Produced by M. Silva Notas de transcrio: Este texto uma transcrio do original de 1875, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da lngua portuguesa (pr-acordo ortogrfico de 1990). Foram corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes. NAS CINZAS POR GONTRAN BORYS TRADUO DE L. C. M. C & C LISBOA EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C. RUA LARGA DE S. ROQUE, 100 NAS CINZAS POR GONTRAN BORYS Imprensa nacional--1875 NAS CINZAS POR GONTRAN BORYS TRADUO DE L. C. M. LISBOA EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C. RUA LARGA DE S. ROQUE, 100 I Se perguntsseis hoje diante de dez pessoas quem Andr Sauvain, nove delas achariam ridcula a vossa ignorncia, e a dcima no hesitaria em soltar uma gargalhada. A ningum permitido desconhecer uma gloria nacional: entretanto ningum conhecia h sete anos aquele nome, to celebre agora. Nessa poca, ainda Andr Sauvain no era um pintor ilustre. Ocupava, ao cimo da rua dos Mrtires, um _rez-de-chausse_, to prprio pela humidade a criar cogumelos, como pela escurido a inspirar tragdias. A habitao do jovem pintor limitava-se a uma s casa, que acumulava as funes de sala, quarto de cama, _atelier_ e refeitrio. E nem por isso ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palcio. Andr era um rapaz vigoroso, com msculos de ao, esbelto como um vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho e retorcido, pra aguada, cabelo alourado e abundantssimo, assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que no causaria estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a blusa rafada, que trajava, ia to bem sua figura nobre e elegante, como um gibo do melhor veludo. Numa bela e clara manh de Dezembro Andr Sauvain acabava de retocar um _Faust au sabbat_: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodgio. Atravs das vidraas do seu quarto descobria-se parte de uma casa esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prdio era o constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora reflectia execrvel claridade no _atelier_, ora lhe interceptava completamente a luz. Andr lanava-lhe pela milsima vez a sua maldio, quando de repente viu abrir-se uma janela, e aos ouvidos do mancebo chegaram as ltimas notas de uma canoneta entoada por voz fresca e harmoniosa: no tardou que a essa janela se mostrasse uma cabea de mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabea arrancou ao pintor um grito de admirao e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a imediatamente. H no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma pea de 40 francos, que a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com a risonha expanso da inocncia a iluminar-lhe o rosto. A boca uma cereja: deseja-se colhe-la com os lbios. A brisa de maio brinca travessa com os bastos anis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos negros, de extraordinria viveza, crepita a jovialidade. a primavera, a alegria, a mocidade em flor. Pois, embora o no creiam, esse rosto encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao _atelier_ de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos. A jovem vizinha do pintor tinha na mo um grande ramo de violetas, e voltando-se para falar a algum, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto antes eram bem lgubres os pensamentos de Andr Sauvain. Na confuso de monstros, de demnios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro, entrevia amargamente no esprito o smbolo da sua existncia atribulada. Estava triste como a morte. Porm a gentil viso dispersara os fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. Andr sentiu o corao bater-lhe com fora desusada. Era de jbilo. Teve uma vertigem e baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora sinfonia da esperana. Foi apenas um relmpago. A viso desaparecera; a janela fechou-se. E Andr, querendo continuar o seu trabalho, no pde, porque lhe tremiam os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabea entre as mos. A noite veio surpreende-lo assim. Ento cada objecto assumiu para ele um aspecto fantstico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longnquo de uma canoneta; olhou para o seu quadro, e s viu nele um turbilho de cabeas louras, iluminadas por grandes olhos pretos. E por toda a parte, no centro da casa, por detrs dos modelos de gesso e dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas esboadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros. --Ser assim que nasce o amor? perguntou Andr a si prprio, tomando-se o pulso. Depois, levantou-se aterrado: --Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar! II Nesse tempo (refiro-me ao ano da graa de 1853) Andr Sauvain, bem que fosse proprietrio, no jantava todos os dias. Verdade que a _sua propriedade_ no valia sessenta escudos, e no lhe rendia sequer um franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma runa musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, Andr podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrvel misria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o corao quele pardieiro pelas razes profundas, a que chamam recordaes; tinha l nascido e l morrera sua me. Alm da humilde casinha de seus pais, Andr Sauvain s possua... a sua pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um co! Devera ter comeado por dizer: nem um soldo! O resto depreendia-se por simples ilao. Vivia de esperanas e de privaes; frugal alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de vero como de inverno, levantava-se com a aurora, pintava at tardinha, e aproveitava-se da escurido para percorrer Paris em todas as direces; depois recolhia extenuado de fadiga, deitava-se s apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulao do sangue e entretinham-lhe a actividade do crebro. De noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes artrias, onde circulam sem cessar correntes humanas, esto saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores invisveis... Aqueles prodigiosos passeios eram as nicas extravagncias de Andr. Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos, que no fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois dias de subsistncia. Alm de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um _terno_[1] loteria; consistia ela em reunir alguns centos de francos, no s para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta lousa a pobre viva, que repousava a um canto do pequeno cemitrio da aldeia. Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu _atelier_, onde perigosas imagens lhe perturbavam o esprito, exclamou: Se amo, estou perdido! O amor e o trabalho so dois inimigos mortais. No amemos! Ora, prometer no amar equivale a jurar que no nos cair uma telha sobre a cabea. Andr reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginao corria desfilada, e ele j no era senhor de a fazer parar! Jantou em trs garfadas e com trs suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a cano alegre a prenderem-se-lhe ao corao com as suas garras de diamante. Era vspera de Natal. Em toda a linha dos _boulevards_ humildes barracas de madeira branca irradiavam o plido claro das suas lanternas sobre as suas vizinhas fronteiras, magnficas lojas, cintilantes de gs e de doirados. Por entre esses dois cordes de luz cruzavam-se torrentes de ociosos passeantes. Aquele rudo, aquela claridade, o perpassar da multido buliosa e festiva, foraram Andr Sauvain a baixar terra. Voltou a si, como um dormente que desperta em sobressalto, e, poucos minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o olhar ainda distrado, e vivamente lhe excitava a ateno, uma fisionomia na verdade singular. III Defronte da vidraa de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma multido curiosa e vtima do suplcio de Tntalo. No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta. A longa barba, espessa e grisalha, caa-lhe sobre o peito, onde se bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas lvidas. No obstante o termmetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe a cabea um chapu pardo, cujas abas moles e cansadas j no tinham cor aprecivel; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botes, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da temperatura, e os braos mergulhavam at aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calas de ganga. Estava ali; boquiaberto e imvel. Os seus olhos, brilhando vidos sob grossas plpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das rbitas para devorar os tesouros gastronmicos perante eles expostos: perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsiches enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados vergavam sob pedaos de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas aspiravam com fora as emanaes culinrias que saam pelos ventiladores. De repente Andr viu-o empalidecer e vacilar; mas no tardou que o desconhecido cobrasse animo e mil impresses rpidas transpareceram sucessivamente no seu rosto extraordinrio. Foram elas: a raiva concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embarao tmido. Passou a mo curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atraco dos comestveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa ateno as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraa. Por fim franziram-se-lhe os lbios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapu, e soltando um suspiro, enxugou o crnio calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi ento que descobriu Andr Sauvain, o qual, parado a pouca distncia, o observava com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irnico, tornou a pr o chapu no alto da cabea, e balanceando-se moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade: --Ento, mancebo, que temos? Serei porventura um fenmeno? Julga-me empalhado? Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metlica, e mais notvel ainda pela sua acentuao provenal muito pronunciada. --Desculpe-me, senhor, balbuciou Andr um pouco atrapalhado. No tive inteno de o ofender. --Com mil bombardas! assim o creio. Ento julgou conhecer-me, heim? -- a primeira vez que o vejo! --Outro tanto no digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes examinavam Andr dos ps cabea; parece-me t-lo encontrado algures... ou ao senhor ou a algum muito parecido consigo!... Em Roterdo, suponho eu... ou em Calcut... talvez na Filadlfia?... --Nunca me afastei tanto de Paris, disse Andr. --E eu venho c pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas ento que fazia a, em xtase diante da minha pessoa? --Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua fisionomia interessou-me. --Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabea de Scrates... ou de stiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa contraco nervosa; tornou-se mais plido, e segurou-se, para no cair, ao ombro do moo pintor. --Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o fundo. Andr, muito inquieto, amparou-o at ao mais prximo banco e sentou-se ao p dele. --No nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar... Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as foras. Depois de alguns minutos de silncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mo uma das pontas da sua longa barba, e fitando Andr Sauvain, com o seu olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente: --No receia comprometer-se, senhor? --Como?... --Mostrando-se na companhia de um miservel maltrapilho como eu. Andr encolheu os ombros. --No tenho preconceitos, respondeu ele, nem to pouco amigos, ou mesmo conhecidos: os meus meios no me permitem esse luxo. Alm disso no estou muito mais bem vestido do que o senhor... --Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... o que me convm! --O que lhe convm!... Que quer dizer? --Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pr do sol, procuro na turba um homem de corao!... No vi seno homens gordos e irrepreensivelmente trajados, raa de que desconfio, e por isso ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar ... nauseabundo. Nem todos o entenderiam. --Ento o que ? perguntou o pintor. Pode dizer... --Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome. Andr sentiu um calafrio no corao. --Ufa! exclamou o desconhecido, at que enfim soltou-se o segredo! Sim, mancebo, h trs dias que estou em Paris, e h quarenta e oito horas que no como! Eis a razo por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa exposio culinria. Com mil bombardas! cruel mostrar assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer gua na boca at a um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que o tinido dos garfos e o _glu-glu_ das garrafas se fazia ouvir atravs das janelas... E as cibras do meu estmago sugeriram-me o pensamento de que, no meio de um milho de indivduos que vo sentar-se mesa; seria estpido deixar-me morrer fome por no querer dar-me ao incomodo de articular duas slabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me confiana... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho conhecido?... No importa, falei... o pior est passado! Andr remexia j nas algibeiras. --Espere! disse o velho segurando-lhe o brao. Vai oferecer-me dinheiro... e partir com a convico de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; um nome, que no rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um servio. --Qual? --Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui onde me v; e, se no morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraos... --Um meio... imediato? disse Andr. No conheo nenhum. Mas aqui est a minha bolsa, partilhemos. E tirou de dentro dela duas peas de cinco francos, que era toda a sua fortuna. As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou aquele metal, como um amante trado contemplaria ainda a mulher infiel e adorada. --Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu que o possu aos montes!... Como belo o dinheiro!... Mas... no... no... exclamou ele recuando um passo, no recebo esmolas! --No esmola, apenas um emprstimo! lhe tornou Andr. E, quer ele quisesse quer no, foi metendo uma das peas de cinco francos na mo calosa do desconhecido. quele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrvel luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo esverdeado, tornaram-se-lhe hmidos e brilhantes. -- ento a pobreza emprestando misria? disse ele com voz rouca, retendo a mo de Andr nas suas e apertando-a com energia. Depois, enxugando as plpebras com as costas dos seus felpudos dedos, exclamou: --Ora adeus! sou um espertalho, e por mais depressa que a fortuna corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? Andr respondeu apenas com um grito abafado. Plido, com o corao palpitante, seguia com os olhos uma mulher, cujo vestido roara por ele ao passar. Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob um chapu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros. --No ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada. Porm o pintor j ia longe; desprendendo a mo das do velho, lanara-se desesperadamente atrs da sua viso. Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo: --Uma esmola disfarada... pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem diabo se parece ele?... IV Andr Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcanou e passou adiante do chapu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou enfim encarar... uma decepo! No era ela! --Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... o mesmo que fazer crculos na gua com luses de oiro. Sou porventura um homem, ou no o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criana loura. Passou a noite jurando no pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas da insnia. Eis a razo por que, na manh seguinte, quando a senhora Poussignol, porteira de bigode e com os ps da largura de pratos sopeiros, invadiu o _atelier_ no desempenho do seu oficio de servente, achou Andr empoleirado sobre trs cadeiras, espreitando, atravs do seu postigo envidraado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas cerradas. --E esta! exclamou ela com voz masculina. --Quem mora ali? perguntou o pintor. A senhora Poussignol arregalou os olhos na direco que lhe indicava o dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rap, e brandiu a vassoura com gesto feroz. --Aquilo?... disse ela, no coisa que preste! Andr sentiu-se assomado de violenta indignao. Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de cadeiras, pediu porteira que continuasse. --Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma moblia de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo a luz... Eis-a est! --E ela? interrogou Andr. --Ela!... O locatrio chama-se Germinal. um empregado reformado, um velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um soldo, e que nem capaz de largar seis liards pelas festas do ano! --E ela? repetiu Andr. --Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida janela... Felizmente perde o seu tempo; o senhor Andr o rei dos trabalhadores, e no levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a prpria Vnus! Andr empalideceu. --Como!... pois pensa que por minha causa? Nunca dei por tal. --Pudera!... Todo entregue s suas pinturas, no repara em mais nada. Pois h bastantes dias que ela deita o lzio para c. V-se muito bem l de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!... --Mas quem ela? exclamou Andr impaciente. --Ora! a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura de um lacrau, tal e qual! No pode deixar de ser algum antigo criminoso, que tenha a conscincia carregada de assassnios. --Que ideia! -- o que lhe digo. Em primeiro lugar, h onze anos que no pe os ps na rua! no se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze anos! Que pensa daquilo? --Ser. --Qual historia! Tem tanta sade, como o senhor ou como eu, mas tem medo de ser filado, ora a est! S apanha ar num jardim de bonecas, do tamanho do _Constitucional_ desdobrado... e isso porque o proprietrio lho permite de graa... At causa d!... --E ela? insistiu Andr. --A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma desde o atentado de Ficschi. O vesturio preocupa muito pouco esse velho papa-moscas. Quando sente passos no ptio, foge para casa a sete ps; se batem porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e s se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se possvel que um cristo honrado tenha semelhantes sustos? --E ela? --Ela?... Deve confessar-se que uma criatura bem ageitadinha, desembaraada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um pintassilgo, chilreando desde pela manh at noite!... Mas, apesar disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal apenas tem seiscentos francos da penso de reforma, e, se no fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida. --Mas, disse Andr, linda como ela ... sim, pareceu-me bonita!... --Isso l!... linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a porteira. -- verdade, disse Andr tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?... --Ora, pois no! Aquilo tem um juzo... uma seriedade! Quando sai rua podia... vadiar o seu bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias, mas... no senhor! compradas as provises e entregue o seu trabalho, volta para casa de corrida, e s trata de divertir o velho maroto do pai, que ento fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso tivesse a pesar-lhe no estmago! --Que espcie de gente costuma receber? --Gente?... em casa dele! --Sim. --Receber?... o sr. Germinal!... Essa melhor! Se ele nem um gato conhece no mundo inteiro! --E... os vizinhos? --Sabe l sequer quem so! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos. --Com a breca! murmurou Andr despeitado; com efeito um ente bem misterioso, e parece-me assaz difcil domestic-lo! --Pois se eu lhe digo que um urso! No h exemplo de que tenha dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e filha. E pelo que toca a sair do seu buraco, era mais fcil deixar-se fazer pedaos... Uma pancada, discretamente batida na porta do _atelier_, interrompeu a senhora Poussignol. --Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava. A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela abertura. --Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain. Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mos, o que produziu rudo semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porm, e continuou, articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas invisvel: --Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita... Andr desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal, aterrado, lvido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede. --E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto... V Se a ferrugem, esse perxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana, escolheria, para encarnar, o individuo que Andr Sauvain tinha diante de si. O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis meses em sitio hmido. Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relgio de caixas de prata, at aos botes do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio de cerziduras e lustroso, fora de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suas sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedao de crnio amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um crculo desbotado como os dos peixes cozidos, os lbios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era tambm a sua voz, e at se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso. Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal no tinha de modo algum a aparncia de um ex-bandido. Era um homem tmido, humilde, vtima de um contnuo mal-estar e de uma trepidao nervosa inexplicvel, sempre com o ouvido escuta, e a ateno alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu carcter, parecia obrar sob a presso de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige. E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido, lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que Andr Sauvain dispensou ao pai da sua... quimera loura. --Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faa favor!... Que amvel surpresa!... Que excelente ideia teve!... No sei como agradecer-lhe... Pouco faltou para que Andr ajoelhasse. O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precaues, que davam a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos, esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse: -- hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestvel verdade, Andr entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria. --Com efeito dia de Natal... Uma grande festa! --Muito grande. --Felizmente o tempo est bom. --Muito bom. --Ainda que bastante frio. --Muito frio. Neste perodo da conversao houve uma pausa de cinco minutos. Andr contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das mos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mo, e com ela esfregou a outra. --Parece-me, prosseguiu este, que por ocasio de tal solenidade, poderamos permitir-nos... um leve extraordinrio... -- to curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a concluso a que queria chegar o seu interlocutor. --Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor meu vizinho... O corao de Andr cessou de bater. --Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrvel esforo, sim... tomo a liberdade... de o convidar... --Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto. --Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal... Ah! senhor, disponha de mim... perteno-lhe em corpo e alma!... --No exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um leno cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peo-lhe unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas s oito e dez minutos... para passar o sero... modestamente... em famlia. --Em famlia! repetiu Andr extasiado. --Ento... aceita? --Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delrio! O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma s pea. Parecia consternado. --Nesse caso, disse ele em tom lgubre, at noite. --At noite, meu respeitvel vizinho! modulou Andr, que interrompeu o rudo de raspador, apertando nas suas ambas as mos do senhor Germinal. Este ltimo encaminhou-se para a porta. --Haver, acrescentou com voz abafada... sim... haver talvez... uma garrafa de cidra. --Adoro a cidra! O senhor Germinal abriu a porta. --E... sim... creio poder afirmar que haver tambm... castanhas. --Sou doido por castanhas! A porta fechou-se. Andr Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_, executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual no h memoria! Pelo que respeita senhora Poussignol, apenas teve foras para repetir: Ora essa! Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre a caixa das tintas, derramando algumas. VI Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por que prodgio aquele misantropo, que durante onze anos no se aventurara fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele o aniversario do Natal! O pintor no se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz. s oito horas em ponto, agitou, no sem sobressalto, o fio de ferro que correspondia campainha do seu amvel vizinho. Andr tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira roupa lavada; contudo sentia-se pouco vontade. Quando Rosa olhou para ele, fez-se to branco como a prpria camisa, e pela primeira vez deplorou o comprimento dos seus braos e pernas, das quais no sabia o que fizesse. Pelo que toca jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto tornou-se da cor do seu nome. O arranjo de casa do senhor Germinal, no s era totalmente desprovido de magnificncia, mas at deixava adivinhar a presena de um mau hspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia alegrar o corao: cada mvel fora conquistado custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convm a um trofu domstico. A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para Andr houve tambm certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o delrio da imaginao... so esses a que me refiro. Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criana. Para certificar-se de que no sonhava, Sauvain beliscava os braos de vez em quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave msica da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o _fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como, enfim, quando ela inclinava a cabea, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os anis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de purssimo marfim, Andr viu-se obrigado a reconhecer que no dormia. O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _cart_ ao seu jovem vizinho... que nem deu por isso! O pintor no notou tambm as singulares contraces nervosas do seu parceiro, que estremecia ao menor rudo exterior, empalidecendo ao fechar longnquo do porto do ptio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob a presso de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que Andr no repararia em tal! s onze horas retirou-se este, cambaleando como um brio, posto s tivesse aceitado um clice de cidra; e quando Rosa, despedida, lhe tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava at ao infinito, e que dentro dele se abrigava o cu inteiro, lmpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cndida plumagem. Enquanto a Rosa, depois de Andr partir, fazendo um colar dos seus braos nevados ao pap Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido: Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papzinho! E, feito isto, voou para o ninho. O senhor Germinal, vendo-se s, esfregou as mos por tal forma, que ter-se-ia jurado estar ali um batalho de maranos raspando cones de acar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, at que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precaues, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tbua, deixando a descoberto uma profunda escavao, meteu por ela o brao e exumou um volumoso rolo de papeis. Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de ndoas, tinham o selo do banco de Frana. Eram notas de mil francos. O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois, acamando-os num mao, contou-os ainda outra vez. Eram noventa e dois. O senhor Germinal no devia conservar dvida alguma sobre o seu numero e valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano. E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito restitudo ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em voz baixa: Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a minha Rosinha ser feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo. VII Voltou a primavera. Na da rua dos Mrtires havia um jardim, separado do ptio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vrios talhes, de modo que cada locatrio, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma pequenssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer. Andr Sauvain no participava dessa regalia. Mas, quando as folhas, ainda franzidas, comeavam a romper do seio dos rebentos, quando as aves ensaiavam j os seus gorjeios, e o ar amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de plido azul, o moo pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal. Havia quatro meses que, por uma srie no interrompida de milagres, Andr se tornara indispensvel ao misterioso velhote; contava-se com ele, agora, como com um gnio do lar. O pintor no se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplao daquela flor animada, que tambm ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manh estavam eles ss no seu paraso de doze ps quadrados; um raio de sol, escorregando beira do telhado, cujas ardsias coloria de azul, deixara-se cair nos laos que lhe armavam os ramos das rvores e as novas vergnteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se j o zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas durante a noite. Eu tambm, dizia Andr, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam copadas rvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em sonhos. Se l voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu invlucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a gua do tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: Bons dias, Andr! S bem vindo!... Pobre Andr! j no s a criana que ns encantvamos; j no tens as faces rosadas, a fronte lmpida, a franca alegria, a gargalhada espontnea de ento! Agora... s um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos teus brinquedos j se esqueceram do teu nome; o campons, que te trouxe s costas, passa e no te conhece. Mas ns, amigos humildes como somos, conhecemos-te ainda, Andr; deixaste entre ns a melhor parte das tuas recordaes, e irs encontra-las l em baixo, naquele banco carunchoso, onde tua me te embalava cantando. Rosa escutava-o comovida, entranando um ramo de pervincas. --Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doura; dir-se-ia que reflectem, como a gua lmpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da sua infncia. -- porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na minha alma h de sagrado, me sobe aos lbios e aos olhos. Ah! se a esperana transparece neles to claramente como as mgoas, dar-se- acaso que no descobrisse ainda?... No concluiu. Nunca tinha dito tanto! Rosa, sentindo bater o corao e com as faces em rubor, curvou a cabea e esperou. Mas Andr no teve nimo para continuar. O silencio apenas foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaava por cima dos dois jovens. --Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a ltima vez que o viu. O sorriso de Andr extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste. --Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por spera brisa, e quando transpus a porta, as rvores desfolhadas e as folhas em redemoinho, s me enviaram um gemido, que acolhi com lgrimas... Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e inquietas. --H doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu ento treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que beijei; continha apenas estas palavras: Estou muito doente, meu querido filho, e queria abraar-te. Um quarto de hora depois, partia eu... a p, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu po enquanto caminhava, matando a sede na gua lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as plpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha me... vi-a imvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Ca de joelhos no meio do quarto... sem gritos, sem lgrimas, sem ideias... Minha me estava morta! O pintor proferiu estas ltimas palavras com a voz entrecortada pela comoo. Rosa pousou-lhe timidamente a mo sobre o ombro. --Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta que a minha alma! Rosa deixara cair o ramo; os anis louros do seu cabelo escondiam-lhe os olhos. --Parece-se com sua me, Andr? --No, Rosa; pareo-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num naufrgio, e que eu no cheguei a conhecer... A pobre viva nada mais possua, neste mundo, alm do meu afecto: a sua existncia decorrera triste e solitria; ramos pobres; foram-lhe necessrios prodgios de dedicao para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolao... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha me morreu! Rosa estava de p, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma prola lquida cair-lhe sobre a fronte. --Como eu a teria amado! suspirou a jovem. Andr pegou-lhe nas mos, atraindo-a brandamente para si. --Minha me morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada preencheria o horrvel vcuo, que em mim causou a sua falta. Porm, Rosa, acredita-lo-?... A par dessa indelvel saudade insinuou-se, pouco a pouco, uma ternura no menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princpio, era apenas um grmen, um gro dourado que o acaso lanara no meu caminho, mas... o grmen cresceu, o gro desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canes, de murmrios e de perfumes!... Andr sentiu tremer, entre as suas, as mos de Rosa. Contudo... ela sorria atravs das lgrimas. --E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha me? Dir-lhe-ia: Rosinha, tambm te amo muito... a ti, que me terias amado! Amo-te, porque s boa, inocente e piedosa; porque o teu esprito encantador tem mil delicadezas; porque me substituste nos sonhos de meu filho; porque s a luz dos seus olhos, a flor da sua esperana, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peo-to eu! ama meu filho, que te ama tanto! Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cndido. --Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois no o sabia, Andr? Sauvain empalideceu, e estreitou nos braos a donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor. Neste momento ouviu-se aquele, j mui conhecido, som de raspador, e porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais ferrugento do que nunca. --Muito bem! disse ele em tom levemente irnico, ento quando o casamento? VIII Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar mas. --Senhor, balbuciou Andr, no pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que a primeira vez que... --Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que um parvo! interrompeu o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si, ameaando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada. Quem, ento, ficou de todo embatocado foi o pintor... Pois supe, continuou o senhor Germinal, que iria eu prprio meter o lobo no aprisco, se no tivesse... c o meu plano? --Ser possvel!... exclamou Sauvain --Tudo possvel, meu caro. E possvel que, fora de deitar o nariz fora da janela, esta criana reparasse em certo vizinho; possvel que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; possvel que, adivinhando ele o que de ordinrio atormenta uma rapariga de dezassete anos, a seguisse dita janela e aventurasse um olhar por cima do ombro da filha; possvel enfim, que, por entender que ao longe se v mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto. Andr lanara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mos apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lbios a alva mo da donzela. --Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita diante de seu pai aquelas palavras, que h pouco me iluminaram o corao! --Amo-o; Andr! disse ela ingenuamente e sem hesitar. --No se morre de alegria!... exclamou o enamorado moo. --E o senhor... meu bom amigo... meu pai... d-ma? --Ela ama-o, Andr! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas levante-se da, vizinho! h mais janelas e mais inquilinos, no prdio! Andr obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifcio, o corao tocava-lhe a rebate, e no crebro sentia ressoar uma banda regimental. --Escute-me, disse o velho. --Sou todo ouvidos!... --No se vive s de ar: no lhe parece? -- verdade, infelizmente!... --Bem. E que trar o senhor para a comunidade conjugal? Andr mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho. --Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverana e... a minha f no futuro. --Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levars em dote a teu marido? --A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convico. --Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possus exactamente o mesmo capital, que eu possua quando casei. --E foi feliz, afirmou Rosa. --Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladro, que se apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas gals que o esperam!... feliz, como o condenado morte, que afoga a razo numa orgia efmera, e que despertar no cadafalso!... No sabe, Andr, quanto custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem desejaramos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miservel vestido de chita!... sorrir foradamente para nos esconder as plpebras avermelhadas pela viglia!... definhar-se; a fogo lento, mingua de um pouco de suprfluo!... E tu ignoras tambm, minha pobre Rosa, o que ver entrar noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecnico, humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salrio irrisrio, em calcar aos ps a sua inteligncia e a sua dignidade!... Tu no sabes, repito, o que sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever prxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um bero, murmurando: Que ser desta criana, quando eu lhe faltar? Rosa e Andr achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que desafiavam a adversidade. --Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porm eu, que o sei por experincia prpria, jurei sobre o tmulo de minha mulher, morta de misria, vtima de privaes de toda a espcie!... que nunca daria minha filha a um homem pobre. Andr levantou-se, plido e com as feies transtornadas. --A no ser que ela tenha um dote razovel... concluiu o velho. Os dois jovens ficaram aterrados. --Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto. --Senhor! bradou Andr, trmulo de indignao, se o que diz um gracejo... bem cruel! Pap Germinal esfregou as mos, produzindo desta vez o rudo de um raspador colossal. --Senhor Sauvain, a quantos estamos do ms? --Oh!... o senhor est abusando... --Responda-me por favor: quantos so hoje? --No sei!... 8 de maio, creio eu. --Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha possui um dote. --Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrdula. --Isso pouco me importa, disse Andr, o essencial para mim... --Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, no consentiria eu que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos. Desta feita, o susto sufocou Rosa e Andr. Pareceu-lhes palpvel que o senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2]. Mas o velho, sempre srio, tirou convulsivamente do bolso um grande mao de notas de banco, folheou-o perante os olhares atnitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: Noventa e dois mil francos! Tome l, meu genro! IX Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mos do senhor Germinal, cuja misria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar suposies extravagantes: at Rosa se inquietou. --Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence? --Pertence-te a ti; pois que to dou. --E de onde lhe veio tanta riqueza? A fronte do velho enrugou-se; at aquele momento desenvolvera inslito desembarao, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais. --De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo? --Certamente!... --Das minhas economias. --Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessrio!... quando no era raro ignorarmos na vspera se jantaramos no dia seguinte! --Minha filha, bom sofrer no presente para assegurar o futuro. --Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de remdios e de dinheiro para os comprar! --Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido. --Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pde poupar perto de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado? --H muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crnio; os pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em notas do banco. --Para isso mesmo era necessrio recorrer ao cambista, e h doze anos que meu pai no pe os ps fora de casa! --Ests importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de palha, passou ao amarelo do enxofre; alm de que... h mais de doze anos que tive uma herana... --Agora diz que o herdou!... --Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou Andr secamente. --Ao que parece... --Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a me de Rosa morreu mngua do necessrio!... --Vo para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se- acaso que me tomem por um ladro? --Meu pai!... --Vizinho!... --Minha filha... Meu amigo... No querem o meu dinheiro, no assim? julgam-no de origem impura? Pois no o queiram. Reembolso-o, e... basta de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e no falemos mais em tal! --Senhor, exclamou Andr, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!... --Nada mais desejam?... Pois bem; verdade, com a breca! Tenho um motivo grave... gravssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil! O senhor Germinal estava extremamente agitado. --Porm, continuou Andr, como o consideramos um dos homens mais honrados deste mundo... --No carecemos saber mais nada, concluiu Rosa. --Ora... ainda bem! Graas a Deus! exclamou o velho, respirando mais livremente. E, enlaando Rosa nos seus braos, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e beijou-a na testa. --Criana m!... murmurou ele, ests com muita pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque no esperas cinco ou seis anos? --E quinze, porque no? resmoneou Andr. --Ns no te deixaremos, pap! O senhor Germinal abanou a cabea. -- o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste arganaz desengonado! --Obrigadssimo pelo elogio, disse o pintor. --E, a final de contas, se no casasses com ele... nem por isso adoecerias! --Perdo, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria! --Est bom! basta! interrompeu o velho assustado; j mo disseste... E foi mister essa ameaa, continuou ele entre dentes, para me resolver... No disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco atravs do usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de sbito: --Vamos! abracem-se diante de mim! O pintor no se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores. --E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza de minha filha no deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain. --Antes duplicar as minhas foras, lhe tornou Andr; quero ganhar um dote igual ao de Rosa, e... ganh-lo-hei! --Ento v para o seu _atelier_, e volte depois para jantar connosco. sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia! Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a soltar dos lbios, ouviu-se no ptio o rumor de uma violenta altercao. Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam calorosamente: --Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira. --A casa de um dos seus inquilinos, j lho disse, com mil demnios! respondeu um baixo profundo, de timbre metlico e pronncia meridional. --Qual inquilino? --De certo o menos tolo. --Isso no basta... Como se chama ele? --No sei. --Ora essa!... O senhor Germinal, ao ouvir o som de um rgo humano, mudara de semblante. --Quem est a? perguntou ele, quem esse homem?... que quer?... Vamo-nos embora, no digam que estou em casa! Os olhos rolavam-lhe assustados nas rbitas; os membros tremiam-lhe, os queixos batiam um no outro a seu pesar. --Mas, disse Rosa, no pode ser para ns, meu pai; no conhecemos pessoa alguma!... --Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho. --Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa. --Sempre esta doena nervosa! respondeu a jovem. A presena de um desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem , meu amigo... e sossegue-o. Andr subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas. --Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para c vem _barrado_, fregus! Safe-se quanto antes, quando no grito da guarda! --No faa tanta bulha, tiasinha, cale-se a!... Com mil amarras!... Por quem me toma, voc? --Por um velho larpio, que tratava de se encaixar c em casa! Ah, seu grande velhaco! julgava que o no viam, quando passou diante da minha loja? Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente de Andr, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo. --Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E, caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mo, gritando: --Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo encontrar! Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapu e cumprimentou-os com galantaria. --Desculpe-me, senhor; peo mil perdes, menina, se os interrompo na sua conversao... So apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo... --Perdo, senhor, disse Andr, estupefacto; a quem tenho a honra de falar? --Que diabo!... pois no me reconhece? --Confesso que no. --Ora olhe bem para mim, com a breca! Andr olhou. A sua verificao deu em resultado: uma cabea calva, um nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco srdido, umas botas acalcanhadas, e um chapu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos buliosos, brilhantes e cheios de malcia, despertou-lhe pouco a pouco a memoria... --Ento no se recorda? perguntou o recm-chegado. --Ora espere!... --Em 24 de Dezembro, noite... na vspera de Natal... --Ah!... sim!... --Defronte da vidraa... --De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou s suas ordens, meu bravo! Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita lhe no dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava lentamente as mos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro Toucard. -- um novo conhecimento, disse-lhe baixinho Andr, sorrindo-se; esta noite lhe contarei como o adquiri. E despediu-se do pai e da filha. --Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras! observou ele a Andr, seguindo-o; e o pai parece bom homem... X s vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem todos uma s cabea, para lha cortar de um golpe, Andr Sauvain desejara, nesse momento, que o gnero humano tivesse um s peito, para poder estreita-lo amigavelmente nos braos. Portanto, fez boa cara e bom acolhimento quele indigente desconhecido, cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasio. --Irra!... mancebo, disse-lhe o provenal enquanto atravessavam o ptio, pode gabar-se de me ter dado que fazer! H quatro meses que corro Seca e Meca por sua causa. --Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava? --Nem o nome, nem a morada... No momento em que lhe perguntava uma e outra coisa, zs! partiu como uma bala! --Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar... --Farsista!... A verdade que lhe desagradava o papel de meu credor, e queria tacitamente dar por saldada a minha dvida. --Ora... uma bagatela! --Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem noite; reconheci-o luz de um bico de gs, quando atravessava para a rua dos Mrtires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrs de si, mas as minhas pernas j no so setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na cara. No eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui! --Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no _atelier_. Pedro Toucard entrou, com o chapu banda, bamboleando-se e retorcendo com af uma das pontas da sua barba grisalha. Comeou reembolsando o pintor da mdica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior. Num volver de olhos, inventariou a moblia e permitiu-se fazer um trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vrios esboos; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas parede, e descobriu sucessivamente uma, duas, trs, quatro cabeas de mulher... sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros. --Bravo! exclamou ele. --Que temos? interrogou Andr descontente. --A virgem do jardim! Sim, senhor!... No digno de d, meu amigo... porque naturalmente correspondido! --Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimnia, estou com pressa; tenho um negcio urgente, e se lhe no sou j preciso... --No vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil bombardas! e por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Alm de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ningum se corrige nesta idade, com todos os diabos! --Tanto pior! observou-lhe Andr. --Pelo contrrio, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou habituado a eles, h sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los. Andr sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira. --Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele. --Para qu? --Ora essa!... para que me conhea bem. Embora por sorte mofina me veja reduzido a um ente miservel, velho e pobre, sou com tudo um patusco aproveitvel; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me prestou servios. falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola. --Pelo que toca minha felicidade, lhe tornou Andr, outra pessoa se encarregou dela. negcio concludo. Porm... no lhe agradeo menos a boa inteno, meu bravo! --Vejam l como so os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque vai desposar a sua bela das tranas doiradas! --Como o sabe? --Que grande mistrio! Qualquer caraba o teria adivinhado, s de os ver ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de memria!... Mas, meu caro... a felicidade no consiste s numa afeio, aguda ou crnica; a felicidade, no obstante o que tm dito os trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim! E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenrias haviam ornado com bambinelas de seu lavor. --Dar-se- acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus? perguntou Andr, rindo. --Presentemente no, respondeu o provenal, contemplando melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessrio... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de _trepar_, creia! a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre quadros. Andr contemplou com admirao aquele sexagenrio, falando do futuro, na idade em que geralmente s se pensa no repouso. --Nada o faz desanimar! disse o pintor. --E tenho boas razes para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na minha historia? --Venha ela! O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco. --Pode a gente fumar em sua casa? --De certo! Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca, escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mo uma das pontas da sua longa barba, e contou por mido o que ns vamos contar... por grosso. XI Pedro viera ao mundo sob a influncia de uma estrela buliosa, e trouxe a bossa da especulao. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de l saiu. Foi este que obrigou Pedro, ainda criana, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinio, o grmen de uma casa de comrcio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeou as suas operaes em mais larga escala. Dentro em pouco, o seu furor pelo negcio, a necessidade de agitao, o seu carcter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportvel. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indstria, pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabea recheada de projectos, de clculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de pees, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem. Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profisso. Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer gua vai. No tinha as pernas muito compridas, mas a ambio forneceu-lhe botas de sete lguas, e lanou-se a galope atrs da fortuna. Desde ento, a sua vida no foi mais do que uma carreira desenfreada. S sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar maiores extenses. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoo conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a p, a cavalo, em burro, em dromedrio, em piroga, em paquete, a nado, em diligncia, pela posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em pelias, em azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Gnova, expositor em Londres, mestre de dana em S. Petersburgo, caador em Arkansas, vendedor de pio em Canto, fotografo em Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsrio por toda a parte, exerceu cem profisses, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos. Dez vezes alcanou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recarem em zero... E sempre assim, durante meio sculo! O acaso, que tomara por bssola, brincava com este homem, como um colegial com uma pela, lanando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poo. Porm ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligncia. To ardente no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existncia faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro s mos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma cdea de po e de um cachimbo de tabaco, no se importando de servir de criado queles mesmos que recebera sua mesa. Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava s pelas comoes corrosivas da perda e do ganho. Entretanto fixara um limite sua futura riqueza, e dissera consigo: No irs alm! Queria dois milhes. Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incndio, uma falncia, uma revoluo, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, bano e pedras preciosas. Pelo caminho calculou os lucros provveis dessas mercadorias, e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua ltima tentativa. Eis seno quando, uma nuvem de salteadores rabes ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E Pedro, sempre filsofo, recomeara pacientemente a sua teia despedaada. Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitrias em derrotas, sentiu chegar os sessenta anos; e, como aventureiro j saciado de fadigas, opulento medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da ptria. Porm a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e aniquilara a carregao, arruinando Pedro pela dcima ou duodcima vez. Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tbua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delrio uma sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pde sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braos com um ttano, dirigiu-se para Paris. Foi l que Andr Sauvain o encontrou andrajoso e faminto. --E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara esta narrativa com crescente interesse. --Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu dinheiro, comprei fsforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moo de recados, escritor pblico, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me v, possuo j alguns centos de francos, que me produziro avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa. --Com que fundos? --Com os da minha inteligncia, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num ms teria ganho o qudruplo! --Ou ficaria sem nada... --Qual histria! s os tolos que se enterram, e eu tenho olho vivo... Aposto que ainda me ver milionrio! --Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audcia, j ter confiana em si! --Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante preferido da fortuna: abandona-me s vezes, mas volta sempre para junto de mim... As ideias vm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um co, uma tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu tenho confiana!... Assim falando, o provenal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho. --Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraos, leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara... este, por exemplo, e zs! uma ideia me... Interrompeu-se de sbito, e o seu olhar ficou fixo no pedao de papel, que lhe estava servindo para demonstrao... --Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre. --Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se tambm. O velho fez-se amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudrio, e por fim agarrou no pulso de Sauvain, e apertando-lho com fora, balbuciou: --Que numero o desta casa? --Oitenta e sete. --Rua dos Mrtires? --Sem dvida. --H c algum que se chame Germinal? --H, sem dvida!... respondeu Andr estupefacto. --Aonde mora? --Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava h pouco!... --Com mil raios! bradou Pedro. E, num salto de jaguar, atravessou o _atelier_, abriu a porta, correu para o ptio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado. Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar. -- o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro Toucard. O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta queima-roupa, respondeu apenas com o seu eterno raspadouro. --Sim senhor, disse Rosa. --Muito bem!... continuou o provenal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e sou... No teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os braos, e caiu pesadamente sobre o banco. --Meu pai!... exclamou Rosa assustada. --Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade. --Aconteceu... que tudo est desfeito, articulou o velho com voz estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois nunca sero um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe: --Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido pelo provenal, no menos agitado do que ele. Rosa e Andr entreolharam-se com terror: dir-se-ia que cara um raio ao p deles. Por um movimento espontneo, a jovem refugiou-se nos braos do seu amado Andr. --Separar-nos!... murmurou ela. --Quem o ousaria!... rugiu, o pintor. --Mas... que significa isto, meu Deus?! Andr, no auge da desesperao, meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido, deixou pender a cabea sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o pedao de papel, que ocasionara esta peripcia. Levantou-o. Era um pedao de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de anncios. O pintor leu o que se segue: Aos herdeiros ou parentes do senhor Onsimo Toucard, falecido em 8 de maio de 1872, roga-se com instncia, para seu interesse, que se dirijam a M. Germinal, rua dos Mrtires, n. 87. XII indispensvel agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns anos atrs. Em 1842, num esplndido domingo de primavera, o senhor Germinal, ento empregado numa repartio publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difcil de descrever. Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barmetro; atravs da espessa nvoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o cu; cem vezes perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboara na mesa, com a ponta da raspadeira, rvores, campanrios, carneiros e choupanas. Tantas distraces num empregado-modelo, atraioavam algum projecto, amorosamente acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no prximo domingo a Viroflay. Nesta poca, o senhor Germinal roava pelos seus quarenta e sete anos, e havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se mesma hora, na mesma cadeira, mesma secretria, com as mesmas mangas de lustrina, em frente dos mesmos indivduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e trs francos e trinta e trs cntimos. O senhor Germinal passava, e com razo, entre os seus chefes e colegas, por um homem de medocre inteligncia, mas trabalhador assduo, de inteira probidade e inflexvel honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tbua de Pitgoras. Quando noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos inteiriados de segurar a pena, e o esprito baralhado de algarismos, no pensava sequer em meter-se nas questes sublimes da politica, religio, moral ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada tm que fazer. Limitavam-se os seus esforos de imaginao saudade de sua falecida mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia seguinte; depois, o sono envolvia-o nas suas pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a conscincia, o agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente. Aquela existncia de ostra pegada ao rochedo, far compreender o extraordinrio alvoroo, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma digresso, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer prximo de beijar sua filha, que tinha ento cinco anos, e de apreciar, por intuio prpria, os progressos que ela fizera em sade, estatura e vigor, durante os dezoito meses, em que deixara de a ver. O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Pscoa, para desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e tmida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao sopro gelado da misria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas feies, e a quem o empregado ps o nome de Rosa, em memoria dela. A criana era dbil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moa e robusta, que levou a pequerrucha banhada das lgrimas de seu pai, e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com efeito, cumpriu to bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deix-la mais tempo em casa da ama, e mesmo v-la s de longe em longe, porque a despesa das viagens abria sensvel brecha no seu modesto oramento. Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia ligeiro como um pssaro. Entreabria-lhe os lbios, cor de ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa poca...) e o rudo de raspador, produzido pelo esfregar das suas mos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem; ele porm acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordes de ferro, acusava-o de lentido, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraa, se afastava dele. Entretanto ia depressa! e to depressa, que nenhum dos viajantes se recordava de semelhante celeridade. As rvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a estrada, fugiam arrebatados num turbilho infernal... Apareciam e desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confuso extraordinria... um vertiginoso turbilho... uma miragem louca, anloga que reflectiria uma onda violentamente agitada... Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror; entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mos uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor. E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo... Houve um momento solene, um momento longo como um sculo, um momento durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as conscincias, e pensou nos entes queridos que o prendiam vida... Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842. Como escapou o senhor Germinal quele desastre? Ele mesmo nunca pde recordar-se. mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria atravs dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o esprito, o seu primeiro acto foi voltar atrs e auxiliar os socorros, que de todos os lados acorriam. Passou-se ento um facto, que deixou na sua vida indelvel impresso. Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe dos braos, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras: --Guarde: um depsito... que lhe confio... Entregue-o pela sua prpria mo a... Eu chamo-me... Fez um esforo supremo para concluir, mas no pde; caiu morto no _wagon_, que comeava a ser invadido pelo fogo. XIII No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Intil acrescentar que foi de carruagem. Quando se reinstalou na sua habitao, a senhora Possignol recusava-se a reconhec-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu semblante parecia uma plancie devastada por um ciclone; para o corpo fez involuntria aquisio de um tremor nervoso; e para o esprito, a de dois cuidados graves: o depsito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera consigo, no querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a morte to de perto. A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imvel ante um objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo. Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no couro, em letras outrora douradas, o nome de Onsimo Toucard. Continha noventa e dois mil francos. Perante aquele mao de papeis, que representavam mais de sessenta anos do seu ordenado, o digno burocrata por pouco no perdeu os sentidos; eriaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um mvel, com o qual barricou a porta. Depois, prosseguiu nas suas investigaes com ardor febril. No levaram essas muito tempo: a carteira no continha papel algum, que pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, s forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e vrias despesas, escritas com m caligrafia, umas a lpis, outras a tinta. O vivo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a final, exausto por to diversas comoes, arrecadou a carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se. Se o sono no chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chamin, insinuavam-se ladres, que esquadrinhavam na gaveta com deplorvel afinco. O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em p, descalo, imvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a si prprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro. Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tbua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso. Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demisso da secretaria, e fazer valer os seus direitos aposentao. secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! S cuidava em desencantar a famlia Toucard, e desembaraar-se de uma aterradora responsabilidade, em proveito dela. Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais prximo comissariado de polcia, mas o senhor Germinal no era do feitio de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto contrado, sentia aquela mo fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante a dizer-lhe: --Entregue-o pela sua prpria mo a... Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem fosse: Onsimo dissera Pela sua prpria mo... e isso era o bastante para o senhor Germinal no se arredar um passo da vontade expressa do moribundo. Ps mos obra sem tardana. Durante muitos meses, viram-no sair quotidianamente ao romper de alva, para s voltar depois de noite, estafado, modo e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_, gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polcia, por pouco no pegou de estaca em cada uma das legaes estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subrbios, revolveu cu e terra, e contudo no descobriu em parte alguma vestgios da passagem ou da morada de Onsimo Toucard. Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco aboloreciam no buraco, merc dos ladres ou do incndio; e a pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir mscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas no podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois trs... depois vinte... medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frentico, mais nervoso, mais pusilnime. Os noventa e dois mil francos invadiram-lhe o crebro, submergindo todos os seus pensamentos. Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as faculdades morais a ponto de no ousar mais afastar-se de casa, e disps as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntrio. Primeiramente, matriculou Rosa em um colgio prximo, com a condio expressa de a virem buscar todas as manhs, e traz-la de tarde. Depois, contratou com uma agncia de anncios para que, at nova ordem, o seu reclame fosse publicado duas vezes por ms. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de sentinela. Ningum o rendeu do seu posto; e a adquiriu, pouco a pouco, uma doena singular. Ou fosse porque aquela perptua expectativa, sempre alerta e sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposies latentes, comeou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mos, trmulas de voluptuosidade, no mao das noventa e duas notas de banco, a amarrot-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio _fru-fru_... E ento, envergonhado de si mesmo, afastava-se de sbito, fazendo votos sinceros pela apario de um Toucard qualquer. Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colgio j a enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domiclio paterno, a sua fisionomia, fresca e lou, iluminou-se como uma aurora boreal... Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solido, e a loucura no tardaria. Contudo, a influncia daquela criana adorada no tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direco s suas inquietaes. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que as mulheres fazem, essa a nica que geralmente costumam cumprir. O vivo admirava nela as feies queridas da sua defunta; tinha a mesma graa, a mesma afectuosa alegria, a mesma expresso no olhar, mas tambm a mesma dbil constituio. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupaes, as suas mos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava. fora de temer para ela a misria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe o impossvel... isto , _dinheiro_. Os seus vagos, instintos de cobia pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistncia desde que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de Onsimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo: --Se o no reclamassem!... Esta ideia, uma vez encaixada no crebro do senhor Germinal, alastrou-se como uma ndoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil francos: ar, sol, espao, prazeres e sade... tudo simultaneamente lhe passou pela imaginao fascinada. Em vo se desculpava para com a sua conscincia, murmurando: -- uma simples hiptese!... A hiptese era j uma esperana, que fizera mudar de causa a sua impacincia e agitao; tanto estremecera de jbilo, quanto estremecia agora de receio, vista de um estranho; cessara de publicar anncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de menos a evitar. Trs anos decorreram ainda, e foram terrveis! A penso do senhor Germinal, at ento suficiente para um velho e uma criana, no o era j para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educao de Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braos com a febre ou com a fome, sentindo atravs do tabique sua filha a chorar, tivera horripilantes tentaes, relativas a esse dinheiro, que dormia intil ao alcance da sua mo. Contudo no tirou dele a mnima parcela, nem sequer trocou uma nota. Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero at ao superlativo, chegou, de concesso em concesso, a formar o seguinte raciocnio: Fiz tudo quanto era humanamente possvel para descobrir os herdeiros de Onsimo: o meu dever est cumprido. Restituir esta soma ao estado, que no carece dela, seria um absurdo. Acaso no quereria a Providencia compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles. Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos cios e distraces, de que at ento fora privada a sua mocidade. Mas, logo que pegou nas notas com a inteno formal de se apossar delas, empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo. No de urgncia, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... uma criana nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de bem-estar nossa pobre casa. A verdade que no nos falta o po! Esperemos mais dois anos... Doze anos um prazo razovel... Todavia, provvel que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre pelos mesmos escrpulos, se Rosa lhe no houvesse confessado o seu amor por Andr Sauvain. Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitaes. Convenceu-se de que existia uma sria paixo, de parte a parte; estudou o pintor, afeioou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu conceder-lhe a mo de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que expirasse o dcimo segundo ano do depsito. Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a conscincia oprimida e o esprito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens. Vimos j como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro Desmancha-prazeres. XIV Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se. Ambos estavam plidos, comovidos e agitados. Os olhos do provenal luziam como carbnculos; torcia a barba a ponto de quase lhe arrancar os cabelos. --Como amos dizendo, comeou ele, os parentes ou herdeiros de Onsimo Toucard foram rogados, com instncia, para, a bem de seus interesses, se dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mo existem alguns fundos, os quais devem pertencer queles, no assim? O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda negar o depsito, e desembaraar-se de Toucard, mentindo; mas... no se honrado impunemente! --Sim, senhor, respondeu com voz sumida. Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e aproximou a cadeira. --Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos. -- ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiana. --Em que grau era parente de Onsimo Toucard? Uma vermelhido, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provenal; abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo, aps alguns segundos de reflexo, recobrou o seu habitual desembarao e respondeu: --Em grau muito prximo; sou seu irmo, e o nico representante da famlia, hoje extinta. --Ento... porque no deu sinal de existncia durante doze anos? --A razo simples. H doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim, ignorava a morte do meu pobre Onsimo, e s esta manh a soube. --De que modo? --Por um dos seus anncios. --H cinco anos que os no publico!... -- possvel que o pedao de jornal, em que o encontrei, datasse dessa poca... Mas no percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herana? --No calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal. --Aproximadamente... talvez. Meu irmo era scio da minha casa comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidmos, partilhando os lucros, que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onsimo morreu em 8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras... --Foi em Paris que se efectuou a partilha? --No, em Liverpool. --Nesse caso, quando seu irmo faleceu estava em Frana, havia quatro ou cinco dias apenas? --Um ou dois, se tanto. --E o senhor? --Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcut, sem pressentir que nesse mesmo dia Onsimo esticava a canela em Versailles. --Como sabe que foi em Versailles que ele morreu? --Presumo-o; ele tinha teno de l fixar a sua residncia... O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitao. --Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que possuo, mas desculpar-me- se exijo provas mais palpveis da sua identidade... --Ora essa! disse o provenal; muito justo. Felizmente trago sempre comigo os meus papeis, visto no ter domicilio certo, nem fechadura segura... E dizendo isto, a mo do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e reapareceu superfcie, carregada com uma carteira grande e sebenta. Logo que para ela lanou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente convencido. Aquela carteira era irm gmea de outra, que por tanto tempo namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimenses, e os mesmos caracteres, outrora dourados, indicando o nome do seu proprietrio: Pedro Toucard. --Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certido de baptismo, disse o provenal; eis aqui, tambm, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de Onsimo... Conhece-lhe a letra? --Conheo, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas. Eram curtas; tratavam unicamente de negcios e tinham a assinatura de Onsimo Toucard. Ambas as cartas comeavam por estas palavras: Meu querido irmo... O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. No podia conservar a sombra de uma dvida. --Senhor, disse ele ao provenal, cujos olhares impacientes revistavam todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herana, reconheo-o por irmo e herdeiro de Onsimo Toucard. S me resta... --Entregar-me a herana, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois... meu bravo! --Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraada seu irmo pereceu. Ora!... ora!... ora!... intil. No percamos tempo precioso! --Entretanto... --Que morresse de bexigas, ou tsico, pouco importa. O positivo que morreu; agora vamos s contas... --Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porqu, ele me confiou as suas ltimas vontades. --Pois sim, diga l! Mas seja conciso, com mil bombardas! O senhor Germinal foi to conciso, quanto parecia desej-lo o seu interlocutor. --Pobre Onsimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande traste! Porm, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma orao fnebre to pouco fraternal, apressou-se a acrescentar: --Que quer! Nas famlias numerosas, raro deixar de haver... h sempre algum tratante... Mas tratemos agora... --Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto. E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e dep-las sobre a mesa, uma por uma. A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais. --Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, brio de alegria. Viva a Frana! e vamos Bolsa! Com a breca! faro bem em ter cuidado comigo, l na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, no possuir dois milhes, consinto em que me enforquem! O senhor Germinal ficou impassvel e pensativo ante aquela exuberncia de jbilo. Para ele estava consumado o sacrifcio... Pedro bateu-lhe no ombro. --No lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma recompensa... O senhor Germinal abanou a cabea. --Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital devem ter produzido uma continha menos m... --Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes valores so os prprios que recebi em depsito; no saram de minha casa! --Farsista! Ento no os empregou em aces, em rendas, em obrigaes, em terras, ou em inscries sobre hipoteca?... em suma, no os fez render de alguma forma? --No, senhor. --E guardou-os doze anos, assim... num buraco? --Certamente!... --Ignorava ento, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze anos? --No o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de outrem? --Magano!... disse Pedro, sorrindo com ar incrdulo. --Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignao, esquece que, se acaso eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda. --Isso verdade... respondeu Toucard. E, olhando em torno de si, acrescentou: --E com efeito, este quarto no dos mais luxuosos... Decididamente, a virtude uma bela coisa! E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou: --Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar... O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro. --O que ? perguntou este ltimo. -- a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anncios, aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta cntimos. --Com mil amarras!... Ora v passear, mais as suas contas de boticrio! exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o mao, tire o que quiser. O senhor Germinal endireitou-se com altivez. --No aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele. Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza. Cansado de lutar, o provenal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para fora, e esboar nova especulao. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mos do velho, disse-lhe: --Meu bom amigo, eu sou espertalho, e conhecedor de fisionomias. Gosto de ler na sua, posto no seja das mais belas... O senhor teimoso como um burro, mas o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto no ficar assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus. Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapu na cabea, enfiou as notas nos bolsos das suas calas esfarrapadas, e, radiante, com os olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu a escada cantarolando. O senhor Germinal seguiu-o, um pouco plido ainda, mas desta vez tranquilo... e quase alegre tambm! Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera. XV tnue sombra do microscpico jardim, atravs das moitas de lilses, distinguiam-se dois rostos juvenis, que no tinham vontade de rir. Rosa e Andr, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da tempestade. Lendo o anncio, tinham quase atinado com a verdade, e as ltimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos. Entretanto, no bastavam palavras para desarreigar as firmes razes da esperana, e Rosa encostando a loura cabea no ombro do seu prometido, tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva varonil repetir:--Amemo-nos, apesar de tudo! Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provenal, envolveu o lindo par num olhar terno e contristado. --Olhe, disse Pedro parando; ali est o que nos rejuvenesce trinta anos, meu amigo!... O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforando-se por mostrar-se severo, bradou: --Rosa! --Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo. --V j para casa. Ela ergueu-se com tmida lentido e, oferecendo a fronte aos lbios de seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de splicas e de amargura. --Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de falar com Andr. Rosa afastou-se sem voltar a cabea. No queria que lhe vissem as lgrimas. --E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain... Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se tivesse pisado uma serpente; decomps-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor Germinal pela gola do casaco: --Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento. --O do senhor Sauvain. --E quem que se chama assim? --Este mancebo. O provenal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de Andr, que mediu com olhar inflamado. --Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain? --Certamente!... --Nasceu perto de Granville? -- exacto. --E seu pai era marinheiro? --Era. --A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulao... h vinte anos? --Sim, mas porque acaso?... --Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard, tornando-se carmesim. E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o chapu. --E sua me? continuou ele ofegante. --Minha me... --No receberia ela?... --O qu? --Quero dizer... sua me... Onde est sua me, senhor? --Minha me morreu. Conheceu-a, porventura? --Eu! exclamou o provenal, nunca a vi. --Entretanto... --No, j lho disse; nunca a vi na minha vida! --Ento teve relaes com meu pai? Toucard no respondeu. A sua agitao atingiu propores assustadoras. --No! no! mil vezes no! balbuciou ele, tropeando no chapu sem reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde no digo que... mas presentemente... Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com gua, destinada provavelmente rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crnio calvo, que ficou vermelho e fumegante. Depois de refrescado pela imerso, sacudiu-se como um co molhado, e sentou-se num banco para tomar alento. O senhor Germinal e Andr observavam-no com crescente estupefaco. --Que isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim? Que disse eu, que tanto os espante? --Nada disse por ora, respondeu Andr, mas peo-lhe que me explique... --A explicao ser curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que morrera num naufrgio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou propenso apoplexia... a menor comoo faz-me subir o sangue cabea! Mas no faam caso... j passou. O provenal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra coisa. As suas feies expressivas revelavam a maior irresoluo. Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte. Andr Sauvain no se contentou com to sucinto esclarecimento. --Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a trs passos daqui, quero dar-lhe duas palavras. O pintor seguiu-o, assaz intrigado. --Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que no contava. O senhor vai pr casa... Se duas ou trs notas de mil francos... ou mesmo quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser teis nesta ocasio, no faa cerimonia... Hei-los! E Pedro folheava com mo trmula o mao das notas. Andr corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia. --A que ttulo me faz esse oferecimento? perguntou ele. --A ttulo de amigo. --Vimos-nos apenas duas vezes!... --A ttulo... de antigo amigo de seu pai. --Conhecia-o de leve, segundo disse. --Ento... a ttulo de gratido. Fez-me um favor, quando eu precisava... a minha vez agora. Que diabo!... --Agradeo-lhe a inteno, mas recuso. --Porqu? --Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para aceitar qualquer emprstimo, no sabendo quando poderei pag-lo. --Ora? que importa isso?... --Importa-me muitssimo! --Com mil bombas! que esquisitices! e que demnio de casa esta, onde se recusa aceitar o que tantos outros... Um relgio da vizinhana vibrou no espao. --Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te sobre um terreno movedio... Prova a essa scia de imbecis que lhe s superior no artigo _inteligncia_. --Um momento, senhor, disse Andr; rogo-lhe que me explique... --Coisa nenhuma, neste momento!... --Aonde vai a correr? Pedro apanhou do cho o chapu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto majestoso, e partiu exclamando: --A casa do meu banqueiro! E desapareceu. XVI -- fora de dvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relaes com a minha famlia. Mas, porque far mistrio disso? , na verdade, um homem surpreendente! Que impacincia, que febre de agiotagem! Veja como corre!... um furaco! --Sim... um furaco, murmurou Germinal, passando amigavelmente o brao pelo de Sauvain, um furaco que derrubou os nossos _castelos no ar_! Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. Andr obedeceu, cerrando os punhos de raiva. Adivinhava o fim da conferncia, que iam ter, e, j ardendo em indignao, revestia-se de uma trplice couraa para entrar na luta. Pela sua parte, o senhor Germinal tambm no se sentia em leito de rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mos, piscou os seus olhos de peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis vezes, com intervalos. Dava-lhe em cheio a luz no crnio, cor de ferrugem, e essa circunstncia fez notar a Andr, no sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, tinha bem caracterstica a bossa da teima invencvel. O senhor Germinal comeou pela narrao do seu triste encontro com Onsimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas ms tentaes reprimidas, as suas esperanas, os seus receios e os seus desalentos. Quando acabou, Andr disse-lhe friamente: --Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua conscincia ficou em repouso; est tudo o melhor possvel. Porm devia ter a certeza de que ns, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaramos sem hesitao ao seu legtimo proprietrio. --No tenho a menor dvida, retrucou o senhor Germinal; sei que um mancebo digno. Quanto melhor o conheo, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe meu filho... Andr tornou-se plido, mas fingiu no ter ouvido aquele condicional. --Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversmos um pouco sobre coisas mais importantes; voltemos ao que esta manh se combinou... --Que foi o que se combinou? disse o vivo, corando. --Que hoje mesmo se fixaria a poca do meu casamento com Rosa. O senhor Germinal levantou-se bruscamente. --No me entendeu, pelo que vejo? --Peo perdo: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depsito, e que o restituiu. Mas, que tem de comum uma aco to simples com o facto, muito mais importante, de que depender o nosso futuro? --No h surdos piores do que os que no querem ouvir! replicou asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha filha... --No, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam reclamar. Para quando prefixa a bno nupcial? --Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela obstinao sistemtica. Como ousa o senhor pretender associar sua a sorte de Rosa? Onde esto os seus meios de subsistncia? H-de ela viver neste cacifo? Viro os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dvidas, os cuidados, a doena... a morte! --Nego-o energicamente! retorquiu Andr, no menos furioso. Mas, embora o senhor tivesse carradas de razo, era tarde para desdizer-se. Se este consorcio lhe desagradava, para que veio, h quatro meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado? --Rosa assim o exigia... Rosa amava-o... --E pensa que deixar de amar-me por lho ordenar? --Ignoro-o, mas no casar consigo. --Ora, senhor!... se o casamento fosse s permitido s pessoas ricas, extinguir-se-ia o sol. --Pois que se extinga. No casar com minha filha; escusado pensar mais nisso. --No pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se aniquila vontade, como a chama de uma vela! Rosa o sangue das minhas artrias, a seiva da minha mocidade, o paraso da minha alma, a primavera do meu corao!... Pea-me que viva sem respirar, mas no ouse pedir-me que esquea Rosa! --Peo-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em v-la miservel! A imagem de sua me... tenho-a sempre diante dos olhos! No casar com minha filha! --Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundncia e do luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela no encerrava no peito o grmen de uma doena mortal? E com que direito aquilata pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, acorrentado a um trabalho estpido, e cujo nfimo salrio nunca aumenta, embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moo, corajoso, inteligente e forte? --No ponho em dvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, quando os resultados forem apreciveis, j Rosa ter os cabelos brancos. No possuir minha filha, senhor Sauvain. --Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o! --No gracejemos, peo-lho!... Oua, senhor Andr: vim falar-lhe, movido por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. D-me a sua palavra de honra de que no tentar ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar iluses inteis. Com essa condio... --Nunca! --Nesse caso, esto quebradas as nossas relaes. -- a sua terminante deciso? --. --Basta. Graas a Deus h leis em Frana; no se coage ningum. Rosa e eu esperaremos... --A minha morte? --No, senhor; a maioridade de sua filha. --Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, at ento, desculpar que eu lhe feche a minha porta, e ter a bondade de renunciar conversao de minha filha. --Engana-se! v-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo contra sua vontade! --Tomarei as medidas necessrias para obstar a essas loucuras. E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaador, saiu do _atelier_. Apenas transps o liminar, Andr correu atrs dele. Arrependia-se da sua arrogncia. Queria lanar-se-lhe aos ps e enternec-lo fora de splicas; mas, quando ia a alcan-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. Andr voltou desanimado; ao desnimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos extremos, as resolues insensatas, e at uns vagos desejos de lanar fogo ao edifcio, precipitar-se atravs das runas fumegantes, estreitar Rosa nos braos e fugir com ela... fosse para onde fosse!... Andr Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre na jaula. Perto da noite, no podendo conter-se, trepou quatro a quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou campainha, primeiro timidamente, depois com mais fora. Nenhuma resposta. Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o patamar com as suas imprecaes. Mas ningum apareceu, a no ser um vizinho desagradvel, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia. Depois disto, Andr desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do canap, estorcendo-se e invocando Rosa. Aps muitas horas deste exerccio incoerente, um colosso ficaria prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia no surgira ainda. Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes angustiosos, o chamava por entre soluos. Correu porta, e, com os cabelos eriados e o ouvido escuta, olhou para fora. J nascera o sol; tnue claridade se coava a custo atravs das nuvens escuras; a chuva caa vertical e em grossas gotas, marulhando no ptio pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente fechadas, no deixavam filtrar o mnimo raio de luz. O frio da manh atenuou a sobre-excitao febril de Andr; tornou a deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ningum j sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que ele aproveitaria essas ocasies, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexes, adormeceu sossegadamente, e to deveras, que a senhora Poussignol, na sua habitual visita matutina, no logrou despert-lo inteiramente. --E esta! Tal foi a exclamao, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os olhos e contemplou a porteira, que estava de p, em frente dele, com o bigode eriado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de ourelo, como um pato nos seus ps espalmados. --Ento, disse ela, no o tinha eu prevenido!... --De qu? --De que fazia muito mal em frequentar aquela gente... --Que gente? --A famlia Germinal. Andr sentou-se de sbito no canap. --Faa favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos. --No lhes falto ao respeito, mas isso no impede que eu volte minha primeira opinio, de que aquele homem um antigo criminoso. --Ainda a mesma tolice! --Tolice!... A prova que fugiu, e a polcia vai-lhe no encalo. --Do senhor Germinal?... Voc endoideceu! --Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu... --O que foi? Vamos, explique-se! bradou Andr com impacincia. --Esta manha, s quatro horas, ainda no era dia claro, bateram nos vidros do meu quarto. Quem ? perguntei eu.--Sou eu, Germinal, responderam. Era j caso para admirar!... pois no era? Um homem que, durante doze anos, no deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo de um brao e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o ms por inteiro, pespega-me dez francos na mo (primeiro dinheiro dele, a que vejo a cor--sempre bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e no sabe quando voltar; mas que me no inquiete eu pelos mveis, porque brevemente os mandar buscar. Ento, a menina Rosa, que continuava a chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porm o pai levou-a de repelo. Puxei a corda e... boas noites! Andr parecia uma esttua. --Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; impossvel! --A prova que tenho aqui a chave da casa. O pintor arrancou a chave das mos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho. O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama no fora desfeita. Andr, lvido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a ausente, encostou-se parede, inclinou a cabea sobre o peito e perdeu os sentidos. XVII Durante quinze dias, Andr Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um co que perdera seu dono. Quem visse aquele gigantesco moo, com a fisionomia espantada, os cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vesturio em desalinho, correr como um doido atrs de qualquer transeunte, mir-lo em face, e logo voltar-lhe as costas para correr atrs de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bictre. Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente os mveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as mos a essa suposta tbua de salvao! Interrogou, suplicou, afagou, ameaou, e maou de mil maneiras o infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residncia do fugitivo, ou ao menos algum indcio, que o guiasse na busca de Rosa. Todavia, a vtima no lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a moblia do senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vsperas de empreender uma longa viagem. Podiam cortar o ebanista em mil pedaos, ou oferecer-lhe os tesouros de Golconda, que ele no saberia dizer mais nada. Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ningum ops dificuldades remoo dos moveis. Andr seguiu-os com os olhos at esquina da rua; levavam-lhe a ltima esperana. Depois recomeou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem se no paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltao originou uma febre cerebral, e o pobre Andr desceu rapidamente o declive que conduz ao cemitrio. Felizmente, sua me moldara-o em bronze: a doena apenas o apalpou de leve, e, no obstante a senhora Poussignol ter chamado dois mdicos, o pintor escapou. O seu fsico restabeleceu-se custa do moral: Andr, sempre profundamente melanclico, atirou-se ao trabalho como quem se atira a um poo. Este gnero de suicdio no era dos menos eficazes: Andr prosseguia nele com uma pertincia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem construdo do que ele, no duraria trs semanas com semelhante af. Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do esprito. E a arte ganhou com isso: a pintura de Andr ressentiu-se das tribulaes da sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fria de concepo, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que no teriam de certo brotado das plcidas inspiraes de um esprito tranquilo. O homem feliz j no existia: revelou-se o artista. Enfim, o acaso tambm entrou em cena. Como Andr, a tudo indiferente, no corria atrs do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o dinheiro correram atrs dele. Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, que at ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preos fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodgio!... e aumentou-os de seu moto prprio. Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava j na opinio de alguns ricos amadores, e que, se Andr quisesse, o oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade. O pintor encolheu os ombros, pagou as dvidas que contrara durante a doena, e voltou sua lida obstinada. O vero acabou lentamente. A julgar pelo nmero de encomendas, os crditos de Andr no diminuam; apenas concludo um dos seus quadros, era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o annimo. Noutro tempo, aquela veia de bom xito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e repetia a si mesmo: De que me serve isto? Contudo, a abastana substitura a pobreza; nada impedia Andr de trocar o seu escuro cubculo da rua dos Mrtires por um _atelier_ mais cmodo e decente; todavia no o quis deixar. Invisveis cadeias o ligavam ali. Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a primeira confisso do seu amor?... daquele banco, onde se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas to venturosas?... Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na fadiga. Porm, quando veio o outono, quando as rvores, que vira frondosas e virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... ento abandonou-o a coragem: sua fictcia actividade seguiu-se uma indolncia invencvel; como o trabalho o no matara, amaldioou o trabalho e aborreceu-o; plido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem foras, nem energia, passou os seus dias, inteis, ruminando a prpria dor. Como as folhas caam das rvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas quimeras. Crenas de gloria e crenas de amor... todas iam pelo mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto. Era a estao cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus ltimos adeuses, em que o cu se vela num crepe cor de opala, bruma transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estao temerosa, em que o enfermo melanclico pressente o seu prximo fim, e busca um seio amigo, onde reclinar a fronte. E Andr, pressentindo tambm o inverno para a sua alma, buscava ao redor de si um conforto, uma dedicao, uma simpatia... Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente ou no futuro, nenhuma ligao, nenhuma alegria, nenhuma esperana! Em tudo o deserto, em tudo o vcuo, em tudo o desalento!... Ento, prostrado de corpo e desfalecido de esprito, com o peito entumecido de lgrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criana em aflio. Bem como a prola, lanada nas ondas, volta superfcie, assim uma palavra de h muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lbios: Minha me! Oh, maternidade! afeio purssima e inexcedvel, consolao sobre-humana, nico amor desinteressado, nico apoio... que resiste quando todos os outros se nos despedaaram nas mos, e ainda quando os mais indelveis sentimentos se esvaram em fumo! Maternidade! santa encarnao do sacrifcio! O homem s te aprecia quando te perde! Oh! se sua me vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria derramado naquele corao o blsamo da sua ternura! Como o embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mes tiram do vocabulrio dos anjos!... Ai dele! sua me era morta! quela recordao pura, tanto tempo abandonada por amor de uma ingrata, Andr corou de remorsos. Lembrou-se do tempo, em que o seu mximo desejo fora cobrir com uma campa as cinzas da viva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as runas da casinha onde vivera com ela. O oiro necessrio possua-o agora. Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta esperava. --Coragem! exclamou Andr. A caminho!... E, numa linda manh de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfao em pensar que ia morrer no tugrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a p, como no tempo em que era to alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua me no tinha rival no corao do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de entre as rvores do caminho. Agora no acontecia o mesmo: a seu pesar, uma outra imagem substitua a primeira. Queria chorar pela santa guarda da sua infncia, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde concentrava o pensamento no termo da sua peregrinao; a cada passo voltava insensivelmente a cabea para trs. Em vo evocava o semblante frio e macilento da morta; a memoria s lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e cabelos louros... Assim caminhou Andr por muitos dias, descansando nas estalagens dos almocreves, bebendo na palma da mo, dormindo no meio dos campos matizados de amarelo e prpura. Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo abenoado, que vai da ceifa vindima. Somente, quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando. Enfim, uma tarde, hora do crepsculo, Andr atravessou a ltima aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados soleira das suas portas, as velhas fiando na roca, as crianas semi-nuas, as frescas mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, to plido e com os ps embranquecidos da poeira. Uma hora depois, Andr avistava o seu casebre. XVIII L estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da Costa no o derrubara de todo. Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do cu, com o seu tecto de verde musgo, e as rvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa spera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados. Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouava-se pacfico, com o seu montono e solene murmrio: da superfcie das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudrio. Andr parou, possudo de religiosa comoo; abriu a porta carunchosa e entrou em casa. Um odor indefinvel se exalava daquele recinto, onde ningum penetrara depois da morte de sua me. luz indecisa do dia, que acabava, Andr pde distinguir o grande leito de colunas, com os seus cortinados de ramagens e flores fantsticas, a arca de nogueira, o crucifixo com palmas bentas, os escabelos macios, e as redes da pesca, herana de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapearia por acabar. Parecia que a obreira sara de casa... momentos antes. Andr beijou aquele pedao de estofo, que as mos de sua me tinham bordado. Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chamin. E a, mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na lareira vazia, transportou-se em esprito ao sombrio passado. O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor estalido do vigamento, Andr comprazia-se em fantasiar que sua me estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lbios... Entregue completamente s suas recordaes, dizia de si para consigo, que, se Deus recompensa o martrio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro mundo. O pintor no confessara tudo a Rosa. Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietrios dos arredores, a me de Andr preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuam, e afinal desapareceu, abandonando misria a esposa e o filho recm-nascido. Trs anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulao. Bela e virtuosa, fcil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Alm disso, no obstante as brutalidades de Sauvain, no cessara de ama-lo. Dedicou sua memoria um culto, alis pouco merecido, e conservou-se viva. Ento comeou para ela uma vida herica, toda de sacrifcios e abnegao. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educao conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim... Mas Andr iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietao incompreensvel, tinha sede de movimento e de espao; comeavam a nascer as suas asas de artista... No tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua inteligncia precoce, props-lhe lev-lo consigo. Andr bateu as palmas de alegria; e a viva, engolindo as lgrimas, deixou-o ir. Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: Andr veio logo, mas chegou s a tempo de assistir-lhe ao enterro. Aquela sbita doena, aquela morte inesperada, fulminaram a criana de surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua me, mas apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viva um grito estridente, acudiram e encontraram-na plida e trmula, com o rosto desfigurado, segurando-se a um mvel para no cair no cho. Por um prodgio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. No podia duvidar-se de que, mais uma desgraa pousara a sua mo de ferro sobre aquela humilde existncia... Que desgraa fora, nunca o soube Andr. Quantas vezes, desde ento, torturara ele o esprito para penetrar o sinistro enigma? Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstrua, na sua imaginao ardente, mil hipteses contraditrias; e as rajadas impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como gargalhadas de escrnio, mofando de suas loucas conjecturas... Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se glacial humidade. Andr, transido de frio, ergueu-se enfim s apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contgua, e a ajuntou algumas achas, que disps na lareira. Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa no era fcil. Um monto de cinzas, extintas havia doze anos, obstrua a chamin. O pintor quis desvia-las; porm, ao enterrar a p, tocou num objecto duro, resistente, metlico, que no pde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro da blusa. Era uma chave ferrugenta, de mui exgua dimenso e de forma particular. Evidentemente s podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensvel de mulher. Andr olhou em volta de si, mas no descobriu nenhum utenslio daquele gnero. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que comeou a crepitar. O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave intrigava-o; no sei que vaga intuio lhe segredava ao ouvido que, entre aquela chave e o mistrio que procurava desvendar, havia talvez ntima relao... De repente, fora de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver brincado em criana com uma caixinha, habilmente coberta de conchas multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar. Sua me apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na feira de Granville... Conservava-a como uma relquia, e nela guardava o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda? Andr comeou a procur-la, e, sempre guiado pelas suas recordaes, descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de nogueira. Tomou-a nas mos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura. A caixa abriu-se; continha apenas um papel. Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa, indicava a procedncia de Liverpool. Durante alguns minutos, o pintor ficou imvel, perplexo, comovido, em frente daquele escrito, que sem dvida encerrava o segredo da morte de sua me. Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou primeiramente a assinatura. Ao v-la, escapou-se-lhe dos lbios um grito de surpresa. No fim da terceira pgina de uma caligrafia incorrecta mas de traos vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard! Depois, Andr leu o que se segue: Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja desconhecido, o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre. H nove anos, que a senhora chora Onsimo Sauvain, seu marido; porm Onsimo Sauvain no morreu. Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio, do qual ele era marinheiro. S eu e ele, dentre toda a tripulao, tivemos a boa fortuna de escapar. Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente desprovidos de recursos, associmos os nossos destinos. Seu marido um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e, navegando de conserva, levmos a cabo no poucas especulaes lucrativas. Desde o princpio, e sem dizer-me a razo, manifestava ele o desejo de passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmo, e de Onsimo Sauvain, que era, transformou-se em Onsimo Toucard. Ora eu, que no sou tolo, no tardei em faz-lo dar lngua. Confessou-me que deixara por a... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que no tinha grande empenho em tornar a v-los. A coisa pareceu-me ignbil; disse-lho claramente, porm ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o com tais instncias e ameaas de desmentir o boato da sua morte, que me prometeu, no sem repugnncia, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios suficientes para viverem cmoda e honradamente. Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e m fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidmos as nossas contas. A parte de Onsimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se; ele renuncia ao comrcio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta abastana. Quanto a mim, que no me contento com to exguo capital, reembarco para a ndia, daqui a trs dias, e vou de novo tentar fortuna. Onsimo volta para Frana, e jurou-me reintegrar o domiclio conjugal; mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele roer a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em viuvez, e que dissipar em orgias o capital, que pertence legitimamente a seu filho. Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar convenientes, impea seu marido de cometer novas loucuras, imperdoveis na sua idade, e tambm para que procure restituir o pai a seu filho. Talvez esta advertncia v demasiado tarde; porventura estar morta, ou tornaria a casar a mulher de Onsimo... Em todo o caso, obedeo s ordens que me dita a conscincia. Onsimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudnimo que adoptar; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, no me parece difcil que consiga descobri-lo. Queira aceitar, minha senhora, as expresses do profundo respeito de==_Pedro Toucard_. Quando Andr voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta, estremeceu ao pensar na impresso dolorosssima, que ela devia ter produzido em sua me. Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil vida de famlia!... Saber que esse homem era relativamente rico, e no lhe importava sequer se seu filho tinha po!... Sem dvida, aquelas terrveis decepes, as suas iluses violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe tempo, nem foras, para comunicar a Andr a noticia, que tivera. Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porm elas danavam em vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraar a meada dos acontecimentos, que o acaso enredara em to extraordinrias complicaes. Ento... aquele viajante, vitima da catstrofe de 8 de Maio, era seu pai! Ento... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mos de um estranho, pertenciam-lhe! Ento... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara encontrar, o herdeiro de Onsimo, morou defronte dele todo esse tempo! Ento... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era Andr quem enriquecia a mulher que amava! Ento... Pedro Toucard, levado ali por essa srie de singulares coincidncias, abusou do seu falso parentesco com Onsimo para apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus legtimos donos! Andr compreendia agora a extraordinria comoo do provenal ao ouvir o nome de Sauvain. A conscincia do aventureiro era elstica, mas ainda no estava gangrenada; apesar dos seus escrpulos, no pudera vencer o seu frenesim de especulao, nem deixar fugir a ocasio de traficar mais uma vez. Entretanto tinha, sem o saber, despedaado a felicidade futura de Rosa e de Andr! Pela memoria de minha me! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir o dinheiro! E logo um claro de alegria lhe iluminou e reanimou o esprito. Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enrgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso no teria ento mais nenhum obstculo, que opor ao seu casamento com Rosa. Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois, prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabea escandecida, e teve um pesadelo. Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata macia, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por doze cavalos... Andr perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: Agarra, que ladro! mas a sua garganta no soltava o menor som... E Pedro fugia sempre, semeando s mos cheias, por sobre a multido, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de Sauvain... XIX Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as nvoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade lquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no corao de Andr, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperana. Uma resoluo firme substitura todas as suas indecises. O seu programa era: 1.--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fcil, vista a excentricidade da sua pessoa, e a ateno que no podia deixar de atrair sobre si. 2.--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara. 3.--Lanar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelndia, agarra-lo viva fora, desposar Rosa, e ser feliz. Nada mais simples! Andr saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao cu de azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitrio da aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol. Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordao, ante um montculo invadido por ervas parasitas e por parietrias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braos dessa cruz, j no se distinguia. Andr ajoelhou na relva hmida, e ficou assim por muito tempo. S quando rumores longnquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo, mas em profundo recolhimento. No mesmo dia, encomendou uma lpide tumular, que pagou adiantada, e entendeu-se com um arquitecto para as reparaes do seu pardieiro e do velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel. Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a pr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para Paris no ltimo comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, no tinha tempo a perder. No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de p no seu _atelier_, escovando o chapu para correr em busca do provenal. --Por onde comearei? perguntava a si prprio; onde poderei mais facilmente encontra-lo?... Ora... j sei! na Bolsa! Foi para l, que ele transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos. Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e Andr, petrificado de espanto, recuou trs passos. Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso! --O senhor!... exclamou Sauvain. --Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembarao. Bons dias, caro amigo!... E, como Andr lhe no estendesse a mo, agarrou-a ele quase fora, estreitando-a nas suas. Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira: --Ento, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado... um tanto plido... mais magro... mas bem disposto e animado, o que me causa imenso prazer. -- muita bondade!... lhe tornou Andr, com voz ironicamente ameaadora. --D-me prazer, palavra de honra! porque no foi sem uma tal ou qual inquietao, que embarquei esta manh para a rua dos Mrtires... --E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver at que ponto chegava semelhante impudncia. --Primeiramente, porque h muito que o no vejo... Lembra-se de que a minha ltima visita data de h quatro meses? --Lembra-me muito bem!... resmungou Andr com os dentes cerrados. --Em segundo lugar... sim... porque tenho uma confidncia... um pouco difcil, para fazer-lhe. --Uma confidncia! --Ou, mais propriamente, uma confisso... Ora, imagine o senhor que tem suas razes de queixa contra mim... graves razes de queixa!... --Realmente? -- exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha conscincia tem andado opressa: hoje transborda e impele-me s confisses... Perante este arrependimento, real ou fingido, a clera de Andr esvaiu-se quase de sbito. --Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e visto que se emenda, no tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o arrependimento, misericrdia!... --Estou pronto a escut-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando. O provenal torceu os cabelos grisalhos da barba e coou a orelha. --Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria trepar ao cimo do Himalaia... A coisa dura, que tem diabo!... --Ento, disse-lhe Andr sorrindo, no diga nada, meu bravo! E intil, porque eu sei tudo. --Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado! --Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, no assim? --Dos seus... Ai, com mil bombardas! certo que sabe tudo!... Mas quem diabo podia instru-lo de uma coisa, que ningum neste mundo... --Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor. --Eu!... --Ora leia. E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool. Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente. --Reconheo a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta no tinha chegado ao seu destino! --Enganava-se. --Conveno-me porm de que, h quatro meses, quando embolsei este dinheiro... --O meu dinheiro, quer dizer? --Seja... Conveno-me de que o senhor ignorava o contedo dela? --Ignorava-o ainda h quarenta e oito horas. E Andr contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistrios! -- indubitvel que existe uma Providncia! disse Pedro abanando a cabea. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, no fosse eu o primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o! --Ai! suspirou Andr, no do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta! --Sim, sim, adivinho!... e isso o que torna o meu crime imperdovel! Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desapario de Rosa, levada por seu pai, no se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu... eu!... --Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela. Os olhos cintilantes do provenal fixaram-se em Andr com inquieta surpresa. --Com a fortuna! exclamou ele, o senhor um filosofo s direitas! --Porqu? --Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destri as suas esperanas de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa tranquilamente com ele!... --A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse encontrado de improviso esta manh, no responderia pelos meus gestos. Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim... visto estar pronto a restituir... --Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! j no nos entendemos!... Andr deu um pulo, com os lbios a tremer-lhe de raiva. --Ol! mestre Toucard, dar-se- acaso que pretenda conservar?... --No pretendo nada, com mil raios!... No olhou para mim? Ora examine o meu exterior!... esta porventura a aparncia de um capitalista? Terei ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos? Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem lguas de possuir semelhantes ares. Envolto em srdidos farrapos, enlameado at ao pescoo, ter-lhe-iam oferecido dois soldos esquina da rua. Luzia-lhe a pele atravs dos buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama. O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libr da misria. Uma ideia horrvel lhe descomps as feies. --Ol!... que isso? disse o provenal, assustado com a palidez dele; agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de gua. Feridas de dinheiro no so mortais. --Oh! articulou o pintor angustiado, ento verdade? --O qu? --O que eu suponho... --No sei o que supe, mancebo. O facto que estive na alta, e depois... veio a baixa. --Portanto est tudo perdido! --Fundido, destrudo, evaporado! --No resta coisa alguma? --Restam-me... dvidas. --E a herana de meu pai? --Foi para casa de seiscentos diabos. --Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente. O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mos nas algibeiras das calas despedaadas, e poderia mesmo jurar-se que um vago sorriso de infernal satisfao lhe assomara aos lbios. --Vamos, mancebo!... disse ele. No hesite: bata-me, estropie-me, mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladro; nem valho a corda com que me enforcarem!... Andr largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho. Cego pelas lgrimas, sufocado pela indignao, aniquilado pelo desespero, caiu prostrado numa cadeira e s pde balbuciar estas palavras: Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!... Pedro pareceu sinceramente comovido. --Ah!... resmoneou ele, procurando em vo no crnio calvo um punhado de cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraado contava com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha! E nisto, infligindo a si prprio as maiores injrias, desenfiava um rosrio de pragas. Entretanto a dor de Andr atingia o seu paroxismo. Encostado mesa, com o rosto esmagado entre os punhos contrados, fazia esforos incrveis para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde. --Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que no haja, sobre queda, coice! O enguio triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um espertalho, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e reembolsa-lo-hei ento do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigao de cem mil francos, pagvel na minha primeira veia de fortuna? Andr ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em pranto. --Fora daqui, miservel! exclamou ele. No tente a minha desesperao com as suas covardes zombarias!... Saia! --No estou zombando, disse o provenal; e juro-lhe pela minha honra... --Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor. --Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente seria v-lo rico e satisfeito. --E por isso me roubou o meu patrimnio, no assim? --Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco j estavam no meu bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: Leva-nos! Foi, graas a ti, que Onsimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!... Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-s... decuplicar-nos-s! Andr, Rosa, toda a famlia ser feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!... Com a breca, levei-as!... Se esta explicao lhe no basta, pegue numa pistola, e abra-me a cabea; at me faz favor!... Ou ento... arraste-me ao banco dos rus, para que me condenem s gals. Andr, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tdio. --No, replicou por fim. No me esqueo de que foi amigo de meu pai; no me esqueo desta carta... a nica aco honesta da sua vida! No me vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se! Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido. Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba, reflectiu, e inclinando-se para Andr, que lhe voltava as costas, murmurou: --Senhor Sauvain... --Ainda aqui! exclamou o pintor. --Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de consolao, que o cu se encarregou de castigar-me. Estou mais miservel, senhor Andr, do que no dia em que me fez a esmola... que to pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna mendigar, vou direito daqui lanar-me ao rio. Adeus! --Espere!... disse Sauvain. E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa. --Leve isso. --Eu!... --Arrecade isso, j lho disse, e v-se embora. em memoria de minha me, a quem tentou prestar um servio. Eu... de nada preciso j. Toucard guardou o dinheiro; porm os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos lampejavam humedecidos. --De que me serve viver, retorquiu ele, se no me perdoa?... se no recobro o sono, que me foge? O pintor encolheu os ombros. --O que est feito, est feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha raiva, todo o meu dio, todo o meu desprezo, no ressuscitariam uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... V em paz; perdoo-lhe! O aventureiro ficou imvel, e como fulminado de espanto, no limiar do _atelier_. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canap, e, com o semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado insensvel ao mundo exterior. --Este, sim!... que tem um corao de oiro sem liga! murmurou ele com singular expresso. Se a sorte lhe no sorri... uma grande velhaca, com mil bombardas! E saiu. XX Imaginem um homem cado do alto de uma torre, uma massa de carne ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vem tudo cor de sangue; os ouvidos s recebem rugidos confusos; a inteligncia flutua ao acaso; e o corpo inerte, despedaado, intil, sofre demasiado para continuar a viver, mas no o bastante para conseguir morrer. Assim estava Andr Sauvain. Precipitado do alto das suas esperanas, vegetou quinze dias sem pensar, sem aco, sem ter conscincia do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutvel das horas. Porm, um dia, despertou de sbito daquela assustadora prostrao. Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos de Rosa, que pintara na poca da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condies de luz mais favorveis; depois, fechou chave a porta do _atelier_ e desprendeu da parede uma pistola, que cuidadosamente carregou. Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mo. Davam onze horas num relgio prximo. -- ltima pancada do meio dia, disse Andr falando consigo, farei saltar os miolos. Era uma espcie de prazo, que concedia Providncia. E com efeito, no podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos recursos!... Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas pupilas lmpidas, aquelas frontes resplendentes de inocncia, Andr recomendava-se s recordaes da sua amada, e os seus lbios murmuravam palavras ininteligveis. Deu meio dia. Andr pegou na pistola. --Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora. --Uma carta?... repetiu Andr, uma carta dela!... Era tempo! Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu a porta, pegou na carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela. No era de Rosa! A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando algum dinheiro, conta, pelas reparaes da casa. Andr ficou aterrado. Apagara-se-lhe da memoria aquela dvida sagrada. Recordava-se dela agora, mas no tinha dinheiro, e s o trabalho podia dar-lho. Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer! O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia. --Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!... Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso! E lvido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava. O industrial anuiu de bom grado. --Esperava-o com impacincia, disse-lhe este homem; apresenta-se agora uma ocasio, magnfica para si, e bastante lucrativa. --Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a. --Eis o negcio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possvel. Pediu-me que o relacionasse com um pintor de talento, e eu falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a fresco; convm-lhe? --Convm. --Nesse caso, necessrio comear a obra quanto antes. O meu fregus habita na sua propriedade: v procur-lo. um homem generoso e inteligente. O senhor entender-se- perfeitamente com ele. --Como se chama? --Aqui est a direco: Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise. no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O stio delicioso, e creio que o senhor no ter razo de queixa. --Irei amanh, disse Andr. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain desembarcou em Audily pelas trs horas da tarde. No pde conseguir que lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ningum conhecia aquele nome, o qual decerto era novo no pas; mas, aps diferentes investigaes, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina. --Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente trabalhado e com porto ao centro, separava da estrada pblica os jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde relva, que se estendia em suave declive at entrada do edifcio, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois pavilhes simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados, um para cavalaria, e o outro para habitao do porteiro. Este individuo destacava, no limiar do porto, tomando o fresco e olhando para as moscas. Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoo descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchao. --Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou Andr. A esta interpelao, o porteiro nada respondeu. Lanou um jacto de saliva negra, fitando Andr, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita passou para a esquerda: o inchao era de tabaco. --Ao que parece, disse ele, o senhor o tal pintor? --Ah! exclamou Sauvain admirado, j esto prevenidos da minha chegada? O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a lngua de fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdmen e retinir os brincos. --Os artistas so alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor tambm entra... --Se entro!... em qu? --Na farsa. --Qual farsa? --A que vai representar-se. --A quem? --Ao senhor Nuavias, j se v! --No entendo. --Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faa conta de que eu nada disse... Suponha que me no participaram coisa alguma... que ignoro tudo... E os brincos a tinirem, e o abdmen a danar, e o rosto passando de vermelhusco a purpreo, e de purpreo a roxo. --Seu amo est c? lhe tornou Sauvain com impacincia. --No, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem flego; ainda no veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspirao. --Eu!... Est enganado. --Ele no deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde... Regozijo-me de antemo, palavra de Jacinto! --Esses negcios no so da minha conta, disse Andr. Na ausncia do senhor Nuavias posso ver a casa? --Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto eu enfio um casaco e vou buscar as chaves. No me demoro cinco minutos. Andr fez um sinal de anuncia, e dirigiu-se pensativo para uma rua arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no crebro fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o esprito. Flores em profuso, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas rvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num crculo encantado. O sol do outono, j declinando para o horizonte, derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera, orlando o cu azul. Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama to tranquilo, e ao mesmo tempo to cheio de vida?... Nenhum rumor se ouvia; nem um som, alm dos agudos assobios dos melros, e dos seus prprios passos sobre a areia. Andr sentiu percorrer-lhe as veias delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil perfumes, transformou a sua agitao nervosa numa languidez fantasiadora. E, enquanto o sol, prximo do seu ocaso, lhe estendia aos ps as trmulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele sossegado den. Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro! Que delicia lhes seria vaguearem a ss, silenciosos, com os braos enlaados, por aquelas alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente traria para junto de seus lbios! E mais tarde... que delicia, ainda, contemplarem ambos uma linda criana, brincando alegre na relva do parque!... A voz do porteiro arrancou bruscamente Andr quelas perigosas alucinaes. O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libr, e munido de nova dose de tabaco. --Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar. Andr seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposio, faltava talvez um certo cunho de elegncia ntima, que revela sempre a presena de uma mulher. --O sr. Nuavias casado? perguntou Sauvain. --Ainda no, mas no tardar, disse Jacinto, soprando como um cachalote. Deveras... o senhor no est na confidencia? --Nem pouco, nem muito! --Pois bem! precisamente a respeito do seu prximo casamento, que se prepara uma surpresa ao senhor Nuavias. --E essa surpresa em que consiste? --Isso querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu j comeo a rir, s com essa ideia!... Demais, a futura ser igualmente mistificada. --Ela bonita? --Encantadora, segundo dizem. --Nova? --Muito nova. --E ele? --Tambm moo. --Amam-se? --Apaixonadamente! Andr suspirou. Nesse momento ouviu-se o rpido rodar de uma carruagem. -- o patro! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir, silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo at base, pondo em movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas. --Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas no se impaciente, que j vou dizer a meu amo que o senhor o procura. E saiu, apertando as ilhargas. Andr encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava; espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as flores dos canteiros balouavam-se como turbulos. Andr padecia. Aquele recndito lugar, aquela pacfica habitao, aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo enfim... at a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no corao, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolvel!... quele retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos? Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde. Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabea, mordeu o leno para no estoirar de riso, depois conduziu o pintor atravs de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, j invadida pelas sombras do crepsculo, e fugiu. Ao principio, Sauvain julgou-se s. Por uma grande porta envidraada, que abria para o jardim, penetravam livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porm Andr distinguiu, dentro em pouco, a um canto do fogo, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de uma mulher sentada. --Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se. Um grito vibrou, como uma nota de cristal. --Andr... Andr!... E a forma vaga ergueu-se de sbito. Um ltimo raio de sol, que borboleteava nas vidraas, iluminou um perfil de anjo. Esse grito, essa voz, essa viso, penetraram no peito de Sauvain, como uma lmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos. --Rosa!... murmurou ele, s tu?... ou o teu fantasma?... Um fantasma! No: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo flexvel e palpitante, que se lhe lanou nos braos! Foram duas mos pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaaram o pescoo! Foi o puro hlito de Rosa, que lhe deslizou nos lbios! E Andr, deslumbrado, louco, fora de si, brio de felicidade, embebia-se na contemplao de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto comovido, radiante de jbilo, envolto numa aurola de cabelos louros... Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do terrao. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma sombra estreita e alongada, trajando fantsticas vestes, que ondeavam em volta dela, como um lenol cor de ferrugem dependurado num pau. A sombra no soltou uma palavra, como convm a uma sombra que se respeita; porm, um som singular atravessou o espao; jurar-se-ia que a sombra estava raspando uma noz moscada. A este rudo prolongado, os dois jovens despertaram do seu xtase, e Andr, chorando e rindo ao mesmo tempo, Andr mais brio do que se tivesse esvaziado seis garrafas de Champanhe, atirou-se ao pescoo da sombra, exclamando: --Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido sogro! A sombra debateu-se violentamente. --O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui? --Ora essa!... Abrao-o. --Quer dizer... que abraava minha filha? --No o nego, meu sogro. --E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Probo-o!... --Ora!... --No h _ora_, nem _meia ora_... Vamos! largue-me!... --Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!... --Largue-me, com trezentos demnios!... --Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve prolong-lo? Sejamos felizes... que no sem tempo! --O senhor zomba de mim? --Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar, quando a sua presena e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que... --Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; de uma rara impudncia!... Pretende acaso dizer... --Que o enterneceram a minha dor e as lgrimas de Rosa... enfim, que o melhor dos homens? Sim? meu sogro! o que eu quis dizer: abracemo-nos!... --Para trs, senhor! bradou o velho exasperado, no junte o escrnio sua indigna aco! --Como!... disse o pintor estupefacto; de que escrnio... de que aco indigna fala? --Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui enganado! negue as suas tenebrosas maquinaes! Ah!... julgou que triunfaria por uma cilada? --Eu!... --Pois bem!... desengane-se! A minha deciso irrevogvel! No possuir minha filha! --Uma cilada!... eu, que o supunha longe de Frana! eu, que teria dado vinte anos da minha vida para descobrir... --Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas cartas?... acrescentou ela em voz baixa. --As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala? --De muitas, que lhe enviei s escondidas? --Pois escreveu-me?... a mim... --Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta! --Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as aqui no bolso. --Tem-nas?... Oh, meu pai!... bem mal feito!... --Horrvel, minha filha!... Teria sido mais moral no interceptar a correspondncia amorosa, no te parece? --Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha parte era impossvel!... --Mas... que outra inteno podia traz-lo aqui? Faz favor de dizer-me? --Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas! --E a ns, disse Rosa, a esperana de uma encomenda importante; pois eu continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma poro delas considervel. --O senhor Nuavias? --Sim. --Quem lho inculcou? --A modista, para quem trabalho. E Andr? --O meu comprador de quadros. --Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal. --O acaso!... suspirou Andr; divino acaso, ou antes Providncia, que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, s mil vezes bendita!... --Senhor, disse Germinal, delira certamente!... --Creio que sim, meu sogro... e muito! --J fez fortuna? --Oh, muito pouca! --E ainda ama minha filha? --Apaixonadamente! --Contudo renuncia sua mo? --Isso de modo nenhum!... --Ento, nada de amizade, nem de relaes entre ns!... V para o diabo! --Porm... --No lhe dou minha filha! --Entretanto... --No casa com minha filha!... No casa com minha filha!... No casa com minha filha! J disse. O senhor Germinal esganiava-se debalde; Andr tinha mais slidos pulmes, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu adversrio, bramindo: --Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou! Enfim, a sua clera fazia exploso. Andr estava farto de sofrer; e, sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escurido da sala para beijar Rosa, unindo-a docemente ao corao. Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensao tinha olhos de lince. --Ah! Vocs querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu chapu... Partamos imediatamente! --Ainda no! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo. E logo a sala se iluminou de sbita e viva claridade. No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem baixo, de espessa e forte construo, enluvado de fresco, engravatado de branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o recinto a dez passos de distncia. Avanou majestosamente, com os polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas. O senhor Germinal e Andr suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se confusos. --Ento!... exclamou o magnfico intruso; h bulhas aqui? Com mil amarras!... --Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dvida... Pedro, o aventureiro! Mas, que transformao!... Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita sua, curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crnio resplandecia, como um espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em pleno dia. Uma cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso abdmen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes anis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de napolees. Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal, desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus cales curtos, que punham em relevo postias barrigas de pernas, de dimenses enormes. Pedro sentou-se ao p do fogo, apoderou-se das tenazes e atiou o lume. Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos danaram alegremente sobre os mveis esculpidos, sobre o luzidio sobrado, e sobre as guarnies de seda azul com franjas de prata. --Chegue-se para o lume, compadre! as noites esto frias. Aproxime-se do fogo, minha linda menina!... e tambm o senhor, amigo Sauvain!... Disse. E era espectculo digno de admirar-se o sorriso diablico de Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a boca aberta do senhor Germinal. Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo escanhoado, continuou: --Ol, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com um homem, que os reuniu... contra vento e mar! --Pois foi o senhor!... exclamou Andr. E os dois amantes estreitaram as, mos do aventureiro. --Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraso. --Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as suas culpas! --Apre!... ento passa-me quitao das noventa e duas mil libras? --De todo o corao! suspirou o pintor; ainda que... --Ainda que lhe fariam ptimo arranjo, na presente conjuntura; no assim? E a menina Rosa no me recompensar tambm? --Bem o desejara, disse ela, apresentando a cndida fronte aos lbios encortiados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, no posso... --No pode oferecer seno o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro, entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me rejuvenescido! --Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caoam comigo!.... No sou aqui ningum?... Com a breca!... --O compadre, disse Toucard com ironia, , como ns, hospede do senhor Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa. Mas... acrescentou, interrompendo-se de sbito, que aquilo?... que vejo eu ali? --Onde? --Acol... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogo. -- uma chave! exclamou ela. --Com efeito, disse Andr apanhando-a, uma pequena chave, que me faz recordar... --Oh!... A que demnio de fechadura pertencer ela? regougou Pedro. E inequvoca expresso de benvola malcia transparecia no seu enrugado rosto. --Ah! agora penso eu... No servir por acaso essa chavinha naquele cofre, que ali est?... atrs de si... sobre a jardineira... Andr voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante que deixara em Granville, na sua arca de nogueira. --Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum cofrezinho igual que o senhor desenterrou a nica aco louvvel da minha vida: estas caixas so de bom agouro! E dirigindo-se a Rosa: --Veja o que essa contm, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da chamin, merece ateno!... Seria algum gnio benfazejo, que a deixou cair? Reviste sempre, Rosinha!... --Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de confiana!... Que dir o senhor Nuavias? --Aprovar, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure... A jovem no se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o gnio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para um desenredo agradvel. Abriu a caixa, e tirou de dentro um mao de papeis cetinosos. --Notas do banco!... exclamou ela. --Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como no possvel dar-lhes melhor aplicao, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas. Tome-as l, compadre... --A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porqu?... com que direito?... o que significa?... --Tanta pergunta ao mesmo tempo! V sempre guardando... Continue a buscar, minha filha... Um adereo de diamantes!... e um colar de prolas!... murmurou Rosa, deslumbrada. --Isso consigo, minha menina. o presente de noivado do senhor Nuavias... Procure mais... --Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias o senhor, ou o diabo?... --Nem um, nem outro... Querem conhec-lo? --Quero... quero... quero... gritaram trs vozes ansiosas. --Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, ... --... quem? --Andr. --Eu!... --Sim? sem a menor dvida! Nuavias apenas o anagrama de Sauvain. --Porm, esta casa... --Ah! tem razo... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa, senhora noiva... Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com selo, cobertos de mauda escrita, e rubricados por dois tabelies. Continham um acto legal e autntico, assegurando a Andr Sauvain a propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise). --Senhor!... exclamou o pintor fora de si, demais!... demais!... No posso aceitar... Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave e sisuda. --Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mgoas, se me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda no tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu patrimnio. Dessa experincia, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porm o senhor... corao nobilssimo!... para o homem, que lhe despedaara a vida, teve ainda uma ltima e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso at ao fim... no recuse os meus dons... no me deixe remorsos... --Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este osis encantador... com a condio, porm, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraioado. --Com mil amarras!... Espere por isso! Graas a Deus, estou curado da febre de traficar; viverei como um bom burgus; o meu amigo Germinal ensinar-me- o gamo; e nunca mais especularei, seno em sonhos. --Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se trata!... Que diabo est o senhor para a a falar em erros, remorsos, e patrimnio?... Que significa todo esse aranzel?... --Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas virtudes raras, e to raras que me converteram... --E quais so essas virtudes?... --O perdo das injrias, disse Pedro, apertando a mo a Andr... e a inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal. Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crnio. --Tudo isso para mim hebraico, replicou o pai de Rosa. A nica coisa, que pude coligir, foi que o senhor est milionrio!... -- verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depsito sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que , arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o corao garganta, e sinto-me tremer como... como o seu _Faust au sabbat_, Andr!... um quadro admirvel! que, entre parntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram j o seu peso em oiro? --De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na conspirao?... Traidor!... --Ora!... e tambm a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os criados desta casa, e at o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei categoria de guarda-porto, e que hoje tomo a liberdade de recomendar sua benevolncia. --Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, possvel que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu! --Nem eu to pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro! --Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mos a garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e felicidade, tudo encontraria... --NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard. FIM [1] Reunio de trs nmeros, cuja extraco simultnea era uma sorte feliz. [2] Hospital de alienados. OBRAS PUBLICADAS PELA EMPRESA EDITORA CARVALHO & C. TEATRO Os sabiches--Comdia original em 4 actos, por E. Biester, 250 Ao calar das luvas--Comdia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100 O afilhado de Pompignac--Comdia (traduo) em 4 actos, por L. C. M., 200 Um homem poltico--Comdia (imitao) em 3 actos por Aristides Abranches, 200 O fidalguinho--Comdia original em 3 actos, por Ferreira de Mesquita, 200 Abenoado progresso--Comdia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100 As campainhas--Comdia (traduo) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100 Joo o britador--Drama (traduo) em 5 actos, por L. C. M., 250 As trs rocas de cristal--Mgica em 3 actos e 17 quadros, por Aristides Abranches, 300 A famlia--Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300 Quem desdenha--Comdia original em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100 Caso de conscincia--Comdia (traduo) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100 Lus XI e o poeta--Comdia (traduo) em 1 acto Ferreira de Mesquita, 160 A mosca branca--Comdia (imitao) em 3 actos, por Duarte Santos, 200 A cruz de prata--Drama (traduo) em 5 actos, por L. C. M., 300 N. B. A quem comprar a coleco completa (15 peas) 40 por cento de abatimento. ROMANCES As duas flores de sangue--Original, por Pinheiro Chagas (1 volume), 500 As doze espadas do diabo--Traduo de Guilherme Celestino (2 volumes), 800 Cludio--Original, por Jlio Csar Machado (1 volume), 500 Nas cinzas--Traduo por L. C. M. (1 volume), 300 NO PRELO Uma noite em Florena--Traduo de Guilherme Celestino (1 volume), 400 Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importncia em estampilhas ao escritrio da empresa, rua larga de S. Roque, n. 100, 1. andar. Imprensa Nacional--1875 End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys License: Share Alike