Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) D. ANTONIO ALVES MARTINS BISPO DE VIZEU ESBOO BIOGRAPHICO POR CAMILLO CASTELLO BRANCO SEGUNDA EDIO PORTO Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa editora LUGAN & GENELIOUX, successores 1889 Preo... 200 RIS ESBOO BIOGRAPHICO D. ANTONIO ALVES MARTINS BISPO DE VIZEU ESBOO BIOGRAPHICO POR CAMILLO CASTELLO BRANCO SEGUNDA EDIO PORTO Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa editora LUGAN & GENELIOUX, successores 1889 Todos os direitos reservados IMPRENSA INTERNACIONAL Victoria, 166 agradavel e no commum esboar alguns traos da vida de um varo benemerito, cujos antepassados, praticando obscuramente o bem, nos no intimam o dever de lhes attribuir ou inventar proezas civicas. Em tempos no remotos, quando era costume inculcar ou explicar, pelo decoro da stirpe, virtudes ou heroismos, raro biographo se sahia limpa e airosamente de ao p do bero humilde do seu heroe. vr o empenho pouco menos de lastimavel dos que inventaram avs fidalgos a Joo Pinto Ribeiro, como se o explendor de seu patriotismo fosse demasiado para um s homem, e devsse, em vez de ir adiante afidalgar vindouros, retroceder aos passados, e lustrar-lhes as sepulturas em galardo posthumo! Donosa e bizarra fidalguia uma que nos faz sentir que o , por que ha ahi natural fronteira entre bom e mo: a que vmos gerar-se, florir e fructear sem inculcadas e vans precedencias; a que assignala os homens prestantes, allumiando-os de luz sua, a fim de que a posteridade os extreme da sombra, se os contemporaneos no poderam ou no quizeram aquilatal-os desassombradamente. Homens d'este vulto, per si mesmos nobilitados, no se procuram no bero: em meio de ns, desde o momento que os vimos receber da gratido publica os titulos de sua nobreza. O snr. D. Antonio Alves Martins, doutor na faculdade de theologia, bispo de Vizeu, par do reino e ministro de estado honorario, nasceu na Granja de Alij, provincia de Traz-os-montes, aos 18 de fevereiro de 1808. Modesta abundancia e laboriosa probidade--excellencias congeneres da profisso agricultora--honravam e felicitavam a familia de que procede o snr. bispo de Vizeu. Dado que a sua iniciao a estudos superiores no levasse o intento posto em determinado destino, motivos, em que talvez seria grande parte a obediencia, moveram o moo de deseseis annos a entrar na Terceira Ordem de S. Francisco, chamada da Penitencia, cuja casa capitular era em Lisboa. No j hoje em dia mui vulgar a noticia da illustrao em que primacialmente se avantajava aquella corporao religiosa, cujos servios litterarios e evangelicos ahi esto consignados nas _Memorias historicas_ do arcebispo Cenaculo e nos variados escriptos de fr. Vicente Salgado. Nenhuma ordem, digamo'l-o assim, acabou com mais brilhantes fins de existencia gloriosa, atravez de quatro seculos. Ali principalmente se ensinaram a diplomatica e as linguas orientaes; d'ali sahiram abalisados mestres de grego e hebraico, arabe e syriaco. Muito de industria lembramos esta clausula quasi inutil, por que temos lido e ouvido inconsiderados se no indoutissimos conceitos dos Regulares da Terceira Ordem de S. Francisco. No ser pois descabido lembrar a juizes menos competentes que a livraria, actualmente chamada da Academia real das sciencias, era a d'elles. Em 21 de maio de 1825 vestiu o snr. Antonio Alves Martins o habito de professo, e passou a estudar philosophia no Collegio do Espirito Sancto em Evora, doao de el-rei D. Jos Terceira Ordem, em 1776, extincta a Companhia de Jesus. Em outubro do anno seguinte, matriculou-se no collegio das Artes, com o proposito de seguir o curso universitario, frequentando alternadamente as aulas de mathematica, philosophia e theologia. Cursava o distincto academico o seu terceiro anno da universidade, quando as renovadas idas de 1820 agitavam febrilmente os animos de grande numero de escolares--aquella phalange de generosa mocidade, predestinada a ser to grande parte na propaganda dos principios liberaes e na occupao dos mais eminentes postos da representao nacional. O alumno de theologia, posto que ligado a uma corporao religiosa, aliou-se aos propugnadores do governo representativo, sem todavia imparceirar-se com os injustificaveis bandos que intermetteram uma pagina de deshonra indelevel na historia dos asperos sacrificios d'aquelle periodo. Desde tenros annos a condio do snr. Alves Martins sahiu avessa a rebuar ou sequer temperar calculadamente as suas opinies politicas. Este franco destemor e afouta energia foi sempre, , e apezar da experiencia ser sempre a mais relevante physionomia do snr. bispo de Vizeu. ousadia de manifestar-se affeioado revolta militar do Porto, de 16 de maio de 1828, seguiu-se ser riscado da universidade, quando frequentava o terceiro anno theologico. Sem embargo, o snr. Alves Martins proseguiu nas aulas da sua congregao; e, concorrendo s cadeiras de philosophia e theologia, recebeu o premio de sua applicao e creditos, sendo logo, e tanto na flr da idade, nomeado mestre da Ordem. Os condiscipulos do estudioso mancebo ainda hoje recordam a viveza, penetrao e discernimento com que elle se egualava aos mais distinctos. No estava, todavia, aquelle alvoroado espirito ainda maduro de feio para pautar-se ao magisterio. Impulsaram-no estimulos inflexiveis a quinhoar dos perigos e honras nas luctas que estrondeavam fra e dentro do claustro. Era aquelle um tempo em que todo homem olhava para o horisonte do dia novo, bem que a uns se figurassem de fogo destruidor as cres da aurora, e outros a saudassem como luz redemptora a alvorejar civilisao para o mais ignaro, escuro e abatido torro da Europa. Alves Martins no podia pertencer ao numero dos prudentes que, adorando a occultas a ida, sopesavam com os aamos de uma discreta espectativa os impetos de a confessar e servir. A experiencia mostrou seguidamente que estes sisudos foram depois os primeiros que sahiram enramados a rojar os louros nos tapetes dos ministros de 1834: por onde se prova que a prudencia sempre de medranas, ainda quando uma san terminologia a alcunhe de ardilosa. Como quer que fosse, Alves Martins, no momento em que as tropas liberaes rebeladas no Porto evacuavam Coimbra, sahiu do collegio, acompanhou-as, e sentou praa no regimento de Voluntarios de Alij. Sem demora lhe foi instaurado processo no tribunal secular e nas commisses militares de Traz-os-montes; o profugo, porm, recolhendo-se ao claustro, pensou talvez que a perseguio, empenhada em exterminar inimigos mais temerosos, o esqueceria. Era, em verdade, ter em coisa de pouco a memoria das testemunhas juramentadas no seu processo! Em 1832 foi nomeado capello da armada: fra-lhe imposto o encargo sob obediencia, por que da Terceira Ordem sahiam os padres para os navios do estado[1]. Poucos mezes depois, o capello, cuja pertinacia em ser liberal o tornra por demais esquecido do instaurado processo, foi de novo processado na Majoria-General, preso nas cadeias de Coimbra, e sentenciado com mais tres companheiros na Conservatoria da Universidade. Na tarde do dia 28 de janeiro d'aquelle anno uma leva de presos ida de Coimbra para Almeida conseguiu fugir na altura de Sancto Antonio do Cantaro, favorecida talvez pelo commandante da escolta. N'aquella leva iam tres presos j sentenciados no Conservatoria. A sentena era um modlo de conciso e ferocidade. Chegados a Vizeu, deviam ser espingardeados no campo de Sancta Christina. Um dos tres condemnados era o snr. Antonio Alves Martins. As alegrias d'uma salvao muito incerta no compensaram ao sentenciado e a tres companheiros as angustias que se seguiram. Desviados de todo trilho, desprovidos de minimo recurso, e at desconfiados da caridade do lavrador a quem pedissem um pouco de po e agasalho, durante onze dias e noutes, erraram, por serranias, retranzidos de frio e fome. Quando ao nono dia de tamanha miseria chegaram margem do Mondego, junto de Villa Verde, e reconheceram que o passo era guardado por sentinellas, os quatro fugitivos s nove da noute entraram na agua, e, como submersos em uma salina, esperaram quatro horas de formidavel agonia a menos perigosa opportunidade de vadear o rio. Dois dias depois chegaram a Leiria, onde se apresentaram ao tenente coronel Vasconcellos, hoje visconde d'aquella localidade. Com quanto a robusta mocidade de Alves Martins se aguentasse na lucta com os trabalhos d'aquella fuga, o resultado funestou-se-lhe depois, sobrevindo-lhe um typho para o tratamento do qual o hospital de Leiria lhe favoreceu uma enxerga. Apenas convalescido, passou a Lisboa; e, terminada a guerra civil, voltou a continuar seus estudos em Coimbra, onde se graduou em theologia, por 1837, deixando as faculdades de mathematica e philosophia no segundo anno. Na lista dos estudantes perseguidos e por tanto agraciados pela lei de 1834, estava o nome de Antonio Alves Martins. Elle, ainda assim, dispensando-se dos beneficios da lei, subjeitou-se s praxes, frequencia e provas dos restantes academicos. Aceitou apenas os doze mil reis que lhe pertenciam como a eggresso da Terceira Ordem. Eis ahi o primeiro lance de desinteresse que ser o percursor de outros testemunhos de no vulgar desprendimento. De mais d'isto, um homem no vigor dos annos e saso das aspiraes, com justa causa para desvanecimentos de meritos, uns ganhados com seu eminente espirito, outros adquiridos pelos trances que correu a sua vida no servio da causa triumphante, ahi o temos concorrendo a uma cadeira de philosophia no Lyceu do Porto para grangear o po da independencia, visto que o despacho para o magisterio universitario se demorava. Mas, nem ainda ahi, nome e servios lhe complanaram difficuldades. Um antigo professor obteve, annullado o concurso, despacho fundado em direitos de j ter exercido o ensino. Alves Martins concorreu novamente cadeira de historia e geographia para a qual foi despachado em 1839. Assombra e entristece ao mesmo tempo o confronto das ambies descompassadas que hoje em dia saltam e bravejam de nomes obscurissimos, e a modestia, comedimento e parcimonia dos homens de ento, os quaes to affastados j parecem d'estes nossos dias! E todavia, so de hoje, so nossos contemporaneos! Que decorosos brios no reportavam o animo dos que se davam por bem pagos de ser livres para poderem buscar sua parca vida no ensinamento da mocidade! Claro era que Antonio Alves Martins no podia abastardar os dons da intelligencia, mal-baratando-os em incenso ao poder--em escambo de mercs que lhe permittissem, inerte na fora da idade, e no regalo de lerdos ocios, descurar como incommoda esta coisa onerosa chamada honra do trabalho. Tres annos passados, o professor do lyceu foi eleito deputado. A sua entrada no parlamento em 1842 abriu mais um exemplo dos damnos que fomenta a rigidez do caracter vinculada ao arrojo da censura. O snr. Alves Martins distinguiu-se na opposio. Os seus discursos no eram preparados com a engenhosa paciencia dos que attentam superiormente no brunido e terso dos periodos, e a miudo pompeam enfeites academicos em assumptos de seu natural simplissimos. Como a sua eloquencia brotava subita das convices, e a cada passo os desacertos do poder lh'as estimulavam, no se lhe fazia mister o prvio lavor da composio litteraria das suas oraes. O snr. Alves Martins era, primeiro que tudo, dialetico, assim destro quanto laconico; umas vezes severo, outras asperrimo, mas sempre justo, e escutado com respeitosa atteno de parciaes, e adversarios, entre os quaes se procuravam sempre os mais audaciosos para o impugnarem. A austeridade de sua indole, inflexa s chamadas conveniencias partidarias, singularisava-se por uma honrada obstinao propriamente com os erros da sua parcialidade. Os do seu lado impacientavam-se magoados quando as frechas do intemerato argumentador lhes iam apontadas e mais penetrantes que as dos adversos. Que montava isso serena consciencia de Alves Martins? Os seus amigos politicos deixavam de o ser, logo que exhibissem, como diplomas de considerao, polluir-lhe por efeito d'uma forada condescendencia a inteireza de seus principios sempre liberaes, e ao mesmo passo moderados e conciliadores. Contra as demasias do poder achamol'-o sempre em reaco vigorosa, quer os governos se fortalecessem na complacencia do throno, quer no apoio faccioso dos plebiscitos. No seu animo tanto impendiam influencias patriciatas como populares. Abusos de ambas as procedencias lhe eram por egual odiosos, e o sobre-excitavam a extremos de no poder estancar o impeto das phrazes excessivamente acrimoniosas, se algum contendor lhe recalcitrava com desabamento. Assim o vimos sempre e com indomavel pulso nas accsas disputas com o actual visconde de Souto Maior[2]. Acima escrevemos que a sua entrada no parlamento inaugurra mais um exemplo dos damnos inherentes rigidez de caracter e aos atrevimentos de uma franca reprovao. O governo, para lhe fazer sentir seu desagrado, custa d'uma injustia sem disfarce, preteriu-o no despacho universitario. Este facto devra capitular-se de inveterada desmoralisao, se antes no fosse uma especie de direito consuetudinario nos governos que todos se estribam na adheso dos amigos, e por amor d'elles supplantam a justia dos contrarios. E to perversor direito explica as abjeces, as apostasias, os invilecimentos contra os quaes Antonio Alves Martins, desde deputado at ministro do reino, desde conventual de Jesus at prelado viziense, se levantou sempre com honesta sobranceria. Verdadeiramente, contra o adversario d'este flego no bastavam os athletas parlamentares. Urgia ao poder suspeitoso espial-o no escuro das noites e ladeal-o de quadrilheiros. Antes de ser deputado, j o snr. Alves Martins, no ultimo anno de sua formatura, em 1837, havia sido prezo em Coimbra como cumplice na revolta dos marechaes--lance que passou totalmente alheio da sua menor interferencia. O illustre preso devia ainda conhecer no carcere, que lhe davam os livres, a tabua que lhe tinha dado o governo dos escravos. Apenas se haviam interposto tres annos desde a sentena de morte lavrada na Conservatoria at ao mandado de captura da auctoridade constitucional! Sendo deputado, foi preso em 1843, ou, como quem quer adoar o termo, foi detido por que entrava por noute alta em conciliabulos revolucionarios. No seguinte anno, 1844, estando no Porto, foi intimado para encarcerar-se no Castello da Foz, como faccionario da revolta militar d'aquelle anno. Governava ento o districto o snr. Antonio Emilio Brando, cavalheiro cujas virtudes ainda no foram puidas pelo atrito da politica. Dignou-se a auctoridade ouvir as declaraes do indiciado como conspirador; e, suspensa a ordem de priso, deixou-o vigiado pela policia. Escusado procurar o snr. Alves Martins estranho revoluo de 1846 e 1847. Conheceu os homens, que formaram o gabinete revolucionario, visinhou d'elles com o seu conselho e pratica dos negocios; mas pendemos a crer que muitissimos actos da Junta, nomeadamente os militares e diplomaticos, mereceram a sua reprovao, mais ou menos expressada no opusculo NOVE DE OUTUBRO, que sua S. Ex. publicou, historiando os successos tumultuosos da contra-revoluo[3]. O snr. Antonio Alves Martins no conheceu o andamento da revoluo smente pelos boletins das manobras e batalhas impressos nas gazetas. Viu-a de perto, bem no centro dos perigos, tomando d'elles o quinho que lhe quadrava, como a homem que em si sentia impulsos de defender no campo a causa que patrocinra na imprensa. Ha ahi o quer que seja grandioso que nos avulta a propores improprias d'este tempo o homem de letras de par com o soldado no esquivo aos trances das pelejas. A hypocrisia no acha edificativo o lance; mas os espiritos despreoccupados admiram e respeitam a coragem que intendeu dever ao bem da sua patria, a um tempo, os servios do brao e os thesouros da intelligencia. Terminada a guerra civil pela conveno de Gramido, continuou o professor a reger sua cadeira, e simultaneamente redigindo o _Nacional_, diario ento organisado para sustentar os principios da reforma, abastardados seno derruidos pelo gabinete constituido depois da conveno. O trabalho assiduo de S. Ex. era gratuito como antes e depois aconteceu em todos os periodicos de sua collaborao. Concorremos ento na parte litteraria do _Nacional_. Com intima saudade nos recordamos da lhaneza e cordeal critica com que o primeiro redactor politico nos acoimava de frivolos ou louvava por esperanosos uns folhetins com que nos ensaiavamos para esta lida indefessa de vinte annos. Os artigos do snr. Alves Martins, ridigidos com admiravel presteza, e momentos antes ou simultaneos da composio typographica, eram modlos de polemica, e s vezes retaliaes um tanto acerbas para os adversarios. Passos Manoel, avaliando o caloroso publicista como escriptor politico, elevava-o eminencia entre os melhores. N'aquelles annos de 48 e 49, o _Nacional_ primou no seu progressista e liberalissimo programma, confiado s superiores capacidades de Alves Martins, Parada Leito, Evaristo Basto, e Nogueira Soares. O espirito publico estava disposto a coadjuvar a revoluo militar de 1851, acaudilhada pelo marechal Saldanha, e resurgida da sua prostrao por alentos de alguns seus confederados no Porto. No esforado numero dos cooperadores da intitulada Regenerao alistou-se o snr. Alves Martins, posto que a politica do snr. duque de Saldanha lhe no abonasse mais prosperidades nacionaes que a politica do snr. conde de Thomar. Uma e outra, mais ou menos aulicas e filiadas na crte, eram pouco menos de facciosas, e mais que muito impopulares. A nosso juizo, o snr. Alves Martins, considerando que o antagonismo pleiteava entre dois validos a disputarem-se privana e influencia, teve como politico e acertado expediente apoiar o mais fraco, para assim, removidos os estorvos dos nomes panicos, abrir novo horisonte s reformas desejadas, e sobverter os elementos reaccionarios. Este seria, por ventura, o proposito do solerte politico e de outros notaveis correligionarios da Junta consubstanciados na revoluo. E, de feito, a phase da nova politica, animada pelo talento sagacissimo e genio conciliador de Rodrigo da Fonseca Magalhes, inaugurou-se com ares de sciencia nova em materia de governar. Homens de arraiaes contrarios congrassaram-se no mesmo intuito, fatigados dos vaniloquios da tribuna, e cortados dos desastres da guerra civil. Iniciaram-se na administrao algumas intelligencias devotadas ao progredir material, ao adiantamento procedente dos estudos economicos, descurados at quelle tempo em que, pelo ordinario, os mais loquases parlamentares pareciam ainda remodelar as suas theses pelas recordaes tribunicias das primeiras camaras, estudando a eloquencia em Ferreira Borges e Fernandes Thomaz. Ento se viu esfriarem os intranhados despeitos, apagarem-se as inspiraes sonorosas dos questionadores politicos, e communicarem-se uns a outros o mesmo impulso de apoio para obras publicas, estradas, telegraphos, portos maritimos, reformas aduaneiras, desvinculao da terra, em fim, operou-se estranhamente a communho de todas as vontades no estudo e explorao dos processos de riqueza que as naes prosperas nos exemplificavam. Mas em quanto os videntes do progresso material pindarisavam os adais da ida nova, o governo, inaugurado em 1851, dilapidava e prodigalisava, como se o edificio novo houvesse de ser cimentado sobre as ruinas da fazenda nacional, e o povo, que farte empobrecido para to descommedidas despezas, devesse ser sacrificado aos creditos dos iniciadores do progresso. O snr. Alves Martins retirou o seu apoio ao governo. Estava com o povo e contra as demasias do poder. Estava com o progresso; mas progresso compativel com a debilidade do thesouro. Em novembro de 1852, obteve S. Ex. a nomeao de lente de theologia: suscitando-se duvidas, no entanto, sobre a antiguidade que lhe competia, renunciou o magisterio, optando pela cadeira canonical na s patriarchal de Lisboa. Continuou militando j na opposio, j nas maiorias, assim na imprensa como no parlamento, por espao de nove annos. Em 1861, foi nomeado enfermeiro-mr do hospital de S. Jos, onde se disvelou quanto cabia em suas muitas faculdades e prestantissimos alvitres. A imprensa louvou-o unanimemente pelas reformas que em sua administrao se operavam. Cortou abusos. Pautou rigorosamente obrigaes. Gratificou serventuarios benemeritos. Exauthorou os nocivos. Feriu pela raiz a arvore dos desperdicios sombra da qual se medravam muitos, com aggravo da pobreza e do infortunio. E tamanho affecto cobrou o novo enfermeiro-mr quella casa de dres que, volvidos annos, e j ministro do reino, se lhe estava sempre desintranhando em beneficios, convertendo em po e cobertura as liberalidades das pessoas que por ellas, mais do que pelas mercs, se ento nobilitaram. Approuve a S. Magestade galardoal-o com a commenda da Conceio pela sua benemerencia no exercicio de enfermeiro-mr. O snr. Alves Martins regeitou a graa por intender que o comprimento de uma obrigao no era caso para condecoraes. De passagem notaremos no despacho d'este afanoso encargo um successo que motiva saudades: foi este despacho o ultimo que o snr. D. Pedro assignou. O amigo dos infelizes, ao despedir-se d'elles, enviava-lhes uma alma cheia de generosa rectido a zelar-lhes o seu patrimonio. Bem escolhido protector para desvalidos que--bem o sabem os que de perto convivem com o illustre prelado--facilmente enternecereis a lagrimas e vereis commiserado aquelle aspeito que se vos figura severo e inaccessivel s dres maviosas da compaixo. Em julho de 1862 foi apresentado bispo na s de Vizeu o snr. D. Antonio Alves Martins, confirmado no consistorio de S. Matheus, e sagrado em dia de Todos os sanctos. Como a doena o impedisse, governou a diocese por procurador, at que em janeiro de 1863 fez entrada solemne na sua cathedral. No tempo que medeou entre a sua apresentao e confirmao, recebeu um breve de S. Santidade, encarregando-o do regimento da diocese, na qualidade de vigario apostolico, a fim de debellar o scisma que lavrava no bispado, conta da nomeao do vigario capitular. Fra o caso que o cabido descontente, recorrendo a Roma, obtivera annullar a segunda eleio. Recusou-se o snr. bispo a cumprir o breve, posto que honroso para S. Ex. em quanto S. Magestade o no approvasse. Travou-se alguma contestao entre o prelado e o nuncio que se dispensava do placito regio. O breve, porem, no se cumpriu. O snr. D. Antonio antepoz o respeito da lei portugueza ao arbitrio romano. S depois da sua sagrao, que S. Ex. intendeu nos negocios da sua diocese. Foi esta uma judiciosa inflexibilidade de caracter que se dicidiu pela dignidade nacional contra a jurisdio prelaticia. As insignias do principe da egreja, honorificadas pela confiana do chefe da christandade, no o demoveram de acatar submissamente os fros do chefe da nao. Louvavel rigidez de primoroso animo que em cada acto nos est sobrepujando a medida vulgar. O zlo da misso prelaticia divorciou-o fundamentalmente da politica. A sua cadeira na camara alta, ao invez de mui naturaes conjecturas, esteve por espao de annos devoluta. O solicito prelado dedicou-se de corao aos cuidados pastoraes, quer morigerando abusos, quer invidando esforos na educao do clero. No primeiro anno fez tres ordenaes; e, nos seguintes, ordenao geral e unica nas temporas de S. Matheus, attendendo ao proveito dos ordinandos. Aqui vem de molde um facto cuja notoriedade nos corta delongas no memoral-o. De natureza estranha foi elle, e, como tal, soou com grande estampido dentro e fra do paiz. Em junho e julho de 1867 concorreu S. Ex. a Roma para assistir s festas do centenario de S. Pedro e canonisao de alguns sanctos. Em certo dia o soberano recitou na capella sixtina um como discurso do throno ao qual de estylo responderem os bispos como uma saudao a S. Santidade. N'esta saudao, previamente elaborada, realavam pontos doutrinarios e controversos grandemente incongruentes com as convices do prelado viziense cerca da infallibilidade e do poder temporal do papa. A saudao ou resposta ao discurso pontificio no havia sido discutida nem consentaneamente redigida por alguma assembla episcopal. Era papel j de antemo impresso, como se o contheudo fundamentasse em dogmas incontradictaveis na christandade. Os prelados concorrentes capella sixtina, no acto de se apartarem, receberam convite impresso a comparecerem, no seguinte dia, no palacio Altieri para o intento de lerem e assignarem a saudao. O cardeal, que rubricava o convite, no solemnisou com a sua presena a assembla dos prelados, os quaes, ao compasso que entravam, iam recebendo os exemplares, e eram advertidos que lessem, assignassem e os no levassem. O snr. bispo de Vizeu, j que ninguem abria discusso, nem o peremptorio do aviso a permittia, leu e deliberou, tambem peremptoriamente, no assignar. Em o 1. de julho, appareceu a saudao a S. Santidade em acto solemne, ao qual o snr. D. Antonio, divergente de seus collegas, no concorreu. No obstante, entre os signatarios, d'aquelle protesto pela infalibilidade e poder temporal encontrou o bispo portuguez o seu nome. Sem interpor tempo, S. Ex. protestou, por via do embaixador de Portugal em Roma, contra a sua assignatura nem feita nem authorisada. O nobre prelado, protestando n'este theor, no cogitava em assoprar escarceus que dessem a lembrar as divergencias das christandades primitivas, quando as duvidas sobre infallibilidade dos bispos de Roma eram suscitadas por venerandos prelados que tinham bem no vivo de sua f as tradies dos primeiros seculos. Da parte de S. Ex. o intuito era natural e simplissimo: repellir uma tal qual fraudulencia, equivocamente piedosa, que involvra a falsidade d'uma assignatura, e violencia de especie nova, imposta sua consciencia. No obstante, o episcopado catholico, ardendo em espirito menos santo, assanhou-se com o desusado procedimento, como se ahi pelo seculo IV algum discipulo de Arius ousasse, face da cadeira de S. Pedro, contender sobre os divinos fundamentos da religio de Jesus. E, todavia, o snr. bispo de Vizeu protestra singelamente contra a falsificao de sua assignatura, denegando-se a subscrever a infallibilidade do papa, como ninguem subscreveu nos primeiros sete seculos da egreja, tal qual e pelas mesmas palavras com que a declinou de si o papa S. Gregorio Magno, e como, ha poucos dias, o protestou o eminentissimo Dupanloup na sua ultima pastoral. O que muito aggravava a culpabilidade do nosso bispo no era a duvida: era o protesto. No crsse embora; mas... immudedecesse. O que era, pois, dignidade, foi malsinado de orgulho. O dissentir de seus collegas, n'um acto a que todos por ventura ligavam minima valia, foi havido em nota de rebellio propria dos heresiarcas que parvamente forcejavam por que as portas do inferno prevalecessem. Lamentavel dizer-se que este caso passou hontem; e que a mais pronunciada feio de tal conflicto seria irrisoria por conta de Roma, se no fosse profundamente triste! O snr. bispo de Vizeu, impassivel s graves censuras e encontrado pela opinio de todos seus collegas, contentou-se bastantemente do applauso da consciencia, como quem, reclamando contra a falsificao do seu nome, praticava um mero acto de moralidade, sem discutir se os apophtegmas de Hildebrando ou as Decretaes de Isidoro Mercador deviam ser de novo aquecidos ao sol do seculo XIX. Uma commisso de tres prelados procurou seguidamente o snr. bispo para lhe declarar que fra engano e no proposito a subscripo do seu nome no documento official. A esse tempo j o snr. D. Antonio havia sahido de Roma. A mesma commisso declarou o equivoco, perante o embaixador de Portugal, pedindo que se transmittisse a satisfao ao prelado portuguez, e se lhe pedisse que se houvesse por contente. Em Paris recebeu o snr. D. Antonio o officio do secretario da embaixada, relatando os successos, e solicitando o remate da pendencia. Conveio S. Ex. no desejado termo de to ruidoso quo simples incidente, bastando-lhe que na legao portugueza em Roma se inscrevesse, muito ao claro, que o bispo viziense no assignra nem mandra assignar a saudao ao pontifice, infallivel e monarcha. Recolhido sua diocese, o tranquillo prelado enviou cpia de todos os documentos substanciaes d'este conflicto ao ministerio da justia, esclarecendo o seu poder em Roma. O governo, accusando a recepo do relatorio e documentos appensos, absteve-se do louvor e da censura. Nem o louvor se fazia mister ao socego do pundonoroso bispo: nem a censura, se tamanho vilipendio sahisse imparceirado com a inepcia, poderiam molestal-o seno como testemunho de impertinente ignorancia ou refolhada hypocrisia. Entretanto, ao passo que uma parte da imprensa louvava a probidade do snr. D. Antonio, fundamentando o elogio em racionalissimos argumentos por nenhum modo attentatorios dos justos direitos da theara pontificia, alguns menos sabios que pios fautores da moradia perpetua do espirito sancto no Vaticano, e do patrimonio do principe dos apostolos, e da legitimidade monarchica de Innocencio IV e Joo XXII sahiram contra o snr. bispo de Vizeu, j em periodicos mais ou menos trasladados mascavadamente de Joseph de Maistre, j em cartas impressas e subscriptadas com irrisorio desplante e grosseiro desprimor ao douto prelado. No redarguiu S. Ex. a semelhantes artigos e cartas constantes de maravalhas triviaes de sabatina do primeiro anno theologico com que usa estofar-se esta ordem de coisas piamente ignaras--quaes o auctor d'este opusculo as escrevia n'um tempo em que estudava historia ecclesiastica, provando assim que a no tinha estudado. No redarguiu S. Ex., por que no se houve por deslustrado com censuras innocentes quasi degenerando em parvoiadas. O antigo mestre de sua congregao, o doutor em theologia, o lettrado, o bispo no devia responder. Abstrahido politica, e empenhado novamente nos seus cuidados apostolicos, apercebia-se S. Ex. para visitar o restante do seu bispado--como remate mais capital tarefa da misso episcopal--quando foi convidado pelo snr. duque de Loul para ser parte no governo, cuja organisao lhe fra encarregada pelo rei, em seguimento queda do ministerio Avila. Inutilisadas as diligencias, resignou o snr. duque a melindrosa empreza. O chos assustava os mais intrpidos. Nem j os sedentos da honra de governar se atreviam a ensaiar a sua pericia pregoada nos comicios. Ento foi chamado ao pao o snr. bispo de Vizeu, e convidado a organisar ministerio. Aceitou. Corria-lhe obrigao de no esquivar-se a lances de alta responsabilidade quem se defrontra com todas as procellas politicas no decurso de quarenta annos tempestuosos. Aquella crise era certamente a da mais desnorteada mareao da no descalavrada; mas urgia crr e pensar na possibilidade de salvamento, sendo desde muito o porto almejado do insigne escriptor e parlamentar as reformas, os golpes fundos nos excessos, a amputao de abusos mo tenente, sem attentar na gerarchia das classes offendidas pela razoira economica. Cuidou certamente o snr. bispo de Vizeu que a dolorosa experiencia dos ultimos successos politicos seria forte alavanca para derruir obstaculos, manejada por pessoas cujos precedentes no illudissem a confiana da nao. Esta esperana, denotando peito de rija tempera, argue no extremado conhecimento dos homens. Difficultou-se, ao mesmo tempo, a escolha de ministro da guerra. Lembrou o snr. bispo convidar-se o snr. marquez de S, em quem lustram honra acrisolada com eminentes predicados de bom juizo. Aceitou o snr. marquez a pasta e presidencia. Aceitou por que s. ex. no sabe quando um filho de Portugal possa justificar a evasiva do seu prestimo no servio da patria. Comeou a funccionar o gabinete em 22 de julho de 1868. Todos os ministros eram alheios dos tumultos de janeiro que lograram a queda do ministerio Aguiar; apezar d'isso, o programma da revoluo no podia ser melhorado ou substituido. O estandarte, discreta ou indiscretamente arvorado pelos impulsores portuenses, proclamra batalha campal e inexoravel s prodigalidades, aos sacrificadores do povo, voracidade dos incartados no svo da fazenda publica. O lbaro era sympathico, sem impedimento de, em crises analogas, desde muitos annos, desfraldado por mos inexperientes ou vidas, apenas ter vingado toldar o ambiente d'umas poeiras, descondensadas as quaes o que se via era as arcas do thesouro cercadas de gente nova com os vicios velhos. Seria desacrdo, ainda assim, a vacillao do novo gabinete, se um desculpavel scepticismo lhe agurentasse a crena nos principios conclamados pelos tribunos. Adoptaram, pois, os novos ministros o programma das reformas, impetrada auctorisao das crtes. O fundamento da politica do ministerio em que o snr. bispo de Vizeu consubstanciava o espirito e actividade dos seus collegas, em poucas palavras se define: augmentar a receita e diminuir a despeza. Contra a ameaadora frma d'este moto de partido encapellaram-se para logo averses filhas do interesse, odios inconciliaveis de classes e individuos affeitos a considerarem legitimos os gosos da sua regalada posio. Como e quando se tinha operado o milagre de extirpar o egoismo de cada um para melhorar a condio de todos? Quem tinha promettido ao novo gabinete neutralisar pela justia as foras congregadas dos descontentes? Em que ponto de apoio haviam de assestar a alavanca os temerarios reedificadores? Duzentos contos tinham sido aliviados ao onus da despeza, quando as hostilidades, pouco tempo clandestinas, romperam clamorosas. O funccionalismo tinha por si a imprensa mais qua nunca descortez, iniqua e desenfreada. Os mais engenhosos e eminentes na cathegoria dos publicistas, apagando os lumes sagrados com que tinham ministrado no altar da liberdade os seus talentos de bem pensar e aconselhar, em dias da gloriosa perseguio, pegaram de escrever objurgatorias tenebrosas em que a soltura da ida raras vezes se descasava da frma condigna. O ministerio S-Vizeu, na imprensa, era apoiado por poucos, mas desinteresseiros amigos, no querendo grangear algum com o dinheiro da nao. Os talentos postos a ganho refinaram na injuria quando se viram desdenhados como coisa funesta por tal preo. D'ahi as devassas ao recondito da familia, e o despejo das calumnias, que redundavam em deshonra de toda uma terra onde para taes entendimentos se havia fermentado na lama to desaforada licena. Na hoste dos funccionarios bandeou-se a legio dos engenheiros civis, classe bafejada no bero por taes prosperidades e mimosa condio que julgal-a-hieis, no meio do abatimento e desconforto geral, a mais bem acondicionada em um paiz opulento. Esta corporao, fadada para destinos incomprehensiveis, ao vr attravancar-se-lhes o accesso a collocaes ambicionadas, conjurou-se em hostilidade sanhosa dentro e fra do parlamento. Depois, os aspirantes ao poder dividiam-se em ministros que tinham sido e ministros que queriam ser. Dos segundos, o phrenesi impaciente de governar desfechou em destemperos que a historia sria no pde disputar ao dominio da baixa comedia. Tinha batido a hora em que se julgava com direito a uma pasta ou duas quem quer que tivesse aliado ignobil coragem de acirrar as iras da opposio a audacia de se julgar predestinado para salvar o paiz. Entre elementos assim desorganisadores espanta como o ministerio pde manter-se um anno sem extraviar-se da senda constitucional, escudando-se com a inconcussa honestidade de seus actos, respondendo aos motins do parlamento e das praas com imperturbavel segurana. D'entre os mais devotos do governo, muitos, atroados pelo estridor da opposio, comearam de sentir os vgados das consciencias que se reviram. Alguns poucos, que o tinham contrariado em incidentes inevitaveis, sustentaram a probidade por to distincta frma que no pde o final desfecho inodoar-lh'a. Quando a froixa maioria cuidou conjurar a tempestade, sacrificando dois ministros menos favorecidos de apoio, a pugna recrudesceu, por que os ministros retirados deixavam apenas duas pastas, e os candidatos se haviam multiplicado a ponto que no cahia em foras humanas fazer supurar tanta aposthema de ambio debaixo das fardas de s dois ministros. Simultaneamente, na camara alta, um homem de lettras florentes, acepilhada eloquencia e bons quilates oratorios para mais uteis triumphos, profligou o ministerio com inflammada pertinacia, ao mesmo passo que notaveis mediocridades vociferavam, provando que a syntaxe e prosodia no so condicionaes para applausos. N'esta extremidade, o snr. bispo de Vizeu, para quem tinha corrido um anno de acerbos dissabores e excruciantes desenganos, sentiu o desalento que prostra os homens de bem, e lhes no permitte impr, por meios fortes, s rebeldias irracionaes uns sentimentos que ellas no aceitaram do procedimento liso e franco. Perdido o apoio n'uma questo momentosa, o ministro do reino briosamente repulsou o alvitre de sondar o espirito da camara n'outra votao. A insistencia daria azo suspeita de que S. Ex. timbrava em permanecer ministro, disputando soffreguido febril de seu successor misso to pouco para invejas. Demittiu-se o bispo de Vizeu. O gabinete cahiu. Esta nova, posto que esperada, impressionou tristemente a maioria da familia portugueza. N'esta maioria bem de entender que no se incluiam as classes prejudicadas pelas reformas. O elemento mais sensivel e respeitavel do paiz para quem o nome do snr. bispo de Vizeu foi cauo de porvindouras prosperidades, era o povo que sustenta o funccionalismo, o povo agricola, o povo industrial, o povo que labuta no tracto mercantil. Para muitos a misso do ex-ministro do reino, embargada por cobiosos e perfidos a meio caminho, deixou como inexequivel qualquer tentamen de proseguil-a na ladeira, cuja escabrosidade incute mdos a quem j viu as ganancias que auferem os reformadores arrojados. Quem no sentiu pungimentos de saudade do poder foi o snr. D. Antonio Alves Martins. Se elle poder esquecer as injurias da imprensa e a maleabilidade das consciencias em que esteiava a inteireza da sua, ho de sobrar-lhe memorias dolorosas de um anno de vida desasocegada e fra do remanso de seus estudos e das consolaes da sua recatada beneficencia. O povo que, ha pouco, o saudou com amoroso enthusiasmo, hade invocal-o ainda, em dias que se vo preparando para grandes provas. E o snr. bispo de Vizeu voltar de novo lucta e ao sacrificio, terminando o cyclo glorioso de sua vida, qual a comera, em prol da liberdade, cujo bero elle embalou entre ferros. FIM [1] No reinado do snr. rei D. Sebastio que os Religiosos (_regulares da 3. Ordem_), amantes da patria, do servio do rei, da sua gloria e do zlo da religio catholica, a exemplo dos distinctos missionarios, que tinham fructificado tanto na Azia, foram infausta jornada d'Africa, acompanhando os seus parentes e amigos, capelles dos teros e das nos de transportes, em servio da cora... ficando desde aquelles dias conservado o distincto logar de capello-mr das armadas reaes em Religiosos d'esta congregao, por especial graa dos Soberanos d'esta monarchia. _Fr. Vicente Salgado. Compendio historico da Congregao da Terceira Ordem de Portugal. Lisboa 1793_, 8., pag. 71, e seg. Ao mesmo preposito, veja o arcebispo Cenaculo nas _Memorias historicas_, _Appendix Segundo_, art. _sobre a Capellania-mr_, pag. 297, onde vem transcriptos excerptos das _Ordenanas de Marinha_ de Filippe IV. No parea prolixa e descabida a nota. Ha poucos mezes que mais de uma gazeta presumidamente illustrada fingia ignorar que os capelles da armada eram obrigados ao exercicio d'esse ministerio. O proveito d'esta simulada ignorancia rendia to smente aos publicistas injustos a satisfao de poderem denegrir o ministro do reino, de 1869, de miguelista em 1832, por que andra por aquelle tempo em navio do governo na qualidade de capello. No so estas impericias as de que mais se peja a liberdade de escrever. Seria mister que a ignorancia fosse, por meio da gazeta, contagiosa para que semelhantes aleivosias vingassem. [2] Nos _Apontamentos sobre oradores parlamentares em 1853 por um Deputado_, (O snr. Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara) l-se cerca do snr. Alves Martins: Tem physionomia carrancuda e um pouco desabrido no seu trato. Quando aggride o contrario, no usa precaues oratorias, nem cuida em lhe dourar a pilula. Est sempre em occasio proxima com o snr. Antonio da Cunha e, se travam lucta, no ficam a dever nada um ao outro. [3] Em 1849, Jos da Silva Passos, fiando demasiadamente da nossa idoneidade para historiador, nos convidou a escrever, sob sua influencia, a _Historia da Junta do Porto_. Como lhe perguntassemos que valor deviamos dar ao _Nove de Outubro_ escripto pelo snr. Alves Martins, nos respondeu o ex-ministro da Junta: Alves Martins no sympathisava comnosco. Se o tivessemos feito ministro da guerra, tudo isto tinha voado n'uma barrica de polvora. Jos Passos, gracejando, consoante o seu genio s vezes brinco, n'aquellas palavras desconcertadas de sentido e substancia, elogiava involuntariamente a actividade resoluta de Alves Martins, e censurava a accomodaticia e transigente indole de alguns seus collegas postos em trabalhos onde o seu temperamento soffria grande violencia. End of the Project Gutenberg EBook of D. Antonio Alves Martins: bispo de Vizeu: esboo biographico, by Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco License: Share Alike