Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) Ramos-Coelho Ilha da Madeira LISBOA Empreza do Occidente 1898 ILHA DA MADEIRA Ao nauta que do mar tempestuoso Vem dos baldes asperrimos cansado, Tu te mostras, ilha feiticeira, Como, depois de somno fadigoso De horriveis pezadellos, Um dia delicioso, Todo alegria e festa e raios bellos, Um claro dia pelo sol doirado. Se isto hoje d'est'arte, O que seria d'antes, Quando te desvendaste a vez primeira Da nevoa e do mysterio em grande parte vista dos pasmados navegantes! Que, no bastando ainda estar perdida No meio do oceano, Por seculos dos homens escondida Em recondito arcano, Tu, qual donzella candida e medrosa, Que do banho sahisse, E a nudez, vergonhosa, De alvo cendal cobrisse, Em manto de neblina te embuavas: E at do mar, que s plantas te gemia, E at do proprio sol, que te queria, A virgem formosura recatavas. Porm chegou o dia Pelo Eterno marcado, Em que, apezar d'esquiva, Te rendeste captiva Do sol da nossa gloria viva chamma, Ao generoso brado Do grande Henrique de perpetua fama, Quando, assim como do Sinai o monte, Sagres de raios coroou a fronte, E, desmedido pharo, Ao marinheiro ignaro Fez dissipar as trevas do horizonte. Pandas as brancas velas, Atravessadas pela cruz de Christo, Eis no liquido argento As fortes, portuguezas caravellas Correm ao sopro do inconstante vento. Assim na edade-media a Europa ha visto, Assignalados por egual emblema, Passarem os guerreiros Asia, para em rabido combate De annos e annos inteiros Dar ao sagrado tumulo o resgate. o mesmo o nosso thema: A f; tambem o oriente procuramos, E, como elles, tambem a amiga espada, A par da cruz, intrepidos levamos A uma outra cruzada. Ruem os furaces; troam os ares; plumbeo o co; das lobregas entranhas, Quaes liquidas montanhas, Volvem-se em desespero os torvos mares. Pelas ondas corridos, Os pequenos baixeis tragam a morte, J quasi submergidos; Porm no desanima a gente forte. Invoca a soberana potestade, Que a protege de ha muito, e a praia ignota, Na escura cerrao da tempestade, Compadecida, lhe dirige a rota. Alando as mos a Deus, inda molhadas Das ondas salitrosas, A maritima turba lh'agradece As terras deparadas, As vidas tanto a pique assim poupadas, Com palavras piedosas, E murmura esta prece: Senhor, se, como outrora do teu povo Os passos pelo ermo encaminhaste, A este porto santo nos guiaste, D-nos, d-nos ainda um signal novo, Outro maior signal de teus favores; Teus filhos tambem somos; s asperas fadigas, Ao bravo pego, s armas inimigas Por ti s, pela patria nos expomos; Faze que esta primeira descoberta, Que o dom d'esta ilha esteril e deserta Seja seguido d'outros dons melhores. Dizem; abaixam da cerulea altura Os olhos; e, ao baixal-os, de repente Vem longe sahir de nevoa escura, Que mais e mais se torna transparente, Uma viso da phantazia ardente? De um monte a sobranceira catadura? Eia; ao mar; o Senhor nos presta ouvidos; Temos f que verdade essa apparencia, No devaneio apenas dos sentidos. da sua clemencia Quem sabe se o signal; ao mar corramos. Bradam; soltam ao vento a larga vela; J chegam; j de todo a alva neblina Aqui, ali, se esvae ou se adelgaa, E mostra, meio occultos, com mais graa, Flores, verdura, emmaranhados ramos, Uma terra to bella, Que mais semelha appario divina, Ou cahida do co fulgida estrella. Assim aos denodados portuguezes Appareceste, ilha da Madeira,[1] Para os avigorares nos revezes; Assim aos olhos de No outrora, Depois das grandes aguas, Appareceu o arco da alliana, Entre elle e Deus, o iris da bonana, Que do diluvio o confortou nas maguas. Sim, tu foste a esperana, Que Deus, nossa empreza favoravel, Nos amostrou para nos dar alentos, E, atravez do luctar dos elementos, Cumprirmos nosso fado incomparavel. D'aqui, cheios de arrojo, ns partimos, E d'Asia, e d'Africa e do Novo Mundo Em grande parte as plagas descobrimos, E pelo pgo fundo Em roda o globo co'os baixeis medimos. Como s bella! Da Grecia conhecida, Tu serias de Venus a morada, Ou fra, ao ver-te assim do mar sahida, A nascena de Venus fabulada. Ficara a tla dos Jardins d'Armida, Sendo feita por ti, mais bem pintada, E a descripo da Ilha dos Amores Realariam mais os teus primores. Todos, uma, os povos te namoram; Mas a todos te mostras insensivel. Embalde os filhos de Albion te exoram, Te chamam Flor do Oceano immarcescivel. Nossos antigos os primeiros foram; Por outrem nos deixar no te possivel. Do co, dos mares e de Deus face De ns comtigo se firmou o enlace. Por seres to fiel, to portugueza Mais ainda te estimo, ilha formosa; Mas por lao diverso anda a ti presa Minh'alma: da existencia trabalhosa Com risos esmaltaste-me a tristeza, Na quadra, embora amarga, descuidosa Da passada, inexperta juventude, Quando uns dias viver em ti eu pude. E agora que de ti me tem distante O logar e dos annos a carreira, Phantaziu-te ainda mais brilhante, Vejo-te mais ainda feiticeira, Que me recorda teu florir constante A minha primavera passageira, A minha to querida mocidade, E s para mim um echo, uma saudade. Lisboa 1808. [1] S por conveniencia poetica se tornou aqui immediatamente successivo ao descobrimento da ilha de Porto Santo o da ilha da Madeira, quando, segundo a opinio mais assente, foram distanciados um do outro pelo espao de alguns mezes, se no de um anno. End of the Project Gutenberg EBook of Ilha da Madeira, by Jos Ramos Coelho License: Share Alike