Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) O CONDEMNADO * * * * * O CONDEMNADO DRAMA EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO COMO OS ANJOS SE VINGAM POR CAMILLO CASTELLO BRANCO PORTO VIUVA MOR--EDITORA PRAA DE D. PEDRO 1870 * * * * * IMPRENSA PORTUGUEZA Rua do Bomjardim, 181. * * * * * A JOS CARDOSO VIEIRA DE CASTRO Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no corao, meu infeliz amigo, permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter abafado. N'este livro, no pude bem assignalar um leve trao do teu enorme infortunio. No pude, porque a tua desgraa no tem nome. Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis mezes, ainda no pudeste vr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade. Entre o teu passado e este dia de hoje--cujas horas vo j batendo na eternidade de uma tristeza irremediavel--ests tu empedrado de assombro a encarar no abysmo onde te resvalou a mo que beijavas e ungias de lagrimas de felicidade. No fundo d'essa voragem vs as tuas coras de gloria a seccarem-se, a desfazerem-se, a pulverisarem-se--o desabar deploravel d'uma esplendida vida que foi a tua, grande espirito! Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o p das tuas grinaldas, sobre as quaes vo cuspindo homens to escassos de misericordia, como de dignidade. Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que recebers sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pso de sua cruz, mas no ignominia d'ella. Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se respeitem as cinzas d'um grande corao extremado na honra e na desgraa. CAMILLO CASTELLO BRANCO. PERSONAGENS D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor) 28 annos Viscondessa de Pimentel 50 Visconde de Vasconcellos 55 Rodrigo de Vasconcellos 28 Pedro Gavio Aranha 27 Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira 51 Jos de S 50 Joaquim, criado. Joo, criado. Outros criados e pessoas que no fallam. * * * * * A scena corre no Porto em 1857. O CONDEMNADO ACTO PRIMEIRO Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e lateraes. Dois criados esto espanando a mobilia. N. B. _O criado Joo, mais montezinho que os outros, denota a estupidez velhaca do aldeo._ SCENA I JOAQUIM E JOO Joaquim _(refestelando-se em um soph)_ Joo, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se no afundas. Joo _(apalpando o estofo)_ Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vr que eu vou rebentar o fole? _(Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas)_ Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver n'estas enxergas! Joaquim Isto sempre melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim? Joo O qu? pois no fostes? Tomra-me eu l com as minhas ovelhas. Assim que m'alembram os nossos montes, comeo a esbaguar e trigar-me aqui dentro do corao _(pondo a mo na barriga)_. Joaquim O corao no ahi, bruto! Ahi so as reins. Joo Onde ento? Joaquim Aqui. _(Pondo a mo perto do sovaco do brao direito)_. Joo _(com espanto)_ Aqui?! Credo! Joaquim Ahi mesmo. Aqui foi sempre o corao; e o bucho est aqui, salvo tal logar _(apontando o umbigo)_. Joo O bucho aqui? aqui a espinhela; o bucho onde ce a trincadeira. Joaquim _(rindo-se com ar de ironica piedade)_ Joo, tu chegaste da Samardan ha quinze dias, e eu tenho palmilhado todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde est o bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de bares, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo mundo, foi sempre aqui _(insiste na demarcao)_. Faz-te esperto, rapaz! O patro j me disse hontem: Joaquim, este teu primo um burro. Joo Eu bem ouvi. No foi assim que te disse o patro. O que elle disse foi: Joaquim, este teu primo to burro como tu. Joaquim No disse isso. Joo Na minha salvao, disse; e c a mim, se o patro me torna a chamar burro, vou-me p'ra a terra. Eu no sou burro, sou christo baptisado. Alcunhas no nas quero. C no Porto costume essa chalaa. Joaquim Que chalaa? Joo Todos so bichos. Joaquim Todos so bichos? Ms maleitas me tolham, se eu te percebo! Joo Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha c? Pois olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava _Lobo_; depois um _Raposo_; depois um _Leo_; depois um _Coelho_ e um _Lebre_, e outro senhor chamado _Camello_, e outro _Pato_, e um _Rola_. Olha que bicharia! Eu estava a vr quando chegava um Urso e um Boi. L na Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois no aveza? Joaquim Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos... Joo _(atalhando)_ Tem bichos? Arrenego-os eu! Joaquim No me falles mo; quasi todos teem bichos no nome o que eu queria declarar na minha proposta. Tu no inzaminaste as armas reaes que o patro tem nas quintas l de riba? Joo Olha que j estive a malucar que na porta da quinta do Corgo esto as armas do rei com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja, teem assim as unhas _(recurvando os dedos)_. E o lacrau tem a lingua dependura _(figurando)_. Mas c o patro no se chama largato nem lacrau, que eu saiba. Joaquim O animal que viste no lacrau. O bicho que bota a lingua de fra chama-se leopardo. Joo Isso nome de christo... Leonardo! Joaquim Leopardo, asno! Joo Tu no me chames asno, primo! No me desfeiteies. Quem no sabe, aprende. Ento por que tem o patro o leopardo nas armas reaes? Joaquim historia antiga l da familia. Joo Ento esse bruto era da familia do patro? Tu tamen no s pequeno alimal, Joaquim! Ests um bom fistor! Olha se me engrampas a mim. Olha... _(Arregaa o olho esquerdo)_. Joaquim _(alvoroado)_ Espana, que ahi vem gente... SCENA II OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS Joaquim Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde. Visconde Adeus. Meu filho saiu? Joaquim Saiu s nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos para o baile. Visconde Quando o baile? Joaquim manhan, senhor visconde. Joo manhan, mas saber vossa excellencia que s comea de noite. Joaquim _(acotovelando-o)_ Cala-te ahi! Visconde Vo; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. _(Os criados sem)_. SCENA III Visconde de Vasconcellos Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera no saber que meu filho d bailes!... Deixasse-me eu ficar na solido do meu desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no corao vioso e feliz de meu filho, para que a desgraa o no assalte em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e chorados ao p d'uma sepultura!... isto uma iniquidade! Os experientes da vida, os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam comsigo um fantasma funesto. Na sua presena, aos descuidados do futuro desmaia-se a cr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos no desculpam o velho, que se ao encontro da mocidade e lhe diz: Envelhece antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te no colha ainda na primavera, e te no abra no rosto o sulco das lagrimas. _(Ouve-se o rodar de sege)_. Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios, esperando-o nos sales, d'onde a noite de manhan fugir de pressa como fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da vida as lagrimas no podem desfazer... Para que hei de entristecel-o? Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraa porvir isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a boca do abysmo. Deixal-o ser moo at que a primeira nortada do infortunio lhe bata no rosto. _(Suspenso e recolhido)_. No posso, no posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouam gemer no parcel onde naufraguei. SCENA IV VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS Rodrigo _(beijando-lhe a mo)_ Esperou muito tempo, meu pae? Visconde No esperei. Onde est tua mulher? Rodrigo Eugenia vem j. Foi largar a capa e o chapo, e naturalmente matar saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile de manhan. Visconde Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! j me viste em bailes? Rodrigo Certamente no. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria rara a tentao dos bailes _(sorrindo)_; e meu pae, que deixou ha tantos annos as salas de Lisboa, de certo no succumbiria tentao em Lamego ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moos, alguns dos quaes ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela cr das barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos condes de Travaos, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de Pimentel? Visconde Muito bem. Rodrigo Pde vl-a aqui manhan. Visconde Essa dama ainda folga em bailes? Rodrigo Porque no? Representa uns trinta e cinco annos. Visconde _(sorrindo)_ mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis. Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico, pouco exemplar nos costumes, e... _(Mudando de tom)._ Deve ter branco o formoso cabello loiro que tinha... Rodrigo Agora negro. Visconde Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile: essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando garbosamente como quem sacode dos hombros o pso de meio seculo. Mas o ridiculo dos bailes no o mau; o mau, o pssimo o que triste, o que no pde ser visto seno por olhos que choraram muito... Rodrigo _(interrompendo-o)_ Vai o pae entristecer-se... e comeou to bom, to ironico... Visconde As minhas ironias, Rodrigo, so sempre amargas; mas o fel que ellas tem, todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversao. SCENA V OS MESMOS E D. EUGENIA D. Eugenia _(beijando a mo do Visconde)_ Como est, meu pae? Visconde Bom. Vejo que est excellente a minha filha. Ainda no perdeu as boas cres que trouxe da provincia. D. Eugenia Quem me l dera outra vez! Visconde Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia a minha Eugenia? D. Eugenia A primavera ainda vem to longe... Visconde E depois que l estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha quinze dias, do baile de manhan, e dos bailes que... D. Eugenia _(interrompendo-o)_ No, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes o contentamento de Rodrigo. Elle est acostumado a estes recreios, e acha n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se no tivesse sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira habituar-se vida c de fra, o geito e o acanhamento da clausura no se perde. Visconde A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade elegante... D. Eugenia Aos costumes da sociedade elegante, no, senhor; ao contentamento de Rodrigo, sim. Visconde Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peo que empenhe todo o valor do seu corao em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de baile, apparecem nos tapetes umas flores sem vio, que muitas vezes symbolisam coraes sem innocencia. Coraes e flores perderam a candura e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respirao. Rodrigo _(sorrindo)_ Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas. Ainda ninguem viu os vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento! Visconde Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem d um baile precisa mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisao tem apostolos e martyres. Ora v. D. Eugenia Janta comnosco, sim? Visconde Pde ser. D. Eugenia At logo, _(apertando-lhe a mo--Se)_. SCENA VI VISCONDE E RODRIGO Visconde _(com gravidade)_ Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e ficas avisado para, na presena de tua mulher, nunca me desafiar a discutir comtigo em assumptos de corrupo social. Agradece tu ao acaso a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. No a illustremos; ouviste, Rodrigo? No a illustremos... Bem vejo que ests no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado; queres que elle refulja luz dos bailes. Vaes entrando com ella por estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana se assoalha; onde os coraes como que andam vista nos seios descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras... Rodrigo Jesus! que imaginao! Meu pae est illudido com a sociedade. Visconde Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?! Rodrigo Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezo, um modelo de fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo l no achou as demazias de desmoralisao que se lhe figuram na sociedade de hoje. Suppondo que nos sales de ha vinte e tantos annos, meu pae encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe no depararam virtuosas e optimas? Se eu l procuro exemplo de bons costumes em moo rico e considerado, no encontro meu pae? Visconde No. Quem te disse a ti que eu no fui um... um villo? Rodrigo Se meu pae houvesse sido um villo, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens, apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. isto que eu conjecturo do seu passado. Visconde Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de velho e de pae. _(Pausa)_. Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao aoute com que a Providencia o fere. A fora da alma, a probidade, a indole generosa que se me formou na educao, perdi-as, e foi nos sales que as perdi. No me foi necessario immergir na lama das orgias para de l sahir libertino. Nunca ahi desci. Foi nas salas que o meu corao se encheu da peonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os mais vulgares sentimentos da honra, no salvando sequer a coragem, esse derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara aos assassinos em duello. Dos bailes que eu sahi infamado e infame aos meus proprios olhos. Imaginas tu o que isto de sentir-se um homem infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espao de vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braos quando eras menino, e dizer-te muitas vezes: filho, creatura innocentinha, pede misericordia divina que se d por contente com o immenso calix de amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de lagrimas de sangue. _(Solua)_. Rodrigo Meu querido pae, que extraordinaria dr essa!? O seu espirito sombrio est exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem nos seus crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, no teriam esquecido... Visconde A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas no esqueas tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, v sempre estas lagrimas atravs das alegrias dos teus bailes, e escuta-me l algumas vezes como se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se no pdes defender-te d'estes prazeres traioeiros, meu filho, consente que tua mulher se no aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa que ella se fique na quietao da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu voltars mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes sem corao, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te no falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram, luz que nos vai procurar a todas as voragens. Abysma-te; mas no a desvies do bero de teu filho; no quebres o sagrado lao, que Deus formou entre a alma que se est formando, e a alma de me, onde preciso que arda um grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes. SCENA VII OS MESMOS E JOO Joo Fidalgo, est alli um senhor que se chama... Rodrigo Como se chama? Joo Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo; e mais tenho-o debaixo da lingua, como l diz o outro. _(Recorda)_ Elle tem dous nomes de bichos. Rodrigo De bichos?! Joo Sim, senhor fidalgo; mas no dos que vem c a casa. Rodrigo Dos que vem qu? Joo D'aquelles fidalgos, que se chamam Lees, Lobos e Camellos. Rodrigo Burro! Joo Tambem no burro... Ah! _(sacudindo a mo direita)_ Parece-me que me lembra. Um assim, um nome de passarlo grande, que se chama.... Ora o diabo.... que se chama.... No corvo, nem pato, nem milhafre, nem... ah! Gavio. Rodrigo Gavio? Joo Saber vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal. Rodrigo _(ao pae)_ Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavio Aranha. Joo Aranha! isso mesmo. Aranha. Rodrigo Vai de pressa; que entre. _(Joo se)_. SCENA VIII O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIO ARANHA Rodrigo Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que no sei d'elle. Visconde Vou sahir. At logo. Rodrigo Permitta que eu lhe apresente o Aranha. um excellente rapaz, o melhor corao de ctavento que ha no mundo. Eil-o ahi est! _(Vem entrando Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braos)_ No ha que duvidar. o Pedro Aranha. Como ests tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara espirituosamente franceza. Pedro Americano-ingleza, se ds licena. Estas barbas procedem de Nelson, e do-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos. Rodrigo Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos sales de Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro, aperta a mo ao melhor dos paes. Pedro Respeitosamente aperto a mo ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia. Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do senhor visconde. Visconde Quem se lembrar de mim na America Ingleza? Pedro Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha. Visconde _(recordando-se)_ Jorge de Mendanha! No tenho a mais leve lembrana de tal nome! D'onde elle? Pedro Provinciano, no sei de qual provincia. Visconde Deve ser velho. Pedro Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara de maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem certo relevo litterario, e as maneiras so aristocraticas, sem preteno. Visconde E disse que me conheceu? Pedro No, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa excellencia. Visconde Provavelmente algum dos muitos rapazes da minha criao no collegio dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que j so mortos. Jorge de Mendanha!... no me posso lembrar. Senhor Gavio Aranha, conversem, que ho de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa excellencia. Demora-se no Porto? Creio que no daqui... Pedro Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no Porto, e casado, parti sem demora a vr se conseguia ainda usurpar esposa alguma da muita amizade que elle me deu. Visconde Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. _(Aperta-lhe a mo, e se)_. SCENA IX PEDRO E RODRIGO. Pedro Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu voss a minha ultima carta? Rodrigo Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo. Pedro No recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me pela Asia dentro, e voltei America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa. Rodrigo Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de descripes romanticas, no ousou profanar o esconderijo onde me foragi com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher. Pedro Venha c voss. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia do seu casamento. Todos os pormenores so pontos essenciaes d'esse solemnissimo desmentido s tuas grandes theses de celibatario defendidas nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto do corao. Rodrigo Esqueleto do corao!... ignorante, aprende que o corao musculo. Pedro musculo co; eu tambem j sabia isso, mestre; tambem fiz do peito amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres meio delidas na superficie rugosa do corao, encontrei o musculo, de que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste? Rodrigo Isso. Pedro Isso qu? Rodrigo O vacuo do corao; mas a plenitude da alma, que outra casta de entranha. Pedro Entranha! a alma entranha! Collocas a essencia immortal na categoria do figado e do bao! Deixemos essa questo Academia real das sciencias, e vamos historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a vulgaridade do matrimonio. Vamos s peripecias. _(Em tom emphatico de narrador)_ Era uma formosa tarde de estio.... Rodrigo No tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento. Pedro No?! Rodrigo V l se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja, mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a Evora, perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas, muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio! Pedro Sim: temos j duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor pelo cemiterio! Rodrigo Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar. Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroo e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe dsse alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua Eugenia, um anjo que Deus lhe mandra, como compensao, que em poucos annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me ento a sua amiga. No trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um scismar e concentrar-se sem affectao, sem sequer attender presena de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia. Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se para a jornada com a sua amiga e as suas criadas. Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia. Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com poucos meios, e morreu no deixando alguns, quando Eugenia contava dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e repartiu com ella a sua penso. N'este sereno affecto encontrei as duas orphans. As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza de que no filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a supposio de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a procedencia de algum desgraado amor, obrigava talvez a curiosidade a no devassar o mysterio de que minha prima no tinha a menor elucidao. Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha, expirou nos braos da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados dias.... V l se te estou estafando com a historia. Pedro Homem, no vs o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados dias... Rodrigo _(proseguindo)_ Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe no lisongeava a alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle. Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certides necessarias ao casamento. Nada obtive; apenas um antigo capello do recolhimento me disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de Eugenia, entrra no convento em 1837 e morrra em 1849 sem ter escripto nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D. Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No pensar do capello esta dama era fidalga, porque o padre que a confessava uma vez dissera que a secular tinha to nobre sangue como espirito. Este padre confessor era j fallecido quando o procurei em Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis indagaes. Obtive dispensa das mais urgentes certides, e casei com Eugenia... Por esta occasio meu pae perfilhou-me. Pedro Tu eras filho natural? Eu no sabia. Rodrigo No? Nem eu. S depois que sahi do collegio dos nobres e fui provincia, que os criados me contaram que minha me era uma formosa e pobre moa que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens. Pedro E dizias que no tinhas romance!... Rodrigo Romance no ; o que os romancistas no sabem pintar: a felicidade perfeita. Eugenia boa como todas as mes extremosas. Tenho um filho de seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente e doce alma da me. Eu no tinha direito a tanto contentamento sem intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus, e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo. Pedro Que linguagem! que transformao! Deixei-te sceptico a respeito de mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a respeito dos meninos. Acho-te um corao cheio dos tres e unicos elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a religio que recebe os bens e os males da vida como favores da Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo. Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando no tinha esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu proporo dos capitaes, no verdade? Rodrigo Sim; vivo bem, e desassombrado de credores. Pedro Ah! tu j no tens credores?! _(baixo)_ Transgrediste o solemne juramento que fizemos em Lisboa de no pagar a uzurario que abuzasse da nossa innocencia do juro da lei?! Rodrigo Meu pae mandou pagar tudo e a todos. Pedro E no te amaldioou? Rodrigo No. Pedro Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu! Rodrigo Disse-me isto smente: Se houvesses contrahido dividas no valor do que possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por ra s rico; mas, se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinar o caminho da infamia. Pedro Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve passar para a nova edio do _Thesouro de meninos_! Rodrigo E tu no pagaste quelle dos oculos verdes? Pedro A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham oculos verdes. Eu no paguei a nenhum. Sou equitativo, e no distingo credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei no pagar. Rodrigo Teu pae provavelmente pagou... Pedro As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e Roma, se meu pae pagava as minhas dividas no pagando as d'elle! Os meus credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia no ha av que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raa insoluvel desde meu vigesimo quarto av D. Ordonho, principe gothico, at mim, que tambem no pago porque me no chamem gothico, como ra meu vigesimo quarto av D. Ordonho. SCENA X OS MESMOS E D. EUGENIA _D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz meno de retroceder vendo um estranho_ Rodrigo Entra, Eugenia. _(Ella entra com uma carta aberta.)_ Quero apresentar-te ao meu amigo Pedro Gavio Aranha. Pedro Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de auzencia. D. Eugenia O Rodrigo j me tinha fallado de V. Ex. com muita estima; e eu tenho muito prazer em vl-o n'esta casa. _(Voltando-se a Rodrigo)_ Chegou agora esta carta da condessa de Travaos. V. Rodrigo _(depois de a lr mentalmente)_ Pede um convite para o baile... _(reflectindo)_ Pedro Aranha, como se chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae? Pedro Jorge de Mendanha. Rodrigo Ora ouve l: _(l)_. Minha querida, senhora. Peo-lhe que obtenha do Rodrigo de Vasconcellos um carto de convite para um sugeito de fra que foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha. Da sua prima e amiga etc. Pedro Oh! c est o homem! E singular coisa! Quando sahi da America estive com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vo V. Ex.as vr um homem de romance. D. Eugenia _(com simplicidade)_ Ento quem esse homem? Rodrigo _(risonho)_ Essa pergunta assusta-me! Alvoroa-te a prespectiva d'um homem romantico? D. Eugenia _(sorrindo ingenuamente)_ Nunca vi nenhum... Rodrigo Nem mim? Ento que sou eu? No sou... sequer romantico! D. Eugenia No; tu, Rodrigo, s bom... Eu li alguns romances no convento; e no encontrei n'elles a semelhana do teu genio; e ns l quando diziamos que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, no lhes faziamos elogio algum. Por isso que eu desejava saber em que opinio se deve ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que de romance. Pedro E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha o mysterio; um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares que impe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moos. eloquente; mas falla moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo e cathedratico. Emfim, minha snr., estimo grandemente o novo encontro com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos acotovellam nos bailes, nos cafs, nas ruas, em todo este Portugal que uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para meninos do cro. Rodrigo _(sorrindo)_ Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do cro creado nos viveiros de Portugal. _(Indica Pedro)_. Pedro Pois bem; eu no inculco a minha sufficiencia para corista; mas que eu fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes so por tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisao anglo-americana uma especie de depillatorio que descabella os ursos de todas as naes. Rodrigo Tudo portanto que no foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma tosquia, urso. Obrigado, snr. Gavio Aranha. D alvar de urso aos seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na sua pessoa. Pedro O que? SCENA XI OS MESMOS E JOO Joo Est l em baixo uma fidalga n'um carro. Rodrigo N'um carro? Pedro Hade ser carroo. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover por bois? Rodrigo _(a Joo)_ carroo ou carroagem? Joo sim senhor. Rodrigo O qu? Joo uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante. Rodrigo _Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante._ Entendeste, Pedro? Pedro Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem tem certo pittoresco, e um sabor classico. D. Eugenia _(rindo)_ Falla moda de Traz-os-montes. Rodrigo Essa coisa puxada por bois ou cavallos? Joo So eguas, fidalgo. Rodrigo _(a Pedro que ri)_ Este o creado que te annunciou com dois bichos. _(Para Joo)_ Quem a senhora? Joo Um dos moxillas disse que a snr. D. Viscondessa de Pimentel. Rodrigo _(com as mos na cabea, comicamente)_ Ai! ai! ai! Pedro Pois est no Porto a viscondessa de Pimentel? Rodrigo Eu vou recebel-a portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia. Deixas-me fugir, sim, meu amor? D. Eugenia _(sorrindo)_ Pois sim. _(Rodrigo e Joo sahem)_. SCENA XII D. EUGENIA E PEDRO Pedro A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex. esta arara de conserva? D. Eugenia Conheo-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaos, e fui visital-a depois ao hotel de Francfort... a primeira vez que vem c. Pedro Mas ridicula at commiserao, no verdade? D. Eugenia No... Faz-me d! Tenho muitissima pena das senhoras que se no resignam com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu tinha muita compaixo quando se riam d'ellas. Pedro Ella ahi est explendida de antiguidade como uma cathedral! SCENA XIII OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL _A viscondessa uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda, e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postios. Nos trejeitos e meneios exagera um desembarao ridiculo, com o intento de affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se no desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de esmerada educao e pratica da melhor sociedade._ D. Eugenia _(indo ao encontro da Viscondessa)_ Senhora viscondessa, como est V. Ex.? Viscondessa Muito nervosa. E V. Ex.? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua sahida no intervalo do 2. acto. Pedi ao primo Travaos que soubesse se algum motivo extraordinario alem do _spleen_... oh! o _spleen_!.. uma calamitosa enfermidade esta, no acha?.. depois soube felizmente que o snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razo da sua sahida... D. Eugenia Ah! sim... Eu sahi porque... _(sustendo-se)_. Rodrigo _(a Pedro)_ Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha. Viscondessa _(com alvoroo)_ Pedro Aranha! Pois est aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias... Pedro _(apertando a mo da viscondessa)_ Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex. Viscondessa Vem de Pariz? Pedro Da Suissa, minha senhora. Viscondessa Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens, e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, no assim? Pedro Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa. Viscondessa Eu amo as soberbas descripes d'esse paiz! J pedi ao visconde que me mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em naes montanhosas. Ha certos espiritos que querem as naes chatas como elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das serranias! desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a mais desgraciosa semsaboria que suba s agulhas do Maro ou da serra da Estrella onde ha muito r puro. Vejam que curteza de alentos! Para certas almas o ar ar em toda a parte. Vr o mar do rochedo de Santa Helena ou da Trafaria igual. Tudo agua: no assim, snr. Aranha? Pedro _(ironico)_ Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu bom senso em castigar os espiritos canhestros... Viscondessa Pois no assim? Pedro Irrefutavelmente assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V. Ex. _(a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)_ D. Eugenia Vo sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o snr. Aranha. Pedro No me dispenso da honra e do prazer, minha senhora. Rodrigo _( viscondessa)_ Senhora viscondessa. Eugenia, at logo. _(beija-a. A viscondessa aperta a mo dos dois que sahem)_. SCENA XIV D. EUGENIA E A VISCONDESSA Viscondessa Teve carta da prima condessa? D. Eugenia Sim, minha snr. Viscondessa Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico. esse Jorge de Mendanha de quem lhe falla a prima. portuguez, e vem de Inglaterra recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito. Perguntei-lhe, quando se tomava o caf, se tinha conhecido, nos bailes do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um sorriso indescriptivel, e disse: conheci. E se a visse hoje, conhecel-a-hia?--perguntei eu Graas solidez da sua belleza, (disse elle) a viscondessa de Pimentel ainda a depositaria da insigne formosura de Francisca d'Almeida. No podia dizer uma amabilidade com tanto e to delicado espirito, pois no? Ha no sei que de puro parisiense n'isto, _un beau trait d'esprit_ no vulgar em portuguezes, acha? D. Eugenia Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que elle velho, mas muito romantico... _(sorrindo)_. Viscondessa Velho?! no, minha snr... _(V-se ao fundo o visconde)_. homem de quarenta e poucos mais; mas V. Ex. ha de vr um gentleman, um _distingu_, _un homme bonnes fortunes_ como l se diz. SCENA XV AS MESMAS E O VISCONDE Visconde _(com mal reprimido azedume)_ A mulher de meu filho no sabe francez, snr. viscondessa. D. Eugenia Ah! o pae!.. Estava ahi! Viscondessa Com effeito! possivel que eu tenha o to desejado jubilo de vr o snr. visconde!? Ha que infinitos annos o no vi! Que doce surpresa!.. mas, ao mesmo tempo, _(com a mo na fronte, pensativa)_ que turbilho de recordaes melancolicas! V? no posso vencer a commoo! _(Leva o leno aos olhos)_ . Visconde _(sorrindo)_ So os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha snr.? Ainda bem que V. Ex. me no sensibilisa com o espectaculo pungente da decadencia, snr. viscondessa. Viscondessa Pois creia que padeo infinitamente, visconde. Fra de Lisboa, recobro foras e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta d'isto; Lisboa est estupida; a vida d'esta sociedade a proza chilra das sociedades gastas, sem feio, toda safada em relevos, um _cancan_, uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa do nosso tempo... Visconde _(com inteno ironica)_ A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.... Viscondessa _(sem attender interrupo)_ Resolvi sahir instada pelo primo Travaos. Vim, e sinto-me melhor. Acho certa novidade nos costumes, nas maneiras, no _ensemble_ da vida portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr. como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me dessem occasio de vr a V. Ex. Visconde Muito grato ao obsequio... Viscondessa No me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? No quer saber de alguem? Visconde Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dir V. Ex.? Umas morreram, outras envelheceram. No me parece aprazivel o passearmos em um cemiterio a lr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V. Ex. folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade. Viscondessa Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex. abafa o seu antigo espirito com o pezo dos crepes! Aqui est o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me s experiencias agricolas. Ao fim de oito dias, snr. D. Eugenia, as minhas ideias eram pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde, trate de viver, e deixe morte o cuidado de o apanhar, quando estiver distrahido. V. Ex. acha sensato estar-se a gente a vr morrer todos os dias? Eu no. uma doidice que no abre as portas de Rilhafoles, nem as da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua especie d cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas vises. Visconde _(ironico)_ Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex. ideias funeraes, e usurpava sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr. viscondessa. Viscondessa Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vr assim. Minha querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae. Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe dizer. Remoce este animo arido, e no o deixe voltar aldeia. E adeus, visconde. At amanh. Conversaremos muito... Ah! verdade! visconde, olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que l me conheceu ha vinte e tantos annos... Visconde Eu j hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na America ingleza. Viscondessa Est no Porto. Visconde No Porto?! Viscondessa E vem manh ao baile. Visconde Tenho certa curiosidade de o vr. Viscondessa extraordinario! Visconde Que singularidade so as do homem, viscondessa? Viscondessa o _incompris_!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance. _(O visconde solta um frouxo de riso)_ De que se ri, visconde? Visconde De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar... Viscondessa Espantar-se! de qu? Visconde Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex. pinta o homem, que, se nos conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel. Viscondessa Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!.. Visconde E, se elle maior de 50 annos, e finge o _incompris_, o incognito, o romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser ridiculissimo. No me tente, minha presada snr., que eu sou capaz de vir ao baile para no morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com uma aureola de mysterio. Viscondessa _(dando-lhe com a luneta no hombro)_ Magano! Cuida que toda a gente lhe ha de _fazer cauda_ na via dolorosa da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o corao desopprimido sob o pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos no affoguemos em diluvio de lagrimas. _(Com inteno.)_ Visconde _(pensativo e abatido)_ Eu que no posso rir-me; mas sei que ha coraes que no soffrem o pezo das consciencias que nada pezam. Viscondessa Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que no me esquea furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando vinha subindo. D. Eugenia Sim, minha snr., vamos colher quantas V. Ex. quizer. Viscondessa Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. _Sahem._--_(O visconde senta-se alquebrado)_. SCENA XV O VISCONDE E DEPOIS JOO Visconde _Ha muito quem ainda sinta o corao desopprimido sob o pezo da consciencia_, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha... Estas alluses moraes e penetrantes resaltam s vezes das consciencias mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado... Joo _(entrando com o Commercio do Porto; e, como no v o visconde, que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)_ No enxergo ninguem. _(Comea a lr, e vae sentar-se n'outra poltrona, que tem as costas voltadas para a do visconde)_ Deixa-me vr se ainda leio por cima. Acho que inglez, isto. Ser? No me parece. Quem sabe lr n'estes _coisos_ c o meu primo Joaquim que j foi entregador ou redactor ou no sei qu d'uma trapalhada d'estas. _(Lendo no alto da primeira pagina) Po, l, po, l t, ca, in, ter, na. Politega eterna._ Isto acho que a respeito da religio, ou l da eternidade do outro mundo. Vamos vr o que diz dos governos: _(Lendo na quarta pagina) Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando)_ No aqui. Ha-de ser mais abaixo, _(lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro._ Linguas de bacalhau! Isto chalaa aos deputados... _(O visconde tosse. Joo levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e se da sala derreando-se para no ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia por outra porta)_. SCENA XVI VISCONDE E D. EUGENIA D. Eugenia _(aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)_ Como est triste! que tem, meu pae? Visconde _(erguendo-se)_ Grande pezar de j ter sido alguma hora alegre, minha filha. D. Eugenia Parece qu a visita da viscondessa o contrariou. Visconde _(pegando do Commercio, e lendo mentalmente ao mesmo tempo que conversa)_ O conhecimento d'esta senhora no lhe convem, Eugenia. Estas mulheres, emancipadas da opinio publica aos vinte annos, no costumam ser as mais uteis amigas na velhice. D. Eugenia Amiga! Eu apenas a conheo, e no sinto a menor inclinao para ser amiga de tal senhora. Visconde _(lendo sempre. Declamao vagarosa)_ Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa de as saber. Esteja de preveno. Eugenia, acautele-se das mulheres que no tem outra virtude sabida seno a de murmurar dos vicios alheios. A viscondessa creio eu que no murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos de Lisboa. Alm d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas amigas. O seu industrioso plano dar a perceber que o vicio est por tal forma naturalisado que j no ha razo para espantos nem sequer para censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim smente que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral so assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente. Vivamente agitado, fixa attentamente o que est lendo, emquanto Eugenia se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se com grande exforo e disfarce. Depe o jornal, e toma o chapeu. D. Eugenia tem reparado na commoo do visconde)_. At j, Eugenia. D. Eugenia O pae est to pallido! Visconde Pallido! No sei o que seja!.. D. Eugenia Sente-se doente? Visconde No, minha filha... Isto so accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao jardim. Volto j. _(Se)_. SCENA XVII D. Eugenia, _(s)_ Elle a to mudado e sobresaltado! E estava a lr com tanta inquietao! Que seria? que viu elle n'este jornal?! _(Pega do jornal e corre os olhos pela primeira pagina)._ Que isto? _(estremecendo)_ Este nome... Jacome da Silveira! _(Faz meno de lr agitadamente, e l alto): Cego pela paixo feroz do ciume matou..._ Pois elle vive, meu Deus! Que commoo to funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me traga desventuras! _(Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de Villasboas!_ So estes os nomes!.. O desgraado vive!.. Ainda o verei? E poderia amal-o, se o visse? Oh! no... Eu vejo sempre o cadaver d'ella... _(Senta-se a soluar)._ SCENA XVIII D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS _(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)_ Rodrigo _(reparando)_ Estavas chorando, filha? D. Eugenia Estava. Rodrigo Porque? So as primeiras lagrimas que te vejo. D. Eugenia verdade... Rodrigo Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal... D. Eugenia Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste. Rodrigo _(procurando no fundo do jornal)_ No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creana? D. Eugenia No romance; aqui. _(Indicando-lhe o alto da primeira columna)._ Rodrigo Aqui na Correspondencia de Pariz? _(Ella faz um gesto affirmativo)_ Pois que ? _(Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis palavras, e depois l):_ Contar-lhe-hei um successo digno de atteno, e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia. aqui? D. Eugenia . Rodrigo _(lendo)_ Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no _Bois de Bologne_, me mostrou um sujeito que ia passando ssinho, triste e vagaroso. E depois me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco mais ou menos, um homem de considerao, residente em Lisboa, de nome Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada Martha de Villasboas, cego pela paixo feroz do ciume, matou a espoza. Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que matra sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que no tinha obrigao, vontade, ou necessidade de declarar o crime da senhora morta, porquanto j estava castigada, e a memoria d'ella no esperava da sociedade estigma nem rehabilitao. Perguntado como que se apresentava, respondeu: Como homem que matou. Na qualidade pois de homicida voluntario com premeditao foi Jacome da Silveira encarcerado, julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em atteno no sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D. Martha de Villas-boas morrra criminosa. O cumplice da adultera ra conhecido. Constava que o ro encontrra superabundantes provas do crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em no declarar o crime de sua mulher, a condemnao ra inevitavel, a no estar o jury, como no estava, altura da to infeliz quanto generosa alma do ro. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com que armar navio que o transportasse Europa ou America do norte, a no querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei d'quem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentena; completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvar de soltura, passou ao corao da Europa, e nomeadamente ao _Bois de Bologne_, onde hontem o vi. Tanto quanto de relance o pude vr, deixou-me uma impresso melancolica. N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a pagina que escreveram lagrimas choradas por espao de 24 annos. Na historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem no lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia. _(Declama):_ Mais nada. Saibamos agora porque choraste, Eugenia? D. Eugenia Porque chorei!? no foi to infeliz e triste a sorte d'esta senhora?! Rodrigo Triste? decerto foi; mas no era justo que fosse alegre. Esta mulher deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um corao honrado; elle matou um corrupto. No ha comparao racional entre os dous delictos. Se tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a condemnao a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam revelar a piedade abraada justia; mas chorar pela criminosa que... D. Eugenia _(atalhando-o)_ Tens razo... Perda s minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste comprehender a desgraa d'esse infeliz. Rodrigo _(pausadamente)_ Pois no assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no corao; depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo; depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentena; depois vinte annos sem patria; e finalmente... SCENA XIX OS MESMOS E O VISCONDE Visconde Que estavas tu dizendo to commovido, Rodrigo? Rodrigo Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. _(Mostra-lh'a no Jornal)._ Visconde J vi. D. Eugenia Parece-me que o pae tambem a leu com amargura. Visconde Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a. D. Eugenia Sim? eu vou. _(Se)._ SCENA ULTIMA RODRIGO E O VISCONDE Visconde Pungiu-te essa noticia, Rodrigo? Rodrigo Eugenia que estava chorando de compaixo da mulher que o marido matou. Visconde Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa espoza como Eugenia. Rodrigo Ento morreu innocente? Visconde No. Rodrigo N'esse caso, o confronto no lisonga minha mulher... Visconde Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando sahiu, sentia a febre da paixo que antecede a morte do brio e do pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. L as ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde comea: _Na historia ha duas victimas e..._ Rodrigo _(lendo)_ Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem no lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia. Visconde _(commovido at s lagrimas)_ Vs os meus olhos enxutos? Repra, filho, que eu estou chorando... Rodrigo Est; mas que querem dizer as suas lagrimas?! Visconde Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, ... teu pae. _(Rodrigo estremece. Corre o panno)._ FIM DO PRIMEIRO ACTO. ACTO SEGUNDO. A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde se dana. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano. SCENA I VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOS DE S Viscondessa Surpreza assim! Jos de S n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze dias no Chiado, e no me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa, com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu companheiro d'hotel, sem eu saber! H quantos annos o no encontro em bailes, conselheiro? Deixe-me vr se me lembro... Foi, foi, foi ha... Jos de S Ha 22 annos, minha senhora. Viscondessa Mas que maravilhosa converso foi esta? como que V. Ex. depois de duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a estes pedaos modernos da Babilonia antiga? Jos de S _(sorrindo)_ Milagres d'amr, snr. viscondessa, acho eu. Ha amres que rebentam no inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como no achem corao onde se hospedem dignamente, recolhem-se cabea, e tamanhos estragos l fazem que no raro vr em bailes muitos doudos que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de cabea de preto. Viscondessa Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo! Jos de S Pois est claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, so tudo sequeiros e conservas... O corao, como eu o sinto, verdadeiramente uma betarraba j curtida... Viscondessa Pois sim mas no zombe do amor, que no perda sarcasmos... Olhe que a occasio de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas... _(apontando para as senhoras que vo passando)_. Jos de S _(mirando-as com a luneta)_ verdade. Bem vejo. minha querida snr. viscondessa, defenda-me com o seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me. Viscondessa De todas. Jos de S De todas? pois tambem V. Ex. ter a crueldade de no poupar uma antiga victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado d'el-rei nosso senhor Dom Joo V. Viscondessa _(ironica)_ E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fra dos bailes! Jos de S _(rapido)_ Para o no perder, minha snr.. Viscondessa Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que se bronca dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito, e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vr. Entre por essas salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental. Espirito! Foi tempo. No ha hoje em dia quem saiba conversar cinco minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bcca. Jos de S Espirito de papoulas, no, minha snr.? Excellente coisa! Eu durmo ha muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez dos anjos pelo sal dos politicos. Viscondessa Ai! politicos! no me falle em politica que me estorce os nervos! Pois no sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez ir a Setubal dirigir as eleies contra o governo? Jos de S V. Ex. fez as eleies em Setubal? Isso tem graa; acho-lhe um sal, mais sal do que Setubal exporta! V. Ex. fez eleies? Viscondessa Fiz. Jos de S E venceu? Viscondessa Venci. Jos de S Est claro. Venceu. O amr vence tudo, inclusive as eleies. Um ou dois raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a urna, fariam o prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, querida viscondessa, V. Ex. no receou que os irritados manes de Bocage a satyrizassem em Setubal? Viscondessa Satyrizar-me, porqu? Jos de S Pois uma snr. toda poesia, toda flres, toda co, a combinar com as faces o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e cr de rosa, affeitos a volver as paginas do livro do corao, a profanarem-se na entrega das listas de costaneira! muito illustre e muito presada minha amiga, posto que V. Ex. qual outra Judith venceu o Holofernes administrativo de Setubal, no posso deixar de lhe dizer que se V. Ex. e as suas correligionarias comeam a fazer politica, eu e os meus correligionarios teremos de fazer meia. Este paiz muito pequeno, e a custo dar politica para o sexo feio. Viscondessa J vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma incapacidade para os actos do espirito. Jos de S No minha snr. Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras intelligentissimas e com grande capacidade. Viscondessa Mas com intelligencia smente honorifica. Concedem-nos a honra da intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creao, obrigadissimas... _(Reparando)_ Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece? Jos de S _(intencionalmente)_ No conheo Jorge de Mendanha. Viscondessa E no se lembra de ter conhecido este nome? Jos de S No conheci. Viscondessa Eu apresento-o! Jos de S _(parte)_ Tem graa a apresentao... SCENA II VISCONDESSA, JOS DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA Viscondessa _(a Jorge)_ Apresento o snr. conselheiro Jos de S, cavalheiro pertencente mais selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex. _(Indicando Jorge)_ O snr. Jorge de Mendanha. natural que j se hajam visto... _(Os apresentados apertam-se as mos, fixando-se de um modo que deixa entrever disfarce)_. Jos de S Certamente. Viscondessa Em Lisboa? _(Signal de comear-se uma polka. Rodrigo offerece o brao viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam rapidamente)_. Rodrigo _(offerecendo o brao)_ a terceira polka, minha snr. Viscondessa Ah! sim? vamos... D. Eugenia _(com distraco a Pedro Aranha)_ Sou seu par, snr. Aranha? Aranha Sim, minha snr.; mas, se V. Ex.... D. Eugenia _(desprendendo-se do brao de Jorge)_ Desculpe, cuidei que... _(Sem os dois pares)._ SCENA III JORGE E JOS DE SA Jos de S Que vieste, afinal, fazer aqui? Jorge Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justia do co. Agora, vim vr como a justia do co sentenciou. Quero vr, face a face, e sem que me conheam, o homem que matou a alma da mulher que a sociedade disse que morreu s minhas mos. Morta estava ella. Matou-a quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentena de desterro suprema alada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora, o que presenceamos, meu amigo, faz-me desconfiar que a justia celestial no desce a sujar as suas balanas n'este lamaal da terra. _(sorrindo)_ Suspeito que o meu recurso de revista foi l em cima julgado por desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de c. _(Triste e concentrado)_ Ainda o no vi; mas sei que estou nas suas opulentas salas. Aqui de certo no mora a desgraa. Os infelizes no accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou Martha, e atirou s mos da minha vingana esse cadaver, Heitor de Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma cora de visconde, saborea-se nas dces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danas. _(Ouve-se a orchestra, por um breve espao, durante o qual Jorge medita concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota acompanhando a declamao)_ E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de minha casa, leveio-o ao intimo do meu lr, puz na sua mo a de uma mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no corao o despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi dos trez o desgraado? E ella jaz onde a infamia lhe no peza. Eu venho de arrastar meia existencia debaixo de um co maldito. Heitor de Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade respeita-o. Nos seus sales esto os sabios, os virtuosos, os ricos, e tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra que amava mais, lavei o sangue de minhas mos com lagrimas em vinte mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vr o que a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz. Respondi, Jos de S. No me perguntes mais o que vim aqui fazer. SCENA IV OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAO DE RODRIGO Viscondessa _(descendo para o proscenio)_ Mas o visconde no vem, snr. Vasconcellos? Rodrigo Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama bastante incommodado, e com tenes de ir esta madrugada para a provincia. Viscondessa Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animao; mas, em verdade, muitissimo abatido de espirito est elle! O snr. conselheiro, no viu ha muito o visconde de Vasconcellos? Jos de S Ha vinte e trez annos, minha snr. Viscondessa Ento no o reconhece, sem que lh'o mostrem. Rodrigo _( viscondessa)_ V. Ex. quer aqui ficar? _(sorrindo)_ Eu no posso deixar de ir ser testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr. Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto no intdiasse antes da meia noute o cavalheiro que vem dos sales de Pariz. Jorge Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos. Rodrigo Mas tambem viajou na Europa... Jorge Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas no frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de V. Ex. no poderiam temer-se da confrontao. Rodrigo snr. Mendanha... _(Rodrigo fica gesticulando com Jorge)._ Viscondessa _(que tem estado a conversar com Jos de S)_ Nada, polkas no quero mais. Bate-me o corao espantosamente. Olhe este pulso, snr. S. Jos de S _(apalpando-lhe o pulso)_ Valentissimo! o palpitar dos 18 annos, vida, sangue que pula, que polka n'um corao ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex. tem um aneurisma... Viscondessa O qu? Jos de S Um aneurisma d'amor, no se assuste. A viscondessa j sabe que no se morre de taes aneurismas. Viscondessa Acha? Este S o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde a elegia, este o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazo d'este rapaz... Jos de S cruel! Pde caber tamanha vingana em alma to dce? Chegamos a um tempo em que at os favos de mel se azedam! No me disse ainda ha pouco, minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de annos como anachoreta selvagem? Viscondessa Fra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoam e esvoaam como... Jos de S Como morcegos nas torres da Conceio velha. Viscondessa _(a Rodrigo)_ Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vr seu pae assim galhofeiro, snr. Vasconcellos. Rodrigo _(sorrindo, a retirar-se)_ Pois eu logo que o veja, snr. viscondessa... Pde ser que o duelo de espirito em que V. Ex.as to destramente se batem, produza no meu velho e melancholico pae uma inveja salutar. _(Se)._ SCENA V JORGE, VISCONDESSA E JOS DE S Viscondessa _(acautelando-se de que a ouam os que atravessam a sala)_ conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!.. Jos de S N'aquella tragedia... ah! sim,.. No recordemos, no recordemos... Jorge Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias. Viscondessa Se V. Ex. esteve em Lisboa ha 20 e tantos annos ha de lembrar-se de uma senhora que o marido matou por ciumes... Jorge Injustos? Viscondessa Isso no. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos. No se recorda? Jorge Tenho uma vaga lembrana. Viscondessa Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, Jos de S? Espere... era Silveira no era? Jorge Conheceu-o V. Ex.? Viscondessa No. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que no recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa seleco das amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a despenhassem no abysmo. _(Rindo)_ Ha assim muitos maridos que rodeam as mulheres de anjos; mas Satanaz que indisputavelmente mais esperto que os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue s vezes pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos tristes e at certo ponto compromettidos. o que aconteceu s irreprehensiveis amigas da pobre Martha--umas creaturas que andaram pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a no co, para poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo... Jos de S Intrepida lingua, snr. viscondessa! Espada de dois gumes! Viscondessa A minha lingua no intrepida, portugueza. Jos de S Seja; mas os mortos que durmam em paz. Jorge Mas eu pediria snr. viscondessa que me relacionasse com todos os mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Ter V. Ex. a bondade de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja atteno s pde ser captiva de grandes desgraas? _(Jos de S com ar de enfado vae ao fundo e torna)._ Viscondessa Sim, eu resumo a historia em duas palavras para no ferir a sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua intimidade. No sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou interceptou a correspondencia. O que penso que Martha no soube esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que eu conheo, e o conselheiro tambem conhece, no acha? Jos de S Eu conheo muitas esposas excellentes. Viscondessa Mascaradas? Jos de S _(apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo brao de Pedro Aranha)_ Ahi tem um modelo de esposos. Viscondessa Cazou ha anno e meio. SCENA VI OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA D. Eugenia Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomra eu tambem fugir. Pedro _(a D. Eugenia)_ A snr. viscondessa hoje muito generosa com V. Ex. D. Eugenia Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr. viscondessa? Pedro Se V. Ex. quizer, despovoa-lhe as salas onde se dana. Basta annunciar-se que a snr. viscondessa est aqui derramando as perolas do seu espirito. Viscondessa Cuida que est lisongeando uma _femme savante_ de Moliere este Trissotin em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peonha que o appellido quando quer ter um espirito de ventosa. Pedro Eu sou das aranhas que no tecem a sua teia em todas as ruinas. Jos de S _(parte)_ Bravo! esto bonitos! D. Eugenia _(ouve-se a orchestra)_ Vai danar-se, snr. viscondessa. Viscondessa Eu no vou danar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro S. Estou a imaginar-me com vinte e dois annos. Isto bom e innocente recreio. Se a gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos. D. Eugenia _(a Jorge)_ E V. Ex. est triste? Jorge minha senhora, no... D. Eugenia Est; pois eu no vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de Rodrigo e como eu... Pedro _(ao novo signal da mazurka)_ Vamos, minha snr.? _(Sahem. Movimento dos pares atravessando no corredor)._ SCENA VII VISCONDESSA, S E JORGE Viscondessa J viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que no gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa companhia lhe mediocremente agradavel; no acham?.. Jorge Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada s salas. do Porto? Viscondessa Nada, no ; mas eu tambem no sei d'onde seja. Este casamento de Rodrigo d dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em Portugal. Jorge Os romances portuguezes pde ser que sejam semsabores; mas as tragedias tem um no sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos tragedia, snr. viscondessa, tragedia interrompida. Viscondessa Pois eu no conclui? Jorge No minha snr. V. Ex. chegou ao ponto em que... Viscondessa Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se justia. Ajude-me a recordar, snr. Jos de S? Que explicaes deu o Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos? Jos de S Silveira no deu explicao alguma, snr. viscondessa. Viscondessa _(com impeto)_ Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me lembro! ora esta! pois V. ex. no era o amigo intimo de Silveira? No passava os dias com elle no Limoeiro? Jos de S Passava, minha snr. Viscondessa Ento aqui tem o melhor informador que V. Ex. podia encontrar. Conte o que sabe, conselheiro. verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que feito d'ella, sabe? Jos de S No sei. Viscondessa Ento que sabe? Esta ignorancia singular, por no dizer irrizoria! Querem vr que a candura d'este varo se est insurgindo contra uma historia de corrupo social. Jos de S _(sorrindo)_ Isto no candura, minha snr. Eu estou corrompido bastantemente para no ser tolo. Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex. que no sei o que feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que insistencia, senhora! Tendo V. Ex. tantas flres e tantas coisas cheias de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua gentil conversao com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e infamias a perdoar? Jorge _(severamente)_ A perdoar! Viscondessa E eu accuso alguem! O snr. est exquisito! Eu no sei se a Humanitaria d medalhas aos sentimentalistas como V. Ex. Este snr. se vir representar o Othello de Shaskspeare se do theatro para no vr historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. capaz de os ir accusar policia! Jos de S Eu no me retirava do theatro, nem iria accusar policia as adulteras mortas visto que no accuso as vivas; no sahiria do theatro; mas em vez de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte noite, iro vr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da adultera e do seu cumplice. Viscondessa Optimo! Isso bom, bonito e eloquente. Mas eu, se no desmaio quando vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me no rio dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que fizeram do seu corao um filtro de peonha e de infames lagrimas. Quando Martha de Villasboas foi morta, eu no fui das que se vestiram de lucto e andaram pelas egrejas a fazer-lhe uns baratos suffragios pela alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que no pde dispr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam s egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a f que ensina a rezar pela salvao das almas, rezava em caza. No indo egreja, nem saindo a irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei bastantemente a desgraa de ambos. E, se as minhas oraes valessem perante Deus, eu pediria perdo para ella, e misericordia para elle. Jorge Esse grande desgraado, se ouvisse a snr. viscondessa, cuidaria que houve no mundo duas pessoas que choraram por elle... Viscondessa Eu que tinha sido excluida das relaes de Martha, fiz mais, snr. Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a minha amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforos para descobrir a paragem da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha, leval-a-ia para minha caza... _(Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha tem entrado na sala que vo atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao que se est dizendo: e solta com sobresalto uma exclamao quando a viscondessa termina)._ SCENA VIII OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA D. Eugenia Ah! Pedro Que tem V. Ex.? D. Eugenia _(aproximando-se do grupo com dissimulado socego)_ V. Ex.as estavam conversando a respeito de... Viscondessa De frivolidades, minha snr. D. Eugenia _(com muito embarao)_ Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu no devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr. viscondessa. Viscondessa No minha snr. Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a sociedade de Lisboa de ha vinte annos. D. Eugenia Pois sim; mas V. Ex. no fallou de uma senhora chamada Martha de Villasboas?.. Jorge Fallou, snr. D. Eugenia. E que sabe V. Ex. da pessoa que teve esse nome?.. D. Eugenia _(encarando-o com susto)_ Nada... Jorge _( parte a Jos de S)_ Sabe a historia do sogro. Jos de S _(o mesmo)_ natural. Viscondessa O senhor Aranha, diz-me onde est a prima Travaos... Pedro Eu conduzo V. Ex. _(d-lhe o brao.. Sahem)._ SCENA IX D. EUGENIA, JORGE, S Jorge _(aproximando a cadeira)_ De Martha de Villasboas estavamos ns effectivamente conversando, minha snr. Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex. teria apenas nascido. D. Eugenia V. Ex. conheceu-a? Jorge Vi-a. Quer V. Ex. provavelmente que se lhe conte um episodio da historia de seu sogro... D. Eugenia _(erguendo-se de impeto)_ De meu sogro? No intendo... que tem que vr meu sogro com essa senhora? Jos de S _( parte a Jorge)_ Descrio. _(Se)._ SCENA X D. EUGENIA E JORGE Jorge No semblante angelico de V. Ex. reluz sinceridade. No posso crr que a snr. D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem no posso perceber o ar de interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas. D. Eugenia Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a desventurada sorte d'essa snr. Jorge Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no corao o d da mulher que teve a infelicidade de ser amada do marido at ao extremo de ser morta por elle... D. Eugenia E elle amava-a!? Jorge Que pergunta! Pois no v que elle a matou por ciumes? D. Eugenia _(como aterrada)_ Matar! que horror, meu Deus! Jorge O horror no matar; sobreviver a esse cadaver que deixa uma herana de deshonra eterna. O horror viver com o pezo d'esse cadaver, no sobre a consciencia, mas sobre o corao esmagado para nunca mais ressurgir. Para que V. Ex. possa sem espavorir-se, pr os olhos de sua alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado, ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que vem sempre de caricias, sente a preciso de redobrar de ternura e gratido. Veja-o de joelhos, ao p de um bero onde lhe brincava com os beijos uma creana que elle chamava filha... D. Eugenia _(com impeto)_ Ento V. Ex. conheceu-o? Jorge Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A me descaroada vae ao bero onde est a creana, grava-lhe no rosto o labo da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O marido e pae de repente arrancado a impuxes de opprobrio dos braos de uma esposa querida. Quando lhe elle agradecia as alegrias de seu amor, e a creana sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha punha um p sobre o corao do marido, outro, sobre o seio da filha, e repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por espao de quatro annos lhe beijra os ps, fez um desgraado sem nome; mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe assassino. Elle matou-a, snr. D. Eugenia; foi a si proprio que elle se matou. Era foroso espedaar a alma que se identificra ao corpo contaminado da mulher perdida. As convulses do veneno dilaceraram-lhe duas robustas vidas, a do corao e a do pundonor. O anjo que esse homem chamava filha cahiu dos braos da me, e elle repulsou-a dos seus, porque... no sei onde esto torturas comparaveis s da incerteza entre um bero onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam a podrido de uma coisa infame como a mulher que deixou seus filhos envergonhados se lhe proferirem o nome. Peo perdo, se estou magoando a sua sensibilidade, minha snr. V. Ex. est soffrendo, e eu disse palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex. chora?! porque? D. Eugenia E porque no pediria essa criancinha a vida de sua me? Ella choraria o seu remorso ao p do bero da filha... O desgraado que praticou um to duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orf no ficasse to sem abrigo, caridade de estranhos... No se mata uma me que tem nos braos uma criancinha de tres annos. Jorge _(severo)_ Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a criana podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que cobarde, deveria retribuir a deshonra da me, repartindo com a orf as pompas d'esta casa. D. Eugenia _(vivamente agitada)_ No entendo, snr.! Porque diz V. Ex. que a filha de Martha devia ter parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo este de que vae estalar uma grande desgraa... Olhe que atroz a minha desconfiana... horrivel... e eu receio morrer... Jorge incomprehensivel o susto de V. Ex.! Receia morrer... porqu? A snr. D. Eugenia est formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que no ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a historia d'um homem atraioado, e d'uma mulher morta... D. Eugenia Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento? Jorge E quando tivesse, minha snr.? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex. incapellarem-se grandes tormentas volta das pessoas como seu sogro? D. Eugenia Mas... s duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro foi quem perdeu Martha.... foi? _(Agitando os braos, desprende-se-lhe uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e estremece)._ Jorge _(rancoroso)_ Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora? D. Eugenia Retrato! isto no retrato... Esta pulseira deu-m'a... Jorge _(interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)_ Seu sogro? Esse ignobil costuma dar s esposas dos filhos os retratos das amantes? D. Eugenia Jesus! Oua-me... Jorge Sabe a snr. que este retrato o de uma adultera que se chamou Martha? uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta pulseira entre as joias do noivado? _(Arroja a pulseira ao cho, e vae pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente)._ D. Eugenia Pois este retrato o d'ella? _(beijando-o e soluando)_ Oh! eu no sabia... Vem gente... no quero que me vejam chorar... siga-me... eu tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. _(Toma-lhe o brao e sahem rapidos)._ SCENA XI VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOS DE S Visconde Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as foras me deixassem preparar para a jornada... Jos de S Para onde vaes, visconde? Visconde Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da sociedade o Leproso de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te no vejo, Jos de S. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Ests ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos. V-se que no inclinaste a cabea para o peito a chorar. No afogaste em lagrimas, quando eras moo, os embries d'onde te floriram as alegrias da velhice. No fui eu assim, Jos de S. Sabes que formidavel trance me envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda no levantou a mo inexoravel. No pdes imaginar o que ha sido a minha vida. Jos de S Basta-me vr-te para crr que tens soffrido; porm, no o imaginava eu assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a fallar verdade; no me parecem bastantemente significativas da vida dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens. Visconde Jos de S, o mundo quando v padecer os grandes criminosos, recusa acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes veja lagrimas nas rugas do rosto, no tem compaixo d'elles. A sociedade cr pouco nos castigos occultos da justia divina, porque no conhece justia efficaz e exemplar seno a dos carceres, dos degredos e das forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais miseravel e despresivel homem... quando me foi foroso esconder no meu antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel. Jos de S Os teus amigos cuidaram que terias ento a louvavel e virtuoza coragem do suicidio. Visconde A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de mim desgraas tamanhas, o matar-me ento seria coragem? O partir a corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio seria coragem? Eu n'aquelle tempo no tinha o menor vislumbre de religio, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para no vr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de valor? No. Valor ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em que eu no poder chorar, descrerei de Deus e ento... matar-me-hei, por intender que expiei acerbamente, e no fugi ao castigo... Jos de S Mas parece que fugiste do duelo. Visconde Eu no podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como eu aceitam uma bala, no aceitam um contendor no campo da honra. Matam-se, no se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu apontasse um florete ao corao do marido de Martha? Se eu o matasse atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?. Jos de S Mas a sociedade, quando v os delinquentes na tua condio, pergunta como que expiam. Visconde Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade? Jos de S No: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade creio eu que no te pergunta nada. D-lhe bailes; que a sociedade troca por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dana no dilacera reputaes. Evita, quanto puderes, ser desgraado e pobre. Isso que se no perda. Ainda que os remorsos te cortem o corao, s tu rico, e vers que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo da fara humana em que os trues sacodem os cascaveis para que no ouas os gemidos da tua consciencia. Visconde Eu no dou bailes; d-os meu filho que moo, e no se priva dos gozos da mocidade porque me v chorar. Jos de S, tens sido duramente severo comigo. No me queixo. Generosamente me apertaste a mo; e eu no merecia tanto. Se alguem houvesse compaixo de mim, no serias tu por certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflices superiores ao entendimento de desgraados maiores do que eu. Chorei-os ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das alegrias da honra e do amr... e atirei-os voragem do opprobrio e da morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu no tenho rehabilitao... no posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu remorso. _(Cahe extenuado numa cadeira)._ Jos de S _(comtemplando-o, e entre si)_ No te erguers no, infeliz! Pza-te na consciencia o cadaver de Martha... SCENA XII OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO FUNDO Viscondessa Ai! alli est o visconde! _(aproxima-se inclinando-se)_ Visconde! Visconde Minha senhora... _(levantando-se a custo)._ Viscondessa Soubemos agora que V. Ex. tinha chegado, e procuramol-o em todas as salas. Reanime-se! Visconde Estou bem, snr. viscondessa.. E V. Ex. tem-se enfastiado? Viscondessa No me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha de mandar sahir d'este paraizo. Pedro Onde todos os pomos so prohibidos. Jos de S E os maduros tambem? _(tregeitando como alluso viscondessa)._ Viscondessa Os verdes principalmente que so prohibidos pela mesma razo que o eram as uvas rapoza; no acha, snr. Pedro Aranha? Pedro Eu acho que V. Ex. sabe tudo, adivinha tudo, a arvore da sciencia d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depr o meu inveterado scepticismo s plantas de uma menina portuense. Jos de S E eu no admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas, s quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de scepticos, e de jovens canados d'amor que se deploram em Portugal por versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua rua. Viscondessa _(ao visconde)_ Que abstraco! que melancholia! Distraia-se!.. visconde _(indigitando um par)_ quem aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro do menino respectivo? Visconde No sei, minha snr. Eu conheo n'esta sala V. Ex. e a mulher de meu filho. Onde est Eugenia? Viscondessa uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi passar pelo brao de Jorge de Mendanha. Visconde No tive o prazer de vr esse cavalheiro, e provavelmente j o no verei por que vou sahir. Jos de S Tu no ests hospedado em casa de teu filho? Visconde No, Jos de S. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os no mortificar com a presena continuada d'uma velhice repellente... Viscondessa Ahi vem lamentao do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo da mortificao!.. Ah! aqui vem a snr. D. Eugenia com Jorge Mendanha. SCENA ULTIMA OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VO PASSANDO _Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pra, em frente do visconde, largando o brao de Eugenia e deixando pender os braos. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo._ Rodrigo _(a Mendanha)_ Tenho a honra de apresentar a V. Ex. meu pae. _(O visconde est fitando convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mos em attitude de quem repelle uma viso, e cahe nos braos de Eugenia e de Jos de S)._ Rodrigo _(avisinhando-se com altivez de Jorge)_ Quem o senhor? Jorge _(apontando para o visconde)_ Pergunte-lh'o. _(Desce o pano vagarosamente)._ FIM DO SEGUNDO ACTO. ACTO TERCEIRO (1. QUADRO) Sala do hotel de Francfort.--Vem-se gallegos atravessar carregados de malas. SCENA I VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS Viscondessa _(em trajes de viagem)_ A carroagem ainda no chegou? Creado Foi-se chamar, snr. viscondessa. Viscondessa _(irritada)_ Parece que as carroagens no Porto no se mandam buscar, mandam-se fazer. A velocidade aqui impossivel, fra do carroo! Ai! Lisboa, Lisboa! Ol! _(ao creado)._ Creado Minha senhora. Viscondessa O snr. Mendanha j se levantou? Creado Parece-me que ainda se no deitou. Desde que chegou do baile tem passeado sempre no quarto. Viscondessa _(ao creado que est sacudindo o pano da jardineira)_ sr homem! Creado Minha senhora. Viscondessa O snr. conselheiro Jos de S est com o snr. Mendanha? Creado Est no quarto d'elle. Viscondessa Est mais alguem de Lisboa n'este hotel? Creado Mais ninguem, snr. viscondessa. Viscondessa _(tirando dois bilhetes d'uma carteira)_ Pegue l: d estes bilhetes aos snrs... Creado Ahi vem o snr. conselheiro. _(se)._ SCENA II JOS DE S E VISCONDESSA Jos de S Que madrugada esta! V. Ex., uma hora da tarde, j radiosa, em trem de viagem! Viscondessa No dormi nada, tenho os nervos em convulses, estou doente, e vou para Lisboa no _Lusitania_ que se s duas horas felizmente. Que me diz scena melodramatica do baile? Jos de S Pareceu-me mais tragica do que melodramatica. Viscondessa Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo d'um anachronismo e mo gosto revoltantes! Se os maridos atraioados comeam a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os sales ho de tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um bravo de Veneza em veteranos. Jos da S No se graceja assim com o infortunio, snr. viscondessa. Viscondessa Ora pelo divino amr de Deus, snr. S! A gente no ha de vestir-se de lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os ares carregados e funebres da _vendetta_, e esmurraasse na Praa Nova ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma _toilette_ mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes, para afinal de contas ajuntar o escandalo irriso, sinto dizer-lhe, conselheiro, que um soberano disparate, e que o seculo vae muito luminoso para podermos receber a srio estas excrecencias da idade media. Que diz? Jos de S Eu no disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr. viscondessa de Pimentel. Viscondessa Eu no armo admirao, meu presado conselheiro; quero apenas que me vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira dizer-me: no estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O visconde no fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e d'elle? Isto verdade: que diz? Jos de S Ainda no disse nada, minha senhora. Viscondessa Bem sei que no disse nada. O snr. S ensaia-se para estadista n'esta diplomacia de _boudoir?_ Parece-me que desperdia a sua infinita sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas insignificantissimas. Jos de S _(sorrindo)_ Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex. Se continua a injuriar-me, ai da viscondessa e de mim! Viscondessa Mas rebata isto, snr. S. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de Martha? Reviver miserias... Jos de S Minha senhora, no bula V. Ex. n'ellas, que a memoria de Martha sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa. Viscondessa Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabea de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos concorridas? Jos de S _(ironico)_ No reparei n'esse escandalo! Viscondessa No? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graa e que profundo mysterio no teria o apaixonar-se Eugenia... _(rindo)._ Jos de S Ora, minha senhora... V. Ex. traz a sua formosa cabea repleta de mos romances... Bem se v que os seus nervos andam destemperados pelo terror das tragedias... _(ouve-se o rodar da sege)._ Viscondessa Ahi est a sege... Adeus. _(apertando-lhe a mo)_ Vou por casa de Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a no poder vr de relance. Jos de S Vae auscultar-lhe o corao a vr se effectivamente est apaixonada pelo meu amigo? Viscondessa Quem sabe?... quem sabe... Jos de S Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja mais arriscado que o de Eugenia... Viscondessa _(fazendo-lhe uma mezura antiga)_ _a n'est pas gentil, mon cher. Au revoir._ Jos de S _(cortejando-a profundamente)_ Sempre admirador e sempre admirado. _(A viscondessa se)._ SCENA III JOS DE S E UM CREADO Creado O snr. Mendanha mandou-me saber se V. Ex. j estava a p. Jos de S Diga-lhe que estou aqui. SCENA IV JOS DE S E DEPOIS JORGE Jos de S necessario revelar a este infeliz as minhas esperanas de ainda podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao corao a certeza de que sua filha. _(Examinando a carteira)_ Felizmente que tenho comigo a carta. Se no alcano nortear-lhe o espirito para outro destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomear as desventuras d'este malfadado homem. _(A Jorge que entra)._ Descanaste? Jorge Nem levemente: comeo a vr novos abysmos. Jos de S Tambem eu, Jacome. Jorge Esta minha vinda a Portugal... Jos de S Eu no t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingana, fizeste bem no me consultar. Eu te responderia que uma grande calamidade no justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a honra que ensanguenta as mos s pde a allucinao desculpal-a, e que um assassinio premeditado vinte annos um acto de selvageria, se a demencia o no desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudana de nome no podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu. Jorge _(interrompendo-o e levantando-se com impeto)_ A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me, se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que lhe atiram. Comigo no foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de mim a vibora que me crivava o corao de infernaes farpas; mas a sociedade e a sua justia vieram e bradaram-me: Vae, condemnado; vai-te sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem! Vae-te n'essa leva de ladres e facinoras; vae contar na Africa as horas de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo teu desforo os centenares de despejados que no consentem que tu sejas mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidado, se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a considerao dos honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse o ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses em publico a mo que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra de mera conveno chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti, assassino, que a vida humana no era inviolavel? Eras marido amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez annos de idolatria no imaginaste sequer que o teu amor podesse ser assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mo que beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? No importa. A vida humana inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a so tantos que no se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir o dardo do corao, bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na inviolabilidade da sua devassido... assim que a sociedade falla aos desgraados como eu, Jos de S? Jos de S Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peo que vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que legislam para as paixes no conforto do seu gabinete. Esses taes nos daro exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, no me perguntes se a tua vingana est cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse esmagado homem que hontem noute viste cahir nos meus braos. Que queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? No o vs to dobrado pela mo da Providencia? No lhe vias na face a escurido profunda d'aquella alma? Jorge E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar? Jos de S Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda no esteja fechado. Jorge Essa suspeita vinda de outro que no fosses tu seria ultrajante. Se nos meus designios entrasse a morte de tal homem, eu no praticaria o abjecto ardil de entrar disfarado em sua casa. Hontem te disse no baile o que alli fra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da sua ignominia. No tenho mais que vr. A vida o patibulo d'aquelle condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que no falte nada ao seu supplicio at a coragem do suicidio o desamparou. Creio em ti, Deus! No se perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem chorar no so os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingana, Jos de S, completa-se com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. No tenho mais que fazer em Portugal. Jos de S Tens. O teu corao pde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor existe. Jorge A filha de Martha? Jos de S A tua filha. Jorge Minha!.. No me afflijas. Olha que ainda se faz noite na minha alma, se vejo a imagem d'essa creana. Minha! que absurda nova! onde foste saber que ella era minha filha? Jos de S Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mo da Providencia, por que duvidas crr que a Providencia premeie as tuas agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a creana que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue, do teu corao e da tua alma? Jorge _(com vehemencia)_ Queres tu enlouquecer-me? queres que eu v d'essa esperana tristeza mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e minha filha? Jos de S Escuta. SCENA V OS MESMOS E UM CREADO, O CREADO COM UM BILHETE DE VISITA N'UMA BANDEJA Jorge _(lendo)_ Rodrigo de Vasconcellos _(Declamando:)_ Que vem aqui fazer este homem? No lhe fallo... Em que occasio!.. Jos de S Ha de sobrar-nos tempo. Falla-lhe; mas no deixes apagar pela rajada da colera a ideia luminosa de que tens uma filha. _(Ao creado)_ Que entre. _(O creado se)._ Vou para o meu quarto. Quando elle tiver sahido voltarei. _(Se)._ SCENA VI RODRIGO E JORGE Rodrigo _(com altivez sarcastica)_ No sei a quem tenho a honra de me dirigir. Jorge J tive a honra de lhe dizer que o perguntasse a seu pae. Rodrigo _(com solemnidade e tristeza)_ Meu pae no me responde. Soffre em silencio, e eu receio que elle morra. Quem o snr. que entrou nas minhas salas, e introduziu no seio da minha familia o escandalo e a desgraa em presena de centenares de testemunhas? Jorge Entrei nas suas salas, tencionando sahir d'ellas dignamente como seu pae no costumava sahir. No dei escandalo. Os seus convidados viram um homem estremecer e desmaiar diante de mim sem que eu lhe chamasse sequer infame. Rodrigo Lembro-lhe que est fallando com um filho do visconde de Vasconcellos. Jorge Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex., para todos os effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando convidei seu pae a vr nas douras da minha vida intima o soberano bem d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo e o corao da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma adultera. Deshonrou-me. Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me; esperei a sentena, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi de Africa. Vim vr seu pae. Vl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel at ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fl-o asqueroso. Deixei-o Providencia, que sabe a raso mysteriosa porque taes creaturas se fazem. Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira. Rodrigo Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. No creio. Jorge Informe-se. Rodrigo Meu pae um cavalheiro. Jorge Em relao a mim, seu pae um villo. Desejo que V. Ex. no torne irrisoria esta nossa j longa, primeira e ultima pratica. Parece-me irracional, seno insensata a noticia que me d do cavalheirismo de seu pae, quando eu lhe conto uma historia... Rodrigo _(com desdem)_ Vulgar. Jorge So vulgares na sua familia estas historias? Semelhante cynismo vae mal e indecorosamente a um marido! Bom ser que sua senhora no se familiarise com historias assim vulgares, principalmente se aos infamissimos personagens se d o nome de cavalheiros. Rodrigo Minha mulher no tem que vr com a nossa entrevista, snr. Jorge De accrdo. Respeito-a muito. Nunca vi lagrimas mais dignas da virtude. pena que ella chore n'este tremedal... Rodrigo Insisto em affirmar que meu pae cavalheiro. No ouso condemnar as fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com to elevados conselhos e exemplos. Jorge _(sorrindo)_ Exemplos! Rodrigo Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traou. Adivinhei que elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e s. Ha trez dias soube a causa da sua longa expiao--expiao emfim acabada, porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e estende os braos para a bemaventurana da sepultura. No entanto, se elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex. encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe no fugiu; mas fugiu horrenda contingencia de matar o homem que tinha offendido. Permitta Deus que meu to honrado quanto infeliz pae restaure, pouco que seja, de suas foras, e V. Ex. conte com um peito bem a descoberto do seu ferro, se sua vingana se fazem necessarias algumas gottas de sangue. Jorge Regeito. Eu quero que seu pae viva. Rodrigo Sem embargo d'essa sarcastica concesso de vida, cumpre-me dizer ao snr. Silveira: primeiro, que tenho um s nome, e que o no mudarei quando houver de insultar o mais valente, ou o mais covarde; segundo, que, morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na posio alta onde os vituperios de V. Ex. no deviam chegar; terceira, que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira ter a coragem que inculca. Jorge Eu tenho apenas inculcado desprso; e d'hora em diante no poderei seno inculcar o tedio que o snr. Vasconcellos me est fazendo. _(Aponta-lhe a sahida da sala)._ Rodrigo Concluiremos n'outra parte. _(Se)._ SCENA VII JORGE E JOS DE S Jos de S Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se esto encadeando outros elos corrente das tuas fatalidades!.. Como evitars o duelo? Jorge _(serenamente)_ Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou profundamente. Via-se ali um filho, nobre corao de filho. D'uma vez divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um desgraado digno de compaixo, eu creio que lhe diria: Pea a Deus que quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a ss com o fantasma que o arrasta sepultura... E, depois, que immensa piedade me fez a mulher d'este moo, aquella doce alma que se desfazia em prantos pedindo-me commiserao... Jos de S Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado pela tua presena, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho desafia-te. Irs ao campo. Se o matas, matars um homem que quiz, com ou sem razo, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas preciso de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que no odeia. Que rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga creatura que hontem chorava diante de ti com a unco do anjo que pede commiserao para a perversidade humana? No te disse ella que, se tivesses uma filha, os odios entranhados em teu corao sahiriam nas primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar essa, filha de cujo amor depende a tua regenerao. Vejamos se ainda ha n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanas fallecerem, joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para morrer entretido. Jorge Vamos... conta-me o teu sonho. Jos de S O meu sonho, se sonho , comea na deploravel noite em que D. Martha sentindo aproximar-se a morte... Jorge Depressa. Jos de S Antes de expirar escreveu uma carta. Jorge A quem? Jos de S _(tirando a carta da carteira)_ irm que tinha no convento da Encarnao. L. Jorge _(examina a lettra com grande commoo)_ L tu... No posso. Jos de S _(lendo)_ Minha irm, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que Leonor filha de meu marido. Elle disse que no era seu pae quando eu lhe pedi que a no desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao ir d'esta vida presena de Deus. Se elle a desamparar, d-lhe tu metade do teu po. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha. D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu do convento, e entrou em tua casa, quando a irm era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha. Indaguei na Encarnao; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada. Jorge E soubeste depois?.. Jos de S Quem o sabia era um teu creado velho que j o havia sido do pae de Martha; mas esse disse-me que jurra a D. Maria da Gloria nunca divulgar a residencia da filha de sua irm. Jorge Porque? Jos de S Porque no queria atirar aos desprsos do mundo a filha d'uma senhora assassinada... Jorge Nada me disseste... Jos de S Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te l mortificaes. Alm de que a delicadeza impunha-me o dever de te no fallar da creana que tu no julgavas tua filha. Jorge Mas esta carta... Jos de S Esta carta est em meu poder ha dois annos. Jorge Quem t'a deu? Maria da Gloria? Ento onde est Maria da Gloria? onde est minha filha? Jos de S Quando ha dois annos voltei da Exposio de Pariz, encontrei no meu escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um empregado do hospital de S. Jos, pedindo-me que chegasse l para negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento onde tua filha estava, expirou golfando sangue. Jorge E afinal? onde est minha filha? Jos de S At hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias nos conventos de Lisboa; mas tu vaes lanar mo de recursos em que tenho toda a confiana. Jorge Quaes? Que esperanas me ds, Jos de S? SCENA VIII OS MESMOS E UM CREADO Creado Procura V. Ex. o snr. Pedro Gavio Aranha. Jorge _(a Jos de S)_ J ser o cartel? _(ao creado)_ Que entre. _(O creado se)._ Jos de S _(sorrindo)_ Jacome, olha que temos de procurar tua filha. Jorge Na eternidade? SCENA IX OS MESMOS E PEDRO ARANHA Pedro _(cortejando-os)_ Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha misso triste... Jorge _(risonho)_ Eu havia adivinhado a sua misso triste. Pedro Que tinha V. Ex. adivinhado? Isso extraordinario! Jorge Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos? Pedro No, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter sangue, ser o de suas lagrimas. V. Ex. entrando n'aquella casa, fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma creancinha que me parece condemnada a no poder dizer o nome de seus paes. Jorge Que lhes fiz eu? Pedro Creio bem que V. Ex., trasido na onda da fatalidade, seno antes pela mo da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, no as promoveu voluntariamente. O snr. Jacome da Silveira quando entrou em casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D. Eugenia, decerto no podia prever que ia separar os dois esposos dilacerando-os pelo corao. Jorge No o entendo, snr. Aranha!.. Que ? Eu separei e dilacerei os coraes dos dois esposos! Que tenho eu que vr com um ou outro? A snr. D. Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a sua historia, e chorou, no sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o possuira e lh'o dera... Pedro O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua me. Jorge Isso falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e foi amante de... _(sustendo o impeto de colera)_. Pedro Sem duvida nenhuma. O retrato da snr. D. Martha o que a snr. D. Eugenia tem na pulseira. Jorge No me diga pois que o retrato da me d'essa senhora. Pedro Affirmo a V. Ex. que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos filha de D. Martha de Villasboas, e que a pulseira no a houve do sogro, mas sim de D. Maria da Gloria, irm de sua me. Jorge _(rapido)_ Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, Jos de S? Repita o snr... Pedro Que o filho do visconde est casado com uma senhora cuja filiao ainda hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex. foi o marido de sua me, e tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que V. Ex., desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsra uma menina chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou. Esta deploravel senhora est hoje apertada na cruelissima angustia de se vr apontada por V. Ex. como filha do pae de seu marido. Este conflicto pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade est exaltada por sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruio rapida que a paixo e a vergonha esto fazendo n'aquella desoladissima senhora--vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno, e como suspeita filha do cumplice de sua me, e esposa de seu proprio irmo! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que occultasse o mysterio do seu nascimento. No posso, bradou ella, sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situao. Se o visconde meu pae, receio vl-o morrer s mos do matador de minha me; se meu pae Jacome da Silveira, eu no posso deixar de me abraar n'aquelle grande desgraado, e dizer-lhe que sou sua filha! Jorge _(interrompendo-o com as mos fincadas nos braos d'elle)_ Oua, snr... Ella chamou-se Leonor? filha de Martha? Foi ella mesma que lhe disse: eu sou filha de Martha? Pedro Quem poderia dizer-m'o seno a snr. D. Eugenia? Jorge Jos, como comprehendes tu isto? Jos de S Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo borda d'um abysmo em que tarde ou cedo cahirias. Jorge V dizer-lhe que est aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o rosto de lagrimas quando a deixei no bero aos trez annos. Diga-lhe que ajoelhei com ella nos braos, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo no corao que se despedaou quando a infernal duvida m'a desentranhou do peito, e eu a repulsei, exclamando: no s minha filha. Nas primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada, punha-me na face a mo e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: pae. Eu despertava, e cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a no co, parecia-me vl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que reuniu em si quantas agonias Deus pde crear n'um dia de cruel omnipotencia. Eu no podia ento chorar como hoje. Deus no me deu a esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo ainda me apparecia e dizia: Espera Chegaram. Sinto as lagrimas. Sinto-as no corao, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. _(sorrindo)_ Deus!.. Onde hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraa, um acaso, um accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao marido? ao filho do meu algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha filha no um bem com que Deus me premeia... uma nova esponja de fel, que me do para eu matar a minha sde d'amor e de felicidade. No existe... Leonor est morta para mim... para sempre morta... meu Deus!.. Deixai-me choral-a segunda vez. _(Esconde o rosto soluante entre as mos)._ FIM DO PRIMEIRO QUADRO 2. QUADRO Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada beira de um bero com armao de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo, com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente. SCENA I D. EUGENIA E RODRIGO Rodrigo _(com muita brandura)_ Eugenia... D. Eugenia _(levantando-se)_ Meu bom anjo, estavas aqui? Rodrigo O sorriso da creancinha alumiou a escurido da tua alma? D. Eugenia Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe est gemendo o corao... _(beijando o rosto da creana)_ Eu no posso com tantas agonias, Rodrigo! _(abraando-o impetuosamente)_ Espedaa-me o arrependimento de no te haver dito o nome de minha me... Eu sei que teu pae me daria o po da subsistencia ainda que no fosse causa da morte d'ella; mas minha tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome de minha me; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia, lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das manchas do opprobrio da minha infeliz me. Mas o que ella me no disse foi que eu no poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella no quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irm assassinada. Nem me revelou quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a nossa familia. Se elle no meu pae, Rodrigo, que me s tu a mim? No vs que o marido de minha me dir que eu sou tua irm, e que o nosso filho herda a deshonra d'esta nossa unio impossivel... impossivel, meu Deus! Rodrigo Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creana?! D. Eugenia No m'o perguntes a mim, que morro de afflico! Ensina-me a ter animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa situao to negra! Que te diz o corao, filho? Rodrigo Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril, perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e... D. Eugenia _(interrompendo-o anciada)_ No perguntes que pdes matal-o. Se elle tem de morrer, que v sem a terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena d'elle como de ti. No lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha! _(Esconde o rosto nas mos)._ Rodrigo Ahi vem o pae... SCENA II OS MESMOS E O VISCONDE _O visconde vem amparado por dois creados_ Rodrigo _(adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)_ ptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. _(Rodrigo e Eugenia vo recebel-o dos braos dos creados, e conduzem-o cadeira)._ D. Eugenia Est muito melhor... Visconde Estou, filha. Rodrigo Que sente agora? Visconde Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que chega a noite da morte. _(Fitando Eugenia)_ Como est desfeita a sua formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, comea a morte a sua obra de destruio... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como no conheceu me nem pae, o grande amor filial que tinha no seu corao, deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto... Cheguem para aqui o bero. Quero vr o meu lvaro... _(Approxima Eugenia o bero)_ Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos. Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. _(A Eugenia que faz meno de o tirar do bero)_ No, no. Deixal-o dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de tl-a. Para os grandes desgraados o sepulchro suave e socegado como o bero das creanas. Eugenia, venha aqui... No chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu viver. D. Eugenia Eu no choro... o pae ha de restabelecer-se. _(Rodrigo gesticula a Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a no veja)._ Rodrigo Meu pae. _(Espera instantes que o pae levante a cabea)._ Visconde Eugenia? Rodrigo Foi l dentro. Na ausencia d'ella, fao uma pergunta a meu pae, e da ousadia lhe peo perdo. Visconde Pergunta. Rodrigo Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira, tinha filhos? Visconde Uma filha. Rodrigo Que se chamava... Visconde Leonor. Uma creana entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes alguma coisa d'essa menina? Rodrigo Meu pae soube que destino lhe deram? Visconde No. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegra de filha aleivosamente, mas digno de desculpa... Rodrigo Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira? Visconde Como tu tens a certeza de que este filho teu: jural-o-hei com os olhos na sepultura, e o corao na misericordia de Deus. Quando comecei a... cavar o abysmo da minha victima... Leonor j tinha dois annos e meio, e fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia dizer-me: Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem me E ficou. _(Eugenia, que tem ouvido muito alvoroada este dialogo, n'este lance corre em grande transporte aos braos de Rodrigo)._ D. Eugenia Graas, graas, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do co! Agora sim, que toda a minha alma respira desopprimida! s meu Rodrigo! _(Ajoelhando aos ps do visconde)_ Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o corao, e de sobre esta creana um affrontoso opprobrio! Visconde _(enleado)_ Que ?! que diz, Eugenia? D. Eugenia Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que morreu... Sou a orf que a me de Deus guiou at ao corao de seu filho. Visconde _(agitadissimo)_ isto febre, meus filhos? o delirio dos ultimos arrancos? No me est esta senhora dizendo que filha de Martha?! D. Eugenia Sou... sou... Visconde Ajudai-me... erguei-me... Foras, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e extremosa das mes... o corao mais sancto do amor maternal. Formosa como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz, virtuosa, boa... Mas... matei-a... No foi teu pae que a matou, Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os dentes convulsos, e rojar-se no cho, e atirar-se a gritar para o teu bero, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais rica e florida existencia para um torro desconhecido do cemiterio, para a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame! Fui eu... eu fui o algoz... _(Resvala cadeira, solua e prosegue:)_ Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mos erguidas o penitente na agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu pae que me perde. Dize-lhe que um agonisante que lh'o pede... Um homem que at esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus, no quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas... Chora-lhe no corao, que a piedade renascer, e o perdo vir a tempo de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me... SCENA III OS MESMOS, E PEDRO ARANHA Pedro _(a D. Eugenia)_ Se V. Ex. quizesse sahir primeira salla, encontraria seu pae. D. Eugenia Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo! Visconde Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de Vasconcellos lhe pede perdo. SCENA ULTIMA OS MESMOS, JOS DE SA E JORGE DE MENDANHA Jorge _(com as costas voltadas para o visconde)_ Aqui estou, Leonor. _(Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar)._ No ajoelhes. Se algum de ns deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada ests do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espao de vinte e um annos. Agora, o que pdes dar-me lagrimas. Eu t'as recebo como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. _(Rodrigo approxima-se)_ Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre corao de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa saber que ella rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de fortuna, como no podiam dar-me um instante de paz, no se perderam. Poders enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas no forem de angustias tamanhas como a minha. D. Eugenia _(ajoelhando)_ O perdo, meu pae! Jorge Que tenho eu que perdoar-te, anjo?! D. Eugenia O perdo... para o pae de meu marido. _(O visconde est erguido e amparado nos braos de Pedro Aranha e Jos de S)._ Jorge _(sem olhar para o visconde)_ A misericordia dos homens no pde ser mais indulgente que a de Deus. Quando esse homem no sentir sobre a consciencia o pezo da justia divina, o meu perdo ser-lhe-ha inutil. Eu no posso perdoar-lhe a elle, por que Deus ainda me no perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua me. Elle... que morra a choral-a. _(Aponta-o sem o vr)._ FIM. * * * * * COMO OS ANJOS SE VINGAM DRAMA EM UM ACTO. PERSONAGENS FRANCISCO DE VALLADARES--30 annos, esposo de D. ALBERTINA--entre 20 e 25 annos. D. ANTONIA DE VALLADARES--irm de Francisco de Valladares, 25 annos. CONSELHEIRO SOUSA--pae de Albertina. JOO LOBO--medico, entre 30 e 40 annos. LEONARDO--creado velho. Uma creada, nova. * * * * * COMO OS ANJOS SE VINGAM ACTO UNICO Ante-camara espaosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado. _Joo Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina se de ps elle._ SCENA I JOO LOBO E D. ALBERTINA Albertina _(com vehemencia e receio)_ O nosso doente continua bem, no verdade, snr. Lobo? Joo Lobo Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste. Albertina _(afflicta)_ Sim?! Peorou? Joo Lobo Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes... Albertina _(sobresaltada)_ E tornou a febre, meu Deus? Joo Lobo Sim, ha o quer que seja.... e pde ser que isto no passe d'um accidente... mas... Que est V. Ex. cogitando? Suspeita que alguma impresso moral... Albertina _(preoccupada e abstrahida)_ Nada... Eu hontem de tarde sahi para vr minha me. Demorei-me uma hora; e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada. Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicao d'um ar to desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem. SCENA II OS MESMOS E D. ANTONIA Joo Lobo _(comprimentando-a)_ V. Ex. nos vae dizer se alguma impresso moral pde explicar a tristeza e abatimento em que encontro seu mano. D. Antonia _(desdenhosa)_ J a mana Albertina me fez a mesma pergunta. Acho curiosa a indagao! Eu no sei se meu mano recebeu impresses moraes... Joo Lobo _(sempre sereno e risonho)_ que eu deixei-o hontem socegado e alegre... D. Albertina verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi; depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras... havia no sei que desconfiana e mysteriosa intelligencia entre meu marido e... D. Antonia _(atalhando-a)_ E eu?! D. Albertina Sim... pareceu-me... D. Antonia Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo! D. Albertina Injusta, no. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. No v o doutor cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa entender... Que mal lhe fiz? que injustias minhas a offenderam? _(Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares)_ O Francisquinho chama. _(Corre ao quarto)._ SCENA III JOO LOBO E D. ANTONIA Joo Lobo A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmo melindroso. Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida esto mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixo, que os fios partem-se... D. Antonia _(impaciente)_ Mas que fiz eu ou que disse?! Joo Lobo No sei o que V. Ex. disse ou que fez. O que sei que a snr. D. Antonia odeia sua cunhada. D. Antonia Que calumnia! odeio minha cunhada! Joo Lobo _(sempre sereno)_ E, se puder perdl-a, perde-a. D. Antonia Porqu?.. por que hei de eu querer perdl-a?.. Joo Lobo No lhe respondo. O meu silencio pede sua consciencia que responda, minha senhora. E se V. Ex. calar a voz da consciencia, ver como ahi na sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe... D. Antonia O qu?.. SCENA IV OS MESMOS E D. ALBERTINA D. Albertina _(alvoroada)_ Elle est to inquieto!.. Vamos l, doutor... _(suspende-se)_ V... v! _(O doutor entra na alcva)._ SCENA V D. ALBERTINA E D. ANTONIA D. Albertina _(com brandura e commovida)_ Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim. D. Antonia Eu! que teima! que aleivozia! D. Albertina _(rapida e a meia voz)_ Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser uma digna irm de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado vingar-se de mim calumniando-me. D. Antonia Que me accuse! original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a deshonestidade da minha vida! D-me licena. Retiro-me que no v ser contagiosa a minha deshonestidade! _(Se rindo uma rizada nervosa. Albertina encaminha-se para a alcva guando o doutor vem sahindo)._ SCENA VI JOO LOBO E D. ALBERTINA D. Albertina J?! que tem elle? Joo Lobo Mandou-me sahir: quer estar s. D. Albertina _(com espanto)_ Mandou-o sahir?! Joo Lobo Terminantemente; mas com delicadeza. D. Albertina Ento que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido possa... Joo Lobo Possa o qu, minha senhora? Enlouquecer? o que V. Ex. quer perguntar? No ouso dizer-lhe as minhas suspeitas. D. Albertina Ento certo? O Francisco pde enlouquecer?! Joo Lobo Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr. Francisco Valladares est febril; no est doudo... Aquella febre tem o ardor d'uns infernos que costumam accender-se n'uns coraes perversissimos... D. Albertina _(atalhando-o)_ O corao de meu marido bom, snr. Lobo. Joo Lobo No me entendeu, snr. D. Albertina... Seu marido desconfia da minha probidade. D. Albertina Como? desconfia?! Joo Lobo E da virtude de V. Ex.... desconfia tambem. D. Albertina _(tremula e anciada)_ No pde ser, no pde ser! _(Faz meno de correr para a alcva: o medico sustem-a com um gesto)._ Joo Lobo _(a meia voz)_ Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos est aconselhando muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada comeou hontem a obra infame do descredito de V. Ex. Era preciso dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente, porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justia. sempre assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o p e cahir com estrondo. O grande caso cahir sem estrondo. Ora seu marido, minha nobre senhora, no me julga melhor nem peor do que sou julgado pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje talvez preferisse a morte fraqueza de me chamar... Eu, porm... D. Albertina _(interrompendo-o)_ Mas ento preciso que eu me defenda j, e na sua presena, snr. Lobo!.. Joo Lobo No, minha senhora. As commoes e luctas que necessariamente acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr. Valladares. cedo. Seu marido por emquanto apenas v em V. Ex. o anjo, e em mim o tentador. _(sorrindo)_ D'um pobre diabo _(desculpe V. Ex. a phrase plebea)_; d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos. No se impaciente, minha senhora. Olhe que no est ssinha. Quando mais opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que v sempre ao seu lado... a Providencia. D. Albertina Mas o meu silencio pde condemnar-me. Joo Lobo Quando a interrogarem responda; mas no provoque altercaes. Espere que seu marido se fortalea; no queira V. Ex. curar uma alma enferma como a delle. Qualquer balsamo o irritar. E quando eu lhe disser que se vingue restaurando a sua dignidade, ento ser tempo de salvar o seu nome... e o meu. No posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora. D. Albertina _(apertando-lhe a mo muito affectuosamente)_ Adeus, meu bom amigo... No o desampare... _(D. Albertina vae porta da alcva, escuta, e hesita; vae levantar o fcho quando a porta se abre)._ SCENA VII D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES _Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo. Veste um rob de chambre_ D. Albertina _(tomando-lhe o brao)_ Pois tu levantas-te, meu filho? Francisco de Valladares Estou bom... no vs, Albertina? Sinto-me forte. _(Senta-se prostrado)._ D. Albertina Ardem-te as mos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses? Francisco de Valladares _(aps uma longa pausa, em que conserva o rosto escondido nas mos)_ Quero sahir. O dia est sereno. D. Albertina Pois tu queres sahir em convalescena to arriscada?! No vs que pdes recahir! Francisco de Valladares A recahida a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bcca d'um abysmo. A morte quando se aproxima bella; s vista ao longe, horrivel. _(Ergue-se)_ Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche. D. Albertina Pela tua vida te rogo que no vs, meu querido filho. Francisco de Valladares A minha vida!.. por que me no pedes antes pela minha honra? D. Albertina Pois sim, peo-t'o pela tua honra... Francisco de Valladares E pela tua... D. Albertina _(com dignidade)_ O qu? Que me pedes tu? Francisco de Valladares A ti?.. que me deixes morrer... D. Albertina _(muito commovida)_ E tu queres morrer? Francisco de Valladares Honrado. SCENA VIII OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA Leonardo Est aqui o snr. conselheiro Sousa. _(Se. D. Albertina vae ao encontro do pae e beija-lhe a mo)._ Conselheiro l! a p! Optima convalescena, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam vinte dias de cama!.. Francisco de Valladares Estou melhor. Conselheiro E tu como ests, filha? D. Albertina Bem; e a mam peor? Conselheiro Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos volta da cama. J l esto tuas irms. Francisco de Valladares Pde ir; eu mesmo insto que v. Conselheiro Tenho ahi a sege; no te demores na _toilette_. _(Se Albertina)._ SCENA IX O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES Conselheiro No seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe um certo rubor nas faces... Francisco de Valladares signal de bom sangue, quando no seja de nobre vergonha. Conselheiro Como? Francisco de Valladares _(inquieto)_ Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florena... um clima restaurador; quem l no pde viver sente-se morrer mais suavemente. Os grandes infelizes devem pensar em morrer onde as agonias lhes sejam menos crueis. Vou s... quero ir s. Estou intratavel, impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos. Conselheiro Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o no deixar ir s. Francisco de Valladares Deixa... ha de deixar. No admitto contradices que poderiam matar-me... Conselheiro _(com assombro)_ Matarem-no!.. quem? Francisco de Valladares E para qu?! Eu no embarao a passagem a ninguem! _(Com exaltao de louco)_ Passem! Praa ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para me atravessar bcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o corao, mas deixem-me a honra salva. Conselheiro _(parte)_ Est perdido! SCENA X OS MESMOS E D. ALBERTINA D. Albertina Estou prompta, meu pae. _(Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com serena altivez)._ At logo, Francisco. Conselheiro O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido? D. Albertina Eu ainda no ouvi fallar em viagens. Conselheiro _(encarando-os alternadamente)_ A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas... D. Albertina Entrou, mas ha de sahir. _(Com resoluo. Aproxima-se do marido tocando-lhe no hombro)._ Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer. Vamos, meu pae. _(Sem)._ SCENA XI FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO Francisco de Valladares Pois esta mulher sabe que me suspeita a sua lealdade, e no se justifica? No seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? _(Tange uma campainha com phrenesi. Apparece Leonardo)._ A snr. D. Antonia? Leonardo _(com ar de maliciosa candura)_ A snr. D. Antonia est a conversar no jardim. V. Ex. quer que a chame? Francisco de Valladares A conversar... com quem?! Leonardo Com o visconde de Espinhal. Francisco de Valladares E esse homem est no meu jardim?! Leonardo No, snr.: est no jardim do visinho. Francisco de Valladares Chama essa senhora. _(Leonardo se)._ SCENA XII FRANCISCO DE VALLADARES N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e atormenta o travor da peonha que est dilacerando uma familia. Assim que a doena me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo para me abafar. _(Inclina a cabea para o peito; demora-se um instante, senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se)_ Eu no quero morrer! Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lio aos infames, e um exemplo aos que no acceitam de boamente o seu opprobrio. _(Reflectindo)_ impossivel. O meu corao no podia enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o receio... Estar ella innocente?.. SCENA XIII O MESMO E D. ANTONIA D. Antonia O mano chamou? Francisco de Valladares Chamei. D. Antonia Eu tinha ido ao jardim vr as suas araucarias. Esto lindissimas. Francisco de Valladares Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se no descuidasse um momento dos seus deveres n'umas relaes amorosas em que a vi muito arriscada. O visconde do Espinhal um homem que tem perdido no conceito da sociedade algumas senhoras na posio da mana Antonia. O mundo, que despreza as mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua reputao. justia ou dignidade dos irmos e dos maridos responde com o duello; e moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu, prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi mana que terminasse essa perigosa inclinao. Antonia prometteu terminar. Cumpriu? D. Antonia _(hesitante)_ Cumpri, mano Francisco. Francisco de Valladares sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros to sincera como quando se absolve a si? D. Antonia No percebo... Francisco de Valladares Mentiu; mas est perdoada com a condio de desmentir-se das suspeitas que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua cunhada. Chamo a sua consciencia presena de Deus. Diga, mana Antonia, que viu? em que funda as suas desconfianas? D. Antonia As minhas desconfianas?.. Francisco de Valladares Sim; no me obrigue a repetir o que est bem impresso na sua lembrana. D. Antonia Eu j disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que inspiram suspeitas at certo ponto... sim, eu desconfiei porque... Francisco de Valladares Essa hesitao parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado a pobre Albertina... D. Antonia Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar. Francisco de Valladares Bem. Diga ento l desembaraadamente. _(V-se ao fundo Leonardo que escuta por entre o reposteiro)._ D. Antonia Disse e digo que Albertina faz ostentao de virtudes que no tem. Francisco de Valladares Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o corao distrahido... D. Antonia Foi isso. Francisco de Valladares E que Albertina amava o doutor Lobo. D. Antonia Justamente. Francisco de Valladares Agora venham as provas que hontem lhe no pude pedir porque Albertina entrou. D. Antonia As provas! Francisco de Valladares Tem as provas? D. Antonia Para que quer o mano saber... So coisas que o affligem, e lhe aggravam os padecimentos. Francisco de Valladares No me d razes parvas. _(Ergue-se convulso)_ Responda! Mando que responda! As provas? D. Antonia No se exaspere. Eu vou satisfazl-o... Quando o medico sahiu uma vez do seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salta, e demorou-se algum tempo a conversar com elle, tendo-lhe as mos apertadas nas d'ella. Outra vez, a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui eu que a vi abraada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege... Francisco de Valladares Que pessoa? D. Antonia Certa pessoa... Francisco de Valladares _(irritado)_ O nome? D. Antonia O visconde do Espinhal. Francisco de Valladares J o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? _(muito agitado)_ Ento est perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A deshonra da mulher de Fracisco de Valladares propalada pelo visconde do Espinhal. _(Fita a irm rancorosamente, travando-lhe do brao)_ Se ella estiver pura, preciso que a senhora v ser infame longe d'esta casa onde morreu sua me... _(Francisco de Valladares se impetuosamente a entrar no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona. Leonardo se apressado a dar-lhe o brao)._ SCENA XIV OS MESMOS E LEONARDO Francisco de Valladares Onde estavas, Leonardo? Leonardo Passava no corredor quando V. Ex. ia cahir. Francisco de Valladares Eu no cio. Deixa-me s. _(Entra no quarto)._ SCENA XV D. ANTONIA E LEONARDO Leonardo _(com respeito)_ Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua me. A menina christ, e no ha de faltar-me. D. Antonia _(com sobranceria)_ Que quer? Leonardo Que se arrependa emquanto tempo, e v dizer a seu mano que a senhora faltou verdade na intriga que armou sua pobre cunhada. Faa-me isto, porque a senhora catholica. D. Antonia Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim? Leonardo Isto no atrevimento, senhora; confiana e amisade de creado antigo. D. Antonia Os creados antigos so sempre creados, entendeu? _(Meno de sahir)._ Leonardo A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? _( bcca da scena)._ D. Antonia Diga. Leonardo Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a no desfizer, desfao-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico, que me preso de ser. D. Antonia _(alto)_ Que meada? que meada? Leonardo A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja l. Seu mano est alli pertinho, e a demanda pde ficar acabada aqui n'esta sancta hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mesinha que v dizer a seu irmo que no disse a verdade. A senhora disse a verdade at certas alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex. bem me percebe, e a consciencia l lhe est gritando; porque a menina , foi, e ha de ser sempre catholica. D. Antonia _(afogando os impetos da ira)_ Que petulante! que villo! SCENA XVI OS MESMOS E UMA CREADA _Leonardo fica ao fundo, escutando ao quarto de Francisco Valladares, emquanto a creada se aparta com D. Antonia_ Creada _(a meia voz, e rapidamente)_ O snr. visconde mandou saber se havia alguma novidade. D. Antonia Elle ainda est no jardim? Creada Est, sim, minha senhora. D. Antonia V se o passas para a sala do meio... Preciso muito fallar-lhe. Quero sahir d'esta casa quanto antes. Creada O peor se Leonardo d f... Veja se o entretm c para dentro... _(Se)._ SCENA XVII D. ANTONIA E LEONARDO D. Antonia Venha c, Leonardo. Leonardo Minha senhora. D. Antonia Explique-me essas embrulhadas que esteve atrapalhando. No o entendi. Leonardo No?! pois ento logo lhe explicarei. So horas de dar o lunch ao snr. Francisquinho. _(Vae a sahir)._ D. Antonia Espere. Leonardo Tenha paciencia que est o doente esperando. _(Se)._ D. Antonia O maldito desconfiou!.. SCENA XVIII D. ANTONIA E O CONSELHEIRO SOUSA Conselheiro _(a D. Antonia com severidade)_ Seu mano, senhora? D. Antonia Est no seu quarto. Conselheiro Avise-o de que o estou esperando. D. Antonia Elle ahi vem. _(Se)._ SCENA XIX CONSELHEIRO E FRANCISCO DE VALLADARES Conselheiro Snr. Valladares, minha filha descreveu-me com mais lagrimas que palavras a infelicidade com que a Providencia a est castigando porque me desobedeceu. O snr. Valladares soffre tambem porque induziu minha filha a rebellar-se contra a vontade de seu pae. Adivinhei que Albertina seria desgraada; mas nunca me feriu o corao o receio de que o snr. diffamasse minha filha com affrontosas suspeitas. Albertina tem um defensor; sou eu, seu pae. Accuse-a na minha presena. Francisco de Valladares _(com enfado)_ Estou doente, estou febril, snr.; no venha atormentar-me... Esses ares magestosos de pae irritado no me salvam da ignominia, nem desculpam os desvarios da snr. D. Albertina. A accusao, se houver de fazer-se, no tem de ser julgada por juiz to incompetente, como V. Ex. Ora, se eu no me queixo para que ha de queixar-se o snr. conselheiro? Eu, por emquanto, resumo os meus queixumes em dizer-lhe que estou aviltado, que sou escarnecido, que perteno aos incentivos da zombaria, e contribuo para sustentar custa da minha dignidade a irriso nos sales e nas praas onde se applaude o impudor do visconde do Espinhal, e de... Conselheiro Basta. Ouvi ahi um nome que personagem n'este romance torpe que V. Ex. est urdindo. O visconde do Espinhal!.. As salas onde este illustre devasso recebido so as salas de muito homem de bem, incluindo as suas, snr. Valladares. Francisco de Valladares As minhas!.. as minhas!.. Conselheiro As suas. Francisco de Valladares J encontrou em minha casa o visconde? Conselheiro No, snr., por que eu nunca entrei nas suas alcvas. Francisco de Valladares Isso uma insinuao hedionda, snr. conselheiro! Conselheiro Insinuao hedionda e vilissimo affrontamento o que o snr. est cuspindo na cara de minha filha. Sou pae, snr.; e sou pae de uma mulher virtuosa que outra mulher perdida calumniou. A hora da justia no tardar. O cumplice de minha filha ser interrogado na presena do calumniador. Francisco de Valladares Na minha presena! original o escandalo! Ento V. Ex. quer fazer justia, ridiculisando-me? No o conseguir, que eu estou em minha casa; bom ser lembrar-lh'o. Conselheiro No me esqueci; mas, se a inteno da indelicadeza mandar-me sahir, declaro-lhe que no sahirei, sem levar d'aqui a minha filha a retratao de V. Ex. Provavelmente ella no voltar a esta casa... SCENA XX OS MESMOS E D. ALBERTINA D. Albertina Volto, aqui estou, por que no hei de voltar?! _(serenamente)_ O pae no me deu tempo a estar com a mam alguns instantes. Receiei que tivesse vindo para aqui, e magoadamente lhe digo que me arrependi de ser to expansiva!.. Como ests abatido, meu pobre Francisco! Matam-te, meu filho! Parece incrivel que a Providencia divina no diga tua alma que eu estou innocente! Francisco de Valladares _(concentrado)_ Seria preciso que a Providencia tivesse cegado as que a viram sahir de casa de... _(Retrahindo-se com doloroso esforo)._ SCENA XXI OS MESMOS, LEONARDO, E DEPOIS JOO LOBO Leonardo O snr. doutor Lobo. _(Se)._ Francisco de Valladares _(ao conselheiro)_ Esta indecente situao preparou-m'a V. Ex.! D. Albertina _(afflicta)_ Que vem a ser isto, meu pae? No v o estado de meu marido?! Conselheiro Importa-me a tua dignidade muito mais. SCENA XXII OS MESMOS E JOO LOBO Joo Lobo Felizmente que eu chegava a casa quando recebi o recado. Conselheiro Fui eu, snr. doutor, que pedi a sua vinda. Joo Lobo _(tomando o pulso de Francisco Valladares)_ Isto assim no vae bem, snr. Valladares. Se V. Ex. no quer, ou no pde subordinar raso e necessidade o alvoroo em que est o seu espirito, mais doente do que o corpo, no tenho que fazer aqui. Tenha a briosa coragem de ser homem, para viver. _(Francisco de Valladares faz um gesto de constrangimento, sorrindo-se com amargura)._ Conselheiro o que elle faz, snr. Lobo. Vae affastar de si as pessoas que o atormentam, ou mais exactamente so essas pessoas que muito por sua vontade se affastam. Eu sou uma, e minha filha a outra pessoa importuna que est impeonhando o mo r que este doente respira. Joo Lobo Sua filha?! Pois a snr. D. Albertina atormenta seu marido?! V. Ex. sem duvida proferiu um gracejo ou uma ironia, mas ha n'isso alguma coisa que me punge como principal testemunha do incomparavel amor que esta senhora tem a seu marido, ou tinha ha poucos dias. E como principal testemunha, embora no seja chamada, vou depr n'este pleito, e hei de ser escutado pela delicadeza de V. Ex.as _(Circumvagando a vista pela sala)_ Falta alguem no meu auditorio. O tribunal no pde funccionar sem a presena da snr. D. Antonia. Requeiro que seja chamada S. Ex. _(O conselheiro tange a campainha)._ Francisco de Valladares _(erguendo-se com impeto)_ Eu que me nego a pertencer ao seu auditorio, snr. Joo Lobo. Querem sujeitar-me a uma tutella vergonhosa! _(Quer sahir)._ Conselheiro _(retendo-o)_ No sia. Prohibe-lh'o a honra de sua mulher. _(A Leonardo que entra)_ Diz snr. D. Antonia que se lhe pede o favor de entrar n'esta sala. _(Leonardo se)._ D. Albertina _(a meia voz)_ Tu precisas de ouvir a minha justificao, Francisco? Francisco de Valladares _(fixando-a lagrimoso)_ Quem podesse tirar-me de sobre a alma este pezo de infelicidade!.. SCENA XXIII OS MESMOS, D. ANTONIA E LEONARDO QUE FICA AO FUNDO _Silencio d'algum segundos. D. Antonia entra sobresaltada_ Joo Lobo Ouvi agora dizer, snr. D. Antonia, que sua cunhada vae separar-se de seu marido. Esta m nova commoveu-me to profundamente quanto eu estava convencido de que esposos, como estes eram, amantissimos e felizes, raros se encontrariam, e principalmente nas classes elevadas onde as apparencias de felicidade conjugal so quasi sempre convencionaes, uma especie de hypocrisia que assim mesmo um tal qual respeito que se presta virtude. Se V. Ex. no sabia isto que me espantou, deve estar admirada pelo menos... D. Antonia Decerto. Joo Lobo E a no ser V. Ex., ninguem como eu pde testemunhar quanto a snr. D. Albertina amava seu marido, posto que, s ha trez mezes fui chamado para tratar o snr. Valladares; V. Ex. porm, que ha cinco annos conhece sua cunhada em familiar intimidade, decerto pde levantar voz mais auctorisada em abono d'esta virtuosa senhora. _(Fixam todos D. Albertina que se mostra mortificada pelo interrogatrio)_ Mas, se V. Ex. quer ter a bondade de me conceder a mim a satisfao de ser o primeiro a depr, serei eu testemunha, e ser V. Ex. o juiz. Quando fui chamado junta que se fez ao snr. Francisco de Valladares encontrei o seu assistente e mais facultativos conformes em capitular de incuravel a sua doena. Recordo-me que ao sahir com os meus collegas da sala da consulta, encontramos esta senhora na sala immediata com as mos postas diante de ns, perguntando se no tinhamos esperana de lhe salvar o esposo. Ninguem respondia por compaixo; mas eu quasi convencido disse afoitamente snr. D. Albertina: seu marido pde restaurar-se, minha senhora. Proferidas estas palavras, S. Ex. quiz beijar-me as mos; no o conseguiu, mas orvalhou-m'as de lagrimas. Comecei o tratamento do snr. Valladares, por voto do seu assistente. A doena progrediu, desmentindo os meus vaticinios. J as esperanas me iam tambem abandonando, e eu a compenetrar-me das enormes angustias que atormentam a vida do medico, emquanto elle no sente esfriar-lhe o corao como o dos cadaveres em que v desapparecer o orgulho da sciencia. Eu considerava o doente perdido, quando lhe sobreveio uma pneumonia em extremos de fraqueza. Um dia, sahi d'aquella alcva, e encontrei alli de joelhos esta senhora supplicando-me a vida de seu marido, to abafada por soluos e perdida de cres, que, ao levantal-a quasi desmaiada, a amparei nos meus braos e lhe pedi que suffocasse o chro para que o doente a no ouvisse. D'esta vez _(sorrindo)_ recordo-me, sem esconder o riso, que S. Ex., com a mais perdoavel das prodigalidades, me disse extremamente anciada: Eu dou tudo quanto temos a quem salvar meu marido. Vejam como o amor e a paixo fizeram no elevado espirito d'esta senhora um intervalo de insensatez!--angelica e sancta insensatez! S. Ex. queria dizer talvez que dava a propria vida pela do esposo; mas o corao antes queria a indigencia para ambos que vida para um s. Acho mais sublime o sacrificio dos bens da fortuna. Eu que no podia acceitar a proposta sem que o snr. Francisco de Valladares fosse ouvido, por que as senhoras, segundo o codigo civil, no podem dispr dos bens do casal... _(Sorri-se, e vae tomar o pulso ao enfermo)_ Est muito agitado. Se o estou constrangendo, fecho o depoimento... D-me licena que prosiga?.. Mas ainda agora reparo que V. Ex. me tem ouvido de p!.. Eu pedia que... _(O conselheiro senta-se. D. Antonia tambem com ar de violentada; D. Albertina permanece em p, ao lado da poltrona do marido, Joo Lobo tambem de p)._ N'outro dia, tendo-me eu demorado de proposito para dar tempo aos effeitos d'umas sarjas, foi-me annunciada a visita de uma senhora que apeava d'uma sege. Eram 7 horas da manh. Como eu estivesse ainda recolhido, e minha me me dissesse que era a snr. D. Albertina que me procurava afflictivamente, pedi a minha me que fosse sala receber S. Ex. Quando entrei estava a lagrimosa senhora rogando a minha me que me pedisse a mim a salvao de seu marido. O quadro tinha uns traos de magestosa tristeza! Minha me respondia-lhe a chorar que pediria a Deus, e no ao medico. N'outra occasio, por volta de uma hora da noute, era eu chamado ao pateo do Club, onde encontrei a esposa do snr. Valladares. D'esta vez no podia eu j dar-lhe esperanas que no tinha. Mas vinte e quatro horas depois a febre remittiu, a anciedade acalmou, o doente sorriu-me, e a esperana renasceu. Mais trez dias depois, disse eu snr. D. Albertina: seu marido est livre de perigo. S. Ex. ento mais allucinada pelo jubilo do que estivera pela angustia, abraou-me, e chamou-me seu querido salvador. No me chamou salvador de seu marido; que isto seria uma vulgaridade; chamou-me seu salvador, como quem diz: a vida que salvaste a minha; eu sentia-me morrer da morte de meu marido. At aqui o sublime. Agora a loucura da felicidade. S. Ex. foi buscar o seu estojo de joias, poz-m'o entre as mos, e disse: quando tiver esposa d-lhe esta lembrana da mais feliz das esposas. Foi-me necessario _(sorrindo)_ convencer aquella senhora de que eu fiz voto de celibato, e no podia sem infraco do voto agenciar esposa a quem dar as joias. S. Ex. transigiu, e dispensou-me de quebrantar o proposito. Falta quasi nada concluso do meu depoimento. Depois d'estas commoventes manifestaes d'um amor de esposa virtuosissima, seu mano, snr. D. Antonia, influenciado no sei porque mos espiritos, atira face sem mancha d'aquella senhora um labeo de muito injuriosa suspeita. Ora diga-me V. Ex. se isto no injustia para fazer chorar os anjos! _(D. Antonia parece quebrantada)._ Conselheiro _(erguendo-se)_ O meu depoimento mais breve. D. Albertina _(correndo para o pae)_ Pela vida de minha me... por tudo que ha mais nobre e sancto na sua alma!.. Conselheiro O que ha mais sancto na minha alma a tua honra. D. Albertina Mas meu marido est seguro da minha innocencia, e no precisa que eu me justifique. Conselheiro Eu que devo e quero justificar a tua sahida d'esta casa. Francisco de Valladares E quem diz a V. Ex. que minha mulher sae d'esta casa? Conselheiro Nenhum direito obriga minha filha a conciliar-se to de barato com quem a infamou. O marido que desacredita sua mulher innocente apenas... um baixo calumniador sem direito a impr-lhe a obrigao de o amar, e muito menos de o soffrer. No pde a minha filha morar sob o mesmo tecto da snr. D. Antonia. D. Albertina _(a D. Antonia a meia voz)_ Mana Antonia, melhor sahir d'esta sala. Eu vou remediar como puder este infortunio. D. Antonia _(erguendo-se animosa)_ Como a senhora quizer. _(Vae sahir)._ Francisco de Valladares _( irm)_ Espere! Conselheiro O que deu causa torpe aleivosia d'esta senhora foi minha filha ter reprehendido brandamente sua cunhada porque as suas tendencias a perder-se doudamente eram de tal fora que nem j o escandalo de descer ao jardim alta noite escondia dos seus criados. D. Antonia Os creados mentem! Que o digam na minha presena. _(O creado que est ao fundo avana dois passos tranquillamente)._ D. Albertina _(supplicante)_ Est bom, meu pae... pelo divino amor de Deus! Conselheiro Espero ser desmentido pelos seus criados, snr. D. Antonia! _(Leonardo d mais dois passos)._ D. Albertina _(perpassando pelo creado a meia voz)_ Nem uma palavra. D. Antonia _(a Leonardo)_ Viu-me alguma vez no jardim depois que as portas se fecham? _(Relance d'olhos entre D. Albertina, e Leonardo)._ Conselheiro O calumniador por tanto sou eu, minha filha. deploravel o papel que me distribues. Menos caridade com os infames, e mais respeito aos meus cabellos brancos e tua propria dignidade, Albertina! D. Albertina Mas que trance este, meu pae! Terminemos isto, peo a todos por piedade que terminemos isto! Francisco de Valladares Como que se defende, Antonia? Calumniou Albertina porque ella reprovava os seus depravados instinctos de mulher que perdeu os brios de senhora? D. Antonia No quiz calumnial-a, nem os conselhos da mana Albertina me eram precisos para eu conservar brios de senhora. As mulheres solteiras que amam no perderam os brios nem so deshonestas. Francisco de Valladares _(irritado)_ Calumniou ou no? D. Antonia No a quiz calumniar. Calumniada sou eu, quando me dizem que perdi os brios, e que vou de noute ao jardim, e que... Conselheiro E que no vae ao jardim desde que o visconde do Espinhal sbe facilmente do jardim s janellas d'esta casa. D. Antonia Quem disse tal? Leonardo Fui eu; e, se o no disse, o snr. conselheiro advinhou que eu o queria dizer. D. Antonia Voss mente! _(Leonardo caminha para uma porta do lado)_. D. Albertina _(atalhando-o)_ Onde vae? Leonardo _(a meia voz)_ O visconde est n'esta primeira sala. D. Albertina _(a meia voz)_ Por piedade no faa isso, Leonardo! _(Alto)_ Eu comprehendo bem a insistencia da mana Antonia. Ella sabe que eu me ajoelhei aos ps do snr. Joo Lobo; sabe que o abracei; sabe que eu fui a casa d'elle: tudo isto verdade. O que ella no sabia que eu pedia ao doutor a vida de seu irmo quando ajoelhava, e lh'a agradecia cheia de lagrimas quando o abraava. No mundo julgam-se assim muitos actos e o mundo no nem responsavel nem condemnado. Deus que assim nos fez por que quer que assim nos sofframos uns aos outros. A mana Antonia no reflectiu na inteno dos meus actos. Viu-os pelo lado mo, e julgou-me como era justo ao seu modo de vr. Eu smente me queixo da imprudencia dos seus juizos. Francisco de Valladares Basta. Esta senhora no imprudente, infame. Leonardo, d-me a chave do meu escriptorio que est no meu quarto. _(Leonardo sae)_ O seu dote, senhora, to opulento que o visconde do Espinhal em troca d'elle vae dar-lhe um optimo esposo e uma cora de viscondessa. Vou entregar-lhe duas inscripes nominaes de 2:000$000. Valem no mercado uma quantia que sobredoira as suas virtudes. A senhora, recebido o seu dote, retire-se, e v fazer ao dote o que fez herana de virtudes de nossa me. _(Leonardo entrega-lhe a chave. Elle levanta-se convulso)_. D. Albertina Onde vaes, meu filho? No vs... Logo... manh se far isso, Francisco. Descana, senta-te. Francisco de Valladares No me afflijas, deixa-me. D. Albertina Pois senta-te, e d-me a chave que eu vou. Eu sei onde esto as inscripes... Francisco de Valladares Vae. _(Da-lhe a chave)._ D. Albertina _(perpassando pela cunhada)_ No se afflija, que eu espero salval-a. _(Sae)._ SCENA XXIV OS MESMOS EXCEPTO D. ALBERTINA Francisco de Valladares Snr. Joo Lobo, devo-lhe duas vidas; e mais lhe devo pela da alma, por este desafgo do corao... Perdoou-me j, no verdade, doutor? Joo Lobo Se o snr. Valladares me pede a mim perdo, em que termos ha de pedir a misericordia de sua senhora? Francisco de Valladares _(apontando para a irm)_ E aquella!.. onde ir dar?.. que vergonhas se preparam para o apellido de minha sancta me!.. Joo Lobo Eu creio que ella tem um grande e sagrado refugio. Francisco de Valladares Qual? Joo Lobo O corao da snr. D. Albertina. SCENA ULTIMA OS MESMOS, E D. ALBERTINA D. Albertina Aqui esto as inscripes. Francisco de Valladares _(a Leonardo)_ Entregue isto snr. D. Antonia. _(Leonardo demora-se a olhar para o rlo com hesitao)._ D. Albertina _(muito carinhosa)_ Ento ficas ssinho, Francisco? Sahimos ambas? Francisco de Valladares Se sahem ambas?! Sahires tu, minha querida Albertina! Deixa-me ento ajoelhar a teus ps, e rogar o teu perdo com as mais contrictas lagrimas que a minha alma te pde dar! _(Ajoelha)._ D. Albertina _(erguendo-o)_ Meu filho, ests perdoado com uma condio. Se esta fr penosa, tem paciencia; peo-te que a acceites, em desconto das angustias que me despedaaram desde o instante em que estive perdida para o teu corao. Acceitas a condio, meu querido amigo? Francisco de Valladares Qual condio?! D. Albertina _(tomando a mo da cunhada)_ Has de perdoar-lhe... _(Sorrindo)_ ou eu no perdo. Francisco de Valladares Ento certo que s uma sancta, minha filha? D. Albertina No sou sancta; sou apenas uma mulher que se esfora por que tu sejas sempre um anjo de bondade. FIM. * * * * * Pertencem ao auctor os direitos provenientes da representao dos dois dramas que formam este livro. Porto 30 de Dezembro de 1870. CAMILLO CASTELLO BRANCO. * * * * * ERRATAS ESSENCIAES PAG. LINH. ERROS EMENDAS 35 1 passarl passarlo 41 8 de de marido de marido 43 14 estando em Beja estando eu em Beja 46 15 precedencia procedencia 68 ult. conhecidos conhecido 104 15 Em Lisboa Em Lisboa? 117 4 snr. viscondessa? senhora viscondessa! 120 14 espirito de venturoza espirito de ventosa 122 8 VISCONDE VISCONDESSA 9 Visconde Viscondessa 134 14 com o pesar d'esse cadaver com o pezo d'esse cadaver 140 9 que se chama que se chamou 144 4 pois que depois que * * * * * PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA Rua do Bomjardim, 181. End of the Project Gutenberg EBook of O Condemnado/Como os anjos se vingam, by Camilo Castelo Branco License: Share Alike