Produced by Pedro Saborano. Para comentrios transcrio visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) GALATA EGLOGA. PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE POR ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO. LISBOA: M. DCCCI. NA OFFIC. DE SIMO THADDEO FERREIRA. _Com Licena da Meza do Dezembargo do Pao._ AO LEITOR. Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora fao-a reimprimir, para tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens com melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que duas vezes a reimprimro, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as Partes, por que a primeira d a materia para a segunda. Se me increparem, porque fao domavel o Gigante Polyfemo, contra a opinio dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra este Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias foras, e destemido: hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o seria, se astucioso no lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que nem ao mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou no? Todos me diro, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da Razo, com cujas armas o ataco, e o veno: e s seria inverosimil, se eu com a razo accommettesse hum Tigre, hum Leo, huma Serpente. Se os mais no pizro esta estrada, porque no quizero, pizo-a eu, porque quero, e por que posso, sem atropelar a verosimilhana. Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; se fao inflammar Polyfemo, e respirar vingana, he porque eu no pinto hum daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansido, e o socego de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e na ira, deo barbara morte ao mancebo cis, lanando-lhe em cima hum penhasco: catstrofe, que eu no pinto, por no fazer huma Egloga com espirito de Tragedia. Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrtos homens!) dissessem, que no era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada morte do Principe o Senhor D. JOS. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa ser ella pela sua avaliao. Esses, que duvido, examinem, busquem, descubro o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu. Conhea o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se canou naquella composio, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se eu a furtei, onde ests homem roubado, que no acodes ao teu cabedal, sabendo, que em meu poder existe? Denunca-me; clama justia contra mim. Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Rpublica das Letras sem ser Cidado de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castlia, sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que ha trinta annos escrevo, so os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porm no de roubador, officio imfame, que no cabe em almas honradas; mas se os crticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente attender em minha defensa, que estes se no tem mel, tambem no tem veneno; se no deleito, tambem no ferem. Isto supposto, fao-me Justia. GALATA EGLOGA. PRIMEIRA PARTE. INTERLOCUTORES. POLYFEMO, E LAURINDO. POLYFEMO. Ah! Campos, campos meus! Vs, que algum dia Me servieis de amavel companhia: Vs, que os ouvidos daveis ao meu canto, Prestaimos boje, para ouvir meu pranto; Se bem, que assz me custa magoar-vos, Depois de com meu canto deleitar-vos; Mas eu adoarei a vossa mgoa, Dando-vos de meus olhos rios de agua: Com ella florecei para os viventes, E custa do meu mal vivei contentes, Que eu no vos lograrei, no; nem j gora A minha morte pde ter demora; Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes Huma morte he melhor, que muitas mortes. Ah! Campos, se vs fosseis animados, E ponderasseis bem os meus cuidados, De mim aprenderieis, que a ventura, Ao que nasceo feliz, he que procura: E Aquelle, que nasceo j desgraado, Sempre lhe foge com semblante irado. Mas quem he, que este monte vem subindo? Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo, Que talvez magoado d'escutar-me, Quer meios procurar de consolar-me: Em vo, em vo se cana, se o intenta; Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta. Agora mais me vejo impaciente, Que at me afflige a vista de hum vivente: Mas elle vem, no posso resistir-lhe, J no posso esconder-me, nem fugir-lhe; Se fujo desta parte, he ribanceira, Se daquella, me affogo na ribeira; Pois nella acabarei, morrer no temo; De huma s morte acabe Polyfemo. LAURINDO. Detem-te, amigo, e espera, que fazias? A ti mesmo matar-te pertendias? Seres comtigo mesmo mpio tyranno, Para hum damno evitar com maior damno! POLYFEMO. Deixa, deixa, que eu morra por piedade, Porque morrendo, evito a crueldade Dos mpios Deoses: ah! Viver no quero, Pois vida to penosa no tolro: Tu contars falsa Galata, Que por ella me expuz morte feia; Porm no peito o corao me estalla, Vendo, que cis tyranno ha de logralla: Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento! Que eu s, por tal no ver, morrer intento. LAURINDO. Socega, amigo, queres dessa sorte Dar a vida, por quem te causa a morte? Queres vingar-te della socegado? Desprezou-te, despreza-a: ests vingado. POLYFEMO. Desprezar Galata, e offendella Quando s morrer por ella! Isso no, que depois de eu adoralla, Valor no tenho para maltratalla: Ella pratique embora a crueldade, Que eu no devo imitar-lhe a impiedade. LAURINDO. Conheces, que te offende essa perjura, E inda morres por ella? Oh que loucura! POLYFEMO. Sim, amigo, traidora a considero; Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal no quero. Eu no lhe amo o rigor, sim a belleza, Que he parto singular da natureza: Tu, que a conheces, v, se razo tenho Para adoralla com to grande empenho: O lindo rosto, aquelles olhos bellos, To matadores, que em chegando a vllos, Parece, que do rosto lhe saltavo, E que para no vllos me cegavo. As loiras tranas, bem como doiradas, Sobre seus alvos hombros espalhadas. Se as costas me voltava por desprezo, Como que a ellas me levava prezo: Nas lindas faces se me figuravo Duas papoilas, que entre a neve estavo. A boca, que em conceitos sempre acerta, Parecia huma rosa meia aberta; Mas quando grave, e graciosa ria, Oh quanto ento mais bella parecia! Mostrando os claros dentes, que esmaltavo Seus beios, que de ncar se formavo; E co'a fora do riso as faces bellas Duas covas fazio como estrellas. As mos por engraadas, e pequenas Parecio formosas aucenas. Mil vezes quiz beijar-lhas; porm ella, Que o damno prevenia na cautla, Escondendo-as, de mim mais se affastava, Que at nisto ser casta bem mostrava. Estas bellezas, esta honestidade Foro prizes da minha liberdade, E quanto as lindas mos mais me negava, Tanto as doces prizes mais me apertava; Mas n'huma ssta vi, que ella dormia Junto do pote, que na fonte enchia: Vou-me p ante p, e hindo a beijar-lhas, Me arrependi, porque temi manchar-lhas. Nem s para pegar-lhes valor tinha, Porque mo to grosseira, como a minha, No devia tocar aquella neve, Que s com outra igual tocar-se deve; Mas immovel fiquei, pois s gostava De ver a bella aco, em que ella estava. O branco rosto sobre o curvo brao, Outra mo tambem curva no regao: O corpo reclinado sobre a fonte, E a curta sombra, que lhe dava o monte, S metade do rosto lhe cubria, Que muito mais formosa inda a fazia. Eu, que s me detinha em admiralla, Sem que tivesse intento de acordalla; Como de gosto estava arrebatado, Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: D-lhe nos ps: acorda ella assustada, V-me, levanta-se, e com voz irada Me diz: "Vil, s comigo! Que fazias? "Dize: acaso offender-me pertendias? "Se por gigante intentas de vencer-me, "Matar-me poders, mas no render-me: "Que a minha honestidade he to constante, "Que no cede violencia de hum gigante. No, (eu lhe respondi) no te offendia: Nem de ti outra cousa pertendia, Mais do que ao menos, pois te no lograva, Ver-te: e so com te ver me contentava. Se nisto te offendi, ou me desculpa, Ou me castiga, se me achares culpa: Que se eu da tua mo for castigado, Serei ditoso, se antes desgraado. Mas dize-me, cruel, se me estimaste, Porque razo sem culpa me deixaste? E se indigno me achavas para amante, Porque juraste de me ser constante? Que resposta daria a fementida? "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida "At de ouvir-te estou, nem posso dar-te "Outra razo maior de desprezar-te, "Seno, que as Leis de Amor j no tolero: "Amei-te, em quanto quiz, hoje no quero. "Em fim, tu no s do meu agrado: "Basta: vai-te, que ests desenganado. E com este rigor aquella mpia Foge: chamo-a, mais ella me fugia: Eu vendo a ir to bella, quanto irada, Corpo gentil, cintura delicada, Afflicto exclamo: Ah! Deshumana fra! Nunca te eu vra, ou nunca te perdra. LAURINDO. Ainda louvas a ingrata por formosa, Quando enorme se fez, sendo aleivosa? Polyfemo, se queres ser discreto, No recordes a offensa, nem o affecto: Que o affecto tambem o tempo o gasta, E a offensa he parto de huma louca, basta Que razo nunca os olhos tem abertos, E sem luz que far? Mil desacertos: Por isso quelle, que extremoso a trata, A paga, que lhe d, he ser-lhe ingrata. Bem como o bravo lobo carniceiro, Que v, que a innocencia de hum cordeiro No pde entranhas ter para aggravallo, Por isso mesmo quer despedaallo; Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, Tambem ella achar quem bem te vingue: E no entanto o melhor he esquecella, E se possivel for, nunca mais vella. POLYFEMO. Tambem deixar de a ver he impossivel, Porque sem vella, a dor mais insoffrivel Creio, que dentro n'alma padecesse, Como a flor, que sem Sol murcha, e no cresce. Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse, Talvez que a meus gemidos se abrandasse: E pde ser, que a achasse arrependida De perder, quem por ella perde a vida. Oh quo feliz seria a minha sorte, Se ella abrandasse aquelle genio forte! Do desprezo, e d'affronta eu me esquecra, Se hum riso, se hum sinal de amor me dra. Tudo, tudo por ella perderia: Sem gado, sem choupana ficaria: Sujeitar-me-hia pelos seus amores A viver das esmolas dos Pastores: Pois sem logralla, tudo me he penoso, E logrando-a, sou pobre; mas ditoso. LAURINDO. Se amas com tanto extremo a huma traidora, Que mais fizeras, se fiel te fra? POLYFEMO. Esta alma, que me anima, se pudesse, Creio, que em paga d'esse amor lha dsse, Amando-te, era justo premialla; Mas desprezando-te, he loucura amalla: Sim, que o homem no mostra ser discreto Amando a falsa, que tem outro objecto: Pois daqui nasce a mancha da deshonra, E antes se perca a vida, do que a honra. Que se havia dizer na nossa Alda, Se depois dessa ingrata Galata Por outro te deixar, tu a buscasses, Esquecido d'affronta inda a estimasses? E no tremias, no te envergonhavas De dizerem, que a honra desprezavas? Ah! Querias do amor ser arrastado, Perdendo a fama, e credito de honrado? Dize, responde, a falla no escondas; Mas ou me vence, ou nada me respondas. POLYFEMO. Nada responderei por defender-me, Pois por sbio chegaste a convencer-me: Se a paixo me cubrio de escuridade, Tu me mostraste as luzes da verdade: Agora j conheo, que essa mpia Mais fra, que o drago, que o monte cria, Nem amor, nem piedade j merece, Pois por outro me deixa; e assim se esquece Da f, que me jurou, e da lealdade, Com que sempre a tratei; que a falsidade No podia caber n'hum peito amante, Que ainda offendido mostra ser constante. Eu, que at s Pastoras, quando as via, Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: E se acaso de longe as avistava, Por lhes fugir, a estrada rodeava. Tudo isto por fineza quella infame, Que, s to feio nome, he bem lhe chame; Porque a saber, que s outras eu fallava, No julgasse, que alguma me agradava; Porm que premio vim a tirar disto? Sabes o que? Com todos ser malquisto: Desprezarem-me todos, ver-me agora Aqui s, sem amigos, nem Pastora: E a falsa, tanto extremo desprezando, Amar outro, e ficar de mim zombando! E soffro tal injria sem vingar-me! Poderei socegar sem despicar-me! No, no socegarei, que hum peito irado Socega s depois de estar vingado. Sim, vou j despicar-me... Mas que intento! Que fao! Aonde vou! Que pensamento He este, que me occorre! Oh quanto errado Gyra o discurso de paixo cercado! Eu matar Galata! Oh que vileza! Naquella rara imagem da belleza Descarregar o golpe penetrante! E havio ver meus olhos nesse istante Aquelle brando peito traspassado! O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! E os olhos, que daquelle Sol so raios, Perdendo a luz na sombra dos desmaios! Aquellas lindas faces to cradas Eu poderia vellas desmaiadas! A boca rubicunda, e graciosa, Bem qual entre jasmins a linda rosa, Eu teria valor, teria vida, Para vella sem graa amortecida! E havio escutar-lhe os meus ouvidos O pranto, os ais, e os ultimos gemidos: J com trmola voz, e a cada instante Vella convulsa, afflicta, e delirante, Sem alento, sem cr desfalecida, Dando hum suspiro, e acabando a vida! Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! Eu tremo, glo-me, e de dor estallo: Que corao to barbaro haveria, Que obrasse to enorme tyrannia? Eu teria valor, se a offendesse, Para vella morrer, sem que eu moresse? No, no teria tanta impiedade, Que vendo cahir morta hume Deidade, No me sahisse deste insano peito? O duro corao de dor desfeito. Nem mais contemplar quero tal desgraa, Que parece, que o Ceo j me ameaa, Que a terra vejo abrir, que j comigo Se abate, e me confunde por castigo. Ah! Minha Galata, vive embora, Bem que me sejas infiel, traidora: Ainda te amo, se bem, que o no mereas; Eu padea, mas sem que tu padeas: Vive feliz, e logra o teu amante: Oh justos Ceos, que dor to penetrante! Mal posso respirar, que at o alento Me soffoca a violencia do tormento. Vai-te, amigo, e me deixa s hum pouco, Que eu no estou em mim, eu estou louco: Oh! Venha embora a morte rigorosa Acabar-me esta vida to penosa. LAURINDO. Deixa, amigo, esse louco desvario, Que o ser de homem deslustra, offende o brio: E que o mundo dissesse pertendias, Que por huma mulher enlouquecias? POLYFEMO. Tambem dir, que no me altra a offensa, Pois tolro a inimiga na presena. LAURINDO. Perdoando-lhe tu por generoso, Que ha de o Mundo dizer? Que s virtuoso. Mas se a fraca mulher mpio punias, S de cubarde o nome vil terias. POLYFEMO. Sim, perdoada est: eu lhe perdoo, Pois da sua fraqueza me condoo; Tambem, porque talvez seja innocente, Se bem que a culpa a accuse delinquente; Galata he honesta, he recatada: Pois quem duvida fosse requestada D'aquelle cis traidor, e que a enganasse Com vs promessas, para que o amasse? LAURINDO. Pensas bem que a mulher de honesto estado, Se d seu corao, sempre he rogado; Se bem que o rogo algumas no convence; Mas a feia ambio a muitas vence. POLYFEMO. Sim? Pois hoje vers, que a minha ira S contra aquelle infame se conspira: Elle, por me arrancar de amor a palma, Me roubou a doce alma da minha alma, Vista dos olhos meus, bem como estrella, Que luz me dava, para poder vlla. Clara luz, doce vida, alma preciosa, Tudo perdi. Oh scena lastimosa! Tudo o vil me roubou; porm protesto Fazer o seu castigo manifesto Ao Ceo, terra, a todos os viventes: Elle me offende, as culpas so patentes; Pois o proprio delicto he, que o condemna, A que segundo a culpa, sinta a pena. LAURINDO. Queres que a morte de cis justifique Huma cga paixo, hum vil despique? POLYFEMO. Quero, porque da injria se no gave, Que o proprio sangue a sua culpa lave: E se neste lugar j o apanhra, O corao do peito lhe arrancra. LAURINDO. Dize: se a Galata perdoaste, Depois que a culpa enorme lhe provaste, O Pastor, que he talvez menos culpado, Porque no he, como ella, perdoado? POLYFEMO. Ella sim: me offendeo; mas obrigada, E merece perdo por violentada; Mas elle no he digno de clemencia, Pois mais culpado est pela violencia. LAURINDO. Aqui no ha violencia, ha certa culpa, Que Amor condemna, e logo Amor desculpa, Delicto immensas vezes praticado Por quem ama, e pertende ser amado. POLYFEMO. Assim se obra; mas sempre he falsidade, Quando offende as leis santas d'amizade. LAURINDO. He mo quebrar a Lei; mas que te espanta, Se ella te jurou f, e a f quebranta? Polyfemo, discorre mais prudente; Vence-te a ti, se queres ser valente: Eu teu amigo sou, eu sou mais velho, Tu, que s mais moo, toma o meu conselho No falso Amor no faas confiana: Desterra a ira, foge da vingana, Que esta inquieta, aquella te amofina: De qualquer dellas sempre vem ruina. Males, que tu no queres supportallos, No deves para os outros desejallos, Que s vezes so, qual pedra despedida, Que no mesmo que a deita, abre a ferida: Queres a morte de cis? No ponderas, Que pde em ti cahir, se nelle a esperas? Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira: O Ceo, que a vida d, s elle a tira: S elle sobre as vidas tem dominio, E no deves oppr-te ao seu designio; Nem ao menos vingar-te levemente Poders, sem que fiques delinquente. Olha, que para Jupiter Supremo He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. voz s do seu raio penetrante Treme de susto a rocha mais constante. Foge, foge de o veres irritado, E no faas, que a mo levante irado. Ah! J, mudas de cr, tremes, e pensas? Pois a ti mesmo, espero, te convenas. POLYFEMO. Tremo de confuso, e de mim tremo; Os castigos do Ceo Respeito, e temo; Mas o affecto, a paixo, a honra, a offensa No me deixo aco, em que eu me vena: Vejo a justa razo, quero seguilla; Mas a paixo vem logo a destruilla: Que este meu corao nunca descana De chamar-me ao caminho da vingana. LAURINDO. Qualquer paixo, qualquer impaciencia Se vence com discurso, e com prudencia. POLYFEMO. To desgraado sou, que neste empenho Nem j discurso, nem prudencia tenho: Quem vio to enredado labyrintho Como este, que na ida, e n'alma sinto! Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, Ou me livrai de confuso to forte; Eu se vingar-me vou, me precipito; Porque aos Deoses offende o meu delicto: Se assento em perdoar, no persevero, Porque em vendo o offensor, logo me altero; Porm hum novo meio j me occorre: Melhor acerta, quem melhor discorre. Eu no quero incitar ao Ceo clemente, Mas para no vingar-me do insolente, Eu fugirei de o ver, que ao vllo, logo A cinza quente exhalaria fogo. Deixarei estes monte, estes prados, Que a verdura me davo para os gados: Irei viver nas mais occultas brenhas, Onde gente no veja, mas s penhas: Da vingana, e d'affronta assim me privo, E ninguem sabe se sou morto ou vivo. LAURINDO. Resolves bem, amigo; sim, he justo Fugires do perigo a todo o custo; Porque busca a desgraa todo aquelle, Que vendo o damno, no se aparta delle: Perca-se a Patria, perca-se a fazenda, Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda. Tu sim perdes lavoiras, e o serrado; Mas o Ceo, que esses bens te havia dado, Te dar novos campos mais extensos, Donde possas colher frutos immensos: Quem perder pelo Ceo, fique esperando, Que em vez da perda, ficar lucrando: Se a tua choa perdes, caro amigo, A minha he grande, vivirs comigo: Para a tua lavoira dar-te-hei terra Da campina, que tenho, alm da serra; Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas, Donde colhas as tmaras gostosas: Dar-te-hei duas formosas aveleiras, Tortas sepas, viosas oliveiras: E do mais fruto, que o Ceo der, pendente Repartiremos ambos irmmente. Para o gado l tens viosa relva, L tens para o recreio a linda selva, Onde achars hum bosque mui sombrio, De huma parte arvoredo, d'outra hum rio: Alli se ouvem os pssaros cantando, Alli se escuta o rio murmurando, Nelle ando de contnuo os pescadores, Nelle pesco tambem alguns Pastores O saboroso peixe longa cana, Ou com o iscado anzol, que mais o engana: Em fim, he campo ameno, he deleitavel, Fructuosa a terra, o clima saudavel: L vivirs, amigo, descanado, Sem ver a causa do mortal cuidado: Pois naquella distancia por extensa No vs o offensor, nem vs a offensa. POLYFEMO. Discreto amigo, amigo verdadeiro, Tu fostes dos humanos o primeiro, Que me soube vencer: eu que algum dia Nem a razo, nem Deoses conhecia, Hoje a razo abrao, os Deoses temo; Tu me fizeste hum novo Polyfemo. LAURINDO. Convence-te a razo, porque s humano, Que a razo s no doma o bruto insano. POLYFEMO. Oh grande, oh raro exemplo d'amizade! Oh corao, gerado de piedade! Despido d'ambio, e d'avareza, S inclinado msera pobreza! Deixa, que por mostrar-me agradecido, A teus honrados ps chegue abatido; E esta boca, por quem sers louvado, Beije o cho duro, dos teus ps tocado. LAURINDO. Suspende, Polyfemo, eu no pertendo A tua gratido, antes me offendo, De a meus ps te prostares abatido, Acatamento s ao Ceo devido. POLYFEMO. Oh quanto s digno de louvor completo, Por liberal, humilde, e por discreto! Aprenda o avarento ambicioso A ser mais liberal, mais caridoso: O que da santa, e msera pobreza Foge, como quem foge da vileza, Veja, que o rico, o paderoso, o nobre Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, Julgando a vida ter no seu thesouro, Veja, que a vida, e ouro n'hum momento He como o fumo, que consome o vento: Siga os teus passos o soberbo inchado, Que julga, que a ventura tem ao lado: Olhe, que a seca o grosso rio esgota, E at com vento o cedro se derrota. Longe, longe de ns, vicio forte, Vicio mais feio, do que a feia morte. LAURINDO. No tero parte em ns vicios danados, Nem pizar a flor dos nossos prados; Que esta l, que nos cobre, esta pobreza Contra o vicio nos serve de defeza. Vamos gozar a santa paz ditosa, Vamos colher a fruta saborosa Da minha bella Alda: vem, amigo, Que eu no me ausento, sem que vs comigo. POLYFEMO. Vamos; mas ah Laurindo, quem diria, Que por huma mulher, por'huma mpia Eu havia deixar a minha Alda, E ir d'esmolas viver na terra alheia? Oh triste Polyfemo! Oh desgraado! De ti deves queixar-te, e no do fado: Em mil exemplos o perigo viste, Devias fugir delle, no fugiste? Pois agora o teu erro irs pagando, E o damno sem remedio lamentando. Tome exemplo de mim, o que ama cgo, Julgando ter no amor todo o socego, Veja a minha desgraa, e tema o dano, Que sempre nasce deste amor profano: No prenda a doce, amavel liberdade, J que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade: Fuja do amor, e guarde esta doutrina, Se quizer viver longe da ruina. Mas ah! Nem j do amor quero lembrar-me, Que he facil outra vez precipitar-me. Adeus, campos meus, campos amados, Que me daveis o fruto, e pasto aos gados: J no hei de ferir vossos ouvidos, Nem j respondereis aos meus gemidos. Adeus, rio meu, que me obrigavas, Quando ao meu gado tuas aguas davas; Mas pago ficas, que essa grossa enchente A augmenta de meus olhos a corrente. Adeos, plcida fonte, onde algum dia Se alegre rias, eu alegre ria; No prazer te imitei; mas hoje afflicto S no pranto, que verto, he que te imito. Lembra-te, fonte, que a cruel Pastora, Essa, que sem razo me foi traidora, Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse, Se ella de amor a pura se manchasse: Agora deves, pois faltou perjura, Por castigo negar-lhe essa agua pura: Como ella contra si justia pede, Ou procure agua longe, ou morta sede; Mas ah! Que digo! He muita crueldade: No, no lhe negues agua por piedade, Tem della compaixo, d-lhe desculpa, Basta s, que a castigue a propria culpa. Adeos, prado ameno, as flores bellas Eu te roubei para tecer capellas: Perdoa-me, e talvez que inda melhores, Que custa do meu mal ters mais flores: E apague a minha culpa, que te aggrava Este pranto, que humilde os ps te lava. Adeos, Pastores, doces companhias Dos meus passados, e felices dias; Porm dias to breves, quanto he breve No Irverno a calma, no Vero a neve: Se o meu canto aprendestes algum dia, No tempo da ventura, e d'alegria Hoje do meu desgosto, e do meu damno Podeis lucrar mais util desengano, Vendo, por breve ser minha ventura, Quanto a glotia do mundo pouco dura: Que apenas nos faz ver hum falso gosto, Logo atrs delle vem maior desgosto. Adeos, Galata; mas que digo! Cuidei, que tinhas inda o nome antigo; Mas no deves ter j nome de humana, Sendo Leo feroz, vibora insana: Fica-te embora em paz, e s te peo De mim t'esqueas, que eu de ti m'esqueo: Sim, farei, que no tornes a lembrar-me Para querer-te, nem para vingar-me: E poderemos s ficar lembrados Do exemplo, com que fomos doutrinados: Mas v, quanto differem as doutrinas, A que eu te dei, daquella, que me ensinas: Eu te ensinei a ser fiel, constante, Tu me ensinaste a ser falso, inconstante; Mas nunca me seguiste a lealdade, Nem eu soube seguir-te a falsidade; Porm essa doutrina; inda que inutil, Estimo-a, porque em parte me foi util: Se at aqui das Pastoras no fugia, Porque a sua traio no conhecia, J della fugirei desenganado, Como quem foge do animal damnado. Longe, longe de mim, mpias tyrannas, Ide viver com fras deshumanas: Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora, Adeos, mpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora. SONETO. Novo exemplo aqui tens, msero humano, Que incensas os Altares da vaidade, Aqui te mostro a estrada da verdade, Por onde ao Templo vs do desengano: De Polyfemo o lamentavel damno, De Galata a horrenda falsidade Te excitem a fugir da crueldade, Que he premio certo desse amor tyranno! Elle consome os bens, a honra offende, O socego perturba, arrisca a vida, E o corao mais livre assalta, e rende. Ah! Destre essa mo fra, humicida, Rompe os duros grilhes, com que te prende, Quebra-lhe as setas, ficar vencida. GALATA EGLOGA. SEGUNDA PARTE. DO MESMO AUTHOR. INTERLOCULORES. GALATA, LAURINDO, E CIS. GALATA. EGLOGA. A bella, incomparavel Galata, A Nynfa, tutelar, gloria d'Alda O seu cis perdido busca afflicta: Corre, examina, geme, chora, e grita: "cis! cis! Meu bem! Onde te escondes? "Eu rouca de chamar-te, e no respondes? "Se nas margens do rio por ti clamo; "Mais foge o rio, quanto mais te chamo. "Se fonte vou teu nome repetindo, "Ella vai murmurando, e vai-se rindo. "S este monte de me ouvir magoado, "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado! "Ah meu cis! meu bem, se inda tens vida, "Soccorre esta, que he tua, assz perdida. "E se aos campos Elysios j partiste, "L vers breve a Galata triste. "A ti me ha de ligar a morte crua; Pois tu s a minha alma: eu alma tua. LAURINDO. Que vozes, ternas vozes to sentidas Os montes ferem de afflico nascidas! GALATA. Ah Pastores, que, alegres, divertidos Cantais ao triste som dos meus gemidos! Se este pranto vos move caridade, Deparai-me o meu cis, por piedade. LAURINDO. A voz he de mulher. que ao longe grita. Quem pudra valer triste afflicta! Os duros cos, que este valle atro, Seno me engano, desta encosta so. Eu vou por este pedregoso atalho Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho. GALATA. Ah! Ninguem j responde aos meus clamores? J no acho piedade nos Pastores? Misera Galata! A que chegaste, Depois que amor no corao geraste! Mas ah! Seno me engana a mata espessa, Hum homem para mim o passo apressa! He Pastor: quem ser? No vejo tanto, Pois me escurece a vista o grosso pranto. Ser o meu bom cis? Se elle fra, Huma nova alma eu concebra agora. cis! cis! s tu? Responde, falla: Ou no he elle, ou no me estima, e cala: LAURINDO. He Pastora; e se no me engana a ida Pelo gentil semblante he Galata. GALATA. Ah! J vejo: j estou desenganada, Que o meu cis no he. desgraada! LAURINDO. Galata, que tens? Tu, que algum dia Semeavas os campos de alegria, Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, Murchas as plantas, que ao teu riso crescem! GALATA. Feliz foi esse tempo; porm hoje De mim (qual rez ferida) o prazer foge. Mas dize-me, Laurindo, acaso viste O meu cis, por quem suspiro triste? LAURINDO. Ha dias, que o no vi; mas que motivo Banha o teu lindo rosto em pranto activo? GALATA. Eu te mostro a origem, que ao mostralla, No triste peito o corao me estalla. Ha tres dias... Oh dias de amargura, Mais negros para mim, que a noite escura! Quando o Sol hia ver outro Orizonte, Deixando triste o rio, o valle, o monte, Metto o fuso na rca, o gado chamo Para o pobre curral, vem ao reclamo: Conto as cabeas, falta-me a Ovelhinha, Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, Por brincadora, esperta, e to malhada, Que parecia com pincel pintada. Tinha-me tanto amor, que se eu gemia Ella ento nem brincava, nem comia. Mas se me via alegre, ou se eu cantava, Ella ao meu lado de prazer saltava. Eu afflicta a busquei t junto ao Tjo; Quando na margem o meu cis vejo. Corre a ver-me, e no riso amor explica; Porm vendo-me afflicta, afflicto fica. Pergunta-me a razo: conto o successo, E que procure a minha rez lhe pesso. Elle me diz ento com vozes ternas, Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: "Ah! No chores, meu bem, minha alegria. "Em cujos olhos brilha a luz do dia! "Se os encobres com pranto, e magoa enorme, "Queres, que o dia em noite se transforme? "Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro; "E por teus lindos olhos eu te juro, "Que se ella viva est, e eu souber della, "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; "Mas se baldado for o meu empenho, "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, E com to terno amor me enchuga o rosto, Que me leva metade do desgosto. Quiz partir, dava hum passo, ento parava, Como que em mim seu corao deixava: Partio; e a cada passo.... ( que retiro!) Voltava para mim, dava hum suspiro; Que o corao presago lhe dizia, Que era a ultima vez, em que me via. E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!) Que no me ha de ver mais, porque he j morto. LAURINDO. cis morto! Que dizes, Galata? Isso he certo, ou te engana a falsa ida? GALATA. Eu te exponho a razo, em que me fundo. Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo cis partio: passro-se dois dias, Dias de magoas, noites de agonias, Em cada instante, que elle me tardava, Mil desgraas a ida me pintava. Porm hoje no valle d'azinheira, Junto ponte da plcida ribeira, Debaixo de hum cipreste levantado, Cpia de mim, eu vigiava o gado; Se bem que pouco vigiar podia, Quem de chorar j quasi nada via. Canada de lutar com meu tormento, Meu unico, amargoso mantimento, A affligida cabea ao tronco encosto, E sobre a curva mo inclino o rosto. O somno, que ha dois dias meu no era, Veio piedoso, que antes no viera! Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraa! A causa desta dor, que me traspassa. Eu vi... triste viso! Que alm da serra, Por hum dos regos da lavrada terra, Hia o meu cis triste, suspirando Com prompta vista a minha rez buscando; Outras vezes, olhando para a Alda, Clama saudoso: "Ah minha Galata! Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo. Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito Com dardo agudo lhe traspassa o peito: Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo, "Que inda mereces mais cruel castigo. "Chama agora o teu bem, chama a fingida, "Grita por ella, que te torne a vida. violencia do golpe, o desgraado Solta do peito afflicto hum ai magoado Trmulo, curvo, com a mo convulsa O peito aperta, donde o sangue pulsa: Quer suster-se, no pde, a fora falta: A mo solta do peito, o sangue salta: Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: Este se quebra, o fraco p lhe esbarra; E sobre hum mar de sangue da ferida Cahe exhalando a preciosa vida. Com vista incerta, os olhos vidracentos, Trmula a voz, sem cr, j sem alentos, Exclama, em fim, nas mos da morte feia: "Valei-me, Ceos, adeos Galata. E soltando hum suspiro, os olhos serra: Ferindo as plantas, magoando a terra. Oh Deoses! Inda incerta esta desgraa; He qual farpo, que o peito me traspassa; E se he certa, mandai, que a dura morte Sobre mim venha, e descarregue o corte: Morreo cis por mim, por elle eu morra: Qual do seu, do meu peito o sangue corra: LAURINDO. Misera Galata enchuga o pranto, Que hum sonho falso no provoca a tanto. GALATA. Este sonho, a demora, e Polyfemo, Tudo me assusta, e a desgraa temo. LAURINDO. O sonho intimidar-me no devia Por ser falsa illuso da fantasia. Do Pastor a demora, que te assusta, Tambem pde nascer de causa justa. Se temes Polyfemo, o susto affasta: Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. E desde que o domei por teu respeito, Tudo que eu mando, que elle faa, he feito. Piza, piza, a teus ps essa agonia: Faze, que a fonte com teu riso ria. GALATA. Tu destres em parte o meu desgosto; Mas no consegues ver-me enchuto o rosto: No: fazer que esta setta no me fira, S pde o meu Pastor. Ah! Quem o vra! S pdem os seus olhos engraados Dar vista aos meus j cgos, e canados. Mas temendo o rancor de Polyfemo, As proprias sombras dessas plantas temo. LAURINDO. Do triste Polyfemo o rancor deixa: Tu foste a causa, e s de ti te queixa. GALATA. A causa fui! Eu sou fra impestada, Que fizesse aquella alma invenenada? LAURINDO. A causa foste, sim, porque o amaste, E por cis, sem culpa, o desprezaste. GALATA. Pelos Deoses do Olympo Soberano Juro que nunca amei tal monstro insano. LAURINDO. Pois se he certo, que amor no lhe tiveste, Porque falsas promessas lhe fizeste? GALATA. Porque assim o meu cis defendia Da vingana, que o vil lhe promettia. LAURINDO. Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!) Gerar amor, que nasce da ternura! GALATA. Sim, com rigor queria, que o amasse, E que o meu peito ao meu Pastor fechasse. Clamando irado assim: "Cruel Pastora, "Tu desprezas soberba, a quem te adora? "s toda do teu cis? Pois discorre, "Que ou tu has de ser minha, ou cis morre. "Dize, resolve j, ou vou matallo; "E o corao aos olhos teus mostrallo. Eu ante o monstro vil de crueldade, Que no cede razo, nem piedade, Rogo-lhe compaixo: no se enternece: Choro humilde a seus ps: mais se embravece. Eu delirava neste lance forte De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. cis morrer por mim, sendo innocente! No, por livrallo fiz-me delinquente. Com o tyranno usei de idas novas Para dar-lhe de amor fingidas provas; Mas o meu firme peito era impossivel, Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. Se nisto te aggravei, cis desculpa; Se eu delinquente fui, foi tua a culpa. LAURINDO. Nao chores, virtuosa Galata: De ti fazia mui diversa ida; Bem que eu no sigo as linguas venenosas, Que as mulheres s trato de aleivosas: Sei, que muitas o so, sim, no duvido, Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido; Mas contem-se as traies d'ellas, e d'elles, Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. Tu, exemplar Pastora, mostrar queres, Que s a gloria, o modelo das mulheres: Que os falsos homens pdes doutrinallos; E com teu mesmo exemplo envergonhallos. Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: Do teu cis feliz d-me o cuidado, Que eu hirei procurallo: em mim confia, Que hei de tornar-te a noite em claro dia. GALATA. Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes, A hum corpo morto nova vida trazes. CIS. Que triste vejo a serra, o valle, o monte! O rio pasma, corre turva a fonte. Sim, sem a minha amavel Galata A clara luz do Sol he triste, e feia. Mas onde te acharei, gentil Pastora, Para clamar ento: j vejo a Aurora! Aves, tornais o canto em agonia Porque vos falta a Mestra d'harmonia? O Ceo com ella adoce o meu tormento, Tereis nova lio, e eu novo alento, Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora? Parece Galata! Oh feliz hora! No, no me enganes, lisongeira ida. N'altura... em trage... em gesto... he Galata, Que est banhando em pranto o lindo rosto: Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto. GALATA. cis, se s vivo, sorte igual no tive. CIS. Inda o teu cis dos teus olhos vive. GALATA. Ah! Que vejo! cis! Ceos! Ser mentira? CIS. He verdade; o teu cis sou: respira. GALATA. Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes, Que assim curais as chagas dos viventes. CIS. Tu choras! He de gosto, ou de agonia? GALATA. Chorei de magoa, agora de alegria. CIS. Tu choravas por mim! Mereo eu tanto? GALATA. V bem o estrago, que em mim fez o pranto. Estes olhos, que tu chamavas bellos, Hoje magoados fugirs de vllos. CIS. Assim mesmo so dois lindos diamantes, Quie inda eclipsados, sempre so brilhantes. Mas dize, Galata, que motivo Acendeo esse fogo, to activo? GALATA. A ausencia de tres dias (longos dias!) De lagrimas, de sustos, de agonias; E mais que tudo hum sonho feio, horrivel, Que o no matar-me, no parece crivel: Sonho cruel, que me pintou na ida A desgraa maior, scena mais feia: Que o monstro Polyfemo te arrancra A amavel vida, que esta vida ampara. CIS. E credito lhe dste, sendo esperta? GALATA. Sim, que a m nova quasi sempre he certa. LAURINDO. Se eu no corro a tiralla da vareda, N'algum despenhadeiro achava a queda. GALATA. Laurindo nos meus males tomou parte, E at por compaixo quiz ir buscar-te. CIS. Bom amigo, e bom Mestre, as ss doutrinas Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas: Tu semeas os campos de equidade, Ns colhemos os fructos da piedade. LAURINDO. Huns para os outros sermos bons devemos: Todos somos irmos: de hum Pai nascemos: Se hum errar, deve o outro encaminhallo: Se hum cahir, deve o outro levantallo. GALATA. Perdoa, que eu atalhe o teu conselho, Proprio de hum Sbio, Virtuoso, e velho. Dize, meu cis, dize, por clemencia, Qual foi a causa de to longa ausencia? CIS. Foste tu: foi o amor, e foi o empenho De trazer-te a Ovelhinha, a qual j tenho. Ao casal ta levei; mas sem achar-te; Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te. GALATA. Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava? Bem que eu por ti nem della, me lembrava. CIS. Visinhos campos, as distantes terras, Amenos valles, escabrosas serras, Tudo corri: examinei choupanhas, Pobres Aldas, rusticas cabanas. Perguntei aos campinos, Lavradores: Rebanhos espreitei: busco aos Pastores: Todos dizem: "No vimos, no sabemos: "Nem leve rasto dessa Ovelha temos. Eu de perd-la j desenganado, De magoa afflicto, de buscar canado, Voltar queria a ver teu lindo rosto; Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto: Eu a dor da saudade em mim curava; Mas na m nova, nova dor te dava. Nisto pensava triste, e vacilante, Quando escuto berrar pouco distante, Parto, gyro, procuro, em vo procuro: Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro, Que o Sol formoso nunca vio por dentro: Corro, o bosque examino; e l no centro Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado, Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado. Eu, que a vejo, e conheo, que alegria Em teu obsequio a minha alma enchia! Com lentos passos vou muito manso andando, O sussurro das plantas receando, Se bem que o vento amigo me valia; Pois nem das folhas o brincar se ouvia. Chego ao ladro: observo, que em socego Dorme roncando: na Ovelhinha pego: Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo, Do furto alegre, de alegria rindo. Trepando huma deserta ribanceira, Ouo hum grito, lho a traz, vejo carreira Seguindo-me a gritar o vil roupeiro: " ladro! Larga a Ovelha! ratoneiro! Eu, que vejo o meu credito infamado, Pro, e com ira mostro-lhe o cajado. Prudente parto: segue-me as pizadas: Toro a vareda, corre-me s pedradas. Dellas me affasto; e por final prejecto. Na leve funda grossa pedra metto. Agito a funda: corro ento mais perto: Desparo a pedra, no vil peiro acrto. Fica o ladro sem tino: quer suster-se: No pde: cahe: forceja para erguer-se: Outra vez cahe de costas: vai rolando: Pga-se s pedras, mas em vo pegando, Que as mesmas pedras, em que busca abrigo Rlo sobre elle por maior castigo; E despenhado assim pela barreira Vai t parar na margem da ribeira. GALATA. Ah! Que dizes! Mataste o desgraado? CIS. No ficou morto, no, mas maltratado, Eu vi... com quanta dor o estive vendo! Cahio mortal; depois se ergueo gemendo. Olhou-me ento com iras, e ameaos; E trmulo partio com lentos passos. GALATA. Tu, que es no corao manso cordeiro. Hoje tornado em lobo carniceiro! CIS. Eu cordeiro no sou; porm se o fra Tornar-me em lobo foi preciso agora. LAURINDO. Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos; Mas tambem quer, que a vida defendamos. CIS. Se mais piedade do ladro eu tinha, Nem eu era j teu, nem tu j minha. GALATA. Se a amavel vida o mpio te roubava, N'huma s morte duas mortes dava. CIS. Esses extremos no meu peito os guardo Para atear de amor o fogo, em que ardo. Vamos, vamos, formosa Galata, Alegrar com teu rosto a triste Alda: A Alda, que por ti chorava agora, Qual bom Filho, que a Mi perdida chora. GALATA. Chora a Ptria, por mim? Quanta amizade Devo aos bons, que se nutrem da piedade! LAURINDO. s bella, e inda mais bella por virtuosa; Que a virtude inda a feia faz formosa. Porm v, que a Virtude cultivada, Cresce, bem como a planta, que he regada; Mas se falta a cultura, vai murchando; E qual planta sem agua vai secando. Hide: a beno do Ceo sobre vs desa: Aos vossos olhos branda relva cresa; E nella apascenteis grossas manadas De prenhes vaccas gordas, e malhadas. Tantas as cabras, tantos os cordeiros, Que encho os valles, encho os oiteiros. Hide, que he longe a Alda: hide, que he tarde: O Ceo vos abene, o Ceo vos guarde. A beno gere em vs dois bons Esposos, Que fructos dm ao Ceo, fructos ditosos. CIS. Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo, Gloria dos campos, deste povo abrigo. GALATA. Essa beno do Ceo, que em ns desejas, Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas. cis, vamos aqui pelo serrado, Que he mais perto, he mais doce, e he povoado. CIS. Vamos cortando por entre estas faias: D c a mo: salta o rego: olha, no caias. Tu saltas mais, do que eu: s bem ligeira! GALATA. Se eu quiser no me apanhas na carreira. Que faro hoje ao ver-me de contentes As amigas, visinhos, e os parentes, Que ao vrem-me vagar s sem conforto Julgar-me-ho morta, por julgar-te morto? CIS. Se o bem nos foge, ata-se o desgosto: Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. Tu vers nas Pastoras desgrenhadas Olhos feridos, faces desmaiadas. E ao ver-te, o riso, e pranto misturando, Humas s outras com prazer chamando: Todas para te verem correm, voo: Vivas, applausos pelos ares so. Huma te beija a face alva, e rosada, Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. Outra te enfeita as tranas graciosas De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas. Vers, que ao som das lyras vem cantar-te A magoa de perder-te, o bem de achar-te. Vers, como os chorosos innocentes, Quando te virem, brincar contentes. Vers a fonte, que turbada a vejo, Corre alegre a dar a nova ao Tjo. Vers o Tjo, que sem ti bramia, Quo plcido vem ver-te praia fria. Vers o Melro, o Rouxinol suave Convertendo a tristeza em canto grave. Vers saltando os tenros Cabritinhos Alegrarem os tristes Cordeirinhos, Vers curvar-se o tronco a dar-te as frutas; Correr o rio, vir trazer-te as trutas. Hoje fars feliz, fars contente A Alda, o rio, a fonte, o gado, a gente. GALATA. Feliz me fazes tu: viver me fazes: Aos meus bons dias novos dias trazes. CIS. Como posso eu fazer a alguem ditoso, Quando s por ser teu, sou venturoso? Sem ti rustico sou, humilde, e pobre: Comtigo sbio sou, sou rico, e nobre. GALATA. Demos graas a Amor: Amor cantemos, Que assim nos tce a Santa paz, que temos. CIS. Sim, cantemos Amor: a voz levanta, A voz sonora, com que Amor encanta. GALATA. Amor me fez guerra: Lutmos, venceo-me; O peito rompeo-me Para cis entrar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. CIS. Amor nos tens olhos Forjou doce flexa: Ferio-me: esta brexa Tu sabes curar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. GALATA. Ao ver-me ferida, Primeiro assustei-me, Depois alegrei-me, Amor fui cantar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. CIS. Eu pude da seta Salvar o meu peito; No quiz: puz-me a geito, Deixei-a entranhar. Taes laos, taes setas Devemos Beijar. GALATA. Depois de ferir-me Mostrou-me as algmas; E diz-me; "No temas "Quando eu tas lanar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. CIS. Ferir-me, prender-me No era preciso, Bastava hum teu riso: Hum teu brando olhar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. GALATA. Amor, abre as azas Vem, prende estes braos, Que os teus doces laos No hei de quebrar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. CIS. Sou prezo por gosto, Por honra cativo: Por prezo he que vivo, Qual peixe no mar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. GALATA. Amor, chama as Graas, E o Santo Hymeneo! Que venho do Ceo Meu lao apertar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. CIS. Tu chammas as Graas? No clames por ellas; Pois Graas mais bellas Em ti venho achar. Taes laos, taes setas Devemos beijar. GALATA. Basta: canada vou: mais no cantemos: Logo melhor n'Alda cantaremos. CIS. Pois vai tu pela encosta desse monte, Que a lyra vou buscar: l saio fonte. GALATA. No te demores l, minha alegria. CIS. J volto a ver-te, minha luz do dia. GALATA. Levas-me a vida, a jia mais perfeita. CIS. Em penhor dessa vida esta alma acceita. GALATA. Em penhor! Queres pois, que a restitua? CIS. No; se essa vida he minha, esta alma he tua. FIM End of the Project Gutenberg EBook of Galata, by Antnio Joaquim de Carvalho License: Share Alike