Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) AS SAUDADES DO BARDO ORTHODOXO, POEMA. _F corto il tuo partir, lungo 'l mio affanno;_ _N gioia spero mai, ch'il riconsole._ _Tu ridi, io piango sempre; e sol compenso_ _Gli aspri martir, se di te parlo e penso._ L. Guidiccioni. PORTO: NA IMPRENSA DE ALVARES RIBEIRO, _aos Lavadouros N. 16._ 1837. _On some fond breast the parting soul relies,_ _Some pious drops the closing eye requires;_ _Even from the tomb the voice of nature cries,_ _Even in our ashes live their wonted fires._ De ternos coraes busca saudades 'Spirito que se ausenta, e extinctos olhos Querem piedoso pranto; a Natureza L do fundo das campas inda clama, Inda mesmo entre cinzas Sua chamma usual vive inexhausta. Gray, _cemiterio da aldea_. _Ao meu amigo,_ JOAQUIM TORQUATO ALVARES RIBEIRO. _Perdeste pais e irmos, quaes vio apenas A suspirada em vo Saturnia idade; E, sob o imperio de Cruel saudade, Soffreo teu corao amargas penas. Carpir alheios lutos Quem os proprios carpio ah! no recusa; Nem com olhos de pranto sempre enxutos Simpathisar consegue a minha Musa. Mas hoje, amigo, mais propicia sorte, Por ver-te resarcido Do muito que has perdido, Deo-te, digna de ti, rara consorte, Dos thesouros do Ceo mimo escolhido. Oh! nunca, nunca vos separe a Morte!_ Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho. As saudades DO _BARDO ORTHODOXO,_ POEMA. Oh que extase ineffavel!.. Nossas almas, Ao risonho alvejar da madrugada, Voando sobre as azas transparentes D'aura fragrante que soprava do den, Anciosas enlaaro-se, em transporte De prazer todo angelico! Dest' arte Extremosos se abrao dous amigos, Que adolescentes vinculra o instincto D'aurea Virtude em flor, e divididos Pelo undoso Elemento ha largos annos, Se, condoida em fim d'ausencia tanta, A Sorte os restitue um do outro aos braos. Oh quaes arcanos de ternura eximia, Toda celestial, vedada ao Mundo, Su' alma revelou do consorte, da consorte extatica, engolfada Em luminosa alluvio de ditas, Onde de puro amor quasi que expira, E ento resurge entre delicias novas, Que a flux e a qual mais viva lhe resfolgo L das manses do sempiterno dia! Ficai-vos para sempre, cos fantasmas, Glorias mesquinhas que engodais a Terra; Vs sois menos que nada. Franco e livre Das terrenas prises, agora exulto: Marilia toda minha, Ercenio della; Nossa unio revive luz do Empyreo, E revive sem fim, sem fim resplende, Ante a immortalidade anniquilou-se Tudo que era mortal.--E a um sonho eu devo To fagueira illuso!--Perfido sonho! Por que assim me exalaste summa Esfera, Para a final me despenhares neste Ferreo leito de dor, que em pranto alago? Oxal nunca mais eu despertasse!-- Vem c, fiel transumpto, que saudosa Esta mo debuxou, d'ausencia instada; Mostra-me essas feies, onde a Virtude Quasi que sinto respirar to meiga; Vem consolar-me:--s lagrimas d'Ercenia Tu pareces sensivel; mas aquella Alma querida, co immortal dest' alma, Reluz no Ceo; oh como alli anciosa Vou a minha, e se abraaro ambas! Momentos divinaes! fosteis acaso Sonho fugaz, ou eternal presagio? Envlta em orvalhoso vo sombrio, Vem surgindo a manh. Fica-te, leito, Conscio de veladores pensamento, De bens sonhados, permanentes dores. hoje o anniversario luctuoso, esta a hora em que Marilia, a espsa, Me disse o ultimo _adeos_, e foi no gremio Viver do Eterno, e possuir o Empyreo. Tu, que o harmonico ser deves ao tronco De longevo cipreste, e es socia em magoas, Acorda hoje tambem, acorda, lira, E ao sagrado recinto me acompanha. Eis-nos aqui j nelle.--Ves, ves esta Relvinha tenra, que o sepulcro veste! Meu pranto a fez crescer, meu pranto a orvalha, Como te orvalha as cordas, quando nellas Suspira melancolica saudade. Mas qual jocundo anhlito fragrante Me brinca na madeixa encanecida?-- So auras?--ou bafeja carinhosa Su' alma os dias meus quasi acabados, Para affastar-lhes o final momento? Perda, amada esposa! Os meus int'resses Melhor os sabe a Morte; ella conhece Que nunca mais desfructarei repouso, Seno a par de ti, seno comtigo. Do mundano bulicio ora liberto, Encsto a frente ao pedestal lascado Desta Cruz de granito, que protege Co' a veneranda sombra em trno as cinzas, T que a resurreio lhes amanhea. Vs que jazeis nos lobregos abismos Da moral corrupo que empesta o Glbo, Almas cobardes, onde no vislumbra Nenhuma ida nobre, e que a Virtude, Affastada de vs por mui sublime, Sem poder arrost-la, um nome a crdes D'imagem desprovido, um sonho futil; Sabeis vs discernir qual prazer seja O de apertar ao peito ingenua virgem, Que, os braos maternaes deixando a custo, Cra entre os braos do feliz consorte?-- O consorte feliz!.. fui eu, por certo. Depois de lustros quasi seis, volvidos Em placida unio, concorde affecto, Qual vacuo immenso no deixou nest' alma O golpe inesperado, a perda ingente! Em quanto o vulgo seduzido applaude Prodigios d'ambio, d'heroismo infrene, Que se nutre de sangue, e anhela estragos, Eu de louvores perennal tributo Pagarei dulcissima consorte, Mimo celeste, Anjo de paz, que tantas Lagrimas vio correr, no espao breve Da sua habitao c neste exilio; E d'enxug-las, se podesse, todas, No cedra a ninguem o emprgo excelso. Envergonhai-vos, sordidos avaros! Sem ter, sem invejar vossos thesouros, Marilia mais que vs valeo ao pobre, Escutou benos, mereceo saudades, Lucrou gloria immortal; e a gloria vossa, Bem como esse ouro que adorais, terra. Mis indigentes! miseros filhinhos! Que da penuria, em mos conselhos fertil, Provais, logo ao nascer, o amargo absintho, Dizei os dons que de Marilia houvestes, Dizei quo meiga vos prestou auxilio, Fallai; que ella o no veda: inteiro um Mundo De vos, do afflicto Ercenio hoje a separa; E ao meu amor, ao meu amor smente, concedido percorrer, nos vos, Distancia que entre ns se alonga immensa. Que digo!--Neste valle inda respira Fiel traslado teu, que, em verdes annos, Te segue, doce amiga, o trilho nobre, E do materno exemplo nao discrepa. Eia, rouba sequer ligeiro instante Ao summo enlvo, aos canticos celestes, Deixa o lume pousar da vista affavel Sobre a terrena estancia, e te compraza Na filha tua, na florente Osminda, Se s aos Anjos, qual tu s, qual foste, Te dado agora amar, tens nella um Anjo. Ditosos dias da existencia minha, Que feito j de vs! fosteis apenas Mesquinha exhalao que os ventos varrem. J nestes olhos meus canados, tristes, Sinto engrossar a nuvem que os abrange. Tudo perdi no Mundo; s me resta A Providencia e Osminda. Antes de muito Ha de smente a desvelada filha Ao sepulcro da mi guiar meus passos. Assim outr'ora, em nebuloso clima, Do cantor de Fingal a nora amavel, A candida Malvina, a flor de Morveu, Ao jazigo dos seus encaminhava O sogro, idoso e cego. Trevas, lutos, Ante mim se revezo, se accumulo. Eis o Genio do mal campea ousado, E apregoando bens, traidor sorrindo, Empesta os coraes, domina a Glbo: Feroz se atea das paixes o embate, Chovem sobre a Virtude os improperios, E dos mortaes a deploranda insania S ao Crime feliz prepara os louros. Ai! neste mar inquieto e procelloso, Que ser pois d'Osminda?-- Ser dos seres, Estende o brao teu; que, sombra delle, Perfeito amparo, bonanosos dias, Ter por minha morte, a filha amada, E ser des de ento s filha tua.-- Ah! tu tambem, suspirada espsa, L das manses ethereas nos contemplas, E te revs na filha, em cujo peito Repousa da innocencia a paz ditosa; Tu apresentas ante o Throno eterno Os votos incessantes que a bem della, Sobre as azas de frvido transporte, Endero ao Poder que escuda o debil. Espssa nuvem, dardejando raios, Desa, e d'Osminda aproximar no deixe Os da vil seduco vipereos olhos, Ou desde j, e d'um s golpe, e a um tempo, Vida perecedoura em ns perea, E vivamos comtigo immortal vida. Mas qual lembrana murmurar profunda Sinto nos seios d'alma?--Eis d'entre angustias Surde mimosa imagem d'aureos dias, Dias (ai derradeiros!) que passamos No campo, e no paterno herdado alvergue, Ora escutando as namoradas aves Saudar com meigo canto a Primavera, Ora embebidos no matiz fragrante Das apinhadas renascentes flores, Ou vendo os fructos avultar formosos, O pmo enrubecer, dourar-se a messe, E sorrir bemfazeja a Natureza: Em quanto a Guerra atroz, bramindo ao longe, Accumulando ruinas sobre ruinas, Fervendo mais e mais, rival do Inferno, Talava a ferro e fogo as margens ambas Do flavo Douro, que, ao fragor tremendo, Escondia nas humidas cavernas A desolada espavorida fronte. Ai! quanta ves, ao rebombar longinquo Dos bellicos troves, piedoso pranto Vi de teus olhos deslizar-se em fio! Ento no intimo d'alma deploravas A prematura morte desastrosa De tantos filhos, esperana extrema Roubada para sempre aos pais longevos; O miserando fim de tanto espso, A quem a espsa fida, e o penhor caro Que lhe sorr pendente aos castos peitos, Nao mais tem de abraar, no ermo da vida; Aqui e alli em borbotes fumando, Por homens desparzido, o sangue d'homens, Quando em fraterno lao indissoluvel, Uns aos outros prestando amor e auxilio, Lhes suprema Lei viver unidos. Oh insania fatal! Oh ignominia! Recommendado Fama, erguido aos astros, Genio conquistador, ebrio de sangue, Levando morte e horror de polo a polo, Consegue mausolos, consegue altares; E tu, Anjo celeste, que na Terra Deixaste aps de ti suave arma, Que inda os vestigios da Virtude exhalo; Tu, mimo excelso, singular contexto De sisudez, candura, amor, piedade, Viveste alheia ao Mundo, e assim morreste: Nem mesmo do teu fim noticia exacta O circulo excedeo dos lares nossos; E reinava o silencio envlto em trevas, Quando encerrada no atade escuro Fragil poro de ti, mas que eu venero, Foi trazida sem sequito, sem pompas, A descanar neste calado asilo, Onde a do somno extremo sacra terra, Sabida s de mim, te guarda as cinzas, Desprovidas de lousa e d'epitafio. Epitafio!--e se nelle memoradas Fossem virtudes que alojaste n'alma, Ah! poderia por ventura o Mundo, Qual o conheo, leviano e cego, Votar-lhes homenagem digna dellas, Ou arder no desejo d'imit-las? Todo escarcos, horrisono rugindo, Feroz prostrando as litoraes balisas, Sorvendo galees, cidades, povos, O Oceano infunde respeitoso espanto; Mas o limpido arroio serpejante, Que vai por entre os prados entretendo A socegada veia, e repartindo Frescura ao slo, nutrio s plantas, Vive sem nome, e na lembrana morto. Sim: de teus dias o fulgor modesto, Qual breve estrella nos ethreos campos, Quasi sempre luzio furtivo e turvo No valle dos mortaes, e ora, sem nuvens, Claro brilha no Empyreo, que zeloso Se mostrou d'assumir esta obra sua, E no bero a plantar, donde emanra. Entretanto propicia a Natureza, Por entre o vo que os olhos meus envolve, S'esmera em me off'recer imagens tuas, E lida, mas em vo, por consolar-me. Se da flor que viceja me aproximo, Diz logo a flor: "contempla, afflicto espzo, "Contempla em mim as pudibundas graas; "O sorrir virginal, os verdes annos, "Que Marilia enfeitavo, quando outr'ora "Tu, pela vez primeira, a viste absorto, "E, sem ella o saber, por ella ardeste. Se lano a mo ao sazonado pmo, De que o pzo gentil debrua os ramos, Se aqui observo a flavescente arista Espraiar-se opulenta, se negreja Em festes o racimo alm suspenso, Sahe delles esta voz, e a mesma em todos: "Marilia, por quem foste j ditoso, "De nossa profuso comps mil vezes "Os nobres dons com que nascer fizera "O sorrizo nos labios do indigente. "Contempla em ns o primoroso emblma "Dessa riqueza d'alma e de virtudes "Que luzio para o Ceo, que o Ceo recolhe. T na estao brumal, quando acurvada Aos rijos Aquiles, e sob os glos A Natureza esmorecida geme, Recordo ento com que feliz destreza As longas noites encurtar soubemos, Em conversa amigavel, ou notando Entrechos, expresses, desastres, ditas, De mil ternas historias que eu te lia, E onde, depois d'acerrimos combates, A Virtude os laureis cingia ovante. Doces memorias! lisongeiros quadros! Em vs minh'alma s'embebece toda; Mas o caro prottypo... a consorte... Onde est, onde est?--de balde a busco. Ah! que vive nos Ceos.--D'agora em diante Ho d'ir todos alli meus pensamentos Purificar-se do terreno ldo. Redobra, Anjo de paz, as preces tuas, E os Anjos, socios teus, orem comtigo Ante o summo Juiz; alcanai delle Que as imperfeies minhas aniquile No mar immenso das bondades suas: Eia, instai; que o momento se aproxima; Nas perfumadas auras que respiro, No palpitar do corao ancioso, Murmura fausto annuncio:--resolvida Foi no arcano eternal, e l no Empyreo Firmada em estellantes caracteres A suspirada reunio ditosa. O momento feliz! vem consolar-me. Quando estivermos ante o Solio eterno, Rogativa incessante e afervorada Ha de occupar-nos em favor de quanto Nos foi caro na Terra; e o Ser supremo Escutar propicio as preces d'ambos. Mas qual congresso, de fulgor cingido, Sobre aureas nuvens magestoso assma, Ares d'immortal gloria respirando?-- Alma toda celeste! eu reconheo Em teu lucido aspecto inda o sorriso Com que outr'ora os meus dias alegravas. Oh quo ditosas lhe pousais em trno Almas de nossos pais, almas de tantos, Que a Virtude illustrou, parentes nossos! Sim: vs quereis da reunio perenne O instante vigiar, quereis comnosco Ter quinho neste jbilo ineffavel, E dar applauso eterno a eternas nupcias; Congratulai-vos; que se apressa o instante!-- E quando esfaima, para unir-se tua, Os vos sublimar alm do Glbo, E arraiada de luz, transpondo os astros, No gremio se acolhr da Omnipotencia, Ento, terra, podrido, vermes, Tomai, que vosso, este involtorio fragil. FIM. End of the Project Gutenberg EBook of As Saudades do Bardo Orthodoxo, by Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho License: Share Alike