Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net O CARRASCO DE Victor Hugo Jos Alves O CARRASCO DE Victor Hugo Jos Alves POR CAMILLO CASTELLO BRANCO Os cantar un estrao cuento que no le avreis oydo tal en toda vuestra vida. M. CERVANTES--_Novellas_. PORTO LIVRARIA CHARDRON DE Lello & Irmo, editores 1902. _Porto--Imprensa Moderna._ I A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA Il y a ici quelque chose... une fleur... cherchez! SAINT-BEUVE, Portraits des Femmes. volta de uma mesa do _caf Martinho_, em Lisboa, estavam, por 1857, cinco ou seis sujeitos saturados de politica. Estava tambem eu em principio de _saturao_--palavra pedida de emprestimo chimica para bem materialisar a ida do corpo abeberado d'aquelle civico enthusiasmo que salva as naes... nos botequins. N'aquella noite, os meus interlocutores eram todos mais ou menos republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsycose, porque sentia dentro do seu ventre os figados de Robespierre; e outro, que arredondava musicamente os periodos corrosivos, revelava-nos, com modestia parelha do talento, que sentia coriscar-lhe no craneo o crebro de Mirabeau;--coriscos, se o eram, todos para dentro; que do fogo, que lhe faiscava da fronte, no havia que receiar combusto em armazem de sulphureto de carbonio. Os outros no me lembra quem tinham dentro de suas pessoas. Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira de defuntos historicos, suspeitei ser eu a paragem de dois pedaos transmigrados, um de Falstaff, outro de Sancho, por me sentir rasamente lerdo beira d'aquellas pessoas trabalhadas por crudelissimas almas de torna-viagem. Suppunha Gerard de Nerval, que Mry, pela admiravel intuio que tinha das coisas da India, devia ser a metempsycose d'um mouni do Indosto na pelle d'um marselhez; ora eu, se licita a comparao ambiciosa, vista da sisuda pachorra com que assistia aos projectos regicidas d'aquelles cavalleiros andjos, devo presumir que ha em mim o que quer que seja do pagem do cavalleiro triste, antes de intontecido pelas lisonjas dos ilheos que o degeneraram. Havia ali um que esmurraava o marmore das mesas, protestando que os thronos seriam aluidos, quando a lava, escandecente no seio da Liberdade, irrompesse, resfolegando para si os monarchas, e revessando para fra, com o novo baptismo de fogo, uns evangelhos novos. O meu terror foi grande. Encarei n'aquelles homens exterminadores, e agourei-lhes mentalmente que morreriam justiados para descano do genero humano, e particularmente dos possuidores de inscripoens e outros fundos. Agora de saber que todos aquelles regicidas, hoje em dia, vampirisam as veias desangradas do paiz, pisam alcatifas do pao, e fumam, nos aposentos dos camaristas, charutos da munificencia real, pelos quaes se lhes vaporaram os figados de Robespierre, o encephalo de Mirabeau, e toda a mais peonha que lhes petrolisava as entranhas, tirante a do estomago, que ainda corrosiva, como sempre. Revertendo aos assumptos debatidos n'aquella roda de trogloditas, cujas caras a lavareda do ponche azulejava terrificamente, dizia um que os monarchas lusitanos, em seculos de bons costumes e f viva, procreavam filhos illegitimos. Esta noticia fez-me calafrios. Em confirmao da these, individuou o sujeito, com prodigiosa retentiva, os filhos bastardos de cada soberano, e no smente os abonados pelos chronistas, seno outros muitos denunciados pela tradio, e sonegados pelos historiadores em preito a insignes familias. Occasionou-se-me ento o ensejo de observar que o senhor D. Miguel de Bragana, bem que malsinado de frasqueiro e muito dado a damarias, no deixra filhos illegitimos reconhecidos, ou sequer suspeitos: d'onde eu inferia que a calumnia superfluamente lhe encarecra os vicios, no querendo imputar-lhe smente descultura do espirito e aos ruins companheiros da mocidade os funestos casos do seu reinado. Redarguiu de prompto o malsim das reaes progenituras que o snr. D. Miguel podia ser menos fecundo que seus avs, sem ser mais casto que D. Diniz; e acrescentou que affirmava a existencia de filhos do principe proscripto, e me desculpava da ignorancia por eu ser da provincia, e desconhecer as entranhas tuberculosas da crte. Estimulado por este dizer oriental e therapeutico, pedi que me dissessem quem eram os notorios filhos do snr. D. Miguel Maria do Patrocinio. O sujeito interrogado nomeou cinco ou seis pessoas de ambos os sexos, umas que eu conhecia de vista, e outras dos appellidos heraldicos dos seus progenitores legaes. Feita a resenha, um dos circumstantes ajuntou: --Ainda te falta uma. --Quem ?--acudiu o outro. --A luveira da Rua Nova da Palma. -- verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida vergontea d'um tronco rodo e verminoso. Hei de mostrar-lhe a voss a luveira, a dce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que sau de uma crysalida paludosa. Quer? --Com a mais ardente curiosidade--respondi. --manh. No dia seguinte, o pontual amigo levou-me Rua Nova da Palma, e ahi entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria. A dentro do balco estava sentada a costurar uma senhora, singelamente vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podra cobiar. Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu j ia prevenido de que ella no podia contar menos de vinte e sete; e, se o no fosse, desde logo, em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam, se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel. Jos Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria Jos. Ella recebeu o cumprimento com agraciado rosto, e correspondeu minha cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras... maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.--letras, que, longe de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois bancos. Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances, pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentao; e tambem observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, no se parecia extremamente com os avs--dessimilhana, porm, que no fazia implicancia magestade da sua origem. No duvidei, por tanto, que D. Maria Jos em verdade houvesse a prosapia realenga que lhe attribuiam; antes me quiz parecer que o seu porte altivo sem soberba, e um certo natural nada commum, sem laivo de artificio, estavam inculcando uma senhora de fidalga condio. --Aqui tem uma filha do snr. D. Miguel de Bragana--disse o meu amigo com urbana e grave seriedade, mais do que eu esperava de tamanho republicano; e ajuntou logo, coherente com os seus principios:--N'esta honrada posio que eu unicamente respeito os descendentes dos reis. No sublime abatimento do trabalho que as pessoas, nascidas para a ociosidade principesca e devoradora das naes se me figuram regeneradas para a humanidade laboriosa, e repostas pela mo do Christo na plana da egualdade a que elle chamou todos os filhos de Deus. Deante d'esta operaria, sinto o reverente enthusiasmo que os abjectos sentiriam se a vissem a roagar nos pavimentos vellosos da Ajuda o manto de princeza. D. Maria abaixou ligeiramente a cabea, depois de haver relanado os olhos com suave magestade ao rosto do seu admirador. E eu, que tinha entrado com animo indisposto para to solemne colloquio, compenetrei-me de involuntaria sisudeza e compostura como se ali estivesse uma princeza de lista civil, uma genuina vergontea das senhoras Dona Carlota de Bourbon e Dona Maria de Saboya. Como sou de natureza bastante monarchica, e fui creado com o bom leite do antigo amor portuguez aos seus reis, grande foi o enleio em que me vi, rosto a rosto de to egregia dama! Com quanto acatamento e cortezania pude, enviei-lhe umas tartamudas palavras significativas de respeitosa vassallagem. E ella, sem descompor-se do seu palaciano aprumo, proferiu estas vozes: --Contento-me com ser respeitada como costumam sl-o as mulheres que vivem decorosamente. Algumas vezes tenho sido alvo de motejos por ser filha de um principe desafortunado; mas ainda no fui escarnecida por quem pudesse reprehender os actos da minha vida. O ter nascido grande no deve desmerecer-me pela resignao com que me sujeito humildade da minha posio. E, levantando-se, foi vender um peito de camisa a uma mulher que lhe chamava Dona Mariquinhas. Pouco depois entrou na loja um rapaz, asseiado a primr, mui fragrante de cosmeticos, e todo elle uma bonita caoula a recender perfumes de mocidade. O meu amigo apertou-lhe a mo, chamando-lhe Raul Baldaque, e acotovelou-me. No percebi o intento espirituoso do cotovelo de Jos Parada. O paralta encarou-me do alto da sua importancia, arregaando a face direita para prender no olho correspondente um vidro. N'aquelle olhar preponderante, o sujeito parecia querer-me annunciar que era o filho unico do famoso capitalista conde de Baldaque, chegado da America, seis annos antes. Sahimos os dous sem haver dispendido no estabelecimento mais que o ouro puro das nossas phrases. Eu ainda quiz comprar duas camisas e um par de luvas verde-gaio; mas acanhei-me de mercadejar com tamanha senhora, receiando desafinar da linguagem aulica e tom de crte em que no fui de todo bajoujo. Contou-me, depois, Jos Parada que D. Maria Jos de Portugal, a luveira, havia sido requestada, para casamento, de homens no s abastados, mas tambem fidalgos da raa cavalleirosa e da industrial, e at--o que mais importa--de litteratos. --No duvide voss--proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento, quando so de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende acolchetar-se na alma d'uma mulher.--No duvide--insistiu Parada.--Eu no fao romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude em quanto a no palpo e lhe no sacudo a poeira dos preconceitos; mas se chego a convencer-me, o systema de duvidar no pde tanto comigo, que, por amor de seita, hesite em crer que ha princezas no refesteladas em almadraques de setim, princezas que no disputam s naes pobres a enxerga dos desherdados, para quem o dormir a consolao da fome. D'este phraseado bem de perceber que o meu interlocutor no erguia mo de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso sedicioso. No inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria Jos de Portugal; quanto, porm, aos concorrentes litteratos, desejei, por affecto classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se aparentarem to affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um redactor do _Jardim das Damas_, charadista historico dos almanaks de Castilho. D. Maria Jos havia recusado as mos d'estes litteratos pobres assim como j tinha recusado os ps d'alguns capitalistas. E acrescentou Jos Parada: --Um homem que morre por ella aquelle Raul que l ficou na loja. Ali tem voss um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura correcta, no acha? D jantares, e empresta dinheiro aos convivas insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres, que o amam, so tantas como as abelhas volta d'um favo que tem dentro a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhes do conde de Baldaque. No isto, em tempos de infame positivismo, um caso assombroso? E concluiu emphaticamente: --Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avs aforados, no se desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, no de espantar que a obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe que desprzo o prejuiso das distinces, posto que procedo de avs honrados no servio da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos alam o espirito ao de cima das idas villissimas d'esta quadra de chatins, eu me curvo ento, repassado da religiosa reverencia, e comprehendo que a nobreza das indoles no phantasmagoria obsoleta; ser antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinao explendida dos milhes. --_Puff!_--disse eu entre mim--ou mais exactamente, disseram dentro de mim o pedao do Falstaff ao pedao do Sancho. Aquelle _puff_, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer dizer: Bem me fio eu em ti e n'ella! II PERFIL DE VICTOR HUGO JOS ALVES Personne de servile condition et de race servile. AMYOT, ALCIB., Vers. de Plut. Tudo quanto este homem arengou me pareceu acertado. A luveira no se me delia da ida. Ao outro dia fui l, resolvido a derrear bastante o estylo, de feio que me no ficasse canhestro comprar, nem a D. Maria Jos de Portugal vender, seis collarinhos. Por onde, a toda a luz se mostra com que innocentes intenoens l fui. N'este proposito mercantil, entrei; mas, feita a cortezia, no pude aparrar a linguagem ao raso de um freguez de collarinhos. No se pde. Um homem capaz de aconsoantar uma quintilha, no sabe regatear com damas camisolas de flanella. O que logo lembra, em presena da filha de um principe, se ella bonita, e os amores lhe esvoaam volta da regia fronte, a mandra dos provenaes, o enamorado Macias, as trovas suspiradas no harpejar do bandolim, barbacan do castello, ou mais dentro, se possivel. Assim foi que nossos decimos avs, se eram menestreis e cytharistas, procederam com as filhas e aafatas dos reis, no contando com as portuguezas, tirante as inspiradoras de D. Joo da Silva[1] e de Bernardim Ribeiro--que as restantes princezas saram todas muito descaroadas de poetas, de theorbas e cytharas, bem que a musica foi sempre bemquista dos nossos monarchas, desde D. Pedro I, que tangia trombeta bastarda, at D. Joo IV, que tocava tudo, compunha motetes, e escrevia livros cerca da musica. E, se D. Joo V no exercitava pessoalmente a formosa prenda, folgava de ouvir retroar os cento e quinze badalos do carrilho de Mafra, que comprou por mil e trezentos contos de reis. Depois, encontramos o snr. D. Joo VI cantando psalmos entre os seus frades; e, hoje em dia, o snr. D. Luiz I, basso primoroso, revive os saraus melicos da sala da Ajuda, como elles foram em Queluz, quando, na orchestra real, regida por David Peres, se viam as loiras infantas de Bragana tocando rebeca. Revertamo-nos, em boa hora, ao conto. Estava a dama lendo a _Nao_. Depoz cortezmente a gazeta para me attender. Pedi-lhe que por minha causa no interrompesse leitura to lenimentosa para as dores do seu filial corao. D. Maria Jos, penhorada por estas suaves expressoens, fitou-me brandamente e murmurou: --Mal sabe...... --O qu, minha senhora? --Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas inuteis, que fariam at sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes...... Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram ento em plangentes melodias de coisas, de que no tomei apontamento; porm, taes e to insinuantes lh'as influ no animo, que vinguei merecer-lhe confiana e desafgo de sentimentos circumspectamente abafados. Esta confiana, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir, interpoladamente, revelaoens que vou compendiar, de mistura com esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura. D. Maria Jos havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o snr. D. Miguel de Bragana, rei n'aquelle anno. Sua me tinha sido D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza, nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de rgia plana por bastardia, como ao diante se dir. Vivra D. Maria em companhia de sua me, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, at edade dos quinze annos. Lembrava-se de sua me ter carruagem brazonada, librs, e relaoens de grande posio na aristocracia; e, em meio d'esta disfarada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante. Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas deps outras; que a sege foi vendida; que os convivas rarearam mesa; que os hospedes da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa desbalisada de sua me, seno duas senhoras de baixa origem que a no desampararam at morte. Lembrava-se tambem de que sua me, nos derradeiros annos da vida, abrira um hotel; e, n'essa posio decahida, morrra. A morte de sua me no sabia ella dizer se foi natural, se violenta. Conjecturava, porm, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese confirmada pelo caso de sua me, na vspera do dia em que se finou, lhe haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe no podia legar outro patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a elevassem sobranceira s primeiras senhoras de Portugal. Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel--cartas que ella me no mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo melindre. Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orph, que ento vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os, passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram aos funeraes de sua me. Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaoens de sua casa, participando-lhes que estava orph. Contava ella que cada palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um agiota de raa judaica e humilde extraco que devia, no sabia ella como, a sua prosperidade me, de quem havia sido escudeiro, mordomo, ou coisa assim. Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a no podiam alimentar e vestir sem sacrificio. Aos desoito annos, D. Maria Jos alcanara notaveis conhecimentos litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e accommodadas ao seu sexo. N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando filha de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripoens e um predio pequeno na rua Nova da Palma. Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem consolaoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua me, e a penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas. N'aquella doentia compleio havia que receiar quebra de juizo por excesso de sensibilidade, ou morte prematura. Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe da filiao. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda assim, forcejaram debalde por vl-a. D. Maria Jos, ao abrir da manh, em dias santificados, ia missa d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso saira da cama para vr a propria Semiramis. casa da Rua Nova da Palma entravam apenas as duas amigas de sua me, conhecidas pelas Picas, e presumidas descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porm, estas duas irms, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada das Picas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua me ama scca dos fidalguinhos. Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda e Euphemia asseveraram--por lh'o haver affirmado a me com tal qual competencia, ao que de suppr--que o pae d'ellas no era o ferrador; mas sim um monsenhor parente da casa. No me recordo bem se diziam monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este livro, se alguma vez a verdade gretar, involuntariamente. Assim que me pruem escrupulos, coo-os com a rectificao. Escrever para a posteridade assim. Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos j pennugentos de buo a casa de D. Maria Jos; e uma d'ellas, D. Rozenda Pica, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevo Galhardo, levava comsigo um filho j barbaudo que dizia ser litterato-politico, e se chamava Victor. Este sujeito quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e to a miudo e encarecidamente o fazia que sobrava raso a desconfiar que elle, amando honestamente D. Maria, queria subir pelo estribo do av ao cavallo branco do timbre ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao _banco de pinchar_, para no ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, me d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber princeza que as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o hymeneu de Victor e Maria. certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a desaffronta alm do silencio. Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu no Chiado, com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao nome o sobrenome _Hugo_, crendo que o chamar-se _Victor_ era predestinao que o fizera sahir j republicano da pia: e d'ahi o assanhar-se contra os monarchas, imitao d'aquella sublime vspa que zunia estrophes demagogas em Gersey. Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem, nas prosas d'elle, as testas coroadas no eram tratadas com mais caridade que a syntaxe. No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do rapaz, diziam que no admirava raivasse tanto contra os nobres quem era filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos no haviam pagado os remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos no haviam pago as ferraduras. Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forou a me a declarar pelos prlos que seu defunto marido no havia sido sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; j por ser verdade, j porque ninguem podia desfazer na palavra da snr. Pica, quanto mercadoria do snr. Joo Jos Alves, seu marido. Pelo que respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em atteno s cinzas do dom abbade de bernardos. Manteve-se o politico, no obstante, socialista e orador de assemblas populares at 1854. N'este anno, porm, ahi por maio, quando as arvores florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo Jos Alves invadido d'amor. Se no amaria! Era maio portuguez, saso de paraizo terreal, em que a todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na primavera. Notou-se ento no paiz, e particularmente desde o Chiado at ao Rocio, que o Hugo da travessa do Estevo Galhardo gorgeava umas endeixas passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que dissera em dous versos: Eu hei-de avassallar os reis ao genio, E pol-os histries sobre um proscenio, E... etc. Elle, que escrevra aquillo, vinha agora offertando a uma _mulher-rainha_ a monarchia da sua alma, similhana de Filinto Elysio que offerecra a sua em dous versos de um soneto salobro como infuso de chicorea: Nise gentil, que at sepultura Ters d'esta minh'al_ma a mona_rchia... (No podia deixar de ter a drastica _mamona_ o verso). Por algum tempo, o filho de Rozenda conciliou a mansido de bardo amoriscado com as fumaas de publicista revolucionario; mas, por 1855, encontra-o a historia litteraria e politica da Europa a desviar-se notavelmente da vereda do Hugo, que lhe havia de ser bussola entre o Marrare-das-Sete Portas e o templo da memoria, se elle antes no pudesse trocar o nicho perpetuo do Pantheon por um logar vitalicio de aspirante de alfandega de raia scca. Este genio, cujas guedelhas serpejavam, revoltas e besuntadas, como idas a espumejarem-lhe do cerebro feio do muco esverdinhado que esvurma das fauces de um chacal, revirou-se com effeito, perguntando ao governo se era decoroso que a um filho do snr. D. Joo VI--a um rei vencido e exul, se roubasse perversamente o seu patrimonio. casa do infantado, ao po do proscripto, que lhes fizestes, ladres? bradava Victor Hugo Jos Alves no seu periodico socialista. E acrescentava: Roubastes o throno, desterrando o principe espoliado, como em encruzilhada da Calabria. No vos bastava a usurpao de um titulo? Roubastes o altar, expulsando os seus ministros mendigos. No quizestes que sobrevivesse no cenobio um s homem de bem que testimunhasse os vossos latrocinios! Salteadores! barra! Aos tribunaes! aos tribunaes! N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que o da Lucrecia de Collatino. O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de gloriosos ferros, e nas custas. o que elle queria. Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios antigos tinham os cem bois: _hecaton_, cem: _bos_, boi. (Lardo de erudio que no fecha as portas da academia a ninguem). Queria a hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora at ao Limoeiro, para depois, nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no corao de D. Maria. O carcere sorria-lhe como um templo em que, velando as armas, saira de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotra, apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do po barato. Declarou-se. Ousou remetter directamente neta dos Braganas o manifesto nem sempre humilde das suas aspiraes. Estabeleceu confrontos de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor. Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a alliana do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um duque de Bragana. Bem de vr que o filho de Rozenda ousava equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistr e a ama scca dos condes de Povolide. E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal solicitavam competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados, uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo Jos Alves, a medir-se com as graas plasticas do garboso mo de quem um principe prussiano escrevera isto:... O marquez de Loul, com os vestidos dos grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham, ou o bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha enlouquecido tantas cabeas femininas...[2] Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos s plantas do rei legitimo, pudesse exclamar: Pae, e senhor! Para servir-vos, brao s armas feito; Para cantar-vos, mente s musas dada. Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos. III D. ROZENDA Dizem que disse assim. BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moa. D. Maria Jos de Portugal, bem que muito grata ao dendo civico do litterato, no entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar razo de 800 reis a publicistas de maior plpa. Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam, por isso, nas borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;--que no podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino, principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripo, usurpadora do throno, no podra usurpar direitos sobre a alma de uma filha que o respeitava e adorava. _Etc._ Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz que as paixes amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista. Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chimras de castas, combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a procedencia visigothica de seu av D. Guterres Pelayo, e o parentesco ainda no safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragana e os condes de Povolide. Maria no replicou, retransida de espanto. Sua me havia-lhe dito que as duas irms estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide, e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o parentesco de Victor Hugo Jos Alves com a casa real. Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D. Guterres Pelayo, perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor motivasse aquella abstraco. A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razo alterada. Pediu explicaoens a sobresaltada me. Hesitou algum tempo D. Maria Jos; mas, obrigada pelas instancias, mostrou a carta. O caro da viuva, j enfiado de susto, ganhou cres quando viu, no contheudo da epistola, o infundado medo da menina. --Ai! no se assuste, snr. D. Maria Jos...--disse Rozenda velhaqueando certo pudor no tregeito das maxillas--Meu filho est muito em seu juizo... Elle diz a verdade... --Como?--tornou D. Maria Jos espantada--Pois a snr. D. Rozenda parenta da casa real?! --Sou, sim, minha senhora--volveu a filha do ferrador, baixando os olhos com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da me. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esphago, e rolando os olhos na direco do co, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae: --Perdoae-me, minha santa me, se offendo a vossa memoria! E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma, continuou: --Minha me era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde tinha j estado tambem minha av, que era sobrinha de uma ama de leite que creou um filho da freira d'el-rei D. Joo V, a qual freira se chamava por signal a Gara, e o menino chamava-se Antoninho. No sabia d'estes amores do rei com a Freira, snr. D. Maria? --Ouvi contar...--respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta fraqueza do seu quarto av. --Talvez no saiba uma coisa que minha bisav contou a minha me... E era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saa de l at portaria debaixo do pallio com a abbadea atraz e mais a communidade. --No me conte similhante desatino, que isso calumnia!--acudiu a neta do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.--Affligem-me...--tornou D. Maria molestamente nervosa--Affligem-me essas funestas e deturpadas paginas da historia de minha familia. --Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora--observou ethnographicamente D. Rozenda Pica.--As freiras tinham enguios que enfeitiavam toda a fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha--perde-me a expresso, que no muito civilisada. E ento o snr. D. Joo V? Isso era um rato! Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha av que os poz todos ao servio da egreja, fazendo-os inquisidores, e arcebispo um d'elles, chamado o _Flor da Murtha_. E os amores que elle teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte... --Acabe com isso, snr. D. Rozenda!--interrompeu D. Maria Jos offendida pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de S. Roque. --Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha contando, minha me foi educada em Odivellas com uma freira muito pronstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o prgador da casa real, o padre Jos Agostinho de Macedo, muito amigo do seu paezinho. Ora minha me casou com um sujeito que ella imaginava cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que namoravam as freiras; e, s depois que casou, que soube que elle era estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a embaadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pr casa e sege em Lisboa! Emfim, no havia remedio a dar-lhe. Resignou-se com a sua sorte, e foi viver s Picas no palacio onde estava o impostor do homem. Minha me era to querida das fidalgas que at a levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da casa e de fra perseguiam-na de dr de ilharga, perde-me a expresso, que no muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido andava gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As mulheres no so santas, no verdade, menina? Minha me era uma perola! Ai! que anjo do co aquelle! J no nas ha d'aquella raa! Resistiu s tentaoens, passante de dois annos; mas, por fim, o corao desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se! Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dr, e continuou: --Depois d'aquella desgraa, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da egreja, que morreu d'apoplexia, na vspera mesmo de um sabbado em que tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irm Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herana em harmonia com o nosso nascimento. Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com suspirosas intercadencias: --Minha pobre mezinha morreu de saudades de meu pae... sim, de meu pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de bambochata. Achei-me ssinha com minha irman, tidas e havidas na baixa conta de criadas de nossas primas. Esta posio no se dava com a nobreza do meu sangue. Quiz vr se me admittiam como criada ordinaria do pao. A mezinha de v. ex., que tinha ento muito valimento, e ns conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do co, a passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por ns; mas no havia logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse a crte, fsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra lograo como a que levou minha me que Deus haja! Ora oia, menina. O meu esposo, desde que os chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de Christo, no quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos caixeiros, que nos roubaram; e, volta e meia, foi-se tudo, e aqui fiquei eu viuva, na flr da edade, com o meu Victor no bero, e... quer saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas cacetadas que meu marido dizem que dera nas eleies! D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o leno, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido semblante: --Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e bonita, sem amparo de alguem, seno da snr. D. Marianna de Portugal, sua mezinha, que nos valeu em grandes aprtos... --No esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...--atalhou D. Maria Jos--Est bom, est bom, conversemos n'outra coisa... --Tudo isto que eu disse--volveu a viuva do pedreiro-livre--veio a proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avs so parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle meu filho como de facto , ninguem pde duvidar que nobreza no nos falta... assim ns tivessemos dinheiro, no acha?--E ajuntou sorrindo e festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:--Socegue, menina, socegue que meu filho no est doudo nem para l caminha. O que elle aqui diz na carta verdade pura, e bem certa estou que foi a paixo que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano e nunca se lhe importou com os avs; pelo contrario, quando eu lhe contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e at uma vez lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fsse fidalga por ser muito burra. D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propr francamente o enlace com o filho. Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso: --Ella no quer casar com o nosso Victor... tu vers... Enfeita-se para o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu no venha a pr-lhe a calva mostra... O folheto ainda ali est na gaveta... -- mulher!--accudiu Euphemia--no me falles no folheto, que j foi a causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram falso... No mettas a tua alma no inferno! Deixa-a l casar com quem ella quizer. Ora este folheto... A seu tempo. IV O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO Da vara de Epicuro idoneo porco. HORACIO, Epist., Liv. 1. E o litterato, como a filha do infante lhe no contradissesse a linhagem realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o corao ardente, pediu explicaoens me, que lh'as deu, seno lisonjeiras, inoffensivas do seu orgulho. Era muito para lastimas vr aquelle rapaz to soberbo dos desaforados brazoens que lhe procediam da deshonestidade da av! Tolejando chimeras da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que, mezes antes, desvelra em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe trepar aos hombros sordidos para de l ser visto. E ahi, no atascadeiro da escumalha social, era elle mais nauseativo, porque toda a gente limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se. Operou-se, todavia, notavel mudana no genio e costumes de Victor Hugo, restituido liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo absolutista acarearam-no ao seu gremio, s suas assemblas clandestinas, s suas novenas secretas, e sua maonaria, se tal nome quadra ordem de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se _Fuas Roupinho_--nome de guerra. Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva gratido, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse aurora de esperana na longa noite da sua saudade filial. Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que melindrosamente escrutasse o corao de D. Maria Jos, no se via l. Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos, prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confira-se aos lances do acaso, s transformaoens do tempo, versatilidade femeal, e, em fim, a um imprevisto rapto de amor, no raro em peitos sensiveis das senhoras. Outra coisa agora. No vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima dynamisao de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto cuida que elles no comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem. Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de se alimentarem. Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me ho de malsinar de immortalisador de bagatellas com egual razo da que apdam Camoens por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de no se ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem no saber que a pimenta, o cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razo explicativa, est para Victor Hugo Jos Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da Praa da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza. No me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o corao, e com o outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle se nos estada vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos restaurantes da capital. No era elle assim quando esbombardeava contra o altar e o throno. Parecia querer ento inculcar que se vestia na feira da ladra e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras humanas atirra os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devras lhe doia desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio. A sua alimentao predominante era alface, espinafre, e a fava em grande cpia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio s funcoens do intellecto. Em compensao, comia tripa frra pescadinhas marmotas em razo de abundar no peixe o phsphoro que grande parte na estructura do cerebllo. Afra as indicaoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por intuitos de ordem asss psycologica e social. Como o seu proposito fsse caldear e refundir o genero humano, recuando-o simplicidade dos costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do _fillet-aux-trouffes_ bolota crua, affrontando com selvatica heroicidade os appetites, as cubias, as fomes, as tantalisaoens que separam Apicio de Epicuro. Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado. Da cabea revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionra, estourava-lhe a ida com umas fulguraoens indicativas de excesso de phsphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor s praxes triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira--como elle dizia--manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos _ad odium_ contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones da logica--coisas crassas e sandias--asseverava elle que tinham sido ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio da orelheira afeijoada. Alm da injuria que Victor Hugo Jos Alves irrogava grammatica, aos frades e s vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e bois que semanalmente eram espostejados nos paos, depois de haverem atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas brigantinas. O disparate da censura faria rir desgarrada os ouvintes, se a cara do orador no estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto para sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraoens acendidas pela superabundancia do phsphoro. Segundo elle, a sanguinea lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros do sangue enriquecido pelas carnes esmodas nos vinhos seculares. Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista civil. Era ento o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da felicidade do povo, tinha visto uma viso de sete vaccas magras escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror no seria escorreito, se elle depois no acrescentasse que as vaccas magras eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia! Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena cossada, e do phsphoro dos safios e caoens. Como se fez por fra a transfigurao que mal pode explicar-se pelo reviramento do espirito? A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre tudo, a nutrio--quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda? O chamar-se _Fuas Roupinho_ politicamente, o afivelar a espora de cavalleiro da Ala, no nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas contra sarracenos, se apossasse christmente do thesouro de algum rei mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para arraoarem no presepio o futuro continuador da _Besta esfolada_, tambem no racional, attendendo pleiada de talentos que l reluzem com habilidade para mais. Ento que era? V O CORAO DE D. ROZENDA _Agnosco veteris vestigia flamm._ Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa. VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23. Estava um dia D. Maria Jos de Portugal lendo a _Nao_, e de subito as lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma invocao aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho de D. Joo VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do visconde de Arlincourt, no tivera em Roma com que comprar o leite para o almoo. Da concentrao lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes de alegria desacostumada, exclamando de golpe: --Como bom ser rica! E, feita breve pausa, acrescentou j menos expansiva: --Rica!... eu no sou rica!... mas em comparao de meu pae, to pobre, to infeliz, tenho muito! Em seguida, escreveu a D. Rozenda Pica, annunciando-lhe _a primeira radiao de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar os seus anhelos_. A me de Victor, lendo a carta, disse alvoroada irman: --Tenho nora! --Tens nora? exclamou Euphemia--Ento diz-t'o? ella quer? --No se explica bem; mas eu j lhe entendo o palavriado. Ouve l, mana. E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para emfim interpretar complexamente que D. Maria Jos de Portugal se achra de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava _anhelos_. --Essa palavra _anhelos_--observou D. Euphemia, arregaando o beio de baixo, com o dedo indicador--parece-me que isso mesmo que tu dizes, mana Rozenda... No te lembras... ora pucha pela memoria... no te lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel de lanceiros quando ficaste viuva? Chamava-te _meu anhelo_. --No era o furriel--corrigiu Rozenda.--Quem me chamava seu _anhelo_ era o Peixoto. --O capito da carta? Tens razo; era esse... Pois dizes bem; o que ella quer dizer isso. Anhelo amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me estou a recordar de no sei quem que me dizia que eu era os seus anhelos, ou anhelitos... No sei se era aquelle tenente de marinha que nos deu de almoar na barcaa dos banhos, se era o Januario da rua dos Fanqueiros... E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom: --Ests triste, mana! J sei o que ... Lembrei-te o Peixoto... Se eu soubesse... --Ai!--suspirou Rozenda pondo a mo no lado esquerdo do peito--Ainda aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda no sou senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu, quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:--amar outro at esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!... --No tanto assim, mana...--emendou Euphemia.--J depois andaste muito apaixonada pelo conego Antunes, pois no andaste? --Gostei d'elle--respondeu Rozenda langorosamente requebrada.--No desgostei... mas amar de paixo foi s uma vez... Ai! o Peixoto! o Peixoto! no sei que feitios me fez!... Concentrou-se largo espao com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou por fim com abrupta clera: --Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me arranjasse uma penso j que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na minha preteno, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que tornem para c!... No parea caricatura a vaidosa precauo com que a snr. Pica se resguarda ou finge acautelar-se das tentaoens, escarmentada por varios casos funestos. As decepoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe, se ella esconjurar os embellcos de um major reformado que protestou induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como se viu, no tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda, quando lhe punge na lembrana a imagem do capito da carta--aquelle Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do corao. D. Rozenda no pde ainda atravessar despercebida a corrupo do seculo. Tem quarenta e sete annos remoados pelas madeixas postias que lhe inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa; mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam j florecido em 1834, e no mostravam desesperado empenho em ser citadas como exemplares de castidade. Favorecida pela magrza que, no lapso de trinta annos, desilludira os enfeitiados de sua elegancia, desde o seu defunto Alves at ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava _anhelo_, at ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que muitas damas ainda viosas perderam logo que os tecidos espessos refegaram e descahiram placidamente. Lisboa, como todas as capitaes das naoens que tem civilisao, gaz e ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez, d'aquelle preceito colonisador com que Moyss justifica Rozenda e as outras philogynias dadas s contemplaoens geneticas. Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar dos nervos, triste condo das mulheres provincianas. As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o bero dos filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu corao, bafejaram-lh'o nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de uma noite desvelada cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor ou desdem perderam a doura ou o agro,--j a ninguem enlouquecem de jubilo ou desesperao: um sorrir para filhos e para Deus que lh'os ha-de manter e guiar. Isto formoso e santo; mas as mes assim envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; no lhes esmalta a vida uma restea do sol da alma, no as desperta o alvoroo de sonho apaixonado, nem a esperana lhes enxuga nas palpebras cerradas uma lagrima de saudade. Ninguem as v, ninguem as ama; porque, na voluntaria abdicao da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graas das vidas que estremece, ha uma glacial repulso que no deixa aquecer em peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, so uns como que baluartes sagrados. Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulao, muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que attribue a sua honra beno da alma digna do co. Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisao das provincias, se l houvesse duas d'estas mulheres, alm d'uma que decerto a esposa do leitor! VI O SANTO CORAO DE FILHA Tu lanas de ti tres raios: Belleza, innocencia, aurora. GUILH. BRAGA, Heras e Violetas. Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo mostrar conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo, entrou exclamando ridentissima: --Com o amor no se brinca, minha querida menina. Quando o corao empurra, a cabea vae para diante. A gente, por mais que faa, no resiste ao que tem de ser. E mo que nos amem; que ns, frageis por natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, no acha? D. Maria Jos, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa cara da snr. Pica, quedou-se pasmada sem perceber nem responder. A mulher anhelada do capito da carta, attribuindo a pudor o silencio espantadio da menina, continuou gesticulando como creatura de ral, que no houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes: --No se acanhe, que eu bem sei o que um corao de donzella. J por l passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas, como no amei seno o meu Alves, fiquei sem saber o que a satisfao de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu defunto no era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas folhas no sabia nada. E, veja o que so as coisas, o meu Victor Hugo sahiu esperto como a menina v e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede--a menina bem se lembra d'aquelle deputado baixo e gordo--pois dizia-me elle, muito admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, no me poupei a despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou uma senhora que lhe soube dar a devida estimao!... Ha muitas meninas em Lisboa que namoram asnos--perdoe-me a expresso que no muito civilisada. O que ellas querem chelpa, e marido seja l como fr. So raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graas a Deus que o meu Victor Hugo amou quem digna delle! Cheguei ao que tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito lindos... Se no fosse ser ella quem , eu no queria ainda ser av... D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo artificio, quando D. Maria perguntou serenamente: --Ento o snr. Victor vae casar? --Se vae casar!--acudiu Rozenda estupefacta--Pergunta-me isso a menina? --Sim, minha senhora... Pois no acaba de me dizer que seu filho encontrou uma menina que o sabe apreciar!? --Ora essa!--tornou a me do poeta, avincando o sobrlho--ou a senhora est a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina no me escreveu uma carta... --Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar... --Para me contar os seus anhelos... -- verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados de estar um principe portuguez mendigando o po estrangeiro... --Ah!--atalhou Rozenda, prolongando a exclamao medida do seu azedume mal disfarado--Ento, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao snr. D. Miguel?! --Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do co egual poro de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos que passaram e de outros escurissimos que ho de vir, abre-se-lhes o co em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos os jubilos de longa vida satisfeita. D. Rozenda abria a bocca a vr se percebia, emquanto D. Maria de Portugal continuava: --Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasio de poder mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o cubra nos paos dos reis seus avs, recursos que devem ser valiosos para o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque lh'os manda uma filha. --Ento a menina--repisou D. Rozenda em tom reprehensivo--quer dar o que tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, no me dir? Sim... pergunta a minha curiosidade, depois que der as suas inscripoens e a sua casa, para onde vae? --Eu ainda lhe no expliquei todo o meu pensamento... --A snr. D. Maria Jos tem o corao de uma pomba;--proseguiu a snr. Pica, desdenhando a interrupo explicativa--mas ha de dar-me licena que eu lhe diga que no tem juizo para regular a sua vida... Corao toda a gente o tem; mas cabea... isso raro. --Eu lhe respondo, snr. D. Rozenda--insistiu reportadamente a filha do snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por natureza e raa lhe deviam beliscar o pundonor.--A minha teno no mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer, se o no recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que maram a pobreza, e a no deixam mostrar-se luz a que as senhoras opulentas costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, no dou ao snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra. Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos no requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada s pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador. --Mas...--interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendra. --Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripoens. A casa no a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a que o aviltem. O producto das inscripoens quero enviar-lh'o, excepto a quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas. --Luveira!--bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente as palavras da cartilha--Luveira! a filha do snr. D. Miguel! cos, que escuto! Que dir sua me no outro mundo se a vir a fazer luvas! --Minha me, se me v do outro mundo, ha-de abenoar-me--respondeu placidamente D. Maria Jos.--No ha trabalho deshonroso, nem ociosidade honrada, snr. D. Rozenda!... Que dir minha me no outro mundo, disse a senhora! Pois eu no sei a vida de minha infeliz me nos seus ultimos annos! No a conheci apparentemente rica? No vi sahirem da cocheira a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu j que minha me teve um hotel, e que nem ahi, em to obscura e humilde paragem, a desfortuna deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de luvas? --Faz differena...--explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na travessa do Estevo Galhardo--faz muita differena, muitissima! A dona d'um hotel est nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A menina bem sabe que eu nunca admitti minha mesa, seno o deputado Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e nunca me disseram a menor desatteno n'um tempo em que eu no deixava de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira outra coisa. Tem de estar ao balco espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaa d'aqui, chalaa d'acol, faz l ida?! E, quando se tem a cara da menina, imagina l os atrevimentos que lhe ho de dizer os rapazes, ainda que saibam que a menina filha de quem ? Hoje em dia, no se respeita seno o dinheiro... Luveira! a snr. D. Maria Jos de Portugal luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua ida faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que no acontecem n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e mais quem as fez ao diabo, que no fica rico com o presente. Os romances so patranhas que perturbam as cabeas do sexo sem pratica do mundo, como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro seu, pde atiral-o rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perde a expresso, que no muito civilisada. E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era perplexidade, e talvez uma saudavel reconsiderao, devida ao acrto de suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou flego e proseguiu: --Quer a menina fazer bem a seu pae? D tempo ao tempo. Arranje-se primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos no fiquem a pedir, por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois no assim? Se a senhora D. Maria der o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito linda? No ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina misericordia... --Est bom!--cortou D. Maria Jos, com enfado e sobranceria. --No se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo o que sua mezinha lhe diria... --No offenda a memoria de minha me, que foi uma desgraada digna de respeito. A viuva do mercador de couros sorriu ento com um to brutal esgar de bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beios que lhe pareceram estar escarnecendo a memoria de sua me. --De que se ri a senhora?--perguntou desabridamente. --De que me rio? Pois a gente no ha de rir-se, quando ouve dispauterios? Em que offendi a memoria de sua me? Essa boa! Ento dizer eu filha do snr. D. Miguel e da snr. D. Marianna Rolim de Portugal que no se faa luveira, offender a memoria de sua me! Ora, minha senhora, no nos entendemos! A menina sabia, l livros e casos romanticos; e eu c, a respeito de livros, basta-me a experiencia que no mo livro, e o mundo que no tem pouco que ler... Emfim, minha menina, estou s ordens de V. Ex., e hei de amal-a sempre como filha, tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua me, quando a fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a menina, no passaria precisoens. E, se as no passou porque teve quem lhe dsse uma mezada, tambem as no passaria, se nada tivesse de seu. Deus permitta que no; mas, se alguma, vez a snr. D. Maria Jos chegar pobreza, ha de achar-me to sincera amiga como fui e sou. A menina, commovida e repza da altivez, com que interrogra a amiga de sua me e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraou-a, pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluando, que no deixaria de soccorrer seu desvalido pae. --Faz bem, faz bem, menina!--obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao mesmo tempo, previdente.--Se seu pae voltasse ao throno... --Nunca mais!--murmurou D. Maria com os braos pendidos e os dedos entrelaados--nunca mais! --Por que no?!--replicou a me do vidente, que assoprava pira do fogo sacro no escriptorio da _Nao_.--Tenha esperanas, menina! Meu filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu Victor, quem o ha de pr no throno! --O snr. Victor poeta...--volveu D. Maria, sorrindo melancolicamente.--Cuida que as phrases inspiradas pela justia fulminam as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga omnipotente. Os raios do talento no so como os do co que vo direitos aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos, apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra... --Sempre muito esperta!--interrompeu D. Rozenda ingenuamente admirada--A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade! O meu Victor Hugo diz tambem que a snr. D. Maria Jos, se quizer, pde idear novellas. Porque no d a menina alguma coisa luz? Escreva um romance de amores... --De amores!...--obstou, sorrindo, D. Maria--como hei de eu escrever do que no entendo? --No entende!?... Boa vae ella! O amor no tem nada que entender. Quem ensinou os passarinhos a amar? no me dir? A natureza tanto ensina os animaes como a gente. A menina, se no sabe, porque no quer. --No posso, nem penso em tal. O amor s entra em coraoens abertos ao contentamento. Alma em trevas no attrahe raios de luz to intensos. O amor como o sol que decerto no brilhar neste recinto, se eu conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite. --Ora deixe l...--redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo do deputado Elias.--A snr. D. Maria Jos ha de pagar o tributo como as outras: se no fr Sancho, ser Martinho. O que a menina faz o que eu tenho feito desde que enviuvei: no quer amar; isso l percebo eu. Bem importunada tenho eu sido por pretendentes s segundas nupcias, tantos como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque jurei eterna fidelidade at morte ao meu defunto Alves, apesar de elle me deixar pobre, sacrificando-me politica cabralista. L se elle fosse esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica; mas, Deus o tenha sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleiro! O meu Victor Hugo sahiu ao av c pelo meu lado, que dizem que era muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode ser ministro. Eu no engulo caraptas; mas, quando me lembro que o meu hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito tapadinho, diga-se a verdade, no me admira nada que meu filho, cedo ou tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina pedia-lhe que dsse uma pasta ao meu filho, no pedia? --As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras, no devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere por amor d'elle. --E o mais que elle soffrer ainda...--ampliou D. Rozenda.--Acho-o to incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as casas principaes, e no me falla seno na senhora marqueza d'Abrantes, na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas, Pancas, etc. E bem v a menina que quem gira nesta roda fina no se ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com que linhas cada qual se coze... --Peo-lhe, minha amiga, que disponha do que meu--disse a menina apertando-lhe a mo. --Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, c me irei remindo, como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado Victor, sabe o que era?--isto. E, apontando-lhe ao corao, trejeitava com os olhos mui derramados e um pender de cabea languescida--coisas e modos que muitas vezes deviam ter eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes. --Tem de mim o snr. Victor--disse solemnemente D. Maria--o mais que posso offerecer a um irmo.--E logo, norteando a palestra n'outro rumo:--Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis, que o que posso liquidar das inscripoens, tirando para mim o necessario para manter a minha lojinha de luvas. --Ella c torna com a mania! Ento no muda de ida? --No. O tom imperioso e scco da resposta fechou o debate. D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro. No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaoens, entregou a D. Rozenda os seus papeis legalisados para a venda. VII OS TRES CONTOS DE REIS Por entre o labio torpe e podres dentes, D'aquelle abysmo esqualido, que pde Sahir que no tresande!? GOETH., Fausto Segundo--cro. E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V--cidado portuguez, que morreu honrado e sinceramente carpido. Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da sciencia lhe crestaram o vio da juventude. O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calo e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento. E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naoens livres e pobres, nenhumas ostentaoens sobredouram o manto real seno as da reportada parcimonia e absteno de soberanias extemporaneas. Um regimen de governao, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr. D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa misso de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe emplas academicas, uns arrbos j bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predileco impertinente. Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe no montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o av e rossado a injuria desbragada pela sombra da me impolluta. Nas angustias da snr. D. Maria da Gloria se lhe revelou a condio acerba de quem ha de ver homens e factos atravz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos at ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix em que sua me lhe legara--para saudades e exemplo--o travo de suas lagrimas. Por isso aquelle moo no provra as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia. Ao sar do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braos da chimera luzentissima que esvoaava s regioens sombrias da _Divina Comedia_--semsaboria immortal!--ou se librava nas nevoas de Macpherson,--immortal semsaboria! O ar do pao tresandava s pras que os escaravlhos rolavam pelas alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caoletas encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia o principe sincero extremar entre respeito e adulao, e entre silencio estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o reinado de seu tio-av, bosquejassem o caracter dos validos que o derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada cortezo, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente vestidos com as librs de 1857. Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar quasi soledade onde se amiserava um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa onde os requerimentos eram lanados. A chave d'esse cofre de lagrimas, que j haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a tinha. Confluiram a centenares os appllos da injustia dos ministros para o simulacro do brao soberano; mas as reparaoens eram baldas, porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a esmola aos que lh'a mendigavam, e commiserao aos que se deploravam, pedindo justia ao rei e no esmola ao abastado. O alvitre do imperante denotra alma egregia; mas o infortunio vingra apenas fazer-se conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei no podiam ser mais fecundantes que as do cidado, primeiro na jerarchia, mas no decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os phoros pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil. Os aulicos de quem o principe se rodeava, forado pela pragmatica, nunca lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D. Miguel de Bragana. No era respeito legitima soberania, nem temor do real desagrado que os amordaava. Elles sabiam que na alma do rei no negrejavam odios ao irmo do seu av, nem se quer sequla legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de espertar em a liberalidade do corao dadivoso, defraudando-se dest'arte do quinho que repartiam, pondo o almoxarife porta das mercearias insoffridas a pedir-lhes que no denegassem ao refeitorio do rei de Portugal as massas e os paios fiados com desconfiana. No obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia applacada aos braos da espsa, que lhe tapetava de flores tardias o breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres beros, povoados de ridentissimas creanas--uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no esplendor da belleza, immaculada, neta de reis--espectaculo que dulcifica lagrimas!--offerecia o seio para reclinatorio de um velho expatriado e pobre! No regao d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, no rainha, mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal. O Senhor D. Pedro V aprecira a virtude dos que, sem esperana de galardo, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz, pois, egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem esbulhado de todas as grandezas, e at privado da gloria posthuma com que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno ao sepulcro pela rampa do exilio. E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella que lhe levra para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no raio celestial, e gosou-se de l na contemplao das mais sinceras lagrimas que ainda alguma nao chorou sobre a mortalha do seu principe. E ento somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixra escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos mil reis votada a D. Miguel de Bragana. Ora haveis de saber que o irmo do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria Jos. Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex., se dado o exemplo da fraude em to altas regioens, muito de espantar que Victor Hugo Jos Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria Jos enviara ao pae! d'este modo que se esclarecem as melhorias to depressa feitas na pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Pica. O procedimento d'este escriptor no seria, talvez, digno da commenda de S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia, no se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladro qualquer sujeito, porque no foi agraciado. Se no teem sido muitos os exemplos d'este descuido em Portugal, as excepoens no devem menoscabar os creditos de Victor Hugo. Os reis no podem, sobraando a cornucopia das mercs, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. No da attribuio dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra, o poder executivo no leva todas as quintas feiras munificencia regia pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia encontrar em ruas no patrulhadas. Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D. Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a cora de baro de S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei sabia que tambem Cato ministrava em Roma collarejas de alquilaria das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Cato censorino? Victor Hugo Jos Alves que espere. Mais tarde ser regalardoado na proporo da injustia ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o bem estreiado cidado germinar a semente que fiou do uberrimo torro da sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas que algum dia lhe ho de juncar a escarpa do capitolio. Entretanto, a converso de tres contos de reis em objectos attinentes reformao physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados elogios, se o sujeito no precedesse de calculos e consideraoens politicamente transcendentes a consubstanciao do metal com a sua pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe proscripto seria cdo ou tarde redintegrado no throno. No era base menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravao das doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafra de sua lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com fidalgos desbragados era desencanalhar-se da ral onde havia nascido. O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo _Da Origem e estabelecimento da Inquisio_, tinha escripto umas phrases biliosas de que Victor Alves inferiu a provavel restaurao do rei legitimo. O vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, no podia illudir-se, quando vaticinava a restituio do absolutismo pelos proprios esforos da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, j temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrsto religioso, se colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubias dos proletarios. Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever civico de jurar bandeiras na vanguarda do tro mais aguerrido, metter a cabea aventureira brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a noite dos espiritos fosse mais caliginosa--claroens de eloquencia nos clubs, nos botequins, e at nas salas das Aspazias vetustas, que, desde 1834, anafavam as barbas de todos os Pericles--como elles vingam n'este paiz--mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias de D. Rozenda. mais vivida luz do entendimento se mostra que Victor Hugo no conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o verbo as convicoens legitimistas, se no se entrajasse com o asseio e galanice que hoje em dia realam as clausulas do bom orador. Decerto lhe seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse smente a quinzena de panno pilto com que mediocremente se distinguia nas cas do _Collete-Encarnado_; e com a qual se escondia na penumbra de um caff da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia. Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um palet no fio, e um collete de mozaico desbotado, relanando me um olhar que requeria gratido, fidelidade, e talvez a renuncia completa s caricias do conego Antunes! Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os homens, em cuja testa latejava a inspirao estuosa dos Izocrates e Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da gesticulao, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas omoplatas do snr. Jos de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um tanto canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em particular o embellesado Victor Hugo Jos Alves no aprumo estatuario do snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inditos estivesse cubiando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella confirmao de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as costuras da vestimenta no prejudicava de todo os raptos de eloquencia que lhe phosphoreciam no aspeito grvido de idas. Ia n'estes effeitos, desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem. No lhe fez menor impresso o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o collete listrado do j hoje defuntissimo snr. Joo Elias; nem pde esquivar-se a imaginar que o snr. Mrtens Ferro, sem o primor das suas casacas, e o compassado pendulo do brao direito competencia com o pendulo compassado do brao esquerdo, apenas vingaria com os seus discursos retirar das pharmacias o ludanum, e constituir a camara em permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus _dormiam de tristesa_, como S. Joo refere. Dormir de tristeza!-- o mais curial e justificado somno que pode narcotisar uma assembla de legisladores, quando a providencia das naoens no encarrega alguns deputados bem penteados e vestidos de manterem o auditorio em alegres insomnias, salvante o snr. duque de Loul para quem o proprio snr. padre Antonio Ayres do Porto seria uma amendoada. Destas contemplaoens sahiu o filho de D. Rozenda Pica bastante inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por fora, privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente pelo genio. Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragana os tres contos de reis, e assim se exonerasse de ser o motor da restaurao, mingua de fato digno d'um restaurador, no seria isto damnificar o paiz, a trco de ser honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto--o ouro da filha, ou a restituio da cora? E, se alguns punhados de ouro, em mos alheias, lhe estavam logrando juros de patria e cora, no era obra para tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a ufania de outros bandoleiros que elle via assentados orla do solio usurpado? Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando casos e transformaoens de magnitude incalculavel, ao passo que, enviados a Heubach, seriam ingloriamente consummidos em comestiveis e outras ridiculezas de todo ponto inuteis reivindicao da lei fundamental de Lamego. Ao proposito da legislao patria, derogada pelo direito da fora, muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiana que pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre Jos Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que elle preferia ao _Punhal dos Corcundas_ era _Les talismans de l biaut_, obra at certo ponto estranha s estudiosas vigilias d'um conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos actos do espirito com a compostura esmerada do corpo. A limpeza da sua pessoa, longos annos suja, no se fez rapida nem superficialmente. O talento, que o infuriava hydrphobo contra os banhos do doutor Nilo, impunha-lhe agora a necessidade de, todas as manhans, se retoiar voluptuariamente n'um banho aromatisado com _Lait d'amande douce_, friccionando-se com saboens de _Thridace_ e da _la reine des abeilles_, ou _Crme froid mousseuse_. Depois, no amanho dos espessos e oleentos cabellos, que em outro tempo fariam recuar um javali assanhado, enfileirava os cosmeticos numerados desde o _Baume des violettes d'Italie_ e _crmes duchesses_ at _Eau redivive de Nangavaki_ e _Diamantine lustrale_. N'esta operao capillar, em frente d'um espelho de Veneza ladeado de columnas com arandelas de bronze, formadas por Leda com o cysne e Europa com o boi, ia Victor Hugo ensaiando as prgas da fronte e os vincos do sobrlho, significativos de cerebro causticado pela cantharida do genio: ensaio previo que elle imaginava contribuir asss para os triumphos oratorios do snr. S Vargas. Involto em robe de chambre azul-ferrete de brocatel, cingido cinta por cordoens de sda e borlas escarlates, Victor encaracolava as favoritas do bigode, encerando-o e lustrando-o com _Pommade hongroisse_; depois ungia a epiderme com _crme Pompadour_, e operava o quarto lavatorio da untuosa cara com agua saturada de _rose des abeilles_. Finalmente, seguia-se o polimento das unhas escovadas e alfanadas com _poudre oriental_. Todo o requinte n'este ponto lhe parecia baldo, figurando-se-lhe que as suas mos no accusavam na delgadeza e transparencia a aristocracia dos Marialvas ou Vimiosos. Feito isto, alli se quedava largo espao narcizando-se diante do vidro com o languor mulheril de um Bathylo ou Juvencio. Requebrava o colo em dengosas flexuras de cysne preto, e entre-abria sorrisos de donzel, deixando apenas descerrar os labios. Risos francos e abertos no os confiava sequer do espelho. Eram-lhe dr, desaire e violencia enormes no poder rir. E porque no ria este homem to alvoroado de alegrias intimas? Seria para simular profundeza de juizo, e cuidados de conspirador que lhe traziam os miolos amartellados? No, senhores. que tinha os dentes lurados de cavernas cariadas e chumbadas, e as gengives tbidas d'um gluten verdoengo. Era uma podrido de caveira, um arcaboio de mandibulas a vaporar febres perniciosas. Tirante os dentes, o alinho complexo do poeta, visto a vulto, recendia a olorosa elegancia que lhe perfumava o ambiente, mitigando-lhe o halito paludoso, e temperando sadiamente o ar a favor dos circumvisinhos. No assevero que Victor Hugo ensaiasse com alguma felicidade, nos saloens da aristocracia herdada, a influencia anachreontica dos seus dotes physicos; antes pendo a suspeitar que l se sentisse mais a corrupo dos seus dentes que a da sua alma. As finas bellezas das raas historicas olhavam-no de soslaio, e trocavam entre si tregeitos indicativos de espanto e mofa. O inculcado talento do poeta no obteria sequer, na sociedade frivola das damas illustres, aquella atteno convencional e contrafeita que a sociedade burgueza dispensa aos litteratos, sob condio de que o poeta escreva o soneto em dia de annos, ou a necrologia nos obitos da familia. Rosnava-se, porm, que uma marqueza, j bem esfolinhada de teias de aranha de preconceitos em 1820, no o fizera esperar, como Ninon a um certo abbade, o anniversario natalicio dos seus annos ultra-canonicos, para o convencer de que a lira do bardo hodierno podia, sem profanar o culto antigo, desferir endeixas accommodadas magestade de uma cathedral gothica. Outro sim constava que o filho do Alves dos couros, morto em odor de caceteiro cabralista, cultivra aquelles amores como quem escarda, no estylo do seculo XVI, archaismos para os lardear, com presumpo de entendido, nas modernas formulas litterarias. Queriam dizer, ou dizia elle que a marqueza, reliquia das antigas usanas de palacio, collectora de anecdotas attinentes ao viver intimo da fidalguia, e refinadamente polida de maneiras exclusivas da sua casta, pagava generosa as fumigaes do nardo, dando ao seu poeta uma demo de verniz de bom-tom, que elle decerto no dispensaria para escodear as crustas da educao, na convivencia do capito da carta e nas cas de figado frito na tasca da Rua das Pretas com os clowns do Price. Como quer que fosse, n'estes amores transitorios e meramente acceites como appendice de policiamento, Victor Hugo Jos Alves guardava intemerata e sem nodoa a poesia do seu peito. D. Maria no se lhe despintava da ida apaixonada. A converso do dinheiro em beneficio da causa de D. Miguel era incentivo a maior para que elle, mais ao diante, na liquidao de suas contas com D. Maria Jos de Portugal, descontasse a verba empalmada, incendrando-lhe em ternuras o mais fino ouro do seu amor. Entretanto, o causidico da legitimidade ganhava entre os seus confrades o nivel dos mais esperanosos talentos da restaurao. Ensejo de fallar melodramaticamente no perdia um. Ageitava a occasio de exhibir troos de discursos que compunha no seu escriptorio, declamando-os tia Euphemia, que se mostrava accessivel s descargas electricas da metaphora, resultado da sua diuturna familiaridade com um auctor dramatico, que a denominava a sua Lafort, e a beijava com delirio, se ella lhe cantava, com as mos no peito bambo, as chacaras dos seus dramas. Com os olhos suados de saudoso liquido, D. Euphemia, attenta s oraoens do sobrinho, cuidava estar ouvindo o dramaturgo, que se fra d'este mundo com os ouvidos ainda atroados das ovaoens do Salitre, e o corao alanceado de invejas roazes aos _Dous Renegados_ do snr. Mendes Leal. VIII RAUL No rosto do anjo que desdem to nobre! DANTE, Inf., c. IX. Relataram-se os casos anteriores ao realisado designio de fazer-se luveira D. Maria Jos. J, ao comeo d'esta historia, Jos Parada, o meu introductor presena da filha de D. Miguel, nos referiu, mais ou menos hyperbolicamente, a concorrencia de preitos volta da galante dama. No foi, certo, encarecido louvaminheiro quando nos relatou as esquivanas da luveira s propostas de casamento, j com velhos endinheirados, j com rapazes de genio, e at com um rico e elegante mo que podia aspirar ao mais selecto consorcio na melhor sociedade da crte. Tal era aquelle Raul, filho unico do conde de Baldaque, millionario que entrra em Lisboa com o seu socio e amigo Manoel Pinto da Fonseca, o homem de ouro que as mulheres de carne cognominaram o _conde de Monte-Christo_. D. Maria Jos no estremra o filho do conde entre os frequentadores da sua loja, seno pela timidez tartamuda, e rara infelicidade no acovardar as phrases, to avssas da galhardia dos meneios e tom de peralvilho que lhe dava a luneta, e de uma certa dextridade a que devia nos saloens o renome de bom conversador. Nas suas praticas com a luveira da Rua Nova da Palma mediavam intercadencias de silencio que tanto podia significar amor que absorve a palavra na contemplao, como cansao de duas almas em spasmos de tedio reciproco. Raul, porm, amava n'aquelle extremo em que a mulher impe respeitosa adorao, independente do prestigio do nascimento. Pde ser que elle, desconhecendo a origem real da luveira, se houvesse em presena d'ella com menos resguardos, sem todavia lhe querer menos; mas, em leal verdade, o dizer-se que a gentil menina era filha de um rei, e o porte soberano com que ella, sem arte e genialmente, justificava sua fidalga condio, eram realos j de si peregrina belleza, os quaes, a meu vr, insinuaram ao animo enthusiasta do mo brazileiro a idolatria genuflexa que se confunde com a superstio. Raul de Baldaque, saltando do dog-cart porta de D. Maria de Portugal, e atirando as guias ao jockei, ia encontrar a luveira pregando botoens em luvas. A gentil senhora correspondia-lhe graciosamente ao cumprimento, passava-lhe uma cadeira, que elle recebia com ademanes de extremada cortezia; e, cumprido o dever de urbanidade como se o exercitasse nas salas opulentas de sua me, continuava o seu negocio, tratando os freguezes com semblante prasenteiro e um sorrir de paciencia que ninguem, entendido em dres recalcadas no fundo da alma, poderia vr sem pena. Raul, subtilisado pela paixo que adelgaa os temperamentos mais espssos, adivinhou um dia que o sorriso da luveira em resposta aos desabrimentos de certa mulher que lhe regeitava umas luvas esgaradas ao vestir, era a expresso ironica do infortunio que se irritava, ou acaso a serena alegria da voluntaria martyr. Desatou-se-lhe ento da alma ao concentrado mo um dizer que o engrandeceu no conceito de D. Maria: --Quantos sorrisos d'esses ter tido o snr. D. Miguel de Bragana!... A senhora fitou-o com os olhos j nubelosos de lagrimas, e respondeu: --No ha comparao, snr. Baldaque. O snr. D. Miguel no pde sorrir. O que pde haver egual entre o principe e a luveira o chorar... Mas que differena no travr das lagrimas! Eu choro por elle, e elle... chora por si mesmo. Eu vejo a tortura, e compadeo-me: elle o torturado. E essa mesma piedade que l chega em escassos beneficios deve ser-lhe fl coado s feridas do pundonor... Ha infelizes que se estorcem em sdes abrasadoras; os amigos querem apagar-lh'as, e do-lhes veneno... No sei se para esses, que tudo perderam, a mais relevante caridade seria deixal-os morrer... No seria facil a Raul atar as idas descozidas e interceptadas por silencios; mas o que elle percebeu animou-o a proferir uma expansiva bondade que soou asperamente nos ouvidos da luveira: --Se eu no fosse rico, as suas palavras, minha senhora, seriam tambem para mim uma tortura... --No me comprehendeu--murmurou ella, abaixando o rosto sobre o engenho das luvas. --Creio que entendi;--replicou Baldaque--mas, se a magoei, perde-me... --Que entendeu?--disse ella, sem levantar os olhos.--Que eu lhe pedia uma esmola para o snr. D. Miguel? --No, minha senhora, eu entendi que... balbuciou o mo grandemente embaraado. --Ento que foi que entendeu? --Que V. Ex. lamentava que seu pae no tivesse morrido, antes de acceitar os donativos dos seus partidarios. --Se assim , que importa que V. Ex. seja rico? --Tenho medo de lhe responder--disse Raul, erguendo-se de golpe, e sacudindo com a mo os longos cabellos que lhe afogueavam as faces. --Mdo!... que poder dizer-me que o intimide? --Tem razo, minha senhora. Eu preciso ser franco... preciso ser mais feliz do que sou... quero abrir-lhe a minha alma... quero, emfim... Susteve-se algum espao; e maior seria a detena se D. Maria Jos o no desfitasse d'aquella penetrativa interrogao que parecia recommendar-lhe summa prudencia nas palavras que ia proferir. E proseguiu, tirando brios propriamente da necessidade que tinha de se justificar: --Se eu ainda lhe no disse que a adoro, porque, na sua presena, todas as minhas resolues fraqueam. Sou ainda novo; mas conheo o mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu no amei nunca; mas sei as palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e no o fiz, deliberei escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta. Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras que me feriam o corao e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao menos, em meio de minhas amarguras uma consolao: e era que, dado que V. Ex. me no visse a alma atravz do silencio, me no julgaria um frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda outra consolao mais me lisongeava: era ver que V. Ex., se me desprezava, ou me no via, no prestava maior atteno s pessoas que a cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era to honesto quanto eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem. --Eu nunca dei occasio a que me fizessem propostas de natureza nenhuma--interrompeu a luveira.--Digo-lhe isto, snr. Baldaque, para o despersuadir de que tenho a vaidade de haver rejeitado propostas que o mundo chama partidos vantajosos. --Sei isso...--acudiu Raul, algum tanto abatido da coragem com que ia discorrendo, por inferir da interrupo assomado orgulho.--Sei isso...; e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros. Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex. a venerao, que no impediu que os outros se declarassem. isto a unica distinco que me deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella no semblante, no corao e no espirito, nem sempre succede que a paixo se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porm, minha senhora, j no haver nada que me empea de lhe revelar em poucas palavras todas as minhas meditaoens de seis mezes; mas, se V. Ex. me est ouvindo constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com phrases mais ou menos similhantes s minhas, ento diga-me que me escuta por mera delicadeza... --Por mera delicadeza o estou ouvindo--disse serenamente D. Maria Jos. --Pois bem...--tartamudeou o moo empallidecendo--calar-me-hei... Mas...--volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu pallidez.--Mas... V. Ex. perguntou-me ha pouco:--que importava que eu fosse rico?--E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr. D. Maria Jos animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse justificao, emmudece-me, declarando que me est ouvindo, porque delicada! Se fosse to boa de corao quanto melindrosa, no m'o dizia to seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e mo. --Mo conceito, no, senhor--emendou D. Maria--pareceram-me apenas uma impertinente phrase que s violentada podia entrar na nossa conversao. Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel infeliz; e V. Ex. respondeu-me que era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se pedem para elle... --Errou, minha senhora--retorquiu Raul, fortalecido pela pureza nobilissima das suas tenoens. --Ento, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e no por civilidade desejo ouvil-o. Baldaque, aps uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa inquietao do animo, disse verdadeiramente conturbado: --J no posso... --No pde!?--sobreveio a luveira com ares de incrdula.--Ento no pde? porqu? Isso faz-me desconfiar que... --Desconfiar?... --Sim, desconfiar que V. Ex., em sua hesitao, me d a perceber a difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicao que me ia dar da sua riqueza. Se assim , agradeo-lhe mais o silencio que a explicao... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueamos o que houve de mais nas suas revelaoens. Entretanto, snr. Baldaque, no lhe direi que vou ser com V. Ex. mais sincera do que fui com outras pessoas de quem me no aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva foi o silencio, sem desdem nem menos preo. Com V. Ex. no ser assim. Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez at ao que formou teno de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas, estabeleci com a sociedade as unicas relaoens compativeis com este modo de vida. No escolhi esta posio, calculando outra melhor. No pensei puerilmente em prender admiraoens de espiritos extraordinarios que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia. Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento, no romance, occupao ajustada s minhas faculdades e aos meus recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo; poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste viver obscuro: a soledade, o estar ssinha o maior numero das minhas horas, o desprendimento de cuidados que me forariam a sahir de mim mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado educao de meninas. Sei que me desempenharia mal por no poder, com este espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar atteno aos sagrados deveres de quem educa... --Mas V. Ex....--interrompeu Baldaque.--Perdo!... receio ser indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta... --Queira dizer. --Se ouso perguntar, porque muita gente diz que V. Ex. herdou... --Esta casa e nove contos de reis em inscripoens. --Nove contos de reis em inscripoens...--volveu receioso o filho do millionario--no bastam para quem tiver aspiraoens menos modestas que V. Ex.; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr. D. Maria Jos de dirigir este negocio to pouco lucrativo; e, se me concede dizer mais, bem podra V. Ex., afastando-se inteiramente da sociedade, gosar as suas horas todas de solido, poupando-se s lagrimas que ha pouco vi explicarem o seu sorriso... Peo outra vez perdo, se me excedi nestas observaoens sua vida intima. --As observaoens so justas--respondeu tranquillamente D. Maria--mas eu no tenho hoje de meu seno esta casa e o valor dos objectos desta loja. A indagao de V. Ex. deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais. Se mais alguem o sabe, no ha razo para que eu esconda a minha pobreza d'uma pessoa j convencida de que eu desejo ser pobre. -- minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito... --A minha pobreza voluntaria, reflectida e aprazivel--continuou a filha de D. Miguel. Quem tiver pena de mim, usurpa a sua commiserao a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex. que eu no dei valor s generosas propostas de cavalheiros abastados que me pretendiam com honrosos intentos. No dei valor opulencia que me offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiada similhante felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo tempo, parecia-me indiscrio e mediania de polidez vir aqui alguem obrigar-me a ser indelicada para evitar exposioens de affectos, que s ento me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira. Dona Maria sorriu, passou a mo alvissima pela fronte, deteve n'ella a cabea como quem revoca idas fugitivas, e proseguiu: --Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria. Escolhi esta posio. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna, a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem glorificaoens intimas e ineffaveis. So dres que os pacientes no querem consoladas; so as rozetas dos cilicios que as creaturas delirantes de amor divino apertam mais, quando maior a angustia. Ha penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias maceraes das santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a trco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus olhos canados de chorar no supportariam. --Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor da voz.--A palavra corao nem uma s vez appareceu entre as phrases glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que lhe norta a existencia; mas, nas suas estrellas, no co das suas visoens, estrella de amor no brilha nenhuma... Como havia de V. Ex. comprehender-me, se eu, articulando em soluos as minhas confissoens, seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e no a alma apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As minhas confidencias no poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um sentimento incomprehensivel em que V. Ex. me esconde as suas phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias do espirito no matam de esterilidade as flores, do corao. Na sua edade, snr. D. Maria Jos, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do descrer, vingaram, por effeito da f ou da graa divina, desferir nas azas da piedade altos vos at pousarem no seio de Deus; essas, porm, sei eu que l mesmo do co devem chorar sobre as illusoens perdidas da terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas de minha me irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar, na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do desengano. Nenhuma esperana lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi malogrado. V. Ex. no desejou nem esperou as felicidades que espera e deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade... --Vaidade!--interrompeu D. Maria--Vaidade! --A palavra no esta;--insistiu Raul com firmeza--ha outra mais bem cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de luz, de expanso e de guerra victoriosa aos preconceitos... --Diga a palavra... No se constranja... --Orgulho do seu nascimento--obedeceu elle receioso. --Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarasse a ida, no conseguiria enganar-me. Agradeo-lhe a franqueza. Tenho orgulho, verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe desterrado; e, cortejada beira do throno de meu pae, talvez o no tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de no haver compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas e guarda-roupa de minha me valiosas reliquias de uma opulencia que no havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das extorsoens feitas a uma nao arruinada. Se essa opulencia subsistisse quella hora em que fiquei orfan, eu venderia at o leito de minha me para o soccorrer, e ajoelharia divina Providencia, exhorando-lhe que me deixasse ganhar o po de cada dia, e permittisse que a miseria se abraasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me no sahissem impuras do corao. O meu orgulho j v, snr. Raul, que principiou assim: principiou como comea a humildade de muita gente desafortunada. Filhas de reis haver muitas que se julgariam aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se d a fidalga distinco de igualar-se plebe, reservando para si a superioridade de agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posioens humildes, no se lembra que neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra aspera, negativa da virtude, sa rispidamente aos ouvidos da moral christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me no dissesse que ella exprime innocentemente o conceito que de mim frmo, pediria a V. Ex. que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condio excentrica e singular, se quizer, mas defeito de corao seria injustia attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaoens do orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambio, mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se peccaminosa, as lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas impurezas. Esta ambio um desvario de enfermo que se estorce no ardor da febre; mas peor ainda;... que as minhas agonias no devem revelar-se, so profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou ssinha n'este mundo; e to desgraada que no acharia allivio algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho--concluiu D. Maria Jos, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo. E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplao d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, no proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta, com a brandura do tom: --Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que lh'a diga? --Outra virtude? --Outro defeito... Sou soberba. --Soberba!... --Sim, disto que v: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para sustentar a minha soberba. E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao corao. N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feio de marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das portas de Santo Anto. Raul, com olhos turvos e voz tremente, apertou a mo de D. Maria Jos de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as no ouvisse: --Eu no a mereo... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem alma, pde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex. um sentimento suave. E sahiu. Jos Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu no duvidamos assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que do quilate superior a quem faz praa d'elles com a invulneravel petulancia da riqueza. Julguei-o mal primeira vez que o vi galhardear-se com tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Alm de que, na altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu, illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me trazem desconfiado, conjecturei que Raul ho tinha dotes que podessem inliar o affecto da filha de D. Miguel, a no ser a sua pessoa tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns presumptivos mil e tantos contos. Este rapaz escolhra o peor expediente para se fazer acceitar na estima dos seus conhecidos em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia inculcava proposito de ostentao; e, no contente da vangloria de ser rico, desvanecia-se em exceder nas graas de espirito os seus contubernaes. A reputao de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de parasitas; e o accrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada, era imaginarem-se disfructadores do parvena. Pde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes que presidiu s suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer inflammado pelo ardor natural da sua compleio, quer exagitado pela perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate foroso deviam trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito convencionalmente se d a mascara de disfructe. No sei at que ponto o sensato idolatra da luveira havia direito fatuidade de afortunado em jerarchias somenos da filha de um Bragana, mas tanto ou quanto aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos apregoavam-no petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas, com aquelle fino faro de que so prendadas as damas menos candidas, por tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo de _rou_, vinham a ser o mais desgraadamente exactas que possivel;--desgraadamente, digo, porque eu desejo que no seio das familias, que respeito, no sejam smente conhecidas as tres virtudes theologaes. Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de glo sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, no sei, nem o diria quando o soubesse; que este livro no obituario. Contra quem me levanto, contra mim proprio, porque, primeira intuio, o aquilatei no vulgar dos rapazes ricos, libertinos, e cansados. No fundamento esta retratao e protesto unicamente na sensibilidade, polidez, e atilado accento de suas palavras luveira, por tanta maneira louvaveis que, sendo apaixonadas, no desatremam da prudencia, e podem ser dadas como exemplar de colloquios do pao dos nossos reis e senhores. O meu protesto cimenta em bases que no podem dar de si. o estylo. Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,--quem ama com todas as partes da orao em concordancia irreprehensivel, poder, por inveja ou injustia grave, no ser mencionado nos _Logares selectos_; mas tolo que no pode ser. Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e to desusada reverencia, hoje em dia argumento contra a sanidade intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso outra questo que ha de ventilar-se opportunamente. IX DAMIO RAVASCO A pelle feia; mas o sangue que gira dentro estimavel. EURIPEDES, O Cyclope, acto IV. A gravidade fria e desanimadora de D. Maria Jos de Portugal no vingou despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembarao, depois que to resolutamente se manifestra, tornou quella timidez de collegial, vencida no impeto da paixo. s vezes, o abatido moo sahia confuso e como corrido de sua tibieza, pedindo aos proprios brios que o salvassem de to ridicula, seno indecorosa pusillanimidade. Desconfiado, porm, da inefficacia do seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava a s comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle entrar a sacratissima memoria de sua me; imagem que raramente lhe passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no corao bons sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de dissabores, tedios e remorsos. Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, no lhe antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a, dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre alis frequente, quando as mulheres queridas no tem comsigo a predestinao da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do talento e do espirito, sem fazer meno do mais feiticeiro filtro que ha ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivana da que adorada, um no-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um tempo vos alanceia corao e amor-proprio. As conversaoens de Raul e D. Maria versavam, s vezes, sobre occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei absoluto. D. Maria Jos, sem ousar arguir as imprudencias do pae, lamentava que os seus conselheiros no fossem mais esclarecidos do que elle, cuja educao apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idas do seu seculo. Discorrendo varonilmente cerca da historia das luctas entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que precederam a revoluo de 1820, e justificou as resultas de que seu pae devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgresso do juramento feito. Baldaque saboreava-se no do tom preleccionador da dama, que no o tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do brazileiro. O leitor, que esvoaa em regioens diaphanas onde se no condensam vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. Joo VI no estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do historiographo snr. Moreira de S, ou qualquer Niebuhr da sua estfa. Quero at persuadir-me que o leitor anemico, e avsso a iguarias condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos asss metricos que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista da Ponte dos Suspiros, a balouar-se cheia de... replhos. Dou-lhe razo. O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras, se algum peito succubo d'elle podesse acceitar lioens de historia como flechas do seu carcaz. A ignorancia, mais ou menos absoluta, uma das clausulas que nos impe nossa servido o filho da deusa viciosa, cuja illustrao no poderia medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se foroso mitifical-a--ou outra capacidade menos provada. No adro dos templos do frcheiro no demandemos philosophos eructando azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da justia. O que l se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em desbragada alegria. Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico o comtemplativo; o macabro o que salta e se estorce nas vascas voluptuosas do deleite; o epileptico o que escabuja debaixo da garra da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros porque a mais analphabeta: o amor de mercearia, o amor sebaceo e rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no corao de nossas avs. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Est sentado na travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula conjugal, emquanto elle encarapua o marido no barrete de dormir. No temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto. Deixemo-nos de crystallisaoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias-- o que ha. Mais nada. Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa f absorto a escutar o snr. Joo Felix Pereira, quando arenga cerca de Herodoto. Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D. Maria Jos um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul: --Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde... --Que , Damio?!--interrompeu Raul--que tem meu pae?... --Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braos para casa... chamou-se o medico; mas j no respirava... O moo, apertando a mo de D. Maria Jos, que balbuciava algumas palavras compassivas, sahiu acceleradamente. Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, no responderam interrogao de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a mo e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais espanto do que dr. O filho ajoelhou beira do leito e beijou a mo do cadaver; depois, encostando a face ao hombro do pae, soluou palavras inintelligiveis. Do outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto: era o mulato Damio. Digamos d'este homem que se nos revela sympathicamente em frente d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braos. Damio Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestio. Feioens levemente denunciativas da origem indiana de sua me. Olhos fulgurantes. Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raas europas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do espirito sobre a riqueza do sangue. Damio Ravasco orava pelos trinta e dous annos. J sua me havia nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde. Ninguem lhe attribuia filiao d'este ou d'aquelle. As escravas eram muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traos physionomicos de Damio, realavam parecenas com o pae de Raul; e, no particular affecto com que o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que fosse indicativo de virtude no vulgar nos progenitores dos filhos das escravas. Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando o mandou escla, trajando-o com decencia incompetente a um servo. Aggravaram-se, porm, as desconfianas, quando, prompto em primeiras lettras, o rapaz seguiu estudos superiores. Poucos annos antes, havia casado o negociante com a me de Raul, a qual, ciosa da considerao que o esposo liberalisava ao filho da escrava, disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato, se elle pendesse a engrandecer-se por lettras. Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damio a seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e respondeu humilde, mas com firmeza, que no queria ser doutor, nem tinha queda para estudos. Esta confisso no era vaidade mal rebuada em modestia. Em Damio Ravasco, ao passo que a esforada musculatura se alargava com proporoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos no ousavam motejar-lhe a rudza, desde que elle, em polemicas grammaticaes, abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria, respondia com sccos ou marradas aos argumentos dos adversarios: indignidade que ainda no vimos praticada em outra parte, seno no parlamento portuguez. Os professores haviam j prevenido o protector do mulato, quanto incapacidade rebelde do estudante; apesar disso, Baldaque desejou illustral-o, at ao momento em que Damio por claros termos se recusou. Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o rapaz, que ento contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque ninguem fugia sua estrella. Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que no era, o negociante offerecera alguns contos de reis a Damio Ravasco a fim de que se estabelecesse, consoante sua vontade e vocao. O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluos que no queria deixar o padrinho; e, abraado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em lagrimas, pedisse ao pae e me que o no mandassem embora. A esposa do submisso negociante no condescendera. Os rasteiros instinctos de Damio, preferindo a cocheira universidade, e a sella s cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque, posto que no se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto, deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa augmentara aos seus haveres. No era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profisso de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava recursos para negociar, se no quizesse outra carreira. Damio Ravasco, soffreando esforadamente a sua mania, cuidou que poderia conformar-se, e j parecia vencido das indirectas instancias do padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e parelha do ministro francez, concorreu ao leilo, licitou por no poder conter-se, e arrematou o trem, obedecendo espora do instincto que o no deixou reflectir na desobediencia. Dado tal passo, Damio foi despedir-se do padrinho que o recebeu de mo rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaoens. O moo, porm, possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinao, no o deshonrando a elle no podia deshonrar ninguem. A pessoa de quem Damio Ravasco se despediu com muitas lagrimas era o menino Raul. A creana pagava amorosamente os afagos do mulato, defendendo-o como podia, quando a me o tratava com desaffecto, e fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada senhora o appellidava affrontosamente o _negro_. Comeou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixo da almofada e do pingalim no lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos cavallos e o brilhante verniz das equipagens. A propenso do mulato no era das que menos se prestam a irritar as sanhas das indoles brigosas. A pararia com homens de Cavalharia, de natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando no era a navalha que empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem sempre respeitada pelo valento, quiz prendl-o em cumprimento d'uma pronuncia por crime de tentativa de morte nas pessoas de dous negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasio que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco, sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell. Homisiou-se Damio em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo. Este caso amolleceu a dura condio da me do menino, cujo prazer de assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o filho da escrava no sangrasse a ferro as iras dos offendidos. Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, at condescendencia de permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado, legalisando as navalhadas como justa defesa. Damio Ravasco regressou absolvido, mas no emendado, ao Rio de Janeiro. A impunidade alargara-lhe o flego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua paixo dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar a mo na cara dos que se lhe arrostavam, vr-se-hia sua beira Raul a quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro era o dia em que Ravasco no tivesse de explicar policia a razo por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos tapados por contusoens, recorriam justia pouco menos cega que elles. N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista. O viuvo apressou a liquidao dos seus grandes bens de fortuna, com o proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida. No queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanas de remanosa tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho que no houve recusar-lhe a companhia do amigo. O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo. Damio mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das parelhas e carroagens. A paixo recrudecera-lhe a termos de no querer outra posio em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como no tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e almofaar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez esbofeteava os criados gallegos da cavallaria para exercitar a pujana dos tendoens _in anima vili_. Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos maiores perigos com Damio ao lado. Confidencias amorosas, particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos com damas de primeira plana, tudo revelava a Damio Ravasco. O mulato ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as mas dos visinhos. No lhe era portanto mysterioso o amor de Raul luveira. E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que to mudado lhe traziam o pensativo menino, o saberemos logo. Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da escrava chorava, beijando a mo fria do homem a quem nunca ousra chamar pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que Raul era seu irmo. X FRUCTA DO BRAZIL _Murro_, s. m. pancada com a mo fechada. _Soco._ ROQUETE, Dicc. da Lingua Port. Aqui desapparece o romantico nome de Raul. Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de actualidade, como j se no diz. Amores de luveira... No isto exactamente. A luveira no o amava. Era para elle em rigor o que lhe disse que era. Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado orgulho houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou--mais execravel ainda--tres milhoens! O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espao de quinze dias. Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaoens que ninguem sabia dar-lhe, o moo desafogava em cartas enviadas a D. Maria Jos, nas quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa. D. Maria Jos de Portugal respondia compassivamente s cartas, adoando-lhe a dr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem ella havia perdido sua me, e gemra na dupla orphandade de mulher e mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E, tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem veria nas cartas d'ella o esforo da mulher que se disfara, ou procura colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos sentimentos. O conde no escondia o seu despeito de Damio Ravasco. Lia-lhe as cartas que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato, pouco dado a interpretaoens de phrases que se afiguravam reconditas vaidade do conde, sahia-se s vezes com umas reflexoens alheias do bom senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo. Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar ou endoudecer, Damio, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor: --Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras que se quer. Seja homem, e attenda l ao que lhe vou dizer. Se o menino quer morrer ou perder o siso, no quero eu. A mulher ha de ser sua tanto me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira ella, isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de camura. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de V. Ex. morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que bem; se no pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era eu. --Que fazias tu, Damio?--perguntou entre grave e risonho o conde. --Que fazia? --Sim... --Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma parvoice, no se enfade, que perde o tempo. Um homem um homem, parta d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um homem no uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem desembarao... mulher. L que a gente morre, quando no se desengana a puxar por si, no tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria s malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A prudencia boa nas terras onde no ha marotos... --Mas a que vem tudo isso, Damio? Bem se v que o frade no conseguiu ensinar-te logica!... Ento que queres tu que eu faa? Damio Ravasco soltou uns froixos de riso scco, esfregou as mos, deu duas palmadas nas pernas, e respondeu: --Se o menino me dissesse: Damio, eu quero aquella mulher, custe o que custar--a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do inferno! Diga-me c, snr. conde: como foi que se arranjou no Rio aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino contou-me que ella no o queria, e o maltratra diante de outros... --Cala-te, que me ests irritando!--atalhou o conde.--No admitto comparaoens entre a franceza e D. Maria! --Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz d'esta--observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um pratico do corao humano.--Eu fui dar com V. Ex., na chacara de Petropolis, triste, pensativo, a fallar s, a dar uns ais que parecia rebentar de paixo d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabea, se a no pudesse tirar ao francez. Foi assim, ou no foi? --No me atormentes!--insistiu o conde, corrido talvez de confrontao que o mulato equiparava entre as duas situaoens analogas. --Mas...--tornou Ravasco. --J te disse que me no afflijas... Queres dizer-me que fazes filha d'um principe o que fizeste franceza?... --Sim... eu... acho que... --Achas que D. Maria pde ser levada n'uma sege traio, e calar-se depois mediante alguns centos de libras como a outra?... Damio sacudiu os hombros feio de quem cynicamente presume que a distancia divisoria entre duas mulheres no tamanha como os poetas a medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando: --Instinctos de cocheiro... a final! O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo de colera se denunciou na mudana d'aquelle aspecto. O amor de Damio ao filho de seu padrinho era tolerante e impassivel at covardia. Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mes beijam os filhinhos que as esbofeteam. No obstante, logo que o espanto e a dr cederam reaco da dignidade, o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoo: --O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me cavalharia de V. Ex., e sahirei de l para outra, quando souber que o snr. conde encontrou feitor que me substitua. O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante. Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita filha dos Braganas podia menos no amor do moo que a inveterada gratido aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinio publica do Rio de Janeiro, quanto filiao do filho da escrava, no era estranha ao conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era no ter podido elevar Damio decente independencia que projectra. Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias suspeitas, o conde no podia esquivar-se conjectura de que o mulato era seu irmo; e tal desconfiana, penetrante como um sobresalto de subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas de Damio, rebeldes vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato e pedir perdo para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em servio das paixoens frequentes de seu amo, no distinguia entre a concubina d'um chanceller e a filha de um rei. Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde, quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braos, estreitou-o ao peito, e disse: --No finjas que me deixas, Damio, porque tu no deves nem podes deixar-me... E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava palavras convulsas, em quanto o conde proseguia: --No se deixa um rapaz de quem se amigo, desde o bero, e a quem se deu proteco quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou s no mundo, Damio. No tenho ninguem que me estime, seno tu. Dos affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu s. Se me faltares, accuso-te de mo e ingrato, e hei de convencer-me que no ha para ti amisade duradoura seno... a dos trens--concluiu jovialmente o conde, j quando o mulato o levantra nos braos como quem afaga no colo uma creana para desamul-a com meiguices. D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu fatal amor mulher que lhe no dava mais estimao s qualidades pessoaes do que riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se lhe elle offerecesse a mo de esposa. --O menino j lh'o disse?!--interrogou Damio. --No. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta. --Snr. conde--volveu o sceptico--olhe que ha mulheres finorias!... Olho vivo, menino! --Damio!--accudiu desabrido o conde em desforo de D. Maria.--Sinto que o teu espirito no saiba respeitar devidamente a mulher que eu escolheria para minha esposa! --Respeito, sim, senhor. Isto um modo de fallar. Mas no creio que haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que moo, bem parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o no quizer, tem outro homem, ou douda. Eu, no seu logar, tratava de averiguar se essa creatura o que parece, e regula bem da cabea. --Damio!... s incorrigivel!--bradou o conde. --Palavra de honra, que no sei fallar com o menino! Sabe V. Ex. que mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o enganem; eu c por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como sei. Se a senhora fidalga boa, no perde nada com a minha opinio; se no boa, peor para ella. O que eu quero que V. Ex. no soffra, nem seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella o ama, case com ella; se o no ama, de que lhe serve padecer? Eu c no queria mulher que me quizesse por compaixo. Apezar da nimia tolerancia com que o escutava, o conde pretextou qualquer motivo para cortar a conversao. N'esse mesmo dia, Damio Ravasco foi loja da luveira, com o disfarce de quem passava, e perguntou a D. Maria Jos se queria alguma cousa para o snr. conde. --Elle est bom?--perguntou ella. --No, minha senhora. --No! que tem? est doente? --Da alma. --Saudades do pae? --Tudo se ajunta. Saudades... e paixo.... --Paixo? sim... paixo pelo pae... --Paixo por V. Ex. D. Maria crou. No era bem o pejo de tal revelao feita por pessoa de esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que no commum de todas as senhoras fibrinosas. um filamento adelgaado pelo esmeril do tempo atravz das raas; cousa que vem das castellans do cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que no tem vibrao nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de requerer a mo da luveira para o conde. que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas pessoas, entraram loja, e com ademanes farolas, pediram collarinhos de bretanha. Expoz no balco a luveira as boctas dos colleirinhos. Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar, galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta: --Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem to matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a amam... Eram negros cr da noite Uns olhos negros que eu vi... O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de alda vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra. O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso linguagem do amigo um tanto ranosa das galanices do Clarimundo, fallou d'esta arte: --Esta menina, aqui onde a vs, tem, segundo consta, sangue real nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo. --E eu dois--ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgao--(de Melgao que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos--continuou mais requebrado--limito as minhas ambioens a pedir-lhe que me tome medida do pescoo afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mos, mos de princeza... D. Maria Jos, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, no ergura do balco os olhos carregados de lagrimas. _Mal-fadados_ lhes chamei; porque Damio Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e cuspia a pedaos um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braos, parecia dar-lhes alr para uma pega mortal. E os dois faceiras decerto no attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significao funesta quelles tregeitos, se os vissem. O deputado, entretanto, como a luveira no respondesse ao pedido, alis honesto, de lhe medir o pescoo, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice: --Ento o meu anjo no se humanisa at humanidade de me tomar a medida do pescoo? --Meo-lh'o eu--disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito. E, proferido o servial offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mo direita na garganta, sacudiu-o de encontro hombreira da porta, e d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoada com um sonoro ponta-p, tombou-o rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignao, e disse-lhe: --Voss tambem ha de ter o beijo que pediu. E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos mo tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo. Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damio Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenos, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sos e escorreitos. Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia furia, idealisra o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens, porque pensava que elles, repostos na posio vertical, o atacariam faanhosamente. N'este emtanto, D. Maria no dava signaes de susto, nem d'aquelle nervoso palpitar que vai to senhorilmente s compleioens feminis, quando um homem esmurraa dois na sua presena. Longe d'isso. A desaffronta dilatara-lhe o corao que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixo da vingana. O sangue de princeza, orgulhosa de raa, refluira ao corao da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. No podia nem queria fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a commoo do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damio: --Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha causa, no se arrependa de defender a mulher que s tem tido a sua dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos... Avisinhou-se ento o estrupido de uma carruagem. Damio conhecia o trotar cadenciado dos seus normandos. -- o patro...--disse elle, correndo rua. E abriu a portinhola da carruagem. --Estavas c?--perguntou o conde.--Que faz aqui este povo? Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na rua. --Que faz aqui esta gente?--instou o conde ao mulato que se occupava distrahidamente em alargar umas fivlas dos arreios. --Fui eu que sacudi o p a dous pirangas que... --Tornas ao fadario antigo?... Que te fizeram?--volveu o conde mal assombrado. --A mim? nada... --Ento a quem? --Estavam a rinchar pachuchadas e chalaas senhora alli da loja como quem derria por uma mulherinha de pouco mais ou menos. Figurou-se-me que o snr. conde, se c estivesse, faria o mesmo que eu fiz... Os cavallos esto endiabrados com a mosca! Olha a rdea falsa, rapaz! Vai ahi at ao Rocio, e desanda. Toca!... No me deixes escarvar o gado que se escabreia... Olha o cavallo da mo... no no vs a arrifar? --Espera!--disse o conde ao sota.--Eu volto a p... Damio, salta para a almofada, mette os cavallos cocheira, e espera-me em casa. O mulato obedeceu constrangido. Vaticinava-lhe o corao que ausentar-se era perder lano de desemperrar as articulaoens dos pulsos. D. Maria de Portugal referiu o successo, colorindo-o nos promenores improprios da sua narrativa; mas entremostrando, nas hesitaoens delicadas, que os offensores haviam merecido o castigo recebido. N'esta conjectura, abeirou-se da porta um dos curiosos, que mantinham na rua o auditorio espera da explicao da desordem, e disse para dentro que os dois janotas socados pelo mulato vinham do lado da Praa da Figueira com tres municipaes. --Snr. conde!--disse D. Maria assustada--rogo-lhe que se retire... --No me pea V. Ex. sacrificios em que a minha dignidade seja violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de certo, no sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo Damio; e prezo-o mais do que costume prezar as pessoas que se invejam. Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e os dois respeitadores da interveno judicial defrontavam com a loja. O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas ceas amostardadas por danarinas, mulheres que dissolviam o corao em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem americano nas maans pizadas da sua cara. Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou: -- conde, ahi dentro est um preto? --No. --O scelerado fugiu! disse o deputado. --No fugiu--emendou o conde.--De quem havia de fugir elle? De VV. Exc.as? Dos soldados de certo no; porque seria injuriar dois cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo tempo por um s homem, iam invocar a proteco de trez municipaes! --Que ar esse teu?--perguntou o lisboeta, estranhando o tom insolentemente ceremonioso do conde.--Que tens tu com o assassino que nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de tal casta? --Vejo que a proteco da fora armada--replicou rindo o conde--lhe permitte lingua a actividade que lhe falta nos braos!... O homem que lhe bateu, no fugiu. --Ento onde est? --Quer esclarecimentos para instaurar querella contra elle? Eu lh'os dou. Chama-se Damio Ravasco, e vive na casa de Raul Baldaque, s Janellas Verdes... Procure-o l. --Ah! ento o preto da sua familia brazileira?--atalhou o lisboeta casquinando.--Eu no sabia que a sua nobilissima raa era bicolor! E ns a cuidarmos que o assassino era um bolieiro!--proseguiu o esmurraado, tregeitando jogralmente para o legislador melancolico. -- camaradas!--disse o conde aos municipaes--a nao portugueza paga-lhes para guardarem as costas a covardes d'esta ral? O que parecia mais auctorisado entre os soldados, voltando-se aos dois queixosos, disse que elle e seus camaradas no tinham que fazer alli, visto que o homem que os espancra j l no estava. E, como, depois se retirassem, os queixosos seguiram o exercito. E logo a gentalha, o jury permanente das ruas, usando aquella sarcastica philosophia que lhe d a independencia dos farrapos, apupou os janotas, socados por um mulato de jaleca. --L vo a mastigar fructa do Brazil! dizia um caiador preto, floreando o pincel com ademanes de vaidoso patriotismo. XI SOLEMNIA VERBA Allons, de l'goisme, de l'esprit, et de l'impudence, e tu seras bientt dans les grandeurs. BALZAC. Elle rugiu de indignao, e metteu na algibeira um rewolver de seis tiros, quando soube que D. Maria Jos de Portugal tinha sido ultrajada. Elle quem? Victor Hugo Jos Alves--pois quem havia de ser? D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damio Ravasco, nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posio. N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel necessidade, e do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor Hugo. O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama. --Acabo de saber--disse elle, com intercadencias de asphyxia--que dois biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex., baixando plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, no podia ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaoens santas que se no permittem s mulheres formosas. prohibido aos anjos avoejarem por este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr. D. Maria Jos. Contava com isto. Sei o que esta sociedade. Esperava que a sua innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que est sempre emborcado aos labios puros. Mas... no venho arguil-a... Venho saber os nomes dos bigorrilhas que a offenderam! --No conheo as pessoas que me offenderam, snr. Victor--respondeu D. Maria Jos, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da censura. --Mas aqui--volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapo e chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc--aqui estava alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!... --Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem so: eu no sei. --N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque. Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuao ironica, deixando vr nos dentes caninos o azedume e a podrido. --Procural-o...--acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da braveza--Procural-o!... --Sim..., minha senhora. --Para qu? --Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex., se que o snr. conde no reserva para si a honra de a desaggravar. --O favor do desaggravo j o recebi de um criado do conde; entretanto, agradeo ao snr. Victor a resoluo com que veio aqui. --Mas eu, minha senhora!--replicou o filho de Rozenda, enroscando a badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mo--eu lamento profundamente que V. Ex. fosse desaggravada por um criado de quem quer que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social, recusariam to ordinario paladim; salvo se o conde de Baldaque pode armar cavalleiros os seus criados. D. Maria Jos encarou soberanamente no poeta, e disse: --A final, que ares so esses que se est dando, snr. Victor? Depois das zombarias dos homens que no conheo, vem V. S. com os seus motejos? Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos no me ferem tanto como as ironias das pessoas que me conhecem. --Eu no a motejo, snr. D. Maria--acudiu Victor Hugo, compondo a cara de visagens melodramaticas.--Queixo-me, deploro-me, appllo do seu orgulho para o seu corao. Uns peitos recalcados do lagrimas; outros do sangue; e os mais infelizes so os que no podem desafogar chorando, nem succumbem ao gume da ingratido que os sangra e retalha... Os mais dignos de lastima so os que a si mesmos se despedaam com os gryphos do escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um principe no ousa o vrme, o plebeu, a fronte onde a mo de Deus pode ser que esculpisse a palavra GENIO... (Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra genio, no fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevl-a em lettras maiusculas, a no ser o tom, a pancada com que elle a proferiu, batendo na testa). --GENIO,--repetiu elle--s genio; cora de conde, no: as coras no as d Deus; compram-se c. Vinte negros, vendidos depois de azorragados, do uma cora de conde, snr. D. Maria Jos de Portugal. O sangue de vinte negros n'um prato da balana; e no outro prato a cora de conde. Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do reino, os senhores do novo feudo, os castellos dos armazens de molhados, os ricos-homens que conquistaram pendo e caldeira nas arrancadas de Africa, nas costas de Guin, pelos sertoens dentro, montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos aougues, e se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques, d'estes... D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relanou-lhe um olhar de frecha, e disse: --Est-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de no insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza, e de quem V. S. no tem razo de se queixar. --Estou-a incommodando!--replicou elle com espanto.--Onde foi V. Ex. escavar palavra to aviltante, to despresadora!?... Diga-me antes que a injurio. _Incommodar!_ Isso diz-se a um mendigo importuno, a um miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas! _Incommodar!_ V. Ex. perdeu a magnanimidade com que tratava os humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devra incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex., e no me incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos correligionarios que deixei por amor de V. Ex., e no me incommodaram! Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando me falla, e no me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex. no incommodam, dilaceram; no so fastidiosas como a impertinencia; so percucientes como a ponta hervada d'um punhal!... --Tanta palavra, meu Deus!--exclamou D. Maria Jos, rebuando a ironia no tregeito da admirao.--Todo esse excesso de sentimentalismo seria bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que no... A amisade no explica o zelo de V. S. nem me fora a respeitar a censura que me faz. Se me avala injustamente, sinto; mas no sei que lhe faa... --Quer dizer--sobreveio o poeta--que ama o conde de Baldaque? --No, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade. --E nega que ama o filho do negreiro? --Quem o negreiro? --O negreiro era o pae do _rou_, cujo escravo despicou V. Ex.. Vai bem filha do snr. D. Miguel de Bragana deixar-se requestar de um homem a quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria Jos de Portugal, no responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex. fez d'este balco uma especie de altar baixo, ao rz da rua, bem baixo, para que algum ignobil transeunte pudesse levantar at aqui o brao humilde e depr o vto. S assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se com V. Ex.. Emfim, comeo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu retiro-me... Saiba, porm, que a amo, snr. D. Maria Jos... Note bem... que a amo! E os homens da minha tempera, quando so indignamente menoscabados, morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza! Note bem isto! palavras solemnes!... E sahiu. Victor Hugo Jos Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas era homem--como j poucos havia, e no ha hoje nenhuns--capaz de desfechar valentes rhetoricas face de uma senhora. No lhe afeminavam os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o dre da paixo lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o sangue do dom abbade de Cistr misturado ao sangue do Alves da sla, caceteiro defunto; e, alm d'estes sangues, a arte, os dramas do snr. Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos. Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a me de D. Maria Jos de Portugal. D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que destino o filho tencionava dar ao folheto. --Nenhum,--disse elle, coando um riso feroz por entre as luras croozothicas de tres dentes incisivos. --V l, Victor!... No faas mal rapariga...--instou a me.--Se ella doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... L que ella filha de D. Miguel, isso to certo como tu seres meu filho... O que tu tens sei eu... ferro... soubeste que ella namora um conde... Isso j eu desconfiava... E ento que se lhe ha de fazer?... --Que pergunta!--replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador de Povolide.--Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta! me, me, que dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu filho seja acalcanhado por um villo, que se diz conde? _Conde!_ Ns, os legitimistas, no reconhecemos titulos outhorgados pelo governo usurpador. Baldaque o negreiro, o chatim, o plebeu refce. Maria Jos de Portugal, a luveira, filha de um rei. Ns, os que defendemos o prestigio dos nomes historicos, no consentimos que um bandalho, vestido de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal, se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o pae no throno... --Pois se sabes que ella teve o pae no throno--replicou a me sensata--que queres fazer ao folheto? --O que quero? Vr se posso convencer-me de que esta mulher no filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis de conde, percebe? --Mas, rapaz, se esse conde tem dois ou tres milhoens... --Ahi vem a senhora com as baixezas do costume!... o que eu lhe tenho dito muitas vezes... Est contaminada... --O qu?--interrompeu D. Rozenda funestando a cara com uma ruim visagem.--Estou contaminada?! --Sim, senhora! est contaminada da peste do dinheiro; est gafa da podrido dos costumes. Creio sinceramente que nasceu nobre; mas a convivencia com um homem de negocio abastardou-lhe o sangue... --Olha que esse homem era teu pae, Victor! V l como fallas do auctor dos teus dias; que eu no admitto atrevimentos, ouviste? J uma vez te puz as mos na cara, por me dizeres que bem se via que eu era fidalga por ser burra; agora, dizes que estou contaminada dos costumes, porque acho que a luveira no andaria mal, se se fizesse condessa... Ora queira Deus que as tuas faltas de respeito me no obriguem a quebrar-te a cara, percebes? Victor Hugo, voltando o dorso s ameaas maternas, ia retirar-se, quando ella, retendo-o pelas abas do fraque, exclamou: --J p'r'aqui, malcriado! Voc volta as costas a sua me! Olhe que o espatifo, ouviu? N'isto, acudiu aos brados da mulher de rija tempera a irm Euphemia, cuja brandura de alma se operara debaixo das emollientes meiguices e trechos litterarios do finado dramaturgo e d'outros homens sensiveis dados s lettras. As duas irmans altercaram largo tempo crca da materia sujeita. Rozenda opinava que o filho era um brjeiro. Euphemia desculpava-o, porque todos os poetas eram assim esquentados da ida:--these que ella poderia provar com o snr. conselheiro Viale, se o conhecesse to de perto e lareira como devem ser apalpados os poetas grandes. Assistiu Victor Hugo, impando de tedio, discusso das manas. Aquelle espirito, dilatado ao calorico das salas da crte, no cabia na rea burgueza onde outr'ora Elias e Antunes couberam com as suas almas fadadas para a pasta e para a mitra. O rival do conde pejava-se de ter estado no seio de Rozenda por espao de nove luas. Dizia-lhe a philosophia que o talento emancipao quando a tutela bruta, e que as mes de natural bronco, bem que sejam respeitaveis como machinas productoras, devera ser desviadas do caminho do genio, se lh'o atravessam com babozeiras e outras coisas chatas. Encabrestado por estas idas, Victor, ainda ento bastante adinheirado d'aquelles tres contos das inscripoens da luveira, sahiu da casa da me, e foi morar no Hotel de Bragana. XII EXPLOSO DE AMOR Deus, ecce Deus! VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46. Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na loja da luveira um ancio com tres senhoras pobremente vestidas de luto e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da fome. Descobriram-se o velho e as crianas. D. Maria Jos levantou-se e respondeu cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a desgraa corteja o valimento. O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o chapo em uma das mos e a outra no peito: --Est na presena de V. Ex. um brigadeiro que em Evora-monte entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu no tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da espada, e cahiria vingado da sorte, j que as balas do inimigo me pouparam para to longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres so minhas filhas, A me morreu esgotada de foras, porque teve fome quando creava a ultima menina, que no est aqui, porque tambem morreu ha seis mezes. Era j viuva: foi descanar na sepultura, e deixou-me quatro netos que so estas crianas. Somos oito pessoas de familia. As minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois annos em collegio; porm, aprendiam linguas, como cumpria que aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes e servios patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas meninas, voltando a casa, fallaram em francez me, que tinha sido educada no estrangeiro; e eu disse ento s innocentes mal entendidas na desgraa de seu pae: Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez. Ellas estremeceram e choraram, como se adivinhassem a fme e a nudez. D. Maria Jos, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem, atalhou o brigadeiro: --Deve ser muito penoso a V. S. contar-me a sua desgraa, e a mim ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S. que eu vou buscar algum dinheiro... --No, minha senhora--tornou o velho.-- certo que venho pedir a V. Ex. uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o po, a educao e o futuro destes meus netinhos... --Oh! se eu pudesse...--atalhou D. Maria--V. S. provavelmente est enganado com os meus recursos... --Eu no me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V. Ex,. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei succinto quanto possa, at para me no parecer com todos os desgraados que so geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas abundantes. Este caritativo senhor no legitimista; no sei o que politicamente: sei que bom; dos que professam a divina legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque... D. Maria Jos corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo simultaneamente. O ancio proseguiu: --Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mo do snr. conde, que me no conhece, nem recebe sua presena as pessoas que o buscam para lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vo pedir-lh'a. Eu j o procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a pedir minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas. Delicado corao! Como possivel haver no peito de um rapaz afortunado, que nunca soffreu, esta sciencia da desgraa, este respeito ao pjo com que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanas, se dobra a beijar a mo que lhe reparte o po de cada dia pela sua familia! Diga-me V. Ex. minha senhora, como to cedo se formou na alma do snr. conde de Baldaque a virtude que costume retemperar-se na fragua das dores!... Teria elle, em annos to verdes, experimentado desenganos, perdas de nobres affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e influem a precoce piedade dos ancios como eu, e das familias angustiadas como esta minha? --No posso responder-lhe...--disse a luveira--conheo o snr. conde ha pouco mais de um anno... No sei de alguma dr grande na sua vida, seno da morte do pae... --Um cavalheiro que o conhecia no me disse mais do que V. Ex.--continuou o velho.--A este cavalheiro, que priva muito com os meus correligionarios e se chama Victor Hugo Jos Alves, perguntei se as relaoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor Hugo que no; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a snr. D. Maria Jos de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informao seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de V. Ex., disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel, no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e uma d'ellas, se bem se lembra, ainda deu lioens de francez a V. Ex.... -- aquella!--exclamou com alvoroo D. Maria Jos, saindo fra do balco para abraal-a.-- a snr. D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu rosto uma pessoa conhecida... -- esta velha que aqui v de cabellos todos brancos aos trinta e cinco annos... disse Ernestina. E D. Maria, com mais familiar sorriso: --Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de mais a mais pobres...--E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita, e esperou que as oito pessoas entrassem. Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que lhe desse a satisfao de ser util sua familia. --Eu no sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos... N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou vidraa, e disse serenamente ao brigadeiro: -- o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S. tem excellente occasio de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente o que pretende. Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietao como de medo. Mil e duzentos contos representados por um homem coisa capaz de assustar um ministerio, quanto mais uma familia pobre! O conde ficou maravilhado quando D. Maria Jos, descendo at ao ultimo degrau da escada, lhe pediu que subisse salinha. Era o primeiro convite que recebia. Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que lhe tomra a mo, e a levra aos labios. --Eu no conheo...--tartamudeou o conde no maior enleio. --Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovo de Pina Tavares, a quem V. Ex. ha seis mezes d o po d'esta numerosa familia que aqui est. --Mas...--balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria Jos.--V. Ex. no me disse que conhecia esta familia... --No conhecia--respondeu a luveira--; mas reconheci agora esta senhora que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex. me honrava com a sua amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde, procurou-me, e agora mesmo comeava a expor a sua preteno. Estava dizendo o snr. brigadeiro que no sabia que destino havia de dar quelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares... O ancio, tomado de sobresalto, acanhou-se na presena do millionario. O pejo e a dignidade empciam-lhe a eloquencia da palavra, realando-lhe a do silencio. O conde olhou na face das creanas uma por uma, chamou-as para si, e disse brandamente:-- necessario fazermos homens estes pequerruchos... Ento que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi todas as creanas querem ser generaes... --Seduzidos talvez pela fortuna militar do av...--interrompeu Tavares; e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.--O que eu muito desejo obter do valimento de V. Ex., mediante a proteco d'esta senhora que bondosamente nos recebeu, que os meus quatro netos sejam recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu j requeri ao actual governo, documentando o requerimento com os meus servios de soldado, desde 1801 at ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada, para estar hoje na alta posio onde subiram os meus camaradas desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus generaes e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora, se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o comeo da penuria, isso questo que no vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V. Ex. com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admisso de meus netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha que o meu requerimento nem sequer mereceu a considerao de ser indeferido. Fechadas as portas da justia, bati s da caridade. V. Ex., snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e... --Muito bem...--obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do velho.--Tenho entendido que V. S. deseja que os seus netos sejam recebidos em algum estabelecimento de educao... manhan, hora da tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa... O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mos, sorrindo para elle com a graa do infantil amor que vem do corao das creancinhas aos labios que ainda no sabem agradecer. Depois, ergueu-se; apertou francamente a mo do venerando veterano; cumprimentou-lhe as filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas; e despediu-se de D. Maria Jos, que o fitava com estranho e amoravel olhar. Ao entardecer do dia seguinte, Christovo Tavares entrou na loja da luveira impando de canasso e exultao. Contou que o snr. conde o mandra entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um sujeito, a quem dissera:--Aqui esto os seus alumnos. --Era o director d'um collegio de primeira ordem--ajuntou o velho.--O snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que choravam de contentamento. O generoso moo disse-me sahida que fosse todos os mezes ao escriptorio d'um cambista rua dos Retrozeiros, e que hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe agradeci... Os desgraados, minha senhora, quando de repente se acham a respirar uma atmosphera que no a sua, suffocam, ouram, e no se acham em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerrao!... Fui rua dos Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem mil reis! Eil-os aqui, snr. D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se eu me no affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade a V. Ex. que a devo... --A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu? --Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr. conde nos visse atravez do seu corao... Oh! eu creio que este milagre o fez a piedade abraada ao amor... Quem nos deu o po abundantissimo, o vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome diante, o futuro das creanas... quem foi seno a... futura condessa de Baldaque? Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegra convulsante da mo de D. Maria Jos e collra n'ella os labios tremulos. A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoo, um alvorecer de luz em cheio na alma, a revelao subita d'um amor, o primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiana profunda nas virtudes do homem amado. A revelao, em tom prophetico, feita por aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma com religiosa suavidade. O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas flores e a moral regosijar-se, como justo, de um caso de amor nascido em condioens to honestas. Eu, de mim, menos attreito que o leitor idealisao de coisas naturalmente explicaveis, penso que ella j o amava to devras e de dentro da consciencia, que, se o conde descoroado por desdens, se vingasse esquecendo-a, teria levado pela mo da saudade a filha do principe sepultura; mas s fragilidades das amorosas mais celebradas, no. Isto o que me parece; mas no afirmo que assim houvesse de acontecer. Sei historias de amores to bem comeadas como esta e acabadas nas enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo d'elles andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido. Elles l iro cair-te nas prezas, horrendo Minos! XIII DESASTRE DO GATUNO Vem agora aqui o casar. D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de Guia de Casados Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos feio dos ebrios, cercado de gente, que o escuta, mesa redonda do Hotel Bragana, Victor Hugo Jos Alves. O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe immolou as convicoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por amor d'ella apostatra do socialismo, renegra das crenas republicanas, furtra ao edificio do futuro as achgas do seu talento, e puzera o seu nome illustre debaixo das maldioens da posteridade. Alguns convivas riem de esgulha, em quanto outros lhe vo solicitamente reparando o destroo que elle faz no kumel, acinte pedido para afogar a hydra que lhe roe as fveras da alma. Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a herana ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o ministro fizera assignar ao rei a abdicao da sua moralidade. Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixra embair do ardil de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua me uma famosa aventureira que no poderia com exactido apontar o pae aos filhos que tivera. Disse mais... No disse mais nada, porque n'este comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros da mais caudal eloquencia. O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admirao objurgatoria do poeta era um velho barbaudo, de espessos bigodes brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovo de Pina Tavares. Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque, encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente conhecia. --Villo!--rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte annos--Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido, que comes no Hotel Bragana os tres contos de reis de... Tavares susteve-se, reprimido pela mo da caridade. O homem, que havia bebido o fel da injustia, receiou ultrapassar o direito do castigo. Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia tombal-o com o p. Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de Chistovo Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com fora pelo brao, e levou-o. Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espao, sem sequer averiguarem da injustia do insulto. Elle, porm, restaurado da pancada moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as sacudidelas da colera e dos gazes da indigesto: -- minha vingana!... minha vingana!... Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez ento! Quando, passados minutos, o criado lhe entrou ao quarto com os castiaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo: --Que queres? E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool. --Que queres?--tornou elle de murros apontados cara innocente do gallego. --Trago as luzes, snr. Victor Hugo...--tartamudeou o moo assombrado. --Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingana! O criado sahiu, e disse criada, que espreitava o poeta: --Safa-te, que elle est borracho!... Safemo-nos tambem ns: deixemol-o gizar a traa da vingana; no assistamos quella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe destillem em peonha escorrida da fornalha do cerebro ao corao. Mas quem disse a Christovo Tavares que o seu correligionario consumia em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripoens da condessa de Baldaque? No foi ella. Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia--bem se lembra o leitor--denegada n'outra occasio, fl-a espontaneamente depois que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava. Similhante revelao realou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada mais formoso, mais para se adorar que a pobreza to de vontade, o despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe no envira sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o corao; mas sem queixar-se. Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo de D. Maria as suas desconfianas. Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D. Maria Jos solicitra a familiaridade das filhas a quem communicava as delicias do seu amor. Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas, duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado por D. Maria Jos de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel de Bragana. O indagador levava instrucoens para no citar o nome do medianeiro, talvez com o proposito de lhe no ferir o pundonor, se elle houvesse honradamente cumprido o encargo. A commisso de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fra entregue de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde concorria Victor Hugo Jos Alves, se houvesse mencionado tal senhora como filha d'el-rei o snr. D. Miguel--filiao alis duvidosa para elles membros da commisso de soccorros. No dia immediato, Christovo Tavares entregava tres contos de reis aos encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria Jos de Portugal qualquer palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito. Antes de volvidas tres semanas, a commisso de soccorros enviava, por via do ex-brigadeiro, luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que to generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi Rolim de Portugal. O conde, disfarando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu ao mavioso espectaculo da ternura com que ella beijava a carta do pae. Dizia ento D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta: --Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor Hugo no mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada, receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!... E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade. Tavares, por sua parte, obedecia s ordens do conde, guardando, com superior esforo e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda assim, encontrava o ladro entre os homens de bem do partido absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos, resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava, como se levasse sobre a alma um enorme remorso--remorso de no avisar os seus correligionarios. Uma vez pediu com as mos erguidas ao conde que o deixasse expulsar d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu: --Isso de justia; mas deixe-me casar e sar de Portugal; depois, quando minha mulher estiver longe, far o que entender. No lhe roubemos feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D. Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andar to fallado por essa Lisboa que D. Maria ser das primeiras pessoas que o saibam. N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu quelle jantar, a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa correspondente ao ex-brigadeiro, a gratido e a honra cooperaram n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graas ao sentimento de commiserao que o reteve, os circumstantes no perceberam seno que Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis. No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunra a herana que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinio dos sugeitos contusos por Damio Ravasco. Outros, rejeitando a tradio mais corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza desde 1801--ou 1789, acrescentava o meu amigo Jos Parada para quem todos os infortunios eram cornucopias de chalaa. O conde, recolhido dce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou o successo; e, quando sau, no houve indiscreto que lh'o referisse. No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, no comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados da causa; nem sequer nos saros somnolentos, onde a ida velha passava as noites cabeceando acalentada nos braos do snr. padre Beiro e d'outros. Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio de ser interrogado crca dos tres contos de reis, sabido j o roubo pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso s casas principaes, e reputao de homem honesto. E mais depressa ainda se esclarece a converso d'este desgarrado bode ao seu rebanho antigo,-- seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com elementos combustiveis de tanta fora, que todos se vaporaram, deixando as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Pao, encrustadas nas pastas dos ministros que foram, que so, e ho de ser. Diziam os seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido bandeira que desertra por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fra to Samso na fora do verbo, to Hugo na energia das figuras, to republicano na medula dos seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a cavallaria desferrada do archanjo. justo que no se esquea, na correnteza d'estes casos, a familia d'esta pessoa. D. Rozenda Pica, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria Jos de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaoens com a sua hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco vulgar de uma cora de condessa com tres milhoens. Annunciou-se ao guarda-porto do palacio. Tangeu-se uma campainha. Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr. condessa no recebia. --Ento porque?!--perguntou D. Rozenda abespinhada. --Porque no quer... boa a pergunta!--respondeu o escudeiro com altivez. --No quer?!--redarguiu a me de Victor. --Ento a snr. luveira j no conhece as amigas velhas?... No?... Ella me conhecer!... E sau enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle para collaborarem na vingana. Em abono do benigno corao da condessa cumpre saber-se que ella receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir proferir o nome da me de Victor Hugo, no pedisse brandamente esposa que se abstivesse de receber tal senhora. Perguntou ella que razo havia para no a receber. O conde respondeu: --Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira vez, minha filha. Tu a sabers. Por em quanto, basta que eu te diga que esta mulher me de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar nas suas assemblas de taverna. Sabes de mais que eu no defendo minha casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos so todos pobres. Se essa senhora est necessitada, soccorre-a; mas no a recebas, porque me de um homem que est hoje escarnecendo os amigos de teu pae. A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou quinta religio politica, e mais nada. Observava ella porm: --O que a mim me admira, Raul, ter elle entregado os tres contos de reis! uma honra que no se entende bem a d'este homem!... XIV A VINGANA _Sunt qudam quoe honest non possum dicere._ Ha ahi coisas que eu no posso honestamente referir. CICERO, Seg. Philipica. Tenho vista o folheto que Rozenda Pica entregou ao filho, feito o pacto de vingana. Em 1840, desoito annos antes dos successos at aqui referidos, publicou-se em Lisboa, na _Typographia portuense_, estabelecida na rua da Palmeira n. 36, um opusculo de 23 paginas em 8., intitulado: _A villan fidalga. Ou aventuras e transformaoens da filha d'um moleiro conhecida em Lisboa pela alcunha de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, moradora actualmente na Travessa nova de S. Domingos n. 4, segundo andar_, etc. O signatario do opusculo, Luiz Caetano da Rocha, principia por uma _Breve exposio_ na qual relata que Marianna Joaquina o arguira de falsificador de um titulo de divida, em que a assignatura da querelante era imitada. O ministerio publico tambem querelara. Luiz Caetano, depois de oitenta dias de cadeia, foi ao tribunal para assistir ratificao da pronuncia. O advogado da accusao era Abel Maria Jordo, que morreu visconde de Paiva Mano; o da defeza era Antonio Jos Dique da Fonseca. Arcaram os dois athletas forenses com toda a pujana da sua notoria habilidade. Diziam os espectadores que o melhor causidico de D. Marianna era a sua formosura, bem que ella orasse ento pelos trinta e nove annos. O certo que a parcialidade do juiz e delegado eram por tanta maneira insidiosas que o patrono do ro foi chamado ordem, quando contava aos jurados a vida escandalosa da auctora. Quer, porm, o jury se deixasse vencer do soborno ou convencer da justia, certo que no ratificou a pronuncia e affirmou que era dolosa a querela. Vem depois o ro absolto imprensa com os documentos que o seu advogado no logrou ler no tribunal. Examinemol-os succintamente, bem longe de os acceitarmos com a importancia que o foliculario lhes dava quando escrevia: _talvez que ainda uma penna habil se sirva d'estes documentos para compor uma novella... a qual mostrar que no mundo muitas vezes o plebeu se atavia com as galas da nobreza, o vicio se encobre com a capa da virtude, e nem tudo o que parece_.[3] O primeiro documento um attestado onde se diz que Marianna Joaquina, filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeito em 1814 com Joo Lopes Giraldes. Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que j copiado da nota do tabellio de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214, folhas 103): _Saibam quantos este instrumento de declarao virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa, na rua da Magdalena n. 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, aonde eu tabellio vim, estando ahi presente Eusebio Joaquim da Silva, morador em Villa Fresca de Azeito, e por elle foi dito na minha presena e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher Marianna Joaquina da Conceio, uma menina para crear, a qual viveu em sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeito, reputada como sua filha at edade de treze annos para quatorze em que se casou, e que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que no sua filha, nem com ella tem parentesco algum, e que esta declarao promette, e se obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito acceita esta declarao na forma d'ella._ O terceiro documento um auto lavrado em 1838, na villa de Azeito, onde appareceu um Jos Antonio Atalaya, com procurao de pessoa que o documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa, sua filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o allegado na petio. Segue um documento denominado _Querela_. o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes no valor de 848$000 reis. Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra, passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceio Elisia, concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois, se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na rua da Emenda, onde tinha carruagem propria. Accresce outra attestao do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e Mello, datada em 1839. Jura elle _in verbo sacerdotis_ que, no anno de 1827, apparecra no cartrio da egreja de S. Nicolau uma mulher de capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes incognitos, e que trazia procurao do desembargador Ferraz para ser padrinho; mas, no acto de lanar o competente assento no livro, ella observra que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino, melhor seria no designar elle prior como padrinho o dito desembargador, mas sim o portador da procurao. Attesta mais o padre que, volvido algum tempo, appareceu no mesmo cartorio uma senhora ostentando grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara, e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo j referido. E declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o qual menino ali fra baptisado como filho de paes incognitos. Acontecendo, porm, ter proximamente fallecido o desembargador, ella pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do vigario geral, o desembargador Jos Gonalves Pereira, mandando proceder o prior s diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram to discordes nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no servio de D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara que na casa, d'onde sahira, havia um menino comprado para herdar d'um homem rico e fallecido. Temos agora outra attestao, que vae integralmente copiada: _Jos Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz, tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada. Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem egual, como notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga, sendo filha de um moleiro de Azeito, por nome Euzebio, a quem fugiu com um official de Marinha, vindo assistir para o p da Fundio; dizem que depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados Luiz da Motta Fo, o Barro, coronel de milicias, Antonio Sicard, tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julio, e um Rego, e a final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou ento a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente, apoderou-se de um bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao p do Pao de Bem Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcanando muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan; passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro no, quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza, pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisao; isto era para jogar com um pau de dous bicos. Finalmente heroina do seculo, como notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr. F... na qual diz que uma menina que tem em caza filha do tal F... declaro pela presente que ainda que ella fosse sua me propria, era impossivel saber se...[4] Mas constante por ella o dizer s suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a me ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838._ Agora so duas senhoras que vem quebrar a dureza do quadro com as mimosas feminilidades dos seus dizeres. A snr. D. Maria Leonor da Cunha Saldanha, solteira, diz em 1838 que conhecera D. Marianna de Portugal em 1831 e 1832, a cuja casa ia; e vendo ento uma menina de peito lhe perguntra de quem era. Primeiro, D. Marianna respondera que era filha d'uma mulher que a declarante via por l; e, passados mezes, dissera que aquella menina era sua filha e do snr. D. Miguel, intitulado rei n'aquelle tempo. A snr. D. Joanna Candida da Silva Monteiro, viuva, diz que conhecera entre 1817 e 1818 D. Marianna Elisia, criada de M.me Chapsal. Sabe que ella depois teve amisade com um padeiro, e depois com Luiz da Motta Fo, e depois com o desembargador Ferraz; e que uma menina que tem em casa, e conta hoje de seis para sete annos, por nome Maria Jos, lhe disse ella que era sua afilhada. Declara mais D. Joanna que conhecia a pessoa contra quem depe por ter sido ella depoente sua costureira, depois que, na ausencia de M.me Chapsal, a sua antiga criada, j n'outra posio, ficra senhora da casa. --------- Eis muito compendiada a substancia do opusculo que D. Rozenda entregou ao filho. Victor Hugo empeonhou a segunda edio do libello com prefacio e notas, para fazer bem sensivel que a filha de Marianna era a logrativa luveira da Rua Nova da Palma, feita por obra e graa dos seus olhos feiticeiros condessa de Baldaque. O folheto, impresso clandestinamente, espalhou-se pela posta interna. O conde e a esposa receberam exemplares em duplicado. Foi ella quem os recebeu e descintou, hora em que seu marido no estava em casa. Leu as primeiras paginas, e j pouco percebeu do affrontoso attestado do tenente coronel de cavallaria. O sangue, regorgitando-lhe do corao anciado, estuou-lhe no cerebro. Escurentou-se-lhe a vista, no por lagrimas, mas pela treva da congesto que lhe deu receios da morte. A attribulada senhora ainda chamou a brados a sua amiga Ernestina Tavares, lanou-se-lhe nos braos j esvahida, e balbuciou ainda: --Que Raul no veja... Alludia ao folheto que ali estava cahido no pavimento; mas Ernestina, sem attentar no folheto nem ponderar as inintelligiveis palavras, rompeu em altos clamores, mandando todos os criados procurar o conde. J elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damio Ravasco se o correio da posta interna havia trasido alguns papeis. --Trouxe dois folhetos;--disse o mulato--um para V. Ex. e outro para a senhora condessa. --Que desgraa!--murmurou o conde. que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde no chegava o papel sobrescriptado as palavras _Marianna_ e _Portugal_. Pediu licena para abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos a sua me. Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respirao da condessa. --Ella leu o folheto?--perguntou o conde. --No sei que folheto V. Ex. diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e achei-a n'este estado. Ainda me disse no sei que palavras que mal percebi... A este tempo, Damio Ravasco, esquecido do respeito usado com a ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do cho o impresso. O conde, que transportra nos braos a esposa para o quarto inferior, no reparou no mulato que ficara lendo o folheto. Quando, passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou Damio a lr. --Quem te chamou aqui?--perguntou com azedume. --Vim eu, snr. conde--respondeu serenamente o mulato.--Estava aqui a vr quem que fez isto... Ha de dar-me licena de levar este folheto... Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de seu pae, que no torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua me, e pela vida da snr. condessa lhe peo que me diga quem escreveu isto? --No sei, Damio...--respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia dos rogos do mulato--Ns o saberemos... Vae chamar medico... No te demores. O medico no tardou; mas Damio Ravasco s entrou noite alta. Dizia-se que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andra perguntando de typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha l sido impresso. Parava beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacra no Chiado em frente do deputado da sova memoranda, a vr se poderia, com mais ou menos justia, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecra dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima. E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os demonios do mo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite. Quando chegou a casa foi muito s surdas at porta dos aposentos do conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O conde sahiu saleta. --Como est a senhora?--perguntou Damio. --Est com febre. --No descobri nada--voltou o mulato. --No descobriste o qu? que procuravas tu? --O auctor do papel. --Prohibo-te que faas taes indagaoens. Eu o saberei; mas, se o souber, prohibo-te que me vingues. Se o infame no puder ser castigado por um homem de bem sl-o-ha por um lacaio; mas no por ti que s... meu irmo... Damio dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mos do conde. XV A PROLE DE D. AFFONSO VI Para vs verdes como coisa nenhuma encoberta. BERN. RIB., Menina e Moa, cap. XII Aquelle folheto, impresso em 1840, explica tres annos de angustias dilacerantes que levaram Marianna Rolem de Portugal ao extremo desafgo do suicidio, ao ver-se desvalida das pessoas que se pejavam de conviver com a mulher infamada, e de mais a mais empobrecida. Mas quem era Marianna Joaquina Franchiosi Rolem de Portugal? Que havemos de inferir dos attestados reimpressos por conta de Victor Hugo? a filha aventureira do moleiro de Azeito? Fugiu d'alli com um official da armada? a criada da franceza Chapsal? a infiel contubernal do padeiro Manoel Rodrigues? a supposta parturiente do menino Francisco, e a indigitada amante de D. Miguel? Donde lhe veem aquelles appellidos? Quem a levou a Joaquim Euzebio para que a creasse? Vamos derivar a resposta de to justa curiosidade desde 1661. Onde isto vae! A historia patria, que o leitor conhece impressa, no lhe refere que D. Affonso VI, volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas circumvisinhanas de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo brao de um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais, estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa de parentesco e remoo de outros impedimentos canonicos attinentes s fragilidades da sua cga paixo. Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo. Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes e por Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei. Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel Arrais era fallecido de dr. Antes, porm, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal. Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de alteza. Aqui se deteve com honras de infanta at ao anno de 1667, em que o pae j estava preso ordem do principe seu irmo. Mas um dia o corregedor da crte entrou fora no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna. Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a declarao de que sua alteza no a reconhecia como sobrinha; mas a protegia como desgraada victima da libertinagem de seu augusto irmo. Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa no o diz. Ha manuscriptos que nos elucidam; e um, que possuo com a maior estimao e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traa que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a embaraosa hypothese da fecundidade do filho de D. Joo IV. O manuscripto intitula-se: _Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684_.[5] Dava que pensar e receiar a crena publica de existir a filha do rei. O processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima deshonestidade, tropeava n'aquella menina. O procurador da rainha, duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo. Sobeja malvadez onde a imaginao coxa no enredo. O homem escreveu isto para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela ao sabor do tempo. Conta elle: Offerecia-se ao duque uma grande duvida do bom successo da causa (_o divorcio_); porque dizia que era impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor, chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com esta grande duvida, Deus, que a mesma verdade, foi servido de buscar os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza. Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mo de um criado seu, um escripto que ali tinha deixado um moo. Dizia elle: _Se V. Ex. quer saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex. corre, ache-se noite no seu coche, s, s escadas do Loreto, de sorte que espere n'aquelle logar o sino da meia noute._ E no se assignava o escriptor. Logo foi o duque Esperana,[6] e, mostrando o escripto rainha, lhe disse ella que de maneira nenhuma queria que fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque que havia de ir, e que deixasse sua magestade conta d'elle a segurana. Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da obra. Mandou o duque metter n'elle o capito de cavallos Manoel Travassos e o de couraas Manoel Caldeira, ambos de grande valor. Acompanhavam aos capites quatro creados do duque, todos valorosos e bem armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do logar onde estavam. Foi o duque quelle logar assignalado esperar a meia noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuada; e, perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que no; e ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no coche, e que fossem at Cotovia, que era parte mais solitaria. Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que estava em caza do conde de Castello Melhor no era filha d'el-rei, posto que tractada por tal. Perguntando-lhe o duque como o sabia, lhe contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma no ao mar; e que alli vira uma moa bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que, perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a sua, lhe respondeu que as ms cores do seu rosto eram effeito da sua dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mo d'el-rei. Foi D. Anna, que era destra, inquirindo a ma, at que esta lhe manifestou sua desgraa, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao pao, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em Coimbra, e ella fra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e fra obrigada a dizer, quando desse luz, que a creana era filha d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias at chegar el-rei a cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava resolvida a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a Agostinho Nunes e em presena de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellio de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu coche, mandou dizer prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua merc lh'a mandasse grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o duque que no vinha tirar-lhe a sua tena, antes conservar-lh'a; que elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o depuzesse em juizo, e que elle pediria licena rainha para tal deposio. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo corregedor da crte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe deu uma tena. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio at final concluso, etc. At aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanos verosimeis com outros de todo o ponto irracionaes. Que preciso tinha D. Anna Tavares de revelar o mysterio, a deshoras, nas escadas do Loreto? De quem se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a sandia credulidade de acceitar que D. Catharina, primeira vez que via D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de el-rei lhe cortar de mo propria as tranas, por que ella se recusava de o acceitar como pae da creana que havia de nascer? Claro que os personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram melhores algozes que romancistas. Todavia certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a vontade de quem lh'a pensionra, quiz que ella fosse religiosa. Estava, porm, um amor infantil comeado em casa do grande ministro de Affonso VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana, aparentado com os Castello-melhor. O moo, com quanto nobilissimo, olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle mais affoitamente podia requestal-a. Estreitaram-se as relaoens amorosas--tanto quanto os degenerados mosteiros do tempo as facilitavam--mantidas, ainda assim, no mais alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D. Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi desterro imposto pelo contrariado infante. Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de Guimaraens, de amores com uma dama da crte e de stirpe muito selecta, reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da crte da rainha D. Marianna de Austria, acolhida pela soberana por d da extrema pobreza em que a deixra o pae, homem de vida estragada. N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel, chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. Joo V fez capito de cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mr da sua terra.[7] Este Salvador Fagundes, movido pela formosura e prosapia da aafata da rainha, casou com D. Maria Izabel, segunda neta de D. Luiza de Portugal. Tiveram quatro filhos: um que succedeu na casa, dois que professaram em Santa Cruz de Coimbra, e uma senhora que se chamou D. Maria Escolastica Pulcheria Fagundes de Alencastre Portugal. Esta menina, que vivia na crte em casa de parentes, amou um official francez chamado Hilario Lescoeure Rolem, (_Rolin?_) com o qual fugiu para Azeito e mais uma filhinha nascida em Lisboa. Por Azeito viveram anno e meio clandestinamente em uma quinta que o francez ali comprara. Descoberto e perseguido pela justia, o official foi assassinado em acto de resistencia, e D. Maria reconduzida aos seus parentes, depois de ter deixado entregue a Joaquim Eusebio, moleiro em Azeito, a filha, que se chamou Marianna Joaquina. D. Maria, em 1808, forada pelo irmo, casou para o alto Minho com o representante de uma casa antiquissima, cujos appellidos omitto em respeito a seus netos. E, como em 1816 ficasse viuva, foi a Lisboa, e encarregou um seu afilhado, official de marinha, de procurar Marianna em Azeito, e convencl-a a seguil-o para Lisboa, se tivesse a fortuna de a encontrar. O official encontrou a filha de sua madrinha moirejando no cazebre do moleiro. Facil lhe foi movl-a a acompanhal-o. Orava ento pelos treze annos D. Marianna Elisa. Era linda quanto Deus podia fazel-a. A me nobilitou-lhe o nascimento com as suas lagrimas, e entregou-a aos disvellos de uma franceza illustrada que se chamava madame Chapsal. A me demorou-se com a filha alguns mezes, fez-lhe doao da quinta de Azeito revindicada de illegitimos possuidores, estabeleceu-lhe abundantes recursos, e voltou para a provincia, onde tinha filhos na primeira infancia. No sei se esta senhora voltou a Lisboa desde aquelle anno at ao de 1819 em que faleceu, depois de haver rogado a um provedor Ferraz, ento seu hospede em Ponte do Lima, que entregasse a Marianna o seu cofre de joias, no podendo legalisar-lhe outra herana. Este Ferraz, quando entregou as joias, rendeu-se por tal feitio belleza da orfan, que no houve mais desenliar-se d'aquella fascinao. Por desventura, o provedor era rivalisado por um gentil cadete de cavallaria, de nome Antonio Sicard. Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde levaram Sicard, j alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de Ferraz, Torre de S. Julio, onde morreu. Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do cadte, por maneira to decisiva e inappellavel que se estadiava em publico, de brao dado com o esbelto mo. Tambem conjuraram bastantes tradioens a confirmar que o desembargador Ferraz, homem teimoso e rico, logrra tal qual dominio no corao de D. Marianna, custa de liberalidades, entre as quaes realavam o palacete e a carruagem. Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para succeder na herana do magistrado de todo o ponto inquestionavel, segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creana no desdoira os creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial. A opinio publica desdoira as mes dos filhos naturaes; dos artificiaes, no. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte. Vivia D. Marianna de Portugal fra de portas, quando D. Miguel a viu. Sua sexta av D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de Affonso VI. Mas o real amante, graas brandura de costumes d'este seculo, no a tosquiou, antes lhe beijou as tranas, e se deixou encadear por ellas. Tambem no consta que Marianna se dosse do pejo da maternidade, imitao da freira de Santa Anna, consoante o duque de Cadaval a calumniou. Muito pelo invz: ella adorava o principe, e sentia-o na alma e no sangue quando a creana lhe palpitava no seio. Attesta o coronel Jos Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por Victor Hugo Jos Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em dois dias. Isto no me parece exacto. Pendo a crr que ella o visitasse todos os dias. Quanto espionagem, que lhe assaca o desbragado commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso calumnia a descambar em parvoice. As espias absolutistas no tratavam com o rei directamente: comeavam no Miguel alcaide, e tocavam o pice do valimento se levavam a denuncia at ao intendente geral da policia. D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei. Para sustentar carruagem, libr e uma apparente abastana, vendeu as joias da me, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o nobremente quando o corao predominou e abafou os baixos sentimentos que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente educada. Um amor grande com os luzimentos verberados da cora real, devia ser segundo baptismo para o corao da neta de reis. Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e tinha uma filha. O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e como velho inveterado de paixo, agora exacerbada pelos realces que o amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna. Se preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a proteco do magistrado por amor filha e desamor penuria, diga-se o delicto bem alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor. Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em 1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de ouro volta de Marianna. Recorreu a me de Maria Jos ao expediente da hospedaria. N'esse trato, ia provendo educao da filha, e costeando certas pompas um tanto desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e bem de presumir que o agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe no poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico. O insulto publicado em 1840 impeonhou a vida da infausta vergontea de Bragana. Os tres annos que ainda arrastou volta da filha, como quem se estorce e despedaa entre o amor de me e a necessidade de morrer, foram expiao acerba, purificao que nos torna respeitavel a memoria d'esta senhora de to illustre sangue. Em 1842 devia ter D. Marianna de Portugal quarenta annos proximamente, e vivia ahi por perto da Praa dos Romulares, com o seu hotel bastante luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky. Este principe viu-a, admirou-lhe as graas, comquanto j desluzidas, e ento soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe proscripto. Nas suas _Recordaoens, do anno de 1842_, escreveu elle: _Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[8] A dona da casa, uma_ ci-devant _bella mulher com ainda classicos vestigios de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaoens com D. Miguel. Ha mesmo alguem asss atrevido para chegar a assegurar que existem provas vivas d'aquella perdileco real._[9] Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraa, que, de dia para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahs. No mister rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraoens que a levaram ao suicidio. Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria. Morreu, descansou. XVI RESSURREIO DE UMA ALMA _Nec sine premio virtutes._ No ha virtude despremiada. BOETIUS, da Consolao da Philosophia, Liv. IV. A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa, aconselhou viagens como distraco. O caracter intermittente dos accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem febre, eram symptomaticas de perturbao de juiso. Todo seu empenho apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas sepultura de sua me eram calumniosas. O conde esforava-se por convencl-a de estar d'isso bem persuadido; ella, porm, sobrevinha na mesma prova, se despertava apoz um breve espao de repouso. Assim que a desfigurada condessa ganhou foras e se docilisou s carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem. Da casa e direco dos negocios do conde ficou encarregado Damio Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua esperana era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para comsigo devia ser um dos dois que elle esmurrara, sem embargo de lhe dizer Christovo Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo. Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o no procurar longo tempo, se um dia o diabo o atraioasse. E, com effeito, chegou a vl-o porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si: deve ser este! Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da Europa, no davam esperanas do restabelecimento da condessa. A monomania da justificao da me resistia s diversoens, aos rogos, s caricias, e therapeutica dos banhos, frios da Allemanha. No outono de 1860, chegaram a Baden, esperanados nas aguas mineraes. Ao mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragana com sua esposa e alguns filhos. O conde levou alvoroado a noticia enferma, que teimava em no sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as palmas, abraou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com febril vertigem: --Vou vr meu pae!... vaes vl-o, Raul!... vers o que elle te diz de minha me... vers que tudo calumnia!... Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de antemo se haver prevenido para tal apresentao. Contida no seu enthusiasmo a condessa por consideraes de etiqueta indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de Baldaque. O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes finezas. Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da carruagem porta do infante. Sahiu D. Miguel de Bragana ao patamar da escada a recebel-os. Quando, com a mais lhana cortezia, o principe offerecia a mo dama, ella ajoelhou; e, suffocada por soluos, cobriu de lagrimas e beijos a mo que no pde esquivar-se quelle estranho transporte. -- minha senhora!--exclamava o infante--por quem ! peo-lhe que se levante... E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicao da anciedade da dama. E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse: --Vossa magestade comprehender a perturbao de minha mulher, sabendo que ella Maria Jos de Portugal, filha da snr. D. Marianna... --Ah!--exclamou o infante--j sei... j comprehendo... E, com maior esforo, inclinando-se at poder levantal-a dos seus ps, abraou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mos pelas fontes, e murmurou: --Vi-a creancinha... de seis mezes... E, tomando-lhe o brao, conduziu-a sala, sentou-a na othomana, ao seu lado, lanou-lhe o brao pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo: --Sua me... morta? --Ha muitos annos...--balbuciou a condessa. --Porque me no escrevia, quando me enviava...--tornou elle, feita uma longa pausa. --Oh!--atalhou D. Maria--peo-lhe que no se lembre... vossa magestade... --Que me no lembre?... Eu no me esqueo seno dos ingratos... minha filha!...--E voltando-se para o conde:--snte-se, senhor... Como se chama seu marido?--perguntou condessa. --Raul--respondeu ella. --Snte-se, snr. Raul... Sei que brazileiro... Agradeo-lhe esta boa hora da minha vida--proseguiu tomando entre as suas a mo de Maria.--Mal diria eu!... Ella aqui est... aquella creana que eu via como um anjo l ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um sonho!... D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as montanhas recortavam. Que viso! que saudade! que escuridade ia dentro d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da indigencia, no cadinho ardente do desesperar! O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o to admirado, quanto em Portugal a opinio da plebe das letras malsinava de ignorancia o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde, ora a filha sobre coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da infancia, e esmaltados de indeleveis cres pelo archanjo da saudade, que l de longe nos segue at nos entregar ao archanjo da morte. Quando um criado entrou sala annunciando que a rainha se recolhera do banho, o infante disse ao conde: --Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasio mais opportuna. A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as mos do principe, que deu o brao dama, at ajudal-a a subir ao estribo da carruagem. Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a intervallos, a razo. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a cura operou-se pelo exalamento que lhe dera a considerao do pae em presena do conde. S assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de Affonso VI, por sua me e por seu pae. Demorou n'aquella paragem o conde at que D. Miguel recolheu a Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espao de anno, raros dias se no viram as duas familias. A felicidade de Maria Jos era o co, como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e nas alegrias inalteraveis da vida exterior. O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia, como quem queria continuar as douras da vida adulta e l esperar a quietao da velhice. N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damio Ravasco a venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovo Tavares e toda a familia do afortunado velho. Quando Damio, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem vingar o conde, obedecia s ordens recebidas, foi colhido de sobresalto por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o no matava de prazer. Christovo Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista, em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia estas lisonjas: ... Quem este sevandija que nos falla em moralidade, em caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem o gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra, sem receio que o recochte lhe v bater no stigma infamante da testa, onde a lei j no deixa escrever LADRO com ferro em braza? Quem , e donde veio este Victor Jos Alves, que incravou no nome plebeu o Hugo to honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o _Alves_, para memoria de um certo _Diogo_, devia intervir o sobrenome do primeiro poeta do universo? Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazo de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se levantou subindo pela tripea do pae! Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns tres contos de reis, que o _escroc_ desbaratou em pasteis de camaro e orgias nos bordeis! Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias aleivosas que haviam matado a infeliz me da luveira roubada, e levaram depois ao cairel do sepulcro moral a razo de certa condessa, que hoje erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido! Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de infamia, outras de irriso, exerce hoje um logar de confiana politica, o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia ser blusa de forado, duas commendas, uma que lhe d o foro de fidalgo, e outra que o representa benemerito das consideraoens litterarias!... Elle que... Damio Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braos de Tavares exclamando: -- meu o homem! Se alguem lhe pe a mo, arranco-lhe os figados pela bocca! E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos. CONCLUSO immolado um porco terra. HORACIO, Epist. I, Livro II. Corria o mez de agosto de 1862. Na estao de seges de praa, que descorrem pela cidade baixa, notaram os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto, adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderenando ptros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador. Reputavam-no mordomo do millionario; porm, quando o viram na praa, boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixra o servio do conde. E elle respondeu: --O conde foi-se embora para Frana, e eu, que me dou bem por c, empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo. O servio de Damio agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato era j conhecido da mocidade de pechisbeque, verso genialmente portugueza da _jeunesse dore_ l d'lem. Em dia de toirada era ditoso quem o emprazava de vespera. Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevo Galhardo--aonde voltra reconciliado com a me e um tanto fallido ao dinheiro--que no visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu servio. Uma vez, entrou na sege, e disse: --s camaras! A sege voou. Victor, apeando, disse: --Isso que andar, rapaz! Como te chamas? --O mulato. --Mas como o teu nome? --Mulato. --Mulato no nome, cr. Tu deves ser Simo ou Andr ou Belchior... --Sou mulato. --Pois ento, mulato--voltou sorrindo o commendador da Conceio--queres ir amanh levar-me a Cascaes? -- longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos torreira do sol; e eu no sei andar a passo. para l! bem v V. Ex.... Eu no poupo o gado... --Pois vamos de noite, queres? --De noite? A que horas? --s tres. --Isso de dia. --s duas, serve-te? --Convem. Chegamos l s sete. --Sabes onde moro? --Parece-me que sei... ... --No Hotel da Travessa... --Do Estevam? j sei... L estou s duas em ponto. --Sem falta? palavra? --De mulato. Quer que espere? --No. Pega l... E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damio recebeu-os na luva de algodo. Subiu almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou car as duas coras no regao de uma mendiga cega. uma hora da manh Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu rewolver de seis tiros. Depois trajou-se campezina, fato inteiro azul anil, luva amarella, chapo de palha, uma gravata de muitas pontas com muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas podres do javali que esfoava l dentro. Victor Hugo ia a Cascaes cata d'uma grega que, por aquelles dias, alvorotra os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das auras do Bosphoro, coisa que lhe dsse uma vez ao menos as morbidezas do oriente na Travessa do Estevam Galhardo. A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de cauda de murzlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir o Alkoro para uso dos seus cathecumenos. Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e disposto a enrodilhar o turbante na cabea, mahometanizar-se, restaurar a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoar com ella, se pudesse. s duas horas rodou a sege na calada e parou. D. Rozenda, quando o filho passava no corredor, disse l de dentro da alcva: --Onde vaes to cedo, Victor? --Vou a Cascaes. --Que vaes fazer a Cascaes, homem?! --Respirar as brizas do mar. --Forte asno!--murmurou a me, e adormeceu. A sege abalou velocissima. Ahi por Pao d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia muito a passo: --A quem compraste esta boa parelha? --No leilo do conde de Baldaque. V. Ex. conhece-os? --Conheo o conde, os cavallos no. --No me saber dizer porque que o conde se foi embora? --Sei: casou com uma aventureira... --Que vendia luvas... --Isso... --E depois?--tornou o mulato. --A opinio publica fez-lhe troa e elles safaram-se. --Ah!... ento a troa como foi?... Acho que havia de ser um folheto que ouvi ler, a dizer o diabo da me da tal condessa... -- isso... --E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o folheto fra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande chelpa tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o? --Quanto dste pela parelha?--perguntou Victor, como se a pergunta fosse feita a um pavo, que berrava no arvordo dos Palhas. --Cincoenta libras--respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu interlocutor. --No foi cara. --Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado d'elle, meu patricio, quero dizer, tambem mulato, que a condessa fra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio que a roubou. Veja V. Ex. que patife aquelle! O mulato levadinho de dez milhoens de diabos, e disse-me que no se vae embora de Portugal sem cortar a cabea ao tal Victor Hugo! --Quem, o preto?--perguntou sorrindo o commendador. --Sim, o preto... --Ha de ser um que dava scos nos namoros da luveira... --Hade ser esse, provavelmente... --Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo s deixa cortar o pescoo depois que mette seis balas na cabea de quem lh'o quer cortar. --Ento o homem pelos modos tzo? --: fia-te em mim. --No duvido, patro; mas a valentia no tira que elle seja um ladro; e um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe no fez mal nenhum, que eu saiba. --Elle l teve as suas rasoens... Olha l, no deixes adormecer os cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras... --Temos muito tempo, patro... V. Ex. no conhece um caminho por onde se atalha uma legua boa? --No. --Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei. Damio chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que j lhe girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congesto. Chegados extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita, desterroada e pedregosa. --No por ahi!--disse Victor--por onde diabo vaes? --Por aqui o atalho--respondeu Ravasco. --Deixemo-nos de atalhos agora de noite! --No tenha medo, patro. O snr. no traz rewolver?--dizia e affoitava a parelha. --Trago rewolver; mas... --Ento que medo tem? --No medo de ladroens; medo que esbarrondes a sege! Olha que o caminho vae j bater ahi n'uma charneca fechada, no vs? Volta para traz, bruto! Damio Ravasco no respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos sacoens at entestal-os com um comoro eriado de piteiras e socavado nas margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se escabravam trepando valla. Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damio arremettendo sege, puchava de repello pelas cortinas embreadas, Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege, porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mo do mulato como se os ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz. E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o para fra da sege. Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de soccorro, luctando em balde para arrancar a mo ainda armada torquez que lhe desarticulava o pulso. O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira: --Hasde saber quem sou, perverso ladro! Sou o preto do conde de Baldaque. D-me seis tiros na cabea antes que eu te corte a tua. Um j c o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te. ultima palavra vociferou elle um rispido regougo, coisa parecida ao soturno urrar da fra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha espanhola j aberta entre a manga da jaleca e o brao, e cravou-lh'a atravs da garganta. Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leo no desenterrra os gryphos aduncos das carnes do tigre morto. A clera recrudescia ao compasso da dr atroz que lhe sangrava na cara. Levou a mo ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores. Receiou morrer, e este mdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio, cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista. Talvez que a vingana ficasse quem das raias da barbaridade, se Victor o no houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos cabellos ao cadaver, e correu-lhe volta do pescoo repetidos golpes at o degolar. Atirou para dentro da sege a cabea, e deixou o restante no cho ensopado da sangueira. Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde. A cabea de Victor Hugo foi submersa em lcool n'uma vasilha negra. E Damio Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovo Tavares e d'um cirurgio, soffria a dolorosa anatomia da extraco do olho direito e esquirolas da orbita correspondente. Ai! elle no poderia mais vr a cabea de Victor Hugo Jos Alves seno com um olho! Do apparecimento do cadaver descabeado na Azinhaga das Cobras deve lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era uma victima das vinganas clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos, pediam a cabea do sujeito para fazerem o seu juiso crca da identidade da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a _Victor Hugo_; mas tambem isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do _Napoleon--Le petit_, viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandra assassinar, decapitar, _etc._, _etc._ O que certo que muita gente, quando se disse que o descabeado era o Victor, filho do Alves dos coiros, respondeu brutalmente: _Foi bem feito_. Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da orbita, Damio Ravasco, liquidado o trem da homicida faanha, fez-se ao mar e mais o official realista e as filhas e os netos. Marselha era o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se rua Camebiere, _hotel des Empereurs_. Entraram juntos sala privativa do conde. Damio ia na frente, sobraando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da to differente cara de Ravasco: --Que isso!?--bradou o conde--Vens cego de um olho, Damio? --E que profunda cicatriz elle tem na face!--disse a condessa. --Que foi isso?--tornou o irmo. --Este olho que me falta--respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma banca; e repetiu:--Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado Victor Hugo Jos Alves. --Porque, meu Deus?--disse a condessa. -- possivel!?--exclamou o conde--E tu... --Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: olho por olho, dente por dente--respondeu Ravasco;--mas, a fallar a verdade, no me accommodo com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos. E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as filhas e netos agrupavam-se volta da condessa. E Damio continuou: --Ora eu que no tinha vagar, nem a occasio era a melhor, para tirar os dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e seguro era cortar-lhe a cabea. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!--disse o mulato, mostrando a cabea tragica, mergulhada em espirito de vinho, no amplo frasco extrado da caixa. A condessa parecia desmaiar nos braos do marido, exclamando em extrema afflico: --Jesus! que horror! que barbaridade!... --Horror, sim, minha filha!--disse o conde--mas barbaridade... No culpes Damio sem o escutar. E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente: --Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr. condessa. Em Lisboa sahiu um folheto no qual se dizia que sua me roubava padeiros de quem era amazia... --Silencio!--bradou o conde. --Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!--volveu Damio--N'esse folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casra com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu no o vingaria, por entender que era justo o castigo; mas como eu sei que V. Ex. era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a cabea d'onde sahiram os insultos a V. Ex. e a um homem que me chamou irmo. No tenho mais que dizer. C levo a cabea para lhe dar honrosa sepultura nos esgotos de Marselha. E sahiu com o caixote debaixo do brao. Na sala era tetrico e profundo o silencio. Nem que aquillo fosse a cabea de Holofernes, ou de Pompeu! E as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria Jos. egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abenoadas do soberano e inexprimivel Espirito que to perfeita scintilla de sua divindade te bafejou no bero! EPILOGO Os condes de Baldaque, n'este anno de 1872, viajam no Oriente, com o filho mais velho. Damio Ravasco, reconhecido irmo do conde, e quasi millionario, vive no Cear com sua mulher D. Luiza Tavares, a mais nova das filhas do ex-brigadeiro j fallecido. As outras filhas, exceptuada Ernestina que acompanha a condessa, casaram e so ricas. Os netos do brigadeiro, doutorados na universidade de S. Paulo, esto estabelecidos no imperio brazileiro. D. Rozenda Pica mestra regia na Porcalhota. D. Eufemia, dada ao mysticismo, e repza de escrupulos purificantes, est no seminario de Brancanes, encarregada da limpeza dos jesuitas. Obrigado pelas leis da transmigrao, Victor Hugo Jos Alves resuscitou nos corpos e almas de tres sujeitos que ho-de prosperar n'este paiz, se no encontrarem mulatos... FIM [1] Veja os amores deste fidalgo com a filha d'el-rei D. Duarte. [2] PORTUGAL, Recordaes do anno de 1842, pelo principe Lichnowsky. Lisboa, 1844. [3] Pag. 5. [4] Elidem-se phrases que ressumbram de mais cazerna onde o commendador d'Aviz escrevia o seu despejado depoimento. [5] A pagina 111, penultima do _ms._, l-se o seguinte: Este Epytome da vida d'Affonso VI, foi copiado exactamente do original, que se achava na livraria do duque de Cadaval, composto sobre as Memorias de Luiz Teixeira de Carvalho, que foi official maior da secretaria de estado, por cuja mo correram as ditas Memorias; porm, ha n'ellas circumstancias to particulares que persuadem serem ditadas pelo duque D. Nuno Alvares Pereira, que teve tanta parte na deposio deste monarcha. Suas queixas o fizeram esquecer das grandes aces do governo d'este infeliz rei e das gloriosas victorias do seu reinado. Veja-se sua vida por o auctor mais critico. Segue outra declarao: A copia a que se allude, e da qual esta foi tirada, pertence a D. Miguel Antonio de Mello; e hoje possue-a o conselheiro Antonio Joaquim Gomes de Oliveira, official maior da secretaria de estado dos negocios estrangeiros. Lisboa, 29 de Maio de 1845. _Jacintho da Silva Mengo._ [6] Mosteiro onde se recolhera D. Maria de Saboya. [7] margem do livro-genealogico donde vou trasladando esta linhagem, est escripta uma nota curiosa: Salvador Fagundes era um homem ordinario de Pinhel, que andava a vender meias, e neste tracto o viu o padre Francisco Xavier da Mesquita Pimentel, frade loio, que m'o disse, em Fevereiro de 1775. E diz que haver setenta annos que lhe vira vender as ditas meias. Outros me dizem que fra pintor; emfim, sempre foi pessoa humilde. Porm, enriquecendo, foi pagador d'um regimento, e ajuntou tanto cabedal, que era j muito estimado. A um general que de Castella veio andar nas guerras de Portugal fez grandes offertas; e, quando se recolheu a Hespanha, lhe mandou por todas as partes offerecer todo o dinheiro que quizesse e na forma que lhe parecesse; e por ultimo, julgando o general que aquillo seria bazofia, disse em uma parte que queria 50$000 cruzados; e, como logo lh'os dessem, os no acceitou, e ficou muito agradecido por ver que era verdade, e escreveu a el-rei de Portugal, dando-lhe parte de tudo, e pedindo-lhe que premiasse aquelle homem que tantos obsequios lhe fizera, Joo Pinto Ribeiro de Castro Vella me disse que o dito Fagundes ajuntra muito cabedal, quando fra assentista e pagador nos tempos da guerra; e que, suspeitando que o governador o queria culpar pelo muito que furtra, lhe foi fallar; e como o governador o no quizesse receber, o Fagundes fingira um flato ou accidente, deixando uma bengala que trazia, na qual, pegando um criado do governador, e achando-a muito pezada, a levara ao amo que, admirado do pezo, a entrou a examinar e a achou cheia de moedas de 6$400 reis, com as quaes se accommodou, etc. Viessem c hoje Fagundes com taes bengalas, que levavam com ellas... depois de vasias. [8] No percebo o pudor de quem traduziu, omittindo o nome da proprietaria do hotel. [9] _Portugal. Recordaoens do anno de 1842_--pag. 18. INDICE I A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA II PERFIL DE VICTOR HUGO JOS ALVES III D. ROZENDA IV O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO V O CORAO DE D. ROZENDA VI O SANTO CORAO DE FILHA VII OS TRES CONTOS DE REIS VIII RAUL IX DAMIO RAVASCO X FRUCTA DO BRAZIL XI SOLEMNIA VERBA XII EXPLOSO DE AMOR XIII DESASTRE DO GATUNO XIV A VINGANA XV A PROLE DE D. AFFONSO VI XVI RESSURREIO DE UMA ALMA CONCLUSO EPILOGO End of the Project Gutenberg EBook of O Carrasco de Victor Hugo Jos Alves, by Camilo Castelo Branco License: Share Alike