Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) AMOR DE SALVAO AMOR DE SALVAO POR CAMILLO CASTELLO-BRANCO A heavy price must all pay who thus err, In some shape; let none think to fly the danger, For soon or late Love is his own avenger. BYRON--_Don Juan, c. IV. est. 73_. L'amour n'a point de moyen terme: ou il perd, ou il sauve. V. HUGO--_Les Misrables_. PORTO EM CASA DA VIUVA MOR--EDITORA PRAA DE D. PEDRO A mesma casa em Coimbra, rua da Calada. Casa de Commisses em Paris, 2bis, rua d'Arcole. 1864 PORTO--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA Cancella Velha, 62 A JOS GOMES MONTEIRO _Meu amigo_ _Peo licena para inscrever o seu nome na primeira pagina d'este livro. Esta fica sendo para mim a mais prestante da obra. As outras so futilidades; por que lagrimas e alegrias de romance tudo futil._ _No Minho, em 1864._ _Camillo Castello-Branco._ OBSERVAO O leitor folha duzentas paginas d'este livro, e o amor de felicidade e bom exemplo no se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Tres partes do romance narram desventuras do amor de desgraa e mau exemplo. A critica, superintendente em materia de titulos de obras, querendo abater-se a esquadrinhar a legitimidade do titulo d'esta, pde embicar, e ponderar--que o amor puro, o amor de salvao vem tarde para desvanecer as impresses do amor impuro, do amor infesto. Respondo humilimamente: Amor de salvao, em muitos casos obscuros, o amor que excrucia e deshonra. Ento que o senso intimo amostra ao corao a sua ignominia e miseria. A consciencia regenera-se, e o corao, rehabilitado, avigora-se para o amor impolluto e honroso. Assim que as enseadas serenas esto para alm das vagas montuosas, que l cospem o naufrago aferrado sua tabua. Sem o impulso da tormenta, o naufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou. Alm de que a felicidade, como historia, escreve-se em poucas paginas; idyllio de curto folego: no sentir intraduzivel da consciencia que ella encerra epopeas infinitas;--em quanto que a desgraa no demarca balizas experiencia nem imaginao. Para o amor maldito, duzentas paginas: para o amor de salvao as poucas restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranas terrenas, seria uma fabula. O AUTHOR. AMOR DE SALVAO I Estava claro o co, tepido o ar, e as bouas e montados floridos. O mez era o de Dezembro, de 1863, em vespera do Natal. A gente das cidades pergunta-me em que paiz do mundo florecem, em Dezembro, bouas e montados. Respondo que em Portugal, no perpetuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas theogonias, se no existisse a Grecia. No Minho, ao menos, se buscariam aguas lympidas para Castalias e Hipocrenes. No Minho, a Cythra para a me dos amores. Nos arvoredos d'esta regio de sonhos, de poemas, e rumores de conversarem espiritos, que os satyros, as dryades e os sylvanos sahiriam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se phantasia de poetas. Mas que flres... quer o leitor saber que flres vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. So flres a festes, cachos de corolas amarellas, viosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: a florescencia dos tojaes, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpetua verdura, unicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarellece, definha, e morre. E d'esse privilegio como que o agreste arbusto se est gozando soberbamente; pois que vos amostra as suas pinhas de flres, e com os inflexiveis espinhos vos defende o despojal-o d'ellas. E n'aquelle dia 24 de Dezembro de 1863 andava eu no Minho, por aquella corda de chans e outeiros, que abrangem quatro leguas entre Santo Thyrso, Famelico e Guimares. Eu, homem sem familia, sem mo amiga n'este mundo, ha trinta annos ssinho, sem reminiscencias de caricias maternaes, bem-quisto apenas d'uns ces, que pareciam amar-me com a clausula de eu os sustentar e agasalhar; eu, que, n'aquelle to festivo dia da nossa terra, no tinha colmado onde me esperasse um amigo pobre para me dar entre os seus um lugar no escabello, nem parente abastado, que de mim se alembrasse hora dos brindes com generosos vinhos em lucidos crystaes, eu, vendo-me com lagrimas em minha sombra, assim me fra a contemplar a felicidade alheia pelas chans e outeiros do devoto Minho. Eu caminhava a p, guiando-me ao sabor da imaginativa ida, que se deleitava em vestir de folhagem a arvore nua, e tristemente inclinada sobre o colmado do casalejo. Parava em frente de cada choupana, e meditava, e escutava o rumor das vozes que l dentro, ou no ressaio da horta, se misturavam em dizeres alegres ou cantilenas allusivas ao nascimento do Deus-menino. Diante dos portes gradeados do proprietario rico que eu no parava, nem meditava. Se l dentro de suas salas iam alegrias, como em casa do jornaleiro, no sei: o certo era que as paredes da habitao opulenta no deixavam sahir uma nota para o hymno geral de graas e jubilo com que a pobreza saudava o Emancipador dos desherdados, o Senhor dos mundos, nascido e gasalhado nas palhinhas de um presepio. O sol, desnublado de vapores, como nas tardes serenas de Julho, oscillava nas montanhas do poente, e azulejava as grimpas dos pinheiraes, d'onde eu, a contemplal-o, me esquecera da distancia a que me alongra da casa hospedeira d'aquella noite. Transmontado o sol, desceu das cumiadas um toldo pardacento a desdobrar-se pelos plainos, a confundir-se no fumo das aldas, a identificar-se com o escuro dos arvoredos. Fez-se um silencio progressivo e rapido em redor de mim. Comeava a noite sem bafejo de vento. Nem j a rama dos pinhaes rumorejava aquelle seu saudoso sonido, que se me figura sempre a inarticulada toada de mui remontadas e remotissimas vozes de mundos que giram nas profundezas do espao. Tirei-me do meu enleio contemplador, e retrocedi pelo mal sabido atalho, antes que a cerrao completa me tolhesse de enxergar ao longe o alvejar da casa, entre dous outeiros. No valeu a precauo. s abas do declivoso montado, eram muitos os caminhos a cruzarem-se. Segui um sorte; e, como prova de que a sorte nem em escolha de caminhos deixou de ser-me sempre boa, segui o peor e o mais transviado de todos. Por volta de sete horas, depois de dobrar uns serros inhabitados, achei-me n'uma pvoa, onde me disseram que eu, por aquelle caminho, chegaria mais cedo a Roma que ao local onde me destinava. A pessoa, que respondeu assim minha pergunta, fallou-me d'uma janella envidraada, e acrescentou: --O senhor, se no sabe o caminho, como de facto no sabe, pelo tino incapaz de acertar. O que eu posso fazer mandar alguem ensinal-o; mas, se no fora ir hoje, pernoite n'esta casa, e amanh ir. Verdade que, n'esta noite, custa muito a ficar em casa estranha; porm... --Todas as casas so estranhas para mim...--respondi eu. --Pois ento, aceite esta que se lhe offerece da melhor vontade. O porto est aberto. L vou abaixo recebel-o. Entrei n'um vasto pateo, contornado de arcadas semelhantes s da claustra monastica. Logo em seguida, o hospitaleiro senhor do magnifico edificio sahiu do escuro da arcaria, e disse-me antes de me vr de perto: --Eu j sei quem recebo em minha casa, e o meu hospede, se tiver memoria dos seus relacionados de ha quinze annos, tambem me vai conhecer. --Pela voz ainda no--disse eu, encarando-o, sem vislumbres de vaga recordao. --Alli temos luz--replicou elle--Muito velho e desfigurado devo estar, se nem canda me reconhecer voss!... Examinei-o luz attentamente; e, como nem assim me acudisse memoria semelhana de tal homem, retorqui: --O senhor talvez esteja enganado commigo. provavel que nos vejamos agora pela primeira vez. --Ento qual de ns o romancista? Voss que os anda a procurar, ou eu que estou manso, quieto, e estupido em minha casa? Querer voss ir dizer em alguma novella que encontrou n'um recanto do Minho um visionario chamado Affonso de Teive... --Affonso de Teive!--exclamei eu--Affonso de Teive... o senhor?! Essas barbas... essa nutrio... --E estes oculos...--atalhou elle. -- verdade... esses oculos... --E estes tamancos!... --Pois, devras, o senhor Affonso de Teive... tu s Affonso... aquelle que tinha em Lisboa... --Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um phaetonte, e uma berlinda, e cavallos arabes, e paixes ideaes, e muitas paixes sem faisca de ida... Sou eu! este homem gordo, intonso, de oculos, de tamancos, este lavrador, que aqui vs, possuidor d'um thesouro que os reis do universo disputam ha dezenove seculos uns aos outros, e as naes disputam aos reis, e os individuos disputam s naes, e cada individuo disputa e destroe em si proprio e com as suas proprias mos: sabes que thesouro eu possuo, homem? --A paz? --A felicidade. --Isso uma historia!--atalhei eu--Pois tu achaste a felicidade?... e tu s realmente Affonso de Teive?... E estes dous pequenos?--perguntei eu, quando vi dous meninos entre seis e oito annos a correrem em direitura d'elle--so teus filhos de certo... --So, e l em cima no ouves o tropel que fazem os outros seis? --Pois tens oito filhos? --Espero o nono brevemente. --E s... Retive a palavra. Ia eu perguntar-lhe grosseiramente se elle era feliz com oito filhos; pergunta desculpavel ao Affonso, que eu conhecera desde 1845 at 1851. Eu tinha visto Affonso de Teive, em Coimbra, n'aquella primeira poca, matriculado no curso philosophico. Pertencia ao circulo de litteratos, creadores da _Revista Academica_ e _Trovador_; e tambem, nas horas furtadas s palestras litterarias--quasi sempre controversias cerca da primazia de Lamartine ou Victor Hugo--pertencia grande tribu dos _trossistas_, gente arruadora e desatinada, para quem as saudosas tradies do famigerado Jos Lobo no tinham ainda esquecido. Esta dualidade em Affonso de Teive era uma distinco, que o tornava menos agradavel aos litteratos circumspectos, e menos estimavel tambem aos camaradas das assuadas e motins nocturnos. Affonso era poeta n'um genero galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaude das elegias, se lhe dava para lastimar-se, ou carpir saudades imaginarias de mulheres, suas amadas, fugidas d'este lamacento globo para os plainos balsamicos do co. o que me parecera a mim. Tinha dias de escrever jaculatorias em verso, que dariam fama a um eremita da Thebaida; n'outros dias, satyrisava a religio, os dogmas, e a propria divindade com os apdos e dialectica d'um desbragado discipulo de Voltaire. E o mais para assombro que elle parecia sentir no corao o ascetismo de hoje, e a impiedade de manh: agora, iria de poz o pallio da extrema-unco murmurando as preces do povo, que no se peja de orar em publico e alta voz; e logo bem poderia succeder que, encontrando o mesmo prestito, no levasse a mo fronte para tirar o grro. A um homem assim dotado de to contradictorios espiritos, facil seria agourar-lhe grandissimos dissabores no trajecto da existencia: para os semelhantes d'aquelle funesto modlo, as estradas communs da humanidade no conduzem a paragem nenhuma certa; nem o corao nem o espirito aceitam leis immutaveis; a moral um facto, cujas condies deve e pde infringir aquelle a quem ellas no aproveitam; em summa, Affonso de Teive dava a prever um desgraado, a menos que em sua indole no sobreviesse uma das raras revolues, que inopinadamente transfiguram o homem moral, se no o abalo da mesma desgraa que opera esses prodigiosos reviramentos. Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863. Encontrei-o, depois, no Porto em 1848. Achei-lhe a mudana que influem os sales nos espiritos, para assim dizer, incultos da cortezania e graciosidade de que em geral carecem os mancebos sahidos dos cursos escolares. Affonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacs dos haveres de cada sujeito admittido sociedade portuense--pessoas, que vista do zelo com que indagam os minimos valores do sujeito, parecem habilitar-se para mordomisarem os bens de quem chega--e ouvi que Affonso era natural do Minho, filho unico j orpho de pae, e senhor de sua casa, estimada em cento e cincoenta mil cruzados. Em quanto a costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namro, borboleteava por diversos camarotes do theatro de S. Joo, assoprava zelos e raivas entre umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De escandalos, no rosnava cousa importante a opinio publica. A mocidade do Porto, por despeito, ou por outro qualquer sentimento igualmente natural que desculpavel, que, no intento de deprimir o Tenorio do Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a cousa, que varios maridos andavam enganados com Affonso de Teive; porm, como acontecia que os maridos indigitados se satyrisavam uns aos outros, observando e censurando cada um a demasiada confiana do outro, hoje cousa difficilima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se todos se enganavam, ou se no se enganava nenhum. Se o leitor considera que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a humanidade no ganha com isso nada, e por tanto n'este, e em muitos outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto, quando no seja preciso contextura d'este romance desvelar factos censuraveis. Affonso sahiu do Porto n'aquelle mesmo anno de 1848, com destino a Frana, segundo uns, e Turquia, segundo outros. Os d'esta opinio diziam que elle, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para terra onde podesse vestir-se de modo que o rosto lhe sahisse melhor do que entre uma gravata de laarias portentosas e um canudo de felpo lustroso. E certo era que o typo physionomico do cavalheiro minhoto era sobremaneira arabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da tez azeitonada, do espesso bigode negro, e do comprimento e magresa do rosto. Se ajuntarmos a este composto de venturosas e aventureiras feies o estar elle sempre fumegando por cachimbo turco, dir-se-ha que os turcos que propriamente, l na sua terra, o andavam imitando a elle. Se foi Turquia, de presumir que rivalidades com o sulto, ou--peor ainda--tentativas de invaso ao harem o obrigaram a voltar a Portugal, onde os direitos de cada homem e de cada mulher esto muito mais razoavelmente definidos e garantidos. A verdade que eu, no fim do anno seguinte, encontrei Affonso de Teive em Lisboa, cavalgando um donoso alazo ao lado de uma amazona, cujo mursello fazia admiraveis gentilezas de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, n'uma tarde de corridas equestres. Alguem cuidaria que a soberba cavalleira, d'uma formosura invejavel na Circassia, devia de ser a esposa raptada d'algum _gran-visir_; pessoas, porm, melhor informadas, disseram-me que a esvelta dama era portugueza de lei, portugueza do Minho, dos arrabaldes de Braga, onde os reaes sensualistas do Islam mandariam subornar as suas sultanas, se soubessem que n'estas regies as mulheres, que, por acaso, sahem feias das mos da natureza, aprendem a ser bonitas com as flres. Releve-se este orientalismo a quem est tratando de cousas asiaticas como a cara de Affonso, e o garbo peregrino de Palmyra. Palmyra me disseram que se chamava a gentil creatura. Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto intimamente com Affonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de perguntar-lhe promenores d'aquella conquista--_conquista_ se diz vulgarmente do que devra mais de siso chamar-se, fartas vezes, _derrota_--nada indaguei, visto que elle, com insolito resguardo, se absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe cousas particulares da vida--_particulares_, dissemos, para sustentar palavra a fama que o diccionario faz correr; sendo alis de toda a evidencia que no ha ahi cousa mais nua, mais publica e assoalhada que tudo quanto se chamam _particularidades da vida privada_, mormente quando o divulgarem-se torna e redunda em philaucia d'uns tolos celebres, que seriam invejaveis, se as proprias coras, com que cingem as frontes, lhes no dessem muito que doer com os espinhos escondidos--quero dizer em estylo espalmado: se as proprias mulheres, que lhes do os triumphos, no fossem os instrumentos com que a justia infinita inflige aos vangloriosos o castigo infernal do seu orgulho. Foi-me preciso escutar os boatos correntes conta da mulher que Affonso de Teive me no apresentou. Observei que ninguem a julgava honestamente, e assim mesmo ninguem lhe dava um epitheto indecoroso. A civilisao beneficia assim as mulheres que no podem adjectivar-se publicamente virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente desvalido. N'esta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente. Quando um localista pregoa o donativo de alguns lenoes que opulenta matrona, por variar prazeres d'alma, j canada dos transitorios gozos d'outra especie, mandou a um asylo de lazaros, e diz que a humanidade abena a virtuosa senhora, no nos havemos de entalar com este decreto de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razo: bom que a palavra _virtude_ sirva de piedoso visco liberalidade de pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se _virtuosas_, experimentar a satisfao de se verem ir posteridade na seco do noticiario. O _noticiario_! Ninguem, que me conste, aprofundou ainda o que esta palavra encerra em si de humanitario! S. Paulo, todos os evangelistas, as catecheses derramadas de angulo a angulo da terra, em materia de caridade, no se avantajaram misso do noticiario. Se eu no tivesse de convico minha que as aces meritorias dos gabos do mundo, quando disparam em proveito geral, no podem desmerecer no juizo divino, havia de cuidar que a mo, aberta em fontes caudaes de ouro vertido, como balsamo, sobre as chagas sociaes, bateria s portas da regio pavorosa, onde o peccado da soberba, alliado da vaidade, soffre a condemnao prescripta nos codigos de todas as religies. A vaidade levanta o palacio em que se acolhem os desamparados d'um tecto de palha e d'uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontaes do asylo, atapta-lhe os porticos, ventila-lhe por janellas de luxuosa alvenaria os dormitorios, tudo lhe magnifica e opulenta em pedra e estofo: tudo lhe d em desconto das dres da velhice alanceada de enfermidades; tudo, excepto o po da alma, a doutrina da paciencia, a communho santissima, que refaz o espirito quando o corpo desfallece. Tudo lhe d, excepto um padre, um interprete do Christo, que d vida de amor ao seio traspassado, e palavra de pae aos labios roixos d'aquelle crucificado, que l do fundo do dormitorio contempla inertemente o deslaar-se fibra a fibra d'aquelles corpos, alli postos como prsa disputada, por mais alguns dias, aniquilao... --E no isto o maximo quilate da beneficencia? Que hei-de eu responder ao leitor illustrado, que me interrompe, assim de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o folego, pelo menos?! Peo-lhe que me deixe contar-lhe em cincoenta linhas, pouco mais ou menos, como eu vi, n'uma terra d'estes reinos, crear-se, e prosperar um asylo de pobres. D. Elvira era uma dama casada, que no tinha por seu marido aquelle amor que d ao peito da boa esposa arnez de ao contra as frechas de um cupido estranho. O marido, nimiamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui est um mal enorme d'onde vamos vr brotar uma enchente de beneficios humanidade. O paradoxo demonstra-se d'este theor: D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira dos seus illicitos amores, uma octogenaria, que tinha quatro irmos velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas, e cinco sobrinhos velhos, todos mais ou menos glutes que ella, e alguns muito mais ociosos e patifes. D. Elvira occorreu por algum tempo s precises de toda esta tribu de immoraes, em obsequio interventora indispensavel. Uma vez, D. Elvira orou as despezas annuaes d'esta peccaminosa obrigao, e pasmou do seu desperdicio. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas, porque o descobrirem-se daria rasto suspeita. Na terra havia dous jornaes, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua presumida rival D. Benedicta por mais d'uma vez tinha sido abenoada pelas gazetas; em nome do genero humano, em virtude de ter mandado aos presos os sobejos d'um jantar dado no dia natalicio do marido, a quem ella estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente da virtude que os jornaes lhe deram. D. Elvira despeitada, um dia que o marido entrra d'ouvir o tocante sermo de um missionario cerca de caridade, commoveu-se, e prgou tambem sobre a mesma virtude theologal. O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lagrimas a proposta da fundao d'um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as economias da esposa. Discutido o programma, escolhido o edificio, oradas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia s gazetas. No dia seguinte, ambos os jornaes da terra retiraram os seus artigos de fundo para darem a circumstanciada noticia do caritativo instituto da virtuosissima senhora D. Elvira. Ambos os periodicos, compita, lhe deram estes regalados e maviosos nomes: Pomba de beneficencia; anjo da caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; me dos pobres; balsamo dos afflictos; esteio da decrepidez; lampada do Evangelho! Lampada no gostou ella que lhe chamassem, porque j a sua rival D. Benedicta costumava, no sabemos bem porque, chamar-lhe lampadario; seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabea, os quaes brilhavam e scintillavam maneira de lustre. Seria isso; mas D. Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfao, e com grande faina, em menos de tres semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo da sua caridade. O asylo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias depois o numero estava preenchido. E vai depois D. Benedicta, ciosa da popularidade que a sua rival vingra, combina-se com o marido, e delinea um outro asylo com capacidade para quarenta e oito velhos. Os jornaes que tinham gasto com a outra senhora os adjectivos, substantivos, e pronomes, empregaram em honra de D. Benedicta as interjeies. O artigo d'um comeava por _Ah!_ o artigo do outro jornal por _Oh!_ Fundou-se o asylo de D. Benedicta. Como na terra no havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta annos, inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadas, apresentaram certido de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantisse sob as azas caritativas de D. Benedicta, a quem as gazetas chamavam _a santa_! Aconteceu que passados quatro annos D. Elvira mudasse de residencia para outro mundo, onde os necrologistas disseram que ella ia receber a palma do triumpho. A caridade do viuvo esfriou, e veio a um accordo com o marido da _santa_. Transformaram-se n'um os dous asylos, j abundantes de esmolas d'outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humanissimo estabelecimento a um grau de prosperidade que no deixa nada a desejar, segundo asseveram as gazetas da terra. Agora queira o meu leitor curvar-se um pouquinho, e contemplar a raiz d'esta arvore evangelica, que braceja to ridentes frondes e tantos fructos de beno! Veja que herpes, que podrido, que bicharia l vai! E com este episodio respondi sua pergunta; e peo perdo de ter ultrapassado as cincoenta linhas promettidas. II Sinceramente no sei corrigir-me do vicio das divagaes. Ha quem defenda e demonstre que o romance philosophico deve ser assim alinhavado a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stael, etc. Na Alemanha ento dizem-me que as novellas so tractados de metaphysica. Se as minhas derramadas e extraviadas divagaes fossem ao menos metaphysica! Ser eu, sem dar tino de mim, um escriptor subtil, imperceptivel, impertinente, medonho, e, acima de tudo, serio! _Escriptor serio!_ quando se agarra a fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar prego da nossa seriedade de escriptor, a gloria vai procurar os nossos livros serios s estantes dos livreiros, e l se fica a conversar delicias com as brochuras immoveis, em quanto a traa no d n'elles e n'ella. O universo, e a humanidade principalmente ganha muito com os romances serios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou seis volumes de novellas de costumes moraes a ponto de toda a gente dizer que no haviam taes costumes em Portugal. Recebeu muito abrao d'umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos filhos a obediencia aos paes, aos proximos o mutuo amor, e humanidade o temor de Deus. As seis novellas eram glossas aos dez mandamentos. Esperava-se a regenerao das velhas virtudes portuguezas, logo que o espirito publico se balsamificasse da unco dos seis livros. Volvidos porm, uns dous annos, as estatisticas iam delatando em augmento a criminalidade publica. Espanto no meu amigo author, e desanimao melancolica nos editores! No obstante, a gente grave continuava a dizer que o meu amigo, continuando a escrever por aquelle theor e geito, endireitaria o mundo. Os editores, porm, observando que o mundo se entortava cada vez mais para elles, recommendaram ao escriptor moralista que vendesse a elles romances, e a quem quizesse os sermes. Ora, deu-se o caso de que este meu amigo era eu em pessoa. Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros serios, teimo em ir n'este rumo, discorrendo opportunamente cerca das grandes cousas e dos grandes factos como se viu do anterior capitulo. Volvendo a concluir as reminiscencias que tenho do antigo Affonso de Teive, resta-me ajuntar que o deixei em Lisboa no anno de 1851, e vim para o Minho onde me disseram quem era Palmyra, fallando eu em Affonso de Teive a um cavalheiro de Braga. Em primeiro lugar, Palmyra tinha outro nome na sua terra. Fra educada n'um convento; sahira do convento para casar com o filho do seu tutor, moo idiota e abominavel; e sahira de sua casa para a de Affonso de Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de se verem mesma hora em que ambos, embellesados no rumorejar d'arvores e fontes, pediam ao co, ella o homem, e elle a mulher do seu destino, resultou amarem-se tanto que logo d'alli protestaram tacitamente immolar aos deuses infernaes o marido idiota--destino miserrimo que no descrimina entre idiotas e atilados. Estas informaes sahiram-me com o tempo inexactas em muitos accidentes. No adiantou mais nada o cavalheiro bracharense; e isto j no era pouco para o meu espanto. N'essa mesma poca, occasionou-se-me conhecer o marido de Theodora, melhorada em Palmyra. Andava elle na feira do S. Braz em Landim, a tantos de Fevereiro, comprando bois, e vendendo cevados. No lhe vi no semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que elle comia tripa frra um chorumento jantar de carnes frias, em que predominavam as galhinaceas. sua direita estava uma mocetona espadauda, escarlate, alta de peitos, e refractaria a toda a ida de amor fino. Disseram-me que esta moa aprecira devidamente o corao rejeitado por Theodora, e assava com perfeio as louras galinhas de que o marido abandonado hauria vigor com que resistia briosamente sua desgraa. Vi tudo isto; e fiquei satisfeito. A gente folga de vr assim remediadas as enfermidades da natureza. Quando em casos analogos, no ha victima nem algoz, e os personagens se acommodam na livre pratica da liberdade dos cultos, bem que o vicio no deixe de ser vicio, comtudo consolador observarmos que uma certa philosophia a melhor orthopedia para os aleijes de nascena de que a torta humanidade coxa ha dezenove seculos. o que eu sabia e mais nada. Como Affonso cahiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que feito era d'elle. As minhas desventuras no me davam ferias para farejar as alheias. Se alguma vez me passou pela ida a esposa infiel do feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e assim duramente castigada pela Providencia. Em quanto ao seductor, apostaria que elle, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou aspirante de alfandega, se que no tinha ido para o Brazil, com o seu diploma de bacharel em philosophia, colleccionar conchas por conta d'algum muzeu de historia natural. Agora v o leitor o meu assombro justificado! inquestionavelmente este homem gordo, de barbas intonsas, oculos, e tamancos o Affonso de Teive da Palmyra de Lisboa. Elle aqui vai subindo as escadas, que nos levam primeira sala. C esto em redor d'elle e de mim os oito filhos, que fazem bulha como trinta e dous. Creio que estou no pateo d'um mestre-escla sahida d'aula. Dous d'estes ferozes meninos tiram-me da mo o guarda-sol, abrem-n'o e fecham-n'o repetidas vezes, arremettendo contra os irmos, que se defendem espancando a murros as varas da umbrella que gemem e entortam. Affonso gosta de vr aquillo, e eu finjo tambem que no desgosto, nem receio de ser esfarrapado por aquelles innocentes. Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas, mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes, grandes bancas de pau santo, com gavetas atauxiadas de frisos metallicos e de marfim. --A decorao diz com as minhas barbas!--reflectiu o risonho Affonso. Aqui tudo portuguez--acrescentou, mandando inutilmente calar a gritaria dos meninos que, a meu vr, legitimavam a raiva infanticida do Herodes--At a linguagem portugueza de lei: olha que estou fallando vernaculamente, meu amigo. Ha quatorze annos que tu me convidavas urbanamente a no insultar os Lucenas e os Sousas com as minhas francezias. Vem vr a minha livraria; se no queres primeiramente vr minha mulher. --Tenho muita honra e satisfao em ser apresentado a tua senhora--atalhei eu. --Joaquim!--disse Affonso ao filho mais velho--Vai vr onde est tua me; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos c um hospede, que no exige vestido de sda. Que apparea como estiver. O menino sahiu aos saltos de cegonha, e Affonso ajuntou: --Minha mulher um anjo, cujas azas brancas se no mancham na felugem da cozinha. Eu gosto que ella por l se entretenha, se no bate-me n'estes bregeiros, que, como vs, so dignissimos de grossa pancadaria; mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, por que a dizer-te a verdade j me de a cabea quando no ouo esta algazarra. E tu gostas de rapazes? --Gosto muito, acho muito galantes os teus meninos; mas se me ds licena, dir-te-hei que em doenas de enxaquca, o teu remedio no seria to efficaz nas minhas como nas tuas. --Bem sei--atalhou Affonso--Falta-te cabea de progenitor, falta-te ouvido de pae que converte em musica no corao estes berreiros, que nem no inferno se poderiam receber como orchestra. No se fez esperar a esposa de Affonso. Era uma senhora para seno descrever em romances, e para admirar-se entre seus filhos. muito difficil e requer engenho grande tirar as semelhanas d'uma mulher, que se apresenta simples, modesta, e, logo primeira vista, impropria de novella. --Aqui est, e te apresento, minha mulher--disse Affonso, e tomou-lhe dos braos a creana mais nova, que lhe saltra ao pescoo, apenas a vira entrar na sala. A esposa de Affonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso comprimento, e tomou nos braos outro filho, que marinhava pelas costas da cadeira, e mostrava a cabea sobre o alto espaldar de couro. Como se no ageitava outra especie de conversao, fallei nos meninos, gabando-lhes a formosura e a esperteza. Affonso, que parecia no querer outra cousa, comeou a contar-me anedoctas das suas creanas enthusiasticamente, algumas medianamente engraadas, e outras que eu no pude ouvir, conta da bulha que os pequenos faziam em volta da me. No entanto, fiz reparo n'ella. A senhora teria trinta e oito annos, e formosura, por fora natural, j decadente. Trajava roupas largas, talhadas sem esmro, de droga ordinaria; a belleza das frmas corporaes, denunciava-se apesar do trajo descuidado. Semblante assignalado de tanta doura e bondade no sei que o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa quelle mavioso rosto pallido, quebrantado, e no sei que de scismador; a expresso, porm, dos olhos brandos, do sorriso quasi imperceptivel, do collo um pouco inclinado em postura humilde, eram n'ella a alegria exuberante de santa sim, mas santa como esposa, santa como me, santidade de corao e alma repartidos entre Deus, esposo e filhos. Pouquissimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve comnosco. Conheci-lhe a inquietao cuidadosa no relancear d'olhos ao marido. --Bem sei, disse elle. Vai, vai, que ests a pensar nas rabanadas e nos mexidos. E ella, sorrindo, disse: --Ainda me no apresentaste ao teu amigo como uma soffrivel interprete da arte de cozinha. --Interprete!--exclamou elle--Tu s mais! Tu inventaste a sciencia da cozinha, que muito mais sublime que arte. A tua modestia que te no deixa vir luz do mundo, d'este mundo cujas aspiraes confluem todas para a gastronomia, com um tractado, que, ao mesmo tempo, me dsse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espao e remanso para as tuas especulaes, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambroziacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiaes gargantas. A alda, meu bom amigo--continuou Affonso voltando-se para mim com solemne e galhofeira seriedade--a alda dispensa ao espirito investigador um curso completo de sciencias. A poesia do estomago, esta mais que todas poesia humanitaria, no se d nas cidades; l come-se materialmente; aqui d-se ao espirito a presidencia em todas as materias assimilaveis. Estou com o nosso admiravel Castilho n'estas memorandas palavras: Longe de mim negar puerilmente s cidades suas vantagens sociaes; digo s que para a poesia se no fizeram ellas; e que, se n'essa fragua algum engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem to bom, nem to innocente, nem to perfumado, como seria sem duvida nos campos. E a poesia que ?--acudiu Affonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citao--o que a poesia se no aquelle estado diphano e sublimado da alma, que se est engolfando e gozando n'um envolucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exhalao crassa d'um estomago derrancado, azedo, e intumecido? Pois has-de tu saber que um estomago limpo a fonte de todo saber; e que a sciencia constructora dos selectos alimentos do sangue a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os affectos da alma--Logo... A esposa tinha sahido quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaas de longo flego. Eu estava ouvindo, como quem sonha, Affonso de Teive. Andavam j a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na alda; e posto que a defeza do paradoxal consorcio entre estomago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Affonso havia soffrido profundas commoes que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objectos do mundo exterior. Eu no podia convencer-me de que a felicidade alterasse d'aquelle modo o genio e maneiras d'um homem, que eu jmais ouvira preconisar as regalias do estomago. Crr que o bem-estar da alma procedia d'uma brutificao d'ella mesma, e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivencia de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras, e das magnificencias da arte, em fim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdesa, e falsificao no caracter de Affonso de Teive. Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos annos o espirito menos propenso que eu vira paz dos campos, e ao absoluto apartamento da sociedade. Estava a ca na mesa. Que enorme ca comemos, e que estrondoso ruido fizeram os meninos! III No dia seguinte, ao domingo de festa que eu passei com Affonso, reapparecera o sol magnifico da vespera. Affonso de Teive mandou apparelhar um ordinario garrano, o qual, no dizer do dono, era um luxo nas suas cavallarias, visto que Affonso raras vezes sahia para alm dos muros da sua quinta. Da residencia do reitor veio de emprestimo uma egua apparelhada de albardo, e estribos de pau que pareciam alqueires. Depois de almoo cavalgamos, embrenhamo-nos por uns quinchsos pedregosos, e sahimos estrada entre Guimares e Famelico. Estava destinado um passeio de duas leguas. A egua abbacial era to firme no piso, que eu dei de mo s redeas, formei d'um estribo o travesseiro, e deitei-me no albardo, para admirar horisontalmente a natureza, maneira de vr que eu recommendo aos curiosos que ainda no viram assim a natureza. Ao meu lado ia Affonso de Teive, corcovado sobre o pescoo do garrano, que no obedecia redea nem espora: era preciso fallar-lhe rijo, ou espertal-o paulada. E Affonso ria-se. --Quem te viu e quem te v, Affonso de Teive!--exclamei eu--Quem te viu em Lisboa n'aquelle cavallo preto, que levantava ferozmente as patas, como para te cuspir calada, e as abaixava humildemente e a tremer, se tu lhe murmuravas uma palavra. Quem te viu ao lado d'aquella Palmyra... Mal proferi esta palavra, Affonso cravou-me os olhos subito abrazeados do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutao de rosto. Voltou a face para onde eu no podia vr-lh'a; e, passados alguns segundos, murmurou: --L se foi a alegria do nosso passeio. --Porque?!--acudi eu--perda-me, se involuntariamente feri a tua sensibilidade... Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava um abysmo incomprehensivel aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz eram indifferentes as recordaes dos bons e dos ruins tempos da mocidade. Affonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe: --Tu ignoras a minha vida desde 1850? --Juro-te que no sei nada da tua vida, respondi. --E d'essa mulher, que chamaste Palmyra? --Nada sei, seno que... --Diz o que sabes... que hesitao a tua? --Apenas soube que era casada, que sahira d'aqui para Lisboa comtigo, e mais nada. As pessoas, a quem perguntei por ti eram os teus velhos amigos, que encolhiam os hombros, e diziam: quem sabe l. Desde 1856 que te esqueci completamente. Argue, se quizeres, a minha desmemoriada amizade; mas a verdade esta. Eu sou, pouco mais ou menos como todos os teus amigos. Asserenou-se o aspecto de Affonso de Teive, e fomos indo silenciosos, at apearmos em Guimares na estalagem da Joanninha, que est n'este mundo a competir em graas, limpeza, e poesia com a Joanninha de Almeida-Garrett nas _Viagens_. Jantamos, sahimos a vr a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergamos luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde, encostadas aos peitoris das suas janellas; entrevimos galantissimos olhos d'outras atravs das rotulas, que ainda agora nos esto contando virtudes d'outras eras, virtudes, que precisavam de rotulas, como as bellas flres exoticas precisam de estufa. Voltamos estalagem, tomamos ch, e uns pastelinhos que ho-de ir futuro alm relembrando o mavioso nome da snr. Joanninha. Depois pedimos duas camas n'um quarto, e tivemos a satisfao de vr que nos davam um quarto com cinco camas, ou cousa assim. --Ha dez annos--disse Affonso-- esta a primeira vez que durmo fra de minha casa. Acho-me s e estranho. Penso que estou a mil leguas de minha mulher e dos meus filhos. --Eu vou mandar apparelhar as cavalgaduras--disse eu--e vamos embora que est magnifica a noite. --No--redarguiu Affonso--que preciso estar a ss comtigo, uma noite. Debaixo das telhas que cobrem minha mulher os meus labios no proferem o nome de outra. Ella j sabe que eu fico em Guimares. Fallarei, e tu ouvirs, ou dormirs. Fallarei do homem que conheceste em 1851, para explicar o homem de 1863. Has-de vr que lamaaes atravessei, que resacas affrontei, como eu me bati de peito com as puas de ferro da desgraa, para chegar ao abrigo onde me encontraste. No pasmars ento da minha velhice precoce: ser-te-ha assombro a minha vida. Se s infeliz, consolar-te-has. Se o no s, recears sel-o. A noite, como sabem, era de Dezembro. s onze horas consummiu-se de todo a vella. Affonso de Teive continuou a fallar s escuras. Ao rasgar da manh, abrimos as portadas, e Affonso fallava ainda. IV No principio d'este anno de 1864, sahi de Ruives, onde, por espao de oito dias, me escondi minha estrella funesta--a vigilantissima desgraa, que eu ia esquecendo. No termo d'este praso, estranhei o socego das minhas noites, faltou-me a mo do demonio que me arregaava com dedos de fogo as palpebras quebrantadas de somno, e fui procura d'elle. Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho de casa, com sua esposa e filhos. As ultimas palavras d'elle foram: quando tiveres o livro escripto, deixa-me gozar a no vulgar satisfao de me vr personagem, e heroe d'um romance, que me promette uma immortalidade... --De quinze dias--interrompi eu. No longe da obscura paragem de Affonso de Teive, margem do crrego chamado Ple, riacho, que, pela primeira vez, revelado ao mundo em letra redonda, assentei eu a minha tenda nmada. A minha tenda so uns vinte volumes, um tinteiro de ferro, e um cabo de penna de osso, que me deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentra tambem a minha tenda,--ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu sestro vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relao do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, no impedia que esta minha to querida penna, to amiga confidente d'aquellas trezentas e oitenta noites--de Janeiro todas, que l a dentro dos congelados firmamentos de pedra, reina perpetuo inverno, e giam as abobadas, no sei se lagrimas, se sangue, se agua represada nos poros do granito,--no impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o seu incansavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos da alvorada, me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar de graas ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao perscrutar do anjo providencial que me dava a unco dos athletas e dos grandes desgraados, para mais affrontosos e excruciadores supplicios. Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, esto hoje sob o tecto gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. No sei ha que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre. Parei aqui, por que ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no corao em instantes de sonhos do co, ainda a pedra tumular das affeies, cahidas voragem infernal do desengano, est pendida sobre a derradeira: que a saudade ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptivel que o passado nos herda. A casa, onde vivo, rodeam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante soido a linguagem da noite que me falla: parece-me que voz d'alm-mundo, um como borborinho que referve longe s portas da eternidade. Se eu no amasse de preferencia o socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do crrego onde vou cada tarde vr a folhinha secca derivar na onda limpida; amaria o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra bruta as geraes pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens felizes que to illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte. Aqui, se Deus se amerciar de mim, embargando o passo ao anjo exterminador, que continuo me assalta os aditos do meu eden de quinze dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a narrativa que Affonso de Teive me fez. Seis mezes ha que se fez noite do meu espirito. Por arrebatados impetos de quem quer furtar-se s garras de um imaginario drago, tenho fugido para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas imagens, filhas do co, que, nos dias da mocidade fremente de ms paixes, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal, psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi a suprema provao, a forja ardentissima em que minha alma foi lanada voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a negrura do corao, eram tudo trevas, frio, lethargia, esquecimento. No sei de que futuro abril do meu porvir me veio esta manh um bafejo aromatico de flres, umas ondulaes de luz, que me pareciam as da minha juventude. Tudo me visitou como em mos do fugace archanjo do contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu espirito ergueu-se alvoroado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso que na immensidade dos seus mundos ainda guardar para mim um quinho de alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia repousada, prelibaes de bem-aventurana, e honrada alliana com os homens. Penso que estou escrevendo as tuas palavras, meu amigo, redemido a lagrimas, a ultrages, e a desapgo do mundo. O claro, que hoje alumiou a minha alvorada, seria por ventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias me disseste: Sabes tu o que ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos pova o espao onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respirao afflictiva? Querias tu dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolao, e ao mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam sua alma antes que a irreligiosidade os escarnecesse: OREI, meu amigo; porque, n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas de contar, interrompi o teu silencio, perguntando: --E que fizeste depois? E tu respondeste-me: --Depois, OREI. V Affonso de Teive estudava, ha hoje vinte annos, em Braga, os elementos preparatorios para o curso universitario, quando viu Theodora, conhecida pela morgadinha da Fervena. Era ella ento menina de quatorze annos. Affonso tinha dezesete. As mes d'estes dous meninos, entre-vistos e amados com o innocente attractivo do beijo aerio na flr a desatar-se e a enrubecer na tige, tinham sido condiscipulas na educao d'um convento. Apartaram-se para serem esposas, com promessa de se continuarem a amar em seus filhos, se a sorte lh'os dsse com vocao para se unirem. Votos de virgens ainda, feitos com as faces purpureadas do calor do corao, que as levava contentes aos seus novos destinos. A me de Theodora igualou em fidelidade da palavra promettida a me de Affonso. Uma tristeza, porm, a desconsolava, e cada dia se espessava mais a escuridade em seu espirito: sentia-se morrer, aos trinta e tres annos, de enfermidade de peito, e deixava Theodora em annos verdes, solteira ainda, merc e alvedrio de tutores. Na ultima phase de sua vida, foi ella a Braga com sua filha, de proposito a encontrarem-se com o moo predestinado a esposo, j esquecido, talvez, dos primeiros annos em que se haviam conhecido creanas. O vr com que alegria elles se reconheceram, e saudaram, como avesinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manh, melhorou temporariamente a enferma; porm, a muito rogada vontade do Senhor no lhe concedeu os dous annos de vida pedidos para a effectuao do casamento. Segredos do co previdentissimo; que, a no o serem, estes rogos de me, em favor da virgem, que vai ficar sosinha no mundo, com os seus dous inimigos--innocencia e formosura--taes rogos baldados, e indeferidos em Deus, induziriam a argumentar contra a mediao do Creador nas miserias que creou. Apenas fallecida sua me, Theodora foi recolhida ao convento das Ursulinas, por deliberao d'um tio paterno, constituido espontaneamente tutor da orphan. Affonso, aconselhado pelo corao e por sua me, visitava a educanda, disfarando as frequentes visitas com a innocente mentira de parentesco. Theodora, com dous mezes de convento, desenvolveu-se e grangeou sciencia da vida que no alcanaria em dous annos de alda, da sua solitaria alda, onde tinha apenas aves, flres, e estrellas a segredarem-lhe iniciaes para amor. No convento, as preleces eram menos vagas, e mais acommodadas capacidade das educandas. certo que as mestras no leccionavam ternuras; mas o zelo, com que ellas vedavam o pomo, dava a desconfiar que as precautas religiosas lhes tinham saboreado o travor; a no ser que o desdenhavam mingua de dentes incisivos com que entrassem na casca d'aquelle execravel e to convidativo fructo de Pentpolis. Com menos de quinze annos, Theodora completou o exterior de suas graas, e o interior do seu espirito. A belleza sabia ella j quantas invejas lhe ganhava entre as condiscipulas, quantas intrigas, quantas reprehenses da mestra, conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao espelho. No importava. A morgadinha da Fervena gostava de ser bella, de ser invejada, e perseguida das inimigas, com condio e resalva de ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Em quanto ao espirito, o saber precoce de grades a dentro igualou-a, se no antes avantajou-a muito ao estudantinho de Ruives que, contra toda a natureza e arte, em colloquio amoroso ficava muito quem de Theodora, e sahia do locutorio admirado da esperteza palavrosa da morgadinha. Estas delicias do palratorio, porm, foram repentinamente suspensas. O tio e tutor de Theodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas, contra o seu costume, tomaram entre dentes, impoz a sua jurisdico tutelar. A educanda reagiu sem proveito, e Affonso desafogou em lagrimas a sua saudade. A velha fidalga de Ruives, avisada pelo filho afflicto, foi a Braga consolal-o, e d'alli partiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consorcio de Affonso e Theodora, desde muito pactuado entre ella e a sua defuncta amiga. O tutor replicou, dando como nullos taes arranjos, em quanto os meninos no estivessem em idade de os ratificar. Affonso esmorecera em dolorosa lethargia, ao passo que Theodora pensava em fugir do convento. O instincto de associao, irrecusavel em empresa to arriscada, deu-lhe a conhecer a unica pessoa capaz de auxilial-a. Estava nas Ursulinas uma menina de Traz-os-Montes, de familia distincta, e costumes tambem distinctos em natureza depravada. Entrra alli como em priso; no obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas dilectas, l mesmo lhe espiritou traas de poder entender-se com quem quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a familia a desterrra. E que traas de infando successo, que revelao affrontadora da humanidade vai hoje eetampar-se n'esta pagina! A menina transmontana abrindo flr dos labios o sorriso condolente d'um anjo de candura, assellou com um beijo no rosto da sua recente amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tyrannia de paes e tutores. E posta, desde logo, em discusso a materia, quiz a morgadinha da Fervena, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento. Libana achou arrojado o intento da fuga, e desesperado sem razo, quando se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no convento para nunca mais vr sol nem lua. Contou ella, para exemplificar o perigo da fuga, a desgraa acontecida n'aquelle mesmo convento, uns trinta annos antes. Era a longa historia d'uma senhora, reclusa alli por violencia, que cuidando salvar-se pelos encanamentos subterreos dos escoadouros do mosteiro, morrera asphyxiada; e quando as freiras, a familia e as justias a julgavam foragida no estrangeiro, um operario occupado da limpeza dos vallos, encontrou um cadaver quasi esphacelado, mas ainda reconhecivel pelos trajos. Semelhante historia, contada e ouvida n'aquella casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e tirou-lhe do peito virginal esta observao: Tendo eu de morrer na immundicie dos canos, antes me deixaria morrer entre a immundicie das freiras. L em quanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar l em baixo como c em cima. A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu genero; mas assumptos d'esta grossura s podem tratal-os curiosamente engenhos claros e eminentes como o poeta dos _Miseraveis_, que poetisa os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estylo com que fallaria dos jardins perpetuamente olorosos do Elysio. Resolvida a sobre-estar do plano da fugida, Theodora travou-se de mui intima amizade com Libana, e formavam a ss um partido, que se fazia respeitar pela audacia da lingua, e soberba de sua prosapia e abundancia de meios. N'este conloio entrava uma servente de fra e uma criada de dentro, mediante as quaes Affonso de Teive recebia cartas de Theodora, e um cavalheirote imberbe de Traz-os-Montes, primo de Libana, recebia as cartas de sua prima. N'uma tarde de Agosto, sahiram as duas meninas a tomarem a fresca na crca. Com o geito scismador e melancolico em que iam, dirieis que eram as duas graas a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada d'alguma divindade incognita. Quem as visse, quella hora, depurativa das fezes de maus pensamentos e ms palavras, havia de cuidar que o seu dialogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empyreo, versava sobre os cos de Santa Thereza de Jesus, ou semelhantes devaneios do espirito embebecido no foco luminoso dos bem-aventurados. Agora se recostam ellas n'um escabello de cortia, cujo espaldar lhe formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flr do maracuj. Perto d'ellas trepida uma fonte; no tanque, onde a lua j principia a espelhar-se, coaxam as rans; a virao cicia nas ramas do pomar; zumbem os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas candidas meninas, enleadas na poesia do quadro, realam-no e completam-o. Ouamos a musica d'aquelles seraphins. Dizia Theodora: --Se me eu pilhasse fra d'aqui!... N'estas tardes to bonitas, havia de ser to bom andar eu a passear com o meu Affonso!... Queimado morra o meu tutor e mais o filho! Se no fosse aquelle bruto, no estava eu engradada! Libana, tu no fars com que nos escapemos d'este inferno! Olha... l est a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!... Libana voltou desabridamente as costas madre porteira, e acudiu n'estes termos aos anhelantes desejos da sua amiga: --Olha, Ll, no te zangues. A gente, a final, ha-de sahir d'aqui, muito a tempo de gozar a vida. Se no formos tolas, podemos ir gozando mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo? Queres vr quanto elle me ama? que sacrificio quer fazer por amor de mim? Olha, eu no quiz dizer-te o que me elle pediu na carta de hoje, com medo que tu me aconselhasses a no ceder; mas cedo, filha, cedo que a paixo no tem leis. Pede-me para vir ser minha criada. --Tua criada!--exclamou Theodora. --Minha criada; pois ento?--replicou Libana, abaixando o tom de voz, abafada pelo frouxo do riso--No ha nada mais facil. O meu Alfredo tem cara de mulher, e no tem ainda barba. Diz elle que se veste moda das raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha me a pedir-me que receba a portadora como criada; c no convento ninguem pde impedir-me que eu a receba; a gente hade ter todo o cuidado que se no descubra o logro; e... tu... que me dizes, Ll! Theodora acudiu com o rosto chammejante de alegria: --Olha l, Lili, o meu Affonso tambem tem cara de mulher, pois no tem?!... Se elle viesse tambem para minha criada era to bom! --O peor que elle conhecido, por ter c vindo muitas vezes--observou Libana--O meu Alfredo que s veio aqui no principio uma vez, e ninguem o conhece... No vamos ns botar tudo a perder, Lol! --Que pena!--exclamou a morgadinha com os olhos no co e a mo direita sobre o corao latejante--Que pena que o meu Affonso no venha tambem para c!... Libaninha, v se inventas alguma cousa, se no a tua amiga morre de tristeza!... E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lagrimas, no seio da amiga. Que lagrimas! D'onde veio ou para onde foi o anjo da innocencia, quando um peito virgem tem d'aquellas lagrimas, e uns olhos, que ainda no viram os hediondos espectaculos da fara do mundo, podem choral-as! Fechou-se a noite. J a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o brao, e foram, na cella de Theodora, continuar o recendente colloquio do jardim. Theodora, a no poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Animou-a temeridade de receber o atrevido rapazola de Tras-os-Montes, idolatra d'um personagem de romance, unico que em sua vida lra, o _Lovelace_, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas sahidas muito desgraadas ou irrisorias! Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralisadores, e luzimento d'outros livros de san moral, que s fazem mal ao publicador que os no vende. Este Alfredo, que vivia occulto nas cercanias de Braga, applaudido por Libana em seu projecto, foi sua terra preparar os vestidos, e ensaiar-se em tregeitos mulheris. Libana tinha uns irmos, oriundos do mesmo tronco de pae e me, os quaes pelos modos, no tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irman; d'onde vinha o serem elles grandemente avelhacados, astustos, e espies das tramoias de Alfredo. A villa era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas boccas, at aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafaes de mulher, afeioados ao corpo de Alfredo. Sem detena, um dos irmos de Libana sahiu para Braga; o outro ficou d'atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinao com as authoridades lanou a rede to a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponeza transmontana, e d'alli, entre baionetas, e escoltado de rapazio, percorreu todas as estaes judiciarias desde o regedor at s caricias do carcereiro. As religiosas, conscias do escandalo, requereram ao prelado bracharense a expulso da reclusa que deshonrava o convento e contaminava de sua desmoralisao as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmo, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzella, agourada para estremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognosticos da opinio publica erraram, como se ha-de vr n'um futuro livro. A gente no sabe ainda bem como este mundo est feito. VI O escandalo, que felizmente abortou portaria do convento, poz de sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas Ursulinas, e deu s insomnes freiras um sexto sentido de observao. Dentro do mosteiro reinava a opinio de que Theodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Alm d'isto, depois da expulso da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com invectivas e chacotas s freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes no servia assim. A communidade offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaas de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu diante da fora mixta das freiras e dos padres capellaens, que promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva. Vagamente informado da situao da sua amada, Affonso de Teive foi portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e de muita virtude, offereceu peito de martyr s injurias impias do acrianado amante. Porm, como quer que o acaso alli encaminhasse um cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mos atadas na cabea, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, j quando o allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros, chamando Theodora a clamorosos gritos. Travado pelos braos pujantes das authoridades, Affonso no pde resistir surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as foras da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braos da lei, balbuciando ainda Theodora! Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruives chegou a desfazer com a sua respeitavel presena, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho. Affonso, levado por sua me, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia, os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescena, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que despertava em brados e soluos; no obstante, a cura do amor, que chora, certa: ferida de corao, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis so os que desabafam em rancorosas exploses. A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvidrra que Affonso de Teive fosse completar os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio desembargador. O moo obedeceu s exhortaes e rogos de sua me, depois que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa. Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervena o era s em nome, sem vinculo, nem fro em ascendente conhecido. Contra estas razes se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustrao democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos christos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corras e Lacerdas da Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo que na casa de Ruives sobejava a fidalguia e faltava a felicidade. Foi Affonso para Lisboa com o capello. O tio desembargador gasalhou-o nos braos, e as primas, filhas do bondoso magistrado, mingua d'um irmo, comearam logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o no deixariam voltar mais, sem ellas, provincia. Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas mau estudante; no circulo dos condiscipulos um automato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as primas um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em que todas so eximias, e sobre modo impertinentes. A senhora de Ruives recebe de todos os correios instantes cartas de Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada me j por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Theodora j sahiu do encerramento da cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a crca. Ajuntam as informaes que o tutor da morgada frequenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nao de pretos, e uma casaca archeologica, de cabeo to copioso que parecia enrolar um capote. A descripo poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole no. Este sujeito chama-se Eleuterio Romo dos Santos, por ser filho de Eleuteria Joaquina, e de Romo dos Santos, tutor de Theodora, lavrador abastado, visinho do mosteiro de Tibes. Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lr com seu tio padre Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado. O filho unico de Romo dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia seguinte, o pae mandou-o feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo d'alli se deu a conhecer a sua vocao. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, at que Romo deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em bezerros e vitellas. Estava o rapaz n'este auge de glorificao propria, e inveja dos visinhos, quando falleceu a me de Theodora. A orphan, apenas sua me cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romo, seu tio paterno. A criana ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolaes de alguma senhora, que lhe fallasse a linguagem polida qual estava afeita. Em casa de Romo havia smente a snr. Eleuteria Joaquina, creatura chan, que, a cada soluo da sobrinha, dizia quasi sempre: --No chores, pequena; que a morte portllo que todos temos de passar. E, para no dizer sempre o mesmo, variava d'este theor: --Isto, como o outro que diz, hoje tu, amanh eu. Eleuterio, porm, menos versado em lugares communs de pezames aldos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito: --Senhora prima, olhe que o chorar faz mal s meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que no lhe d remedio. Agora o mais acertado divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de Famelico, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr. prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe c isso minha vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho com que ha-de comprar um grilho de duzentos mil ris, e umas arrecadas de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, ditado dos velhos. --Quem morreu rezar-lhe por alma--atalhou com m grammatica, mas com piedosa inteno, o tio padre Hilario. Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que j lhe ferviam nos gorgomilos. Ahi est uma amostra de Eleuterio Romo dos Santos. O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da oppresso do primo alvar, e da tia, mais boal do que racionalmente se deve permittir bondade de uma pessoa qualquer. Logo que a me de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lanou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na preciso de educar a menina, que fra creada com mestras, e de todo estranha vida agricola. Entretanto, Romo predispoz o filho a cuidar seriamente no _bonito arranjo, que lhe sahia a talho de fouce_: estylo figurado e pittoresco em que so inventivos os nossos camponezes, e em que Romo primava sempre que tinha entre mos algum _bonito arranjo_, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o proximo. Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de Theodora. Entre os galans da estfa de Eleuterio mulher de encher olho queria-se vermelhaa, alta de peitos, ancha de quadris, rolia e grossa de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beios grossos e oleceos. Theodora era o envez de tudo isto. Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica to de perto. Theodora, aos dezeseis annos, era um modlo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raas patricias, que o concurso de circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleio, escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e no do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida a que vem cantada em poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realesa do amar e padecer mulher pallida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ella se far amante e martyr, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o corao d'ao. Pde ser que semelhante clausula, no decurso d'este livro, acuda retentiva do leitor. Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, no vivos, antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feio, a mais rebelde aos desvelos da natureza, to extremada se mostrra ella, que bastante lhe fra aquella perfeio para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em labios, no sei se me valha das figuras antigas--rosas e coraes, romans e carmim--se me avenha com esta verdade prompta e fluentissima que d'um trao copia como o pincel, e d'uma phrase exprime tudo, como em phrases de Castilho: era um osculo perpetuo de innocencia. Como isto sahe bem na musica da expresso; e que bello seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no osculo perpetuo da innocencia! Theodora, se tu ento morresses, o teu rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, chrysalida! A tua essencia de co vaporou para l no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na ante-manh do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraa da mulher. Mas, afra a essencia pura do co, que esvelta, que peregrina mulher c se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podrido! Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora. Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na laga ftida da verdade. Achei-me como s margens d'uma sepultura reglida do giar d'uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriaram-se-me os dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas coras humidas de orvalho, crystallizado em lagrimas; so coras de perpetuas sagradas formosura, que se julgou immorredoura, sexta hora do seu breve dia. L vo as coras no bulco do vento; l vo esgalhadas as frondes do choro e do cypreste; l vai tudo; a memoria dos vivos l se foge tambem d'esta sepultura: tudo foi; s tu ficaste, Cruz! VII Belleza absoluta, de tlhas abaixo, ha uma s, que a da mulher formosa; e, na variada manifestao de belleza em diversidade de typos, ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na viso e admirao das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. D-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora influio dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moo, querendo exprimir ao pae a sensao recebida n'aquella hora, disse com expansiva naturalidade: --Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua grudava-se-me ao co da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse uma pastora de cabras! Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a conciso da ida poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por vezes umas idas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar. Romo ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Theodora. A menina, vesada linguagem mais florida ou mais delicada de Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fra compoz o gesto para fingir que o no entendera. O tutor, porm, instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, j dilucidando-as, as palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que elle, na sua locuo figurativa, denominava um _lindo arranjo_. A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos, que era j o terceiro que a insultava; sympathica doena em meninas pallidas, se o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho nervoso. Theodora soluava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na sua cella. A prelada foi grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a orphan era uma douda, a quem Libana, de impudca memoria, ensinra a fingir ataques nervosos. Romo dos Santos sahra do convento no proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energumena, mandou s freiras que depozessem crca das malfeitorias attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervena estava possessa d'uma legio de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, no as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era illustrado o egresso. No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fra para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moo aquella faanha. Porm, ninguem lhe dissera que dres o pozeram borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitaes fazia a me de Affonso para assegurar filha da sua defunta amiga a certa realisao do casamento. Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram sua conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio. D'antes, a cabea exterior do moo era horrida, toda escadeada da tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rpas caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois, appareceu Eleuterio com o cabello cortado escovinha, e os caracoes banidos. Depoz a casaca no gaveto-museu da familia, e envergou uma judia, como se usava ento, com matizes e flores nas costas, e borlas de apertar no pescoo. A pantalona continuava-se em polaina at ponta do p, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botes de madre-perola. Alm d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma familia, desde a tina do banho at bacia do lavatorio. Os berloques d'este thesouro, que no regulava ha quarenta annos, eram placas de differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam armas de defeza. Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afra mos e ps, que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admirao comparativa: era j grande salto dado para dentro do corao da menina. Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sa como paradoxo: e que o espirito de cada pessoa tem muito que vr com o modo como ella est entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idas sahem coxas e esconas do cerebro; a expresso tardia e canhestra denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me no tivessem confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate exercita importante alada. Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De vez em quando, o moo baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantal-os para sua prima j nos beios lhe borbulhava alguma ida bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se ficava algum tempo narcisando nos ps. D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a visitra. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se, e exclamavam: --Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia d'alli! Em Braga no passeia outro que o valha, nem quem o exceda. --Seu primo uma figura que d na vista!--ajuntava a mais maliciosa das freiras para no ficar em peccado com a sua consciencia. Theodora, quando acordou na manh seguinte, viu duas imagens: uma a ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria no pde j reter: era a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traos, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romo dos Santos. Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do co que nunca lhe parecera de to lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que menina se figuraram as delicias da liberdade. Amava ella Eleuterio Romo?! No amava, disse-o ella, e eu juro nas palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade no escuta, no acredita, e no perda. O que ella via em Eleuterio era o homem j desfigurado da repulso primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servido ao homem, que lhe vai descancellar os adytos do mundo. Assim que muitas mulheres tem amado aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por no haver mais elastico epitheto que dar cousa, que surdem os irremediaveis infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de p sobre s lousas infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e amaldioados na infamia de suas mes... Colho as vlas; que, n'este rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisao: cousa duas vezes importuna. Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruives que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta morgada, carta de esperanas, alento, e consolaes, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruives, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta promettendo menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora con-servasse firmeza, coragem, e constancia. --Dous annos!--disse entre si a morgada--Esperar dous annos n'este purgatorio!... Se Affonso me ama, porque no ha-de vir j roubar-me d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo espera de no sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle est gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... loucura! Quem me diz a mim que Affonso, n'este espao tamanho de tempo, se no apaixona por outra? Se me elle ama, como dizia, e a me me diz agora, quem nos impede de casarmos j? Se somos muito novos, l vir occasio de envelhecermos. O que eu tenho, meu j; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do conselho de familia... Dous annos!... E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco minutos, dizia: _Dous annos!_ e ficava meditativa, at de novo exclamar: _Dous annos!_ Respondeu a morgada me de Affonso que a sua saude se havia perdido na oppresso e dissabores d'aquella vida, em que to contrariada se via. Dizia mais que a preciso de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ella no amasse. Queixava-se da ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar todas as desditas. A virtuosa de Ruives, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo Virgem que defendesse Theodora dos seus funestos instinctos. E, desde aquella hora, a me de Affonso, com quanta delicadeza de admoestao e brandura affectuosa pde, desviou o filho de pensar em Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia instantemente explicaes de tal mudana no espirito de sua me; e ella, podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta da morgada, dilatava as suas razes para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mo de sua imprudente mocidade, descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memoria de sua me; mas no mais lhe fallou de Affonso. A morgada no deu peso a tal omisso, nem achou rasoavel o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe no responderem ao artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saude corria perigo. Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, j tinha uma outra judia cr de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao freio para todo o genero de upas e gales. Theodora gostou d'isto, por que um dos anhelos era a equitao: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo vo ondulando no phrenesi de desapoderado galope. O cavallo--faz pejo dizel-o! foi muito no determinar-se a morgada a responder categoricamente s timidas perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito, cuidando que estava alli o corao; quando, porm, a prima lhe disse: --Fao aquillo que meu tio Romo quizer... Caso com quem elle determinar... Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as mos. Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamaes inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou Ernestos, ao saberem que so amados, empallidecem, suam, ajoelham, declamam, quando no podem oscular com frementes soluos a mo da mulher amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o caminho da felicidade. Rir s cascalhadas que eu ainda no vi amante ditoso nenhum, no instante solemne de se crr amado. Eleuterio Romo dos Santos o primeiro modlo que a natureza me offerece. E a verdade s uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta, o homem, que no estoura em exploses de riso, deve de estar mui calcinado de corao. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, so umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoes que receberam d'ella. Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe emprestra; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma. Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romo dos Santos fallou assim: --Cheguei ao que desejava, graas a Deus! A pena que eu tenho no ser to rico como Sanso. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada escriptura: fallou em Salomo, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppr-se que tambem em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres syllabas.) E continuou: --Se eu fosse to rico como Sanso, prima Theodora... N'isto, como lhe no occorresse ida nenhuma com que fechar a orao condicional, levou a mo testa, e roou a epiderme com o aro d'um robusto annel que trazia no dedo indicador. Ida magnifica! Tirou o annel, e lanou-o ao regao de Theodora. Tinha o annel um grosso topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto, e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma pulseira. --Faz favor de encaixar no dedo, prima--disse Eleuterio. --No me serve--disse a menina. -- que est magrinha das mos...--replicou o moo--Pois guarde-o, e quando engordar o por no dedo. L que a prima ha-de engordar com os ares de Tibes, isso que no falha. Vamos a tratar da dispensa, e acabar com isto. O que eu queria era ser to rico como Sanso. VIII As filhas do desembargador Figueira rodeavam o primo Affonso de agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruives, escrevendo a seu irmo, pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a peito a distraco do filho, qualquer que fosse o gasto que ella houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporos ainda para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no s em cuidar que havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixo do moo. Comprra-lhe o tio, por ordem de sua irm, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com satisfao, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa. O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as geraes de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com suas sombras o moo foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, d rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazo das breves e donosas verduras da vida. De cada vez que Affonso ia quinta predilecta, em cada arvore nova entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus. Este pago d'amor e por amor, imitao de todos os amadores visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras da terra, chamadas paixes, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganas e corrimaas, esbarra na sepultura aberta, e l se atira em corpo, deixando c fra a alma infernada na deshonra e na execrao. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!... E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por Theodora, e, alteando o rosto ao co, pedia ao Senhor que lhe visse as lagrimas, e houvesse piedade d'ellas. O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas no o contrariava. As filhas que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia alda a conversar com arvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarado despeito de todas e de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moo, que tantas graas tinha, como se lhe no bastasse ser rico! O amador da orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grosinhos do incenso de Theodora, no faria menos que odial-as. Estes escrupulos so a religio, o ascetismo dos illuminados de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta annos, e compaixo de mim, que ambos ns j fomos tambem illuminados, e no por nossa vontade que estamos agora atolados n'este lamaal, onde, por sobre todas as desgraas e vergonhas, ainda queremos vr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do co da nossa mocidade! Affonso esperava ainda. Sua me mentia-lhe. Seu tio, aferrado s tradies de avs, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si. o que Affonso pensava do silencio da me, e das reflexes do velho. Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que no voltra a Lisboa. O tio, como elle no voltasse ao segundo dia, metteu-se sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua me, outra d'um seu tio paterno, fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corra Figueira, com uma mulher da Fervena, que, dizia elle, por nome no perca. A carta da me dizia simplesmente: No era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o corao estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Ferno te pede, ou faz o que a honra te aconselhar. E poucas mais expresses de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mes, que nunca se temem de corar diante de seus filhos. A carta de Ferno de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o casamento de Theodora com Eleuterio. Parecem-me dignos de extracto uns relanos d'esta carta, que eu copiei do original. No parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo picaresco do folhetim: ....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as eguas de albardo e rabicho na parte equestre do prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirra bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio dia, pasmada de vr que ellas no vinham janella admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervena esteve a querer trepar pelos troncos de Fareles e Numes, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos antepassados!............................................................. .......................................................................... Perguntei quem eram os figures do prestito. O meu sapateiro conhecia quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e s me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum saude da noiva. O lapuz do noivo queria montar Marialva; mas o ginete, quando chegou Crcova, festejou a suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ella ha-de levar do marido................................ .......................................................................... Tinhas a crte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na venta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sbia. Vai s arcadas do Terreiro do Pao, que l a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por Theodora, antes a do papel de mata-borro, que est'outra um borro da tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar......................... .......................................................................... Agora tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Est senhora, e foi educada como as senhoras da nossa raa. Aos meus olhos de pae, Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras discreta como se os cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a experiencia. Em aces creio que nenhuma ainda praticou de que me no deva honrar, e bemdizer a me que a educou, e o sangue illustre que lhe frma o corao. Tua me compraz-se na minha resoluo. Vem gozar as delicias puras d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a beno de teu tio _Ferno de Teive_. Lidas estas cartas, Affonso levou o leno ao suor da testa e s lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, j avisado do successo de Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na mais grave das attitudes. Affonso diz que o no ouvira longo tempo, e o abominra depois que o ouvira. Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moo rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, j irritado da pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fra de casa. Affonso internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperao ou loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou irm o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante. Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fra ter a Mafra; e repousra, na madrugada, encostando a cabea a um degrau do templo. Ao nascer do sol, quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassivel espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixo! Que funesta sorte a do irracional que d em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer pde questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade! Em quanto o cavallo reparava as foras na manjadoura, Affonso escreveu a sua me, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licena para se demorar no estrangeiro at poder regressar esquecido de Theodora. Escreveu tambem ao tio Ferno, lastimando-se de no poder aceitar a felicidade das mos de sua prima Mafalda. Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena tristeza. O co negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se com ella a uns rapidos assomos de alegria, que no eram seno rebates de esperana, esperanas to amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe j uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e s assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia j valer. Embebecido n'esta esperana, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle cerca das paixes; abstendo-se, porm, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas aces, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porm, confessa o inattento sobrinho do apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso no aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade. Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se ver. N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruives. Affonso, desgostoso da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vr sua me, receiou que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe: --Eu vim despedir-me de ti, meu filho, j que tu, antes de sahir de tua patria, no quizeste ir abraar tua velha me, e abraal-a talvez para nunca mais a tornares a vr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avs que era costume em nossa gerao nunca sahirem da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos e os generaes j encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mes tinham orado com elles tenrinhos nos braos. Este era o uso da nossa familia antiga, meu filho, e no sei por que no ha-de continuar comnosco to salutar costume. Aos ps da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em meu seio, e l aprendeste de minha bocca as tuas primeiras oraes. Sempre pensei que o meu nome ao menos--nome dce de me que te estremece--seria algum tanto mais em teu corao, e esse pouco bastaria a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razo que a sua pouca fora de alma, o no havia de fazer, sem me ir dar com anticipao o abrao, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abenoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirs o que queres, que prompto est. Prasa a Deus que elle te no sirva de ruina ou deshonra. O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura, quando a irm concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com severidade, e clamou: --Acorda, corao de pedra!... Cra de pejo, e da-te o arrependimento, filho mau! --Meu mano--disse a senhora--o nosso Affonso no mau filho, nem tem aco de que deva corar. Se a tivesse, eu no seria a me que sou. O que elle tem ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta m vereda fui eu. --Tu, Eulalia?! Como assim?--perguntou o desembargador interdicto. --Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o corao para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais illustre me. Eu enganei-me, e elle foi enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se no fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe chamei fraco. Affonso lanou-se em pranto desfeito, aos braos de D. Eulalia; e, aps curtos instantes de offegante silencio, exclamou: --Eu no irei viajar, se a sua vontade essa, minha me. Eu tenho em sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida me, o que eu mais necessito a sua vida! --Graas vos dou, meu Creador e Redemptor!--clamou a senhora, muito commovida, com as mos postas--Grande o poder que daes ao corao maternal! Eu no vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia no mede os merecimentos pela afflico com que as mes vos chamam! E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia. O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de contentamento. IX Verei se posso repetir, sem inexactido sensivel, o que Affonso de Teive me contou, com seguimento aos successos descriptos. Nenhum rapaz dos meus annos--dizia elle--exerceria to dolorosa violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o nome de Theodora, e mesmo convencer minha me de me ter esquecido d'ella. Eu no sabia a que porta do inferno fra bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos experimentados conseguiu vingar. Em presena de parentes, e relaes de minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia, contra a qual minha propria me involuntariamente dardejava insultos. Quando ella me dizia: Ests esquecido d'aquella louca, meu filho! as minhas oraes foram ouvidas no co ou quando meu tio, com alegres gargalhadas me applaudia, dizendo: Sempre entendi que eras homem, meu rapaz! ento a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as attenes me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar piedade divina, erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquellas!... Minha me deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia no podia levar to longe a abnegao. Recordar estes sitios, vr alm os horisontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi preciso de pedir a todos em altos brados que me amparassem. Ento pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de todas as condies e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam em suas folias, ou me habituariam o espirito s consoladoras occupaes do estudo. Minha me accedeu promptamente minha vontade. Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fra um erro confiar nas distraces juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moos-velhos, gente ridicula; mas d'uma ridiculez que no distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous oraculos na cabea: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se escuta da inspirao; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sco para escutal-os. Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que no sabia da leitura, emfim, futuras esperanas da patria, que bem sabiam que uma diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia l commigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do corao virgem. Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu no tinha ainda lido Lamartine: fui ll-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns ares de tolice muito por ahi fra dos limites rasoaveis. Passados tempos dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixo, arrojada, vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarra que eu traduzira Victor Hugo. Fui lr depois Victor Hugo, e lastimei que os soberanos do genio estivessem sujeitos s chufas de todo o mundo, sem excepo dos litteratos meus contemporaneos da universidade. Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os _trossistas_, iniciando-me para isso nas libaes homericas da genebra e cognac do Troni. primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha me, e chorei. No impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu, embriagado, era um moo de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico, eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razo ficavam-me lembranas de ter visto o mundo de outra cr, e de haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite infinita do meu corao, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo luz que me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha alma, toda orao, toda absorvida, se evolava em effluvios de admirao para o Altissimo. N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvao plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa. --Com approvao plena!--atalhra eu Affonso de Teive. Por que no?--respondeu elle--As minhas noites eram quasi todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios. Se o torpor me no adormecia, a viso de Theodora sentava-se em frente da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem j no tem que pedir seno piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os; mas, esmagado o corao sob as mos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar, e expr com clareza, uma ou outra vez, as idas dos compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente n'uma lio. Pediu-me minha me que a visitasse em ferias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao Porto passar commigo a estao dos banhos de mar. Annuiu a santa senhora. Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das outras. Meu tio Ferno concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fra a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razo depois verdadeira luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se no fosse vaidade de raa, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua innocencia. Se eu podesse amal-a! dizia eu a minha me, que se tornra para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E minha me, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a fallar, que me fizesse lr alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da _Noite do Castello ou os Ciumes do Bardo_. Comecei a lr pelo livro; porm, segunda pagina, dei de mo insensivelmente ao livro, e declamei de cr com tamanho enthusiasmo, e com a voz to vibrante de lagrimas, que minha me rompeu em soluos, e minha prima empallideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu no posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos, e atravs d'estes oculos de tres graus! Minha me impediu a continuao da leitura, e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa, minha prima, desde aquella exploso de ciumes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me to de leve, que nem a vaidade me magoou. Estavamos em Setembro, e eu j tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e j em parte desfigurado conventinho de extinctos franciscanos. sombra d'um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas que mos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos coraes, extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilisao, que fechra os aditos da paz, quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustrao, que aluira a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu no podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor mundo. Descendo o rio, l me ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha me me estava esperando. Detive-me a passear com ella pelo brao, e a referir-lhe as minhas idas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mo do Senhor, e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus religiosos avs, alguns dos quaes tinham morrido martyres da f nas pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, sahida de Matosinhos, com direco ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas garbosas do seu. Minha me assestou a luneta, e murmurou:--Valha-me Nossa Senhora dos Remedios!... Se me no engano... Quem ?--atalhei eu. Minha me demorou a resposta. Os cavalleiros, no entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o corao, que me repuxou cabea uma onda de sangue... Era Theodora, Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras do pincel inspirado, viso que me no parecia para olhos turvados de verem as fealdades d'esta vida... No te espante o ardor d'esta linguagem. Eu fiz agora p atraz vinte e quatro annos da minha vida, e senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar flego, recordando minha mulher e meus filhinhos. X Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado j o semblante da jovialidade com que principira. Theodora reconheceu-me. A turbao do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha me, e senti-me comprimido nos braos d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz ento a mo sobre o meu corao, e j l encontrei a de minha me. Caminhamos para casa, e no trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha me, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixo, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam so os da dr immerecida, os apllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldioava, e pedia vingana. No dia seguinte, fui para Coimbra. Concentrei-me com a viso da ponte de Lessa. No me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?--dizia eu--Se tenho de voltar razo para encontral-a com a tenaz ardente da tortura? Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o corao, uma dr que eu no sei se commum de todas as organisaes, dr que eu tenho tantas vezes experimentado, que j a considero aleijo dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. No bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixo. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperao dos reprobos, que Deus lanou de si. Arrasto-me a teus ps a pedir-te perdo. No me amaldies tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perda, e Deus te d o triumpho na bemaventurana; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingana maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella vir salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo. Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Comeava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixo ia tocando as extremas onde principia a perverso moral. J me queria parecer que no era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos ps com o meu corao infame. Ultrajal-a e adoral-a era ento a despotica necessidade da minha cabea allucinada. Eu carecia de um amigo, e no tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepo d'um s, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braos da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de no ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraas. Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinra a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me. Porque? porque no havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingana? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, seno a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjeco? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admirao d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura no podia esperar-se da religio, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? No lhe respondi; o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingana que eu me infligia conta do covarde quebranto em que me deixra a appario da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade. O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. No dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentao da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperana de que me no levantaria mais. Escondi de minha me aquelle estado em quanto me no assalteou o remorso de a no chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levra a destruir a minha vida por meios to ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade. Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruives, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha me me via creana, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava ento estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: que o envolucro j lhe no empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no corao. Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o ento o anhelo de viver. At a cr do co, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem j o temor de me encontrar com Theodora pde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a poro de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo. Surprehendi minha me, sentada sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de unco religiosa. Ento me considerei estreado em nova existencia. Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha me dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem no havia de ganhar a vida por ella. Eu, porm, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designra passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa me transigiu. A dce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraa, obrigra-se a expiar pela abnegao e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a viso de Lessa. Que presentimento! Dias antes da minha destinada partida, fui s Taipas despedir-me de meu tio Ferno, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. J era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamda dos banhos, acercou-se de ns um vulto de mulher rebuado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o brao convulsivamente. O vulto parou em frente de ns, e disse n'um tom ironico:--Consintam que os contemple na sua felicidade: um prazer dos felizes verem-se admirados. Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu brao, e reconheceu-a tambem de instincto. Desviei-me do caminho trilhado para seguir vante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:--Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O corao est esmagado; mas a face ainda conserva as graas que poderiam arrebatar maior alma que a sua. Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lanou-me aos ps um volume, e afastou-se a passo rapido. Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?! Mafalda ia murmurando:--Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua me tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a to pelo miudo que a adivinhei. No t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...--No receies, minha boa prima--disse eu a Mafalda--que esta mulher na minha vida, j agora, apenas pde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas--Minha prima replicou:--No te illudas, meu primo: esta mulher a tua sina maldita. Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia caixa. Abri-a, e vi uma trana de cabellos, com tres flres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha me, em dia dos seus annos. Tirei a trana, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me no vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peo-te desculpa de no corar agora; consinto, porm, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admirao, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, cerca da miseria do bruto que chora, e beija tranas de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado _homem_. Ia depr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e ento vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoo sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia no encontrar alguem. Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao corao impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mos, repuxando ao seio os soluos com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, no sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:--So as primeiras lagrimas: por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... No ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.--E, desprendendo-se das minhas mos, fugiu a soluar. Eu levantei olhos ao co, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil: --No deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia no tem querido salvar-me! E cuidei que o co, se abrira minha orao com um milagre. A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa. Amei ento minha prima; todas as estrellas do co m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivra das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinra, e com aquelles cabellos tecera o barao de estrangulao da minha dignidade. Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os ps da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformao. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas s servem para exprimir os soffrimentos communs. Assisti ao ch de meu tio, pedi-lhe a beno, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisao de Mafalda. Fechado na minha alcva, abri a carta de Theodora. Est n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. L tu, em quanto eu dou folga aos pulmes. Ha muito anno que no fallei tanto tempo! Li a carta de Theodora, cujo traslado segue: Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso? Quando te dei eu direito de suppr que o teu silencio, em resposta a um grito do corao, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo? Quando eu te appareci magnifica de dedicao, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um corao corrompido; e eram soro do mais nobre sangue. No podeste chegar com a fronte altura da minha, e apedrejaste-m'a! Quem cuidas tu que s, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e no sabes sequer usar a misericordia de dizer mulher, que te ama, que no seja infame, amando-te?! N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respirao, e disse: --Esta senhora tem estylo, ou eu no entendo nada de estylos! Que interrogatorio! Podes rir, que eu tambem c estou mordendo os beios para no espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive--disse o meu amigo. --Mas o estylo--tornei eu sinceramente agradado da leitura--o estylo aqui no pde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspirao! Por Hercules! Isto sim que mulher... e aqui ha que vr como diz o Garrett. --E que lr--ajuntou Affonso de Teive--contina, se queres. Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura: A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixes, a contas com a mulher desprezivel! Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas? Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus? --Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me ds licena, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impresso te fazia isto ha quinze annos!... L, e no fim fallaremos--disse Affonso. E eu li: No respondas. A vil, a abjecta, a desgraada generosa. No respondas. Ri, e escuta. Abandonada por ti, enganada, no sei por que nem com que fim, por tua me, achei-me fraca para cruzar os braos, e esperar a morte. borda do abysmo, vi uma tabua de salvao. Sabia que, segurando-me n'ella, as mos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me tabua de salvao. Escutei a desgraa; que no tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo. Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem me, sem pae, sem amigo, sem corao que se abrisse s cinzas do meu. No importa. Via o sol no firmamento; e para alm do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mo do Senhor que, sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os coraes, que, em sua innocencia, no ousam interrogal-o como Job! --De mais a mais--reflecti eu--lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrio, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente? Espera que a concatenao dos factos te elucide--respondeu Affonso. Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso: Trasbordou um dia a amargura de minha alma. No sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os troves que estalavam do co de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mes se sentavam; orei cruz de pedra, que est na quebrada da serra. E no te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua me, a voz do meu orgulho de desgraada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanh no ters honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te no insulte. E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciao, aquellas palavras queriam dizer:--D-me a perdio como salvamento; d-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgaro indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mo a todas as miseraveis, que m'a cuspirem. E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um p, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do corao, e escarraste-lhe! Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos ps. As flres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou s suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao co, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me d eternidade para a expiao, e eternidade para o amor. Adeus. No sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, j quando os olhos mal discriminavam as letras. Como a gente, s vezes, chora?... Era o estylo! XI Sorriu Affonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu destrahidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fasciculos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro, e continuou: Eu que verdadeiramente chorava, quando acabei de lr esse papel. Ficas sabendo a impresso que em mim fez a carta de Theodora. No ha vergonha que eu omitta n'esta confisso geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condemnei-me ao opprobrio de levantar da lama o corao velho, e mostral-o com nausea ao enojo dos que vo passando... --Mas eu no vejo ahi cousa indecorosa de que te envergonhes!...--atalhei. Vs, pelo menos, a baixeza do meu espirito, seno antes a crassa sandice de pensar que as accusaes de Theodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras, e apostrophes melo-dramaticas. O castigo da minha miserrima estupidez vir depois... L chegaremos. Li terceira vez a carta, e abri a janella do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras, e o co d'aquella noite no tinha uma estrella. Appeteci embrenhar-me na escurido do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto, e, p ante p, ganhei a varanda d'onde era facil o salto rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janella contigua varanda, me surdiu a voz de Mafalda.--No tinhas necessidade de saltar, primo--disse ella--Chamasses que se te abriam as portas. --Ests a p ainda, minha prima?--perguntei eu, corrido da surpreza, e algum tanto contrariado da espionagem.--Nunca me deito mais cedo--respondeu ella com brandura--Quando as noites so assim tristes, gosto de as vr... Est vento, primo;--continuou retirando-se--no estejas ahi ao ar desamparado. Boas noites. E fechou rapidamente a janella. Encaminhei-me alamda dos banhos, na inepta esperana de vr alli vestigios de Theodora, ou no sei se ella mesma. No sei ao que ia. impossivel explicar o intento que nos impelle em casos semelhantes, quando a gente, alguns annos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenes: so actos estranhos razo, dos quaes s pde desculpar-se o delrio. A verdade que eu fui alamda, e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ella me sahiu, e a direco que tomra na retirada. Sentei-me n'um dos bancos de pedra, e conjecturei se ella teria estado alli sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Theodora, que me ecoavam do intimo corao. Atirei com a alma supplicante e desesperada quelle co de bronze, negro como ella. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a vehemencia do justo atribulado que pede a cora do triumpho. Levantei-me, e andei por as trevas, esbarrando nas arvores, e refrigerando o fogo da testa e mos nas fontes e charcos que topava. Ao arraiar da manh, estava eu nas raizes da Falperra. Senhoreou-me ento um somno lethargico e invencivel. Adormeci com a face encostada raiz d'uma arvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios do sol. Retrocedi pela estrada das Taipas, e entrei em casa, quando meu tio Ferno, admirado de minha falta, andava indagando dos criados, se eu sahira de madrugada. Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido at meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu minha falta, na presena da filha. Sahimos da mesa de almoo, e entramos na sala, onde Mafalda recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com uma s das mos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha. Segui-o; sahimos, e caminhamos a p na direco das ruinas de Citania. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanos de muro ainda em p. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o brao com o indicador apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-av Christovo de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando os ultimos invernos lhe geavam na cabea, e os sinos, dobrando a finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os at ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil viboras, at que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-av foi um mau desgraado. O amor de uma mulher da crte entrou-lhe no corao, e apodreceu-lh'o fora de lhe derrancar o sangue com as torturas da perfidia. O moo empestado veio para a provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pde surprehender adormecidas no regao do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos, pesou sobre elle a maldio de Deus. Desde a raiz dos cabellos at raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor d'elle fez-se uma solido horrenda. Desampararam-no todos. Nem os engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um pucaro de agua. Christovo de Teive tinha esta casa, aqui afastada de visinhos, construida no sei para que fim ha tres seculos. Aqui se encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentra, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o desamparado, legando esta casa mulher que lhe cerrra as palpebras. A enfermeira foi deps elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguem poz p a dentro das soleiras, que alli esto, onde existiram as portas... Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:--Affonso, o divino Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos moralisa com exemplos. Teu tio-av comeou como tu: v tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do corao. Em quanto esse dia de regenerao no chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Affonso, se as lagrimas d'ella te no resgatam das presas d'uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso... Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruives. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a Frana; e de Frana fui residir na Suissa uns seis mezes. O arrependimento de deixar minha me e a minha terra seguiu-me sempre. Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voando em espirito patria, no era a de minha me. Ella sempre, Theodora sempre! Ao cabo de um anno de expatriao, voltei para o Porto. Dava-me ento como curado. A memoria d'ella era j fria: o pulso no se accelerava, nem do corao me subia cabea um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha me, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia convalescena d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudana no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao co no perfume de suas oraes. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flres, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou no sabe de que elles valham s venturas da existencia. Porm, formosa da aureola santa da dr sem culpa. Que paixo me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que religiosidade eu beijava a mo de minha me aquecida pelos labios d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguido os dedos que me offereciam um pomo. No ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha querida irm!... Mafalda respondeu--Deves assim chamar-me, por que eu j me afiz a chamar minha me tua, meu primo. A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis douras da domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. Que abominavel homem sou! dizia eu no meu intimo senso, repellindo-me a mim proprio com uma restante fora de virtude--Se me repugna o crime, por que a no esqueo? Se a no posso esquecer, para que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em minha alma lhe exoro perdo d'este odio. Se me doe o corao saudoso d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz paixo. A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via nos meus olhares a submisso imploradora, e no entendia a covarde procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a viso de Lessa e da lamda das Caldas, Mafalda rehavia do co os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida amargura, com que eu a fitava, afigurava-se ingenua menina a expresso do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pae. Minha me, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava receios de ter desbaratado as flres do corao, ao apuro de no ter j virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha me no podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicaes, e, ouvindo-me, dizia soluante: No se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraado filho! A quarenta passos de distancia de minha casa est uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na carta que lste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua me uma temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas mes se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto ns, com vergonteas floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados festes que dependuravamos dos braos da cruz. Levou-me para l o corao dez annos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o scco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas: _5 de Julho de 1848_, com a assignatura inicial _T. P._ Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: _10 de Setembro de 1849_, com as mesmas iniciaes, e as seguintes palavras: _Aqui veio orar a alma penada._ Eu estava ento em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois, alli tinha estado Theodora. Recolhi-me com febre. celestial graa de Mafalda, que me sahiu ao tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria ento uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassivel carrasco das organisaes ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lana que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns dias, raras horas nos encontramos. Voltei novamente ao cruzeiro. Do brao esquerdo da cruz pendia uma cora de flres do campo; e, na base, inscripta outra data: _20 de Setembro de 1849--Meia noite--O sol de amanh queimar as flres; mas o brao da cruz redemptora permanecer aberto para os desgraados. T. P._ Eu queria esconder de minha me estas inscripes, feitas a lapis. Embebi um leno em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula. --Tambem a mim me est parecendo isso, ainda agora--observei eu, animado pela confisso da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio romanticismo da esposa de Eleuterio Romo dos Santos. Mas, proseguiu Affonso de Teive--esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade... --Em amor--atalhei. Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vl-a e de ouvil-a, de chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse d'ella. Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mo, levou-a ao corao arquejante, e disse-me:--_Os braos da cruz redemptora esto sempre abertos para os desgraados._ As palavras, embora escriptas por mo criminosa, so santas. Meu pobre Affonso, j que ella te deu a desgraa, aceita-lhe tambem o conselho.--Beijou-me a palma da mo, e sahiu da sala. Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora. Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu corao para me acautelar das cavillaes da mulher ardilosa. Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das foras humanas fez ella em meu resgate; mas muito j por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o co um pleno dominio em minha razo. Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio longe por esses pinhaes fra at ao mosteiro de Landim. Sosinhos?--lhe perguntei--Por que no! sosinhos, com os nossos anjos da guarda, e o corao de tua me comnosco, meu querido Affonso. Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu brao direito batia-lhe o corao com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constrico de alma, que no atinava com os termos communs d'uma palestra entre dous primos. No alto d'um srro, d'onde haviamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razo tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a ida de me vr ir talvez para sempre do lado de minha me e dos parentes que me estremeciam. Quem te disse que eu deixo minha me e parentes?--redargui--Dizes-m'o tu, se eu t'o perguntar com as mos postas--respondeu ella, pondo as mos em supplica. Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu no estava afeito a mentir. O corao teve quinho d'este pejo: a meiga creatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinisao, que me incutiam uma especie de escrupulo religioso. --Vejo que te afflijo, meu primo--interrompeu Mafalda--s ainda bom, que no podes mentir tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me... Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em pranto desfeito:--No posso!... A Virgem do co no ouviu os meus rogos!... Acariciei-a com o melindre de irmo, instando-a a que fallasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porm, de se ligarem em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos: Deves ter directo instincto do co, minha prima, por que a tua alma virginal pura de toda a falsidade, e no pde ser enganada. Sabes que eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa me este novo golpe. Fujo, minha irm, por que entre a tua celestial dedicao e as minhas desvairadas paixes est o infinito. Tu s a creatura que ainda no sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenas da juventude. Vs a minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruares-te sobre o abysmo d'onde se tira a luz, ao claro da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu no sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde ns nos entendiamos como as avesinhas do co se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade! Mafalda poz-me com muita suavidade a mo na bocca, e disse:--No digas mais nada, meu irmo, que j disseste tudo... _A mulher unica do teu amor_... _a mulher unica do teu amor_ ... ella!...--Os soluos embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto quelle dialogo... Com satisfao a vi erguer-se, e dizer-me:--Voltemos, primo?... Vamos para casa. No percas instantes da companhia de tua me. Vamos... N'este momento, raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia ssinha. Eu no a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o brao tremulo disse:--_A mulher unica do teu amor_... N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, no sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o demonio, que passava l em baixo, com o vo esvoaante, por entre nuvens de p, sacudidas das patas do arremessado cavallo. XII Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo de Affonso de Teive. A obsesso de Theodora no lhe dava treguas. Nas circumvisinhanas de Ruives j se fazia reparada a amazona, umas vezes ssinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ella no prestava mais atteno que ao lacaio. Affonso, em quanto a mim, resistindo tentao, iniciava-se para consociar-se no reino celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da aurola da santidade. Morrer com o co a abrir-se alm no horisonte, ouvindo j os hymnos dos anjos, glorioso e exultante; porm, morrer gotejando em lagrimas o sangue do corao, sem vises bemaventuradas, sem estimulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos ps do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se querem que lhe eu no chame santissimo martyrio! A me do lastimavel moo, antes de avisada da intentada partida d'elle, resolveu impr-lhe o seu arbitrio de me com severidade. Informada por Ferno de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas s redondezas de Ruives, e que Affonso no era estranho, bem que a no houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra adulterio, no espirito de D. Eulalia, tinha uma significao de horror, como se o crime no tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balana da misericordia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados vares, podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em louvavel indignao. Inesperadamente chamado Affonso ao quarto de sua me para ouvir estas pesadas e seccas palavras: --Eu preciso de morrer em paz com o mundo, que nunca escandalisei, penso eu, e Deus me perde se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Em quanto viva, peo-te, como amiga, se no devo antes ordenar-te como me, que me poupes vergonha de esconder a face, quando me pedirem contas dos sentimentos de religio e honra que te insinuei na alma. Temo que me perguntem que fiz eu da herana, que teu pae fiou de mim para te eu ir entregando, assim que tivesses razo para recebel-a... herana de virtude e probidade que tu levas em principio de desbarate. Mando-te que te retires para longe d'esta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou vai viajar, se antes queres. bom que saibas os cabedaes que tens. A tua casa rende seis mil cruzados: conta com elles, e com o valor das propriedades, se, para salvao de tua honra, precisares que ellas se vendam. No voltes para mim sem me poderes jurar, pelas cinzas de teu pae, que a lembrana peccaminosa de Theodora morreu em teu corao. Deus Nosso Senhor te abene, filho. A minha ultima orao ser rogar ao Creador que restitua casa onde as geraes legaram umas s outras a tradio de grandes servios a Deus ligados a grandes servios patria: religio, honra, e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da sciencia d'outros. Tu sahes da trilha de teus avs, consumindo tua mocidade em dissabores de que ninguem, seno eu, pde compadecer-se. Vai. Se poderes, s forte, s homem. Se a ultima fraqueza te levar ao ultimo crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrio no remate da vida. Nunca, at quella hora, Affonso vira e ouvira assim sua me. Mesmo na admoestao, denotra sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar da magoa, acudia logo com as caricias. Por causa de Theodora, as reprehenses eram sempre disfaradas na grave mas dce persuaso do conselho. Querer afastal-o de si, nem por sombra de palavra o indicra nunca. E agora, no semblante, na rigidez da phrase, na postura do rosto, e arrugado da testa, Affonso achou tanta mudana para espantar-se como affligir-se. Ia elle responder, e ella, para logo, d'um gesto de silencio, o fez calar, dizendo: --No te quero ouvir: Deus que te oua; mas vai. C fico eu velando os dias d'esta menina, que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-hemos eu e ella, orando por ti. manh partirs. Tua me ordena. Affonso, ao despedir-se de sua me, teve a intuio de que a no veria mais. A maior agonia da sua vida, at quelle momento, foi essa. Ajoelhou-se a beijar-lhe as mos, que molhou de lagrimas. E ella abenoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratorio. Ao lado d'elles, estava Mafalda, livida, hirta, tranzida d'um frio, que a fazia tiritar. No chorava. Podia comparar-se a sua atribulao da me que tambem tinha enxutos os olhos. Porm, quando Affonso lhe estendeu a mo, e disse: adeus! ella, arrancou do intimo um cortante grito, e lanou-se nos braos d'elle, debulhada em pranto. XIII Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relaes adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composio, sem o intento de fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram; assim, porm, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas no davam rumor de um passo, e Affonso, sentado sua banca de estudo, ouvia apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperana, e nunca to compressora o sopesou a mo da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um grau penoso de excitao. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada paixo da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o desamparra, na batalha comsigo mesmo. Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim, virtude imaginaria. Para outras civilisaes, l estava o deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e l iam encontrar-se no co, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas, ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito--que mais no o contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre sepultura. N'estes tempos, porm, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o co se deixa contemplar, j no como paragem de futuras vidas, seno como estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver sem gozar um triste, seno estupido, preludio da morte, em redor da sepultura, que loucura esta de Affonso de Teive que no rompe mundo a dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de fidalgo, e physionomia dotada de graas attractivas de todos os olhos? Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a intimar Affonso de Teive para comparecer, ro de lesa-illustrao, barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso, encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham chamado saudades das suas arvores de Ruives. D. Jos de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa titular de Lisboa, cursra alguns estudos da Universidade, contemporaneo de Affonso. Pertencia tribu dos _trossistas_, e gozava as honras de caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em digesto de vinho. Contava-se que D. Jos de Noronha bebia por um pipo de almude, quando no tinha mo o alguidar, taa ordinaria das suas libaes. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em considerao aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto dos outros em sua opinio. Separados pela mudana de costumes, raras vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. Jos cognominava de renegado o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave deshonra. Abandonada a carreira dos estudos, por fora de successivas reprovaes, D. Jos foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae, cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas no codigo penal, e gloriosas nos sales. D. Jos absteve-se da ebriedade em publico, isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam muito mais nocivos humanidade, se as maiorias compartissem dos ultrages afflictivos, que vo na intimidade obscura, e mesmo na publica exposio das familias. No vem isto para dizer que todas as familias ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepes so tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. L, haveis de encontrar muito d'uma cousa chamada philosophia, sciencia, que foi necessario inventar-se, medida que umas certas virtudes de portas a dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fra, no sei para onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em demonstrao de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso. Affonso de Teive reconheceu D. Jos, que sahiu d'um rancho de senhoras a comprimental-o. Eram cousas diversissimas vl-o em Coimbra, ou alli em Cintra ao lado das senhoras _da primeira distinco_, como l se diz, e quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva. O menos preo em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa, desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes, aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e crte, demudou a m opinio de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel. Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias, convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. Jos de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso. Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem vez, e s temporadas de tres dias, nas casas um do outro. Claro : Affonso contou suas penas, com sincera expanso, ao amigo. Era o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora, encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta. Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa de Eleuterio Romo. D. Jos de Noronha, por sua parte, passava do espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que me fez rir e chorar--caso unico na minha vida extraordinaria. --E tu podeste, Affonso--disse D. Jos--podeste resistir a esta mulher?!... s aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo! Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste? -- certo--respondeu Affonso, quasi envergonhado da confisso. -- pobre Joseph! mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a esposa do ministro de Phara! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirs do mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu no sabes que ests em 1850, e que tens de alijar a carga de dous seculos, se no quizeres ir a pique, varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus ps, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos, e no arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleuterio... que mais? --Eleuterio Romo dos Santos--disse Affonso, sorrindo no tom imitante do dizer galhofeiro do amigo. --Eleuterio Romo!... Eu no sei--proseguiu D. Jos--se amaria a esposa de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condies de cara e estylo em que est Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso, obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios como rapazes, que tem o estricto dever de no serem palermas, do contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. necessario que escrevas a essa mulher; isso no te priva de escreveres a outras muitas, visto que ests aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever meditaes... Que rato s tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graa! Quando tu publicavas no Trovador umas lamurias lamartinianas, que davam ida de seres um desgraado, que vivias das brizas do claro Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!... Fallemos agora serios. Escreve Theodora, se tens algum resto de pudor... No me digas que ests soffrendo por ella, que deixaste por ella tua me, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... No me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A virtude seria medir o espao que separa a tua alma do corao atraioado de Theodora, e interpor n'esse espao trinta mulheres, com tanto que te no privasses da companhia de tua me, nem lhe dsses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou? Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico! Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo nome, e quasi a mesma figura!... E continuou por largo espao n'este sentido. Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. Jos, lardeado de facecias, e, por vezes, attendivel por umas razes que se lhe cravavam fundas no espirito. As rplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. J elle se temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condio para o igualar na licena da ida, e por vezes, no desbragado da phrase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do corao desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres aborreceu-a por afastada do mundo, boa to smente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia para o centro de Lisboa, entre os sales e os theatros, entre o rebolio dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impresses enjoaram-no; mas, beira d'elle, estava D. Jos de Noronha, rodeado dos prceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um dromedario provinciano, que se escondra em Buenos-Ayres a delir em prantos uma paixo callosa, trazida l das serranias minhotas. Ora, Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que j muito a medo lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser irriso de pessoas d'aquelle quilate. verdade que s vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a me, e Mafalda. Affonso desconstrangia-se das vises importunas, e a si se accusava de pueril visionario, no emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da prosa necessaria vida. Escrever, porm, a Theodora, no vingaram as suggestes de D. Jos. Por ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas s suas contemplaes, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervena. Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoar, recebeu esta carta de Theodora: Compadeceu-se o Senhor. Passou o furaco. Tenho a cabea fria da beira da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em p diante do mundo. Sinto o peso do corao morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios j no amaldioam, minhas mos esto postas, meus olhos no choram. O cadaver ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora no me temas, no me fujas. Pra ahi onde ests, que as tuas alegrias devem de ser muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher pde perturbal-as. Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao p de mim, anjo da minha infancia, abraava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baquera voragem das paixes, repellia-te. Eu amo a creana de ha cinco annos, e detesto o homem de hoje. Asserena-te, pois. Esta carta que mal pde fazer-te, Affonso? No me respondas; mas l. mulher perdida relanceou o Christo um olhar de commiserao e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: Senhor! Senhor! uma desgraada que vos ajoelha e no uma perdida. Infamias uma s no tenho que a justia da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever immoral, tenho querido espedaal-o, mas estou pura. _Dever immoral_... por que no, Senhor! Vs vistes que eu era innocente; minha me e meu pae estavam comvosco. Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fra dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justia, praticou uma immoralidade, levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu corao. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxa a gonilha no pescoo, a vs ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos que me deis um amigo. o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso por a mulher desamparada. S meu amigo! Recusava-se Affonso a deixar vr a carta: era, porm, uma descortezia sonegal-a, entre moos, que francamente haviam alli relatado competencia, as faanhas amorosas dos ultimos quinze dias. --Homem indigno da nossa estima!--exclamava D. Jos de Noronha--Grande cynico! podes tu negar aos teus amigos dous minutos do innocente prazer de ouvirem o estylo d'uma Sevign provinciana, que, para ser mulher de poca, s lhe falta affeioar-se a um homem que lhe rasgue os horisontes d'um destino esplendido!? Venha a carta! --A carta! a carta!--exclamaram todos, empunhando os copos. --Um brinde formosa das montanhas!--bradou D. Jos. --Depois de lida a epistola!--emendou um commensal. --Antes e depois!--redarguiu o proponente do brinde, e ajuntou:-- saude de Theodora, bella e espirituosa, amada e amantissima, pura quanto pde sl-o a mulher que nos braos d'um marido reserva para o homem amado a virgindade do corao! -- saude de Theodora--conclamaram todos, exceptuando Affonso, cujo aspecto arguia tristeza. Seguiu-se um brinde enthusiastico ao ditoso Affonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos arabes lhe tinham offerecido a alma n'um sorriso. Affonso agradeceu, com gesto de mal dissimulado dissabor. Reiteraram os convivas o pedido da carta. Affonso hesitava ainda. O mais ebrio d'aquella mocidade patricia, representante dos mais illustres appellidos da poca heroica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa, e abril-a com estrondosos applausos dos outros. Affonso de Teive estendeu impetuosamente o brao, e tirou a carta da mo do hospede. --Isso um insulto a todos!--exclamou D. Jos de Noronha. --No insulto--replicou o de Ruives-- preito a todas as mulheres, e com especialidade s desgraadas. Disse, e incendiou o papel na chamma do castial em que acendiam os charutos. O tom amargo d'aquellas palavras commoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de indole sentimental, quando as vaporaes alcoolicas lhes ennublavam a poro intellectual, que era n'elles diminuta, como de direito heraldico. D. Jos, compondo o rosto d'uns vislumbres de rectido e bom discurso, perorou cerca da probidade de Affonso, e, em nome dos communs amigos, agradeceu a lio, e levantou novo brinde ao hospedeiro moo que to digno era da estima dos homens como da confiana das mulheres. * * * * * Este capitulo no dispensa uma nota illustrativa, respondendo temporanmente critica illustrada que me perguntar como pude eu pr em traslado uma carta queimada luz do castial, minutos depois que Affonso a lra? por que o rascunho d'esta carta, escripta com entrelinhas, emendas, e borres, escripta por Theodora, estava ainda em poder de Affonso de Teive em Dezembro do anno proximo passado. Opportunamente se dir como Affonso de Teive se apossou do rascunho. Ento a critica ver que poucas cousas succedem na vida to naturalmente. Relevem-me estas demasias de escrupulo: que eu difficilmente consentirei que a m f me apanhe em flagrante inverosimilhana. Assim que eu quizera que se escrevesse a historia patria, com este timbre e rigor de verdade. Por mingoa de desvelos analogos na averiguao dos factos historicos que ns ainda no sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarchas: falha que desluz algum tanto o panegyrico das virtudes dos reis portuguezes. Aprendam os historiadores. XIV No mesmo dia, um deputado chegado do Minho, entregou a Affonso uma carta de sua me, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruives felicitava o filho por saber que elle procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que elles se no derrancassem em flagellos da consciencia, e infamia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se no esquecesse d'ella, e fosse fiel promessa de estimal-a como irm. O deputado bracharense era sujeito que sabia as cousas para as dizer, e saltava a quatro ps por cima d'isto que chamam delicadeza em assumptos de corao. Pelo que, o expansivo deputado fallou assim a Affonso: --Ainda me lembro de v. exc., quando rapazola estudava rhetorica em Braga. Est certo de ser agarrado pelo regedor, quando foi s Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua me, lhe vali no processo instaurado. --No sabia--atalhou Affonso--Aproveito a opportunidade para agradecer a v. exc.... --No tem de que. Mas, com effeito--volveu o deputado, a rir de esperto--olhe v. exc. o que fazem mulheres... ou mulherinhas... por que a final a morgadinha da Fervena acanalhou-se at ir casar com um bruto de Tibes... Soube isto v. exc.? --Perfeitamente. Era impossivel que eu o no soubesse...--respondeu attentamente Affonso. --Eu conheo Eleuterio Romo dos Santos--continuou o informador--O homem torce as grandes orelhas que tem, por que ella tem-lhe feito dar a agua pela barbella. V. exc. ha-de saber isto... --No sei seno que Theodora mulher de Eleuterio. --Ento eu lhe conto. A rapariga tem figados, e ninguem o dir vendo aquella lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romo e com a sogra Eleuteria deu ao diabo a cardada, poz-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos moderna. O Eleuterio quiz reguingar-lhe; mas ella, s primeiras testilhas, fallou em divorcio, ou cousa peor ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar v. exc. O marido poz as mos na cabea, quando ouviu fallar em divorcio. A fortuna alli quasi toda de Theodora. Se ella se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraa de casamento, dava um estouro. Comearam a fazer-lhe todas as vontades moa. Para que lhe ha-de ella dar? Imagine l v. exc. para que lhe deu na veneta? --Eu sei c...--disse anhelante de curiosidade Affonso. --Fez-se doutora!... Mandou comprar dous carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escriptorio, que parecia uma livraria de convento, e comeou a lr de noite e de dia. L de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleuterio casado face da igreja, e dono da mulher pelos seus justos cabaes. Passado tempo, deu-lhe outra mania: fez-se cavalleira, e rompia a galope pelo campo de Santa Anna em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadro de cavallaria! No parou ainda aqui o desarranjo d'aquella cabea! Tomou lacaio, deu-lhe libr avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de douda. Uma hora viam-na em Landim, outr'ora em Santo Thyrso, depois em Lessa de Palmeira... Que novidades lhe estou contando!...--concluiu sorrindo o narrador. --E do procedimento d'ella que se dizia?--atalhou Affonso, vivamente empenhado nas revelaes do chanissimo legislador. --Do procedimento d'ella a que respeito?--perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso. --Amantes, quero dizer se a opinio publica lhe dava amantes. --Eu lhe digo: quando v. exc. estava em Lessa com sua me, e a morgada l foi com o marido, alguem disse que o marido era um simplorio. Ora isto parece-me que alguma cousa queria dizer... O deputado espirrou uma risada de finura velhaca, e ajuntou: --Depois, quando v. exc. esteve em Ruives uma temporada, e Theodora sahia para aquelles lados, j todo o bicho careta dizia que o adulterio estava provado por todos os artigos do codigo, e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores. Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta. Affonso sorriu-se, e deixou-o esvasiar a pojadura da verbosidade chula. --No se falla por l de mais ninguem que eu saiba--tornou o deputado--Mas o marido! aquelle palerma, que lhe no vai mo, e a deixa andar em filistrias de cavallo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lh'o digo, por que houve alguem que me affirmou que a mulher, quando est fechada na livraria, no o admitte sua presena, e at me disseram que ella passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquelle marido est n'uma posio critica, matrimonialmente fallando. Parece-lhe isso, snr. Affonso? Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha ida occulta, a meu vr, inconciliavel com o comedimento desejavel n'uma pessoa grave... de mais a mais deputado a crtes! --E como est ella?--perguntou Affonso--Ainda bonita? --Agora que ella est completa. Encheu muito de hombros, e tudo proporo. Est muito alta, e esvelta, que parece ingleza. E o garbo com que ella sacode um cavallo... V. exc. est a mangar commigo?--perguntou de subito o deputado, aps um instante de reflexivo silencio? --Se estou a mangar com v. exc.?! que pergunta! --Sim! pois o snr. Affonso vem-me perguntar a mim se ella est bonita?! Quem sabe melhor que v. exc. como ella est?!... Ora, meu amigo, v contar essas historias aos da Lourinh. C para mim vem barrado! --Dou-lhe palavra de honra--redarguiu Affonso--que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Theodora; mas to de relance, que no pude reparar-lhe nas feies. --A sua palavra de honra tem para mim o peso d'um Evangelho,--tornou gravemente o cavalheiro de Braga.--Pois, senhor, o mundo est enganado. A voz geral d v. exc. como amante de Theodora. Eu no me atrevia a dizer-lh'o tanto s escancaras; porm, chegadas as cousas a este ponto, fique sabendo que ninguem acredita na sua innocencia, excepto o Eleuterio, que muito bom homem. escusado dizer que o individuo riu de novo, esfregou as mos, e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instincto oratorio: --Ainda ha quem case! Ainda ha victimas que espontaneamente se offeream no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguem pde sinceramente dizer que conhece seu pae. Os assentos dos baptismos esto todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do cathecismo. Vem ahi um tempo em que o artigo da lei santa ha-de ser assim reformado: No desejars a tua mulher para no incommodar os direitos do proximo! Onde ir isto assim parar, snr. Affonso de Teive? O deputado entre serio e risonho, prolongou por tres quartos de hora, em estylo declamativo, um aranzel de lugares-communs, entremeado de pilherias, com referencia degenerao da sociedade, no capitulo casamento. Affonso achava picante de grosso sal a iracundia comica do legislador, e estimulava-lhe a veia. A final o deputado, contente de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser elle o predestinado para levantar voz no parlamento decretando a moralisao das familias. Affonso ficou pensativo. As revelaes lisongeavam-no. O odioso do caracter de Theodora desvaneceu-lh'o a impresso j magestosa, j condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraada!--dizia elle comsigo--Uma sublime desgraada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das creaturas! E, trabalhado por esta ida que pertinazmente lhe martellou no animo, Affonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manh d'aquelle dia. Queria rell-a, mettl-a a beijos na retentiva do corao! noite foi ao theatro, e entreteve-se largo tempo com D. Jos de Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os acommettimentos de Theodora. D. Jos mostrava-se j enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou obedecesse ao corao, aceitando a felicidade das mos fosse de quem fosse. N'esta mesma noite, o moo, vencido a final pela irresistivel necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordaes da infancia de ambos: devia de ser alta e amoravel poesia, como o corao a trasborda, se d'um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vo l ao longe remergulhar-se no pelago da luz, que mais no ha-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa! Depois, memorava os dias de amor, desabrochado j o seio em plena florescencia, com os seus desejos balbuciados em phrases todas alma e enleio, dulcissima linguagem, que era ainda a das chimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infancia adolescencia. Poesia ainda, flr sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige est continuo a medrar em lagrimas, d'onde paixo nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe ha-de extirpar a raiz. Seguia-se o recordar as dres atrozes do abandono d'ella, quando o moo em Lisboa e Ruives, duas vezes se atirra aos braos da morte, aceitando o inferno, se o lembrar-se o condemnado da mulher que amou na terra, no era l o maximo tormento. A final, aps os queixumes, subia-lhe do corao aos olhos n'uma lagrima o perdo. Perdo e amor: que no ha ahi, em alma humana, perdoar ingratides sem beijar a mo que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer desprezo, no perdo. Escripta e fechada a carta, sobreesteve Affonso no remettl-a. Acaso iria ella, sem desvio, s mos de Theodora? As injustas suspeitas no poderiam ter Eleuterio de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligaes de estima, iria Affonso, contra a vontade de sua me, para casa, e sustentaria alli o cortejo mulher casada? Estes quesitos fallavam razo; porm, a pobresinha da razo, estava j escondida na consciencia, e a consciencia ensurdecera com a guisalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandra estudar os costumes do seu tempo. Foi a carta com direco a Braga. Era dia de feira quando ella chegou ao correio: estava alli o marido de Theodora vendendo cereaes. Foi lista postal vr se seu pae tinha carta de parentes do Brazil; e, como no se entendia bem com os nomes maiores de tres syllabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a _Theodora Palmyra Villar de Sousa_, exclamou Eleuterio: -- a minha mulher! Ha-de ser carta do livreiro. Convem saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores. Eleuterio foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afra o lustre do sobre-escripto, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a marca de Lisboa. No me atrevo a compr o soliloquio de Eleuterio Romo. Sei que elle andava com a carta s voltas, entre mos, e s vezes esfregava entre dous dedos o papel, como se pelo tacto podesse inferir do contheudo. Estava com elle o regedor da sua freguezia, o mesmo que lra a lista, e lhe lia na alma agora. --Que ests a malucar, Eleuterio?--disse elle--A modo que essa carta te deu no gto!... --A fallar a verdade--respondeu o marido de Theodora--esta letra no na conheo, nem estas armas reaes!... Minha mulher no conhece ninguem em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa. -- como diz: _Lisboa_, sem tirar nem pr. E ento?... achas que ella... --Esto-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre? --Eu c, se fosse commigo, j a carta estava aberta. Mulher minha a ter cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda! Palavras mal eram ditas, que Eleuterio quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo: --L l... ella tamanha! parece uma sentena!... Vamos vr isso, que eu j me no sinto escorreito. O regedor tomou o manuscripto de oito paginas entre as mos, poz-se em attitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou folego, deu crena de saliva aos beios, e leu engasgadamente: D'onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o co me bafejava a infancia, e as delicias todas da existencia me eram prenunciadas nos sonhos?... O regedor revirou os olhos pasmados a Eleuterio, e disse: --Tu percebeste isto, compadre? --Assim me Deus salve, que no percebi palavra,--respondeu Eleuterio Romo esbugalhando os olhos sobre a escripta cabalistica. --Portuguez acho que !--tornou o regedor, consultando a opinio do compadre. --Isso , l portuguez ... Ora torna a dizer. O leitor repetiu, e disse: --Falla aqui em _alma_, e _sonhos_, e _delicias_. Sabes que mais? Isto, seja l o que fr, no me cheira bem!... Aqui, Deus me perde, ha maroteira d'aquella casta!... Deixa-me vr mais um bocado a vr se pesco alguma cousa. E, continuando, leu: Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma! volvei, volvei, orvalhai a flr requeimada, dai uma lufada de primavera ao meu corao regelado pelos frios d'esta infinda noite... Oh minhas donosissimas chimeras!... --E agora entendeste?--voltou o regedor--eu estou como a Felicia d'Abrantes, peor que d'antes. Isto se no latim, o diabo por elle! --Queres tu que se pergunte a alguem!?--acudiu Eleuterio--A gente ha-de achar quem lhe explique isto c em Braga... Falla-se ahi a um padre que eu conheo, ao capello das Ursulinas. --Dizes bem... Tu no has-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu vr que ahi vem o homem que nos explica o negocio?--perguntou o magistrado administrativo-- meu compadre Ferno de Fonte Boa. Era Ferno de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser l o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no brao d'elle, com doentio aspecto. O regedor descobriu de longe a cabea, e sahiu ao encontro de Ferno, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos. --Que feito de ti, compadre, que te no vejo ha cem annos?--disse o velho--Desde que te fizeram regedor, acho que no cuidas seno em fabricar deputados, e comer os salpices dos recrutas passados pela malha! Anda l, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capito-mr, que geito para comer os saudosos lombos tens tu. Ento que feito, rapaz? quem aquell'outro? Se me no engano, o Eleuterio do Romo. --Para servir a v. exc.--disse Eleuterio com tres mesuras de cabea exageradas--Sou eu para servir a v. exc. Ferno inclinou um olhar ironico sobre o hombro da filha, e disse com um mal represo frouxo de riso: --Aqui tens o marido da morgadinha da Fervena. Mafalda escassamente lanou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com gesto de notavel commoo. E o regedor tirando a carta da algibeira, disse: --Eu queria consultar o meu excellentissimo compadre a troco d'uma carta que nem eu nem meu compadre Eleuterio entendemos. A gente, como o outro que diz, o que sabe de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'r mulher. Teve l seus arrepios, e abriu-a. Comeamos a lr, mas nem p'ra traz nem p'ra diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas ns no sabemos o que ellas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de lr isto... Ferno de Teive ia a tomar a carta j aberta da mo do regedor, quando sentiu extraordinario peso no brao esquerdo, olhou em sobresalto, e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ella, expedindo uns agudos soluos, quiz em vo pendurar-se do pescoo do pae. Tomou-a o velho nos braos com tremente anciedade, e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo. O regedor e Eleuterio seguiram Ferno, afflictos do successo. Na mo do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do accidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repello intuitivo, sem ainda o comprehender. Tirou com desabrimento a carta da mo do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lanou de arremesso o papel ao cho, e disse: --Deixem-me... no sei o que ... Vo-se embora... Os homens iam sahir, quando elle os chamou com phrenesi, pediu a carta, e desfl-a em pedacinhos, exclamando: --Isto no nada, nada vale, podem ir com Deus. Eleuterio estava assombrado, e o compadre abria e fechava a bocca em signal do seu espanto e compaixo. Em boa f, o regedor acreditou atacado de demencia o velho, ao vr a filha em trances de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razo do caso, bem que Eleuterio ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta. Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mos ao rosto do pae, e murmurou mui carinhosa: --Perde-me, por quem ! Perde esta fraqueza da sua infeliz filha! --Pobre anjo--balbuciou o velho--Que has-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquelle desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mos. Precisavas d'isto, para em fim te convenceres. Mafalda pediu ao pae que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos afflictos, chorou, e viu as lagrimas do velho ajoelhado beira de ella. Ergueu-se com pacifico semblante e disse: --Estou melhor, meu pae. Deus no falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Tambem orei pelo primo Affonso. --Eu no orei--disse o pae--mas rasguei o documento de sua infamia. XV Affonso de Teive contava os dias, e, no ultimo dia, a hora e instantes em que devia receber carta de Theodora. Esperou uma semana em alvoroo, e j, ao decimo dia a mallograda esperana o atormentava. A incerteza da recepo alliviava-o por momentos; outros, porm, sobrevinham em que elle se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oraculo do seu conselho, D. Jos de Noronha, racionalmente, opinava que a mulher, authora de taes cartas, por fora devia responder; e do silencio concluia que se transvira a resposta enviada. Chegou a confirmao d'esta hypothese, na seguinte pergunta de Theodora: Instantemente rogo que no primeiro correio, me digas se me escreveste. Sobejam-me razes para conjectural-o. Estou em ancias. Esta incerteza martyrisa-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta--pedida com lagrimas--para Barcellos. Calculo o dia em que ella deve alli estar. Irei pessoalmente recebel-a. T. P. Lida a pergunta, Affonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalharia. Mandou penar os cavallos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. Jos de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da sahida do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavallos. Affonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preo das novas cavalgaduras, e chegou a Barcellos duas horas primeiro que o correio. Quando apeou na estalagem de Barcellinhos, encostou a cabea esvaida borda d'um leito, e adormeceu. Rompia a manh. A mim me contou elle que, dormindo uma hora, acordra tranzido do horror de um sonho. Vira Theodora em trajos de bacchante, revolteando umas walsas lubricas, e atirando-se ebria, e torpe de impudicicia, aos braos d'um homem. Era um sonho; mas, ao despertar, Affonso sentia abrir-se-lhe o corao a golpes de arrependimento. A prostrao era invencivel: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua me agonizante nos braos de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mos freneticas aquella imagem da fronte; o arrependimento era j lanada de remorso. Abriu o relogio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz elle que fugiria... ai! eu no creio que elle fugisse, no! Chamra o criado para arreiar os cavallos... eis que, ao cimo da rua sa tropel de ferraduras, e faz-se rapida paragem porta da estalagem. Affonso descora, vai de encontro s vidraas, e v apear a morgada. O quarto d'elle era contiguo sala commum. J Affonso lhe ouvia os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a saces do peito. Viu-a. Estava com o brao esquerdo encostado mesa central da sala, e a face reclinada para a mo. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o p acamado no roagante vestido de casimira verde escuro. Verde era o vo do chapo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mos s fontes, afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo at s espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com fora pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava. Poucos traos lhe vi ento das feies menineiras com que a deixra--me disse elle--Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da creana. Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retrahido ao corao. Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli escripto a lapis. Desde este momento, Affonso j sabia o que esperava: queria vl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora chamou o criado da hospedaria, e pediu caf. O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se. Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc. queria almoar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Theodora: --Quem que est n'aquelle quarto? --No sei, fidalga--respondeu o moo. Affonso repoz-se fechadura. Chegou o lacaio. --Trazes?--exclamou ella como assustada. --No ha, minha senhora. --No?!--bradou ella batendo o p-- impossivel! impossivel! Deve l estar uma carta!... --Saber v. exc. que eu li a lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que d as cartas--disse o lacaio, e sahiu. --Inferno!--clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas articulaes.--Maldita eu seja, que to aviltada me tornei! Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes. Pz depois as mos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao pollex da mo esquerda, abaixou a cabea, e meditou. Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada, relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento: --Deixe ficar. C me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe. N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa: --Um passageiro pede uma chavena do caf de v. exc. O leitor j sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Theodora fez. Um _ah!_ ou dous, o nariz de cra para todas as surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Ado, quando viu Eva, devia dizer: _ah!_ A Eva, quando viu a serpente, se no fugiu eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos nervosa, exclamou _ah!_ A interjeio coeva do homem, que nasceu cheio de espantos. Espanto, porm, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Affonso me disse que Theodora no expediu do seio interjeio nenhuma, nem _ah!_, sequer. --Pois que?!--perguntei eu com a respirao abafada--Que disse ella?! --Levantou as mos, ajuntou-as sobre o seio, postas em orao; depois, cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a desfallecer. --No disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente? --Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...--respondeu Affonso--Asseveras-me que te esto contando factos ignorados? --Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcellinhos?!--repliquei--Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crs que um homem, acostumado a fazer romances, uma especie de naturalista, que s com um osso recompe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos traos que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeio. Assim que me disseste, Affonso, que ella no desentranhou do intimo seio um estridulo _ah!_ entendi que Theodora era mais artificial que o proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro. --A narrativa--redarguiu Affonso de Teive--vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansao ou enojo, dir-te-hei que me sinto j constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que recordar na miseria os tempos felizes, , pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como j agora, inexoravel romancista, me no dispensas o remate d'este longo prologo do capitulo final do meu livro--livro que eu chamaria _Amor de Salvao_--concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no rosto de meus filhos. --Theodora--continuou Affonso--quando quiz abrir os olhos, arrancou-se dos meus braos, exclamando:--Repelle-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheo a minha miseria, agora que te vejo, Affonso, anjo da minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!... --Ha ahi muito estylo--interrompi--A mulher compunha! V-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga que tinha olho de D. Joo de Maraa para as mulheres de letras. E depois? --Eu venci o espao que ella deixra recuando e abracei-a. N'este movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a na fronte... --Gosto--atalhei--do comedimento honesto da palavra... _Osculei-a_... sim, senhor... Assim que um pae de oito filhos conta a historia dos seus beijos. E ella tambem te osculou? --Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos. --Isso tambem de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!--perda as interrupes. De proposito as fao para te dar azo a inspirares flego novo, visto que j te afadiga o conto. E vai depois... --Rebentou-me a bolhes do peito a eloquencia da paixo. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer tirra uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me, sorvendo-me as expresses nos labios, ou abafando-m'as no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulco. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvra uma hora, segundo a vida do tempo... --E depois--acudi eu--comearam a tratar de assumptos circumspectos com discreta serenidade. --Contou-me ella que o marido, com ar de _tyranno tolo_... --A phrase d'ella, _tyranno tolo_?--perguntei. --. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre homem, se eu no estivesse... --Corrompido--conclui--Querias dizer isto? --Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava em correspondencias de Lisboa, mordendo o beio, ou esgaravatando nos pavilhes dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam prurido nas orelhas. --Disse-t'o assim ella?--interrompi com a mais ingenua irritao. --Disse-m'o assim, com pouca differena, mezes depois, quando eu estava mais corrompido que ella para provocal-a s originalidades da sua veia sarcastica: do que me confesso em opprobrio meu. Delineamos o nosso futuro. Foi ella quem o programmou. Iriamos para longe. Propuz Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quiz Lisboa, no intento de requerer divorcio. A fuga teria execuo antes de oito dias. Eu ficaria em Barcellos, disfarado, occulto, durante o dia. meia noite apearia a um oitavo de legua de Tibes. Theodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraas coariam a luz da sua lampada, companheira das lucubraes intellectuaes, insuspeitas ao marido. Referendado o programma e rubricado com um osculo (repara, que no me descomponho) ouvi estropeada de cavallo na rua. Momentos depois... --Querem vr que chega Eleuterio!--atalhei com alvoroo e alegria parvoa, seno cruel. --Eleuterio Romo dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde ns estavamos tranquillos como Paulo e Virginia (perdoai-me santas almas a comparao!) nos rochedos de S. Domingos! Agora tu, Caliope, me ensina a contar o successo estranho!... Eleuterio viu ainda o desencadearem-se os braos de Theodora do meu pescoo. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta. --E Theodora? narra-me da esposa surprehendida; que fez ella?--perguntei com inquieto empenho. --Theodora, pendidos os braos, fitou Eleuterio com sobranceria, deu dous passos, postou-se diante de mim, e disse, voltada para o marido: --Que me quer? A minha alma livre. --Esperava outra cousa eu! Isso parece-me estupidamente immoral. caso novo e feio esse! E tu, que fizeste tu? --Nada. --Dos tres quem andaste melhor. Parabens! E elle, o marido, que fez depois? que respondeu Panthasilea? --Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente poda de dous gumes do bolso interior da judia. --Uma poda! Outra novidade! E arremetteu com ella? --Quando elle sacou do ferro, passei para a frente de Theodora. --Desarmado? --Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Panthasilea virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repelliu-me com um brao, e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido. --Novidade terceira!--acudi eu, quasi suspeitoso da lograo do conto--Tu no ests inventando, Affonso? -- inepta a pergunta; mas perdoavel. No invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido d'ella, punge-me devras. Tremia-lhe o ferro na mo ameaadora, e j o rosto se lhe estava banhando em lagrimas. Desceu o brao quebrantado por agonia mais lacerante que a ira, e fitou em mim os olhos chammejantes. De mim, relanceou-os mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse: --Castigada te veja eu, e Deus me vingue! --No esperava eu que elle dissesse isso. Ha conciso e angustia suprema n'esse appellar a Deus--reflecti eu condoido, no obstando tl-o visto, como fica escripto, no arraial de S. Braz de Landim, annos antes, em geito de muita felicidade, e grande frescura de animo e corao--E continuei no meu impertinente interrogatorio, tendo em vista que o leitor fosse bem informado:--Eleuterio, depois, sahiu, ou que fez? --Chorou, embebeu as lagrimas no leno, e disse: Eu no te obriguei a ser minha mulher. Se casaste foi por que quizeste. Se tinhas outra inclinao, no dissesses a meu pae que me querias. --Que impresso fizeram em ti essas palavras to simples e sinceras?--perguntei. --M impresso!--respondeu Affonso de Teive--pessima impresso! Desviei involuntariamente os olhos d'ella: a razo sahiu por momentos do seu chiqueiro, e teve d da alienao da minha pobre alma. Eleuterio, por ultimo, rematou assim: No tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua. E sahiu. Theodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: Estou livre. Aqui me tens, Affonso. Aqui est a tua Palmyra, com o virgem corao que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instinctos maus, graas aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queres-me assim, Affonso?... --Abraaste-a fervorosamente, convulsamente--interrompi eu. --No: disse-lhe com uma falsa graa no rosto:--quero-te assim: partiremos hoje mesmo para Lisboa. E os meus fatos, as minhas joias?--perguntou ella--Tenho brilhantes que eram de minha me.--Deixa-os. Ters brilhantes, se elles forem precisos tua felicidade--A minha felicidade!--exclamou Theodora, ajoelhando-se-me de mos postas--a minha felicidade uma choa comtigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade--Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste d'aquella humildade com a arrogancia da resistencia ao marido. --A esta procella de commoes violentas, seguiu-se um intervallo de silencio morno, concentrao por ventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa me, e a purissima imagem de minha prima. Theodora no sei o que via: pde ser que estivesse lendo a pagina negra do seu destino, voltada pela mo do Senhor. Eu de mim esforava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embellezados; o ambiente escaldante que ella aquecia com o seu halito coava-me lume at s medullas dos ossos; mas o formidavel grito da moral repercutia-me no senso intimo da minha queda. Desgraadas e atrozes ligaes as que principiam assim! que a sentena da justia divina foi j lavrada. Theodora abriu a janella da sala e aspirou com fora; encostou-se ao peitoril, com os olhos cravados nos cabeos da serra da Tranqueira. --Em que meditas, Palmyra?--perguntei-lhe eu. --Em minha me, que era virtuosa como a tua--respondeu ella. Esta dr nobre, to singelamente revelada, fez-me bem ao corao. Commoveu-me aquelle dizer de _mulher_, no tom da maviosa feminilidade que sa to brando e compadecedor nas almas de rija tempera, como era a minha. Fallamos de nossas mes, e com tantas caricias de expresso saudosa, que terminamos, beijando um do outro os olhos cheios de lagrimas. No mesmo dia, por volta da tarde, sahimos caminho de Lisboa. XVI Volvido um mez sobre os successos descriptos, Affonso de Teive e Palmyra--que nunca mais se chamou Theodora--viviam n'um palacete ao Campo Grande, por ser entrada a sazo estiva. O interior esplendido da casa sobreexcedia o exterior magestoso. Nas cavalharias escarvavam, arrifavam e relinchavam os cavallos de trem e de passeio. No pateo, os lacaios limpavam e bruniam os arreios, e as equipagens. Sentia-se o respirar da felicidade, como escondida das invejas do mundo, n'aquelle magnifico aposento. O dono d'ella gozava-se da fama de opulento fidalgo do Minho; porm, o thesouro, que a publica admirao mais lhe encarecia, era Palmyra. Frequentavam a casa de Affonso de Teive alguns dos amigos, que D. Jos de Noronha lhe dera, moos da primeira fidalguia. Ao verem a mulher, por quem Affonso desprezava todas, acharam e disseram, sem lisonja, que elle tinha soffrido e amado pouco. A espectativa de D. Jos fra surprehendida pelo excedente d'uma formosura, graa e talento, no imaginados. Estes gabos, porm, proferidos a medo na presena d'ella, eram to respeitosos e aferidos no padro do melindre palaciano, que Affonso de Teive, nem por sonhos, aventou a possibilidade d'uma inteno desleal do amigo. Palmyra, por sua parte, quando os seus hospedes e convivas, no mais accso dos brindes em lautos banquetes, lhe balanceavam o incensorio dos louvores, baixava os olhos, inclinava a cabea, e mostrava aceitar resignada o incenso, em obsequio aos thuribularios. Era aquella a atmosphera inebriante dos anhelos da morgada da Fervena. Lembranas de sua vida conjugal em Tibes afastava-as com repulso. A imagem de Eleuterio fazia-lhe vergonha de si mesma. Tornou-se desnecessaria a leitura ao recreio das suas noites. Preferia, falta de theatros, passear a cavallo ao claro da lua, ladeada de Affonso e de D. Jos de Noronha, a mais intima e feliz testemunha dos prazeres de Affonso. Tinham noitadas de estenderem a Cintra os seus passeios, ora serenos e contemplativos, ora em correria vertiginosa, vontade e capricho de Palmyra, cujo cavallo negro ella denominra... --Eleuterio?!--perguntei eu, cuidando que adivinhra, quando o meu amigo chegou a esta altura da historia. --No, nem tanto...--respondeu Affonso--chamava-lhe _Lucifer_. --Que desprezo do monarcha do inferno! Parece-me que Palmyra no tinha virtudes para zombar assim do personagem que provavelmente lhe ha-de pedir eternas contas da nomenclatura do quadrupede! Vamos no proseguimento d'esta celestial felicidade, em que o inferno apenas lembrava em virtude do nome do cavallo. No termo de um anno, Affonso de Teive tinha escripto, a largos prasos, pouquissimas cartas a sua me. N'outro relano viria mais bem cabido o fallar-se da virtuosa senhora e da angelical Mafalda. A promiscuidade faz-me susto de vituperal-as. Mas preciso dizer que D. Eulalia, em cumprimento da sua promessa, remettia ao filho as quantias avultosas que elle exigia, e o producto d'uma quinta de sua legitima paterna, logo que Affonso lh'o determinou. Ferno de Teive comprra a quinta clandestinamente por interveno do seu mordomo. O ouro entrava em torrentes n'aquella voragem, d'onde retornava em carruagens, em baixellas, em festins, em sdas e brilhantes, em apostas soberbas no jogo, em extravagancias de soada fama, em emprestimos aos commensaes. No decurso dos doze mezes, apenas Ferno de Teive mandou um triste _memento homo_ ao rebolio d'aquelles jubilos. Eram estas palavras unicamente: Lembra-te, Affonso, de teu tio-av Christovo de Teive. Affonso sorriu e perguntou a Palmyra se lhe via signaes de lepra. A jovial creatura, informada da intencional alluso, cascalhou umas risadas de que muito se compraziam os ouvidos do amante, as quaes, no dizer de D. Jos de Noronha, tinham uma alegria contagiosa, que faziam bem aos infelizes. Affonso no respondeu ao velho de Fonte-Boa; mas, n'uma hora de solido em seu particular gabinete, sommou as parcellas hauridas de sua casa, e espantou-se; calculou a quantia necessaria para vinte annos de vida, e descobriu que no fim de dez annos devia estar morto, para no pedir esmola aos parentes. Levantou-se pensativo d'esta operao arithmetica; sahiu do gabinete; e encontrou Palmyra a lembrar-lhe a conveniencia de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanos. Affonso respondeu tristemente: Pois sim. Palmyra no viu linha alguma extraordinaria no rosto do amante: beijou-lhe os olhos, e disse: s um anjo! Desde aquelle fatal dia dos calculos sobre as despezas de vinte annos, Affonso scismava a miudo nos dez que restrictamente lhe offereciam os seus presumptivos cabedaes, contando j com o fallecimento da me. Infame clausula dos meus calculos! dizia elle com os olhos a reverem lagrimas de remordente remorso, treze annos depois. Palmyra, a final, deu tento da melancolia de Affonso; e ainda antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a no amava j. O interrogatorio affligiu o moo. Reconheceu que faltavam n'aquella mulher as srias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstraces, em meio dos favores da fortuna. Manifestou Palmyra o seu insoffrido orgulho. Similou um recolhimento de amargura cavillosa. Pranteou-se, perguntando ao co, em attitude tragica, se a expiao comeava to cedo. Affonso acariciou-a, j condoido d'ella, e revelou, com desdem de seus proprios temores, a causa mesquinha d'elles. Palmyra observou-lhe que a fortuna d'ella, a sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propoz-lhe requerer-se divorcio, desde logo. O bizarro moo recusou a proposta, ajoelhando em espirito, generosa offerta de Palmyra. Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despezas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. Jos de Noronha era grande parte e conselheiro n'estes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmyra a semana santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Hespanha dous mezes at presentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no ante-gosto de planeadas excurses Italia. Affonso de Teive entrou no seu escriptorio, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmyra o surprehendesse a ll-as. Rezava assim a primeira: Meu primo. A nossa mesinha est muito adoentada, e causa receios ao medico de Braga, que vem aqui todos os dias. No me authorisou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pae, resolvi participar-te isto, e pedir-te que venhas vr esta santa. Ella no cessa de chorar e rogar a Deus por ns. Vem pedir-lhe que, ao sahir d'este desterro, continue a pedir no co por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, _Mafalda_. Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852. A outra, datada em 18 do mesmo mez, continha o seguinte: Meu primo. Acaba de expirar tua me. So cinco horas da manh. Morreu-me nos braos. Dava tres horas o relogio, quando ella disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Fallou de ti at ultima, e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ella escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que no me respondesses ao menos que eu te escrevi ento. Deus sabe o que vai na tua vida. A santa l est no co: ella conseguir o que fr melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altissimo. Aqui est meu pae a cuidar n'estes tristes preparativos para o enterro. J dobram os sinos. No me deixam escrever as lagrimas. Adeus, Affonso. Tua prima, _Mafalda_. Affonso, concluida a leitura d'esta segunda carta, bradou: Meu Deus, meu Deus! e cahiu de joelhos, escondendo a face nos estofos d'uma othomana. Acudiu Palmyra aos gritos. Affonso ergueu-se, com as mos no rosto, e, abafando os soluos, pde dizer: Morreu minha me! --Chora, no meu seio--disse ella commovida--chora, meu querido filho! Tens ainda este grande corao que te abriga na tua angustia. Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilegio, uma injuria memoria da mulher, cuja vida fra uma enchente de virtudes. O corao da adultera a dar abrigo dr de um filho! Era a consciencia que assim lhe gritava, no era ainda o tedio. Era, talvez, a repugnancia de se encostar ao seio da mulher por amor de quem deixra morrer sua me, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora mieira da casa, cujo herdeiro elle era. Affonso pediu a Palmyra que o deixasse sosinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inutil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lagrimas, Palmyra cruzou os braos e abanou a cabea. O atribulado moo no vira aquelle gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam: --No basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma me. Eu tambem a tinha, quando te amava, e abriguei-me no teu corao. Que differena!... Affonso irou-se; mas abafou a colera n'um gesto de impaciencia. Palmyra comprehendeu-o, retirou-se, lanando os olhos s duas cartas, que estavam abertas. Encostou-se mesa, e leu-as sem lhes pr mo. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na lingua uma ironia infame, no ousou proferil-a, e sahiu. que a mulher impura muitas vezes espumra o pus do cancro do orgulho, que a roia, na face immaculada de Mafalda, que o moo indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraada na sua amoravel dedicao. Assim que Palmyra sahiu, Affonso, a tremer calefrios, deslacrou a carta de sua me. Dizia assim: Meu filho. Muito ha que eu peo a Deus que me despene. J me canava a vida com to aturado padecer, e nenhuma esperana de remedio. Agora espero que a misericordia do Senhor me attenda; e, se me diz verdade o corao, chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te sero mandadas quando eu tiver passado. Bem sabes tu, meu filho, que eu, cheia de terror do teu peccado, voltei para Deus a minha afflico, e nenhuma palavra de censura te escrevi. O que eu podia fazer para livrar-te estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz creatura estava j comtigo. Ninguem sem ordem do co poderia remil-a de sua perdio. minha presena veio o desgraado marido de Theodora pedir-me que te movesse a influir no animo de sua mulher o recolher-se n'um mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina, e depois a razo humana. As minhas oraes, se podessem com Deus alguma cousa, l iriam ter tua alma em abalo de consciencia. O Senhor no quiz. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Theodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade n'um requerimento vo e desconforme natureza da tua desgraa. Abaixar a minha dignidade no me custava nem humilhava; mas, sem esperana de te mover com as minhas pobres razes, antes quiz orar, e orar sempre a quem tudo podia. Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remetter-te n'um anno o rendimento de quatro, afra o producto da quinta vendida, nada te disse respeito causa dos teus desperdicios, promettedora de tua inevitavel pobreza. Conheci que eu, em tua vida, j nem sequer valia para amiga, muito menos devia esperar respeitos e amor minha authoridade de me. Disse commigo que era irremediavel a tua desgraa, e esmoreci de todo em todo. Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Choramos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandissimas mortificaes. Agora, meu filho sempre querido, tempo de te abenoar, de te perdoar as dres que me dste, e rogar-te que me vejas aos ps do Altissimo, se a sua misericordia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. No te mortifique o pezar de me haver deixado morrer, sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do deshonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntario brado da consciencia, escuta-o, remedea-te, e foge de ti mesmo para te encontrares na justia benigna do perdoador de crimes iguaes. Eu serei ento em espirito comtigo para te ajudar a reformar o teu animo, e alentar em teus desfallecimentos. Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dar abundante po na velhice, se Deus t'a der, como tempo de merecer o co. Aqui nasceu teu pae, e muitas geraes de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avs. Se alguma vez voltares aqui, e tua prima fr viva, estima-a, em paga dos carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha, que ella me ha-de dar, quando eu expirar em seu seio. Aqui te lana sua derradeira beno a tua boa me, _Eulalia_. XVII Encerrou-se Affonso por espao de oito dias, inconsolavel aos afagos de Palmyra. Os amigos, seus socios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernaes logrativos das dissipaes, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se vista d'elles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em lucto de oito dias, que um homem de razo clara tinha obrigao de ser superior a soffrimentos communs e naturalissimos, taes como a morte de uma me. Palmyra ia ao salo receber os pezames, e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusillanimidade de Affonso. Eu soffro muito--dizia ella a D. Jos de Noronha alquebrando o rosto em desconfortada pena--ao vr que a minha solicitude consoladora nada pde com Affonso. O corao da mulher, que renunciou satisfao do dever, e se immolou aos caprichos transitorios d'um homem, deve tambem renunciar o poderio de desviar d'uma sepultura os olhos d'elle. Assim se castigada, quando se culpada como eu. A taes razes, proferidas com os olhos no tecto, respondia D. Jos de Noronha:--Eu hei-de acreditar que Affonso deixou de amar apaixonadamente v. exc., quando elle se confessar um monstro, e a honra fr banida d'este mundo. Eu s comprehendo o esquecimento da honra, quando preciso sacrifical-a a uma senhora como v. exc. Ainda bem que ha uma s, para se no abjurarem os deveres sociaes.--Ora, o estylo de Affonso--digamol-o de corrida--era muito mais lhano e correntio. O filho de Eulalia, passado o primeiro mez de lucto, disse com suaves maneiras a Palmyra que o seu animo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo;--que resolvia diminuir as suas relaes e as suas superfluidades;--que tencionava occupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmyra o acompanharia, revivendo a sua esquecida affeio aos livros;--que aceitava como inspirao de sua santa me o desapegar-se de regalos vos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem: finalmente, concluiu Affonso: Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos. Palmyra sorriu, e disse: --Bem sei... bem sei, Affonso. --Que sabes tu? perguntou brandamente o moo--Diz o que sabes, minha amiga. --Comprehendo a mola occulta do teu novo programma de vida... o cansao... J me chamas _tua amiga_. A mulher, que ama, quando lhe do tal nome, sabe que cousa de pouca monta para quem lh'o d. Falla-me claro: sentes o entojo de impresses novas? As cartas de tua prima que levantaram em teu espirito essas poeiras de tardia virtude? Nada de reflhos, Affonso. A minha opinio que nenhum de ns se constranja. As pas, impostas mesmo pelo dever, so um infortunio muito meu conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Affonso? --No amo minha prima--respondeu serena e pacientemente o moo--Se amasse Mafalda, de certo no estaria ao lado de Palmyra. Estimo-a como irmo; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o ultimo alento de minha me o recebeu ella nos labios... Porm, que tens tu com minha prima? Que injustas referencias so essas que continuamente lhe ests apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrer sem outro prazer seno o da sua virtude mal remunerada n'este mundo?... --Virtude!...--interrompeu Palmyra franzindo os labios no sorriso da ironia injuriosa--Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vicios!... Pouquissima generosidade a tua Affonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua bocca o libello e a condemnao das minhas culpas?! Pde ser, pde ser, e eu, envelhecida pela experiencia de poucas semanas, no terei de que espantar-me. --Offendem-me as tuas injustias--redarguiu Affonso soffreando a impaciencia--Que direito te dou para tanto? --Direito? queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?! --Essa pergunta aviltante, Palmyra!... Onde est a tua intelligencia, a tua critica, e propriamente a tua vaidade?--redarguiu Affonso de Teive--Desconheo-te, ests a descer sem impulso estranho... --A descer da tua considerao?--acudiu ella resabiada. --Quem o duvda? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Affonso de Teive. Queria eu dizer que no te dava direito, ou causa a offender-me. --Bem!--tornou ella amaciada a voz com falso accordo--Aceito a explicao. Perdemo-nos reciprocamente, e sejamos... sejamos... _amigos_, sim? --Como tu feriste ironicamente a palavra _amigos_!... -- que me no ta bem nos ouvidos do corao--replicou Palmyra risonha, chegando a face aos labios do moo, que a beijaram friamente. --Em quanto ao teu novo traado de vida--volveu ella--queres que se cumpra, em rigor, como est ordenado, sim? --_Ordenado_, no o termo proprio--Consulto-te, expuz em breve as minhas razes; mas se te despraz... --Apraz-me tudo que te contenta, meu Affonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? trespassa-se o camarote? vamos habitar uma casa modesta... Queres, Affonso? Tambem eu. No escapou a Affonso o tom ironico de taes perguntas. Cahiu em si de repente, e viu-se em comeos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que elle tinha o bello barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o tumulo de sua me os olhos d'alma, e viram Mafalda de joelhos na lagem da capella com a face apoiada no marmore do jazigo. As luzes restantes do altar ficaram para lhe amostrar o odioso da mulher de Eleuterio. s perguntas retrincadas no respondeu Affonso... Ergueu-se, e sahiu do seu quarto. Refugiou-se no mais recondito do palacio, para chorar a salvo do opprobrioso sorriso de Palmyra. Depois, voltou ao seu escriptorio, e escreveu a Mafalda esta carta, significativa de mudana temporaria, seno fundamental, em seu espirito: Prima Mafalda. Vai ao p do tumulo de minha me, e repete-lhe as palavras d'esta carta. A justia de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de affronta que levantei da lama com minhas proprias mos. O arrependimento dos desvarios da mocidade no costuma atalhar to cedo a carreira dos grandes desgraados. Fere-me Deus to cedo! por que me quer desatar d'este jugo de infamia. Auxiliem-me as oraes de minha me, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faa o dia da razo em minha vida. A aurora d'este dia j aponta; mas o meu corao ainda est envolvido em trevas, e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas oraes, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memoria de nossa me, ouso invocar a sua intercesso no co; sei que a alma bemaventurada no repelle o mau filho que a crucificou nos ultimos annos, quando me ella pedia seio onde encostar as suas cans. Mafalda, anjo solitario, que vs com os olhos puros as estrellas da nossa infancia, ora por mim, d-me a tua piedade, que nenhuma outra me d este mundo. Escreve-me, diz ao teu veneravel pae que me escreva. Lembra-lhe os pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Christovo de Teive sente j no corao o corroer das ulceras que carcomeram a pelle do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim proprio, que o esteio da religio no pde com o peso de meus desatinos. Teu primo, _Affonso_. Mandou Affonso lanar a carta na caixa postal. Um quarto de hora depois, entrava Palmyra, fremente de raiva, com a carta aberta, exclamando: --Isto uma grande miseria, e uma grande infamia, snr. Affonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta affrontosa carta seja reformada. Affonso lanou mo da carta, e recuou horrorisado da villania de Palmyra. Seccou-se-lhe a garganta e labios ao queimar d'um halito de colera que lhe calcinava o peito. No pde fallar. Sahiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. J no era criado de Affonso o miseravel que vendera o sigillo de seu amo pelo ouro d'elle mesmo: fugira bem remunerado. No entanto Palmyra esbravejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Affonso, congestionadas as fontes de sangue, e o corao em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para no ouvir os clamores da mulher cuja furia recrescia proporo do desprezo com que os proprios criados lh'a escutavam. Affonso de Teive sahiu aforrado como quem foge; foi lanar a carta por sua mo; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Ahi sentiu orvalhos do co esfriar-lhe o afgo da febre. Olhou ao co com mos erguidas, e disse: oh minha me! Ao cahir da noite, voltou a casa, e viu no pateo o _gig_ de D. Jos de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua me, acercou-se cautelosamente d'elle, e disse-lhe: --Fidalgo, no se afflija... Tenha animo, fidalgo, e no deixe fazer o ninho atraz da orelha. O chulo da phrase offendeu-o, e a inteno mysteriosa ainda mais. --Que queres dizer, animal?--perguntou Affonso. O criado coou-se fechando os olhos, e respondeu: --L em cima est o snr. D. Jos de Noronha. --Que tem isso? no o tens aqui visto tantas vezes? Responde. --Tenho, tenho, e Deus sabe se c por dentro me no tem dado guinadas de lhe partir na cabea o _gig_. --Por que? Vem c... Entra n'esta loja commigo... Falla claro!--dizia Affonso com suffocativa vehemencia--Que desconfias tu de D. Jos? --Desconfio, fidalgo, que a snr. D. Palmyra no fiel a v. exc. --Mentes! mentes!--bradou Affonso--Prova-m'o, seno mato-te. --No ha-de matar, se Deus quizer, senhor morgado--volveu tranquillamente o Tranqueira, nome que merece lembrado.--Faz favor de tomar ar, e ouvir com socego. Estes negocios no vo assim de afogadilho. D tempo ao tempo. --No tempo ao tempo, j, j, immediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabea. --Fidalgo, ahi vai o que sei. O criado que fugiu esta manh, sem que eu lhe podesse pr os dez mandamentos, foi c mettido pelo lacaio da senhora, e era l muito collao d'ella. Uns dias por outros, pisgava-se do servio o rapaz, e andava por l quatro horas. Antes de hontem, tirei-me dos meus cuidados, e fui-lhe na pista muito socapa. Levei-o d'olho at rua de Santa Barbora, e l esgueirou-se-me. Querem vosss vr que o diabo as arranja? disse eu c c'os meus botes. Estar elle mettido em casa do D. Jos de Noronha? Meu dito meu feito! D'ahi a menos de tres credos sahia o malandro de casa do tal supplicante, e vinha anda que anda por alli fra. Sahi-lhe eu d'uma travessa, e disse: Tu d'onde vens, Antonio? O patife engasgou-se, e nem p'ra traz nem p'ra diante. Tate! disse eu, aqui ha tratantada. Se elle fosse a cousa boa dizia-o. Puz-me a considerar no que havia de fazer. Eu se lhe digo que o vi sahir de casa de D. Jos, espanto a caa, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo minha conta espreitar a ama...--a ama! que a leve o diabo, que quem me paga o fidalgo!--espreito e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negocio, e meu amo d cabo d'este ladro que o veio deshonrar a sua casa. Affonso, alm da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do craneo, como se l se contorcesse e mordesse o cerebro um enxame de vespas. O criado continuou: --Antes de hontem noite appareceu aqui o D. Jos. Fui em palmilhas atraz d'elle. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi v. exc. entrar tambem com a senhora. Desde ento no tornou c seno agora; mas como l est com elle outro amigo, acho que no tem duvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui est o que eu sei, meu amo. Bote l as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha ao tal menino, se fr preciso. Affonso poz a mo direita sobre o hombro do Tranqueira, e disse: --Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recommendo-te que no digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira? --Ento isto fica em agua de bacalhau?--perguntou o criado, abrindo e fechando as mos. --J disse: nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim. --Bem me fio eu n'isso!--murmurou o lacaio na ausencia do amo. Affonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho: esperou que o rubor da excitao se descorasse, compoz o semblante, e passou sala onde estavam Palmyra, D. Jos de Noronha, e um particular amigo d'este. Palmyra, no soph, tinha os braos em cruz sobre o seio, e a face inclinada sobre elles. D. Jos de Noronha folheava sobre a jardineira as _Mulheres de Walter-Scott_. O amigo estava sentado na poltrona contigua ao soph. Cortejou Affonso os dous cavalheiros, depois de estender a mo a Palmyra, com to demasiada ceremonia, que lhe no roou as pontas dos dedos. Esta aco, depois da lucta da manh, pareceu naturalissima esposa de Eleuterio. Depois, achegou-se serenamente de D. Jos, observou a _Flora Mac-Ivor_ do romancista escocez, concordou com D. Jos na primazia da gentileza d'esta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licena para recolher-se, obrigado por uma fortissima enxaqueca. Tudo isto com um natural irreprehensivel. Entrou Affonso no gabinete de Palmyra. Havia alli uma secretria de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira serie, encontravam-se uns _falsos_ de segredo, conhecido d'elle, que fra o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Affonso pelos botes da gaveta central: estava fechada, e as duas lateraes abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelao. Procurou um ferro geitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta d'um punhal. Cedeu a fragil lingueta, estalando. Tirou Affonso a gaveta, que continha joias: levou o dedo ao imperceptivel boto que abria o _falso,_ e tirou dous macetes de cartas, e uma solta. Abriu esta, e leu as primeiras linhas. Uma sombra de duvida seria estupidez maxima. Dizia: _ preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me hontem de certa maneira... Emprega o nosso Antonio na espionagem d'alguma suspeita. Amanh vai commigo o D. A. M. se fr propicia a occasio elle sahir a tempo. &c_. Passou Affonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditaes! D'ahi a pouco ouviu o rugir das sdas de Palmyra. Lanou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mos. --Ests melhor?--disse ella maviosamente. --No. --Cuidei que estarias deitado. Que has-de tomar, meu filho?--Volveu ella, inclinando-se ao rosto de Affonso--Que tomas de ceia? --Nada. --Ests ainda muito irado contra mim?--replicou ameigando-o. --Deixa-me, que me custa fallar. Vai sala, se est l gente. --Irei, se de nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda l esto aquelles maadores... Logo voltarei a saber de ti. XVIII Voltou Palmyra sala, e, momentos depois, reappareceu no quarto d'Affonso, perguntando se D. Jos de Noronha e D. Antonio Mascarenhas podiam, no incommodando, visital-o. Affonso respondeu, sem alterao, que lhes agradecia o cuidado; mas, confiado na amiga familiaridade com que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em silencio, a vr se assim a dr de cabea se mitigava. Palmyra entrou bem assombrada na sala, e disse a D. Jos: No ha que desconfiar. So saudades de Mafalda, rebuadas nas saudades da me. Entretanto, Affonso, lanando-se do leito, examinava os fulminantes das pistolas... Seja elle o narrador d'este indescriptivel trance: Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexo para bem definir os actos sequentes ao homicidio, senti no corao uma rija pancada, e, para assim dizer, quasi apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha me. Depuz as pistolas, e ajuntei as mos. Ainda agora me maravilha a passagem rapida da vertigem, em que a minha honra me impunha matar o infame, para a tranquilla considerao sobre a inefficacia do homicidio como vingana da perfidia. Attribuo esta mudana inverosimil, segundo a logica das paixes, a mais forte poder que o da alma humana. N'esta suspenso, pedi ao espirito de minha me que me acudisse com o conselho salvador. No ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu algum designio. O que vi foi a imagem de Eleuterio, na sala da estalagem de Barcellinhos, no momento em que, lavado em lagrimas, dizia mulher: Castigada te veja eu, e Deus me vingue! Eis aqui a resposta da alma bemaventurada; eis aqui as indirectas respostas da Providencia. Entendi que sora para mim a hora da expiao, annunciada pela viso do marido, cortado de angustias, superiores minha. Faziam-se acceleradas transformaes em meu animo; todas, porm, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a occultas de minha casa, e esconder da infame e do mundo a explicao da minha fuga. Acudia-me logo outra ida argumentando contra a miseria d'aquella. Lembrou-me propor a Theodora a separao, reservando a razo da proposta. No sei quantos projectos disparatados ou irrisorios se atropellaram na minha pobre cabea. Serei eu um covarde? perguntava eu logo minha consciencia. Vinha ento outra vez Eleuterio postar-se ante mim, e dizer mulher que o fitava com desprezo: Castigada te veja eu, e Deus me vingue. Desligado da menor premeditao, assalteou-me de repente uma ida, cujo alcance e desfecho eu no curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmyra, encontradas no segredo da secretria, e dirigi-me sala. Ao sahir da porta do meu quarto vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo, e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia alli. Estou de planto respondeu elle. Ainda agora, ou agora verdadeiramente, que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido, e continuou: Como dei f que o patro se deitou, no quiz deixar o negocio ao Deus dar: o que foi. Entrei na sala a passo mesurado, e quasi a subitas. Estava D. Jos ao lado de Palmyra na mesma othomana. D. Antonio folheava as _Mulheres de Walter-Scott_. Palmyra estremeceu, ao vr-me assomar debaixo do reposteiro. D. Jos, embrutecido pela surpreza, no se moveu da posio denunciante da extrema familiaridade. Em minha presena, nunca elle se assentra a par de Palmyra no mesmo estfo. Voltando a si da estupefaco de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse: --No se incommode, snr. D. Jos de Noronha. Est bem. Os meus amigos em minha casa so os donos d'ella. --Essas maneiras exquisitas, Affonso...--tartamudeou D. Jos, em quanto Palmyra, perplexa ainda, manifestava sua duvida no abrimento da bocca e esgazeado das faces. No respondi banal reflexo de Noronha. Voltei-me para D. Antonio, e disse-lhe:--O snr. Mascarenhas de mais aqui. _Se fr propicia a occasio, elle sahir a tempo_--diz a carta do nosso amigo D. Jos. V. exc. devra j ter sahido. Relanceei de revez um olhar a Palmyra. Vi-a sobresaltada e livida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do soph. D. Jos erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. Antonio encarava-me com ares de pavor. Eu continuei:--A figura do snr. Mascarenhas n'este quadro de mais. Queira sahir. --Eu vou com D. Antonio--disse o Noronha. --Elle que o espere na rua--respondi, voltando levemente a cabea sem o encarar. D. Antonio tomou o chapo com presteza, abaixou a cabea a Palmyra, e sahiu, cortejando-me. A mulher da estalagem de Barcellinhos voltou ao corpo de Theodora. Eil-a em p, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos. --Que significa isto?--exclamou ella--Acabemos esta situao sem grandes scenas! Que vem dizer-me o snr. Affonso? Confessarei que me senti pequeno diante d'este cynico interrogatorio! Que havia eu de responder mulher, que rebatera com escarneo e arrogancia as moderadas aggresses do marido? Com que direitos ia eu alli, deshonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ella que estava perdida? E, se a infamia era commum de ambos, por que ambos eramos criminosos, que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna d'aquellas perguntas? Smente assim posso agora dar-me contas de minha mudez de ento. E ella, acoroada pelo meu espantado silencio, proseguiu:--Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braos, snr. Affonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palacio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servido, em quanto o snr. Affonso, enlevado nos ideaes amores d'uma prima... --Infame!--atalhei eu--Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... No suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, no cahida na ultima abjeco, impe respeito amante de D. Jos de Noronha, hospedada em casa de Affonso de Teive. --Bem!--exclamou ella--a amante de D. Jos de Noronha agradece a hospedagem, promette mesmo pagal-a da altura da sua independencia, e vai sahir, impondo silencio ao insultador. --Pois saia--tornei eu--mas leve comsigo o esterco com que sujou a minha casa!--e, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas. Palmyra, como se um aspide lhe mordesse um p, deu um salto de fera enjaulada. D. Jos de Noronha tremia. E eu continuei, voltado contra elle:--A infamia assim: tem esses desmaios de covardia, que desarmam o odio, e levariam piedade, se o nojo no estivesse quem da virtude da compaixo. Snr. D. Palmyra, aqui tem um paladino, que a no ha-de deixar corar sem desforo diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege s suas ordens, se o seu pudor lhe no permitte entrar no carro do amante. Em quanto ao snr. D. Jos de Noronha, saia, e espere-a na rua. Palmyra fugiu da sala em arremettidas de louca. D. Jos sahiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu cahi extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer alli afogado de congesto de sangue no corao. D'ahi a momentos ouvi o gritar estridente de Palmyra, e um grande rebolio no pateo. Quiz debalde levantr-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados. Abaterei agora a linguagem tragica do successo para te narrar o que se passava no pateo. O Tranqueira, posto de planto, como elle dissera, no sahiu da sala de espera, ou do proximo corredor. Momentos antes da sahida de D. Jos, descera elle ao pateo. Quando o aturdido infame ia passando, sahiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do servio das cavalharias. Avisinhou-se de D. Jos, metteu-lhe a luz cara, e disse-lhe: O fidalgo, se me no engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e no ser mau refrescar-lhe a cabea. Disse, depoz a lanterna, sobraou-o pela cintura, fincou-lhe a mo esquerda no gasnte, levou-o de borco sobre a cisterna do deposito d'agua para os cavallos, e baldeou-o dentro, exclamando: Ha-de ir fresco, ha-de ir fresco, seu alfacinha! Os outros criados ainda quizeram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jockey de D. Jos, rechaando-o com um pontap tangido por furia, digna de melhor adversario. O desgraado cahira de cachapuz, e logrra logo romper com a cabea flr d'agua; mas do pescoo abaixo ficou empoado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, mingoa de pega onde afincar as unhas. O instincto da vida vencera o da vergonha. D. Jos gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas noites, fra para a cavalharia arraoar os cavallos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmyra, a tempo que o jockey se erguia do pontap que o desintestinra, para, muito a custo, acudir ao amo. Desceu Palmyra anciada ao pateo, no momento em que o eleito de sua alma, na bocca da cisterna, sacudia as bicas d'agua, e tiritava estalejando as maxillas. Fulminou-a o ridiculo! S o ridiculo podia sossobrar aquella alma de tempera, feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do porto para o escuro do pateo. Nem a commiserao lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moo. Odiou-lhe talvez a covardia n'aquella hora. Odiou-se talvez a si propria. No sei. Avisaram-me que ella estava prostrada, e sem sentidos, no lagdo do pateo. Dei ordem s criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando commigo o criado que me vira nascer, o unico homem diante de quem eu podia chorar. XIX No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de minha me se mesclava ao revolutear das minhas concepes desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabea. O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu brao; era quando eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem. Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que lhe eriavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavallo. Aqui tens a minha noite: no tenho outras memorias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manh se romperam os diques das lagrimas, e chorei por muito tempo. O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por Palmyra. Era uma declarao de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliao dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por tanto, havia sahido na manh d'aquelle dia. Ao entardecer, quando a tristeza cahia do co, como um lucto de almas no j desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperana, confrangeram-se-me em dr ineffavel as fibras do corao, dr de saudade voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vl-a no sei se para cahir-lhe de joelhos aos ps, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum allivio pedido a todas as potencias de minha imaginao, pedido a Deus, e ao amor de minha me, nenhum conforto experimentei. Era a desesperao, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperana de cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o corao com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas vises era ella, nos braos d'aquelle miseravel, quella hora. As minimas circumstancias d'um espectaculo de devassido, as mais secretas, e lubricas minudencias se me traavam patentes a uma claridade infernal. A orao, esse divino desabafo de enormes afflices, nem esse bem me valia um relampago de socego alma. Comeava orando, a anciedade recrescia, a f desamparava-me, e ento sobrevinha o desprezo de Deus, a negao da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos to nobres, educao to religiosa, e respeitos to profundos dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu ento os epithetos usurpados honra!... Eu que me infatura perante o mundo de acorrentar minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flres, cuidando que a sociedade havia de respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia! Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraa!... Mal me entreluziu a manh, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dar remedio. No respondi; mas pensei. A quietao da minha alda convidava-me; porm, entrando em espirito no interior da minha casa de Ruives, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas desertas: faltava-me minha me alli: o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me lembrana a minha triste Mafalda, a irm terna, a meiguice da virgem compadecida; porm o meu corao, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto purificador. O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem da vida, quadrava mais minha alma sedenta de no sei que filtros de lagrimas e sangue. Estava traado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resoluo sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razo logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se andar por suas proprias mos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondencia de minha me e de Mafalda. Queimei os restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por qu? Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creana que ento morrera... --Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres. Procuraram-me, e eu no os recebi. A minha vaidade envergonhava-se d'elles. Nem a despedaadora curiosidade de saber o destino de Palmyra pde vencer o orgulho escarnecido. No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo minha. Eil-a aqui: Ambos te queremos do corao, Affonso. Meu pae no diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua me dizia em ancias: perdi meu filho! o meu bom pae ajuntava sempre: elle vir, minha irm, que a sua indole boa. Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me: escreve-lhe tu, com a beno de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; o mais que posso dar-lhe. Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio que so inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Affonso, nos ds grande satisfao. Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada me. Se te mortifica o pezar de no ter vindo assistir-lhe morte, tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha e que me ella era. Eu fui lr beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao p d'ella to desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do co a minha alegria. Pde ser que esta carta v encontrar-te no gozo do allivio que eu senti ento. Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da tua casa. Meu pae faz o que pde, e dirige o teu procurador; mas receia de no zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela distancia em que vivemos de Ruives. Adeus, meu querido irmo. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade da tua _Mafalda_. Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expresses affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias formalidade de relaes entre primos que se estimam. que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o v rejeitado d'outra, embora villissima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu no queria nem podia, coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, no poderia amal-a ento como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmyra. Sabem os experimentados, poders tu sabel-o, que uma excepo d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeio a outra, quando nos pesa o opprobrio d'uma perfidia. O corao est lanhado, a fronte no ousa erguer-se para a mulher do amor de salvao, a dignidade geme sob um peso de vilipendio, que cuidamos lr nos olhares affrontadores de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixo. Mas o que em casos taes a piedade, seno injuria?! Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruives. Na volta do correio, avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Ferno de Teive. Dizia assim: Tua prima est enferma, por isso no te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudana para Paris. Vai com Deus, Affonso. Pde ser que a tua felicidade l esteja. Folgo de te vr ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens so iguaes. Quereres tu o privilegio que o marido no teve, seria um absurdo do teu orgulho. Theodora est em Braga promovendo o divorcio a fim de levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por interveno de um meu compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gta. Sou o depositario do borrador das cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores levam-me a crr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a fallar comtigo laia de rapaz! e o caso que a dr do calcanhar esquerdo espalhou. O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e Gestal. Para te no dizer cousas tristes, e evitar que torne a dr do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmo de tua me, e teu amigo devras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa. Se eu morrer--e ainda bem!--antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!) deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua me e eu fomos para ti: o corao devotado sem condies. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-nos de Paris--Teu tio _F. de Teive_. Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O drago do ciume desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspenso da perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quo lastimaveis e ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame da s moral resiste ao cancro do corao. At o regenerarmo-nos tem para ns um certo ar de baixeza de animo, scena de comedia que faz rir o mundo. E eu, ancioso de um mundo novo, fui para Frana. Que cuidas tu que eu ia procurar em Frana? --O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados--respondi eu. --No me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvao. --E encontraste-o em Frana? --Encontrei. --Vejamos. XX Ao oitavo dia de residencia em Paris, Affonso de Teive no sabia que fazer da sua pesada inercia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babylonia, e suspirava pelos silencios da sua alda. Apresentra as cartas de cavalheiros de Lisboa na embaixada portugueza, recebera a visita dos compatriotas distinctos em Paris, e convivera nos primeiros dias em bailes, theatros, e jantares. Saciou-se prestes aquella contrafeita sofreguido de vida, e logo uma subita e glacial atonia lhe ennegreceu os prazeres, almejados de longe, como iniciao para outros, que inteiramente lhe obliterassem da memoria as dres passadas. E, no termo de oito dias, uma consolao unica lhe restava: era o ante-gosto de voltar casa deserta de Ruives, e esperar alli ao lado do jazigo de seus paes o breve termo de sua irremediavel tristeza. Affonso, porm, tinha vinte e quatro annos. A natureza contramina estas renunciaes intempestivas. Uns repentes impensados sacodem a alma de sua modorra, e a sobre-excitam a desejos vagos, bem que ephemeros. A materia no um impassivel envoltorio de coraes entorpecidos. preciso que a vida sensitiva se amortea antes da actividade moral para que as paixes mallogradas vinguem o total quebranto do homem. Entrou Affonso na sociedade, levado pela mo da esperana, que promettia guial-o ao p da mulher salvadora. Mal encaminhado ia aos sales de Paris. Os conhecedores d'aquelle mundo contaram-lhe as historias de cada mulher, que tinha ares de poder salvar alguem: no geral eram creaturas, que procuravam quem as salvasse das incertezas do futuro pelo casamento justificado e santificado com algumas centenas de milhares de francos. Estas eram as filhas dos generaes do imperio, as filhas dos estadistas em comeo de fortuna, as filhas dos gentis-homens cujos appellidos contavam sua antiguidade de Carlos Magno para alm. E todas estas meninas, esperanadas em salvao, e em requesta de salvadores, quando encaravam no vulto melancolico de Affonso de Teive, imaginavam-no um galante moo que, ao contemplal-as, dizia magoadamente entre si: Se eu fosse rico!... E ellas, olhando-o de soslaio com discreta reserva, diziam: Se tu fosses rico!... Quando Affonso tomou a peito rectificar este juizo dos seus amigos, avisinhou-se das mais aureoladas do azul-celeste da innocencia, e averiguou que as mais singelas vista eram as que mais a ponto fallavam, em termos rigorosamente arithmeticos, de fortunas deslumbrantes, de casamentos projectados. E, se elle, com a portugueza e bemdita poesia dos nossos amores de sala, aventurava algumas phrases de idyllio sobreposse, as ligeirissimas creaturas ouviam-no distrahidas, como, no theatro, ouviriam musica de Donizetti, e encheriam de melodias a alma, em quanto assestavam o binoculo no filho do banqueiro. Comprehendeu logo Affonso de Teive que no servia alta sociedade parisiense. Um forasteiro, que vai a Paris com trinta mil cruzados, e deixa na patria uma quinta, que valeria menos de metade d'aquella quantia improductiva, deve contar que no caminho do hotel aos theatros e salas, aos festins e concertos, em menos de dous annos, com alguma parcimonia nas despezas, se lhe ho-de escoar as ultimas mealhas. Os haveres de Affonso, postos disposio da filha do marechal do imperio ou do marquez decahido com os Bourbons, dariam uma dezena de _toilettes_ da esposa. Esta dura verdade calou-lhe no animo, afastando-o do concurso de mancebos, que malbaratavam cada mez fortuna sobreexcedente d'elle. Penoso desengano s portas do grande mundo onde elle tencionra retemperar o corao ao bafejo das primeiras mulheres da poca, e da Frana. Tinha, por tanto, que descer s inferiores camadas, abaixo mesmo da media. N'esta mais difficil lhe seria o escolher um rosto distincto e uma alma no estado da innocencia do anjo: trancava-lhe as portas a cobia que l vai dentro, imitando-as a elevarem-se at emparelharem com as invejadas mulheres da classe alta. Elle, cuja razo se alumira luz do facho do universo, luz de Paris, viu-se qual era, correu-se da sua comparativa pobreza, e refugiu dos bailes, das cas, e dos concursos em que o seu peculio se ia desnervando custa de sangrias inevitaveis. Madrugou, um dia, Affonso de Teive ambicioso de riqueza. N'esta hora, e pelo tempo fra de oito mezes, fez-se em seu corao um quietismo espantoso! Descuidou-se do esmero no trajar; era-lhe j como indifferente o reparo da mulher. Vendeu o tilbury e o cavallo. Mudou para hotel menos dispendioso. Traou plano de batalha fortuna, e entrou no jogo de fundos, onde os felizes, a um relano de olhos da boa fada, accumulavam enormes cabedaes, facto demonstrado por milhares de exemplos. Foi feliz nos ensaios timidos, e em pouco. Prosperaram-lhe outros de maior risco. Cuidou-se bemfadado para emprezas maiores. Vieram as alternativas, equilibrando-se. Comeou Affonso a estudar seriamente os mysterios d'aquelle jogo, com enthusiasmo e absoluto menosprezo de tudo mais. Dizia-se elle: refaa-se a fortuna, que depois se reconstruir o corao. Dinheiro, muito dinheiro, para comprar uma alma pura em Paris, onde a raridade tornou carissimo o genero! Sossobrado por um revez, perde metade do seu capital. Desanima, e esmorece em fora moral. Vai a medo barra do Potosi, e cr que est alli um abysmo a tragar-lhe o restante, e depois a elle. Que far empobrecido no extremo? Vender a casa, a quinta, a capella, e o tumulo de sua me? Lembra-lhe a me, e invoca a alma santa a coadjuval-o na empreza immoral. A santa infunde-lhe uma insuperavel desanimao diante do perigo. Associa-se a jogadores felizes. Balancea-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito mezes, a sociedade quebra, e Affonso de Teive tem de seu algumas libras, e cincoenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua gaveta, os seus ordenados e economias de muitos annos. O criado amigo, testemunha das lagrimas e das vertigens, ousa aconselhal-o que volte para Ruives, e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Affonso enfuria-se contra o criado, exclamando: Sabes o que a minha casa de Ruives? So quarenta carros de po cada anno--E vinte pipas de vinho, e uma de azeite--ajuntou o criado. Que vale tudo isso?--perguntou Affonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos, e respondeu:--Feitas as despezas do grangeio, vale seiscentos mil ris. E hei-de eu viver com seiscentos mil ris por anno!--clamou Affonso--eu! habituado ao luxo, com vinte e cinco annos, com preciso de aturdir a minha existencia nos prazeres, que s a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo! O criado encolheu os hombros, e disse entre si:--Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora! Medita Affonso vender o resto de seu patrimonio; e para logo lhe occorrem estas palavras da ultima carta de sua me moribunda: _Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dar abundante po na velhice, se Deus t'a der como tempo de merecer o co. Aqui nasceu teu pae, e muitas geraes de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avs_. Desfallece-lhe a sacrilega coragem de negar a sua me o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz abriga-o a desviar os olhos d'um tumulo para enxergar no longe a indigencia em Paris, a indigencia relativa com as galas do passado. Estas agonias so as supremas de sua vida. Palmyra, a memoria da mulher fatal, nem por sonhos o perturba. Apparelham-se-lhe affrontamentos maiores. A vergonha do pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraioado. Pensa, sonha, contorce-se, alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a scismar na rehabilitao pelo ouro, na reparao do seu capital; porm, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora ida!... Escreve ao tio Ferno d'este theor: Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Elle refugiou-se aos quarenta annos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco annos, a honra perdida, a rehabilitao impossivel, aptido para nada, o espirito derrancado no gozo de infames delicias: e, para sustentar esta vida corroida da lepra, resta-me a quinta de Ruives. Eu sei que a fome no iria l bater-me s portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Affonso de Teive antes de estender a mo piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia n'um d'estes comoros de terra, onde os sepultados no tem nome. Minha me pediu-me que no vendesse a casa onde est o jazigo de meus avs. Os meus avs so os de meu tio Ferno de Teive. Aqui venho eu offerecer-lhe a minha quinta. Compre-m'a, meu tio, que a vontade de minha me est cumprida. L fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante d'aquellas lapides sagradas. Compre-m'a, seno eu, de mos postas, pedirei a minha me que perdoe ao reprobo, que lhe vendeu os ossos, na vespera do dia da fome. Seu sobrinho _Affonso_. Ferno, lida a carta, em presena de Mafalda, abriu os braos filha, que parecia finar-se n'elles. Das ancias e lagrimas sahiu ella com uns gritos afflictissimos, pedindo ao pae que valesse a Affonso, sem demora. Ferno, carecedor de ser consolado da desgraa do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroo da filha, promettendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade d'ella, que era tambem um dever d'elle a cumprir j com o parente, j com a memoria de sua irm. Foi instantaneo o contentamento de Mafalda. --E depois?--exclamava ella--E depois, meu pae, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudir? --Ns--respondeu de alegre aspeito o pae. --Ns?--tornou ella entre alegre e amargurada--mas no v o que elle diz?... --Que diz elle, creana, que diz elle? L-me tu o que elle diz... --Olhe, meu pae... _Affonso de Teive antes de estender a mo piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia num d'estes comoros de terra onde os sepultados no tem nome._ O pae entende isto muito bem... --Entendo; mas no me assusto. A gente ha-de pensar: primeiro, o essencial, mandar-lhe o dinheiro, e dizer-lhe que os tumulos de Ruives, e as casas, e as terras so d'elle, como at aqui. --E aceitar?--replicou Mafalda--Tomar elle a dadiva como esmola? -- mulher!--retorquiu o velho--tu ests uma argumentadora dos meus peccados!... E o mais que lembras com juizo essa especie!... O doudo capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que o valor da cousa. Vou manh ao Porto. O dinheiro est ahi. Fico sendo o proprietario de tres quintas de Affonso. C te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no proposito de morrer solteira, d-lh'as, se elle viver. Que mais quer a minha filha? Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mos. Ergueu-a o pae com muita ternura, enxugou-lhe as lagrimas no leno em que embebia as d'elle, e disse, sofreando os soluos: --Que esperas tu d'este rapaz, Mafalda? Quando vir Deus em auxilio d'esse to fraco e desventurado corao? Filha... estima-o; mas no o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro annos os teus to desconsolados e estranhos s menores alegrias de tua idade!... E tu no cahes em ti, filha, no vs que Affonso est cada vez mais longe de te avaliar!? --Sei, meu pae--respondeu Mafalda com serenidade. --E ento?... sabes, e no te vences... --No posso vencer-me, Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim...--As lagrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ancioso de ar. --Pois bem, meu amor--tornou o pae, duplicando as meiguices--Eu absolvo a tua fraqueza, j que o Altissimo te no fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Ha milagres mais assombrosos. Pde ser que elle ainda venha para ti com o corao purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido ser ento. Que te diz l no intimo a voz do teu anjo? Serei propheta, minha filha, serei? Mafalda sorriu-se, e murmurou: --E no podia ser assim, meu pae?! s vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperana!... Tres cartas recebi d'elle em oito mezes, e que frias expresses! Quando eu o considerava esquecido, por amor d'aquella creatura, que elle me escrevia mais amoravel; agora, que livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem se quer me estima! E, ainda assim, meu pae, eu tenho presagios, em meu corao, alegres como a sua prophecia. --Pois ento pede a Deus que me d vida para que eu os veja realisados... mas, filha, a realisao da prophecia, se vier, j me no achar vivo... XXI Decorridos seis mezes, Ferno de Teive, perigosamente enfermo e desenganado, dialogava assim com sua filha, ajoelhada sobre o estrado do leito, com a face inclinada aos labios requeimados d'elle: --Bem t'o disse eu, menina. A realisao da prophecia, se vier, encontra-me sem vida. --No ha-de morrer, meu pae!--clamou Mafalda beijando-lhe a fronte. --No peas a Deus isso, que os meus padecimentos so incomportaveis... Verdade que te deixo quasi sosinha; mas ahi esto teus tios de Barcellos que te levaro para sua companhia em quanto no poderes voltar casa onde morre teu pae. No chores assim que me affliges, Mafalda... Triste cousa que um moribundo no possa fallar aos seus com a presena de espirito dos que esperam viver muito... E, a final, Deus sabe quem vive e quem morre!... Pde ser que eu no v d'esta... Pois ento, menina, que tem que conversemos placidamente?!... Bem... esse ar de conformidade est bem ao rosto angelico de minha filha... Fallemos no nosso Affonso... Inventa l tu um meio de lhe mandar recursos. Se verdade o que soubemos por via do tio desembargador, o rapaz est mal. O jogo dos fundos arruinou-o segunda vez, ou reduziu-o a muito pouco... --Mas as cartas ultimas--atalhou Mafalda--no fallam em negocios... --Pois isso o que mais me persuade da informao do tio de Lisboa. Se Affonso prosperasse, dizia-o; elle, que se cala, que est desgraado. --Oh meu Deus!--exclamou a filha--diz bem, meu pae, Affonso est desgraado... No o confessa para que lhe no mandem alguma esmola os parentes. --Isso mesmo; e por isso mesmo pensemos em remedial-o com todo o melindre. No te occorre nada, filha? --Manda-se-lhe o dinheiro, peo-lhe eu muito que o aceite... elle ha-de condoer-se das minhas palavras... --No gosto d'esse meio: desapprovo a inveno. Ahi vem padre Joaquim dar-nos aviso. Padre Joaquim era um modlo de padres, capello da casa, havia trinta e cinco annos; padre que se me ia fugindo d'este romance por um cabellinho: o que seria novidade nos meus livros. Quando eu poder architectar uma novella sem padre, hei-de chamar-me romancista puxado de imaginao. O mestre dos escriptores floridos, Almeida Garrett, segundo disse e provou, tinha o vezo dos frades. Elle, e eu, c muito no couce processional dos seus discipulos, havemos de fazer amar os frades, e os padres, pelo menos os padres-capelles bem procedidos e venerandos como padre Joaquim, capello da casa de Fonte-Boa. Explicou Mafalda ao padre o motivo a cujo respeito se lhe pedia aviso. O clerigo tomou rap, reflectiu, consolidou o seu raciocinio com outra pitada, e disse: --A minha opinio que a snr. D. Mafalda case com o snr. Affonso. Ferno, fraco de peito para rir, tossiu uns frouxos de riso que desconcertaram a gravidade do reverendo. Mafalda fitou os olhos em seu pae, receando que o esforo o estivesse mortificando. Padre Joaquim voltando-se menina, disse no tom de quem d satisfao: --Dar-se-ha caso que eu dissesse algum desproposito?... Parecia-me que sendo os dous contrahentes primos em primeiro grau, obtida a devida dispensa, nada mais acertado para o fim de melhorar a situao apertada do snr. Affonso... --No disse desproposito nenhum, padre Joaquim--acudiu Ferno de Teive--Pelo contrario, aventou a mais moral e desejavel das sahidas n'estes apertos. Mas o que ns queriamos era soccorrel-o sem que ninguem casasse. --Parece-me isso justo e exequivel. mandar-lhe dinheiro por pessoa capaz--respondeu categoricamente o sacerdote. Ferno, com prazenteiro rosto, acudiu: --Quer o padre Joaquim ir a Paris? No temos outra pessoa que o iguale em capacidade. --Irei ao fim do mundo no servio de vv. exc.as --E se o primo Affonso--disse Mafalda--rejeitar o dinheiro? --Se rejeitar o dinheiro, volto com elle para casa: signal que lhe no preciso. --Se o rejeitar por ser de condio independente, e tomar como esmola o favor do pae?--replicou Mafalda. --N'esse caso cito-lhe os meus authores nas materias vaidade, soberba e orgulho: e hei-de convencel-o a aceitar o dinheiro. --Vai o padre a Paris--disse Ferno--manh parte para o Porto: l o dirigiro. Prepara tu, Mafalda, a bagagem do snr. padre Joaquim. Tira o necessario para o meu enterro, e manda tudo mais, que encontrares, a Affonso. --Enterro!--exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pae. Ao escurecer recrudesceram os padecimentos de Ferno de Teive. Por volta de meia noite, com toda a luz da razo, e clareza de voz pediu os sacramentos, e conversou at s duas horas. Ao amanhecer dormiu um somno quieto, e acordou afflicto. Pediu a extrema-unco, e respondeu durante a ceremonia as palavras rituaes em irreprehensivel latim. Depois, chamou a filha, beijou-a, deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre mos, reclinou-se para o hombro d'ella, dizendo: --Sobre este hombro expirou minha irm... Se alguma vez vires o filho da santa mulher d-lhe um abrao... e tu, filha... adeus at ao co. Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pae um gesto de silencio com os olhos. Foi este o derradeiro gesto d'aquelles olhos, fitos j na aurora da eternidade, e fechados para sempre sob os labios de sua filha. XXII Eram atrozmente verdadeiras as informaes communicadas pelo desembargador Figueira sobre a desfortuna de Affonso de Teive em Paris. Os quinze mil cruzados, producto supposto da quinta de Ruives, enguliu-os a voragem do jogo de fundos, qual o allucinado moo se atirou s cegas, contando com a vicissitude favoravel, por ter sido infeliz nas outras. Resolveu matar-se. Esta deliberao contrabalanou as agonias da pobreza desesperada.--Como via a morte no leve movimento d'um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem, e deu graas a Deus pela fortaleza que lhe dava. Ajuntou os objectos de ouro e pedras que reservra para aquella hora premeditada. Chamou o criado, e disse-lhe: Vende isso que ahi est. Creio que o valor d'essas cousas bastar ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares tua terra. --E o fidalgo onde fica?!--perguntou o Tranqueira. --Aqui!--disse Affonso. --Pois tambem eu, patro! J agora, tenha paciencia; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por c a levarei n'esta endiabrada terra, como Deus fr servido. Guarde l o fidalgo as suas cousas, que eu no as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, basta-me uma carroa e um cavallo estropiado. Arranje v. exc. a sua vida, que eu c me irei arranjando. --Cumpre as minhas ordens, Tranqueira!--replicou Affonso com fingida severidade. --Perdoar, snr. Affonso...--volveu o criado-- a primeira vez que lhe desobedeo. Eu no recebo nada em quanto o no vir com outro arranjo de vida. --Faz o que quizeres...--redarguiu o moo, embolsando a punhados os objectos que offerecera ao criado, na inteno de sahir para vendel-os. Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao animo, atravessou-se porta do quarto, exclamando: --O fidalgo no homem, por mais que me digam! Ha Deus ou no ha Deus?! Ento sua mesinha esteve a criar um menino na lei de Christo, para v. exc. dar esta sahida! Pensa que eu no sei o que l tem na cabea? O snr. Affonso quer dar cabo de si... Pois, ande l por onde quizer, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moo de vinte e cinco annos, que sabe lr e escrever, e em boa saude! Isso no o faz homem nenhum no seu juizo! Quem precisa trabalha; se no n'isto n'aquillo. E os que perdem tudo o que tem n'um fogo, ou no mar, matam-se? Ora, snr. Affonso, eu dos annos que tenho ainda no topei homem to desanimado!... Valha-o a alminha da snr. D. Eulalia! Quer o fidalgo uma cousa? Eu vou vender algum d'esse ouro que ahi tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que seu amigo, e o snr. Ferno de Fonte-Boa morreu sempre por v. exc. No se lhe pede dinheiro nem cousa que o valha; pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar no vergonha, honra, fidalgo!... Que me diz? que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao collo, e aqui est de joelhos aos seus ps? E abraou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflados de lagrimas. Affonso levantou-o nos braos trementes de grata commoo, e disse-lhe com transporte: --Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descana, que eu no me mato... A desgraa me ir matando. Com referencia quellas chs e firmes expresses do servo rustico, me disse Affonso: Eu tinha lido na vespera d'aquelle dia uns livros de insinuante moral, e consolao a desvalidos, pedindo-lhes crena que me esteiasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na cerrada negrido de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangelica unco, factos tormentosissimos de angustia e admiraveis de conformidade, desde Job at ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionra, nada me demovera do suicidio. Vi uma restea de luz instantanea reflectida do rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repellira. Ainda o apgo existencia, exprimindo-se nas phrases positivas d'ella, me quiz mostrar a felicidade possivel no casamento com minha prima. Afastei com tedio de mim proprio este impudor d'alma envilecida pela desgraa. O homem rico no reconhecera a virtude de Mafalda, seno para admiral-a; o homem desvalido havia de ir depois pedir virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acommettesse o pensamento vil. Dei-me ento pressa em abreviar o termo da lucta! Depois d'isto, como possivel que as rudes palavras d'um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convices cerca da coragem do homem que se mata? Como logrou elle o que os livros consoladores no vingaram, nem os estimulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquellas palavras: _quem precisa, trabalha_, ditas pelo homem que as tirra da sua consciencia, como se ellas l descessem do co, n'aquelle momento, para me serem ditas, no pela pagina de um livro, mas pela bocca de quem as dizia, chorando. Affonso de Teive, com mais coragem do que a necessaria para o suicidio, dirigiu-se a uma casa de commercio de judeus de procedencia portugueza, residentes em Paris. Conhecera Affonso um mancebo d'esta familia no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o, e contou-lhe o seu estado, offerecendo-se a trabalhar no escriptorio, segundo sua aptido. Os commerciantes aceitaram-o como terceiro ajudante de guarda-livros com ordenado de dous mil francos. Vendeu Affonso as suas joias, e alugou uma mansarda, que mobilou, consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavallo, a que elle chamava um milagre, e uma carroa, com que trabalhava de carrejo, nas horas occupadas do amo. s horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar economico para ambos, todavia aceado e abundante. Affonso passava em casa as noites, estudando a lingua ingleza para poder adiantar-se na sua carreira, at merecer os seis mil francos de primeiro adjunto ao guarda-livros. Se era feliz assim? Oh! no: nem tudo que honroso se ha-de crr que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanas assim abruptas, com as quedas de to alto! O magnificente amante de Palmyra, o moo blandiciado nas salas do seu palacio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de sda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente no podia escrever odes fortuna amiga, quando sahia de escrever cifres no escriptorio mercantil. O reportar-se tambem no ser feliz; , no maximo das vezes, um martyrio consecutivo de triumphos obscuros; porm, martyrio sempre! E, depois, Affonso entrava futuro dentro, phantasiando mudanas, chimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que elle bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ella . D'estas vs e ardentes consultas ao porvir, voltava o moo ao refrigerio do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueando-lhe os cabellos, e quebrando-lhe os espiritos. Em Lisboa era sabida a situao de Affonso de Teive, no que elle a contasse. Escrevia ao tio Ferno raramente, sem de leve tocar em negocios. Respondia s cartas d'algum raro amigo, que o julgava ainda em circumstancias de lhe no pedir emprestimo para se resgatar de Clichy. N'este tempo, recebeu elle novas de Palmyra, no solicitadas. Dava-lh'as assim um dos seus commensaes de Lisboa: ...... A mulher surgiu aqui, vinda no sei d'onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou melhor direi, no teu reinado. Vi-a em S. Carlos, hontem, sosinha na friza. Disseram-me, porm, que l, no reconcavo do camarote, estava um homem gordo, de tez abronzeada, e vista suina. Dizem que brazileiro do Minho, outros diziam que era o marido envergonhado. O D. Jos de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhao, e vai a tisico irremissivelmente. No ha memoria d'uma catastrophe assim nos fastos dos Lovelaces patifes d'este nosso quintal do tio Lopes. O D. Antonio de Mascarenhas assevera-me que Palmyra nunca mais teve uma palavra de consolao para o derreado amante. O teu criado matou estes amores com tamanha ignominia, que j no ha ninguem que queira amar mulher em casa onde haja cisterna... Irei dizendo o que souber da Laiz minhota......... Affonso leu glacialmente a carta, e no respondeu ao noticiador. --Que sentimento fez em ti essa nova?--perguntei eu. Affonso encolheu os hombros, e disse: --O sentimento da piedade. No podia ser amor, porque no ha infamia d'alma que desa at ahi. Odio tambem no, que o odio quer vingana, e eu dava-me j por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, no sei at que ordem de abysmos. Era piedade o que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmyra, dentro de um anno, perdera a formosura, que vendia, os bens, que herdra, e se desgrara at extremidade de pedir o po de cada dia, eu faria do meu po dous quinhes, e um mandar-lh'o-ia, sem insulto nem palavra recordadora do passado. Esta foi a resposta de Affonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e no ha nada que eu no acredite. XXIII Ao escriptorio commercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada indagando a residencia do portuguez Affonso de Teive. Sahiu com o esclarecimento em demanda d'outro portuguez, que se apresentra ao ministro, com importantes recommendaes de Lisboa. A nota da residencia era _rua Vivienne, 104, 5. andar, lado esquerdo_; quem a recebeu da mo do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabellos brancos, trajado de sacerdote. O leitor no se deixa surprehender mais tarde: j sabe que a senhora Mafalda, e o sacerdote o capello padre Joaquim de S. Miguel. Padre Joaquim entrou n'um _fiacre_ com o guia posto sua ordem pelo ministro portuguez. Apearam ao porto do predio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Sahiu do interior da loja, residencia do porteiro, o criado de Affonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, lanou-se a elle de modo que o ia afogando ao primeiro abrao. --Ainda vives, Tranqueira?--exclamou o clerigo--E sempre com o pequenito de Ruives!?... --At morte, snr. padre mestre!... Pois por aqui? V. s. por estas terras?... Que feito do snr. Ferno? e da fidalguinha? --Leva-me l acima, homem, que pelos modos temos que marinhar--atalhou o padre. --Ponha-se aqui s minhas costas, que eu levo-o l, snr. padre Joaquim!--disse o Tranqueira, ageitando-se para ser cavalgado. --Ests doudo de alegria, velho! Deixa-me ir por meu p. Vosss c no paiz da civilisao j andam uns s cavalleiras dos outros?... Olha l... no avises teu amo. Quero vr se me elle conhece ainda. Affonso estava escrevendo a seu tio Ferno de Teive, quando o padre entrou. --Veja se se lembra, snr. Affonso!--disse o capello. --Lembro!--clamou Affonso erguendo-se a abraar o clerigo--Vem de Fonte-Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim? --Podemos ficar a ss?--perguntou o clerigo. O Tranqueira sahiu, e o guia, esclarecido em francez por Affonso, retirou-se. --Eu estava a escrever a meu tio Ferno...--disse Affonso... --No outro mundo smente se recebem oraes, e no cartas--atalhou o padre. --Morreu meu tio!?--exclamou o moo. --L se foi para Deus aquelle justo. Pouco antes de expirar, deixou-lhe um abrao ao snr. Affonso. A snr. D. Mafalda foi a depositaria do abrao... Affonso escondera o rosto nas mos a soluar. --Elle merecia-lhe essa saudade--continuou o padre--que era muito amigo de v. exc. --Minha desgraada prima!--exclamou Affonso--que vida vai ser a d'ella n'aquella solido, sem pae, sem uma alma que a estremea!... --Sua prima no est em casa... Est em Paris. --Como? em Paris!... onde est Mafalda?! --Na hospedaria, esperando que vamos. No se demore. Affonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espao, exclamando: --Sempre ser bom que pare l no fundo para me apanhar, se eu fr de rlo, snr. Affonso! A anciedade do moo confundia as perguntas acceleradas de modo que o padre, no transito do _fiacre_ ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que tres pitadas com o sorvo chromatico do seu costume. Direitamente deve ser Affonso quem nos descreva o encontro: Entrei n'uma sala, a tempo que minha prima sahia d'uma camara contigua. Caminhamos um para o outro, lavados ambos em lagrimas. Ella fitou-me com um gesto de assombro, e disse:--Tens cabellos brancos, Affonso!... E s da minha idade!... Como a tua vida ter sido amarga!... --E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-t'a a innocencia da tua santa vida! --Vida de muitas dres, Affonso...--atalhou ella--Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pae...--e encostou-se ao meu hombro, soluando. Padre Joaquim acercou-se de ns, limpando os olhos, e disse:-- chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para allivio e no para maiores penas. Basta, por agora, menina... Faltou-lhe o amparo de seu pae; mas o de Deus que a ninguem faltou... A snr. D. Mafalda est aqui para se entender com seu primo, sobre um passo muito do agrado do Altissimo; mas eu peo perdo a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a oppor-me, por que... Mafalda fez-lhe um signal de silencio com implorante suavidade, e voltando-se a mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forada compostura do rosto:--Meu primo, a vida para mim no promette contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pae, e resolvi logo entrar n'um convento; mas a inactividade dos conventos pde ser que peorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que est derramada pelo mundo uma grande familia de mulheres devotadas ao remedio dos infelizes, por amor de Deus. So as irms da caridade. Resolvi entrar n'este instituto; meus paes abenoaro este modesto desejo de ser util a alguem, empregando os annos de vida, que eu no sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Affonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa me, que aceites as tres quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na inteno de t'as restituir foi que elle as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeas vontade de meu pae. Aceita o que teu era, meu querido Affonso, meu bom irmo; aceita, que meu pae e tua me que t'o pedem, e eu tambem com as mos erguidas. Mafalda cessou de fallar, cortada a voz de soluos. Eu ajoelhei diante d'ella, beijando-lhe as mos, sem poder articular palavra. E ella, abraando-me pelo pescoo, exclamou com a meiguice infantil dos nossos affectuosos abraos dos dez annos:--Tu fazes a vontade tua Mafalda, no fazes, Affonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolao, que me ds? --Pde! exclamou padre Joaquim--pde, que o snr. Affonso no ha-de desobedecer vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe no deu o abrao que o snr. Ferno de Teive deixou ao filho de sua santa irm. Abraou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus labios. --Agora, fallo eu--disse o clerigo--O instituto das irms da caridade um santo instituto, nenhuma duvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroismos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim ; mas a conquista do co consegue-se com a virtude, e a virtude uma em toda a parte, e em todas as situaes. As irms da caridade so bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem as submetter prova dos sacrificios e abnegao do santo instituto do servo de Deus. A snr. D. Eulalia, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e me no lhe tolheu que alcanasse o paraiso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A me da snr. D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude a prophecia infallivel da bemaventurana, as duas virtuosas senhoras l esto com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus dous filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem encommenda do sermo. Eu lhes digo que ellas esto pedindo a Deus que os case, que os encha de benos, e de filhos. Vamos! eu tambem levanto as minhas mos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permitti que a minha voz se ajunte das santas que vos pedem a felicidade d'estes dous filhos! Permitti que eu os veja ditosos, e que estas lagrimas de velho m'as enxuguem elles com a sua alegria! Quando o sacerdote, magestoso pela postura, se voltou para ns, latejava o meu corao na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto pallido da virgem, murmurava estas palavras: Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mes! Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de ns, e disse com jovial aspeito:--Eu no quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos l o outono do Minho nossa espera. Diga a fidalga o que determina. Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor phantasiasse na contemplao e audio de anjos e harmonias do co. O padre acudiu logo, exclamando alegremente: O noivo quem decide! Snr. Affonso, quando partimos d'esta barafunda de Paris, que me pe os miolos a arder?... --manh!--respondi eu.--manh--exclamou Mafalda--Pois sim; meu Affonso, manh... Temos l as nossas arvores... a nossa infancia... A nossa felicidade sem fim...--atalhei eu. CONCLUSO Entreluzia a manh pelos resquicios e fendas das janellas do nosso quarto na estalagem da snr. Joanninha de Guimares. Affonso de Teive disse: dia: vou concluir... --No necessario--atalhei--o restante sei eu. Mas no me prives por isso de ser eu o narrador da minha bemaventurana. Aquella mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos abraos dos seus oito filhos, minha prima Mafalda, a esposa de minha alma, a salvadora do meu corao, os olhos que me vem pelos de minha me, a consciencia da minha consciencia, a redemptora das minhas alegrias infantis, a me dos meus oito anjos, que minha santa me me enviou do co. Ha dez annos que eu vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor, e adorando-o como os cenobitas. Minha mulher, ao abrir-me os thesouros de sua alma, revelou-me tambem os thesouros da f, as delicias da religio, e a taa inexhaurivel dos sabores da caridade. Mafalda desapparece-me s vezes com os filhos mais velhos: eu vou procural-a fra de casa com os mais novos nos braos, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ella foi levar a cobertura, e o alimento. Outras vezes, so os meus filhos, que levam o seu fatinho velho s creanas, que estalejam de frio, sobre o lagedo d'uma cozinha sem lume. Se alguma hora fallei como marido austero a minha mulher, a dce creatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes so sempre causados pela pertinacia d'ella em entender no governo da casa com um zelo convisinho da mortificao. Mafalda rica; mas tem uma maxima indestructivel: poupar para os pobres. Ha dez annos que vivo em Ruives. N'este longo espao, apenas tenho acompanhado minha mulher a observar a cultura das suas quintas, que ella teima em chamar minhas. Mafalda tem vagas idas do que um baile, e eu pude esquecer as idas que tinha. Dizem que a convivencia de annos entre esposos, que muito se amam, traz comsigo de seu natural uns silencios significativos do esfriamento das almas. Eu no sei o que seja esse arrefecer. O co e a terra esto continuamente abertos ante meus olhos: de cada vez que os contemplo, a cada alvorecer, e fim da tarde, os maravilhosos poemas do-me sempre a lr uma pagina nova, e Mafalda traduz mais prompta que eu os gerogliphicos da Divindade. Fallamos de Deus e dos filhos; contemplamos o boi que nos encara soberbo, a avesinha gemente que pipila; a fonte que suspira, e a catadupa do ribeiro que ruge. A natureza a terceira voz dos nossos colloquios, umas vezes amor, outras vezes sciencia, e sempre admirao e perfumes ao Eterno, que nos encheu de delicias, e inflorou o caminho da velhice. Eccos do mundo nenhum chega ao nosso ermo. A mim, os homens que me viram, consideram-me morto uns, outros por ventura me lastimam embrutecido entre os meus fraguedos. Tive cartas a que no respondi; fui procurado por ociosos, a quem recebi na minha sala de visitas, com uma ceremonia que os afugentou. Affligiam-me as testemunhas do meu vilipendio, e temia que ellas proferissem um nome, que soaria como blasphemia no santuario da minha familia. Aspei todos os vestigios que podessem recordar Theodora. Entre os papeis do meu tio Ferno, n'uma gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas d'ella. Minha mulher surprehendeu-me n'este descobrimento, viu e comprehendeu, sorriu-se, e disse: Meu pae nunca me deixou vr isto, bem que eu soubesse da existencia d'este livro. Triste sorte a d'esta senhora! Mal diria a me que to virtuosamente a educou! Unicas palavras que Mafalda proferiu com referencia a Palmyra! Aqui tens a minha vida, a vida dos dous homens, que na curta passagem de quarenta annos, tocaram as duas extremas do infortunio pela deshonra, e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora est alli n'aquelle ermo, glorificando a herana, que minha me lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o co padecente que subiu, e redemptora que baixou no raio da gloria d'ella. A mulher de perdio no sei que destino teve... --Pois ignoras o destino de Palmyra?--interrompi eu, desconsolado como todo o romancista, que desadora invenes. --Como queres tu que eu saiba o destino de Palmyra?!--Replicou Affonso de Teive.--Quem ha-de vir contar-me a Ruives os desastres que l vo no seio apodrentado da sociedade!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaaes a deves encontrar, lana a tua espionagem, diz, alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escandalos, e no faltar quem te illumine e esclarea. Do viver da mulher virtuosa que baldamente procurars noticias: d-se a virtude n'uma obscuridade, que chega a incommodar a atteno dos que observam como cousa curiosa de vr-se. --Pois no me despeo--redargui--de me ir por ahi fra no encalo de Palmyra, e mal d'ella, se a no topo, que morrer sem lr a sua biographia, desastre commum, mas immerecido, das mulheres da sua especie. Quantos romances, e dramas, e cantatas ahi pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspasias e Phrineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catullos e Ovidios eternisaram Lesbias e Corinnas. Menos affrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautiers, e fazem que as familias honestas chorem por ellas nas paginas dos livros e nas tabuas dos palcos. Palmyra ha-de ter um livro, ou eu no escrevo mais nenhum depois do teu... D-me agora noticias do Tranqueira. Que feito do Tranqueira? --Est l em casa a esta hora com um pequeno a cavallo em cada hombro, e outro enganchado na barriga. Tranqueira no meu criado. L em casa os meus filhos conhecem-no pelo _amigo velho_. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos. Chama-se elle a si feitor; mas o que elle feitorisa o seu rheumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal, e negoceia em lenha e madeiras. Quando recebe algumas libras, vai at Braga visitar uns parentes pobres, d-lhe metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estomago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que elle quer ser sempre ouvido, ou no grangeio das terras, de que elle no percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma elle estirar os braos tremulos, e dizer: O que tu precisas um banho de cisterna. Imagina o Tranqueira que a sua especial vocao dar banhos de cisterna. --E o padre Joaquim de S. Miguel morreu? --Tenho a satisfao de te dizer que o meu padre Joaquim est vivo e vividouro. No o vistes l em casa por que foi para o Alto-Minho consoar com a familia, tributo que elle pagou sempre; mas nunca vai que no se despea a chorar, e nunca vem que ns o no recebamos com grande alvoroo de alegria. o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os oculos de modo que as lies cahem em pedra rida, e o padre j diz que considera perdidos dez annos de vida n'aquelle ensino. Que mais queres saber? --Se poderei dormir duas horas em tua casa, respondi eu. --Vamos partir. --E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingaro elles em mim a falta do padre? Previne-me. Partimos. A distancia de um oitavo de legua do paraiso restaurado do meu amigo, enxergamos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dous ao collo, e outros dous pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam n'uma grilharia barbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros: --C vou preparando a cabea de progenitor e ouvidos paternaes, disse eu--Seriam excellentes anjos aquelles pequerruchos, se tivessem larynges mais accommodadas ao apparelho auditivo do genero humano! --So os meus filhos--exclamou Affonso-- minha mulher! Alli tenho tudo, o capital, o juro, e a usura da felicidade que desbaratei. Alli me esperou minha me dous annos, e eu no voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o co fra o mais alto ponto onde ella vora para vr de l a minha perdio. Alli voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flres que eram d'ella; das primeiras adornei os cabellos de minha mulher; das que me deu a primavera seguinte engrinaldei o bero do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorecencia, vem minha me coroar o novo anjo, que minha mulher lhe offerece como a intercessora com o Altissimo. Oh meu amigo! de envolta com a felicidade, a religio! Sabes tu o que ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos pova o espao onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respirao afflictiva!.................................................... .......................................................................... Aproximamo-nos do formoso grupo. Apeei; fui cortejar a mulher do amor de salvao, e disse-lhe commovido, e creio mesmo que lagrimoso: --Ao cabo de dez annos de felicidade no interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de v. exc. com o funesto contagio da sua m estrella! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivencia do seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Affonso de Teive cerrou olhos n'esta infinda noite de Dezembro!... --Tambem eu no!--atalhou Affonso sorrindo--tambem eu no! --No importa, minha senhora--tornei eu--Seu marido velava; mas que saborosa vigilia! Contou-me suas desgraas para que eu podesse cabalmente ajuizar da felicidade perenne, que v. exc., depositria dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lagrimas, e lhe est dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, n'este mundo, era uma usurpao feita ao co!... Agora sei que ha sobre a terra um homem feliz, feliz ha dez annos, feliz para uma longa existencia. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAO! Mafalda abaixou levemente a cabea com gracioso acanhamento, e disse: --No sou eu sosinha a felicitar meu primo: so as oraes de nossas mes, e o amor angelico dos nossos filhinhos. FIM End of Project Gutenberg's Amor de Salvao, by Camilo Castelo Branco License: Share Alike