por onde lhe fugissem. Com animo esforado o bravo moo Assim cumprido o real mando havia, E dos mouros com o barbaro destroo Das feridas o sangue confundia. Da desigual peleija o alvoroo Que de Ruy dobrra a valentia Cessado tinha, e o brao seu ferido Sente com o corpo j desfallecido, A ferida estancar em vo procura Co'a mo esquerda o Joven animoso, Que a mo, co'a dr pungente mal segura, Recusa o ministerio caridoso. Do sangue perda emfim cede a natura, Succumbe dr o moo vigoroso. Seu corpo sob as armas desfallece, Cahe prostrado na barca que estremece. Mas antes que do Tjo na corrente Fosse a ordem real executada, Pelo ardente valor da christa gente Com temerario arrojo era assaltada De Santarem a arce, que imprudente, E no escarpado accesso confiada, De Hauzeri sob o mando, que a regia, O poder dos de Christo escarnecia. Meias adormecidas, sem cuidado As vlas sobre o muro mal vigiam, Quando a escada fatal alevantado Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam. Acorda tarde o mouro alvoraado, Que os confusos clamores desafiam, Que os Christos da muralha j senhores, Em breve as portas entram vencedores. De Affonso no poder cahiu dest'arte Aquella, que no cume se assentava, Soberba dominando a toda a parte A campina feliz, que o Tjo lava. Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te De fortes torrees, co'a gente brava Procurar preservar-te e defender-te, Se uma noute bastou para render-te. Noute cruel e horrivel, em que o crte Da espada anniquillou a audacia tua! Em que a tyranna, despiedada morte A fome saciou barbara e cra! Em que rios de sangue por tal sorte O fio fez correr da espada na, Que apenas a seus golpes escaparam Tres, que o fugido alcaide acompanharam. De Sevilha em alta torre O Rei mouro est sentado: D'alli co'a vista discorre Pelo campo dilatado Que o Guadalquivir percorre. Eis que p'ra banda do rio Quatro v vir cavalgando. Um dos quaes o senhorio Parece que tem do bando, Que segue o seu alvedrio. Vem todos de p cobertos, Os ginetes vem canados, Mostras claras, signaes certos De marchar afadigados Mostram aos olhos expertos. Por Deus! o Rei mouro brada-- Do presago corao O agouro no me agrada! Trazem nova de afflico Esses que vejo na estrada. Aquelle que vem na frente No cavallo mais formoso, Hauzeri certamente, Que contra o Christo fogoso Accode a pedir-nos gente. Pelo Profeta vos digo, Que se agua aos brutos no do Santarem est em perigo De em breve cahir na mo Do Christo nosso inimigo; Porem se a sde que tem Aos corceis deixam matar, tomada Santarem, E a nova funesta a dar Fugitivo Hauzeri vem!-- Mal do Rei mouro acabavam Os discursos agoureiros, Que logo ao rio chegavam Os canados cavalleiros E beber aos brutos davam. No tarda que desmontado Ante o mouro commovido Tivesse Hauzeri narrado O desastre acontecido, O caso desventurado. Como Affonso se partira Com sua bellica gente, Como a marcha lhe encobrira, Sobre a villa confidente Como inesperado cahira: Como as vlas surprehendidas So no muro degoladas, As escadas erigidas, As muralhas assaltadas, E as fortes portas partidas: Como a gente, por tal sorte De susto e trevas tomada, Ou passa do somno morte, Ou corre desacordada Encontrar da espada o crte: Como emfim, perdida a esperana, Da arce os Christos senhores, Cevando-se na matana, Se esquivra aos vencedores, A buscar prompta vingana, E das aguas confiando A filha, que preservra Com tres s, dos de seu mando, Pr'a elle Rei caminhra Submetter-lhe o caso infando. Assim os mouros souberam De Irene os muros tomados; Grande terror conceberam, Ao vr a quanto arrojados Os de Christo se atreveram. Porem do Tjo placida corrente; As barcas sem governo abandonadas, Pouco a pouco do rio brandamente Foram s verdes margens encostadas: Das aguas no remanso mollemente, De verdes espadanas rodeadas, Com o descer da mar firmes ficaram E no lado bojudo se inclinaram. luz volve Ruy, renasce vida; Mas qual surpreza, qual doce portento! J no goteja o sangue da ferida, J o no punge a dr e sofrimento; Ao recobrar a sensao, perdida Do sangue no espectaculo cruento. Abre os olhos, contempla a formosura Que qual sonho perdera na espessura. Em vez da scena barbara horrorosa, Onde fora da dr ficou jacente, Volve a si, reclinado na viosa Relva, que esmalta a borda da corrente. Co'escudo, e lana, a espada bellicosa Dos ramos de um salgueiro est pendente, E a matutina brisa fresca, e pura Junta o sussurro ao da agua que murmura. Jaz a seu lado o elmo desprendido, Do duro peso a frente libertada; O peito, antes das armas opprimido. Livre a aura respira embalsamada; Com tella delicada est cingido O brao, que ferira imiga espada, E a linda moura, lagrymas chorando, Lhe est no seio a frente sustentando. Viso!... viso do Ceo, sem pr encanto Inefavel prazer, que me aviventas, Doce illuso de amor!..... mas esse pranto Suspende, ah sim, com elle me atormentas. Nesse rosto to bello, puro, e santo, Com cujo aspecto a vida me sustentas, Deixa vr um sorriso, um gesto amante; V-lo sequer n'um derradeiro instante! Ah deixa que em meus braos amorosos Aperte a imagem que p'ra mim vida; Que unidos n'um s ser, ambos ditosos Nossa essencia vejamos confundida! Ah Fatima, dos dias meus ditosos Delicias e prazer, Virgem querida, Ja no ha quem de mim possa apartar-te Tu das-me a vida, vivo s p'ra amar-te! Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente Fora de um terno amor vence e domina, Sobre o peito do amante a linda frente, Desfeita em meigo pranto, amante inclina. Ruy no peito a aperta vehemente, Triumfa amor, amor s predomina!..... Quando a barca de subito estremece, Co'a luz do raio a margem resplandece. Retumba do trovo o som tremendo, Da distante montanha os echos gemem, Do rio a calma subito rompendo Na borda antes tranquilla as aguas frmem. Virgem delirante o choque horrendo A razo restitue; seus membros tremem, Arranca-se assustada espavorida Dos braos com que o moo a tem cingida. Suspende, ah sim suspende, bem amado, De ti me afasta a propria natureza. No contemplas o Ceo de horror toldado, O rio, o campo envoltos na tristeza. Foge Christo, que o meu funesto fado, Sem igual nos rigores, na dureza, No me fez para ti, nem consentra Que amor em doce lao nos unra. Foge, oh Christo invicto, e generoso, A quem prouvra ao Ceo que ora no visse; Mas j que fez teu brao poderoso Que em teu poder segunda vez cahisse, Que a teus olhos meu peito o desditoso Amor sem esperanas descobrisse, S te resta fugir sem mais demora Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora. Isto a Moura dizia; mas o amante Nem o trovo, nem seu carpir ouvia, Transportado de amor, e delirante De novo a moa com ardor cingia. De virginal rubor tinto o semblante Fatima seus transportes combatia; Mas a modestia mais lhe agrava a sorte; Que o amor de Ruy torna mais forte. Combate ainda em pranto suffocada, Ora emprega o rigr, ora a ternura, Ora Ruy argue com voz irada, Ora lhe pinta a extrema desventura, Cego o moo prosegue...... quando alada De repente ante os dois surge a figura, De Ruy memoria no estranha, Do venerando Ermita da montanha. O mesmo era, que alli achado havia Na piedosa orao todo engolfado, A mesma longa barba lhe descia Sobre o peito, no vulto magoado Outra expresso porm ora se lia, E com semblante triste mais que irado, Do insano mancebo a mo tomando, Lhe diz com tom de voz sereno e brando. Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos Assim procuras igualar a gloria? Assim do Pai os ultimos preceitos, Filho ingrato, conservas na memoria? Mi, que o ser te deu, nutrio aos peitos, Foi esta a promettida alta victoria, Quando do martyr Pai armas sagradas Te entregou de seu sangue inda esmaltadas. Julgas-te generoso, porque a vida Nos campos das peleijas arriscaste, Porque valente e audaz da gente infida Na dura guerra o impeto domaste, Porque esta moa s, desprotegida Nos conquistados muros preservaste; Mas, quando, oh moo audaz, assim fizeste, De imperio sobre ti que prova dste?.... Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro, Quando uma Virgem timida, innocente, Acaba de salvar-te o derradeiro Sopro da vida, a teu desejo ardente, Sem respeitar seu desamparo inteiro, Buscas sacrifica-la impaciente, Abusar da imprudencia e juventude; Que assim curas da honra e da virtude! Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso Que guardada lhe tem mais nobre sorte Soube arranca-la ao moo impetuoso Que ella arrancado havia s mos da morte. Dma, oh mancebo, o genio teu fogoso, Sabe s paixes oppor uma alma forte, Que em vo procura a honra e busca a gloria Quem aos desejos seus cede a victoria. Sabe no tarda a hora que ha marcado A eterna, e insondavel Providencia P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado, Que no pode prever mortal prudencia, Mal de quem, com seu sopro envenenado. Pertender profanar essa innocencia! Mal de ti, se a cumprir te no ds prssa Do ceo a ordem, que por mim se exprssa! No distante d'aqui, na opposta margem Um barco mouro o Tjo vem subindo, Procura Santarem sua viagem, Um irmo de Hauzeri vem conduzindo; Saia-mos-lhe ao encontro na passagem, Da nova aquelles mouros instruindo, Volvero, esta Virgem lhes daremos, E assim a Lei sagrada cumpriremos. Fallando assim, do Ermita venerando A voz era solemne, e magestosa, Via-se a frente calva circumdando Uma arola clara e luminosa; Subjugado Ruy cede a seu mando, J na agua nada a barca pressurosa, J, proximos da opposta ribanceira, Sentem remar dos mouros a bateira. Porem ao som do remo, que devia Para sempre talvez roubar-lhe a amada, No corao do moo renascia A tempestade apenas abafada; Se co'amor o respeito combatia, No dura a luta na alma apaixonada, Cede o respeito, e o moo exasperado Ao velho falla assim com gesto irado. Quem, oh velho agoureiro! dependente Coustituiu de ti o meu destino?.... Vate de malles, barbaro inclemente, P'ra que simulas leis do ceo benino?..... Vai, cessa de ligar teimosamente A minha sorte ao fado teu mofino, De perseguir meus dias, de insultar-me, E co'escuro provir de ameaar-me. tua de Hauzeri acaso a filha?.... Acaso nos combates me ajudaste?.... Este brao, esta espada que aqui brilha Acaso foste tu que os animaste?... Esta de amor suave maravilha Acaso foste tu quem a salvaste?... No. Entrega-la a barbaros imigos S sabes querer, e expo-la a novos perigos. Ah! se longe de tudo dr votado, Aborreces o mundo, e seus deveres, Volve ao ermo dos homens sequestrado, Cva na solido teus desprazeres, No venhas com teu halito empestado Murchar da vida a flr aos outros seres, Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja. E pde querer o ceo, que eu a innocencia Nas mos dos infieis de novo entregue, Que Fatima infeliz da F na ausencia O Deus que a protegeu blasfeme e negue?... Pde querer, que a abandone sem clemencia Ao funesto destino que a persegue?.... No, no pde tal querer; nem separado Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado. Aparta-te de mim tu que o projectas, Aparta-te de mim, antes que iroso Pelas expresses tuas indiscretas Me leve o sangue a extremo perigoso! Ao zelo que por mim, por ella affectas Prestes pe termo, foge pressuroso, Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, Poupa-me algum funesto desatino! Immovel, qual rochedo, o velho Ermita Do mancebo os transportes escuitava, A compaixo, que seu penar lhe excita, No gesto enternecido se mostrava. Pallida, e sem alento a moa afflicta Aos ceos os lindos olhos levantava, Como quem do poder soberano e forte Submissa, e resignada espera a sorte. N'isto do batel mouro percutida a barca do remo abandonada: N'agua mergulha a borda, compellida Do veleiro batel pela pancada. Aquella v Ruy, que lhe era vida, No rio desparecer precipitada, Grita, lana-se ao rio a soccorre-la, Mergulha em vo, em vo quer recolhe-la. Mas o brao do Ermita mysterioso Fatima sobre as aguas amparando Longe a leva do amante impetuoso, Que em vo a est nas aguas procurando, Clama ao batel dos mouros pressuroso, E a filha de Hauzeri prompto entregando, Volve a Ruy, arrastra-o da corrente, E desparece vista em continente. FIM DO QUARTO CANTO. CANTO QUINTO. Quaes no profundo reino os nus espritos Fizeram descanar de eterna pena C'uma voz de uma angelica Sirena Cames, Lus., C. 10., E. 5. Vagaroso vem marchando Na vereda um cavalleiro, Nobre ginete montando; Traz o rosto do guerreiro, Que a vizeira alevantada Deixa contemplar inteiro, Co'a acerba dr concentrada Negra sombra de tristeza Profundamente gravou. Dos olhos seus a viveza Apaga a melancholia, Da intensa magoa a dureza. Tormento de mais de um dia, Froixa luz de escaa esperana Se l na fisionomia. Pena, que a velhice avana, Infausta paixo ardente Causas so de tal mudana. Como o tronco florescente, Que ha pouco altivo, e frondoso Ornava a selva virente, Que o furor do vento iroso Rebramando enfurecido Desafiava orgulhoso, De insecto voraz roido Na raiz que o alimenta, Murcho abate o cume erguido, Alta a copa no sustenta, Perde da folha a verdura, Que a seiva no alimenta, Guarda s do lenho a altura, Merencorio documento Da perdida formosura; Assim, desde o atroz momento Que Fatima lhe roubou, Com saudade, amor, tormento De Ruy o ser mudou. No fundo d'alma Do triste amante, Nem um instante Ha tregoa e calma. Pena incessante Que nada acalma. Cada dia com o tempo reforada, Lhe consume a existencia desgraada. J, qual soa Quando ditoso, No impellia O bellicoso Da Andaluzia Filho fogoso Apoz o corredor que a lebre alcana, Ou o gamo leve, que no campo avana. L no torneio J no brilhava, Marcio recreio, Que outr'ora ornava De audacia cheio, Onde arrancava Dextro e valente o premio em nobre luta; Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta! Mesto, isolado, Ermos outeiros Corre, apartado Dos cavalleiros; S animado Entre os guerreiros Se mostra ainda em frente do inimigo, Quando a tuba guerreira o chama ao perigo. Ignora o infeliz qual seja a sorte D'aquella por quem s lhe cara a vida, D'aquella sem a qual da espada ao corte A existencia quizera ver perdida. Nas aguas a deixra entregue morte, Nas aguas vra a Virgem submergida, Longe d'ella com fora irresistivel Arrebatado n'esse instante horrivel. Do agoureiro Ermita a milagrosa, Subita appario, prompta partida, A arola da frente luminosa, A antiga prophecia d'elle ouvida: A lembrana da Mi terna e saudosa, Do martyr Pai a ultima ferida, Seus preceitos, legados consorte, Sellados pela fria mo da morte. As palavras do Ermita, os seus furores Contra elle, to prompto castigados; Seus primeiros desejos, seus ardores Pelo ceo, como acinte, perturbados; Os olhos de Fatima encantadores, Quaes por ultimo os vira aos ceos alados, A angelica expresso do seu semblante, Tudo a Ruy se pinta em cada instante. O socego na noute em vo procura, Foge o somno a seus olhos vigilantes; A incerteza, entre as penas a mais dura, Se afferra, roaz cancro, a seus instantes; Se ao canao a final cede a natura, Entre um tropel de sonhos delirantes Vagando sem cessar o pensamento, Em logar do repouso acha o tormento. Tal era o miserando, infausto estado De Ruy, que ao acaso caminhava, S, distante dos seus, e confiado No valor, que a desdita no coarctava; No distante do muro alevantado, Que a maura gente ainda povoava, Na montanha, que surge graciosa, Qual no deserto a oazis frondosa. Em frente do mancebo se estendia Prodiga de bellezas a natura: Da primeva, robusta penedia A variada, asperrima structura, Que em agulhas, em picos se erigia, Varios na massa, varios na figura, Erectos estes, estes inclinados, Selvosos uns, os outros despojados. Ruinas da vetusta natureza, Monumentos de um mundo transpassado, Culminantes elevam na a aspereza Os cumes de granito descarnados; Em quanto, circumdando a redondeza Das fraldas, se divisam cumulados Das destruidas rochas os fragmentos Attestando o poder dos elementos. Alli a aerea marcha pressurosa Pra a nevoa do vento saccudida, Alli pra a procella magestosa Nas enroladas nuvens envolvida, A lymfa alimentando, que abundosa Dos penhascos nas veias repartida Surde em cascatas, em limpidas fontes, Em arroios gentis desce dos montes. L se veem de granito massa ingente Do cho calcareo as zonas encostadas, quem e lem partidas variamente, Jazer rotas, confusas, deslocadas; Quaes se de interno esforo e de repente Nos fundos alicerces abalados Como involucro fragil rebentassem, E ao novo serro o dia franqueassem. Mais abaixo porem ledo se estende O selvatico manto de verdura, Onde o bafo do estio nunca offende A flr mimosa, amante da frescura, Onde da hervosa penha se desprende Com murmurio suave a fonte pura, E a mil viosas plantas succos dando Saudosa corre entre ellas serpejando. No valle agreste e umbroso o medronheiro O rubicundo fructo tem pendente sombra do robusto castanheiro, Cuja folha intercepta o sol ardente; O carvalho frondoso, o alto olmeiro Cinge a hera lustrosa estreitamente; Do pinheiro co'as copas elevadas As massas de verdura so coroadas. Na solido do bosque as tenras aves, Incolas primitivas da floresta, Chamam a vida co'as canes suaves Musica natural que amor empresta; Respondem-lhe de longe os tons mais graves, Merencoria harmonia lenta e mesta Das ondas, que escumando entre os penedos Batem da roca os asperos rochedos. De Alboracim as aguas misturando Do salso mar co'as vagas amargosas, De um lado corre o Tjo, saudando Por derradeiro as praias arenosas; Vo-se do outro os olhos alongando Pelas tumidas ondas procellosas, Que com o tempo sulcaro triumfantes Saudando o patrio slo as nos ovantes. Ainda ento sobre a penha virente Orientaes trophos no consagrra De Diu o vencedor, nem o eminente Excelso pico a torre rematra; Inda a pedra lavrada artistamente O Alcacer real no levantra; Nem a limfa liberta conhecra A marmorea bacia, que a prendra; Inda a riqueza ento no erigira Do prazer a morada caprixosa, Nem o muro importuno prohibira O transito na selva magestosa; Inda o tronco indignado no sentira Do ferro a cortadura injuriosa, Nem do cordo tyranno a fantesia Immolra a belleza symetria. Tal era o quadro que ante o olho amante Do misero Ruy se desdobrava: Parou, e parecia que um instante A amarga dr no peito se adoava. Menos pezado e triste no semblante Os olhos pelos cumes alongava; Mas foi curta a impresso, curta a surpreza, Prompto volveu habitual tristeza. Qual um instante s brilha o luzeiro Do claro sol no meio da procella; Tal da alegria um raio do guerreiro Um momento smente o vulto assella. Entranha-se na selva, que primeira No seu transito est frondosa, e bella, Segue da agua o arroio fugitivo Co'a frente baixa, o rosto pensativo. Assim caminha, quando o pensamento Sente por modo estranho perturbado. No, no illuso, um doce accento Sa no bosque, terno, e magoado, Em vez do som facticio de instrumento Do murmurio do arroio acompanhado, Merencoria harmonia, canto lindo Qual o da rla seu amor carpindo. Oh doce voz! oh canto mavioso! Ah! que se ella vivra, assim cantra, Assim o nosso amor puro, extremoso, Solitaria, e saudosa lamentra! Mas, oh noute cruel, fado horroroso! Nas aguas para sempre a bella, a cara!... Mais no disse, que os olhos se alagaram E os soluos as vozes lhe cortaram. A VOZ. Bosques sombrios, profundos retiros, Aguas correntes, aves namoradas Inda uma vez escutai os suspiros, Da desditosa, entre as mais desgraadas; Inda uma vez escutai meu tormento, Do meu penar e da minha anciedade Origem foi um puro sentimento, Morro de amor, expiro de saudade! dura morte eu por elle arrancada A gratido um dever me inspirou, Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada No mesmo instante o dominio usurpou. Verde floresta, escuta o meu tormento, Aves, ouvi minha triste anciedade, Victima sou de um puro sentimento, Morro de amor, expiro de saudade. Elle partiu namorado da gloria, Elle partiu sem curar do meu fado, De quem o adra ah talvez a memoria No haver nem sequer conservado. Por derradeiro escutai meu tormento, Por derradeiro ouvi minha anciedade; Se elle trahiu to puro sentimento Mate-me amor, morra eu de saudade. Mas se fiel, se constante e amoroso Quaes os inspira elle sente os amores, Aves, cantai, e tu, bosque vioso, D novo brilho a teus gentis verdores; Mais que a alegria feliz meu tormento, Mais que o prazer feliz minha anciedade, Que dom do ceo por um tal sentimento Morrer de amor, expirar de saudade. Assim cantava a voz melodiosa O canto com suspiros alternando, A saudosa cano, queixa amorosa Iam da selva os echos imitando. A dr pungente, a angustia que affanosa Iam do moo a vida definhando Mais rapido dissipa o doce accento, Do que a nevoa ligeira aparta o vento. N'um instante da moura aos ps se lana Ruy, subido ao auge da ventura: Vida da minha vida, amor, e esperana Dos dias meus, modello da ternura! Que alma ingrata poder ter mudana Sendo de ti amada, oh Virgem pura?.... No, mil mortes soffrra o teu amante Primeiro que esquecer-te um s instante. Dize-lo; as mos da Virgem commovida Apertar contra os labios abrazados O mesmo p'ra Ruy, que a queixa ouvida Completa os seus desejos extremados. Certo do teu amor, Virgem querida, Quem de Ruy pde igualar os fados?... Todo o cruel tormento que hei soffrido Um s accento teu fez esquecido!.... Sorte propicia, acaso venturoso, Que o ser me restitue para a ventura, Que prodigio feliz do ceo piedoso, Que fora superior da natura, O pde produzir?... Desde o horroroso Momento em que surgiu por desventura Esse fantasma horrivel, despiedado Contra mim acintoso, e conjurado: Ds que, do odio seu fructo execrando, Te vi ante meus olhos submergida, Em vo nas fundas aguas procurando, Louco de magoa e dr, salvar-te a vida, Que o barbaro fantasma, oh crime infando! Com mais que humana fora e desmedida De ti me arrebatou; que Anjo divino Protegeu, doce amada, o teu destino?... Indelevel lembrana! Instante horrivel Em que, de quanto amava separado Pelo monstro a meus rogos insensivel, Na solitaria margem fui deixado! Por toda a parte em meu furor terrivel Em vo o procurei desesperado, Riu-se o fado de mim, e at est'hora Roubou-o minha sanha vingadora. Mas se elle existe acaso entre os viventes, Se um fantasma no , parto do averno, Que a perseguir meus passos innocentes A ira suscitou do negro inferno; Por essas magoas juro to pungentes Que hei soffrido, por meu amor eterno, Que saciando n'elle a minha furia, Heide lavar a tua, e minha injuria. FATIMA. Ah suspende! mais no digas! Sim suspende, oh bem amado, Illudido, alucinado, Taes blasfemias no prosigas! Esse, que acusas de morte S nas aguas me salvou, S elle me confortou Na tyranna, adversa sorte. Se ainda conservo a vida, Se inda me ests contemplando, Ao Ancio venerando Minha existencia devida. RUY. Como?... Aquelle que arrancar-te Ousou a meu peito amante, Que em magoa e dr incessante Me fez continuo chorar-te, Da tua lei o inimigo, Da tua raa execrado, Pde aliviar teu fado, Protector para comtigo!.... FATIMA. Prodigios o ceo clemente, Que meus olhos desvendou, Por esse mesmo operou, Que blasfemas imprudente! Desde o momento horroroso, Em que de ti separada, De quanto amava affastada Fui no caso lastimoso. A taa da desventura Misera esgotar devia, Trazendo-me cada dia Nova dr, nova amargura. Mal de Cintra o alto muro Me recebeu malfadada, Foi minha alma transpassada Dos golpes pelo mais duro. Soube que o Padre querido To digno do meu amor, Ao despeito, magoa, dr Tinha infeliz succumbido. Inda bem me no feria Este golpe acerbo, amaro, Que do meu unico amparo Se apagra a luz do dia; De Hauzeri o irmo restante Que affavel me agazalhra, Que por filha me adoptra Viu chegado o ultimo instante. Solitaria, abandonada, Sem amigos, sem parentes, De amor nas chammas ardentes Por mr tormento abrazada, Ignorando se vivia O s ser que ainda amava, Se o jurado amor guardava, Se em outras chammas ardia, Succumbi, em vo luctando Contra tanta desventura, E aos golpes da sorte dura Senti a fora expirando: Nem j o pranto, allivio aos desgraados, Os olhos meus vertiam, Nem j ais, nem suspiros, que exhalados As penas alliviam, Soltar podia. Opressos, suffocados Minha alma consumiam Em silencio os tormentos, morta a esperana De poder minha sorte ter mudana. Uma noute em que s de horror cercada Ao pezo de meus males succumbia De pura luz me vejo rodeada Igual que no ceo precede o dia. De espanto e de terror sobresaltada, Quando convulso o corpo meu tremia, No centro do claro o proprio vejo Que s aguas me arrancra l no Tjo. Era o mesmo; porm mais magestoso Ora de mim se vinha aproximando; Qual um astro celeste e radioso Brilhava o seu semblante venerando, Um aroma suave e precioso Estavam suas vestes exhalando, Na mo tinha uma Cruz resplandecente Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente. Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda, Com aspecto sereno, e enternecido, Disse: Victima triste e miseranda At agora de um fado endurecido, Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda; Um Deus, a quem um ai, um s gemido De verdadeira dr, de penitencia Move com os peccadores clemencia. Surge da magoa horrivel que te oprime, Cobra fora, renasa o teu alento, Pela esperana do dom alto e sublime Com que o ceo quer sarar teu soffrimento. Fructo innocente de expiado crime Sers da pena qual da culpa isento, Em ti meu sangue no ser contado Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado! Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora, Como tu a formra a natureza; Tinha ella ento, como tu tens agora, Esse dote funesto da belleza. Uma chamma tyranna, abrazadora Illudiu da sua alma a singelleza, Ligou-a o n de amor, e da desgraa Ao inimigo audaz da propria raa. Aos braos de Hauzeri, de amor levada, Funesto effeito das paixes ardentes, Cuidando ser feliz, foi desgraada Victima das angustias mais pungentes. O Deus, o Pai, a Patria abandonada misera continuo so presentes, O roedor remorso, a magoa dura Lhe foram escavando a sepultura. Chegado da infeliz o ultimo instante, Odios, malquerenas, queixas expiraram, Paterno pranto, com o do esposa amante Da morte o leito unidos lhe regaram. Resignados os olhos seus brilhantes Pela ultima vez aos ceos se alaram, Um suspiro exhalou, cuja piedade As iras aplacou da Divindade. Fructo infeliz de amor, e de fraqueza Junto Mi expirante tu jazias, Por ti fallava ainda a natureza, Tu s na terra a alma lhe prendias. Tomou-te entre seus braos com viveza, Tu que a trama cortras de seus dias, E com a voz, cortada j da morte, Assim fallou ao Padre e ao Consorte. Padre, se ingrata filha, angustia e dores, Por premio a teu amor s sube dar-te Neste fructo infeliz de meus ardores Possas ter quem se empenhe em consolar-te, E tu, por quem soffri tormento e dores Sem uma hora se quer cessar de amar-te, Consente que ella entregue ao pai que imploro Possa rogar por mim ao Deus que adoro. Assim fallou a triste, e resignada O golpe recebeu da dura morte, Partiu do erro a alma j purgada A repartir nos ecos do justo a sorte. Mas de Hauzeri em vo a prenda amada Reclamei, em memoria da Consorte; Arrancar-lha no pude, e separado Fui desde ento p'ra sempre do teu fado. Supplicas, pranto, rogos, ameaas Para salvar-te estereis empregando, Fui no ermo chorar minhas desgraas Aos ceos dos ceos a causa confiando, Continuo sobre ti de Deus as graas Com penitentes lagrymas chamando. At que a Deus tocou minha agonia, Deus que benigno a salvao te envia. Em quanto fallava A cruz me estendia; E a dr que a pungia Na alma abrandava; Do Deos que invocava Tocar-me sentia, J menos soffria J mais me animava, E quando acordava E a mim me volvia Achava-me o dia Outra do que estava, Livre da interna lucta, e na bonana Comeando a antever a luz da esperana. A celeste vizo reproduzida Cada noute a minha alma soccorria, Cada noute na f santa instruida, O santo Av mais firme me fazia. A antiga exasperao, o tedio a vida Em merencoria dr se convertia, Dissera-me feliz, se a um sentimento Conseguisse esquivar meu pensamento. Assim Fatima ao transportado amante O terno corao patenteava; Ruy de puro goso delirante No gesto a paixo viva retratava; Vivo rubor da Virgem no semblante Da alma os sentimentos debuchava; A selva, as aves, o arroio, as flres Formando um templo digno a taes amores. FIM DO QUINTO CANTO. CANTO SEXTO. Tal est morta e pallida Donzella, Seccas do rosto as rosas, e perdida A branca e viva cr co'a doce vida. Cames, Lus., C. 3., E. 134. Soberbo ondeia a crina fluctuante De Ruy o ginete bellicoso, Atravez da floresta segue ovante No accelerado trote pressuroso. Excita o nobre bruto o ledo amante, Vivo obedece o animal fogoso redea, ha tanto tempo abandonada, Que outra vez com vigor sente empunhada. Seguindo vai o nobre aventureiro Transportado de goso e de alegria A direco do campo, que o guerreiro Povo de Christo alevantado havia. Doce aspecto, risonho e lisongeiro, Em vez da dr, lhe exalta a fantezia, Todo quanto carpira, quanto amra A fortuna propicia lhe entregra. Do ginete nas ancas assentada Levar se deixa de Hauzeri a filha, Entregue a amor, e por amor guiada, Suave esperana nos seus olhos brilha. O rosto lindo, a frma delicada Da natura primor, e maravilha, A pr do Cavalleiro armado e forte, Realisam Cyprina com Mavorte. Sob o brao da Bella, que o estreita, O corao do moo arde e palpita, Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita Partilha o goso, que innocente excita. Se ella suspira, elle o suspiro aceita, Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita, Pejando-se que la o terno amante Nimia expresso de amor em seu semblante. Assim o bosque frondoso Vo prestes atravessando, Um silencio deleitoso Bella, e amante guardando. Silencio, que amor prefere mais ardente expresso, Que no fundo da alma fere, Que transpassa o corao; Que identifica, que enlaa Os que a mesma ida prende, Que a compaixo, que a desgraa, Que amor, que a ternura entende. Silencio no avalia Alma mesquinha, apoucada, Que sempre placida e fria Do sacro fogo privada. Em silencio a natureza V rolar no immenso espao Dos orbes a redondeza Que impelliu do Eterno o brao, Em silencio a vaga ondosa Rola no lago profundo, Sria a noute magestosa Envolve em silencio o mundo. Em silencio o vate absorto Antes de pulsar a lira Recebe o influxo e conforto Do talento que o inspira. Em silencio meditando Alcana o sabio a verdade, Vai-se um silencio mirrando O filho da adversidade. Silencio da alma nascido, Caracter do sentimento, Tu es o grau mais subido Ou do goso, ou do tormento. Atraz deixam o bosque, e as claras fontes. Que atravez a verdura vem manando, Co'a varia crista dos erguidos montes, Que se est sobre as nuvens desenhando, Tingem-se de cr varia os horisontes Co'extremo sol nas aguas mergulhando, Os monotonos cumes apparecem Que com o calmoso estio se encalvecem. Ficava-lhes da parte, donde o dia Mais refulgente vibra os esplendores, A Arrabida, entre as nevoas, que tingia O sol cadente de purpureas cres, Com o ramo descendente, que estendia Pelos equoreos campos bolidores, Do Tjo e Sado as fozes separando Com o Cabo do Espichel que vai formando. No longe, e como filho da montanha, Ficava de Palmella o cume erguido, Ao longe dominando na campanha, Ao perto sobre o valle, enriquecido Pela filha gentil de terra estranha, Que ora alli sobre o ramo seu florido Ostenta a um tempo a flr, e os pomos de ouro, De perfume e frescura almo thesouro. Jazem-lhe dextra as aridas campinas Onde com o vento a loura messe ondeia, Calcareas e basalticas collinas Onde a arvore a vista no recreia, Mais longe as em que a limfa cristalina Hoje em priso marmorea se encadeia, Roubada aos campos, verdura, s flores, P'ra alegrar de Lisboa os moradores. Em frente se lhe antolha o pico altivo Co'as naturaes collumnas enfeixadas, Columnas que formra o fogo activo Nas epochas remotas e apartadas, Em que inda o touro, o cervo fugitivo No pasciam nos campos co'as manadas; Mas s nadantes monstros habitavam Mares, que at aos serros se elevavam. Logo as nuvens rompia mais distante De Monte-junto a molle alevantada, Monte-junto, que a lomba culminante Une a Minde ao nordeste prolongada; As aguas dividindo, que ao levante Vem buscar a planicie, que regada pelo Tjo, das que ao mar salgado Directas vo correr no opposto lado. Do sol quasi submerso os derradeiros Raios as eminencias s douravam, Das fontes e dos valles os ligeiros Vapores os contornos desenhavam; Sobre as nevoas os cumes dos outeiros Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam, E as aves com a ultima harmonia Davam o extremo adeos ao claro dia. Na belleza da scena que os rodeia Fatima nem Ruy no attentavam, Amor as faculdades lhe encadeia, Ao delirio de amor se abandonavam. Qual forte olmeiro a branda vide enleia, Tal a bella e mancebo se estreitavam; elle o seu apoio, o seu sustento, ella de Ruy s pensamento. Contina o silencio dos amantes Nos vivos sentimentos engolfados, Nada sa nos valles circumstantes Mais que do bruto os passos compassados; S l dos valles nos cazaes distantes Ladrar se ouvem os ces, sar dos gados Monotonos chocalhos tangedores, Com o debil som das gaitas dos pastores. De um fraco ribeiro, Que a calma escaceia, Que na fralda ondeia Do arido outeiro, Cortava o carreiro O leito escabroso: O solo ondoloso Alli se abatia, E a senda descia Ao vo pedragoso. Ao p da torrente, Gosando a frescura, De um chpo a verdura Ornava a corrente; Da lua nascente A luz estorvando, A sombra alongando Na estreita passagem, Co'a verde folhagem A senda toldando. O corcel, que excita O bellico amante, Na marcha prestante Um momento hesita; Logo a orelha fita E o trote accelera, Ruy, que o modra, O fogo percebe Que o bruto concebe Na batalha fra. Com o brao valente A lana enderea, Preme o bruto, e prssa Transpe a corrente. Cinge estreitamente, Bella, o teu consorte, Que seu brao forte, Por ti animado, Do mais esforado Desafia o crte. Fatima obedece, Seu seio palpita.... N'isto uma voz grita A Bella estremece; No grito conhece A aravia expresso, Que no corao O sangue lhe esfria. Fugir quereria; Mas tenta-lo vo. Quem vem l?... Com voz alta e sonorosa Na arabia lingua um mouro perguntava, Brandindo a ferrea lana temerosa O corcel co'as espras despertava; Com haste igual de sangue sequiosa Outro mouro apoz elle se mostrava: Ruy, que os v, e em seu valor confia; Christo e ElRei Affonso: respondia. Diz. O ginete arremea, Salta o bruto ardente e forte, Co'a lanada va a morte Do mouro a cotta atravessa. Espadana o sangue infido, De um s golpe a alma va, Cahe o mouro, e com o ruido Das armas o valle atra. Torce a redea o Cavalleiro Contra o segundo inimigo; Mas menos forte o guerreiro Encarar no ousa o perigo: Do ginete ligeireza Da vida confia o preo, Parte, va, e com destreza Vibra a lana de arremeo. Parte a hastea sibilando, O fado dirige o tiro, Cahe Fatima, e ao golpe infando Responde um longo suspiro. Ella cahe, ella suspira, No seu seio palpitante Um covarde ferro aspira O sangue da doce amante. Ruy no peito a sustenta Mudo, louco, exasperado, Nelle o olhar Fatima attenta Quasi da morte apagado. Fitta nelle os olhos lindos Onde amor lucta co'a morte: Os meus dias esto findos, Adeus suave consorte! Amei-te mais do que a vida Desde esse primeiro instante Em que a ti fui submettida Por teu brao triunfante; Nem a crena, que ento tinha, Nem a ausencia, nem meu fado, D'esse amor, essencia minha, Haveriam triumfado. Nenhum poder sobre a terra De Ruy me apartaria, Na ausencia, na paz, na guerra Fatima tua seria!..... Mas Deus no quiz que embebido Em doce paixo terrena, O premio de um escolhido Fosse cora to pequena: No quiz esse Deus clemente Que a dita nos deslumbrasse, Que o nosso amor innocente Sobre a terra se gozasse. Nasci de um crime, e no crime Involuntario educada, Esse Deus, sua Lei sublime, Foi por mim aos ps calcada: Tarde conheci seu nome, E quando a Elle voltei Um peito, que amor consome, Imperfeito lhe votei. Do sangue meu a abundancia Possa expiar, oh Senhor, Os erros da minha infancia, O excesso do meu amor! Eu vejo a mi, que me estende Desde o ceo amantes braos, Ella a alma me desprende Dos terrenos embaraos. Eu vo, oh esposo, eu vo Ao seio da Divindade J seu hymno eterno ento Nos umbraes da Eternidade. S d'alli, oh doce amante, P'ra sempre a dr se desterra; L te aguardo, que um instante Vive o homem sobre a terra! Mas ah, se a vida me dste Quando morte me arrancaste, Deva-te a vida celeste Aquella que tanto amaste. Derrama, pressa, derrama Nesta fronte a agua da vida Que a seu seio Deus me chama, Em breve por ti seguida. Disse. Uma fora invencivel Deus infunde ao moo ardente. Desce, e no elmo terrivel Toma a agua da corrente. Chega. Derrama-a na frente Da Virgem agonisante. Ella a sente, e ternamente Une ao peito a mo do amante. Apertou-a contra o seio, A elle os olhos voltou, Um suspiro aos labios veio Exhalou-o, e expirou. Dizem que junto ao ribeiro Doces cantos se escutaram, Que na noute almo luzeiro Os pastores contemplaram. Na seguinte madrugada. Vindo ao sitio os guardadores, Viram a terra escavada Coberta de frescas flres. Sobre ellas um vulto annoso Candidas roupas trajando, N'um vo ao ceo pressuroso Alva pomba contemplando. Dizem mais: que os que souberam O caso digno de chro, quella torrente deram O nome de Rio Mouro. Que Ruy na sepultura Longo tempo suspirra, Deposta a nobre armadura, Que do martyr Pai herdra; Que alfim do pranto exhauridos Os olhos seus se seccaram, E seus ais, e seus gemidos Para o Senhor se voltaram. Que do ceo a queixa ouvida, Com balsamo de alta espr'ana Lhe sarou Deos a ferida, Lhe mandou da alma a bonana. De Cintra no ermo escabroso No serro o mais retirado, Alm do monte vioso Monserrate ora chamado, Dois penhascos se elevavam Que immensa louza cobria, E uma caverna formavam Que ao ponente a porta abria; Alli, dos homens remoto, Dos seus proprios ignorado, Ruy sob um nome ignoto Terminou mistico fado. Alli do nascer da aurora T ao ultimo fulgor Entoava em voz sonora Os hymnos ao Creador. Das plantas da penedia, Dos fructos do agreste monte, Sua comida fazia, Bebida lhe dava a fonte. Assim consumiu seus annos solido consagrados, T que, cumpridos seus fados, Poz Deus um termo a seus damnos. Partiu-se de entre os humanos Sua alma candida e pura, Os anjos a sepultura Entre as penhas esconderam, E as memorias se perderam Da sua triste aventura. Longo tempo abandonada Jazeu a selvagem gruta, Do lobo, e raposa astuta Foi longo tempo habitada. T que a prole sublimada Do ultimo lume do Oriente Um asylo penitente No serro agreste erigiu, E de novo alli se ouviu O louvor do Omnipotente. Os annos correram, Que tudo mudando Volvem derribando O mesmo que ergueram; Da suave amante Perdeu-se a memoria, Esqueceu-se a gloria Do Joven brilhante. No castello antigo Bero a seus amores Mchos piadores S tem seu abrigo; Selvagem verdura C'o a hera lustrosa Da muralha annosa Cobrem a structura: De um lado inda a selva Se mostra virente, Matiza inda a relva Do Lena a corrente, Inda o musgo brando. Vestindo os penedos, S'ta nos arvoredos Amor convidando; Mas j no lastima O echo das fragoas Da triste Fatima As pena, e as magoas. Do Tjo na borda Ind'hoje aos salgueiros O batel co'a corda Prendem os remeiros, A humida esteira Tranquillos sulcando, Vem inda remando De noute as bateiras, Mas da Moura linda, Do Guerreiro amante, No bronco habitante A memoria finda. De Cintra a viosa As frescas torrentes Vem inda fluentes selva frondosa, Das aves ainda Na matta sombria A doce harmonia Com o dia no finda, Sua doce frescura, Suas limpidas fontes, Seus farpados montes De altiva structura, Sua luz clara e pura, Seu ceo azulado, Seu mar empolado, Que o tempo venceram, Memoria perderam Do Pr desgraado. Tu s, tu, fantesia inseparavel Das margens do meu Tjo, e seus verdores, Tu, ceo da patria, ceo incomparavel, Que n'alma, qual no campo, espalhas flres: S tu resuscitaste o lamentavel Destino de to firmes amadores; S tu, do tempo alevantando o manto, Sobre as campas de amor chamaste o pranto. FIM DO CANTO SEXTO E ULTIMO. End of the Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by Lus da Silva Mousinho de Albuquerque License: Share Alike