Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido existncia de erros tipogrficos neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Ago. 2009) VESPERAS DO CENTENARIO AS OBRAS DOS JERONYMOS PARECER Apresentado Commisso dos Monumentos Nacionaes Em sesso de 7 de Novembro de 1895 pelo seu Vice-Presidente LUCIANO CORDEIRO LISBOA Typographia--CASA PORTUGUEZA--Papelaria 139--Rua de S. Roque--141 1895 VESPERAS DO CENTENARIO AS OBRAS DOS JERONYMOS PARECER Apresentado Commisso dos Monumentos Nacionaes Em sesso de 7 de Novembro de 1895 pelo seu Vice-Presidente LUCIANO CORDEIRO LISBOA Typographia--CASA PORTUGUEZA--Papelaria 139--Rua de S. Roque--141 1895 I Destinada, em 28 de dezembro de 1833, a parte conventual do edificio dos Jeronymos installao da chamada _Casa Pia de Lisboa_, vinte annos passados um Provedor benemerito, de quem todos nos lembramos ainda:--Jos Maria Eugenio d'Almeida,--entendeu dever acompanhar a radical reforma d'aquella instituio asylar com a das velhas e desconcertadas casarias em que ella pouco confortavelmente se alojava. Parallelamente com as necessidades hygienicas e disciplinares do pio internado, determinava-lhe o generoso impulso outra idea, no menos generosa, decerto, mas antes recebida do que germinada, talvez, n'aquelle espirito caracteristicamente pratico:--a de melhor conformar e adaptar grandesa e feio esthetica da parte primitiva do Monumento, pelo menos o aspecto architectonico e decorativo do resto da vasta edificao. Da extraordinaria associao d'estas ideias,--mal definidas e reflectidas, ento, nem mais definidas, nem reflectidas melhor at hoje,--derivaram as _obras_ que se teem ido fazendo e desfazendo desde 1863, sob as denominaes improprias at ao absurdo, de restaurao e de reconstruco dos Jeronymos:--to pouco reconstruco que comearam por desfazer a continuidade do Monumento;--to pouco restaurao que demolindo grande parte do que existia, e at do que era mais que provavel que existisse desde a fundao primeira, foram essas obras ensaiando, sem estudo e por phantasia, o que no podera ser a traa e o aspecto originario, nem, em tempo algum, a fabrica integral e harmoniosa do edificio na sua inteno e na sua significao singular. Disparatavam, irrecusavelmente, desde a raso e inspirao inicial, os dois objectivos que se pretendia fazer mais do que paralellos, convergentes, fora de engenho e sem olhar a despesas:--o de uma installao asylar para um milheiro de creanas orphanadas e desvalidas, e o de uma suposta restituio artistica da grandiosa e historica construco em que continuasse a habitar e a affirmar-se a idea que n'ella fundira a f e a arte nacional no seculo XVI. Mas desde o comeo se aggravou, ainda, esta manifesta irreflexo e inaptido de propositos, no impeto indisciplinado, e depois na malograda teimosia da execuo. Podera suppr-se, creio at que muita gente suppe, realmente, que o Monumento se achava truncado ou ficara incompleto;--que nada mais existia do que o Templo, ou que alm d'elle, n'essa extensa linha de fachada onde principalmente se teem feito e desfeito as _obras_, smente existiriam, quando ellas comearam, ruinas incaracteristicas, dispersas, inuteis. Tal no era, porm. Independentemente de muitas outras memorias graphicas ao alcance de todos, ha juncto da colleco de documentos que supre ou representa o processo official das construces novas, um desenho de planta e alado immediatamente anterior iniciao d'ellas em 1863.[1] Essa iniciao consistiu, at, em demolir a maior parte do que existia a occidente do Templo, em natural continuao d'elle, e o que existia era o complemento, a concluso original, necessaria, historica do Monumento:--o Mosteiro. claro que o Mosteiro abandonado e arruinado; mutilado, aqui; deformado, alem; cheio de entumecencias ridiculas e de tapumes ignobeis; esfuracado por janelltas banaes; remendado a retalhos de classicismo pedante; muito differente, naturalmente do que fra,--e quem sabia e quem pensou o que fra? Em summa: uma agglomerao de casarias como succede, e qualquer pde ver, ainda, em quasi todas as edificaes conventuaes que as geraes fradescas, as conveniencias de occasio, o gosto e as ideas dominantes das diversas epocas vo successiva e arbitrariamente truncando, sobrepondo, adaptando sua imagem e semelhana. Mas tambem,--e sempre o mesmo facto que todos teem tido occasio de observar,--atravez d'essa massa confusa, d'essa especie de estratificao secular, rompem aqui ou ali; resistem n'um ou n'outro lano; triumpham e impem-se, at, n'algumas linhas, com uma authenticidade soffrivelmente nitida, flagrante, os elementos, os membros da primeira construco ou das mais antigas e genuinas feies architectonicas e decorativas. Isto devia succeder, e realmente succedia nos Jeronymos. Logo no simples relance do conjuncto,--pois que felizmente possuimos o alado anterior s obras,--os vinte e oito gigantes eguaes e equidistantes que se alongam e trepam a cortar as linhas superiores da fachada, terminando em pinaculos que parecem enormes busios estylisados;--as vinte e sete largas arcadas de ogiva que podemos chamar abatida;--os altos corpos de passadio ladeados pelos mais elevados d'esses gigantes e quebrando graciosamente a linha geral da platibanda;--os proprios troos rendados d'esta ultima: pde bem dizer-se que nos obrigam, apezar de todos os cortes e remendos, a reconhecer e reconstruir idealmente a velha e forte carcaa d'aquella parte do enorme edificio. Essa parte, especial theatro das novas construces fantasistas, era evidentemente constituida por uma especie de extensissima galilea[2] em arcaria ogival abatida, seguindo o eixo E. O. da nave central do Templo, como que continuando esta, e sustentando, em toda a extenso, a casaria conventual, caracteristicamente uniforme e simples. Reforavam e dividiam toda a edificao os gigantes mais altos, em cinco grandes corpos que outros menos largos e mais elevados ligavam, n'um mesmo plano, recortando superiormente, em grega simples, a estructura geral. Para a singular galilea ou alpendre abria a porta ou portico considerado pela architectura official, a entrada principal do Templo, e n'ella ajoelhava o Regio Par,--Dom Manoel e a mulher, que la esto ainda,--como se tivessem vindo frente dos Descobridores regressados dos longicuos horisontes do mar, por aquellas arcarias dentro, trazer Virgem do Restello a nova e o agradecimento do desencanto da India.[3] Ali junto, no angulo sul, erguia-se a Torre dos sinos que havia de chamar os Jeronymos s oraes do ritual; lembrar aos mareantes que partiam a confiana em Deus e na Patria; saudal-os alegremente na chegada das asperas navegaes e campanhas: uma torre singella e pratica, to tradiccional e symbolica como toda esta disposio architectonica, em edificaes monasticas do seculo XVI. Isto que era. Isto que devia ser. claro que tudo isto fra violado, invadido, mais ou menos mascarado pelas reconstruces e sobreposies successivas, como ficou dito j. As arcadas haviam sido entaipadas, abrindo-se no tapume pequenas janellas quadradas e cerrando-se o recinto da galilea; deformara-se a ligao superior do Mosteiro com o Templo, como a estupida obsesso do _classico_ substituira, pouco depois da fundao d'elle, a Capella mr; diversos membros e lavores haviam sido truncados ou substituidos nas adaptaes novas, e as janellas pretenciosamente ornamentaes, palacianas, dos corpos de passadio ou de ligao estavam accusando um enxerto innintelligente. Mas tambem outra observao parecera que immediatamente deveria impr-se: a de que a edificao conventual no podia, no havia de hombrar soberbamente, em grandesa e opulencia architectonica e decorativa, com o Templo, antes pela sua singelesa austera e humilde,--consoante com o proprio destino,--pela sua uniformidade aceada e sobria de decorao e de estructura faria destacar gloriosamente o corpo primario, capital. Seria de simples bom senso a ida. Em todas estas vastas edificaes monasticas no Templo que se concentra, na mais natural inteno e significao devota, a inspirao e o esforo da Arte. Nada d'isto, porm; nada do que era natural e pratico, se reflectiu e estudou, e ha de ver-se que nem esta ultima circumstancia se tem ponderado at hoje. De o no ter sido tem resultado, exactamente, um dos maiores embaraos concluso das _obras_, pois que em vez de a procurar, rasoavel e modestamente, n'uma reconstruco subordinada parte principal do Monumento e reconstitutiva da integridade e da harmonia historica e plastica d'elle, tem-se pretendido petulantemente accrescental-o, a bem dizer: _duplical-o_, em esforos e primores de uma--imaginria--esculptural de sobreposse. Com essas obras comeou a aventura e com esta nos encontramos ainda, em face d'ellas e dos ultimos projectos propostos para a sua concluso. Estava, ento, em Portugal ao servio do Estado, um architecto francez, Colson. Pelo curioso privilegio de ingenua confiana que entre ns disfructam os aventureiros estranhos, foi este individuo incumbido de elaborar um plano e projecto geral das _obras_, certamente por arbitrio do Provedor da Casa Pia, mas, em todo o caso, com approvao governativa em portaria de 16 de abril de 1860. Pouco ou nada conheceria Colson, da historia do Monumento e do estylo e caracter d'elle. Fez, comtudo, esse projecto pois que lh'o pagavam por 2:243$166 ris, e que no foi approvado, diz seccamente um relatorio official:--em consequencia de no satisfazer ao fim proposto. No logrei ver esse projecto, nem sei, at, se existe.[4] Devia estar no processo official e no est, como no esto outros documentos. Mas a circumstancia d'elle no ter satisfeito ao fim que lhe impunham, d-me naturalmente rebate de que Colson tivesse conscienciosamente ensaiado corrigir a irreflexo e inaptido d'esse--fim. Depois,--continua o documento,--_depois no houve projecto geral, e a obra foi comeada e progrediu_ mediante projectos parciaes elaborados pelos architectos encarregados de a dirigir. O Provedor da Casa Pia, certamente o melhor dos Provedores, escolhia e nomeava os architectos (?) que haviam dirigir as _obras_; como estas para ser dirigidas precisavam... fazer-se, e para fazer-se no era inteiramente dispensavel que se projectassem, o Provedor ia encommendando a esses architectos os projectos das obras que se havia de ir fazendo para que elles as dirigissem; consultava as pessoas das suas relaes que tinha por mais competentes, e mandava executar os projectos que approvava. Cinjo-me, quasi litteralmente, aos textos officiaes.[5] Se elles no existissem ou no me reportasse singellamente a elles no poderia queixar-me de que me no acreditassem, pois que tambem me parecera inacreditavel, isto. Os primeiros architectos escolhidos, para assim, aos retalhos, por tentativa, a capricho, ir projectando, cirzindo, dirigindo esta teia de Penelope que dura ha bons 32 annos, foram os seguintes:--de novembro de 1863, quando as obras comearam, at maro de 1865, em que teve de ceder o logar ao privilegio dos forasteiros:--Valentim Jos Correia, realmente um architecto diplomado e reconhecido pelo Estado, que honradamente mostrara no ser homem para taes emprezas, embora fosse muito srio e digno, em outras mais modestas;--de abril de 1865 a maro de 1867 um architecto inglez, J. Samuel Bennet, que viera dirigir os trabalhos d'aquella excentricidade architectonica de Monserrate que se apegou lenda dos encantos de Cintra, na memoria de todos os _touristes_;--de abril de 1867 a dezembro de 1878, os habeis scenographos Rambois e Cinatti que durante muitos annos fizeram a justa admirao dos frequentadores de _S. Carlos_. No seria equitativo calar os nomes dos mestres de pedreiros. Representavam estes personagens um papel importante no processo adoptado, ora supprindo, ora substituindo os architectos, sendo at os primeiros e directos responsaveis pelas _obras_, como parece ter-se querido fazel-os n'uma especie de inquerito do primeiro mallogro d'ellas. Alem de que, sendo o melhor que ellas nos offerecem, o trabalho de pedra, justo seria o registo dos obscuros operarios que o teem feito, no sem perigo de ficar sepultados n'elle. Foram, pois, esses primeiros mestres de pedreiro, at 1878, Francisco Dias, e depois Fructuoso de Figueiredo. Poupemos aos vindouros a impertinencia de complicadas theorias sobre os Boytacas do nosso tempo, j que to desconsolados nos teem deixado as engenhadas sobre o Boytaca verdadeiro. Assim podessemos averbar a cada um dos imaginadores e executores das obras a parcella da sua sciencia. Mas no podemos: Deve entender-se que ao primeiro para pouco mais daria o tempo, seno tambem a competencia, do que para demolir. Segundo informao que me parece auctorisada, a elle se deve a demolio da chamada Sala dos Reis, parte ou corpo superior da ligao do Templo com o Mosteiro, e a correspondente sciso da galilea:--consequentemente o inicial e inconsciente attentado da sciso do Monumento, em dois. Do inglez sabemos, e facil seria de perceber, que so as portas lateraes da fachada sul e a do nascente que olha para a Igreja: uma decorao bonitamente artificiosa, impropria, muida. Aos artistas italianos pertenceram as reconstruces e decoraes mais importantes e arrojadas:--os miranetes, a torre mitrada, o imponente corpo central desapparecido: uma scenographia em pedra rebuscada na conveno oriental, na phantasia gothica, at na motivao moderna dos bastidores da Opera.[6] Em 18 de dezembro de 1878, este singular processo de restaurar ou de reconstruir um dos nossos primeiros monumentos nacionaes que um dos monumentos historicos e artisticos mais notaveis do Mundo, resolveu-se naturalmente, logicamente, n'um desabamento tragicamente ridiculo. Um dos retalhos, um dos projectos parciaes,--o mais importante d'elles, imaginado pelos illustres scenographos, sanccionado pelo benemerito Provedor, certamente approvado e admirado pelas pessoas mais competentes das suas relaes;--em summa: o famoso corpo central que se erguia j arrogantemente acima da massa escura e rude do velho Templo Manuelino, bojou, rompeu-se e ruiu em terra, sepultando algumas desenas de contos de ris, uns poucos d'annos de trabalho e por bem pouco deixando de sepultar tambem um grande numero de vidas. A forma demasiadamente abatida das abobadas superiores, projectando a curva das presses fra da prumada das paredes mal fabricadas e delgadas; os alicerces inteiramente banhados d'agua, sem pozzolana nem cimento, assentando sobre uma camada de 1,^{m}50 de terreno de alluvio que o separava da rocha basaltica inferior:--taes foram as causas immediatas, ostensivas, technicas do desastre. A causa primaria e geral era o processo adoptado e teimosa e desabusadamente seguido:--inacreditavel, repito, se no estivesse denunciado, confessado, authenticado, formalmente, pelos mais insuspeitos documentos officiaes. Estava encerrado o primeiro periodo das _obras_ que custara 15 annos de trabalho e 358 contos de boa moeda. Intencionalmente indico a verba. Teem, tambem, os algarismos uma especial eloquencia e um legitimo logar n'estas cousas. No ser, pois, inutil saber-se quanto haviam custado j essas obras. official e directa a informao: Projecto primeiro 2:246$166 Demolies 2:644$100 Desaterros e aterros 17:738$868 Obras na Igreja 49:742$626 Obras _no novo edificio da Casa Pia_ 286:265$684 ------------- 358:628$444 E como se creou e subsiste a lenda de que essa Casa Pia principalmente tem corrido com a despeza,--o que no honraria muito a administrao de um estabelecimento de caridade,--ou que esta despeza em pouco ou nada tem sobrecarregado o Estado, parece-me tambem no ser inopportuno, indicar como e de onde essa[7] Relatorio da adm. da R. Casa Pia de Lisboa, relat. ao anno econ. de 1891-1892.--Lisboa, 1895. enorme somma proveio: Donativo do Rei D. Fernando 26:866$664 Subscripo no Brazil 4:853$332 Donativos particulares 6:000$500 Juros de emprestimos ao Estado e particulares 16:881$358 Juros de depositos nos Bancos 251$754 Venda de diversos objectos 903$052 Suprimentos feitos pelo _Cofre da Casa Pia_ 20:000$000 Loterias extraordinarias _auctorisadas pelo Estado_ 135:672$284 Directamente _fornecido pelo Estado_ 146:200$000 ------------ 358:628$444 Ser muito arriscado duplicar esta somma para nos approximar-mos da despeza feita at hoje? E pensar a gente que tudo se gastou e consumiu para no ver o Monumento concluido, nem saber sequer, e ainda, como dever concluir-se melhor; para no ter a Casa Pia convenientemente alojada, nem pensar at em removel-a d'ahi e collocal-a e installal-a mais rasoavelmente!... Quem de boa f e de regular senso deixar de ver que a simples e consideravel verba despendida para obter a derrocada providencial de 1878, nos podera ter dado o Monumento restaurado, e a Casa Pia installada nas condies fundamentaes e praticas de um internado asylar moderno, muito fra ou muito longe d'ahi, claro? Quanto se gasta annualmente; quanto se tem gasto at hoje, smente em apropriar e conservar a essa mesma Casa Pia aquelle alojamento improprio? A 295:118$834 ris se elevava j essa despeza em 1892.[7] II Pondo em evidencia as _obras_ e a descoberto as ideias que a ellas presidiam, a incompetencia que as dirigia e os processos adoptados na concepo e execuo d'ellas, parecera que veriamos abrir logar e tempo reflexo, ao estudo, critica conscienciosa e idonea. Pagaramos um ensaio mal pensado, precipitadamente preparado, executado desalmada e aventurosamente. Ha males que veem por bem. O desastre era uma lico cruel, mas era uma lico. Parecia isto natural, rasoavel, pratico. No foi, porm, o que succedeu. Passadas as primeiras sugestes, a bem dizer instinctivas dos erros ou das illuses incorridas; retrahidos e vexados, por algum tempo, os primeiros impetos irreflectidos e mallogrados, reabriu-se a mesma situao e reincidiram as mesmas ideas e processos, aproximadamente, de maneira que passados 32 annos depois do comeo das _obras_, e 17, depois da derrocada, continuamos a ter _obras_ e a no ter o Monumento reconstituido, ou a fazel-as e desfazel-as, apenas mais recatadamente, um pouco, sem plano, sem pensamento, sem destino definitivo e srio.[8] Posto de parte o primeiro ou o unico plano geral,--o de Colson,--todos os projectos parcelares mais ou menos desenvolvidos teem um caracter de fantasista apparato, obdecendo evidentemente idea de uma construco nova que possa hombrear com a grandesa e o aspecto da parte primitiva do Templo, que exceda at essa grandesa ou dispute a aco esthetica e impressionista d'esse aspecto. Uma vez adoptada ou imposta tal idea, nada mais natural do que perder-se de vista e da vontade a simples reconstituio ou reparao harmonica do velho Monumento, para, em vez d'isto, pr a aspirao e o esforo na fabrica de um monumento novo ou de uma remodelao imaginaria. Ha uma circumstancia que por si basta para comprovar de maneira irrecusavel e decisiva a obsesso que s o desejo leal de a ninguem offender nos obriga a no chamar estupida, d'este proposito monotonamente repetido. a reincidencia no chamado corpo central. Central, como? Central, de que? Central, porque? Porque se projecta e separa petulantemente em monumento novo, em edificio authonomo, a nova construco. Mas, ento, no o verdadeiro, o genuino Monumento que se quer honradamente, sensatamente, restituir, reparar, conservar! Quebra-se, mutila-se a sua estructura e o seu caracter. Interrompe-se com a sua integridade material, a sua raso, a sua inteno historica, at a sua unidade esthetica. Se ao menos, se contentassem, modestamente, com exhibir e ensaiar a luxuosa fantasia dos porticos de apparato ou dos torrees de conveno, na fachada occidental, apenas, onde devera ser e era a entrada da galilea, longe, por conseguinte, do grande portal _manuelino_ e sem contraste immediato com a fachada longitudinal da edificao, uma certa attenuante podera encontrar-se desastrada ida. Seria a de querer dotar com uma entrada de ostentao e de luxo, sem prejuizo ou sem quebra do aspecto geral do edificio, a parte d'elle que no podendo j destinar-se a Convento, teria de alojar privativamente uma instituio differente. Mas no. A fachada meridional que seduz e prende a preteno vaidosa. Logo no comeo das obras, dizem os documentos officiaes que se demoliram--janellas magnificas,--e demoliu-se a sala dos Reis,--e o primeiro lano da galilea, j deturpado, certo, mas, em todo o caso, ligao historica, necessaria do Templo com o Mosteiro. Cortou-se, depois, este ultimo, a meio da fachada, para dar logar a um forte--corpo central,--uma entrada e escadaria privativa, apparatosa; um torreo altaneiro, inexplicavel, que dominasse toda a vasta traa do Monumento. Setenta e dois metros de altura attingira o que desabou como um castello de cartonagem, em 1878. E poucos annos decorridos depois da catastrophe, quando ao abrigo do mais extraordinario abandono official, se ensaiava novamente o proseguimento das _obras_, a obsesso do corpo central retoma a dianteira d'ellas, o principal logar. Em 13 de outubro de 1882, o director da Casa Pia de Lisboa, apresenta e prope o projecto de uma nova torre e portico central, de 60 metros d'altura, e prevenindo divergencias de gosto ou procurando satisfazer todos os paladares bureaucraticos que tivessem de sentenciar no assumpto, d-se ao curioso incommodo de esboar _onze_ torres ou porticos centraes diversos. Onze! Que no se averbe a conta de censura individual, o reparo, que o no , e tanto que tomo o projecto Valladas, por exemplo, como podera tomar qualquer outro. Com o mais authorisado me poupo referencia e critica dos outros. Esta facilidade, esta prodigalidade de concepo artistica do membro principal, da edificao imaginada, para concluso condigna e harmoniosa do grande monumento, corresponde perfeitamente geral ausencia de um estudo srio e de uma segura e nitida percepo do caracter, do estylo, da significao d'elle, da sua integridade historica. E que admira isto? No vemos e ouvimos todos os dias confundir o gothico portuguez, o _Manuelino_, com o gothico florido; at com o gothico simples; quando muito imaginal-o mal definida ou barbara variante decorativa, esquecidas ou desdenhadas as mais evidentes differenciaes e feies architectonicas? Parecendo ter o instincto d'essa desorientada situao, a Junta Consultiva de Obras Publicas, objecta, em 22 de maio de 1883, o que chama o--gosto pyramidal--da nova torre proposta, gosto ou forma similar dos scenographicos miranetes dos angulos da reconstruco ensaiada;--reconhece que simplesmente se procura n'uma engenhosa combinao de arcos botantes e botareus,--como se elles fossem meros elementos decorativos,--mascarar o esguio e n que se notava na construco anterior,--mas condescende infelizmente com a ideia d'esse corpo central, aconselhando que elle adopte, de preferencia, a forma de uma--torre quadrangular. At ento podera orgulhar-se aquella illustre corporao, de achar-se isempta de responsabilidades n'esta longa e picaresca historia das _obras_ de Belem, tendo-se recusado a authorisar ou approvar quaesquer projectos anteriores. E se a substituio que aconselha no projecto Valladas parece primeira vista comprometter um pouco esta feliz isempo, tem pelo menos o valor de ser o primeiro rebate, a primeira nota suggestiva de um facto capital que mal se comprehende que tenha sido teimosamente inobservado e desattendido por quantos teem projectado e engenhado--concluir--ou--restaurar--o longo e formoso Monumento, alteando-lhe o aspecto e a estructura n'uma florescencia aeria de botareus brincados e de arrojadas agulhas. Consiste esse facto em que a linha ascencional, as curvas apertadas, as formas esguias, hieraticas, pyramidaes do velho gothico, no so j as feies, as tendencias predominantes do _Manuelino_ que se objectiva e desenvolve em fortes massas longitudinaes, como arcabouos de galees, sob o simultaneo influxo da Descoberta oriental que impulsa os espiritos para as grandesas terrenas e da Renascena greco-romana que incendeia a Arte no idealismo pago. certamente o instincto, e nem admira que no seja a doutrina segura e nitida, d'este facto, o que move aquelle tribunal de consulta technica a contrapr o--typo rectangular e pouco elevado,--como diz, ao que qualifica de--typo pyramidal,--das _obras_, por mais conforme e harmonioso com o typo primitivo, _manuelino_, do Monumento. De resto, encontrando, a bem dizer, separada e authonoma a construco nova que devera ser simples continuao da antiga, comprehende se que uma junta official de engenheiros,--e no de artistas ou de criticos d'arte,--transigisse com a idea de dotar essa construco com um portico, com uma entrada apparatosa, com um corpo central, privativo e imponente. Mas que esse corpo central, recommenda--no siga o typo pyramidal dos miranetes j infelizmente construidos. E tanto, realmente, a questo insensivelmente se deslocara da idea inicial e geral das _obras_ para a d'aquelle monumento novo, que sobre os projectos de concluso d'elle no tardou em incidir a sentena official, technica, por aquelle mesmo tribunal formulada de que o corpo central haveria de elevar-se alguns metros acima dos miranetes angulares, especie de balisas e enfeites terminaes d'esse monumento novo. No podendo, pois, considerar-se approvado o projecto Valladas, nem tendo sido fixada em outro a substituio indicada pela Junta Consultiva, continuaram as cousas no mesmo estado de incerteza e de arbitrio, aggravado ainda por novas irreflexes. Com o mesmo desceremonioso criterio, ou com a mesma falta d'elle, com que se destinara o historico edificio a instituio asylar de creanas, projectando-se restituil-o sua integridade monumental, formou-se e realisou-se a idea de o ir aproveitando e adaptando, aos pedaos, para asylo de outras instituies que pelas suas proprias exigencias fundamentaes desparatavam com essa installao ali, e nenhuma relao de consonancia e de harmonia critica poderiam ter com o Monumento. Assim foi que um pseudo Museu Industrial, especie de Cabea de Pau de rebotalhos esmolados, sem caracter nem lico que de longe lembre os bellos e instructivos Museus Industriaes de Vienna ou Berlim, pde petulantemente pregar um lettreiro garrafal e reles sobre a graciosa e rendada archeologia de uma parte da fachada interrompida; como nas paredes do formosissimo e magestoso claustro se exhibem os desenhos e aguadas dos collegiaes, e ferem importunos e irreverentes, as fortes e velhas abobodas destinadas a abrigar a paz dos coraes e a devoo dos espiritos, os toques da corneta e as voses da ordenana n'um simulacro de caserna. Ultimamente se alojou l, tambem, um outro servio, um outro pseudo-museu, com o apendice de uma estao chimico agricola, se bem me lembro. Decerto, na impresso immediata e geral o escandalo no ser tal ou tamanho como o do gazometro que defuma mais adiante a joia manuelina da Torre, aquelle bruto aventesma que parece propositadamente postado l para justificar a phrase que Garrett punha na bocca dos extranhos quando entrassem o Tejo: --_Aqui moram barbaros!..._ Mas pelo que tenho tido mais de uma vez occasio de observar, o visitante, o forasteiro culto, o observador educado, o pensador delicado que tenha o culto, o amor, o fino sentimento da harmonia, da ordem, da consonancia ideal das cousas, dir que a Casa Pia uma excellente instituio, dedicada e intelligentemente servida e dirigida; que o Museu bonito e poderia ser util, que lamentavel at, que lhe no d o Estado mais recursos para melhor valer, mas que tudo isso fica mal ali; que disparata irritantemente com o caracter, com a significao, com a propria estructura do Monumento; que interrompe ou affronta a integridade, a dignidade d'elle. Se esse visitante fr um medico, um hygienista ou um pedagogista serio, dir que propria instituio asylar, s condies e s conveniencias da sua natureza e destino repugna aquelle alojamento. Se pensar, e souber, seriamente, o que so museus; o que so, especialmente, museus industriaes; porque e para que se querem e se fazem; se os tiver visto _funccionando_, frequentados, todos os dias, por artistas, por operarios, por mestres e patres das grandes e pequenas industrias que vo ali beber a lio directa, pratica immediata dos modelos, da mo d'obra, do fabrico, dos preos, e no apenas, em desenfadamentos de domingos e feriados por curiosos burguezes: esse visitante observar que o museu est mal, deslocado, pouco menos que inutilisado ali, fra das grandes correntes de circulao, dos centros mais activos do trabalho industrial. Se fr ento um artista... Mas para que procurar novos exemplos? A impresso ser commum. Esse visitante dir:--Esta gente ou este Estado no tem a comprehenso, a vontade, a disciplina, _a medida_ exacta, racional, das cousas bellas, uteis, praticas da vida nacional. Mistura tudo: um asylo de pobreza, com um monumento d'Arte; um padro de Historia com um museu de Industrias; a archeologia, a beneficiencia, a fabrica; a descoberta da India, a infancia desvalida, o trabalho manual e mechanico. Na Torre de Belem, pozeram um pharol, alguns postes telegraphicos, e a formar-lhe o fundo um gazometro, e montanhas de carvo; qualquer dia do o Convento de Christo de arrendamento a um fabricante de pannos; j uma vez derrubaram um lano do Castello de Leiria para offerecer uma pequena orgia pyrotechnica a uma visita regia. No fizeram ha pouco da celebre estatua do Terreiro do Pao, centro ornamental de uma barraca de feira, e da columna do Rocio, poste de illuminao chineza? E o mais e o mais... Voltemos, porm, aos Jeronymos. Ora claro que independentemente das adaptaes com que os hospedes alludidos iro alterando e deformando, mais ou menos disfaradamente, o Monumento, no pode ser indifferente ao caracter e integridade d'elle se lealmente se pretende restaurar ou restituir, o seu destino, a sua applicao actual, at porque tal circumstancia ou tal elemento pode quebrar ou pode completar essa integridade; pode affrontar ou pode enaltecer esse caracter. No fica a bem dizer, completa e perfeita a restituio monumental somente com affeioar mais ou menos o plano e a pedra frma primativa. No Monumento fundiu-se uma idea; reside e perpetua-se n'elle uma inteno, um culto, uma consagrao historica que se quer respeitar desde que se quer conservar e restaurar o Monumento. Se no se comprehende, se no se sente, se no se respeita isto, parece hypocrisia o empenho e o cuidado da conservao material. O monumento commemorativo de um feito que synthetisa e glorifica o nome, o esforo, a misso historica de um povo atravez das idades e das naes, no pde ser vasadouro ou asylo eventual de servios e instituies avulsas sem caracter nem significao que com a d'elle condiga n'uma expontanea e nobre consonancia moral. Santa Maria de Belem o _Te-Deum_ que agradece e celebra a victoria da idea, da f e do esforo que alargaram o nome e a terra da Patria portugueza, como Santa Maria da Victoria canta e celebra o triumpho do direito, da vontade, da raso das geraes que fizeram essa Patria, independente e soberana. Completam-se e continuam como padres do desenvolvimento de um povo no tempo e no espao, na sua solidariedade historica e na sua individualidade politica. Pertencem historia d'esse paiz. So monumentos religiosos, menos j porque o sejam de uma crena mystica do que porque o so da honra e do nome commum. Guardar, conservar, reparar, amoravelmente, devotamente, taes monumentos,--estes como tantos;--restituir aos Jeronymos,--que o caso especial, opportuno, que nos preoccupa,--a continuidade, a integridade, a concluso panoramica, esthetica, monumental: nada mais honesto, mais digno, mais affirmativo da nossa dignidade civica e da nossa cultura moral. Mas no tudo. Um elemento d'essa restituio hoje irrestituivel. Perdeu-se; no pode restaurar-se; porque no era, como os outros ou como a Arte, necessario e eterno. Ha de sempre succeder isto. Mas como no ha Jeronymos a alojar, nem poder resuscitar-se a instituio que desappareceu na evoluo do tempo, das necessidades, do modo de ser social, para vir de novo povoar a monumental fabrica, outra ter de escolher-se e outra se escolha que se conforme com a significao, com a finalidade, com o caracter historico, fundamental e perenne, do Monumento; com a inteno, com a affirmao subsistente e actual d'elle. Est bem de ver que assim como no se teria feito o Convento se no houvesse frades, no se ha de reconstituil-o para o deixar vasio e inutil s necessidades da vida e da administrao nacional moderna. Teve j uma certa voga o pensamento de destinar o Templo, a jazida dos restos de cidados benemeritos e illustres; a Pantheon Civico, como costuma dizer-se. Arriscada e difficil na execuo, a idea era ao primeiro aspecto perfeitamente pratica e sympathica: restricta aos nomes ou aos personagens sobre os quaes passou j o juizo da Historia, tinha at a vantagem de nos redimir de muitas vergonhas. Melhor, talvez do que no Templo, propriamente dito, na vasta gallilea, poderiam recolher-se, em sarcophagos de pedra, os restos dispersos dos heroes da Descoberta, dando-lhe assim o destino historico de _Campo Santo_ que to naturalmente se harmonisaria, at, com a tradico d'aquella especie de construces. Com relao parte conventual, n'uma commisso official de que fiz parte, ha annos, foi lembrado que ficaria ahi adquadamente installado o museu de Bellas-Artes, esse pobre nomada que no obteve ainda alojamento proprio, e a Escola correspondente que talvez podesse chamar-se assim do seu feiticismo academico e extrangeirista contemplao e ao amor da Arte nacional. Mas os Museus e as Escolas tem condies especiaes de installao que no poderiam facilmente realisar-se no edificio de Belem, sem prejuizo da estructura d'elle, alm de convir aos primeiros, especialmente, quando dotados de um caracter e destino de applicao actual, uma situao mais central e accessivel, beira das grandes correntes de circulao urbana. Ora succede que uma instituio existe de um capital e universal interesse social e historico, e de um caracter que perfeitamente se harmonisa com o do monumento, tanto que logo na fundao delle podera ter-se-lhe associado, e no offerece, hoje ainda, exigencias de adaptao que o contrariem. Acresce que essa instituio impropriamente installada, no tem j alojamento que em boas e seguras condies lhe comporte o continuo e necessario desenvolvimento. o Archivo Nacional, a tradiccionaria _Torre do Tombo_, o riquissimo e genuino repositorio da vida da Nao em todos os seus elementos e em todas as suas evolues; j se v: o Archivo Nacional reformado, ampliado, restituido sua nobre e justa authonomia, recolhendo e reunindo todas as folhas dispersas da Historia Portugueza, desde os humildes codices dos conventos, das freguezias, dos bispados, que apodrecem por esse paiz fra armazenados nas Camaras Ecclesiasticas, at aos mais graduados diplomas da vida do Estado, cuja ordenao, cuja authenticidade at, anda arriscada, de ha muito, na falta de um registamento central e alheio ao simples expediente vario das reparties bureaucraticas. E no s recolhendo e colligindo as folhas de pergaminho e de papel, mas as de pedra e de bronze em que essa Historia se fixa: Archivo e museu archeologico portuguez, ao mesmo tempo. Onde poder encontrar-se mais propria e grandiosa arca para encerrar taes thesouros? Que mais condigno deposito poder confiar-se quellas fortes e venerandas muralhas e abobodas impregnadas da tradio gloriosa da Nao? Como se ajustariam conteudo e continente n'uma imponente e sugestiva harmonia de estimulos e de saudades; n'um mesmo culto e n'um mesmo testemunho de honra e de nobreza? E depois, seria talvez o caso unico em que no tivesse de sacrificar se o Monumento instituio hospedada ou de prejudicar esta para poupar aquelle. III Conveniencias occasionaes de administrao ou de politica entregando ultimamente as _obras_ de Belem a uma Repartio regularmente official e technica:--a da conservao dos edificios publicos,--pareceram encerrar, em fim, a historia aventurosa e tumultuaria d'essas _obras_. Em 17 de maro de 1894 essa Repartio, expondo ao Governo a conveniencia de concluir as _obras_ e de as ter terminadas por occasio do Centenario da India, propoz que se abrisse um concurso entre architectos nacionaes para se fixar definitivamente o caracter e projecto d'essa concluso. Concordando, o Conselho d'obras publicas aconselhava, em 7 de maio, que o Director dos edificios publicos procedesse elaborao do programma do concurso no sentido de obter um projecto de concluso expedita e economica, to simples quando o permitisse o estylo Manuelino, e em 21 do mesmo mez mandava o Ministro que esse Director desse seguimento proposta e parecer alludidos. Mas sobrecarregado com outros encargos, hesitando, talvez, na definio das condies fundamentaes do concurso ou na propria idea e conveniencia d'elle, este funccionario apresenta, um anno depois, em 21 e 27 de maio de maio de 1895, no o programma do concurso que proposera, mas um projecto de concluso elaborado pelo architecto Parente da Silva que lhe annuncia a remessa proxima de quatro ou cinco projectos ou variantes em preparao ainda;--outro projecto de um habil desenhador da Repartio e n'ella elaborado,--finalmente a idea propria, tambem transferida para um projecto,--de se prescindir da construco de um corpo central, completando a fachada na frma e estylo uniforme dos dois lanos d'ella que subsistem, idea e projecto que alem de preferir por mais expedita e barata, acabara por intransigentemente considerar a mais adquada e racional. --A melhor, a unica soluo que o proprio sentimento patriotico e artistico recommendam,--diz, ento,--, para mim, indiscutivelmente a construco seguida dos mesmos membros e vos ja construidos, rigorosamente identicos, _sem corpo algum central_.. E tendo entendido dever amparar a sua idea na opinio de alguns consultores avulsos, um d'estes o architecto Jos Maria Nepomuceno mais accentuadamente a explica observando que a circumstancia do eixo longitudinal das arcadas coincidir com o eixo maior do Templo e a de todos os pilares dos arcos serem egualmente distanceados, provam a unio entre a galilea e aquelle, e confirmam a indicao historica de que a serie dos arcos era desempedida e desafrontada, sem obstaculo algum, at porta occidental da Igreja: conclue, pois, por considerar contrario ao caracter primitivo da construco, o famoso corpo central tantas vezes imaginado. Manda a justia dizer que este teimoso disparate do corpo central, agora mais doutrinariamente frisado pelo architecto Nepomuceno, parecera ter sido j percebido antes, pois que de uma alluso do processo official se depreende que pouco depois da derrocada de 1878 um engenheiro, o Sr. Cabral Couceiro, proposera que se prescindisse de vez d'essa excrecencia phantasista e impropria. Quanto aos dois outros projectos elogiosamente apresentados pelo Director dos edificios publicos, visando ambos construco de um corpo central mais ou menos aparatoso, dispenso-me de occupar-me d'elles, depois do que deixei escripto atraz, relativamente a esta deploravel idea de scindir o Monumento em dois, ou a esta extraordinaria incomprehenso historica e artistica da estructura e do typo do grande monumento Manuelino. Mas no ficaria bem com a minha consciencia deixando de reconhecer que se esse corpo central no fosse fundamentalmente uma deformao, o imaginado pelo desenhador Bemvindo A. Ceia, n'um dos dois projectos alludidos, seria de quantos at hoje teem sido propostos, o que menos brigaria com o typo e com o caracter architectonico e esthetico do Monumento, pela sua frma geral e pelas suas linhas e feies de decorao e estructura. Evidentemente, porm, no a uma repartio de simples expediente technico de conservao e reparao dos edificios do Estado que pertence propr ou deliberar qual seja a melhor,--quanto mais a unica,--soluo de obras da natureza e com o fim d'aquellas que se pretendem concluir no Monumento de Belem. Desde a sua recente reorganisao se occupara d'ellas a Commisso dos Monumentos Nacionaes, e justamente apprehensiva pela lico do passado e pelos exemplos do presente com esta manifesta tendencia de absorpo bureaucratica do assumpto, j em officio de 29 de julho de 1894 e em conferencias verbaes com os Ministros das Obras Publicas, exposera a necessidade de que elle fosse larga e competentemente estudado, reividicando, mesmo, o direito que pelo seu regulamento lhe era attribuido, quando no lh'o fosse pelo proprio facto da sua instituio official, de ser ouvida sobre quaesquer projectos que to grave e intimamente interessavam um dos nossos mais notaveis Monumentos. N'este pensamento to simples e justo, naturalmente nos encontrmos com o criterio illustrado e patriotico do actual Ministro, que fazendo sobrestar em todas as propostas e instancias recebidas, ordenou, em 29 de maio ultimo, que nos fosse enviado o processo para que sobre elle podessemos proferir o parecer e voto do nosso estudo e da competencia que a lei nos attribuiu. A situao clara e simples. No nos achamos a contas com o problema aberto de uma construco, de uma restaurao, de uma restituio monumental. Achamo-nos em face de umas certas obras de construco emprehendidas inteiramente fra da nossa responsabilidade, com o fim de substituir edificaes demolidas e de continuar e completar o Monumento dos Jeronymos por uma frma que se entendeu melhor conformar-se com o caracter d'elle. Como essas obras no obedeceram a um plano geral definido e certo, pergunta-se como terminal-as e concluil-as n'uma mais proxima e mais segura harmonia com o aspecto, o caracter, a significao historica e artistica do Monumento. s isto, mas no menos do que isto. Porque a questo hoje creio que s pde ser ou que s, esta:--concluir essas _obras_, como quem dissera: trancar e resgatar esse escandalo, procurando restituir o Monumento, tanto e como possivel ainda, sua intrigridade architectonica, panoramica critica, por maneira que corresponda ao objectivo moral e ao objectivo pratico que podem authorisar um Estado regularmente administrado e um povo authenticamente culto a emprehender e fazer uma obra d'esta natureza. No pde j, claro, corrigir-se todos os erros; expurgar o trabalho feito de todos os aleijes; desagravar a Historia e a Arte de todas as violencias, de todos os attentados soffridos. No ha de deitar-se abaixo quanto se fez. A brutalidade de um segundo desabamento poderia ser util, podera parecer providencial, como foi irrecusavelmente o primeiro, mas o Estado no faz derrocadas e no pode proceder brutalmente. No fim de contas, esto gastos ali mais talvez de 500 contos de ris;--358 vimos j que se tinham gasto at 1878, em 15 annos,--e todos estes algarismos s podem deixar de impr-se a espiritos desiquilibrados, irresponsaveis. Consumiu-se muito trabalho e fez-se e existe,-- justia dizel-o,--muito trabalho primoroso. N'estas grandes edificaes monumentaes tem sempre de ficar o rasto e o cunho das geraes que se succedem ou que por ellas passam: do seu gosto, da sua educao, da sua aco, da sua obra material ou da sua obra moral. No temos, ali mesmo, em Belem, todo o vasto corpo da Capella Mr e uma grande parte do claustro, por exemplo, a apregoar uma remodelao, um enxerto, uma invaso irreverente, sacrilega, at, da esthesia e do trabalho originario? No seria um attentado maior, um absurdo, um disparate collossal derrubar tudo isto sob pretexto de uma restituio que seria apenas um artificio pretencioso e ridiculo? Fiquem pois os minaretes inexplicaveis, mais levianos que ligeiros, fique at a irritante torre mitrada, se a sua estabilidade est garantida; fiquem as phantasias que custaram muito dinheiro e muito trabalho, quando a sua supresso correctiva possa prejudicar, mais do que o seu disparate incidental, o que deve ser e o commum interesse e empenho d'agora. Fiquem, que ficam attestando a situao social que as tornou possiveis. Os factos consumados no se supprimem. Derrubadas essas phantasias inscientes no se teria suprimido o processo extravagante que as produziu, nas suas relaes e nas suas revelaes historicas. Aproveite-se e emende-se, tanto e o melhor que fr possivel, o que est feito; embarguem-se e tranquem-se, de vez, as tendencias tumultuarias e vaidosas para uma construco monumental nova, de sobreposse, em competencia com o corpo principal do Monumento; recomponha-se a ligao com este, ineptamente cortada; abra-se, de par em par e de lez em lez, a formosissima e singular gallilea; imponham-se os restos da vasta carcaa para a reconstruco da parte interrompida e derrubada da fachada, vedando em fim aquella brecha insolente preteno de um corpo e portico central de imaginaria scenographica e reconstituindo o lano graciosamente uniforme e modesto das arcarias e casaria primitiva. E feito isto, ou mais exactamente, medida que se faa isto, desafronte-se o Monumento das edificaes reles e do jardim pelintra que lhe interrompem e afogam, do lado do Rio, o vasto e formosissimo aspecto;--desobstruam se as suas imponentes gallarias e sales, das installaes improprias que os teem ido invadindo: do asylo da Casa Pia que melhor e mais adquada collocao encontrar facilmente fra da cidade;--do pseudo Museu industrial que, se comprehende o seu rasoavel papel, deve procurar as grandes correntes de circulao urbana e os bairros onde se concentra o movimento das industrias, etc. E desobstruida, e desafrontada, e concluida a monumental edificao, complete-se a sua integridade historica, nacional; por um lado: alojando no Mosteiro o Archivo da Nao; por outro lado: removendo do Templo o exercicio e a administrao do culto parochial. Este o meu parecer e o meu voto. Muito propositadamente o quiz ir explicando e definindo n'esta summaria nota, tanto para que a responsabilidade individual d'elle mais desafogada deixe a da resoluo que os meus collegas entendam dever preferir, como para escusar delongas de discusso em assumpto e idas que reclamam realmente uma resoluo prompta e sobre as quaes, pela minha parte, considero inutil voltar. Como se v, em relao forma ou processo material da concluso das obras, as minhas idas, de ha muito definidas e affirmadas, coincidem, geralmente, com o projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos, e excluem todos os outros, e todos ainda que possam reincidir na excrecencia que considero historica e artisticamente absurda de um chamado corpo central. Mas propoz tambem esse funccionario, embora no parea ter presistido na ida, a abertura de um concurso para apurar o projecto da concluso desejada. Comprehendo que o concurso encontre uma corrente favoravel e sympathica, mais ou menos artificiosamente sugerida, na opinio geral. O concurso no deixou inteiramente de ser, ainda, uma especie de feitio nacional, por mais que tenha mostrado ser, apenas, um processo embusteiro de dissolver e esconder responsabilidades, quantas vezes tambem, de arredar merecimentos reaes, de elevar insignificancias, de esmagar direitos. O bom, o genuino, o pratico concurso a livre concorrencia do trabalho, das aptides, da affirmao positiva dos merecimentos de cada qual, perante este juiz difficilmente corruptivel que se chama Toda-a-gente, ou este Tribunal implacavel e permanente que se chama a Historia. O concurso, no caso pendente, ou ha de ter uma base extremamente restricta de applicao que o torna inutil, ou alargada essa base sobre o thema da melhor concluso, no apenas das _obras_, mas do Monumento, ir-nos-hemos envolver em novos embaraos e em novas delongas, se que no tivermos de reconhecer que se perdeu muito tempo e muito trabalho para no obter um projecto viavel. No comeo das obras o concurso podera ter tido, ao menos, a vantagem de suscitar o estudo detido e serio da reconstruco ou da restaurao a fazer; dos elementos e caracteres do estylo a seguir; das condies e circumstancias da obra a realisar. Hoje daria, naturalmente, apenas, o resultado de mais demorar a concluso e de mais a affastar, ainda, do caracter e estructura primitiva,--modesta e simples,--da parte que se quiz reconstruir. A emulao e a prosapia dos concorrentes forar-lhes-hia a imaginao; cada qual procuraria produzir um projecto do que mais e melhor se affirmassem os seus recursos, as suas aptides, a sua originalidade de constructor e de artista. E se a isto juntarmos as influencias perturbadoras da indisciplina intellectual e educativa que enfraquece e desmoralisa por egual a nossa produco e a nossa critica artistica; se contar-mos com a presso das consagraes forjadas e impostas pelas pequenas camarilhas num meio mal organisado para que o publico pense e julgue por si, n'estas cousas da Historia e da Arte, facil de prever, a quem no fr inteiramente inexperiente e ingenuo, que o concurso longe de ser um processo expedito e seguro ser o mais arriscado e menos pratico, nas circumstancias ou nas condies, pelo menos, em que o problema tem de ser posto e resolvido. O exemplo,--um pequeno mas significativo exemplo,--do concurso para a pintura do tecto do Theatro _D. Maria_, no muito antigo. E eu sei bem quanto se viu atormentado um jury firmemente consciencioso e srio para dar a preferencia ao projecto do monumento a Affonso de Albuquerque que mais estudo, mais caracter, mais originalidade intelligente e san possuia, mas que fra pensado e elaborado por um artista sem nome, sobretudo sem camarilha. De resto, o que se pretende e precisa menos um trabalho de concepo, que de direco e execuo architectonica. Quanto menos esforo conceptivo ou inventivo se despender, mais garantido fica o caracter restitutivo da construco. Temos no paiz pouco mais,--se tanto,--de meia duzia de architectos authenticos. Para o que entendo que deve ser ou que s pode ser hoje a concluso das obras, nos termos praticos que todas as circumstancias indicam, pde antecipadamente affirmar-se que qualquer d'esses architectos apto e competente. Por estas e por muitas outras rases ainda, concluo, pois, por julgar mais do que dispensavel, inconveniente, o concurso, e direi at que uma d'essas rases exactamente no ver explicada a necessidade d'elle. Resumindo e terminando, o que tenho a honra de propr que se aconselhe ao Governo, o seguinte: 1.^o--A concluso das obras deve consistir na unio do Templo com a Galilea; no desobstruimento completo d'esta desde o seu extremo occidental at porta da nave principal do Templo, e na reconstruco da parte interrompida da mesma galilea e da casaria sobreposta, em perfeita e uniforme continuidade dos membros e vos existentes, com absoluta excluso de qualquer corpo central,--real ou simulado,--por contrario ao caracter primitivo da edificao e unidade monumental d'ella. As seces posteriores das obras devero concluir-se com a maior sobriedade architectonica e decorativa tendo smente em vista completal-as e ligal-as n'uma traa geral no menor praso e com a maior economia. Devero ser aproveitadas e conservadas, quanto possivel, as construces feitas, e poder servir de base concluso indicada e projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos com as variantes approvadas por uma commisso que ter a seu cargo a inspeco da obra at final. 2.^o--A obra dever ser mantida na administrao directa do Estado, e feita pela Repartio dos edificios publicos, tendo a inspeco superior e permanente d'ella, at concluso, uma commisso composta de um engenheiro, de um architecto e de um critico d'Arte, respectivamente escolhidos pelo Conselho Superior d'Obras Publicas, pela Academia de Bellas Artes e pela Commisso dos Monumentos Nacionaes. 3.^o--Devero ser e estar removidos at o dia 31 de dezembro de 1896, todos os estabelecimentos que actualmente occupam diversas seces do Monumento, e bem assim transferida para outro Templo a sde parochial. 4.^o--At mesma data dever ser o Monumento desafrontado das edificaes de qualquer especie que se intercallem entre elle e o Rio ou o caes marginal. 5.^o--O Templo deve ficar destinado, smente, s grandes celebraes religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores e Navegadores portuguezes. 6.^o--Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento e installao do Archivo Nacional, convindo que essa installao se ache concluida at o mez de Maio de 1897. Lisboa, 2 de Novembro de 1895. _Luciano Cordeiro._ Notas: [1] Copia. Fachada geral do edificio tal qual existia antes de se proceder reconstruco. (Escala 1:100) Tem a rubrica:--Manuel Raymundo Valladas, major d'engenheria, director da Casa Pia, encarregado dos trabalhos de reconstruces. Consta-me que o original existe no cartorio da Casa Pia. [2] _Galilaeum_ porticum hoc interpretatur, quam nostri Galerie vocant; etc. (_Ducange_). Ha quem prefira ainda a frma barbara e obsoleta de _galil_, e escusado dizer que as duas so indifferentemente adoptadas pelos melhores lexicographos. Mas o que tem graa o debique que a frma culta e portuguesissima de _galilea_, desde que eu a adoptei, de preferencia, soffreu na propria commisso dos monumentos. --Que galil que era, porque... assim escreviam as _chronicas_, e ainda por este apendice jovial da raso: que Galilea era uma terra, uma regio bem conhecida. E se fosse exactamente do nome classico da provincia da Judea, theatro e bero dos primeiros mysterios christos, que devesse extrahir-se a etymologia melhor do termo indicativo d'aquelle membro da architectura sacra? Vale talvez a pena pensar n'isto, se no acham mais commodo contentar-se com as derivaes etymologicas de _galea_, _leae_; de _galeatus_ (_galea indutus_); de _galerus_, _ri_, etc. em que no sei se teem alguma vez pensado. [3] extraordinario como se perdeu a noo facil e pratica da disposio geral da edificao, da sua orientao, ou como mais exactamente se pde dizer, da sua _occidentao_, a ponto de se obstruir e afogar a seco occidental, a entrada da galilea, que se tivesse sido reconhecida e mantida no teria deixado pensar em corpos ou entradas centraes na fachada do sul. N'um parecer juncto ao processo lembra Nepomuceno a indicao de Carvalho da Costa de que em certos dias _o sol ao cahir_ entrava pelo arco onde estava a fonte e ia bater na porta do sacrario. [4] Depois de ter escripto este parecer disse-me o meu amigo e dedicado director da Casa Pia, F. Margiochi, que o projecto original existe ali. [5] Cadernos dos esclarecimentos pedidos pela commisso nomeada por portaria de 19 de dezembro de 1878... No processo official do Ministerio das Obras Publicas. [6] Tenho idea, e mais alguem a ter, de que na decorao do famoso corpo ou torreo central que ruiu, apparecia at... o escudo da Saboia, cortez alluso, naturalmente, ao recente consorcio Regio. Tambem n'uma reconstruco (sic) da Madre de Deus, pde ver-se, ainda, torneando o capitel d'um columnello gothico... um comboio de caminho de ferro! Homenagem visinhana... [7] Relatorio da adm. da R. Casa Pia de Lisboa, relat. ao anno econ. de 1891-1892.--Lisboa, 1895. [8] As obras teem tido andamento consideravel sob a direco do Sr. architecto Domingos Parente da Silva. _Rel. da adm. da R. Casa Pia, relativo ao anno de 1891-1892_. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ |#pg. 3| resconstruco | reconstruco | |#pg. 4| pripcipalmente | principalmente | |#pg. 7| soberbamento | soberbamente | |#pg. 7| o propria destino | o proprio destino | |#pg. 8| substituido | substituindo | |#pg. 10| seguida | seguido | |#pg. 13| o luxuosa | a luxuosa | |#pg. 14| boratareus | botareus | |#pg. 15| a gracioso | a graciosa | |#pg. 16| recurssos | recursos | |#pg. 20| publisos | publicos | |#pg. 21| artistico | artistica | |#pg. 21| architetonico | architectonico | |#pg. 22| Miuistro | Ministro | +----------+---------------------+----------------------+ End of Project Gutenberg's As obras dos Jeronymos, by Luciano Cordeiro License: Share Alike