Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) O INFERNO AUGUSTO CALLET O INFERNO TRASLADADO PARA PORTUGUEZ E PRECEDIDO DE UMA ADVERTENCIA POR CAMILLO CASTELLO BRANCO PORTO TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA NACIONAL 2, Rua do Laranjal, 22 1871 ADVERTENCIA DO TRADUCTOR N'este memoravel anno de 1871, o sacerdocio militante da christandade lusitana subiu aos baluartes mais desamparados, aos pulpitos de grande parte do reino, e desembestou certeiras frchadas ao rosto da impiedade. No pulpito da egreja de S. Martinho de Cedofeita, d'esta cidade do Porto,--que no a mais peccadora, porque a menos ociosa,--discorreu apostolicamente um padre italiano, que eu no ouvi. No fui ouvil-o, porque j tenho muitissimos annos e bastante leitura para conhecer que direitos tem Deus e o proximo ao meu amor. No o fui ouvir pela mesma razo que evito alguns livros prohibidos, receoso de que elles estremeam os alicerces da minha f. No fui ouvil-o, emfim, porque ha um sermo que eu sei de cr, e repito quando tenho sde de f, ancias de misericordia, tibiezas de esperana: o sermo da montanha, prgado aos pobres por nosso Senhor Jesus Christo. Este sermo ainda meus filhos o no sabem; mas ho de aprendel-o quando as primeiras lagrimas lhes tiverem delido as manchas escuras do intendimento. preciso ter chorado para comprehender a bem-aventurana dos que choram. Jesus Christo, se houvesse dito aquellas divinas palavras aos felizes, no seria intendido no apostolado, nem seguido na vida, nem chorado na morte, nem confessado no martyrio. Levantei, pois, o pequenino e fragil oratorio das minhas preces humildes sobre a confiana do divino Pae; e, se em minha alma sinto o desejo de no ter nascido para dres deseguaes ao alento de cada homem, reconheo que o oratorio do peccador est tanto vista de Deus que o anjo da paciencia abre as suas luzentissimas azas sobre os meus abysmos escuros. Ora eu sei de triste experiencia que os discursos do missionario em Portugal me desataviam o espirito das vestes graves com que costumo entrar nos templos. Na minha mocidade estudei grammatica, fui examinado em logica, decorei a inutilissima cousa chamada rhetorica, cursei muito pela rama algumas aulas de theologia; finalmente, poli quanto pude a razo para que se espelhassem n'ella os preceitos e conceitos dos oradores sagrados. Pois acontecia que todos aquelles predicados, desde a grammatica de Lobato at theologia do bispo de Leo, c no meu interior despiam a casaca e a dalmacia venerandas, para galhofarem d'uns certos padres que se imaginavam favorecidos da infuso scientifica, uma s vez milagrosamente concedida pelo Espirito Santo aos santissimos ignorantes do Cenaculo. Arguiam-me de indiscreto os bons amigos que me ouviam deplorar a decadencia da oratoria sacra, justificando o proposito pelos resultados, a unco do prgador pelo soluar do auditorio, a fertilidade da palavra pela emenda das culpas. O soluar do auditorio era to acceitavel e prestadio como as lagrimas no theatro, que denotam, quando muito, coraes sensiveis; aquillo, porm, de emenda das culpas que vinha desconceituar a argumentao dos meus amigos. As culpas! o desconcerto da vida, a irreverencia a Deus, o desamor ao proximo, as intranhas descaroadas do rico, a rebellio cubiosa do pobre, a mo que se esquiva em levantar da lagem o orpho--estas e outras ms fibras do corao humano poder retemperal-as a consciencia illustrada; mas a consciencia espavorida pelo medo dos castigos eternos, essa no. E os missionarios, que ludibriavam a minha devoo ou curiosidade, demonstravam a preciso de sermos continentes, sobrios, humildes, caritativos, christos emfim, para no sermos eternamente refervidos no lago de sulphur candente. Eu nunca ouvi dizer na casa da orao que a providencial justia tem o seu tribunal em meio dos vivos; que o vicio deshonra, infama, e tolhe o goso dos bens d'esta vida; que a repulso do delinquente um castigo; que a sociedade pune primeiro que a lei; e que, se a justia dos codigos algumas vezes erra, a justia complexa da opinio publica mantm a disciplina do supplicio, invisivel mas exulcerante na consciencia do culpado. Nunca ouvi missionario que me parecesse mais illustrado que a maioria dos seus ouvintes, nem vi espectaculo onde reluzissem mais vivos e tristes reflexos da edade-media. Historias horrendas e s vezes esqualidas de castigos infernaes; immerses em caldeiras rubidas das lavaredas; corpos espedaados por drages e logo recompostos para nova e eterna dilacerao; imborcaes de peonha na bcca dos gulosos; amplexos de serpentes escamosas de brazas n'aquelles que lubricamente deleitaram os corpos n'este mundo: era isto, no era o penetrante pejo do vicio que chamava aos olhos do auditorio as lagrimas restauradoras. Mas, ao fechar da misso, o peito oppresso do peccador atterrado desafogava-se na esperana de illudir o diabo com uma confisso geral e um profundo pesar na hora da morte, visto que o missionario promettia o co aos que, nos ultimos instantes, se sentissem vivamente magoados de terem sido perversos. O co! E que promette o padre aos justos, aos que desde a juventude at decrepidez apenas prevaricaram venialmente? o co. E aos apostolos que vo fogueira offerecendo ao divino martyr o tributo de suas agonias? o co. O co para o facinora contricto no ultimo momento, e o co para o santo de toda a vida! O co para o martyr e o co para o algoz que houve remorso de o haver matado! f, revrbero de Deus, estarias apagada, se no fosses divina! Em compensao, porm, que profusa prodigalidade de infernos alm-tumulo! Infernos legendarios, imitaes do grego, do egypcio, do indostanico, todos os infernos, excepto o verdadeiro--o inferno d'esta vida, a corrente do remorso ao pelourinho da consciencia, e a desgraa implacavel ainda para os que no tm consciencia nem remorso. Pois esta doce e misericordiosa alliana de Jesus com os attribulados, com os frageis por compleio e por mal dirigidos na mocidade, comporta em si a hypothese de Satanaz, que nos espia o ensejo favoravel e nos faz cambap s suas voragens? Comprehendem acaso que Deus se no amerceie de homens fraquissimos, vencidos por um gigante que no coube no co? No vm que Lucifer se atreveu com o Creador, e, depois de vencido, teve por homenagem o reinado de um mundo, e o generalato de legies immensas, todas a manobrarem na terra para vencerem... a quem? um descendente de Ado, do logrado do Eden, Ado, que tinha em si a plenitude da fora, da sciencia; a fora do corpo ainda aquecido da mo de Deus; a fora da alma iriada dos reflexos do seu Creador! E o homem, debilitado pelo attrito de seis mil annos, que querem que elle seja? Porque lhe decretam a elle--ao fraco--o inferno, se Deus apenas condemnou o forte a viver do suor do seu rosto? Estas e outras meditaes, dignas de que Deus m'as perde, se a palavra no friza bem com a lisa inteno, me preoccupavam, quando li este livro de Callet, com certo medo de violar o meu salutar costume de no lr livros prohibidos, tirante os uteis, os desenfastiados e principalmente os instructivos. O auctor, comquanto excommungado, usou a christ bem-querena de prevenir-me de que a sua obra estava condemnada. Decidi logo que o livro no seria de todo mau. E, depois que o li, reflexionei que os cardeaes seriam mais discretos esquivando-se a dar voga a escriptos que andariam menos procurados sem a chancella da prohibio. A mim me quer parecer que o _Inferno_ de Callet sahiria com fros de orthodoxo da assembla dos primitivos christos, quero dizer, dos seguidores de Jesus Christo anteriores quella pestilencial sciencia chamada Theologia: tal a pureza, luz, amor e christianissimo espirito que ungem as paginas d'este consolativo livro. Augmenta-lhe o valor o encontrar-se com os missionarios portuguezes, cada vez mais attidos rhetorica ardente do inferno, como se elles e ouvintes no houvessem dado ainda um passo desde que dia, desde que a razo fez pazes com a f illustrada. to verdade que este systema de moralisar nada aproveita, quanto certo que nas aldeias, onde mais trovejam as ameaas do missionario, encontrareis o demonio da corrupo fazendo tregeitos ao padre s portas das cabanas, onde o vicio avulta mais esqualido com a hediondez dos seus farrapos. No melhorareis a sociedade a prgar. E todavia, serodios apostolos, na vossa sinceridade, creio eu, por no ter grande confiana na vossa illustrao, e me ser muito custoso suspeitar que sois hypocritas. Ora lde este livro que se vos offerece em portuguez correntio, e dizei, se, apagado o inferno, no ser possivel accender pharol mais humano e mais divino pelo qual se norteie a posteridade da peccadora Eva, esta immensa familia d'hoje, estygmatisada seis mil annos antes! Julho de 1871. _Camillo Castello Branco._ PREFACIO DA SEGUNDA EDIO Aos 20 de Junho de 1862 a sagrada congregao do Index condemnou em Roma este livro cerca do inferno. Caridosamente advirto a leitoras e leitores que temos aqui fructo prohibido. Perguntam-me o que vem a ser a congregao do Index? Eis-aqui o pouco que sei d'isso: o papa Paulo III publicou em 1539 um catalogo de livros cuja leitura prohibiu aos fieis sob pena de excommunho. Este catalogo, chamado Index, foi approvado pelo concilio de Trento, enriquecido de numerosos artigos, e por elle, antes de dissolver-se, recommendado a Pio IV. O papa Sixto V, que no tinha vagar para lr, creou, mais tarde, uma commisso permanente de cardeaes encarregada de examinar e condemnar livros. Esta commisso de cardeaes o que se chama a sagrada congregao do Index. Convm saber que Paulo III, velho amigo de Alexandre VI, e tanto, como elle, muito desacreditado por seus vicios, desmembrou dos dominios de S. Pedro as cidades e territorios de Parma e Placena que elle deu com plena soberania, e com titulo de ducado, a Pedro Luiz Farnezio, um dos seus filhos naturaes. Este tal fundou a inquisio, instituiu a ordem dos capuchinhos, exercitou a astrologia, fomentou e applaudiu a carnificina dos vandezes. No discuto similhantes actos; recordo-os porque elles se ligam mesma ida que creou o Index. Pio IV, a rogo dos Jesuitas, acrescentou algumas contas ao rozario, augmentando-lhe as virtudes; fez estrangular o cardeal Caraffa, sobrinho do seu predecessor Paulo IV; fez decapitar o duque de Palliano, irmo d'aquelle cardeal, e outros muitos personagens cujas cabeas ensanguentadas, por sua ordem, foram expostas sobre a porta do castello de S. Angelo; abafou o processo instaurado em Espanha contra o clero accusado de libertinagem; mas em compensao accendeu por toda a parte a guerra contra os herejes. Accuzam-no de haver beneficiado mais a sua familia que ao povo romano. Eu por mim no lhe contesto as virtudes, e menos ainda a orthodoxia. Na famosa bulla de 24 de Abril de 1564 declarou excommungados, _ipso facto_, quem quer que no futuro imprimisse, vendesse ou lesse algumas das obras inscriptas no Index pelo concilio ou por elle mesmo; e bem assim quem, no as tendo lido, as emprestasse ao visinho, ou, sem as ler ou communicar a alguem, as fechasse na sua bibliotheca ou n'algum esconderijo da sua casa. Urgia, pois, queimar os livros prohibidos quem quizesse evadir-se excommunho, e em seguida condemnao eterna. Como no podesse queimar os auctores, Pio IV desforrava-se fazendo-lhes queimar as obras. A vida de Sixto V bastantemente conhecida, no tem que vr com a de S. Pedro; mas sobejavam-lhe intelligencia e indole sufficientes ao exercicio do poder absoluto. Era manhoso e cruel este grande papa, cujo systema de governar compendiou em duas palavras: po e po. Dispensam-se pois os povos de pensar, como coisa perigosa: bastante que elles no morram de fome e que tremam sempre diante do algoz. Depois erijam-se obeliscos e edifiquem-se templos. Este papa mandava decapitar os padecentes debaixo das suas janellas, antes de sentar-se meza, dizendo que isto lhe abria o appetite. As cabeas dos suppliciados, que elle expunha e deixava apodrecer aos olhos dos caminhantes, ameaavam de peste a cidade. Apezar dos juizes, fez enforcar um mancebo de 16 annos por haver resistido aos quadrilheiros que o prenderam. Ordenou que cortassem as mos e que traspassassem a lingua d'um auctor epigrammatico. Excommungou a rainha Isabel, desquitando a nao do juramento de fidelidade; excommungou o rei de Navarra, o principe de Cond e o rei de Frana, exaltando at ao delirio o fanatismo dos partidarios da Liga; e depois do assassinio do desgraado Henrique III, elogiou em pleno consistorio Jacques Clement, comparando-o a Judith e Eleazar, debeis mas fieis instrumentos do Deus dos combates. E como signal sensibilissimo de sua terna solicitude pela salvao das almas, restabeleceu ao mesmo tempo o santo officio e cumulou de indulgencias a confraria do Santo Cordo. Era proprio d'este grande e devoto papa continuar a guerra declarada por seus predecessores razo humana e liberdade da consciencia, instituindo de par com o santo officio a congregao do Index. No cuideis, porm, que os livros condemnados por esta congregao fossem lidos pelo papa ou sequer pelos cardeaes encarregados d'isso. Por via de regra os cardeaes nada lem. laia de Sixto V, encarregavam outros d'esse officio. volta da congregao do Index formigavam monges e obscuros theologos de toda a parte, chamados consultores, a quem incumbia o encargo quasi sempre fastidioso de lr obras novas. As formidaveis sentenas do Index, mediante as quaes uma familia inteira era excommungada e condemnada, promanavam do relatorio d'estes consultores: tal era a sorte de quem recusasse queimar um cartapacio jansenista, herana de av piedosa, ou as _Maximas dos Santos_ de Fnelon, ou os _Pensamentos_ de Pascal, ou as _Reflexes moraes_ de Quesnel, embora approvadas pelo cardeal de Noailes, arcebispo de Pariz, ou a _Theologia_ de padre Lequeux--primeira edio--ou a _Philosophia_ de Cousin. Pelo que me toca, julguei que o inferno uma concepo immoral, profunda e forosamente immoral pelas razes que adduzi. Tambem mostrei, a diversas luzes, o perigo de similhante crena para o genero humano. Por isso fui condemnado em Roma. Optimamente! Agora exijo que me respondam. Graves e leaes so as minhas objees: o decreto do Index as deixou subsistir em todo o seu vigor. Quando a soberania temporal do papa, que no dogma, deixar de absorver os esforos todos dos defensores da f, espero que elles tenham vagar de cuidar no inferno, que um dogma, e dogma tanto em perigo e to vacillante--fiquem-no sabendo--como o throno de Paulo III, de Pio IV, e Pio V. INTRODUCO DOGMAS HEBRAICOS crena anterior prgao de Christo, quanto ao texto, mas diversa do espirito do Evangelho, a eternidade das penas. Prende esta crena com outros dogmas rabbinicos, to obscuros quanto descaridosos, que a Egreja nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da theologia christ. Podemos reduzir aquelles dogmas a cinco, consubstanciados todos no Inferno. Vem a ser: a Rebellio de Satan, o Castigo de Satan, o Paraiso terreal, a Maldio dos homens, o Povo de Deus. No intento esquadrinhar o sentido philosophico de taes dogmas: tal canceira, superflua para leitores instruidos, seria insipida e inutil para os ignorantes. Que Satanaz, inferno, peccado original, etc., sejam ou no horrendos symbolos do antigo pantheismo asiatico,--expresso viva d'um systema de methaphysica mais terrivel que especioso, onde liberdade e mal se confundem, e o nada divinisado tem consciencia de si, e Deus quasi deixa de ser--questes so essas proprias de academias. Taes dogmas para mim so o que letra significam; sei d'elles o que nos ensinam; vejo-os como nos mandam vl-os, como a multido os v, coisas reaes, pessoas verdadeiras, e no chimeras. Considero-os pois sob a frma com que elles, ha muitos seculos, influem no genero humano: e no ha mais seguro modo de lhes apreciar o valor moral. Entremos na exposio, clara quanta fr possivel, d'estes dogmas mysteriosos. I Rebellio de Satanaz A historia de Satanaz no se encontra na Biblia nem no Evangelho. Passou tradicionalmente da synagoga Egreja. No Thalmud e nos Padres que vem escripta. Satanaz era um anjo--como quem diz um espirito incorporeo, um spro de Deus. Pureza, fora e beno eram o principio e constituio de sua essencia. Estava elle no ceo resguardado de exemplos e conselhos maus. Creado para o bem alli vivia em condies em que no possivel conjecturar-lhe intenes ms, contemplando Deus rosto a rosto, actuando e reclinando-se em seu seio, testemunha intelligente d'aquella superlativa sabedoria, bondade e omnipotencia que transpe espao e tempo. Infelizmente Satanaz era livre e peccou. obra sua o mal que antes d'elle no existia. Concebeu-o elle, e--caso estranho!--produziu-o alli mesmo no ceo, em meio dos resplendores increados, e eternas bem-aventuranas, e depois quiz-lhe como a seu, e propagou-o por entre os anjos. Este peccado, alis inqualificavel, visto que lhe no conhecemos a especie, , como vou demonstrar, o verdadeiro peccado original. a primitiva e inexhaurivel fonte de dores do genero humano, posto que ainda no houvesse genero humano na desconhecida poca em que elle perturbou o co. Todos os transtornos do universo, mal physico e mal moral, aquelle peccado que os explica. Saibamos como Satanaz foi castigado. II O Inferno Deus no quiz anniquilar Satanaz nem perdoar-lhe. Creou o inferno, e precipitou-o l com os seus cumplices. Fogo, frio, esvahimentos de fome, tedios da saciedade, golpes de ferro, trances de agonia, inveja, remorsos, tudo isso no basta a dar-nos muito em sombra ida dos tormentos d'aquelle abysmo. Cora-lhe o horror no ser ahi conhecida a morte. Se a morte l podesse entrar, a esperana iria com ella, deixando entrever o nada como acabamento de to enormes penas. Se, porm, foi recusada a Satanaz esta miseravel consolao, goza-se de outra em desforra. Deus, que o reduziu desesperao, deixou-lhe a faculdade de o molestar, atravessando-se-lhe nos intentos, contrariando-lhe as leis, multiplicando e perpetuando o mal por toda a parte, salvante o ceo. o inferno o senhorio de Satanaz; mas no cabe l. -lhe toda a creao campo franco para a sua malfeitora actividade. Verdade que leva comsigo, onde quer que v, a sua immortal tristeza, e, pelo tanto, toda a parte lhe inferno. No obstante, incomprehensivel que elle de l sahisse, se lhe no fosse algum hediondo regalo n'isso de fazer tudo quanto quer, excepto o bem--poder singular que Deus lhe concedeu, e elle exercita incansavelmente, seu prazer unico, necessidade propria da sua desgraa, e que hade durar tanto como elle. Tal o castigo de Satanaz. Crime e castigo so por egual espantosos e inintelligiveis. Agora, vejamos o que d'ahi resulta. III Paraiso terreal No segundo e terceiro capitulos do _Genesis_, refere Moyss a creao e queda do homem. Esta breve passagem foi diffusamente glossada por hebreus e padres da Egreja, e raro haver quem a no haja ouvido explicar do pulpito, como eu brevissimamente a vou explicar, acrescentando-lhe reflexes minhas. Ado e sua companheira tinham recebido no Eden uma lei moral simplissima e muito clara: era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella manso de delicias, tirante o fructo d'uma s arvore: feito isto, a sua felicidade seria perfeita. Conta-se que elles estavam alli mais innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os ancios d'hoje em dia. Obedecia-lhes a natureza e elles comprehendiam-lhe a voz. Cuidados nenhuns, nenhumas lagrimas, primavera eterna, e a mocidade immorredoira em todo o seu ser. Deus folgava descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem; e ento lhes mostrava seu rosto e lhes fallava. Entretanto Satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da Sciencia, cujo fructo lhes fez comer. No se corromperam per si mesmos como Satanaz; mas eram livres e o tentador estava alli. Quem tinha seduzido os anjos como deixaria de seduzil-os a elles? Que consideraes o reteriam? No receia Deus por que Deus lhe no pde aggravar o supplicio, pois que esse supplicio eterno, e o inexprimivel horror de tal castigo consiste na eternidade d'elle. Pelo que respeita piedade, sentimento que Satanaz no conhece, pois que Deus lh'a no mostrou a elle, o primeiro de todos os seres que a necessitra. semelhana das outras creaturas, tem smente aquillo que recebe; e o que brilha em si no o amor divino, a divina colera que o conserva devorando-o. Quaes foram as consequencias da queda? IV A maldio No aceitou Deus as desculpas de Ado e Eva. De tal modo o irritou a desobediencia, que, no auge da sua ira, amaldioou-os e com elles a terra que os continha: dupla maldio que abrange alma e corpo, espirito e materia, eternidade e tempo--o homem todo na intimidade de seu ser immortal e nas condies exteriores da sua existencia transitoria. De feito, foi Ado condemnado morte. O corpo reverteu ao p e a alma cahiu no inferno. Esperando, porm, este ultimo castigo, foi-lhe forado soffrer outro n'este mundo. Cahiu sob o poder de Satan. Os miraculosos conhecimentos, que elle tinha, perdeu-os para sempre. Repulso do Eden, nada sabia do que tinha sabido n'aquelle lugar; e, como a terra tambem se havia transformado, caminhava elle inexperiente atravez dos estorvos d'uma vida nova. Precises, lavor ingrato, enfermidades, padecimentos de toda a natureza, desconfianas, medos, saudades inuteis, desejos inquietos acompanhavam o vagabundo par. Satanaz seguia-os, julgando-os ainda bastante felizes sobre a terra maldita, onde, se elle no fosse, o soffrimento seria expiao, e a morte resgate. Penetremos mais dentro n'este mysterio, e consideremos com os theologos quaes foram e ainda so hoje as deploraveis consequencias d'aquelles successos. V Consequencias da maldio Os filhos de Ado que ainda no eram nascidos no momento da culpa, e os filhos de seus filhos at derradeira gerao foram condemnados com elle, como se tivessem peccado. Comprehende-se que elles no fossem melhores que seus pais: peiores que elles se tornaram. O mais velho d'esses reprobos matou seu irmo, e a impiedade humana foi crescendo at ao diluvio para recomear, ao sahir da arca, durante o somno de No. Uma tal punio no podia gerar outros effeitos. Considerai que nascemos aviltados, pervertidos, embriagados do vinho que outros beberam, escravos d'um poder occulto e maligno, odiados de Deus, odiando a Deus, s bastantemente livres para praticar maldades e merecer por isso novos castigos; incapazes todavia de praticar o bem. Est Satanaz no manancial onde bebemos a vida; est nas fontes que a nutrem, no seio de nossa me e no seu leito; a si nos attre, encorporando-se na luz, na agua, nos alimentos, no ar que respiramos, na voz que nos encanta o ouvido, na fragrancia que as auras nos trazem, no amigo que nos abre os braos. Comnosco se identifica e nos enche de seus cavilosos e insaciaveis appetites. De fra chama-nos com uma doce voz, e com um interno aguilho nos espora para onde nos chama. Ento nos cerca, invade-nos, possue-nos, e isto no ainda seno parte do nosso castigo. O inverno que nos engorgita os membros, a fome que nos prostra, a trovoada que arrebata as sementeiras, a febre paludosa que nos mata os filhos, as foras que se vo quando a experiencia chega, estes flagellos todos da natureza contra ns desenfreados, estas necessidades inexoraveis, amargas privaes, e exulcerantes desenganos so tambem parte do nosso castigo. Mas ainda no tudo: a nossa insanavel ignorancia, orgulho, fraqueza, toda a corrupo do nosso ser parte integrante do mesmo castigo, no do peccado original, cumpre notar, mas do castigo, pois que a transmisso do peccado original j de si um castigo. E no pra aqui a maldio; pelo contrario, quando ella se nos mostra mais terrivel n'este estado a que nos reduziu, manietados pelas cadeias que nos forjou, porque as culpas que resultam d'esta corrupo natura e involuntaria que um castigo, d'esta possesso diabolica que um castigo, e de tantas dores accumuladas que so castigo--taes culpas chamam sobre ns outros castigos. Qualquer lapso reprehensivel; o menor deslize espiado e marcado; o minimo murmurio uma offensa. Taes so, consoante a theologia dos hebreus, adoptada e assignada pelos padres, as relaes do homem com Deus e de Deus com o homem. Detestam-se. Desde a sahida do Eden que se digladiam em duello sem fim, posto que desigual. Um primeiro crime gerou a colera divina; mas do primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes, os quaes geraram novas coleras, e continuamente, em face um do outro, a colera e o crime se fecundam e reproduzem sem descanso. Os homens n'esta lucta so incansaveis como Deus, e, posto que trespassados e sanguinolentos e esmagados, ameaam e conspiram ainda. De semelhante espectaculo no ha nome condigno! Est o odio por toda a parte, na terra, no inferno, no ceo, nas creaturas e no Creador. Accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema a rebellio do homem, porquanto a nossa sorte mais miseravel que a sorte de Ado, e cem vezes mais miseravel que a de Satanaz. Mas faz-se mister esclarecer este ponto, antes de passar alm. VI Comparao da nossa sorte com a de Ado e de Satanaz Em verdade nenhuma similhana temos com os habitantes do paraiso terreal; no lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza, nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um to vasto circulo, tendo um s limite perfeitamente distincto; nem to pouco lhes herdamos a tranquilla felicidade. Para ns tudo trevas, servido, limite, trabalho e dr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que propriamente fizeram. Comnosco no assim. Primeiramente, aquelles actos, que Deus to severamente castigou n'elles, continuam-se em ns, que no temos conhecimento d'elles seno por este proseguimento vingativo; depois, sem attender nossa infermidade nativa, nos faz elle expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as ns tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden. Se podeis, comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito de Satanaz no ceo; e os peccados d'aquella creatura debil, ignorante, decahida, envolta em carne e sangue, cercada de precipicios e trevas, criminosa porque nasceu, e em perigo porque vive;--comparae isto, se podeis, ao inexplicavel peccado do anjo. Similhana no ha ahi nenhuma. Entre ns e aquelle espirito bemaventurado vae a differena de noite a dia, e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo. Sem embargo disso, as penas so iguaes. Espera-nos o mesmo inferno. A unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento que o homem ahi ser a eterna victima, e Satanaz o eterno algoz. evidentissimo que a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram em to oppostas condies de actividade. Esta pena infinita s tem relao com o poder infinito do juiz offendido; no tem alguma com as faculdades diversamente limitadas dos culpados, e augmenta de gravidade medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil, de Satanaz sobre Ado, de Ado sobre a sua posteridade. Quando procuramos n'isto a justia, dizem-nos que ella ahi est, mas escondida. Oh! sim, meu Deus! Bem escondida, e a razo tambem, e a piedade tambem! VII O povo de Deus Entretanto parece que a piedade se manifesta na formao do povo de Deus, e em verdade ahi se denota, mas como excepo, privilegio e favor. Havia no Egypto uma raa de escravos; toma-os Deus pela mo, e atravez de mil obstaculos os leva ao paiz de Chanaan; d-lhes leis, ministros e prophetas; illustra-os, defende-os, castiga-os, restaura-os, disputando a Satanaz, com successivos milagres, essa nesga de terra onde quer ser adorado. No obstante, estas revelaens e sobrenatural assistencia no impedem que os judeus idolatrem, que se prostituam, que usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal. Por aqui se avalie a desgraa dos povos que occupavam o resto da terra e a quem faltavam taes soccorros. Pezava n'elles sem contrapezo o peccado original. Os que a maior grau de perfeio tinham levado artes e sciencias estavam to remotos da verdade como o selvagem mais embrutecido. No porque uns ou outros fossem atheus--pelo contrario, em seus soffrimentos, levantavam olhos ao ceo; mas como procuravam a divindade nas estrellas, nas altas montanhas, no concavo dos bosques, e nas mil imagens compostas de materia impura, debalde rogavam, e inutilmente sacrificavam. Salvante a de Moyss, todas as religies eram engodo de Satanaz e conductoras d'almas ao inferno, similhantes s lumieiras que as hordas assalteadoras accendem beira das restingas, durante as noites tempestuosos, afim de que os navegantes se percam. E Deus abandonava os gentios sua ignorancia; detestava-os em tanto extremo que prohibia o seu povo de os tratar, sobretudo de misturar ao d'elles o seu sangue, excepto nas batalhas. Occasionado o ensejo, era obra piedosa exterminal-os; mas attrahil-os ao seu corao, era, em todos os lances, um acto abominavel, por maneira que o leproso de Jerusalem recearia manchar-se, se recebesse na sua enxerga infecta a mais pura donzella de Sidon. Tal substancialmente o ultimo dogma que nos convm estudar. certo que elle nos revela a bondade de Deus; mas similhana de pallida restea de luz em espessa treva. O que nos ella esclarece um ponto imperceptivel do espao. Est meio velada no ponto onde brilha, e tanto ahi, como no restante do mundo, razo e justia de Deus jazem de todo em todo escurecidas. Sobre a terra foi Jacob o unico justo? Se houve mais, porque no fez Deus alliana com elles e seus descendentes? Por que adoptou smente os judeus, por que liberalisou a estes luzes que negou aos outros? Se lhe aprazia dar humanidade cabida e obcecada pelo peccado meios de salvao, porque abenoou o sangue e a carne de um s homem, amaldioando o sangue e a carne dos mais homens? Se isto verdade, fora nos exclamar com os theologos:--Razo impenetravel! Impenetravel justia!--Sendo que tudo isto essencialmente diverge das idas que podemos formar da pura razo e da verdadeira justia. A lei do genero humano, em toda esta historia, a lei ditada pela colera, e, ainda quando a bondade ahi reluz, d ares de um capricho. Os primeiros christos, judeus de origem, no adoptaram menos estas idas por mais avessas que fundamentalmente sejam, no s revelao interior, s luzes da consciencia, mas tambem a tudo que mais luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram. A Egreja, dilatando-se fra de Jerusalem, conservou o sinete da sua educao rabbinica[1], permanecendo meio judaica. No mudou um til aos dogmas sombrios e crueis da synagoga, mas transformou o dogma do povo de Deus; ampliou-o espiritualisando-o, sem tirar ainda assim clemencia divina, como logo veremos, aquella mystica e excepcional indole que tinha entre os judeus. Admittiu os gentios ao beneficio das graas de que Moyss os excluira, e tornou judeus, mediante o baptismo, os que de sangue o no eram. Ao mesmo tempo, repulsou do seu gremio os que s por sangue eram judeus, e o no eram por baptismo, formando, com tal excluso, outro povo de Deus, e ficando o antigo a representar a figura carnal do novo. Em summa, a Egreja moldurou quanto em si coube, o espirito christo nas frmas antigas, que ella sempre venerava e considerava expressamente feitas para o receber. Consoante a parabola, envasilhou o vinho novo no tonel velho, onde ferve at estalar as aduelas; cuidado, porm, que a velha vasilha pde fender-se; o vinho contheudo o sangue de Christo; e o genero humano, em prol de quem tal sangue ha manado, no deixar que uma gotta se perca. Ha pouco disse eu que a egreja, adoptando as crenas da Juda, no havia modificado a indole estranha e excepcional que taes crenas argem bondade de Deus. Por egual razo deixou ella condensarem-se as mesmas trevas sobre a sua justia. facil demonstral-o. [1] No concilio feito pelos apostolos em Jerusalem, questionou-se sobre se se devia circumcidar os judeus. Muitos pensaram que esta operao fosse indispensavel salvao, por isso que Moyss a ordenra; Paulo e Bernab no foram d'esta opinio; a duvida, porm, era tamanha que sahiram deputados para Jerusalem, afim de combinarem com os apostolos e os padres. O concilio discutiu longo tempo. Pedro fallou de harmonia com Paulo; mas as duvidas subsistiram. Thiago fallou por sua vez, no invocando a palavra de Christo, mas repetindo algumas palavras dos antigos prophetas; o que fechou a pendencia. Decidiram que a circumciso era desnecessaria salvao. Todavia, logo adiante, Paulo, que contribuira para este accordo, circumcidou Timotheo, em razo de estarem judeus n'aquelle logar, e saberem que seu pae era gentio. Vid. _Actos dos Ap._, cap. XV e XVI. VIII A egreja e o novo povo de Deus Hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crr na possibilidade de no ir infallivelmente ao inferno. Contra o espirito do mal inda l se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora protegia apenas o districto no grande do Oriente. Alargou-se o territorio da clemencia, mas ainda assim no mede a quarta parte do globo. Alm d'isso entre os novos, do mesmo modo como entre os antigos judeus, perdem-se muitos, porque Satanaz est sempre comnosco, na carne de Ado, e a maldio sobranceia-nos sempre. Se o baptismo destre esta maldio, no o faz completamente, salvo quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio; seno, nem nos dispensa das penas eternas, nem nos arranca das prezas da necessidade das affeies, das tentaes, dos enganos innumeros que so os effeitos temporaes da maldio. Cresce, pobre creana, e se podes, cerra os ouvidos s alegres cantilenas da tua ama; foge s caricias de tua me e a todas as seduces que j te rodeiam. No toques no bello fructo que a tua fome anceia. Na tua edade, sem que o saibas, j Satanaz te falla; na bebida e na comida esto venenos d'elle; com o mal te familiarisas, e perdida est a innocencia baptismal. Feito o primeiro peccado, desluziu-se a graa; a maldio meia delida revive inteira; a Egreja vem ainda com outros mysteriosos meios em nosso auxilio; porm, como n'este mundo no ha destruir attraco e inclinao e a liberdade do mal, muitos dos seus filhos se perdem, apesar d'ella, e para, melhor o dizer, em seus braos. Attendendo aos perigos a que esto sujeitos ainda os filhos da luz n'esses paizes favorecidos, considere-se em que estado de desesperao vivem os filhos das trevas, isto a maxima parte do genero humano. Em mil milhes de homens, pouco mais ou menos, que actualmente soffrem na terra, o mais que pde haver duzentos milhes de catholicos. O remanescente vive sem confisso, e o maior numero sem baptismo, na ignorancia ou no odio da Egreja, e d'aqui vo como vieram sob o poder de Satanaz. Tem elles culpa? Nasceram no abysmo e longe de soccorros. Familia, tribu, cidade, patria, protectores naturaes, primeiros guias, ultimos amigos, lies, exemplos, leis e costumes, tudo os engana. Quem que pde escolher o seu bero? Pois a nossa salvao pde depender de circumstancias e successos que no dependem de ns? A nossa raso corrompida absolve-os; o velho Ado encontra sempre alguma desculpa ao peccado; mas a f essa no. A f decreta a reprovao final dos gentios, dos infieis, dos hereticos e at a reprovao final e eterna d'um grandissimo numero de catholicos; cr n'isto como no peccado original, como na hereditariedade do crime e do castigo, bem como na graa da salvao--coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis. Adora em silencio todas estas apparentes iniquidades, convicta de que ellas so smente apparentes, e que um dia vir em que os proprios gentios ho de confessar que Deus fez bem amaldioando-os: to profundamente justo, equitativo e rasoavel na essencia aquillo que exteriormente to pouco . No ha pois duvidar que milhes de milhes de creaturas humanas esto no inferno. As almas despenham-se ahi de todos os lados, densas e rapidas como a chuva, chuva que dura ha mais de seis mil annos, e no acabar nunca. Todos ns temos no inferno uma immensa familia: todos os nossos antepassados pagos, durante quatro mil annos, e Deus sabe quantos avs christos! Os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar, o que fazem ir adiante de ns; os netos d'elles e os nossos, pela maior parte, l vo ter comnosco, e para to horrivel fim que ns nos reproduzimos. IX Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com especialidade a eternidade das penas Todos estes dogmas esto ligados; porm, quando surge uma duvida, no basta um para demonstrar o outro. Prvem-nos que Satanaz foi expulso do co, e o homem do Eden; e, quando o tiverem provado, nem por isso lhes cabe o direito de concluir que Deus nunca perdoar a Satanaz nem aos homens. Um castigo que tira aos pacientes a esperana, e ao divino juiz a piedade, mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos: por consequencia, um tal castigo carece de ser justificado por pessoas eguaes, seno melhores. Estes antigos mysterios no derivam um do outro naturalmente; e, seja qual for o castigo que Deus reserve em sua justia s prevaricaes das creaturas livres, certo que ns o soffreriamos, ainda que Satanaz e Ado no tivessem peccado. A principal questo saber se este castigo ser eterno, e a tal respeito a corrupo original, a reversibilidade das culpas, o poder do tentador augmentam nossas duvidas em vez de diminuil-as. O que ahi ha para ns no so provas, so objeces. O inferno poder ainda sem isso no satisfazer nossa razo; mas no a offender tanto. urgente, pois, provar que elle existe. Prova-se pela revelao, isto , pelas escripturas santas e pela auctoridade da Egreja, interprete infallivel d'ellas. Porm revelao biblica e infalibilidade de Egreja so j de si outros dogmas a favor dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes; e seria desviar-me grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discusso. O pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que est no fim d'esta obra, sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que temos de sahir d'este labyrintho de mysterios. Investigo provas d'outra ordem, mais especiaes, mais directas, mais apontadas ao bom senso, ao corao, intelligencia, e que se prestam facilmente a ser entendidas e livremente discutidas. Se taes provas no existissem, no emprehenderia eu similhante trabalho; mas sustenta-se que existem, e em todas as apologias so invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes, e do ensinamento da Egreja, argumentos puramente philosophicos, dos quaes parece que a f mesmamente est carecida. Dir-se-hia de vontade a respeito do inferno, o que Voltaire disse de Deus: que se elle no existisse, mister seria invental-o. Pois que podemos em verdade provar a existencia de Deus pela necessidade moral d'esta crena, pelo mesmo theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo: intenta-se fazer d'isto uma necessidade moral to clara e evidente, quanto evidente e clara a necessidade moral da crena em Deus, e usual fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos, que tanto importa a tradio chamada universal. A mim me basta a primeira prova; d'ella pende a meu vr a questo capital. Se o inferno, ou smente a ida do inferno moralmente util, existe o inferno, necessario, e divino. Porm, como quer que a evidencia d'esta utilidade no seja dogma, assiste-nos o direito de examinar com plena liberdade. Tal a tarefa que me impuz. A tradio universal de que tratarei depois, apenas a primeira face do problema. O INFERNO PARTE PRIMEIRA O INFERNO CONSIDERADO QUM DA CAMPA, OU O HOMEM E A SOCIEDADE EM PRESENA DO INFERNO CAPITULO PRIMEIRO TRADIES I A tradio universal a prova do inferno? Quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelao christ, esforam-se em requintar phrases aviltantes, para bem caracterisar o estado do mundo sob os reinados de Augusto e Tiberio. No peo que se suavisem as pinturas. Todavia, se se tracta de nos incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo, repellentissimo, tal como o peccado original, a malicia dos diabos, o eternal inferno, ento vr como esse genero humano to vilescido se transfigura subitamente em oraculo. Claro que a moral se lhe varrra de todo; mas a theologia ficou. Eil-os a cavar no lodaal das supersties orientaes, as mais putridas de quantas ahi houve, e querem entrever n'ellas uns certos vestigios de l se haver conhecido Ado e No. Se se trata simplesmente do inferno, isso ento acha-se em toda a parte. Um paria vagabundo, um pago abjecto, um negro, um hottentote tremente em face d'um fetiche, eis as testemunhas, os consultados, os doutores. mais que certo que taes miseraveis haviam perdido as noes todas do bem; dormiam com as servas e at com as irms; vendiam na feira as filhas e s vezes as mes; profanavam os hospedes; eram ladres, eram antropophagos; adoravam pedras, serpentes, sapos, e, peor que tudo, homens, facinoras ensanguentados; mas criam no inferno. Claro de consciencia no lampejava n'elles s um; no estremavam raia entre virtude e vicio; e, posto que taes distinces lhes houvessem sido reveladas, tinham-nas esquecido. Vde, porm, o prodigio: quanto ahi havia incomprehensivel para ns e ainda mais para elles; tudo que transcende a alada da experiencia; tudo quanto a simples razo no pde revelar--tudo, em fim, que, pelo conseguinte, mais facilmente se desluz da memoria, oh! tudo isso lhes ficou na lembrana! Que argumento a pr do inferno! Quem ousa impugnar verdade to de fundamento provada? Cafres, Papus, Saabs, Bushmans creram no inferno! Patages, Muskogis, Algonquinos, Chipperrais, Sioux creram no inferno! Hunos, Alanos, Ostrogodos, Gepidas, Vandalos creram no inferno! Tambem creram n'isso Cananeos, Philisteos, Ninivitas e Babylonios! Sodoma e Gomorra tambem! Sardanapalo, Balthazar, Herodiada, Cleopatra, Nero, Attila, Gengiskho, Tamerlo creram tambem no inferno! Querem prova mais concludente? Eu no sei se semelhante demonstrao do inferno bem feita para edificar uma assembla de fieis; receio muito que os incredulos se riam. Quer-me parecer que, se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma, deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raas degeneradas, aquellas naes estupidas, aquellas hordas faccinoras, aquelles sacerdotes embaidores, aquelles reis devassos, em fim, todos esses selvagens e monstros, nem criam na eternidade das penas, nem d'isso tinham vislumbres. Tal argumento, se fundado fosse, figurar-se-hia melhor que nenhum. Presumir-se-hia que esses homens, se tivessem mo e perante os olhos barreira tal, no se infamariam tanto. Mas, da laia que elles so, darem-no'l-os como crentes no inferno, mandar-nos descrer. Horrorisa-nos a immortalidade d'elles. Vo l trazer taes arbitros para uma questo de altissimo interesse moral! Dizeis que elles creram no inferno? Oh Deus meu! por isso mesmo talvez que elles to mal comprehendiam a justia, e tal vida viveram! II Explicao natural das tradies pags cerca do inferno Que monta recorrer a revelaes miraculosas? facilima coisa explicar naturalmente as tradies pags cerca do inferno. Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um definido por lei, e protegido por fora publica, no o primitivo estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia, e, por extenso, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue. N'esses remotos tempos, vingana e justia eram uma s cousa. Ora, verdade que a vingana procede do sentimento de justia, mas ultrapassa a justia sempre, porque egoista, cega, orgulhosa, colerica, no mede, no se compadece, d mal por mal, e usurariamente o d. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talio, foi lei misericordiosa; abalisou as retaliaes; cabea por cabea, olho por olho, dente por dente, e mais nada. A vingana queria mais: arrancava os dois olhos, e no se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias, na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixo: condemnavam-os escravido com a sua posteridade--ao trabalhar sem proveito, e miseria infinita. Entre as familias, tribus e raas ardiam odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum dever o assassinal-o. E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as naes christs, aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes. Se insistem em que os pagos conheciam o peccado original, a maldio do genero humano e as penas eternas, fora confessar que elles, segundo procediam, procuravam incitar a justia divina. Que melhor modelo lhes sahiria a ponto? Para lhes condemnar o procedimento mister conceder que elles de Deus e da sua justia apenas tinham falsa ida. Phantasiavam Deus sua similhana, vingativo, descaroado. D'ahi, a ida das raas malditas, dos crimes e castigos hereditarios. D'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem fim, dos mos abrazados e espedaados vivos, dos algozes enfurecidos sobre as suas pras immortaes, o chorar incessante, o suspirar sem echo, e os engenhosos supplicios todos do Naraka, indostamio inferno que ainda flammeja, e do Amenthi, egypcio, e do Tartaro grego, antigos infernos j agora apagados e que ha tantos seculos no mettem medo a ninguem. III Como o sacerdocio perpetuou estas tradies A par e passo que a humanidade se illustra, vemos adoarem-se por toda a parte as leis e os costumes; as religies, porm, essas no: antes querem morrer que mudar; conservam como deposito precioso e inviolavel doutrinas antiquadas sem parentesco com as idas e as necessidades das sociedades novas. Continuam a prgar aos povos policiados deoses ferozes. Faz-se mister um dia arrancar ao cutello sagrado as victimas humanas. Na Gallia foi foroso derruir as ras e immolar os sacerdotes para acabar com os sacrificios abominaveis. D Moyss aos judeus a lei de talio, mas reserva a Jehovah a vingana, como os poetas gregos a reservavam a Jupiter. Querem homens bons e um Deus cruel, homens justos, e um Deus iniquo; e, sendo isto repugnante, fazem da justia divina um mysterio, com a declarao de que o no podemos perceber. Prga Jesus exclusivamente a caridade, e morre em um madeiro perdoando a seus algozes. Tratam de conciliar a sua doutrina com os rabbinos, e logo nos figuram um Deus de duas faces: a doce face do Christo que contempla a terra, e no inverso d'esta face augusta e ungida de lagrimas, a face irritada de Jehovah, o Deus exterminador, o Deus inexoravel que persegue os filhos pelos crimes dos paes. IV Exemplo de um povo que permanece fiel a todas as suas antigas tradies a tradio a memoria do genero humano. Cumpre no menosprezal-a conta das verdades que ella propaga; todavia no devemos escutal-a de joelhos, feio de oraculo, por causa dos erros que a deturpam atravez de todas as edades e naes. Que nos faz a ns que os antigos crssem nas penas eternas? No ser isso que as tornar eternas, se ellas o no so. Mais antiga que todas as opinies dos homens a bondade de Deus; e as verdades moraes bem como as physicas dispensam o nosso consentimento para subsistirem. Pois no girava a terra quando a julgavam immovel? No era odiosa a escravido quando a julgavam justa? Ha na profundeza do ceo estrellas que nossos paes no viram e ns vemos; e ha outras cuja luz no alcanamos e nossos netos vero brilhar. Cumpre ver o ceo com os nossos olhos, e no com a vista dos que j so mortos. No seria blasphemia crr n'um Deus vingador, quando em seu proprio corao o homem no tinha discriminado entre justia e vingana, e por isso a Deus se concediam sentimentos e aces que n'este mundo eram honrosos. Attribuir-lhe, porm, aces que passariam por injustas, se commettidas fossem, seria arrogar-se o homem direitos de fazer-se melhor que Deus; e fra verdadeira impiedade imaginar um Deus tal que envergonharia quem o imitasse. O passado l vai. Os antigos deram suas contas; ns temos de dar as nossas. Quando um caminheiro ce na estrada, quem se levanta cxo elle e no seu pai. Qualquer crime que perpetreis servos-ha imputado a vs. Desquitar os homens, em nome das tradies, da responsabilidade da sua f, seria remil-os da responsabilidade das suas obras. Ha quatro mil annos que os hindostanicos so escravos dos mesmos prejuizos, acorrentados nas mesmas castas, vinculados s mesmas praticas, rojando e palpando no mesmo circulo d'erro e miserias, similhana dos seus condemnados, no dedalo tenebroso e sem sahida do seu inferno. N'aquellas regies morre o homem na condio em que nasceu: representa servilmente seu j morto pai, pensando e operando como elle. , quanto menos pde ser, pessoa distincta e nova; -lhe quasi inutil a razo; a memoria lhe basta; nem a consciencia vive em 'si; est fra nas tradies oraes ou escriptas que reverenceia cegamente, porque antes de vir ao mundo j eram veneradas. Se ha verdade o que essas tradies dizem; bem, o que ellas ordenam; mal, o que ellas prohibem. Investigar para que? Que mais quer elle? Bello reclinatorio para a preguia! Excellente desculpa para vicios! Valente obstaculo para virtudes! Uma das glorias de Christo, um dos espinhos da sua cora santa, foi contrapr o direito da consciencia individual tyrannia das opinies, tradies e escripturas judaicas. Ensinou-nos elle a sobrepr o juiz intimo sobranceiro a todos os juizes da terra, e responsabilisou perante Deus o homem por seus actos, ao mesmo passo que os responsabilisou por seus pensamentos e sua f. V Effeito d'estas tradies na edade media As tradies judaicas e pags consubstanciavam-se profundamente na edade media, acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas. As prises no tinham ar nem luz; o adorno das masmorras era palha podre, po e agua. Havia prises subterraneas, tumulos onde o homem entrava vivo e no sahia mais. At os mosteiros as tinham. O furto era punido com a morte; a morte punia a transgresso da lei sobre a caa. Em cada encruzilhada uma forca. Para os hereges fogueiras. E frequentemente uma familia inteira era castigada pelo crime do chefe, bens confiscados, casa arrazada, o nome proscripto. Nada digo sobre a servido, degradao hereditaria, especie de mancha original e quasi universal em cada paiz, horrenda reliquia da escravido antiga, e das supersties do Oriente. Havia crena na efficacia d'aquelles horrendos castigos. E seriam por isso menos raros os crimes? O terror governava o mundo. E seria o mundo melhor governado? Ia n'isso a antiguidade das tradies. Dava-vos pena que ellas se abolissem? Quem ha ahi saudoso das torturas, masmorras, confiscaes, fogueiras, escravido? E quem ousaria pedir, por interesse da justia e da moralidade, o restabelecimento das instituies da edade media? VI Como a sociedade christ se desvia progressivamente d'aquellas antigas tradies No ha muito que ns ainda tinhamos o nosso inferno: eram as gals onde as condies peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias penitenciarias. Antes de ns, se deram bem com isso os inglezes. D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparao do outro, resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganas, e infligir aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu. Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana to limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima, admiravel! Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a proteco aos justos, e at a proteco aos culpados que ella extrema dos justos! No os esquece nas suas prises, no renunciou ao direito de perdo; no desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa paragem de miserias est sempre fixo um olhar de d, e attento um ouvido que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor d'isso a lei penal? E se o perdo salva um d'esses prezos que a justia ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robustea o mal, e d nas prizes ou fra d'ellas um exemplo funesto? Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime, derroga a sentena do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes so? Os mais ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com perdoar os outros. Este o espirito das legislaes novas em toda a christandade, nas quaes a misericordia se abraa com a justia. Inferno que nunca muda s o theologico. sempre o inferno da edade media, inferno de judeus e pagos, os mesmos supplicios, os mesmos gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. No querem que Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. C em baixo pde fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas l no seu reino no ha perdo nem amnistia! Colera infinita! Vingana perpetua! Inexoravel furor! Tal , consoante o pintam, o Rei dos ceos. Ditosos os povos cujos principes se no modelam por elle! Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christ, com maravilhoso instincto, sequestrou-se d'essas idas de outra edade; e, com os olhos postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituies e leis um ideal menos imperfeito da soberana justia. CAPITULO SEGUNDO A F NOVA I Pater noster Chamamos a Deus nosso pae e nos consideramos seus filhos. Um pae condemnaria seus filhos a supplicios eternos? Que a questo seja de ingratos e desobedientes, de rebeldes e de mos, embora: Deus Deus, e ns somos homens. O mais sabio ancio n'este mundo perante o Pae celestial o que diante d'esse velho mortal, curvado ao pezo dos annos, uma criancinha no bero. Perante o Pae do ceo somos todos crianas balbuciantes que apenas caminhamos com andadeiras. E a comparao ainda muitissimo ambiciosa! Ha mais proporo entre o menino que balbucia e os maximos doutores theologos, do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno Pai. Cobertos de seus circumspectos barretes, aquelles doutores tartamudam, gaguejam, balbuciam freneticamente, no se entendem a si proprios, descambam a cada passo, e movem compaixo, se os compararmos a Deus. Dado que elles ainda durassem e crescessem em saber, ao mesmo passo que envelhecessem, nem por isso deixariam de estar como em perpetua infancia confrontados com Aquelle que tudo sabe, porque infinito em sabedoria, em poder e bondade. Mas, d'outra frma, a criancinha hontem nascida podeis j affoitamente comparal-a quelles graves doutores; um doutor que se aleita e entra em dentio: alguns dias mais, e vl-a-heis defender these e supplantar os professores. Comprehendeis, pois, que, se o velho doutor em theologia fosse pae, mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para sempre? Qualquer que houvesse sido a culpa do menino, julgareis justo e discreto similhante castigo? No vos pareceria o mestre mais louco do que o discipulo, e o pae peior que o filho? O vosso primeiro empenho no seria pr o algoz no logar da victima? No se levantaria toda a sociedade contra esse sabio sem corao? Nossas leis, nossos tribunaes consentil-o-hiam? Ah! castigos, sim, mas castigos que corrijam, e o perdo a final: eis o que justia de pae. No entendemos outra. Ao chefe de familia no se consente poder arbitrario sobre os seus: a esposa tem direitos; tem-os o filho, o servo, protegidos pela sociedade, que para esse fim especialmente se constituiu. Se isto repugna s antigas tradies, nem por isso menos racional, equitativo e moral. Ainda assim, por mais que fizesse este doutor atroz, seria menos cruel que o Deus prgado por elle. Se a morte no viesse rapidamente arrancar-lhe a victima, o officio de algoz canal-o-hia. difficil de supportar, ainda mesmo a um mau pai, o aspecto das torturas que elle exercita na pobre creatura que gerou. No corao humano tudo mudavel, tanto o amor, como, por feliz compensao, o odio. Um principe morovingiano, chamado Charmne, revoltou-se contra Clotario; Clotario fez queimar vivos seu filho, a nora e os netos; mas diz a historia que elle se arrependra. Se tal supplicio durasse uma semana smente, de certo elle os teria salvado. Que bom pai! Que excellente rei! Que amavel este Clotario de par com o Deus que nos pintam! Este Deus quer que pensemos no inferno, mas no que se morra ahi; imitao do algoz das prizes feudaes, deixa viver os pacientes torturando-os e disvela-se em lhes protrahir a agonia! Manda-os soffrer, ouve-os gemer durante a eternidade, e procede sua vingana, sem fechar olhos, sem tapar ouvidos, e por isso mesmo que n'elle reconhecemos no um homem variavel, mas o que elle , um Deus. Deus dos antigos, Bel, Teutates, Pluto, Eolin, seja qual fr teu nome, Deus das batalhas, Deus do gladio, Deus dos fortes, guerreiro feroz, senhor irascivel, juiz sem entranhas, Deus dos eternos rancores, tu no s o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e verdadeiro Deus, o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, no me trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do que eu a sua fora; e, at quando me castiga, no esquece que foi elle quem me creou e que eu sou seu filho. II O purgatorio o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o perdo das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas no se amaldia Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados so salutares porque se comprehende a justia d'elles; e corrigem porque a esperana no anniquillada. Se tal logar existe, de que serve o inferno? Deixar dizer que a eternidade que apavora e refra o peccador. O peccador no sabe o que seja a eternidade; porque impossivel absolutamente formar-se uma clara ida do que seja isso. Se recuamos perante ns um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginao e razo se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade. Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que capaz a sua natural sensibilidade, e qual o podem comprehender as faculdades do seu entendimento. Para que iremos mais longe? No bastante ameaar os maus com castigos proporcionados s suas faltas, durante um espao de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo? O que fr mais do que isto inintelligivel. Para l d'estes limites, a ameaa nada importa; a alma est refarta de justia, oppressa de terror, extenuada de padecer, dobra-se, ce, aniquilla-se, adora, supplica perdo, no pde comprehender seno a piedade, est surda e insensivel a tudo o mais. O remate da justia para ns o perdo; e, se n'essas extremas alturas onde a imaginao pde chegar, e onde o peccado roja gemente, se em vez de perdo, nos mostraes o odio ainda flamejante, l vai tudo: o terror tocou o apogeu; turva-se a razo, ida de justia e de bondade tudo se desfaz; a alma, que cahira crente, levanta-se atheista. Se o tal inferno existe, no outro mundo coisa comprehensivel ha uma s; o blasfemar dos condemnados. Mas se tal inferno existe, de que serve o purgatorio? Pois os protestantes no o aboliram discretamente? Para os que podem crr em tal inferno, que cem mil annos de purgatorio? Este acaba e o inferno no; seculos e milhes de seculos de penitencia no se contam, esquecem-se. Em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia desconhecida, inutil o soffrimento, e a justia um enigma, o purgatorio um paraizo. Quem nos dera a certeza de l ir! que os castigos ahi soffridos, por mais demorados e rigorosos que sejam, no ha temel-os: desejam-se. Por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se pde, o mais equitativo e rasoavel, deixa de impressionar as almas pervertidas pelo espectaculo d'uma punio sem siso nem justia apparentes. As pobres almas aterradas, aturdidas, estupefactas so impellidas involuntariamente a offender a Deus de dois modos; primeiro temendo-lhe a vingana, segundo no lhe temendo a justia. A ida dos castigos inefficazes e dres infructiferas, por muito monstruosa, odiosa e falsa que seja, se humanamente a consideramos, torna inutil a ida dos castigos poderosos e dres salutares, por muito bella, clara, natural e divina que ella seja. III Necessidade do purgatorio Quem quer que sejaes, senhor ou servo, rico ou pobre, esposo ou pai, viuva ou noiva, no negueis as expiaes da vida futura. No conheceis maus em prosperidade, cercados de respeitos, inaccessiveis lei, e que se deitam e levantam sem remorsos? No conheceis innocentes opprimidos, ancios abandonados, orphos desbalisados, pessoas honradas cuja vida toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens ingratos e perversos? Se sois feliz hoje, sl-o-heis amanh? Convencei-vos de que negar a vida futura, seria o mesmo que negar a immortalidade da alma, e logo sua liberdade e responsabilidade; e, por consequencia, o mesmo seria negar virtude, direito, Providencia, e constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno, um sonho, um pesadlo, onde tudo seria horror e abominao, excepto o nada, tudo injusto, excepto o crime victorioso, tudo absurdo, excepto a inveja, o egoismo, a violencia, e a astucia que se roja. Ah! crde na vida futura, com suas expiaes e recompensas. E, se ha quem exclua do ceo a piedade, no vades vs, por uma irracional desforra, excluir tambem do ceo a justia. IV Mysterios No nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios. Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por l viajado. Pelo que elles dizem paiz dos mais conhecidos: sabe-se o caminho, quaes so os seus productos, e qual o modo de viver dos seus moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que l reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripes que fazem d'elle j physica, j moralmente. cerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe do que la se passa: portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia, sem impedimento de ser mysterioso, que differena! Quanto mais profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crl-o. o inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradico, a confuso e o chaos. o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma, como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o que existe e de que ns apenas conhecemos em sombra a existencia e apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para no poder duvidar. elle to certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. por tanto o purgatorio, quanto razo, o verdadeiro mysterio da justia divina, assim como a Incarnao e a Paixo, quanto f, so o mysterio do Amor divino;--mysterio de justia que, de mais a mais, se concilia maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno perpetuo seria a negao. Muitissimo nos espanta que os protestantes o no vissem. Quando tinham que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo, sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razo, um dos dois que mais se harmonisava com as leis da razo e a moral do Evangelho. V O paraiso Os protestantes no conhecem termo medio entre paraiso e inferno; os catholicos, porm, acreditam-no, e segundo elles o purgatorio ceo nubloso e triste, inferno onde se ora e espera, e que deve acabar. Infelizmente os catholicos no enviam todos os mortos ao purgatorio, crendo que se pde transpor aquelle meio entre ceo e inferno, sem ainda l pr o p. similhana dos protestantes, ensinam que muitas almas, apenas despidas do seu involucro mortal, so despenhadas para sempre no eterno abysmo, ao passo que outras almas, logo que despedem da terra, alam-se direitas ao paraiso. Ensinam tambem, uns e outros, que o mais abominavel patife, convertido ultima hora, pde morrer contente: eil-o vai absolvido como o bom ladro; no tem mais que fechar os olhos e acordar entre os anjinhos. isto possivel? isto verdadeiro? Que pois o paraiso, e que ida fazemos d'elle? Pois que! verei eu do seio da bemaventurana, e na inalteravel tranquillidade dos justos, verei sem remorso e sem afflico, encadearem-se a meus ps, j na terra, j no inferno, as tristes consequencias das minhas iniquidades? Nas minhas noites de libertinagem, matei; durante o somno de homens que valiam mais do que eu, assassinei um avro para o roubar, um amigo da minha infancia para entrar no seu leito, uma mulher que eu havia seduzido e que morreu beijando-me as mos, pensando em mim, a louca, mais do que em Deus! D'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo, e eil-os mortos intempestivamente, sem terem tempo de se arrependerem; eil-os engolphados na gehenna, com o corao roido pelo verme que no morre, gementes, chorosos, amaldioando-me; e eu, seu assassino; eu, peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre, louvarei Deus eternamente, por me haver feito instrumento da condemnao d'aquellas pobres almas! Com as minhas delapidaes, reduzi miseria e a todas as tentaes da miseria, e a todos os desvios da desesperao aquella familia que l vejo em baixo: o irmo vende a irm, a irm vende a sobrinha, o pae vende os seus juramentos, os seus amigos, o seu paiz; a me arranca-se os cabellos; todos choram, todos soffrem, todos me accusam, e os seus gemidos chegam at mim; e eu hei de vr imperturbavel, sem remorsos, sem dr, aquelles fructos de meus crimes, aquellas ulceras, aquelles prantos, aquelles opprobrios, aquellas perfidias, aquelles escandalos em que eu tenho parte; e, pois que Deus se apiedou de mim, eu no terei piedade dos outros, e o que na terra me affligia, quando eu agonisava, no me ha de affligir depois da minha morte. Este deploravel espectaculo, bem visivel a meus olhos, no impedir que eu me saboreie na felicidade dos escolhidos; convencer-me-hei que vae n'isso o influxo dos designios do Altissimo, e que o homem, faa o que fizer, no tem que vr com o resultado das suas obras; e em vez de bater no peito a cada sobresalto dos meus proprios crimes, a cada repercusso das minhas proprias blasphemias, a cada reflorecer das venenosas sementes--vestigio unico que eu deixei da minha passagem na terra--vestirei a alva tunica, e beberei na taa dos anjos, das virgens, dos heroes, e dos martyres, como se eu fosse um d'elles. Na verdade uma egregia doutrina esta da justificao do peccador, pelo reconhecimento e pezar de suas culpas; levada porm quelle grau, similhante doutrina to incomprehensivel como a do inferno. De uma demasia nasceu outra: n'uma parte encareceram a justia; na outra exaggeraram a piedade. Comtudo, entre o castigo infinito por um s peccado, e o immediato perdo apezar de mil peccados, havia o que quer que fosse que parece desconhecer-se: a justia sem colera, a misericordia sem pusillanimidade. Salvam-nos como nos condemnam, com pouco custo ordinariamente, pois que se com facilidade nos abrem as portas do inferno, com a mesma nos abrem as do paraiso. Considerem entretanto o purgatorio, no como meio entre o paraiso e o inferno, mas entre a terra e o ceo, ponto que certas almas atravessam rapidamente e quasi sem soffrer, e onde outros so condemnados a padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos, consoante a natureza de suas culpas, e disposio no ultimo momento. Este purgatorio com as suas penas indefinidas, proporcionaes, rigorosas, purificantes, e, cedo ou tarde, coroadas pelo perdo, no seria um freio moral mais rijo que o medo das penas eternas, temperado pela esperana da misericordia na ultima hora, e pela reforma de vida na ultima edade? Convenho que no haveria medo de ser condemnado sem remisso; assim ; mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de contrico, depois d'uma longa cadeia de crimes. D'esta arte, Deus mostraria melhor o que , justo, mas no cruel; bom, em vez de tolerante. Que mal lhe viria d'ahi? Commisravos o lastimavel ancio coberto do sangue das extorses e o tyranno abjecto que sopesou e corrompeu milhares de homens; tendes d'elles piedade, quando morrem chorando? tendes razo; mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda palpitantes, d'essas creanas que elles definharam e ceifaram em flor, e que vs condemnaes. Piedade e justia para todos. No desespereis os que vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia, mas no lhes encurteis a escada para os subir ao ceo. Sabei que na outra vida se chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive, as desordens que se motivaram, as existencias que se transtornaram, as quedas moraes que se occasionaram, e que o arrependimento na hora extrema, posto que grandemente salutar, apenas o principio, e no o fim, das expiaes d'uma vida culpada. de crer que na Biblia e nos padres da Igreja isto se no encontre escripto; mas est escripto nas consciencias. Limpem os oculos e leiam. CAPITULO TERCEIRO OS FRUCTOS DO INFERNO I O bem (BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.) Se a morte vos sobresalta antes da penitencia, diz-se que sois condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperana, tanto como se houvesseis sido um ladro calejado, um parricida, um atheu. L vos est esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no lao. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos longos servios ao genero humano contrabalancem o peccado final! Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forado a reconhecer que as probabilidades so dissimilhantes, e que o mais certo, faa-se o que se fizer, a condemnao. D'onde procede nas imaginaes vivas a dominante preoccupao de evitar o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeio christ. Tal o retiro ao deserto, a renunciao propria, o morrer antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a macerao, o jejum, o perpetuo silencio, a insulao, o odio ao mundo, a orao entre quatro paredes. , tambem, a santificao do celibato, como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldioada, como se fosse culpa continuar a filiao de Ado, e virtude esterilisar em si os embries da vida humana. E certo que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento que lhe anda annexo, que outra concluso se colhe? Multiplicar os homens, para que? para multiplicar os peccados? Se to duvidosa a salvao! Se a condemnao to facil! Para que nos enlaaremos orla d'um abysmo onde o esposo pde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de desgraados. No seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os celibatarios! Os sabios so os reclusos, os anachoretas, os eremitas. So como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam s do seu salvamento; cada qual por si; soccorrer o irmo tem o risco de naufragio. Fazei como elles, navegantes; deixae no navio em sossbro mercadorias, thesouros, e vossas mulheres, e mes, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se. Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus modelos, Simeo sobre a columna, Joo no muladar, esses desvariados todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam: no tem que vr com a terra, e j esto meios mettidos no ceo: o diabo j mal os pde aprezar. No , todavia, a perfeio dos ascetas aquella que o Filho do homem nos exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias smente ermou no deserto, no para nos l attrahir; mas, a meu vr, para nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam smente, que o espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. para notar que nas suas modestas occupaes, sob o colmado do carpinteiro, e mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que ensinou, curou e nutriu, no ousou o diabo tental-o! Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e tantissimos outros piedosos desatinos no recordam exemplos do Salvador, mas sim as aberraes dos sectarios do oriente. No pde ser isto a perfeio que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeio muitissimos seculos antes d'Elle j era conhecida dos pagos idolatras, que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chalda. Tal perfeio praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raa ainda subsiste. Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprovao dos homens--doutrinas cujo natural fructo tal casta perfeio. Se o ideal da perfeio humana fosse isto, inutil seria o christianismo; pois que j os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da Thebaida. certissimo que os bouddhistas no visam exactamente ao mesmo scpo que os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta, a destruio de sua personalidade, o serem absorvidos no ser universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu _eu_ neste mundo, para o retomarem n'outra vida. , comtudo, egualmente certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventurana uns, e outros o perpetuo dormir, a eterna insensibilidade. S de per si o desejo do ceo no bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquilao: pelo que, no o desejo, seno o medo que pova os desertos. Os bouddhistas, por egual com os christos transviados, temem os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo no attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos monges, vida perfeita o absterem-se da vida, a virgindade, o jejum, a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de estereis virtudes, no filhas do amor, seno do mdo. Tal , na sua mais elevada expresso, o bem que a crena do inferno produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma! , porm, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. No ha ahi imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, isto mais que muito verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua f. N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do anno. D'elles alguns, para maior perfeio, no usavam nunca os direitos conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato, denegando-se as frias caricias que o irmo faz a sua irm. Os ricos empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos. Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema, vestidos nem apontados nem de preo, jejuns em barda, orar dia e noite, lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de christos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunho; e, antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espao de mezes e annos, quando o no eram at morrerem. Em quanto durava a penitencia, eram apontados, no s nos templos, durante os mysterios, seno tambem no exterior e nas relaes da vida civil; e, por cima de ninguem os querer sua meza, at as esmolas lhes regeitavam. Diz com raso Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continuao [2]. E accrescenta[3] que j entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares. Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos, trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforavam-se por imitar a vida de Joo Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo. Curavam elles pois, como j dissemos, uma perfeio diversa da de Jesus: anhelavam a perfeio negativa, qual os judeus e os orientaes a preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christos seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradio, no j de Jesus, mas de Joo Baptista e Elias, tradio congruentissima com o inferno. J no tempo das perseguies era povoada a Thebaida; no tinha ento a Igreja um tecto debaixo do ceo; e s depois que principiou a erguer templos que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas. pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o catholicismo no se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das praticas de ento, e que a vida monachal detestada por elles, ainda hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos, que elles to piedosamente tem conservado. [2] _Costumes dos israelitas e christos_, tom. II, cap. 53. [3] _Costumes dos israelitas e christos_, cap. 26.--Citei esta excellente obra por que ella manuseada por todos, e facilima de consultar. De mais a mais, depara-nos a indicao das fontes onde o auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro. II A carmelita ou o ideal da perfeio theologica. Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas oraes, com o seu trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus ps, com toda a agilidade de suas mos, como com todas as foras de seu ser. Credes que no possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto so baixas e eivadas de heresia as vossas idas! A perfeio no consiste na vida activa e benefica das irms da caridade; onde ella est, segundo o ensinamento dos theologos, na vida contemplativa. Se procuraes, senhora, o modlo para vs e vossos filhos, encontral-o-eis na carmelita, com preferencia irm da caridade. Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. V quem quizer agasalhar orphos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores, curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra! Esses cuidados vulgares no os quer a carmelita para si. Aos ps do altar, com os braos levantados ao Senhor, o seu posto. No se bulir d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. No lhe digaes: vosso irmo est a morrer; vossos sobrinhos vos esto chamando. No lhe digaes: arde a peste na cidade; vossa porta est a maca. Ha muito que ella concebeu tedio do mundo; no lhes leveis novas d'elle, que perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso mesmo,--crl-o-eis?-- que est, segundo elles, a sua superioridade sobre a irm da caridade, cujo corao virginal arfa como corao de me ao grito da criancinha[4]. A carmelita no pensa, nem tem que pensar seno em sua propria salvao, e tal pensar um manancial das commoes que unicamente lhe so permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o veo, far todos os dias, mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. So-lhe pautados os movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida no ha a menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou elevao espontanea das faculdades moraes. Esto definidas e immutaveis as suas relaes com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam: no se afeioa, no escolhe, no se decide. -lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha mais livre do que ella em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas o instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e no a um enxame de seres viventes. E essa que a condio pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra natureza, prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem folga, ella se revoltaria; e por tanto foroso esmagar a liberdade como cautela para que a licena no vingue. pois a carmelita em todos os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfeio, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos, e individualidade at s raizes. Onde est a lucta est a vida. N'esse immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia que finda nada deixa; a vida um livro, cujas paginas em vo se folham: sobre essas paginas brancas ha uma s phrase, do comeo ao fim, sempre a mesma: pensa em ti, pensa na eternidade. Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto , da vida real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua razo, contra seus sentidos, imaginao, e faculdades inactivas. Cr resistir ao diabo, resistindo necessidade de operar, de amar, de saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o officio, uma mosca lhe pousa no nariz, um caso, uma provao. Se est distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se d'isso. Uma pulga outro inimigo terrivel, outra occasio de grande queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vo descomposto, uma lembrana, um gemido, um pensamento clandestino, o rastilho d'um rato atraz do armario, um _Ave_ esquecido, cathastrophe! remorso! ruina de Sio! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroa como materia de peccado mortal; qualquer futilidade lhe avulta com propores monstruosas; pesa gros de areia, e mede os atomos. Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, no a cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros. Idolatra-se, no ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto no seja sensual, no menos egoista: absorve-se em contemplao de sua alma; no proprio corao preenche o vacuo de familia e de amigos, e de quantas creaturas de l expulsou. Contempla-se ssinha, entre o inferno e o co, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio a outro, e das palpitaes do terror ao extase dos seraphins. Eu por mim no sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que no viver, e a tal morte que no morrer; mas os theologos affirmam que n'isto que a perfeio consiste. E foroso concordar que elles tem razo, se ha inferno. Se ha inferno, a irm da caridade imprudente, e ns, os admiradores d'ella, somos sandeus. O sequestro mais rigoroso a consequencia legitima, natural, necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto do mosteiro aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor; elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que no permaneceriam um dia, nem hora, nem momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral no se percebe; com inferno, no ha imaginal-a mais a ponto, e obrigatorio confessar que, de feito, a perfeio est n'ella, visto que a razo est com ella. No obstante, filhos do seculo, no renuncieis afogadilho de seculo, que vol-o prohibem os theologos. Ficai entre peccadores, no foco das tentaes, dos escandalos, dos erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem; mas no vades; continuae a navegar entre restingas, merc dos tufes, aos clares dos relampagos. O convento no vos quadra; porque no foi feito para muitos. Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para os incapazes no s de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se salvarem, sem se arriscarem s tempestades. Faz-se mister s almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a proteco das gradarias, a escravido, as regras, o vo sobre os olhos, a mordaa nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vo ellas esconder-se longe do inimigo. No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se alguns heroes alanciados no corao! Entendo, direis, que o claustro o refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos infermos, e aqui se mostra a apparente razo porque nem toda a gente l pde entrar. Est enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos. Saiba pois que o claustro o asylo dos fortes; e que s l so recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flr da juventude christ. No soffre a menor duvida que mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros so muito menos do que os retiros abenoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graa superabunda que os poucos so repulsos, com quanto, ao primeiro intuito, nos parea creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto parea tambem este o seu logar proprio. Os coxos, os cegos e os inermes so postos na lia sanguinosa; os mais aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa assim; e, seno, perguntem-no Sorbonna. E assim preciso que seja, pois que a perfeita vida a claustral, que, no entender dos theologos, vem a ser a mais avssa s inclinaes de nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil observancia; mas, porque impraticavel na sociedade, no se lhe dispensa de ser exemplo sociedade; e, sem presumpes de l chegar, devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita. Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um trilho feito, e o futuro certo, portanto est quite de cuidados que fra d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e at a riqueza, alm das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre, n'um viver sempre fluctuante. No mosteiro tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi grangear um amigo, em compensao no se adquirem inimigos. Nem impeos, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz, sendo que a servido lhes esmaga os embries. No exterior tudo recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforo; perturbaes, se as ha l, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi ha que recear o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porm tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli no est elle como em sua casa, e no seu reino: so-lhe menos os ministros, os vassallos, e os recursos. O recluso, afra a pessoal energia de que dotado e lhe assignala a vocao, topa ahi de todos os lados conselhos e amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo, soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, mo grado a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o disputar, o abraar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o aniquillar-se o homem contra homem: uma reluctancia sem fim, e sem regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de machinas, de cantares, de gemidos, um chos, uma desordem, da qual a clausura no poderia dar-nos sombra de ida. Aqui, so mil os objectos em que a alma anda repartida; as diminutas foras que temos dispersam-se. Acol o inimigo identificado comnosco, traz escolta de auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma legio. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que poeiras, e que sombras! Considerae aquella me de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita. pobre, todos os seus parentes so pobres, os filhinhos rotos, famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que, desanimando, se envileceu e a espanca, um patro, um proprietario, credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas conselheiros de Job! Se tal me rica, tem uma casa que reger, creados a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia; filhos a educar, sagrados interesses que defender, relaes que receber, um marido a contentar, quer seja honrado ou no, quer seja piedoso ou impio. Com vontade ou sem ella est continuamente a braos com as paixes alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos litigiosos e incertos, onde lhe foroso resolver-se quando qualquer resoluo perigosa, no o sendo menos os perigos, se se absteem. preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros, para si, e para todos: misso indefinivel, cheia de contrastes, de atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a misso da freira. Digam embora que esta me de familia tem na sua miseria satisfaes, tranquillidade e jubilos que no goza a carmelita: depende isso de saber se os jubilos de que fallam so comparaveis s dres que a freira ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres so um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A saciedade, o desgosto, e o cansao so as naturaes barreiras da voluptuosidade. Chegar at ahi a mulher christ? No o permitta Deus. At onde ir? ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito; e, quando o limite se procura, onde fica elle j? Raras vezes estamos a ss com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. mesa e em toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sde; est a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a preciso aguilha o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia, cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para l no pr o p. Conceder alguma coisa natureza contiar o fogo que quizeramos extinguir; alimentar o leo que desejaramos estrangular. Das delicias menos carnaes, toucador, conversao, emprego de teres e do tempo, ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais temivel a responsabilidade. No me fallem de umas satisfaes mentirosas que o terror empeonha quando se pensa n'ellas, e que o inferno cora, quando se no pensa no inferno. Por certo que duro, mas o mais prudente regeital-as. A absteno uma lei simples, clara, e breve: bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar do tempo, afaz-se lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de excitaes amortecem, at que, por fim, a coragem se torna to inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter at ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o terror na alma. Assim , mas que importa? Comparado aos soffrimentos de uma me, o que o cilicio de uma virgem? Quem ousar comparar essas duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos? Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor f, se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, no de certo a me que deveria servir de modelo? A irm da caridade no j de si me? E a esposa de Jos que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho do Homem, e ao p da cruz lhe recebeu o ultimo alento, no foi ella, em sua amargura, a me adoptiva de Joo, o amigo d'Aquelle por quem chorava? Que jactancia essa ento d'um desprendimento de affectos e vontades? Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietaes, terrores e escrupulos, unicas occupaes do claustro? E para que , em nome do ceo, sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a me, que j vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar? V-se que theologia e bom siso so coisas infelizmente contradictorias. V-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a renuncia das maceraes, terrores e falso ideal que um claro entendimento reprova. Mas porque no se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio com luz mais viva e salutar. O inferno que faz odiosa a liberdade, rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel, realando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os perigos e as penas. Quem cr no castigo eterno, enterra o talento para que o Senhor lhe no toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justia faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre carmelita se abalana a l arder milhares de annos, por causa de algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto disciplinou; por causa do captivo espirito que to enfreado trazia, ou, emfim, conta do corao generoso, cujas pulsaes tantas vezes abafra. O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como ella; ora os mundanos no tem razo de se affligirem, antes devem consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A ns, filhos do seculo, no nos racionalmente permittido aspirar quella dolorosa felicidade, que castigo dos sanctos e o seu primeiro galardo ao mesmo tempo. Em vez, porm, de o desejar, e desejar em vo, como ns o temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justia de Deus! Que mudana se faria em tudo d'este mundo! A perfeio e a salvao no estaria na ociosidade em joelhos, no terror em orao, no fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privaes e dres corporaes, arbitrariamente substituidas s dres e sacrificios de uma vida proveitosa. Ento se entenderia que ha dous modos de abusar de nossas faculdades, uma que est no desprezo d'ellas, com receio de as usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas indiscretamente e ao avesso das intenes da Providencia que nol-as deu. A doutrina do Evangelho no doutrina de absteno; doutrina de aco: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho. Carecemos menos de frades que de christos. Se o inferno refreia o mal, tambem impede o bem. A ameaa seria salutar; mas ella faz mais que ameaar, empedra como a cabea de Meduza quem a encara a fito. Tende a supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente actividade da alma. No derime o egoismo, exalta-o a mais no poder, e tal exaltao devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no claustro, medonha de vr-se no seio das familias. [4] Elles comparam as irms da caridade quella mulher de Bethania chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita Magdalena que, em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os ps do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porm o Evangelho que Jesus estava meza quando Magdalena lhe abraou e ungiu de lagrimas os ps. No ha palavra na relao dos apostolos, d'onde possamos colher que melhor orar pelos famintos do que alimental-os. O contrario que l se diz; e quando Jesus nos faz assistir de antemo ao julgamento do dia final, exclama: tive fome, e vs me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de Bethania, e o louvor dado a Magdalena, no desluz o claro ensino do Evangelho. Este episodio prova smente que no basta alimentar os pobres, mas que tambem mister instruil-os como filhos de Deus, os melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que rigorosamente fazem as irms da caridade, e no fazem as contemplativas. III Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os outros? Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por momentos, mas que breve se ho de apartar, e talvez para sempre. Prestemo-nos de passagem alguns servios, mas por amor de Deus, sem nos ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vs que me ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vs sois? Tendes um ar angelical, meu irmo, mas o interior de vossa alma no o vejo; o semblante do homem enganador; a sua lingua atraioada, as suas proprias virtudes so perfidas. N'este mundo tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando, com certeza, ninguem pde fiar-se d'outrem! Que injustia querer um que o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se altera o genio, e ninguem pde fiar mais da durao de seus sentimentos que da durao de sua vida! Viajamos mascarados, s conhecidos de Deus, mas to occultos a ns mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal o sabemos, to fluctuante a nossa razo. Se melhor nos conhecessemos, a maior parte de ns se mutuaria rancores; em vez, porm, de se odiarem, os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio que os innubla, e que devra, se elles fossem discretos, afugental-os uns dos outros. Ah! no nos amemos, no nos amemos! Ai d'aquelle que d seus amores creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! sombra que abraa a sombra, o nada que se une ao nada. Amavel s o bem: o restante detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porm, no posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria de que Deus te perdora. Eu devo amar em ti, smente o bem occulto que ahi pde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predileco por alguma; porque esse bem occulto no provm d'ellas; e, se em ti existe--o que eu no sei, mas muito desejo--no procede de ti. No te julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria at culpado, unicamente porque s meu pai, e eu me lembro de ter dormido em teus braos. Mas estes momentos da natureza corrompida j eu venci. Nada me s. Tracto da minha salvao servindo-te e honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em si mesmo amar o peccado. Na outra vida no ha maridos, nem esposas, nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mes e filhas, irmos e irms sero separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos. No amemos ninguem, ninguem! J pde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se ns no cahiremos l tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de sentimentos corruptores. A ternura do homem um disfarce de odio; e mais valera que elle nos odiasse francamente. No amemos ninguem! ninguem! Pde ser que por ao p de ns andem condemnados, cujos nomes ignoramos. No amemos alguem, que nos no v sahir algum reprobo. Sou tua serva, meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te agradar o dever me forar a cumprir o que me pedires do corao, que no teu. So doentes os nossos filhos? Por que te assustas? So hospedes que te foram confiados, e que tu deves esperar vr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir, sem lagrimas. Quem sabe onde iro quando nos deixarem? Cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram na sua divina graa! o meu mais ardente voto; e, se mais alm eu fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vo ao co, hei de eu chorar-lhe tamanha dita! E se so condemnados.... No amemos ninguem, ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos s uma: Deus com os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais no merece uma lagrima nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do peccado, mas nada de nos amarmos. IV Discurso de um mundano, aps bastos estudos cerca da perfeio theologica Em continuo pavor do inferno viveram os santos: oraes, jejuns, cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao p da cruz, benos de pobres soccorridos por elles, perpetua immolao, indigencia de cella, ninhos de palha, alimento a po e agua, nem com tudo isto socegavam. Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores, pontifices--Mauricio frente da sua legio; Gregorio, o Grande, sob a tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens; Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroadas de pavor passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mos impollutas, nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina. Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que no mereciam a misericordia que to precisa lhes era. Ah! se a alma s assim se salva, perdidos estamos todos, meus amigos! Bem ouo o theologo que nos diz: No assim; a salvao ganha-se com menores trabalhos. Deus no exige que todos os seus filhos sejam egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Ests perdido como ns, tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos todos. Os exemplos que nos cumpre seguir so os dos santos, no so os vossos. Mostrae-nos na Legenda um s santo que subisse ao co pelo caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo, temendo, como eu, a miseria, a dr, as humilhaes, condescendente comsigo proprio, almejando viver no corao de outra creatura, chorando sobre as illuses esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. No encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam, bispos que fallavam verdade aos reis da terra, custa da vida at; ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo super-natural, tendo apenas de humanas os incanaveis escrupulos, os inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso, virgens lagrimosas e anachoretas angustiados. Vs, porm, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vs, que viveis regalados em quanto o Christo mendiga vossa porta; vs que tendes riquezas ao sol e riquezas sombra, quando na vossa parochia tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vs, que cubiaes a estola, a mura ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem, alm de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christos cujas imagens campam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e desespera-vos a perfeio d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes so mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que no vem do alto, que se enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio. Ai! que perdidos estamos, meus amigos! Que lucramos em fechar os olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado pelos labios, se no intimo do corao tendes a propria estima sempre desvelada? Que aproveitam as momentaneas converses, seguidas de quedas mais desastrosas? Que vos fazem certas privaes associadas a tanto regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos! Ora pois, se assim , se o abysmo est aberto e o cahir irremediavel, cerremos os olhos e no cogitemos mais em tal. Entre o co inacessivel e o inferno d'onde no ha mais sahir, resta-nos um momento s: gozemol-o, meus amigos. Que isto de estar a gente a empeonhar, com terrores vos, prazeres, to raros quo fugitivos? No pensemos no que ser; pensar n'isso e desesperar a mesma coisa: desesperar de entrar no co, e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria. Quem ahi o sandeu que falla em inferno? No ha inferno, minha me! Conclue em paz os teus dias extremos. No contristes com vises pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleam antes de ns. Ride, meus filhinhos: a vida vos ser breve e repleta de miserias, quando crescerdes. Eu desejo, senhora, que a minha casa seja manso de jubilos e no de tedios: quero ser amado pelo que sou e no por caridade; quero ser obedecido amorosamente e no com submisso de escrava; alis, buscarei quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! No ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi mo. Enche-me o copo, e dorme placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, at morte; que da morte para alm comea o odio! Ah! que bizarra inveno no foi esta do inferno! Um abysmo para onde naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha, cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa perspectiva para que faamos da terra uma estancia de delicias peccaminosas! V O rebanho Se no fosse preciso crr na eternidade do inferno, e no pequeno numero dos escolhidos, e na inevitavel condemnao da maior parte dos homens, eu odiaria como vs os prazeres da vida; o sermo de Jesus na montanha se me figuraria mais bello e intelligivel; eu entenderia a felicidade das lagrimas, as delicias da pobreza e a doura de todos os sacrificios. Quando, porm, se me diz que no bastante haver chorado e soffrido muito n'este mundo para ganhar o perdo divino; quando se me diz que nada vale affrontar a ira dos tyrannos, defendendo, a verdade que os fere, ou o direito que elles avexam; quando me dizem que nada monta morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela sua independencia; quando me dizem no importa nada envelhecer na miseria por haver preferido a honra s honras, o estudo opulencia, o trabalho aos prazeres; quando me dizem que tudo isto fumo, que estas dores, esta coragem, privaes, heroica vida, heroica morte, no podem resgatar minha alma d'um peccado mortal, e aos olhos de Deus no valem o cilicio d'um frade, ou a confisso de um salteador agonisante; ah! confesso que, ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos christos, no entendo o sermo da montanha, e pelo contrario comeo a comprehender os prazeres d'esta vida. Vdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vo arrostar as ondas do oceano, e vogar, por dias, semanas e mezes, longe da praia, merc das tempestades para ganharem, custa de mil perigos, o po de seus filhos? Vdes aquelles telhadores na aresta do vigamento? aquelles mineiros sepultados nas entranhas da terra, longe dos raios beneficos do sol? Vdes o lavrador curvado sobre o sulco? o pallido tecelo diante das machinas devoradoras? tanto operario sem nome avergado ao pezo de um trabalho ingrato e sem descano? Pois a maior parte d'aquelles condemnada, por modo que os seus soffrimentos n'esta vida so preludios dos que l os esperam na outra. Aquella me que no pde vestir seus filhos, e que relana olhares invejosos ao palacio visinho, onde os cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella;--aquelles mendigos que vagamundam nos campos; os orphos que se recolhem aos hospitaes; os soldados que marcham para as fronteiras; os proscriptos esquecidos no solo estrangeiro, condemnados, quasi todos condemnados, meu Deus! Um repleto conego, risonho e bochechudo, sem familia nem cuidados, repastando-se quatro vezes por dia, mas sem escandalisar ninguem, baixando a vista em presena das mulheres, pontual nos officios, est mais visinho do co que todos aquelles desgraados; e mais perto ainda do co est um sancto anachoreta. Chorar, soffrer, trabalhar no nada. Se choram, no choram as suas culpas, a miseria dos filhos; se trabalham no por penitencia, mas sim para grangear commodidades. Lagrimas de Babylonia, diz S. Agostinho. Avidos suores, vs angustias! Muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermo da montanha, e elles nem o comprehendem nem jmais o entendero. bem de ver que no vivem maneira dos santos legendarios, nem dos conegos prebendados. Os que sabem lr pouco lem, falta de tempo. Muitos no vo egreja, e os que l vo sahem como entraram. So profundamente ignorantes. A dura necessidade dobrou-lhes a cabea sobre o torro que regam com o seu suor; e a natureza, que lhes brada das entranhas da terra, diz-lhes cousas que elles percebem mais a preceito que os sermes. O estridor e o vapor das materias da sua obragem cega-os e ensurdece-os. No sentem fome nem sde da palavra divina, qual lh'a ensinavam algum dia. Digam-lhes que um eremita vae melhor do que elles, por que abandonou officio, casa e parentes, e todo se vagou salvao da alma, e que ha vinte ou trinta annos resa, jejua e se disciplina, dizei-lhes isto que elles vos desfecharo uma gargalhada; mas, se ao mesmo tempo passar um soldado de bigodes brancos, ou algum recruta aleijado em Africa ou Italia, ou algum repatriado do desterro, em vesperas de para l voltar, se a occasio o exigir, elles o saudaro respeitosamente. Que apparea um velho sem occupao, uma viuva com filhos maltrapidos, e elles se fintaro para soccorrl-os. Contae-lhes casos de bemfazer e lanos de gratido, vl-os-heis commovidos. As virtudes d'esses infelizes so, para assim dizer, selvaticas, probidade orgulhosa, amizades humanas, mas apuradas at abnegao, instinctos lucidos do que grande e formoso, mas formoso e grande pela craveira das coisas d'este mundo. De par com isto ha falhas, e at crimes. Impacientam-se, praguejam, largam a redea aos desejos, porque, no seu modo de pensar, se no ganham, tambem no perdem. Vivem beira das charruas, das crtes, das forjas, e nas abegoarias. Este viver influe-lhes na linguagem e nos costumes. No tm alma que se ale longo tempo e ao alto sem que as azas lhe falleam: que pezam n'ella os cuidados terrestres. Ventilam problemas que no podem resolver. Desconsolados do seu destino, perguntam porque ha ricos e pobres, e porque, no outro mundo, sero condemnados, depois de tanto haverem trabalhado e gemido n'este? O inferno no os apavora muito mais que a morte. Affizeram-se desde a infancia vaga ida de que ho de ser condemnados, seguindo a trilha commum da vida; todavia, apezar do proposito feito, nem por isso um terrivel pezo deixa de lhes aggravar o fardo das dres quotidianas. O sino que dobra, o sahimento que passa, o doente que vae para o hospital, o pedreiro que cae da parede, o obreiro apertado entre o encaixe de uma roda e triturado nos dentes d'ella, os terraplenadores sotterrados nas saibreiras aluidas, os marinheiros comidos pelas vagas, o typho que devasta um bairro inteiro de operarios, mulheres sem maridos, paes sem filhos, filhos sem mes, tudo isto por vezes lhes relembra o Deus rancoroso que lhes prgam, e as surprezas da morte, e os perigos de sua precaria existencia, e com as miserias que findam outras que principiam, para nunca mais acabarem. Este povo assim como um rebanho que se leva ao matadouro, aguilhoado pelos pastores, lacerado pelos ces, atormentado pelas moscas, canado, sanguento, sequioso, abatido, estupido. Compadecei-vos, pois, d'esses que nunca vos daro bons ermites. No ha, por ventura, um ideal mais aceitavel e ao mesmo tempo mais puro que lhe mostreis? No ha seno esse a que aspira o ente sem familia, sem ligaes e cuidados d'este mundo? Se, ao menos, podesseis annunciar-lhes a justia de Deus sem os assombrar! No so j de si que farte mysteriosas e raladoras as dres d'esta vida? No ser de mais rematal-as com o terribilissimo mysterio do inferno? Pois se tendes a certeza que sero condemnados no trem de vida que levam, deixae-os respirar, e beber, e rir e danar, em quanto o animo e tempo lhes no faltam; que a desesperao poder leval-os a peores excessos. pobre genero humano! Ser preciso que o Christo desa segunda vez do co para te instruir, e que outra vez seja vindo e crucificado para salvar-te? CAPITULO QUARTO OUTROS FRUCTOS DO INFERNO O mal que produz o inferno.--Incredulidade, desalento, desesperao Esquadrinhando o bem que procede do inferno, j divisamos o mal que produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo, extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o mais pelo miudo. No perderemos o tempo. facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de co e inferno que das precises, interesses, prazeres e dres da terra. A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio seno ser assim? Pois acaso pde toda a gente retirar-se ao deserto? Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram abolidos? Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas, todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de viver, no viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperana do ceo no bastaria a contrabalanar os effeitos de tal susto, mormente quando nos affianam que a porta do ceo estreita, e que o inferno tem milhares de portas sempre abertas. medida que esta crena se incutir nas turbas, assim ellas ho de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio, sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e angelica fr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a ho de considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-ho os ouvidos ao vosso apostolado, e ninguem querer sequer aproximar-se d'aquella perfeio immaculada, que smente florece em estufas claustraes, que se desbota ao leve bafejo do homem, e s est ao alcance de ociosos. Se no inferno to smente fossem castigados certos crimes monstruosos e excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justia de to exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era applicada a pena. Porm, se vo s chammas eternas o avro, o gloto, o preguioso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar, pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde comea a avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde comea a lisonja? e a usura? e os limites da temperana quem os abalisou? Occasies, tentaes e perigos em tudo! A questo no saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem nega que os haja;--o que se tracta de saber se racional e discreto, e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou qu de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeies, menos desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos revezes e resignado nas desgraas? Quem se cr assaz justo, caritativo e perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpo seria peccado capital, at nos conventos, at para os anachoretas envelhecidos em abstinencias e oraes. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que um acto licito descahe no illicito; que dse de alimento quadra sua saude, e onde no rico principia o superfluo, que o necessario do pobre. Para que vem seis pratos meza? Se um basta, para que so dois? A regra onde est? Cautela! esse copo que chegaes aos beios risonhos, em vez de vos apagar a sde, vae abrazar-vos em sde eterna. Cautela! Theologo nenhum poder dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos cumpre no dar; e o caso que, se vos enganaes com tal incerteza, folga o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, no disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer no conhecemos? Estas e outras mais terriveis cousas podeis lr no _Quotidiano do Christo_, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda em mos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha s duas cousas: a condemnao, se nos enganamos, e a absteno para nos no enganarmos. Mas a absteno no viver. Viver a actividade inteira, incessante, e arriscada a peccar. lei do genero humano viver e perpetuar-se. No nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada passo lhe apontam aberto um alapo do inferno. Vivem os homens n'uma especie de indifferena religiosa que os avilta, movidos unicamente por suas paixes, e apenas enfreados pela justia temporal. Fra com isso do futuro! fra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clares, e os ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa inteira vida, todos os desejos e pensamentos. effeito imprevisto, porm real, d'esta medonha crena induzir ao materialismo, no theorico, mas pratico, a maior parte dos que no leva ao ascetismo: attasca na lama os que no transvia nas nuvens; faz que se rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, esto innocentissimos: no ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio coisa que ahi no vislumbra. O instincto que desde tempos esquecidos, e no de ha pouco, nos propendeu quelle cego materialismo: a necessidade de arrostarmos com uma crena mortifera; a vida que resalta d'entre as mos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este desbordar de toda a frma surdem os excessos. J no lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece so os fracos; os fortes vo mais alm: escarnecem-no. Anda j por ahi o diabo cantado, e do mesmo feitio o inferno, e o co com os seus moradores. E de taes canes vendem-se tantos exemplares como dos _Canticos de S. Sulpicio_: antiquissima impiedade, de que ha vestigios, no s na Grecia pag, mas tambem nas fabulas da edade mdia, e at nas paredes das vetustas cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de seiscentos annos, o _Inferno_ de Branger. A ironia mascarava-se ento com tregeitos beatificos; o impudor, porm, no se disfarava nem se constrangia. Os lamuriantes da edade mdia talvez digam que, apezar das galhofas audazmente esculpidas nos portaes e cros das egrejas, esses antigos imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, no foliavam, tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellos e castells, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, verdade. Mas circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou. A mesma educao religiosa no produz continuamente identicos phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os usurarios, os prodigos e os ladres, os famintos e os repletos, os invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo da alma guardam elles as supersties das amas: que farte o denotam na vida, e principalmente na morte. Em quanto so moos, ageis, febris de saude e esperana, repulsam uma crena que lhes tornaria maldita a mocidade, a saude, a fora, a razo de todas as dadivas do co. Quando caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que j no tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram facilimas. chegada ento a hora e situao conveniente para intender a moral do inferno, que a privao em tudo e por tudo,--a morte na vida. Singular crena que no infra o maior numero de homens, quando o freio lhes mais preciso; e quando o retl-os j inutil, e mais necessaria lhes seria a esperana, ento, entrada da sepultura, lhes sahe espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros males, a crena no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece. Melhor esquecel-o maneira das turbas, que pensar demasiado n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabea roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos, defendido ou no, que faz? L no inferno no estaremos melhor nem peormente; a eternidade no ter hora menos ou hora mais. Constrangermo-nos para qu? No ha termo medio entre o bem e o mal absolutos. Tudo que humano mau: foroso ser anjo ou demonio: seja-se diabo, que mais comezinho. Vde-me uns frades, padres, devotos, freiras, que a desanimao avassalou: no ha peores peccadores; rolam cada vez mais ao fundo, e vo-se consolando com as delicias que topam na sua queda. Um peccado de menos, que na conta que ho de dar? Chegados a tal extremidade, qualquer boa aco lhes ser v. Como no podessem abster-se de tudo, os desgraados j agora no se abstem de nada. Esta desesperada crena precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem surdido mais libertinos que ermites, mais blasphemos que santos, mais loucos que ajuizados; e, em verdade, mister que o christianismo entranhe vivacissimos embries, esplendorosissimas luzes, e poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, influencia de taes doutrinas. Tirae-nos, por favor, esse inferno to fatal aos que o recordam como aos que o esquecem. verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas teremos mais christos. No purgatorio ser util pensar, comprehender-lhe a justia, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se facil sacudir o jugo de uma revelao sobrenatural e inintelligivel, por mais beneficente que ser possa, no facil desprendermo-nos de idas excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam. CAPITULO QUINTO OS CINCO GRUPOS Diviso da sociedade em cinco grupos Examinemos as coisas mais beira. A sociedade no toda formada de uma pea. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada, podmos dividil-a em cinco grupos. 1. O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se chamam--sugeitos que systematicamente regeitam a revelao, e por consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos, graves e tractaveis com honra e confiana. 2. Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os philosophos, est o grupo dos biltres professos, individuos relaxados, bandidos convictos, corruptos, desesperados. 3. Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas, mas entre si equidistantes, est o grupo immenso e indecomponivel dos indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos pachorrentos--turba sem piedade nem philosophia, sem prtica de casta alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou menos descanados--guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros de districto, e o mais. Estes so uns christos que s vo egreja quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias de _Te Deum_, quando a posio official os obriga. 4. Ao lado e um tanto superior a este, est o grupo menos numeroso dos devotos; no dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes, mas dos esforados em praticar e que praticam, assim, mas com desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vo missa nos domingos, confessam-se s vezes, e do do seu gremio as irmandades e as confrarias. 5. Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christos, dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus. Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita s pessoas que formam aquelles differentes grupos. I O grupo dos philosophos Os philosophos crem em Deus, crem na liberdade e immortalidade da alma, na justia, em todas as noes moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades. Em revelaes sobrehumanas que no acreditam. Ora, ameaas de inferno convertero tal gente? De quantos mysterios regeitam, o inferno o mais incrivel; e tanto que irrita a propria f, que, s abdicando o uso da razo, se submette. Dos philosophos no ha que esperar similhante sacrificio. Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vs. II O grupo dos corruptos Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Est com isso a sociedade mais segura? E tal crena de que lhes serve a elles? O que os incommoda no o diabo, a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno. V l!--dizem elles--venha o inferno que no nos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos l d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e no queriam rossar-se por ns! Havemos de vl-os l, mais apoquentados e castigados do que ns, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que ho de ser to condemnados como ns. No ha dois infernos, parceiros; ha um. L nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrives, dos jurados e melhor ainda--viva a patuscada!--com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! tentador l ir com tal sucia. Tal o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justia, que nenhuma proporo gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida. III O grupo dos indifferentes, etc. Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo qu, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, no se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zango; mas perfeito ahi no ha ninguem; ninguem ahi vive em graa; o melhor do rancho aquelle a quem Deus, no dia do juizo, s accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse s peccado na consciencia, o melhor do rancho ser condemnado. Se o roubo e o homicidio so raros n'essa assembla, no procede isso do medo do inferno. Ahi bastante motivo para condemnao uma folha de papel escripta, um sim apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor--amor no peccado, meu Deus!-- de todas as condemnaes a que mais piedade desperta. Porm, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora at ao escurecer, desde a noite at ao dia, todos se condemnam a bel-prazer. Distinguem-se l os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga at com eternas penas, quando elle s quem pune; recua-se, porm, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. No se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi manifestamente esteril similhante crena. O que se teme o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificaes vulgares, mas terriveis da opinio e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material no os conter sempre quando a paixo os espora. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cada e at a forca, se a forca estivesse s escuras; porm a vergonha, o estrondo da queda, para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e no ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; no lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua me ou de seus filhos, e tremem de se vr baralhados com creaturas devassas que so mos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento. Ha d'elles, porm, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinio. Esquivam-se, no do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforo. Educao e habitos fortaleceram esses bons instinctos. No so perfeitos, mas so probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que no sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se c; mas foroso aceitar os indifferentes quaes so; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura no movel nem empo: uma coisa esquecida. IV O grupo dos devotos Ser medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiarem, como javardos, no lamaal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de per si sejam insensiveis honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das gals e at da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ral, se no receassem a condemnao? Se ha ahi tal raa de christos, confesso que eu no confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia to curta que os meus pobres olhos no na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, vista do inimigo, olham para traz e s marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os no vigiaes, eil-os que desertam; e, at quando se batem, albergam a perfidia no corao. Pois bem: aquelles devotos so peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles smente receiam o fogo eterno, uma pena qual se foge mediante a confisso. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraioam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por uma _ma culp_. Desgraadamente certo que a crena no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para l dos montes, e bem pde ser que mesmo c; seno vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no bero para se forrar ao incommodo de os crear; mas provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim no quero chamar christos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christos em uma serra por noite de luar. A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; so creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar; no roubam nem matam por que a forca os embaraa, e a opinio dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mdo ao crime que aos castigos correspondentes. Taes so os meus devotos. Devotos denomino eu todos os leigos que no duvidam, nem so indifferentes, nem se esquecem de ir missa, nem deixam de confessar-se _ao menos uma vez cada anno_. verdade que eu no os incampo a ninguem como anginhos j cosinhados para a canonisao. Se elles no andassem por igrejas com tanta regularidade, no sei bem como estremal-os, quanto ao seu proceder, do bando dos indifferentes. No so elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde est o idolo do dia para o saudarem, nem tambem so os ultimos a apedrejar o idolo da vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes no attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos! Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento prestam fora, e at, com medo de se enganarem, s apparencias da fora! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiezinhas, que exemplarissimas ingratides! No os accuseis de hypocritas, que elles so sinceros, no fazem momices, vo s procisses com a melhor boa f, assistem s festas do Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoo medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua boa f em medalhas, bonito vl-os, em sua casa, evitar o escandalo com melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degro da escada, ahi por perto do altar: vereis o conego s ms com o deo; o sineiro bate na mulher; o sacristo tem m lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho, e d cabo d'ella; outro, sobre-meza, faz-se truo de chalaas de ebrio; e de natureza tal, que a mulher por certas razes no admitte em casa creadas que no tenham edade e figura bastante canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; l est um que rico, mas economico, e d'isso esto os pobres tristemente convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os peccados de occasio, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o commum dos indifferentes do commum dos devotos. Quereis subir ao primeiro degro da escada? Luiz XI era devoto; Diana de Poitiers era devota; Brantme devoto era; tambem era devota aquella regente de Frana que empregava as suas damas a seduzir, quero dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farolas, os bandidos, os abbades galans e os abbades demoniacos, os avros e os glotes, os orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos esses tinham bancada na egreja, iam aos sermes e discutiam ardentes sobre a materia da graa. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na crte, cuidava em salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, sexta feira, uma aza de borracho; o que ella ento comia era salmo, lagostins, esperregado e pastelinhos de leite. Madame de Svign, uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os _Contos de La Fontaine_, e ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada fosse n'essas coisas. Quem desgraadamente pensava muito n'elle, enterrava-se no claustro, como Mr. de Ranc e M.elle de La Vallire; mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruasse a espreitar o tal abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa; encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar a todos, inclusiv a Deus, dando-lhe a vr com infinita habilidade, espectaculos de devoo, de jogo, de ambio e... do mais. O tempo e as revolues que tantas mudanas tem feito, no mudaram o corao humano. Os devotos no so tantos como d'antes, mas so da mesma estfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxao extrema em fidalgos e populaa; sde ardentissima de enriquecer; sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixes eriadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que os conhecia, e os demais prgadores assim antigos que modernos, disseram d'elles mais mal do que eu. O que sei que o medo no faz bons aquelles que o bem, s de per si, no convida. O pejo do peccado poder restaurar os cahidos; mas o medo, depois do peccado, de todo o ponto inutil. No esqueamos, porm, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes, sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a modesta misso que lhes quadra sobre a terra. So bemfazejos em pequena escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam at visinhana; e, se por vezes, a mo caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde est a maior formosura e grandeza de sua misso. Estes devotos no se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos; o que os differenca o serem esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. No so rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do que nas mos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas. D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia, o pudor, a sobriedade, como vs amais a justia. E, comquanto no descream do eterno fogo, a luz que os guia no esplende do inferno, vem de cima; no ceo que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vo alentados pela esperana e no pelo medo. V O grupo dos santos Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeio, as irms da caridade, os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos, ignorantes; quantos sacrificam, no esterilmente, mas s nossas precises, seus teres, belleza, juventude, affeies domesticas, vigor, saude, esperanas e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos esses crem no inferno; mas no so regidos por tal crena; nada tem que vr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, no por que Deus vingativo, mas antes por que Deus perda; e esta crena verdadeiramente salutar uma das mais affectivas maneiras de amar. Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se fecha chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as portas. Quem envia ao martyrio os missionarios o amor; quem d me a orphos, filhas aos ancios, irms aos soldados feridos, mestres aos aldeos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos transviados, o amor. Todo bem feito n'este mundo o amor que o faz; e este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua fecundidade e bemfazeja energia. Permittam-me uma hypothese. D-se que um Concilio ecumenico se ajunta manh, e declara, depois de haver invocado o Espirito Santo, que o inferno no perpetuo, e que a palavra eternidade, applicada ao castigo dos peccadores, significa to smente pena de infinita durao. Que ha de seguir-se a similhante proclamao? Imaginam que a irm da caridade se retira logo do grabato do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o benedictino, sacudindo o p dos livros, se precipita na Bolsa? Que o joven lazarista, repatriando-se de regies remotas, venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa f que as irms da caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que ida formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram? Consoante ao vosso modo de as julgar, a irm da caridade diria: Ah! Deus no implacavel? Ento fui louca em amal-o. Deus no condemna irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que! n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, no hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que d'ento dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque; ancios, procurem quem os alimente. Orphosinhos desamparados, vs pensaveis que ns eramos vossas mes e irms; cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros soffredores de Jesus Christo, nosso modlo e nosso Deus. Desenganai-vos! desenganai-vos! No era por amor que vos amparavamos, era por medo que vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos que nos escondieis volupias da terra, mas no as dres, abaixo! A pureza no enlevo que nos contenha; gemidos de pobres no nos engodam; queremos ter vez na taa do peccado; bebamos, que a vida curta e o inferno ha de acabar. No ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem s irms da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido o dogma salutar da justia divina; ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio, e que a sanco da moral est nos gosos e dres deste mundo, as irms da caridade no fallariam assim. Se um concilio sahisse com aquellas decises, regulal-o-hiam ellas. Como que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de durao ignorada, sempre consoantes natureza e circumstancias do peccado, s luzes e costumes do peccador,--como que este dogma to racional, certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o amor tem mais dominio que o medo? Crde-me que isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes no conhecer; crde-me. Se a Igreja manh proclamasse a temporalidade das penas, nenhuma irm da caridade deslisaria da sua fileira, nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria menos de invejar. Vr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao p do altar, em um mesmo consenso de aco de graas, cantarem do fundo da alma: _Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in ternum._ FIM DA PRIMEIRA PARTE. SEGUNDA PARTE O INFERNO CONSIDERADO LM-TUMULO, OS CONDEMNADOS NA PRESENA DE DEUS, NA PRESENA DOS SANTOS, E NA PRESENA DOS HOMENS. CAPITULO PRIMEIRO O INFERNO DE PLATO At agora consideramos o inferno smente em relao aos resultados moraes que a crena de sua existencia tem produzido, produz e produzir sempre n'este mundo. J demonstramos que esta crena, fatal a quantos se compenetram d'ella, inerte para os demais: inutil aos verdadeiros virtuosos, por que no tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao mal que no fazem; inutil aos devotos e indifferentes, por que no os estorva de commetter basta dse de peccados mortaes; e pelo que toca aos peccados que no commettem, tal absteno explica-se em louvor d'elles, por motivos totalmente independentes das penas infernaes; inutil para os philosophos, visto que estes a no acceitam; , emfim, inutil aos scelerados, por que os no impede de ser scelerados; e, de mais a mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a empedernil-os na perversidade. Falta agora considerar o inferno, no em referencia terra, mas pelo que elle em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto , nas suas relaes com Deus, com os predestinados e com os reprobos. Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opinies de Plato cerca da justia divina e do inferno. Ser isto, a um tempo, entrar no assumpto, e responder aos theologos que, mingua de razes, invocam de vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as idas do antigo paganismo e nada mais. A opinio de Plato, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho, ostenta-se mais respeitavel e seductora. mister, no dizer de Plato, que um castigo seja razoavel para ser justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas precisa: ou que o castigo aproveite ao castigado, ou s testemunhas d'elle. Partindo d'este principio, Plato no prodigalisa, feio dos nossos theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a grande virtude das penas temporarias. So estas, em verdade, dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigem o culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras no corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem: logo so menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da sua justia; digamol-o em pouco: so menos divinas. Eis-ahi porque Plato avro das penas eternas e perdoa ao maximo numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e purificando-os em suas proprias lagrimas, excepo dos oppressores dos povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da lei commum. Para estes elle durissimo; eternisa-lhes as dores; todavia, os deuses no podem ser accusados por isso de inutilmente rigorosos. De feito, se a tyrannia o maior dos crimes, e o unico expiavel, porque a liberdade, que ella anniquila, o maior bem que os deuses nos doaram, unico impossivel de substituir; porque, na sociedade escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria e virtudes. Tal o senso intimo do castigo excepcional que Plato applica aos tyrannos. Bastantemente est explicado a superioridade do terrivel castigo; mas o que no se explica a razo da sua perpetuidade. Plato suppunha-o eterno porque no sabia, como ns, que a humanidade tem que percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de acabar. Eternisava elle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por suppr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. No ha outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema. Foi, porm, esta justificao do inferno destruida por Christo, o qual nos annunciou que todo o genero humano , como cada homem, um passageiro na terra, e que um dia vir em que esta esphera que habitamos, e estes astros que nos alumiam, se sumiro no espao como a poeira que o vento da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados, quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos impeccaveis? O inferno dos theologos no , pois, identico ao inferno de Plato: o de Plato devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia, ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade j lh'a ns presentimos. Indagamos a razo d'uns padecimentos improficuos victima, ao juiz, a todos. O corao protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito. Cra a gente s de o crr. Como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que s vezes, ao menos, adormece sobre a preza. S pensar n'isto gera o atheismo na alma. Erradamente, pois, se invoca, em pr de similhantes castigos, o testemunho de Plato, que se horrorisaria d'elles. Plato no condemnava o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa malograda; mas bem pde ser que elle condemnasse inflexivelmente S. Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Alm de que, elle tinha, para admittir um inferno sem fim, razes que no temos; e ns, para o rejeitarmos, temos razes que elle ignorava. CAPITULO SEGUNDO Opinio dos pagos sobre a situao e vista interior do inferno Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regies subterraneas, a ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam at que havia l fetidas lagas, em uma das quaes estava Tantalo atascado at aos queixos sem poder apagar a sde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vo se esfalfavam por galgar. Contavam a historia de alguns desgraados assim, e as particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os pacientes no tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era no poderem jmais viver vida carnal luz do nosso sol. Isto contavam-no elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao Tartaro, e de l tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poos d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno. No eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis, o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi, que, segundo consta, quer dizer _paiz da noite_, esto o co de sete cabeas e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gndaras, e todas as figuraes do mundo devastado. Tem setenta e cinco circulos, e entrada de cada circulo um genio armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em frma humana, outras com frmas immundas, com cabeas de aves de rapina, pellagem de fera, e garras de reptil. O pavimento sangue. Estrondeiam os gemidos. Pendem os condemnados dos ganchos maneira de carneiros no aougue, ao passo que outros, ainda palpitantes, so mergulhados em caldeires ferventes. Uns vo fugindo, com os braos estendidos, e a cabea quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mos o corao que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado. Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisaes, e, por consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o mundo invisivel para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel. Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as suas idas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e clima. Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela. Nas esplanadas da India, onde no ha inverno, e onde as populaes, languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que certos sitios do Naraka esto cheios de mosquitos, de serpentes venenosas, de escorpies horriveis, de tigres, de abutres e de todos os flagellos proprios d'aquellas regies ardentes; e que os outros circulos so o theatro das mais requintadas torturas que ainda pde conceber a malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotes so condemnados a comer calhos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos so apertados nos braos de estatuas de ferro em braza. Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela tradio em que ponto da sua terra est situado o Naraka e a que profundeza se encontra. Mas no podem os mortos encerrados ahi achar os limites e as portas d'aquelle inferno. No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, no ha fogo. Essas antigas naes do norte gostam tanto de calor, que no poderam consideral-o um supplicio; pelo que o seu inferno de neve, onde ha o tiritar, a fome, a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos condemnados que ahi vo. Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexes moraes que ella suscita vo breve ser applicadas na descripo do nosso proprio inferno, que na essencia no se distingue dos infernos pagos. Porm, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante d'este. CAPITULO TERCEIRO Opinio dos judeus cerca da vista interior do inferno. Sabido que o Antigo Testamento muito sobrio de revelaes do inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos tendentes a estabelecer aquella crena entre os hebreus, antes da destruio do primeiro templo. Os saduceos, que juravam smente pela Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da bcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica. Todavia, Abraho era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo estanciado no Egypto;--isto d a crer que os seus descendentes deviam possuir, antes de exilados em Babylonia, parte dos conhecimentos que os escripturistas registavam. No exerciam os prophetas um ensino mystico, e no conservava o povo tantas tradies grosseiras contemporaneas de Moyss e talvez anteriores? As passagens respigadas na escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam inexplicaveis, se no se lhe referissem; mas seriam egualmente inexplicaveis se o povo no tivesse, para intendel-as, mais luz da que lhe do essas passagens. Estes trechos no encerram doutrina secreta dos prophetas, respeito vida futura; contm mais referencias que revelaes crena vulgar e formalissima do inferno. O nome Ghenna que l do paragem das expiaes futuras, no era estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe no fogo victimas humanas, e, s vezes, seus proprios filhos. N'este sitio, tambem denominado _Trophet_, ou logar horrendo, eram lanados os cadaveres dos justiados e os despojos dos animaes. Este valle maldito, sagrado pela superstio aos deuses sanguinarios, juncado de carnes putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa, no j em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na mesma fogueira; os mos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram immorredouros como as suas pras:--idas positivamente exprimidas por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso. egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, to pouco iniciados at ento andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam, davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porm, depois que os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noes eram mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas esclas do Carmelo e de Galgala. Vamos vr quaes so as noes no contidas no Antigo Testamento, mas traadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias, S. Joo e outros apostolos escreviam, j se haviam derramado na Judea, quinhentos ou mais annos antes. Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regies, que comprehendiam o paraiso e a ghenna. A ghenna, objecto d'este estudo, era contada no numero das sete creaes anteriores ao nosso universo. similhana do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de diversos circulos, mas s tinha sete, correspondendo aos sete dias do Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia ghenna superior e ghenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte, os peccadores dignos de perdo: uns ficavam no sexto, outros no quinto, outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou leveza dos seus peccados. Trezentos e sessenta e cinco degros, correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porm, os grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam, sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na ghenna inferior, d'onde no ha mais sahir. frente de suas legies ahi os recebia Samael, e ento lhes comeava o perpetuo supplicio, o insulto dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da sde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos agonisantes no deserto[5]. Taes eram, em resumo, as opinies da synagoga cerca do inferno. Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum para espiritualmente se reproduzir, professavam outra. O inferno d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estaes em climas deseguaes. Agora vejamos o inferno dos nossos theologos. [5] O inferno mahometano copia do judaico, mas copia singularmente alterada. O anjo Trakek quem l governa. Ha l chuva de peonha. Chama-se Ghenna e divide-se em sete circulos. Porm, exceptuado o primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros pertencente a cada uma das religies diversas que precederam o islamismo. Estes hereticos esto portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de sua antiguidade: os christos no segundo, os judeus no terceiro, os sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto. D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi o verdadeiro inferno; mas o primeiro, o circulo de honra dos crentes, purgatorio, no dizer dos doutores. CAPITULO QUARTO O INFERNO DOS THEOLOGOS POR DUAS FACES VAMOS VER O NOSSO INFERNO; PRIMEIRA A MATERIAL, DEPOIS A MORAL I O inferno material So puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem considerar-se os condemnados no inferno, por quanto s a alma d'elles l desceu, e os ossos restituidos terra se transformam continuamente em hervaaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas continuadas methamorphoses da materia. Tanto, porm, os condemnados como os santos ho-de resuscitar no dia final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo corpo com o qual passaram entre os vivos. A distinco d'uns a outros que os eleitos ho de resurgir em corpos purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados pela culpa. E de ento ao diante no haver smente puros espiritos no inferno; mas sim homens como ns. por consequencia o inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que ho de povoal-o creaturas terrestres, dotadas de ps, mos, bcca, lingua, dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos sensiveis dor. Onde est situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas da terra; outros em certo planeta que eu no sei; mas a questo nenhum concilio ainda a resolveu. A este respeito tudo conjecturas; o mais que se affirma que o inferno, seja onde fr, um mundo composto de elementos materiaes, mas no tem sol, nem lua, nem estrellas, e mais triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos. No se arriscam os discretos theologos a pintar, similhana dos egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa manso; limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias, aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaas de Thophet, e os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando e ringindo os dentes, segundo a expresso dos evangelistas. Santo Agostinho no concede que aquellas penas physicas sejam simples imagens das penas moraes; contempla em um verdadeiro lago de enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniadas sobre todas as partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulceraes do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo, posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os conservar como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas e sempre viventes, sentiro a dr d'aquelle fogo que queima sem destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a medulla dos ossos e as pupillas dos olhos at as mais occultas e sensiveis fibras do seu ser. Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulco, sentir-se-hiam ahi refrigerados e consolados. D'esta arte fallam com toda a segurana os mais timidos, os mais discretos e reservados theologos; no negam, porm, que no inferno haja outros supplicios corporaes; smente dizem que no tem d'elles um sufficiente conhecimento, ou pelo menos to positivo como aquelle que receberam cerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados que nos do descripes mais miudas, variadas, e completas do inferno; e, bem que no saibam em que local do espao tal inferno esteja, consta-lhes que alguns santos o viram. De certo que estes santos l no foram com a lyra em punho, como Orpheo, ou com a espada na mo, similhana de Ulysses: baixaram l arrebatados em espirito. D'este numero Santa Thereza. Quem l a relao d'esta santa cuidar que no inferno ha cidades. Pelo menos l viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das graas que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, no podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de p, nem safar-se; que estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaos. E sentia-se arder, e no havia genero de afflio que no experimentasse. Esperana de soccorro, nenhuma. volta d'ella tudo escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda visinhana: espectaculo que lhe era to intoleravel como as intalladelas da priso. Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno. Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e at Roma, com os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados, mercadejando no balco, padres misturados com meretrizes nas salas dos festins, hurrando nas suas poltronas d'onde no podiam arrancar-se, e levando aos beios, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas; validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mos postas, e principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois, tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo, dispersavam-se em bandos pelos horisontes fra em cata de terras mais ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de condemnados. Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas gementes, poos sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue, turbilhes de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em mar sem praia. Em fim l viram quanto os pagos tinham visto, o reflexo lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrando n'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas proprias mos forjaram. Ha com effeito l n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos, para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas de morcego, pontas, coiraas escamosas, griphos e agudissimos dentes. Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo isto durante a eternidade n'uma especie de aougue e cosinha da carne humana. Ha outros transformados em lees, e viboras enormes, arrastando as pras em solitarias cavernas. Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos padecentes, em quanto outros se transformam em drages volateis, e vo carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos espaos, e as precipitam no lago de enxofre. Alm se v nuvens de gafanhotos, e de agigantados escorpies, cuja vista arripia, cujo cheiro enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acol esto os monstros polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque so immortaes. Estes demonios de frma sensivel, recordando to ao vivo os deoses do Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios no funccionam toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter n'este mundo. So os condemnados punidos em todos os sentidos e orgos porque offenderam Deus por todos os orgos e sentidos. Os comiles so punidos de certa maneira pelos demonios da intemperana, e d'outra maneira os calaceiros pelos demonios da preguia, e ainda d'outra maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, so tantas as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles at na fogueira tero frio, e no gelo se sentiro arder; estaro vidos de descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os martyres, e assim para todo o sempre. Nenhum demonio se desgosta nem desgostar jmais do seu terrivel officio; n'esta parte so elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na execuo das ordens vingativas que receberam. Se no fosse isso, que seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os outros se desavm; e posto que sejam mos e muitissimos, os demonios harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca na terra se viram naes mais submissas a seus principes, exercitos mais doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientes a seus prelados. Nada se sabe da ral dos demonios, d'essa canalha de espiritos villos que formam legies de vampiros, de sapos, de escorpies, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem nome que constituem a zoologia das regies infernaes; mas so conhecidos de nome muitos principes que commandam aquellas legies, entre outros Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe das moscas geradoras da podrido, e Mammou, o demonio da avareza, e Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o chefe universal, o sombrio archanjo que no co se chamava Lucifer, e no inferno se chama Satan. Eis aqui, em summa, a ida que se nos d do inferno, observado em sua natureza physica, e nas penas corporaes que l se padecem. Lde os escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas. II Reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razo se reduzissem s aco do fogo, estas penas materiaes no poderiam ser eternas, porque, se a alma immortal e pde soffrer sempre, no succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos de carne, feio dos nossos, so de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruio. um milagre a resurreio dos corpos; mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes, j usados pelos transitorios attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se embora que a alma algoz de si mesma, que Deus a no persegue, mas que a desampara pelo estado desgraado que ella escolheu: isso ainda pde rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente parea pouco conforme bondade do Creador; porm o que se diz da alma e das penas espirituaes no pde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as penas corporaes no basta que Deus retire a sua mo; pelo contrario, foroso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o que o corpo succumbiria. Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em seguida resurreio, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro, exhuma do sepulchro os corpos de argila que l se haviam desfeito; tira-os taes quaes l tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradaes successivas da idade, da doena e do vicio, decrepitos, infesados, gotosos, cheios de precises, sensiveis ferroada d'uma abelha, cobertos das maceraes que lhes fizeram o rossar da vida e da morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados, prestes a reverter ao p d'onde surgiram, inflige uma propriedade que no tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou, se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Ado quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Ado era immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel, tornou-se mortal. dr seguiu-se o morrer. A resurreio, portanto, nem nos repe nas condies physicas do homem innocente, nem nas condies physicas do homem culpado; uma resurreio das nossas miserias smente; mas com sobrecarga de novas miserias, infinitamente mais horriveis; , at certo ponto, uma verdadeira creao, e mais maliciosa que imaginao alguma ainda concebeu. Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de durao infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas s composies da materia desde a origem d'ella. Resuscita carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel n elementos que tendem a separar-se, mantm e perpeta, contra a ordem natural, aquella podrido vivente, que posta no fogo, no para se depurar, mas para ser conservada qual , sensivel, padecente, ardente e immortal. Por amor d'este milagre Deus arvorado em um dos algozes do inferno; por que, se os condemnados s a si podem imputar seus males espirituaes, tambem no tem a quem imputar os outros seno a Deus. J no era pouco abandonal-os, depois de mortos, tristeza, ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: ir Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo; chamal-os-ha por instantes luz, no para allivial-os, mas sim para vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto os abandonar definitivamente. Mas no ser isso ainda abandono, pois que co, terra e inferno no subsistem seno por um acto permanente da divina vontade sempre activa. fora, ento, que Deus os tenha sempre de sua mo, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a fim de que esses desgraados immortaes contribuam, com a perennidade de seu supplicio, edificao dos predestinados. Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, mo grado nosso, nos veio lembrana. Seja-me permittido recordarvo-lo. III Os martyres de Nero Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais formosa, assacou o crime aos christos, gente indocil que o no bajulava, e cria em justia mais amavel que a d'elle, e por esta e outras razes desagradava plebe idlatra. O processo foi summario; a sentena de morte, e a execuo espantosas, como vai vr-se. Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados ento os jogos nocturnos. Era j noite, quando as portas foram abertas multido. Eis que sa o clangor das trombetas, e logo os verdugos infileirados chegaram lume s tunicas dos christos. Callam-se as trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas, arvores, flres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos, tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroa, escoltado de vistosa crte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Danam as filhas do oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christos que vasquejavam em suas tunicas ardentes. Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas mais bisarras so curtas. Felizmente para os martyres, Nero no era Deus. Diz-se, porm: eil-os, os confessores de Christo apremiados, volta de um Deus que d ares de Nero, e como contemplando, maneira do Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis, testemunho asss consolativo da superioridade do rei do co sobre os regulos da terra. Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas corporaes so quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, so essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno encerra. IV O inferno espiritual Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse tempo illimitado em que os segundos so seculos, e os seculos menos que segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto perpetuo o inferno, no ha dous modos de resolver aquellas perguntas. Uma breve reflexo vos dar a resposta que os theologos tem dado perfeitamente conforme a todas as tradies. Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de assassinos, uma caverna de ladres, um bordel immundo; soltai ao mesmo tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma optima pintura do inferno espiritual, isto , o estado mental dos condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos, apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis, eternamente impios, eternamente sandeus. Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes de que vidamente esto sequiosos e privados. Os demonios, que os castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades, e insensatos desejos, dos quaes nada pde distrahil-os, nem sequer as dres corporaes, e agudissimas de que so atormentados todos os seus membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem executar as sentenas do soberano juiz--sentena promulgada no co, pela qual so os reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seu _Commentario aos psalmos_: faz-se mister que tudo quanto deliciou os homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando castiga. O desejo saciado , pois, punido com o desejo insaciavel. No imaginem que no inferno haja uma s alma que deplore a sua innocencia baptismal, e o co promettido que ella perdeu, e a companhia dos anjos, e a bemaventurana dos eleitos. Os precitos fogem de Deus, no o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos tormentos que soffrem. De certo os angustia estar to longe d'elle; mas angustia de raiva que no tem nada que vr com as saudades e anceios do amor. No pensem que entre as alegrias cuja perda l nos dilacera o corao, estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos ancios, as meiguices das creanas, a ternura dos irmos, a dce confiana dos amigos, as consolaes do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias eram aquellas de certo para os peccadores; mas os condemnados nem as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e, pelo que toca s affeies terrestres, mortas so todas: resta-lhes o odio smente. A me que est no inferno, se tem um filho no paraizo, abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmos e irms, amigos, tudo lhe igualmente odioso. O que os condemnados mais ardentemente desejam coisa que se beba e se coma, e alm d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal. So de tal sorte as suas disposies em meio de tantos soffrimentos que, se um s d'esses condemnados podesse por um momento voltar vida, escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justia da condemnao que os fere; mas para amaldioal-a; e, bem que no sejam atheus, por que tal no podem ser em similhante lugar, so mais scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sl-o uma nao de atheus. Uma nao de atheus, no sendo composta de immortaes, temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperana, e tiraria d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel e brutal; mas no inferno no ha que temer nem que esperar. Ha ahi um retouar-se na dr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem os satisfazer. Ahi tudo obscenidade, egoismo, opprobrio, hediondez, a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima, sem piedade, sem consciencia. A blasphemia a unica distinco que separa os condemnados das feras assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos, dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. logo a blasphemia o unico symptoma de razo que se lhes deixa, a sua unica e ultima grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis os santos n'este abysmo, o condemnado que no blasphemasse seria um bruto infecto. portanto de justia que os faam blasphemar; d'isso inferimos que elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e, se no podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune por to singular maneira. V Continuao do inferno espiritual Havendo s o inferno, j se v que n'esta infame companhia os theologos misturam, como iguaes, qualquer homem honrado que morra na incredulidade dos mysterios. Isto lhe basta para ser condemnado. E com esse vae tambem a viuva pobre, que, em vez de ir egreja no domingo, remenda os fatinhos das suas creanas: tambem no preciso mais para ser condemnada. Tambem l vo, conta de no jejuarem, nossas mes e irms, mulheres e filhos: pois no bastante razo para ir ao inferno quem come um bocado de po com certo prazer? Este inferno, povoado de patifes incorrigiveis, uma escla: ninguem ahi se corrige, mas aprende cada qual a conhecer-se, e j no pouco. Quem quer que ahi desce, logo que ahi est, igual aos devassos, aos parricidas e aos traidores. Quem ahi se v to diverso do que se imaginava n'este mundo, aterra-se de si proprio. O bom que cada qual tinha em si quando vivia, com a vida se desvaneceu; e o mal que era apenas uma imperceptivel mancha, lavrou como a gangrena, de tal arte que alma e corpo tudo uma chaga. Que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio, por um beijo ou por um homicidio, o resultado o mesmo: ninguem condemnado com attenuantes. No procureis no inferno um companheiro menos corrompido do que os outros, que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer motivo; coisa que l no ha; ninguem conserva ahi vislumbre das qualidades que na terra se respeitam. Ou vades para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, girai em todas as direces d'esse abysmo, que no achareis germen, relampago, sombra de virtude. Aquelles sabios cujas vigilias opulentaram os homens, e no deixaram dinheiro com que os enterrassem; aquelles philosophos estoicos, legisladores, magistrados, guerreiros illustres, e soldados obscuros mortos nas fronteiras; aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas lavaredas, aquellas esposas extremosas, e as noivas cuja sepultura juncada de rosas brancas--todos esses que no morreram em graa--de qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo, os seus costumes e pensamentos so forosamente os do outro. Os que lhe sabem a historia, e os amaram e lamentam, no ho de reconhecel-os. Eil-os preza de todos os vicios, paixes, e desejos dos condemnados. Grandes homens, sabios heroes, martyres, mes veneradas, donzellas castas, artistas sobrios e modestos, eil-os em cro de impios, fallando como ebrios, cynicos e assassinos. Abandonou-os Deus todos a um tempo, a um tempo os pune todos; o mesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes alanceia as almas. Ahi est o inferno espiritual. VI Da immortalidade das penas espirituais do inferno. pois o inferno um mo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os demonios, guardas d'este mo logar, e professos na corrupo, usam do imperio que sobre os hospedes lhes permittido, corrompendo-os incessantemente e sem lucta nem obstaculo. propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para que elles faam d'ella o que poderem, no lh'a disputa e bastantemente sabe o que elles faro. Se as adies espirituaes dos condemnados fossem smente crueis, seria isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas, alm de crueis, impuras, um direito, at um dever negal-as. certo que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros soffrimentos; mas so transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e outros endoidecem: outro genero de morte. Mas no inferno os furores sensuaes, os appetites phreneticos no matam nem remedeiam, no so venenos nem balsamos, so penas sem fructo e sem fim. Que condemnao, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada preciso de crr o _mal_ e no crr o _bem_; por tal modo que de qualquer maneira que se mova, sempre _criminosa_ e miseravelmente! No ha de gozar jmais os prazeres _culpaveis_ que deseja; e as _privaes_ que ella no quer as que ella ha de ter por toda a eternidade. Crr o mal e no crr o bem, logo o resultado d'aquella condemnao. Por sentena do juiz, e de que juiz! que l eternamente se anceiam impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privao dos sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, no era padre da Igreja nem monge, formava outra ida da natureza moral das penas destinadas a servir de sanco aos accordos da justia da terra propriamente. Lde no _Espirito das leis_ certo capitulo intitulado: _Da violao do pudr, no castigo dos crimes_. Assim comea o capitulo: Ha regras de pudr observadas em quasi todas as naes do mundo: absurdo seria violal-as no castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento da ordem. Ainda que Montesquieu m'o no dissesse, a cousa evidente por si. Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, pde ser que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo, convertessem a excitao dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados castiga-se para restabelecer a ordem material e a moral quanto pde ser. Cuida-se em esquivar o culpado s seduces que o perderam; impedem-no de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixes, no com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da companhia das pessoas de bem, no para que as odeie, mas para que as chore; deseja-se que a sua maior afllico consista em havel-as offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade que o instrue, consola e s vezes restaura. Estas converses so raras certamente; quasi todas as nossas prises so infectas; ahi a soledade corrompe; e a promiscuidade contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os juizes tambem. No se diz, porm, que assim o querem juizes e legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi seno o stygma da imperfeio das nossas obras, e a pequenez de recursos em comparao dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a ordem perturbada, onde quer que seja, e at na alma do criminoso. O que a mesma imperfeio nos aconselha que prosigam sem descanso no intento, que ser completamente realisado no mundo em que a justia perfeita, e o poder do principe igual sua justia. No nos mostrem, pois, no inferno, uma gal immensa, repleta de impudentes scelerados, porque vos ser perguntado se Deus no pde, mais que os homens, vencer coraes rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que ns, philosophos e christos, bem quizeramos que fosse banido. Esta concepo do inferno, to ignobil quanto atroz, data visivelmente de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justia no transparecia aos olhos propriamente do sabio seno atravez da nuvem sanguinosa da vingana. Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a immoralidade! que projecto! e, na execuo d'elle, que prodigio! Pois no basta justiar o homem no corpo? Ser preciso que o avro, durante a tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram e tantas dres grangearam? Ha de o comilo, deitado sobre grelhas em brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso, comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras, medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local no dos melhores para taes desejos, e que s por milagre, em tal sitio e por muito tempo, possa haver similhantes delirios. Ora ahi vedes que se attribue a Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens, immobilisando-as em appetites que o offendem. o peccado eternisado, e eternisado por Deus. No cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados. No os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes no so viciosos de vontade propria: a lei que os obriga. VII Ultimas consideraes cerca do inferno theologico Affirmam os theologos que a liberdade um mero accidente da nossa vida mortal, e que, alm da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a dera, e quebrando entre nossas mos, no momento da morte, aquelle instrumento de nossas provaes. Os justos so esbulhados d'ella para permanecerem justos, e os mos tambem para ficarem mos. Diz-se que Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no co no houve mais creaturas livres, nem to pouco no inferno, onde o proprio archanjo est acorrentado ao peccado. No so, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas no lhes concedido meditar, amar e querer seno maldades. Soffrem e sabem o porqu; mas no podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem. Conhecem os seus crimes; porm, no se arrependem, porque o arrependimento um bem, e o bem no podem elles sentil-o. Se peccam sempre, que a tanto so obrigados por sentena. Conservam razo e sentidos; mas consciencia no a tem, no discernem entre justo e injusto; no so senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos sentidos, apezar da razo. Esta escravido absoluta, irremediavel e eterna, explica superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de todo em todo lhes impossivel a converso, inutil e deshumano o castigo corporal que os tortura. Se no fosse a perpetuidade d'esta escravido, seriam intelligiveis a fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda, os tractos a fogo e ferro. V d'exemplo: eis aqui um criminoso impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? No. Que v, n'outro mundo, saber sua custa o que dr, e que piedade merecem os que soffrem. Deus bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer bradar por misericordia; justo que o no poupe; exige-o a humanidade, com a condio de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto , um ser no s intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia, susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do arrependimento; se, em vez do homem, o que temos vista um mero bruto sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem a dr nada ensina, e a razo nada presta, mo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso, gemente... ah! quem falla ahi de justia? desfaam por piedade esse monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida lhe foi a innocencia. Quando uma creana brinca beira de um poo, e cahe apezar dos avisos da me, a pobre me no respira em quanto a no salva; corre logo sem attender desobediencia, porque a v mais carecida do soccorro quanto maior o perigo; para castigo lhe basta a quda. Que diriam os theologos, se aquella me, em vez de tirar do poo o filho, lhe fosse quebrar braos e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos imaginam que Deus faz, aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem. CAPITULO QUINTO SURSUM CORDA I Fujamos d'este lamaal. Lavemos ps, mos, cabea e vestidos. Cauterisemos os beios com um carvo acceso. Demonios, chammas impuras, espiritos malfeitores, odios, vinganas, carnificinas, ferozes alegrias, estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro ourela de lagas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes sanguentas, com a mo sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixes do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas methaphysicas e torpes fabulas e aspiraes, sublimes e baixos erros, inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Ghenna, sumi-vos! O tempo avana; j dia; a calhandra j cantou, vamos serra vr o repontar do sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos s espigas da montanha, onde o ar mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua vera frma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais ainda! azas, azas, minha alma! Voemos at origem da luz, de que este pallido sol apenas sombra! II Deus uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestao lhe no lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por f unicamente, porque o no vemos qual , e no temos d'elle, em nossos coraes, seno uma imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que no sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus todas as perfeies, cujo complexo, de que apenas concebemos parte minima, o mysterio que adoramos atravez d'um vo, que a morte levantar, assim para santos como para pecadores. Sem duvida que os mais obdurados peccadores ho de vr Deus; e ho de vr no smente alguns attributos seus, mas todos; no ho de vr smente a sua eternidade, por quanto a eternidade est em Deus, mas a eternidade no Deus; no ho de vr smente a sua justia e infinita omnipotencia, por quanto a justia infinita e omnipotencia so em Deus, mas no constituem toda a sua essencia; no ho de vr smente a sua justia, por quanto a justia est em Deus; mas s ou unida ao poder eterno a justia no Deus: seno seriam tantos os deuses quantos so os attributos e virtudes distinctas na unidade divina. Quando os peccadores virem Deus, ento ho de vr quanto ha em Deus, sua bondade, misericordia e justia; vel-o-ho a toda a luz, d'um s lance de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa inseparavel em Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um s resplendor de sua face, ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa f adora, e no o Deus visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao mesmo tempo que sua justia encher de medo as almas, a sua bondade as consolar mediante a confiana e arrependimento. III Grandes e pequenos, doutos e ignorantes, todos os peccadores sero castigados, cada qual medida de suas culpas. Nenhuma ser esquecida; mas, por isso mesmo, todas as virtudes sero lembradas. Ao pessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento, um bom desejo sequer, isto lhe ser como torcida ainda fumegante a qual o sopro de Deus accender em flamma. O pouquinho bem que praticou lhe ser contado, at ao ceitil, at ao pucaro de agua dado ao caminheiro, at ao gro de paino dado avezinha, at ao movimento do dedo mendinho em que a creana vacillante se amparou, at ao olhar compadecido psto na face do attribulado. Estas so as unicas aces que elle quereria recomear e multiplicar n'esta vida, se lhe fosse dado aqui voltar, por que esse o sagrado lao que o une ainda, posto que de longe, assembla dos justos; e o mal que fez, esse ainda subsiste, mas s na dr que sente de havl-o feito, e no arrependimento com que o recorda. Prazeres torpes, revezados de inquietaes amargas no os cubia. Deplora o ceo, e no a terra. Smente saudades do ceo pdem enternecer a lagrimas entes racionaes, desempeados das trevas d'este mundo. IV Os mortos que Deus pune viram a Deus, e, a um tempo, se sentiram attrahidos para elle, e repulsos e como repuxados para longe pelo iman de seus peccados. Abriu-se o abysmo e cahiram, mas com a vista sempre fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge, e os braos estendidos para o Deus misericordioso que os exila temporariamente por causa de suas offensas. Cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella formosura e sabedoria infinitas que s instantaneamente viram, e ao baquearem-se, exclamam: Havei piedade de mim! Os mortos que Deus castiga viram Deus; e para logo o amaram, que impossivel vl-o sem o amar. Viram-o e esqueceram a terra; viram-o, e arderam em sede inextinguivel de tornar a vl-o e possuil-o. Verdadeiro castigo! Expiao dolorosa, mas efficaz! Ardentes lagrimas, mas salutares, que o amor derrama, e o amor enxugar. V Blasphemar que ? negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser. Negar-lhe a existencia blasphemia; negar-lhe o poder blasphemia; negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria blasphemia. A blasphemia somente praticavel n'estas regies de duvida e mysterio em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo cahiu na presena dos mortos. Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam todos que Deus existe, que eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a justia como poderiam elles, se sentem at ao amago de seu ser a claridade ardente e purificante? E, se no podem negal-a, como ousariam affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das perfeies divinas elles negaro? Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa lhes seria. Os condemnados negaro a bondade de Deus; injuriando-o de mo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de vingativo, de carrasco, e no juiz. Isto, com effeito, que blasphemar. Mas estes impios discursos no os vociferam os mortos castigados por Deus; sois vs, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. No acreditareis em tal. Mo grado vosso, a blasphemia vos fugir da bcca. Os primeiros blasphemadores so, logo, os inventores d'aquelle imaginario supplicio. maneira dos idolatras, fraccionaram Deus, extremando entre justia e bondade--attributos indistintos. De modo que essas presumidas blasphemias do inferno so smente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra. VI Deus justia e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da sua justia ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que smente a sua misericordia reala, ha um fundamento de justia. offendel-o dizer que misericordioso sem justia para uns, e justiceiro sem misericordia para outros. Isto falso quanto ao tempo e quanto eternidade. justo Deus com os justos coroando-os, por que se a salvao d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e no recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois, dos bemaventurados reina tanta justia quanta misericordia. Mas, se Deus, no outro mundo, justo para os eleitos, por que no ha de ser misericordioso com os peccadores? Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem l vejo a sua justia. Mostrais-me a sua justia no inferno, e eu tambem l procuro a sua misericordia. VII A condemnao do vosso inferno est na necessidade logica e invisivel que l obriga a offender e amaldioar Deus. isso possivel? Deus quer ser injuriado eternamente? No querer antes ser adorado e abenoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas ho de ter fim. Seja-me testemunha o Evangelho. CAPITULO SEXTO A parabola do rico avarento _Lux in tenebris._ Lde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico avarento. Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abraho: Compadece-te de mim, e manda c a Lazaro, para que molhe em agua a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua. Lazaro no se bole, em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talio; cabe agora ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se. O rico avarento baixou os olhos, e no pediu mais agua: resignou-se, no murmurou, no blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renuncira as vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se dirigiu ao pae Abraho: Eu te rogo que o mandes a casa de meu pae, pois que tenho cinco irmos, para que lhes d testemunho, no succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento. E Abraho lhe disse: Elles l tem Moyss e os prophetas: ouam-os. Ainda assim, o padecente insiste: Mas, se algum morto l fr, elles faro penitencia. Ahi est mudada no s a fortuna do rico avarento, mas o corao tambem. Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e, em meio de suas dres, lembra-se enternecido de cinco irmos que deixou na terra. No lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes caridade, e s por amor d'elles importuna o seu ascendente Abraho. Porm, Lazaro e Abraho sahem-lhe to rijos como elle tinha sido para com as dres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os ces lambiam, tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os ces. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se refocilra nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraado ousa pedir-lhe um milagre de bondade, no para si, mas para os irmos, que lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmos l tem as escripturas to dignas de credito como os mortos, pelo menos. Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o inferno converso, repso, enternecido, o rico avro deplorativo e caridoso, e por cima, um ceo de bronze, uns santos descaroados. Este no o inferno judaico, christo; mas o paraiso esse que judaico, e no christo. CAPITULO SETIMO Terra, inferno, ceo. DESVIRTUAR O INFERNO DESVIRTUAR A TERRA E O CEO. NO OUTRO O SENTIDO LATENTE DA PARABOLA DE LAZARO I TERRA As affeies d'esta vida continuam na outra. Mesmamente no ceo, a Virgem Me de Christo. Todos esperam reconhecer, alm-tumulo, as pessoas que na terra estremeceram. Reconhecer-se-ho os esposos, pois que ho de reconhecer os filhos. Esta esperana a maior consolao d'esta vida, e uma das foras que nos attrahem para o ceo. Mas o perpetuo inferno nos escurece aquella esperana e nos esfria os mais santos affectos. Eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte, ou na sua cama, sem padre, sem sacramentos, ao cabo de uma vida devota. Imaginem a incerteza da viuva e dos orphos quanto salvao d'esse ente que os amou, educou, nutriu, instruiu e consolou. Se ha coisa verdadeira no ensino dos theologos, podemos apostar mil contra um que este homem cahiu no inferno para sempre. Que afflico para acrescentar s angustias d'aquella familia! Se elles tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras no fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o retrato! Choral-o, suspirar por ir vl-o! De repente, morrer para odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida; duvida que gela a orao no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um homem--coisa to natural ao mundano egoismo--; ou ento, o outro egoismo feroz e sombrio do frade que immola sua propria salvao todos os affectos humanos. II Ceo Haver no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haver orphos eternos, e viuvas eternas, e mes eternamente sem filhos. Se isto motivo para amarguras, ahi est o agro das douras do ceo; mas, se motivo para alegrias, que horriveis alegrias! O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos. Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo. CAPITULO OITAVO HISTORIA DE UM SONHO I Ganhou um medico, cabeceira de um pobre, doena mortal. Chegou to depressa a morte que no lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o padre, quando elle era j morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes, disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros. As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se quedou a pensar n'aquillo todo dia. II E eu velava sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando, soluando, e sempre preoccupada, a pezar seu, com as palavras do padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: No se salvar elle?--No duvide, senhora--dizia-lhe eu; porm tristemente eu via que as minhas respostas a no socegavam. Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera no comesse nem dormisse, fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforou por engulir. Ento pediu um livro de oraes. Abriu ao acaso um que lhe deram, esperando achar ali algum alivio, que no achou; pelo contrario, com a leitura cresceu-lhe a inquietao. Vi-lhe ento no rosto uns tregeitos involuntarios, e um crispar de mos, e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braos de quem a levou d'ali. III Apanhei o livro cahido de suas mos. Denominava-se _Quotidiano do christo_, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido: eram os _Pensamentos christos para todos os dias do mez_, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado quando lia no _quinto dia_ uma meditao cerca do _Juizo final_. Acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: Quo terrivel o dia da ira do Senhor! Os justos escassamente sero havidos como taes: que ser dos peccadores? Que sentena pde esperar o peccador impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentena! _Ide, malditos, arder em fogo eterno!_ Ai! onde iro, Senhor, esses desgraados que amaldioaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem, distanciando-se de vs? Onde que est paragem to funesta? SEXTO DIA O INFERNO I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados, chorando-se, detestando-os; mas TARDE. _O chorar no lhes faz seno augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os._ Penitencia dos condemnados! quanto s rigorosa, e _inutil_! II. No vr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso apenas sombra; soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi, _sem allivio, sem repouso; sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o corao raivoso e desesperado_, que vida! III. Esses desgraados _enfuriam-se_ por terem desprezado tantas occasies de salvarem-se. _O recordarem os prazeres passados -lhes um de seus mais penosos tormentos_; mas o tormento superior a todos a lembrana de terem, por sua culpa, perdido Deus.[6] Pobre mulher!--disse eu entre mim lendo aquelle capitulo--vr seu marido, to bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentena que de manh ouvira da bcca d'um sacerdote: MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro; mas o titulo do _Dia_ seguinte, impresso em versaletes, susteve-me. SETIMO DIA DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO I. Poder ir mais adiante a clera de Deus _que castiga prazeres que to pouco duram com supplicios sem fim_? Que desgraa no isto! No bastar que os males d'um condemnado sejam extremos? foroso que sejam eternos? Uma picada de alfinete mal bem leve; todavia, se este mal durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do inferno que sero? II. eternidade! _Quando um condemnado podesse derramar lagrimas bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que vertesse uma s lagrima em cada seculo, elle no estaria mais adiantado, depois de tantos milhes d'annos, como quando comeou a penar._ _Ser-lhe-ha foroso recomear como se no tivesse nada padecido; e, quando tiver recomeado tantas vezes quantos so os gros de areia nas praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe ser contado._ III. No s por toda a eternidade os condemnados soffrero; _mas, a cada instante, soffrem a eternidade inteira_. Est-lhes sempre vista a eternidade; em todas as dres se lhes ca a eternidade. _As penas infinitas continuamente lhes esto no espirito._ Cruel ida! deploravel situao! _Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!_ Esta meditao corresponde ao _Setimo dia_, que aquelle em que o Senhor entrou em descanso para admirar suas obras. [6] O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina cerca do inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado odiar Deus; conhecendo, porm, a desmoralisao de tal pena, o padre Bouhours presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriram _j tarde_, por maneira que substitue pena immoral, mas apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado amar o que ha mais avsso ao peccado, isto , a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o mesmo padre de parecer que os condemnados no podem amar Deus. Mas, se elles no amam o bem nem o mal, nada amam; e ento que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se afflijem do perdimento d'um bem que no amam? e por que os afflige a perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispra n'um apontoado de sandices. IV Acabava eu de lr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de seu marido ter sido condemnado, por que no acreditava em tudo que a egreja ensinava, e morrra sem confisso; accrescentava que o marido era bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido, lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais depressa o vr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio, sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse ento; e no se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae. Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra desgraa. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus menores movimentos, por medo de que ella no praticasse algum acto de desesperao, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia j mais tranquilla que todos ns. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o semblante; os olhos porm brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial. Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o no soffrimento. A me ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou amorosamente, rogando-lhe que no pedisse a Deus pela sua alma. Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle j adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na os parentes, e eu fiquei ssinho beira do cadaver. V Bem desejava eu tambem sar: carecia de distrahir-me. Piedade, clera, f, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu no podia defender-me ao p do esquife, e depois de similhante espectaculo! Encostei-me banca onde estava deitado sobre uma alva coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem, recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim mesmo, com o corao apertado, o que devia crer-se da vida e morte de Christo, e se era certo que elle descesse do co, como se dizia, para assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razo dos fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vl-o chorar, e que uma de suas lagrimas resvalou sobre o _Quotidiano do christo_, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se desfez. Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. No me respondeu. Ento entrei em duvida se eu estava adormecido ou desperto. Vi--seria sonho?--um oceano de trevas alcantilar-se volta de mim, e no seio d'essa escurido immensa lampejava um frouxo raio de luz. E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns verdugos envoltos em trevas me deceparam as mos; eu quiz balbuciar, e arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me arrebatado e precipitado s entranhas de um abysmo, e comprehendi que estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como s tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte. VI Ao principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao travez dos espaos infinitos, e depois decrescia at ao ciciar da folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor at exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca. Estas comparaes tiradas da terra no do ida da tristeza, do pungente e solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu no podia vr e ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluos, gritos exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e formando um brado unisono. Debaixo do sol no ha ahi espectaculo to variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor soffriamos e supplicavamos. VII E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto no ter fim? Vs, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, no me julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um dia? E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa mo, Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cada vez mais esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar. Isto justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no co, se visse o effeito de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na terra, puni-me, Senhor! Mas no me tireis a esperana! O pouquinho bem que fiz na vida no germinar nem cobrir, se o permittirdes, os vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum logar do mundo, j no podr imputar-me seus soffrimentos, tende ento piedade de mim, meu Deus! E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia, repetiram juntas, l das reconditas profundezas: Tende piedade de mim! Tende piedade de mim! Esta supplica em commum era a um tempo to suave e dilacerante que eu imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperana, continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa. Ai! ai!--conclamavam os gritos que se extinguiam soluando-- surdo o co! surdo o co! Nunca! nunca!--diziam outras vozes--Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta dr! Nunca! nunca! Descanai, filhos!--bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de voz, ser um dos patriarchas do abysmo--No profirais essa palavra horrida. Ahi sa em vossos pobres seios um ecco das maldies da terra, e no palavra descida do co. Ha mais de mil annos que padeo, e oro, e escuto o co, e no ouo a resposta. Oremos, oremos sempre! E o ancio entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e debulhou-se em lagrimas. Ai!--ressoavam ao longe milhes de almas gementes--Ai! o co surdo! o co surdo! N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:--Ensinai-nos, ao menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria diminuio? Revoltar-se-hiam elles contra vs? Logo que as creaturas entraram vossa presena, no se lhes acrisolaram os sentimentos de piedade? O padre que me estendia a mo quando era mortal e sujeito ao peccado, a esposa que eu amava, a me que me gerou, os amigos que me trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu corao em ancias de fome, nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dr; o amor a quem soffre e geme sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados. E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldioar, mas falleceu-lhe a fora, e maneira do vagalho que rossa a nuvem rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido. Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o, no distinguia se era orao, se blasphemia. E bradava:--Creio na vossa justia, meu Deus; mas deixai-me crr na vossa misericordia. No ella to infinita como a vossa justia? No eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque no me perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, no sois vs o mesmo Deus? E, se a morte me mudou, pde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois vs susceptivel de cansao? E, se alguma de vossas virtudes transitoria, de circumstancia e occasional, foroso que seja a bondade, aquella ineffavel bondade que ns ignorantemente consideravamos l em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim --proseguiu a voz desesperada--anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta existencia inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas dres? Tendes preciso d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam. Tirai-me a lembrana do co, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar, a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento da justia, porque eu no sou Deus, e a vossa justia um mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dr esteril, a fim de que na creao no haja um s atomo que no palpite de reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo. E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam po; chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito, com a dr da victima na fogueira, com o rugido da lea que perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a me. E eu tambem a chamava, e me pareceu vl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mo glacial; e, quando me sentia morrer, despertei. CAPITULO NONO JUDAS ISCARIOTE I Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno existisse um miseravel maior do que Judas. Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas (_Joo_, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. No obstante, vendeu-o; e, depois de o atraioar, voltou, ceou com elle, e, ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o no conhecessem, deu-lhes signal, abraando-o. Eis aqui o crime circumstanciado. Premeditao, cubia, villeza, tem de tudo. Judas vende o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixo, por bom dinheiro de contado, como venderia na feira um jumento ou um boi. Sabe que desejam matal-o; no importa! vende-o. E que ser depois da Me de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de me e com a ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preo; e, a fallar verdade, nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros! dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena. II Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defeco dos apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simo, Thadeu, que elle chamava seus irmos, Joo, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, no cuidaram seno em salvar-se. Conheces este homem? perguntaram a Pedro.--No,--diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos--no o conheo.--Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na escurido, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que fosse Deus, duvidando-lhe da misso, das promessas; bem que, para grande opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abraho recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que propriamente Jesus sasse do sepulchro, e que elles o vissem, e conversassem e comessem em sua companhia, e que Thom lhe tocasse as chagas. Desde ento que prgaram com inabalavel f a divindade de Jesus. III O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixo, , na essencia, egual ao de Judas, bem que no tanto odioso. Faltou-lhes a todos a f; porm, sendo a f um dom sobrenatural, no devemos arguil-os desabridamente porque no receberam o dom. O que do seu proceder nos irrita deixarem ir at final, sem publico protesto, a obra de Judas; que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; que no dissessem a Pilato ou Herodes: No! este homem no sedicioso; quer que se d a Cezar o que de Cezar, e a Deus o que de Deus; paz, desinteresse, e caridade so a sua doutrinao. Isto bem o sabiam elles, e no o disseram, e deviam tl-o dito, sem medo, e no abafarem, como fizeram, o grito da consciencia. Este que o crime dos apostolos, crime natural, como o de Judas. Bem se deixa vr que, se Judas vendeu o seu Deus, no pensava elle que vendia Deus: vendeu-o sem vl-o, sem reconhecl-o divino. O que elle a sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo. Vender Deus! renegar Deus! isso crivel quando se cr em Deus? Tal crime, fora de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice! Judas foi ingrato, ladro, egoista, traidor doble, fallacioso, assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo que, no intimo de seu corao, Judas no se julgava deicida. IV Por mais infame que haja sido, Judas no o era tanto que no comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que no se pde afazer sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi elle--dolorosissimo acto!--confessar sua perfidia no templo, e restituir o dinheiro aos compradores, dizendo: Vendi o sangue do innocente. Mas ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava espinhos na consciencia; e, na bcca de um traidor, o testimunho a favor da innocencia perde muito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam: Que se nos d d'isso? L te avm. Sau ento do templo, convicto de que no estava em sua mo sustar as consequencias do seu crime, corrido, desesperado, indo ao encontro da morte que merecra, mas que ninguem lhe dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo. V Vida de opprobrio e remorsos expiao. Judas deveria viver. Porque se matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, no se mataria, pois que, matando-se, a entregar-se nas mos d'Aquelle que atraiora. Por que se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplao dos homens o salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle anniquilar-se? A anniquilao ser-lhe-hia doce refugio: o nada no pena. Ora certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle descrsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que crime, quando se cr que tudo acaba comnosco? Se no cresse em Deus, Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores, Pilato, Caiphs, e a crte de Herodes, e os proprios apostolos que negaram a victima. Ento por que se matou? VI No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio, ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como Pilato que lavava as mos, como Herodes e sua crte que riam de tudo, e como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas vezes estancra com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mo d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de piedade por que a no tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha sentido como ento, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o corao, quo diverso do que fra no seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as tentaes lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as prises de Jesus, e banhar-lhe os ps com suas lagrimas! Se podesse offerecer a vida a trco da que o povo a sacrificar! Com que prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado perdo de seu crime com tal condio!... Mas, ao longe, estrugia a grita da multido enfuriada, bradando: Crucifica-o! Escutava o tropel dos cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os pregos nas mos bemfazejas do amigo que elle vendra. Iriaram-se-lhe os cabellos, reumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o cho debaixo dos ps. Oh! como Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e no como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. No ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos ps. Com os proprios dentes lacerava os beios. O sangue estura-lhe nas veias. Aquelle viver j no era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um s sentimento: o horror do seu crime. O que elle levava pelos campos alm era um cadaver j insensivel dr; e esse vil cadaver o que elle estrangulou pendente da arvore. Fez mal. Melhor lhe fra morrer ajoelhando, supplicando misericordia. Ah! acaso sabemos como elle morreu? Por ventura, a dr refinada at aquelle extremo no ser a mais eloquente supplica? Quem o sabe n'este mundo? VII Seja, porm! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno a anno, de seculo a seculo. justo. _Amen! amen!_ Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mes! Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choas e palacios; dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que floream gladios, aos que julgam a terra e aos que so julgados! Ai dos hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras! ai dos servos e dos irmos tredos! ai dos que antepem a amisade justia, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em quanto o innocente atormentado. Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que no haver ahi palavra que vos impugne. Sim! No ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime. Judas soffre ha dois mil annos, e d'aqui a quatro mil soffrer ainda, e em quanto o genero humano no terminar a sua peregrinao terrestre, viver em supplicio recrescente de tormentos inauditos. VIII Entretanto, meu Deus, este mundo de provaes, segundo dissestes e tudo o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fr destruido e renovado, quando j no houver sol, nem beros, nem sepulchros, nem geraes de peccadores, no perdoareis ento a Judas? Quando elle apparecer vossa presena no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis dres, no vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdo que a disfarou, diga ainda outra vez: No conheo este homem? Joo, Matheus, Thom e Thiago, voltaro o rosto indignado, como se no houvessem tambem peccado e duvidado? No vos dir o cro inteiro dos apostolos: Senhor, apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graa, o que no teriamos feito ns? Apiedai-vos d'elle, Senhor!--diro todos os bemaventurados--que elle, sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvao dos homens. Feliz culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Ado, feliz culpa que grangeou para o genero humano situao melhor que a do Eden. Feliz tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixo; crime que foi amaldioado e devia sl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por quanto, sem tal crime, dce Jesus, nem vs terieis morrido, nem o mundo estaria resgatado. Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e lagrimas! Compadea-vos a cegueira d'elle! bem de crr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis j per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licena, no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho? No, no, meu Deus, vs o dissestes. Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando pedieis a vosso Pae perdo para os algozes, para os sacerdotes que vos haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio: Perdoai-lhes, pae, que elles no sabem o que fazem! E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita divindade; perdoou-lhes o que a justia e caridade querem que se perdoe aos insensatos e aos cegos, e a quantos _no sabem o que fazem_. O que ficou sobre elles pezando o peccado contra a humanidade, por que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado por vossas lies e exemplos, e resgatado por vosso sangue. CAPITULO DECIMO Concluso em frma de parabola O pae de familia dizia aos seus servos: Ide aos meus celleiros; tomai a flr do gro que eu mesmo escolhi e ensaquei parte em saco novo, e ide semear o meu campo. No lhe mistureis o gro do saco velho; porque esse embriaga o homem e no o alimenta, e s para os cevados bom. Cumpriram os servos as ordens do amo; deixaram, porm, por descuido, cahir no saco novo os gros malfazejos que o amo havia separado, e, logo que se misturaram, no poderam extremal-os, e cegamente os atiraram uma para os sulcos. Chegado o estio, um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas que medravam na seara, mas reconheceu entre as espigas as plantas nocivas. Arrancava elle discretamente as que haviam germinado at beira da estrada, quando os servos, armados de pos, correram a prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo. Perguntou-lhes o caminheiro onde estava o amo, e soube d'elles que era fallecido, mas lhes recommendra que vigiassem a messe preparada para seus filhos. O caminheiro, ouvida tal resposta, contristou-se, e lhes fez vr a differena que havia entre o joio e o trigo. E disse-lhes: Acautelai-vos de os mandar juntos ao moinho, e no faais po que no seja de puro fermento. Os servos, no obstante, persuadidos da sabedoria do amo e do cumprimento fiel s ordens recebidas, desconfiaram do caminhante, e de seus proprios olhos at, quando lhes apontava a differena das duas plantas. Se isto joio, diziam, no fmos ns que o fizemos rebentar. Certo que no--disse o passageiro--no fostes vs quem fez germinar o trigo nem o joio, nem communicastes a cada um dos dois sua diversa virtude, nem to pouco lh'as podereis tirar; mas, se no sois quem os fez crescer, fostes vs quem os semeou, depois de misturar os gros que o pae de familia havia cuidadosamente separado. Se amais os filhos de vosso amo, fazei o que elle faria: no lhes deis a comer po que empeonha, porque d'elle adoecero, e outros ho de morrer. Turbaram-se grandemente os servos com tal discurso. Um disse entre si: Pde ser que o homem tenha razo: aqui ha plantas que no parecem eguaes; e acertado no desprezar bons avisos, venham d'onde vierem, porque, um dia, quem sabe se nos sero pedidas contas? Outros, no entanto, diziam: Este homem pde ser um impostor. Quem sabe d'onde vem ou para onde vai? Quem lhe deu direito de nos ensinar? E porque no hemos de dar d'este po aos filhos de nosso amo? Ns comeremos tambem d'elle. Dizendo isto, abaixaram-se a apanhar pedras, e remessaram-as contra o caminheiro que se affastou. APPENDICE CAPITULO PRIMEIRO PROVAS MYSTICAS DO INFERNO I Da auctoridade da Biblia Ninguem nega que a Biblia contm brilhantes verdades; mas essas brilhantes verdades no nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. So taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza toda sua, e no reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura. Porm, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos, nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto mais os regeitamos. Afra a visinhana, nada tem commum com as sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. -nos, todavia, prohibido de as distinguir, e confiar em uns com desconfiana d'outros; dizem-nos que tudo verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo titulo, no porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro. Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na verdade para que a reconheamos. Caracteres naturaes e distinctivos do erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia no. N'outros livros facultativo discernir o justo do injusto; para o qu temos regras certissimas, e instrumentos agudissimos; mas peccado querer julgar a Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso corao, do nosso espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como Plato que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo com as paixes humanas; porm, quando a Biblia glorifica a perfidia de Jahel, e a cavillao de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos, e faz collaborar Deus em tantas traies e morticinios, no nos permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue, no seu, mas dos homens, devemos dizer: _Amen!_ eis aqui o bom pastor, o cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria! E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho que lhe redobra as foras e lhe faz expedir pavorosos gritos, devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro que nenhum de ns quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio; ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido tenda, com receio de ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que ns quaes so os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos at s expresses significativas d'elles. Ora ahi est por que tudo sagrado quanto a Biblia contm, e por que tal pensamento, que n'outro livro trescalaria a impiedade, , na Biblia, uma adoravel coisa. Ha n'isso mysterio no menos profundo que o do inferno, se tentarmos esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove discusses que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como arma contra os protestantes. O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia divina? Conhecestes Moyss? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis presente? Passastes a p enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que provas vedes na Biblia de que no toda ella obra de homens? Milagres? Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as encerram sem que as imputeis ao Espirito Santo. Obscuridades? Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos no menos. Quem sois vs, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes inverosimilhanas? No vos conhecemos. Que cauo nos dais? Sois inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. No basta dizer: a Biblia divina; mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos partidarios no faz nada questo. O livro dos Vedas, que se gosa do foro de divino na Asia, to antigo como a Biblia, e no tem menos sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justia. Como pois que tantas naes, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se, perseguindo-se, e votando-se reciprocamente s chammas eternas! O que as divide as obscuridades da Biblia; no as verdades naturaes que l se vos deparam. Quem alumiar a escureza em que dizeis est Deus involto, e no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente do vosso parecer; e, to de boa f as interpretam, que sustentam a sua opinio em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita protestante no arrancou da espada contra a sua irm? Todas tem tido martyres e verdugos. Isso no nos parece prova da divindade da Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traa, como succede por tempo a tudo que obra de homens. Poro consideravel d'esse antigo monumento acabou s mos dos hebreus, depositarios d'elle. O que nos resta so reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas sabemos os titulos, j no existem, quem vos auctorisa a pensar que os capitulos subsistentes no foram alterados? Estariam elles a melhor resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu? Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia dos traductores? Por que signaes se conhece qual a melhor entre as copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traduco confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos ignorantes, ou a sabios sem misso e cuja sciencia nos ainda problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos ponha-se a gente de joelhos! vista d'isso ninguem pde ser accusado de idolatria. Se no tendes mo outras provas da authenticidade e divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitar a Biblia, sem salvar o Novo Testamento. O christianismo foi prgado antes da redaco dos evangelhos, s multides que no sabiam ler. Quando essas prgaes comearam a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes; appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de Jesus. Quem se entenderia n'este chos? Quem poderia decidir que o evangelho de Thiago no era de Thiago, e que o evangelho de Joo era de Joo? Quem poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as copias falsificadas de Joo? A coisa no era de si to luminosa que podessemos aceital-a hoje em dia. No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questo enleava gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja no prestaria f ao verdadeiro evangelho. No achava elle portanto nos escriptos de Joo, de Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua divindade; com mais forte razo no acharia a mesma prova intrinseca nos escriptos de Moyss, de Samuel, de Esdras e outros prophetas. Se eu no debilitei, resumindo-as, as razes com que os catholicos intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida das Escripturas. Passemos segunda prova que o testemunho da Egreja. II Da auctoridade da Egreja Diz-nos a Egreja catholica que preciso crr o que ella nos ensina como se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos ns peccamos antes de nascer, e que a Virgem, me de Christo, nasceu sem peccado--o que se no acha no evangelho--devemos acredital-o como se o evangelho o dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os textos, umas vezes prende-se letra, outras descobre um entendimento occulto que s ella v, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a tradio oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova synagoga contina no tempo e no espao a immortal cada, guardando, diz ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres. A Egreja catholica mais que a imagem de Jesus Christo: est consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellao, devemos consideral-a sempre como viva incarnao do Verbo eterno. Seria a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella no asseverasse a autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se no recebesse a misso de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade n'este mundo, j a da razo, j a dos livros sagrados, sme-se absorvida na soberana auctoridade d'ella. Esta segunda prova do inferno de natureza analoga primeira: mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no; negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja--o que elles qualificariam de idolatria. No posso abster-me de relatar algumas de suas objeces, as quaes, bem que sejam foradas sobrenaturalmente com versiculos do Apocalypse ou das Vises de Isaias, nem por isso me parecem menos debeis. Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; no,--dizem outros--isso pessimo--; e os terceiros sustentam que no se deve fazer nada, ainda que a inaco parea aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem actos manifestamente culposos aos olhos da razo, j prohibidos por lei natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso no convence que possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos que nos guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam, nos pontos em que elles se desavm, em que se calam; emfim, na conjunctura em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. No affrontemos com os casuistas multido de problemas onde o nosso partido seria grande; busquemos antes, nas relaes da vida civil, um s d'esses factos duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana est indecisa. V de exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questo muito pelo alto. Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro valor, gratuitamente? , pelo contrario, licito haver parte dos lucros da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, maneira da esmola, um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos, e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o emprestimo gratuito o unico bem consoante equidade natural, e que a minima usura roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade do emprestimo como obrigao moral. Tal preceito usurparia mediania econmica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias no arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o no acorooasse esperana d'um beneficio adequado ao servio que presta e aos perigos que corre. Os que nada tem cariam, por conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente. Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos, multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva, estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O emprestimo a juro logo geralmente admittido como justo e fertil em toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crdor? Como se ho de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes do crdor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differena entre a qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, s vezes pequenissimo, casos haver em que seja pezado; mas, como legal, pezar com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Ser elle at motivo a encarecerem os generos, e redundar em incommodo e vexame. Tal , quando menos, a opinio de celeberrimos philosophos. Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos contrahentes? Cuidar-se-ha que tudo isto mera questo de economia politica: no verdade. Aqui, mais que tudo, militam questes moraes complicadas e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questes que enliam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso, interrogar a Egreja. Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea, d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porm, tolera-o. No insistamos na contradico. Se permittido o emprestimo a juro, quaes so as condies? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor? Quem ? O Estado? Se o Estado que fixa a taxa do juro, o Estado quem definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que e do que no peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia da lei. Se no o Estado, o uso da terra? Ha nada mais injusto e irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde est o direito? Onde o abuso? Que da regra? No ha nenhuma? No ha. A tal respeito tamanha a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia em cada diocese a jurisprudencia: no vamos to longe; varia em cada parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustia, expoliao no confessionario direita, acto licito no confessionario esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opinies, e o seu facho milagroso vasqueja ao p do mesmo altar. Um parocho vos condemna e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica aleijada n'esta questo vital em que os ricos a invocam para tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus parentes velhos, e sepultal-os, e para isso mister que achem quem lhes empreste. Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradices e incertezas dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razo, e todavia so absolvidos e at glorificados por uma parte do clero, sem excepo dos bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a meia voz; mas de modo que a ouam. A carnificina chamada de _Saint Barthlemy_ foi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os pulpitos. A revocao do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir to longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis, perante a razo, e esses so malsinados e condemnados como crimes por parte do clero, sem excepo dos bispos, ao mesmo passo que outra parte do clero os approva, e s vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha poro que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreies da Polonia e Italia nos do exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo que um Papa censurou, e outro Papa stygmatisou, outros padres applaudiram, alentaram e abenoaram! Estas diversidades de opinies sobre successos to graves, e culpaveis, se o so, to admiraveis pelo contrario, se no so culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino. O bispo de Abranches talvez negasse a absolvio ao confessor de Carlos IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura. De maneira que vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende, perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei s permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do pensamento, da escripta e da voz no merecem ser defendidos, comtanto que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria alm da Egreja; se o servilismo, j cgo, j illustrado, no a principal virtude civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos no a suprema justia. Estas e muitas outras perguntas tem sido contradictoriamente respondidas pela Egreja, que no sabe melhor que ns onde esto bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a propores enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-se e apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano forado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao co ou ao inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e a ignorancia saudavel; porm, se procuramos regras de proceder, esteio e guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai resplandecer, activar-se e resolver a questo, a Egreja perturba-se, balbucia, contradiz-se e desampara-nos discrio. Como ento que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de esquadrinhar na Biblia as regras da nossa f, allegando que a Biblia livro inintelligivel para ns. E, se lhe pedimos a razo d'isto, abre o livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e sentido s ella garante e explica. ahi que ella pretende mostrar-nos a prova que lhe pedimos; mas ns sustentamos que ahi no ha tal prova. Alm d'isso, se mister crr primeiro na Egreja quem houver de crr nas Escripturas e entendel-as, que argumento esse? Pde qualquer, em um processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle s se constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que infallivel, mas abstenha-se de o provar. Eu por mim no creio. A infallibilidade um attributo incommunicavel de Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem infalliveis, no bastaria respeital-os, seria mister adoral-os. Disso nos defenda Deus! So homens como ns. E, quando o Espirito Santo nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor. Assim fallam os protestantes. No digo que taes discursos sejam concludentes: no me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do anterior inferimos uma concluso cuja justia creio que ninguem contesta. III Concluso do que fica dito A concluso que eu desejaria tirar do que fica dito que a Biblia e a Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas, no tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se a Escriptura lh'o no annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno, apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse Egreja attribuir quelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente conforme justia e bondade de Deus. Tanto em Genebra como em Roma cr-se no inferno; mas por diversas razes; e o que parece argumento decisivo para metade dos christos, no tm a mesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella. CAPITULO SEGUNDO Resposta a uma objeco Fallei da multido dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa. certo que a maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este assumpto em livros modernamente escriptos, crem que no, e vos dizem que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinio aos seus adversarios para os tornar odiosos. No duvidam que ha inferno; no os inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados. Mil, cem mil, um milho d'almas a padecerem eternamente parece-lhes coisa muito de crr-se, moralissima, certissima. No pde suppr-se que o inferno esteja vasio; alis melhor seria supprimil-o. Um milho ou alguns milhes d'almas, se Deus as abandona, tambem ellas abandonam a Deus; bastante para exemplo, bastante para justia; porm metade do genero humano e mais de metade, excesso, monstruoso: no se cr. No isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem. Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as verdades christs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou formando um corpo doutrinal, que um homem instruido no pde hoje, sem risco de heresia, tentar separal-as. Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de que o clero no d tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do padre Annat, do padre Lmoine, e d'outros casuistas, to agramente invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada vez mais a aco n'outro tempo to vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem luz; o corao reclama, bem que timidamente, seus direitos; a consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradies, no repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar. Verdade que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas vida futura, e--notabilissimo caso!--no insistem nas consequencias praticas, no tocante vida presente. Este ultimo facto, muito significativo, provm dos casuistas. Foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do co. Como no soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da f, e no ousassem embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram audazmente a moral. Graas lhes sejam dadas, que isto de peccados mortaes est por um fio! O assassino, mal lavou as mos, e o perjuro mal lavou a lingua, so admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas; ainda Isaias e S. Paulo a bradarem; mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa o tolerante padre Lmoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma capitalista, uma burgueza opulenta no podem viver de favas, nem trajar de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a perfeio negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos. Descobrir, porm, no complexo dos actos dos homens, o limite exacto do dever, isso desvario: ou prohibir, ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros ns, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das esmolas, a lisonja, a ambio, a cupidez, a ingratido, as desavenas, tudo passa, tudo venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padre pde ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o co promettido ao ladro que se accusa, o perdo da adultera, e involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias, facilitando a expiao. Pois os primitivos christos no tinham ouvido fallar do bom ladro, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor? Comparem com a disciplina de hoje a de ento que eu j referi. Se o padre Lmoine lesse nas catacumbas um capitulo da _Devoo commoda_, o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco de Salles o tractasse bem. que os primitivos christos nunca perdiam d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu procedimento, no a tal artigo de f ageitada a dar alentos esperana, mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam. A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as crenas da Egreja, est por tanto desde muito desacorde. Port-Royal tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os casuistas venceram. A contenda acabou. Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos outra vida, dos esforos que debalde se envidam para lhes amaciar as asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes no atirem fra copo e remedio. Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam encarar impassiveis a multido de pagos e hereges que regorgita do inferno--multido que sem intercadencia augmenta com muitos milhares d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as vinganas divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e arrasta a f; e no s a piedade, mas tambem a justia. S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente piedade, estacou diante d'esse problema de justia, e diligenciou, a seu modo, resolvl-o, por feio que podesse, sem offensa da f, contemporisar com a sua razo. Imaginou um justo fra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade, dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S. Thomaz, to grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justia, l estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os gentios. Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. J no ha recorrer a milagre. Dizem que, se entre infieis, e at entre os hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as v: essas pertencem Egreja, no corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as verdades que ignoram, e basta isso: so catholicos l do seu feitio. pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes, virtuosos transviados, erros invenciveis[7]. J se diz que ninguem condemnado, tirante os mos, qualquer que seja a religio que professem. Bella a linguagem, mas tambem evidentemente illusoria; por onde vamos vr que tal piedade, bem que sincera, no pde aproveitar a alguem. Vs no condemnais todos os gentios nem todos os hereges; verdade. Os dogmas que nos ensinais que os condemnam. Ora, se, acaso, os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que no estava em vossa alada condemnar, ainda que o quizesseis, um s idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas so verdadeiros, tambem sabemos que no cabe em vossa alada salvar um s gentio nem um s herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de taes dogmas, de f que o homem nasce mo, e que o crime que lhe mancha o bero, explica, mas no lhe justifica os erros da vida. Irroga-se culpa a quem se liga religio de sua familia e patria, quando tal religio no a genuina. Se assim no fosse, vde bem que melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco salvar-se-hia procurando de boa f, como os patriarchas, prazeres que a ns nos perdem para sempre; e o maximo das benos seria nascer e morrer selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clares que nos privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billies d'ellas que morrem em peccado original, uma duzia s que fosse, seria que farte para argumentar que ha salvao fra da Egreja, e sem algum dos soccorros extraordinarios de que ella dispe. Estes theologos tolerantes no reparam que inutilisam a revelao, que despojam a Egreja das chaves do co, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para l entrar, e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem uma chave. A opinio assim pelo claro no ousariam elles exhibil-a, e, a bem dizer, tudo aquillo no opinio sua; , melhor ainda, expanso de alma que aspira verdade e justia; protesto da humanidade christ contra o judaismo, protesto mais revelante por no ser voluntario, nem saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio no o essencial do protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que no parte em taes discursos, pois que os discursadores no concluem como deviam, se raciocinam; e no podem fundamentar a sua argumentao sobre ensino authentico da egreja[8]. mister, por desgraa, renunciar orthodoxia ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O justo, estranho Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mo, no existe aos olhos da f: um phantasma que avulta vossa piedade. Se ha ignorancia involuntaria e invencivel, no a do idiota? Ora ahi est! o idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre materno, peccaram mortalmente, e s pelo baptismo conseguiro justificar-se. Como ento que ha de subtrahir-se s tentaes e s sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem revelao e sacramentos? Onde ganhar elle amor ao bem e vigor para pratical-o? Tal hypothese heresia por atacado; s poderemos aceital-a como excepo milagrosa; e, n'essa qualidade, no vingaria dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde, ha seis mil annos, se vo acamando as geraes humanas. [7] Veja entre outras obras os _Estudos a respeito do Christianismo_ por Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor apologia da f catholica. [8] Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado original; necessidade do baptismo; ha uma s f e um s baptismo; fra da egreja no ha salvao; necessidade dos sacramentos da penitencia, de confirmao, etc., como auxiliares de nossas enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente insufficiencia da prgao e da leitura; inefficacia das boas obras sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de viver e morrer em estado de graa fra da Egreja que a dispenseira das graas, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados quelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos. CAPITULO TERCEIRO DA DESCIDA DE CHRISTO AOS INFERNOS Descendit _ad Inferos_; terti die resurrexit mortuis; ascendit ad coelos, sedet ad dexteram Patris, ind venturus est judicare vivos et mortuos. Credo in Spiritum sanctum, in sanctam Ecclesiam catholicam et apostolicam, in communionem sanctorum, in remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem et vitam ternam. Amen. (_Symb. apostolorum_). I O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos infernos. No o Evangelho que o refere; um documento no menos venerado, o qual, com o _Pater_ e _Ave_, parte das oraes que a Egreja ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior redaco dos Evangelhos e resumo da f apostolica: o _Credo_.[9] Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova: Satanaz vencido, os peccadores resgatados, o co aberto aos que oram, aos que choram, aos que soffrem. Para estes exclusivamente que seu sangue aspergiu o cho do calvario. Jesus no dispensa da penitencia os que morreram culpados; mas d-lhes a esperana que as antigas crenas deixavam luzir na terra smente, e apagavam no tumulo. Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por Christo, no seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio, os seis primeiros circulos da Ghenna, e no o ultimo. Esta distinco, porm, no est no _Credo_. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e, mais pelo claro, _os infernos_, como quem indistinctamente diz todos os logares de soffrimento onde podem penar os mortos. Desceu aos infernos, diz o _Credo_, e ao terceiro dia resurgiu dos mortos. Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretao natural --todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam desparecido de sobre a terra; no s patriarchas e prophetas, seno todos os judeus; no s todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui, entendidas ao natural, o que dizem as palavras: Desceu aos infernos, e habitou trez dias com os _mortos_. Quereis dar quellas palavras uma accepo espiritual? Temos ainda mais. luz na questo. Os mortos espirituaes so os condemnados, os que eram considerados em perpetua privao dos resplendores eternos. No so os prophetas, os patriarchas, os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam merecido as penas temporarias, por que no estavam espiritualmente mas s carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for a interpretao adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os theologos affirmam. Do citado trecho do _Credo_ colhe-se que Jesus desceu, no s ao limbo, mas tambem ao inferno, no s aos patriarchas que esperavam sua vinda,--explicao acanhada e violenta dos hebreus conversos e dos christos judaisantes--mas aos mortos de todos os tempos e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenas haviam ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos aridos. Jesus no destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do inferno judaico e gentilico fez o inferno christo, inferno que corrige, inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem desesperana nem rancores. Outras luzes pde dar o symbolo dos apostolos s almas piedosas. Mais abaixo, diz: Creio na vida eterna mas no diz: Creio na morte eterna. Este horrivel dogma no se l no credo apostolico. Se ahi se falla em infernos para nos ensinar que Jesus Christo l foi, e de l sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e bemdito. Diz finalmente o _Credo_ que Christo subiu ao co, onde est sentado dextra do Padre, d'onde vir a julgar _vivos e mortos_. Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas manses onde a esperana radiou com o Christo quando tudo foi consummado na Cruz? No possivel que uma s palavra tenha dois sentidos com to breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis antes inferir de taes palavras que os nossos avs judeus e os pagos, quantos ento eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos juntamente, que a mim no se me d d'isso. O que ha de sempre forosamente reconhecer-se que a phrase representa a mesma ida significada uma ou duas linhas abaixo. Ser, conseguintemente, preciso confessar que os mortos visitados por Christo so os mesmos que elle vir julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos infernos, Jesus morou trez dias no entre os justos esperanados, mas entre os condemnados desesperao para os ungir de seu sangue, consolal-os e salval-os. E, seno, para que os visitou? Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana, se do _Credo_ se colhe o dogma das penas eternas. No est l: o contrario que est. O veneravel texto mil vezes mais luminoso que todas as glosas dos doutores. [9] Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte do divino Mestre, se reuniram e compozeram o _Credo_, elenco das verdades cujo ensino lhes fra confiado. O Evangelho ainda no corria escripto. S depois da separao, que foi composto o de S. Matheus, que antecede a todos. O symbolo da f apostolica tambem no andava escripto; mas ensinava-se de cr aos fieis, e por isso longo tempo se conservou na Egreja, bem como a tradio egualmente oral da sua origem. II Viveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas perseguies, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradio dos apostolos, ou, fora de reflectir, atinra com a genuina accepo do Evangelho? No sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda no li as poucas obras restantes que to assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que mais sei que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a poro da obra relativa s penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla, anno 553.[10] No se deram os bispos canceira de provar que elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por contagem de votos. muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325, e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e conta d'isso mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o assumpto as opinies dos padres d'aquelle tempo? Recusariam no se conciliarem? A questo confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota indeciso de natureza a um tempo estranha e evidentissima: uma profisso de f muito particularisada, a mesma que hoje se enta aos domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente. O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua f, desenvolveu em certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta a suppresso completa do descendimento aos infernos. O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea, aperfeioou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas no lhe repoz a descida aos infernos. Que quer dizer esta eliminao? Desceu ou no desceu Christo aos infernos? Se desceu, por que o no dizem? Acham que insignificante o caso? No merecer a pena relembral-o? Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e Constantinopla no vingaro desluzil-o. [10] No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria, e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnao a ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres reunidos n'aquelle Concilio. CAPITULO QUARTO ADVERTENCIA FINAL I As idas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros disseminadas, e prgadas de tantos pulpitos, e to notorias e populares, que me no temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os dogmas, preceitos, maximas, opinies sempre admittidas nas faculdades de theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa f e tambem de prudencia; que toda minha argumentao claudicaria, se eu attribuisse aos propugnadores do inferno linguagem que no fosse a d'elles. Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte infernal, o peccado do Eden, e a maldio dos homens? Fui eu quem encerrou no claustro o ideal da perfeio christ? Fui o auctor das sentenas desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei eu as devotas reflexes, azadas para mirrar os coraes das mes e dos filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios melancolicos? culpa minha se o inferno parece coisa atroz? No suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se immoral, estava a meu cargo mudar-lhe a condio? Attribui eu ao padre Bohours palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle no dissesse? verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer em grego ou latim, ou italiano ou allemo, em nome d'outrem, o que expuz a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das idas que discuti pertence nominalmente a este ou quelle theologo; junta ou separadamente todas lhes pertencem: dominio commum. Seria apoucar e abater a questo conferir a uma crena tradicional visos de opinio particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os encontro, at nos mesmos que me ameaam com as penas eternas; no mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. No me estive a quebrar lanas com personagens mais ou menos eminentes: que so apenas eccos de doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina citado um doutor, julgar-se-hia que os outros doutores, no mencionados, depunham contra mim. No aconteceu isso a Pascal? Nomeia elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposies, e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois responderam-lhe que se as proposies que elle combate esto nos livros d'onde as copiou, a culpa dos auctores, e no da companhia que os instruiu. Claro est que eu tenho por mim auctoridades muito mais embaraosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez, Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor. Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraarem. Qual hei de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho canonizado vale ou no vale um papa no canonizado, mas fallando _ex-cathedr_? E de mais um s auctor, por extremo que fosse o gro de sua respeitabilidade, bastaria a tapar a bcca aos altercadores? Quantos textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas, bispos e doutores teria eu de dispr em batalha a meu favor? Confesso que no sei. Fui, pois, sobrio em citaes, no por mingua do assumpto, mas antes por excesso. Convenam-se de que no ha linha n'este livro qual eu no podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, seno volumes de annotaes justificativas, hauridas nas fontes mais puras, mais frequentadas e veneradas. Similhante lavor, porm, ainda que eu o compendiasse essencia do debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de to barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram desde o bero. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas livrarias; no carecem de folhear concilios, obras de santos padres, bullarios, constituies de bispados, revelaes de Santa Catharina, Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; no se lhes faz preciso consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos oraculos que nem sempre nos esto mo. Mais boas de encontrar so as minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanas que estudam o cathecismo; acham-se em mos de nossas irms, esposas, e mes, na sua _Imitao_, no _Quotidiano christo_, no _Combate espiritual_, na _Vida dos Santos_, no _Livro d'ouro_, no _Pensai-o-bem_, e em milhares de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente manuseados. Os paladinos do inferno, se os houvesse, no ousariam, talvez, atacar as passagens d'este livro, de antemo atalaiadas d'uma guarnio formidavel de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu desprecavidamente no defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes parea de mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas to smente os adversarios; quanto ao publico, a minha inteno no adormecl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecl-o e agradar-lhe. Mal andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos leitores a poeira dos meus livros traados! II Se no podem accusar-me de m f na exposio dos principios que tentei impugnar, no faltar quem me accuse de mo juiz em tudo o mais. Estejam certos que no ficar aqui. O inferno tem seus devotos que no sacrificam s Graas, mas s Eumenides. Bem os ouo gritar: impio! incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o no prendem, e mandam s gals! Ousar descrer das penas eternas! Que faz o ministerio publico? Onde est o carrasco? Em Frana j no h lenha para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! No nos esbulhem d'esta amavel crena. Que havia de ser da moral? Queremos inferno e diabo, a maldio e o mal. Se muita gente se condemna, peior isso, mas a culpa d'ella. Que ardam para sempre! vontade de Deus. O teu debil sopro, ruim pensador, no apagar as chammas salutares que no corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendl-o com os teus livros. Queremos o inferno e seus supplicios, embora l vamos cahir com as nossas mes e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno no ha f, nem Egreja, nem religio, nem lei, nem familia, nem moralidade, no ha nada. Conservemos o inferno! absurdo? mais um motivo. _Crdo quia absurdum._ Parece-te isto injusto, incredulo, impio, perverso que no queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos para perdel-os sem misso! Imprudente! que ousas escutar a tua consciencia, quando a tradio falla! Malvado! corao de pedra que no ds dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e proscriptos, e ests ahi a lastimar os billies de creaturas que povoam o abysmo. sandeu! miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades to uteis. s como os malfeitores que quebram os lampees. Se assim vais, arrasars os carceres. bem de vr, l tens as tuas razes para querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crr n'elle. III Advogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais innocentes do que eu? verdade que sou peccador. Se todavia as minhas aces e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do futuro to tranquillo como vs. Mas Deus no me ha de comparar comvosco para absolver-me ou condemnar-me: ser com o modlo de perfeio que eu tenho no espirito, e que eu devra ter copiado no decurso de minha vida. No pratiquei--de mais o sei--todo o bem que podia; condescendi com fraquezas que vs, por ventura, no conhecestes; mas talvez que eu, sem que o soubesseis, me esforasse e vencesse nos conflictos em que succumbistes. Eu no vos julgo, crentes no inferno, que encaraes sem impallidecer; eu, porm, que no creio no vosso inferno, no posso sem pavor meditar no julgamento divino. No desespero na bondade de Deus, mas creio em sua justia, e nutro viventissimo sentimento da perfeio evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e no me considero isento de expiao. Oxal que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu to socegado o espirito como inculcais o vosso, ou to puro como vs imaginais que o tendes! Quem me dera ser santo, no aos meus proprios olhos, como dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das multides. Ento impugnaria eu a eternidade das penas, no j com melhores razes, nem com argumentos de mais justia, mas com a auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra humana. Ha ahi quem se no renda ao vigor de um discurso, e se docilise virtude ou ao renome de quem discorre. No discutamos, pois, a minha vida, que eu no tenho que entender com a vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro prestigio, e no me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com razes to claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuaes calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que todos sois pessoas virtuosas que vo direitas ao paraizo, e que eu sou mo, e o peor dos homens, sde francos, seria isso prova de que eu argumento mal, e vs argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto que preciso responder, senhores. Eu por mim digo que a dr, n'este e no outro mundo, meio de expiao; digo que a dr, n'este e no outro mundo, acara a piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdo o fim, a cora, a perfeio e explendor das obras da justia; que um castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, sem moralidade, inutil ao culpado, s testemunhas e ao juiz;--um acto de colera, de odio e furor--um feito sombrio e sinistro como transportes de demencia incuravel. Digo que tal crena mal cimentada, e assim funesta em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo so eternos; que eterno s o bem, a omnipotencia, a bondade, a justia e misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, so inseparaveis em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra ho de passar; que a f ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperana, e que tudo ha de acabar, salvante a Caridade. Que vos parece isto? que redargus? Ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da razo, e cuidar em extinguir tanto em vs como nos outros as vivas luzes da consciencia, se quereis impugnar estas proposies. IV Mas ninguem pde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; no obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar; e, embora o negueis, a vs mesmos que mentis. Negal-o-heis com a bcca; mas no com a consciencia. V Espero resignadamente as insolencias. Se m'as no disserem alto, dil-as-ho baixinho. Este livro ir ao _Index_, e tal, que o no tiver lido, se julgar abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros, como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo de sua recente converso, de buscar aqui motivos para ser mais humilde; vedar-se-ha viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura. Divulgar-se-ha que este livro _tio do inferno_, que queima os dedos que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa f. A Egreja no alenta curiosidades de espirito. Porqu? De que se teme? Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiar cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se justifica; dispensa preges; nos labios d'um menino inflora-se to bella como nos discursos d'um sabio. As leis moraes no so arbitrarias; no so caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde nossa intelligencia. So perfeitamente adequadas nossa natureza e necessidades. No ha uma s, cuja inobservancia no surta graves desordens; uma s que no proteja a dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o innocente contra o cavilloso. So freio de paixes, luz e regras das aces publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas, condio que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, cauo de nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos. A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua fora, se a discusso a intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza, se tolerasse discusso de certos dogmas, e em particular do dogma das penas eternas. Se quer que haja crena no inferno com f egual crena da redempo; se quer a mesma f para a colera sem fim e para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que prudente. Mas d'essa imposio de silencio o resultado este: VI Resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente contradictorias--a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e inferno. Tambem resulta que as multides sempre a multiplicarem-se rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a mesma voz que ensina uma injustia no pde ensinar uma verdade; imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, no pde ensinar erros. A m educao, que, no rodar de muitos seculos, lhes deram, torna-os a todos egualmente incapazes de discernir o que falso do que verdadeiro, na mesma ida: encaram-na a vulto, qual lh'a offerecem, e ou a guardam ou rejeitam ta, verdade e mentira de mistura, porque ambas as idas esto identificadas em uma no espirito d'elles. Todavia todos os partidos so mos, e nenhum pde, relativamente questo presente, socegar a alma. Ainda no encontrei fiel que se me confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava n'isso. E tambem no encontrareis incredulo que no haja confusamente sentido a preciso de sobreviver a si proprio, e no haja suspirado pela justia do co, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao corao de todo homem, alvoroando-o at que elle a comprehenda. O fiel diz de si para comsigo: Deus cruel; mas, reportando-se Egreja, cuida que as inspiraes de sua consciencia so suggestes diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de f em um Deus sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: Deus existe; os mos sero castigados; e, se em seguida se aturde e apaga no intimo aquelle presentimento lucido da justia divina, porque lhe esto sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos condemnados. VII Tal hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais importantes dogmas da religio. F cega, incredulidade cega, f que acceita um Deus vingativo e exclue do co a piedade, incredulidade que busca um Deus compadecido, e, por que no acha piedade no co, exclue de l a justia. E entre estes dois bandos de almas atormentadas, est uma corporao docente, que se inculca infallivel, mas que, no intento de proteger sua infalibilidade, anathematisa a razo humana e excommunga a consciencia. VIII Eu tenho tido parte nas angustias da f que, at de olhos fechados, conhece que a transviam; e, se, mais tarde, abre os olhos afeitos escurido, como os de Saul deslumbrado, nada v, e caminha s apalpadellas. So passados esses dias de turvao; mas talvez n'este livro negrejem vestigios d'elles. No achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam e deduzem logicamente, desde a primeira at ultima pagina. Em questo, a um tempo, to complexa e excitante, ser-me-hia custoso sujeitar-me aos vagares do methodo. A tal qual ordem que trava as peas d'este escripto, vem como compendiada no assentamento das reflexes e meditaes que a formam. Ninguem melhor do que eu sabe quanta deficiencia desvalia o escripto. No importa. Eu, por mim, rodeei o alcaar de Satan; e, se lhe no puz cerco segundo as regras da arte, no lhe deixei parede nem pedra que no soffresse algum abalo. No se faz mister tempestade para lh'o baquear: um leve spro o far cahir. FIM INDICE _Pag._ Advertencia do traductor V Prefacio da segunda edio XIII INTRODUCO Dogmas hebraicos 1 I--Rebellio de Satanaz 2 II--O inferno 3 III--Paraizo terreal 5 IV--A maldio 6 V--Consequencias da maldio 7 VI--Comparao da nossa sorte com a de Ado e de Satanaz 10 VII--O povo de Deus 11 VIII--A egreja e o novo povo de Deus 15 IX--Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com especialidade a eternidade das penas 18 PARTE PRIMEIRA _Tradies_ Capit. I--A tradio universal a prova do inferno? 21 II--Explicao natural das tradies pags cerca do inferno 24 III--Como o sacerdocio perpetuou estas tradies 26 IV--Exemplo de um povo que permaneceu fiel a todas as suas antigas tradies 27 V--Effeito d'estas tradies na edade media 29 VI--Como a sociedade christ se desvia progressivamente d'aquellas antigas tradies 30 Capit. II--A f nova 33 I--Pater noster 33 II--O purgatorio 36 III--Necessidade do purgatorio 38 IV--Mysterios 39 V--O paraizo 41 Capit. III--Os fructos do inferno 46 I--O bem 46 II--A carmelita ou o ideal da perfeio theologica 53 III--Discurso d'uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica 66 IV--Discurso d'um mundano, apoz bastos estudos cerca da perfeio theologica 69 V--O rebanho 73 Capit. IV--Outros fructos do inferno 79 I--O mal 79 Capit. V--Os cinco grupos 87 I--O grupo dos philosophos 89 II--O grupo dos corruptos 89 III--O grupo dos indifferentes 91 IV--O grupo dos devotos 93 V--O grupo dos santos 99 SEGUNDA PARTE _O inferno considerado alm-tumulo, os condemnados na presena de Deus, na presena dos santos, e na presena dos homens_ Capit. I--O inferno de Plato 103 Capit. II--Opinio dos pagos sobre a situao e vista interior do inferno 108 Capit. III--Opinio dos judeus cerca da vista interior do inferno 112 Capit. IV--O inferno dos theologos 117 I--O inferno material 117 II--Reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados 125 III--Os martyres de Nero 128 IV--O inferno espiritual 130 V--Continuao 134 VI--Da immortalidade das penas espirituaes do inferno 136 VII--Ultimas consideraes cerca do inferno theologico 140 Capit. V--Sursum corda 143 Capit. VI--A parabola do rico avarento 151 Capit. VII--Terra, inferno, co 154 I--Terra 154 II--Ceo 155 Capit. VIII--Historia d'um sonho 157 Capit. IX--Judas Iscariote 170 Capit. X--Concluso em frma de parabola 181 APPENDICE Capit. I--Provas mysticas do inferno 185 I--Da auctoridade da Biblia 185 II--Da auctoridade da Egreja 191 III--Concluso do que fica dito 199 Capit. II--Resposta a uma objeco 201 Capit. III--Descida de Christo aos infernos 210 Capit. IV--Advertencia final 216 N. 423--Porto: Typographia da livraria Nacional, Laranjal, 2 a 22--1871 Erros corrigidos Pg. no original correco 12 divindidade divindade 12 todas as religes eram todas as religies eram 199 Espirto Santo Espirito Santo 215 particuralisada particularisada 217 pupulares populares End of the Project Gutenberg EBook of O Inferno, by Auguste Callet License: Share Alike