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OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EDIO POPULAR XXIII O OLHO DE VIDRO TYPOGRAPHIA DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA --RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48-- LISBOA OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO Edio popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8., de 200 a 300 paginas Impressa em bom papel, typo elzevir 250 ris em brochura e 400 ris encadernado 1--Coisas espantosas. 2--As tres irmans. 3--A engeitada. 4--Doze casamentos felizes. 5--O esqueleto. 6--O bem e o mal. 7--O senhor do Pao de Nines. 8--Anathema. 9--A mulher fatal. 10--Cavar em ruinas. 11 e 12--Correspondencia epistolar. 13--Divindade de Jesus. 14--A doida do Candal. 15--Duas horas de leitura. 16--Fanny. 17, 18 e 19--Novellas do Minho. 20 e 21--Horas de paz. 22--Agulha em palheiro. 23--O olho de vidro. 24--Annos de prosa. 25--Os brilhantes do brasileiro. 26--A bruxa do Monte-Cordova. 27--Carlota Angela. 28--Quatro horas innocentes. 29--As virtudes antigas. 30--A filha do Doutor Negro. 31--Estrellas propicias. 32--A filha do regicida. 33 e 34--O demonio do ouro. 35--O regicida. 36--A filha do arcediago. 37--A neta do arcediago. 38--Delictos da mocidade. 39--Onde est a felicidade? 40--Um homem de brios. 41--Memorias de Guilherme do Amaral. 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. 45 e 46--Livro negro do padre Dinis. 47 e 48--O judeu. 49--Duas pocas da vida. 50--Estrellas funestas. 51--Lagrimas abenoadas. 52--Lucta de gigantes. 53 e 54--Memorias do carcere. 55--Mysterios de Fafe. 56--Corao, cabea e estomago. 57--O que fazem mulheres. 58--O retrato de Ricardina. 59--O sangue. 60--O santo da montanha. 61--Vingana. 62--Vinte horas de liteira. 63--A queda d'um anjo. 64--Scenas da Foz. 65--Scenas contemporaneas. 66--O romance d'um rapaz pobre. 67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. 68--Noites de Lamego. 69--Scenas innocentes da comedia humana. 70 e 71--Os Martyres. 72--Um livro. 73--A Sereia. 74--Esboos de apreciaes litterarias. 75--Cousas leves e pesadas. 76--THEATRO: I--Agostinho de Ceuta.--O marquez de Torres-Novas. 77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justia.--Espinhos e flres.--Purgatorio e Paraizo. 78--THEATRO: III--O Morgado de Fafe em Lisboa.--O Morgado de Fafe amoroso.--O ultimo acto.--Abenoadas lagrimas! 79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como os anjos se vingam.--Entre a flauta e a viola. 80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A Morgadinha de Val-d'Amores. _CAMILLO CASTELLO BRANCO_ O OLHO DE VIDRO ROMANCE HISTORICO 4. edio, conforme a 1., unica revista pelo auctor 1918 PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta, 44 a 54_ LISBOA O OLHO DE VIDRO Nota das edies que tem tido este romance at presente 1. edio--Lisboa--1866--Livraria de Campos Junior--1 vol. in-8. de 199 pags. 2. edio--Lisboa--(Sem data)--( a 1. edio com a reimpresso da 1. folha.) 3. edio--Lisboa--1904--Vol. 23. da nossa Colleco, da qual se fez uma tiragem especial de 100 exemplares em papel de linho nacional para bibliophilos. 4. edio--Lisboa--1917--que a presente. PROLOGO (DA 1. EDIO) O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva, historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu, conclue com estas palavras: _Se algum dos nossos romancistas actuaes se resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam sobeja materia para a fabrica de uma composio, onde mediante a lio dos escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho verdadeiramente nacional_. Os termos em que o convite feito animam e ao mesmo tempo assustam. Comecei temerariamente a composio d'este romance: mo foi principial-o, que eu sou to pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem, que no me frro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam. No direi o que penso d'este: assevero, porm, que no est de certo realisada a esperana do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a biographia do author do _Portugal-medico_ mina para locupletar romancistas, vo l todos, que eu no toquei nos veios mais ricos. Porto, 3 de maro de 1866. _Camillo Castello Branco._ INTRODUCO Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de 1692, estudando, no seu _Vila Corta_, as theorias de Galeno cerca das purgas--_de purgatione_.--Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os no menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, to a deshoras, duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se no gabo, e abriu as portadas da janella que dava sobre o _Becco das Flores_, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas. --Quem --perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato despreso das boninas da sua rua.--Quem o vadio? --Sou eu!--respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto. --Tu!...--exclamou Abreu com alvoroo.--Vou abrir! Pois s tu?! Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer s escuras a precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o p cauteloso sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braos com ardente vehemencia o interruptor de seus estudos, e to alheado ficou das suas consideraes therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem j os olhos de caranguejo lhe lembravam. --Tu aqui, Antonio de S!--tornou Francisco.--Eu fazia-te na India!... Sobe, meu desventurado rapaz, que no ha ainda duas horas que os teus condiscipulos te lamentaram, especialmente Jos de Barredo se arrepellava por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam... --Com razo!...--murmurou o outro--com razo me lamentaste, que eu sou desgraado, quanto pde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos. --E que magro ests!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a candeia de lata, que despregou do velador.--Como ests acabado!... --Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores... Como no queres que eu esteja pallido e descarnado?! So assim todos os rostos que se lavam com lagrimas... --Pobre Antonio!...--atalhou o outro muito consternado--Se, ao menos, tivesses fugido de Portugal, como ns suppunhamos, terias co e ar... Senta-te, homem!... Queres tu comer? --Quero. --Ainda bem! A desgraa no te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da freira... Aqui tens o corao da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne no na ha, e no sei onde v procural-a a esta hora... Queres tu uma srda? Essa fao-t'a eu: esto alli os alhos; e, mingoa de azeite, cosinha-se com o da candeia, e depois conversaremos s escuras. --Isto basta para quem anda faminto de bons bocados--disse Antonio, com desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas do corao da franciscana, no j como desgraadissimo entre os homens, mas certamente como de entre os estudantes o mais faminto. O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo no pde dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutio. No entretanto, andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas se gosaram na Palestina, quando os anjos do co lhes cosinhavam os fricasss. --Que andas tu procurando?--perguntou Antonio de S Mouro. --Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz. --Nem manjar branco me ds que j me c no cabe. Estou alimentado para tres dias, se fr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes? Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu da minha vida? --Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragana com uma moa, filha unica de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forosamente ser teu confidente, por que sou christo novo como tu. --No sabia--interrompeu Antonio--que os meus infortunios implicaram comtigo... --Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaavam, affligiam-me muitissimo menos que a ida da inexoravel perseguio que te fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua priso, com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se no morresses na fogueira. Ninguem dava novas tuas, que no fossem horrorosas. Uns diziam que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a moa te acompanhra vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti, acreditmos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que isto?! Onde tens estado? Como pudeste fugir justia, se no foi n'algum subterraneo? --Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui passar com meus tios em Bragana foi a morte da mocidade, das esperanas, e de tudo em que eu fundamentra a felicidade das minhas modestas ambies. O prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia, desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do throno, como os antigos da nao[1] e desopprimir nossos irmos, quanto coubesse na alada do juizo, e no prestigio que a posio de medico do rei me dsse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor. Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, no poderam reduzir-me ao dever, honra, e propriamente ao discreto egoismo, que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva sensibilidade. O peior, meu amigo, j no era vencer-me eu; era vencer a compaixo que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu fra converter em amargura de toda a vida. --Combati essa opinio--interrompeu Francisco Luiz--por cuidar que era grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga necessario vida da mulher... -- verdade; combateste a insensata opinio; mas... no sei se cedo se tarde o fizeste; o certo que as tuas razes me pareceram sophisticas e glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homens que se combatem e forcejam por despedaar-se, at que um triumpha, e... fica senhor das runas do corao... J agora no discutamos como medicos em volta de um cadaver. Saibamos que est morto o homem, e ouve tu singelamente a historia das delirantes febres que o acabaram. De antemo sabia eu j que a filha de Ferno Cabral me seria negada e que os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me ameaariam com os seus tagantes. Isto no embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Ferno ouviu-me em p, e respondeu-me n'estes termos: Olhe para estes retratos--e apontou para uma duzia de figuras pendentes das paredes--olhe para estes retratos, e veja se ahi est algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha ou sobre o arnez[2] dito isto apontou-me a porta da escada. No sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o corao! J ento no tive animo para te escrever! Ha desgraas tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha ignominia. Deixei Bragana e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me inertemente ao devorar silencioso da minha saudade. Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na quebrada da Serra da Estrella. A desesperao alli foi-me consoladora, por que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo. Nem ainda ento pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, no sei exprimir que desalento me esvaa a cabea. Que vale queixar-me?! dizia eu entre mim--O que Deus no d no m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os ignorar estas obscuras angustias. Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia da serra ao alpestre casalejo de meus avs, os quaes alli se tinham homisiado no tempo das grandes perseguies do rei D. Manuel. Accudi janella e ouvi uma voz de homem dizer: aqui. No sei que outras palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria. Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situao, tinha, nos braos a filha de Ferno Cabral, e beira d'ella vi uma criada sua, que nos fra medianeira, e um criado da casa de meu pae. Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragana, logo que o pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como no tinha me, e costumava passar muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos no deram logo conta da fuga, nem a suspeitariam to cedo, se a sua aia no faltasse tambem. Fugiu caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que tentaram restituil-a casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella, porm, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar, encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo. Imagina tu que hospedagem daria eu filha do gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois tamboretes de po, e alguma loia vermelha do uso dos caseiros, pobre gente de nossa raa, que para alli ficra grangeando e usofruindo as pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e sua criada grave dei o meu leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros nos emprestaram. De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos at onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz! Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, esperanada na commiserao do pae e na proteco dos seus santos advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos ps d'elle. Por mais que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do co, no pude sequer imaginar possivel o perdo do soberbo fidalgo. Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos arrabaldes, moravam irmos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli deliberei repousar alguns dias, porque Maria j to sem foras ia da jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse. Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle, com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos. E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras. As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de judeus. Eu no devia j esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fra do reino. Sobrepe tu, Francisco, a estes lances, o medo da priso, e escutar a cada instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes so poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das seses, e eu de mos postas a contemplal-a assim! Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para ns eram a continuao das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram quanto poderam a nossa situao. Eu, por minhas mos, carpintijei o tabique para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que viessem de longe bragaes e roupas com que tirei alcova de Maria as tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas no podia espancar da minha alma a imagem de meu pae, me e irmos encarcerados, perseguidos pelo rancor vingativo de Ferno Cabral, e mais que muito sujeitos extremidade de pagarem com a vida o meu delicto. Com que traas e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim era j consolativa a nova de que os no tinham mandado para os carceres da inquisio de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os considerava eu. E assim vo decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!... Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu desalento, no desanime!... --E choras assim, Antonio! Coragem!--exclamou Abreu, tomando contra o seio o anciadissimo moo. --Ai! deixa-me chorar, que no o pude ainda fazer tanto s largas. Deixa-me chorar, que isto veneno mortal que me se aos olhos! preciso que vejamos alma compadecida para sabermos a doura d'este desafogo das lagrimas! Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mos do condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluante: --Sabes ao que vim? --Diz, meu querido amigo. --Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal. --Tel-o-has. Minha me j no vive, e eu tenho uma legitima. Conta com ella. --Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma coisa. --Diz. --Eu tenho um filho de quinze dias. No posso fugir com a creancinha. Aceitas-m'a no regao da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o restituir, quando a felicidade me bafejar? --Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o corao que te dou a ti. Se Deus o no tiver levado, quando voltares, achal-o-has. No lhe direi o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saber que teu filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo. -- assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me est fallando no teu corao. Porque no hei de eu ajoelhar a teus ps, se creio que em ti est o Senhor da compaixo e da misericordia?! Francisco Luiz de Abreu levantou nos braos o arquejante moo; e, no menos commovido, ratificou as promessas feitas. * * * * * s dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a me da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas. Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de moedas de ouro. Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braos d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do seio. --Como se chama o anjinho?--perguntou o academico. --Tu o dirs--respondeu Antonio.-- teu afilhado. --Seja Francisco--disse a me. --Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome--observou o academico;--mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convm ter comvosco, com este menino e comigo. O meu parecer que se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei de ter na creao de teu filho. Melhor que as suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligaes d'esta creana comigo, me julguem a mim, que no a ti, pae d'ella. O meu intento alugar uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. No irei ser padrinho, para no dar corte desconfiana de que elle seja meu filho. Assim se ir creando, at que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, querer Deus que tu voltes a Portugal. --Voltarei eu?!--exclamou Antonio, apertando no mesmo brao o amigo, o filho, e a me, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, deitada nos braos do estudante.--Ver-vos-hei eu mais?--balbuciou, intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crs tu possivel o termo da perseguio?... --No sei--disse Abreu, fingindo esperanas.--No sei... mas as voltas do mundo so to espantosas... Todavia...--continuou elle com o alvoroo de uma j sincera esperana--no te lembraste ainda d'uma felicidade muitissimo possivel? --Qual?--conclamaram os dois, para quem um raio de esperana era j cousa de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo encarceramento.--Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo? --A mais obvia e facil. O que me espanta que ella vos no haja sorrido primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, no assim? --Vamos. --De l passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmos deparam a quantos infelizes vo de c acossados pelas tochas do auto da f. Tu, Antonio, s novo e robusto. Se no quizeres continuar os teus estudos medicos l fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos: fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a tivesses, como em verdade no temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como complemento da tua felicidade na vida tranquilla. --Que sonho!--clamou alegremente a filha de Ferno Cabral.--E eu nunca pensra n'isso... --Nem eu...--ajuntou Antonio.--Ha umas desgraas que esterilisam a mais pensadora e expeditiva alma! Eu no via seno escuridade... Agora, bem hajas tu, meu irmo, que me restitues serenidade de homem inquebrantavel por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? No hei de eu mais vr-te? --Porque no, se eu hei de ser propriamente quem te v levar o filho? --Oh! ento j sei que ha o antever da perfeita felicidade, c mesmo d'este grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina... E, abraando-se n'ella, choravam ambos lagrimas j de jubilo, como as de quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham. N'este dia, como se a adversidade canasse de cruciar os dois fugitivos, boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperana. Sem embargo da raivosa perseguio do fidalgo de Bragana inculpada familia do hebreu, as leis no se dobraram a sentenciar a perdio dos innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios da S, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e sua irresponsabilidade nas desordens do mo membro de sua familia. Redobrada a exultao de Antonio com esta nova, queria j elle dispensar-se de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porm, no condescendeu nem o desquitou da obrigao de devedor, instando na immediata saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia, depois da soltura dos presos em quem no podra assentar em cheio a mo rancorosa. Prevaleceram as judiciosas previses de Francisco Luiz. quella hora, de feito, j Ferno Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarados espias que na Guarda lh'os andavam furoando, no estava j longe de lhes descobrir o rasto. Ao outro dia, depois de muito chorar da me, a cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de to puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as ultimas despedidas. Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias no trilhadas endireitaram s fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a espaos, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperana, o convencimento de que sua desgraa ia crescendo. --E o nosso filhinho?...--dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar da vida. E elle cobria o rosto com as mos, arquejava, engulia as lagrimas e no respondia. --Que mal fizemos em deixar a creancinha!--voltava ella, cruzando os braos sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.--Que ruim me eu fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu smente agora considero a grandeza do meu crime! --No chores assim!--atalhava o attribulado moo. Pois como andarias tu fugitiva com um filhinho de tres semanas! Maria, por Deus te peo que nos no atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma! Esperemos... luctemos, sejamos fortes, no nos deixemos acabar aos golpes d'esta saudade. I Informaes Corria o anno de 1697. Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudra sua residencia para Coimbra, esperanado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. No tinham filhos; mas dos braos de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creana tratava de padrinho o doutor, e senhora chamava me. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de me, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho. Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas to christs que levara para sua companhia o menino, e lhe queria at extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse me. Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella creana. A ama, que a tinha amamentado, morrra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle. Um dia, como a creana, antes de ir-se cama, entrasse a beijar a mo do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe: --No tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz? --Pois sim, mesinha--disse a creana, e saiu pela mo da creada. Francisca proseguiu: --Pois no assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle nosso filho. -- menina, respondeu o marido--esse convencimento parece-me difficil... --Nosso filho gerado no corao...--tornou ella. --Isso l, sim; d'esse modo j eu o perfilhei; mas o peior que manh podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de corao a reclamarem o que seu legitimamente. --Pois tu cuidas que elles voltam c?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que no temos uma carta d'elles! --Mas tambem no recebemos a certido de obito. --Pois sim,--redarguiu Francisca--mas, se elles vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; no t'as dariam, ainda mesmo que lhe no soubessem os verdadeiros nomes?! --Acho-te razo; porm, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo o que eu tantas vezes te tenho dito... --Que Ferno Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem? --Sim. --No creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. C, ninguem me tira a mim da cabea, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram l por fra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraa chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmos nossos. --Pde ser--obtemperou Francisco Luiz;--mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creana?!... No possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui est--disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta-- de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. No se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que signal de boas avenas com as miserias da vida. Diz que est em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois... --Mais nada--atalhou Francisca--Ora, no Canad, j sabemos que elles no esto. N'outras colonias, tambem tu j sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos? --Que as cartas me so roubadas--insistiu o doutor. --E tu a teimar, homem!... Oxal que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino est amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me d muitos filhos. --Suicidarem-se!--proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogitaes, no ouvir a esposa--Suicidarem-se no pde ser... Antonio Mouro graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de l passou para Hollanda. Um medico no chega a encarar com to feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia po, ainda que fosse mo physico; porm, com os talentos d'elle, no posso conceber mo medico. Seja o que fr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que poca e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. No o fiz at agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e vo dar s mos de Ferno Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que est em Lisboa de viagem para Frana, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmos de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de S Mouro. Francisca entrou alcova do menino, e sentou-se-lhe beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaos, na rosa entre-aberta dos labios. Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia. Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a Frana, iria indagar pessoalmente a Marselha, e no pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasio, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que l se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: No sei se rro em trazer o rapaz para Portugal; mas a me insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda. Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que no trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o aougue, o pobre rapaz que l fra vivia sem receio da pol e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que ameaavam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religio. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisio, que preferiram morrer a desconfessar sua f, antepondo a gloria do martyrio da ida herdada de avs hypocrisia de aceitarem apparentemente a religio dos carniceiros filhos de Domingos de Gusmo. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, no obstante, garrotado e queimado na praa da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serro[3] e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas. As reflexes do medico abalaram o judeu; mas no lhe demudaram a teno. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da me; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era ssinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, at que deliberou trazel-o de volta da sua excurso mercantil a Frana e outras naes. De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de S Mouro, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canad, ou Nova Frana, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e fra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos como _demonios do mar_, na linguagem da peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mos dos flibusteiros segundo informaes de um galeo hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, at quella hora, no viera noticia a Frana. Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse esposa. --Tinhas adivinhado desgraadamente! O nosso Braz j no tem pae nem me. Agora podemos dispor do futuro d'esta creana. V tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! J no ha duvidar... Esto mortos! Batam as mos os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas no poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgraas de seus paes. --No--atalhou Francisca--no lhe digas nada; no digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no corao odios e paixes que, no futuro, lhe podem ser a sua perdio. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condo funesto! II No era me!... No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisio, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes. Alvoroado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profisso de boticario, no Fundo, at ao anno de 1652, em que fra queimado o capito Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes. Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porm, que visitasse as egrejas com frequencia, e dsse bem publicas demonstraes de sua piedade. Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostentao hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e oraes. Decorridos mezes, fez-se auto da f, e n'elle saiu condemnado a priso illimitada um Ferno Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christo novo era o ter-se descaminhado e caido nas mos dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade. Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Ferno Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamado _Memorias de Francisco Soares Nogueira_, encontramos trasladada a carta, cuja copia no vem descabida ao ponto; e, se mais no vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulao dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspirao com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica. Dizia assim a carta: Oh Fernando, oh Fernando, at quando ha de durar teu descudo, entre o povo torpe e rudo? Que serve estar aguardando? Sabes a banda d'alm... e o que convem. Quem se agarra, quem se afferra, deixa o monte, deixa a serra, e ao valle seguro vem. No vs como arde esse matto, mentecato, que pouco a industria val? Antes que chegue ao casal, levanta cabana e fato! No sejas aventureiro, que o toureiro _sim_ (?), morre em seu officio. Mais val ter outro exercicio, que fundar em ser ligeiro. Por que no queres ser forro? Eu morro, por no haver quem te arranque! Se pdes vr de palanque por que queres andar no corro? Tambem eu estive l, e sei o que ha; tudo passei, tudo vi. No se incerra o mundo ahi; melhor mundo vae por c; o po c mais enssso, e a carne sem chambo; tambem c se ganha po, e no com tanto sobr'sso. A gente c sem reima, de menos teima; a terra fructos produz, e o sol d c mais luz, posto que tanto no queima. Digo-te verdade mera: considera; e, se queres ter descano, vem buscar o rio manso, foge do mar que se altera; foge do lago e da cova, cousa nova, e s n'isto me obedece. Mova-te o proprio interesse, quando o gro Deus te no mova; que os lobos como rodeiam sempre pream. Divulgou-se a carta, depois do auto da f. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porm, como se a hypocrisia lhe no dsse cauo bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias. Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisio cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, no menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro. O pequeno Braz era-lhe empo. No sabia elle se devia levar comsigo a creana. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito creana; mas no era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Ento lhe seria a ella bom de comprehender que smente me aquella que sentiu as dres da maternidade. --Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?--perguntava Francisco Luiz mulher. --Se o podessemos levar sem difficuldade... --No podemos, por que eu j desconfio que nos ser negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma creana desembaraadamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avs matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga. --Deixa-se em casa dos nossos parentes--tornava ella. --Isso sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz considerado meu filho--observou o doutor. --Tenho uma boa ida--ajuntou elle--entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creana, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. No ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias. Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphosinho filho do desventurado israelita, que perdra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra. Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creana, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua me. J ella pedia ao marido que no deixasse o menino; vacillava j tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do corao, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino. Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lanou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidao de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negocira na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que j em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou. Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisio, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor. A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores. Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela me. Ai! se ella o fosse, no perguntaria o desamparadinho por sua me. Respondeu-lhe um moo de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creana chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes. Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fra buscar a Amsterdam. Heitor Dias da Paz distrahia a creana de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre do _a b c_ do pequeno; mas as graas infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderlos. Dentro em pouco, as lembranas dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz. Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mdo de que, n'alguma hora, a inquisio lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da f, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por canado de amontoar riquezas. Assim se reuniram em felicidade ainda no experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orpho, que, de muito amado que era, no sentia falta dos seus primeiros amparadores. III O faro das bestas-feras Por espao de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes no o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos. Decorridos, porm, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era j pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrio do moo, concedeu-lhe licena. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irmosinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes carreira da medicina. A generosa lembrana foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria. Do pupilo ou, segundo as presumpes do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, j ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, l voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orpho pobrinho, cuja educao elle tomra a seu cargo. O pequeno j tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou me, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas no dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava. Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que ento reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Flr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposies que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se. Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do moo em doutrina christ, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de oraes. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no corao, comprehendeu instantaneamente o perigoso d'aquelle interrogatorio, e sau-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza no enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e j as inquietas consciencias dos frades no levavam as noites d'um somno. No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicao e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquirio porque passra o menino sobre o cathecismo christo. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou razes para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim. Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, j cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu fora s suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as. A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisio que os christos novos de Villa Flr, se no eram sinceros judeus, tambem no eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual outra como affrontamento verdadeira religio. Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questes theologicas, das quaes elle se desembaraava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discusso. O conceito dos espies de sua consciencia no melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto. Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia. Voltou Heitor ao terceiro anno, com o corao retalhado de saudades de sua me que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperana de peito onde inclinar a cabea na velhice. No obstante, a saudade levou-o s portas da morte. Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraa para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religio alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolao, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar s cataduras severas dos frades e visinhos a turvao de seu pae, e a, por isso, involuntaria privao de sacramentos. Redarguido nas satisfaes que dava, replicou talvez com descomedimento, quando j seu pae se tinha passado a Villa Flr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisio. Bemdita a mo da Providencia, que j tinha fechadas as palpebras da me d'aquelle moo! Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, no foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religio. Alm de que o orpho, esquecido do nome de seus paes, seno engeitado d'elles, no tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licena do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, at que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisio. Braz chorou muito, e cau febril na cama. O chorar e o adoecer do moo mereceu compaixo dos mestres, que o consolaram com esperanas seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mos dos filhos de S. Domingos. Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido inquisio de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que no vingmos averiguar. O que a toda luz evidencimos que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 at 12 de setembro de 1706. E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o corao com algum sangue, aquelle corao de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites? IV Resposta Abrira-se em ondas de luz o co da manh d'aquelle dia 12 de setembro de 1706. Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallarias s berlindas cosidas em oiro. As variegadas librs dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depz os coches do filho de D. Joo IV. Ia grande movimento e alvoroo nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multides que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da f. D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, at se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade. Para que tudo fosse egregio, at o prgador no auto da f de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregao de S. Joo Evangelista, chronista-mr de sua ordem, qualificador da inquisio, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitra o bispado de Macau. J sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author do _Ceu aberto na terra_, da _Aguia do Empireo_, da _Saphyra veneziana e Jacintho portuguez_, do _Anno historico_, de muitos volumes de sermes, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum to esplendido, to laureado, to christo, como este que sua reverendissima vae hoje prgar no auto da f, em presena de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta praa do Rocio: aquillo gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vo ser queimados, e aponta as orelhas pias para no deixar perder minima palavra da ungida orao de padre Francisco. A procisso dos condemnados longa. So mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vo padecer ou gals, ou desterro, ou priso perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres, _relaxados em carne_, como rezam as sentenas. Dois homens e as duas mulheres do visos de j levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vo amparados nos braos dos officiaes do santo officio agonisando a espaos ancias soluantes que lhes ressumbram fronte um suor glacial. Entre elles, porm, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cra verde na mo, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moo de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. Heitor Dias da Paz. O promotor da inquisio subiu sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenas, indigitou o hebreu de Villa-Flr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moo, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta tribuna. E o promotor leu o seguinte: Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisio[5] que, vistos estes autos, culpas, confisses e declaraes de Heitor dias da Paz, christo novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flr, reu preso que presente est, porque se mostra que sendo christo baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, cr, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa f catholica, tendo crena na lei de Moiss, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, seno noite depois de sair a estrella, ceando ento coisas que no eram de carne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, comeando a guarda d'elles da sexta feira tarde. Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario sua salvao) era crr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moiss. E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinao do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resoluo que tomava em se no querer apartar da crena da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moiss, por que j n'ella no havia nem podia haver salvao, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse f catholica que tem, cr e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professra no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvao de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes. E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, no s n'aquella sesso, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reduco, que no se queria apartar da crena da lei de Moiss, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella: Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crena de seus erros com obstinao e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe dsse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justia, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa. Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declaraes, e no quiz usar de defesa, pelo que foi lanado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justia, se lhe fez publicao de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que no veiu com contraditas, pelo que foi lanado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si no veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moiss; e, como a no negava, no havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e comeava pelas palavras seguintes:--_Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus_. E logo continuava dizendo que elle reu no s no deixava a crena da lei de Moiss; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crena da lei de Moiss, na frma seguinte, declarando: Que cria em um s Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o co e a terra, e fez pacto com Abraho, e deu lei a Moiss, e poz por primeiro preceito d'ella: _Non habebis alios Deos preter me_. E, como tal, tinha por damnada crena o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da f e por passado crena da lei de Moiss, mostrando que a differena que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus smente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando s ditas declaraes algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moiss. E sendo o reu chamado mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declaraes era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declaraes queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexo, e reverencia imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras _santa inquisio_. E pelo reu foi dito que no queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle j de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto. E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvao e engano dos seus erros, persuadindo-o obrigao que tinha pelo baptismo a ter e crer na f catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma f, e dar credito nas materias de consciencia e religio s pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, no havia professado as divinas, e como tal no podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois no tinha fundamento algum para permanecer na crena da lei de Moiss, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava s protestaes de sua crena contheudas nos papeis que havia escripto.[6] E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinao de que at alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e verdadeiro corao, se reduzia nossa santa f catholica, de que to cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma s irremissiveis e eternas penas do inferno. E pelo reu foi dito que das sesses, que lhe foram feitas na inquisio e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma inquisio haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem crena dos christos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a que estava exposta sua vida; porm que, sem embargo da perda d'esta, no podia largar a crena que seguia, emquanto lhe no propunham razes mais concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moiss. E visto como o reu se no quiz haver por convencido de seus erros, havendo-se dado soluo verdadeira s duvidas que propunha, sendo por to repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do santo officio, se assentou que o reu pela prova da justia e sua mesma confisso e declarao estava convencido no crime de heresia e apostasia, e como herege apostata de nossa santa f catholica convicto, confesso affirmativo e profitente da lei de Moiss, pertinaz e impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir sua sentena, pela qual estava relaxado justia secular. O que tudo visto e bem examinado: _Christi Jesu nomine invocato._ Julgam, pronunciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei de Moiss, pertinaz e impenitente, e que incorreu em sentena de excommunho maior, em confiscao dos seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa f catholica, convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moiss, pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam justia secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e no proceda a pena de morte e effuso de sangue. * * * * * Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentena, fitou penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na tribuna real: --No quero! Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitao foi de subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no pulpito. Reinava j sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author do _Anno historico_, trovejou estas palavras do texto: _De malo ad malum eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus_[7]. V A piedosa eloquencia do frade O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de um auto da f, pde ser que no faa cabal juizo da pea chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermo de 1706, por ser elle do ascetico e sapientissimo auctor da _Aguia do Empyreo_. Pde ser que ainda a muitos curiosos d'estas christs leituras o sermo de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que j rarissimo. A meu vr, a maior parte da edio arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do co! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que a minha vaidade de bibliomano e a minha edificao de devoto. O prgador, no exordio, prope-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, Jesus de Nazareth, crucificado por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que esto presentes. Depois do que, implora a intercesso da sacratissima Virgem, e comea. Eis-aqui um lano que nos move a favor do geral da congregao dos Evangelistas: Comvosco fallo, infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que no o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta aco, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da f, o remedio da vossa cegueira, a salvao da vossa alma; e, se acaso com a fora do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peo perdo d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus. Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se qudo alguns segundos n'aquella contemplao, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expresses, que o leitor pio leu commovido. Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas s outras: --Veremos tardinha se o marrano se ri na fogueira... O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstrao dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha mais especiosa contestao. Heitor, a cada concluso triumphante do padre, sorria; e, por pouco no desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: E como possivel que, sendo ns idolatras ha tantos seculos, e sendo vs ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vs ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre ns os favores? Sobre vs os castigos! Bem o vdes, pois vos vdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capites, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Ns os christos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga to rigorosamente aos fieis? O impulso de riso do judeu, a meu vr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto s regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em poro do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a poro alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua f, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porm, no fez levemente titubar o impassivel prgador. Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus no obrara milagre algum em confirmao da lei de Moyss. D'isto a prova mais insinuante que o douto prgador desfechou dos labios inspirados est no seguinte argumento: Todos, ou quasi todos os annos vo muitos de vs ao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vs algum prodigio. Que isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora j o fogo vos no tem respeito? J a chamma lavra em vs como em madeira secca? Heitor Dias no sorriu ento: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe s carnes o calefrio horrendo das dres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocao da fumarada da fogueira. Demonstrados os tres pontos da orao com quanta lucidez se esperava de to conspicuo sujeito, o author do _Co aberto na terra_ apostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor. Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem. Aos relapsos disse: verdade que j no podeis livrar a vida temporal; mas certo que podeis assegurar a eterna... Morrer natural: morrer affrontosa e violentamente desgraa; mas sobre tudo isto, salvar a alma, a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira f e verdadeira contrio para a ultima hora! Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? _Morrer natureza_; morrer em colcho flacido ou em cama de brazas vivas uma e a mesma coisa: natureza; mas o importante alli para o caso j no era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questo era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino. Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido: E vs, que n'este tremendo cadafalso sois o ro do maior delicto, olhae que em vs n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema: _De malo ad malum egressi sunt_. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, possivel que assim vos deixeis guiar s da vossa imaginao, e vos ateis to fortemente vossa teima em um negocio da tanta importancia? To pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vs que em qualquer negocio d'esta vida no havieis de obrar sem conselho, sem reflexo, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da f porque vos no guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade? Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis j to antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez no saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. No o tomeis por injuria--ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--no o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nao falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.[8] Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse j no ha eloquencia nem perdo divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras: Ora filho do meu corao, _convertere, convertere ad Dominum Deum tuum_. Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braos, e com o corao aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do corao vos converteis a elle. Dae este gosto ao co, dae este gosto terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossa vida e a vossa salvao. Na vossa mo tendes a vida e a morte, a salvao e a condemnao: vde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno. E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermo impresso. D. Pedro II no mais saboreou outro sermo identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovao da santa egreja, morreu. O padre Francisco de Santa Maria, comquanto s passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crmos que foi, tambem no voltou a regalar o publico nos autos da f. * * * * * Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados justia secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relao para os sentenciar. A sentena de Heitor Dias da Paz, e dos outros j estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mo, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9] --Sois o relaxado Heitor Dias da Paz? --Sou. --D'onde sois? --De Villa Flor. --Credes--tornou o presidente--na Santissima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas e um s Deus verdadeiro? --No creio. E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse. O escrivo, que estivera autoando a sentena, ergueu-se e disse ao condemnado: --Ajoelhe para ouvir ler a sentena. --Ouvil-a-hei em p--respondeu Heitor. --Leia--disse o presidente ao escrivo. O escrivo leu o seguinte: Acordam em relao, etc. Vista a sentena junta dos inquisidores, ordinario, e deputados da inquisio, e como por ella se mostra o ro preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa f catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado justia secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e declarar que no cria em nossa santa f catholica, seno na lei de Moiss; o que assim visto, e disposio de direito em tal caso, condemnam ao reu que com barao e prego pelas ruas publicas e costumadas seja levado ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em p, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes, inhabeis, e infames na frma de direito e ordenao. E pague as custas d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706. A procisso dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que j iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido s leituras de suas sentenas em anciados gritos, iam desacordados nos braos dos quadrilheiros do santo officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janellas do transito. Ao embocar o prestito rua da Padaria, um ancio mal coberto de andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a m compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condemnados. Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a repelles. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do corao j tinha ecoado no seio do ancio, que exclamou: --Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua me que por instantes estars comnosco no seio de Abraho! E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peonha, ao qual se seguiram medonhas convulses. --Abenoada seja a sua coragem, meu pae!--exclamou Heitor--At logo, at eternidade! As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e no foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirra afogado no fumo. E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do pao da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam vesperas. VI Braz Luiz N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos. A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porm, n'aquellas edades a sensibilidade para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram no se prendem previso angustiosa das desgraas porvindouras. O filho de Antonio de S Mouro estava de todo esquecido do doutor Abreu, e no longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz. Os mestres do collegio, cuja dileco pelo engenho do moo se manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse irmo de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoo com que elle se entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino. Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o moo tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que envira delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e Coimbra estudantes esperanosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora no soffresse quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio. Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moo de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas no violentava. Tamsmente as vocaes liberrimas e muito espontaneas lhe serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposio para a vida sacerdotal, abriram mo d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo que Braz Luiz teria a proteco d'elles, se no tivesse a dos paulistas. Deram-lhe a opo de modo de vida. Braz escolheu a medicina. Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si to lisongeira conta, que se estremou entre os condiscipulos, ganhando as distinces das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discipulo dos seus futuros escriptos se mostrar agradecido. Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada revoluo. Sem faltar s obrigaes escolares, deu-se tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro e pimpo. Os paulistas ameaaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Braz Luiz respondia s ameaas dando optimas lies nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas. Em uma d'essas escaramuas cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de muitas proezas, cau ferido de uma choupada, que lhe vasou o olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braos para sua casa, e lhe assistiram affectuosamente cura. Salvaram-no da morte: mas no poderam salvar-lhe o olho. Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a m nova de ter perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e no mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem j no tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu protegido, voltaram a soccorrel-o; porm, o pundonoroso academico, reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfao com que continuaria a recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a regeitar o po vilipendioso dos paulistas. Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gro de licenciado em medicina. A razo que elle teve para assignar-se _Abreu_ funda n'uma casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na sua _Bibliotheca Lusitana_, dando Braz Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde comera a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina do alphabeto: _Braz Luiz de Abreu_. Assim o escrevra a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no menino como em filho propriamente seu. Ahi est onde ao medico se deparou um apellido, que elle no sabia d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado _Abreu_; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra no havia para que indagal-o; porque elle no tinha sequer vaga lembrana de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. Todas as suas lembranas esboavam-se dos sete annos para quem. Terra que no fosse Coimbra s escassamente se recordava de Villa Flor; e imagens de pessoas, duas smente lhe viviam meio delidas na lembrana: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz. Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradies encontradas alli eram que uma creana apparecra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas no sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado no havia palmo de terra que a inquisio no confiscasse. Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. mingua de recursos, pensou em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o encontrmos curando com muita voga e felicidade em 1715 at 1718[10]. No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobia o impulsava para terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este mesmo anno comeou elle a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixra no rosto a choupada, e achou-se no s feio, se no repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita direita vasia e coberta pela palpebra amortecida. Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita nauseenta e dar contractibilidade apparente palpebra. Investigou a sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho no agradava ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos. Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou sua elasticidade. Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para logo se conhecer que a orbita direita estava envidraada. D'ahi seguiu-se chamarem-lhe o _doutor Olho de Vidro_, alcunha que lhe ficou at morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talentos medicos e os seus no menores infortunios. Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, no obstante a pouca illuso que embahia o falso olho, melhorou bastantemente. O restante do caro, como diziam os coevos d'elle, era seno gentil, mui symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que no polvilhava. A razo d'este proceder, to inverso dos costumes do seu tempo, elle quem propriamente a escreve d'este modo: ... Emquanto aos polvilhos, to longe esto de parecerem ornato na cabea do medico, que antes so presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com ps na cabea nos adverte da morte que vem, como o medico com ps no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio que, os ps so significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apollo s usam de polvilhos cephalicos na regio animal; de polvilhos cordeaes na regio vital; e de polvilhos estomachicos na regio natural. Isto uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridiculo.[11] No curemos de ponderar a justia das razes que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito d'ellas, fao justia aos contemporaneos do auctor do _Portugal medico_. Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caoula de camarim de odalisca. Outra razo efficientissima do seu enojo de perfumes: Sou de parecer que (o medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes, porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que no eram suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem moda, e no excedamos a moda, que nem porque um medico cheira bem, cura melhor.[12] Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos; porque dizia elle: Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabea, to introduzidos n'este miseravel seculo, que no ha j encontrar solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca. E acrescentava: Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christos e collocam sobre a cabea as melenas de um herege![13] O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignao, e a indignao porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do olvidio, graas ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de medicina. Resa d'esta sorte: Oh, medico! se s medico com effeito Procura mundo[14] ser, mas no mundano; Que de Apollo o caracter soberano No anima nos vicios o respeito. Bebe o co, bebe tu; mas com tal geito Que o crocodilo do rumor profano Quando vs a beber do Nilo humano No possa devorar teu bom conceito. Em teu ornato a modestia nunca falte, Um pouco mais ao grave do que ao lindo; Que assim obra quem douto assim discorre. E porque a tua fama mais se exalte, Visita a modo de quem vae fugindo, Como do Nilo o co, que bebe e corre.[15] O desgracioso da musa do Olho de Vidro est delatando que o poeta, se no era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um alis louvavel cuidado de se fazer bemquisto aos homens graves do seu tempo. , de mais d'isso, muito provavel que o medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos bemfeitores de Villa Flor. Se os elle no conhecia, quem lhe asseverava que a inquisio os no conhecesse? Se lhe pedissem a certido do baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a? VII Exemplo de honestidade aos medicos Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que ento contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino. Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescripo do soneto, no procediam exactamente Como do Nilo o co, que bebe e corre. Ora, como elle, de espao, fosse vendo que a inquisio vivia despreoccupada d'aquelles ces do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com elles, e atirou o corao s tempestades dos vinte e cinco annos, resalvadas as apparencias. A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans que se ajoelharam diante d'ella at aos trinta annos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella cabea rica de formosas tradies. Estava literalmente calva. D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho unico do seu medico, levou a mo ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de lingua de vacca, antidotos de sua predileco contra os estherismos e enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira. A dama, cada vez mais enfermissa, tornra-se a desesperao da medicina gallenica. Dos linimentos chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um smente dera satisfatorio resultado: era a presena do medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub-jacentes ao corao. No corao nomeadamente que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repellindo a criada: --No consinto mos estranhas no meu corpo! Antes a morte! Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razes a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitaes. Da austeridade de medico passou s branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle quem lhe friccionasse o seio. Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua condescendencia no tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada. O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mos untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio tentador do santo, emquanto assentava a outra mo sobre um brazeiro para ir assim com as dores quebrantando os mpetos da materia bruta, as _fervenas da carne_, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano. D. Claudia da Silveira verdadeiramente no tinha parte de demonio; porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e quietao de corpo e alma, que s isso lhe bastaria a ganhar o co, se a mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o. Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descanado que parecia descair em dormir restaurador das foras extenuadas. Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mo e cabea to levemente como quem a custo o fazia, vencida do turpor do somno. Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito. Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe cara com a taa do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril. A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia: --Manda-lhe chamar o Olho de Vidro. --Mas elle ainda agora saiu, senhor! --No importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faa o que ella quizer, comtanto que eu no ature minha cunhada Claudia. Assim se fez. Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observaes a rapida cura das convulses de corao de D. Claudia com unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga. O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi. Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era ainda a dr do corao que lhe estava destroando o peito. Fallou o doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas. --Pois no, minha senhora!--accudiu o medico--no faremos uso das ventosas, at mesmo porque a convulso se vae distendendo aos membros, e receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado do remedio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem, depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao boticario com a receita que vou escrever[16]. RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flr da mesma, e cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que se coser com linha, se ponha a assar, e o que destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura se unte o corao. ABREU. Depois, sentando-se ao p da doente algum tanto melhorada das convulses, ajuntou: --Se este admiravel remedio no produzir o almejado effeito, asseguro a vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com os banhos de azeite puro, e melhor ser se antes se tiver cozido n'elle uma raposa[17]. --Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa? --Que desejar vossa senhoria que no apparea, minha senhora! Qualquer caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa senhoria, caar raposas, que so mirificamente medicinaes. --Anjo bento! raposas medicinaes!...--volveu D. Claudia, e abriu um sorriso jovial, volta com um gemido, como se o picar subito da dr a no deixasse rir francamente. --Parece-me que est mais alliviada...--disse o medico. --Um poucachinho... --Pois as virtudes da raposa so miraculosas, minha senhora--proseguiu elle, confiado na efficacia da distraco.--A lingua da raposa trazida ao pescoo refora a vista. As mos d'ella trazidas ao pescoo preservam do quebranto.[18] --Do quebranto!...--murmurou D. Claudia da Silveira--Ai! doutor, ha quebrantos sem cura! Ha arjos que em pegando da gente o remedio morrer. --Feitiarias, quer dizer vossa senhoria? No tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica. --Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--No d'esses que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defender... Ha coisas peiores do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabea creatura mais ajuizada. Tenes e protestos no montam nada. Que me faz a mim dizer: no hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de mo... E, chegada a occasio, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ella, pondo as mos ambas sobre o corao.--Ai!... pobres mulheres!... S vs sois as fracas... as peccadoras... no assim doutor? Braz Luiz de Abreu, que n'este lano estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraada e trigueira aia de D. Claudia--por pouco no surprehendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador. -- assim, minha senhora, assim--balbuciou elle. -- assim, --tornou ella--E que remedio sabe vossemec para estes quebrantos, doutor? -- conforme...--tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta conveniente, porque s n'aquelle instante percebera, com despeito de sua vaidade de medico, a enfermidade da fidalga. -- conforme, disse vossemec doutor...--volveu ella, anciosa de entender as reticencias. --Sim, minha senhora... Ha varios modos de possesso, alm dos conhecidos nas demoographias... --Mo entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixo d'alma tambem feitio? --Se no ...--balbuciou o doutor. --Leva as mesmas voltas--accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, no poupando na relao das taes diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas impudicicias muito reconditas da crte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade. Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fra. Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabea ao lado opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabea da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam. --Ol!--exclamou ella, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repello, e disse iracunda: --Anacleta! j hoje no dormes n'esta casa. Rua! No quero testemunhas nem espies do que se diz no meu quarto. Rua! E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido quelle conflicto, disse-lhe: --E a hypocrisia de vossemec, senhor doutor!... A feitiaria da minha criada tambem se cura com os prodigiosos _no sei que_ (o doutor tinha dito alexipharmacos) da santa egreja catholica? Que hypocritas so estes medicos!... E cacarejou uma risada secca. --Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado at irriso. --Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em praticas de soliloquio comsigo mesma.--A promptido das visitas... est explicada... Assim devia ser. L com l, no falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas serviam smente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se no sujavam com amores de servilhetas... --Oh! senhora D. Claudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria est-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue to illustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, no deve mais voltar presena d'ella. E, tomando o chapo e bengala, fez uma arqueada cortezia. --Faa o que quizer, doutor!--disse ella abespinhada, com o n esterico nos gorgomilos--Faa o que quizer que vossemec se arrepender... Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da Silveira. --Que tal est a pellada!--dizia elle de si para comsigo--A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa f do mais soez enfermeiro! Chibata que ella precisava nos lombos ociosos!... VIII M sina de poetas Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fra expulso da casa dos Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito ao que devia illustre enferma, e ao que devia sua dignidade de medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas s suas servas. A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez de quem s tem um olho. Assanhou-o, porm, o susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afra as doentes mais rendosas. O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que elle figurava ridiculo, era contada entre as familias s gargalhadas. Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente ltego era a satyra em verso. No teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrio, como convinha gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes quadras: A UMA PELLADA Mulher, n'esse teu desgarro... Convm saber, antes de ir vante, que D. Claudia, como se quizesse attrahir aos ps a atteno das pessoas, que lhe reparavam na cabea, costumava estar sempre calada de sapatos bordados a fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e propalavam que o Olho de Vidro se deixra algum tempo fascinar dos aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, no ha j commentarios que aditar poesia. Mulher, n'esse teu desgarro, Um Nabuco s vessas s; Porque, tendo d'ouro os ps, Tens a cabea de barro. Se alguma pedra travea Te quizesse derrubar Era preciso acertar Mais que nos ps na cabea Por que, se pelo mais fraco Estalla a corda mais grossa, Quem quizer que estalles, _moa_, Ha de cascar-te no caco. Mais flammantes do que um ouro, Mais liza do que uma ostra, A cabea a coura mostra, Os ps vo mostrando o couro. Dize-me com que destino, Mesclas n'essa estatua van Entre affectos de christan Heresias de _Calvino_? Sem monho, e com cara alva Sahes a toda a occasio; E vejo que tens raso, Porque a occasio calva. Sendo mal encabellada, Para que andas, dize, pella, Se ninguem por ti se pella Por mais que venhas pellada? Vae-te, e pede a Deus, louca, Que te d com toda a pressa, Cabellos para a cabea Em vez de po para a boca. Ao padre nosso porfia Pede que te encabellise; E em vez de _po nosso_, dize: _Cabellos de cada dia_[19]. Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; no tardou, porm, que sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido, estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou noticia da dama a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor. Odiou-o de morte; no relevava, porm, a soberba da fidalga que ella se dsse por ultrajada. Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle, deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e mdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque no lhe faltou. Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do peito. Do plano execuo mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz, recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa. Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por Coimbra, onde assistiu impresso de um seu livro em castelhano, intitulado _Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna. Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria gloriosamente alcanada por las aguilas impiriales contra las nocturnas aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto ao 1716._[20] A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chama _Aguias filhas do sol, que voam sobre a lua_. E, como se isto no fosse j recommendao obra, acresce-lhe o merecimento de ser _representao comica, tragica e triumphante_. Um livro assim, e os applausos com que a peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga compensao dos dissabores com que saira de Lisboa. No ha ahi chaga em peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento. Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo teno de estabelecer-se na segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do ch, nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para seu uso o ch da China, como se no tivessem alli mo a erva de que elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito fao em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se no iria eu propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de Aveiro em poucos annos. Aqui est a noticia: Na villa de Aveiro, e em todas as suas visinhanas nasce uma erva, a que os naturaes chamam _erva formigueira_, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao meu entender) o verdadeiro _ch_ que vem da China e do Japo; no s porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes do _ch_; mas tambem porque mandando-se da India a Gonalo de Sousa de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo ch, elle a mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se acham revestidos os campos e os comaros.[21] No ha duvida nenhuma: o ch da India a _erva formigueira de Aveiro_. E dizem que ns, os portuguezes, no somos gente para descobrimentos! O que ns somos uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se alguma companhia entrasse em explorao d'aquella mina, quem sabe se, fechados os portos erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso ch amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infuso de erva formigueira? Razo tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em seguida noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: Quem quizer indagar-lhe os prestimos, com facilidade o pde fazer, se acaso no fr do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas estrangeiras s nacionaes e domesticas. Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao comear o anno de 1718. Estreiou-se auspiciosamente. Aambarcou a clinica dos mais acreditados, e manteve-se com recato e honra no tocante s venialidades do corao, tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a m fama grangeada em Lisboa. No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Mercadores. No se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro, estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de rato fresco.[22] O corao cedia freima com que elle trazia empunhada a cabea em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia, como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria, se est gosando e gosar, emquanto o seu _Portugal Medico_, e a sua _Vida de Santo Antonio_ e este meu romance forem livros conspicuos. Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua cura na milagrosa reputao de Braz Luiz de Abreu. Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes apenas lhe davam tempo para gemer, no obstante os esmerados disvelos do doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando pobre senhora lhe acudia a lembrana de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem parentes, bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz Luiz, com a alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de prompto as investigaes indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e trs annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito custo a lingua portugueza, e com sua me expressava-se sempre na lingua franceza. Braz Luiz de Abreu no se deteve a perguntar ao seu espirito se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a perdidamente desde que a ouviu. D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras filha foram estas: Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraada menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar os teus parentes, e diz-lhes que no s culpada dos delictos de tua me. Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao p da filha: --Abenoae a nossa unio. --Eu vos abeno, meus filhos--murmurou a moribunda. IX Poeta e moralista Casaram. As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida. O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente referidos por sua mulher, que os no sabia bem contar. O essencial da historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo. Declarou ella que sua me no se chamava Antonia, nem o seu appelido era Castro. O mysterio, a perseguio, a formosura, a indole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido, comeou a contar os seus dias de vida. Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de mandal-o posteridade! Como no era coisa bem cabida um soneto de amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos, attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que eternisra as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo encarecer a formosura de um opulento cabello: Temos um heroico exemplo na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou toalha para enxugar os ps de Christo lavados com suas lagrimas... Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este SONETO Teus cabellos, teus olhos basta vel-os, Compondo o rosto teu, que ao sol prefere, minha esposa, porque a f venere A amorosa ambio de pretendel-os. Nem porque muitos so chego a querel-os, Antes por qualquer um amor requere, Um dos olhos o corao me fere, Prende-me a alma um s d'esses cabellos. N'um dos olhos por pura te comprehendes, N'um cabello a humildade sem refolhos, Ds a entender em symbolos bemquistos: Por isso humilde e pura tu me prendes; Que se um dos olhos me entra pelos olhos Um dos cabellos me ata a olhos vistos.[23] O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, no bom modelo para mysticos; porm, como brinde estremecida Josepha, o melhor de que eu tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente. O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho Luiz, e depois Pedro Jos, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas so os anjos que pintam os quadros da vida intima com cres e instincto do co. Quem quer dizer suprema e indisivel felicidade no tem mais que pr: eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em volta do ninho que lhes d o aconchego da plumagem e do cibo. Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado s caricias da familia, entre os trabalhos de gabinete e visitas s pessoas mais illustres e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade fallou por elle no tribunal da inquisio, quando l chegou o requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio. Concederam-lh'as sem hesitao, porque os medicos, como senhores do arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da pureza da f. No s os sos costumes, que tambem um livro de summa piedade e vasta erudio, lhe ganharam as honras e privilegios de familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo, intitula-se Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida e prodigiosas aces. N'aquelle tempo, no houve livro que ousasse medir-se com as elegancias e pompas d'aquelle _in-folio_, para o qual devra inventar-se a eternidade, se ella no andasse j por ahi disposio das obras inuteis. D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido, reduziu-se pureza da f catholica, e revalidou as ceremonias do baptismo, para se limpar de escrupulos. No seria esta a razo efficiente; mas parecia ser. No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem que menos importante salvao da alma. Todavia, choviam benos sobre o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padro da medicina portugueza: Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana. Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e microcosmo. Estes dizeres podem chamar-se o cabealho do titulo, que se continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se no julgue da superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. Jos Francisco, e assigna-se _medico portuense e familiar do santo officio_, assentando n'estas qualidades dois titulos considerao publica. Este livro, a meu ver, a mais pittoresca historia dos costumes d'aquelle seculo. Ninguem l o _Portugal Medico_, e poucos sabem que desprezado thesouro alli est. Como author de livros de medicina vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relao das usanas do seculo XVIII, no ha novella nem poema satyrico em portuguez que lhe chegue barba. Onde me d o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram traos da chusma de charlates, naturaes e peregrinos, que se locupletaram entre ns, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso, nenhuma publicao coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro. Para mim de f que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae folhear o _Portugal Medico_. Pois eu, mas que me alcunhem de impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro, que mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu. cerca dos medicos estrangeiros: Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religio feito apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E at entre os nossos o que alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que cirurgio na Extremadura vae buscar o gro de doutor ao Alemtejo; e de boticario da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo... Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino um medico estrangeiro, no disse bem, um estrangeiro metido a medico; antes que ponha o p em terra, j o bom do homem tem mandado encher as esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, comea logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado; porque a queixa s elle a conhecia, por ter j feito, similhante cura na pessoa do delfim de Frana, e vencido o mesmo achaque no principe Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de m morte; mas as suas experiencias sempre tem sido observadas, ou nos palacios dos principes, ou no serralho do gro turco. Comea um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se o achaque uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu fao uma agua to portentosa e de to infallivel virtude, para esta sua queixa, que no s capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de Rouen em Paris estava j mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralho por agosto... verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compr leva duzentas moedas de ingredientes. Se vossemec quer que eu lh'o faa venham as moedas; e, se no se achar bom, no me dar nada pela cura. A isto responde o doente que muito dinheiro--Bom remedio (torna o estrangeiro) faremos por ora s metade da cura, e no vem vossemec a gastar mais do que cem moedas. Ainda muito? Pois venham cincoenta. Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, at que o alchimista para no ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque no quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; pe a ferver dois almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores de papoulas, para tomar outra cr, e um arratel de assucar mascavado; compe uma agua adocicada cr de fogo; enche quatro garrafes bem tapados com cortia e lacre, e pilha duas moedas. Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros, das benzedeiras. Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saa de frente contra os charlates em favor da humanidade. Oh!--exclama elle--quantos e quantos medicos, lobos na condio, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que no sabem mais que roubar e matar!... So estes ladres e matadores publicos todos aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! J no s arte de curar, s atalho de morrer; j no emendas os vicios do corpo, extingues as virtudes da alma; j no s triumpho das queixas, s flagello das vidas; j no s sciencia, s ignorancia; j no s arte preclarissima, s claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de curar so modos de viver; os teus aphorismos so gyrias; os teus textos so roubos; os teus remedios so mortes, e os teus brazes so sepulturas. Mas como no ha de ser assim, se so homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores... christmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porm, tristeza ver n'isto a ingratido com que elle malsina a raa d'aquelle Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe estabelecra a penso no real collegio de S. Paulo. Entristece ainda mais que elle se no conda do pae de sua mulher, do av de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, expirara exclamando: Dem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu no morrerei ainda! Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que elle devia inquisio, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raa, at quarta gerao, condicional indispensavel na investidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurana na conquista do outro, vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia d'estes esbirros do santo officio. Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerena e odio com que os seus collegas leram o seguinte soneto: Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem, Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil, Milhares de milhares (So frei Gil!) Quem poder contar quantos c vem? Tanta gente sem conhecer ninguem![24] Ms caras! ruins aspectos! frma vil! Nunca elles so de genio mais subtil, Se a cara testemunha o que ellas tem. Ah! sim; j sei; uns mata-sanos so D'aquelles asneiroens que por hi ha, Que no sabem escolher o mal do bom. Ah! quantos burros ha! (mais de um milho?) Que sem saberem lr o _b a-B_, Curam e matam por hi sem tom nem som? Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua grande nomeada. No cuidem que elle, similhana dos poetas, de seu natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se declara: No faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e povoaes grandes d'este reino, para os seus medicos muito pouco o sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que para isso burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenas, e embolar estipendios, isso no, que por isso asno. Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, no por attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livro _in folio_, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do tempo d'agora, e censura aos doentes que no pagam. X Os expatriados Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a India, em uma no mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mulher, disfarados em mercadores de drogas indostanicas. Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisio os farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No primeiro navio britannico aproado costa do Malabar, conseguiram os incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos hollandezes. Estavam salvos. O doutor Abreu comeou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortuna lhe sobrassem, visto que j de Portugal saira com sobejos para viver memente, passou Europa e estabeleceu-se em Hollanda. Aqui, recebido nos braos de centenares de portuguezes, voltou profisso de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. Em parte nenhuma do mundo,--escrevia Daniel Lavi de Barros--gosam maior segurana que em Amsterdo, tanto pela liberdade de consciencia nas sete provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.[25] Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente dos israelitas de procedencia allem. Foi a primeira edificada em Amsterdo, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na sua _Sylva_: _La primera Synagoga Amstelodama_ _Fundada fu del grand Jacob Tirado_ _Que por su nombre Bet Jahacob la llama,_ _I por el pueblo de Jacob sagrado._ Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica, desde que a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos, levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje sobreleva a todos de Amsterdo. No crer dos hebreus, aquelle templo era o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: Porque os puz longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes, eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde forem.[26] Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de esquecido da patria, logo que a occasio se lhe amoldou, sem risco do seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho de Antonio de S Mouro para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe no tirasse o pequeno, porque, alm de magoar penetrantemente seu filho, que o estremecia como irmo, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, suggerisse inquisio suspeitas e aparelhasse desgraas para os que lhe estavam debaixo da vista fulminante. Relatava-lhe a perseguio que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na no da carreira da India, e o certo perigo que corria a creana, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu. O medico desvaneceu as esperanas da sua mulher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem palavra Francisco de Moraes revelava creana, por medo que a indiscrio propria dos annos acareasse desconfianas da espionagem, que sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurana, para que as suas cartas no tivessem destino egual s de Pedro Lopes, residente em Damasco. Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a Frana inquirir de novo informaes de Antonio de S. Nada adiantou s colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canad, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella no, a no ser que as duas galeotas de flibusteiros, ento ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio. Recolheu o doutor a Amsterdo com as esperanas de todo perdidas. Seis annos decorridos, chegou familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisio de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdo, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava j da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moyss, e smente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado. Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nao fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pego de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27] Assim fra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmes as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. No menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Asseno, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na _Sylva_, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr: _Veinte y dos annos in prison penosa_ _Por defender de Dios la verdad pura,_ _Termino arrastra la cadena dura_ _Que le da el ser la sacra ley su esposa._ Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidra no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer que _nunca vira to ardente desejo de morrer, nem tamanha confiana de salvao, nem to completa firmesa, como a d'aquelle moo na flor da edade_.[28] O medico Abreu, para no arriscar a segurana dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informaes de Braz, nos primeiros annos seguidos morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfaradas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcanaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moo. Eram obvias as razes d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixo do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores. O medico Francisco Luiz, se no esqueceu o filho de Antonio de S, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou casse em obscura indigencia, depois do auto de f de 1706. Em 1718 appareceu em Amsterdo a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: Aguias filhas do sol que voam sobre a lua. O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. _Braz_ era o nome da creancinha, que elle entregra a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle. --Quem sabe!--dizia elle esposa--Cuidaria o filho de Antonio de S que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixmos, e o appellido que eu tenho?... --Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro--lembrou Francisca. De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto. Sem medeao de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou so os paes de vossemec, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdo. E deu o pseudonimo _Elias Sarmento_, a quem devia ser dirigida a resposta. Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraado, que no tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por to certeira azagaia sua immensa dr e pejo de no poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se no tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avs de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar. N'um homem, chamado _Elias_, a alluso insultante devia de acertar infallivelmente. Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illuso e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntra onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, custa d'elles se licencira, e era familiar do santo officio, e denominado o _Olho de Vidro_, porque, tendo perdido um olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinio de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se no fosse filho de tres frades. vista d'isto e da resposta do author das _Aguias_, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz no tinha de commum com o outro seno o nome. XI Treze annos depois Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdra em Amsterdo. O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solido, por ser bebido em taa de oiro, no lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar po alguns espinhos da sua cora de orfo de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que smente esposa e filhos podem adoar o amargo da velhice. No tinha ninguem l fra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem j esperava, nem queria ser estimado d'elles. Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessaria para passadio abundante de quinze annos. Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos j tinha que desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdo, e desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle em tres annos no tivesse encanecido, e oito annos antes se no retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e pittorescos da Italia. Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que v pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascra havia sido vendida pela cora, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella; dormiu no quarto de sua me... no dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascra e morrra sua me, viu de passagem o quarto que fra o seu, e d'onde agora saa outro viageiro madrugador. D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluos para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os no ouvissem. Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro: --Vae para Coimbra, camarada? Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal. O collocutor era homem j de annos adiantados: oraria tambem por perto dos sessenta. --Aquillo j foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem j parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemec, que estrangeiro, posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos. --Ha quantos annos andou vossemec estudando na universidade? --Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693. --Noventa e tres?--perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que j ia a vida estudiosa do interrogado. -- verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, j no vive nenhum. --Seria d'esse tempo--tornou Abreu--um portuguez medico que eu conheci em Hollanda? --Como se chamava? O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse: --Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz... --De Abreu?--accudiu o interlocutor--Ora se conheci!... No era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da f de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda ser vivo? --No lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e no voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal? --No lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; no sei se elle o levou, se morreu por c em companhia de parentes. --Tambem a mim me est lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me no accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christo velho... --Ah! j sei de quem vossemec me quer fallar... Ha de ser Antonio de S Mouro. --Parece-me que sim... --No podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraado, perfeitamente... --Ento sabe que fim elle teve?--atalhou Francisco Luiz. --Morreu, o que eu sei que o pobre homem morreu l fra e por pouco lhe no matavam os paes c dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu no estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mos. Imagine vossemec qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi. --A viu?!--exclamou Abreu--viu? quem?! --A morgada de Carrazedo... E, como soffreando a expanso, o viajante disse: --Conto estas coisas a vossemec porque estrangeiro, e por que ella j morreu, e no tem que temer da inquisio. Que ella andou em Portugal incognita... --Mas vossemec viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luiz. --Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemec poderia vel-a tambem, se ella no tivesse morrido em 1718. --Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes... --Olhe, o modo como o marido l morreu por fra, no m'o disse ella... mas, o melhor contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragana, com uma menina de vinte e dois annos. --Menina! filha d'ella? --Sim, filha d'ella e do judeu S Mouro. Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porm, j o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, j tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar. --Ento ella tinha uma filha?--insistiu Abreu. -- verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a me, d'aquillo que tinha sido, no lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, no podendo ter ento mais de quarenta e quatro annos, c pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... No me lembra o que eu ia dizendo... --Que appareceu em Bragana D. Maria Cabral com uma menina... -- verdade. Chegou a Bragana, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade. Depois de por l estar alguns mezes, dando muito que pensar curiosidade da terra, comeou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licena para l passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herana de Ferno Cabral. Este fidalgo desherdra a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irm, que elle odiava, por se ter casado com um capito de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio filha avantajou-se tanto ao odio da irm, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldioada pelo pae hora ultima; agradeceu as spas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao porto da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se j tinha morrido o doutor Jos de Barredo. --Jos de Barredo! disse Abreu, sem ter mo da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu. --Sou eu. Parece-me dar vossemec a entender que j ouviu o meu nome?! --No me novo... tartamudeou Francisco Luiz. --Pde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de S, porque eu, no sei porque fatal compaixo de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia morgada. --Naturalmente de Francisco Luiz que eu conheo o nome de vossemec, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feies d'aquelle velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.--Deixe-me apertar a mo de um amigo de Francisco Luiz--tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao corao o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram... --Certamente--disse Jos de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinio que elle e Antonio de S tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christo velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez. Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, at que, expedindo um grande ai, se lanou nos meus braos, clamando: eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoo. Jos de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria. --Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella--Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faa ida, e continuou Barredo--faa ida do meu assombro, senhor... senhor... pde dizer-me a sua graa?... Um amigo do meu amigo da mocidade, no deve hesitar em querer a amizade que lhe offereo, e dizer-me o seu nome... --Direi--balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha de ser com o corao bem perto do teu, Jos; abraa-me, e ouve-me muito baixinho esta revelao feita tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu. Jos de Barredo abriu a bca at onde lh'o permittiam as articulaes das mandibulas. A expresso d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e ento smente pde o velho atirar-se todo aos braos do amigo, e exclamar: -- Francisco!... se a inquisio te conhece! --Tu smente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E no temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doer do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu j, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da pol ou nas do garrote? Como quizerem... Jos de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante viuva de Antonio de S Mouro para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. No lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo: --O alvoroo que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, s t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. So dois lances da minha vida que j no podem repetir-se. No tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de S, esse no pde mais voltar... --Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco Luiz. --Oh! no!... pois tu desconheces a doura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moos, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que isto, seno o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os coraes?... Demos graas ao nosso Deus, que o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do co e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe j agora acabar estes ultimos dias um beira do outro... Tu vaes para minha casa, no verdade, Francisco? --Irei a tua casa, irei, Jos; mas... estou a receiar que te esqueas da nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas. --Tens razo; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraados... --Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive... --No posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal preteno, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lanarem rezina aos pos da fogueira com as proprias mos. Ento me relatou ella a desgraada vida que tivera por espao de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. No t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais no vi os taes papeis, e j era minha teno queimal-os para que por elles se no venha a descobrir quem D. Josepha, a filha do judeu Antonio de S. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado o _Olho de Vidro_. --Braz Luiz de Abreu--atalhou Francisco Luiz. --Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que no, e, para prova de que no era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio. Francisco Luiz interrompeu a narrao para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de S, uma creana que... --Muita gente--accudiu Jos de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu filho... --E admiro que no soubesses que era filho de Antonio de S! --No sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaas de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quo perigosa era a tua situao, e a dos paes de Antonio de S que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino? --No sei. Presumo que sim. Ninguem me pde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor? --Lembro, foi em 1707. --Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moo, que ento devia ter entre quatorze e quinze annos? --No ouvi dizer nada. --Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro? --Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragana a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haver cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhra com a publicao d'um livro chamado _Portugal Medico_, tivera de afastar-se do Porto, e fra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupaes no me deixaram ir a Aveiro, e j agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se j estar na eternidade! --Irs agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurars, e dars azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrana... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de to abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixra um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha? --Disse que esse menino o considerava morto: uma s vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creana, de modo que nem soube que o menino ficra em tua companhia, nem depois passra dos Moraes de Villa Flor. Eu no te disse ainda que D. Maria, s temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitaes taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, no cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelaes confusas que a me me fazia sobre as desgraas do seu longo desterro e captiveiro. Pde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poder referir a vida de Antonio de S, a meu ver, o marido da filha; mas querer elle--o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio--que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Ferno Cabral os seus filhos? No ter elle medo de que o santo officio lhe sia ainda a pedir contas mulher dos delictos do pae e da me? --Isso claro--observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva filha de Antonio de S. De mais a mais, j eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdo. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; preciso muitissimo cuidado, que no vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem filho. No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado. Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de Jos de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragana; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraa fosse inevitavel. Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de Jos de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu ssinho de Bragana em direitura a Aveiro. XII Historia de Antonio de S Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem. Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias. Dos remedios receitados no se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu. No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortra pela raiz uma doena, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confisso do doente. J o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porm, instava, pagando-as a brio, que no lhe faltasse diariamente com ellas. Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro. J o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o dra; o forasteiro, porm, affeioado terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes. O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. Jos Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, so tantos que bastam a formar uma assembla em Aveiro ou saro d'aldeia, que monta o mesmo. Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preo. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feies de D. Maria Cabral. Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio j posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz a cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperana de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de S. Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. Jos contar historias curiosas das suas navegaes. Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma no hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos. --De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--J esteve n'esses sitios vossemec? --Avistei-os--disse o hospede. E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripo temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos. Terminou o saro d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse: --D. Jos Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir s a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje vante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a no ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, ho de calal-a. --Honrado sou eu por benevolencia do doutor--se vossemec me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz. -- segredo de tanto porte--accrescentou o medico, abaixando a voz--que no sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiana que me merece, senhor D. Jos. E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim: --Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de S Mouro, natural da Guarda. Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gro em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixo de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canad, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha. Na altura da costa de S. Domingos, a no em que elle se embarcra perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por no ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braos, dispostos a descerem ao abysmo abraados. J perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou: --So os demonios do mar! So flibusteiros![30] Vejam l o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras? Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados. Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhmos todos para a no, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltmos um grito unisono de consternao! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situao, senhor D. Jos! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prsa, e mal ouviram no sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: C temos um co de hespanhol! E a um tempo se lanaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes? --Se eu no receasse interromper a sua interessante historia--disse Francisco Luiz--lhe daria a razo d'esse odio, se que sua esposa no quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e no por experiencia. --Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e no sabe explicar-m'o. --Em poucas palavras o farei--tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram costa septentrional d'aquellas possesses algumas galeotas de aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as naes, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por l deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapo de feltro, um calo, e uma grossa correia cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a Frana lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto no recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traioeiro. O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender s enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperana de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro. Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanas das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este comeo de exterminio se gerou o odio dos bandidos Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram s mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamados _demonios do mar_. Agora, vamos historia do senhor Antonio de S, meu sogro. --Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Braz de Abreu--foram remettidos Martinica n'uma gal, que vogava com mais de cem homens. O capito dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet... --Devia ser filho--atalhou Francisco Luiz--de um francez tambem chamado Duparquet, levado s honras de governador em 1637 por Luiz XIII de Frana, a quem convinha alianar-se com _to honrados_ vassallos. --Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranas de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma no de quatro peas, da qual se arvorra almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de S curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galees de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores. Tambem assistiu tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria. No afogo d'esta peleja, Antonio de S, quando estava penando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescena foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornra inutil, pediu licena para ir vr Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movedios de sobre as ondas. Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus lees do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou companhia do marido, e minha mulher que tinha ento seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habitura a consideral-a a sua escrava loura. Por muitas vezes, Antonio de S Mouro supplicou a Legrand, que, em paga de seus servios, o deixasse passar com sua familia Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! onde podia chegar a gratido do flibusteiro almirante! Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porm, foi devolvida passados dias a Antonio de S, com a seguinte reflexo do governador almirante: Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o perigo de no poderem j ler as respostas, quando ellas voltarem. Nunca mais Antonio de S escreveu ou tentou escrever para Portugal. O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porm, um dia, achou-se roubado, no obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam. Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas s colonias. Antonio de S, aproveitando o lano de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doena grave, pediu-lhe licena para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira no que saiu para Frana. Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraada a fuga podendo passar a filha Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concesso, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico. XIII Seguimento da historia --Antonio de S--proseguiu Braz Luiz--foi chamado a curar de febres um judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licena do rei de Frana e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nao fiel, e evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas. O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu intento e pedir-lhe coadjuvao para a fuga. No lhe encareceu o hebreu grandes difficuldades boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de Frana. O medico, alentado de esperanas, aguardou anno e meio a almejada hora; todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato, comeou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por pedras preciosas e coisas de facil transporte. Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia clandestinamente por um cirurgio francez, fugido das gals de Marselha, e foi certificado de que era imaginaria a contagio. Foi o hebreu normando chamado Martinica, quando j Antonio de S se desconfiava de certos tregeitos que vira na m cara do governador. O judeu, porm, mais desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou aproar s ribas normandas e accender os morres para incutir respeito s gals de flibusteiros ancoradas na costa. Antonio de S foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes no foram os judeus da colonia que o governador mandou passar espada, sem perdoar sequer a mulheres e crianas. Meu sogro teria sido espingardeado, se a esposa se no lanasse em joelhos aos ps da filha de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara s presas da morte. Depois de preso alguns mezes, Antonio de S foi chamado presena do governador e perdoado. Prgou-lhe o francez um demorado sermo, recheado de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o mais venturoso homem que ainda tinha cado em unhas de flibusteiros, e homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios desusados com que lhe galardoara os seus bons servios como medico, e os conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que lhe dera da filha, tendo-a alis destinada, como formosissima que era, a casar com um seu neto. Antonio de S respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e desesperana de tornar a vel-a. Estas lagrimas compadeceram o governador, que o abraou estreitamente, e lhe pediu que se deixasse estar at que um dia passassem ambos a Frana. O medico resignou-se e esperou. Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre esposa no sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o corao aquelle espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando: No hei de mais ver-te, minha filha... no hei de mais ver-vos, meus filhos... --Pois elle tinha mais que uma filha?--perguntou Francisco Luiz de Abreu. --Essa mesma pergunta fiz a minha sogra--disse Braz--; mas a resposta era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha sogra padecia umas turvaes, a revezes, durante as quaes era preciso que a gente se no demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que ento rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha. Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os deixasse sair, ou os mandasse matar. O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar resposta em occasio opportuna. A opportunidade chegou tarde. Tinham j decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer homem acharia distraco, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente. Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflico era antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se j a estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e rogava-lhe de mos postas que tivesse mais fora d'alma, mais coragem do que elle tinha para arrastar aquellas cadeias. Pde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz de razo com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em Coimbra... --Fallou vossemec com alguem que o houvesse conhecido em Coimbra?--perguntou Francisco Luiz. --Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas... Em que ponto estavamos? --Na doena do pae...--disse D. Josepha. -- verdade... na doena do meu sogro que foi a primeira e ultima da sua vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia, parece que se lhe apagava o entendimento. Soluava, com os braos cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo que elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que ento j contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um convento. A compaixo franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da herana do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez, que voltava do Canad; antes, porm, de saltar de um barco de flibusteiro ao navio francez, j estava roubada do mais precioso da sua fazenda. A pobrinha no se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia. Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha. Procurou em Frana o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a me. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras desamparadas em meio da Frana, entregues propria deliberao. Alguem as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porm, como quer que D. Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisio a perseguisse, por effeito de alguma irreflexo d'ella, quanto exigencia dos haveres de seus paes. Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que j notorio ao leitor, at ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto. --Crucificada existencia foi pois a de Antonio de S Mouro!--murmurou muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo espao. --Vejo que lhe fez commoo esta funebre historia!--disse D. Josepha. --Muitissima dr!--murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de lagrimas.--Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo debaixo do co est infamado de tamanhas desgraas!... E vale a pena o viver!... E no morrem afogadas as creancinhas s mos de seus paes!... Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto. Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mo de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluos. --Que sensibilissimo homem!...--disse o medico. XIV O segredo horrivel Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu S Mouro atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhra na intimidade dos seus. O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, at vespera d'aquelle dia, devras se convencra da morte do seu Antonio de S. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! J o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria no o tinha ainda penetrado, ao que parecia. Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fra o hespanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram largamente cerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito. Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa sombra aquella um tanto ironica reflexo do commensal, attribuindo a genio espanholado a comparao faceta. Voltando conversao da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisio de Portugal, notra que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmo era pouquissimo misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E ajuntou: -- sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisio os desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento... --Foi meu condiscipulo--atalhou Braz de Abreu. --Pois ento sabe vossemec que elle est em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi elevado cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da sciencia, que seria hoje em Portugal, se no se evadisse d'aqui uns quatro annos depois de licenciado? Seria poro d'essa vasa do Tejo por onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raa e do seu alto entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher para a India hollandeza. --Quem era? perguntou o doutor. --Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de vossemec. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu. -- verdade!--acudiu D. Josepha--que nome to similhante!... --E no sei--disse meditativo Braz Luiz--como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade! --Pde ser--tornou o hospede--que, no tempo em que vossemec estudou, se fallasse ainda no lente fugitivo. --Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio at que elle teria sido contemporaneo de meu sogro. --Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luiz. --E a mim me est parecendo--acrescentou D. Josepha--que alguma vez ouvi meu pae proferir esse nome. --Ouviu?--perguntou o hospede com o corao sobresaltado. --Ouvi, sem duvida... _Francisco Luiz de Abreu_... Pois no ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem? --Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e proseguiu sem sensivel mudana de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro exemplo de perseguio medicina. Ainda bem que vossemec no teve de provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo. --Nada--balbuciou Braz Luiz, receando que, deps isto, disparasse a affrontosa pergunta de quem era filho. Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o _Olho de Vidro_ lhe mandra bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, seno fosse filho de tres frades ao mesmo tempo. A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfao de que ella se proseguisse. Todavia, D. Josepha, quando j estavam sentados lareira, porque a tarde era de maro, disse: --No me sae da lembrana o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas no correr de muitos annos... --A envelhecer!--disse risonho o hospede--vossemec, minha senhora, est ainda muito no vigor da vida. Ter quando muito... --Trinta e sete annos--concluiu D. Josepha. --Pois ahi tem: ainda no chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que j aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas ter... --Treze--disse a me, correndo a mo pelos cabellos negros da sua primogenita Anna Maria. --E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o hospede. --Se o meu plano fr vante, ir um para a companhia de Jesus, e outro para medicina. --Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz--Fao-os ambos jesuitas, que os far ambos dois grandes homens. --Pois D. Jos receia--dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso--que um meu filho, se fr medico, possa parecer judeu? --Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisio, quando no ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: _ necessario que haja escandalos_. --Como amigo--acudiu Braz Luiz--lhe peo que no falle assim diante de alguem. Lembre-se que est em Portugal, D. Jos!... --Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propenso a estigmatisar as injustias, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempo e rudeza de espirito, procede no ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solido em solido, para ser ouvido da minha consciencia smente... --Em nossa casa pde fallar--retarquiu o doutor--como falla a ss com a sua consciencia, D. Jos Aristizaval. A observao peo-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemec conhece pouco. --Mercs, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de Portugal verdadeiramente a historia da sua inquisio, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemec havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 at 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos. Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se est recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza: --Conheci-o. --Pessoalmente? --Pessoalmente. N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, ergueu-se. --Ninguem te chamou, Braz--disse D. Josepha. --Parece-me que sim... ouvi que me chamavam. --No sero familiares do santo officio, que me requeiram para maior gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se esconde. --Venha comigo sala, D. Jos, se no tem muito frio--disse o _Olho de Vidro_. --Quem fallou na inquisio que sentisse frio? Estas praticas so excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os sustos de o ver a braos com o santo officio. Braz Luiz, entrado sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito attento e como espantado hospede: --Conheci-o, e conheci-o muito. --A quem?! perguntou como j esquecido Francisco Luiz. --A Heitor Dias da Paz. --Ah... j me no lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdo... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava... --Francisco de Moraes Taveira... --Justamente... so considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollandeza chamada a _Casa de Jacob_... Com que ento conheceu vossemec mui de perto... --Conheci, como se conhece um irmo--acudiu Braz Luiz.--No lh'o disse diante de meus filhos, porque meu dever de pae e de christo esconder d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao corao. Vou contar-lhe com egual sinceridade da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a Heitor Dias da Paz. Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no corao. Braz devia ver-lhe a subita alterao do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e elles no estivessem sentados no recanto mais escuro d'ella. Braz Luiz continuou: --Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que me aperta ao corao, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem j sei que feies ella tinha, nem sei onde a vi. a recordao de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e responderam-me que fra uma viso; e, se no era viso, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o suppliciado Heitor. Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietao ao natural condoimento do seu ouvinte. E, proseguindo, disse: --Heitor Dias chamava-me irmo; e Francisco de Moraes abenoava-me como a filho. --Vossemec vivia em casa d'elles? --Vivia, desde os seis annos, como j lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e smente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisio o condemnra a ser queimado vivo, e que o ancio--o desgraado que no tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca--saindo ao encontro da procisso do auto da f, se suicidara em presena de Heitor. Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido. Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a fora mysteriosa que o repuchava. --Que tem, D. Jos?--perguntou o medico. --Eu no comprehendo o horror da sua situao!--murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mos convulsivas. --No comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a mutao de linguagem. --Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela abafao o hospede. --No sei...--tartamudeou o interrogado. --Porque se chama Braz _Luiz de Abreu_? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal? --Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia. --Que desgraa!--exclamou Francisco Luiz, e comeou passeando vertiginosamente na sala!--Que desgraa, Deus do co!... Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia. N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o fora a fazer p atraz de espavorido, e diz-lhe: --Vossemec ama muito sua mulher? --Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!... Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe: --No me falle por alguns minutos... no me falle... deixe-me pensar... mas o melhor que eu me v, e voltarei n'outro dia. --No... ha de explicar-me o que isto... A sua linguagem outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem ... Deteve-se silencioso largo espao o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando sua consciencia, se no seria mais grato a Deus e humanidade que um peregrino vindo d'alm mar no entrasse um dia aos paos de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que no podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se no seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! No serei eu quem v vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos! Assim pensava Francisco Luiz, e curava j de remediar o alvoroo em que pozera o seu amigo, quando este o abraou com impeto, e lhe disse em tom violento: --Quem meu pae? Quem sois vs, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias! --Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu--disse moderada e placidamente o hospede--Falle baixo, que est alli dentro a me com sete filhos. E desapertou-se dos braos d'elle para fugir. --No!--exclamou o medico--no ir de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmo? que o meu appellido o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fr, que eu lh'o peo com as mos erguidas! Por Deus no minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha me? --Conheci. --Jura-m'o pelos Santos Evangelhos? --Eu no reconheo a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braos ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisio o perseguiam, nos braos de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua me... --Mas o nome de meu pae--atalhou Braz de joelhos, com as mos erguidas e trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu. --Dir-lh'o-hei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se orelha do medico. Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou: --E o nome de minha me? --Pergunte a sua irm, me dos seus sete filhos, como se chamava a me d'ella. --Como , meu Deus?! como ?! por caridade, salve-me d'esta duvida atroz... Minha irm!... quem minha irm, senhor? -- a filha de sua me. Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a no seguissem, impetuosa, como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de incendio que ameaava devorar-lhe as creanas, ia lanar-se nos braos do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida. O quadro era de mais pavor do que pde exprimir lingua humana. Francisco Luiz poz a mo na fronte glacial e disse entre si: --Maldito eu seja, que trouxe a desgraa e a vergonha a esta familia! Braz Luiz inclinou-se a levantar a me de seus filhos nos braos que a no podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua me ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente: --Senhor Abreu, no se arrependa; foi Deus que o enviou. No chore, que as minhas lagrimas manh esto enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religio. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos sero sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irm est debaixo da mesma divina mo. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolaes... Susteve-se n'esta exclamao arrobada e ungida de santa resignao. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mos cabea, exclamou: --Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!... E atirou-se ao peito soluante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creana de vinte e cinco dias. XV Angustias que existiram Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu sau de casa do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo officio era irmo professo. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos ps da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que alli se albergra! Ao aclarar-se a manh, o prior e dois frades de Santo Antonio, vares de grandes annos e virtudes, chegaram porta de D. Josepha de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua me, pedindo misericordia, diante de um santuario. De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso terror, appareceram no limiar da casa da orao. --Irm, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde. --Para onde, senhor?--murmurou ella com os olhos no pavimento e as mos sobre o seio. --Esto dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco. --E eu no hei de vr mais...--exclamou ella, e retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta. --Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vs, moos, esperae que vos digam o vosso destino. Era na madrugada de 25 de maro de 1732. Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A me ia aquecida no banho ardente das lagrimas. Os antoninos caminhavam mesuradamente beira d'ellas, com as mos enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que deviam de ser as suas oraes da manh, ou rogava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente desgraada. Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram quem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas subterraneas. D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada, deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado, mais blasphemo que invocativo da divina graa para to acerbo calix. --Haja-se com paciencia, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este momento o Altissimo a est vendo e sondando-lhe o corao. A ignorancia no podia ser culpada at hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com os deveres que lhe impe a justia do co e a justia da terra crime mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora? --Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado dos antoninos. Fecharam-se as portas. A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaosa. --Aqui est, senhora--disse a directora, e ausentou-se. As meninas romperam em grande chro, assim que a livida directora sau; logo, porm, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse: --Aqui n'esta casa so permittidos os prantos da penitencia, e s esses, senhoras! Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia: --Choremos baixinho. Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmo professo da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes: --No haveis de chorar, no, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhae por ganhar o corao d'estes santos homens. Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graa seccara-lhe as fontes da alma. Era j o ser humano mutilado dos orgos da vida de relao. Era o homem sobre-natural, aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as vises beatificas ou o revolutear escandecente da legio. Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mos d'elles, disse: -- tempo. V sua vida, senhor Braz de Abreu. --Adeus, filhos. Abenoe-me, reverendo padre!...--disse o irmo professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu. Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicao d'aquelle habito, d'aquella soledade. No foi a tempo. Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho semblante: --Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Fao grande differena do que era ha quarenta annos. Ento, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu corao. Abrace-me agora vestido na mortalha. O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras no podiam sair do peito anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse: --E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta tunica, e apertar este cordo? No o homem to grande na dr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos? --O homem um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.--Se a religio me no soldar os pedaos da vida, se me ella no tirar d'este tumulo em que estou caido, que hei de eu fazer to esmagado at medula dos ossos? --Pois os seus filhos? que dos seus filhos, Braz Luiz. --As minhas filhas assistem, as innocentinhas, penitencia de sua me. --Penitencia de quaes peccados? --Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de S! Se no era crime o meu viver para que me avisou?... --Diz bem... Perde-me. --No s lhe perdo... que lhe agradeo... Agora que eu me gelo de horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: porque lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos no viram outra mulher sobre a terra! As irms no se amam assim... Ai!... e eu que assisti morte de minha me, ainda lhe beijei as mos... Alli sim, ento senti convulses de espirito extrordinarias, das quaes no podiam ser motivo o amor que eu tinha filha... No; era Deus que me avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam... --Onde vae?... --Onde vou?! E chorava com tamanho afgo que lhe vieram umas ancias mortaes. --Deus me mate j, j!--vociferou por entre o repuchar dos gritos abafados.--Sou fraco, sou miseravel lodo! D-me animo, salve o filho do seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz me alente, e eu no seja confundido pelo escarneo da multido. --Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio--atalhou Francisco Luiz.--Soffra, chore, despedace-se sem amaldioar, e ver que est comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de S, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados sobre a lenha que vae abrasar um corpo. Jesus de Nazareth o seu Deus? Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, aclha os orphos alma que os aconselha, d-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam os justos segundo Plato, os justos segundo Bouddha, os justos segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame, condoa-se, e ampare como elles, e ser salvo para melhor mundo, e sentir n'este as supremas alegrias da consciencia... --Oh! no isso--atalhou Braz Luiz--ha uma s religio, e uma s salvao. --Pois bem: haja uma s; e seja a sua. Todas ellas do as suas melhores coras aos seus martyres, coras tecidas dos mesmos espinhos, e abenoados da mesma beno; mas preciso soffrer, soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra f para lhe ir l dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito grandemente a sua angustia, e dou graas ao Senhor do co e terra que lhe est vertendo balsamos no roer do cancro que l deve ir n'essa pobre alma. Siga a sua religio, eu lhe seguirei os passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de ns orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?--proseguiu Francisco Luiz--quer que eu vele pelo seu futuro d'elles? --Mercs, meu amigo. Meus filhos ho de ter po e futuro. Trabalhei; tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cinco filhas ho de ser freiras; meus filhos seguiro o sacerdocio. --Qual o seu destino, Braz? --Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemec deixa Portugal? --Ainda no. --Adeus, pois, at quando?... At eternidade? --Ainda no. Ver-nos-hemos antes. No se morre assim depressa... Os desgraados so de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessario. XVI O padre Braz O famigerado author do _Portugal Medico_ appareceu em Lisboa, cingido pelo cordo franciscano, sobraando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflico interior, que no havia olhos enchutos que o vissem. Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmo professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenao de missa, e a concesso de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas. D. Joo V, informado da resoluo mysteriosa do celebre Olho de Vidro, cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos dignitarios da egreja. Braz Luiz foi levado ao pao pelo doutor Jos Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que fundo reviramento se operra no espirito de um pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a esposa de marido e os filhos de pae. O medico referiu a sua historia, a ss com o curioso monarcha, depondo na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da confidencia lhe fez merc das rendas do real d'agua para que as elle applicasse fundao do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de harmonia com o nuncio, que se no delongassem a Braz Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras no interferisse mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gro da dispensao em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. N'este anno da graa de 1866, pde qualquer novelleiro citar o concilio tridentino, por que presumivel seno certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios. Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos, e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, a _Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9_. Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle. Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a para o dia em que sua mulher e filhas professassem. A edificao do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, alm do subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar s mos do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito no queimava as mos ungidas do sacerdote. Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade para se entender com a me de seus filhos sobre coisas attinentes profisso. Dizem as memorias que nunca jmais lhe elle vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um espesso vo negro.[31] Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua me, ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mos da prioresa tudo que podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de repente se viram despenhadas. Aquelle acto era uma crucificao atrocissima para a filha de Antonio de S, porque ella tinha perdido a f. Nunca se lhe haviam entranhado muito as crenas na religio do Calvario, porque da indifferena religiosa, em que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez, onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos andassem namorados. Sua me tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, dizia ella: Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religio, seja ella qual fr. A religio de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sustentada custa da razo. Todavia, como discreta e amantissima d'elle, no lh'a impugnava, nem se esquivava a seguil-o nas publicas demonstraes de sua piedade. Quando ella, desde os reconcavos d'alma, cau aos ps de Christo, foi na hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e me de seu marido. Orou ento, para no morrer, ou pde ser que orasse para ser arrebatada sua angustia pela mo de Deus, ou fulminada por poder satanico. N'aquellas oraes ninguem sabe o que a alma pensa. Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam s rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse co fra, e seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a infeliz me adivinhava os colloquios das pobrinhas com o co impassivel, e fugia-se d'ellas, para que a no vissem chorar. Voltava a vl-as, e trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos, e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua me, ouviam-lhe supplicas com que ella lhes pedia perdo de as ter gerado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida to sem vontade, e a me no podia responder-lhes: porque sois filhas de meu irmo, e minhas filhas. Que importava? Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as no apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos ps a hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prgar com elegancias de primoroso lapidario de palavras o sermo da profisso, o sermo d'aquelle enterro de seis vidas, de seis coraes apunhalados, mortos, com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia. Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze--onze annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo sua me da egreja ao claustro, olhavam contra o cho como a procurarem a cova que se lhes abrira. E depois, se choravam, saa-lhes a prioresa e dizia-lhes: --Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia... E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos que varam e matam todo homem menos santo, respondia: -- o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o cro das virgens. E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a _Lusiada sacra_, a origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mo do trabalho para assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos gratuitamente. Os moos Agostinho e Pedro l estavam estudando latinidade no convento de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua me, por seu pae e por suas irms. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes: --O melhor pae Deus, a melhor me Nossa Senhora, as melhores irms so as tres pessoas da Santissima Trindade. S theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua me, de seu pae e de suas irms. Deram em no estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraaram-se n'elle, e pareciam contentes. --E nossa me? perguntava Agostinho. --E nossas irmsinhas? perguntava Pedro. E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento angustiado, e saa com estas palavras: -- verdade!... e vossa me!... e as vossas irmsinhas? Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do corao, o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e clamava: --Pequei! pequei! perdo, meu Redemptor! XVII O inferno, como elle possivel Eu negaria minha f a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa no ha Deus que a oua e attenda. Se ha!... N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella no via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar um _pater noster_ interrompido no _fiat voluntas tua_. Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o _fiat voluntas tua_--faa-se a tua vontade--e de si para si entendeu que aquelle seu despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica, e santo stoicismo, contados no _Flos-Sanctorum_, e _Vita patrum_. Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi caminho do convento, resmuneando o psalmo:... _Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc._ Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada: --Irm Josepha, aqui est o nosso padre syndico Braz Luiz. Soror Josepha no vellou o rosto, porque j no entendera o aviso da prioreza. Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se ombreira da porta. Depois, tornou em si; invocou a fora dos santos, compoz o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou: --Soror Josepha da Cruz! A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faiscas de raio aos olhos. --Os aprestos para a extrema-unco--disse o syndico. --Venha o capello ministrar-lh'a--ajuntou a prioreza. --No, nossa madre: serei eu--disse o padre Braz. Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu egreja a envergar uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do psalmo _Miserere mei Deus_. Entrou cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza observou que as unces deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as ceremonias usadas quando no ha receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mo suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os rostos cados sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expresso vulgar da insania. Esta equivoca expresso, porm, sumiu-se, e as lagrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em joelhos, pegou das mos ambas da enferma, e exclamou: --Leva-me comtigo, leva-me comtigo, santa, martyr! As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braos a moribunda... a morta. Braz Luiz arquejava encostado ao leito. No ousavam pr-lhe as freiras as suas mos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as angustias por que to santa e heroicamente quizera passar e ser provado. O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse: --E que me d Deus? Sim! que me d Deus? As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo. --Pois ento!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto--pois ento, no houve um raio de graa para esta santa mulher! no seria divina justia que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um corao sem mancha! Por fim... certo que eu te matei minha innocente victima? E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas. Era isto j uma vertigem, que terminou pelo deliquio. Foi chamado o capello e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braos dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua me. Aquelle homem fazia-lhes terror, seno odio. Poderia ser que elle tivesse por si a crte celestial; mas n'este mundo no havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confisso; e, porque eram santas, foram em cro exorar ao Senhor que no pesasse na sua balana sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico. Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se no ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagrao a Deus. O padre pediu perdo do escandalo, e rogou que o deixassem s para examinar sua consciencia. Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham sado em jejum. Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da orao ou no sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a alma. Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negao das mais santas coisas do christianismo! Alli se estava vendo o que em verdade o homem, e quanto so morredoiras as phantasias do espirito arrancado s leis da humanidade, quando a mo da desgraa descarrega a maa de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir-se. O corao de quarenta e tres annos dava pulos como para espedaar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de vises extravagantes que o assediavam, volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem culpa nem f para aceitar de boamente uma to grande quanto immerecida penitencia. Fez-se em volta d'elle a solido dos grandes desgraados, que j nem sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases do syndico ao p do corpo ainda quente de sua mulher. Alm d'isto, entraram em averiguaes os mais escrupulosos sobre os factos antecedentes resoluo de entrar aquella mulher na religio e elle no sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fra sequencia de um casamento incestuoso. Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a outra metade, sentindo no ter mais a quem a revelassem. Por isso, volta d'elle se fez a solido dos grandes desgraados. Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que elle lhes dsse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhes que o cravejavam e atiravam impenitente sepultura. Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortunios. Mas alli, ao p da sepultura de Josepha, estavam as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle e para Deus; porque j no podiam amar o algoz de sua me; e, diante do poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem Deus! E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrio de esperana n'algum reconcavo d'ella, no ha vida. A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua me, e acabou em phrenesis, no obstante os exorcismos com que valentes demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputao de precta aquella gentil creatura com dezoito annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes denominavam, conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo angelico de suas irms. Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe dsse amparo. Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descra dos arrabaldes de Bragana, onde fra despedir-se do seu amigo Jos de Barredo, e passra por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias do co o sacerdote de Jesus. XVIII Catequeze Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de S Mouro a sar de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das armas os dois moos, j habilitados para as comearem. O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os encaminhra, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio. N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em esperanas e cobia de nomeada gloriosa, eram a milicia, j ento decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais conjuradas em realisar o absolutismo theocratico. Os filhos de Braz no entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o enlace mystico do co com a absoluta soberania da terra. Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo consulta de seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos. Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: no podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beios do velho judeu de Ourem. Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda: --Este Pedro j no vir a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degros para escalar a bem-aventurana dos carnifices... Se o av d'este menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!... E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade: --Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religio qualquer, e mormente da christ, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradies pags. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religio que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. No lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de S, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'o agora, na occasio em que vossemec manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do aougue dominicano penduradas na galil da egreja de S. Domingos. Bem pde ser que l veja retratos de seus avs. --Basta! que me est mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um desgraado, volta de quem se assanham todas as tentaes! Quem vem contender em pontos de religio com um homem to quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens... --Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres divindades christs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde est a compensao das suas afflices, meu amigo? Que bem aventuranas infinitas so bastantes a galardoar uma s das suas torturadas noites? Por minha f! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperao um homem que tinha direito a receber consolaes analogas devoo com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica viso e antegosto da eterna e perennal mo direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!... -- que eu sou lodo... atalhou o padre. -- que eu no vi ainda bem remunerada a renunciao dos direitos do homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justia das religies. So todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas so as mais equitativas; e estas mesmas esto manchadas pela miseria do homem, que no comprehende a virtude aconselhada pela razo; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das naes selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois est Deus n'estas carniarias? O creador das florestas e dos mares, do ouo e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o no sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?! --Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade. Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser oraes efficazes contra a tentao da heresia, da philosophia, da razo indocil, do demonio, que tudo um. O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razo nua, sem minima compostura de f, lhe espicaava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir creao. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o no consolava, tambem lhe no mettia em trabalhos as molas da imaginao. As expansivas demonstraes de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no corao do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christo convicto aceitasse o cartel. No. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal o calar-se aquelle, cujo corao bafejou o Senhor. No obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as oraes mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu. Estava, pois, reduzido piedade rasoavel. No mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditao das coisas divinas. Tinha horas regulares de orao, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras. Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resoluo. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Anto. O padre Braz foi beijar a mo de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua me, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fra sempre incessante martyrio e desesperao de que a misericordia divina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. Joo V que levasse para sua companhia as quatro meninas. --So freiras, so professas, real senhor!... murmurou o padre. El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem proviso regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae. Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o. N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a ida execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins. Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade quellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de S, inoculando-lhe a peonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituies humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creao, mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos mesma realeza. Dizia que esta bestial instituio cedia a primasia a outra, que era a da profisso da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdio das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanas de familia nas tristezas da velhice. Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos simpleza de creaturas formadas imagem e similhana do Creador, o qual, a ter existido, formra certamente homens e no padres, mulheres e no freiras: gente, no dizer de Moyss, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos. Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudio digna de melhor serventia. Prodigioso poder da f, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente seduco, e por pouco, no calor da refesta, no apresentou uma ida que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da f! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, no topava um que merecesse redarguio grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem to embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol! Desistiu: mas j lhe foi grandissimo contentamento ver beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua me. Dizia elle, todavia, ao pae: --Cr que as caras marmreas d'estas meninas tornem a reflorir? --Espero que sim. --Nunca mais. Esto mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!--exclamou elle abraando-as todas contra o seio.--D-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abenoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o corao, e depois esto salvas. D-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o corao resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida! O padre ergueu-se de repello, travou das filhas, arrancando-as aos braos do hebreu, e exclamou: --Que maldio traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinao na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade! XIX O velho da ermida Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738 um ancio, reputado justo porque volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam alimentao parca da semana. Chamavam ao incognito o velho da ermida porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanas da ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mo por elles como quem enchuga lagrimas, diziam entre si: Um homem que d tanto aos pobres, e chora!... Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-n'o, e disseram-lhe: --No voltaes mais aqui, nosso bemfeitor? --Voltarei, filhos. noite serei comvosco. E caminhava a p, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres. Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz de Abreu, a qual estava sobre a ea. Saiu, parou porta do pae da defunta, subiu, entrou saleta em que elle recebia os pesames, apertou-o nos braos e disse-lhe: --D-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas. O padre derramou copiosas lagrimas, e no respondeu. Voltou Francisco Luiz sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas. Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe: --D-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por ellas. O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e no respondeu. Voltou o caminheiro sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da regio dos sepulchros. Uma tarde, no longe d'aquelle dia em que se finra a quarta professa de S. Bernardino, appareceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se esbofado aos braos do hebreu, e disse-lhe: --D-me as minhas filhas! --Pede-m'as a mim?! a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que resuscitou muitas... --No peo as mortas; quero as vivas. --Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a ultima. --Pois minhas filhas no esto aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu. --Aqui?! no v que toda a minha casa esta cabana? --Meu Deus! bradou o padre. --Que de suas filhas? acudiu o hebreu. --Fugiram! perderam-se!... --Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu desconheo?... --Roubaram-m'as! E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com intermittentes de gemidos e ancias offegantes: --Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto seno prostituio?... A justia lanar mo d'ellas... e d'elles... --D'elles quem?--atalhou o israelita. --De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existencia d'estes homens... --E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixal-as ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religio as perseguirem. Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes foras para a continuao do martyrio. Muitas das viuvas do Indosto j hoje se no queimam. necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor gerao, que traga ao mundo a ida de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde lhes digam: Vivei, gosae sem remorsos. O que vos l ensinaram a dizer na profisso caducou debaixo de outro co. Pedi, meninas, o corao s estrellas da noite, ao sol do dia, s campinas que reflorecem, s aves que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das arvores. Perguntae s bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces. Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se escondem do pelouro do carniceiro. E tu choras?--disse elle com vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz--hei de fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha, que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braos da ama para sentir o goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que s muitissimo desgraado: por ellas no, que eu duvido que haja ahi maior horror que o morrer das outras. Porque no iria eu com tuas filhas fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as no dste? Davas dois anjos a este homem de setenta annos, que no tem ninguem que lhe feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem religio revelada, a soccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as no dste, nem por isso descreias da felicidade d'ellas. O amor tem cos e resplendores, que banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas coisa to mal feita superficie da razo degenerada, que lhes no ha de durar mais na consciencia do que a sentena d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorruptivel, so aquelles de que o senso interior nos condemna. Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre no o ouvia. O que elle parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o corao, este envelhecer e morrer que o homem est sentindo a branquear-lhe os cabellos e a ressumar-lhe face camarinhas de suor de agonia. Depois despediu-se, e murmurou: --E adeus! que est consummado tudo! --Ainda no: vivers mais annos, porque se no desgraado como tu s seno em toda a plenitude. Eu que vou sair d'aqui. noite fechada. J no tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos. XX Parecia christo na morte! Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o velho da ermida estava enfermo. Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na cabana do ancio. Os ricos tambem foram com os seus capelles, com os seus padres adscriptos gleba das missas de _requiem_, com que mercavam barato o paraiso aos seus ascendentes. O ancio viu uns e outros. Ergueu a cabea e disse: --Que entrem smente os pobres. O espectaculo de um moribundo no convida. Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas oraes. A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a fronte do enfermo, vinha com direco obliqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de p lucido coisa mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente. Appareceu ento no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz Luiz de Abreu. E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, sau, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se. A s com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia: --Agora que so as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu travesseiro est um papel escripto de meu pulso; na arca em que te sentas, est o que eu tenho de meu. Cumprirs as minhas disposies... --E a sua alma?...--atalhou o padre.-- tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se... --Se sou homem de bem, estou salvo--murmurou o judeu. --Receba com f os sacramentos da Santa Madre Egreja. --Ceremonias pags... A vida do espirito vae comear. Receba a natureza em seu seio a poro immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz este motor interno, que recebia as lanadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem esperanas. Acabo, o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha familia. So esses pobrinhos que saram. Abre-lhes as portas: quero vel-os at ultima. Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles. O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem os santos oleos. --Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo cado na apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as unces e assim enganasse a devoo d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as virtudes do homem que os pobres comeavam a beatificar. Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. meia noite, descau o moribundo em lethargia. A respirao era quasi imperceptivel. Sau o sacerdote a pedir a extrema-unco, sem impedimento de saber que a boa e s theologia no dava j nada por aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado. Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e carrancudo, com a ambula porta da cabana, o padre Braz ajoelhara cabeceira do moribundo, em adorao ao Santissimo Sacramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e disse: --Expirou agora. Os pobres cessaram de cantar o _Bemdito_, e levantaram um grande choro, entrando todos a beijar a mo do cadaver. Se este acabamento de homem, transviado da religio verdadeira e das falsas, no fosse referido em romance, poderia alguem suppor que pde uma pessoa morrer como justo, sem ser absolutamente religioso. Bom que mortes assim se no divulguem em livros graves. As disposies do philosopho so faceis de antever. Os seus herdeiros eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos que se acolhiam albergaria convisinha da egreja de S. Braz. Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava que fosse sincero christo um sujeito que entre tantas disposies no applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava escandalisado! Folgavam tamsmente os pobres,--e tanto folgavam que nem j choravam a perda do bemfeitor. XXI Como se pde viver! De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem effeitos similhantissimos. O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo, caleja e abroqueia to rijamente o homem, que todas as setas da desgraa lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias no se curam com a valentia da alma. Vejamos agora o justo em tribulaes, o christo de tempera pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustias dos homens a prem-lhe em duvida a justia divina--por se dizer que o homem tem frma e similhana de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-se do bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao co o amargor d'ella e a reluctao com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e deshonram-n'o; e o christo atira-se aos ps da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a exclamar: Mais, mais, Senhor! _Amplius, amplius, domine!_ Este o christo, o penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fra, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legio que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, at aos sessenta, e vante ainda, n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias! Tal foi Braz Luiz de Abreu. Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, ter dito: o homem vae morrer agora! Morrer! quando ser isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! ssinho! alli em Aveiro, no sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na tia da phantasia o rosto da mulher agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das divinas esposas! E, como elle pde, em meio d'isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscriptos, que no sei onde param, um chamado _Feniz Lusa_, referindo a vida e aces do serenissimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: _Vida e aces do primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe D. Jos_.[32] Querem revelao para maiores assombros? Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Anto para S. Roque, ao comear o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. J sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmo _Miserere mei Deus_. Que morte ser pois a d'este homem para que se no diga que houve ahi angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe assigna: apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma cadeira. Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraas ser menos duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe celebraram. CONCLUSO Que destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto hebreu, rasgaram as mortalhas? Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos de um Heitor Teixeira de Macedo, capito-mr de Coimbra, e fidalgo solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses. Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos que os Cadetes puderam ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados devia ser coisa de pequeno prologo, j porque as duas virgens no tinham das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, j porque almejavam ser amadas, j porque os dois cadetes eram bizarros moos, galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as caladas e os coraes das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alases. O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justia, quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros amordaaram-n'a. Os rapazes j no tinham pae: tinham me, uma santa matrona, que era a imagem das virtudes christs. Appareceram-lhe os filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. No amaldioou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella, faziam esgares de grandes farcistas! A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham escondidas n'uma quinta distante. Quiz vl-as, porque sabia a tragedia singular da familia do medico. Por noite alta, entraram as duas meninas recamara da viuva do capito-mr de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas esposas do Espirito Santo! Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora tencionava mandal-as, no as deixou mais sar da sua recamara. O capello sau para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma. --Podeis manh partir, filhos--lhes disse ella.--Ide a Roma com estas cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa me at que volteis. Os moos olharam-se entre si, e ficaram como aparvados. Olharam para as freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam. No havia que replicar. Partiram para Roma. Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram chamados pressa por ordem da me. A fidalga adoecra com todos os symptomas de proxima morte. --Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para Roma, e, obtida a annullao dos votos d'ellas, casareis. Juraram e cumpriram. A annullao dos votos foi prolongada com inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz no favoreceu nem contradictou a annullao. Ao cabo, porm, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as benos nupciaes em Roma. Detiveram-se em Roma at 1750. Em 1751 j estavam em Portugal. No procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua me e irms, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que vestiram por elle, no tinha nodoa de uma lagrima. Morreram velhas, ignorando que motivo lanara um vo negro sobre o rosto de sua me, hora em que o padre maldito lhe fallra. Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou a ser qualificador do santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de f espectaculoso, como tinham sido os da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os aromas dos ossos torrados. FIM NOTAS I (Pag. 23) Sobre os nomes referidos dos justiados pela inquisio Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos de D. Joo IV cora de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que insinua a legalidade da sua argumentao no livro intitulado _Anti-Caramuel_, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro de 1652 mandado fogueira com a seguinte sentena, que um testemunho da magnanimidade com que D. Joo de Bragana pagava aos defensores da sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado de assalto: Accordo os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisio que, vistos estes autos, libello e prova da justia, author, confisses e defesa de Manuel Fernandes de Villa Real, x n. (christo novo) natural d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de Frana e residente n'esta dita cidade, ro preso que presente est, porque se mostra que sendo christo baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, cr e ensina a santa madre egreja, e no ser fautor de heresias, e respeitar e venerar o tribunal do santo officio, e no detrair de seu justo, recto e livre procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo perdo geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber em certos dias seno noite depois de saida a estrella, e fazendo um livro que imprimiu[33] tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes era favorecer os que commettem erros contra a f, persuadindo ser bom meio para estabelecer a f nos reinos e cidades controversias publicas, approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os occultos, dizendo que os principes no podem impedir os que sem escandalo e mo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que dissimulem os desacatos feitos religio, reprovando que algum principe altere com rigores, querendo o ro que ainda que falsa se conserve, e mostrando ser da opinio que haja liberdade geral de consciencia, pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo cada um na religio que mais quizer, e tendo por escandaloso no admittir aos officios publicos os de contraria religio; e querendo que em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favorea os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra da...[34] aos de contraria religio se observe ainda que seja contra os bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na modestia, admittindo que os de contraria religio, quando se reduzem catholica, se podem enganar em cuidar que at ento iam errados, approvando a condemnao, e censura que em certa parte se deu a certo livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principes _circa tempo_, _ralia_ ainda quando o principe seja heretico e scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallos do juramento de fidelidade; e que os principes temporaes totalmente so independentes, mostrando pouca affeio egreja romana, fazendo distinco d'ella galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular authoridade d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os castigos e confisses dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do odio, avareza e paixo, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a fazenda, no s a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fra melhor no querer dar luz a uma alma cega com processo s escuras; e que emquanto o odio e ambio acompanhassem os ministros, nem os subditos viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo estranhadas ao ro as ditas proposies antes de imprimir o dito livro, comtudo as no quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver alterao e mudana nos estylos do santo officio. Pelas quaes culpas sendo o ro preso nos carceres do santo officio e com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe convinha para descargo de sua consciencia, salvao de sua alma, e seu bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdo geral a esta parte, persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nao, se apartra da nossa santa f catholica, e passra crena da lei de Moyss, tendo-a ainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e no na f de Christo Senhor nosso, em o qual no cria nem o tinha por verdadeiro Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda havia de vir, e s cria em Deus do co, que fez o co e a terra, e a elle se encommendava com algumas oraes judaicas, que recitava por um livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e a paschoa do mez de maro, comendo por espao de oito dias po asmo e seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando n'elles sem comer nem beber seno noite, em que comia gallinha, com tanto que fosse degolada ao modo judaico por mo de pessoa circumcidada, compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peas novas, ainda que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que caa em certo mez, estando por espao de tres semanas sem comear negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas dois dias sem comer nem beber seno noite, como dito ; e usando de particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nao apartadas da f, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na dita crena at certo tempo, que declarou. E que por andar apartado da f, no dito livro que compuzera, detrahira em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com algumas opinies politicas com que o via usar e praticar em certo reino; e que tambem usava de livros prohibidos, e que de tudo estava muito arrependido e pedia perdo e misericordia. E por o ro no satisfazer informao da justia nem declarar todas as ceremonias e jejuns que havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes admoestado, na frma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido, e o ro o contestou pela materia de suas culpas e confisses, e no quiz usar de contrariedade. E sendo lanado da com que podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justia na frma de direito, se lhe fez publicao de seus ditos, conforme o estylo do santo officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e no provou coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as diligencias necessarias, seu feito se processou at final concluso, sendo o ro por muitas vezes advertido de suas diminuies e admoestado com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o ro o querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou que pela prova da justia e por sua confisso estava convencido no crime de heresia e que a dita sua confisso no estava em termos de ser recebida, e por hereje e apostata da santa f catholica, feito falso, simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado. E para o ro cuidar em suas culpas e diminuies, e as poder confessar arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada noticia do dito assento, e foi de novo admoestado para descargo de sua consciencia, salvao de sua alma, e ser tratado com misericordia, quizesse dizer toda a verdade. Vendo o ro que estava convencido por diminuto em suas confisses, pediu audiencia, e as continuou, dizendo que depois de fazer as primeiras confisses, ficra continuando at quella hora na crena da lei de Moyss, e que por sua guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para que Deus lhe perdoasse seus peccados na observancia da dita lei, fazia tambem algumas penitencias, como eram no dormir em cama seno em noite de sabbado; resar algumas oraes e psalmos sem _Gloria Patri_, e repetir muitas vezes a confisso geral, e communicava estas coisas com certa pessoa da sua nao, com a qual se declarava por judeu e animava para continuar na dita crena: e que de tudo pedia perdo e misericordia. E sendo visto outra vez seu proccesso em mesa, se determinou que o assento que n'elle se havia tomado no estava alterado, porque no declarava o ro todas as culpas que havia commettido segundo a informao da justia, no se presumindo, conforme a direito, esquecimento. Alem de que no dava signaes de verdadeiro arrependimento antes os contrarios, dizendo que confessava o que fizera exteriormente, e que o que ficava em seu corao no era necessario dizel-o; pelo que foi notificado para ir ao auto da f ouvir sua sentena, pela qual estava relaxado justia secular. E sendo trazido ao auto da f, pediu n'elle audiencia, e n'ella disse que a pedira para requerer ao santo officio, com intimo e verdadeiro arrependimento de suas culpas, se usasse com elle de misericordia; que a verdade era que elle permanecera at quella hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das admoestaes dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a commiserao que seu estado causava a todo este povo e pessoas que o conheceram; e que por guarda da lei de Moyss em que at ento crra, fizera muitos mais jejuns judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimonias; e que de tal maneira estava na observancia d'ella depois da sua priso que determinara morrer por sua guarda, com tal excesso que depois de lhe ser dada noticia do assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha disposto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, lavando-se e vestindo camisa nova, que tinha feito para este fim, e jejuando ainda como judeu[35]. E sendo vista esta sua confisso na mesa do santo officio, se assentou que no estava em termos de ser recebida, e que era feita mais afim de escapar da morte, que pelo ro estar verdadeiramente arrependido de seus erros, como claramente se mostra do termo de que tinha usado nas mais confisses que fizera no discurso de sua causa: O que tudo visto e bem examinado, e como o ro sendo por tantas vezes admoestado nunca deu mostras de se tornar do corao f de Christo Nosso Senhor de que se apartou; de que claramente se colhe que persevera ainda agora em seus erros e na damnada crena da lei de Moyss. _Christi Jesus nomine invocato_, declaram ao ro Manuel Fernandes Villa Real por convicto e confesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao presente , hereje apostata da nossa santa f, e que incorreu em sentena de excommunho maior e em confiscao de todos os seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra os similhantes estabelecidas; e que como hereje apostata, convicto, confesso, ficto, falso e impenitente o condemnam e relaxam justia secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e no proceda a pena de morte nem effuso de sangue.--_Luiz Alves da Rocha._--_Pedro de Castilho._--_Belchior Dias Preto._ * * * * * escusado dizer que a justia secular, comprehendendo ao justo a _benignidade e piedade_ recommendadas pelo santo officio, condemnou o ro a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D. Joo de Bragana no ficasse memoria, como se assim podessem diante da posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas do reinado d'aquelle soberano. * * * * * O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentena que este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi aggravando a sua desgraa, revelando peccados novos, que o apertar das cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, j calejado e invulneravel s torturas, manifestou-se profitente da lei de Moyss, affrontou no rosto os algozes, e subiu fogueira com grande animo e anciedade do martyrio. * * * * * Por occasio do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade em 5 de maio de 1624, _um engenhoso_ poeta contemporaneo publicou, e fez correr, com grande applauso publico, o seguinte soneto em _cos_ ou de _reflexo_: Quando um primario excellente _lente_ contra a f ce em desconcerto _certo_, est o que no to esperto _perto_ de seguir o erro que de presente _sente_, Mas quem da hebrea e negligente _gente_, e vendo-se do bom respeito _peito_ na f segura do deserto _certo_ nega a Jesus, que to clemente _mente_ Povo que elegeu uma bezerra _erra_; deixae do vosso velho estudo _tudo_; Segui a lei para ser guardada _dada_; que quando em tal descuido _cuido_ que um bom lente, o melhor da terra _erra_, mas sciencia sem Deus tornada _nada_ Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez! III (Pag. 39) A expensas da casa, sem licena do reitor... O _Regimento dos medicos e boticarios christos velhos_, adjunto aos _Estatutos da Universidade de Coimbra_, mandados imprimir em 1653 por Manuel de Saldanha, ordena que haja trinta estudantes porcionistas e os dois logares de collegiaes medicos _que sempre houve no collegio real de S. Paulo_. Os que houverem de ser admittidos no partido da medicina (diz o _Regimento_) no ho de ter raa de judeu e christo novo, nem mouro, nem proceder de gente infame, nem ter doenas contagiosas... Para constar que os pretendentes tem as partes sobreditas, faro petio ao reitor, em que declarem d'onde so naturaes, e cujos filhos; e elle por seu despacho mandar passar carta em meu nome para os corregedores e justias fazerem as ditas informaes com muito segredo, tirando-as das pessoas antigas, honradas, etc. Estas averiguaes eram feitas tanto pelo miudo, que seria impossivel escapar pela malha porcionista, que tivesse gota de sangue judeu. Braz Luiz no poderia certamente dizer cujo filho era, se pretendesse os _vinte mil ris annuaes_, que tanto era a _poro paga aos quarteis_, e tirada das rendas dos concelhos de certas cidades e villas. XI (Pag. 112) As leis do reino davam raso de sobra a Ferno Cabral, para desherdar a filha... No tit. 88 do liv. 4. das Ordn. Filip. 1., l-se: E se alguma filha, antes de ter vinte e cinco annos, dormir com algum homem, ou se casar sem mandado de seu pae, ou de sua me, no tendo pae, por esse mesmo feito ser desherdada e excluida de todos os bens e fazenda do pae ou me, _posto que no seja por elles desherdada expressamente_(!) E no 17; Item. poder o pae ou me, que forem catholicos christos, desherdar livremente os filhos herejes, que perfeitamente no crerem em nossa santa f catholica, desviando-se do que tem e cr a santa madre egreja. Convinha que, uma vez por outra, tirassemos o ltego das costas dos frades e o sacudissemos nas costas dos legisladores. Corriam parelhas na perversidade. A depravao moral era to cerrada e tamanha que havemos de receber como fabula um justo no meio de taes ministros da justia divina e humana. INDICE PAG. Prologo 5 Introduco 7 I--Informaes 22 II--No era me! 29 III--O faro das bestas-feras 37 IV--Resposta 43 V--A piedosa eloquencia do frade 53 VI--Braz Luiz 63 VII--Exemplo de honestidade aos medicos 72 VIII--M sina de poetas 81 IX--Poeta e moralista 89 X--Os expatriados 99 XI--Trese annos depois 107 XII--Historia de Antonio de S 122 XIII--Seguimento da historia 131 XIV--O segredo horrivel 137 XV--Angustias que existiram 150 XVI--O padre Braz 157 XII--O inferno como elle possivel 164 XVIII--Catequeze 171 XIX--O velho da ermida 179 XX--Parecia christo na morte 184 XXI--Como se pde viver! 188 Concluso 191 Notas 195 [1] _Nao_ era o termo denominativo e collectivo do povo judaico, dispersado entre as naes. Nao, por excellencia, era a d'elle. Vej. _passim_, Joo Baptista d'Este, _Dialogo entre discipulo e mestre cathechisante_, e todas as sentenas do santo officio, e escriptos concernentes raa hebraica. [2] _Caracteristico legal da raa judaica._ Vej. Ord. do Reino--as Philip. [3] Veja a nota final. [4] Veja a nota final. [5] O leitor dispensa que se lhe d fielmente traslado das maiusculas e da orthographia. [6] N'este periodo asfixiante menos admiravel a profundeza da doutrina que o folego pulmonar do leitor da sentena! [7] Sairam de um mal para outro mal, e no me conheceram, diz o Senhor. _Jerem., cap. 9._ [8] Desculpe-se obcecao piedosa do author do _Anno historico_ uma bestidade de tanto porte. Foi a maior que se atirou do pulpito abaixo n'aquelle seculo! [9] Estes pormenores, corridos na relao com os condemnados, vejam-se em Joo Martins da Costa. Estylos mais praticados na casa da supplicao pag. 239 e seg. [10] Isto consta do livro que Braz Luiz d'Abreu publicou, oito annos depois, intitulado _Portugal medico_. [11] _Portugal Medico_, pag, 730 n. 63. [12] Idem, pag. 728, n. 56. [13] Idem, mesma pag. n. 57. [14] Limpo. [15] _Portugal Medico_, pag. 724. [16] A receita trasladada de pag. 752 do _Portugal Medico_. [17] textual da pag. 751. A sciencia da medicina est de todo perdida em Portugal... escrevia o doutor Francisco Thomaz, medico do hospital de Lisboa, ao bispo D. Jorge de Athaide em 1592 Vej. _Comp. hist. do estado da Univ. de Coimbra, 1772_. [18] So as menores virtudes da raposa, segundo vemos no tratado, d'este escriptor, medico, o mais famigerado dos seus collegas. Vej. a pag. 722. [19] Veja _Portugal Medico_, pag. 690-691. [20] impresso em 1717, por Bento Secco Ferreira. [21] _Portugal Medico_, pag. 307. [22] Vej. _Port. Med._ pag. 209 [23] _Portugal Medico_, pag. 741 e 742. [24] Os versos errados necessario desculpal-os tambem santa indignao. [25] Cap. II, V. 16 [26] _Casa de Jacob_, pag. 24. [27] Cardoso. Las excellencias, 10 Exp. p. 322. [28] Foi queimado em Valhadolid em 1644. As expresses esto na _Carta del Inquisidor Moscoso a la condesa de Mnterrey_. [29] As leis do reino davam razo de sobra a Ferno Cabral para desherdar a filha, e transferir os vinculos a parentes. Os interesses da religio sobrelevavam aos mais sagrados vinculos do sangue e da piedade paternal. O pae, que quizesse perdoar as injurias recebidas do filho, poderia fazel-o; mas o desacato s coisas e prescripes das Decretaes no estava em seu poder perdoal-o, concedendo o po da vida a seus filhos. Veja a nota final sobre as leis facultativas do desherdamento. [30] No se liquidou ainda a etimologia de _flibusteiros_, palavra que aportuguezamos por lhe no conhecermos a correspondente, se a ha. Vem de _flyboat_ em inglez, ou de _flibot_ em francez, ou ainda do breto _free booter_? [31] Diccionario bibliog. do sr. J. F. da Silva Art. _Braz Luiz de Abreu_. [32] Veja _Barbosa. Biblioth. Lusit._ [33] Presumo que seria o livro intitulado _El politico christianissimo, e discursos politicos sobre algumas aciones de la vida del em.mo sr. Cardenal Duque de Richelieu_. 1642. 12. Da 2. edio d'este livro diz o versadissimo bibliophilo I. Francisco da Silva N'esta segunda edio se supprimiram depois de impressos varios trechos que desagradaram aos inquisidores, e que tambem foram na primeira riscados e illegiveis algumas passagens a pag... etc. Na edio de 1642 se acham as folhas respectivas suppridas com _cartuns_ ou folhas intercalares... Vej. _Diccion. bibliog._ pag. 422 e 423 do 5. vol. [34] No podemos decifrar os caracteres que o tempo desfez no manuscripto, d'onde vamos trasladando a sentena. [35] Das tres confisses augmentativas infere-se que Manuel Fernandes Villa Real foi, por tres vezes, interrogado na tortura. Nota do transcritor: Foram corrigidos diversos erros tipogrficos. Na lista que segue esto algumas das alteraes efectuadas. Pg. Original Corrigido 20 inculpada familla inculpada familia 26 que o estremecia como irmoo que o estremecia como irmo 56 o unico profiente o unico profitente 138 conversao da noite anterio conversao da noite anterior 143 --Braz Luiz continuou: Braz Luiz continuou: 155 Deus me mate j, j! --Deus me mate j, j! 168 achou se na sua pobre alcova achou-se na sua pobre alcova 182 aquecei vos ao calor que aquecei-vos ao calor que Os nmeros de pgina no ndice estavam errados, pelo que foram corrigidos. End of Project Gutenberg's O Olho de Vidro, by Camilo Castelo Branco License: Share Alike