Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido existncia de erros tipogrficos neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Fev. 2009) Obras completas de A. F. de Castilho XIX O Presbyterio da Montanha VOLUME I [Figura] LISBOA EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL 95, Rua Augusta, 95 1905 OBRAS COMPLETAS DE ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO VOLUME 19.^o VOLUMES PUBLICADOS: I--Amor e melancolia. II--A chave do enigma. III--Cartas de Ecco e Narciso. IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.) V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.) VI--A primavera (1.^o vol.) VII--A primavera (2.^o vol.) VIII--Vivos e mortos--Apreciaes moraes, litterarias, e artisticas. IX--Vivos e mortos (2.^o vol.) X--Vivos e mortos (3.^o vol.) XI--Vivos e mortos (4.^o vol.) XII--Vivos e mortos (5.^o vol.) XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.) XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.) XV--Vivos e mortos (8.^o vol.) XVI---Excavaes poeticas (1.^o vol.) XVII--Excavaes poeticas (2.^o vol.) XVIII--Excavaes poeticas (3.^o vol.) XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.) NO PRLO: XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.) OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos XIX O PRESBYTERIO DA MONTANHA VOLUME I [Figura] LISBOA Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_ LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47 1905 Advertencia dos Editores Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solido de mais de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo de _O Presbyterio da montanha_, escreveu um prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dze annos de distancia, desafogou as lembranas d'aquelles logares, e as saudades de um irmo, o melhor dos irmos, o j ento fallecido Abbade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas no chegou a publicar-se. O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, so hoje considerados especies bibliographicas de primeira raridade. Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibligrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.^a D. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal _Diccionario_, no declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas. Quanto parte poetica do livro projectado, essa, no impressa, desappareceu em parte. S algumas poucas peas encontrmos, umas inteiras outras incompletas; materiaes truncados da colleco. Salvando esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario. O prologo de Castilho pois o brilhante prtico de um edificio ainda em construco, e j em ruinas; inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o _folk-lore_, d'aquella regio alpestre, to portugueza, mas to desconhecida, tudo isso tratado com amor, com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta. Appareceu tambem uma _Introduco_ em verso slto a certo poema intitulado _O Sepulcro, historia de uma noite de S. Joo_, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos no menos intercalar essa curiosa Introduco, no seu logar chronologico, por varios motivos: d-nos Castilho sob uma feio poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. O _Sepulcro_ pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e fra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borro original, que possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta lico actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em 1864. Alm do _Sepulcro_, outras peas, portuguezas e latinas, j impressas nas _Excavaes_, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil ao leitor intelligente o procural-as. MEMORIA DO EXEMPLAR DE IRMOS AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO PRIOR DE S. Mamede da Castanheira do Vouga _Em testemunho publico e perenne_ _DE_ AFFECTO E GRATIDO Offerece _Antonio Feliciano de Castilho_ PREAMBULO I O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o classifical-o podesse por alguma via valer a pena. No historico, nem ficticio; no didactico, philosophico, nem descriptivo; no prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de tudo isso, de tudo isso participa. Nem sequer um livro; uma congrie de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos no procurados, se no tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles banquetes de aldeo, engenhados pressa do que ha em casa, _...dapibus mensas oneramus inemptis,_ para hospedar a cortesos que lhe passaram pela porta. No procura enganal os]: com mos limpas e corao lavado lhes pe diante o que s para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu cho, cevado no seu pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, no as tem; algumas flores, j pode ser que as apresentar em vasos de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possue, no se vos alardeia de abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balces envidraados. Como quer que vs d'elle o fiqueis, no ficar elle descontente de si mesmo despedida. * * * * * Foi o geral d'esta colleco, parte escrito de carreira, parte apenas esboado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanas. Como todo o meu fim em fazer versos no era outro seno o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem. No tinham de apparecer entre gente; no os educava; no os corrigia; no lhes punha galas e arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci. Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde j cuidei que no tornasse; achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciencia. Vieram-me tentaes de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam j annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento. II Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que _se compem_ para o Publico; e, bem hajam elles!: no levam praa seno o que teem averiguado que por l se deseja e se procura; pem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio. Nada d'isso tenho eu n'estas paginas. No sou eu que vou para os leitores; so os leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler. Ho-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas occupaes, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, s vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco ella retrata no seu vo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que no venham depois obrigar-me por divida que eu no contraio), que a unica deleitao que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, ser a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do visinho. o que faz com que, por mais futeis que paream as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por acaso vo dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente so lidas com interesse. o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e utenss do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve. Os monumentos s dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e viraes do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores. Os monumentos so artificiaes, e artificiosos; so estudados, e emphaticos; a historia que elles resam fria. Mas c, o romance que engenhamos, ageitado s memorias e saudades do nosso mesmo passado, todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades. * * * * * As _impresses de viagens_ esto sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui usado e mui querido. No admira: para os autores facil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem canasso nem ms poisadas por terra; sem enjo nem temporaes por aguas do mar; sem desabrimento de estaes; sem saudades do que l fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde no ouve pelas ruas palavra nem som da sua creao. A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos atmosphericos to suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e familia, sem at nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado. * * * * * Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens o gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos so extranhos, e no medir as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, o maior desconto do peregrinar, por que se apeteceriam mais as viagens Frana, Inglaterra, Suissa, Italia, s margens do Rheno, Russia, ao Egypto, China, ou ainda Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, s conhecido de seus moradores e visinhos? Que sabeis vs mais da serra do Caramulo, em cujas faldas est assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regao de sua av triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto. Viris pois s raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porm bons; e to bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos seus pauprrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos crregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vs outros as vossas cidades opulentas e festivas. Estes, com falarem portuguez, so para vs estrangeiros, ou quasi. Como taes, no vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente l iria agora enterrar os restos canados da vida ao-p do sepulcro de um Pae, que lhe l ficou em quieto desterro para todo sempre.[1] III A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana regio o novo Prior, meu sempre e em tudo irmo, e agora saudade minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel. Coimbra, d'onde iamos, fra a terra dos nossos annos mais flordos; Lisboa, a do nosso bero e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e no houvera eu valdo a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que ento cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos sentirmos um como o outro to encantados com o nosso futuro, j palpado e colhido s mos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais amenas ou mais vvidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva. * * * * * Passmos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o vioso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradio, o _bom fiar_ de certa moa mui santa, que junto d'elle vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se no quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido, significando _pepinal_, ou _rio das terras dos pepinos_; pacifico rio, que ento ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel. Comeam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro cabo, arripiadas gndaras de carqueja e urzes, s de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. So j fronteiras do Caramulo. IV A freguezia de S. Mamede no se v em parte alguma; dispersa, e emboscada. A magreza da terra no d para grandes espessuras de povoao. O aspecto do paiz, para quem s o atravessa de inhospedeiro. Mas que se detenham, e o tratem; acharo a hospitalidade espontanea e desinteressada, em todas as falas, em todas as mos, e em todos os coraes. porque a solido de si mais affectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado. Esta differena e vantagem que os moradores levam sua terra, experimentmol-as ns ainda antes de chegarmos egreja e residencia, sahindo a receber o seu Pastor novo no s os maioraes, se no quasi todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde quelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas. A egreja, alva, com o seu largo porto vermelho aberto para o seu adro muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoaes em que a freguezia se divide, nenhuma lhe contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia parochial, o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como serva humilde e boa, e no descobrindo mais, por entre os pltanos, que o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espssas, crespas, e lustrosas heras, onde jmais se esconderam e cantaram melros. Ambos os edificios ficam no meio do _passal_, antiga quinta das Limeiras, dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali teem o seu foco espiritual. Um grande silencio rodeia largamente a casa da orao. O presbyterio no lh'o quebra. Baixo, de um s andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas espaoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto domicilio, proporcionado pelo que sempre dever ser o pastor de tal rebanho, no se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do santuario, porque no poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares comea para alm a esconcear, descer, e afundir-se, at borda do estreito, rumoroso, e espumifero rio de S. Mamede. Uma ponte de madeira, arremessada e trmula nos ares a grande altura, por cima das aguas escuras e raro alcanadas do sol, communica esta com a ribanceira ulterior, no menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a pique. Da residencia, cora de um dos dois alcantis, at ao moirisco logar de Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio, entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de parte a parte os ladridos dos ces de gado, as cantigas do sero, e os alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle _quasi-nada_ para os ouvidos e olhos, para os ps caminho dilatado, fadigoso, e no sem perigos. As duas veredas, que levam s duas extremidades da ponte, giram enleadas e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a esquerda, como espavoridas do abysmo l em baixo; descendo, tornando a subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra. Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, so os unicos entes vivos, que por ali se affoitam a tomar p. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vo sumir-se entre as espumas arrebatadas. Aquella ponte, vacillante sobre tal pgo e entre taes escarpas, com poucas braas de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas aguas, d as sensaes de um bello horror. Muita vez me deleitei de as colher, debruado horas esquecidas para aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as tboas, gastadas e rtas da humidade, me gosava da virao transpirada pela corrente. Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspirao de religiosa poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em to pequeno espao, como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja? Esta corrente, emblema da vida terrestre, to escura, to angustiada, to clamorosa, e com to pouco de azul por cima das suas ribanceiras inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo ferir-lhe o seio! Aquella egreja, to serenamente alegre, to aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos, to gorgeada a ambas suas portas de passarinhos, to garrida de espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares to ridente de flores silvestres, symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo da F e das Esperanas! E entre o santuario e o rio, como intermedio e transio dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiana, verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola, inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tcita como a meditao, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores de Deus para o firmamento..... O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a torrente, e o albergue, uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na Capadcia, e do qual toda a Egreja do Oriente prega virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou martyr, por volta do anno 274 da nossa era. O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o vigilante e benfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos arredores, para o Menino, j moo na valentia, ou para o moo, ainda menino na innocencia. No poude ser o acaso, quem tantos acrtos concertou. V Era a residencia, quando a ella chegmos, decrpita e caduca: apparencia de choa fabricada de pedra ensssa, escura e descommoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar quelle estado. A transformao foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na casa remoada entrou por vidraas abundancia de luz. O pateo desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viosas. Um cedro n'elle plantado comeou de levantar-se animoso e gentil; e sei que n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um j no existe na terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, j, como lh'o eu augurra nos meus versos, braso do presbyterio; tem no seu tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2] O novo Prior, o Rev.^{do} snr. Padre Antonio Jos Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varo de virtude, e espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o do nosso nome, conserva e zla tudo aquillo com amor. para mim delicia o considerar, que sombra grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, ler talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em que deposto o seu nome mollemente reclinado entre tantas outras saudades minhas. VI J os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu sete annos, desde Outubro de 1826 at Fevereiro de 1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o vo que hoje abrem para o mundo, estas poesias montesinhas. Mas, como todo o seu assumpto se no limita ao que deixo esboado, peo-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores. * * * * * O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por traz d'ellas at onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede. Por essas lombas inclinadas, fronteiras encosta alta e erma de Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seras, que at ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal, por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, at ir bater, l ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastio, que lhe servem de limite. Seras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da Agricultura. Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que achar a casa do Creador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal a com a invocao de um Pastorinho santo? O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastio, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal at ao adro; costeia a egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, l se vai mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troo de lana enferrujado de musgo. VII Detenhmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-p d'este altar, onde j ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje so tremoos, e recordemos a obscura historia d'este sitio. Por que razo s as grandes ruinas se ho-de haver por merecedoras de atteno? Todo o passado poetico; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, proveitoso para alguma coisa. Nas solides, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, s algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e at festas. Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de c s aguas do S. Joo do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moo por nome Jorge, humilde de gerao como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de corao alto e espiritos levantados. Namorra-se Jorge (me contou n'um sero do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido no sabia de quem)... mas emfim, namorra-se, que o sabia ella, de certa moa de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capito, e sobrinha em primeiro grau de um snr. Vigario. L de baixo, perto da sua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre iados aos cabeos de Falgozelhe, na outra banda, caa da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda no de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes cr de fogo, a enxergava, pendurada borda do precipicio, e pascendo descanadamente uma das cabrinhas que obedeciam sua voz melodiosa. A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiava cantando n'aquellas solides, parecia-lhe a elle, que l de baixo lh'a estava captando com ambas as mos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal at ao rouxinol que lh'a interrompesse, porque no sabia de coisa mais de molde para o seu corao. Vel-a sua vontade, no a via se no aos domingos na egreja; e nem ento, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito scias, meias muito alvas, e tamancos de galo de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das aguas. Fazem-se pontes para os rios; no se fazem que prestem para communicar dois estados to diversos. * * * * * Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas poesia; e poesia no vida. Ousou, e declarou-se a medo sua formosa; no foi repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confisso. O que entre elles se passou, no se sabe; taboas de confessionario no so carvalhos dodnios que chocalhem tudo. O que se sabe, que a moa no tornou a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha me e irmos pequenos, sem dizer nada a ninguem, e no levando seno o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que no era pequeno. Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el Rei, e que se abalra por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e para qu..... No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andra moirejando, como a propria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella da sua invocao com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu corao, por cima da Talhada, onde tinha os irmos e a me, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos..... Mas de crer que n'essa imagem se no demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas to altas e escarpadas, porm mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, elle varira a sua infancia. Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido. Tornou Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar. Reliquias so pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, j desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiaes na edificao de parte da residencia, e da egreja nova, que j sabeis lhe esto visinhas. * * * * * --Mas o fim de seus amores?--me perguntareis vs. Memoria essa que eu tambem procurei, porm no consegui desencantal-a. O que s pude desenterrar da tradio, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na pvoa da Talhada; que este se ordenra de Clrigo, fra a Roma, e arribra a Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braos em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma cora de espinhos. V se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecra com egual honra em quanto ella durou. Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma pvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e onde o que s fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rto por todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou no, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e seu irmo se tinham opposto, eis ahi o que eu no alcancei; e no quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da minha serra. A moa deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhra com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge, que no Santo para meias victorias, havia forosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto. Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber sade da futura gerao algumas malgas de vinho verde na sua casa da Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. Joo do Monte. VIII A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fra o antigo oratorio dos Condes da Feira; e a residencia, j depois duas vezes transformada, albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fros, e lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como j tocmos, das Limeiras. Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto, havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardo, do Bispado de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia da que ao presente , d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente agora freguezia de Agado, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida, casa, e quinta, com largas rendas e fros para a sustentao de Parochia sobre si. N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus amigos algum tempo do anno na montaria dos javals, que a espessura das moitas ento creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra edade. IX Explormos as convisinhanas do templo e residencia. Estendmos agora os olhos at s fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico senhorio. * * * * * D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar das Maadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. Joo Baptista, e sua fonte muito fresca. Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde as ultimas guerras lhe ficou at hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua abenoada confederao de rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem. A tres quartos de legua para nor-nordeste, d-se com a humilde pvoa de Falgarinho, de no mais que oito visinhos. Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se, n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres pessoas. Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores, e a pequena distancia, se d de improviso com a vistosa e agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora do Livramento. Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. Joo do Monte, que a seus ps corre, est em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja. Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a meio quarto de legua est para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceio. Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observao. Para o nascente, descendo at Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. Joo do Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome arabe, que significa o salto) nome que para ali est, ha mais de setecentos annos, soando em bocca de christos sem renegar a sua origem, nem se corromper. Para a esquerda do S. Joo do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memoria, bero de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de saras e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para nordeste. Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que toma este nome na junco dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que j sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomra a apanhar fresca. Subindo um pouco espao a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva at ao casal do Fonto, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeo de Santa-Cruz, a quarto e meio de legua para ns. Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoao de Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de orao o que sua altura melhor convinha: Santa-Cruz. Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agado por outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo est o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus pomares de caroo e de espinho, com a annosa matta de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo, com ter dado luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle rebanho. Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de se terem abraado os dois afluentes Agado e S. Mamede. Subindo-se at ao vizo, est o logar da Redonda, de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar borda de um leito semi-circular. * * * * * Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontaes externas. Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Prstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agado, filial, ou annexa, que anda ento era, de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu no cheguei a descobrir. X O territorio de S. Mamede o extremo occidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer abobada, ou montanha boleada feio d'ella. Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quizera eu dizer, conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de to visinho, recearia apoucar-lhe a veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas noticias que d'elle tive. Em summa: uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas opma em homens e mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; um paiz de selvagens christos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede esto, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios poderia estar a antiga Attica. * * * * * Dois monumentos accrescentam venerao ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas s grandiosas moles naturaes. N'um dos seus cabeos mais alterosos foi erguido, nos principios d'este seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para qu, no dizem; mas dizem que por um engenheiro francez; raso por que, os povos da circumvisinhana, por occasio da guerra peninsular, commetteram demolil-o; mas s lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em p, e s accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa. O outro monumento no menos enigmatico, e deve estar farto de ver passar seculos e desfazer-se geraes. N'uma arremeada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de Pedra de Arca. uma desconforme loisa inteiria, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje s tres, havendo sido um arrancado para as obras da visinha egreja. Tem esta lgea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, s da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que est para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada. Com que possantes machinas, por que mos, em que eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres? Sera obra de fortificao n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrcola, industrial, ou civil, nem a imaginao mais inventiva lh'o rastreia. Memoria de algum varo ou feito insigne, j a poderia ser. Mas ento, a que rudes tempos a no havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tsca, nem vestigio algum de arte nem de architectura, mas s uma bruta mechanica, ali se admira! Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais, quando se adverte na semelhana que tem com os altares druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania. Verdade , que por estas nossas terras no rezam as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e perseguies, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas) no muito discreparia talvez a religio do Endovlico lusitano. Este ponto, porm, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus affectos. XI Nada concita aos logares venerao, como a antiguidade. Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para alm de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, no rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra. Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve memoraveis edificios, se vares insignes pisaram aquellas terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradies o denunciam. O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas. S ao sudoeste de Falgozelhe, j fra da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra direita do caminho indo para Agueda, se v uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes torrinhas, s duram hoje em dia os alicerces, e algumas pores deseguaes de muros esboroados a delir-se. E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se d em uma furna chamada a buraca da cerejeirinha, aberta a pico em rocha viva; a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna geral fama que fra aberta pelos Moiros. * * * * * Em tempos de mais abuso do que estes nossos, acreditou se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S. Joo, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados. N'esses seculos, entendido est que o terror lhe velava a estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir l dentro. Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente j no ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua visinhana; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo. A opinio dos modernos tem, que fra aquella mina aberta, pelos Moiros sim, mas no para tirar oiro, que sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que sempre a segunda, se no s, e prosaicamente, busca de agua, que em verdade de l mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia. * * * * * Sobre as fortificaes engenha cada um a sua hypthese. Ha quem as supponha posteriores inveno da artilharia, por se lhe figurar que s a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros as attribua, fundado em que, posto no ficassem d'elles por ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que elles por l viveram. E se por l nasceram e se crearam, no podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos, que esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais energico. * * * * * Falgozelhe, em verdade se cr ter sido d'elles povoada, posto que o seu nome, se christo no (como de certo no ), tambem por arabe se no reconhece. Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga? Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que podemos ficar por mais que verosimil que, por toda aquella serrana regio, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era j ento como hoje, que no dava meios nem licena para grandes obras. Pequenas pvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra po com que se manterem; quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos! Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar d'estes, se acalentaram creanas com versos do Alcoro. Outras arvores, de que estas so remota descendencia, viram passar sombra das suas copas esvoaadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua. Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer to amados de meus leitores, como de mim o so e sero sempre. * * * * * No digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda antigos. As novidades das civilisaes so como a escravido, e os diluvios: tarde chegam a engulir as serras. A Linguagem ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela conversao corrente d'aquellas aldeias e pvoas se poderia restaurar. Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocbulos, phraseado, e construco, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de ssta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa. Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como o _nanja_ o _bof_, o _cant_, o _qui_, e mil outros, sam por l sem extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria. Com a honesta herana da Linguagem, veio dos avs aos netos a das crenas e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abuses. So os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da F. Abenoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou cerceal-a pelo p. O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. No ha curas nem reformaes mais prudentes e certas do que as suas, quando fora lh'as no ajudam ou contrariam. Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de apparies, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mr parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitios, bruxarias, adivinhaes, e virtudes de certas praticas e frmulas, para curar ou empecer. Estas abuses, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, do comtudo sua cr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia. * * * * * Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, so por ora totalmente incognitos na serra. A moda no exerce por l as suas costumadas devastaes de cabedaes, bons costumes, e saude. Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal renova as suas folhas e flores. Os homens vestem de burel, ou saragoa caseira, creada s costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mes, mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o ) sem sahir da freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordo ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados. As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sia de burel de meio pizo, cr de pinho ou preta, collete comprido justo, sem aprto, e mandil; isto , obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pizo, que lhes serve de capa, lanado ao desgarre por sobre os hombros. A cabea, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas so menos grosseiras. O leno de seda ao pescoo , como as arrecadas e o cordo de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros. So luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, pem gorjetes de fil, ou lenos de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos. XII A educao apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo ingrato, s pe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o afferro justia e verdade, os differentes amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o respeito velhice e ao infortunio. As polidezes requintadas do trato so lhes desconhecidas. Esses discursos de cortezos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-hiam compaixo. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o pensam. Das artes de seduzir, no cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mes, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambio. Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em saraus esplendidos. No falam extranhas Linguas, como ns, mas falam a nossa, que melhor. Fora da casa de algum Ecclesiastico, no se desencantaria um s livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar. A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o corao bem nascido dar gosto. A _merc_ e o _vs_ de nossos maiores so tratamentos para os raros casos em que no cabe o _tu_. Os logarejos so todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao sero ou meza do mais rico; isto , do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirasinha do indigente que a no pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, l para o vero, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, so mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia. um povo agricola, que ainda no aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz lavrador, e trabalhador, como em Londres fabricante, ou lord, em Roma cardeal, ou monsenhor, em Paris sabio, ou homem de Letras, e em Lisboa deputado, ou millionario. As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podo, com o seu paquife de pmpanos e espigas, e a letra _Ut operaretur terram, de qua sumptus_. * * * * * Que impresso, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de amor, me no fez o presenciar, como, ao revz da pragmatica das cidades, o trabalho das mos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!! Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubo para a sua fazenda, ou levar do enxado na roa dos mattos entre os seus operarios. A estes, que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a no ser a admirao dos historiadores? * * * * * As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens no poderiam deixar de ser mais varons do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas. Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lanadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vo formando semelhante precedente a gerao seguinte, s so passatempos do sero, luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mos. Na vindima, carregam cabea cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam cabea montanhas de espigas, to leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bemaventurana para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos roadores, vel-as-heis brandindo um alvio no mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho. No ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo no sangue a saude, que do sangue se ca ao leite, e do leite aos filhos. Seriam as amasonas da paz, se no tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os homens seus eguaes as no acompanhassem em todas as lidas. * * * * * Uma usana patriarchal, ou homrica, d'este paiz, que moralmente parece distar do nosso duas mil lguas, a sujeio da mulher; facto que eu no moraliso, mas s historio. As mais graves, tanto como as mais somenos, no s laia das Penlopes e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio at meia-perna; no s no trfego de porta a dentro, na cosinha para a familia e para os animaes domesticos; mas no se correm nem desdenham de ministrar de p, como servas, meza de seus maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. So sempre aquillo: sempre passivas, boas, e contentes. XIII Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecero j minuciosas e pueris estas noticias; mas hei-de j agora continual-as, e seja com vnia sua. A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns annos, quando o nivel da civilisao tiver tambem renteado as asperezas das serras, alguem festejar encontrar estas antigualhas, nas folhas j por ventura rtas e descosidas d'este livro. Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar j hoje ao commum da nossa gente; mas ento ho-de ser antigualhas fosseis, e portanto com venerao duplicada venerandas. * * * * * A indole da gente de si commedida e pacifica. De todo o genero de vicios e desconcertos se podero entre ella achar amostras, que emfim, terra , e no paraiso; mas nem tantas proporcionalmente, nem to feias e monstruosas em geral, como em outras partes, e em quasi todas. Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico; ninguem to abastado, que possa eximir-se de trabalhar contnuo, para se despender em vida de enredos, corrupo e maleficios; nem to extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o despeito, o despenhem de salto em salto at ao fundo da depravao. o _inter utrumque_, a _aurea mediocritas_. Conservam inteira a F religiosa. No lem, nem conhecem, nem levariam paciencia, jornaes que desorientam, desencantam, e pem o genero humano em guerra viva comsigo mesmo. E muito menos lem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda novella, toda sophismadora de tudo, toda florda e venenosa, que por c nos trabalha, e de cujos herpes adoecem at as familias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta. Por l, no; o mal que se fizer, ha-de s provir da fragilidade, ou dos impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na consciencia remordimentos. Uma apologia, uma deificaco para cada crime, nem possivel a julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se conchava. D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais, resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e innocencia, quanta a que lhes ns levamos em polidez, em graas exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores ponhmos o exemplo: * * * * * Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade: tendem unio, de que se originam as familias, e por onde a especie se mantm. Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e alm do ocio lhes fallecem tambem sobejides de cabedaes, que estimulam e irritam as phantasias, para o casamento se namoram, e no por alardo; para goso do corao, e no da vaidade. Pem no merecer as diligencias que outros pem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no repellir e despresar depois de saciados. No vivem os sexos n'uma guerra perptua de seduces, de emboscadas, enganando-se e sacrificando-se um ao outro. A mulher no lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou no vo de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho, meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali que as mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o so sem disfarces nem encarecimentos; so-n-o pelas suas proprias graas, pois nem modistas, nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem lisonjeiros, nem romances, as transformaram. So-n-o pelo que so, e no pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada. Palacios, creadagem, diamantes, no lhes vo l supprir lindezas do corpo, graas do animo, ou preciosidades do corao. No entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasio, do medo ao ridiculo, e da audacia emprehendedora, no ao abrigo do estrondo e confuso de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras declaraes; ao sero, com a sua roca na cinta, na presena de suas mes; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e amigas, em derredor da merenda, sombra das carvalheiras. So amores que se no escondem, porque no teem de qu; amores que se exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada capella do festejo, ao som folgaso da _Mirontella_ roncada pela gaita de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial. No progresso de taes inclinaes sabedora e consentidora toda a visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e cahirem em infieis. Ao consorcio da Egreja, antecede o dos coraes, no menos obrigado a lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de vstia commetteria galantear a conhecida por _emprgo_ de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe surtiria o empenho, seno s motejos e descredito. D'este modo se estende s vezes por annos, com uma constancia verdadeiramente biblica, at ao dia da posse, o bem-querer d'estes Jacobs e d'estas Rachis. Quantas Lisboetas de sarus, se quizerem ser sinceras, ho de confessar que a escolha que n'um baile fizeram... s durou at que veio o baile seguinte! Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas que Deus lhes dra no ouviam dois ao mesmo tempo) se poderia contar, perguntando sua modista franceza quantos vestidos novos lhes havia feito! No assim l. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pr cabea a gavella das espigas, essa continuar a fazer o mesmo na colheita d'este anno; continual-o-ha na dos futuros, at que, tornada sua mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos contados, o seu gosto. Observao to curiosa como verdadeira: Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a ss, que a variedade dos servios rusticos to a miudo lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solido selvtica e pelo silencio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de Enas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bdas, e as nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade como a de Dido por phenmeno se apontam; e annos e annos se devolvem, sem que um s se realise. Quando porm se d, e vem a lume filho no de beno, o peccado de amor no se carrega de crueldade. O innocente no se faz victima expiatoria dos culpados, perdendo a vida entre as mos de quem lh'a deu; horror nefandssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro; nem to pouco enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, porta l ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em lagrimas s lagrimas dos filhinhos sem me, nascidos em signo de rigor para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se finarem sem heranas, nem lamentos, nem memorias. No, no. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a faria corar, que a tcita confisso da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemo o seu cadaver do palmito, symbolo psthumo do feminil triumpho; tudo ousa; tudo... como lhe fique para consolao da sua queda o encanto ineffavel de apertar nos braos o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante, a desamparasse, tudo tudo esquecra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De no ser donzella, nem esposa, harto a compensa a consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade. Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude, produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi em lustre a virgindade, so poucas; so rarissimas; custar-nos-hia a encontrar uma. Quando porm a desencantasseis, lembrando vos do que sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiserao e respeito vos infundira. * * * * * Casas de perdio para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e at j por villas e aldeias vo surdindo, no se conhecem l, nem se podero to cedo conhecer. Como leprosa seria evitada, e pereceria mingua, e de vergonha, a que se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, so victimas das victimas que ellas sacrificam. Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casaes. XIV Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve de sepulcro, mas no l; falemos do casamento. * * * * * Os casamentos no so nunca determinados por consideraes de haveres ou de jerarchia. O clculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As palavras _dote_ e _escrituras_ apenas seriam entendidas. Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e economia, a ajuntar para _uma cama de roupa_, uma teia de estpa, outra de linho, uma pea de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bcoro, seis alqueires de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor. O noivo d sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia grande. Mal que este desponta, v j de p os dois afortunados, garridos e bizarros com o seu _aceio_ dos domingos: ella, sobretudo, flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordes, e alfinetes sobre leno de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites. As que para tanto no teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu _melhorado_, convencidas como esto (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da beno matrimonial poder vir apegada aos diches e galas que figuraram no apertar das mos. Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avs, se preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo flordo tem mais efficcia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro (suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem liados entre si, e recobertos com alguns armos de linho e lan; no que, vai grande condo de conformidade de animos, perfeio de ajuntamento, e dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, no faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio. O pretendente, com os seus apaniguados, espera j porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da me; e segue com o rancho, a p, caminho da egreja, levando s costas as benos do pae, em que ainda por l se cr, a turbao no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom agoiro, recitadas com f por alguma velha mais sabida. ...................................................................... A egreja est j sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada atiada. A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do sacramento, ou improvisa apz ellas um affectuoso discurso sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo no interrompido com preges de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins. Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca. O que unicamente chega l de fra, o chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rla na matta de S. Sebastio, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiosos no trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da prognie de Ado. No sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e muito mais formosa beno. * * * * * um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus no ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um s nome, como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel. um dia, sem duvida, para quem bem o pondra, solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indelveis e suaves tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentaes podesse acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades. Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congries de obras humanas encobriam as maravilhas da Mo Divina, onde com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias naturaes com as viraes, quem, repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o no diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem ali, em to donoso tabernculo, a bafejar a priso de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher... * * * * * Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroados, e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, comeando logo no adro, de praso a praso, por toda a extenso do caminho at casa, arcos, engenhados pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte. Ao-p de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, esto, postos de antemo pelos muchachinhos que formam a primeira frente do prstito triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sccos para quem os quizer tomar; outro vazio, para a gratificao voluntaria, que ninguem deixa de lhe lanar. Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada; foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem concertadas que podem, um moa, outro ao mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e junto salva dos ramalhetes se v um abundante refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe obrigado s filhs de mel. Em cada uma d'estas _estaes_ chove de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se sade dos bem empregados e de quem d'ahi a nove mezes ha-de vir. * * * * * O jantar d'este dia copioso e demorado, com tantos convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades prestes para quem se quizer apresentar. Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse o desposado (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar da direita se lhe d a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes primitivas. N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e com um s talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, no obstante fazer durar a refeio dobrado tempo, no deixava de ter graa pelo seu bonissimo sentido, que no podia ser outro seno representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver. * * * * * noite ha saru rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos, dando se a rdo comer e beber aos tangedores. Em quanto danam, algumas moas donzellas se furtam subtilmente companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre os lenoes rosas de cheiro (se a estao as d), e guarnecer a roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos. Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita da quinta que meia-noite, ha j muito que os obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo suavissimas, apz um dia todo por fora e por dentro to festejado e to revlto..... XV O nascer de cada filho uma festa. Como teem robusta f na Providencia, crem (e mostra a experiencia que se no enganam), crem e repetem, que filhos ainda em casa pobre so riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que o Pae commum, a lhes acudir com mais larga mo; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao p de si, se no ha-de fazer mais escaa, se no medrar proporo de to bons hspedes. E em verdade: se a descendencia nas cidades tantas vezes um onus, um sorvedoiro, e um terror; se to commummente se ouvem mes e paes deploral-a como castigo e praga; l na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade, l na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os consumidores so productores; l, onde s so necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes so os mestres, o exemplo lio, a laboriosidade e sobriedade herana; ninguem se atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua prognie. L os filhos so rebentes, que alegram, remoam, e espcaro a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra. * * * * * Vinda a lume a creanca, entre um cro de mulheres experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se j prompta a canastra que lhe ha-de servir de bero. Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, escrupulosamente velada, para que no venham bruxas malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantm de sol a sol candeia bem experta; e ao claro d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em p para que as no tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as amigas da casa. Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vo entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do p embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasio, diz-se que tambem provam muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas. * * * * * No sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenas a graa, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-f, que lhes eu sinto. Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e to christan como ella , praticam o mesmo que os legionrios romanos provavelmente ensinaram a nossas avs ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mes e mulheres! Cuidar que estamos vendo, com pequena degenerao, o que o mais rico poeta da Antiguidade se deliciou em cantar das crenas da sua gente! E se no, oimol-o, e julgareis: Negreja ao rz do Tibre annoso Helerno, santo bosque, onde levam sacrificios inda agora os Pontfices romanos. Ali nasceu outr'ora, ali vivia a que nossos avs chamavam Grane, casta Nympha, de excelsos pretensores pedida vezes mil e em vo pedida. Era seu exercicio errar nos campos, as feras perseguir com dardo agudo, e as redes emboscar nos fundos valles. Inda que aljava ao lado no trouxesse, criam-n-a irman de Phebo; o parentesco no poderia, Phebo, envergonhar-te. Quando algum namorado a requestava, tinha prompta a resposta.--Aqui,--dizia-- ha nmia luz, e a luz dobra a vergonha... Se preferes entrar n'aquella gruta, sigo-te.-- gruta o crdulo voava; ella torcia o passo, ia carreira das moitas na espessura homisiar-se; d'ali desencantal-a era impossivel. Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido; combateu lhe o rigor com brandos rogos, e a slita resposta obteve em prmio: que entrasse alm na gruta. Obedeceu-lhe; segue-o a principio a Nympha... eis pra... eis foge. O que lhe fica apz v Jano. louca, no usado esconderijo em vo confias; olha como t'o observa, e t'o devassa. No ha que resistir-lhe... eis-te em seus braos; eil-o comtigo a ss na cava penha, onde havias buscado o teu refugio. Saciados os sffregos desejos, --Em paga d'este goso--exclama o Nume-- dos qucios a tutella eu te confio; pela honra perdida esta conserva. Assim falando, candida varinha lhe entrega, com que os ttricos asares das protegidas portas afugente. Existem de brutal voracidade umas infames aves; no j essas que de Phineu a meza espoliavam, mas da mesma rel: cabea grande, fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas, garra adunca; esvoaam pela noite; onde encontram creana ao desamparo, que a ama deixou s, prestes a emplgam, arrancam-n-a do bero, e a dilaceram. Diz que as lactentes vsceras co'os rstros lhes picam, lhes devoram; teem as fauces sempre repletas de sorvido sangue. Do _estridor_ com que as trevas alvortam, lhes vem o nome: _estriges_ se nomeiam. Estas pois, quer de si nascessem aves, quer em aves, de velhas que antes foram, fatal conjuro marso as encantasse, penetraram de Proca no aposento. Com cinco soes de edade, o innocentinho era ao bando ferino egregio pasto. J co'as gulosas linguas ferem, sugam o tenro peito nu; sam do infante os consternados trmulos vagidos, com que, falta de voz, auxilio pede. Corre a ama assustada; acha nas faces do caro alumno seu lavado em sangue das brutas garras os crueis vestigios. Que far? v-lhe o rosto exangue, murcho, que na cr arremeda as tardas folhas j do rgido inverno bafejadas. Corre a Grane; o successo lhe relata. --Cobra valor--a Nympha lhe responde;-- viver teu alumno. Entrada ao bero, acha a me, acha o pae, sltos em pranto. --Eis-me; enxugae as lgrimas--exclama;-- vou tornar-vol-o so. Diz, e tres vezes de medronheiro com frondosa vara fere da estancia as portas; outras tantas co'a mesma vara o limiar sinla; rega o dito; as aguas com que o rega encerram salutifera mistura. Entranhas cruas de bimestre porca toma nas mos, e diz: --Aves da noite, -vos, deixae as puers entranhas. N'esta pequena victima tenrinha o tenro pequenino aqui resgato; corao por corao; tomae-o; por visceras so visceras; redima esta existencia immunda outra mais nobre. Finda a sacra oblao, corta o deventre, e esmiunado o vai pr aos ares livres, prohibindo do rito s testemunhas olhal-a ento ninguem; por fim colloca a vara de oxiacanta, o don de Jano, na janellinha que d luz ao quarto. Consta que desde ento no mais volveram ao bero aves ruins; saude, cores, tudo refloresceu no innocentinho.[3] * * * * * O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois cvados de bata encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe, conforme o dia em que acerta. A madrinha d um vestido, duas camisas, e uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu brio. Este dia quasi to festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre a beno que no primeiro dia se recebra, e est salvo o interessante pimplho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado. XVI Alm d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado, cada povoao celbra a sua, pblica, no dia do Orago da sua capella. Tem fogo do ar e salva de morteiros Missa cantada; banqueteiam-se uns aos outros; e, se o anno correu prspero, e as posses o consentem, andam j desde a vespera tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o tambor, e despova-se a visinhana com o chamariz do fogo de vistas nomeado de _armao_, ou _parreira_. Por esta occasio, nas casas principaes, isto , nas menos apertadas, saltam-se at a meia-noite as danas, pela mr parte cantadas, do bom Portugal velho; danas, das quaes, para fra d'aquelle vivente archivo de antiguidades, nem j, quasi, os nomes se conservam. So o _caracol_, o _Senhor da serra_, o _lund_, ou _landum_, o _escalhabardo_, a _ribaldeira_, o _Francisco bandalho_, etc. A excitao do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos rapazes, fazem s vezes com que ahi appaream, como nas romarias, como nos seres dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e porfia, por espao de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola. * * * * * Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos. Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, esto em p, um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se ambos servem, sempre das mais populares, e vai toda remanada, para que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. s vezes, por desgarre ou desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamao accentuada. O seu verso o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos, correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto : usam das quadras correntes em todo o Reino. Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme lhes convm. Principiam ( obrigado) por uma especie de elogio, ou vnia, ao dono da casa, se em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se em terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios amores; e d'ahi, muitas vezes sem transio, saltam para um genero entre elles muito saboroso, que se poder chamar o rustico fescenino, se, de envlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham, como os dois pastores virgilianos, com surriadas de improprios sempre ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos coraes. Com a mesma feio com que dizem, com a mesma ouvem; e to avindos saem da contenda, como n'ella entraram. Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por mostrarem assim que no vinham aparelhados para o duello, e que tudo quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo. * * * * * Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes porfias, e em geral a todo o cantar aldeo; e : que a primeira metade de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do sentido da segunda metade. Os primeiros dois versos conteem uma sentena geral, uma verdade vulgar, uma imagem campestre, a exposio succinta de qualquer facto, mas sem relao alguma com o assumpto que se versa, o qual s nos dois versos ultimos apparece. Vo exemplos, visto no estar em academia, mas em pratica de amigos com meus leitores: O loireiro bate bate, que eu bem o sinto bater. Para comigo cantares has-de tornar a nascer. couve se come a folha; come-se a raiz ao nabo. S te espero ver casado sendo mulher o diabo. Navio d'el-Rei grande, grande e chega ao Brazil. Se namorares alguma, no seja luz do candil. Sequido cria o centeio, frescura cria os repolhos. Quem me estrera comtigo, menina, os lenoes de folhos! J se v, por estas amostras, que a improvisao no to difficil coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns viajantes, d'estes que s viajam no seu quarto, embarcados na sua poltrona. por c o mesmo, que provavelmente ser por toda a parte, sem exceptuar a Italia, com que tanta bulha se nos faz. _Al porto di Livorno giunto un bastimento. Cara, morir mi sento! mi sento, o Dio, mancar!_ XVII Muito, porm, se enganra, quem inferisse que toda a poesia dos meus serranos de egual teor; porque, sobre conservarem muita xcara de bons tempos, com as suas lacrimosas cantilenas to singelas, to simplices e aprasiveis como ellas (o que j no seria pequeno cabedal), cantam, e s vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso affecto e graa natural, que um poeta de nome no enjeitaria. E que muito? Por que no haviam de nascer estros por ali, onde ha tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, to bons ocios na solido, tantos amores (e amores to bem empregados!), e to largos horizontes para a saudade! Por que no haviam elles de nascer, quando at pelas nossas encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viam, e no raro florejam, talentos de estimao e de valia? Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas coisas lhes empecem (no falando no desamor que os esfria, e nas parvoas invejas que os matam); aos montanhezes, afra a Natureza, que lhes abunda, tudo mais lhe minga. So poetas, sem adivinharem que ha poesia, como de Hesodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as Musas, no invocadas, para o bemfadarem. * * * * * Oh! Que de Hesodos se no esperdiam, e, por falta de um prodigio que os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos! ...................................................................... De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de vero muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da capella de S. Sebastio; ella ali perto, cantando e fiando em p sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como bem se pode crer, enfeitiados com a placidez de to livres horas em logares to fugidos, to sobranceiros ao mundo todo! De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos corados, no da memoria se no do espirito; e o espirito d'ella, estava-se conhecendo que lhe residia no corao, to bem, to bem, tanto a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameao de frio mataria. No sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras de poesia seno as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias; ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanas, os seus rafeiros, toda a sua orchestra to bem temperada para a alma; de noite os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado. Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, no ha encarecer o que ella improvisava para as suas ovelhas, que a no entendiam; para mim, que me occultava com mil cuidados para no afugentar to melodiosa ave; e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se ao-p da sua. Era a inspirao lyrica mais formosa, se no a mais remontada. Eram os objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras destillando-se cada uma da sua ideia com a propria cr, com a propria fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e s a Natureza pode dar aos seus mimosos ...................................................................... Pobre mocinha! Dezasseis primaveras!... At j as suas ovelhas se esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. No deixou mais vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas. Se ainda canta... j no a terra quem a ouve. Remontou o vo muito mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre seus irmos, entretece a sua voz immortal no cantico sem limite ...................................................................... XVIII Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem meno da sua Musica. esta quasi toda antiga; antiquissima podramos dizer de muita; e conserva puro e extrme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente orculo para consultarem os modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para c a peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa creao. Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hspeda, no se diga que aposentmos nos stos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer vasquinha e falar cho. Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; faam-n-o at (se j no pode ser por menos), faam-n-o a frouxo e a granel por essas comedias e faras, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra (_al de menos por cortezia_, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, l se ficam algures no corao, com quanto basta de vida para ressurgirem ao primeiro aceno. Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e arbustos exticos da mais admiravel louania; mostre-nos l, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da sera, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais nos ho-de conversar com o corao um s minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera. Se vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez n'esses theatros, por ahi, me esto lembrando com saudades os descantes da serra. Uma ria opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos ps, a sumir os seus pncaros flordos e trmulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e esqueo-a. Abalou-me tudo, a fora o corao. Porm certas cantigas que eu sei... no as applaudi, no as admirei quando as ouvi, mas senti-as repassar-me at s fibras intimas; assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do silencio. Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares, da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter encontrado. E tambem, que melodiosas, que engraadas no so algumas, at para orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde! * * * * * Oh! se a penna fra varinha de condo! Se, em vez de vos falar do que por vocbulos se no exprime, podesse apresentar-vos l de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e contentamento! Comigo ficreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mos pertas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito. O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solides, edificaria como Amphio novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua lyra penedias e florestas. Mover-se-ha algum a tental-o? mover a final. Mas por ora, o thermmetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero. Para a Poesia nacional antiga e popular j alguns olhos se teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; mas quando? sabe-o Elle. Dos que por ahi a professam, nenhum d visos de querer levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em alguns d'elles. Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta cora grangera. Que digo custo? Onde ha ahi delicia como o viajar caador de Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se farta com agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto dos thesoiros que se tomam? * * * * * Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus espaosos ermos, e que lhe dava uma particular feio de melancolia mui suave, era a extenso das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a perder de flego. donosa coisa; mrmente pela noite, e ao longe... A explicao d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a ss por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospde. Outras vezes ao-p de estrpito de aguas, que a afogariam a lhe faltar perseverana. Outras, em paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando. * * * * * De cabeo para cabeo, bem arredados um do outro por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e, graas a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mo por mo, e muito manas, soalheira no seu aido. Sustentam-se estas entoadas conversaes, em prosa inteiramente desatada de rithmo, e no obstante rimada, rimada por um modo to inslito como facil. Exemplo: Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha: -- ia, eu te digo Maria, iga, que se tu s minha amiga, , botes as cabras para c, enda para me ajudares a comer a merenda, eijo, que tenho aqui bra e queijo, as, e umas maans muito bas. E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mo no colloquio por ter chegado a sua vez. XIX Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica. Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas. * * * * * As geraes mais notaveis (pois at agora s vimos as de cada familia e as de cada aldeia) so: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. Joo, e o Natal. * * * * * O Anno-bom no ao presente seno um rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora. As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, j l vo. Consistiam (archivemos, archivemos, pois que at as serras ao cabo se desmemoram) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada povoao, todos em bando, o mais bem arreados que podiam, com suas saclas, ou alcfas, s costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, at se lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores bizarria do pae ou me de familias, e desfechando sempre em requerer alguma chouria, gallinha, ou po branco, para a ajuda do _refestllo_; contribuio com fora de Lei, mas de que todos se desempenhavam boa-mente. * * * * * O Carnaval, como ainda ns por aqui o conhecemos nos seus dias aureos, trduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra todos. So as pulhas, as peas, os esguichos, os ps, a laranja .....que derruba o chapeo, de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava l em Pars, o rabo-leva de tripas entufadas, a mo de ferrugem da chamin com azeite pelos fucinhos, as estpas apegadas s costas e incendidas, o vinho com sal, as filhs com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual classico se conteem. Por qualquer parte que ento se caminhe, ainda que se no veja povoa nem viva alma, duas coisas se ho-de ouvir infallivelmente: uma rir e apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra so descargas de espingardaria. Ninguem tem caadeira velha em termos de dar fogo, que no saia com ella a salvar. N'esta occasio (no sei por qu) o rio de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas naes inimigas; a metade cterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios, para l lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhes de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os ps; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes troves centuplicados... O Entrudo brio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho, visitando as povoaes, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com squito de rapaza a abuzinar, e de mascarados saltes, satyricos, e brutescos, bem poder ser o prprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras, pois no necessaria grande perspiccia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era folgado). As pastoras, que no podem deixar por tres dias o gado nos reds e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nmada e silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam o seu grdo. O _grdo_, para o qual de tempos se andam aparelhando, feito por varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem alguns moos seus parentes. Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um grdo; e ainda agora me est sabendo. Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestbulo de areia parda e fina, borda da agua. Nympharum domus..... no lhes faltando os competentes .....vivo sedilia saxo. O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite recem-mugido. Terminaram com uma dana no areal, por no haver melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando j l por cima branquejavam estrellas. A fogueira servial l ficou sosinha, remirando-se ainda na corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as levaria. Innocentes leviandades so todas estas, e, mais ou menos, parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas, uma usana ha ali, que s ali ha, e que eu aponto, no s porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se no porque dar luz para se entender o poema que a diante vai, com o titulo de _Domingo gordo dos montanhezes_. N'este dia, pois, logo de manhan, acodem matta de S. Sebastio, que j sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moos solteiros da freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o qu, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que j para isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas terras a folgar. Nem o introductor, nem o tempo da introduco d'esta pratica, so j hoje conhecidos. uma tradio piedosa, uma lei moral, sem nenhum genero de comminao, mas to risca obedecida, como se as tivera. , mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo de desinteresse; pois na plantao quem s ganha a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos. Se de S. Gonalo ou Santo Antonio fra a capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de boa-mo para casamentos, ainda se aventaria um motivo pessoal para o obsequio; mas S. Sebastio, que s da peste advogado!... Seja o que fr: o amavel instituto persevra, e oxal dure sempre! e oxal por muitas partes o imitassem! * * * * * Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de ns outros, bastam duas consideraes: a d'elles festa do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o , nem do espirito. Digo que do espirito a sua, porque a F viva lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo tambem, porque o brodio paschal, opparo, rescendente, de viandas succulentas e escolhidas, lhes d mate longa e bem jejuada quarentena. Move suavemente os coraes acompanhar a procisso, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras j revestidas, atravessa o passal por entre as alas das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastio, e se espairece ao longe, como uma piedosa exultao, por entre os mattos rejuvenescentes. O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pz por fora todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entam canticos, como os homens, as mulheres, e as creanas. A aleluia ressa em toda a parte; lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os coraes ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo. Oh! que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! Oh! que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um carto alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada. Recolhida a procisso, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar de as pr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas; crepta o lume na cosinha revlta; idia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais no seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da familia falta porta para receber a asperso de agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da beno: Paz a esta casa, e a todos que n'ella moram. Tal visitao, que (j se v) se no conclue no primeiro, nem muitas vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; no pela moeda de prata, de meio tosto ou seis vintens, recebida em cada fogo; no pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho. * * * * * No 1.^o de Maio pem, entrada das habitaes, _maias_, que so ramos de sabugueiro e giestas flordas; e nos linhares, rocas com seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a terra e a casa: a terra, para que d linho comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha prspera. Quem no v n'estas maias outra degenerada herana dos nossos antigos senhoreadores? No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seus _Lares_, deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos se v ao p d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus _Fastos_ nol-o descreve. Brindavam-n-os com libaes de bom comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, j de flores, e j de lan. Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do seu sangue. Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas. Vieram Lares _viaes_ (dos caminhos), _compitaes_ (das encruzilhadas), _urbanos_ (os padroeiros de cada cidade), _publicos_ (os mantenedores dos publicos edificios), _rusticos_ (os custodios do campo), _hostis_ (os amparadores contra inimigos), _marinhos_ (os guardies dos navios). portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos desatinos e devassides. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a familia; com a familia, os sos costumes da creao. Ainda por cima, fazia resplandecer luzeiros de esperana na cerrao das adversidades; o que d corao e brios para as resistir. Pressupponhmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, alis, podem ser documentos, alm de outros, o nome de _lareira_, geralmente conservado ao lastro da chamin, e o proprio de _lar_, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeiro sobre a fogueira. J cada um inferir que as _maias_ dos meus serranos, festejo que s casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e no podem deixar de ter, aquella origem. Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito christo, ainda mais poetico, chamado das Rogaes ou Ladainhas de Maio. Os lavradores seguem, com as cabeas descobertas, e acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a procisso, que l se vai, humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as benos do Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos no devorem a vinha ou sera; que intempries do ar e trovejados granizos no derribem mortas as benevolas esperanas dos pomares. * * * * * O S. Joo por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos oiteiros, de noite pelos seres. Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que se vo lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, no sem graa), que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos. A medo me rendo tentao urgente de as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes to frescas e juvens das suas cantoras, e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras em pino de vero, trovas taes aqui mal podero parecer-se comsigo mesmas. Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto no haja differena na substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podra differir o seu cadaver. Sem mais precaues, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me esto ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, no as contem; basta que todos elles acertem na cantoria s mil maravilhas. To pouco embiquem na confiana, com que umas rusticasinhas de roca cinta tratam o Santo Precursor. So amores velhos; no ha que lhes dizer. --San-Joo das barbas doiradas, onde foste ter as orvalhadas? --Fui as ter quellas hortas, recordar aquellas cachopas. Recordae, recordae, perguiosas, que da fonte j veem as formosas, com as talhas cheias de cravos, que lh'os deram os seus namorados, com as talhas cheias de flores, que lh'as deram os seus amores. San-Joo, rico cavalleiro, companheiro de Nosso Senhor, acompanhae a minha alma quando d'este mundo fr. --Por que tendes, San-Joo, esses sapatinhos brancos? --Para passear s moas domingos e dias santos. --D'onde vindes, San-Joo, que assim cheirais macella? --Venho da serra da Estrella, de fazer uma capella. --D'onde vindes, San-Joo, pela calma sem chapeo? --Venho beber agua fresca, que faz calor l no ceo. ................................... Basta, basta, que j pressinto ali esquina os aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas mos, do comigo do avsso. Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. noite accendem fogueiras, danam, cantam, namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas. meia noite, quebram ovos para os exprem ao sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias. Vo nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. Joo do Monte, conta do seu nome bento. Sobre a madrugada vo lavar seus gados, e volta colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos, apertando-se nas mos. A agua da fonte da manhan de S. Joo como a primeira que chove em Maio: torna o caro formoso. * * * * * Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo descoberto, no correndo o tempo de invernia. So rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechna e fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira. dia j de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos ento se convidam. Bebe-se, como requer a quadra, que assaz j ento arripiada. Mas... quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para a noite, mais se vo pendendo com scismadora tristeza os animos dos convivas. f que lhes no falta por qu. O dia que apz vem, o dos finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos quantos, com F ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam. E que mais meditabundo que as montanhas! E quem mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a solido, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do corteso bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade! * * * * * Mal soaram as Ave-Marias, comea dobre funebre, que toda a noite no quieta. Pela escurido pasmada se devolvem, a longe, a longe, at se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. Oh! se no se elevaro elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade! Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz bruxuleia de nenhuma fresta, e j nenhuns olhos por ventura se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis cro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da povoao, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si no podem requerer, esmola de oraes, refrigerio para os ardores que l padecem. No ha seio to escudado, que um santo horror o no estremea; egoismo to empedrenido, que sustenha as lagrimas. ...At que o solemne prego transpe e se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja. Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o interior. Estes devotos cantores, que ninguem v, mas que vo de aldeia em aldeia _amentando_ as almas, arrastavam d'antes grilhes aos ps, o que ainda augmentava o pavor do seu prego. Com grilhes ou sem elles, despertadores taes quem entre ns os soffreria? Por l querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como exactores que so de um tributo da outra vida. Desde o romper d'alva no descana a egreja de absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem porfia. Vem o ancio alquebrado, atido ao bordo; o moo em flor de annos; a donzella; os irmos, pequeninos e j orphos, pela mo de sua me; todos graves, cuidosos, taciturnos; todos l por dentro orando; todos anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali assistirem ao incruento Sacrificio. Todos os confessionarios n'este dia esto apinhados, e o semi-festim da vespera quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso. * * * * * Emfim vem o Natal. Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe to em cheio, nem tanto com os animos e coraes se coaduna, de veras crida e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres. Vreis o Prespio de Belem, no j por caprichosas artes remedado, mas em to cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral o. Dissreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vo d'entre as estrellas, de que se cora a montanha, cro de Anjos a dar rebate aos pegureiros com o prego de Gloria e Paz, com a nova de ser nascido o Desejado das gentes. Tanto o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino! Cada qual lhe traz nas mos o seu presente, e o mais valioso dentro n'alma. O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto, a santa Gruta. L no tpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante. O adro v danar as rondas de camponezes roda de um monte de arvores accezas, ao som da gaita e do tamboril. Os sinos doidejam de alvoroo na torre illuminada. Sob o tecto religioso se alternam em dois cros feminis as cantigas da benta noite. Cada um d'estes cros exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que j descobrimos entre os homens, quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso arremdo de combate. a qual dos bandos trar mais formosas quadras para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o corao; e, sem vergonha, se esto sentindo as faces humedecer-se. Por meio d'estes cros, cujos enthusiasmos devotos como que se esto vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braos do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Ento que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhes e frutos sccos. Oh! que invejas para as creanas, que ali pendem ao collo de suas mes! vo-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mosinhas, apz lindezas to guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus olhos to azues, a bocca to amorosa, as faces to coradas como as maans que se lhe offerecem, j a Elle que s cubiam; e s choram, porque o no deixam acompanhal-o. * * * * * Taes so as mais notaveis festas d'esta singela gente. Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a destruir-lh'as com lhe tirarem a F? uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta. * * * * * Assim crem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de humildade, e pela rudez ainda sos, os moradores de S. Mamede da Castanheira do Vouga. XX Que eu por l versejasse, j a ninguem ficar sendo maravilha; antes, sim, a podra ser, que de tal assumpto s tal volume se estillasse; mas as rases d'isso de si mesmas se confessam. J eu disse, que os annos que por l sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jmais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo. Assim, s por desabhorrimento que poetava de longe em longe; isto : poetava por fra, e no papel, que no corao e no animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditaro os que d'isto sabem) no foi a que se escreveu, se no a que deslizou suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e medita. Escrever s para si, no sei que ninguem escreva; trabalho suprfluo, e que, se d fruto, o d ruim, que de pco e descorado nos desconsola. Pois qual , em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr por mos e olhos, no perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graa, ou do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que era seu, e que era elle mesmo em grande parte? Isto dos livros no so seno uns retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos, s podem perceber a totalidade, e conjecturar as circumstancias. O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder, s concepes e aos affectos. * * * * * Outra explicao da exiguidade, e tenuidade (que peor ) do livrinho, est em que a maior e melhor parte dos condes e feitios da montanha, que ora c ao longe me apparecem to inteiros e gentis, ento que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me no faziam os effeitos, que atravz dos vidros da saudade me produzem. Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistr havel-o perdido; que j por isso dizia Rousseau, que nunca to bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha. Onde que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? no meio do outono a desvestir-se. A do vero, que tressa afogueado? no inverno, que tirita e se encanece de geada. A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, no paraiso, para onde todos, todos, nos quizramos tornar? Que bem que o Poeta cantava: Aventurados em summo extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que logram! Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o explica. saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando importunas obrigaes me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto. Pela conversao pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rases para os desprezar, ou para fugil-os. L, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste. L, a benevolencia semente de benevolencia, para dar cento por um. Aqui, gro que sempre degenra, ou no germina, ou brota villans ingratides, que envergonham at a quem as ouve. L, o folgar franco, e as festas so festas. Aqui, o folgar escao e fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados. O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavonear pelo mais corteso e de maior donaire; far-lhe-ho roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua mo, para escarmento a sevandijas e lio a paes que esto creando feras bravas para andarem sltas no povoado, ho-de applaudil-o por medo, apertar lhe a mo dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o expulso de muitas portas. Acobertam-se l e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para maco agazalho nas horas do somno ou da doena, para gala candida dos altares, e a final para curativo de feridas. Ora, que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de to bons servios, poderia vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto , em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a ignorancia ou maldade podrem delirar, em ventilador de descredito e odios, em disseminador de todos os principios de dissoluo, j moral, e j politica?! Pr-lhe ella a sua roca para beno! ella, a boa filha das serras, fmea sincera e verdadeira, corao lavado, animo propenso em tudo para o bem! Pr-lhe ella encamisada e florda a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que to santas maximas e to formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar sementeira o fogo, ou amaldioal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que vale o mesmo. XXI Que de vantagens para o ermo no so todas estas! E no gosal-as, que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido! Sim; mas, torno a dizel-o, em distancia de espao e tempo, e pela contraposio, que se conhecem. E eu malbaratei quasi tudo isso!... ........ munera nondum Intellecta deum!.... Havia de ser agora, depois de to prolixo, de to quebrantador martyrio da experiencia, ..... Oh ubi campi! Como me no agarrra, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro, ao cho da vida facil, innocente, e obscura! Como no borbotra em hymnos o meu jubilo! Como no saudra com lagrimas de gratido a aurora, tornando a encontral-a! Que no palrra com as torrentes! Que noites desveladas sob o pavilho estrellado e vastissimo da montanha! Em vez de rebuscar (como agora me foi forado) para esboar este painel noticias de logares, e at de usos, tudo eu mesmo visitra com devoo de peregrino; tudo revolvra; com tudo me identificra. As saudades, que de l para aqui me esto salteando, d'aqui para l j no atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira sara onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem logo. * * * * * --O abdicar--dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e hortelo de Salona--o abdicar o comeo do viver. Quantos dos que desaprenderam no regao espinhoso da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabia ou um foicinho! Se no ha-de ser inefavel o abdicar muito, e at imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade.... s de o cuidar, tanto namora a phantasia! Se jamais vir tempo de eu poisar em torro meu, debaixo de sombras minhas, a cabea encanecida e regalada! Uma barraca de poucas braas, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio. roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um flego. Mas isto em solido bem solido, onde s os astros me enxergassem, s as estaes me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, seno o vento, j expurgado e esquecido de humanas vozes. Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor. Ahi me reverdecram o corao e mais o espirito, que me elles por c trazem to lastimosamente desfloridos e murchos. Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoador de quanto existe. A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa elia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta s viraes da primavera. Ainda farta me vingra dos tantos annos, que em tarefas ephmeras e sem gloria, posto que no sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na gal da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venra por soberana do Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis. S me no rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio: _Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida de.... Orae por elle_.[4] Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas. Vingra-me (oh! se me vingra!) de to bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviara eu os meus do meu eden. Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem. * * * * * --A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?--dir (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca faltam, escoimadores _ex-officio_ do alheio. --Senhor meu,--lhe respondo eu j:--pois por isso mesmo, de no passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel. Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o. E em l vindo o flordo Maio, ride-vos de pago que brindasse os seus lares com mais f ou egual amor. * * * * * A liberdade!... Onde ha hi liberdade, que nem por longe se parea com a de um viver remanado, em casa sem numero, nem espias, ao som da Natureza, lei da propria inclinao; sem ouvir horas que nos chamem, sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar aces e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprazaro para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que so a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos no vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na meditao, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus, histries, da fara sria d'este mundo? Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concila os homens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que no por estas almotaadas metrpoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre so festas acompanhadas de vinte orgos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este, o _Te Deum_; aquelle, o _De profundis_; um, o _Quomodo cecidit civitas plena populo_; outro, o _Cantemus Domino_; qual, o _Miseremini mei_; qual, o _Ecce sacerdos magnus_. Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de No, quando arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui, pregam-n-a; l a disfrutam. Assim vai tudo. * * * * * E quando no, mettei bem por dentro a mo na consciencia; e, deixado o palavrrio que no sa muito seno por ser vazio (como tambor de folies), dizei-me, ou dizei-o a vs mesmos: Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e no porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praas, e rebolio de vizinhos, pois diante de suas janellas o que s se meneia e conversa so arvores, e por cima do seu tecto no moram seno hervas, que mal ciciam, e s recebem de visitas passarinhos ou borboletas? Quem mais livre? Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos convites. Quem mais livre? Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupaes de todo o dia. Quem mais livre? Entre o trabalhar, que lhe grangeia foras, saude, bons somnos, po, e para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chymras (que tambem as tem como qualquer outro); e este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: no captivar seno os braos; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde. Este _deus in nobis_, unica das divindades campestres em que se pode crer, perguntae se no ser para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escritrios e secretaras; perguntae-o a quasi todos os que remam consciencia o seu remo na gal baloiosa do Estado. Quem mais livre? Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoo, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. No tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; no ha que ciar se de mulher e filhas, que no d a terra operas nem bailes; filhas e mulher roda lhe seram, to satisfeitas como elle. No se levanta ali jogo, que, por tentao ou falso pondonor, o obrigue a pr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. No o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em scco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os no malficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem qu nem para qu, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem no tem com que incite invejas, seguro est de vis praguentos. Quem, finalmente, mais livre? Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre no creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attria. Entretanto lhe vo caladamente amadurecendo os pes para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortalia para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crem de f que os esto seus parentes esperando. Ento, ser, ou no ser, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois no disse eu d'elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que j talvez me hajam de arguir de prolixo, que no deixei na matria udo nem miudo; como se miudos houvera no que so condies de boa ventura! Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao corao de alguns d'estes, que vivem na Crte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, to baldadamente supplicamos fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar corpo, animo, e corao, para se n'ella saborearem, at aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles. * * * * * Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o medicinalissimo _Livro da Solido_ do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e a fazerem venturosos, quanto dado havel-os n'este mundo to instavel, to fugidio, to calabreado de bens e males. O homem na sociedade um instrumento, que se gasta e quebra servindo; na solido um homem. Na sociedade, uma partcula irresistivelmente arrebatada n'um redemoinho; na solido um todo quieto. Puericia, edade de oiro da vida, no torna jamais por onde uma vez passou; mas na solido se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o homem, redimido dos cepos do mundo, e frro das humanas tirannias, se faz em algum modo semelhante creana; readquire o que quer que seja da sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos. Quem se lembraria de pr um barco de cortia (ainda que de seu natural tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? quem o ousaria, mas que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, at s para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricao em torrear palacios. Em quanto d tempo aos passaros para irem picar no cvo das armadilhas que lhes andou dispondo, edifica borda de um arroio uma azenha de dois palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. S no vl-o voltear, respingando aljfares pelos ares, tem entretenimento para horas. Alevanta ao p uns paos nobres, que se encheriam com a familia de um coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animlculos, em que s o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam enlevar. A solido! a solido!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e pregoareis d'ella o que eu me no affoito a encarecer-vos. * * * * * Um s achaque hei-de eu impr boa da solido, gentil namorada de Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser: que, pois nos descalleja o corao, banhado nas suavidades da me Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai, assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando no as podemos extirpar. No ermo ressam mais alto os gemidos, como na calada da noite se do a ouvir mais claras as vozes. Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita, o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos, quizera-se ter mos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o corao, que no tem para dar seno suspiros, no fundo do peito se confrange todo, e se espedaa. Cada uma d'aquellas curas dependeria de to pouco! sera to festejada! tantos effeitos afortunados produziria! deixaria, por cora de beneficios, to sinceros, to duradoiros agradecimentos! * * * * * Numerosas, numerosissimas, so as coisas das cidades, que d'aquellas alturas se no percebem; mas a que menos de todas se percebra o corao metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos, os seus ouvidos que s vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando. Ento sim, que haveria que se lhes invejar. Dr d'alma , na verdade, no poder homem na solido pagar por estes, e por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, l estende os braos valedores at onde lhe dado. Onde no chega a remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendaces poderosas, com as esperanas, com a presena, com a unco da palavra amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas. Assim, se ter sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo trabalhos, e no seio corao. XXII Isto presenciei eu: O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural pejo me veda transladar louvores, que por l se lem em todos os peitos, contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que no pra onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo. Era para ver (se elle no posra tanto em recatal-a) a alacridade, a sffrega alacridade, com que ia levar aqui um po, que se devorava como vida que em realidade era, ali o remedio para a doena; aos mal avindos, a reconciliao; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordo para a seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea, cunhada de uma banda com a effigie do corao, da outra com a da Cruz florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se camba; o affecto fraternal. Ali, sim, que o ser Parocho. Oh officio divinamente instituido, como te ho degenerado annos frios de descrena e desamor! Com que maravilhoso lao no cifravas o que de mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e nas do mundo! O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de eleio, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os exemplos, as ameaas, os anthemas, as absolvies, os confortos, e os jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, sombra d'elle. Entrados vida, encontravamol-o, resplandecente de F, nossa espera diante da fonte da Graa, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos purificar. Arribados edade da raso e dos delirios, tornavamol-o a achar na piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de Apstolo, a foragida paz do interior. No consorcio, eram as suas mos castas as que nos entregavam, com benos d'alma e sincera prophecia, a mo tremente da futura me de nossos filhos. Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em lagrimas, a que levava, como guia segura, o cro de todas as nossas presena do Senhor da Natureza. Em nossas dissenses domesticas, elle o Anjo da concordancia, que primeiro apparecia. Nas nossas qudas, elle o primeiro brao que nos alava. Nas tribulaes, elle o nosso mais previsto conselheiro. Na enfermidade, elle o medico gratuito e no chamado. Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e aterrada o po, o oleo, e o fardel das esperanas para o caminho. Elle o que ainda nos seguia, depois que j todos os outros medicos iam longe, e at nossos paes e nossos filhos nos deixavam ss. Com preces fervorosas nos acompanhava, at que a terra nos submergisse; e ainda ento nos no largava, seno para ir instaurar novas preces por ns sobre os altares. Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua pobreza, sempre paschoas-flordas para grandes e pequenos, s temido dos maus, ainda que tambem d'esses respeitado. Se carecia de prognie, se no tinha uma esposa, elle, que to amenos quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava por irmos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thlamo de oiro a aguardal-o no paraizo, regio que todos os dias entrevia atravz das folhas do seu brevirio; e, se ainda no corao lhe podia alguma ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem se reva; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas festas se remoava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua voz. No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava tambem. Se, perante a ara santa a F via n'elle um representante da Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e sobrehumano. A hora em que elle expirava, hora de consternao e alaridos para todo um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns relampagos de duvidas sobre a justia e a misericordia do ENTE SUPREMO; duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehenso dos seus olhos fechados, j no podia fulminar, mas que a sua presena, mal chegavam a beijar-lhe os ps como a bemaventurado, promptamente desvaneca. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte no era mais que somno; e bem se entendia como, ao cabo de to prolixo, de to zeloso trabalhar, era raso colher descano e premio, como s l em cima os pode haver. * * * * * Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prosprrimas da Christandade. De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas to raro, que a dedo se apontam; e ainda se no ho-de crer, se no frem vistos bem por miudo, e contrasteados bem de espao. De ninguem a culpa, sendo de todos a desgraa. No; de ninguem a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstio; est agora no frio da incredulidade Que lhe ha-de fazer? jazer-se com elle, at que do alto lhe venha o remedio. * * * * * Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de F intrinzeca, nem um phantasma. A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecra, pegou-se d'ella, pelo contacto, primeiro superior, depois infima. Ha doenas que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta. A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada j quer ir convalescendo; j convalesce em muitas partes, se em nenhuma se acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe (segundo todos os symptmas) de se restaurar. Hoje o materialismo especialmente plebeu. Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e descendo manso e manso, a luz, que adelgaasse, que por derradeiro desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo. Mas nem de l baixa, porque por l faz ainda noite, nem se derrama da Imprensa, de que a mean classe representante. O Poder, fingindo _proteger_, apenas _tolera_ os escassos restos da crena. Se alguma vez lhes d considerao, quando se lhe antlha que os poder empregar, por material, para obras politicas a seu modo. A Literatura, ou por especulao de popularidade, ou por extravagancia de muito joven, ou porque o seculo XVIII do Paiz modelo s poude chegar c no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem unica Religio civilisadora, to decepada e desgeitosa se avm, que, por entre as suas expremidas lagrimas de compunco, se lhe est vendo voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo. A sua religiosidade um clculo; grande mal! um clculo transparente; mal ainda muito mais funesto! Reconhece-se que, se de alguma coisa est convencida, no da verdade real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus ouvintes a acreditem. Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e aquea; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e s escuras por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba. Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante o _Christo_ (como lhe ella sempre chama), que a sua cabea ennastrada de loiros no fique, mais ou menos, sobre-sahindo pendida fronte coroada de espinhos. Que poder jamais conseguir para verdadeiras aleluias da F e da Moral, este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo do falso nome de Christianismo prega d'elle uma, ou outra, ou muitas, paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas? Quanto entre si concordavam as inspiraes dos quatro Evangelistas, tanto discrepam uns dos outros (e no raro de si mesmos) os novos evangelhos d'estes missionarios sem misso. prima-vista se averigua que lhes fallece a convico, a coherencia, a logica, e a unidade. Quem se ir apz taes innovadores? Ninguem. Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar s valeriam para acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religio de Jesu-Christo. A F uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a fora, nem o poder da terra tem a minima jurisdico para alterar. Ou a F toda completa, cabal, absoluta, sem um tomo de menos, sem um tomo de mais... ou nenhuma F. Fraccional-a, decompl-a, temperal-a cada um para o seu paladar, pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz desbenzida, revirado com a cabea para a terra, e os calcanhares contra o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e at o atheismo, seria menos descommodo e mais logico dobradamente. * * * * * Em quanto a Literatura assim acode obra de Christo, como o poderia fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, como que a trata a autoridade mundana? Como se fra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabea despojada do diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para no cahir, ao sceptro que a diante lhe caminha. Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco roborava os thronos com a sua beno, permitte, quasi, que os seus inimigos o ludibriem! A blasphemia, que vai picar, verme peonhento, a raiz da arvore da vida, d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as multides pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orar apenas pelo dos crimes leves, e indifferentes ao Estado. * * * * * No ainda tudo. Aos ministros do culto, j de si por ventura tibios, como filhos e herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra j meio derretido, luz do mundo j mortia, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os nas temporalidades odiosas. Repitmol o: no isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. uma calamidade providencial, que l se encaminha para fins certamente gloriosos, que no podemos enxergar. Em Religio, como em Politica, somos ns, enfatuada gerao de hoje, mesquinho adubo n'um cho semeado, que outros ho-de ceifar em vindo a quadra. Chegaro tempos (dil-o o instincto da raso) em que os direitos e os deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome no seja, como pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro vo; em que todas as causas santas e uteis se conheam e respeitem; em que nem a rgia tribu de Jud seja, como outr'ora, apesinhada pela de Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenria, captiva, e escrava da de Jud. Ento quando o lenho scco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de foras, de esperana, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos, ento os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleio, tornaro a assentar ao-p da arca santa a sua tenda humilde e venerada, no opulenta mas dadivosa, tenda pobre e rta, para que pelas aberturas penetrem melhor at ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os olhos d'elle entrevejam as estrellas. Oh! como volvero a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo! Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os. * * * * * O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, no acredita em malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma verdade, que a sua posio d'elles lhes no deixou talvez ainda perceber; verdade importante para applicaes, verdade a cujo escurecimento se pode imputar j muito e muito damno: O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e prosperidade do Estado, a que nenhuma instituio humana poderia confrontar a sua. Nas cidades talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano quasi um pastor sem rebanho; no conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a acabar com a esperana, e logo a caridade tambem; e a final talvez tambem a f, mal se inteirou de que todos seus esforos se haviam sempre de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse vencer o estrpito circumfuso, s serviria para lhe atrahir escrneos e motejos, ou de fanatico, ou de tartufo. Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscnditas sobre tudo, ainda no totalmente assim. entidade abstracta _Parocho_ se conserva, no respeito e benevolencia dos subdtos, um resto da sua antiga majestade, da sua benfica influencia, das suas altissimas prerogativas. Ainda um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem appellao para as consciencias; um censor, no em nome da Lei (como os de Roma), porm em nome, e com delegao, e por inspirao, do Espirito de Verdade, com quem se cr ter commercio no fundo do santuario. Qualquer que seja a sua sciencia, a ella que se recorre como principal. Tal , repito, a entidade _Parocho_ em abstracto. XXIII Isto posto, e acceito por certo, como , pergunto: se no devero empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada F, humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel trato. Ninguem o negar, pois so elles as fontes, que, segundo sua qualidade, teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra que os rodeia. N'estes agros tempos de contnua revoluo e peleja, ou porque to momentosa ponderao no occorresse, ou porque a vista, de dentro da cidade, no traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes e ephmeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar consideraes de maior utilidade, mas de effeito mais tardo; as egrejas ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo: entregues, no como egrejas, a homens de orao e de esmola, mas, como torres e castellos, a alcaides e capites eleitoraes, que no dia do conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando. Oh! que no sem raso se collocou a rixosa urna dos suffragios politicos na extranhada manso dos serenos suffragios religiosos. A um clero secularisado, competia um templo secularisado tambem. * * * * * E no ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; peccado, que todas ellas peccam; ou, para falar com mais justia, aoite que Deus mette na mo de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephmero triumpho. Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, at s mais illusas, como as devemos suppr, cordealmente empenhadas na civilisao e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a revzes a favor de todas e contra todas, vem a ser, a final, para todas e para cada uma, como se de feito no existira. O direito mesmo da Guerra, com ser to largo e licencioso, nem tudo permitte. Porque no ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica reconhecer limites, onde o Ceo e a raso os teem marcado? Combatam se os adversarios; mas no se envenenem as aguas; e se a desavena entre consanguineos, e em solo commum, no cortemos, para aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que j deram oleo, sombra, e paz a nossos avs, e que ainda podem liberalisar o mesmo a nossos netos. Por que trazer aos festins profanos os vasos do Templo? Se chymra a Religio, se Jesus no em realidade seno o Christo, vo fra tartufas, que no deshonram menos a uma nao que a um individuo; acabe-se de uma vez com _supersties_ importunas e dispendiosas. Mas se o Christo foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol ainda agora a vida do genero humano; se a Cruz o unico pezo que faz crescer a quem a soffre; se na terra no ha luz seno a que vem de cima; se toda a negao expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os anhlitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, vs que ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle conhece, ao Povo os unicos orculos em que elle pode crer, s miserias o seu antigo e to amado refugio, aos vicos e aos crimes o dique onde j tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram. No assaz amplo o thesoiro que entre as mos tendes de destinos humanos? Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as magistraturas, todos os magisterios, todas as exaces, todas as administraes, no vos do de sobejo com que pagar ou empenhar amisades, zelos, e servios, sem ser mistr que o povo de Deus venha, escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a pedra e a areia para o vosso arco de triumpho? Rachel chorosa chora os seus filhos, e no quer consolada porque elles no existem para ella. Os moradores de Sio no entam os seus inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sio os seus moradores. A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha. A Cidade santa restaurar as suas festas. No vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade, qualquer que ella seja, se torne mais fraco. Pelo contrario: ento que a victoria, filha das benos da terra e do Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma aurola, sobre a hasta do vosso estandarte, porque se dir de toda a parte: Eis ali os fortes, os que bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor outorgar dominao, porque elles lhe ho restituido os sacrificios. XXIV Mas redescendmos o estylo lhaneza do nosso assumpto. * * * * * Logo que na legislao entrar mais _bom-senso_ que _politica_, mais realidade que fico, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada devolver-se-ho inteiramente, francamente, sem restrices mesquinhas e nocivas, das mos profanas para as dos seus superiores e arbitros naturaes: os Prelados. O Governo se gloriar de haver se desembaraado de uma tarefa, de pouca importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver facultado com a sua restituio o incremento da religiosidade; por ella o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por tudo, o da prosperidade do Estado. Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei, podr escolher por si mesmo, affeioar de espao, collocar por sua mo, os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, quem duvda de que ento os desacertos nas ponderadas escolhas ho-de ser to raros, como os acertos o so no actual systema, em que so as casualidades, quando no as affeies ou os interesses, que predominam? * * * * * Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justia a todos), as eleies do poder temporal teem merecido a geral approvao; teem recahido, pelo commum, em vares de mui notoria sciencia e prudencia, equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e zelosos discretamente. Graas, graas ao poder temporal, que j deu o primeiro passo, passo de gigante, para a suspirada reformao. Agora os restantes ho de seguir-se, porque so consequencia. Logo que soube, e quiz, prepr ao Episcopado vares taes, logo que manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava, tacitamente se obrigou a lhes repr... (estas suas usurpadas regalias, ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificaes, este para uma consciencia melindrosa martyrio das horas todas. Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros a to duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu officio, os no forra a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultao, e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo. * * * * * E que so em verdade os Parochos, ou antes: que foram os Parochos desde os antigos seculos da sua instituio, que foram, se no uns coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar at aos minimos e mais obscuros recantinhos das Diocses a sua doutrina, a sua caridade, e os seus exemplos? Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mos, de um s, e quasi sempre velho e canado, no podiam alcanar to longe como o seu espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem), no lhes chegando as foras para estarem dia e noite a todas as cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios, estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em todos e com todos, segundo a maravilhosa expresso do Apstolo das gentes; distribuiram em cada enfermara quem os supprisse, quem os fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse de subito acudir. Como pde portanto, quando militam as mesmas rases que presidiram creao dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai falsificado? Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens inexpertos e ignaros da sua arte, no pode ser; e no ha-de ser sempre; e cabe nos esperar que nem continuar a ser por muito tempo. O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os presbytrios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vo ser como essas torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de pombas. As parochias reverdecero: e florescero, at ao possivel auge, em creanas innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos pacientes, resignados e conselheiros, em slo bem cultivado e bem festivo; e o Throno se alegrar com os novos reflexos de ventura, que lhe viro de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte. XXV No venha agora, no processo d'esta santificao, intrometter se o _Cardeal-diabo_ do ciume, com mscara de amor da Liberdade. Ainda que a mscara de vidro, j d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mos, batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: Frana, Italia, Inglaterra. * * * * * Que nao mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? Que nao menos para consentir Egreja o que de jus estricto lhe no compita? Nenhuma. Ora em Frana, bem sabemos todos que so unicamente os Prelados os que formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente, por livros no escolhidos (como entre ns) pela Autoridade civil, ainda que (de si se entende) sujeitos sua inspeco. Acostumam n-o s praticas do seu no facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a aptido e especial prstimo de cada um. Aproveitam s os que n'esse crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem mo, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais aproveitem; pois de ver est, que, differindo em indole e circumstancias as povoaes como os individuos, tal individuo, que em tal povoao quadrar justa, a afortunar afortunando-se; n'outra, que menos lhe molde, valer menos, trabalhando e padecendo mais. * * * * * O exemplo da Italia, tenho eu que ainda aprta melhor; porque, se l os Bispos so independentes, como em Frana, para o provimento de suas egrejas, no porque em mos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o Sceptro Bago juntamente. * * * * * Documento, porm, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran Bretanha. Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, no protegida se no tolerada, no acarinhada se no temida pelo seu progressivo, cada vez mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, no obstante, por longa e pacifica posse, d'este seu no _privilegio_, se no _direito_ essencial; e os seus Bispos so pelo menos to independentes no tocante cura de almas dentro de suas Diocses, como dentro nas suas os proprios Bispos protestantes. XXVI Ora pois: logo que entre ns se houver perfeito d'este modo a regenerao do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas populaes ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que a minha gente de S. Mamede do Monte ser querida, e comprehendida at por cortesos, quando sahirem a folgar no campo algum estio. Para ento que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em casa e s escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu j lhe tomo. * * * * * Se elle consegue, para alm das raias da minha expectao, fazer com que um s captivo da Cidade cobre amor vida solitria, ou que um unico solitrio aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta bemaventurana, j no trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos maiores triumphos literarios. FIM DO PROLOGO Notas de Castilho a este Preambulo NOTA I Fontes de estudo Como, durante a minha estada na serra, me no passava pela mente que houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssa dos sitios e gente d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas memorias no escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no tocante topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar. N'esta pressa me soccorri officiosa amisade do actual Prior de S. Mamede da Castanheira, o Rev.^{do} Padre Antonio Joz Rodrigues de Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu painel, em que faltar tudo, excepo de verdade nas coisas, e nos retratos parecena. NOTA II Parochos Na generalidade que estabeleo, por muito convencido, caber fazer algumas gloriosas excepes; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta freguesia de Santa Isabel[5], o Rev.^{do} Padre Joz Jacintho Tavares, varo de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sos costumes, sobredoirados de indole sociavel e amena, e incanavel na caridade. As reparaes e embellezamentos, com que se tem remoado o templo em que elle serve, nada so comparados com os soccorros de po, de letras, e de instruco christan e civil, que j comeam a disfrutar os indigentes da sua freguesia. Largos so ainda os seus projectos; ajude-o a Providencia; deixar formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haver transformado, pela educao, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de perdimento. No quiz perder este lano de ajudar com um pequeno brado o clamor da gratido popular, que algum dia ha-de ser alto. FIM DO PRIMEIRO VOLUME Notas: [1] O Doutor de capello Jos Feliciano de Castilho Barreto falleceu na Castanheira do Vouga a 6 de Maro de 1827, e foi enterrado na capella mr da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos Praseres em Lisboa, onde se conservam. Os Editores [2] Existe ainda este cedro que tem alcanado descommunal corpulencia. Chamam-lhe por l _o cedro do poeta_, ou _do Castilho_. Os Editores. [3] Ovidio--_Os Fastos_--Liv. VI. [4] Alluso aos amargores da redaco da _Revista Universal Lisbonense_, minuciosamente narrados _nas Memorias de Castilho_. Os Editores. [5] Castilho morava ento na rua de S. Maral. Os Editores. EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora Livraria Moderna 95--RUA AUGUSTA--LISBOA Obras completas de A. F. de Castilho XX O Presbyterio da Montanha VOLUME II [Figura] LISBOA EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL 95, Rua Augusta, 95 1905 OBRAS COMPLETAS DE ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO VOLUME 20.^o VOLUMES PUBLICADOS: I--Amor e melancolia. II--A chave do enigma. III--Cartas de Ecco e Narciso. IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.) V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.) VI--A primavera (1.^o vol.) VII--A primavera (2.^o vol.) VIII--Vivos e mortos--Apreciaes moraes, litterarias, e artisticas. IX--Vivos e mortos (2.^o vol.) X--Vivos e mortos (3.^o vol.) XI--Vivos e mortos (4.^o vol.) XII--Vivos e mortos (5.^o vol.) XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.) XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.) XV--Vivos e mortos (8.^o vol.) XVI---Excavaes poeticas (1.^o vol.) XVII--Excavaes poeticas (2.^o vol.) XVIII--Excavaes poeticas (3.^o vol.) XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.) XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.) NO PRLO: XXI--O Outono. OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos XX O PRESBYTERIO DA MONTANHA VOLUME II [Figura] LISBOA Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_ LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47 1905 I A PRIMEIRA NOITE NA SERRA ... Ibi haec incondita solus montibus et silvis studio jactabat inani. Vlo? Sonho? Deliro?! Em solitario monte, que se espanta de ver-me, e cuja austra fronte nada avistou jamais, no amplissimo horizonte, de mundo a tumultuar, de cidades a rir... n'este ermo ignaro, frio, mudo... aqui... (deliro? ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo! o meu presente e o meu porvir! Genio invisivel da montanha, de astros, de sol, o ceo te banha; o mar de longe te acompanha no livre cantico sem fim. Escada de Jacob da terra ao firmamento, a manso tua monumento da potencia, do amor, das glorias d'Elom. Emquanto, em derredor do solio teu sublime, a baixa terra vil que a instavel sorte opprime, se volve, se transforma, e sua angustia exprime n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor, a variedades sobranceiro mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro, e do diluvio assolador. Silencio e paz comtigo habita; o ermo como o eremita; loucas vaidades no cogita; ama o seu rustico trajar; em apparente inercia ama que ferva occulto de seus affectos o tumulto, seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar. Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia: eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia, pde ouvir de tua harpa a casta melodia, e abrazar-se de amor e endoidecer por ti; sim; mas eu, frivolo, profano, solido extranho, affeito ao mundo insano, que hei-de esperar? que tenho aqui? Toda a minh'alma se entristece, e se confrange, e se ennoitece, ao ver que a sorte lhe destece de um sopro os aureos sonhos seus. Sonhava applausos, gloria... em desterro desperto! sonhava mundo... acho um deserto! sonhava inda illuses... e escuto-lhes o adeus! Nufrago, perco a lyra em meio da viagem. Deso vivo ao sepulcro! Em ti, fatal paragem, quem me resurgir? Dos montes a linguagem... oio... escuto... medito... e em vo quero entender como uns sons de ignota fala; qual s penhas o mar, me inunda e me resvala, sem me abalar, nem me embeber. Oh! minh'alma taciturna que importa, montanha soturna, que de perfumes sejas urna da terra erguida sobre o altar? que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto, que o sol doirado, ao teu deserto mais cedo suba, e tarde o desa com pesar? Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo, que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo, s ouvindo os tufes e os corvos no arvoredo, bramirei:--Cresce o tempo! oh! supplicio cruel! so mais pesares, mais saudades, mais estro a arder em vo, mais vises de cidades, mais tentaes a dar-me fel!... Ai! mundo! ai! eccos seductores! Tanto vate a ceifar louvores!... Tanto moo a colher amores!... Tantos loireiros e rosaes!... E eu n'esta solido a torcer-me arraigado, qual roble que geme indignado, vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes! Assim ruge, baldo de vingativo nume, esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume; assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume do caucseo alcantil, seu cadafalso atroz. S o abutre de eterna fome, que o grande corao algoz sem fim lhe come, responde em ais sua voz. Fenece o dia. Hora jocunda, que eu tanto amava! hora fecunda dos cantos meus! por que me inunda nova amargura o corao? Sino crepuscular, tas funreo dobre? a serra em luto se me encobre; a nocturna mudez duplica a solido. Nenhuma luz scintilla; humana voz no sa. De estrellas a accender-se o Empyrio se pova; tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa, nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir de luzeiros um labyrinto. Ceos! No oio eu troar... seus coches!... O que sinto vento em selvas a rugir. Calae, fugi, ventos agrestes; sumi-vos, lampadas celestes; n'um seio a delirios j prestes no susciteis mais tentaes. Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes... vs, astros, cifras de diamantes, o arcano me aclarae l d'essas regies. Oh! se minha razo, contradictoria, altiva, que s trevas sente horror, e clara F se esquiva, de vs, faroes do Ceo, baixasse a crena viva, que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!... se me volvesseis as ditosas esp'ranas que hei perdido, alvas, ethereas rosas, com que se enfeita e esconde a Cruz!... Tornar-se-me-hiam de improviso a solido, em paraizo; a magua, em perenne sorriso; em alto cantico, a mudez; a mallograda lyra, o no colhido loiro, em harpa augusta, em palmas d'oiro; e o monte, solio ento, veria o mundo aos ps. Delirios sempre vos, fugi de um peito enfermo; tu, s tu, negra morte, has-de ao meu mal pr termo; ermo para ambies, inferno, e no ermo; para a humilde piedade que elle espelha o Ceo. Gentis phantasmas de cidades, vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades, como um esquife em aureo veo. Vinde, cercae-me, endoidecei-me, (embora em saudades me eu queime)! O somno, as vigilias enchei-me da vossa esplendida vizo. Val o riso choroso as festas da loucura? vinde, guiae-me sepultura, crente no amor, na gloria, e rindo solido. Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos, nem ecco respondeu n'estes coves ignotos. No, cumes glaciaes, to outros, to remotos dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer; no, no silvestre seio vosso, nem de amenas fices apascentar-me posso, nem menos as posso esquecer. Valor! valor! Quem do futuro sondou jamais o abysmo escuro? Apenas chego e j murmuro! O de que tremo acaso sei? Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados, aqui me aguardem, recatados, dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei. Se alm, no presbyterio, humillima choupana, (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana) mais que fraterno amor sollcito se afana em me affar o ninho, a vida em me inflorar; se n'um retiro verde e mudo, por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo, sombras no estio, o inverno ao lar; se a solido que me apavora, smente o fr vista de fra; se em seus recncavos demora gente feliz, povo de irmos; se do antigo viver, das crenas de outra edade, vestigios guarda a soledade; se poesia se vive entre estes aldeos; se a alegria, serena, isenta de pesares, como a fresca saude, habita os puros ares; se em toda a parte ha Deus, em cos, em terra, e mares, se Deus em toda a parte Natureza ri... corao meu, no desanimes, gozos que no prevs, e cantos mais sublimes, encontrars talvez aqui. Ah! sendo assim, que importa a fama! Tambem philomla derrama sua harmonia s selvas que ama longe de ouvintes e do sol. Cantarei. Meu cantar mais ambies teria que a viva, a lustrosa poesia, de perolas que a flux borbta o rouxinol? Castanheira do Vouga Outubro de 1826. II O SEPULCRO OU HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOO (POEMA) INTRODUCO (QUE MELHOR DORMIR, QUE LER) (Ermo alpestre entre cabeos de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.) I --Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho; a velha era por fora alguma bruxa. Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca! --Bom; a pobre mulher (que mais querias?) tres vezes t'o ensinou. --Nem trinta vezes que eu passasse por elle, o aprenderia; a no ser pelo rasto que deixasse esmurrando o nariz por essas lapas. J levo sem ferrage ambas as mulas; perdeu-se o norte; no descubro casa, nem gente, nem caminho, e quasi noite. Patro, por meia legua mais ou menos, no se deixa uma estrada como aquella, que costeava o monte beira da agua. A velha era uma bruxa, e ns dois asnos. --Dize um que vale dois, mas dois no digas. Se tommos o atalho em vez da estrada, toda a culpa foi tua; eu no queria, porem teimaste; e eu no me opponho a teimas. --Mas eu por que teimei? pois se a maldita, com ar de santa, e palavrinhas manas, nos rabiscou co'o pau no p da estrada to claramente as idas, as venidas d'esta serra sem fim, no lhe escapando lomba, moiteira, torciclo ou brenha, que a mula mesma entenderia o mappa! Quem no cahia em tal? cahiam todos. E de mais quem nos diz que aquelles riscos no tinham diabrura ou nigromancia capazes de encarchar um Santo em carne? E quem me diz a mim que a grenha russa no vai ao p de ns? talvez sentada na anca da mula!... _fgite_, demonios! Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa; quem mais anda, mais sabe; e eu no sou tolo, nem creancinha de honte. Olha o diabo! bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto; caminho... era uma vez! M raio a parta! que havemos de fazer nestas alturas? --Tornarmos para traz. --Por este escuro? quer dar cabo das mulas, e estoirar-me? co'um milho de diabos!!... --Pois fiquemos. --E as mulas comam terra, como os sapos, e ns carqueja. --As noites so bem curtas. --Se ao menos se avistasse alguma venda... --Em rompendo a manhan teremos tudo. Por agora apeemo-nos. (_Apeiam-se._) * * * * * --No inferno estoire entre um milho de Satanazes o que inventou primeiro andar de noite; era o maior ladro... Que bulha essa? --No nada; uma pedra que rebola. --Que rebola!? e sem mo! ser bonito, mas nem por isso engrao. E aquelle bruto l em cima no pinhal, que guincha tanto! --Algum mocho. --Ms balas o atravessem, e lhe acabem co'a casta antes de um'hora; cuidei que era outra coisa. Eu na taverna valho por cinco ou seis; mas c perdido, e ento de noite, um pisco me pe medo. --Pois dorme. --O qu? dormir! co'a bruxa s barbas! s se eu fsse algum bbado. Esta noite nem pregar olho, nem largar das unhas dois penedos; e ao p j est reforo. --Golgan, j que no foi por nossa escolha, busquemos contentar-nos co'a poisada, que inda no to m como o parece. Quantos ha menos bem acomodados por esse mundo agora! uns em cadeias, outros entre ladres, nufragos outros, estes em luto, aquelles em doena. Bastantes em colxes de plumas ffas revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro, cuidados tristes, asperos remorsos. Quantos at nas salas mais alegres, entre as luzes, e as muzicas, e as danas, mas em face de um sffrego banqueiro, padecem mais que um reo chegando frca No ha mal sem peor; qualquer estado se se compara, bom; com cara alegre suavisam-se os incommodos; um fardo n'um hombro impaciente fardo e meio. Quem no soffre um descommodo pequeno nos grandes morre; um leve desagrado d realce ao prazer quando nos volta. Qualquer estado, e pessimo que seja, tem seu lado risonho; e da prudencia d'entre os picos da silva achar a amora. _Amen_.--Brava o latim; d ceia e cama. --A falta d'esta ceia novo adubo do almoo de amanhan; e emquanto cama, que outra melhor do que esta em mez de Junho? Nem paredes nem tectos, que nos roubem a virao da noite apoz a calma; por entre essa quebrada dos penhascos l em baixo o mar co'os seus murmurios frescos; sobre ns, e por baixo das estrellas, pendendo como um lustre, este carvalho cravejado de insectos que entre-luzem; dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas. V; que soberba camara!; que leitos desde a origem dos seculos nos guarda no seio d'esta brenha a Natureza! --Ao menos no tem pulgas. X, canalha! leva rumor! bom pregar de coices. No durma, Sr Doutor. --No tarda muito que eu no entre a sonhar Que bellos sonhos no devem ser os de uma noite d'estas! --Tenha l mo com isso; o que eu prometto, para espalhar-lhe o somno, uma enfiada de casos que eu passei na minha vida; to rara, que podia ir _Gazeta_! * * * * * Uma vez ia eu s; era em Novembro; chuviscava e fazia um tal escuro que era metter os dedos pelos olhos. (Lembrou-me esta a proposito da mula escoicinhar sem causa.) E era bom tempo aquelle; andava Christo pelo mundo; tinha eu mais duros, que patacos hoje, e andava o oiro aos pontaps da gente; tambem... j c no torna! O grande caso que n'aquelle tempo era eu solteiro, e rapaz bonitote; e havia muitas que me fizessem fogo; eu cuido, e certo, que no pelos vintens; nem pela cara; mas isto de casar co'um almocreve, seja elle o diabo dos infernos, parece a todas bem: uma delicia ter o seu homem s de vez em quando, em logar do espio de um pegamao com residencia fixa em ar de abbade. Mas... no bom falar na vida alheia. * * * * * Como lhe ia contando, era almocreve; chamavam-me o _Chupista_. Oh! que bolaxa que eu pespeguei na cara do cocas que me inventou a alcunha em certa venda! qualquer creana lhe moia os queixos; j l est onde o pague Onde ia o ponto? ah! sim; era almocreve e recoveiro; e andava com dez machos todo o anno a correr quanto valle e monte havia para cobrar o fro aos Frades Cruzios. Que isto do fro bom, nem que parea; uns pagam-lhe borel, outros centeio, queijos, presuntos, lan, cevada, vinho, gallinhame por arte do diabo, ovos, e at o musgo onde se empalham.[1] No ha n'um pardieiro um desgraado que no deva pagar alguma nica. J v donde me vinha a minha alcunha; mas sem raso; porque andava s ordens. Tambem j tenho ouvido alguns autores, tal como o meu cunhado, e mais uns certos, que coisa bem mal feita a tal derria; Mas bem feito ou mal feito, eu no sou Papa. Vamos c co'o meu conto. * * * * * Era uma noite, cuido que j lh'o disse, ali por Maio, e fazia um luar... que era um consolo. Eu saio a meu av; se boa a estrada, gsto de andar de noite havendo lua; c pelas brenhas no, que no sou lobo. Vinha eu mui fresco em mangas de camisa, em cima de uma carga de presuntos, pela estrada real, co'os sete machos a dormitar ao som da chocalhada. Vinhamos caminhando em certo passo de quem gosta da noite, ou vem sem pressa, ou de quem traz comida a gente farta. * * * * * Que lhe digo, em abono da verdade, que servir Santa-Cruz no d desgosto: pagam bem, fazem festa ao gallinheiro, vendo os machos no pateo uma alegria!... aquillo at os olhos se lhes riem! do pinga, e de cear, e muitas vezes vi eu estar vai no vai a dar-me um beijo o Frade gordo que recebe o saque. Bom tempo! bom de lei! j c no torna. No durma Sr Doutor. --No durmo; acaba. --Acabar! no acabo em toda a noite, nem que estoire a barriga do diabo. Inda eu no comecei. Lembra-me um Frade que havia em Santarem; tinha um cachao,... por tal signal que at revia enxundia; e era um demo, o maldito, a beber vinho!... Mas aquillo! a prgar era uma joia; um sermosinho d'elle atarantava e punha tudo azul. Tinha a constancia de arrumar prgaes de duas horas. N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito... (e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente, j tinhamos dormido regalada) disse muito pausado: Eu principio. Assim fao eu tambem. Todos devemos tirar das prgaes algum proveito. Ora pois, no me durma, e ahi vai a historia; porm tenha l mo, que a levo errada. * * * * * Nesse dia tardinha, na estalage tinha entrado uma velha; era um diabo, que isso... s visto! pequenina, magra, muito preta; era um bilro de pau santo. Tinha pela cabea um leno pardo atado pela barba, um manteo ruo, e uma mantinha exotica e de agoiro. Tinha ento uma cara no sei como; nem parecia cara; era um n cego que fazia azoar a toda a gente; mas muito experta; e uns olhos como um bixo. Tambem aquella rez tinha no corpo muita pipa de sangue de creanas! * * * * * Cheguei eu estalage, e ia com fome; vou-me carga do fro, agarro uns ovos, mando os frigir com mel, que papa fina; e ento para quem tem de andar de noite dizem que bom, que livra do catarro, j se sabe com quatro pingarolas. Ia se preparando o meu guizado, e era um cheiro to bom pela cosinha, que isso no ha dizer. J dois gallegos, e mais, tinham ceado; andavam tolos a cochichar, e s voltas pela casa, um olho em mim, outro olho na tigella, e eu muito concho a rir, e a pescar tudo. Basta dizer que me pediram ambos que vendesse um quinho; e isto em gallegos! * * * * * Emfim, cheirava bem, e estava d'alma. Mas o monstro da velha era uma estaca ali muito direita ao p dos ovos, com cada olho aberto, que te parto! Era mesmo um olhar de inveja e zanga. Logo eu tive m f co'a tal menina quando ella perguntou quem era o dono. Porm quem mal no usa mal no cuida; sentei-me meza a codear nos ovos. Ora agora o vereis: a minha amiga ama-se n'um canto, mais vermelha que um pimento, e eu sempre a observar n'ella. Ferra os olhos em mim com tal quezilia, que a no ser por temer a Deus e a ella, batia-lhe co'o prato pelas trombas. Botava cada lagrima... de punho! dava cada suspiro, a excommungada, que punha medo! accendo o meu cigarro, pago, monto a cavallo, e sigo a estrada. Era j noite escura, e um vento frio como o gran Satanaz. * * * * * Que diabo isso? ressona?; ou j na costa anda algum moiro? --Avante; so as ramas que sussurram. --Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando pela estrada real por ser j tarde, e a assobiar ssinho o _tiroliro_. Vai seno quando, estacam-se-me as bestas. esquerda, como ahi, ficava um monte; d'esta banda um pinhal muito fechado; de sorte que o caminho (e ento mui longe de todo o povoado) era um soturno, que nem Roldo o andava quellas horas. Entrei logo a suar e a arripiar-me; e as mulas n'um inferno de pinotes sem qu nem para qu; davam taes rinchos, que se fundia o cho; pregavam coices, que assoviavam no ar; que contradana! era uma groza de diabos doidos, e eu mais doido, no meio, bordoada.[2] Aqui digo eu como dizia o Frade n'outro sermo de um Santo; _no lh'o pinto por no ter um pincel_. Mas faa ideia que tal eu ficaria lobrigando (eu te arrenego diabo!) uma luzerna a ir e a vir, roda, e acima e abaixo, l longe no pinhal. Que era bruxedo tive eu logo de f; muitos que m'o ouvem riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas; que isso sei eu; e ento ali! to tarde! Por fora era algum sabbado l d'ellas, que as taes amigas juntam-se de noite a fazer os seus sabbados, o mesmo como ns no Natal meia noite... Ha muita comezana de creanas, sarrabulhos de sangue, cambalhotas, e umas rizadas..... que at Deus se admira. No meio anda um pretinho muito gordo, que o proprio diabo em carne e osso. Diz ento muita coisa a todas ellas, d-lhe l seus conselhos, toma contas do que teem feito, e..... acaba a tal comedia. Untam-se co'uma untura que l sabem, transformam-se em corujas e mosquitos, o diabo e o lume sorvem-se na terra dizendo boa noite at tal dia, e ellas voltam-se a casa a armar j outras. Isto sabia-o eu como os meus dedos. Lembrou-me a tal gulosa da estalage, e ento que dei tudo por perdido. Deitei fra o cigarro, e entro em voz baixa (sempre isto do pavor faz muita asneira!) entrei eu co'as mos postas para as mulas a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos, pelas Almas Bemditas, que deixassem todo aquelle motim, que me perdiam; que fugissem d'ali, que andavam bruxas, e que p ante p viessem vindo; que eu promettia uma rao dobrada. Partimos. De repente desembsta d'ao-p da tal luzerna um certo vulto direito para ns como uma xra. Com seis milhes de grozas de diabos! quem havia de ser, seno a velha? Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte, chega ao cimo, e de l muito sizuda entra a dizer-me adeus, e (t'arrenego!) a fazer-me uma cara dos infernos... --E tu viste-lhe a cara em tanto escuro? --Certo que lembrou bem; tambem agora l me faz confuso ter visto a cara. Escuro? isso era escuro como um prego; no sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a; assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje to bem encasquetada no juizo, que a podia pintar, e era pintura, que urrariam os bois se lh'a mostrassem. Quer escuro quer no, vi-a, e est dito. * * * * * Mas o bom no foi isso; o mais bonito foi entrar de repente o gallinhao nas canastras da carga em cantarolas, a romper, a fugir, e eu pila pila para aqui, para ali, correndo s cegas sem as poder juntar. Foi se-me a noite n'esta labutao; de cada canto sentia um cacarejo, ia s carreiras, gallinha... por um oculo. J rouco, moido e desesp'rado, ao romper d'alva vejo as minhas senhoras mui contentes todas juntas n'um bando ao p das mulas. * * * * * Mas alto; esta peor. No v? repare: um claro para ali!! d'esta nos trincam; meu Deus! onde diabo eu tinha a morte!! --Alegra-te, Golgan; que noite esta? --Para ns ambos de Fieis defuntos. --De San Joo. --Ah! sim; pois fogueira, e no outra coisa. Ora o diabo! sempre tive uma colica soffrvel. Mas vamos ns a andar, se lhe parece. Dizia um Padre Mestre ali do Algarve, n'umas rases que teve com meu tio, que era barbeiro ento, e o Padre Mestre era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio, ia fazer-lhe a barba e mais ao preto, que era um tio que s bofetada; mas muito presumido! e ento por moas dava o grande magano um cavaquinho!!... Com que emfim, tinha o Padre este ditado: aonde ha lume ha fumo; e eu ento digo que por fora onde ha lume ha-de haver gente; e que onde ha gente ha casa; e toda a casa tem a sua cosinha, e ento cemos. E partir de repente em quanto ha lume. ......................................... ......................................... II Eis aqui um dialogo de ensanchas sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo-- grita o leitor perdendo as estribeiras. Onde foi isto? ou quando? quem so elles? onde vo? d'onde veem? * * * * * Leitor amigo, ha duas horas que soubras tudo, se o cruel arrieiro o permittisse; mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas. Quanto a elle, presumo que o conheces; o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso no peor que outros muitos portuguezes: Antonio Feliciano de Castilho. Venho do Minho de assistir a bodas; recolho me outra vez Castanheira[3] a casa do Prior, a fazer versos, beber-lhe o vinho verde, e dormir muito. O theatro da scena certo monte de que me esquece o nome; o anno, e o dia, Mil oitocentos e vinte e oito, noite, vespera de S. Joo. Se mais desejas, perguntar, que eu te respondo a tudo. * * * * * Mas o melhor (se queres um conselho) fazer-me um favor, ao qual protesto ser toda a vida grato: anda comnosco; a noite est bellissima; podemos ir co'o nosso vagar pataratando, e conduzindo as mulas pela redea. Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites; fica-te em paz, regala te, que eu juro que estando em teu logar fazia o mesmo. Se queres, faze s paginas seguintes onde vai mais Golgan (porque j agora hei-de contar a historia por miudo) faze, digo, a taes paginas o mesmo que eu, tu, e elle, e ns, e vs, e elles, fazemos s dos _Martyres_ do Padre, que so apezar d'isso uma obra prima. Passa-as em claro, e dize que j leste. Quem fala assim no quer suor alheio. E adeus; at mais ver que vou com pressa. ......................................... ......................................... III --Olhe l, Sr Doutor; diz um livrito, que a gente sem falar como os burros; e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe, para ver se se encurta este caminho, o mais que se passou depois da historia. Mas v picando a mula; olhe a fogueira! * * * * * Com que, como eu j disse, ao outro dia vi as gallinhas ao redor das bestas; torno-as a pr na carga, e digo logo: A Santa-Cruz no vo vocs de certo; nem vocs, nem a carga dos presuntos, nem nada que aqui vai, com trinta infernos! Servos de Deus to bons, to meus amigos, haviam comer tal! metter no corpo talvez quanto bruxedo ha neste mundo! Deus me livre do mais, que de encarrgos posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas direito Hespanha, e vendo-as a uns ciganos, com carga e tudo. --As mulas! --Pois as mulas tinham tantos diabos na muchilla como as gallinhas, os boreis, e os ovos. Mas eu era rapaz; se fosse agora, no digo que o fizesse. O divertido foi andar eu trez annos para quatro a correr Portugal e Hespanha toda a buscar confessor; tudo ignorante! Padre douto, nem um que me absolvesse. Por fim achei o filho de um cigano, dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo. Mas ento penitencia no falemos; se a quizesse rezar, nem toda a vida! Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro, e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella; mas disse-me que havia at ser velho mortificar o corpo co'um vergalho, e com muitos jejuns. Se eu fra pato! Sabe ento o que fiz inda algum tempo? era correr de chto os meus pedaos, e depois descanar. * * * * * Deixemos isto, que no lhe importa muito, e a mim nem nada; vim para a minha terra apenas pude, muito pimpo, e cheio como um ovo. Namorei, namoraram-me bastantes; por encurtar rases, casei com uma que era filha do irmo de um primo ou tio de um meu compadre Abreu, que era cunhado da sogra d'esta mesma rapariga, e enteado do irmo do Cura velho; tudo gente limpinha, muito boa, e temente ao Senhor, que todo o caso. Gastei para impr Bulla os meus tanturrios, e no foi l to pouco! Veja agora: para a gente casar largar dinheiro! como ir para a India ou para a frca, e pagar inda em cima aos da sentena. Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto, disse me elle que a causa era ns termos quatro humores no corpo, e d'aqui vinha haver os quatro gros na parentela; que ella era minha prima, e que entre primos havia os quatro gros todos inteiros. No se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peas no s os quatro gros que se no viam, mas ainda mais c certa brincadeira. * * * * * Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me. Aquelle mez primeiro uma delicia; foi todo elle um _cantate_; muito amigos, muito beijo, e comer; muita broega, muita romage, e tudo muito e muito. Nunca houve um par assim to contentinho; nanja na aldeia e na comarca em roda; era at amizade escandalosa. Tanto assim, que o Prior, mais era amigo de fazer a vontade a toda a gente, n'um dia santo pratica da Missa deu-me um foguete caspite! Disse elle que marido e mulher com tal namoro era coisa mais vil que mil diabos. Fizemos-lhe a vontade antes de muito; ella entrou-me a azoar com trinta coisas, e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas, o asneiro do Juiz, que era vizinho, tomou isto em trambolho, e ameaou-me de me encaixar no fundo dos infernos. * * * * * E ento que lhe parece a entaladella? Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a, vem o Juiz, promette-me a enxovia. como o conto de um palerma velho que ia a p co'um rapaz e mais um burro. --Bem sei. --Pois sim senhor. Com que, tivemos, no digo bem; teve ella oito ou dez filhos; e sempre a dois e dois; forte coelha! Entrei a dar bruta; acudiu povo, ella fugiu, mas eu fugi sem ella. E d'ento para c desandou tudo. E hoje ando aqui por moo de arrieiro, a perder noites, e a estrompar as ventas. Aqui est por que eu digo que este mundo coisa muito celebre! uns ovitos e uma pinga de mel fizeram tudo. ........................................ * * * * * Brava! no ouve uns sinos que repicam? olhe um foguete! truz! Viva o Vinagre! e viva a ceia e a cama que esto perto! IV Com effeito, assim era; a poucos passos j se ouvia tambor, gaita de folles, risadas, bombas. Apressando as mulas na direco dos sons e da fogueira, descemos uma encosta, a cujas abas, entre uns poucos de antigos castanheiros, uns cinco ou seis pastores se occupavam a abobadar de murta uma fontinha. Interromperam logo o seu trabalho para nos vir saudar; mostraram pena de ouvir que nos perdramos no monte, off'recendo porfia os seus albergues. No findara a benevola contenda, se um d'elles agarrando o freio mula me no posesse a andar; agradecendo os desejos dos mais que inda ficavam, segui affoitamente o nosso guia. * * * * * Uma ponte de pau que atravessmos coberta de chores, nos poz borda de um trigo j maduro e sussurrante, contiguo ao seu casal. Quanto eu folgara de descrever tudo isto! Uma casinha plantada ahi como risonha ilhota n'um vasto mar de tremulas searas, e clara como a neve, ou como a lua que a espreitava do ceo por entre as folhas de um esquivo parreiral. Junto s paredes, de rosas e limeiras revestidas, canaps de cortia apresentavam a imagem do descano e a do convite. No era necessario entrar a porta, para j conhecer o domicilio da hospedage e da paz; que as proprias auras, como que em to poeticas folhagens se ouviam sussurrar: Bemvindo o estranho! * * * * * No longe lhe ficava a sua aldeia na c'roa de um oiteiro; pensarieis, vendo-as to perto, e um bosque a separal-as, a aldeia to brilhante de fogueiras e esta casa to s mas to alegre, pensarieis, como eu, ver n'uma festa moa ausente e feliz, amante e amada, que entre o prazer commum no quer nem deve ir desfazer seus pensamentos doces. * * * * * Visinho seu mui proximo era o templo, aos valles do arredor alardeando na sua torre branca um Anjo de oiro, e a um lado a Residencia, occulta em parte n'um ramilhete de altas cerejeiras. * * * * * Nunca mo de pintor juntou n'um quadro objectos mais simpathicos. Tal como trpido arroio em tacita espessura das copas bebe a sombra, e envia s copas, do sol reflexo voadores raios, do casal a presena alegra o templo; a presena do templo est lanando sobre o casal o srio da virtude. Tudo isto sob um ceo de fertil beno, sobre um cho de abundancia, e no ar mais puro! --Meu Pae,!--grita o pastor entrando pressa-- minhas irmans! um hospede!-- * * * * * A tal nome, como se fosse voz de alguma fada, com repentina luz nos apparecem creanas folgasans, esbeltas moas, um ancio, e uma velha. Imaginreis ver Graas, ver Amores, ver Napas, trajados de aldeos, e honrando os lares de Baucis e Philmon, que o parecem na edade e na virtude os meus dois velhos. * * * * * No mora entre seras a etiqueta; mas sobre herdada meza de pinheiro em troco adeja a cordeal franqueza, o bom desejo adubo da abundancia, e a amisade dos bons, filha do instincto, que nasce qual relampago, mas dura. Deu-se o primeiro instante ao comprimento, logo o segundo aos commodos; o resto conversa, e ao bulicio de tal noite. * * * * * Vem-nos do forno, envolto co'as risadas, vital perfume de mellifluos bolos, que em molles viraes traz a alegria. Aquella vai e vem compondo a meza; esta afervora a ceia, e a cada instante corre janella que descobre a aldeia. Juntam-se bulha os sinos da parochia, que o sacristo na vespera do Orago jurou provar seu zelo aos Ceos e terra. O festivo repique exalta as mentes, os meninos no param, correm, gritam, repartem bombas, furtam-se valverdes, e rindo ameaam fogo pipa velha. A boa annosa me ralha do estrondo, e o faz inda maior; o esposo enfia uma sobre outra historias do seu tempo. O avito candieiro de tres lumes cobre da meza o centro, e chama ceia; a slta sociedade eis se lhe aggrega. No foi longo o festim, mas cada copo lhe augmentava o praser. Salve tres vezes, dos tres lumes candieiro avito! quanto amor, quanta paz, que bens, que festas no tens visto florir em tua casa! quantas mos to felizes como puras te ho accendido em noite igual! quem sabe que de memorias para ti conservas! Em premio da hospedage aqui te accendam longas eras em noites semelhantes dignos de seus avs contentes netos! * * * * * Iria a muda apostrophe adiante, mas ouviu-se o zabumba.--Ahi veem! so elles!-- dizem todos, e todos saem pulando. --Olhae; olhae; nem uma luz na aldeia! este anno veio tudo. Que alegria ter o nosso Parocho! --Maria, d c o meu chapo. --Corre, Pedrinho! --Onde est meu irmo? --No se demorem! --Vamos danar. --Perdi as alcaxofras. --Vinde por c; passemos-lhes adiante; que rancho que l vem!................ .......................................... .................... Golgan, que eu fosse, no pintara a estrondosa miscellanea que va do cazal ao Presbyterio. Lavra nos proprios velhos o alvoroo; vo co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo, estranho festa. O pateo illuminado nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo. --Viva o nosso Prior!... --Viva!!!... Mil vozes restrugem o ecco apenas avistaram rindo janella o velho gordo e alegre. --Viva o Senhor San Joo! viva a alegria! V Bate o zabumba; a muzica rebenta; fogem foguetes pelos ares livres estrepitando; o campanario ovante de jubilo endoidece; repentina por dez partes acceza alta fogueira dentro de um vasto circulo purpureo mostra o prazer brincando em cada rosto. Bello ver n'este lance as raparigas compondo mais o leno, alevantando o chapeo, que o semblante lhes encobre, dando, como a descuido, um toque leve, mas gracioso, s flores que lh'o adornam, e flor do seio, e ao lao do collete. Quantos ns ata amor n'esses instantes! quantos outros aperta! em quantos outros embebe o espinho de um sutil ciume! Chiton! temos o Parocho na frente; e as cangalhas vem mais do que parece. A _alegria decente_, eis o estribilho com que recheia as praticas. Se cantam, co'a cabea e co'o p bate o compasso; se pulam boa dana em honra ao Santo, bota fora uma can. Por isso o baile circula agora a estridula fogueira; por isso o San Joo vai toda a noite injuriado em canticos devotos. VI Meia noite. Que som mysterioso! interrupo no baile e nos descantes. * * * * * Fada das amorosas prophecias, tu, tu passaste agora em concha aerea tirada pelo zephyro; sentimos todos ns tua magica presena. Boa viagem, Fada, e boa noite! Salve, hora duodecima; bateste, e descerrou-se a porta do futuro. Sua nevoa desfeita em orvalhadas vai nas plantas eleitas, vai nas flores mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes beno, certeza, amor, felicidade. J se interrompem bailes e descantes. Embebida em potentes nigromancias toda esta multido por modos varios exerce escrupulosa altos mysterios. Mas renasce o alvoroo; porque os copos dos bilhetes fatidicos chegaram da ama nas mos com riso de importancia. --No falta aqui rapaz nem rapariga-- diz ella;--o senhor Padre escreveu todos, mesmo vista do rol dos confessados. Meia noite j deu; quem quer casar-se, pode vir vindo. Ao grande rebolio succedeu a atteno, que a cada sorte outra vez se converte em gargalhadas. Por cada par que amor approvaria, veem disparates comicos s duzias, e do rebate s palmas e epigrammas. O proprio bom do velho applaude a tudo, e por primeira vez da sua vida encontra em si chorrilhos de finuras. J pede a uma o bolo do noivado; quer ser padrinho de outra; e s mais bonitas quer baptisar de graa os pequerruchos. Muito custa no mundo o ser discreto sem descambar o p! coisas escapam... que por Deus no haver o Santo Officio, como esta ao nosso padre: --Olhae, rapazes, vai n'estas sortes o que vai no mundo: o acaso e a Providencia, ao que parece, ambos lem pelo mesmo Breviario. No foi dos mais christos o epiphonema, mas fez rir. O Golgan neste comenos chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a: --Esta, seja quem fr, c p'ra nostri. Pede que a leiam; l-se-lhe:--O coveiro.-- Mudo o povo se entre-olha; e de repente co'as pragas do Golgan destampam risos, como os que o padre Homero encaixa aos deuses; inextinguiveis risos! Mas no cede a chufas nem a agoiro o varo forte; e com mo bem segura extrae sublime do outro copo outra sorte:--Ambrosia Trcula. Ento do pateo o riso clamoroso deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana, e retumbou nos ceos: Trcula... Trcula. --Quem diabo esta Ambrosia?--o heroe pergunta. --Sou eu--responde a ama. --Est brincando! talvez sua neta ou titrineta. --V-se, tolo. --Olhe c, senhora tia, no vai a arrenegar; no lhe pergunto por cara, corpo e modos, que so lindos; mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa? Com o desdem mais dramatico, a matrona voltou costas; e o bbado prosegue: --S Reverendo, no lhe aceite os banhos, que eu sou casado, e ponho impedimentos. Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem tirar tambem; tirei; quem tiraria? uma das filhas do meu bom Philmon. Recebi parabens de todo o povo; deixei-o bem disposto a divertir-se, e tornei co'o o meu _sogro_ ao nosso albergue. Instou que me deitasse; respondi-lhe que em noite de San-Joo ninguem se deita; que alem d'isso a jornada fra curta, e sem nimia fadiga; ultimamente que, pois que elle esperava a mais familia, esperava eu tambem; no sendo airoso faltar noiva no primeiro dia. --Cedo, mas s co'a clausula--disse elle-- que inda amanhan sois nosso. --Assigno. --Bello! * * * * * Ento toca a palrar at que venham. Saimos, que faz calma; alem, na eira, sobre a alta palha do centeio novo tomaremos a fresca e as orvalhadas. * * * * * Disse, e fez se. Que ceo! que paz! que noite! na molle aragem das fagueiras horas meu corao feliz desabroxado me enchia de um perfume egual ao vosso, nocturnas flores, que o gosais sosinhas. Quem podesse apanhar, prender na vida estes momentos lubricos, momentos que s caem do ceo durante a noite, e s na solido! Temi perdel-os co'a triste distraco de mutuas falas. Lembrou-me haver notado no meu velho um genio amigo de contar historias; pedi-lhe uma qualquer, bem decidido a deixal-o vontade espanejar-se sem lhe dar atteno; mas enganei-me, Pondo o rosto na mo, nos cos os olhos, entra a buscar pela memoria antiga algum caso mais raro; e como desse casualmente co'a vista em certo lume n'um cabeo remoto, * * * * * --Ouvi--me disse;-- por aquella luzinha l ao longe lembra-me um caso, e um caso que foi certo, passado ali no Minho ha largos annos. Inda eu conservo em casa uns Breviarios de um Padre irmo da minha av materna, que podero servir de documento. Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas do principio e do fim dos quatro tomos. E era um clerigo honrado, o que escrevia; merece tanta f como a Escritura. Diz elle ento ali (nem s elle; minha Av sua irman dizia o mesmo): que esta nossa familia inda descende da Rosa de quem fala a dita historia. A minha av foi Rosa, e tinha o nome de sua me; a minha me foi Rosa; a vossa _noiva_ Rosa; e n'esta casa, querendo Deus, sempre ha-de haver o nome. * * * * * Depois d'este preambulo de Rosas, veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa hora e sitio, ou a amavel singeleza com que narrava o historiador das medas, ou j disposio com que eu me achasse. Creio que sim: do espirito do ouvinte vem mais de meio o merito das obras. Por exemplo: da Eneida o livro quarto dias ha que me enfada; ha tambem dias em que se atura o _Italico_ do Padre;[4] e em que se entende um pouco a plrea bruta que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5] Nada parece mal, trazido a tempo; fora de tempo, tudo. A mesma coisa entre obras e leitores acontece, que entre os garfos e as arvores: se enxertam quando o no pede o tronco e o veda a lua, adeus ramo bastardo! e se ao contrario, penetra a seiva toda, e pula o ramo. Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto, que protestei contar-vol-o a meu modo; e o poema seguinte o desempenho. Tivesse elle, o que em vo lhe hei procurado, da prosa do meu sogro o tom singelo, talvez, leitores meus, o relerieis. Inventar, descrever, compor os versos, so os tres ps, da trpode de Apollo. J sabereis do Reverendo Kinsey que eu no tenho inveno; que nada pinto co'a verdadeira cr da Natureza; que os versos meus so bons, mas que aborrecem; o que no tira que um pota eu seja digno de ser notado entre os que vivem. Ora, quanto inveno d'este poema, bem vedes que a no ha, ou se a ha que d'outrem. E quanto s descripces, fiz o possivel para no metter mais que as do meu _sogro_. Mas faltava o melhor, e o mais difficil: versificar moda. Atirei fora o Virgilio, o Racine, e o Metastasio, gebos todos montonos, que enfiam os versos bons e os optimos aos centos; atirei-me ao Filinto e aos Filintistas; estudei, fiz ensaios, compuz paginas de embrxados velhissimos e esdruxulos, e no foi sem proveito o estudo acerrimo. * * * * * Perdoae se este livro inda vai falho d'esses donaires que travssos fogem de mal expertas mos; soffrei-o em quanto vou destilar sobre outro o _Elucidario_, qual se espreme um limo sobre um guizote. Abril de 1831. FIM DA INTRODUCO[6] III EPISTOLA A JOO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA (Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho) Da paz de um ermo ao turbilho da crte a Musa de Castilho do seu Costa saude e amor. J outra primavera se enflora, a seu pesar, desde que ausente pede aos montes a irman, que a no suspira, e dorme ao lado de um feliz ingrato. Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios em cantos cujo ecco alm no passa .................................... 1831--Abril, 21. IV O PRESBYTRIO Salv, principio e fim dos meus passeios! Salv, tu, cujo tecto, alva casinha, cobre ha perto de um lustro os meus autores, meus castellos no ar, meus faceis versos! Salv, co'o teu rosal; co'as tuas limas, festivo ornato das paredes brancas; co'o teu porto patente oppresso de heras; e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro, braso futuro do obumbrado pateo! Salv outra vez, meu presbytrio! Salv! * * * * * Hoje, que o caprichoso do meu estro (bem sabes se elle o ) deixa inconstante versos nda no chco, outros que apenas vo da casca a sahir, outros que breve teem de fugir do ninho em vos livres, entrou, mal veio a aurora esclarecer-te, a doidejar-te em roda, a namorar-te, qual borboleta ociosa ou leve abelha. Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perda se o canto falador, transpondo os cumes das tuas cerejeiras, fr mais longe revelar tua humilde obscuridade. * * * * * A antiga mediania, a segurana, a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens, genios foram, que em benos presidiram aos alicerces teus. De Prio monte no foi mistr que entranhas te enviassem cho, columnas, e abbadas, e estatuas; tuas portas sem chave no cresceram l nas florestas do hemisphrio opposto. Foi visinho pinhal teu slho e tecto; deu-te paredes mais visinho oiteiro; portes e meza um cedro bom da extrema. No custaste nem lagrimas a pobre, que fora te cedesse a choa avita, nem odioso suor; e no se dormem somnos melhores em Belem nem Mafra. * * * * * Que importa que no centro d'estes ermos vivas to s, que apenas descortines n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia? Tu e o templo co'as messes que vos cingem bastais no quadro agreste; em vs affluem (como em sua Queluz) nos festos dias ondas e ondas de amaveis saudadores. Os rebanhos ociosos no desdenham tjo em flor, que te doira o cho das mattas, d'onde envltos co' os trmulos balidos, veem cantos de amorosas guardadoras endoidecer teu ecco. Os caminheiros abenam-te a sombra; aqui teem fonte, que em tua relva, ao fresco das parreiras, detm, dessedentando-as, caravanas que vo ou veem no alpestre Caramulo. * * * * * O anjo das flores liberal te arqueia de bordada verdura as rescendentes claras janellas. Um bulicio manso de amigas vozes teu recinto alegra. Na sua tpida choa os bois ruminam ante o feno em montes; dorme no pteo farto esquadro lanigero; ao sol psto, co, dos lobos terror, te vela as noites; teus gallos as demarcam vigilantes. Co'a luz primeira arrulha-te alvejando cypria nuvem plumosa; e apenas saltam da dextra mo mesquinha os gros doirados, em torno da gentil madrugadeira de toda a parte os hospedes revam. Bicam por entre as pombas porfia a gallinha de filhos rodeada, o manso grasnador do aquoso tanque, o vaidoso per, que ri cantando, e vs, e vs, mais vivos do que todos, no chamados, mas sempre a ns bemvindos, passarinhos do ceo, turba sem dono. * * * * * Singelo presbyterio, oh! como te amo, co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno, to social noite; a simples sala, quasi sempre deserta; a livraria, deserta rara vez; estas alcvas, que enche um s leito; e a adega, assoviada do alvo spro do Norte; e o fuso, e a pia da cheirosa vendima; e o teu celleiro, alto, arejado, e to patente aos pobres, como as portas do templo convisinho. * * * * * Floresas para o Ceo e para a terra nos inconstantes seculos! floresas, feliz, co'o feliz dono, edade longa! E se, l no futuro, algum amigo, scio dos dias bons, saudoso e triste, torcendo a estrada, a te pedir viesse novas do teu cantor,--Amou me, e amei-o-- lhe dirias mostrando-te; e--Seus ossos-- juntaria o teu velho--aqui descanam. * * * * * Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos, gratos aos bons d'este recanto obscuro, onde escapei no seculo de sangue, c ficaro n'este ocio, inda alguns dias do simples montanhez talvez chorados. * * * * * Oh santa perseguida Liberdade, onde te achei!.... Onde no vivem homens; n'um torro bravo que no chama invejas. * * * * * Em quanto, ora que a noite o ceo regela humida e turva, tantos ricos enchem de bocejante enjo as assemblas, e tantos, tantos miseros, sem lares, sem conslo, sem po, sem voz de amigo, s reos de patrio amor, dormem nas furnas, pelas praias do Oceano, e pelas rochas (sublimes troncos pelo p cortados)... tua clara fogueira nos aquece; graas, graas a um Deus! Assim vagava sobre o universo undoso a arca do justo. * * * * * Ns, depois de annos tres, inda espermos. Ainda do trovo eccos retumbam. Ainda os escarceos assoladores remugem l por fra. Ainda a pomba co'o ramo de oliveira inda no volve. * * * * * Oh santa perseguida Liberdade! Oh! Se eu podesse, a trco dos meus dias, restituir-te minha Patria!.... * * * * * Basta. Esperemos ainda. Oremos sempre; e talvez que no tarde a grata aurora, em que, a adejar da serra pelos pincaros, venha de longe a nuncia das venturas, a pomba com o seu ramo de oliveira!... Castanheira de Vouga Maio de 1831. V A LYRA DO DESTERRADO (Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho) Era a noite dos finados; sombria noite de outono. Entre sinos acordados l jaz Roma entregue ao sono; seus luzeiros apagados. Do ceo pelo rto manto s brilham frouxas estrellas; sai a custo o claro santo dos templos pelas janellas; e Petrarcha vela emtanto. Vla Petrarcha, e suspira no leito amoroso e ermo; olhos na vla que expira; saudades no peito enfermo; nem gloria sonha, nem lyra. Qual raio slto de lua por mveis aguas vibrada n'um bosque inteiro fluta, tal adeja no passado a saudosa mente sua. Quem dir seus pensamentos? a douta lingua est muda. Que paixes, que sentimentos, no rosto, que aspeitos muda, veem transluzir por momentos! Ora dor, ora sorriso, esperana, amor, transporte; queixas, ternuras diviso; desce aos abysmos da morte, va areo ao Paraizo. No falar o Vate agora co'os labios que move apenas! Que torrente abrazadora! que amor! que incendidas penas! quo nova a paixo no fra! Vai a noite adiantada; humido vento assovia; treme a luz quasi apagada. Do gro Cantor que vigia ferve a mente a sonhos dada. --Es o templo conhecido que os meus destinos encerra. A me terna, o pae querido, c m'os tem no seio a terra. C vi Laura, e fui perdido... ............................... Castanheira do Vouga 1830...(?) VI EPISTOLA (Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho) A minha primavera emfim renasce. T n'este horror selvatico dos montes roupas traja nupciaes a Natureza. O ceo azul, o ar morno, as aguas puras, tudo nos diz amor; dizem-n-o as aves chalreando ao florir das alvoradas; bala o rebanho alegre; armento o muge; na folha nova zphiro o cicia; a camponeza em meio de mil flores, que lh'o exhalam balsamico, o suspira, e ao vioso tapiz, sombra vasta macia e tentadora lana os olhos. Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso, enleva a fonte e as arvores nocturnas, cantando amor, da lua ao raio incerto, lies que mais de um ente ao longe estuda (e pratica talvez); em sons de lyra, solitario eu tambem, lies de affectos de c te envio ao centro da cidade. N'esse ruidoso vrtice de povo, de vos praseres, de negocios futeis, a geral rotao te arrasta s cegas; dever da amisade erguer-te aos olhos luz, salvadora luz. Nufrago entre ondas pode no ver a tboa s vezes perto; pode a praia ignorar, e tel a em face. Tboa amor te lanou da praia firme; ledo e fausto Hymeneu te est chamando. ....................................... VII A ROMARIA L vem Maio rosado. J floreja nas planicies, verdeja pelos montes; o mez de Amor, o mez de Philomla. Aureo amanhece o dia suspirado da romaria annual; lguas em roda j tudo festa, esp'rana, e regosijo. As povoaes, desertas. Por estradas, por torcidos atalhos, por oiteiros, correm de toda a parte ornados bandos. L retra nos eccos aturdidos a matinal girandola ruidosa; acorda ao longe a torre com repiques; um povo de cem povos misturado enche a vozeada selva, a acceza ermida, e de ondeado matiz cobre o terreno. Arfa ao sol, no alto mastro volteando, triumphante bandeira alvi-cerlea. Vai e vem, ora chega, ora se allonga, no est em nenhum sitio, e assoma em todos, a alma da festa, a gloria do Gallego, a aguda gaita tmida e franjada, que ao rufado tambor scia, repete a moda velha e alegre, amor dos campos. Em vidrado alguidar reluzem n'agua os doirados tremos, que afadigam com compradores a afrontada tia. As navalhas e anis, o apito, o espelho, se assoalham mais alm; na alva toalha, alva e folhuda, esto chamando o exul. Em cima de seus carros triumphantes os laureados tonis, reis da alegria, do n'um fogo perenne a vida a tudo. Aqui se ouve o descante ao desafio, que a viola ora segue, ora acompanha. Ali se apinham para ver as danas, que a discorde rabecca entorta s vezes. L, se entorna o licor em puros vidros; ao p se adoa a fresca limonada. Aqui se comprimentam; alm chamam; um se perde, outro se acha, outro convida. Este corre; esta pra a ataviar-se, por mostrar o cordo e o leno novo. Estirados na relva os velhos palram; grita o rapaz. O amante, recostado ao pu, por onde um brao lhe serpeia, faz longa crte tmida futura, que em resposta de amor lhe d tremos. N'isto va o foguete, e atra as nuvens. L sai a procisso; l foram todos. Ah! depois do jantar comido s sombras, cada um levar, volvendo a casa, gratas lembranas para o anno inteiro. VIII O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES OU A MATTA DE S. SEBASTIO Versos na plantao de uns carvalhos junto egreja de S. Mamede da Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia no Domingo do Carnaval de 183... I N'este dia, em que o povo tumultuando nos casaes, nas aldeias, nas cidades, troca a enxada, o tear, o livro, a agulha, por copos, danas, mscaras, e risos nas saturnaes christans; quando se espraia, desde o seio de Roma aos fins da terra, de um praser contagioso alta vertigem; por que retreme ao golpe das enxadas sob os meus ps a solitaria encosta? * * * * * Saude a vs, a vs louvor. Bemvindos, montanhezes, fieis aos priscos usos! O cntaro do estylo ahi est coroado, risonho e prestes a inundar os copos; o prmio vista vos redobre as foras. * * * * * Rasgae co'o duro ferro a terra dura; de vossos paes a matta veneranda em torno de seu santo antigo dono se accrescente por vs. Plantae, que tempo, no cho, sagrado de suor devoto, presente annual, que o Ceo prospre. * * * * * Onde quer que elle jaz, abenoemos as cinzas do homem bom, l d'essas eras que a pia usana introduziu primeiro. Quanto a sua virtude era risonha! --Cada solteiro plantar n'este ermo mais uma arvoresinha de anno em anno, que l em cima encontrar seu premio. Oh! estes rogos, sim, este pedido, doce e desint'ressado, unco respira; manda mais do que as Leis; morrer no deve. * * * * * Produz, produz a miudo, Natureza, por teu bem, por bem nosso, homens como esse. Haja quem diga ao joven par, que s aras sobe apenas amante, e desce esposo: --Hoje, que so j fruto esp'ranas de hontem, entrae sorrindo pelo cho da vida; plantae, plantae um'arvore que o lembre. * * * * * Quando a cabana festival se enrama, se enflora a meza, e os aldeos visinhos veem festejar na casa um filho novo, a mo paterna, de praser tremendo, orne de um novo tronco o prdio avito. * * * * * Depois de suspirada e curta ausencia volve um irmo das terras estrangeiras? Convalesce um parente? Em bem se acaba suado, volumoso, eterno pleito, que empobreceu o av, o filho, e o neto? Fizestes o adversario amigo vosso? Sorriu-vos a ventura? farto o anno? A srdes Reis, alreis monumentos; que vale um monumento? O homem dos campos melhores pode erguer a menos custo: plante sobre o caminho arvores frteis. Por elle o passageiro ardendo em calma ache a sombra hospedeira que o recreie. Por elle o pobre, que seu po mendiga de casal em casal, de monte em monte, que no v ceo, nem lar onde se aquea, nem feno onde descance, e em todo o mundo s tem por patrimnio a caridade, ache a fruta a pender em curvos ramos, a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe. Assim, do bem de um s germinariam mil bens communs; e do praser de um homem o publico praser, publicas benos. II Se tendes de nascer, nascei mui breve, sensiveis coraes a quem Deus guarda, a gloria de influir eguaes costumes. Desde j nossas lagrimas de affecto correm por vs; ao seio do futuro ns vos lanamos desde c louvores. III Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos aqui se embebem na tarefa honrosa, sentemo-nos sombra, a vs bem grata, do carvalhal que as vossas mos plantaram, homens das cans, antigas testemunhas dos tempos que no so. * * * * * Vs, deputados das mortas geraes aos vivos de hoje como preges propheticos; thesoiro de saudades, de dor, de experiencia; bons velhos, vossa alma taciturna aprazem mais que a festa os pensamentos. * * * * * Falae: d'onde vos nasce essa tristeza profunda a um tempo e vaga, amarga e doce? Ser de enfeitiada sympathia que nos attrai terra, ao cho da vida, cho sempre cubiado e sempre ingrato? * * * * * O corao, zeloso da existencia, compara os dias seus do tronco aos dias, e a conta desegual o opprime e o fecha. Annos a ns, e seculos aos bosques!... Planta o pae, mas a sombra hospda os filhos; netos, que no ver, gosaro d'ella; e indiff'rentes incgnitos vindoiros riro contentes ao folhudo abrigo. * * * * * Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio dispe arvore frtil de esperanas, que ir legada aos filhos de seus filhos. Prophecias de amor lhe expande o seio, sorri, e ama o que seu, na esp'rana ao menos. Mas feliz egualmente o que em seu predio possue vaidoso um tronco hereditario. * * * * * Na rga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto, como ha-de no pensar em seus maiores? Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram; Como ha-de recusar-lhe uma saudade, um suspiro, um suffragio, um elogio? A gratido medita mesma sombra onde j meditra o amor paterno. Esta arvore mortal o santo marco, em que se juntam, se entrelaam, crescem, dos idos o interesse e o dos vindoiros; n de affeio, que os seculos reune. * * * * * Vedes vs essa me, que ha tantos annos chora um filho alem-mar, em longes terras? Mostrae-lhe um passageiro a dar vella para o porto feliz; com que ternura lhe no dar, chorando, um longo abrao, que leve, que lh'o entregue, ao seu querido, e todo o amor de me lhe exprima n'elle!... E com quanto alvoroo o desterrado no cingir o amavel mensageiro!... Eis o emblema da arvore, cruzando viva e lembrada o Oceano das edades, mensageira de int'resse aos paes e aos filhos. IV Qual de vs, repoisando n'esta cama de folhas mortas, qual de vs, no meio d'esses troncos musgosos, seculares, no viaja com o espirito espraiado por esse mundo antigo e antigos homens? Sim, vossa alma se apraz, phantasiando de lhe restituir quanto houve d'elles: uma vida, uma choa, herdade e patria. Deslembram cans; rugosas faces riem; reviveis n'um minuto annos de infancia sob a affeio de um pae, de um pae nos lares; sem cuidados, sem prole, e sem temores, entrais folgando o limiar da vida. Podesse n'este ponto o pensamento, como ave em ramo flrido e viscoso, deter-se a recordar, ficar pregado! Vs suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho, e a extincta gerao recai nas campas. * * * * * Mas qu? d'esses antigos plantadores nada mais resta alm de uns troncos mudos n'este universo movedio e instavel? nem uma s lembrana, um dito, um nome? Tudo passou sem mnimo vestigio, como os sons leves de um descante ao longe. ........................................... V Bons aldees, estas sombras regaladas vos falam nos avs; porm comigo, comigo, extranho, e novo em meio d'ellas, conversam no aureo tempo a que assistiram; recordam-me as edades do Universo, e os varios povos, e os paizes varios, contemporaneos do nascente mundo. * * * * * Intonsas, invioladas, venerandas, outras selvas, como esta que nos fecha, fecharam do homem a primeira origem. Sob as verdes abbadas immensas as velhas tradies nol-os descrevem pobres e alegres, ns e satisfeitos, saboreando em ocio a glande e a fonte, dormindo sobre a folha, e sem pedirem outra casa, outro templo, outra cidade. * * * * * A pouco e pouco o numero crescia, minguando a pouco e pouco a singeleza. Infecta o vicio terra; os ceos se mudam; a um Maio eterno as estaes succedem; o ar se gela e accende, alaga e silva; j bravejam lees, j bramam tigres; o homem se acoita ao seio das cavernas. * * * * * Vs, troncos, at ali seus companheiros, acuds a servil-o; e em quantos modos! l, crepitais em rtila fogueira; aqui, das feras prohibs a entrada; dais uma clava ao caador valente; na servial cortia um bero aos filhos; leitos a amor, assentos velhice, aos enxames um lar, um copo s festas. * * * * * Das precises ao grito, o engenho acorda; l surgem povoaes, curraes, tugrios, e uma capella s rusticas deidades. L rompe o novo arado a terra dura; l geme, a transportar enormes pezos, o carro, e sulca atnitos caminhos. O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo; a rudeza se pule; as artes crescem; a especie racional das mais triumpha. * * * * * As geraes do ceo, do mar, da terra, tudo j seu; os campos lhe obedecem; faltava o Oceano; affoita quilha o rasga. * * * * * Ento foi, que estas arvores, to uteis no patrio continente, abriram vo sobre o liquido abysmo a novos climas. * * * * * E em que parte do globo, arvore excelsa, te podes presentar, que no recordes uma faanha, um culto, um gro successo? * * * * * Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta que foste invicta clava em mo de Alcides; v-te, suspira, bate o cho raivando de achar-se escravo, e de no ter-lhe as foras. Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta do arvoredo Dodnio as mil respostas, o passado e o porvir patente a todos, e o livro do destino aberto ao mundo. * * * * * Na Ausnia? Mas Cybelle amou teus ramos; Roma os sagrou a Jove; e, fulminada, eras tremendo agoiro a todo o Imperio. Em Roma? E a c'ra civica? * * * * * Nos campos? E Phlmon, o justo, o caro aos deuses? * * * * * Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros tu, s, eras o altar, o deus, e o templo. * * * * * Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos, sobre os cumes, beira das torrentes? L tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos, reunidos na vespera do sangue em nocturno festim que allumiavas, quando na harpa dos bardos reviviam os feitos dos heroes do antigo tempo. * * * * * Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos de Sichem. Vejo os principes e os velhos, os juizes, as tribus, apinhar-se em torno ao tabernculo de Sila. Por cima d'este mar ondeado e vivo reina de praia em praia alto silencio. Sublime como o cedro do deserto, se levanta Josu, brao do Eterno, em nome do Senhor, que o manda e inspira; os favores do Ceo recorda ao povo; renasce a F; os idolos se arrazam; --Gloria ao Deus de Israel!--vozeia a turba-- ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos! --Erga-se um monumento,--exclama o chefe-- que, se infieis um dia os esquecerdes, vos envergonhe, e acorde os votos de hoje. E a monumento pe no logar santo enorme pedra sombra de um carvalho, que abrigava co'a copa o santurio.[7] Despede o Povo, e em paz contente expira; em paz, que j no v perjrios novos. * * * * * Escrava de Madian a plebe expia, na miseria e no opprobrio, os males torpes que fez ante o Senhor. Mas inda existe um justo, a quem Deus fie o libertal-a: Gedeo, o Josu segundo.[8] Este, em quanto seu pae lana aos caminhos medroso olhar espera do inimigo para fugir com elle, ajunta pressa o trigo que limpou. V de repente um Anjo, que debaixo do carvalho se assenta, e lhe repete a lei do Eterno. Esse mesmo carvalho testemunha da belleza do alado mensageiro, da voz de salvao mandada ao Povo, e do holocausto acceito e posto em cinzas, e do altar, a quem _Paz_ foi dada em nome. * * * * * E este, que to frondoso opca os valles, por que o rodeia um bando taciturno dos fortes de Galaad? as suas armas jazem quebradas; sua dor vai funda; dos olhos tristes para o ceo voltados pelo rosto amarello lhes escorre grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas. Choram Saul, e a rgia descendencia, que mortos no combate aqui descanam. Para o Monarcha agigantado e invicto nenhuma esttua se erguer na campa. Sua columna e funebre palacio preparou-lh'os com tempo a Natureza: o tronco, rei da selva, o est cobrindo. * * * * * Mas quanto mais tocante o que se eleva nas faldas solitarias da montanha! Ali Dbora jaz; ali Rebecca chora na morte a que a nutriu na infancia, ama no corao, me nos extremos, de seus primeiros e ultimos segredos confidente fiel no lar paterno, querida socia na feliz viagem, e no lar conjugal seu doce allivio. Arvore a tanto affecto consagrada na affectuosa Biblia ir sem nome? o _carvalho das lagrimas_ lhe chamam. VI Que uso to doce aos coraes piedosos! Reverdecei, costumes do bom tempo, quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem, tinham sob um ceo livre a sepultura. A Morte, menos barbara do que hoje, com avarenta mo no ferrolhava sob um tecto pezado, entre altos muros, as prezas, c de fra em vo pedidas. No era um templo um crcere de mortos. Dormiam mollemente em terra franca, em jardins frescos, em copadas selvas. Esta esp'rana adoava um pouco o amargo do ultimo trago aos labios moribundos. Este bem, to pequeno em mal to grande, quanto valor no tinha aos que ficavam! O irmo, o pae, o filho, o amigo, o esposo, podiam livremente, a toda a hora, ir regar de seu pranto amadas cinzas, fartar saudades, inflammar lembranas, delirar doce a noite, e o dia inteiro, e de praser a um peito onde palpitam supersties de amor ou de amisade, dizer: Este tapiz relvoso o cobre; esta ave lhe gorgeia; esta aura slta o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes; a primavera m'o visita, e espalha tambem por cima d'elle o seu regao; esta violeta sua, hei-de colhel-a; d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte, nutre-se do seu p, vive por elle, elle mesmo em parte; arvore amiga, recebe o nome caro, hoje sem dono, toma os abraos que no posso dar-lhe. * * * * * Sim, sim, convm um bosque s sepulturas. A arvore, Deus a fez como passagem do mundo que respira ao mundo inerte; commum co'os animaes, commum co'a terra, vive e no sente; habita e ignora o mundo, sympathisa co'a morte e co'a existencia, grata s cinzas, saude grata. * * * * * Que frreos somos ns, que a um como vago atiramos sem d perdidos, mixtos, o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso! Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros arrojasse o que os seculos pouparam, bronzes, escritos, marmores romanos, ou, derrotando porticos, columnas, theatros, colliseus, palacios, templos, em serra inutil amontoasse as pedras, quem no vertra em lagrimas o sangue? E ante a nossa affeio teem menos pezo que as ruinas de Roma as que so nossas?!... D-se tanto aos ditosos, aos contentes, espectaculos, jogos, aureas festas, jardins, parques!... e aos miseros que gemem, e aos peitos melanclicos, viuvos, ha-de negar se um canto onde pranteiem!?... De tanto mundo que pertence aos vivos nada dareis aos seus antigos donos? nem um torro perdido, e uns troncos nullos?!... * * * * * Quando vir um dia, em que estes bosques, semeados de tumulos no altos, de lugubres saudades se povem? Ento, a propria Morte, hoje to scca, ter sua grinalda; a dor, seu gosto; e visitas o p, e cultos o ermo. * * * * * Pelas noites mui placidas do estio, ao duvidoso alvor da lua incerta, bello ser, sentado n'este sitio, ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos, o do casal, o morador na aldeia, entrar chorando, e procurar seus mortos. Aqui duas irmans resam de joelhos sobre o seio materno sepultado. Aqui o velho attento as contas passa pelos dedos convulsos, e se encosta, sem o saber, na fallecida esposa. O filho aos ps da me co'os mais solua o Padre-Nosso apenas aprendido. Deitado ao lado do submerso amigo, o amigo devaneia antigos annos. Por toda a parte, as lagrimas e affectos, memorias doces, oraes e esp'ranas. * * * * * E a quem no conviria egual retiro? N'elle a tristeza encontraria um pasto; a sciencia, reflexes; o vicio, escolhos; a leviandade, assento; a desventura, consolao; o amor, silencio e pranto. Ensaira-se o infante para a vida; o velho, para a morte; o moralista viria achar unco para a verdade; o orador, persuases, ternura, encantos. * * * * * filhos da montanha, oh! libertae-vos de um preconceito vo; toda a terra a terra do Senhor; afora o vicio, debaixo d'este ceo nada profano. A beno do Pastor consagraria vosso asylo feliz; e a Cruz em meio todo de um santo influxo enchra o bosque. VII Mas, em quanto esses dias vos no raiam, bons velhos, vigiae que, de anno em anno, aos juvenis futuros plantadores, em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo. Cresa com seu favor por estas serras a gerao dos vegetaes gigantes. Com todos vs conversam todos elles sem cobrir campas; guardam-vos saudades, so parentes de todas as aldeias, e o braso da montanha o vosso parque. Sobre tudo influi que a vossa raa trema ao s nome do brutal machado que ouse violar a veneranda herana. O que s Deus medrou, s Deus derribe. * * * * * Crde-me (eu j vi outras) vossa terra descrida, enteada Natureza. Cumpre a vs adoar-lhe o aspecto agreste, amiudar-lhe no oceano ermo dos ares estas ilhas, virentes, graciosas, que espalhem primavera pelos montes, que attriam as volantes caravanas do rouxinol, da rla, e da andorinha. VIII L em baixo a casa humilde que branqeja, entre os alegres pltanos e o templo, quasi que pasma, e se entristece e encolhe, de ver em torno a solido to vasta. Como que est pedindo... ao menos bosques; no tem outros jardins, outros passeios, que offerea a seu dono, o Pastor vosso. Preparae desde j para o futuro sombras novas aos novos successores, e refrigrio estivo s cans do velho. Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio. Mil vezes sua voz reconhecida rogar paz ditosa aos vossos netos, quando, serena a mente, e slta a vista l frem divagar, ora embebidos nos psalmos, nos poeticos arrojos, ora admirando o Autor e o N dos mundos, no largo azul dos ceos, no alto dos troncos e no zumbir e no voar do insecto. * * * * * Surgi! surgi! L jazem as enxadas. Velhos, surgi! La voltam triumphantes, findo o novo trabalho, os vossos filhos. Agora espumem copos, sem risos, exulte a dana, alonguem-se os cantores. Conquistastes o inculto Natureza: forstel-a a sorrir, a ornar-se em festas. Toda a vasta planicie, hontem to erma, que povoada vai j! como promette lembrar ao vosso gado, s vossas filhas! UM VELHO Sim, dar sombra e vai povoado o valle: mas fosse eu rico, e lhe dobrra encantos. SEGUNDO VELHO E como, irmo? O PRIMEIRO No alto d'este oiteiro, d'onde se avista o mar, o ceo, a terra, poria uma capella, e um San-Mamede co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo; nas mos o cajadito, o alforge ao lado, e o seu rafeiro ao p todo soberbo co'a colleira escarlate, e todo amigo a lamber o seu Santo. bom que os altos se c'rem de capellas, que levantem o pensamento aos Ceos, no campo espalhem devoo e piedade, e aos peregrinos ensinem o caminho e a vista alegrem. UM PASTOR Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques, que haviam de temer, nem ces nem gado? Nos degraus da capella, sombra inquieta, longas sstas sonhramos de amores. TERCEIRO VELHO J l vo o bom tempo e os bons costumes; foi-se a abundancia e os coraes piedosos. Esses fundavam templos, como o nosso, n'um rido deserto; e hoje.... se estala no campanario um sino, em ocio eterno fica mudo a pender dos braos podres. IX Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria, serei eu quem consagre o vosso oiteiro; no a Mamede, no ao pastor martyr, mas contrita amavel Peccadora. No valem mais as lagrimas que o sangue? Mais que heroico valor no nos commove doce humildade e penitencia longa? E de mais: se s asprrimas proezas vos no destina o Ceo, todos nascestes captivos frgeis de amorosas culpas. Muita virgem no monte solitario tentada pelo amor e pelo amante, s com ver a capella ha-de livrar-se, e pela salva flor dar lhe-ha mil flores. E quando aqui errantes missionarios vierem dar, e sombra dos carvalhos, as turbas apinhadas instruirem, que persuases, que lagrimas, que exemplos ho-de tirar da veneranda Imagem!.... * * * * * Qual me ri j na mente o gro projecto! Eu serei pois o fundador de um culto que aos frutos da moral reuna flores. Sim; quem tolhe o prazer puro e innocente? ........................................... X Partiram. E eis-me s. Todos partiram. O alvoroo do entrudo os chama aos lares. Oh! Bemdita a ignorancia d'estas serras! O rustico inda ri na Patria em luto, e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro. Bem sabe elle que lagrimas aos mares d'este horizonte em roda esto correndo! Sabe elle que o atro dia menos atro? A paz, a confiana, as alegrias, a abundancia, a unio de antigos Lusos, no deixaram, fugindo, um s vestigio. No vaivem das faces, que se entrevencem, tudo se perde e esquece, afora a raiva. Os bons usos, as festas populares, a romaria alegre, as patrias danas, vo-se apagando... Aqui, mesmo na brenha, a pastora, esquecendo os seus amores, canta a questo dos Reis, o hymno da guerra, sons novos, que o seu gado e o ecco extranham. * * * * * Patria, bella Italia do Occidente, tu que egual a Parthnope repoisas debaixo da invejada laranjeira e do mirto florido, ao deleitoso ruido de aguas limpidas, no abri de um ceo inspirador to proprio ao genio, bella Italia do Occidente, Patria, era pois fado teu lidar sem fruto para seres a inveja, a flor das gentes?.... A guerra, sim, te coroou co'as palmas das quatro partes do orbe, e as naus do mundo trouxeram a teus ps thesoiros, sceptros. Mas as flores das artes, mas os frutos das sciencias, no cho dos outros povos com tanto custo e com suor medrados, espontneos no teu medraram nunca?... Tiveste nunca os dons, que em paz florentes ornam e absolvem da conquista os loiros? Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas, hoje ainda, aspirar eternidade!!... Talvez bem perto os seculos se cheguem, que ho-de ver cego arado andar lavrando tuas cidades de esquecido nome, e o rebanho indiff'rente apascentar-se sobre os teus tribunaes, theatros, praas. * * * * * V-te o sol com praser; deixa-te a custo, Lusitania, que borda do Oceano brilhas qual deusa em majestade e em graa. Deusa, e immortal, te crram; mas tu jazes entre tropheos em p, lavada em sangue. Deshonrada Clepatra, inda s bella, mas j nas veias te circula a morte. Ai de quem nutre as spides no seio!... * * * * * Patria, Patria, com que voz to baixa, com que pejo te exprbro! Ah! se podres, perda meu furor, v s meu pranto; Patria, me, misera querida!... * * * * * Que ouvi? longinquo estrondo! que seria? Som de espingardas!... Sim, talvez... so homens que nos matam irmos... Alerta!... oimos... .............................................. IX O SAN JOO NAS FALDAS DO CARAMULO Dia em que o Poeta plantou por suas mos um cedro no pateo da residencia parochial da Castanheira do Vouga (FRAGMENTO) .......................................... Se, de teus annos na madura fora, a mo que te ora planta inda fr viva, essa mesma, j trmula e caduca, no tronco te abrir, com pio exforo, graciosa capellinha, onde sorria um San-Joo, o Santo alegre do ermo, trajo de pelles, juvenil frescura, olhos nos Ceos, aos ps cordeiro branco. * * * * * N'essa noite poetica e devota, em que o praser, centuplicando aspectos, pova, anima, encanta o mundo inteiro, agua e terra, ar e ceo, tudo macio, em que a velhice, a mocidade, a infancia, sympathisam no vago da alegria; quando n'alma insaciavel de delicias se juntam, com mistura inexplicavel, ao saudoso passado, aos bens presentes, as mil vises do esplendido futuro; quando em lao phantastico se aggregam da vida e eternidade os pensamentos, gosos, supersties, fraquezas, cultos, qual ramalhete de cipreste e rosas na caprichosa mo das feiticeiras; n'essa noite, das noites invejada, a ti concorrero por toda a parte, t das aldeias do horizonte extremo, danantes bandos que a viola guia. * * * * * Vers girar seus bailes clamorosos em redor das estrdulas fogueiras; ouvirs os seus cnticos em cro devoto e ennamorado. A bomba foge, zune fugindo, e sollapada estoira; o buscap no ar caracolando morde n'um, morde n'outro, ameaa a todos, dispersa os grupos, gasta-se raivando, e entre os risos rebenta atroando os ares; ali circula em vrtice perenne a roda leve espadanando incendios, chovendo oiro luzente e estrellas alvas; aqui floreia o flgido valverde, vesuviosinho que arremette s nuvens; arranca o vo e vai rugindo aos astros o ignvomo foguete estrepitoso. * * * * * E a musica entretanto! e as doces falas! e os protestos de amor! e a prece occulta! e essa mo dada a furto e a furto acceita! e esse olhar falador! e essas virtudes da meia-noite em ponto! e a flor crestada! e as sortes que a fortuna extrai s vezes, e muitas mais a prvida malicia! e a fonte que amanhece entre descantes, e pasma rindo de se ver coroada de festes verdes e entranadas flores! Que noites, que alegrias, que triumphos, te aguardam no porvir, me esto na mente![9] ............................................ X O MOSTEIRO Vs, que sois do amavel sexo ardentes adoradores, que girais de bella em bella, qual leve abelha entre as flores, que sabeis n'um s momento a mil deusas incensar, e pareceis de ternura no poder-vos saciar, mancebos, o mundo vosso; mil bellas o mundo tem; mas no choreis as que sombra repoisar das aras veem. Se um jardim, flordo, immenso, encontrais na sociedade, que importa que poucas rosas lhe furte a mo da piedade? poucas rosas, que dispostas vo depois na solido lanar mais doces perfumes, seguras de extranha mo. Vagae, vagae livremente nos jardins da Idlia Venus; segui as Nymphas e as Graas pelos seus bosques amenos; os prazeres vos rodeiem, os jogos em torno vem; a mocidade vos ria; espssas rosas vos c'rem; que falta aos desejos vossos? ah! soffrei, sem murmurar, ver d'entre os vergis flordos poucas pombas desertar, poucas pombas, que innocentes, e temendo o caador, vo nos ermos solitarios buscar um fado melhor. Do Libano opacos cedros, de Sio bosque tranquillo, vs, palmeiras de Iduma, prestae-lhes seguro asylo. Estranhas vistas no turbem os seus piedosos segredos; contentes sombra vivam dos sagrados arvoredos. Silencio, paz, e ternura, alva estrella de innocencia, e a vista de um ceo risonho, lhes doirem toda a existencia. Murmrio de castas fontes, perfume de simples flores, lhes paguem jardins que infestam os abutres e os aores. Eu vos lamento e vos chro, insensiveis coraes, que de um mosteiro entre os muros no vdes seno prises. Crae da vossa loucura. Correi a ver de mais perto o Eden recatado ao mundo no seio d'este deserto. Modestas virgens o habitam, que s no teem liberdade de colher em frutos de oiro as festas da sociedade. Segui-me, segui-me affoitos, entremos. Abriu-se o templo. Seus ermos, ao mundo ignotos, inteiros d'aqui contemplo. No vdes sobre os altares com graa engrupadas flores lanar torrentes de aromas, brilhar co'as mais vivas cores? N'esses prados invisiveis tambem pois se eleva a aurora; sol, e zephyros, e fontes, lhes do sorrisos de Flora. Essas pois, que vs julgaveis desgraadas prisioneiras, teem praseres, teem delicias, teem jardins, so jardineiras. Vde ornar formosa Imagem rico manto que fulgura, de oiro e sedas matizado com vistosa bordadura. Vde a grinalda florida; vde o ramo; estes jasmins, estes lirios, estas rosas, no so j de seus jardins. No devem sua existencia nem terra nem ao Ceo, e nem zephyros nem fontes serviram no augmento seu. Formou-as arte engenhosa; poude mais que a Natureza; deu mais vida s suas flores; prestou-lhes egual belleza. Sabeis, que mos feiticeiras obraram prodigios taes? eis o trabalho e os recreios d'essas piedosas Vestaes. Ellas no cro apparecem; e, ao som dos orgos divinos, de sua alma aos Ceos se elevam devotos brilhantes hymnos. Innocentes e macias, d'estas vozes a mistura sem perturbar os sentidos infunde n'alma ternura. Em seus canticos no reina terreno vulgar affecto; mais puro, mais sublime de seus amores o objecto. O pensamento que as ouve, sai da trrea habitao, deixa os ares, das esphras atravessa o turbilho, v do Empyrio as portas de oiro abertas humanidade, rompe audaz, vai submergir-se no fulgor da Divindade. Cessa a musica, e de novo volve a mente ao patrio mundo; mas dos virgineos desertos primeiro se arroja ao fundo. L divisa, em liberdade, nas livres tranquillas horas, dadas a cantos diversos estas formosas cantoras. Na sombra d'aquelles bosques, n'aquelles molles passeios, tambem pois das Musas entram os aprasiveis recreios. Olhae por fim seus aspectos, No vedes vs a bondade, a alegria da innocencia, as virtudes da piedade? Eis os Genios que lhes tornam encantadora a existencia: as virtudes da piedade, os praseres da innocencia. A amisade entre ellas reina; os encantos da amisade no prestaro, por ventura, delicias soledade? Mas basta, insensatos, basta; scena se corra o veo; no profanem vossos olhos mais tempo os trios do Ceo. Ide no mundo esquecel-as, em vez de as irdes chorar; e o vosso mundo vos baste, como lhes basta um altar. Mas esperae; respondei-me; consultae vosso interior: sois ditosos co'os sorrisos de um falso inconstante amor? Sabeis vs o que amor seja? Satisfaz-se o corao com esses fogos incertos, e essa eterna agitao? No vir talvez um dia, em que, mais sabios, queirais unir os vossos destinos melhor d'entre as mortaes? Como a haveis de achar no mundo, no mundo, cujos enganos vs conheceis, ajudastes, seguistes, por tantos annos? Tremereis de um lao eterno. A vossa pena consiste em pensardes que a virtude que no tendes, no existe. Ento aqui vos espero, n'estes quietos retiros. Estes muros que insultaveis, ouviro vossos suspiros. Entre estas virgens mimosas, que severa educao forma, longe dos humanos, sombra da solido, viris procurar o objecto, cuja ternura innocente vos deve tornar a vida risonha, pura, e contente. No detesteis um recinto, onde Amor, onde Hymeneu, onde um Genio, amigo vosso, vosso thesoiro escondeu. Pensae, pensae que ali vive, cresce em virtude e talentos, e em graas, aquella que ha-de doirar os vossos momentos. Qual arbusto delicado, que a viosa louania mostrar em seu proprio clima, em seu proprio ceo, devia, mas foi por mo inimiga trazido a estranhos logares, onde murcho cederia a influxos de infestos ares, se da estufa compassiva lhe no fosse aberto o seio, onde vegeta e floresce de arbustos eguaes no meio; ali no receia as neves; no treme da tempestade; gosa o sol; vive no mundo, vivendo na soledade; de extranhos somente visto; tem louvor; cubiado; mas das flores, mas dos frutos, no jamais despojado. Mil vezes feliz, mil vezes, quem ousa, luz da verdade, queimar a mscara d'oiro s larvas da sociedade! Medrae, sagrados mosteiros; medrae, desprezando a inveja; jamais fulminar-vos possa calumnia que em vo troveja. Brilhae, como ilhas flordas, no meio do mar profundo de vicios, crimes, e horrores, que alaga, que abrange o mundo. Sde o asylo das virtudes, do Eden a propria entrada, o enlace dos Ceos co'a terra, do Empyrio a sublime escada. Coimbra--1826 (?) XI SANTA MARIA EGYPCACA (Fragmento de um poema) ......................................... Prostrada aos ps da Cruz, ante a caveira, jaz solitaria a Egypcia. Rios descem de olhos lindos, que os ceos fitar no ousam, * * * * * To nova, e isenta? Oh! no; mudou de amores. Dos primeiros s guarda a dor e as penas; mas os novos, os ultimos, protesta conserval-os em vida, e em morte havel-os. * * * * * T aqui, pela alma escura s lhe ardiam relampagos dispersos; derretido raio dos Ceos lhe ca pelas veias. * * * * * Brilhou no mundo como a flor de um dia. Os soes vivos, os ventos importunos, lhe ameaavam fim; ruins borboletas captivas da belleza iam murchal-a. Imprevisto invisivel jardineiro a tempo a salva, e a transplantou no ermo. * * * * * No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava imprvida e leviana; hoje pranteia na solido, mas sob um Ceo que a espera. As cidades, em que dolo brilhra, inda a chamam em vo, e em vo a aguardam. De um lustro que a houveram, quantos lustros lhe volveram saudade! * * * * * Em vio de annos, e mais bella que as flores todas juntas das dezassete suas primaveras, qual fugaz sonho de manhan de estio, foi-se, e no voltou mais, Deus sabe aonde. Murcharam festas; esmorecem danas; os banquetes, diffusos pela noite, j no veem despertar ternura e risos. Nas roseiras intactas se desfolham os botes das grinaldas; o alade, que falou tanto amor nas mos da bella, discorde jaz, e mudo... * * * * * Ella, entretanto, co'os mimosos ps ns calcando areias, desornado o cabello, envlta em pelles, timida, envergonhada, pesarosa, vai caminho do Ceo co'a fronte baixa. Mil vezes avesinha se compra, sem famlia, sem lar; corre erradia; no ha-de ambas manter a paz que de ambas? Beija a caverna frgida que a hospda, e agradecendo este hrrido paraizo ao Deus que lh'o depra, esquece o mundo, ou sem saudade e com horror o aviva. * * * * * Ai corao to amplo, onde estuava mar de affectos sem conto, escoado agora, quem o ha de encher? em solido to funda! quem o ha-de encher? J o enche o que enche tudo, o que brilha na luz, no sol, nos astros, corre nos aquiles, anima os troncos. * * * * * S conversa com Deus, e a Deus s ouve. Este seio, estas tranas desatadas, so brinco s do vento do deserto. Esta mo, to mimosa e to querida, s procura, excavando a terra ingrata, a amorosa raiz, ou j se encurva para dar agua aos labios sequiosos. A aurora a vem saudar j de joelhos. No ha um sol, no ha na noite um astro, que no saiba os seus ais e eternas preces. Nem que passe o chacal, a hiena, a ona, foge, ou quebra os devotos exercicios. Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos; e a Estrangeira no treme; ora, e descana. * * * * * Ao fresco desmaiar da extrema tarde, quando os raios do sol j mal doiravam da longinqua palmeira o incerto cume, que vezes, assentada, e sustentando na eburnea mo o pallido semblante, atraz do astro fogoso e fugitivo, mandava o corao, mandava os olhos! * * * * * --Alm--dizia--alm, n'esse Occidente, corre o santo Jordo delicias minhas, que o Salvador banhou, que eu passei mesma. Talvez aquella nevoa que l brilha, mudada em rosa, em purpuras, em oiro, seja da santa veia alegre filha, Alm... Jerusalem, Sio, Juda... * * * * * E a taes nomes, enxames de memorias, de saudades, de affectos, lhe adejavam pela alma, alegre em parte, em parte escura. Raro, mas inda s vezes lhe assomavam no involuntario somno ideias meigas. Inda, uma vez ou outra, o amor banido entrava de relance o antigo alvergue, e apz elle os passeios namorados, os theatros esplendidos, as galas, as mezas rindo, os bailes desenvltos; e as victorias, e as chusmas dos praseres, como sua rainha vo saudal-a. Acordava sorrindo, a Cruz fitava; e atirando se terra, e slta em chros, pagava erros no seus com dor bem sua. * * * * * Taes se lhe vo no ermo deslizando dias e annos, sem ver na areia impressos mais vestigios que os seus. * * * * * De tempo em tempo, s v talvez, ou ver presume ao longe, do horisonte nas sombras pavorosas, o tnue p da immensa caravana, que vai de Alpo Mka em certa estrada. Por ella ora, e entre o orar lamenta a devota fantica impiedade. * * * * * Tal vai manando a limpida existencia. Egual ao ramalhete que desmaia, e se esflha no altar entre os perfumes, tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note, perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia encantos, j seu mal, e mal do mundo. O juvenil das formas exteriores concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas se esconde um corao de amor no farto. * * * * * Quem a tivesse visto, e a visse agora, sentiria o que sente o viajante, quando, perto d'ali, vai dar co'os restos, saudosos restos, da gentil Palmyra. Uma e outra j gloria do Universo; agora mudas, ss, e deslembradas, e socias no deserto, e eguaes no exemplo. * * * * * Meio seculo a viu prantear sosinha annos ligeiros da fugaz infancia. Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia o solitario Zzimo, como ella ancio virtuoso, e habitador das covas, que lhe oia a longa vida, a anime, e exforce; lhe d perdo e paz de um Deus em nome. * * * * * Pela primeira vez contente e alegre, ousando olhar os Ceos, --Trareis,--lhe disse-- pobre peccadora o manjar de Anjos? --Sim. E partiu. Com vista prolongada ella o segue; co'os olhos no deserto o espera todo o dia; e este to longo!... tarda tanto o bom hspede!... * * * * * Passou-se um anno inteiro. elle agora; elle; conheo o fraco andar que o zelo apressa, e as cans, e a calva, e as faces penitentes... * * * * * Chega; clama; a caverna no responde; grita, e s ouve a si. Olha em redondo, v-a jazer na areia, e a areia escrita por mo trmula, errante, ao que parece: Bom Zzimo, por santa caridade enterra o corpo da infeliz Maria. Aqui morri no dia em que te fste. Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague. ............................................ XII EPISTOLA Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio Deslandes (NO DIA DOS MEUS ANNOS) FRAGMENTO Em torno ao teu amigo esto fervendo, Deslandes meu, na hora em que te escreve, de uma festa caseira o rebolio. * * * * * Bem que alveje de neve o Caramulo, e um frgido suo de l nos venha, ninguem hoje de frio aqui se queixa. No descana nem p, nem mo, nem lingua; o sumptuoso lar arde em tres fgos; o forno se afogueia; a branca meza vai-se de loia e vidros alegrando. * * * * * Uma estuda em compr as sobremezas; outra enrama de loiro alta ferrugem das vigas da cosinha; esta, sizuda, de riscado avental e nus os braos, com importancia e afan revira esptos; aquella, anda scismatica, e raivosa de eu nascer em Janeiro, um mez agreste, que alm de um alecrim, de umas violetas, nascidas por engano, alm de rosas, frgeis, sem cheiro, e languidas, no cria com que se enflore a meza dos meus annos. * * * * * Porque , quando a sorrir divagam todos, quando s para mim se andam tecendo estas pompas domesticas, agora que a potente amisade em meu obsequio para tudo fazer at fez estros; agora, emfim, que aos raios da alegria no ha um corao que se no abra... por que se fecha o meu? Dar (no creio) da Natureza o luto um certo assombro s festas do homem? Pensas que enfartado d'esta patria amargura, a filtre aos gostos, qual vaso que azedado a tudo azda?... ............................................. 26 de Janeiro de 1833. FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA NOTAS DOS EDITORES AO VOLUME I DO PRESBYTERIO DA MONTANHA Da villa da Castanheira--No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam da Beira, a qual tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em correio o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja parochial da invocao de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que rende 600$000 ris, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguado, que consta de 100 visinhos. curado annexo egreja de S. Mamede, que apresenta o seu Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que fertilisam seus campos de po e vinho, e os fazem abundantes de todo genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios, Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivo da Camara, Juiz dos Orphos com seu Escrivo, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenana. (_Chorographia portugueza_ pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.--T. II, pag. 176--1708.) Castanheira do Vouga--Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de Coimbra, Comarca de Esgueira. da Casa do Infantado; tem 803 visinhos. Est situada em monte junto da serra do Caramulo. seu orago S. Mamede. Tem quatro altares; e o maior do orago; os outros so do Santissimo, de Nossa Senhora da Expectao, com sua irmandade, e outro de S. Jorge. O Parocho Prior, apresentao da casa do Infantado; tem de renda 400$000 reis. Tem tres ermidas, que so: a do Espirito Santo, a de Nossa Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastio. Os frutos d'esta terra so milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedo, Alfusqueiro, e Agueda. (_Diccionario geographico_ pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.) * * * * * Castanheira do Vouga.--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S. Mamede; o Parocho Prior da apresentao da Casa do Infantado; rende 480$000 ris; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos. gado--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria Magdalena; o Parocho Cura da apresentao do Prior da Castanheira; rende 40$000 ris; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102 moradores (_Portugal sacro-profano_--por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre Luiz Cardoso--Lisboa--1767--8.^o--2 vol) * * * * * Castanheira do Vouga.--Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140 fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da Comarca de Esgueira. da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha 400$000 ris. fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era cabea do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara, Escrives, e mais Justias. Passam pela freguezia os rios Agueda, Aguedo, e Alfusqueira. (_Portugal antigo e moderno_--por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal--Lisboa, 1874). * * * * * Pag. 11 lin. ultima Dapibus mensas oneramus inemptis Oneramos as mezas com iguarias no compradas; isto , vivemos, sem comprar, das nossas lavras proprias. Citao de Virgilio (_Georgicas_, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto : _....Sero que revertens nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis._ Isso faz parte de uma historieta que Virglio conta, e que vamos ouvir na traduco de Castilho: ......Alembra-me que outr'ora, l por onde o Galeso arrasta a veia escura por entre loiros chos de cereal cultura, junto Eblia cidade, a de torreados muros, conheci um corycio em annos j maduros, dono de uma chanzinha ali desamparada. O pobre do torro de si no dava nada: nem pasto para bois, nem para um fato hervinha. Sumitico de pes, escasso para vinha, era um saral fechado; e no saral, comtudo, o bom velho, a poder de diligencia e estudo, tinha hortalia rara, e emmoldurada em torno com seve de jardim para maior adorno, alvos lirios, verbena, e papoilas de prato. No trocra co'os Reis seu parco haver to grato. Recolhia ao casal j noite; e, que riqueza de iguarias de graa a assoberbar-lhe a meza! Pag. 18 lin. 3 Passmos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o voso rio de Bolfiar. Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeioamentos modernos, deram cabo da antiga viagem to pittoresca. Pag. 36 lin. 20 Uma especie de zimborio de doze palmos de altura. Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que primeiro se dedicaram ao estudo da triangulao do Reino. Pag. 37 lin. 3 Uma desconforme loisa inteiria horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra. Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas partes das Hespanhas, e acham-se estudados luz da sciencia moderna. Pag. 42 lin. 6 A Linguagem ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucdez. O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o seu constante amor vernaculidade. Veja-se nas _Excavaes poeticas_ o que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e um dos mais chapados classicos que elle jamais encontrou. Pag. 58 lin. 7 Lia, Rachel e Rebecca Lia era filha primogenita de Labo, e irman de Rachel. Achando-se Rachel ajustada para casar com Jacob, teve Labo astucia de lhe substituir Lia, apesar de menos formosa. Foi me de Ruben, Simeo, Levi, Jud, Issachar, Zabulon, e Dina. Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve Jos, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se conserva e mostra o seu tumulo. Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de Abraho, e teve por filhos Eza e Jacob. Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan, so encantadoras de singeleza e graa nas descripes que d'ellas nos deixaram os Livros santos. Pag. 72 lin. 15 Uma pobre mocinha ovelheira Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na sua _Chave do enigma_. Pag. 80, lin. 9 Filinto e o entrudo Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha Lisboa. Viva o meu Portugal! viva a laranja que derruba o chapeo! exclamava elle em Pars, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos Portuguezes, felizmente meio poldas j hoje. Pag. 82 linhas 6 e 8 Citaes latinas Essas duas so de Virgilio (_Eneida_, Livro I) _Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum; intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo; nympharum domus_. Isto : defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e l dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na rocha viva; verdadeira habitao de nymphas. Pag. 87 lin. 21 As rogaes de Maio Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado, fallecido no anno 475. Pagina 99 linha 23 O ubi campi! Recordao de palavras de Virgilio ao Livro II das _Georgicas_: _Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes; flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems Taygeta!......_ Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles; encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. Onde estais, campinas? onde ests, rio Sperchio, e tu, monte Taygte, habitado pelas alegres virgens espartanas? Castilho traduziu assim este trecho: Ento amar s quero os rios e arvoredos, de glorias desquitado. Ai, campos meus to quedos! ai ribeiras do Sprchio, oiteiros do Taygto, das virgens de Lacnia s rgias predilecto, onde, onde me estais vs?.... Pag. 102, lin. 10 Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem Verso de Ovidio, logo no comeo da elegia I do Livro I das _Tristezas_. Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal. Parte, meu pobre livro; irs sem mim, sosinho, correr na gran Cidade incognito caminho traduziu alguem Pag. 107, lin. 17 Zimmermann Joo Jorge Zimmermann, nascido em Brug, canto de Berne, a 8 de Dezembro de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doena, e deveu allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo Imperatriz Catherina, que em 1784 procurou attrahir sua crte aquelle luminar da sciencia. Elle pediu excusa, porque a vida mundana no condizia com os habitos que tinha creado o seu espirito; no se ofendeu a eminente Princeza, e conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu morrer-lhe entre os braos uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho. Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Alm de outras obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em 1756 o seu _Tratado da Solido_, onde todas as vantagens moraes do isolamento so defendidas com eloquencia e convico, e sem mysanthropia exagerada. Pag. 108, lin. 6 O Passeio publico e o Marrare Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico, riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar os habitantes da Capital. Ia desde a actual praa dos Restauradores at extinta praa da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo (hoje no jardim da Graa). O caf Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado. ADDITAMENTO Visto ser esta obra de Castilho dedicada memoria de seu bom irmo, pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermes que ainda restam d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as seguintes: I--O sermo de S. Pedro, ou da F; II--O sermo da esmola, ou da Caridade; III--O sermo nas exequias do senhor D. Pedro IV; IV--A pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja; V--Uns versos na _Primavera_ de Antonio Feliciano. -----File: 111.png---\-----------------[Blank Page] -----File: 112.png---\----------------- SERMO DA ESMOLA OU DA CARIDADE Prgado na 5.^a dominga da Quaresma de 1839 na S de Lisboa pelo Conego Arcipreste da mesma S, o Doutor de capello em Canones Augusto Frederico de Castilho _Jesus abscondit se, et exivit de templo._ Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo. De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de Jesus fra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido, deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu servio. Jesus vivo, e na occasio de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no templo. Jesus, hoje, por dois milagres de f e amor, por duas eucharistias, est no templo, e mais no mundo: no _templo_, encoberto no Sacramento; no _mundo_, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte o devemos servir com egual zelo. Orar todo o dia na egreja, e deixar fra d'ella morrer fome e ao frio os necessitados, no de christo; f morta. Soccorrer aos infelizes, sem crer (se tal possivel) n'Aquelle que elles representam, caridade morta; tambem no de christo. Vs pareceis christos pela f, pois que vindes casa de Deus; vs o pareceis, mas no o sois, porque essa f morta; cumpre que se resuscite pela caridade. Da caridade prgarei portanto hoje, ou antes da esmola, que a caridade pratica e activa; o christianismo na sua parte mundana, o culto do Verbo humanado aos olhos de todos, a religio de todas as religies, a philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os entendimentos, o dogma at para o atheismo. O objecto o mais accommodado s necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria vossa piedade, se vos exigisse a atteno. * * * * * Alma e corao, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a esmola. No creou a Natureza irmos privilegiados, e morgados na familia dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traa recndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros no carecessemos, no nos amramos; se tudo a ns mesmos referissemos, no framos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes, desentranhada de ns a beneficencia, origem de toda a sociedade, e purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradico apparente, que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus conselhos. Na Natureza, isto , na sua Justia, quiz que tivessemos uma norma de egualdade; na Providencia, isto , na sua caridade, que aprendessemos a restabelecer, quanto em ns coubesse, aquella egualdade primitiva por mutuos soccorros. O homem caritativo portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da Providencia, depositario e executor da Justia de Deus, transumpto e argumento de sua bondade e misericordia. O suprfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos pobres, e negar-lh'o ao mesmo tempo injustia e barbaridade, egual do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecnomo que converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a substancia do seu pupillo; ainda mais: declararmo-nos inimigos de Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra quella Providencia, cujos ramos dispensadores e supplementos; quella Providencia, que no consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenao do Pae Celeste. Tudo quanto de ns emana, ou em ns ressumbra bello, generoso, heroico, brota (no duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras, e accessiveis at aos mais faltos de discurso, no creou a caridade, seno que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a terra, lhe deu por beno que de todas as mais virtudes fosse ella semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos ficou independente de qualquer reflexo, affecto innato, instinto (por que o no diremos?), instinto moral. Ainda mais, senhores: no s a tornou o mais profundo, mas tambem o mais extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o corao de virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade, nol-a podesse tornar permanente. Oh! que maravilhosa no esta caridade, que em todas as edades, e em todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre, como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos, d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e persuade soccorros, at para entes que os no sabem agradecer, que os no requerem, que os no precisam! Tem a caridade, como as demais paixes, os seus excessos; momentos em que se no sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos; enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do amor e compaixo, tudo terno, tudo mavioso e consolador. Virtude de virtudes, virtude unica onde no ha excessos. Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras primas da creao. Ah! que se jamais se podessem tributar ao homem cultos, que s Divindade se devem, ninguem tanto os merecra, como esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no seio dos infelizes! Porm, meus irmos, no mistr uma brandura de animo requintada, para nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e procurarmos-lhes o remedio. Qual de ns, vendo padecer um animalsinho, morto de fome, transido de frio, desamparado s inclemencias de uma noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as suas dores, qual de ns se no sentiria profundamente condodo, no correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? Ah! e deixariamos no infortunio o homem? o homem, semelhante nosso, nosso irmo, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos, cuja felicidade to travada com a nossa, e cuja desgraa tem sido talvez effeito da nossa injustia, da nossa barbaridade? Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o corao... que digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores mais doridos da Natureza, ah! emquanto, ao redor de vs, se esto sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, que uso mais util farieis vs de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que l chovam, no cessa de clamar _affer_, _affer_, mais e mais), uns de vs, ricos do mundo, se contentam com a viso beatifica dos seus cofres; a sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o corao, e o conservam mais duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que amontoaram; em quanto outros, prdigos em excesso, como se os seus thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por luxos, por vaidades, sem moderao, sem ordem, sem destino, sem uma s utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim, parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella confiou nas suas mos, elles os despedaam e espalham, no s sem vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios, abysmaram a raso, destruiram as foras, aniquilaram a saude, anteciparam a morte, e.... ah! meus irmos, que de inquietaes, de violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade desgraada! Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o inferno! Maus ricos, vs sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de maldio, preo dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os dias se renova nos seus pobres, que vs entregais e desamparais sem piedade, com esses dinheiros de maldio, ides comprar um arrependimento esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a vingana de Deus, os tormentos eternos! Quantas injustias accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustia para com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos no queremos escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.--Injustia para com Deus, de quem recebemos esses bens, com a condio da caridade, e cuja Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e esmolas, desde que entramos no mundo.--Injustia para comnosco mesmos, a quem fechamos as portas de um co de deleites, em quem apagamos todos os sentimentos de virtude, a quem j n'este mundo excluimos de toda a felicidade.--Injustia, emfim, para com todo o genero humano, de quem nos afastamos, a quem no queremos pertencer, de quem at nos declaramos inimigos. E para onde fugiro os nossos olhos, que l no v a miseria publica perseguil-os? Nunca soaram to alto os gemidos dos desgraados, porque nunca a nossa immoralidade foi to barbara. Realisou-se sobre tantos irmos nossos parte grande das maldies, com que Deus, por bocca de Moyss, ameaava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das maiores povoaes, e at das cidades... Grande Deus! que multido e variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de po negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; quantas se no chamam poisadas e casas, que antes so covas, masmorras, ou jazigo de viventes! de quantos no cama a terra humida, e vestido o que nem lhes encobre a nudez! Tantos paes cercados de um bando de meninos, chorando e pedindo-lhes po! Tantos outros meninos, ainda mais infelizes, orphos de pae e me, que nada teem na Natureza, alm do sol que os aquece, e do ar que respiram, e comeam a conhecer to cedo a dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar por si mesmos com que supram as necessidades, ainda to mesquinhas, mas to pesadas para ns! Tantas viuvas sem proteco, em quem, sobre o desamparo e dr perptua da viuvez, accresceu verem os seus bens arrancados por crdores, e quantas vezes por ladres, debaixo do nome de crdores! Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores s suas foras, ou sua creao, ou aos seus annos, para sustentarem, com o suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes est derretendo e mirrando! Tantos enfermos expirando mingua, sem medico, sem tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console, que lhes suscite as ideias da Eternidade, e at sem um lenol que os amortalhe! Tantos privados dos olhos, dos braos, e do uso dos sentidos mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra especie pelos homens! Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um amigo, ssinhos em meio de tanto mundo! Mas que me cano eu a enfeixar o que no tem conta! E quando de taes miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, quantas outras no ficariam de fra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praas, com todos os seus clamores e penurias, no confessam ainda assim quanto a nossa especie est padecendo. Ha, em todo este exterior, um no sei que reflexo de verniz e doirado, um no sei que ruido festivo, um perfume de opulencia e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de co azul, uma vida e uma esperana, que so disfarce, e mascara da existencia do povo, real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua, deixam-se porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na bocca e faces o contentamento postio. Por fra andam os corpos em toda a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso _dentro_, nas entranhas d'esse infinito massio de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, esto chorando milhares de coraes, esto-se desesperando milhares de almas. Oh! se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se recrear, por esses caminhos to lageados de marmores, to ataviados de vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! oh! como de repente, semelhante a Phara, na estrada do Mar Vermelho, desabariam de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor! Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade, quantos pobres envergonhados que abafam soluos e gemidos entre as quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam insoffrivelmente, que de vezes se lhes no atravessam diante uns phantasmas de penuria, em frma j de mulheres, j de meninos, j de ancios, a quem a vergonha do sol no consentra sahir dos seus sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua, nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de que no soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mo a receber a esmola, e a abenoar a caridade; algum vos esconde um rosto, que, em melhores dias, tinheis visto brilhar luz da prosperidade. Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os dias, e no temem o aspecto da noite, porque j no podem ser mais infelizes, Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por ns, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem algum affecto ao corao gasto, algum pensamento fundo e importante alma dissipada. Felizes vs, os que entendeis estes avisos mysteriosos da desgraa, estas embaixadas solemnes do outro mundo! Felizes os que, em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro necessidade, com a esperana ao queixume, e com a commiserao a quem no cuidava que no mundo a houvesse! --Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que me desatinam, que me desesperam (dizeis vs), quem me abona a sua pobreza? e concedendo-lh'a, quem me affirma que no ella castigo da sua perguia, ou mau proceder?... Que vos importa? Se pde ser uma coisa ou outra, dae; antes lanar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma s vez a quem do vosso superfluo far o seu necessario, e talvez, se lhe recusasseis, padecra n'um dia o que vs no padeceis n'um anno, ou, para o no padecer, commttera crimes, que, depois de o perderem a elle n'este mundo, vos percam a vs no outro. E demais: vs, que to de repente sentenciais o desgraado que no conheceis, por que vos no sentenciar Deus, por esse mesmo facto, a vs? _Pde no ser pobre o que vos pede._--Sim, e algumas vezes se tem visto.--_Pde ter merecimentos para muito mais ainda do que padece._--Sim, que homem como vs, e com mais razo do que vs para aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso pde ser; mas examinastes vs se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a esmola por tal motivo, no tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a injuria? Ah! em quanto sentenciais uma alma que no conheceis, e condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, quanto mais razo no tem elle para condemnar a vossa alma, que vs mesmos lhe descobristes inteira com uma s palavra! Mas ainda vos concedo (perde-me Deus a concesso), que todos esses andam expiando peccados seus; so at criminosos e facinorosos; que nem um d'elles tem necessidade; so at abastados e opulentos; que todo o mendigo um salteador e um millionario. Estais contentes com a concesso, ou quereis mais? No podeis querer mais, porque o no ha. Pois bem: mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma pobreza processada e demonstrada, que vos no importunam nem se queixam, dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, no mereceram, nem poderam merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que no muito que o sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mes; ahi os tendes, que a Misericordia mesma no basta a amamental-os e vestil-os, e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vam a ir depr na presena de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se licito dizl-o) o da avareza, lhes concorrram para a morte. Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes. Ahi esto tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica, morreram, depois de to bem nascidos e esperanosos. Quereis mais? ahi esto os asylos da velhice, tambem e mais desvalida, onde os soccorros nunca so sobejos, nem sufficientes; porque muitos mais so sempre os que batem e choram quellas portas de refugio, que os que a estreiteza das posses consentem sentar-se l dentro meza do convite de Deus. Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos est o Senhor chamando o corao, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola. Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias. Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem falta po, lar, vestido, mundo, que o no conhecem, nem elle os conhece; militares que envelheceram nas armas e morrem mngua; viuvas e orphos de servidores do Estado, a quem se no paga, nem com esperanas. Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos politicos vencidos, em quem no mister longo exame para se reconhecer a desgraa, porque corollario evidente de causas notorias. A tera parte de uma edade do homem, dezanove annos, para no datar de mais longe, tem sido entre ns consumidos em dissenes e odios. Com successivos terremotos polticos, teem desabado as mais altas torres de fortuna; desappareceram abundancias afogadas entre runas; voaram arrancadas de furaces contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanas; os caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia, sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum dos filhos do pobre va dormitando em cche de oiro, e o ancio doirado, que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mo, da margem do caminho, clamando esmola. No se cuide, senhores, que eu condemno o presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios, que no so, para que assim digmos, nem do homem, nem da Natureza, nem de Deus, mas sim da mudana, da transformao da fortuna, da fortuna cega, que, no trocar das mos, quebra sem pejo, nem d, nem consciencia, o que depois todos choram e ninguem concerta. Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dres, que no vemos, pela peior de todas as cegueiras, que o no querer ver. E quando d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do corao, acordamos algum momento a este som _Esmola a este vosso irmo pelas chagas de Nosso Senhor Jesu-Christo_, j nos reputmos muito generosos, se em vez do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um _Deus o favorea_; e tornmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vos ou peccaminosos que traziamos; e l deixmos para traz a Jesu-Christo morto de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. Ah! que se o seu estado de abjeco os no obrigasse humildade nfima, se o uso de soffrer estas repulsas os no tornasse j meio insensiveis, se elles nos podessem retorquir, Qu! (nos responderiam) Deus que nos favorea? Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vs nos roubastes. Que o Senhor nos favorea? Quereis acaso tental-o? que elle obre em nosso favor um milagre desnecessario? que torne a chover o man do co, no sobre um deserto rido como aos nossos paes, mas sobre uma terra, que por toda a parte est cheia dos seus frutos e das suas ddivas? Esse man vs o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus far que se corrompa e apodrea. Que Deus nos favorea, deshumanos? Sim, sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que terieis na sua presena em serdes misericordiosos, elle os accumula sobre a nossa resignao; com os infortunios que nos accrescentais, e os prmios que rejeitais, se juntaro em nosso favor aos prmios de que a sua misericordia nos achar dignos. Ah! meus queridos irmos, que se em nossa dureza fossemos capazes de entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias podem dizer que no teem pae, tantos orphos de pae e me, tantas viuvas desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos enfermos, tantos cgos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a significao das suas dres e desalento, que uma reprehenso amarga da nossa barbaridade para com os nossos irmos, da nossa ingratido para com Deus; acharamos, sim, acharamos at n'esses lamentos, a expresso propria com que devramos deplorar ns mesmos a dureza, antes ferocidade, dos nossos coraes. No s, meus irmos, as nossas liberalidades atalham todas estas miserias, mas ainda vo precaver muitas desordens. Aqui uma pobre rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Co a dotra das qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a obra do Co, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da opulencia, um libertino j vibrou olhos trpes e vidos para o santuario da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. J abriu os seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque; frustrou-se. No importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seduco, de mos dadas com a indigencia... no vencero cedo ou tarde? Chegou emfim esse dia; venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e a desgraa que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre victima. Ali jaz, n'um arrependimento j tardio e inutil para o mundo; ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a desgraar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que d'antes, porm mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ficou-lhe ao menos um refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que tanto mereceu. Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia, seriais sempre um anjo to bello de virtude. Se a caridade te houvesse a tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde vivias to innocente e bemquista de Deus e dos homens, no se teria afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da tua felicidade? Alm um moo, que, canado da dureza dos homens, comea a no conhecer as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito prover por si mesmo, e a todos os despeitos, sua conservao.--Todos esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) so felizes; eu no quero a sua felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.--Levado assim pelos raciocinios errados do vicio, ou s por um instinto que lhe bafejou a injustia dos homens, comeou por pequenos furtos; passou a maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade; zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e acabar em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos olhos dois futuros que o tero muitas vezes feito estremecer: um carcere perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas correspondentes, em si e na sua durao, a crimes de que nunca se arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituio. E quando elle passar para o patibulo, vs fechareis talvez as vossas janellas, e direis: No tenho corao para taes espectaculos; como se esse mesmo corao no fosse o seu peor algoz, o que o conduziu quelle passo affrontoso! N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade, mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas esperanas, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o atraioaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se v precipitado n'uma desgraa a que no prev termo na sua desesperao, insulta o Co, blasfema da Providencia, e, se lhe no accudis, quem sabe se ir (como tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um lao, por onde arranque uma existencia que o importuna! E a caridade e a ternura no podero ainda aqui obrar um novo milagre? fazer-lhe rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? abrandar-lhe o corao? obrigl o a bemdizer a Providencia, e abenoar o po com que lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda? Oh! meu Deus! que doces prerogativas no dstes vs s almas generosas e humanas! Se entre os prprios pagos alcanava uma croa o que salvava os dias do seu concidado, que honras no merece dos outros homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida infeliz! que os reconcilia com o Co que j suppunham surdo e injusto! e que at previne com os seus soccorros a desordem e excessos da miseria que lhes arrancariam os meios de salvao! Ah! meus irmos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem real esta doce obrigao da esmola, segundo a razo e humanidade, que mais fortes motivos no tem o homem christo, para ser esmoler, segundo as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade no so para ns simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; no so o resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas vieram no s confirmar, mas dar ainda, se possvel, uma extenso muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religio natural nos havia imposto. Segundo o systema religioso do Christianismo, por quantos modos, at indirectos, nos no persuadida a caridade! O Padre derramou sobre ns todo o thesoiro das misericordias do Co; creou nos entes os mais perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual nos formou (pelas suas proprias mos, dizem as Escrituras); no s nos adornou de todas as graas que perdemos na desobedincia de nossos paes, mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma habitao commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo, essas estaes que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o somno que nos restaura as foras, os prazeres que nos lisonjeiam os sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do corao, so outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos beneficios. Na sbia disposio com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o grande systema da Natureza, no nos deu Elle uma grande lio de caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeaco successiva e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas terra em chuvas, a terra s fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo se conserva, se reanima, se restaura. D'esta mesma sorte, no s as grandes pores da Natureza, mas ainda os seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes existencia dos outros. assim que, por toda a parte envolvidos pela Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas, no s nos no devemos resvalar a uma condio inferior da propria materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto nos devemos considerar como entes, cuja conservao mais importante para a manifestao da gloria de Deus. O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia, desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de felicidade nas suas doutrinas, d-lhes a esmola de todo o seu sangue, lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Co e a terra. O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de santificao, e nos accode com esmolas continuas, desde que abrimos os olhos, at que deixamos o mundo; pelo baptismo assenta os nossos nomes no livro da vida; confirma-nos e augmenta-nos depois esse perdo; repete-o tantas vezes quantas offendemos o Co; sustenta-nos com o manjar dos anjos; e accode-nos at com remedios temporaes, hora em que as portas do carcere se vo abrir, e a alma slta reverter sua origem. Mas no s pelo seu exemplo e meios to indirectos nos persuadiu Deus a esmola; no uma simples recommendao, um dos preceitos mais rigorosos:--_Ego proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et pauperi qui tecum versatur in terra_: Sou eu, o teu proprio Deus, quem te ordena, que abras a tua mo ao necessitado e ao pobre, que lida comtigo sobre a terra. Esta lei to clara, to precisa e absoluta na sua letra, ter acaso todos esses caractres que devem sempre manifestar-se em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e seja o proprio Deus quem nol-a interprete. _justa e necessaria_: necessaria muito mais ainda para o bem espiritual dos bem-feitores, do que para o commodo temporal do soccorrido. A esmola, segundo Jesu-Christo, um acto de Religio, conjuntamente com a orao e jejuns; pois rigorosamente um meio expiatorio; um commercio que temos com Deus por meio do nosso proximo; uma agua copiosa (diz o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio das nossas iniquidades; uma santa usura, em que trocamos bens superfluos e temporaes por bens inapreciaveis e eternos; so thesoiros que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali esto sempre clamando ao Co em nosso favor; so bolsas que nunca teem de se estragar nem de esgotar-se, que nunca nos sero roubadas nem podem ser consumidas; um seguro para o dia da afflico; finalmente um arrimo a que nos soccorremos para no cahir. Mais: _util_, considerada mesmo temporalmente para quem a d. O Espirito-Santo o disse tambem nos Proverbios: _Aquelle que der ao pobre, de nada carecer; aquelle que desprezar as suas supplicas, cahir tambem na pobreza._--Eis aqui, meus irmos, eis aqui patente o terrivel segredo da vingana divina, quando aniquilla tantas fortunas que pareciam to solidamente estabelecidas: _Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil inanes_. Sim, porque as maldies, ricos do mundo, que o pobre vos lana em segredo, na amargura da sua alma, so ouvidas com todas suas imprecaes, por Aquelle que o creou, e que nunca d'elle arredar os seus olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho, sereis manhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos thesoiros; _et sepultus est in inferno_. E se as vossas riquezas vos so consentidas, muitas vezes para que principiem o vosso inferno no mundo. Se pareceis prosperar, para que a vossa quda seja mais espantosa, ou para que os vossos descendentes, que no so culpados nas vossas iniquidades, no experimentem a punio da vossa dureza, e recebam juntos esses bens a que iro dar um justo emprego. Ah! meus irmos, dizei me: vistes vs, pelo contrario, que homem algum se arruinasse jmais pelas suas larguezas com os pobres? No antes uma verdade, confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as familias de mais caridade so as que mais teem prosperado? Sim, sim, o Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os prophetas: Se derramares toda a tua misericordia sobre os necessitados, e encheres de consolao almas que gemiam na afflico, a tua casa se tornar como um jardim sempre regado, e a tua prosperidade ser to perenne como a fonte que a todos offerece os seus licores, e por mais que a bebam nunca se esgota, nem cessar de correr. E o Redemptor no disse ainda mais expressamente: _Date et dabitur vobis_? No compara elle a retribuio com que o Co ha-de corresponder s nossas liberalidades, com uma medida avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os lados, que se nos vasar para o regao? Oh! no duvidemos: os bens do misericordioso, repartidos pelos infelizes, so o azeite e a farinha milagrosa da santa viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a Escritura, comeu ella e a sua casa; e desde aquelle dia nunca lhe faltou a farinha no pote, nunca o azeite do vasinho se diminuia. Vde, depois d'isto, que multido de benos as Escrituras no veem chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o Senhor lhe d uma longa vida, o faa feliz no mundo, o livre das mos dos seus inimigos, o allivie no leito da sua dr. O que dispersar os seus bens pelos pobres, viver de seculo em seculo na memoria dos homens, abenoado ser o seu nome, e n'elle se despontaro as settas envenenadas da calumnia. _Justitia ejus manet in saeculum saeculi. Exaltabitur in gloria. Ab auditione mala non timebit._ Que significam tantas promessas, meus irmos, tantos premios, tanta abundancia de benos, as glorias do Co e da terra, tudo cumulado sobre o homem benefico? Que sacrificio to importante se vai exigir d'elle? a que lances heroicos o querem persuadir? que perdas soffrer que cumpra contrabalanar por premios de to alta valia? Exige-se-lhe a mendicidade e a miseria, em que viveram os Apostolos e o Redemptor? um exterminio de todas as paixes? uma abnegao de todos os prazeres? as mortificaces da penitencia? a constancia e morte gloriosa dos martyres? No, no. Pede-se-lhe s amor e provas de amor para com seu irmo; pedem-se-lhe s lagrimas e po para os infelizes. No se lhe intima que d, com prejuizo seu, at o ultimo boccado d'esse po, mas empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graa, para lhe pedir s as migalhas superfluas da sua meza. Grande Deus! que generosidade incomprehensivel a vossa! Remunerardes como sacrificio uma virtude, e acceitardes como virtude o que nada custa ao corao! Accumulardes os vossos prmios sobre os prazeres mais doces da consciencia! Considerardes em mais do que homem a quem s cumpru com deveres da humanidade! Avaliardes em tanto um superfluo, que trasbordamos para o seio do desgraado, quando j nol-o havieis dado com essa condio! Acceitardes, finalmente, esses bens frageis, temporaes e caducos, esses bens que s devemos vossa liberalidade, como moeda correspondente em valor ao preo inestimavel dos vossos thesoiros infinitos! Mas d'estas elevadas contemplaes, em que todos nos deveriamos abysmar, vs me chamais, meus irmos, vs me fazeis descer s profundezas da vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um segredo bem importante. E no adivinho eu quaes teem sido, desde que enunciei o thema e objecto do meu discurso, os pensamentos de muitos de vs, da maior parte, ou antes de quasi todos os que me escutais?--Feliz (exclama cada um de vs, no seu corao) feliz de mim, se eu podera soccorrer o meu proximo, que a to bom barato me veria de posse do Co. Porm Deus no me destinou a mim esses premios e benos; e se a esmola fra um meio indispensavel de salvao, eu me perderia sem remedio, no por minha culpa, mas por culpa da fortuna. Todos os meus bens escassamente chegam para a minha sustentao e da minha casa.--Assim pensais; assim buscamos pretextos para illudir todos os preceitos at os mais terminantes e expressos da Religio. Mentis a Deus, aqui, na sua presena, dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa propria crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypcrita do phariseu do Evangelho, e lanais de travez os olhos para os ricos, que ahi esto comvosco. Folgais talvez com a sua confuso; e a doutrina da caridade, a doutrina de tanto amor, s serve de despertar em vs a insolencia, o desprezo, e o odio. No permitia Deus que a sua preciosa semente se perca d'este modo; que s a acceite um pequeno torro de terra, e que em vez de produzir os bellos frutos do Senhor, a maior parte do seu campo, ou quasi todo elle, continue a s desatar-se em cardos e espinhos. Afugentemos as aves d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e no consintmos que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por mais pequeno, da sua terra. Todos vs podeis dar a esmola, todos, sem excepo, vos achais obrigados a ella; e esta universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o seu segundo caracter de lei. Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a outra do corao. To longe vai, pois, a esmola como a caridade; e para podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos possuir um corao. No tendes dinheiro, mas tendes po com fartura? Reparti-o por tantos famintos. Escassamente vos chega o po, mas tendes algumas roupas superfluas? Cobri com ellas tantos ns. Nada tendes hoje? Promettei para manhan; enchei de esperanas o seio vazio de todas as consolaes. So a caso insignificantes os bens que vos restam para os frutos da caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que deis s um copo de agua fria a um dos mais pequenos do mundo, lembrando-vos de que elle meu discipulo (vos diz Jesu Christo); este s copo eu vos affirmo que no ficar sem recompensa. Nada tendes que dar? Reparae bem: Nada tendes que dar? Lanae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a vossa fortuna. Nada tendes que dar? Se no mentis ao desgraado, se na verdade vos achais privado de todo o genero de haveres, ainda possuis muitos bens em que no reparaveis. So os que existem dentro do vosso corao. Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre todas as feridas dos vossos tristes irmos. Sois ainda mais rico com o vosso corao, no meio mesmo da miseria, do que os ricos sem elle, afogados nos seus thesoiros. Consultae esse corao; ouvi como um oraculo as suas respostas. Que vos demorais? Segui todos os seus impulsos. No tendes com que soccorrer o indigente? Correi morada do rico. Entrae affoitos. Pintae-lhe as miserias do seu semelhante. Mostrae que s os interesses da humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os vossos olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae as eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos corvos de Elias, voae choupaninha faminta do deserto, com o po e com a carne, que vos deu essa Providencia, que assim soubestes interessar. No tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o trabalho dos vossos braos. Advogae perante o poderoso a causa do fraco. Desfazei os enredos e calumnias, que ennegreceram vosso irmo, que lhe roubaram todas as proteces. No tendes que dar! Congraae o homem com o homem, a familia com a familia. No tendes que dar! Visitae tantos desgraados, que gemem por esses carceres; persuadi-lhes a paciencia, e a resignao evangelica; confortae-os com palavras doces, com esperanas consoladoras. Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com mo carinhosa, os remedios; animae-o com os vossos sorrisos, e fazei que troque os suspiros da sua dr e do seu desalento em suspiros de ternura, em expresses de confrto; que veja os Cos abertos, e que goze antecipadamente de premios, que, se no fosseis vs, talvez no tivesse de possuir. No tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a tantos meninos, e ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de vosso proximo na presena, assim como na ausencia. Ajudae-o com as vossas oraes. Nada tendes que dar! Nada tendes que dar! Ah! ainda tendes lagrimas. So as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca se esgota para um christo. Tomae a vs uma parte do seu infortunio, e elles ficaro menos oppressos. Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do oiro! De quantos e quantos modos, no sabe reproduzir-se a beneficencia! Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia, porque elles alcanaro misericordia. Eis aqui as benos e os premios do Co, recahindo sobre todos vs, sem excluso de um s. Ahi vos tendes to ricos, aos olhos do Senhor, como esses ricos, cuja dureza lamentaveis, a cujos bens vos promettieis dar um melhor emprego, se os possuisseis. Quem vos detem? por que no correis a praticar essas obras de misericordia, que podeis? a merecerdes essas benos e premios, que ha pouco ambicionaveis? Qu! J se vos affrouxa o zlo! Sim, o zlo, que murmura, que reprehende, que insulta nos outros a infraco dos deveres, em quanto os julga alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por mais injusta contradico, as fraquezas, que no perdoamos no mundo, sendo em ns, j as sabemos desculpar; e quantas vezes no passam de desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razo, se a humanidade, se a justia, se a consciencia, se os interesses do mundo, se as benos do tempo e da Eternidade, se todos os premios de Deus, emfim, nada podem comvosco, possam-n-o, ao menos, as suas ameaas, castigos e maldies, que vo constituir a sua lei perfeitamente obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter. Recusais a misericordia de Deus? J no tendes que escolher. S lhe ficaram as vinganas. Affastae-vos, santa familia de infelizes. Pobresinhos do Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover fogo e colera do Co. Para alm, para alm, o vosso refugio, dextra do Eterno Padre. _Venite ad me, omnes qui laboratis, etc._ No vos tinha elle dito que os vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as humiliaes se lhes converteriam um dia em triumphos? Sim, sim, famintos, sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos, jubilae! Vs nunca cessastes de ser os seus filhos muito amados. Eu vou reassumir todos os thesoiros (vos diz elle) que a minha Providencia repartira pelos vossos barbaros oppressores. Eu lhes havia dado mais altos meios do que a vs mesmos de alcanarem a minha gloria, de alcanarem a menos custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, s serviram de os fazer ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o vs, meus pobres; frutos que eu vou recolher e guardar para sempre no meu seio; elles foram arvores estereis, que, dominando toda a sementeira, a aoitaram com os ramos, a damnaram com a sombra, a devoraram com as raizes; infecundas e nocivas eu as arranquei em meu furor; eu vou lanal-as ao fogo. Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no incendio eterno, que foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu tive fome, e vs me no dstes de comer; eu tive sde, e vs me no dstes de beber; fui peregrino, e no me recolhestes; nu, e no me vestistes; enfermo e encarcerado, e no me visitastes. Todas as vezes que despedistes, que calcastes os pequenos do mundo, a mim, a mim o fizestes. Ah! meus irmos, possa esta sentena de maldio estampar-se hoje com letras de fogo e indeleveis nos vossos coraes. Este Jesus escondido nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fra dos templos, coberto de remendos, macilento, prostrado debaixo do pso de tantas cruzes, um rei de majestade, um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda a sua clera, e de cujas sentenas nunca poderis mais appelar. Oh! compadecei-vos d'elle, soccorrei-o emquanto o-vdes pobre, cahido e humilhado, para o no experimentardes depois, senhor altivo e vingador. Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o corao me-diz que esta semente no ser perdida, e que teris hoje ao menos soccorros e consolaes. Pois bem, Senhor. A Vs, recorremos hoje, que ainda tempo. Aqui promettemos soccorrer-vos com o que vosso, a Vs, meu Jesus pobre; a vs, cahido, a vs humilhado, para vos no experimentarmos depois accusador, testemunha, vingador e inexoravel. Antes que nos-accendais esses fogos de maldico, j era nossos coraes temos accezos outros, que muito mais so vossos: os da caridade. modlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em trno da meza do vosso banquete celestial, aonde se assenta o opulento Salomo a par do Lazaro mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador arrependido com o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos sbre o vosso seio; e n'um abrao de eterno amor nos-apertae a todos sbre o vosso corao paternal, por todos os sculos dos sculos. Assim seja. INDICE I--A primeira noite na serra 5 II--O sepulchro, ou historia de uma noite de S. Joo 11 III--Epistola a Joo Evangelista Pereira da Costa 41 IV--O Presbyterio 43 V--A lyra do desterrado 49 VI--Epistola a 51 VII--A romaria 53 VIII--O Domingo gordo dos montanhezes 55 IX--O S. Joo nas faldas do Caramulo 77 X--O mosteiro 81 XI--Santa Maria Egypcaca 91 XII--Epistola ao Desembargador Deslandes 97 Notas ao 1.^o volume 99 Additamento 107 Sermo da Esmola ou da Caridade 109 EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora [Figura] LIVRARIA MODERNA 95--RUA AUGUSTA--LISBOA *Notas:* [1] Verbi gratia na quinta da Domanderes. Nota do autor. [2] Descreva-se aqui n'uma nota o encontro que hoje tivemos com o gallinheiro de Santa Cruz junto ao Val da Gallega, que quiz descarregar uma espingarda em mim e no poeta, julgando-nos ladres, pelas muitas perguntas que lhe faziamos sobre o que levava etc. etc.--Nota do secretario Augusto. [3] A Castanheira do Vouga, Bispado de Aveiro, Comarca da Feira, a uma legua de Agueda. Nota do autor. [4] A traduco de parte de Silio Italico pelo Padre Francisco Manoel do Nascimento (Filinto Elysio.) Nota do autor. [5] Traduco da escolha das Fabulas de Lafontaine pelo mesmo. Nota do autor. [6] (O poema desappareceu, ou nunca chegou a escrever-se.) Nota dos Editores. [7] Josu--cap. XXIV [8] Juizes--cap. VI. [9] Foi este fragmento publicado na _Revista Universal Lisbonense_ de 19 de Junho de 1845--Tomo IV, pag. 582. Os Editores. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ | Volume I | | | |#pg. 20| a m | alm | |#pg. 33| o salto) | o salto) | |#pg. 56| lnes | lhes | |#pg. 69| fescenino, | fescenino, | |#pg. 94| acompapanhal-o | acompanhal-o | | | | | | Volume II| | | |#pg. 45| dextra no | dextra mo | |#pg. 113| tarrestres | terrestres | +----------+---------------------+----------------------+ End of the Project Gutenberg EBook of O presbyterio da montanha, by Antnio Feliciano de Castilho License: Share Alike