Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) ROMANCES NACIONAES ROMANCES NACIONAES O REGICIDA Romance Historico por CAMILLO CASTELLO BRANCO LISBOA Livraria Editora de Mattos Moreira E Comp. 68--Praa de D. Pedro--68 1874 _A propriedade d'este livro, pertence a Henrique de Araujo Godinho Tavares, subdito brazileiro._ A Francisco Martins de Gouva Moraes Sarmento OFFERECE o seu amigo mais devedor e agradecido _Camillo Castello Branco._ ADVERTENCIA A urdidura d'este romance, que afoitamente denominamos _historico_, deu-no'l-a um manuscripto, que pertenceu livraria do secretario de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas. O collector d'estes apontamentos, que a historia impressa, respeitando as conveniencias, omittiu, foi contemporaneo dos successos que archivou, pois escrevia em 1648. De lavra nossa, n'este romance, ha apenas os episodios, que me sahiram ajustados e congruentes com os traos essenciaes da narrativa. O REGICIDA I Antonio Leite, casado com Maria Pereira, e morador na villa de Guimares, em 1634, era o cuteleiro de maior voga em Portugal. N'aquelle anno, tinham um filho, de nome Domingos, com dezesete annos de edade. Quizera o pai ensinar-lhe a arte, que lhe dera fama e dinheiro. A me desejava que o rapaz fosse frade, consoante vontade de seu irmo fr. Gaspar de Sancta Thereza, leitor apostolico de moral no convento de S. Francisco de Lisboa. Ora o rapaz no queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um officio mais prestadio ao genero humano infermio: queria ser boticario. Era esperto o moo, no s porque appetecia ser boticario; mas porque realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a quietao da almejada botica. Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento. Participou Maria a seu irmo fr. Gaspar a inclinao do filho. Respondeu o prudentissimo tio que lhe no torcessem a vocao, por quanto em todos os misteres podia um bom christo servir o proximo e ganhar o ceo. E, em prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe arranjar mestre que o exercitasse e approvasse. Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do Hospital Real, sob direco de Estevo de Lima, o primeiro mestre de pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa. Ao cabo do primeiro anno, o professor no tinha que lhe ensinar. Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica mortuaria, se no tinha diminuido, tambem no tinha augmentado. Todavia, o habil praticante mostrava-se descontente d'aquelle genero de vida, e de si comsigo resolvera encarreirar-se para outro destino mais adquado a umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabea de mistura com o cheiro nauseativo das drogas modas no gral. Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras, mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da botica, e rogou-lhe que o empregasse na alfandega. V-se que j em 1636 os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as pras alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que prefere gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos armazens, e o fartum engulhoso da matullagem. De feito, Luiz das Povoas accedeu petio de Domingos Leite, nomeando-o escrivo das Fructas com 40:000 reis annuaes de ordenado. Volvido um anno, o escrivo das fructas confessou ao provedor que a sua vocao definida no era bem a alfandega; que semelhante vida lhe desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a intelligencia andava grvida de cifras e cifres, coisas indigestas para quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Cames, quando a penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra-Costas a conta dos direitos da alfarroba ou do caco. --Que queres tu ser ento, Domingos Leite?--perguntou-lhe o bom amigo. --Estou gostando arrebatadamente da muzica, desde que vossa merc me levou s festas da capella real. Se eu podesse arranjar o emprego de mo da capella... --Achas isso bom? Poucas ambies tens, rapaz! --O que mais me encanta o viver com os meus poetas, e ter alli mo as delicias da musica. O ordenado pequeno; mas setenta cruzados chegam e sobram. L ao diante, se eu grangear cabedal de saber para dar a lume algumas ideias que me c refervem nos milos, ento darei gloria ao meu nome. Quanto a bens de fortuna, l est meu pai na officina a ganhar-me o patrimonio. Sou filho unico, e com pouco heide ir onde vo os grandes. --Olha tu que os grandes no comearam por mos da capella real... --Bem sei; mas eu, quando desprender as azas, voarei do zimborio da capella, e irei poisar nas grimpas dos palacios. --V l se te aguentas no vo, meu Icaro!--redarguiu o provedor--Cuidado comtigo que no tenhas de voltar botica a manipular aquella herva bicha e o pastel de carne de gato com que me curaste das almorreimas... --No tenha medo, sr. Luiz das Povoas. Os homens da minha tempera tem fados esquisitos! Eu, s vezes, sinto uns deslumbramentos que me cegam! Se eu no fosse filho de meu pai cuteleiro, e pudesse desconfiar da honestidade de minha me, havia de crer que o meu sangue girou j nas veias dos duques de Guimares! --Sers tu filho do real Encoberto D. Sebastio que se espera? Toma tento, Domingos, que no te fermente no milo a parvoice do rei da Ericeira ou do rei de Penamacor, ou do pasteleiro do Escurial...--volveu casquinando o provedor da alfandega--V l se contendes com o sr. D. Joo, duque de Bragana, a ver qual dos dois o Encoberto das profecias do Preto ou do Caldeiro, astrologo de Cascaes!... Emfim, rapaz dos meus peccados, eu fallarei ao sr. Miguel de Vasconcellos, e tu sers nomeado mo da capella real com setenta cruzados; e, depois, quando te sentires com voadoiros de servir, la-te do zimborio da capella; mas guarda-te de avoares com azas de po dadas por algum cioso dos que seguem as damas da princeza Margarida a ouvir as antigas canonetas do Guerreiro, os motetes do duque de Bragana, e os tonadilhos de Diogo de Alvarado. (_Nota 1._) Ora queira Deus!... s bem apessoado; tens-me uns requebros de poeta galan; ls muito pelo livro das _Saudades_ de Bernardim Ribeiro, que os moos do monte de el-rei D. Manuel mataram a tiro na Rua Nova. (_Nota 2._) No vs tu pensar que o amor d azas, e que o tracto com as Camenas te habilita a ser ruysenhor do pao!... --A boa fortuna--replicou enfaticamente o moo--hade dar-m'a o engenho e a arte... --_Se a tanto me ajudar_, disse o Cames, e a nada o ajudou, nem sequer a envisgar de raiz o corao d'aquella dama da rainha D. Catharina!.. Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da me; mas meu pai, que a viu no mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta feira da Paixo, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era to esbelta como trda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; at que ella, norteando o corao a mais substanciosos amores, tractou cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. conta d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa, desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para a India, d'onde voltou merc d'alguns passageiros. (_Nota 3._) No so de mais estes exemplos referidos a um galan de Guimares que vai implumar as azas debaixo dos tectos reaes da vice-rainha duqueza de Mantua para depois voar... --Sei todas essas historias, sr. provedor--atalhou Domingos Leite.--E sei outras muitas de egual moralidade, como a do poeta Jorge da Silva, que expiou no Limoeiro os seus amores a uma irm de D. Joo III; e tambem sei que D. Joo da Silva, por malogrado amor imperatriz Leonor, filha de D. Affonso V, se fez frade franciscano, chamou-se o Beato Amadeu, e disciplinou as rebeldes carnes, lembrando-se sempre do pao como S. Jeronimo se lembrava das virgens de Roma nos areaes do Mar Morto. No ignoro que D. Affonso V mandou degolar um Duarte de Souza que visitava fra de horas uma das suas criadas. Sei, finalmente, o que custam sereyas da crte, desde que D. Joo I mandou queimar no Rocio o seu camareiro Fernando Affonso, por que uma dama da rainha se queimra nas chammas do gentil galan... Sei tudo o que diz ao intento das reflexes de vossa merc; mas eu j lhe declarei que vou attrahido capella real pela musica imitao do penhasco arrastado por Orpheu; depois, irei, como Cezar, _Qu Deus impulerit_. De damarias no curo, nem por mulheres vai longe quem lhes procura a fortuna no regao. No me deu Deus geitos de pagem, nem de nmorado de arrabil. Sou de Guimares, onde os coraes tem mais ao que flores. Tudo que ali nasce parece sahir da forja onde se fazem as rijas laminas das facas de matto e das alabardas. II A residencia no pao da Ribeira facilitou ao moo da capella relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem. O capello-mr D. Joo da Silva, irmo do marquez de Gouveia, agradecido ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irmo Manrique, conde de Portalegre, a coroa de marquez, ajoelhava nos estrados da vice-rainha, como outros muitos portuguezes que, volvidos quatro annos, a ameaaram de ser despejada rua sobre o cadaver de Miguel de Vasconcellos (_Nota 4._) Este D. Joo da Silva corria com os negocios da grande caza de seu irmo, e sentia-se escasso de ideas e at de orthographia para dignamente fazer a correspondencia. Outros fidalgos lhe gabaram a esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario. Convidado para o servio da casa do capello-mr, o moo da capella, perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. Joo da Silva, uma aberta, para elevadas regies, acceitou o encargo com dobrado salario, e sahiu do pao com fastio musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos. Logo que poz mo no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a actividade intelligente do secretario. Ganhando a confiana de D. Joo e tambem a do marquez, entrou no segredo de certos actos clandestinos da politica, e por ahi lhe alvoreceram esperanas de entrar em carreira mais frizante com a sua vocao, que elle ainda no sabia ponctualmente qual fosse. Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouva no sejam nomeados entre os principaes fautores da conjurao heroica a favor do duque bragantino, averiguado que o marquez de Gouva e seus irmos assentiram sublevao de 1640; d'outro modo D. Joo IV no nomearia seu mordomo-mr o marquez que recebra o titulo da chancella de Filippe III, cujo mordomo-mr fra tambem.[1] Em caza do aulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres cerca da restaurao, e no havia rezervas na presena de Domingos Leite, abonado por seus amos e pelo enthusiasmo dos seus dizeres conceituosos em annos to juvenis. Os douctores Joo Pinto Ribeiro e Joo Sanches de Bana que, para assim dizer, foram o cerebro, o pensamento do gigante que estendeu braos de ferro no 1. de dezembro, tinham justificado a confiana dos fidalgos, dignando-se approvar a admisso de Domingos Leite Pereira s reunies da gente media, afim de a ir educando e predispondo com argumentos patrioticos, mui eloquentemente discursados. E o ensejo veio bem de molde exploso das iras de um portuguez palavroso. N'aquelle anno de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgraa das classes mechanicas, e de fito para os seus proprios interesses. No obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos tumultos de Evora, houve precedencia de conciliabulos em que dois homens da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de feio a irritar a rebeldia s execues tributarias do corregedor Andr de Moraes Sarmento. Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e Joo Barradas; e o de fra era o quasi imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver pedido na praa a cabea do corregedor, e rompido os diques onda popular contra o arcebispo e outros fidalgos que sahiram de cruz alada a socegar os amotinados, appareceu orando s turbas preceitos de prudencia e respeito ao ancio conde de Basto. V-se que a vocao do rapaz, afinal, era a politica. Em 1638 morreu D. Joo da Silva. Logo o marquez de Gouva chamou aos segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos impertinentes da administrao da caza, e investindo-o de occupao mais condigna. Os seus trabalhos meditados e escriptos eram relativos republica, j trasladando papeis mysteriosos que se trocavam entre Portugal e Castella, j discorrendo de lavra propria declamaes contra o uzurpador, as quaes eram lidas com um sorriso de complacencia por Joo Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maya aos lagrimosos burguezes da caza dos Vinte-e-quatro. A importancia do filho do cuteleiro crescia medida que o perigoso levantamento da nao calcada se avisinhava da destemida audacia de muitos e da receiosa prudencia de alguns. Domingos Leite aliva energia intellectual a impavidez nas mensagens arriscadas. Uma noite se offerecra elle para entrar ao segundo andar do pao da Ribeira cujos corredores conhecia, e apunhalar na sua propria camara Miguel de Vasconcellos. Galardoaram-lhe com louvores o romano intento; mas dispensaram-no de antecipar o sacrificio de uma vida, que poderia abrir a sepultura de muitas vidas preciosas. Acceitaram-lhe, todavia, a melindrosa misso de ir a Madrid prevenir alguns fidalgos affectos restaurao, j quando Miguel de Vasconcellos, desde os tumultos de Evora, o trazia espiado como suspeito de ser o ardente caudilho dos amotinados a casa do corregedor Moraes Sarmento. N'esta commisso associou-se Domingos Leite a um Roque da Cunha, homem passante dos 40 annos, que elle havia conhecido nas assemblas populares do padre Nicolau da Maya, ardente impulsor do resgate do reino. Roque vivia mysteriosamente e apenas sabia o nome de sua me, uma D. Vicencia, de quem ao diante se far meno. Era temido como valente, e conceituado como perverso; mas ninguem o excedia em vehemencia de applausos, quando Domingos Leite proclamava cerca da independencia da patria. A vaidade do orador transpoz os obstaculos erguidos pela m fama do seu enthusiastico ouvinte, e foi procurar um amigo em Roque da Cunha. Travaram-se de intima estima, a ponto de lhe abrir o cofre dos seus segredos o homem, cujos haveres procediam de fonte desconhecida e forosamente impura. Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens eram a paga de uma boa aco; porm mesquinha paga; pois que se elle podesse contal-a em dias de liberdade para a patria, os portuguezes deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Scvola, disse que fra elle quem matra com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna, desembargador da casa da supplicao, pai de Miguel de Vasconcellos. Deste homicidio havia elle cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o mandante fsse um opulento mercador que assim vingava a justia de um pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebra os tantos mil cruzados com os olhos postos na patria captiva. (_Nota 5._) Este feito, com outros significativos de esforo e destemor, captaram a indole de Domingos Leite propensa admirao da bravura que em Roque da Cunha era realada por intendimento e graa no desplante com que assoalhava os vicios ao seu unico amigo. Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Evora e de Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os servios do amigo, na volta a Portugal, que vingou leval-o comsigo a Villa Viosa, e apresental-o ao duque, no acto de lhe entregar cartas dos fidalgos com a noticia dos planos discutidos no palacio dos Almadas. III O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia repetir-lh'o no romance. A revoluo de 1640 to fallada, desde a escola de instruco primaria at s festividades rhetoricas de cada 1. de dezembro, que a pessoa intelligente em cuja mo este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler outro peor, me est pedindo que d vivas independencia nacional e passe vante. Seja assim, para agradar a V. Ex. e no defraudar historiadores que no tem, quando historiam, analoga considerao com os novellistas. O duque de Bragana era j D. Joo IV; e Domingos Leite Pereira, desde Janeiro de 1641, era escrivo da correio do civel da corte, logar que rendia para mais de trezentos mil reis--quantia valiosissima n'aquelle tempo. Alm d'isso fra-lhe facultado arrendar o officio e continuar exercendo o posto de secretario do marquez de Gouva, mordomo-mr de el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo semanalmente crte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao gabinete de despacho o diserto moo folgando de o ouvir remedar alguns bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. notorio que D. Joo IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi tudo, publicou em 1649 uma _Defesa da musica_ em lingua castelhana, para dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. (_Nota 6._) Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos, esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes d'estas meninas viam o escrivo da correio do civel, o secretario do conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes. Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca to eivada da corrupo da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christo ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, j prior de franciscanos, e to bom patriota que havia sido elle o primeiro que dra a ideia de despregar o brao de Jezus crucificado afim de persuadir ao povo revolto no 1. de dezembro que a imagem do Redemptor desencravra a mo da haste da cruz para abenoar o povo que lhe estendia os devotos braos banhados de sangue! O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: sahiram-lhe muitos cazamentos. E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repra e nota que o escrivo do civel se esquivasse a aparentar-se com familias primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito parenta da casa de Bragana e descendente de reis. (_Nota 7._) Passava ento por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, Joo Bernardes, de alcunha o _Traga-malhas_. Aos quinze annos era a moa to tentadora, os fidalgos to tentadios, e a honra das familias to menosprezada, que a me de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de illuminao e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! (_Nota 8._) Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em moeda, Maria teve mestre de escripta em casa--um padre de boa fama, do qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite. Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da familia Traga-malhas, e director espiritual da me da noiva. Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de cazar-se; porm, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas palavras to candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respirva de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente. No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. L ao diante, formar o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e ento ver que tal era elle que o sancto, se o no fez, foi por que realmente no pde. O escrivo do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e redobrou a inveja das congratulaes ao saber-se que o rico tanoeiro dotra a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa, Pedro de Baea, thesoureiro da alfandega, condemnado morte em supplicios atrozes, como cumplice na conjurao de alguns fidalgos contra D. Joo IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta mil cruzados! Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez de Gouva assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano deu a beno nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de diamantes esposada, por ordem de sua irm, e de seu cunhado, pais do desposado. Principiou na alcva conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbraes d'ella tristeza e desgraa, uma secretissima lucta de desconfiana e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos de mos erguidas. Quem diria que, quella hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tranas desatadas em serpentes pelas espaduas convulsas, ajoelhava aos ps do marido, e, lavada em lagrimas, soluava: --Eu te juro que nunca amei outro homem! No intendo as perguntas que me fazes! Fui creada no regao de minha me! Nunca sahi de casa seno para a igreja, e sempre com minha me! Os homens que para mim olhavam uma vez no me tornavam a ver... No me perguntes se amei alguem n'este mundo, que mettes a tua alma no inferno, e me ds vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!.. J se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e neutral a este lance. A luz do dia seguinte no alvorejou na alma entenebrecida de Domingos Leite Pereira. Apenas rompeu a manh, o noivo sahiu do thalamo como de um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de pharmacia Estevo de Lima. Admittido escrevaninha do matutino boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o atormentava. Estevo de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou Joo Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da Veiga, Antonio Luiz, Joo Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso Rodrigues de Guevara. Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario: --Este physico chavo na materia, se bem me recordo. E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo infallivel na questo subjeita, e disse ao offegante interlocutor: --Veja isso a paginas 488, columna 1. O contheudo da columna 1. da pagina 488 da obra admiravel, chamada _De re anatomica_, no se reproduz, em respeito s damas que se dispensam de saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisao humana coisa util s damas maridadas. Qualquer que fosse, porm, o contexto da pagina consoladora, certo que na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do moo, que se abraou no seu antigo mestre, exclamando: --Vossa merc apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mo o ferro uxoricida! -- mentecapto!--volveu Estevo de Lima--Quem querias tu matar?! --Ella que me infamra aos olhos do homem que m'a atirou aos braos com uma gargalhada! --Sobre infamado, matador!--acudiu Estevo--Ruim philosopho s, Domingos Leite! Se o meu auctor Guevara te no defendesse a esposa com o escudo da phisica, ainda assim deveras christ e honradamente desligar de ti a mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juizo do mundo como juiz na tua causa. A sentenciada seria ella; e tu, se fosses lastimado, no perderias com isso o direito venerao dos homens de bem. --Excellentes rases...--atalhou Domingos Leite;--mas, sr. Estevo, se eu um dia fr enganado, no me d essas nem outras melhores, que eu no lh'as escutarei... Discorreram sobre o assumpto breve espao, porque Domingos Leite anciava reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perdo da injuria, indemnisal-a das perguntas ultrajantes com affagos de noivo apaixonado e repzo da injustia. Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou enfardelando nos bahs os seus vestidos. --Que fazes?!--perguntou elle j de m sombra. --Arranjava a minha roupa... --Com que intento? --De me voltar a caza de meu pai. --Fugindo? --Fugindo, no; livrando-te da mulher innocente que tu cobriste de affrontamentos. Demudou-se-lhe o semblante em ares supplicantes, e dobraram-se-lhe os joelhos aos ps da esposa illibada pela pagina 488, columna 1., do livro _De re anatomica_ do physico thaumathurgo Affonso Rodrigues de Guevra. --Perdoas-me?--balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lagrimas. E ella, que ainda tinha pudor na consciencia, sentiu embargar-se-lhe na garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou tambem apertando-o freneticamente ao corao. Amaram-se em redobro desde aquelle momento: elle porque offendera uma innocente; ella... porque o sancto Antoninho do nicho lhe fizera afinal o milagre. E, se no era milagre, diria ella comsigo, onde foi meu marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu? Ns que sabemos como foi. IV Em alegre paz derivaram dois annos. Ao fim do primeiro, deu ao amor de seu marido Maria Isabel uma menina. Pouco depois, duplicou-se a riqueza do cazal com o falecimento do Traga-Malhas, e a entrada da viuva n'um Recolhimento da Terceira ordem de S. Francisco. No obstante, a felicidade do antigo aprendiz de boticario era dardejada pela inveja disfarada no epigramma. Quando Maria Isabel apparecia nas festividades de igreja, egualando-se nas pompas s mais ricas fidalgas, rumorejavam-se facecias que eram victoriadas com frouxos de riso. A corrupo da epoca vestia-se de gala nas mulheres, Maria Isabel, porque sabia que as fidalgas a remoqueavam, de dia para dia dava novo pasto satyra. Arrastava saias golpeadas de mosqueta; corpetes recamados de oiro; chapins estrellados de prata e perolas; fraldelhins agrinaldados de rubis. Sahia em liteira sua, das mais adamascadas e pintadas, com lacaios bizarramente vestidos. E, por sobre tudo isto, realava como engodo ao despeito aquella esplendorosa beldade de Maria Isabel, a quem as senhoras dos palacios, arruinados como a honra propria, chamavam a _Traga-malhas tanoeira_. N'este em meio, Domingos Leite Pereira, advertido pelo marquez de Gouveia que posesse cbro ao luxo da mulher, respondeu que era bastantemente rico... --E bastantemente inepto, sr. Leite--acudiu o mordomo-mr--Quando um marido assim arreia sua mulher para a exhibir nos adros das igrejas, os outros podem suspeitar que elle a veste, guiza de moira da procisso, para a mostrar bem adubada e apetitosa cupidez dos outros. --Se o sr. marquez pensasse como esses vilos que assim pensam, eu sahiria da sua casa, com a magua de o no poder reptar ao baixo ponto em que est a honra dos plebeus--replicou Domingos Leite com altivez. --Eu no penso assim--obviou o fidalgo--mas sei como os outros pensam. --Quem so os outros? diz-m'o V. Ex.? --No denuncio, sr. Leite; advirto-o e mais nada. Vossa merc conhece os livros; mas desconhece os homens. Tem grandes espiritos; mas possue imperfeitissima raso. Guarde isto que lhe digo; e oxal que eu nunca lh'o recorde. --Sr. marquez!--volveu o secretario com vehemente arrebatamento--se minha mulher no a honesta esposa que eu creio, diga-m'o; peo a V. Ex. pela sorte de suas filhas! --Nada sei...--balbuciou o marquez, refreando a perturbao. --V. Ex. est indeciso!--sobreveio Domingos Leite agitadissimo. --No seja louco!--objectou o velho, refazendo-se de apparente serenidade--Nada sei de sua mulher que o desdoure. E, rematando o dialogo, o mordomo-mr disse que el-rei o esperava para o despacho. Esta acerba palestra instillou peonha no corao de Domingos Leite. Havia um s homem e esse o mais indigno de todos com quem o marido de Maria Isabel desafogava a plenos pulmes: era Roque da Cunha, que, ao tempo, exercia um officio dos mais grados entre os aguasis de uma das corregedorias criminaes da corte, em recompensa de haver testemunhado em 1641 contra o general Mathias de Albuquerque, por industria e compra dos inimigos d'aquelle insigne cabo de guerra. E, bem que Mathias de Albuquerque provasse sua innocencia, D. Joo IV, to presador dos denunciantes como dos bons e fieis generaes, no retirou a Roque da Cunha a paga da aleivosia. Parece que antevira a urgente necessidade d'aquelle homem... Abriu sua alma Domingos Leite ao assassino de Pedro Barbosa, referindo-lhe o que passara com o marquez de Gouva, e terminando por lhe perguntar se ouvira qualquer calumnia contra a honestidade de sua mulher. --Ouvi, respondeu friamente Roque. --O que?! acudiu o outro sobresaltado e livido. --Ouvi que antes de ser tua mulher tivera outros amores. --Com quem? bradou arquejante Domingos Leite. --No perguntei. O calumniador disse a calumnia, e adormeceu na rua dos Romulares com dois bofetes puxados sustancia, que lhe dei nos indignos focinhos. --Nunca m'o disseste... --No sou echo de calumniadores, amigo Leite. Encarecer-te a minha amisade com a noticia dos bofetes, seria dar importancia a bagatellas. Se eu estivesse em sitio onde podesse arrancar-lhe a lingua, mandava-t'a embrulhada em uma folha de alface com a mesma facilidade com que t'o digo. --Mas conheces esse homem? --Conheci ha muitos annos: era parente de um official, ou quem quer que fosse de Miguel de Vasconcellos. No lhe sei o nome, nem o tornei a ver desde ha dois annos. Morreria elle?... Se o matei com o primeiro murro, era escusado pregar-lhe o segundo... Esta revelao attribulou Domingos Leite por tanta maneira, que Roque da Cunha chacoteava a irracional afflico do seu amigo, chegando a dizer-lhe brutalmente: --Homem! se este caso te faz tamanha mossa, parece que ests mais inclinado do que eu a acreditar a calumnia do tal que eu esmurracei! Em fim, tu l sabes... concluiu faceiramente. --Deixa-me... Olha que me ests fazendo perder a razo! atalhou o desvairado moo. V se me encontras esse homem, Roque! Pede-t'o a minha honra! dou-te por esse homem metade do que tenho! Se o tu no achares, ninguem o achar... Olha que me salvas, se m'o trazes! salvas o teu maior amigo! --Irei procural-o no inferno, se o no achar c em cimo. Confia nos quadrilheiros de todos os bairros de Lisboa. Saibamos: que queres tu do homem? --O nome do amante que teve Maria Isabel antes de ser minha mulher. --Ento coisa averiguada que teve? interpellou despejada, mas rasoavelmente o cynico. --Perguntas-m'o!... balbuciou Leite Pereira. --No t'o pergunto: s tu que m'o dizes, homem! Seja como for. Apparecendo vivo o sujeito, queres interrogal-o, ou fias de mim desembuchar-lhe tudo que elle souber? --Fio de ti a minha honra, que ha de sahir limpa d'essa prova, ou hei de lavar o ferrete com o sangue de alguem. --At mais ver, Domingos Leite. D-me tres dias e tres noutes. D'aqui at l no tujas palavra que possa espantar a caa, percebes? Olha que as mulheres tem faro de tres narizes, quando no podem apresentar folha corrida ao almotac do bairro da virtude. Nos dias subsequentes, o secretario do marquez de Gouva, pretextando extraordinarios trabalhos, apenas pernoitava em casa; e, apesar de esforada dissimulao, denunciou a Maria Isabel torvado animo e sobresaltos no dormitar. Interrogava-o ella amorosamente e com uns abalos de susto. Elle attribuia o seu dessocego a receios da causa da patria, visto que o exercito do Alemtejo soffria numerosas deseres, e perigava mingua de generaes. No entanto, a esposa decifrara desgraa eminente em umas lagrimas que lhe vira toldar os olhos fitos no rosto angelico da filhinha adormecida. E perguntando-lhe ento porque chorava, elle respondera que chorava em nome da creana a desventura de ter nascido. Devoravam-no entretanto impaciencias de ouvir Roque da Cunha. Chegou o mensageiro ao escriptorio de Domingos Leite, no palacio do conselheiro de estado, terminado o praso prescripto, e comeou dizendo, com solemnidade e tristeza, coisas singulares e raras no seu caracter: --Achei-o. Morava em Alfama, e tem loja de mercearia. --Bem! exclamou Leite Pereira com um tregeito de ficticia alegria que poderia egualmente significar a angustia de uma noticia dilacerante.--Que diz elle? --Vamos de passo. Indaguei primeiro quem tinham sido os officiaes da escrivaninha de Miguel de Vasconcellos. Nomearam-m'os todos; e eu, logo que ouvi o nome de um, recordei-me de que o homem em quem eu dera os cachaes era parente do tal. Ora este tal, que foi muito da confiana do ministro, conhecia-o eu como as minhas mos. Fui ter com elle, e sem detena soube que o seu parente era tendeiro. Isto no primeiro dia. No segundo, mandei-o chamar por um quadrilheiro corregedoria. Carreguei a slha, e perguntei-o sobre o que havia dito a respeito da mulher do escrivo do civel, Domingos Leite Pereira, no anno de 1643, na praa dos Romulares. Como elle fingisse estar esquecido, lembrei-lhe os dois murros, e ajudei-lhe a memoria, promettendo-lhe mandal-o para o Limoeiro at se lembrar. Confessou ento que, estando em um jantar de annos, onde o vinho sobejava e minguava o juizo, ouvira dizer a um dos do banquete, fallando-se no teu casamento, que elle conhecia um sujeito que, se no tivesse coroa rapada, a Maria Traga-Malhas e os dez mil cruzados no seriam para ti. E que mais? perguntei ao homem que engulira o principal. No sei mais nada, respondeu elle. Chamei um aguazil e disse-lhe que levasse aquelle esquecidio ao Limoeiro, e o trouxesse quando elle tivesse mais miudas lembranas do que ouviu n'um tal jantar. Deixou-se levar, e foi posto no segredo, e prohibido de fallar ou escrever a alguem. Segundo dia. Agora o terceiro, que hoje. s duas da tarde pediu que o trouxessem corregedoria. Recuperara a memoria. O homem que tinha coroa rapada, e se gabava de te disputar a noiva e os dez mil cruzados, era propriamente o primo d'elle, que eu conhecera official de Miguel de Vasconcellos. --Como se chamava? atalhou Domingos Leite com os olhos abraseados e a respirao a trancos. --Chamava-se o padre Luiz da Silveira. --O que?... dize! Luiz da Silveira?! Esse padre foi o mestre de Maria Isabel... Basta!... Disseste tudo...--rugia Domingos Leite, regirando como fera prza, de um lado a outro da saleta, e tomando o chapo, apertou as mos do informador, rugindo-lhe como em segredo:--Se eu precisar de ti, no me desampares... Bem sabes que eu s chamo amigo a quem me matar ou me restituir a honra n'esta horrivel conjunctura. Olha, escuta-me, Roque... Maria Isabel, antes de ser minha mulher, foi... Oh! como atroz esta certeza!... E, batendo com os punhos nas fontes, ringia os dentes, e istriavam-se-lhe os olhos de filamentos sanguinosos. N'este comenos, ouviram-se os passos mesurados do marquez mordomo-mr no salo contiguo. Os dois amigos evadiram-se pressurosos escada abaixo. V O padre Luiz da Silveira viera da Alhandra para Lisboa, chamado pela fama de prgador, em 1635, tendo vinte e quatro annos de edade. A marqueza de Montalvo deu-lhe capellania em sua casa, e accesso estima dos fidalgos mais parciaes do rei castelhano. Os sermes de padre Luiz degeneravam, pelo ordinario, em arengas politicas em prol da legitimidade dos Filippes, e invectivas ironicas adversas aos sebastianistas. N'aquelle tempo, tanto os esperanados no vencido de Alcacer-kibir, como os imaginativos de rei portuguez, eram chanceados de sebastianistas. Em casa da marqueza beijara o padre a mo do arcebispo de Braga, D. Sebastio de Mattos e Noronha, um dos mais esturrados sustentaculos do dominio hespanhol, e to execrado dos portuguezes como Miguel de Vasconcellos. Affeioou-se o arcebispo ao capello da marqueza, ouvindo-o prgar no anniversario de Filippe IV, de Castella, e de moto proprio lhe offereceu o emprego honroso e lucrativo de official do secretario de Vasconcellos. N'esta posio, e com promessas de boa prebenda na S lisbonense, o sobresaltou a revoluo de 1640. Dormia elle ainda o somno do justo, quando o ministro era espostejado no terreiro do Pao da Ribeira. A consciencia remordia-o j com os delictos oratorios, j com os aggravos feitos aos seus compatriotas, sob a egide de ministro despota. Escondeu-se, portanto, no palacio do arcebispo de Braga, que os conjurados teriam morto, se rogos de D. Miguel de Almeida o no salvassem, e se D. Joo IV, receoso do clero e de Roma, lhe no desse parte no governo provisorio, defraudando de tamanha honra fidalgos que jogaram a cabea, proclamando-o. O arcebispo, inflexivel indulgencia do rei, urdiu, travado com outros da sua estofa, a malograda contra-revoluo, a fim de reconquistar a graa de Filippe IV. Carteando-se com o conde-duque de Olivares, confiou a mensagem da correspondencia ao seu commensal, padre Luiz da Silveira, que tres vezes desempenhara destramente a perigosa empreza, disfarado em almocreve. Planeada a tentativa dos conjurados, de accordo com a Junta de Madrid, chamada da _Intelligencia secreta_, padre Luiz, ou por que desconfiasse do bom exito, ou por que um leiceno de infamia lhe apojasse na alma, ou--e seria o mais improvavel--porque o patriotismo o esporeasse, resolveu delatar os conspiradores a D. Joo IV. Outra verso correu explicando a perfidia do padre. Disseram que elle, a fim de alliciar um antigo parceiro, communicara o segredo da conjurao a Luiz Pereira de Barros, que tambem servira Miguel de Vasconcellos, com grande applauso e confiana do ministro; porm Luiz de Barros, como a esse tempo j fosse contador da fazenda, a revellao do familiar do arcebispo recebeu-a sem enthusiasmo, promettendo, todavia, reflectir antes de se alistar nos conjurados. Mas, como quer que o clerigo desconfiasse que Pereira de Barros denunciasse a conspirao, deu-se elle pressa na precedencia da protervia e da paga. No se illudira, por que D. Joo IV recebera os dois delatores no mesmo dia, e os enviara conjunctamente ao seu ministro Francisco de Lucena, e este os mandara ao procurador geral da coroa, Thom Pinheiro da Veiga. Simultaneamente, novas denuncias asseveraram a do confidente do arcebispo, umas espontaneas, outras arrancadas pela tortura. Dois capites, Diogo de Brito e Belchior Corra de Frana, postos a tormento, confessaram os nomes dos cumplices; no assim o opulento mercador Pedro de Baea que, desde o cavalte, em que lhe quebraram os ossos, at o verdugo bamboar-lhe o corpo dependurado, apenas fallou para offerecer trinta mil cruzados pela vida, mostrando at final, como bom mercador, que a vida tambem era mercadoria. No podemos attribuir especialmente delao do clerigo o malgro da revolta: to obcecados de medo de Castella tremiam os conspiradores, que no viram o carrasco em casa, nem se arrecearam da irreflectida escolha dos cumplices. No entanto, os pormenores da revoluo, que devia estalar no dia 5 de agosto de 1641, comeando pelo incendio do Pao da Ribeira e assasinio do monarcha, deu-os o padre Luiz, taes quaes os sabia da confidencia plenissima do arcebispo de Braga. A 28 de julho, a mais selecta poro de conjurados foi aferrolhada em diversos carceres; e a 28 de agosto soffreram decapitao na Praa do Rocio o marquez de Villa Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar, e o escriptor D. Agostinho Manuel. Quanto aos outros padecentes, por que eram plebeus, as agonias estiraram-se mais prolongadas, desde o serem cavalleados pelo algoz, e d'ahi, como ignominia aos vilissimos cadaveres, comeou a estupida ferocia de os arrastarem e esquartejarem. O amigo do padre Luiz morreu nas masmorras de S. Julio da Barra; o bispo de Martyria acabou socegadamente no claustro de S. Vicente; o inquisidor-geral, D. Francisco de Castro, dois annos preso, sahiu perdoado e d'ahi a pouco reposto em todos os cargos e honras, depois de accusar, com a promessa do perdo, as particularidades do plano sedicioso. Este abjecto prelado, que merecera depois a estima de D. Joo IV, era esbofeteado, passados annos, pelo principe D. Theodosio, que o detestava como denunciante dos seus parceiros de infamia. (_Nota 9._) O padre Luiz da Silveira, dado que el-rei o recommendasse a D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, no tinha ainda, em 1642, recebido condigno galardo, pois que n'esse tempo esbrugava apenas o escarnado osso de thesoureiro de S. Miguel de Alfama. O arcebispo D. Rodrigo da Cunha era homem honesto e verosimilmente despresador do fementido padre que prgara a legitimidade dos Filippes, e denunciara os seus co-reos na trama contra a liberdade da patria. Retrocedamos dois annos na biographia d'este clerigo. Quando, em 1639, o tanoeiro Joo Bernardes Traga-malhas resolveu aperfeioar a sua filha em lettra e leitura, j quando a menina, por muito encorpada, corria perigo em andar na mestra, indagou como cauteloso pae onde houvesse um sacerdote ajustado ao intento. Inculcaram-lhe padre Luiz da Silveira, a quem muitos fidalgos confiavam a educao de suas filhas. Quiz o Traga-malhas julgar do clerigo pela cara, e desagradou-se da mocidade do mestre; porm, como pegassem de conversar a respeito da soltura do genero humano, o official do ministro Vasconcellos tamanhas lastimas gemeu sobre os peccados do mundo, que o bom Joo Bernardes ponderou a sua mulher que o mestre de Maria Isabel era o que elle nunca tinha visto em padres. Teria vinte e oito annos, ao tempo, o capello da marqueza de Montalvo. Bem apessoado, limpo no trajar, polido pelo trato da melhor sociedade, sisudo nas fallas, grave e composto com aquelle geito nobre que lhe dera o pulpito, padre Luiz fez-se, a um tempo, respeitar e estimar da discipula. Do adiantamento da menina, em materia de escripta, leitura e doutrina, eram sensiveis os effeitos, e bem provada portanto a aptido tanto do professor como da alumna. Maria Isabel, que at ento s conhecia em leitura a _Primavera de Meninos_, do Brochado, por conselho do novo mestre lia o _Clarimundo_, de Joo de Barros, e os _Contos do Trancoso_; e quanto a escripta, sahiu-se muito habilidosamente imitando os _Exemplares de diversas sortes de lettras_, de Manuel Barata. Ora os paes, quando admiravam as rapidas sabensas da filha, graas assiduidade do mestre, de certo no sentiam sobresaltos que lhes agorentassem a satisfao, lembrando-lhes que houvera no mundo uma discipula muito aproveitada, chamada Heloisa. Se na mente de padre Luiz chammejaram memorias historicas de Pedro Abeilard, e o demonio da imitao entrou com elle, o que vamos deprehender do capitulo seguinte. VI Vimos, no capitulo IV, Domingos Leite e Roque da Cunha esquivarem-se rapidamente presena do marquez de Gouva. Ao separar-se, o allucinado escrivo murmurou sinistramente ao seu funesto amigo: --Conto comtigo, Roque! Se algum de ns faltar ao que deve ao outro, esse seja infame! --Seja!--assentiu o sicario de Pedro Barbosa, sacudindo-lhe a mo com a solemnidade cavalheirosa de um pacto de honra. D'ali, de Pedroios, onde o marquez residia, at Lisboa, Domingos Leite no desfitou as esporas dos ilhaes do cavallo. (_Nota 10._) Quando apeava no pateo de sua casa, vinha Maria Izabel, ao longo d'um corredor que conduzia ao jardim, com a menina no collo. A creancinha festejava o pai, batendo palmas, e exuberando de alegria no riso que tanto lhe brincava nos labios como nos olhos. Domingos fitou a me com torvo olhar, e apenas de relance olhou para a filha, como se o encaral-a de fito lhe traspassasse a alma. --Olha a creancinha como se ri para ti!..--disse Maria Isabel entre meiga e atemorisada, j quando o marido galgava apressadamente as escadas. Ella, apesar do susto que lhe arfava o corao, seguiu-o at ante-camara. Ahi, Domingos Leite, voltando-se para a mulher, e repulsando as caricias da menina, disse-lhe com desabrimento: --Largue a creana, e volte, que preciso fallar-lhe! --Que modo de me tratar!--acudiu Maria--Tu que tens, Domingos? Que queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha no entende injurias, se m'as queres dizer... --_A minha filha_....--atalhou elle casquinando um froixo de riso por entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabea com intimativa, bradou: --No me percebe!? E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braos, fechando a porta da ante-camara para que a me a no seguisse em gritos. A creana, apesar do repello, olhava para o pae com a mesma jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e, soluando no seio d'ella, queria talvez evitar que a mulher lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espao assim, at que uma escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua fraqueza, Leite Pereira entregou a menina negra, e, enxugando o rosto, voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos Virgem, sem todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir. Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria, empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se beira d'ella, e disse: --Porque treme? A innocencia no costuma assim tremer!... Porque treme? --Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de casa to contente commigo... --Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia da sua vida de solteira?... Que responde? --Voltas s tuas suspeitas antigas...--balbuciou Maria Isabel, menos affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite. --No me irrite com referencias estupidas s suspeitas antigas!--redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva--Diga-me c, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando, depois de eu ter sahido d'aquella alcva na primeira noite de meu deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei, passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus ps, pedindo-lhe me perdoasse a injuria que fizera sua puresa de menina solteira? Maria Isabel soluava uns gemidos que a estrangulavam. Elle arrancou-lhe as mos do rosto, e bradou-lhe: --Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espao de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do corao a resposta! --No... --No... o qu?.. --Eu nunca te suppuz vil... --Suppoz-me ento enganado?... --Enganado... no... --Ento, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto , persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta? --Meu Deus!--exclamou ella afflictissima--Matae-me, Senhor!--e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus. --Pois que suppunha?--insistiu Domingos Leite--Cuidou que a sua devassa mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores a alma, prevendo que um acaso viria explicar a raso que eu tive para a injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir to torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem sabia que eu no era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a s commigo; que na sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem? Recorde-se... No lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma d'um primeiro amor, como no acreditava na efficacia dos meus meritos, reflectisse antes de me acceitar como marido, e no viesse para os meus braos com o mais pequeno affecto sacrificado vontade de seus paes? Maria Isabel prostrou-se aos ps do marido, exclamando: --Foi verdade... --Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu ento diante de si e diante do mundo? A irriso dos meus inimigos, e a compaixo aviltadora dos meus amigos!... E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe abraava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella, cruzou os braos, e rouquejou convulsamente: -- miseravel! pde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos, resvalar voragem das loureiras secretas por entre os braos d'um padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o? --Pelas chagas de Jesus Christo!--volveu ella, ajoelhando-se-lhe novamente--Eu sei que vou morrer... Se me tu no matares, heide eu matar-me!. Ai! minha querida filha!... Domingos, no desampares aquella creancinha que tua filha!... --Matar-se!--replicou sarcasticamente--As mulheres na sua condio no se matam, porque... esto mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar perdeu a fora moral que d a rehabilitao... --Eu era uma innocente...--soluou Maria Isabel--No sabia o que era deshonra... Passra a minha infancia entre meus paes. Minha me era to virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo... E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia ferozmente interessado na confidencia, disse: --Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte. --Oh!.. pelo divino amor de Deus!--clamou ella--que queres saber d'esta desgraada?... Eu s soube que estava perdida, quando te amei, porque ento senti que era indigna do teu amor!.. --E no obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!.. --Pois bem!--bradou ella com vehemente resoluo--Esmague-me, que eu sou punida, e o senhor vingado! --Heide reflectir...--retrocou Domingos Leite serenamente--Nem todas as mulheres so dignas de morrerem s mos de homens honrados. Entretanto, d-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus primeiros amores. E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabea que se assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremsso de impaciencia, e duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram no animo de Maria Isabel a suspeita de no sahir com vida de tamanha angustia. Sentou-se ella, a tremer, com as mos cruzadas sobre o peito e os olhos piedosos fitos no perfil do marido. --Conte l,--disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face entre as mos, e os olhos postos no pavimento--conte desde o principio essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre. O dialogo seguido a esta intimao demorou-se meia hora, que devia figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: to dilacerantes cortavam as perguntas no pudor d'aquella mulher. Porm, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira j vislumbravam sentimentos de compaixo, porque os do rancor tinham posto a pontaria em outro alvo. As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas: --D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a me de minha filha assim quizer viver commigo, essa creana, que eu adoro, ser sua tambem; mas, se este viver lhe no quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua me. Esta sentena no condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta? --Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas no me tires a minha filha. --Retire esse tratamento do _tu_--voltou o marido com sobrecenho.--Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliana de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoas sem se encontrarem. A senhora rica: administre o que tem: eu no tenho nada que vr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infraco d'este pacto, estalar em tempestade sem bonana. VII Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelaes que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo. O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situao, e maldisse a embriaguez que o levou imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava j esquecido e delido como o blo avinhado de que lhe espumara aos beios a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas. Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no pao, pedindo um beneficio na s de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obteno da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente crte da Ribeira, e logrou alcanar do secretario de estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias. No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, no sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura j amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, no _Bco dos Namorados_,--nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um s namorado, que era padre Luiz. Este bco abria por uma das extremidades no _Terreirinho do Ximenes_, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias. Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convico de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correo de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moa inquilina do _Bco dos Namorados_. Meia hora antes de elle entrar no _Terreirinho do Ximenes_, precederam-no n'aquella paragem, desembocando das _Pedras Negras_[2] dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e sendo dois homens, to subtilmente deslisavam que difficil fra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro. --Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado--disse Roque da Cunha a Domingos Leite--A tua paragem esta; a minha a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o no cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... At logo. Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traioeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que no o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, brio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao svo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premira intelligentes servios. O orgulho afinal amordaara o instincto da justia; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaadora. A espaos, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porm, se lhe negrejava no espirito a horrivel irriso de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixra poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientemente despedaar s mos de um brio furioso, ento o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximao da victima. N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonao e o brado soaram do lado do _Bco dos Namorados_. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrra com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechra com elle. Isto colligia correndo ao longo do bco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo claro da lampada de um nicho. Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'ao contra um corpo j cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritos _-d'el-rei_. A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferra, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, j o mestre de Maria Isabel jazia morto. --O ladro crivou-me a cara de zagalotes!--murmurou Roque da Cunha--Olha do que eu te livrei, rapaz!... V l se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan no se cala... Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruos, esforou-se para ir examinar-lhe a respirao; mas as pernas tremiam-lhe. --No vais?!--disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita--Tu s covarde ou sandeu, homem? --Podemos ir que elle est morto...--respondeu tiritando Domingos Leite. --Podemos ir que elle est morto?--replicou sorrindo--C te avirs com o padre, se ressuscitar--volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram at s Portas do Ferro, onde morava o matador do padre. Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalra na maan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante. O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao _Beco dos Namorados_, quando elle, ouvindo passos, se cozra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porm, ajunctou elle: --O homem, a trez passos de mim, desembuou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola to perto da cra, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu no tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e no contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do corao, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se co o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e no brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivo do corregedor manh dir quantas foram. Atirou-me cabea ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltro, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Ests ahi a contemplar-me com uma cara de mo de cro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se at ha pouco te andava s cavalleiras da honra, te peza agora s cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: ests contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas? --Sei que me no queres inxovalhar com esses remoques...--acudiu gravemente Domingos Leite Pereira--Eu sou um homem triste como todos os desgraados, Roque!.. Se vs em meu rosto o terror, porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar justia, e dizer: fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!.. E, se acontecer que a justia te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre minha obrigao para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale. --Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco--respondeu Roque da Cunha--manh fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirs que estou doente: bem vs que no devo apparecer com o caro esfarrapado. Depois, trars o betume com que se fecham estas gretas, e cuidars de mim, mandando-me da estalagem do hespanhol do _Largo do Forno_ umas empadas de gallinha, e do armazem dos _Sete Cotovlos_ algumas botijas do de Torres Novas. Feito isto esto saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as no d direitas, abriremos novo saldo. Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de no ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precaues para no ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorra, disse entre si: --Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regao da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta me, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem at hora da minha partida... para este inferno em que estou penando! Ao arraiar da manh, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluos, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas. VIII O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos, tanto que o cadaver appareceu, no _Bco dos Namorados_, com dez punhaladas no peito. Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade patria, e contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimao dos ministros de D. Joo IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabra s mos dos vingadores do arcebispo Sebastio de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delao do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes com approvao, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmo da manceba do clerigo, desde que a viram abraada ao morto, e reconheceram n'ella a menina que, dous annos antes, desapparecera de casa de sua familia honesta e abastada. Instaurou-se a devassa. O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelaes na corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho deste sujeito, forado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito esposa do escrivo do civel da corte, illucidava cabalmente a morte do padre Luiz. No entanto, o escrivo do civel da corte continuava a exercer o seu officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidados bem procedidos. No succedeu o mesmo com Ruy Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmo da mulher teda e manteda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicidio. Sabia-se, porm, e com grande espanto, que o rei mandra suspender a devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar. Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irm era j falecida de paixo em rigorosa clausura, appareceu na crte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelaes feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade. Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. Joo IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo. O rei estimava Domingos Leite Pereira, j pelos corajosos servios que lhe prestra nos passos anteriores sua acclamao, principalmente nos tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viosa, j pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mr marquez de Gouva. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execuo das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a circumstancia da delao dos conjurados, feita por um seu confidente, no melhorava em seu particular conceito a condio perversa do traidor. Perguntara o rei ao marquez de Gouva, quando se viu forado a dar satisfao aos boatos que manchavam a justia dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico: --Mas vivem com apparencia de bem casados...--observou maliciosamente o rei. --Um viver mais horrivel que a separao com escandalo publico, real senhor!--disse o marquez.--Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraa, bem que me no desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, j a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabaes do clerigo. Ento, n'essa vez unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimares ao amparo de seu pai; mas que o no faria sem levar comsigo a filha; receava, porm, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasio a divulgar-se um opprobrio nocivo creana que elle queria defender da deshonra da me. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdo esposa por amor da filha. Este argumento no o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputao, fazendo gala da sua formosura e riqueza... --Tenho ouvido dizer que muito formosa...--atalhou o rei. --No ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a crte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas! --E o seu procedimento? --Apparentemente bom--respondeu o mordomo-mr sorrindo--Digo apparentemente, porque no sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade cr que to smente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem. --Assim parece--assentiu o rei--Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da crte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram j declarados os criminosos. No consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, s cegueiras do corao e do brio mister conceder o que no concedemos aos matadores que matam de animo frio. tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo sombra de Domingos Leite, e de alguns servios que me fez. Sei que mo homem , desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados no os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos no valermos de quem os conhece de intimidade, no teremos quem nos ponha de sobreaviso. J o marquez sabe a razo porque Roque da Cunha est logrando a impunidade de Domingos Leite. Porm, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, ho de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingana, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correr os seus tramites, e faremos que a sentena o no prive para sempre da patria. O marquez de Gouva, bem que profundamente magoado, no ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. Joo IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiana, quando dava ordens com to carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios. Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito comeou perguntando ao monarcha se era forosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em comeo. O rei respondeu: -- manh que deve sahir; porque depois de manh fecha-se a devassa, infalivelmente. O mordomo-mr beijou a mo do rei, e sentiu no animo recondita averso ao soberano aprumo de D. Joo de Bragana. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a cora ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759. Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passra com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de to bom como infeliz amigo. Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto. --Agradeo a sua magestade--disse elle--a permisso de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex. sabe que eu me furto s penas da justia mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha--unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha... --Eu olharei por ella--consolou o marquez--Se no vier to depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada. --No mande, sr. marquez...--acudiu Domingos Leite. --Que no mande?! Porque no?.. --Porque eu no sei se terei l fora de Portugal um po que repartir com minha filha... --Pois vm.ce no rico? --Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex. me dava. N'este momento deixei de ser o escrivo do civel da crte e o secretario do mordomo-mr. Sou um assassino sem patria. Verdade que meu pae, o cuteleiro de Guimares, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu no sei se elle enviar a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas supplicas... --Mas...--atalhou o marquez--O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de... --De Maria Isabel?--acudiu com vehemente repugnancia o secretario--D'essa mulher no tenho seno a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sahir depurada d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraado que era, e ajunto desgraa de perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: no terei de hora vante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independencia. Dos bens de Maria Isabel no levarei um ceitil, sr. marquez. Aqui mesmo, se v. ex. me permitte, escreverei a meu pae, a fim de o preparar para o golpe. No posso mentir-lhe. Eu no matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. foroso que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha consciencia no perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vo passando. O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a penna, espera que as palpebras embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai: --No vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso que eu no posso, meu Deus!.. Sei que no posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex. buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angstia, sr. marquez! Eu queria que ella me no esquecesse; e, a no ser v. ex., quem lhe fallar de seu pai!.. --V com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes, e no desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vl-o hoje noite. V dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inutil amigo. Debalde o esperou. IX Elle disse que no teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vl-a que elle no teve. Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos trvos e cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mo na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente. Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante: --manh sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te. --Ento que ha? --Uma ordem de priso o que vae haver contra ns. Fecha-se manh a devassa. --E para onde vamos? j resolveste? --Para Hespanha. --Est claro. O meu dinheiro so oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros. --Eu tenho de meu ainda menos do que tu--respondeu Domingos Leite com severidade--Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os no der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depra. --A Providencia, amigo Leite,--replicou o folio--no tem n'este mundo secretario das mercs conhecido, a no ser o padre santo. Este anda s avessas com portuguezes, e no me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas no esmoreas se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordo de peregrino. L est em Madrid minha me. Se ella me reconhecer e no tiver pejo de me haver gerado, no nos hade faltar boa meza em casa de meu padrasto o desembargador do Pao Francisco Leito... --No percamos tempo--interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor-- noite, serei em tua casa, e de manh partiremos. --Olha l, Domingos Leite,--volveu Roque, cingindo-lhe o brao pelas espaduas--conselho de amigo que anda c n'este vale de lama ha quarenta e oito annos... --Que ? --No deixes a me de tua filha matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentaes no rosto que todas as moiras juntas em noite de S. Joo. Convento com ella, ouviste? Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos: --Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da me de minha filha, como se entre ns se mettesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro no a lavava da mancha indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella alguma coisa mais implacavel que o odio: era o njo. Que me faz a mim j agora que essa mulher cave com as proprias mos mais um palmo no seu abysmo de ldo? --Palavrorio!--replicou o quadrilheiro--Se tua mulher te no fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez mulher por causa de outro clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. (_Nota 11._) Contava-me o caso minha av, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras. --Acabemos esta semsaboria...--cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos--Cuida de ti, e no entrevenhas nas coisas alheias da tua alada... --Intervim de mais...--murmurou Roque estomagado do repello--C vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre ser bom que me no ponham a prumo no logar onde eu puz o padre de bruos, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alada. At noite. Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfao das palavras rudes; mas Roque da Cunha estugra o passo, como quem ia mais preoccupado da devassa que da offensa. Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe estridores metalicos na cabea, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarassem por ella os espinhos mordentes de uma cora. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflies, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, Porta do Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espao, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha. N'este comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fra, com a creancinha pela mo. Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vl-a, ainda se esforou por evital-a; mas a filha corrra contra elle, com os braos abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pae sentou-a sobre os joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos, affagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima anciedade. N'isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu acceleradamente as escaleiras. Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras maviosas; e, quando elle entrava no seu quarto e fazia meno de se fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de soffrer o embate da meia-porta, rompeu de poz o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou: --Se podes ser mais feliz com a minha morte, peo-te que me acabes de uma vez!.. Eu j no posso com o teu despreso; tenho procurado viver por amor desta creana; hoje creio que ella j no precisa de mim, visto que tu a amas, e a Virgem do co attendeu os meus rogos. Desde que me abandonaste, no cessei de pedir a Deus que te voltasse o corao para a nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem o teu amparo, peo a Deus que me tire d'este supplicio; peo-te a ti que me ds uma morte bem rapida, de modo que eu no possa vr na minha agonia de morte esta menina a chorar!... Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a exclamao de Maria Isabel, fitando-a com terrivel immobilidade de olhos. E, quando ella acabou a supplica, e parecia de mos postas esperar a morte, o marido, avanando para ella os dois passos interpostos, disse-lhe com serena voz: --Levante-se e escute-me! Ella ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a menina, de p e tremente, relanava olhares espavoridos entre o pae e a me. --Sou obrigado a desterrar-me, senhora!--disse elle pausadamente-- mulher, que fez da sua mocidade o opprobrio do marido, e que fez do marido um assassino, preciso que eu n'esta hora lhe diga que manh a justia me pedir contas da vida d'um homem que devia morrer, visto que elle matra a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e no mais voltarei a Portugal, porque vae commigo a ignominia que l fra me hade espedaar... -- Domingos...--exclamou Maria Isabel-- filho do meu corao, leva-nos comtigo!.. --No me atormente com interrupes frivolas!--obstou elle mal assombrado--Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus recursos. Se alguem na sua presena me alcunhar de homicida, no me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e no toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creana tivesse a necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte illesa! Oxal que depois da minha morte esta menina podesse dizer que seu pae foi um desgraado sem nodoa na sua probidade!.. Fez uma dilatada pausa, porque os soluos lhe cortavam as palavras, emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braos, lhe ajoelhava outra vez. --No serve de nada essa humildade, senhora!--volveu elle com desalento e desesperao--Levante-se; peo-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa me... que ame esta creana, que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu l do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o corao com as virtudes que at as mes pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faa tudo que entender preciso para que sua filha no leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infamia a seu marido. Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, no tenha de apartar-se d'ella com o ferrete de assassino na fronte. No tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe. --No, no te deixamos...--tornou a esposa-- Angela, minha querida filha, pede com as mos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o! A creana ajoelhou, supplicando: --Deixe, deixe, meu pae!.. Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremo de indignao, e bradou: --Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do desterro, quando a justia me persegue porque eu lhe matei o amante? E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a altura dos labios, e murmurou: --Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!.. E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe: --Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar s a ella?.. --Meu Deus!--exclamou a me. --Diga, diga!--instou elle com crescente vehemencia--Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... No deixa? --No posso, no posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!.. --Que a mate!.. Olhe que eu no tenho sangue nas minhas mos, mulher!.. Veja-as, que esto limpas... eu levo sobre a consciencia o peso de uma enorme vergonha; no levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma casa, sem vr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e d'aqui sahia todas as manhs com apparencias de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de... Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creana. -- infindo tormento!--clamou Domingos Leite apertando a cabea, e debruando-se prostrado sobre o leito. N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mo no hombro, e murmurou: --Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha. --O qu?! bradou elle, erguendo-se. --Leva a creana. Queres ir com teu pae, Angela? A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente. --Queres ir commigo, filha?--perguntou o pae. --E a me tambem vae?--disse a menina assustada e irresoluta. --Eu vou-me embora, e nunca mais volto--tornou o pae--No me tornas a vr. Queres ir com o teu pae? --E no torno a vr a me? --Hasde vr, menina--acudiu Maria Isabel engulindo as lagrimas--Tu depois has de pedir ao pae que me deixe ir vr-te, sim?.. pedes, filhinha? Angela, sem perceber a profundesa do trance que ali se passava, abraou-se na me, chorando. Domingos Leite cruzou os braos contemplando me e filha que se estreitavam num abrao convulso como o estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o desanimo d'alma emfim sossobrada: --Irei s. Tu ficas, Angela. Deus no quer que o anjo de innocencia v nos braos d'um pae homicida mendigar o po de estranhos. No deves ter quinho do meu castigo, pobre menina!... Agora, peo de novo sua compaixo... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe s... A esposa sahiu com vacilantes passos, levando a menina fora. Domingos Leite volveu de novo a beijal-a, e impelliu-a brandamente para fra do quarto. Depois, correndo a lingua da chave, voltou-se para um Senhor Crucificado, e disse mentalmente: --Foras, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e dae-me alento n'este lance! X Quando se divulgou em Lisboa que o escrivo do civel, secretario do mordomo-mr, desapparecera com Roque da Cunha, duas opinies se formaram crca do successo estrondoso. Quanto a Domingos Leite, dizia-se que, tendo o santo officio, no comeo d'aquelle anno de 1647, aferrolhado nos seus carceres alguns sujeitos amigos do escrivo, este, receando sorte egual, se evadira. A criminalidade dos ros presos era suspeita do _peccado infame_ (veja _Larraga_, passim); porm, o delito que o vulgo attribuia ao marido da Traga-malhas era de menos impudica especie: dizia-se que o fugitivo andava gafado de herezia, e dava noticia de livros lutheranos procedentes de Hollanda. Os propagadores do boato, querendo explicar a fuga simultanea de Roque da Cunha, asseveraram que elle se passara a Madrid, onde vivia sua me, D. Vicencia Corra, loureira famosa de Lisboa, antes de ser casada com Francisco Leito, o Guedlha, que tinha sido do conselho de Portugal em Madrid, de boas avenas com o usurpador, e, como renegado incontricto, l se ficara contraminando a restaurao do reino. (_Nota 12._) Poucos dias passados, avultou mais acirrante explicao da fuga, que necessariamente ressumou do tribunal ou das testemunhas da devassa. Affirmava-se que Domingos Leite matara o padre Luiz da Silveira, coadjuvado pelo facinoroso meirinho Roque. A causa da morte fundavam-a na jactancia do padre em ter corrompido quando muito moa a sua discipula, que depois casou com Domingos Leite Pereira. Accrescentavam os mais imaginosos que o padre lhe escrevera depois de casada, e ella dera a carta ao marido. Sahia ento um dos mais enfronhados em segredos de palacio, e explicava que el-rei, por no affrontar a memoria do clerigo, julgando racionavel a indignao do marido, avisara ao marquez de Gouva para que este obrigasse Domingos Leite a expatriar-se. A voz commum, afinal, era que o escrivo do civel da crte ia caminho de Roma a negociar sua absolvio, e que Roque da Cunha estava em Madrid, vendendo barata a Filippe IV, por intermedio de D. Vicencia, a damnada alma. Pelo que respeita ao matador de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira, a opinio publica ferira certeiramente o alvo. A esposa do desembargador do pao, bem segura da indulgencia do marido, quando Roque lhe escreveu, noticiando a sua chegada a Madrid, no renegou o fructo de suas entranhas, ou por escrupulos de velha temente ao diabo com quem andara muito mana quando rapariga, ou por medo lingua do filho, que desde os dezoito annos se emancipara envergonhando-a com suas turbulencias e gandaices. A filha da celebrada Barbara, em cujo bordel, na rua dos Cabides, os abastardados fidalgos de D. Sebastio, velavam as armas com que se infamaram em Alcacer-Quibir, orava ento crca dos oitenta annos; e, no obstante edade to avssa de aspiraes, era ardentissima faccionaria de Castella, e gosava-se de ser o cabresto de seu marido, o doutor Guedlha, em cuja casa reunia os fidalgos portuguezes que ficaram em Hespanha, depois da acclamao do duque de Bragana, ou l se foragiram, depois do supplicio dos conjurados de 1641. Roque, historiando me, na presena de Diogo Soares e do Conde de Figueir, o motivo da sua fuga em companhia de Domingos Leite Pereira, no allegou fraudulentamente designios politicos: acingiu-se verdade, calculando que seria bastante recommendao para ambos o terem apunhalado Luiz da Silveira, muito conhecido do ex-secretario Diogo Soares, no tempo em que a recovagem da correspondencia de Madrid com o arcebispo D. Sebastio de Mattos era desempenhada habilmente pelo padre. Sabia-se l que o confidente delatara os conjurados. A nova da sua morte mysteriosa, receberam-na os fidalgos expatriados jubilosamente, e no menos grata lhes foi a presena dos vingadores das victimas do traidor. Alm d'isso, o desforo do marido de Maria Isabel foi encarecido como feito de fidalgos espiritos; e tanto que, o velho Francisco Leito, que s sahia do seu palacio para o d'el-rei, foi pessoalmente visitar Domingos Leite, e apresentar-lhe o habito de cavalleiro da ordem de Christo, com que a magnanimidade de Filippe IV o agraciava pelos motivos honrosos que o desterravam. Quando o desembargador procurou o brioso portuguez na estalagem, estava com o fugitivo um homem entre cincoenta e sessenta annos, vigoroso, encorpado, vestido de baeta, e coberto de tabardo de borel. --Pelo vestido, parece-me portuguez do Minho do nosso Portugal, este homem:--disse Leito a Domingos Leite. -- meu pae; chama-se Antonio Leite; de Guimares, cuteleiro de officio. Avisei-o de minha fuga, pedindo-lhe meios para subsistir em Madrid. O meu pobre pae veio trazer-m'os, e volta para a sua forja. --V. m.ce no precisava de pedir recursos a alguem, sabendo que esto aqui portuguezes. E voltando-se para o cuteleiro, proseguiu:--Bom pae, escusa de mandar dinheiro ao seu honrado filho, que nada lhe hade faltar em Madrid. --Mercs, meu senhor--respondeu Antonio Leite--mas, em quanto eu poder lidar na officina, o meu Domingos, querendo Deus, hade viver do que seu. S tenho este filho; e, graas ao Senhor, ainda sinto braos para a bigorna. Oxal que o rapaz nunca me sahisse de casa; que, a esta hora, no andaria por terras alheias... --_Terras alheias!_...--objectou o velho ministro de Filippe III.--No terra alheia Hespanha; hespanhoes todos ns somos... --Nemja eu!--acudiu o cuteleiro--nem meu filho o hade ser, sem a minha maldio. Tanto eu como elle nascemos na rua de Infesta, em Guimares, onde tudo portuguez, desde que l nasceu e se baptisou o primeiro rei de Portugal. Francisco Leito espirrou uns jactos de riso zombeteiro, e regougou por entre os insultos do catharro caquetico: --Estas abusoens do povo, filhas da ignorancia, ainda mal que nos trazem divididos os filhos do mesmo tronco visigodo, e teimam em fazer nao um retalho de Castella, que j valeu muito sobre o mar, mas que pouco monta em terra firme. Meu honrado homem de Guimares, dou-vos de conselho que no faais alardo do vosso patriotismo em Madrid, agora principalmente que tendes c o filho, bem acolhido nos braos dos seus compatriotas, quando os compatriotas de l o exterminam, e o enforcariam, se o houvessem s mos... --Mas, sr. desembargador--interrompeu o vimaranense--o meu filho no tem crime de ir forca; forca devia ir o outro que... --Meu pae--atalhou Domingos Leite, obstando referencias causa do homicidio--o sr. desembargador no me accusa, para que meu pae me defenda. Isso pertence justia, que no se hade ver embaraada com a minha defeza. --Nem v. m.ce com a condemnao--accrescentou o ex-conselheiro de Portugal em Madrid.--Se em Lisboa os desforos das almas nobres so punidos como os crimes dos facinorosos de profisso, el-rei nosso senhor Filippe IV galardoa Domingos Leite Pereira com o habito da ordem de Christo, e admira-se que o duque de Bragana to indignamente remunerasse a intelligencia do secretario do marquez de Gouva, alentado villo que se lhe vendeu pela mesma causa, que ainda se hade vender a el-rei de Hespanha. --O sr. marquez de Gouva--observou Domingos Leite--no se vendeu. --Ento deu-se de graa como quem no achou comprador?--replicou o sarcastico Guedlha, casquinando a sua asperrima risada.--Est v. m.ce bem informado. D. Manrique, filho do castelhano conde de Portalegre, no se vendeu: atraioou o rei que lhe deu a coroa de marquez. Mais infame, por consequencia, que os vendidos; que estes tem a desculpa da necessidade subornada pelo ouro; em quanto o marquez de Gouva se infamou gratuitamente. Pereira Leite submetteu a replica ao respeito devido provecta edade do conselheiro, e desviou a pratica incommoda, pedindo licena para no acceitar a merc do habito de Christo. --Porque no?--sobreveio o desembargador. --Porque as honras, sem a procedencia dos servios, no lisongeam o agraciado, nem grangeam a considerao publica. Eu, como v. s. sabe, sou pobre. Est aqui meu pae de quem me soccorro, falta-me posses para me ostentar, e contentamento para me prezar em mais do que valho. Digne-se v. s. ponderar a sua magestade a minha situao qual ella . O meu prazer, se algum posso haver n'este mundo, a obscuridade, a solido, o chorar tudo quanto perdi, e mais que tudo uma filha, que era toda a minha vida, e brevemente me ser a morte... --Sei isso;--interrompeu Francisco Leito--j tudo nos contou Roque da Cunha; e minha mulher disse logo que a sua filha hade vir para a nossa companhia; e, desde menina, hade pisar as alcatifas do pao. --Beijo as mos de v. s. e de sua illustrissima esposa--disse commovido e grato Domingos Leite, desafogando em esperanas a saudade que lhe apertava o corao. --Havemos de gizar o melhor modo--prosegiu o ministro--de trazer sua filha a Madrid, quer a me queira, quer no queira. V. m.ce tem um amigo capaz de tudo que difficil. Se Roque da Cunha tentar trazer-lhe sua filha, vae a Portugal, e s no voltar, se os carrascos do duque de Bragana tiverem grande faro e grande sde de sangue. Entretanto, se me deixa dar-lhe um conselho de amigo, de ancio, e de homem, que ha cincoenta annos lida com o capricho dos reis, digo-lhe que acceite o habito de Christo, e no perca azo de ajoelhar a sua magestade, agradecendo-lh'o. Lembre-se, emfim, sr. Domingos Leite, que D. Joo de Bragana, podendo rasgar a sua devassa, como rasgou tantas outras de inimigos pessoaes que se lhe venderam, ordenou ao mordomo-mr que lhe impozesse o desterro, como quem diz: escolher entre o exterminio e o patibulo! Bom amigo! raa de Bragana pura! couce de quarto gallego em quem o affaga, e orelha cahida ao ver o ltego na mo do potreiro... Conhecemos de ha muito quem so os Braganas: por uma linha coito damnado, pela outra o lavrador de Veiros que no se tosquiou, desde que o bastardo de Pedro I lhe pegou da filha para fabricar em ella uma vergontea ducal. Ora bem... estou cansado de taramelar, meu amigo e sr. Leite. Vou-me com Deus, e c deixo apreciao do seu espirito intelligente estas phrases que, bem espremidas, ho de estillar muito succo. Medite-as, e... seja esperto, porque o facto de ser infeliz no o fora a ser inepto. Sem mais. Escuso dizer-lhe que o deixo na obrigao de me visitar. Minha mulher quer conhecel-o, e perguntar-lhe por certas fidalgas das suas relaes. O nosso grande amigo D. Rodrigo da Cunha ha quatro annos que foi dar contas a Deus do logro que pregou ao povo, fazendo cumplice das suas tramoias o brao do Senhor Crucificado. Quem diria que um prelado de tantas lettras havia de socorrer-se de tamanhas trtas! E aquillo feito por um politico, derrancado pelo mimo com que el-rei nosso senhor o tratou a elle e a toda a parentella! Emfim, adeus; que eu, se comeo a bacharellar, no despego d'aqui. Eu lhe contarei quem so os faccionarios do duque de Bragana; e, se Deus quizer, cdo o convencerei de que o fidalgo mais facil de vender Portugal a Castella esse a que l chamam rei. (_Nota 18._) Na ausencia de Francisco Leito, o cavalleiro da ordem de Christo olhou para a cara espantada do pae, e disse tristemente: --Por desgraa, este inimigo de Portugal disse verdades horriveis. Eu sei que ha torpezas reconditas nas secretarias dos ministros de D. Joo IV: e, se essas so sabidas em Madrid, o edificio de 1640 hade vir a terra, derribado pelos mesmos que o levantaram. Ainda assim Deus sabe que eu desejo morrer debaixo das suas ruinas. Prouvera ao ceo que eu no estivesse em Madrid no dia em que a nossa querida terra hade ser juncada de cadaveres do povo; do povo smente; que os fidalgos esses ho de ter novas cedulas em aberto como no tempo... --Em que teu av morreu na hoste do sr. D. Antonio--atalhou o pae--e eu, se Deus at l me der vida, no hei de ver soldados hespanhoes no castello de Guimares. Domingos!--proseguiu o artifice com vehemencia--no me ponhas essa venera ao peito; deixa-me primeiro fechar os olhos; e, depois, c te avm com a tua vida; que eu no veja isso, nem oua l dizer aos meus visinhos que tu s castelhano. --No ouvir, meu pae...--refutou o filho.--Mas attenda minha situao de foragido, em meio dos encarniados inimigos dos bons portuguezes. Se eu campar de patriotismo em Madrid, de certo no terei amigo que me avise para fugir d'este reino para outro. Procederei de modo que no d suspeitas a Portugal nem a Hespanha, at que um dia possa ir obscuramente morrer casa onde nasci... --Irs, meu filho--atalhou o cuteleiro, debulhado em lagrimas--Eu d'aqui vou direito a Lisboa, e irei lanar-me aos ps de el-rei... --No d similhante passo--despersuadiu Domingos Leite.--Dois homens unicamente poderiam dominar o animo de D. Joo IV. Um, o mordomo-mr, rogou e foi seccamente desattendido; o outro o alcofa do rei, Antonio Cavide, o secretario de estado, que me odeia, porque eu ousei censurar ao ouvido de quem me denunciou, que um ministro da sua polpa andasse negociando com as aafatas do pao os amores do seu rei. Desista do seu intento, que humildade e abjeco inutil. O que eu lhe rogo que v ver minha filha.... --No!--objectou o velho tregeitando um gesto de indignado. --Porque, meu pae? --Porque terei de ver a me! No hei de ver essa mulher que te fez desgraado! A creana no tem culpa; verdade; mas, se eu l for, parto a cabea da me contra uma parede! E, dizendo, estirava os ligamentos das mos e arqueava os dedos, como se entre elles sentisse a cabea da nora. N'este comenos entrou Roque da Cunha, galhardeando capa e sombreiro novos, espada no telim, meias de seda, gibo de passamanes, calas golpeadas, e um tregeitar de corpo que denotava estar l dentro uma alma espanejando-se em jubilos. --Soube agora mesmo--exclamou com alvoroo o filho de D. Vicencia--que estava aqui teu pae. Venha de l esse abrao!--proseguiu Roque, estreitando ao peito o cuteleiro, que se deixou abraar impassivelmente. --Este o meu amigo Roque--interveiu Domingos apresentando-lh'o. --Ah!--disse o velho, abaixando a cabea, sem lhe desfitar os olhos onde se espelhava a desagradavel impresso que lhe incutira o aspeito do cumplice de seu filho. --E amigo como poucos!--confirmou Roque--Amigo como nenhum! Amigo como eu s sei ser, quando os homens c me chegam ao corao. --Sim, senhor...--balbuciou Antonio Leite, forcejando por sopezar a antipathia que os gestos e maneiras do homem lhe oppunham aos transportes de gratido, proprios da conjunctura. --Teu pai est sorumbatico, Leite!--observou Roque, despeitado da recepo fria do velho. --Est triste...--explicou o filho. --Porque?!--volveu o jovial enteado de Francisco Leito, fazendo posturas gymnasticas e reviravoltas.--Triste devia o nosso velhote estar, se em vez de vir a Madrid visitar um filho, cavalleiro da ordem de Christo, o houvesse de ir visitar a Lisboa, ao Limoeiro, d'onde alguns cavalleiros costumam sahir para dar cavallaria aos carrascos. Por que est v. m.ce triste? Diga l! Cuida que em Hespanha no medra a melhor gente de Portugal? Tem medo que o seu filho soffra privaes em uma nao, onde recebido nos braos de um desembargador do pao, e coberto com o manto de cavalleiro que el-rei Filippe IV lhe manda, sabendo que Domingos Leite Pereira foi o discursador fogoso nos tumultos de Evora, e um dos mais estrondosos gritadores da acclamao do duque de Bragana?... --Legitimo rei dos portuguezes--accrescentou o cuteleiro, baixando reverentemente a cabea. --Isso agora--replicou Roque da Cunha-- questo que nem v. m.ce nem eu decidiremos, em quanto no tivermos gro de doutores de Salamanca. Deixemos esse officio a quem toca. V. m.ce faa partazanas na sua officina; e eu, em quanto no tiver officio, preferirei no fazer nada a fazer legitimos reis, que coisa que no sei fabricar. Sr. Leite, sabe que mais?... Seu filho nada deve ao duque de Bragana. Se teve bom officio, maiores servios prestou seu filho ao duque, e maiores premios devia D. Joo sabedoria de Domingos Leite. A final, pagou-lhe como era de esperar de um aventureiro que subiu de duque a rei, e desceu de rei a villo, desprezando o amor provado dos amigos e galardoando o odio solapado dos inimigos, para firmar sobre consciencias vendidas a segurana do throno, de cuja legitimidade e firmeza tanto cr elle como eu. Chegada a occasio de provar que estimava Domingos Leite, no s pelo que lhe devia, mas tambem pela honra do seu delicto, que fez o seu rei? Ordena-lhe que se desterre voluntariamente, que se despoje do seu officio, que perca a patria e o po, sob pena de ser preso, julgado, sentenciado e talvez inforcado, porque as testemunhas da devassa o culpam, de cumplicidade na morte de um clerigo torpe. E sabe v. m.ce a raso que tem o duque para querer fingir-se justiceiro na morte do clerigo? porque elle preza os traidores, e premeia-os conta de os ter sempre volta de si. Ora, como o padre Silveira lhe delatou os fidalgos em 1641, quer agora o tal chamado rei honrar-lhe a memoria, exterminando este honrado moo, a fim de que elle no possa defender-se; porque, se Domingos Leite entrasse em julgamento, havia de sahir absolvido na consciencia do povo, embora o levassem do tribunal para o oratorio. Com quanto Antonio Leite no objectasse ao longo arrasoado de Roque da Cunha, o silencio do velho no desapprovava nem assentia; todavia, os modos grutescos do amigo de seu filho cada vez lhe azedavam mais a invencivel repugnancia. Quando, emfim, o alegre e palavroso neto da Barbara da rua dos Cabides se despediu para ir visitar homisiados portuguezes chegados recentemente a Madrid, Antonio Leite disse ao filho: --Tenho m f com este homem, Domingos!... --Porque, meu pai?!.. No v que elle me deu provas de amisade tamanhas, que por amor de mim perdeu a patria e o officio que tinha? --_Provas de amisade..._--murmurou o artifice--Maiores te daria eu, se, antes de resolveres matar o padre, me contasses a tua vida. Bom amigo seria o que te aconselhasse a no o matar... --Ento?... que me aconselharia meu pai?! --J t'o dei a perceber logo que me contaste as tuas desgraas. Eu, se fosse tu, fazia de conta que no tinha mulher. Tirar a vida a um homem sem rases muito fortes, no se conforma com a minha raso. Se elle fosse teu falso amigo, ou te desinquietasse a companheira, v; mas, se nem ella era tua mulher nem elle sabia que tu a pretendias, mal aconselhado andaste; e, se foi este amigo que te aconselhou, mo amigo foi. Dizes tu que no puzeste a mo no padre: que foi Roque da Cunha quem o matou. Peor, peor! Quem mata um homem, que o no offendeu de longe nem de perto s por ser agradavel a um amigo, e anda depois, laia d'este, contente e prazenteiro, olha que no a primeira vez que mata, nem lhe custou muito essa prova que deu. Tens um mu amigo, Domingos... Acautella-te d'elle. --No seja injusto...--voltou o filho com menos calor do que era de esperar em defeza de um amigo calumniado--Conheo ha onze annos Roque da Cunha, e achei-o sempre leal e servial at pr o seu brao desinteresseiro em desaggravo da minha honra. No foi elle que se me offereceu para matar o padre; fui eu quem antecipadamente o obrigra por juramento a correr commigo todos os perigos... --E dize-me c--interrompeu Antonio Leite--este homem era bem procedido quando te amistaste com elle? Vivia com honra? --No tenho que ver com o que elle era...--respondeu Domingos Leite froixamente, lembrando-lhe o assassinio do pai de Miguel de Vasconcellos, a denuncia de Mathias de Albuquerque, os insultos que este general recebera entrada da Torre de Outo, e outras malfeitorias que no sobreviveram memoria dos contemporaneos. --No tens que ver com o que elle era?--repetiu tristemente o velho--Pois, filho, muito te convem estar de sobreaviso para o que elle hade ser. Estas palavras, proferidas torvamente, impressionaram o espirito j preparado a recebel-as sem constrangimento da raso, bem que ao animo reconhecido de Domingos Leite dosse o consentir em to austeras demasias. uma sancta verdade no haver alliana de estima honesta entre dous homens pactuados por um feito criminoso. O affecto de Domingos Leite Pereira a Roque da Cunha era to simulado ou sobreposse, quanto os remordimentos de um e o despejo do outro se distanceavam entre si. O corao--que desbordava de lagrimas, scismando na filha estremecida, e, s vezes, vibrava de angustia, pensando que a esposa poderia vingar-se dando a outro a belleza desprezada--no entraria aos lodaaes, onde as grandes angustias se atordoam e atrophiam, imparceirado com Roque da Cunha. Domingos Leite era muitissimo desgraado, quando seu pai o deixou, indo a Guimares vender o prediozinho que representava trinta annos de economias. XI Chamava a cada hora pelo pai a inconsolavel Angela. A me acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluando, dizia-lhe que o pai no tardaria. A menina adoeceu de molestia que a me attribuiu a saudade. Maria Isabel desvellou as noites de joelhos beira do leito; e, invocando o testemunho ou a piedade da Virgem do ceo, protestava suicidar-se, assim que sua filha morresse. Quando Angela se amodorrava em lethargia febril, Maria Isabel escrevia ao marido a historia por minutos da doena da filha. Cada pagina terminava por nova supplica de as levar para si, a no ser que a creana expirasse, que ento nada lhe pediria a no ser o perdo. A desventurada amava o marido n'aquellas horas escurissimas. As derradeiras palavras d'elle, ao despedir-se, compungiram-na profundamente, por que gemiam na alma onde o desalento amolentra os espinhos do odio. O natural despeito de se ver desprezada, por espao de anno e meio, pde menos que a consciencia de haver matado o porvir d'aquelle homem, to prosperado e ditoso n'outro tempo! Alanciavam-na remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providencia a punia, pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura. Angela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel, fechando a longa relao com a fausta nova da convalescena, sobrescriptou a carta para Madrid. N'aquelle tempo, cartas enviadas a Hespanha eram revistadas e rasgadas quando no davam margem a suspeitas. Todo o portuguez que demorasse ento em Castella peccava por traidor patria ou criminoso foragido justia. Domingos Leite Pereira fra arrolado na classe dos ultimos. Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido no recebia as cartas, Maria Isabel, soffreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquez de Gouva, levando comsigo a menina. O velho mordmo-mr recebeu-a com benevolencia. As lagrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam almas compadecidas. Entretanto, o marquez no se prestou a transmittir as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei. --Mas que mal fez meu marido a el-rei?--perguntou Maria Isabel. --No fez mal directamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito de castigar. Quem mata um homem sem poder allegar que o fez em justa defenso de sua vida, d a entender que o faz desconfiado da lei. --Ento o sr. D. Joo IV persegue meu marido? --No, senhora; permitte que a justia cumpra o seu dever. --E, se eu fosse com a minha filha lanar-me aos ps da rainha? Sorriu-se o marquez em ar de reprovao do alvitre, lembrando-se que D. Luiza de Gusmo impedira que el-rei se deixasse apiedar das deploraes da duquesa de Caminha, quando j se estavam carpintejando as peas do cadafalso. Alem d'isso o mordomo-mr sabia que o nome da mulher de Domingos Leite chegra ao aposento da rainha com o labeo de prostituida a um padre. No revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um gesto negativo. --Mas el-rei no me trataria com desabrimento?--proseguiu ella. --No, com certeza. El-rei tractou mui urbanamente a sr. duqueza de Caminha, quando lhe foi pedir o perdo do marido. --Mas no perdoou... -- verdade; porm, so muito diversos os pedidos e as causas. Que lhe quer vossa merc pedir? --Que deixe vir meu marido para Portugal. --E no seria melhor buscar meios de elle ser julgado e absolvido?--replicou o fidalgo. --No conheo ninguem... e tenho vergonha de fallar aos juizes!... --Acho justa essa repugnancia...--assentiu o marquez--todavia, se quer fallar a el-rei, maior lhe deve ser o pejo. Maria, apz breve pauza, em que ponderou a replica judiciosa do mordomo-mr, insistiu ainda chorando: --Se V. Ex. se compadecesse de ns... --Em que posso mostrar-lhe que me compadeo das suas magoas?.. --Se V. Ex. tivesse modo de fazer chegar a minha filha presena d'el-rei nosso senhor com um requerimento meu... --Heide pedir licena a sua magestade, e espero alcanal-a. Dar-lhe-hei a resposta. Porm, suppondo que el-rei lhe nega audiencia ou lhe indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. V para Madrid com sua filha. Seu marido de certo a no repulsar, se a senhora abrir o caminho ao perdo por intermedio da filha que elle adora. Se acontecer achal-o colerico, haja-se com discreta paciencia, dispensando-se de viver em commum com elle. Vossa merc bastante rica. Tanto lhe faz viver em Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho? --Sim, sr. marquez--assentiu Maria Isabel muito reanimada--E V. Ex. protege a minha ida? --Heide conseguir que no lhe impeam a passagem nas fronteiras, e dar-lhe-hei uma carta que esta menina hade entregar ao pai. --E como heide encontral-o em Madrid? --Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recommendo-lhe com muita instancia que mva Domingos Leite a sahir de Hespanha. El-rei tem bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos portuguezes que l vivem. J c notorio que Domingos Leite, dominado pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre s cazas mais suspeitas dos maquinadores da nossa escravido. Sobre queda couce, diz o ditado. No assim que elle hade ter por si el-rei e os juizes. Por estas e outras rases lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido, que em vez de ir a el-rei, passe a Hespanha; e depois, se Domingos Leite a quizer attender e carta que eu lhe hei de dar, vo para Frana ou para Roma. Nesta conjuntura entrou o secretario Antonio de Cavide, que fitou com ares de assombrado o bello rosto e garbosa compostura da dama desconhecida. Maria Isabel, erguendo-se, disse filha que beijasse a mo do sr. marquez, e sahiu. --Quem esta gentil fada?!--perguntou Antonio de Cavide--Eu nunca vi mais guapa mulher! -- a esposa de Domingos Leite Pereira. --Oh!... esta!?. Olha o magano do padre Luiz com que cilicios se penitenciava! Bem me dizia el-rei que a mais bonita mulher de Lisboa, segundo ouvira ao juizo competente do sr. marquez, era a Traga-malhas... Que diria sua magestade, se a visse? --Que diria, e que pensaria!..--accrescentou o mordomo-mr, sorrindo com a malicia commum dos dois fidalgos. --Eu sei c!..--tornou o secretario de estado franzindo o sobr'lho--Talvez desculpasse o clerigo, e perdoasse aos ciumes ferozes do marido... --Esta joia mais de preo que a condessa de Villa Nova!.. --Upa, upa! --E vai muito alem da aafata? --Da Justa Negro? Upa, upa! sr. marquez! --Vem a ponto uma pergunta: a D. Justa est contente no mosteiro de Chellas?--perguntou o marquez. --Est resignada desde que eu lhe mostro a filha de mez a mez. --E el-rei continua a ver a menina? --Levo-lh'a ao palacio de Alcantara todas as teras feiras. El-rei doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a creana, que fez agora trez annos, tem uns ares tristes que fazem scismar. --Adivinhar as lagrimas da me?--aventou o marquez--Ou seria concebida em estao amargurada... --L como ella foi concebida no sei; so segredos de alcva; mas a historia das damas dos reis no me fez conhecer uma s que se carpisse de ser me... O mordomo-mr derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o pundunor do ministro lanarote de el-rei. Era Antonio de Cavide tanto das entranhas de D. Joo IV que, se o leitor leu em a _Nota 6._ o testamento do rei, trasladado dos apontamentos originaes, veria as referencias com que o seu real amigo o recommenda considerao da rainha. Arguiam-no os aulicos de ser o medianeiro dos amores illicitos do monarcha. Da aafata D. Justa Negro segredava-se na crte que fra elle o corruptor custa de infames alliciaes, necessarias a vencer a indifferena e at a reluctancia da criada do pao. Fra ainda Antonio Cavide o agente da profisso de D. Justa no convento de Chellas, e em caza d'este secretario se estava creando a filha d'esses amores, em que a victima violentada ganhra vestir a mortalha monastica, volvidos dois annos, mais que longos, para o regio fastio de sua magestade (_Nota 19._) Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do reinado de seu real amo, exercia attribuies, segundo parece, nas coisas secretissimas do rei, no lhe sobrando vagar para as do estado. Ainda assim, do testamento do monarcha deprehende-se que nenhum homem gosou como elle a confiana do rei at hora final. Rodados vinte e seis annos, achamos Antonio Cavide condemnado morte, na regencia de D. Pedro, como conjurado na tentativa de rebellio a favor de Affonso VI, prezo na Ilha Terceira. E dado que dois modernos historiadores[3] nos dem Antonio de Cavide executado em Lisboa em 1673 bem de ver que no colheram idoneas informaes de escriptores coevos. Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catharina de Bragana, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdo do velho secretario de D. Joo IV, logrou salval-o do patibulo; mas, decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeonhado por insinuao do regente. XII Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienao dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto elle no houvesse respondido justia, que o esbulhra dos seus direitos. Recorreu a dama ao mordomo-mr, que no antevira o embarao, nem podia removl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez, desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o resultado da interveno de um ministro mais influente no real animo. O mordomo-mr lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de D. Joo IV. Seguiu d'alli, com a filha, para o pao da Ribeira, e entrou no Arco de Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo que a campainha tocasse, D. Joo IV enviava alguem a reconhecer a pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle meio menos ordinario. Estava o rei com Antonio de Cavide na sua pomposa bibliotheca de musica, situada na poro do palacio chamada o _Quarto do Forte_, quando ouviu tanger a sineta. --V ver quem --disse o rei sorrindo--Olhe que no v ser algum burro lazarento... Emquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que alluso aquella do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a transmittiu nas suas _Memorias_, por vezes citadas n'este livro. Foi que uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e comeou a trincar a corda no intento provavel de a comer. Ora como a sineta repicava to ligeira quanto a fome do tangedor esgarava no cordel, D. Joo IV, que estava s, e extranhra o pressuroso dos toques, desceu pessoalmente casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguem lhe respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tocra j teria subido saleta de espera. O enviado voltou annunciando a sua magestade que encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem s cavallarias reaes, com recommendao de o tratarem fartamente; e accrescentou; Semelhante pretendente no pde ter outro requerimento. No me consta que D. Joo IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse coisa de tanto espirito. A no ser coevo de sua magestade aquelle burro faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escriptura a lembrana que os dois tiveram. Voltou no entanto Antonio Cavide com ridentissimo semblante, e disse: --Mal pensava eu, real senhor, quando ha pouco tentava pintar o esbelto rosto da mulher de Domingos Leite, que ella to perto estava de desmentir na presena de vossa Magestade a pallida copia que eu fiz!... --Foi ella que tocou?!--acudiu o rei entre alegre e maravilhado. --Ella, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiencia; e, apezar de coberta de lagrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas rosas!.. --Estou a ver se me falla em verso, Cavide!--disse o rei escondendo a custo a commoo da curiosidade--Mande-as entrar na primeira sala. O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a Maria Isabel: --Sua magestade houve por bem admittir a vossa merc sua real presena; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor. A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas, chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapearias e colgaduras de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes, jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos jardins do pao da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas n'aquelle palacio, que j ento pompeava primasias sobre as mais esplendidas crtes da Europa, graas baixella da duquesa de Mantua, que nunca lhe foi restituida. Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o nas palpitaes do corao; e j estava em joelhos, quando um sumilher da cortina correu o reposteiro com um ringido de ao estridente que, digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance. D. Joo IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez Joo Bernardes Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante que cobria a cabea da menina. Orava ento o rei pelos quarenta e tres annos. No obstante as bexigas, que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava vivacissima a graa dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da violenta caracterisao de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viosa dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. D a perceber o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no _Portugal Restaurado_, que D. Joo era to desregrado na alimentao que anticipara a caduquez do corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperana do espadado sugeito, cevando-se nas lubricidades que adelgaam as mais maorras e rijas compleies. No se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia. Vestia um _pourpoint_ (gibo) de panno preto, refegado no peito, sem guarnies at baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta que muitas vezes usava, da vil droga chamada estamenha. (_Nota 20._) Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a sciencia phrenologica de Spurzheim no fosse um lgro nas cabeas da raa dos braganas, no collaboradas. Calava meia de sda escura e sapato de veludo com um simples boto, sem os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e at os pecuniosos da classe mdia se ajaesavam. Como j vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e perturbadissima a entrada d'el-rei. Caminhando a passo vagaroso para ella, D. Joo IV parou a pequena distancia, e disse-lhe: --Levantae-vos, senhora! E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu: --Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adorao. Vamos! a p! Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa, mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do quadrupede da sinta; mas no o arguamos de canhstro ou pecco de phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da Ericeira nos diga que no costumando o rei a empregar as _palavras mais polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia fazia estudo do que em outros podera ser defeito_.[4] D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de mero homem em presena da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada. Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuo do capotilho--descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias palacianas--deixava metade do rosto aos deleites da admirao, e a outra metade curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda Antonio Cavide. Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado, acercou-se mais o rei, e poz a mo na face de Angela, dizendo: --s muito galante, menina! A me relanou a vista menos timida face de D. Joo, e, como lhe encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creana, absrta na contemplao do rei. --Sentae-vos, senhora--continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe espreitava to insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade. --Se vossa magestade no quer ouvir-me de joelhos, peo que me deixe supplicar de p a sua misericordia--balbuciou Maria. --Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da justia e direito de seus vassallos, ser-vos-ha feito. Vindes pedir-me que absolva vosso marido de um crime publico? no sou eu quem hade sentencial-o ou absolvel-o. --No peo tanto a vossa magestade, meu Senhor... --Que quereis ento? --Ir com minha filha para Madrid. --Quereis ir para Domingos Leite?--perguntou o rei com estranhesa. --Sim, real Senhor. -- elle que vos chama? --Saber vossa magestade que eu, desde que elle partiu, nunca mais tive noticias suas. --Apezar d'isso, quereis ir... Quem vos priva? --Quiz vender parte dos meus bens, e a justia no m'o permitte nem permittir ainda que meu marido assigne os contractos. --Porque essa a lei dos criminosos--volveu gravemente o rei--Vindes pedir-me que submetta a lei minha vontade particular? O que no posso fazer como homem, n'este caso, tambem o no posso fazer como principe. Eu no subordino a justia: sou-lhe subordinado. Porm, como homem, poderei prestar-vos um servio, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei meios para irdes a Castella; e emquanto l os carecerdes, remediar-vos-hei. Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha. --Eu queria--murmurou ella--levar a meu marido o que herdei de meus paes; mas agradeo a vossa magestade a esmola que me offerece. --No esmola; emprestimo. Quando a sentena remover os estorvos que vos privam de vender os bens, ento me pagareis. Entretanto, sabeis se vosso marido vos receber graciosamente? --No sei, meu senhor... --Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos no fallra mais. verdade? --Sim, meu senhor. --E esse despreso no impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira, porque a vossa sorte me est prendendo extraordinariamente a atteno. Amaes Domingos Leite? Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embarao: --Casei com elle por paixo, e foi a paixo que me cegou...--e aqui reteve-se vexada e confusa. --Sei o que vos custa a dizer:--acudiu o rei--passae adiante, Maria Isabel. A suavidade com que D. Joo proferiu os dois nomes parecia arrasar uma alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de benevola confiana--o vr ella seu nome na memoria d'el-rei--deu-lhe umas largas alma, uns assomos de vaidade, um desafgo analogo ao dos pulmes que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadio. --Dizei,--proseguiu elle--O desamor com que Domingos Leite recusou perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a praticastes, foi causa a que a vossa paixo se desvanecesse... Errei o meu juiso? -- verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu galanteio; mas no o seria... se no fosse to innocente. --Ainda assim, compaixo ou amor que vos resolve a procural-o em Hespanha? -- esta creana que chora por elle; e a afflico que eu sinto quando me lembro das afflices com que meu marido se separou da filha... --E de vs, no?!--redarguiu elle com perfida admirao. --Parecia querer perdoar-me n'essa hora... --Bem. Perguntae-lhe se vos perda. Se elle vos disser que sim, ide, e contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal faanha, o honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. No sei se elle vos acceitar, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crr que Maria Isabel, to mal considerada em Madrid, no querer apparecer aos admiradores de seu marido. --Esse boato uma calumnia, senhor!--exclamou ella com os olhos sccos e o rubor nas faces. --No m'o digaes a mim, que eu j vol-o disse. Li o processo com o maior empenho; quiz salvar vosso marido; j vdes que se alguem duvida da vossa innocencia de esposa, no sou eu. Como quer que seja, em materia to melindrosa, no sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza. Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e d a carta ao meu secretario de estado Antonio Cavide, que elle a far entregar directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue. --Ah!--suspirou a formosa--se o meu nome anda to infamado em Madrid, meu marido no me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente ignorava a minha desgraa; que far agora que maior deshonra para elle reconciliar-se commigo!.. --Quem sabe? O corao humano faz mudanas de que no sabemos dar causa nem raso. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje, que amanh Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, ir procurar vossa carta. E, voltando-se para a menina, perguntou: --Como te chamas, linda? --Angela--respondeu a creana. --Criada de vossa magestade--accrescentou a me muito desvanecida da regia curiosidade. --Pois que dizeis que minha criada--volveu D. Joo IV--minha criada fica sendo desde hoje, e vir exercer o seu officio, quando a edade lh'o permittir. No emtanto, o seu nome ser registrado no livro das aafatas da rainha, desde j. --Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licena para lhe beijar a mo--disse Maria Isabel com transporte. O rei colheu a menina nos braos, e disse: --Eu que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os cherubins. Uma reflexo--proseguiu o rei de subito--no diga Maria Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do pao. Seria muito dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que no pde ser galardoado emquanto no fr absolvido. Tendes entendido? --Esteja vossa magestade segurissimo de que eu no direi que fallei a vossa magestade. --Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda commigo. Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida d'el-rei. --Quereis sair? Esperae,--disse D. Joo--que eu vou mandar-vos o meu secretario de estado para vos acompanhar liteira. --Vim a p, real senhor. --Ah! sim? No obstante, esperae. Sahiu o rei, beijando outra vez Angela, e deteve-se breves minutos com o secretario, que sahiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmittir a um moo da estribeira. Voltou Cavide outra vez presena do amo. D. Joo IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa fronte, clamava enthusiasta: --Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... No ha dama no pao que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada! Cavide ria-se e esfregava as mos. --Isto no para rir, meu caro!..--obstou o rei--Querem vr que eu estou apaixonado!.. N'este lance grave, que as expresses do rei e a cara do valido tornavam ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moo da estribeira envira dizer que a liteira das aafatas estava no pateo do norte. --V! ordenou o rei ao secretario. Antonio Cavide entrou na sala, onde ficra Maria Isabel, e inclinando a cabea, disse: --Sigam-me vossas senhorias.[5] E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libr da casa real, deu a mo a Maria Isabel para ajudal-a a subir. --Eu vim a p...--gaguejou a mulher de Domingos Leite, no percebendo o convite do fidalgo. --Sei isso; mas sua magestade manda conduzir na competente liteira a sua aafatasinha e mais sua me, muito minha senhora. E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galmente, tomou Angela nos braos, e sentou-a no almadraque inferior; depois, offereceu o hombro me, fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente: --A casa de suas senhorias na Porta do Salvador. A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instincto do pejo imprimira aquelle impensado impulso ao brao da mulher do expatriado. E D. Joo IV, que de uma janella que abria sobre o terreiro, presencira o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide: --Aquelle recato pagra-lh'o eu com milhes, se o meu corao no valesse mais que elles!... O confidente ouviu isto com a maior circumspeco. O castigo supremo dos validos no poderem escancarar sinceras gargalhadas nas faces dos reis. XIII Vellou a noite inteira Maria Isabel. Figuravam-se-lhe vises, ora terriveis, ora deslumbrantes. Sentia o que quer que fosse de interior transfigurao de seu ser. Contemplava-se e via-se mudada virtualmente. A scena do pao, a sala explendorosa, o rei, a _senhoria_ do secretario, a aafata, a liteira armoreada, a libr, e sobretudo os conselhos do rei, aquellas phrases umas vezes meigas, outras vezes tristes, o seu nome tres vezes proferido pelos regios labios, tudo, que ainda sonhado lhe seria deleitoso, era, em realidade, sobejo estimulo a que a noite lhe corresse no dormida. Mas, por entre as fulguraes da imaginao febricitante, dava-lhe tremuras um pavor indefinivel, se a ida de ter cahido na graa do rei lhe impunha o dever de se lhe dar cegamente, e sem resistencia de raso, de religio ou de pudor, como as mulheres que se vendem. Contradiziam-lhe estes sustos do pejo as palavras de D. Joo IV, aconselhando-a a consultar a vontade do marido, quanto a ir para sua companhia. Depois, como a revirar-lhe esta pudica justificao dos reaes intentos, occorria-lhe a lembrana de ter ouvido dizer a Domingos Leite que D. Joo IV nos seus amores, quando duque, no se estremava dos moos do monte em bruteza; que nenhuma das suas affeiodas lhe conhecera corao. E d'ahi umas exploses luminosas de vaidade, a mulher em todo o seu elasterio de vangloria, tanto mais acrisolada quanto se vira repudiada do marido... Muitas expresses do soberano soavam-lhe ainda nos ouvidos, quando a luz da seguinte manh lhe alvoreceu no quarto; e, entre todas, estas principalmente: ..._No sei se elle_ (o marido) _vos acceitar, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crr que Maria Isabel, to mal considerada em Madrid, no querer apparecer aos admiradores de seu marido_. --Decerto, no quero!...--dizia ella de si comsigo--Ainda que elle, por amor filha, me deixe ir, hade querer que eu me esconda para que me no vejam; e talvez que me mande embora depois de l ter a filha. Alm d'isso, se eu lhe disser que o rei me d o dinheiro para l viver, elle reprova que eu o acceite, e pergunta-me como foi que eu procurei e obtive este favor... Alvoroada por tantissimas idas incongruentes, sentou-se ao bofete para escrever tantas vezes quantas se levantou, depondo a penna, por no atinar com o expediente mais natural, ou, digamos antes, mais artificial da carta. N'esta conjunctura, appareceu a menina a recordar-lhe as impresses da vespera, a fazer-lhe repetir as palavras que o rei lhe dissera, a pedir explicaes dos dizeres que no percebra. Depois vieram as criadas sobresaltadas, e Maria Isabel contou-lhes sua anciosa curiosidade que a sua Angela era aafata, que o secretario de estado lhes dra senhoria, que el-rei tivera a menina sobre os joelhos, que a beijra muitas vezes; e de tudo pedia segredo s mas, por certos motivos, os quaes motivos as criadas, em conciliabulo de cosinha, explicavam to compridamente que no deixavam nada a desejar. Assim foi correndo o dia, at que, ao cahir da noite, se annunciou a um lacaio de Maria Isabel uma pessoa que sua senhoria esperava. O secretario particular do rei, annunciando-se incognito, a hora to impropria, comeava o acto mysterioso da sua interferencia; no obstante, a me da aafata, quando se lhe deu a noticia, disse com desenvoltura propria de fidalga, affeita a visitas de tal porte: --Hade ser o secretario de estado Antonio de Cavide. Momentos depois, o cortezo beijava os dedos da mulher de Domingos Leite, affagava a sr. Dona Angelasinha, a quem sua magestade enviava um beijo, e terminava por dizer que vinha receber a carta que havia de ir para Hespanha na manh do dia seguinte, conforme as ordens dadas por el-rei ao correio-mr. --manh!--disse Maria Isabel--J manh!... Mas eu ainda no escrevi...Como hade ser? --Ainda tem v. s. muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um escudeiro procurar a carta--remediou o secretario. --Jesus!--murmurou ella, com ademanes de afflicta. --Que tem a sr. D. Maria?--volveu Cavide. --No sei... no sei em que termos heide escrever a meu marido... --Comprehendo o seu embarao... que em verdade justificadissimo. Devo dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v. s., me no de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no segredo que mister haver, respeito merc que el-rei lhe faz, mal posso ligar a ida de v. s. para Hespanha sem que seu marido conhea a origem dos recursos, e at a real interveno na remessa da carta. O sr. D. Joo IV, meu amo, d'esta vez no conciliou a generosidade de seu real animo, com a circumspeco que lhe habitual. Quer-me parecer que v. s. deu todo pezo s consideraes que sua magestade lhe fez, e eu tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite, fugindo para Castella, deu ansa calumnia que denigre a reputao de sua mulher, parece, at certo ponto, que protestou diante do mundo no receber mais em sua companhia uma esposa, que l e c--malditas linguas!--passa por ter faltado honra conjugal. --Mentira!--interrompeu Maria Isabel assomada. --Mentira atroz--assentiu Cavide--Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os ministros em cuja alada corre a devassa; mas os praguentos querem que as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais farto o svo da maledicencia. A nossa questo no a calumnia; sabermos como v. s. hade affrontal-a, como seu marido hade desfazl-a, se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr. D. Maria, minha senhora, hade illibar-se perante o mundo. Aqui que bate o ponto. Por isso dizia eu agora que comprehendo os embaraos em que v. s. hade achar-se no modo de escrever a seu marido. --Tem v. s. raso.--confirmou Maria Isabel--Pensei n'isso tudo que me disse, e estive duas horas a comear cartas e a rasgal-as, porque tudo me parecia mo... no sei como heide sahir d'este aperto!... --Peo venia para lhe dar um conselho...--disse Antonio Cavide, erguendo-se, aproximando-se d'ella mais puridade, e abaixando o tom da voz. --Faz-me v. s. um grande beneficio, se me aconselhar. --Auctorise-me a sr. D. Maria a consultar el-rei, meu amo. Parece-me que nenhuma deliberao lhe cumpre tomar sem ouvir o parecer de sua magestade... --Nem eu me atrevo a pensar coisa alguma em contrario das ordens d'el-rei. --Mas--volveu o valido, depois de estar alguns minutos recolhido, passando por sobre os dentes a unha do pollegar como se corresse um teclado--Mas, se v. s. me promette segredo inviolavel com juramento... --Prometto...--balbuciou Maria Isabel, tremula de alvoroo, entre receosa e anciada de curiosidade, com os brilhantes olhos postos nos beios do secretario. --Promette-me nunca, em tempo algum, em quaesquer circumstancias de sua vida, revelar propriamente a el-rei o que lhe vou dizer? --Sim... prometto...--affirmou ella. Antonio de Cavide pegou da mo de Angela, e apontando-lhe um cofre de madre-perola que estava sobre um contador no extremo da sala, disse-lhe: --V a menina buscar aquella alfaia que desejo vel-a. E, emquanto a menina foi, inclinou os labios ao ouvido de Maria Isabel, e segredou-lhe: --El-rei quer-lhe como no quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu real amo que v. s. no v para Hespanha; e eu, que conheo quanto el-rei soffreria, se a sr. D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente que no v. A menina j estava ao p do secretario com o cofre, quando Maria Isabel, proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que Angela lhe disse assustada: --Que tem, minha mesinha, que est to amarella? E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa japoneza, resmuneava: --Que formoso lavor! que linda coisa!.. alfaia do tempo do sr. rei D. Manuel. C tem a esphera armilar! Bellissima joia!.. E, lanando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse com as figuras chinezas embutidas no cofre: --No cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia o maior contentamento que pode dar-se primeira fidalga da crte portugueza. Angela ouvia e no percebia as palavras, quando a me, abraando-se n'ella com estremecido affgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou talvez duas lagrimas que deviam ser--oh materialidade!--a cristalina seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado d'aquelle perdimento de vida. --Aqui tem, minha aafatasinha--ajuntou o secretario de estado, entregando o cofre a Angela--Esta caixa cheia de perolas e diamantes no valeria tanto como as duas lagrimas que sua mesinha tem nos olhos. E eu bem sei o corao em que ellas vo cahir e doer... Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mo, o cotovello no brao da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima que, derivando, se quedra tremula no canto dos labios. Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapo emplumado. Pegou d'elle, e sacudindo-o, maneira de leque, entre as mos, veiu ao p de Maria Isabel, que se havia levantado. --Recebo as determinaes da sr. D. Maria Isabel, minha senhora. Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o. --A carta?...--perguntou ella--Pois no me aconselhou que no escrevesse? --No ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a to smente a que me permittisse consultar el-rei meu amo; porm, depois do segredo que confiei sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois de assistir magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v. s. no queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei... --El-rei decerto no quer a minha desgraa...--balbuciou ella. --Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do co lhe invejassem... Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento. E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da cabea de Angela, figurou-se-lhe vr o rosto do marido, perdido por ella, e, quella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha. Ai! aquella me e esposa presentiu que havia de escorregar voragem das deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem flor do seu pgo de lama uma cora de rei! XIV Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite Pereira, desmentindo os informadores de D. Joo IV, vivia pouco menos de obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pae lhe enviava com grande resguardo e difficuldade. Idera elle que sua mulher, quer por compaixo, quer a rogos de Angela, lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dr filial quizera elle que lhe fosse desafogo s suas. Mentira o rei quando affirmra que Domingos Leite se pavoneava de desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o padre. Nunca elle articulou o nome da mulher, nem consentira de boa feio que lhe alludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava que no deslustrasse o nome de sua innocente filha, divulgando as affrontosas desventuras da me. Mostrava-se muito commiserada da tristesa e soledade de Domingos Leite, D. Vicencia Corra. Convidava-o miudas vezes a passar com ella, e acintemente reunia em sua casa os filhos da marqueza de Montalvo, o conde de Figueir, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos muitissimos portuguezes que juraram fidelidade a Filippe IV. A fidalguia rodeava-o de attenes, sem o desengolpharem da sua tristesa, nem, sequer, o moverem cortez condescendencia de negar a legitimidade de D. Joo IV. Roque reprovava-lhe a ingratido, a falta de tino politico, e o perigo em que elle se expunha de no ter amigos em Portugal nem em Castella. Respondia ento o desterrado que os recursos de seu pae tanto lhe davam um po negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo; e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fra de Portugal, toda a terra lhe era exilio. E accrescentava: --Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo contente em Madrid. --Contentissimo--confirmou o enteado do desembargador--Tenho cem escudos da junta dos portuguezes, cincoenta de meu padrasto, o nobilissimo Guedelha; serei brevemente nomeado criado do pao; e, quando Portugal voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas commendas do teu marquez de Gouva, ou d'outro quejando rebelde, ser minha! --Bem fallado!--disse, sorrindo, Domingos Leite--Eu, no teu logar, ia requerendo uma boa commenda em Hespanha, na incertesa do reviramento que desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam ha sete annos os hespanhoes contra a nossa milagrosa independencia. Pergunta-o aos melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquez de Castroforte, ao conde de Monterey, ao marquez de Mollingen, ao marquez de Torrecusa... --_Et ctera_...--atalhou Roque da Cunha--Espera-lhe pela volta. O duque est sem dinheiro e sem gente. Se no fosse o judeu Jeronymo Dias, no haveria flego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas lettras de cambio. Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. Joo IV necessitou comprar em Amsterdo petrechos de guerra, ninguem lhe quiz honrar a firma; por maneira que as lettras foram apregoadas na praa, para serem protestadas. N'esta conjunctura, o hebreu expulso, Jeronymo Dias da Costa, resgatou do opprobrio o nome do rei e talvez a honra da patria, pagando as lettras e abrindo os seus thesouros causa da independencia da nao, que lhe queimava os parentes. E to grandemente qualificou D. Joo IV este servio, que despachou Jeronymo Dias com a patente de seu ajudante, honra que o successor na cora confirmou em Alexandre e Alvaro Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. Joo V no consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, _como se seu pae e avs fossem christos_, diz com ironica elegancia D. Luiz da Cunha.[6] Domingos Leite no redarguia triumphantemente aos argumentos de Roque, seno recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hypotheses. Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas esquivava-se a disputaes. Em horas de desalento, a s no seu retiro, escrevia cartas ao marquez de Gouva, todas alheias da guerra travada entre as duas naes no mais alto ponto de encarniamento. Eram lastimas de pae, por onde se transluzia a esperana de apiedar com ellas D. Joo IV. Taes cartas ou no chegaram ao conhecimento do mordomo-mr, ou o estadista meticuloso as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei. O marquez espiava os passos surdos de Antonio Cavide, e usava traas de lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem lardeado de taas. Se o fidalgo farejra um segredo, cuja revelao iria angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova de amisade seria tl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua deshonra, e o derradeiro golpe lhe no fosse vibrado por mo de um amigo. Em frustradas esperanas de perdo ou sequer de resposta, s suas cartas, passaram tres acerbos mezes na vida erma e desconfortada do pae de Angela. Em comeo do mez de abril de 1647, appareceu em Madrid um portuguez, foragido ao santo officio; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o para lhe offerecer quinho da sua abundancia. Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o christo-novo,--e ento orava por vinte e cinco annos--conhecia de vista Maria Isabel; e, como residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua me. Consolao immensa para o saudoso pae ir ali um enviado da Providencia fallar-lhe de sua filha, da sua bellesa, dos anneis dos seus cabellos, da cr dos seus mantos, da graa do seu andar, e at da pallidez das facesinhas, onde parece que as lagrimas haviam arado o frescor da puericia! Domingos Leite chorou nos braos d'este quasi desconhecido que de sobresalto lhe senhorera o corao. E Francisco Mendes, captivo da expanso de Domingos Leite, animou-o a ir secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistencia de ambos, a no querer Domingos Leite acompanhal-o para Hollanda. Alem d'isso, deu-lhe duas chaves de dois predios em Lisboa, dizendo-lhe: --Tem vm.ce esta chave que da minha casa na rua dos Vinagreiros, e est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias.[7] Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, v esconder-se na outra: isto no caso de que o santo-officio as no haja sequestrado; mas presumo que no, por que eu, apenas soube que um meu parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de S. Loureno, que um honrado christo velho, desde que o hebreu Lafeta conquistou foros de christo mais velho que o proprio Christo. (_Nota 21._) O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu amigo, despenhava-o da esperana na ultima paragem da perdio. Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio. --O diabo arma-as!--contraveio Roque--No vs, doido! Tu no sabes onde te vaes metter... Olha que em Lisboa j se sabe que s cavalleiro de Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV so teus amigos. --Mal os conheo... --Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdio te chama a Portugal. --O que Deus quizer. No me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me prenderem, se me matarem, -me indifferente acabar de um golpe ou agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peo. --Que v comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o exigiu; deixar-me agora matar, porque s um fraco, um piegas, que no pde viver sem a filha, isso que no assigno. --Espera, homem, que eu ainda te no disse o que pretendia--replicou bem humorado Domingos Leite. --Dize l, ento. --Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen, governador das armas em Badajoz, me d passo franco para Portugal. --Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres? --No. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christo-novo. --E despresas os soccorros dos christos-velhos! Ora queira Deus que o tal judeu te no leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama elle? --Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella. --E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha? --E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra, revelei-t'os; os da consciencia alheia no devo, nem posso. --Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena? --No. O juro das esmolas recebe-se no ceu. --A pagal-os l, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu a juro de 200 por cento ao mez!--volveu cascalhando Roque, e accrescentou:--Quando partes? --Logo que me obtenhas a ordem para o general. --Vou tratar d'isso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas? --Por emquanto, nenhum. --Raptas a pequena, e foges? --No: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a. --Se o conseguires, sers feliz; mas duvido que a me te d a pequena. Se tua mulher quizer acompanhar-te, vem? --No. --Bom ser isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a morte do padre, to infamada est ella em Portugal como em Hespanha. --Sei o que devo minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces no hade aquecer a dos meus amigos. -- o que todos desejamos. Vou em teu servio. O mais tardar manh, ters a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro. XV Na noite de 10 de abril de 1647, por volta das onze horas, chegou Domingos Leite aos arrabaldes de Lisboa, os quaes, do lado da Senhora da Graa, eram povoados de quintas, cujas casas, debruadas pelos outeiros da serra de Almofala, o luar froixo d'aquella noite amarellecia tristemente. Ahi descavalgou Domingos Leite, despediu o arrieiro que o conduzira desde Moira, e esperou o repontar da manh, hora em que as trinta e oito portas de Lisboa se franqueavam. Com a gualteira do ferragoulo encapuzada, entrou de involta nas rcovas das vitualhas, e desceu, estugando o passo, pela ingreme calada da senhora da Graa, metteu por beccos ainda desertos, e parou na rua dos Vinagreiros. Abriu a porta, depois de examinar a numerao da casa, e fechou-se por dentro, com a certeza de que ninguem o vira. Subiu tateando no escuro das escadas at ao quinto andar, que sobranceava os telhados visinhos; abriu as janellas, respirou com offegante prazer o ar do Tejo, que, quella hora matinal, emquanto as adufas no resfolegavam a peste interior das casas, era saudavelmente respiravel. Entre as setenta e duas torres de Igrejas procurou a de S. Thom, porque d'ali perto estava a Portaria do Salvador, e nesse sitio lampejava aos primeiros raios do sol um zimborio que era o da caza onde quella hora devia estar dormindo a sua Angela. A manh era d'abril, o ceo azul, o Tejo formoso; n'aquelle ar da patria resoavam-lhe os cantares que s percebem almas volvidas do desterro. Estes jubilos eram-lhe revesados de tristezas amarissimas, ao lembrar-se que a to donairosa e poetica Lisboa lhe seria apenas uma paragem de horas com perigo da sua liberdade; porm, o anhelante desejo de ver a filha, o evadir-se com ella, e a solido do proscripto dulcificada pela convivencia da creana, davam-lhe alento e alternativas de exultao. Previra Domingos Leite que na casa de Francisco Mendes Nobre, com toda a certeza, no moravam fadas lareiras que lhe cosinhassem o jantar. Esta racional hypothese, no vulgar nos personagens das novellas, preveniu-o fora de portas, indusindo-o a comprar dois pes saloios, com que substituiu frugal e alegremente os dois repastos do dia. E, como as suas horas eram muitas e vagarosas, examinou os repartimentos da casa do seu recente amigo e bemfeitor, maravilhando-se da belleza dos adornos, do aroma feminil que recendia das alfaias, e disposio graciosa dos objectos, posto que se estivesse em tudo revelando um abandono subito e desordenado. Deprehendra Domingos Leite que d'aquelle recinto fugira ao mesmo tempo a timida amante do christo novo, e essa devia ser a formosa mulher que elle, um momento, vira em Madrid, quando se despedira de Francisco Mendes. Assim que escureceu, e antes que o luar apontasse, Domingos Leite sahiu. As noites da Lisboa d'aquelle tempo eram apenas alumiadas pelas lampadas dos oratorios vazados entre as adufas. Os quadrilheiros rondavam em magotes, receosos dos turbulentos fidalgos cujas delicias eram investir com elles e soval-os, se os pilhavam repartidos. Facil, por tanto, foi a Domingos Leite entrever de longe os vultos suspeitos, e furtar-se a seguro, por bccos conhecidos, at se avisinhar da Portaria do Salvador. Quando alli chegou, todas as janellas e portas de sua caza estavam fechadas. Nos trez andares, e ao travez das trinta janellas, no translusia claridade de luz; mas, por entre os resquicios de um fresto, ao rez da rua, no quarto dos criados, viu Domingos Leite que havia luz, e a espaos ouviu o ruido de passos. Temendo que os criados j fossem outros, hesitou em dar signal; mas, porque a noite se adiantasse, e o medo de ser conhecido pelos transeuntes o obrigasse a fugir por vzes da visinhagem da casa, resolveu bater no postigo e proferir o nome do escudeiro, que o servia desde que elle entrra no pao da duqueza de Mantua, na qualidade de mo da capella. --Bernardo!--murmurou Domingos Leite tocando subtilmente no postigo. --Quem est ahi?--acudiu alvorotado o velho escudeiro, afigurando-se-lhe a vz do amo. --Eu: no me conheces? Abre depressa: mas no faas rumor--disse elle collando os labios ao fresto. O criado abriu o postigo, reconheceu o amo e exclamou: --Nossa Senhora da Graa! vossa merc, sr. Domingos Leite?! --Sou... abre-me a porta; mas que no se oua l em cima. --Aqui estou eu sosinho e mais ninguem--murmurou Bernardo. --O que? e minha filha? e... tua ama?--exclamou Domingos Leite conturbado. --Eu vou abrir, eu vou abrir. Recolhido ao quarto do escudeiro, que o abraava pelos joelhos, perguntou: --Onde est minha mulher? --Hade haver quinze dias que sahiu de caza. --Para onde? --No sei dizer a vossa merc. --Como no sabes?! iria para Hespanha? --No, senhor. Est em Lisboa; mas no sei onde est. Tudo que havia em casa, ficou como estava. A senhora levou to somente dois bahs com vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos tres; e fiquei eu s para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que creou a menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mez, e disse-me que, no mez que vem, c mandaria entregar-me egual mezada que me deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora m'o diria para que eu podesse saber d'ella e da minha ama pequena, que tantas vezes chorou aqui n'este quarto por vossa merc... --Viste-a sahir de casa?--atalhou Domingos Leite. --No, meu senhor. Sahiram to de madrugada que eu apenas dei tento da sahida ouvindo o tropel dos machos da liteira. --Da liteira da casa? --No, senhor. Logo que vossa merc sahiu de Lisboa, d'ali a dias, minha ama mandou-me vender os machos, o cavallo, a liteira, a cadeirinha, e tudo mais. --Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei?--perguntou mais tranquillo Domingos Leite, abraando, contra a opinio do criado, a hypothese do convento. --Apenas aqui entrou trez vezes... --Quem? --O sr. Antonio de Cavide... --Oh!--exclamou o marido de Maria Isabel, arregaando as palpebras, como se os olhos tumidos de terror ou ira no coubessem nas orbitas--Que dizes tu? Antonio Cavide? o secretario d'el-rei? conhecel-o bem? --Se conheo, senhor!... e mais eu nunca o vi aqui entrar seno ao fim da tarde, entre lusco-fusco... --Dize-me o que sabes...--clamou desabridamente Domingos Leite, batendo no hombro ao amedrontado escudeiro. --No sei mais nada, meu amo... Ah!.. outra coisa... depois que o Cavide aqui veio, as criadas disseram-me que a menina era aafata do pao... --O que? aafata!?. --Sim, meu senhor, e por signal todos comeamos a tratar a menina por _senhoria_ e _dom_, porque a me assim o ordenara s criadas... --Que mais, Bernardo, que mais?--soluava em violento arquejar Domingos Leite, com os pulsos fincados nas fontes e os olhos espavoridos na cara atribulada do criado. --Nada mais sei. Quedou-se alguns minutos em silencioso anceio; e de subito disse ao criado: --Que ninguem saiba que estou em Lisboa... -- meu amo!--volveu Bernardo--permitta Deus que a morte me colha, se alguem o souber de mim... --Fecha as portas, que eu vou sahir; mas no durmas, que eu talvez tenha de voltar aqui esta noute. Vai ao meu quarto, e... --No tenho as chaves do quarto de vossa merc. --Arromba a porta e traze de l os meus pistoletes para aqui; se eu voltar esta noite, dar-m'os-hs pelo postigo, logo que eu te der signal, e te chamar. --Onde vai o meu amo!... pelas chagas de Christo, pense no que vai fazer...--rogou o velho de mos erguidas. Domingos Leite encarou-o de ruim aspecto, e interrogou: --Que cuidas tu que eu vou fazer?! Ento sabes onde est essa mulher? Dize, Bernardo! Ordeno-te que m'o digas!.. --O Senhor dos Paos da Graa me tolha esta lingua se eu sei onde est minha ama. Domingos Leite sahiu em direitura ao _Bairro da Marinha_, que assim chamavam parte da cidade convisinha do Tejo. Ahi, contiguo ao convento dos _hybernios_ ou dominicanos irlandezes, era o palacio do marquez de Gouva, somente habitado durante o inverno. Soavam onze horas no relogio do pao da Ribeira, quando Domingos Leite aldravava no porto do mordomo-mr, com o desassombro do seu tempo de secretario. Fallou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquez estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe fallar, dando-se a conhecer ao pavido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo. Ergueu-se o marquez sobresaltado, e foi receber Domingos Leite, ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda d'aquelle infeliz a Lisboa. --Vossemec aqui?!--exclamou o mordomo-mr. -- verdade--respondeu Domingos Leite com semblante em apparencia socegado--venho perguntar a V. Ex. se me sabe dizer onde est Maria Isabel. O marquez olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte entre os dedos entrelaados, deu um gemido de sincera magua, e murmurou: --Fuja, desgraado; saia de Lisboa... A que veio aqui? --Buscar minha filha. No disse eu tantas vezes em minhas cartas a V. Ex. que morria de saudades d'ella? Venho buscal-a; mas, no a achando nem a me na casa onde ficram, pergunto a V. Ex. onde esto. Apoz longo silencio do interrogado e rapida mutao no aspecto de Domingos Leite, o marquez, dados alguns passeios na sala, perguntou: --Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite? -- minha filha unicamente que eu quero levar. --Vou esforar-me pelo conseguimento d'esse desejo. --Beijo as mos de V. Ex.; mas devo ignorar onde ella est? --Poderia sabl-o, se tivesse pela me todo o desprezo que ella merece. --Prostituiu-se? Bem v V. Ex. que eu lhe fao esta pergunta com a maior serenidade. No v? --Desconfio que no. --Creia, sr. marquez; se eu tirar a minha filha do abysmo em que est Maria Isabel, visto-me de gala... Mas como foi este rapido despenho da malfadada, por quem eu me perdi? --Jure-me que hade ser homem de bem! --Juro a V. Ex. que heide ser homem de bem at o provar no patibulo, onde os malfeitores ouvem o prego da sua infamia. --Que est ahi a imaginar patibulos! Os homens de bem no vo aos patibulos. --Isto foi um modo figurado de fallar. Deus hade permittir que eu no expie na forca as devassides da barregan de... De quem? ainda V. Ex. me no disse de quem... --De D. Joo IV--respondeu serenamente o fidalgo. --Veja, sr. marquez, que esse augusto nome no me colheu de assalto. Eu tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antonio de Cavide frequentava a casa da mulher perdida. Nos beios de Domingos Leite crispava o que quer que fosse analogo a um sorriso, como se as dres lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem os musculos labiaes. O marquez contemplava-o. E elle, sem poder exprimir-se, exercitava com as mos e cabea uns gestos significativos de torvao. --Sr. Leite...--disse o mordomo-mr, tocando-lhe affavelmente na mo esquerda com que elle comprimia o corao. --Sr. marquez...--respondeu muito abatido Domingos Leite. --Fora e alma! --Sinto que tenho ambas as cousas... e demais! Antes Deus me fizesse mais fraco. Passados momentos, proseguiu: --Parece incrivel, mas atrozmente verdade, que eu peo e desejo que V. Ex. me conte como ella se perdeu... No foi por necessidade, que eu tudo que ella tinha lhe deixei. No foi por paixo, por que o rei no tem as graas fulminantes que prostrem n'um estrado ou n'um leito real a mulher de alguma honestidade. Ento que foi? um longo trabalho de seduco? uma cadeia de perfidias que deram de si a posse pela violencia imprevista? No pode ser. Ha trez mezes que eu sahi do reino, e ha quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto ento, sr. marquez? Faa de conta que refere a historia a um estranho, que afinal se hade rir do marido, e achar que o rei no tinha obrigao de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira... Domingos Leite, n'este ponto do seu lento e sinistro discorrer, desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do fidalgo; e logo abruptamente continuou com a maxima gravidade: --Mas quem diz aos reis que elles so mais invulneraveis que os padres? --Falle baixo!--acudiu o marquez chegando-lhe a mo tremente at aos beios--Sr. Leite, olhe que ha muita gente n'esta casa... Peo-lhe que me no exponha, e peo-lhe que se no precipite irremediavelmente... --Eu fallarei baixinho, sr. marquez--replicou Domingos Leite, quasi em segredo--Perdoe-me V. Ex. estas exploses; so relampagos sem raio. Eu no fao mal a ninguem. Sou um proscripto... um proscripto da laia de Joo Loureno da Cunha, que l em Castella usava pontas de ouro. Ora eu, que sou pobre, heide usal-as... da sua natural materia... E riu rispidamente, esfregando com phrenesi as mos nos joelhos, com umas figuraes de louco. --Valha-me o ceo!--tornou o marquez de Gouva--Cuidei que o infortunio de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que a verdadeira dignidade de um marido... --Qual ? o despejo? --No: o desprezo. --E por ventura que sinto eu seno o desprezo por ella? Mas a mim que eu no posso desprezar-me tambem, sr. mordomo-mr! De uns homens, como o conde D. Gregorio Castello Branco, sei eu que no s no desprezam mas at acatam suas mulheres, se D. Joo IV houve por bem diffamar-lh'as. No sei se esta tolerancia cortezia apprendida na frequencia da crte. Eu... bem sabe V. Ex. que sou da arraia miuda, e creio ainda que me seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei nosso senhor...--E ria-se! --Meu amigo--redarguiu tanto ou quanto impacientado o mordomo-mr--desculpo-lhe o desabafo das ironias, e at lhe desculparia as mais aceradas injurias a quem quer que fosse; mas no assim que o seu destino hade melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e remediemos o que poder ser. --Diga V. Ex., meu nobre amigo. --Sua mulher, querendo ir para Castella unir-se a seu marido com sua filha... --Ella!.. ella unir-se a mim? --Ou subjeitar-se ao despreso, com tanto que podesse aliviar-lhe a desgraa levando-lhe a menina, sua mulher, repito, quiz vender os bens; mas a justia impediu-lh'o. Consultou-me sobre solicitar d'elrei a licena; eu desapprovei-lhe semelhante recurso; ella menospresou o meu conselho, e fallou ao rei. Mal sei o que passou entre ambos. O que facil me foi saber de pessoa competente foi que el-rei, por intermeio de Antonio Cavide, hoje o que o sr. Leite sabe. Agora que de fugida lhe disse o que me affligiu grandemente referir-lhe, vamos ao ponto, vamos satisfazer o motivo que o trouxe a Portugal. Quer sua filha? --Sim, sr. marquez. --E, obtida ella, retira-se sem estrondo, sem escandalo? --Immediatamente. --Pois ento v o sr. Domingos Leite para sua casa, e manh d-me ponto onde eu o encontre s dez da noute. No venha aqui. Onde se alojou? --Na caza deshabitada de um amigo. --Aonde? --Na rua dos Vinagreiros. Seria difficil a V. Ex. achar de noute o numero da porta. --Espere... s nove em ponto o meu coche hade estar nas teracenas. Vossemec vai aforrado, entra, e l me encontra. Ento lhe darei noticia das minhas diligencias de manh. Entretanto, se eu antes d'essa hora tiver preciso de lhe dar aviso, como hade ser? --Em casa de Maria Isabel est um criado a quem V. Ex. pode mandar qualquer aviso, que elle ir communicar-m'o. --Tranquillize-se, sr. Leite, seja homem; sem isso no pode lograr a satisfao de ser pae extremoso. Domingos Leite curvou-se at beijar a mo do marquez, e sahiu. XVI Esperava-o Bernardo com o ouvido collado ao postigo. Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensivel mudana no rosto. Palavra, que denunciasse as revelaes do marquez, no proferiu alguma. Bernardo perguntou-lhe a mdo se descobrira a paragem da senhora. Respondeu que no: disse verdade. Conversaram cerca de Angela. O pai perguntava coisas to insignificantes que parecia futilissimo, se no fosse desgraado em extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a menina aafata. Transtornaram-se as feies do amo. Ouviu-lhe o escudeiro um ringir de dentes asperrimo, e um como rugido estrangulado nos gorgomillos. s duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse: --Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas. -- meu amo!--exclamou Bernardo--vossa merc falla serio ao seu velho criado?! --A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas d'ella . Tu vendes-me parte do que teu. --No o intendo, senhor. --Deixa-me encostar a cabea, que ha quatro noutes que no durmo e hei medo de insandecer. Antes de romper a manh, acorda-me. Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em lethargia de febre, sonhava alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrophes em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expresses indecentes e epithetos que entram sem rebuo nos alcouces. De mistura, estallavam ameaas de sangue, e a palavra _rei_ soava bem distincta por entre as objurgatorias que a precipitao tornava inintelligiveis. O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar inferencias da vida real, compoz com as phrases soltas que ouviu a desgraada situao de seu amo. Chorou ento copiosamente ajoelhado beira do catre. hora em que devia chamal-o, o amo adormecera serenamente e a febre remittira. Bernardo pediu conselho ao seu retbulo do Senhor dos Passos, sobre deixal-o descanar ou espertal-o d'aquelle to curto dormir. Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz restaurar foras para succumbir depois de muitas e acerbas batalhas. Era j nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo, entre receios e lagrimas, disse-lhe que o no chamara, porque hora aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente. --Mas porque choras tu?--perguntou Domingos Leite. --Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor! E abraou-se n'elle, abafando-lhe os gritos no seio. O infeliz deixava-se abraar, e murmurava: -- verdade, Bernardo!... quem me viu!... O que era eu ha sete annos! To festejado, to alegre, to rico, to esperanado... E agora!... sabes tu l quanto eu sou digno de compaixo!... No tinha o ceo beneficio maior a dar-lhe que o d'aquella torrente de lagrimas... --Como heide eu sahir d'aqui a tal hora?--disse elle ao criado. --Se no tivesse grande preciso de sahir, que mal estaria aqui vossa merc?--e proseguiu com risonho modo--Se ficar, paga-me o alimento e a dormida... --Ficarei--conveio Domingos Leite--Olha, Bernardo se eu podesse ver a cama de minha filha... o bero, aquelle bero em que ella s vezes dormia no meu quarto... --L est ainda debaixo do leito de vossa merc. Nunca mais entrou alguem na sua alcva. A menina muitas vezes pediu me que a deixasse l entrar; mas a senhora--isto vi eu!--indo uma vez a entrar, para fazer a vontade filhinha, assim que deu com os olhos nas coisas como vossa merc as deixou, rompeu em tal choro que sahiu d'ali quasi nos meus braos. Domingos Leite interrompeu-o asperamente. --Cala-te, homem... O nome d'essa mulher nunca mais o pronuncies na minha presena, se me estimas! Pareceram rapidas as horas d'aquelle dia a Domingos Leite. Encerrou-se no seu quarto, lendo e rasgando papeis tirados dos seus contadores, memorias da sua mocidade, extractos das suas leituras, escriptos politicos com que seu talento ganhara a estima do marquez de Gouva, bilhetes de Joo Pinto Ribeiro e do desembargador Joo Sanches de Baena, de incumbencia ou de agradecimento de servios prestados arriscadamente ao duque de Bragana. A espaos, o escudeiro encontrava-o com a face debruada sobre os braos, amparando-se no bofete. Quedava-se o velho soffreando a respirao para o ouvir dormr; e s vezes confundia os soluos com o alto respirar d'um somno irrequieto. Outras vezes achava-o curvado sobre o espaldar do bero, com os olhos marejados a embevecerem-se na almofada, em quanto o leitosinho se balouava movido pela mo. Neste lance temia o velho que seu amo enlouquecesse, parecendo-lhe muito mulherengo aquelle acto de estar um homem acalentando um bero vasio. Ahi pelo meio da tarde, o guarda-porto do marquez de Gouva procurou o escudeiro de Domingos Leite, e, com muito resguardo, o encarregou de levar um papel lacrado a seu amo. Bernardo fra prevenido desta mensagem. Acceitou carta, sem dizer ao portador que seu amo estava ali. O contheudo era a prorogao do encontro para a noite do seguinte dia, visto que nada podia resolver sem mais algumas horas de actividade. O mordomo-mr no tinha descanado. Vamos no encalo d'este leal amigo de Domingos Leite Pereira. A hora desacostumada na manh d'aquelle dia fra em seu coche acordar o secretario d'estado Antonio de Cavide. Relatou-lhe, to ingenuo quanto imprudente, a vinda clandestina do marido de Maria Isabel, de proposito para levar a filha comsigo a Madrid, e continuou: --Tem V. S.[8] occasio de fazer grande servio a el-rei, sua amante, filha de Domingos Leite, a este desgraado homem e a mim. Tantos favores a tantas pessoas em pouco esforo esto. Consiga V. S. que Maria Isabel me entregue a menina que eu lhe prometto sahir Domingos Leite de Portugal na mesma hora em que eu lh'a restituir. Por este modo, evitamos que o marido exasperado publique o destino da mulher; evitamos dissabores a el-rei; evitamos grandes pesares e talvez remorsos a essa mulher, finalmente resgatamos a menina de uma situao pouco exemplar. --Diz V. Ex. optimamente--obtemperou Antonio Cavide--Vou vestir-me, e saio em direitura para Alcantara a procurar Maria Isabel. No sei se poderei vel-a, porque el-rei est hoje a caar na tapada do palacio, e a sua _Diana_ deu agora em querer segurar a trla dos falces--ajuntou o velhaco sorrindo--No entanto, aguardarei __ o ensejo de me ver a s com ella. V. Ex. conhece o genio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerario Domingos Leite, affrontando a justia, ousou metter-se em Lisboa, temos na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do pobre homem, que ser aperreado depois do que ns sabemos... Aqui arregaou o secretario outro riso infame e prosseguiu: --O melhor ser que ella diga a el-rei que de seu moto proprio envia a pequena ao pai. El-rei no lh'o impede, porque a presena da creana o estorva; e as coisas feitas assim ficam excellentemente feitas. --Muito bem--concordou contentissimo o mordomo-mr--A que horas calcula V. S. poder responder-me? --s duas da tarde devo estar de volta de Alcantara. O Domingos Leite est hospede de V. Ex.? --No, sr--respondeu ingenuamente o marquez--disse-me que se recolhera rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com elle noite, ou avisal-o hoje de qualquer nova. --Pois eu vou satisfazer a V. Ex.; entretanto, esse infeliz que tenha cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim que, precisando de um fino espio em Madrid, o patife mais ajustado ao intento era o tal Roque da Cunha; e sua magestade, que conhece os mais egregios malandrins de Portugal e conquistas, approva o alvitre. Domingos Leite que se precate... Isto revllo eu muito puridade a V. Ex. por saber quanto esse desafortunado homem lhe agradavel, e os bons servios que elle fez na restaurao, escrevendo e fallando nas juntas do padre Nicolau da Maya. Retirou-se o marquez muito agradecido e esperanado no bom exito da sua discreta ideia. Antonio Cavide foi sem detena a Alcantara, apeou porta do palacio real, e soube que elrei estava almoando. Perguntou se sua magestade era sosinho; e, como lhe respondessem affirmativamente, deixou o cche, e foi a p em demanda de um palacete contiguo ao mosteiro das religiosas do Calvario. Residia ahi Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A visinhana no a presumia theuda do monarcha. O fausto do viver justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a desgraa do ex-escrivo do civel, seu marido, fra causa d'aquella retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de mosteiro to rigoroso era j indicio de profunda piedade a que se acolhiam enormes desgostos. Isto resava a opinio publica que resa sempre bem. D. Joo IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do extremo da tapada. s vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua magestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o real caador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte pendida ao seio da sua _Diana_, como dizia o secretario, ouvia os gorgeios dos rouxinoes emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinio publica no dizia isto: era Antonio Cavide, e mais algum fidalgo da intima confiana do rei, que o segredavam entre si. Annunciou-se o ministro a Maria Isabel. Sahiu a recebl-o a aafatasinha, e d'ahi a pouco a me com semblante de quem se espantava e assustava da visita. Expoz Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o marquez. Interrompera-o ella com exclamaes, com esterismos, j corando, j empalidecendo; quando, porm, o expositor chegou ao ponto essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou inflexivelmente que no dava sua filha, e que ninguem lh'a arrancaria dos braos. Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos olhos da sua amante. Pediu perdo de a ter aconselhado, beijou-lhe mesureiramente a mo, e ergueu-se para sahir. Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojra na casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite na rua dos Vinagreiros. Antes de duas horas da tarde, o marquez sabia que as diligencias do secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperanar Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo ir pessoalmente fallar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o vaticinio das funestas consequencias da sua recusao. Quando s quatro horas da tarde a procurou, a dama era fra de casa, posto que a sua aia dissesse estar de cama com subito incommodo. Maria Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de honestidade, entrou no atrio do palacio com Angela pela mo, e foi conduzida reverentemente s salas. D. Joo IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi receber a gentil combora ainda mal enchuta das lagrimas. Referiu ella com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quasi deitada nos braos do rei, o que passra com Antonio Cavide, e concluiu mostrando-se receosa e at certissima de que Domingos Leite, no lhe tirando a filha, seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror. Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antonio Cavide. Apartou-se com elle, e deu-lhe ordens rapidas. Ao cahir da noute, o secretario d'estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquez, por palpite de maior desgraa, sabendo que o valido fra chamado a Alcantara, o estava esperando no seu palacio. Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se d'elle, e disse-lhe ao ouvido: --No ha tempo a perder. V. Ex. saiba corresponder a esta confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens d'el-rei. O amor o diabo, sr. marquez, o amor o diabo! Estas Dalilas tosquiam o nosso Sanso, e queira Deus que o templo se no ala sobre elle e sobre ns... --Biltre!--disse de si comsigo o marquez. Era noute cerrada. O mordomo-mr s confiou de si o melindroso aviso. Disfarou-se com a maior precauo, e foi porta do Salvador. Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que j ali tinha mandado recado a seu amo. Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vz do marquez. Subiram para o primeiro sobrado. A terrivel noticia revelava-se no aspecto do consternado fidalgo. Domingos comprehendeu-o. --Nada feito, sr. marquez? --Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide fallou a Maria Isabel na entrega da filha. Foi repellido. Quiz eu experimentar a condio d'essa mulher. Procurei-a; mas no estava em caza. Devia estar com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser encarregado da sua prizo. --Ainda bem!--exclamou Domingos Leite--Quero ser prezo! --No diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amisade! Quer ser preso! para que? --Direi entre ferros quem o rei de Portugal! --No dir nada entre ferros, porque ha mordaas. De sobra sabia Francisco de Lucena quem era D. Joo IV, e nada disse, morrendo innocentissimo, e D. Joo IV de sobra sabia que Lucena morria innocente... e deixou-o morrer. (_Nota 22._) No me conteste nem resista, que perde o unico amigo que tem no reino. Fuja sem demora. V para Madrid, se no prefere antes ir para Frana. Eu, fora de idear traas de lhe restituir sua filha, heide conseguil-o cedo ou tarde. Espero commover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pae... --De modo nenhum!--obstou Domingos Leite com azedume--Peo-lhe que me no avilte, sr. marquez! Deixe-me morrer com dignidade! No quero a misericordia do tyranno, do adultero, do devasso, que eu por entre punhaes de castelhanos e de portuguezes acclamei em Evora. No quero d'esse homem seno um saldo de contas que se ho de liquidar... --_Sio!_--atalhou o marquez, tapando-lhe a bcca, e sopesando os cabellos que se lhe irriavam de terror na fronte gelada.--Cale-se, mentecapto!... cale-se! que, seno, eu maldigo a hora em que vim aqui!.. --Perdo, meu nobre amigo!--volveu Domingos Leite--Se v. ex. se arrepende de vir aqui, repso me sinto eu tambem de o haver procurado. Entretanto, como v. ex. se me figura traspassado de um certo horror de cumplicidade nos meus propositos de vingana, o meu dever preserval-o de susto, retirando-me manh para Castella. --manh no, hoje, urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da manh, esta casa pde ser rodeada de quadrilheiros. --Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sahirei d'ella ao romper do dia. --Vae para a rua dos Vinagreiros? --No, senhor marquez... E, quando fosse, quem denunciou o meu esconderijo da rua dos Vinagreiros?! --Fui eu por imperdoavel imprudencia a Antonio de Cavide. Cuidei que o tinha compadecido, e hoje receio que elle dirija para l e para aqui ao mesmo tempo os aguasis. --V v. ex. descanado que no heide ser encontrado aqui nem l. --Meu amigo do corao!--clamou o mordomo-mr abraando-o--Adeus! adeus! fie de mim o seu futuro, o seu perdo, e a entrega da sua querida filha! XVII Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justia dos corregedores de dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braos, confessou que Domingos Leite, s duas horas da noite passada, se havia refugiado em uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e no encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manh, havia dado tento de estropear de cavallo, depois que a porta da rua se fechra. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da crte, alvitrou que Domingos Leite devia ter partido para Guimares, sua terra natal. Incontinenti se despediram postilhes para o Minho. Fr. Francisco Brando o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que nos relata estes passos: ..._Tres vezes veio o ro sobredicto_ (Domingos Leite) _a este reino, ainda que da primeira no consta que fosse com o mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasio primeira, e foi tal a desgraa sua que com apertadas dilligencias em Lisboa e Guimaraens se no pde descobrir nem aprisionar; que a ser assi veresimil que desculpra as persumpoens do passado e no incorrra etc._[9] Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. Joo IV prevenia Antonio Cavide que era foroso, logo que Domingos Leite estivesse em ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declaraes escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher, lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive assacado pessoa sacratissima do rei e innocencia da esposa. Baldaram-se as prevenes. Duas semanas passadas, a espionagem de Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabel recobrou-se dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effuses sanguinarias, o marquez estudava traas de apiedar o rei, e o rei, com grande magua da ciosa Luisa de Gusmo, raras horas passava fra da tapada de Alcantara. No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma ida de vingana, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz atrocissima. Confidenciou o seu pensamento de matar D. Joo IV, ao hebreu Francisco Mendes. Este discreto moo oppugnou-lhe o desvairado intento com argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e l pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingana do remorso nas consciencias do rei e da collareja real. Rebelde raso e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para Amsterdo, quando o medo da inquisio de Hespanha o forou. Era immensa a tristeza do christo-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe seguissem. Roque da Cunha no podia ser estranho desventura do seu amigo, j por que Domingos lh'a referira, j porque os faccionarios de Filippe IV em Portugal a transmittiram para l com o intento de aviltar o monarcha, violador adultero da honra dos seus mais serviaes acclamadores. Roque era o portador das lastimas de sua me e dos fidalgos ao desgraado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir ameaas de morte a D. Joo IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou: --Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas vezes eu tenho dito c muito commigo: Se Maria Isabel fosse minha mulher, o duque de Bragana, que me deshonrou, havia de morrer tres vezes s minhas mos, visto que o padre Luiz morreu uma, no me tendo feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo de vingana te no houvesse passado ardente pela alma como um raio da justia divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmo do marquez de Porto Seguro, me disse: E que faz esse brioso Domingos Leite que no espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os servios, tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do bcco da Madraga! Que faz esse homem de honrados figados que matou um padre, pela innocente raso de ter amado uma mulher primeiro do que elle! E esta, meu querido amigo, a linguagem de Diogo Soares, do conde de Figueir, de Francisco Leito, e at... queres que te diga tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes, quando tal soube, disse: bem feito que o mateiro de Villa Viosa faa os seus vassallos veados, j que alguns d'elles entenderam que o melhor rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. bem feito que Domingos Leite receba alvar de Cornelio _tacito_ para dignamente escrever os Fastos do seu real amo!... Aqui tens ouro fio o pezo que est fazendo na opinio de Castella o teu infortunio. Ora imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu no direi manh a D. Luiz de Alencastre: Pode v. ex. dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma! --Melhor que no digas nada,--observou glacialmente Domingos Leite--Eu tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. Joo IV, no me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presena dos verdugos... --Dos verdugos!--acudiu Roque--Se te expozesses ao alcance da corda ou do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingana com gloria e reputao de sensato, mister que o homem morra, e que tu fiques a ouvir-lhe gargantear o _de profundis_. Alem de que, se a tua heroica ida fermentar, eu heide ser ouvido, e scio da aventura... --No quero cumplices--disse Domingos Leite. --Nem amigos? Dize isso aos outros: no o digas a Roque da Cunha, ro de homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que Deus conserve _porta inferi_, esperando a alma de cantaro de D. Joo de Bragana. Amigo,--proseguiu, abraando-o, e recuando o peito para lhe vr de fito o rosto--Se queres s para ti a gloria de matar o amante de tua mulher, justo que a tenhas; no serei eu que a dispute coragem e ao pundonor da tua justia; porem, quando essa conjunctura venha a realisar-se, Roque da Cunha hade estar tua beira; por modo, que se a desaventura te fizer cambap, ambos ns tombemos ao mesmo abysmo. Quem te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe. --Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittido escolher? A morte; o adormecer, e no acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha execravel situao. --Temos seso de fraquesa? V l! Os lees tambem tremem suas maleitas. No me assusta esse desalento... manh, quando eu aqui voltar tua charneca, heide achar essa alma remoada, e o plano feito. Medita, que eu tambem vou escogitar o meu traado. Espero que o meu seja o mais acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira, ouve l o que eu te digo: Tens nas tuas mos o destino de Portugal! E sers um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser. Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle que s vezes se lhe pintava infernalmente necessario sua existencia. N'aquella noite infinita, a ira, a paixo, fora-lhe exulcerada pelas zombeteiras declamaes de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame, e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. Joo IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era e seria sempre sua vida,--engolphando-se na treva que todos os passos lhe negrejava pelo futuro alem,--pareceu-lhe que matar o rei, e deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais brilhante e redemptora soluo de sua desgraa. Aclarava o dia seguinte, e j Roque da Cunha batia porta da casa campestre de Domingos Leite. Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem bom, um consolador christo, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e patibulos. O unico homem competente sua desesperao era Roque. Abraou-o com arrebatada ternura, e exclamou: --Heide matal-o! --Isso sabia eu...--disse o outro friamente.--Resta saber como. --Pensaste? --A noite toda. So cinco horas e meia. Bem sabes que meu costume levantar-me s dez, quando durmo o somno do justo. No dormi nada. Estive com Diogo Soares at s onze, com o conde de Figueir at meia noite, com D. Luiz de Haro at uma, com meu padrasto at s duas, e d'ahi em diante commigo s, e agora comtigo para te dizer o que vais ouvir... --Toda essa gente--interrompeu Domingos Leite--est, por tanto, no segredo dos meus projectos?... --Assim como estava no segredo das tuas desventuras. --Vamos l, dize, que eu j me no embarao com pequenas miserias. Que vens annunciar-me? que plano trazes? --Plano de grande artifice. No meu: dou o pai creana: de Diogo Soares. O duque de Bragana no pde ser morto face a face, nem dentro do pao, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle covarde sabm'ol-o ns, desde que inventmos n'elle um rei legitimo; e, depois que a vida lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa Real, hade ter bom olho quem o vir ssinho ao alcance de um tiro, ou quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como todos os infames, diz o conde de Figueir. Observei eu ao ministro Soares que tu, homem de bizarra condio, no quererias matar o duque de cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a esposa, te matra o corao com a vizeira levantada, ou se te no ferira com a mais abominavel perfidia. No tinha replica sensata a pergunta. Traio por traio. Seguiu-se discutir a traa da morte. Diogo Soares pediu meia hora de meditao. Apanhou a calva fronte entre as mos, espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procisso de Corpus-Christi cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de tempo. So hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares tem amigos seguros em Lisboa, que nos hode alojar sem risco. Alugaremos casas em uma das ruas por onde a procisso hade passar. Estas casas ho ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos communicaes entre ellas, de modo que faam frente para duas ruas. Suppe tu... proseguiu Roque traando no papel a planta das casas ... Aqui tens tu tres moradas de casas, vs? --Sim. --Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada d'este primeiro predio por este bcco. Sabes como se chama? --No. -- o bcco de Pero Ponce de Leo, que vai dar aqui ao Terreiro de traz da capella mr de S. Nicolau. Percebes? --Percebo... --Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui vai... Ora agora, este outro predio, como vs, fica no ultimo canto da rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bco do Ourinol. Comprehendes? --Sim. --A outra casa, como vs, est no meio das duas. -- claro. --A procisso, ao recolher da S, vem aqui ter da rua dos Torneiros. Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na Fancaria, tmol-o de costas, no assim? --. --N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui, no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vs, que mais geito nos d para a pontaria, porque a rua aqui larga. Deu-se o tiro nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente. Esta casa d'onde sahiu o tiro est trancada com alavancas. O povo naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, no assim? Mas emquanto se arromba a porta, passamos ns para esta casa do meio, pela communicao interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas que esto no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multido, vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da Graa, cavalgamos noite fechada, e passem por l muito bem. Que te parece? --Tudo isso de Diogo Soares? --. --E as casas tambem? --As casas!.. --No digo as casas que pintaste; pergunto se so d'elle e esto devolutos os trez predios representados n'estas linhas. --Entendo o gracejo. Queres dizer que no esto nossa espera trez casas com taes condies... --Quer-me parecer... --Esse milagre pertence alada do dinheiro. --No contes commigo, que sou pobre. --Conto eu... --Com quem? --Commigo. -- el-rei de Hespanha que me d recursos para me eu desaffrontar? Regeito-os. --No el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar no ser um tero do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro? --Tenho outro. --Dize l. --Esperar el-rei, entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o. --E depois? --Morrer, ou s minhas proprias mos, ou s do carrasco. --Acho isso bastante antigo;--volveu o outro motejando--parece-me grego ou romano; mas tolo, consente minha amisade que t'o escreva assim na fronte, romanamente e gregamente tolo esse plano. --O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle houvesse sido amante de minha mulher. --Onde mora tua mulher? --No sei. --A quem o vais perguntar? --L verei. --No vers nada; no achars ninguem que t'o diga. No se espera um rei porta de uma amante. Os reis no entram nem sahem pelas portas, nem pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragana, desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa Nova de Portimo (tu sabes que o pobre poeta est preso na Torre Velha ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as pranchadas de uma espada no so brincadeira. A tal respeito, vem de molde informar-te, segundo as informaes que teve Diogo Soares, que a sr. Maria Isabel no recebe o amante em sua casa; recebida no palacio de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilho e as colgaduras do seu camarim amoroso so as arvores da tapada; o que os passarinhos l cantam uns aos outros. Domingos Leite fez um gesto de indignao, e disse: --Isso vil!.. --Que vil?! --A minha desgraa deve poder mais que o teu genio zombeteiro! --No zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irriso as veredas por onde tu queres ir a uma desgraa infallivel. Matares o rei frente a frente!.. Sabes l o que isso ?.. Corto a cabea se fores capaz, se quer, de o encarar com um pensamento homicida! --Essa!...--atalhou Domingos Leite. --Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. Joo II; valentes e expostos morte andavam os duques de Bragana e Vizeu; muitas occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lano de o apunhalarem, retrahia-se-lhes o brao gelado da covardia que incute na alma o olhar de um homem que se chama _rei_--coisa fantastica mas terribilissima como a palavra _diabo_ s creanas que o temem. Poderoso de brao e corao era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de punhaladas de D. Joo II... --Depois de agarrado pelas costas...--ajuntou Domingos Leite. --Pelas costas so agarrados todos aquelles que os reis querem matar, Domingos Leite... (_Nota 23._) Eu no percebo o que seja vingana, se a desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, no ver... no palpar a victima! Ento, antes eu queria perdoar-lhes christmente, e deixar-me acabar de paixo; que assim pelo menos havia de ter dois frades que espalhassem c por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingana forca! Domingos Leite, deixa-me abraar-te, e dizer-te que tu no s parvo! No deves dar a tua cabea ao algoz como prova de que no podes viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates o rei ou mates o ultimo criado das cavallarias reaes, isso que monta, se a tua questo no a morte, a vingana! E, depois, homem, ouve l isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nem de leve o firas, sabes que desde a masmorra at ao cadafalso hasde ser arrastado nas ruas; e que no Pelourinho te ho de decepar as mos; e mutilado, com horrendissimas agonias, te ho de levar muito de vagar at forca; e que tua filha hade ser herdeira da tua infamia at terceira gerao, privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre ti e o rei e o carrasco?... Domingos Leite passou vertiginosamennte a mo pela fronte, e murmurou: --Jesus!... Invocra o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava perdido! Quem sabe como l soou nos juizos de Deus aquella invocao! Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena magestade do seu Creador! XVIII Roque da Cunha negociava com os ministros de Filippe IV, em nome de Domingos Leite, a morte do uzurpador. Encomiando o caracter audaz do seu amigo, encarecia-o tambem como grato e affeioado ao rei de Hespanha; sendo que a faco planeada timbrava tanto de pessoal como de politica. E, do mesmo passo, entre-mostrava que o ex-escrivo do civel da crte, pelo facto de haver sido to liberalmente remunerado, creara necessidades de pompas, que el-rei de Castella poderia de antemo assegurar-lhe em Madrid, com promessas de maiores vantagens, restaurado Portugal. Exposto isto ao valido por Francisco Leito, o secretario das mercs nomeou Domingos Leite em uma commenda de Christo de lotao de duzentos cruzados e brindou o medianeiro com quatrocentos escudos e um officio na casa real. Quanto partilha do espolio de Portugal, Diogo Soares, desde logo, magnanimamente nomeou seu secretario Domingos Leite, com meio vencimento, at se abancar na respectiva secretaria. Roque apressurava n'este em meio a sahida para Lisboa recolhendo no seu alforge afivelado de moscovia de prata provimento de quartos e pelouros, e frascos de peonha com que as balas deviam ser hervadas. Da parte de Filippe IV recebeu, por mo do desembargador Guedelha, Domingos Leite uma escopta de primoroso artificio, ao mesmo tempo que lhe entregava o alvar da merc da commenda de Santa Maria de Valdestillas, e carta de passagem e recommendao muito instante ao marquez de Mollinguen. Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha, na Ameixoeira, uma legua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues Taveira, amigo de Diogo Soares. Haviam ambos cortado as barbas, antes de entrar em Portugal. Roque trajra-se com a simplicidade de mercador, e fallava uma linguagem estrangeirada com mescla de termos hollandezes. Nos primeiros dias concorreu Ameixoeira um negociante de sola, chamado Serges, de origem allem, cujo av, em tempo d'el-rei D. Manuel, se estabelecra em Lisboa com privilegio de sapateiro. Serges era espio de Castella em Lisboa, onde, quelle tempo, amealhava grossos haveres. Ao tempo que os regicidas sahiam de Madrid, era o sagaz mercador avisado por expresso afim de se avistar com elles em casa do fugitivo partidario dos Filippes, na Ameixoeira. Apresentou-lhe Roque a planta das casas escolhidas por Diogo Soares para a emboscada. Devia ser Serges o alugador das casas, sob color de querer armazenar n'ellas os seus generos, logo que lhe chegasse de fra a carga extraordinaria que encommendra, prevenindo-se para o consummo da grande guerra e para a contingencia dos bloqueios. Assim explicava o mercador aos inquilinos dos tres ou quatro prdios o interesse grande que punha em alugar as casas pelo dbro da sua renda. To minucioso n'esta relao o manuscripto consultado, que no lhe esqueceu dizer-nos ser o proprietario das casas Gomes Freire, fidalgo de Beja. O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da descripo particularisada do _Ms._ que reza assim: A morada de casas que primeiro alugou Simo Serges est em um bcco fronteiro Capella mayor de S. Nicolau; e por um passadio sahe a outro bcco que desemboca na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e alm d'estas alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas. Conseguido o despejo dos quatro prdios, Domingos Leite e Roque da Cunha alojaram-se no Bcco de Ponce de Leo, na noite de 20 de maio, sem encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem. O trabalho interior de demolir e construir communicao de umas para outras casas era pezado para mos mimosas e no callejadas na alavanca e picarta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperem as paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na primeira casa, no se lobrigassem vestigios de passagem para a immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria, resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra, conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente proporcionada, lhe atirarem de frente. Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos. Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexes de prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vr, acaso, a filha estremecida. Escutando o corao, o pae de Angela decifrava no vago terror que l lh'o innoitecia que nunca mais havia de vl-a! Enganava-se. Tinha de vl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico. Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na multido que enchia o Terreiro do Pao, veria Maria Isabel e Angela, recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume accenderem-se n'aquella praa, na do Rocio, e em todas as ruas percorridas pela procisso do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de S. Jos, com os seus trinta palacios estrellados de luminarias, e pela Calada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mr excedia os mais sumptuosos na bellesa da illuminao. Por todas estas ruas abobadadas de esteira, com figuraes christs e pags nos remates de cada cunhal, poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vr a espaos o rosto alegre da filha, debruada na portinhola perguntando me a significao das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis que tapizavam as paredes e balces das sacadas. E, depois, ahi por volta da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de Alcantara, at que, apagado o claro dos lustres que alumiavam, se acingisse liteira e apunhalasse a esposa, e sobraasse a filha, e a devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis! Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia, encostou os cotovellos meza, apoiou a barba entre as mos, e disse a Roque da Cunha: --Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas, que disse aos trezentos companheiros da sua funesta faanha, depois de jantar: hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Pluto. Onde iremos ns cear manh? --D'aqui trez leguas: estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sde do sangue de castelhanos--respondeu Roque sorrindo. --Vamos marcar os nossos postos--volveu o commendador de S. Maria de Valdestillas. --Esto marcados. --Ainda no. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei? --Aonde? aqui. --No quero. Ao p de mim, no. Se eu for agarrado, quero ver-me ssinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, no disputarei o teu quinho de gloria n'este feito. Dirs em Madrid, e eu confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o p na beira do meu abysmo, com o pescoo exposto ao mesmo esparto, com as mos debaixo do mesmo cutello. A hora excellente para sahires d'aqui por entre o povo que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira, segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar Ameixoeira, e manh, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me no Postigo da Senhora da Graa. Se eu l no estiver antes das tres, foge, porque ento estarei preso ou morto. --Mas... --No questionemos. Isto resoluo feita e inalteravel. Tenho-te dito que no quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o formalmente, foi por evitar contestaes ento, e agora muito mais, que tarde para discutir. Vamos. A p e sahir. D c um abrao. At manh de tarde, ou... at... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido tua dedicao. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua cabea n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me no vires mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvar da commenda com que nobilitou minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopta com que me elle brindou. E adeus! Roque da Cunha abraou-o sem commoo sensivel. Para esta frieza concorria a crua rigidez de sua compleio e a esperana do bom exito da entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do peito, veria l dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se aproximava, Roque meditava absrto e pvido no trance do tiro, nos paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes, no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas, na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua proterva historia--em fim, na forca. Se um homem n'estas condies ousaria prever que um historiographo portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle: _... cheio de confuso e honra_! Pois houve! O leitor ver que n'esta sua, to sua e minha querida terra, temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro II _rainha prudentissima_ (veja o sr. conselheiro Antonio Jos Viale, na sua _Historia_) e Roque da Cunha _homem cheio de confuso e honra_. (Veja Roque Ferreira Lobo na sua _Historia da acclamao de_ D. Joo IV.) XIX s dez da noute sahira Roque. s onze j Domingos Leite, vestido de feitio que nenhum trao arguia o aparaltado do escrivo do civel, parava no largo da Porta do Salvador, contemplando a casa immersa em trevas, que nenhum pontinho luminoso interceptava. Que fazia alli? Fantasira que o seu velho criado l estaria, no obstante lhe dizer Roque da Cunha que a justia lhe dera tractos at saber onde o amo se escondia; e, sendo assim, de certo o expulsaria Maria Isabel. Ajustou-se frontaria da caza, e tocou no postigo da fresta, chamando Bernardo. N'este lance, pessoa que elle no vira em uma janella a refrigerar-se na aragem da noite, disse com voz senil: --Ahi no mora ninguem. Domingos estremeceu; mas, cobrando animo com a probabilidade de segurana de nenhum perigo, perguntou: --Sabe dizer-me onde est um homem que aqui morava ha coisa de dois mezes? A pessoa interrogada no respondeu; retrahiu-se da janella, e fechou-a. Domingos Leite, ouvindo o bater das portadas, no podia perceber a descortezia ou qualquer outro sentimento de quem quer que fosse, e principiava a censurar-se da indiscreta pergunta, quando uma porta rodou vagarosamente, e voz tremula de dentro disse anciadamente: --Entre, entre depressa... Domingos reconheceu a voz de Bernardo. O velho colheu-o nos braos suffocado por convulsos gemidos, e cahiu de joelhos exclamando: --Ai meu amo que vem entregar-se morte!.. --No venho... no te assustes... Deixa-me subir ao teu sobrado e conversar comtigo, meu pobre amigo...--murmurou o amo. O velho precedeu-o na subida da ingreme escada, pedindo-lhe que fallasse baixinho, porque no segundo andar estava gente ainda a p. --Foi certo darem-te tratos, Bernardo?--perguntou Domingos Leite sentando-se no unico tamborete da pobre quadra. --Quem lh'o disse, meu senhor? --Soube-se em Madrid. --Foi verdade. Aqui esto as costuras nos dedos. Descarnaram-me os ossos. Eu j no podia com as dres quando disse que vossa merc tinha uma caza nas Olarias; mas disse porque me bacorejava o corao que meu amo no estava l... --Meu infeliz amigo!...--atalhou Domingos com os olhos aguados--E no voltaste para casa de... Maria Isabel? --Fui ter-me com ella... --Aonde? --A um palacete em Alcantara, onde me disseram que ella morava umas pessoas da justia em casa do corregedor, e por tal signal que... --Por signal que... --O melhor calar-me, sr. Leite; mas... a fallar verdade... --O qu? podes fallar... Disseram-te que era uma mulher perdida... -- verdade, e no me mentiram, queira vossa merc perdoar-me... --Fallaste-lhe? --Sim, sr. Fallei-lhe com mais lagrimas que vozes. Disse-lhe que o senhor seu marido passra uma noite na caza do Salvador; que estivera no quarto a embalar o bero... N'isto, a menina que estava alli a ouvir-me, rompeu a chorar que cortava o corao, e a clamar que queria ver seu pai; que queria ir com o seu Bernardo ver o seu paizinho; que a me era muito m em no a deixar ir, e outras coisas, meu amo, que faziam chorar as pedras. E vai a me, neste entrementes, pega por um brao da filha com arremesso, e tira por ella l para o interior da casa. Eu fiquei estarrecido, a ouvir os gritos da menina l dentro, at que chegou um escudeiro, e me mandou sahir d'alli por ordem da fidalga. Pois sim, eu vou; mas v voss dizer senhora que o seu velho criado no a offendeu; e que eu vim c para lhe dar conta das alfaias da sua casa, ou saber se alguma lhe falta, que de certo no fui eu que a tirei.--Foi o escudeiro com o recado, e voltou logo dizendo que a fidalga no queria saber de contos; que me puzesse na rua. Tornei-lhe a mandar pedir que ao menos me mandasse entregar a minha rca onde eu tinha o meu fato e as minhas economias. O escudeiro, talvez porque tambem era pobre e me viu a chorar, teve pena de mim e tornou l dentro. D'ahi a pouco voltou e disse-me que ia commigo para me dar a minha arca. Veio com effeito, e pelo caminho fora, de Alcantara at aqui rua, e depois l no meu quarto, contei-lhe tudo que se tinha passado; e elle que no sabia de nada, porque sahiu do palacio real de Belem para ir servir aquella fidalga por ordem do sr. Antonio Cavide, disse-me ento o que vossa merc, pelos modos, j sabe... --Sei... E ento, meu Bernardo, ests muito pobre? --No, meu amo. Ainda tenho dinheirinho do que vossa merc me dava quando era solteiro; mas, como estou muito acabado e no posso trabalhar com as mos desde que m'as quebraram na tortura, no tenho remedio seno viver com muito pouco, para no ter de ir pedir por portas. E vossa merc tem mingua de dinheiro? Eu tenho alli quinze moedas de ouro de quatro cruzados cada uma; se vossa merc as quer, assim Deus me salve como eu lh'as dou com todo o meu corao... --No preciso; obrigado, meu querido amigo, obrigado... Disseste-me que minha filha chorava--volveu Domingos Leite, depois de longo silencio e profundo recolhimento. --Se chorava!.. quando me viu e conheceu, corria para mim com os bracinhos abertos; mas a me botou-lhe a mo ao brao, e puxou-a para si. Assim que eu contei a passagem do bero, e da tristeza com que o paisinho da menina olhava para elle, as lagrimas saltaram-lhe como punhos; e a me lanava-lhe de esguelha uns olhos furiosos, que pareciam querel-a espedaar... --Ai!.. se eu a visse...--murmurou Domingos Leite. --Como hade vossa merc vel-a, meu senhor!... No pense n'isso, porque tenho ouvido dizer que, se o apanham, a sentena menor que tem o meu amo degredo perpetuo, se no lh'a derem peor... A que veio a Lisboa, sr. Domingos Leite? que peccados o trazem aqui?... --Sabel-o-has, quando fr tempo...--respondeu Leite serenamente--Escuta, Bernardo: sabes que tenho pai? --Pois no sei!.. --Chama-se Antonio Leite, vive em Guimares, e tem officina de cutelleiro na rua Infesta. Agora, jura-me que cumprirs o que te vou pedir. --No mister jurr, senhor! --Se acontecer eu manh ser preso ou morto... --Sancto nome de Jesus!--clamou Bernardo. --No me interrompas com lastimas que no remedeiam o meu destino... Attende, meu amigo... Se acontecer eu amanh ser preso ou morto, parte logo para Guimares, procura meu pai na rua Infesta, e dize-lhe que eu morri ou vou morrer, sacrificando a vida infamada honra de a perder em desaffronta de um grande ultrage. No tens aqui papel e tinta. Se tivesses, escrever-lhe-hia: mas, manh, por esta hora, se eu estiver preso ou morto, vai e dize-lhe, se te no lembrar mais nada, que D. Joo IV era o amante da mulher de seu filho. Mas, se eu no estiver preso nem morto, e algum acontecimento explicar o mais que eu te no digo, pede-te o teu pobre Domingos Leite que leves comtigo sepultura o segredo que adivinhares. Bernardo queria debalde replicar; mas as palavras eram-lhe estranguladas nos soluos. N'este conflicto, Domingos Leite abraou o velho; e, desprendendo-se-lhe dos braos, desceu as escadas subtilmente. Eram j desertas as ruas, quando entrou na casa do Becco de Ponce Leo; e, atravessando os outros predios at ganhar o sobrado, cuja janella esquinada dominava as ruas dos Torneiros e parte da Fancaria, abriu o alforge de moscovia, e tirou os frascos de peonha, e um caixotinho com quartos e balas. Hervou o pelouro e os zagalotes, mergulhando-os cautelosamente no toxico: sevou a cravina de polvora, metteu as balas calcando-as com a vareta sobre a bucha (_Nota 24._) introduziu as doze costas ou quartos, lascou, antes de escorvar, com a lamina de uma agumia o rebordo da caoleta, azeitou o gatilho, experimentando-o, encheu a escorva, bateu na culatra tres punhadas afim de sevar plenamente de polvora o ouvido, e trez vezes fez pontaria em diversas direces. Feito isto, apagou o candil, abriu de manso as portadas da sacada, e ao lampejo tremulo de algumas luminarias que vasquejavam, esteve examinando as duas ruas confluentes; depois, retrahindo-se, abocou a escopeta a dois alvos, que, naturalmente, se lhe figuraram o corpo sacratissimo de sua magestade. Esta phrase, um tanto descabidamente faceta, corresponde ao esgar de riso ferino que lhe refegou os beios, vibrando os musculos faciaes. s trez horas da manh comearam a repicar os sinos da bazilica de santa Maria Maior, e logo todas as torres saudaram a jubilosa arraiada da vetusta metrpole. J se ouviam as charangas de atabales e clarins que, nas ruas comvisinhas do templo, annunciavam a sahida da procisso, mais matutina que o sol. Aquelle to comprido dia de junho era mister comeal-o ao arrebol da manh para que o tempo no escasseasse s alegrias do povo. Domingos Leite, escutando a resonancia estridula dos clarins e o tanger festivo dos sinos, foi ao passado buscar memorias da sua alma despedaada, e todas viu em um relance afflictivo de olhos. Tambem elle tinha acordado alegre ao ruido d'aquellas musicas quando era moo e rico, feliz e amado. Tambem elle n'aquellas manhs de luz e flores folgava de madrugar, e passeiar as ruas de Lisboa, respirando o acre das espadanas e rosmaninho que verdejava o transito, por debaixo dos doceis e grinaldas. Ainda no anno anterior, sahira elle quella hora, depois de uma noite mal-dormida, com a filhinha pela mo, e entrara na bazilica, ensinando a creana a pedir a Deus por si e por elle. Quanto mudado, desventura! Que voragem entre o secretario do marquez de Gouva e o determinado assassino de D. Joo IV! Como elle se contemplava na escuridade profunda de sua alma ao reflexo do gentil, do invejado mancebo que fra! Que horrendissimo doer no seria o do seu espirito, quando a cabea lhe caha para o peito, e as mos enclavinhadas e tremulas comprimiam o pescoo, como se quizesse impedir que aos ouvidos lhe chegasse o regosijo d'aquellas toadas! E quella mesma hora, Maria Isabel, despertada pelos repiques do mosteiro do Calvario, saltava alegremente d'entre as cortinas adamascadas do leito, chamava a aia que a penteasse, e ordenava que lhe vestissem Angela. --Ento d'onde vai ver a procisso, sr. D. Maria Isabel?--perguntou a aia com a confiana de criada antiga e quinhoeira dos segredos da ama. --Vou para o palacio do Galvo, no Rocio, ou para casa do senhor da Trofa, na Rua dos Torneiros: ainda no sei. --No Rocio mais bonito...--volveu a aia. --Mas eu prefiro a Rua dos Torneiros. --Eu bem sei porque, minha senhora... --Ah! sabes? s muito esperta!... Ora dize l... -- porque el-rei passa mais chegadinho caza do senhor de Trofa que do Galvo... Adivinhei? --Parece-me que sim...--assentiu Maria Isabel com uma despejada denguice--Tenho passado estes dias to aborrecida... --Pois, sim, sim... No sahe de caza a minha senhora... passa as noutes ssinha... Quando se vai embora a rainha para Lisboa? --No principio do inverno. --Que praga!.. E a sr. D. Maria Isabel, por amor d'ella, nem s janellas vai! Tambem no sei por que razo el-rei tem medo que a rainha desconfie... Sempre ouvi dizer que o rei se lhe dava pouco dos ciumes d'ella. Acho que o sr. D. Joo IV o que receia que a vejam os fidalgos que se ajuntam em Alcantara emquanto sua magestade c est... Se alguem tem ciumes, no a rainha, o rei... Sorriu-se lisongeada Maria Isabel, e murmurou: --s tola, s tola... Quem trocaria eu n'este mundo por el-rei? --Isso l, minha senhora--replicou a aia--tem-se visto d'essas trocas... Bem podia V. S. gostar mais dos condes que eu por ahi vejo a passear no largo do que de el-rei; apesar de que sua magestade est ainda muito fresco, e parece um mancebo... Como vai V. S. vestida procisso? --Levo saia de seda verde com barras pretas de velludo; gibo de tafet azul, com cossoletes de ouro. --E que manto leva? --O de seda verde. --O branco vai-lhe melhor sobre o gibo azul. --Vai? pois levarei o branco. --E chapins? os azues com rubis? --No; os verdes com diamantes. --Eu acho os outros to lindos!.. Ainda me lembra o contentamento com que V. S. calou outros da mesma cr, faz agora dois annos, quando foi a esta mesma procisso com seu marido... Lembra-se? Maria Isabel no lhe respondeu. A aia, affeita a lidar com os caprichos da senhora, absteve-se de repizar no assumpto desagradavel, posto que Maria Isabel, algumas vezes, ouvisse fallar indifferentemente do marido. --A que hora vai a senhora para a rua dos Torneiros? --A cadeirinha hade estar prompta s nove horas. --Por que no vai no coche do ministro Cavide, que lh'o offereceu? --No me appetece andar em cches alheios. Heide comprar um quando me parecer. --Faz V. S. muito bem... no sei como el-rei lh'o no tem dado... --No quero. Sou bastante rica. Posso ter cche sem dever favores ao rei. A conversao foi cortada pela vinda de Angela, que j estava vestida e encantadoramente galante com o seu gibo escarlate de passamanes de prata, saia de trez barras com debruns de lhama de ouro, chapins altos de setim branco e taco escarlate, volante de rendas na cabea, ondeando por sobre as espiraes de tranas louras que lhe deslizavam nas espaduas meio nuas. s 9 horas entraram Maria Isabel e a filha na cadeirinha. Pouco depois, sahia D. Joo IV do palacio de Alcantara, em cche, com o manto de gro-mestre da ordem de Christo, precedido dos reis d'armas, e seguido do principe D. Theodosio, e cento e cincoenta cavalleiros das ordens militares, em cavallos pomposamente ajaesados. El-rei ia s e melancolico; mas, no rosto carregado, relampedejou-lhe um claro de alegria, quando, ao passar pela cadeirinha que ao longe conhecera, viu aquella formosa face cujo primeiro verniz de pudor se desbotra nos beijos do padre Luiz da Silveira. A melancolia de el-rei quer o meu manuscripto legitimal-a com estes catholicos dizeres: No oratorio da quinta de Alcantara tinha sua magestade commungado, esteve em orao mais do que costumava, e sahindo, disse rainha, nossa senhora: Eu vou com grande trabalho. E dizem que, havia tempos, lhe tinham dito que em uma procisso do corpo de Deus o haviam de matar; e el-rei respondra que junto ao sanctissimo sacramento lhe no podia succeder mal. Ainda bem! Se estes pios casos de commungar, e sahir mal disposto, e meditativo no sinistro vaticinio, assombraram o real semblante, ainda bem que o langoroso olhar da Traga-malhas espancou o profeta de mo agouro, e abriu nos labios do rei commungado um sorriso que radiou nas bochechas dos seus vassallos. Por volta das onze horas, Domingos Leite, espreitando o concurso de povo, que j tomava os lados das ruas, notou que a seteira baixa que abrira para o lado da Fancaria era a melhormente azada para desfechar sobre o rei, visto que alli a multido, abrindo uma especie de clareira, obrigada pelo aperto do cunhal das duas ruas confluentes, deixava a descoberto o palio, ao qual devia seguir-se a familia real. Regeitou, portanto, o plano traado de dsparar pela seteira alta, que dava sobre a rua dos Torneiros, parecendo-lhe quasi impossivel de ponto elevado, por mais firme que pozesse o fito, acertar no rei. Assim, pois, que os atabales estrondearam no topo da Fancaria, Domingos Leite pegou da cravina, e foi ajoelhar rente com a seteira baixa. O dia era ardentissimo; e, elle, sentindo as mos geladas, friccionava uma na outra receando que o ddo do gatilho fizesse tremer a escopeta, e desviar o tiro. Era o frio do terror; era a honra convencional dos homens subjugada pelo ingenito respeito vida humana. Entreviu a passagem dos cavallos destra, cobertos de telizes de velludo escarlate com as armas de Bragana em relevo de ouro, levados de redea por lacaios com a libr real. Passou S. Jorje, cabeceando a sua plumagem do murrio, cavalgado sobre o cavallo que resfolegava involto no cairel cravejado de diamantes e variada pedraria. Seguia-se o pagem do sancto general, a disputar com o amo a posse das riquezas do oriente e das concavidades do oceano em perolas e rubis e esmeraldas. Deslizaram os trinta e sete estandartes dos officios com as insignias de cada um; e logo as cento e cincoenta cruzes das confrarias com variegadas roupetas. Depois, as bandeiras das parochias. Em seguida, as irmandades do SS. Sacramento, que eram trinta e oito com opas escarlates. Principiavam agora as communidades religiosas, que eram quarenta, psalmeando alternadamente uns cantares como responsorios funeraes nos ouvidos de Domingos Leite. Succediam as congregaes de clerigos regulares; os tribunaes com os seus presidentes de catadura sombria, os magistrados de toga, os cavalleiros de Christo, de S. Thiago e S. Bento de Avis com os mantos capitulares. Depois a cleresia e o cabido. Agora os coros da musica dilecta do rei; depois os bispos mitrados, e os turiferarios bamboando as nuvens fumosas dos incensos. N'este ponto, Domingos Leite encostou a face parde para descobrir do esconso o palio. Avistou-lhe as franjas de ouro do sobre-ceo atravez da nebrina dos perfumes; e por entre as varas, e por sobre a espadua do arcebispo eleito, viu a fronte de D. Joo IV. Elle temia e tremia do quebranto de sua alma, chegado aquelle indeclinavel trance; mas a presena altiva do tyranno que lhe tirava o po, a patria, e a filha, engolphando-lhe tudo na devassido da esposa, sarjou-lhe o corao, repuchou-lhe o sangue em jactos ardentes ao cerebro, queimou-o em sedes de fera, deu-lhe as facinorosas deleitaes do scelerado. Estava j o palio a dez passos de distancia da caza. Domingos Leite afastara-se para apoiar a extremidade da caravina no envasamento inferior da seteira. Desconfira do tremor do pulso e da vertigem dos olhos. Ajoelhou, levantou o feixo, e ajustou o dedo ao gatilho. J o rei, desviado apenas dous passos do palio, se mostrava a descoberto... Mas, no mesmo instante, Domingos Leite viu duas damas que encobriam o rei. que D. Maria de Arrayolos e a camareira-mr, curvando-se para levantarem do cho um panno de seda que cahira da mo ao principe D. Theodosio, quando enxugava o suor, ficaram, por momentos, quasi frente do rei, foradas pela deslocao de alguns fidalgos que, ao mesmo tempo, tentaram, abaixando-se, evitar s duas senhoras a cortezia de levantar o panno. Ainda Domingos Leite, tenteando pontaria, esperou clareira por onde coubesse uma bala; teve-a n'um relance; mas a certeza de cravar algum dos doze quartos nas senhoras que ladeavam D. Joo, paralisou-lhe o dedo do gatilho. Restava feril-o pelas costas, ao desandar para a rua dos Torneiros. Subiu acceleradamente ao sobrado de cima, onde abrira duas seteiras na sacada angular, que olhava para duas ruas. Apenas entrou no sobrado e correu a mirar a volta que a procisso ia rodando da Fancaria para a Rua dos Torneiros, antes de descer os olhos sobre a rua, pol-os maquinalmente nas balaustradas de uma caza fronteira, e viu Maria Isabel, e ao lado d'ella uma creana, uma viso da alma ingolphada em Deus... Era Angela, a sua filha! E, cravando n'ella os olhos, e arquejando em angustia que o lacerava com delicias, e ouvindo o corao que chamava por Angela, sentiu-se cahir, largar a arma, dobrar os joelhos, ajoelhar, ajoelhar de mos postas, cobrir-se de lagrimas, e ouvir como dos labios de um estranho: Salva-me, filha, salva-me! E D. Joo IV passou, olhando de soslaio para Maria Isabel, que ajoelhra, e encostra a fronte s mos, formando graciosamente um docel para resguardo do sorriso que as outras damas devassavam, e que ella muito se rejubilava que lh'o vissem..................................... ........................................................................ s duas horas, Domingos Leite, com o disfarce que tinha vestido, chegou ao postigo da Graa. Roque da Cunha, avistando-o de longe, foi desprender os cavallos que escarvavam impacientes em uma barroca socavada entre dois combros de piteiras, e sahiu com elles estrada ch. --Morreu?--perguntou Roque. --No. --No?... Que me dizes?... Feriste-o? No acertaste?.. --No lhe atirei. --Oh!..--exclamou Roque da Cunha--Que diabo fizeste ento?.. --Nada... Vamos embora, se te no escandaliza um covarde na tua companhia... --Eu ia agora perguntar-te se lhe no atiraras por covarde... Porque me no deixaste estar comtigo, Domingos Leite!.. Com que cara entraremos em Madrid!... --Pois vai s, e deixa-me...--replicou Domingos Leite. --Fazes-me uma grande compaixo!... Que lagrimas so essas... --So umas lagrimas que eu ainda tinha no corao, e s podia choral-as, vendo minha filha!... Foi minha filha que salvou o rei... --Vamos, que eu ouo tropel de cavallos na calada da Graa...--disse Roque da Cunha--Conhecer-te-hiam?.. -- impossivel... Cavalgaram, e deram de esporas. Na assomada de um dos outeiros de Alvalade pararam, e olharam na direco de Lisboa. Ninguem os seguia. Era uma cavalhada de campinos, que voltavam da procisso do Triumpho, e recolhiam aos seus cazaes. XX Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simo Serges, no o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simo Serges, quella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias. O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal respeito: N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos esperando-o ao Postigo da Graa, onde foi ter com elle Domingos Leite, e que lhe contou o que passra; e de saber que na mesma tarde foi visto em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra. Ao mesmo tempo, Bernardo, que passra a noite e o dia em orao, quando viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graas ao Senhor, porque attendera s suas preces. O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo Soares, rindo da historia pueril da viso da menina que paralisra o brao do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a phrase, qual a recebra, a Domingos Leite. O frustrado regicida volvra-se vida solitaria com a sua dr exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mo no peccado da mulher era D. Vicencia, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam satyras celebrando-lhe a faanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para ir ao inferno matar o diabo. Na correnteza d'estas coisas, fallecra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. Joo IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta prda contrariava o rei, e mais ainda o impedimento de substituir sem dilao a sagacidade do jesuita, que sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira. Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D. Joo lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delao de Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassinio do padre Luiz, intendra o rei que o sicario, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar. No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um clerigo ou frade de inculcada virtude e erudio theologica, por parte das duas naes irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fra fr. Diogo Seyner espio de Castella em Portugal, e tambem um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensao, as denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto s intenes de invaso, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avenaram politicamente com a theocracia da omnipotente roupta. Ainda n'aquelle anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mr de batalha, depois de as ter j usado no exercito portuguez. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repellir os estrangeiros, se no morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas naes, visto que nenhuma era sua. Com este se intendra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha. A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous teros menos da perversidade de Roque. D. Joo IV enviava-lhe o perdo do crime de homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuao em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino. Enviava-lhe como como de gratificao trez mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro medida dos seus servios e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina. Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a verdade que o infame no deu ansa a que os seductores provassem os dotes de corrupo: rendeu-se logo. Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez, disse-lhe com mysterioso recato: --Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu s entrarei em Portugal, quando l fr para o salvar da morte. O padre no obteve illucidaes d'estas vagas palavras. Assim as revelou a D. Joo IV, que lhes deu a maxima ponderao, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueir, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira no se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia: --Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle... O _elle_ substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como princeza do seu economico serralho. Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe no replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ella na sua belleza. Quando Roque enviou o recado a D. Joo, j sabia que Domingos Leite deliberra voltar a Lisboa se no renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as censuras de Roque da Cunha, no covardia de homem, mas pusillanimidade de pai. Houve horas em que o desgraado acariciou a ideia do suicidio; porm, l vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdo, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre. Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu: --A final, vejo que no s marido, nem homem: s pai. --Queres dizer que no sou honrado?--acudiu Domingos Leite. --No... mas ha quem duvide que o sejas... --Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha covardes que faam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti ou junctamente. --Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis--disse serenamente Roque--Entretanto bom que saibas, amigo Leite, que nenhum homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me insulte. Se no estivessemos ss, dar-me-has uma satisfao. Assim... ninguem ir dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha vilta do marido de Maria Isabel. Ests perdoado, porque s fraco, fraco do corao onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem duas vezes expoz por ti a vida, e no se esquiva de a expor terceira vez. --No expors, Roque. No ha para qu. O meu intento j sabes que no matar o rei; resgatar minha filha. --E, se te descobrirem, se te agarrarem... --Serei julgado como assassino, sentenciado morte, e morrerei, sem denunciar que o matador foste tu. --Mercs... A justia sabe quem matou, provavelmente... A minha questo outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputao como a minha. Os enviados a matar D. Joo fomos dois: o covarde no pde ser s um. Se vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tua filha, sem tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio, e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragana servir para ns. Se queres roubar a pequena me, eu te ajudarei. Os estorvos que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os gritos no pescoo de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem lhe ouvir um soluo. Se nada quizeres de mim, ao menos d-me em Lisboa um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja. Que mal te faz que eu v comtigo? --Vem, meu amigo, que eu estou to longe de t'o impedir, que t'o agradeo--respondeu Domingos Leite abraando-o extremosamente. Accordaram na partida para 18 de julho. Communicou Roque Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou traio, consoante se lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia com elle sobre tal determinao, porque a sua honra se queria desligada de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e no a Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade. Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebra dinheiro; e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e liberalidades de D. Vicencia. No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira. Escutemos o chronista-mr do reino, fr. Francisco Brando: Ha muito para reparar na fora do destino que chamava Domingos Leite... Depois que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiana do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhra uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraando-o pelos ps, lhe rogou encarecidamente o no quizesse entregar justia. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: _Uno de vos outros s traidor_. E apontando em particular para o Cunha, disse: _Tu tienes ojos de traidor_!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpo que d'elle trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira--prosegue Brando--que, tendo as presumpes to vivas, no melhorasse partido, sendo-lhe facil!..[10] Se prestamos mediana f perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a traio nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanos, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito. s vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos ps da victima exorando-lhe que no suspeitasse de sua lealdade, ou ento o repulsasse de si como ao mais abjecto scelerado. Grandes foram as cautelas de Cunha--confirma fr. Francisco Brando--para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e no quizesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e no foram de menos considerao as cautelas que teve para se assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.[11] quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espao, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, no houve modo de allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem alli, sem esperanas de remedio, era perder tempo, e talvez perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o enviaria, a no querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o. --E para que v mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde esto quatro mil cruzados...--ajuntou Roque. --Oh!--exclamou Domingos Leite gracejando--Ninguem dir que vaes do desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!... --Ahi t'os deixo como refens... --Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se tens teno de me atraioar, leva-o, e atraioa-me, para que me no taxem de ladro quando me prenderem. Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia. Domingos Leite interpretou a primeira supposio, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe: -- brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, d'aqui cinco leguas. Levas-me de avano apenas algumas horas, se manh cedo me mandares o cavallo, e elle no fr aleijado. Devo l chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraada de tropa; seno terei de dar grandes voltas. Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse: --Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavallo, se m'o no quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a terra, que hontem j o no sentia entre os acicates... --No deixes o dinheiro!--instou Leite Pereira. --J te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o? Adeus, at manh. Abraaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe: --No me vendas... visto que ests rico! Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope, caminho dos Pegoens. No me vendas... dissera o desgraado. Assizadamente escrevia depois o frade: _Ha muito para reparar na fora do destino que o chamava_... XXI Decorrra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, no encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifes, passara a Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha. Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou, conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que s muito a passo alcanaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de D. Martinho, at noute do dia seguinte. O arrieiro que o guiava recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo Povoa. --No havia em Rilvas uma besta que se vendesse?--perguntou Domingos Leite. --Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por trinta cruzados. --Porque o no disseste pessoa que te mandou com este? --Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com essa pessoa que vossemec diz. O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle cavalgra caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a remessa do seu e o bilhete aldeia onde ficra o seu companheiro. Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora dos povoados, sem saber a razo porqu. --Andam soldados na estrada real?--perguntou Leite. --Que eu saiba, no, senhor. Reparou na precauo o cavalleiro; e no viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brando: _Ha muito para reparar na fora do destino que o chamava_. Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si: --Que pensaria de mim Roque da Cunha se est innocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!... Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, j Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Pao da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgencia. D. Joo IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroo com a nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, comeando por implorar o perdo de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua magestade; porm, accrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe no perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos. Sorriu D. Joo IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente: --Ests perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te. Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal. Escutou-o D. Joo com torvo aspecto. Turturava-o a situao de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas. Mas no era Roque o homem amoldado observancia do mysterio que tal acto requeria. Mandou recolher o espia a um quarto baixo do pao, e ordenou que viessem sua presena o fidalgo mais possante de sua crte, Luiz da Silva Telles, e outro no menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passra com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse. Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma calea Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem. Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendao de se apressar S. Senhoria a recebel-o. Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto corao. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa ento odiava-o de instincto, sem saber precisar aquelle rancor to desnatural em sua edade. O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel. --Minha senhora--disse elle entre melancolico e solemne--ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manh sahirem de Lisboa... --Para onde?!--interrompeu Maria Isabel. --Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes. --Mosteiro!... --Sim, senhora minha. --No quero!--bradou a dama. Sorriu-se o fidalgo, e disse: --Quer el-rei, nosso senhor. --Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento? --Ignoro. Segredos de sua magestade. No discutamos inutilmente: sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, s tres horas da manh est o meu coche porta de vossa senhoria, e fora de portas estar a calea que nos hade levar onde el-rei ordena. No posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me... A esposa de Domingos Leite abraou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar d'entre o reposteiro a senhora que no o via. Quando ella s onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahs, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, quem do Tejo, trez leguas distante de Lisboa. Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibo e em menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse: --Eu j no te esperava... --Tambem eu cuidei que no chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer companhia ao meu na immortalidade das cavalgaduras heroicas e pdres... Quem est por aqui na locanda? --Ninguem afora um ou dois viles desconhecidos. D c as redeas, que eu recolho o cavallo. E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada. Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallaria, frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braos de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito s costas, emquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mos a caravina. Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse: --Agradeo-te esta morte, infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu no lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde. D'ahi a momentos, porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse: --Se tentar fugir, sr. Leite, espingardeado. _E com grande silencio o levaram a Lisboa_, diz o manuscripto. Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de ao dos seus musculos, sabiam que a mulher d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D. Joo IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, no podemos, no poder ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia. Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles so. Querem que Deus deva saber o que fez. Saber. Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo s estrellas a luz da f, para que na morte lhe no faltasse a esperana de outra existencia. Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra. Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica! _Entrou na casa do conde de Odemira_, diz o doutor fr. Francisco Brando no opusculo referido, _com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos d'el-rei D. Joo que cumplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurana de animo se portou em todos os mais lanos em que foi examinado; tendo s de bem confirmar sempre na confisso com o companheiro que o deu priso, e com a primeira confisso que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogaes que o direito dispe no faltou nunca na mesma rectificao de quanto sem as maiores violencias havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito!_ Em um d'esses interrogatorios, _sem as maiores violencias_ (quer dizer que a tortura no foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta: --Porque no atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua magestade? --Porque tive uma viso santissima: foi a mo de um anjo do ceo, que me levou para si os olhos e a alma. D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. Joo de Bragana. Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia. As turbas correram porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntarios, ebrios de civismo. Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimares dizer a Antonio Leite que seu filho morria em desaffronta de sua honra. Ao fim de 16 dias de priso, Domingos Leite foi sentenciado. Eis a sentena integralmente trasladada da original, e publicada em 1833 pelo desembargador Gouva Pinto:[12] SENTENA Que se proferiu contra Domingos Leite Pereira Escrivo da Correio do Civel da Crte, por querer atreoadamente matar a El-Rei o Senhor D. Joo o IV. Acordam em Relao etc. Visto estes Autos, que pela calidade, e detestao do caso, prova d'elle se fizeram summarios. Mostra-se que o Reo _Domingos Leite Pereira_, sendo natural d'este Reino, e Proprietario do Officio de Escrevo do Civel da Corte, se passou d'elle para o de Castella no anno passado, a titulo de um seu homezio, e estando em Madrid, foi n'elle despachado com o Habito de Christo, e outras mercz, e d'aly com ordem de certos Ministros de El-Rei de Castella foi mandado a este Reino para matar a El-Rei Nosso Senhor, dando-lhe para este effeito quatrocentos escudos e uma espingarda com quartos, e um pelouro e dous vasos de peonha para os poder ervar, e Cartas do mesmo Rei de Castella para o Marquez de Molenguem, Governador das Armas da Cidade de Badajoz, o deixar passar livremente. Mostra-se que vindo o Reo com animo de efectuar o sobredito, chegou a esta Cidade com outro companheiro em seis do Mez de Maio do anno prezente aonde andou escondido t os vinte dias do Mez de Junho, dia da Procisso geral do _Corpo de Deus_, em que determinava dar execuo o seu damnado, e abominado intento, para cujo effeito, por meio do dito seu companheiro alugou tres moradas de cazas no principio da Rua dos Torneiros, por onde havia de passar a dita Procisso, e n'ella acompanhando o dito Senhor, na forma do costumado pelos Senhores Reis d'este Reino, com tal apercebimento que uma das ditas casas ficassem com a dita porta para outra rua diferente por onde facilmente, depois do caso feito podesse escapar sem ser tomado, rompendo com uma alavanca de ferro as ditas trez moradas de cazas, para mais facil expedio da sua fugida. Mostra-se, que no dito dia da Procisso ao tempo que o dito Senhor chegou dita rua, e casas, e o Reo com a mesma rezoluo, e deliberao do animo, o estava esperando em um buraco, que para o mesmo effeito abriu nas ditas cazas, com a dita espingarda nas mos carregada dos ditos doze quartos, e um pelouro ervado com a dita peonha, e tanto que a Real Pessoa do dito Senhor, elle mesmo confessa, que se lhe representou uma _Superior Magestade do Ceo_, que lhe fez cahir das mos a dita espingarda sem poder executar o intento, que de antes tinha, e no mesmo dia se sahiu desfarado das ditas cazas, deixando n'ellas a dita espingarda, e alavanca, e vazos de peonha; e se foi ao postigo de Nossa Senhora da Graa aonde o dito seu companheiro o estava aguardando com dous cavallos, que j alli tinha preparados para sua fugida, e n'elles se tornaram ambos para Madrid. Mostra-se, que ahi se tornou o Reo a vr com os mesmos Ministros de Castella, que o haviam mandado dando-lhe outras desculpas de no effectuar o promettido por sua parte, e elles acceitando-lhas o tornaram a mandar ao mesmo effeito, com os mesmos passaportes, e promessas de aventejadas mercz, dando-lhe mais dous mil cruzados em dinheiro; e partindo o Reo com o mesmo intento, e deliberao, e o dito seu companheiro, o mandou diante a esta Cidade a buscar cazas aonde se podessem agazalhar, e que o fosse esperar ao Lugar da Povoa de D. Martinho, para que ambos podessem entrar mais escondidos na Cidade. Mostra-se, que o companheiro do dito Reo, uzando de melhor concelho _revelou tudo aos sobreditos Ministros da Justia_, do dito Senhor em os trinta e um dias do Mez de Julho, em que o Reo chegou ao dito logar da Povoa, o entregou n'ella prizo, e o Reo no mesmo dia fez inteira e plenaria confisso do seu damnado e deliberado intento, contestando em tudo o acima referido; e que fazendo-se diligencia, e visturia nas ditas cazas se acharam furadas, na forma referida, e n'ellas os dois vasos de peonha, escondidos no proprio lugar, que o Reo declarou, um d'elles ainda cheio, outro j diminuto, pelo que elle havia tirado, para ervar os ditos quartos e pelouro. No mostra o Reo por sua parte descarga alguma em sua defeza, sendo-lhe dado vista, e Procurador para allegar de sua justia e direito. O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposio de direito em tal caso, declaram ao dito Reo, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e haver incorrido no detestavel crime de Leza Magestade de primeira cabea, e como a tal o condemnam, e mandam, que com barao, e prego pelas ruas publicas, e costumadas seja levado rasto forca, aonde sendo-lhe primeiro decepadas as mos no Pelourinho morra enforcado de morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e n'ella feito em p, e em cinza, para que d'elle no fique memoria; e o condemnam outro sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Camara Real, e que seus descendentes hjam as penas, que por direito lhes so impostas: e esta Sentena se no publicar sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na frma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de 1647.--Marcham, Monteiro, Beja, Marz., Stacio, Porto. -------- Ao alvorejar da manh de 21 de Agosto de 1647, sahiu o regicida do oratorio, onde permaneceu tranquillo, j orando, j conversando affectuosa e christmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com fervor de lagrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus Christo, pai de misericordias, lhe perdoava, o padecente respondia que estava pedindo a Deus lhe tirasse d'este mundo uma filha que tinha, e c ficava sob o pezo da ignominia de seu pai. Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a cabea, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoo e cintura a corda por onde haviam arrastal-o. Levado, beira do padre, at ao atrio do Limoeiro, ahi mandaram-o estender-se sobre um esteiro, ao qual aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de geito que, ao repuxal-as, o no molestassem de modo que a vida perigasse. As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de colera, e premia os flancos da escolta. Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de Lucena. Domingos Leite estendeu os braos no cepo, e o carrasco decepou-lhe as mos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a distancia de duzentos passos. Do Pelourinho ao patibulo o suppliciado revelou enormes dores nos estorcimentos dos braos que jorravam sangue em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lagrimas, murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanas do ceo. Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouando-se-lhe nas espaduas, quando o corpo se inteiriava pendente do triangulo, fez um gesto significativo de ter cumprido a justia d'el-rei D. Joo IV. Faltava ainda o complemento da sentena. O verdugo cortou a corda. O cadaver baqueou no tablado. E logo dois ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da cidade, os quaes ahi estiveram expostos at que a podrido aconselhou o queimal-os, e arrojal-os ao Tejo. Assim acabou Domingos Leite Pereira, o mancebo ardente que se devotra ao duque de Bragana com patriotico desprezo da vida, e o marido brioso, que respeitra em si o esposo trahido, e odira no rei o adultero infamador de sua honra. CONCLUSO Pelo que de Domingos Leite Pereira est tudo concluido. Mas a narrativa no pode parar aqui. Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor. Oh! Roque da Cunha viu aquella tragedia, viu a cabea esqualida no poste da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do ceo, para onde o frade apontava com o Christo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da mutilao!.. Vamos rastrear os destinos de Angela, visto que a Providencia a no levou d'esta vida, quando o padecente lh'o rogava no oratorio. E, se no rastro escuro ou luminoso da amada e innocente creatura, resvalarmos aos lodaaes, pode ser que l topemos os personagens repugnantes de cujo destino o leitor nos pede conta. O livro hade chamar-se A FILHA DO REGICIDA. (_Nota final._) FIM NOTAS NOTA 1. Diogo de Alvarado foi grande tangedor de _tecla_, que o mesmo que de _orgo_. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no reinado de D. Joo IV. Est sepultado na egreja de Nossa Senhora dos Martyres, onde tem este epitaphio: _Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual falleceu em 12 de fevereiro de 1643_. Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade. Estas _Memorias_ referem-se antiga egreja arrazada pelo terremoto de 1755. D'este musico no encontramos outra noticia, nem d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz na _Lista de alguns artistas portuguezes_. (Lisboa, 1839). A referencia que acima se faz a _Guerreiro_, intende com o padre portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seu _Itinerario da Terra Sancta_, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os seus livros de musica. NOTA 2. Esta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE. D'estes nomes e appellidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre que decerto no ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e auctor do _Casamento perfeito_, seria o collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes est a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660. NOTA 3. _Memorias_ citadas. Concordam com a supposio de Manuel Faria e Sousa nos _Commentarios s rimas_ de Luiz de Cames, e nomeadamente _Cano_ VII e ao _Soneto_ LXXVII. NOTA 4. O fidalgo, que assim ameaou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezo da crte de Madrid, e recompensado por Filippe III largamente; porm, como pedisse uma graa que o rei lhe no concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobia fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se a _Historia Genealogica da Casa Real_, T. 5., pagina 270). Em seguida, como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a cora sobre a successo da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se a _Historia Genealogica da Casa Real_, T. 2., livro 3. pagina 521). Como lhe no rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiados, fez uns _Estatutos da Ordem de Avis_ em que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traas de se locupletar, pondo em almoeda as suas concesses. Eis aqui um dos noventa heroes de 1640! Quem os quizer contar leia a _Historia da Acclamao_ etc., por Roque Pereira Lobo. NOTA 5. Pedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relao para sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de appellido _Noronha_, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho. NOTA 6. O receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciao do fundador da dynastia bragantina, obriga-nos a dar cpia exacta de um autographo, que possuimos, de D. Joo IV: so os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu o _Testamento delRey D. Joo IV_ no tomo IV das _Provas da Historia Genealogica da casa real_ por D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem raso, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porm vir os traos fundamentaes d'esse documento, duvidar que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui est o traslado textual do testamento escripto do punho de D. Joo IV: Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faa pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvm. Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladaro os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta. Deixo que os meus bens livres sereparto por meus filhos conforme a cada hum tocar e peo ao Princepe lhe conserve as doaoens que tenho feito, e espero delle o faa e lhe acrecente outras visto que eu por no defraudar o patrimonio Real lhas dei to limitadas. Deixo aminha tera ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartir em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que so meus criados mando que seio (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes so os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesor. De Antonio cabide tenho inteira satisfao pello modo e zello com que sempre mecervio e asim peo a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfao, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quite e livre e que este lhe cirva de quitao. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetraro do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os fao villas com jurisdio a parte com todas suas doaoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doans pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaa emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade.[13] Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos. A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cervio meu das Rendas da casa de Bragana dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado. Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituio devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem. Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razo de suas acens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justia e a observancia della conserva as Monarchias mis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta aco. De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelo mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreos, e declarados, e peo ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doena como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimao que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cerviro nesta doena. Declaro que governei este Reyno com toda a Justia comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar. Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomear quando lhe parecer. Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir Raynha e ao Principe e porque da publicao delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fasso inventario delles, e os entreguem a Rainha. Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que est, e que se empetre hum breve do Papa com excumunho reservada para que seno trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmo, e faltando estas pessoas se hiro nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se no tire nunca das rendas da capella. A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e acrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra. Tenho mandado a Holanda empremir as obras de Joo Soares Rabello da qual Impreso lhe fao merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.[14] E como na observancia da Justia consiste a conservao do Reyno declaro que os Governadores das armas no tero nas Justias mais jurisdio que a que tem os capitaens de Africa. _Fim do testamento._ Quem estiver de pachorra confronte este modlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (_Hist. Genealog. da Casa Real_, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. Joo IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas as _Relaoens_ anonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de _ter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas_. O linhagista da casa de Bragana no satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viosa. Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunho para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villo espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, no deixou o terremoto sequer um livro! O autographo de D. Joo IV, aqui trasladado, pertenceu livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas. NOTA 7. Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte annos vamos collegindo crca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. o seguinte caso, salva melhor interpretao: O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. Joo II, e meia irm d'aquella menina, levou-a para o pao, e educou-a com esmero e carinho de irm. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. At que um dia, estando a crte em Santarem, a irm colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercao rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. Isso no!--replicou a mulher de D. Joo II--hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fr solteiro. N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capello que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irm d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II que era terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser av da noiva regeitada. NOTA 8. A rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao p do Pao da Crte Real, e seguia at ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Pao. N'esta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto ao _Sancto Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres_, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antonio era festejado todos os annos custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas necessidades. NOTA 9. notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na tradio, e consignado nas _Memorias_ colligidas por _Diogo de Paiva de Andrade_. D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisio de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. No faltou quem dissesse que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpra ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisra que cazasse com ella; e, tendo em resposta que s para amiga lhe podia servir, lhe castigra o dito com um testemunho. Houve votos de que sahisse publicamente na procisso do _Auto da f_; porm, o principe D. Theodosio embaraou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se no mudasse de proposito, deitaria fogo Inquisio; do que, sentido o bispo, se travaram de razes, e estas se atearam por maneira que o principe lhe deu de bofetadas. O certo que o conde no veiu a publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisio. Disse-se que o principe era muito avesso s baixas manhas do inquisidor, e no aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos mus portuguezes que padeceram em 1641. D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissima _Historia de Portugal_ (tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus estudos em sentido mystico, etc.. Se Diogo de Paiva no desfazia no genio pacifico do primogenito de D. Joo IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protesta contra o ascetico fanatismo do principe; e j o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe que _s um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que elle seria principe do outro mundo_, referindo-se ao Brazil. Era mais _calemburista_ que asceta o irmo de Affonso VI, quer-nos parecer. NOTA 10. O palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao supplicio de D. Jos Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto av do ultimo duque de Aveiro, e habitou o palacio de Pedroios, no local onde ainda hoje se v afogado em cazinholas um padro commemorativo do delicto. NOTA 11. D. Maria de Castello Branco, filha de D. Joo de Castello Branco, alcaide-mr da villa de seu appellido, cazou com Ferno Cabral, alcaide-mr de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle foi sentenciada a morrer morte natural por justia sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres parentes. _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade._ No marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. Joo II. Este Ferno Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. Joo I fizera alcaide-mr de Azurara. Computando o lapso das geraes podero os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a poca da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua av paterna de Micer Anto Peanha, almirante, que viveu no comeo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil. NOTA 12. Estas miudesas do meu _M. S._so corroboradas com a seguinte noticia extractada das _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade_: Vicencia Correia, chamada depois _Dona_ Vicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastio, e to perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da me e habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leito, com o qual casou; e este fazia tanta estimao da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que ento era do Juizo de India e Mina e elle no quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leito de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e no por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraioado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Pao, do conselho de Portugal em Madrid, e l teve grandes estimaes, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava. Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo _Manuelinho de Evora_, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como pea desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. uma satyra intitulada _Quadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro_. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leito,[15] o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realam em Portugal pela sua dedicao. Diogo Soares tem um livro na mo com esta lettra: _Este livro ensina os modos_ _De roubar os povos todos._ Miguel de Vasconcellos rev-se em uma taa de vinho com esta lettra: _Nos bofes fel e vergonha;_ _E em ser ladro atrevido_ _Sahi a meu pai cuspido._ Vai Francisco Leito com esta lettra: _Nasci de quem nasci,_ _Cazei com quem cazei,_ _E o prazo renovei_ E margem: _Filius meretricis_. Vae o conde do Prado e diz este mote: _A missa ouo em S. Roque,_ _Beijo o cho antes que acabe,_ _A teno s Deus a sabe._ Thomaz Dibio glosa-lhe o mote: _As palavras so de um sancto;_ _Mas as obras joeiradas_ _So malicias refinadas._ O marquez de la Puebla pintado a espreitar por uma porta com este mote: _Desterrado y ocioso,_ _Miro solo la destresa_ _Con que hurta su Altesa._ E diz D. Jorge de Mascarenhas: _Com capa de zelo vosso_ _Muito dinheiro ajuntei,_ _Sem elle e sem vs fiquei_ Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mo, tem esta lettra de D. Antonio: _Mentir, calar, e fingir_ _Verbos de que tenho usado_ _Me pozeram n'este estado._ O mote de Mathias de Albuquerque diz: _Sem tiro e golpe de espada_ _A Pernambuco larguei,_ _So e rico me fiquei._ Mote do conde da Vidigueira: _Estes como eu fugiram,_ _E escaparam por taes modos,_ _Que eu vim a pagar por todos._ Diz o bispo do Porto: _Sou de gerao humilde;_ _Mas mui sagaz e astuto_ _Com duas pedras de p..._ Tem ementa margem da trova, cuja ultima palavra um _calemburgo_ que finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo _deputar_. Diz a glossa: _Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo sua vontade_. Em livro mais de molde a demoradas exhumaes historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo _Manuelinho de Evora_. A nota, que j se vae delongando, no despecienda como amostra do genero to fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restaurao, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios do _Manuelinho_. NOTA 18. Provavelmente, n'este anno de 1647, j Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. Joo IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como cauo unica e segura fuzo iberica; por quanto, no tendo Philippe IV filho varo, quelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porm, a superveniencia de filho varo, reinariam em distinctos reinos, com alliana offensiva e defensiva. Alm d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. Joo IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. Joo IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quo depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restaurao de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. Joo IV. _Historia de Portugal_, tomo 6, pagina 106 e seguintes. NOTA 19. Narra fr. Claudio da Conceio, nomeando os filhos de D. Joo IV: Teve fra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de maro de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalas de Carnide, por ordem de el-rei seu pae a receber as instruces da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. Joo IV,[16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que asss prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: _Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vs, dando-vos a minha beno acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vs. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos no vr._ (Traslada os legados do rei filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, irm; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A crte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvao regia, respondeu: que no sahiria da clausura seno em postas a tomar outro esposo, pois que j o tinha ha muito tempo... Depois d'outros lanos assim piedosos, remata fr. Claudio: Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificao a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade _Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg._Da me de D. Maria no houve frade nem chronista que sequer nos contasse como l se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan. NOTA 20. O sr. rei D. Joo IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse: _vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui to rico que podesse ter outro similhante_. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Pao com os seus cabellos, por que elle os no conservava, e todos se tosquiaram. _Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. Jos._ NOTA 21. Esta alluso epigrammatica do christo novo requer illucidao necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado Joo Francisco de Lafeta ou Lafet. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. indeciso nos linhagistas se o successor de Joo Francisco era filho da fidalga, se da judia. certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. Joo III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Loureno de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: Joo e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que l chamavam por alcunha o _conde da barba rapada_. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de Joo Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhes, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovo de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianas por diante, o appellido Lafeta absorvido nos mais illustres das raas historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haver em Portugal trez familias tradicionaes que no estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste. NOTA 22. Bem poderia referir outras muitas precaues que este principe (D. Joo IV) tomava para no ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, no podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes no devia alguma obrigao em lhe porem a croa na cabea, pois lhe era devida, afim de que se no julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid. _Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. Jos._Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Loureno Caminha em 1821, sob o titulo: _Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc._Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva que _escaparam na edio numerosissimos erros que s vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos_. exactissima a censura. Possuo a mesma carta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa. O que raras pessoas tero visto sem lhe saberem a procedencia, a pea explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. Joo IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se: _Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragana D. Theodosio a seu filho o sr. D. Joo o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal_. attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: ...Resta que vos faaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, so invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiana com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, no ainda tempo d'isto; vir ao diante, em que isto se vos estimar muito. Agora, o que n'este particular fazeis, to fra est de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que so avisos divinos, ao diante lhe viro assim a parecer. At agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha s dois mezes que o so. No vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vs; mas no converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por merc. Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perdero o respeito devido como a Rey; e, se assim fr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios no soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes dar ousadia a maiores. Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendaro os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabaro de damnar, porque os mais no vos ho de guardar e defender; e mais certo que vos ho de vender e trahir, e, se poderem, matar. Assim predispunha o secretario das mercs o animo do rei contra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou servial, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollao dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon. NOTA 23. Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, no se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. Joo II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homens _para testemunhas_ do feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Ea, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suas _Memorias_: _foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes foras, e por isto El-Rey D. Joo II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraou por detraz_. Eis aqui a singular misso da _testemunha_! E, como prova da coragem de D. Pedro d'Ea e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandra. Pelo que, El-Rey o mandou vir crte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o no acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza no queria crr que elle no tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse merc de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: que tomra elle ser um dos dois. E D. Pedro lhe respondeu: No fra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro. NOTA 24. No impertinente a noticia do processo de empeonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: Tomaro licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (no alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremero o sumo com hua empressa, que se receber em hua vazilha de vidro, precatando-se de no lhe toccar com as mos, a qual vazilha ser exposta ao sol no mez de julho por espao de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a fora; e outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha at que o sumo se engrosse a modo de unguento que ser pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expr ao sol, ho de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixaro assim aberto por espao de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que so sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias cres, muito peonhentos, e tanto mais o sero quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes sero metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que ter uma azlha por cima pela qual poder entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haver huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haver hua fena ou abertura estreita que dar em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se enchero de oleo de Escorpio; feito o que, os sapos se metero na vazilha que ser bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo d em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se far hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercar toda ao redor, na largura de dois palmos at dois palmos e meio, em cima da qual se accender um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha ir aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura no acostumada, de sequiosos e suados, arremettero a beber o olio de Escorpio dos Bebedouros, que lhes far bomitar toda a peonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste garrafa, continuar o fogo, no mesmo estado por espao de 4 a 5 horas, e assim o deixaro athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, tero em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passar pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparo e deixaro assim aberta por espao de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se podero chegar vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poder ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, ps de ganos de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato. de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de ps de gano e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimao dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillao de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praas, e embarcaes, e de alguns outros para as alegrias e recreaoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do comeo do seculo XVIII, : _Lioens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo est a conservao do trem de Artelharia, Armas e Munioens d'ella, e as fortificaoens das Praas de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia_. Um homem d'este vulto, se acreditava na peonha dos ps de gano e do cerebro dos ratos, porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje. NOTA FINAL As pessoas lidas na historia patria esto affeitas a encontrar, n'este caso da tentativa de morte contra D. Joo IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamado _Manoel da Cunha_, e no _Roque da Cunha_, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios novella com aggravo da historia. injustia que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (_Portugal restaurado_) Fr. Claudio da Conceio, (_Gabinete historico_) D. Antonio Caetano de Sousa (_Historia Genealogica da Casa Real Portugueza_), Roque Ferreira Lobo, (_Historia da acclamao de D. Joo IV_) Ferdinand Denis, (_Portugal Pittoresco_) Joo Baptista de Castro, (_Mappa de Portugal_) o sr. Viale, (_Resumo da historia de Portugal_) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (_Historia de Portugal_). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite era _Manuel Roque_, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e nomeadamente as relaes escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador laborioso encontraria, cerca d'este assumpto, afra a citada noticia de _Fr. Francisco Brando_ impressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma de _Antonio de Sousa de Macedo_, e outra de _D. Francisco Manuel de Mello_. So duas peas declamatorias: rethorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso do chronista-mr do reino. O conde da Ericeira no o leu; que farte revela ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de Guimares n'este trecho da sua relao: _Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de Guimares, que sempre abominar to monstruoso aborto_. E em outra passagem, j referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fra procurado em Guimares. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanos o nomeia _Roque da Cunha_, e em um d'elles, por signl, a critica de Brando desmerece grandemente dos creditos alcanados n'outros escriptos. Seno, vejam: _Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentena no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou justia, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. Joo III, de que na capella real ha particular confraria, accudiu vingana merecida contra os legitimos reis d'esta cora_. FIM DAS NOTAS [1] O pai d'estes fidalgos, to acceitos a D. Joo IV, foi D. Joo da Silva, conde de Portalegre parcialissimo de Philippe 2. de Hespanha, como filho que era de castelhano, contra D. Antonio Prior do Crato, e contra D. Catharina, duqueza de Bragana. esse mesmo o auctor _Dell'unione del regno de Portogallo alla corona di Castiglia_, publicado com o pseudonimo de _Conestaggio_. No admira que os filhos de to faccioso castelhano se no bandeassem com os patriotas de 1640; espanta, porm, que D. Joo IV os chamasse ao seu despacho. [2] Escuso dizer ao leitor que todas estas ruas e bcos desappareceram no terremoto de 1755. Ha memoria d'ellas em Joo Baptista de Castro (_Mappa de Portugal_) e outros topographos de Lisboa. [3] O sr. M. Pinheiro Chagas, _Historia de Portugal_, tomo 6, pag. 291, e o sr. A. Jos Viale no _Novo epitome da Historia de Portugal_ pag. 158. Veja _Monstruosidades do tempo e da fortuna_ por fr. Alexandre da Paixo, _Ms._ da Bibliotheca do Porto--e Vida de Affonso VI escripta no anno 1684, Porto, 1873. [4] _Port. Rest._ T, 2. pag, 906. [5] O tratamento de _senhoria_ foi juridico para as donas, moas da camara e aafatas, por alvar de 17 de maio de 1777, quando j de antes a _excellencia_ era o tratamento usual. Na crte de D. Joo IV, a lisonja e a urbanidade no hesitariam tratar de senhoria as aafatas, e as amantes do rei em perspectiva. [6] Carta ao principe D. Jos. [7] Em _Nota_ que hade ser posta como confirmao d'estas miudezas ver o leitor que no tem raso para se maravilhar da omisso dos historiadores, salvo se lhe no desconhecido um opusculo de fr. Francisco Brando, chronista-mr do reino, opusculo publicado anonymamente em 1647, com este titulo: _Relao do assassinio intentado por Castella contra a Magestade d'el-rei D. Joo IV, nosso Senhor, e impedido miraculosamente_. [8] Os secretarios de estado tiveram _excellencia_ de juri desde a lei de 29 de janeiro de 1739. Os mordomos-mres j recebiam _excellencia_ no tempo de D. Joo IV. Em 1648 o padre Antonio Vieira tractava de _vossa-merc_ em cartas o secretario de estado Pedro Vieira da Motta. [9] Relao do assassinio intentado por Castella contra a Magestade d'el-rei D. Joo IV, nosso Senhor e impedido miraculosamente. Lisboa 1647. [10] _Relao do assassinio intentado por Castella contra a Magestade de El-rei D. Joo IV nosso Senhor, e impedido miraculosamente._ Lisboa, 1647. [11] _Obra citada._ [12] Ao meu erudito amigo, o sr. Innocencio Francisco da Silva devo o favor do traslado, cuja orthographia se transcreve fielmente. [13] O sr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, escriptor to elegante quanto vernaculo, no seu estimavel livro intitulado: LES CONTEMPORAINS, etc. a pag. 549 nos d noticia de outro filho, bastardo de D. Joo IV, nos seguintes termos: _Un document officiel pass par le_ Rei d'Armas Portugal _ la famille des_ Braganas _de Cette, gentilshommes de la province du Minho, pour leur permettre de porter les armoiries du duc D. Alphonse I., donne Jean IV un autre fils illegitime, non reconnu, appell Alphonse Fayo, qui fut cure (abbade) de Baltar. Nous avons lu ce document qui constate l'origine de cette famille, la seule en Portugal qui porte le nom de Bragance. Le dernier descendant est M. Emmanuel Leite de Bragana Correia. Sousa dans l'histoire de la maison royale ne fait point mention de ce fils de Jean IV; mais le document officiel est positif cet gard_. At aqui o nosso eminente escriptor Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos. O representante d'esse filho illegitimo de D. Joo IV, o sr. Manoel Leite de Bragana Correia, actualmente... administrador do correio de Felgueiras. No nos parece que esteja dignamente collocado este fidalgo to consanguineo do sr. D. Luiz I. Aviso aos seus reaes parentes. A direco do correio de Felgueiras deve render 480 ris por dia. [14] Tinha escripto, antes de Italia, Frana, que riscou. [15] No se confunda com Francisco de Andrade Leito desembargador do Pao, que fez o discurso da acclamao de D. Joo IV. [16] Este imperador da Allemanha havia morrido em 1619, depois de ter abdicado em seu primo Fernando, quando o imperio era dilacerado pelos turcos e pela revolta dos bohemios. Presumimos que a freira de Carnide fosse filha illegitima do imperador, porque, mingua de legitimos, abdicra no primo. Notas de transcrio: Na edio original as notas 13 a 17 no fim do livro no aparecem; A formatao das notas no final do livro foi normalizada; No corpo do livro as notas 5 a 8 estavam mal identificadas, tendo sido corrigidas nesta transcrio. Na nota 6. perto do final aparecia erradamente 1 de _setembro_ de 1755 como a data do grande terremoto. Foi corrigida a data para 1 de _novembro_ de 1755. As erros apontados na errata contida no final do livro (transcrita abaixo) foram corrigidos nesta edio. ERRATAS Pagina 38, linha 22, onde se l: sua _estola_, leia-se: sua _estofa_. 41, linha 9, onde se l: _o cauteloso_, leia-se: _como cauteloso_. 53, linhas 14 e 15, onde se l: _um feito, que_, leia-se _a um tal feito; que_. 81, linha 8, onde se l: nos _traz_, leia-se: nos _trazem_. 123, linha 25, onde se l: _corfirmou_, leia-se: _confirmou_. 161, linha 31, onde se l: _cavalgamos a noite_, leia-se: _cavalgamos noite_. 186, linha 28, onde se l: elle _tremia_ e tremia, leia-se elle _temia_ e tremia. End of the Project Gutenberg EBook of O Regicida, by Camilo Castelo Branco License: Share Alike