Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) Notas de transcrio: No texto impresso o tradutor, ou o impressor, no colocaram as marcas dos captulos XXXIII e XLIII. Esta traduo foi comparada com o texto original, em francs (Paris, 1859), e as marcas de captulo colocadas em conformidade com a inteno do autor. Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes. OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EDIO PARA BIBLIOPHILOS XVI FANNY VOLUMES PUBLICADOS I--Coisas espantosas. II--As tres irmans. III--A engeitada. IV--Doze casamentos felizes. V--O esqueleto. VI--O bem e o mal. VII--O senhor do Pao de Nines. VIII--Anathema. IX--A mulher fatal. X--Cavar em ruinas. XI, XII--Correspondencia epistolar. XIII--Divindade de Jesus. XIV--A doida do Candal. XV--Duas horas de leitura. XVI--Fanny. FANNY ESTUDO POR ERNESTO FEYDEAU ROMANCE TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA EDIO POR CAMILLO CASTELLO BRANCO Aquelle, que cavar um fosso, cahir n'elle; aquelle, que derruir uma muralha, ser assalteado por uma serpente. ECCLESIASTES. _TERCEIRA EDIO_ LISBOA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ 1903 Officinas typographica e de encadernao, movidas a vapor Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1. LISBOA I A caza est situada de esgulha, sobre um comoro de areia, orla da praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. uma casa baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do cho, um portal, seis janellas, e uma chamin de gsso, meio esburacada, no cume do telhado. primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos cabedellos, tinha ella um to triste aspecto, que eu senti serrar-se-me o corao. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas desmantelladas. Gemia a porta a cada bulco do vento que a embatia contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um sudario, a nebrina que a envolvia. Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas, marulhando-as, revolvendo-as, e espedaando-as. Rolos de areia, de mistura com entulho, limos e cardos, refluiam at testada da porta. Do outro lado, maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que invadia o antigo jardim. Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto raiz, conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel aspecto, se erguia ella, dentre os saces do vento, mas a goteira de chumbo, pendida da cornija, e aoitada pelas refegas oppostas, rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaos. Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria, que meu pae me herdra, e era o restante d'um casal, j desbaratado. Vim alli procurar o silencio e a solido. Mas no reparei o solar da porta, nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o asperrimo furaco das noites do outono. No chumbei o gonzo do portal. No levantei a goteira de chumbo. No me amiserei da velha arvore que se estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte no se amiserra de mim. Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar, foi o meu leito. Nunca na chamin se accendeu lume. Nutri-me do po negro e duro dos marujos. Bebi agua empoada que me dava a cisterna. E desde o dia que entrei ahi at ao dia em que isto escrevo, nunca mais sahi da casa triste. Prostrado sobre a folhagem dura, sentado no banco estreito, com os joelhos justa-postos, os braos pendidos, as mos inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente. Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas remeniscencias. Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos brios, transpunha eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da minha habitao maldita. luz glida e palida das estrellas de novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vr em p, gemebunda, sob os aoites do vento que a verberavam. Nunca, porm, me alonguei d'ella. Fra d'ahi quem poderia attrahir-me? O oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes, alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas, ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande brao minacissimo. II Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solido, por que, por desgraa minha, amei, e amo ainda. No cuideis, porm, que algum terrivel successo me distanciou, a meu pezar, da mulher que amo. Prouvera a Deus!... Poderia ainda abenoal-a! Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu ento vinte e quatro annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se encontravam. Diante d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu por fim que eu a amava, e serenamente, como quem se arremea a transpr uma barreira, ella mesma, com sua mo gentil, removeu todos os obstaculos. Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, to meiga e linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e jovialidade da meninice, e a estes encantos alliava um no sei que de serno que as mulheres adquirem na experiencia e costumes da sociabilidade. Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma activa em agil corpo. Por costume, deixava cair os braos de rainha, e nus os ajuntava cruzando as mos, quando estava em p: ento, as grandes dobras do seu vestido de veludo-granada, caam-lhe verticaes sobre os ps arqueados, e a cauda firmava-se no cho; e, quando caminhava a passos solemnes, erguia um pouco a formosa cabea, radiosa sobre colo de cysne, suavemente inclinado. Sentada, gostava de encostar a face mo direita, repousando o brao esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos, que desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em redor do colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a barba liza, tudo em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios finos e justa-postos. Os olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo, e amplas pupilas negras, languidamente envoltas em palpebras salientes franzidas de cilios espessos, tinham uma expresso de ternura, de candidez, de spasmo, de pureza que me irritava e endoudecia! Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braos com transporte, parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e vim at este extremo em que me vdes. Como eu quizera passar com ella os instantes todos da minha vida, procurava todas as occasies de encontral-a. No podia contentar-me com as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte, ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os ps no glo, s para vl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sda cr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites, com o corao angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de suas janellas luminosas, ou, rebuado e confundido com a gentalha, lhe expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vl-a entrar no baile, com os cabellos enlaados de flres, as espadoas nuas at aos seios, e ento observa se o corpinho de setim branco tremia sobre a presso anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a no me ajoelhar aos ps d'ella, quando a cortejava respeitosamente. Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do corao dos lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os olhos, encostada ao brao d'um ancio cravejado de medalhas, que a denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas, quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos graves; ao passo que, unida ao hombro d'um walsador infatigavel, immovel a cabea e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe ento os olhos como estrellas, sob as flres que se desinastravam das espiraes dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces pallidas, e as alvas espadoas. E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo p, mostrava-se orla do vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seduces das homenagens, nem as excitaes da walsa, nem a minha mesma presena, conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitaes do olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras e seductoras que so a falsa linguagem da lucta de um corao abalado com um espirito indeciso; maneiras que desfaram e colorem as concesses, e irritam a esperana sem desanimal-a. Mas como que a presena do seu amante a no perturbava nunca? Bem podia eu fital-a at cegar na fixidez do olhar, que ella parecia no me vr nunca. Era mulher at s pontas dos cabellos! III Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas flres; baixava os transparentes de brocatol cr de rosa, enramalhados de flres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e alizava com as mos o tapete de cadaro do meu leito. Regulava o relogio, cujo pendulo to moroso ento me parecia. Sobre um bofete de po das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dce de fructa, pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados de Marsalla. Mandava o creado passear at noite, e ficava eu senhor absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito inquieto o dce ninho dos seus amores. Que cuidados me no dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu estremecia! com minhas mos pregava os alfinetes no pregador de veludo. Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que ella usava para alisar os cabellos descompostos pela presso de meus dedos tremulos. Atiava o dce fogo que se avermelhava entre as cinzas. Aproximava do fogo a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que ella punha os ps, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: Vais ouvir soar a hora de teu prazer, mais inquieto e agitado que nunca, ia eu p ante p, da porta janella, como vae e vem o co fiel, atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono. E eu dizia comigo: A esta hora, tambem ella lana a furto os olhos ao seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre a fronte pura. Involve as espadoas no chal escuro, e aperta-o sobre o peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os olhos negros accumula as dobras do vo tambem negro. Atravessa as salas desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas. Vou vl-a! E depois, mais nada... Oh! que longo o tempo quando se espera e desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um filho! Que desgraado sou! no vir ella? J se demora! E, com tudo, era-me to dce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto to bem disposto para ella! To dce o recebel-a nos braos, no limiar da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! To bom tocar-lhe as mos, os cabellos, e vl-a emfim fitar-me com seus olhos lindos, e ouvil-a dizer: tu com aquella voz muzical! IV Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas lagrimosas, e, sem erguer o vo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda ao peito, cingia-me o pescoo, e, timorata e assustada como um passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que se fazia na casa ou na rua. E, quando emfim os mdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor o limiar, era uma como viso deslumbrante que alagava em ondas de luz a camara fechada. Os menores objectos, com a presena d'ella, eram-me thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se ento, como, nos primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias e taciturnas. Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas dos cortinados, atravessavam o espao, e quebravam-se ao fundo da alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flres das jarras, postas deante das janellas, desfolhavam uma a uma, juncando o tapete das suas frescas petalas. Segredando, de mos dadas, palavras incoherentes, contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoo deliciosa e entranhada que nos adestringia docemente o corao, e nos marejava de lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas estas expanses; nossos pensamentos, porm, no ultrapassavam as paredes discretas do quarto silencioso. Para ns o mundo todo estava alli. E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos braos! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha s mos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a pela cintura quebradia, e ella, oscillante entre os meus braos compressores, tomava-me a face entre as suas mos, affastava-a com meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a aterrassem. E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos ps d'ella, beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrra alli, collados os labios quelles ps infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de plumas de cysne, a tiritar entre seus vos como o anjo da inquietao meio involto na plumagem de suas azas! V Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E ento, no explendor de sua desordem, desatadas as tranas, nuas as espaduas, nus os braos, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais enleada que eu mesmo, estava to senhora sua como se estivesse recostada na cadeira de veludo ao p do fogo de sua casa. Eu no sei o que ella no fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia nem a molestava. VI De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos. Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspiraes da esperana, e o quanto era consolativo para amantes separados, o pensar incessante um no outro. Fanny sobre tudo se deixava levar desta unio espiritual com toda a expanso d'uma alma juvenil. Recebia as confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam n'uma especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratido, rosadas as faces, palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar embaciado, maravilhava-se ella da abundancia de minhas palavras, como imagens graciosas que volitassem dos meus labios. No a fatigava o ouvir-me.--Mais, mais, meu Roger!--dizia ella. E, encostando o cotovelo almofada, inclinada a fronte na mo, requebrado o corpo, os ps a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da minha alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mos juntas, sorria de prazer como creana amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se nossas almas n'um apertar vago e dce, com estremecimentos voluptuosos. VII No instante em que ella ia sahir, era ento o irromper minha alma em exploses de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com ternura, seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente as mos, que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. Fazia-me graciosamente sermes maternaes. Acariciava-me com bondade, abraava-me, ia e vinha para abraar-me ainda.--Tornarei a vr-te?--exclamava eu com tristeza.--Cala-te, Roger,--respondia-me, abafando a voz n'um beijo. Por fim, comprimia-a longo tempo ao corao; e, quantas vezes, ao apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios de ambos! VIII A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua. L ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu vo fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado a face. A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o movimento. Com ambas as mos ajustadas sobre a cintura, comprimia as dobras da cachemira que a involvia desde a nuca at ao artelho. Nunca se voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e eu atirava-me sobre o leito, escondia nas mos o rosto, avocando, hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me illudir com possuil-a. IX A primeira vez que ella ahi veio, no se espantou, mas examinava tudo o que a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia l espadas de combate dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso. Tambem se deteve diante de um retrato de minha me, que tinha sido formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de cartas. Mas, com discrio cheia de graa, passou, sorrindo, sem tocar nas cartas. X Eu era feliz! Desprezava quantos no eram eu, porque ella os no amava! De longe e de cima olhava o mundo. De tudo segregado, tudo via d'alto, mas com indifferena, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre mim convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do co. Nos olhares que se encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o murmurar confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como acclamaes longinquas. A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus pensamentos todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais consoladora que a esperana. Nunca eu antevera sedues tamanhas em humana creatura, tantas delicadezas n'um corao, tanta graa na reserva, tanto pudr na renuncia de si! Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illuses e desalentos, de melancolia e criancice, fra o bastante a conquistar-lhe o amor. Parecia-me, todavia, pouco esmerada em attenes e cuidados. To amada, por certo, tinha sido ella! Bella ainda, mais bella do que talvez se cria, augmentava cada uma das suas graas com o esforo timido que punha em evitar a apathia, que presentia de longe, com a vinda dos novos annos. Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava os labios n'uma expresso de meditar mais affectuoso, quando seus cabellos, fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras, as envolviam com uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu ento as mos candidissimas, e figuravam-se-me duplicadas, para que suas ultimas caricias fossem mais copiosas e maternas. Escutava ancioso os suspiros que lhe sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo do corao que reagia ainda indifferena, desejando-a acaso como repouso, e expedia a sua mais bella flamma, antes de retrahir-se em si para morrer. XI Eu era feliz! Mas a desgraa j vinha perto. At ento com a delicadeza mais de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a menor alluso a seu marido. Com uma pouca de bemquerena, conseguira eu phantasial-a livre e minha, sem partilha. To pudicamente se me dra ella! Foi como rainha, sem nada mercanciar do que no podia ser vendido. Um dia, porm--como isto foi, no sei!--ressoou suavemente nos labios d'ella o nome de um filho seu, e, em seguida, no pde deixar de fallar-me d'elles. Adorava-os com to furioso amor, que me abandonaria se me eu no comprazesse em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus filhos. Por mim fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella contava como abundancia extraordinaria de corao; eu, porm, escutava-lhe mais a musica das palavras que as idas. Eu adorava-lhe a voz magica e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que ella amava. Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrra d'uma epidemia passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de se aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo corao. O que ella ento fez forou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeio que uma me pde dar a um homem. Esteve sem me vr seis semanas. No desamparou esse bero sobre o qual se estorcia o dce thesouro vivo, formado do proprio sangue do seu corao. Escreveu-me quatro linhas apenas, admoestando-me a soffrer com ella. Homem orgulhoso que pertendes dominar, unico, sobre o corao d'uma mulher! aos menores vagidos de uma creana, v que lio te d a natureza! fora de pensar n'esta creana, entrei a pensar no marido de Fanny; e, a meu pesar, d'ahi a pouco, j no pensava seno n'elle. Nunca o tinha visto. A mim que se me dava, n'outro tempo, de vr o homem que lhe dava o brao, para entrar no baile, e discretamente se sumia na multido logo que um circulo de admiradores a compelliam a isolar-se d'elle? A ella amava, a ella smente eu via, por ella vivia... que me importava o marido d'ella? Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia que me vio no percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou, porm, que uma preoccupao secreta me alvoroava, emquanto eu, silencioso, lhe corria a mo sobre o brao nu. De repente, varada por cruelissima suspeita, repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu a atraioara. Sorri com doura a esta louca arguio; e, tomaado-lhe a mo como convite a sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe novo favor, com receio de ser indiscreto. --Que ?--disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de surpreza. Respondi que as seis semanas de solido me haviam feito reflectir tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que incidente algum podsse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos aproximarmos. Finalmente, com um embarao que eu no podia dominar, balbuciei: --Por que no sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu dissimulava a minha ida, fallando assim: por que, de subito, resplandeceu de sorrisos, e lanando-me ao pescoo ambos os braos com vehemencia, confessou, crando, que, desde o primeiro dia, ancira sempre o vr-me em sua casa. --Por que m'o no dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me, fazendo gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que querem ser adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia, communicava-lh'os aos labios por entre beijos... Vr... amar os filhos d'ella... J Fanny redobrava de elegancia o salo mais intimo em que seus amigos eram unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias, reunir em volta de si, os objectos todos de sua mais viva affeio! D'ora em diante no seria obrigada a tirar o pensamento de seus filhos, para ir em busca da minha imagem atravez do espao, trazel-a para o meio d'elles, e fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso, decorado por ella s, a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um maior logar--no em seu corao que no possivel--mas em sua vida, e tomarei quinho immediato em todos os seus jubilos, como em todas as suas maguas. Era um bonito sonho! XII Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as semanas convidava a jantar. --Ahi nunca vae muita gente--disse ella--poders facilmente ligar-te comnosco. _Comnosco_!... Era a primeira vez, que, n'uma s palavra, ella associava comsigo innocentemente o marido, sem dar f da angustia que esta alliana me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma oppresso indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois d'aquella palavra, terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se. Tinham decorrido as duas horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiana; comigo ficou a esperana horrivel. XIII Sim, esperana horrivel! porque eu no sei exprimir o que reluctava em mim de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vl-a emfim sob os olhos de quem lhe governava a vida. Tudo isto se misturava em meu corao como venenos e contra-venenos, e d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me sentia na cabea latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim. Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa estreitissima meza, onde claridade dos globos, nenhum conviva poderia esconder os pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada vi, e respondi ao acaso s perguntas que me fizeram. Comia machinalmente. Esforava-me por ser attencioso e polido; mas denotava mais inquietao que o assassino que se v em risco de ser descoberto. Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito das porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das terrinas, pelo vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer palavra, e se moviam sem rumor d'um passo, como sombras negras de luva branca; e suffocado pela athmosphera calida da sala impregnada de evaporaes penetrantes, misturadas com o odor do vinho e o das flres, eu no olhava Fanny, nem mesmo a escutava. Tornou-se-me insopportavel a par de mim a presena d'ella: era como um peso que me abafava. E tambem o no encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de to longe, com o desejo e terror de conhecel-o. Inceguecido por vises funebres, eu no podia vl-o, com quanto elle estivesse defronte de mim. De repente recobrei a minha lucidez sentindo um p de mulher rossar o meu, e comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha preoccupao visivel de mais. Dirigi-lhe um lano d'olhos agradecido; e, encostando-me ao espaldar da minha cadeira, contemplei detidamente aquelle que mal sabia que possante interesse ingendrra em mim o estudo da sua pessoa. XIV Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana. Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira gemia sob a gravosa flexo dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros. Comia, s mos juntas, mos carnudas e curtas, e levantava os cotovlos para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos grandes copos de vinho estreme. No tinha m cara, nem vulgar. O aspecto era de fora. Todo elle denotava pujana extraordinaria de musculos. A superficie das faces e queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros j betados de russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectido e persistencia. Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porm claro como cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos julgarieis felizes, evitando esse espelho de ao incommodativo fora de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando em saces os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para traz a cara vermelhaa. Era grave e sonora a sua voz; o gesto tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas, brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de inteireza e aceio. Pareceu-me ter quarenta annos. Primeiro, ao vl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em rivalidade com natureza to possante. Involuntariamente me confrontei com elle, eu, a par d'elle to franzino, como o seriam quasi todos os rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e fineza de raa, e de elegancia, amesquinhava-se em comparao d'aquella riqueza de sangue, pujana de frmas, e virilidade fria e pacata. Eu era como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao p d'elle que homem era eu? Forte e gentil expresso de homem era smente elle, eu no. E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparao de mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dce e loura como Eva, candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e to delicada no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como que ella poder amar tal homem? Violenta associao de duas naturezas que entre si no tinham um ponto s de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro! Oh! Desdemona!--me dizia eu--que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra, olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mo alvissima os louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E fallava-lhe a elle, sem turvao nem embarao... e dizia-lhe: _meu amigo_, deante de mim. E elle, com menos embarao ainda, lhe respondia, todo attenes e deferencia, com ar, porm, de grande superioridade. O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as dizem aos filhinhos curiosos. XV Terminado o jantar, e passados os convivas sala grande, e sentados em redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia os ps ao fogo. Encostei-me ao rebordo da chamin; e, com palavras de ternura que lhe dizia a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste logar via eu as costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que flammejavam as velas, involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em magnificos castiaes de prata; ouvia o ruido dos tentos de madre-perola, e o murmurio dos equivocos que os parceiros se trocavam. Cuidava eu que estariamos assim a seguro de reparos, com alguma astucia, at porque a dona da casa fra para o fundo da sala dedilhar no teclado do piano. Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes ondeando o ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas ainda, cantavam em ns. Porm, separando-se do grupo dos jogadores junto ao qual at ento estivera de p, o meu rival dirigiu-se a ns com semblante gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que fallavamos. Com melindrosa urbanidade, que excluia todas as maneiras familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares cortezes, entrou elle a dirigir a conversao e eu no pude deixar de acompanhal-o. Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibraes, de que elle no dava f, fallou-me de caa, theatros, cavallos, que sei eu! no deixando mesmo de entrar no amago dos assumptos banaes que eu imprudentemente escolhra, mas que o interlocutor me condemnava a repetir, como se elle os julgasse unicos dignos de mim. Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as com os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento. Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas cordas brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse que em meu corao havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia restrugir-lhe nos ouvidos, e insurdecl-o! Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em redor do claro dos castiaes. Sem me vr a mim, nem a outrem, nem a ella, apertava-lhe machinalmente a mo, scismando talvez em no sei que. E eu, contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos espectaculos. Em quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida como uma estatua de marfim; mas no ousava balbuciar, nem fallar, e consentia. XVI Desde essa noite, uma s preoccupao me dominou--dissipar do meu cerebro a imagem do que vira. Quiz, custa de tudo, esquecer aquillo que me humilhava e esmagava o corao. Como eu me castigava do que fizera! Absurda cubia de conhecer o que ella to de siso me escondera, e que eu devia ignorar sempre! --Oh! no--me dizia eu--nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel; nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos ho-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de mim, ha-de a mo d'elle apertar a tua, mulher serena e docil! Tres dias depois, quando veio a minha casa, no viu ella em mim mudana alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas dr era esta que simulava a quietao da paz. Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no corao, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a preoccupava, Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma dr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com amargura: --Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te ds por venturosa se o juizo que esperas no lhe fr desfavoravel. Mas, Fanny, tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira. Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do corao lhe refluiu face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a sua casa, para me vr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces e queridos que lhe decoravam o corao!... --D'onde vem essa mudana, Roger?--murmurou ella com penoso esforo. D'onde vem?! exclamei eu infurecido... mas vi-lhe ento o rosto innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus ps, abraando-a pelos joelhos, disse-lhe brandamente: que eu sou horrivelmente desgraado, Fanny!... porque me devoram ciumes... Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mos: eu permanecia de joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espao, profundamente, explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio, exclamou: Filho, meu pobre e querido filho! E desde ahi, no tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto. Eu, porm, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder abster-me de o recordar. Affagava-me ento ella, e reprehendia-me. Perdes o tempo--dizia-me, sorrindo-me, e abraando-me, se me eu detinha muito na exposio das minhas tristezas. E seus braos se me inroscavam no pescoo com ameigadora volupia, com a fascinao dos olhos me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus seus labios. Mas tudo em vo. J se no franziam meus labios para saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluando gemidos. XVII Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse, no havia dilil-a de l. Pde ser que aos olhos de toda a gente fosse elle ridiculo, mas aos meus no cuidei que o fosse. Para mim, era sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos, trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade. O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama comeado por transportes de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores, desespros, no representava elle: to prudentes tinhamos ns sido! Atroz mudana de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador soffria da posse pela posse. No lhe restava mesmo o recurso de excitar as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas! E era-me fora desconfiar e occupar-me d'elle! A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este papel de fugidio, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu Deus! se eu a no amasse!... Em comparao dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e no sabia que flagellaes me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde ento, se deante do fogo, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma da dr presente, levando-a s memorias de amores passados; ou esporeando redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro, ou se pedia orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que nunca me valeu uma gota d'agua do Lthes; ou se, n'um s lano de azar, expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensao diversa daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me, invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na remeniscencia da minha me morta, eu pude conseguir estrangular a serpente que me atassalhava o corao. Comigo, a viso fatal sorria aos meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado; zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha me. flr de minhas recordaes todas, scenas incantadoras, affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de minha alma, surdiam incessantemente outras lembranas, outras imagens que espancavam aquellas. E no havia remedio seno acolher aquellas abominaveis lembranas; affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso violentado; venciam-me, e eu ento, encarava-as! Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima. S quem ama pde formar ida vaga de minhas agonias. Era tudo claro e patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo do fogo em sua sala, ou meza, no logar de honra, em face de seu marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenes delicadas para todos, attenes que so a magica linguagem da graa do corao. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe foroso prevenir suspeitas de homem to prespicaz: como no seria ella carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expanses naturaes!... Era elle o leo dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido, e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco de perigos mil, exposto a humilhaes degradantes, a uma bala, o roubava nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinho. Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia pedaos o corao. Eu no podia suspender o trabalho indefesso de minhas evocaes. Completava-as, ruminando minhas dres, com satanico prazer. Ento se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, s por s com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o ch fumegava nas chavenas, ao suave claro da lampada, ao p do lume que docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil, fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convm mulher quando formosa, e o dominador forte. E no cuideis que eu ficasse n'estas imagens de seductora intimidade. No podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe outras. Era foroso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde, agonisava a chamma no fogo obscuro, a lampada mortia abafava os seus lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles sosinhos. E eram esposos!... XVIII Chegado at este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha alma, alguma coisa se estorcia e agonisava em convules desesperadas. Estas imagens, evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraado, que se eu tivesse visto a mulher adorada cuspida em minha presena. Erguia-me, e via as horas; depois, despregava a rir, como doido, ou, involvendo a cabea nos braos, lanava-me a chorar sobre o leito. XIX De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um ttano. E se me arrastava janella, para aspirar um pouco de ar puro, a mesma pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flr venenosa: Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, j m'o disse; foi por elle tirada familia que a no queria ligar a um homem sem posio e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que energico e paciente. Sabe querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a mim? Somos to differentes um do outro! Um dia, finalmente, fora de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. Lembrando-me quanto ella era sensivel s caricias; figurando-me as scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido, invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que o despreso, mais peonhenta que o odio, me subiu do corao aos labios. --Ora ahi est por que ella me ama hoje--me disse eu sacudindo a cabea. Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me covardemente com uma nova punhalada.--Ama-me para variar--disse eu amargurado--para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais sentimental, mais delicado. A no ser para completar o seu ideal... accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposio. Mas em tal caso--grito eu com terror indisivel--eu no sou para ella mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um corao! Fui medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addio! No passo d'um complemento. XX Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas interminaveis meditaes na multido que peja os passeios. Achando-me entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de julgar-me to absolutamente miseravel, e classificava de creancice as mais monstruosas hallucinaes-- o ciume--dizia--que me torna absurdo. Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo brao de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:--Quantas mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em amigo, e nem sempre! de toda a gente, menos de sua mulher... Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para saber que no poderia jmais adquirir o espirito de conformidade com o meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mo de seu marido, amigo s que seja! Alm d'isso, eu no queria cortejar esse dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o homem indispensavel. Eu vaticinava--se as suspeitas alguma vez o molestassem--quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para destruil-as. E para aviltamento j bastava! D'aqui avante no passo--protestava eu--j de mais o lamaal do meu caminho. Mais canado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da primavera faziam-me vontade de chorar. A mornido da atmosphera ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das multides ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da minha soledade. XXI Em troca d'estas dres, que por serem silenciosas, no eram menos crueis, nenhuma consolao eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos. A duvida resequira as novas flres d'elles com seu impuro sopro. Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mo adunca da mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrana d'aquelle que, na logica da minha paixo, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo, vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para empeonhar nossas caricias. Eu via os traos d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da mulher que eu adorava. N'aquelles braos que me apertavam ao corao, estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias de Fanny, se infiltrra elle. Via-o na fronte pallida, no rosto contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraando-me, com ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro sobre os panos verdes das mesas do jogo, s francas gargalhadas das mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braos abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles--dizia eu lastimosamente--soffreu jmais por seu amor infertil, tanto quanto eu soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possesso! quando nos no fatigas, deshonras-nos. XXII Em fim contristava-me o desapreo que, a meu pesar, soffrra o idolo em minha alma. At ahi, era um verdadeiro culto o que eu sentia: a realisao de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: affizera-me a vr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de deperecimento ou macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a minha piedade a ergura para manchar seus ps no contacto da terra, e confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do ciume, que principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de adorao, odio, furor, e desprezo. XXIII Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um duelo de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do corao inficionados d'uma certa grosseria. Morrra o respeito em mim. Dominavam-me ideas brutaes de lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de castigar rudemente aquelle ente inoffensivo e graciozo que eu amava pela vida! Eu queria invilecl-o diante de mim ainda mais do que a sua imagem se invilecra na minha memoria. Como pde ella resolver-se a isto!--exclamava eu inraivecido!--Oh! que execravel zombaria isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos so coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os enchugam. No podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que at ento eu guardava comigo s. Os homens no sabem soffrer longo tempo, sem descarregar covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais amam. XXIV Tu sabias que eu era cazada! Foi a suprema razo que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus primeiros queixumes, ainda moderados. Eu respondi: No sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e no podias prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor? E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado: Como viveis juntos? Ella corou: estava offendida. No devemos fallar d'isso, Roger--respondeu com frieza. Mas to desgraado me viu, que, por commiserao, fallou, violentando os seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio. Ella, porm, no me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de conhecer a extenso da minha desgraa, querendo saber, custa de tudo, onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu estava enfiado e sem ar. Poz-me a mo na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny contemplou-me longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix at derradeira gota, disse-me que ia responder-me. Eu, chegado a este extremo, com embarao imprevisto, com uma hesitao que obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa luz da inteno que eu tinha; com uma turvao doloroza, que augmentava a angustia do corao animozo; illaqueando o pensamento na rede das divagaes e periphrases, como se eu quizesse demorar o momento de conhecer o que eu temia saber--interroguei-a cerca de mil coisas tendentes a velar de mim a existencia intima d'ella. Respondeu-me com simplicidade, to embaraada como eu, vencendo, porm, intrepidamente a vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de mitigar-me as dres, e dar-me um exemplo de desgostos que pde vencer a mulher que ama, quando desgraado quem ella ama. E deu-se ento em mim uma successo monstruoza de caricias e golpes; mistura sem nome de balsamos e venenos; associao horrivel de martyrios e glorificaes. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel, permanecia em toda a sua plenitude; porm, quantas consolaes podiam modificar-lhe o corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me prodigalisou, espiando com sobresalto em meu rosto o effeito das palavras confusas mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se n'ella uma soberba exploso de revolta, que me fez cahir a seus ps, pedindo perdo. Eu devia crl-a. Muito vante tinha eu ido nas conjecturas do meu ciume. Fanny repartia-se; mas no pensava sem horror n'essa repartio. Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa confuso que ella acompanhava de tantas consolaes, pelas lagrimas que lhe derivavam na face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua vida; eu poderia ficar altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella tamanha dr e humildade; mas, em meu espirito, havia uma s preocupao, que me alheava de mim mesmo. Fra d'ella nada comprehendia, no pensava em nada. No tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe receios pela sua tranquilidade. Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o n'outro tempo. A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e no enchugou as lagrimas. Roger! Roger--disse ella-- pena que tu sejas sempre creana. Ouves, e no comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em ns? Que mulher tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe d? J no digo os cuidados, as attenes, os bons modos, a amizade; mas um pouco desse balsamo que a essencia da nossa vida toda--um pouco d'amor! XXV Esta penosa discusso avantajou Fanny na minha estima, mas no me consolou. Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da inteno! O facto brutal era o mesmo. No obstante, reprehendi-me da curiosidade do meu ciume, que at me roubava a sombra da duvida que eu, por momentos, affagava ainda. No podia, pois, atenuar a minha dr o effeito das ultimas palavras de Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a mesma angustia. Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as foras, antes de aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e no podemos mais tempo resistir a ns mesmos. Fugiu de minha alma a menor idea de lucta; do corao d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e o abrao que nos apertou era to forte, que, mais uma vez, gostamos um minuto de verdadeira felicidade. XXVI A confisso, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como a mim. Ella, porm, to pouco se individualisava na offensa, que, desde esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dres, todas as suas escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupao devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera, como s nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade s estreitesas da escravido da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. Tinha como brio de se vr em minha casa depois de haver-se exposto a perigos tamanhos, feliz por a no terem encontrado, contente porque me via menos triste. O vencer obstaculos, a conservao do segredo, manter a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso no a deixava sentir o cansao. No ha felicidade perfeita--dizia-me ella enternecidamente com um suspiro--ambos pagamos tristeza o tributo do nosso amor; mas este amor to bom que o tributo que a tristeza recebe no me parece uzurario. Nunca suggeria discusses; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que no podia fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas tl-os-ia ella?... Quando eu estava ssinho, pensava assim:--Que cautellas ter ella tomado para dissimular este amor? que invenes! que calculos! que ardis! para se furtar a discusses sobre as suas sahidas! Quantas concesses para no ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que perder! E eu to pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a! Tratava-me ella por creana, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de penalisar-me! Eu no queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a retl-a em casa. Desconfiava ento de abominaveis calculos. Affirmava que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitaes e fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a. Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vr os horrores do meu infermo espirito. Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para entrar s profundezas da consciencia, dizia em mim: Quando a tenho torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, golpeada no corao, perguntando-se se me tornar a vr em sua vida, que far ella na rua para disfarar o tormento que a aperta, e mascarar o rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver mulher risonha que eu conheo? Ser custa de carinhos que ella affasta as suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve chorar com seus filhos! So tantos os esforos dolorosos que elles lhe custam! E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quo certo que, semelhantes me, to bons, to discretos, com suas mosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem. Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza. Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha expresso de piedade. Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava. Diante de mim smente ella affrouxava a rigidez do seu porte, e eu da melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de senhora feliz! Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, sem ignominia! No me deixes--dizia-me ella por vezes--Tu es-me necessario como a luz! E outras vezes accrescentava: O que me prova que eu te amo, que eu amo tudo que teu, o teu dce egoismo at, at a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustias! Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, que no ousava confessar, a angustiasse sem desabafo. Eu observava-a, e ella sacudia a cabea. Depois, retorcendo os dedos, exclamava: Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus negou-me fora, e, por toda a vida, cumprirei a sentena da minha fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter; tenho visto sempre ao p de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu Deus! como eu me detesto! Tomava-a ento nos meus braos para applacal-a; mas no achava que responder-lhe--De que quer ella fallar?--Perguntava-me eu estupidamente. Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e attribuindo-me as palavras fugidas consciencia d'ella, sentia-me feliz e orgulhoso. Isto s vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resolues--Guardarei para mim os males todos, e as consolaes para ella--propunha eu comigo. Por compaixo, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos; sacudia o cansao do meu pesado scismar, por me deixar levar dos transportes ardentissimos da paixo. Refazia-me em meiguice e ternura e sujeio, mais affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia, encontra o olhar do dono querido. Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja mulher estremecida; tornei-me frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um tempo, rindo desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que dissesse respeito directo ao assumpto uzual dos meus tormentos. Mas esta misso heroica, de que dei m sahida, no a enganava. Olhava-me ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabea. Cuidaria ella, em consciencia, que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor? Estes accessos de heroicidade no podiam durar em mim longo tempo. Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu recobrava o meu aspecto triste. XXVII Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella situao. Mas, d'ahi em diante, havia entre ns alguma coisa, que no podia j mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que, mutuamente, nos atormentava os coraes. Embora cerrassemos os labios para o no deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como dr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecaes. Um s grito bastava ento para incendiar uma exploso subita, e eu, principalmente, esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso tristeza que me devorava. No queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia. Fanny formalisava-se ento; meditava largo tempo antes de responder-me, para no se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o sobr'olho. Os homens so insaciaveis--dizia ella, com grande espanto meu--No podes contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se passa em minha caza? Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias, esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas s de vl-a, toda a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos ps d'ella, e comprimia-a convulsivamente ao meu corao. O que muito me espantava e irritava acremente era a docilidade com que ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as difficuldades, no podiam nada com ella. Vr-me, no me vr, era tudo o mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e no dizia palavra. E se eu me matasse? exclamei eu, um dia. Fanny encolheu os hombros. E se algum incidente imprevisto nos separasse? --Que queres que eu te faa!...--disse ella, e em seguida entrou a chorar. No podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de modo que as suas menores inspiraes lh'as dsse eu. De sobra comprehendia ella a minha inteno, e mostrava-se; mas no me cedia nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E dizia-me: Eu sou obrigada a soffrer a posio que me deu a sorte. Devassar-lhe os segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger. Eu de mim esqueo-as sempre que venho aqui. Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora: s muito egoista! Pelos modos eu no devo amar seno a ti! Impellido, porm, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella anteposesse a sua vontade minha, astuciava com ella, impetrando-lhe exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de baixeza, que, irritado por ser eu s a penar, empregava toda a minha influencia para exigir d'esta desgraada mulher que seguisse uma norma de proceder deametralmente opposta que seu marido lhe trara. Bem sabia, eu, com isto, que a sua casa, at ahi pacifica, ia tornar-se um inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansao, seguiu ella docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho. Ambos ns, sem treguas, lhe flagellavamos o corao. Espicaada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de inteiresa, disse-me: Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o repouso. Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de martyrio, por que era para mim cruelissima mortificao vl-a erigir-se em defensora de seu marido. Fanny, alm disso, parecia fatigada d'essas disputas aviltantes e penosas.--Tenho medo de infastial-a--disse-me eu um dia. XXVIII Porm, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vr-lhe no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar. Tomei a peito depraval-a, buscando abafar este amor nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea absorvida, e sria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais corrosivas da paixo, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expresso de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos azues, to rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! No poderei jmais esquecer os olhos d'ella?... Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabea, no andar, tinha algumas vezes um no sei que que denunciava appetites de um sensualismo profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concesso duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra s, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher. Que mulher s tu, pois? lhe disse eu, em seguida a uma discusso em que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porm, commoo interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces. --No posso viver sem amar--respondeu ella pausadamente--No posso viver sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, so cousas secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que exclusivo meu, a minha paixo.--E com leal exaltao, ajuntou: comprehendes-me? XXIX Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discusses. Todos os annos, Fanny ia passar aquella estao ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porm, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia Escrever-nos-hemos disse ella. Semelhante resignao exasperou-me. No sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me s que combati aquella resoluo com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava to alvoroado, to infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos braos, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que eu lhe indicasse.--S prudente! sobre tudo, no te arrisques--disse-me ella, entre dois beijos, retirando. Passados oito dias, encaminhei-me na direco de Chaville. beira da estrada real de Versaille que estava a casa d'ella. Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui ter a um pavilho, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. Fechei a porta. Estvamos s escuras--No falles--segredou-me ella, com extraordinaria agitao--elle est desconfiado ha tres dias; anda triste; deve ter suspeitas. Aqui est uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu no contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mdo-- preciso que elle no desconfie; no quero que elle o saiba; no quero. Tu s homem, a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se de sacrificios que vaes fallar-me no temas, que eu sou forte.--E sentindo-se desfallecer, vendo-me perdido de dr, disse-me com amargura:--Eu tinha esquecido que tu no passas d'uma creana. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem. Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar ao meu lado--serei talvez creana, mas tenho coragem de homem. Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, no sei que inventar; mas, j que s forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua me, se assim o queres, no me vers jmais, ainda que me procures por toda a terra. No quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no cho com o p. Depois tomou-me a cabea entre ambas as mos e abraou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraados pela cintura, curvamo-nos sobre a vidraa para vr quem assim passeava no jardim a hora tal. Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que volteavam ao vento sobre a cabea nua. Caminhou parallelamente ao pavilho, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mos enlaadas no dorso, cabisbaixo, as feies alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou ante ns, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo. Tive de sustentar em meus braos a desgraada mulher, por que os joelhos no podiam sustel-a. Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido nada suspeita. Est preoccupado; mas no se v alli a inquietao febril dos ciumosos. Eu sei bem o que , de sobra me tenho observado a mim. --Crs? exclamou ella n'um impeto de esperana que a vibrava. Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei. D'aqui at l observa-o bem. No sei o que que o inquieta; mas eu a quem tu hoje chamas creana, digo-te isto: teu marido no tem ciumes. XXX Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalo do solitario passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentrao. Mas tinha cerrada a bcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o co estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braos, como se do corao lhe fugisse alguma prece ameaadora. E eu exclamei mentalmente: elle, pois, desgraado tambem! XXXI Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. No parava em parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotes, como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella s! Dizia-me no sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaado de perder Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separao violenta. No atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do co. Ao oitavo dia, hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez no esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. No. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a no encontrasse no pavilho. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado por mos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os ces, que dormiam nos pateos, atiravam-se aos portes latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que estalavam na calada. E o vento que me aoitava a cara, murmurava-me aos ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para isso, decidido a no succumbir sem luctar com todas as foras que a desesperao desde muito me tinha dado. Quo exaggerado eu era na espectativa como nos preparatorios! Este meu espirito enthusiasta no sonhava seno combates sobrehumanos, desinteresse fero, esforos heroicos!... Ai! e que desenlace to vulgar me esperava! XXXII Transpondo o muro, fiquei surpreso de vr Fanny assentada na margem d'um passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido estivesse ainda fra. Logo, porm, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mo. Pareceu-me vl-a inleada e cuidadosa. Que aconteceu?--perguntei, levando-a para debaixo das arvores. --Tinhas mais que raso, Roger; meu marido no tem ciumes--disse ella--Nunca se fiou tanto de mim. No me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da sua preoccupao. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, esto em risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manh partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. foroso que a inquietao fsse grande--ajuntou Fanny suspirando--por que nunca foi commigo to expansivo. No achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu violenta pancada na cabea. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu represava-os. Nada respondes, meu amigo?--disse Fanny. --Que heide responder?--exclamei, perdida a consciencia da minha brutalidade.--Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... Mas? atalhou ella. --Mas no posso lamentar-te por teres sido ameaada de perder-me, e te achares hoje mais livre que nunca para amar-me. Fanny ergueu as mos ao co, como invocando o seu testemunho, com expresso de piedade, e disse brandamente: No fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti. Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos o brao, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de mim e tomou-me ambas as mos, e disse em tom de voz submissa: Roger, por que no fallas? --No tenho consolaes que dar-te. Por que? --Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado. Pois que te succedeu? --Nada. Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella curvando-se debaixo das franas, eu, erguendo-as, para ella passar. --Agora vamos ns tomar quinho nas amarguras d'elle--disse eu de repente. Assim deve ser respondeu ella com tranquillidade. O remate do nosso encontro foi magoado por um comeo que eu no podera prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, tambem. E, todavia, eu no poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre. --Quem sabe--pensava eu commigo--se a sua ruina far o que a minha dr no pde fazer? XXXIII Depois d'este dia s em Paris nos tornamos a vr. Era facil a Fanny ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso tornamos ao antigo viver. O que eu, porm, previra realisava-se com um rigor de desesperar. No era s o pensamento seno a vida de Fanny que estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expanses, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, no me ouvia. Se recebia de manh carta inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanas, irrompia ella em expluses d'amor e d'alegria. Esta alegria, porm, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja exploso atava a alguma coisa que no derivava d'elle mesmo, indignava-me. Glido deante de sua inquietao, mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava energicamente a receber a repercusso das novidades que tanto a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny no se incommodava ou nem dava f dos meus enfados. Isto desesperava-me. Em summa, aborrecido de me vr assim atado ao meu rival pela mulher, que, repartindo-se equitativa por ns, dava todos os seus pensamentos aquelle que ella julgava ter mais urgente preciso de suas sympathias; indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que s podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraa, resolvi tentar um supremo esforo para recobrar o socgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasio. Foi ella que a deu. XXXIV Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se aliena, no pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraado dos homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheo que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito. Commovido por este exordio, respondi balbuciante: --E, todavia, a nossa alliana podia ser ditosa. Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre ns o amor. O castigo secreto d'esta ligao isso. Estas relaes s duram com a condio de serem banaes; e, se o so, devem repugnar a coraes nobres e delicados; se so profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente. E suspirou. Respondi assim: --Vou mais longe que tu, Fanny. Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, no conhece a existencia do amante. Isso ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alando os hombros, poz os olhos no co, e exclamou:--Que o amor proprio, Deus meu? Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposio de espirito, aventurei-me. Peguei-lhe da mo, e erguendo-me, em quanto ella me olhava affectuosa, disse, n'um tom supplicante: Com tudo... se tu quizeres... Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava. --Que queres tu dizer-me? No ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me apertou meigamente a mo, e disse suspirando:--creana! Eu fiz com a cabea um gesto negativo! Deixa-me!--disse ella de sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? No posso fazer-te feliz. Caza-te!--A dr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a mo, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaa. Mas to quebrantada a vi, que no tive coragem de a levar ao extremo, e murmurei por de mais: --Bem sabes que no possivel isso. Replicou: Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu corao, e s tu quem me castigas! Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submisso; ella, porm, no perdoava assim, e exclamou: Que queres que eu faa mais? --Se me amas, como creio, o teu dever est traado. Corou outra vez: que comprehendera. Meu dever! meu dever! Muito indiscreto s em proferir semelhante palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de no deixar a caza que governo? --Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me ferir... que confronto!... A caza--replicou ella baixando os olhos-- o posto d'honra confiado mulher! Mulher que se respeita, no a abandona nunca! Quiz interrompl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e olhando-me com ternura: Raciocina um pouco, meu querido filho: pde uma mulher abandonar sua familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Pde ella desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos olhos do mundo entre as mulheres perdidas? --So bem tristes consideraes as da sociedade quando as cotejas com a minha vida...--respondi eu. Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu: Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que s muito honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia foroso, algum dia, fazer-me arrepender. Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra. Podemos ns supprimir o passado? No s tu zeloso mesmo do passado? Oh! quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lanando-me um brao em roda do pescoo, em quanto com a mo sobre o meu peito, cravava ternamente nos meus os seus olhos azues--Em teu logar, cr-me, eu seria tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma cadeira, e escondendo entre as mos a face: Por que me no fugiste, quando era ainda tempo! J era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela primeira vez, passar deante de mim. Ergueu-se outra vez, e abraou-me com mudo transporte. Pensativo, alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe: --O amor, Fanny, pde consolar muitas dres, remir muitas humilhaes, substituir muitos affectos. Diz tu: o que a estima do mundo, os tranquillos sentimentos da familia, comparados absorpo d'uma existencia por outra existencia? acaso to longa a vida que possamos consentir em immolal-a a coisas to frivolas? E, de mais, que se lucra? Quem nol-o agradece? Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral! E eu prosegui: --No ests canada de crar, de tremer, de te esconderes? No tens, emfim, vergonha da vergonha? E no te repugna ao corao esperar, esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos minha bca faminta? No espao d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu no pdes ouvir-me, sem que a lembrana de tuas inquietaes, perigos a que te expes, os meus proprios tormentos, te no impallideam; e eu, to desgraado! no posso uma s vez abraar-te, sem que logo um espectro... Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, no me digas que s desgraado, por que me matas. --E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!... No haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te peo ser eu s o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me por ti eu s, preparar, suavisar sob os teus ps a vereda do futuro; ser s a amar-te; o que eu quero ser para ti o meio e o fim da felicidade; tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero ser a um tempo teu filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabea querida as mais dces e solidas affeies, concentrar em ti as lembranas do passado, as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a ser toda para mim, e que no haja na minha vida inspirao que no seja tua, que no proceda de ti, que no sejas tu! Se tu quizesses... No ha ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pdem emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da felicidade que a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solido, onde, sob um co azul sempre, sombra d'arvores sempre veridentes, beira d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flr, ahi, nos saboreamos por ns mesmos, como se a nossa dupla existencia mais no fosse que uma palpavel recordao. Que desgraa poderia ferir-nos ahi? que inquietaes assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses... Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada? procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os labios? dormir com a boca presa tua espadua, a mo inlaada na tua mo? vr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais tranquilla, mais graa que o sonho das virgens? Ouve mais: no seria nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o corao das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do qual me estoro ha tanto tempo? teres-me dado tu s mais felicidade do que homem na terra pde cobiar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te diria: amo-te!... se tu quizesses!... Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de prazer. Inclinada para o hombro a cabea, cahidos os braos, as palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que no queremos perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensaes e quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convules electricas lhe crispavam a cutis; tremiam-lhe as mos em vibraes dulcissimas. J no poder conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu pescoo que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle! No se falle mais n'isso--disse ella, com expresso de angustia, recuando a face, e apertando-me a fronte com a mo--Isso faz-me um grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, egual ao que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva o mais bello sonho dos meus encantos; mas, ai! no passa d'um sonho! Meu Roger, amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, no falles assim mais! XXXV No me dei por vencido d'aquelle grito de desesperao que me revelava, ao mesmo tempo, aspiraes ardentes, e dres mysteriosas. Nenhum de ns nesta affectuosa discusso, havia empregado os verdadeiros argumentos. Um tanto satisfeito por expr a suprema questo da minha vida quella que devia resolvl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco e pouco a ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha adorada inimiga. Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma s alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdl-a para sempre. XXXVI Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de interrogal-a, e fiz que no dava f da sua turvaco. Acariciou-me vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a cabea inclinada sobre o meu brao, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respirao suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o voltar os olhos, crando. Tomei-lhe a mo sem dizer palavra. Apertou-m'a com fora febril. Falla em nome do co! disse-lhe eu empallidecendo. Abraou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella. Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa manh mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espao de alguns annos. Em tal caso--accrescentava elle--deveria Fanny metter no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as abominaveis palavras de separao. Dessimulei, porm, as angustias que me alanceavam o peito, e deixei s transparecer no semblante os traos de dr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei: No ser assim, Fanny!--juro que no, por que arrancarem-me o corao o separarem-me de ti. --Que hei-de eu fazer, meu Deus?--disse ella retorcendo as mos. Amarmo-nos--respondi exaltado, com quanta fora temos, e tirar um recurso da horrivel necessidade. --Recurso!...--e eu interrompi-a logo: Fanny! este momento solemne; no ha que vr com subtis consideraes do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braos, repetindo: --Que hei de eu fazer? Fugirmos para to longe que ninguem nos veja mais. XXXVII Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus braos, poz-me ambas as suas mos nos hombros, e fixou-me. Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella me revelou foi piedade smente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe apontava o logar digno ao p do chefe de familia, a luctar ssinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que no cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de unio to cara; mas tambem comprehendia que lhe no era possivel desobedecer voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dr sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios. --Meus filhos!--exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaadora angustia. E pendurava-se-me do pescoo, fitando-me os olhos penetrantemente--Meus pobres filhos, to creanas! Pensas tu n'isto? Tu que s bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe? Immediatamente comprehendi pela commoo que me estorcia o animo, que quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignao. Eu mesmo, no secreto de minha alma, no queria esse monstruoso abandono de me, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que adorava. Mas, confessal-o-hei?--no me instigava tanto lucta o desejo de passar a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, abraando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a ida de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo: Aqui ha mais ciume que amor. Entretanto, mais tranquilla, mas sempre affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia ssinha. Escutei-a. Se eu ousasse... se eu no temesse mortificar-te... --Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. J agora, no ha nada ahi que possa fazer-me mais desgraado. Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida: Pois bem! eu no tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle est no meu dote. -- isso s? deixa-lhe tudo o que tens. No sou eu bastante rico para ns ambos? No isso! no isso!--disse ella, meneando a cabea. Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarar a ida. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer: Como condemnal-o solido n'este supremo momento em que elle lucta tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a companhia de quinze annos da sua vida, a me de seus tres filhos... --Por que o enganaste?--atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha colera; mas, com uma s phrase me esmagou ella: Por que te amava! e com expresso de orgulho que a engrandecia a cima de si mesma, accrescentou:--Mas a perfidia no competia a ti reprovar-m'a, Roger! D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse infame meio. Depois de olhar-me longo tempo, disse: Que desgraado elle seria!... Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu: Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas... Puz-lhe a mo nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de lagrimas. Posto que perturbado, no pude deixar de admirar-lhe a franqueza nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida na victima! Que faria elle? murmurei. Fanny, levou as mos face, e respondeu com voz abafada: --Talvez me perdoasse...-- E, passados os soluos que lhe embargavam a voz, disse: --Estamos demasiadamente castigados! Se obedeo ao dever, abandonando-te; se no lhe obedeo, deshonro-me. De ambos os lados s vejo a desgraa, e fao desgraados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has dado o corao, que me no serve para consolar os entes que amo, e nem as suas dres posso incerrar n'elle, como thesouros caros! E, a luz crepuscular na alcva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, enlaados os braos e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas! XXXVIII Desde este dia funesto entendi que no devia esperar mais nada d'este amor, e vivemos na penosa espectativa da deciso de um outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido no dos poupar em dr alguma, a soluo todos os dias esperada, no chegava nunca. J as cartas no eram smente assustadoras para Fanny. Era eu que as desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom exito d'aquelle que, mo grado meu, no luctava energicamente. Com tudo por dar alguma coragem desgraada mulher, exaggerava a minha confiana, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a fora de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justia, e recobraria o to merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha esperanas: pensava n'elle s, e tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da desesperao, era a volta do meu rival, em cujos braos devia cahir a mulher que eu adorava! Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora me pezava o inepto pudor que me no deixava entrar n'aquella caza--Se eu tivesse menos orgulho, se eu no tivesse querido exaltar-me, singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me no lava da minha aco; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflico. Mas eu tivera sempre mais orgulho que bom senso. Pungia-me, ento, a ida de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo minha consciencia taes subtilezas, to futeis ellas eram, que no me illudiam. Mas, maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava minha propria dr, accuzando-me de faltas no commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu no sabia que fazer para readquirir uns longes de esperana. XXXIX Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento no as tinha para m'as dizer, que no carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias, suspirava; se eram ms, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua horrivel extenso, a pesada cadeia das mais secretas miserias que entrevia--atterrada por se no sentir com foras para arrastal-a--eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a honra de seu marido, que, por derradeiro ludibrio, fra entregue aos azares do jogo. Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e to afflictivo que j fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser: desgraada a nossa situao--me disse ella com severidade extraordinaria--Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas no sou livre; por isso mesmo que te adoro, que tu s o unico homem de quem no posso acceitar nada. XL A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e j no havia questes de honra, nem de miseria, nem se quer da separao que tanto temeramos. Quando muito era s a perda de ametade dos bens que podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem duas chagas a penar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes to desejada, incutia-me agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador. Recomearam as nossas luctas. XLI Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com ella em meu corao a suave caricia da esperana. Mas esta esperana, ai! no durou mais que um segundo. Mo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate. XLII Depois de uma discusso em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que eu no ousara nunca deixar-lhe vr. --No fui esperta--disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria no acredital-o o teu interesse. No fui esperta, mas que eu nunca soube mentir. Esta confisso foi para mim uma subita revelao, suppuz logo que ella semelhana d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a um tempo, vicios e dres, e, desgraada, queria que a suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperana que me ella gerava no corao no podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me desesperao. XLIII Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separao, e da morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes explicar-me com Fanny cerca d'este assumpto horrivel, mas no me attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira to terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos tempos, coisas insignificantes tocantes sua vida intima, andavam sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a fallar-me dos minimos incidentes da sua vida. o que devia, mais tarde collocar-nos face a face, na attitude ameaadora de dois inimigos. No sei como se deu, nem qual de ns foi causa da scena atroz que sobreveio; lembra-me s que Fanny estava j para sair, e ambos ns em p. Acabava ella de apertar as fitas do chapo, deante do espelho do fogo, ao qual eu me encostava; j tinha o chale nos hombros, e buscando com os olhos o leno, que pozera sobre uma meza, acabava de abotoar as luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas veias: --Eu mentiria, se dissesse que no tinha affeio a meu marido. Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, to imprudentes como inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o pescoo com o brao, amimou-me o rosto com a mo livre, e alteou-se nas pontas dos ps para abraar-me. Era carinhoso o olhar, que exorava perdo crueldade da bca. Forcei-a lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente: Vs outras, as mulheres, no tendes delicadeza alguma no corao. Crou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraar-me. Puz-lhe a mo no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor: --Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de que no elle agora o mais digno de lastima? Apertou-me inergicamente a mo, em quanto com os labios cerrados, mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante. Mas a colera recrudescia a proporo que Fanny denunciava arrependimento. Continuei: justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com preferencia a tudo. Conheceu Fanny que no poderia apaziguar-me. No sabendo que mais fazer, deixou passar aquella phraze de interpretao doble, desdeu os laos das fitas do chapeo, pousou o chapo e o chale sobre a cama, e assentou-se n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no brao da cadeira, a face na palma da mo, os olhares ondulantes, assim ficou na sua habitual posio. Mais que nunca linda, com aquelles braos maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e cr pallida; e os cabellos louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhana de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido, sahiam os pequenos ps reunidos e assentes no cho. Nas escuras dobras da seda envolvia-se o brao direito, cuja mo, meio fechada, permanecia immovel como se fra de marmore. XLIV Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos que sahiam de bcas invejosas. No os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me. Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porm, de astucia no fallava, adivinhando que eu interpretaria feio de minha raiva tudo que me dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as minhas foras todas para descarregal-o. Decidi-me em fim: e, com uma s phraze cortante como gume de espada, attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu no cria. A resposta foi prompta e terrivel. Isso indigno!--exclamou ella erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expresso de colera e indignao que me assombrou. No quero que se rosse na honra do chefe de familia! No quero que se deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, que eu prohibo que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que... Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza de corao das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. No s do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso, e at a honra de seus maridos. Tudo lhes mister para desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso no meu marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas--castigo mil vezes mais cruel-- o meu amor. Mereo esta pena... e o snr. que me pune! Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu: como todos! O que ahi ha orgulho. No sabe amar! Desta vez, respondi turvado: No sou desculpavel por aggredil-o? --Aggrida-o como homem. No tem tantas causas para o fazer? Por Deus que o farei! Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabea aos ps, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu. XLV Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao amanhecer do dia seguinte. Escrevi-lhe uma longa carta to submissa que no pude revl-a sem pejo. Rasguei esta carta, comecei outra, mas to acerba de estylo que devia exasperar quem eu queria commover. No a conclui, e andei uma hora a passear phreneticamente em todas as direces no meu quarto. Primeiro tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a desgraa d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados. Mas ao mesmo tempo escasseava-me fora para o resgate. Affizera-me s minhas dres, e no ousava trocal-as por dres desconhecidas. preciso ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeies d'uma mulher, o corao que incessantemente regia os movimentos d'outro corao, para poder comprehender os horrores da solido que segue um rompimento. Eu delirava de raiva e dr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o retrato de Fanny. --Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi. XLVI Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o co carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros davam-se pressa para fugir tempestade que trovejava surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e alm, corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de p sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam o espao. A meio-caminho, quasi entre _Rond-Point_ e o Arco do triumpho parei. Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A meus ps era a passagem das carruagens que vo do portal avenida. Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma s lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros escassamente brilhava como um claro duvidoso. Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa est vasia--pensei eu--e todavia Fanny no est em _Chaville_ por que a sala tem luzes. Estalou, neste momento, mais forte a trovoada. Relampaguearam os coriscos. Um bulco rugiu na ramagem dos alamos da avenida, remoinhando turbilhes de folhas e terra. Ento vi uma sombra de homem chegar ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraas mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada. E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no co de todo negro, eu em p debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha. De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao p de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos. --Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. Um _coup_ vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos saces; depois uma grande carroa de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da porta-cocheira. Remirei a carroa com assombro. Ao fundo estava um homem, que eu bem conheci--era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braos, tres meninos de cabellos louros. Foi uma viso rapida. No sei se me viram. A carroa desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e cavernoso. Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava como senhor em sua casa. XLVII Por que me no esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio. Passava uma sege de praa; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro, embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto. A chuva escorria sobre as vidraas corridas. Encolhido n'um angulo da sege, com os braos cruzados, e a face encostada almofada, vi de lado, ao claro dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furaces. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta tormenta no os aterrar? No sei que tempo passei blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez das arvores do bosque, ao claro avermelhado dos relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas mos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braos. Tomou-me uma sensao horrivel de frio. Tinha febre. Quer que recolhamos? dizia de espao a espao o boleeiro canado. --Quero--disse eu, fatigado j tambem. XLVIII Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto co, quando, erguendo a face, reconheci uma casa margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um claro avermelhado excessivamente mortio, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salo. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas no chorava j. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de fadiga.--Dormir ella agora?--me dizia eu. XLIX Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um estado de stupor de que no havia arrancar-me. Esperava no sei que, que devia terminar-me a vida e os males.--Isto no pde acabar assim!--dizia eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vr a lettra dos sobre-escriptos. De Fanny no vinha alguma. Affigurava-se-me que ella tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha raso. Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento de que ia vl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido. Queria pedir-lhe perdo; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me; queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a em vo at noite fechada, contando as horas nas pulsaes alternadamente precipitadas e desfallecidas do meu pulso. No veio. No escreveu. Ninguem me deu um instante de esperana fazendo vibrar a campainha da minha porta. Ao anoitecer, sahi na direco da casa d'ella. Chegando alameda fiquei surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe, to longe que eu no podesse vl-a mais, atravessou-me o cerebro como um dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja cabea subiram as fumaas da bravura, bati porta e perguntei ao creado se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle no deu f.--A senhora est no campo--respondeu, Onde? em Chaville?--sim, senhor. Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar. Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolao saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe estorvara a vinda; mas no comprehendi por que me no escrevera durante oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas havia ainda muito egoismo no meu despeito. --Quem sabe se ella me espera l--dizia eu para consolar-me. Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vr Fanny, custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava ento perto de casa. Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperana, com as esporas cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, desfilada, enlameando passageiros, sem mandar arredar ninguem. Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e no conheci a casa de Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das agigantadas arvores. Mas, alando-me sobre os estribos, para olhar por cima do muro conheci o pavilho. Apeei, e entrei no bosque para prender o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava porta. Ao cabo da ala, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege immovel. A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco esquerda, no centro de um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilho fulguravam aos raios d'um candieiro posto no interior. --Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro para encontrar a brecha por onde eu passra duas vezes. Mas apenas puz o p no jardim, fiquei como pregado no cho. Estava ouvindo imprecaes e soluos; do pavilho, a vinte passos de mim, que elles sahiam. Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos arbustos, sob as quaes me escondera. Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade; de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu no tinha ouvido. Ao chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluos. Sahiu um homem do pavilho, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser? Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calada sonora, e a grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao p. Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo, avancei precipitadamente, sem precaues. Antes, porm, de levantar o trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilho estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com a face entre as mos, dando soluos de rasgar o corao, era ella! Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braos, e lancei-me de joelhos a seus ps. Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me a cabea entre os braos, e abafou-me contra o seio. Eu no podia fallar nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face, mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabea e eu senti cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mos palpitavam por sobre meus hombros, face, pescoo, em phrenetica inquietao. Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dr tirou por mim, e arrastou-me na quda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz quanto pude por chamal-a vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se. Caminhei para Fanny s apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do vestido, e tirei-lhe a pedaos o colete. Depois, fora de caricias, rogos e oraes, aquecendo-lhe as mos com as minhas, e bafejando-a com o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e ergueu-se amparada nos meus braos, e parecia reflectir. Torrentes de lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lanou-se a mim com tanto amor, e com ar de tanta piedade, que eu, a soluar tambem, a comprimi ao peito. --Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se soubesses que desgraada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh! que bem me faz o chorar sobre o teu corao... Meu querido Roger! Os soluos embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se explicasse. Eu no sabia ainda que dr podia ser esta, que rompia em gritos de indignao. --Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabea negativo, e respondeu: No, no isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraada, a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio, as infimas mulheres no so mais desgraadas que eu! A este grito, que lhe fugia do peito no tinha eu que oppor. Fiquei estupido e estupefacto. No achava palavra que lhe dissesse. O que eu fazia era abraar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se no aproveito esta occasio para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo. Tranquilla deste lance, nunca mais fallar. Era judiciosa esta ida. Fiz bem escutar-lhe a inspirao. Empenhei, pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo, que por to largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a, interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dr. Entrei, pois, no segredo d'uma deploravel historia, no d'uma vez, mas arrancando-lh'a a promenores, a pedaos, por que a sua exaltao, deixando-se ir at dizer tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da narrativa. Fez-se luz ento para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel na sua vida e proceder. L O marido de Fanny no era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava. Era um terrivel dspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos seus caprichos e obedeciam passivamente s exigencias do caracter d'elle. Por zlos, no que elle opprimia a mulher, seno que por indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que dava regra e qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. No se tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava. Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se insensivelmente da norma de vida que elle traara, ficou primeiro, como pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse immediatamente na ordem. Todavia, no lhe deu canceira averiguar o por qu d'aquella timorata tentativa de emancipao. A seu vr, toda a mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que no merece analyse sria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha esposado por amor. No. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais, queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se. E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade. Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raa. Usam elles mesmos arraoal-os com uma das mos, tendo na outra o chicote prompto a castigar o menor desmancho. Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior, docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. fora de paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade. Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava um longo habito de rebellio interior, e de dres inexpansivas. D'isso, porm, o marido nem se quer suspeitou. Smente o accaso lhe trouxera s mos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento foi terrivel. No se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades degradantes; nem duelo, nem explicaes, nem separao forada dos dois imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo, mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a sua espoza que guardava a carta. E, desde ento, cada vez que a via inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mos deste homem um punhal com que elle espicaava a mulher para fazel-a andar deante d'elle. Era, pois, um vilissimo homem? No: era simplesmente orgulhosissimo. Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o marido no lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito, era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia degenerar em apparencias de crime. Mas no crime que elle nunca acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razo de que sua mulher no podia mostrar-se criminosa para com elle. E no podia por que era sua mulher. E no podia, por que elle... era ELLE. Por tanto, censurando um pouco essa creancice humilhante, no se mostrava inquieto nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle seu corao de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda s vezes uns dias em que elle era todo amores com ella. A arma, porm, continuava a ser arma em suas mos, e sempre com serventia. Primeiro, graas carta, obteve de Fanny que no fallasse mais com sua me, que elle detestava, por que o no quizera de ba vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a, e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus dois irmos. Finalmente, graas prestimosa carta, no havia represses que no lhe ordenasse, vexaes que no lhe impozesse mas sem maldade, mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel demonio a torturava com uma mo, e acariciava com outra. Quando, porm, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes delicadeza d'ella, que o marido rompia em transportes inauditos. Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora smente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: Vede que no ha que temer de mim. Transfigurava-se em leo que a natureza amassara com as suas mos callosas, e que a educao desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaassem dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um insulto que no deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como ella dizia-- ultima escaleira de todas as mulheres. Mas a sorte, que no tem compromissos com as paixes e os caracteres, obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Ento era sublime! No blasphemava, no injuriava a sorte, por que sabia que era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, fora de audacia, conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle, esmoreceria, que vontade como a sua no havia quem a tivesse. Mas um exito mediocre no bastava a este homem, insaciavel de exitos estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fra a pique. Queria salvar tudo, carregao, apparelhos, e at o lastro. Jurra de no ceder ao oceano, um prego s. Eil-o ahi, que, descanando, na meditao de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez. Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fra involuntaria testemunha. LI Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso. Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto, accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilho, com Fanny sobraada, dizendo-lhe frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na relva, foi ter com elles, abraou-os, despediu-os, e pediu-lhes affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no divan do pavilho, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e bebendo, o seu caf aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro com a luz. Pediu-lhe que mandasse pr os cavallos carruagem. At ahi dissera smente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro, ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel sellado, e disse a sua mulher: Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo d'esta folha de papel. Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever, disse-lhe: --Que so estes engrimanos que eu assigno? No mais que um instrumento de doao reciproca de todos os nossos bens. Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas explicaes sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia reassumir o negocio, e carecia de muito dinheiro. --No somos ns j bastante ricos?--disse Fanny. No. --Ento vai ser exposto o meu dote? A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e glacialmente: Sim. --Ento no assigno--disse ella como atterrada da sua coragem--porque no quero expor os bens de nossos filhos. Foi ento que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se contrariado por uma impossibilidade, o dspota rugiu de furor. Pela primeira vez em a sua vida, travou do brao da esposa, apertando-lho para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, no respondeu, nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminaes, injurias, todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordao das passadas. Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do insultador. Ahi que Fanny chorou, soluou e decidiu-se a assignar. Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mo; ella, porm, mostrando-lhe o brao contuzo, disse: --No por isto, Deus me testemunha, que eu o desprezo; pela covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdo por de mais, chamou-lhe creana e m cabea, abraou-a por fora, chamou o cocheiro e partiu. LII Logo que Fanny, cedendo s minhas instancias, me contou aquelles extraordinarios successos,--no ordenados como os eu repito, mas em fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;--logo que eu nada tive que indagar, e que ella immudeceu por no ter nada que contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos, luz tibia das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava erguendo entre ns modificando estranhamente a nossa situao. Eu no pude, ainda assim, entrar logo na averiguao dos factos que, forosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confisso. Eu, vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, s pensava na sua humilhao.-- pois desgraada!--disse eu no intimo da minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e abriguei-a nos meus braos com o ardor da esperana e da piedade. Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abrao! Com elle se esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez d'aquelle apertar, de consolaes nos suspiros, e que sympathia reflorece da mixto das lagrimas! ramos ssinhos, silenciosos, n'uma vaga escurido, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O desalinho dos vestidos de Fanny, o cansao de chorar que a retinha deitada nos meus braos, o pejo d'uma confisso, que, posto que lhe desse alivio alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a felicidade de nos revermos mais amantes, mais allianados que nunca, aps uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos no sei que desaffgo de expanso reciproca, mesclada de amargura e dulcificao. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos cabellos desannelados, surprehendia-lhe no corao a velocidade de movimentos que se me figuravam surdas expresses de clera. O arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos de uma ironia implacavel. A irritao do insulto, e a indignao do aviltamento immerecido, apertava-lhe os braos em volta do meu pescoo mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar de ter flagellado o amante, cuja s presena lhe estava sendo a mais terna das consolaes, como a mais rapida e segura das vinganas, inspirava-lhe a submisso e a supplica. A lembrana do meu rival, presente a ns, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e uma dr infinita s minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em que, sem fallar, trocamos tantas sensaes e idas bem comprehensiveis, Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre, to ligada a mim quanto apartada d'elle. LIII Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita exploso. Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peonha a mais corrosiva. O sentimento da impotencia da vingana, a certeza de que os males d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questes, causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada, e no pode despedaar entre as mos aquelle que lhe gravou o ferrete deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraada ella era; e, envergonhado d'esta atroz ida, meditava em matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porm, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada. Abraou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar. LIV Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu no sentira, como ento, o espirito desoprimido de duvida. Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de to tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperana d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus ps contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietaes, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, emfim, de me transviar. Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira que me seguira atravs dos abysmos da paixo. Soffrera irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os ps. A mesma dr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazra os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos para a resignao, e com as mos trementes enxugava-me da fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dres e trances particulares que ella suportava heroicamente para me no angustiar. Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer no poderiam mais. Ambos livres do phantasma que to cruelmente nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas aces, compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. maneira de dois fugitivos, que no deixaram pgadas, e vo s bordas das fontes, e sombra dos bosques silenciosos, sacudir o p das sandalias, ns nos amos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos infligiramos. D'est'arte sonhava eu, a ss commigo, contemplando a imagem querida de Fanny que me sorria entre as mos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante ns as paragens do nosso futuro. Nunca eu afagara mais cruel illuso! LV O dia em que tornei a vr Fanny, era um dia explendido! Veio a minha casa, de manh, deliciosamente vestida, como para celebrar dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido cr de malva, que to gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia sobre as frmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os ps. Os braos meio ns, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos baos como os de marfim no lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as faces ondulavam-lhe os cabellos. Nenhum ruido nos perturbava, a no ser a campainha do relogio que no ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das carruagens, estremecendo a calada. Conversamos, mais uma vez, ss por ss. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdo. Eu ergui-me para servil-a, e abraava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com graa, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle brao que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o nosso quarto nos parecera to bonito! Queriamos d'alli no sahir mais! Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus ps sobre uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mos, intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E eu beijava-lhe a outra mo, travada na minha. --Oh Fanny! se tu no fosses casada!...--dizia-lhe eu com paixo. E ella respondia: --Oh Roger! se tu no fosses cioso!... No sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares de extasis, em abraos doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra camara, que horas to instantaneas correram! Quiz saber a historia da minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da morte de minha me. Muito havia que no estiveramos to intimos, serenos, e felizes. O rancor atroz do ciume no nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por isso mesmo foi completo o socgo de nossas almas. Havia ali felicidade que bastaria boa fortuna de dez amantes. Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes, lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera to desgraados. Rompeu de minha boca uma exclamao furiosa, e, por piedade das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, no pude conter-me que no exprobrasse o oppressor. Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir ento a testa, e morder os labios. Relanceou-lhe rapida na face uma sensao, como o relampago silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o co d'uma tarde estiva. Eu, porm, curei de indagar a causa d'aquella sensao dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por no sei que confusa remeniscencia. LVI Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvao alguma. Depois que sahiu, mil recordaes uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel. --Esta mulher a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!--Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.--Por que defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as aces do homem que a ultraja? Oh! possivel supporte tamanhos despresos, vexaes to aviltantes, e conserve a minima affeio a um homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos, de transaes, e o amor, esta paixo absoluta, intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio: --Eu mentiria se dissesse que o no estimo. LVII Desde ento, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das incertezas, um s desejo me dominava--tirar de Fanny a explicao do seu caracter, no interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos. Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fra o defendel-o, por que o ataque era dirigido s violencias que lhe eram a ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao co os olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou face o sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que eu lhe estava exaltando a resignao para melhor accusar os caprichos do marido. Obedeceu, por fim, sua eterna preoccupao, e disse-me: --No fallemos mais de tal: tudo isso triste; mas eu sou obrigada a submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre meu marido! LVIII Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista. -- a derradeira illuso que morre!--exclamei eu. Fanny pediu-me a significao d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e disse: --J so que farte as questes que temos ha um anno; por minha vez, te rogo que no te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudar a nossa indole. LIX Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram grandes alteraes na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias. Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos, trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balces, sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, alm d'isso tudo, cartas infinitas, e trocavamos flres. Fanny esmerava-se em attenes, para compensar-me do mal que me fazia. Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam dos homens, e dos quaes disvellos so to economicas, quando se dignam conceder-lh'os. Beijava-me a mo, chamava-me seu querido filho, mostrava-se submissa, e esmerava-se por que no houvesse coisa que turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porm, tratando-me como dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira dignidade d'uma rainha. s vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e suaves que as do estio, fugiamos da cidade, como aves cansadas do calr do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem fechada, com as mos inlaadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um pouco de ar, de silencio, e de solido. Rentes comnosco passavam fogosas parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres risonhas cujos vos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros. A lua, s vezes to melancolicamente ingastada no co como nodoa de prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da mollido dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que o estava a verde folhagem sombra da noite linda. Era delicioso aquelle momento em que Fanny, infadada, se me pendia do brao, e justapunha a sua espadua minha! No fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as nossas respiraes; e, assim unidos, achavamos doura estranha n'aquelle nosso silencio e na incerteza de nossos passos. Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discusses, remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porm, tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creana, ou fazia que me no intendia, ou, sacudindo-me o brao em ar de gracejo, dizia: --Ora vamos, no se falla aqui do que j l vae. Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me prazer grande o vl-a assim dispr do que era meu. A minha casa, tornada sua, parecia afeminada. J l se no viam por sobre as mezas esporas, chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flres, alvissimas caas rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustaes de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e l: no rebordo da chamin brilhavam o dedal e as thesouras. Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiana. Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no corao um certo azedume. No havia consolar-me de no ter podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava. Cheguei fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direco dos meus bens. Fanny no entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiana feminil. Pois no a consultava eu at em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das cres. Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos ps para chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. No dava um passo sem sua approvao; no comprava luvas ou gravatas que ella no elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes que no agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella que eu no podia por mais que fizesse. Estava enfeitiado. LX Mas o meu ciume, esse no estava morto, nem se quer entorpecido: apenas tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, j no podia soffrer por causa de uma partilha que no existia; mas os menores sentimentos que Fanny me deixava adivinhar, inquietavam-me. Afra os filhos, e a me que ella via s escondidas, eu no lhe consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos tyrannisavamos mutuamente. Um dia, quando eu lhe tirava o corpete, uma carta grande e quadrada--lhe fra entregue quando saa de sua casa--escorregou-lhe do peito e caiu aos meus ps. Levantei-a. Tinha o sllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, estendia a mo tremula a tomal-a. Teu marido escreve-te? disse-lhe eu, entregando-lh'a. --Que pergunta!--disse ella. --Escreve-te regularmente?--ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o espirito. --Pois ento!... disse ella--todas as semanas. Porque te escreve elle?... Separados por to violenta discusso, parecia que os coraes deviam separar-se para sempre. Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse resposta, replicou: --Espantam-te sempre as mais singelas coisas. No natural que meu marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos? justo... Eu no tinha pensado n'isso--murmurei. Fallou-se de muitas coisas; mas, a ss commigo, reflexionei immenso. Respondes s cartas de teu marido? Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou um ar de indifferena, respondendo: --Escrevo-lhe raras vezes; --Sim? e, diz-me c, que lhe escreves? --No sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto no te interessa nada. Fiquei um tanto inleado; mas no pude reprimir-me. --Como que nunca tiveste a ida de mostrar-me as cartas de teu marido? Roger! Roger!--exclamou sorrindo contrafeita--eu creio que ests louco! Uma mulher pde por ventura confiar a alguem, principalmente quelle que ama, o segredo dos negocios de seu marido? --Tambem verdade--murmurei eu. Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera. --Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te do tanto que pensar. Provar-te-iam que uma sem-razo recear alguma coisa. Sabe, pois, espirito desconfiado, que no se pde viver em menos unio do que eu vivo com meu marido. --De certo! --Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas amarguras? --D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: no esqueas isto, Fanny. --Oh! hoje muito differente. --Porque? --Porque... c me entendo. Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mos ao co com piedosa expresso; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos contemplavamos. Era-me impossivel a quietao. Agitava-me d'um para outro lado. --Se dizes a verdade, Fanny, por que me no mostras as cartas que lhe mandas? --No possivel. Quem lsse uma, comprehenderia as outras. --No obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe no escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que no quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, d-me esta prova de confiana, para me tranquillisar que eu soffro muito. --No possivel--redarguiu ella, com signaes de offendida. A raiva que me devorava o corao estalou desassombrada: --Que lhe escreves tu que no queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz! Fanny ergueu-se, pegou-me da mo e disse brandamente: --Roger, eu no queria magoar-te. --Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu s mulher de duas caras; eu nunca fui amado por ti! A esta phrase injusta, lanou-se-me ao pescoo, abafando-me com beijos as palavras. Eu continuei: Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel contestao, ficaste despeitada com teu marido? --S rasoavel: uma mulher pde ficar despeitada com seu marido? Pois que?--exclamei furtando-me aos braos d'ella--tu perdoaste-lhe? --Rigorosamente no--disse ella, sentando-se quebrantada--mas foi-me preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, est tu certo que no esquecerei mais os ultrages passados. Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!--Bradei, de p em frente della, que olhava para mim assombrada--No tens, pois, dignidade alguma? No te sentes das injurias? s assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto que eu no acreditaria nunca! Fanny continuava a ouvir-me silenciosa. Diz-me c: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava? --No queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, no te espantarias do que succede. Em summa, eu no quero fallar mais n'isto. Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas mal. possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da indignao.. mas. Calla-te!--bradei eu--se tens pudr, calla-te! Ha uma coisa que parece passar-te desapercebida, e que, proporo que vaes fallando, no sei que ida peonhenta lucta, em mim, com o meu amor. No accrescentes uma s palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco, por que te amo muito, por que no posso dissuadir-me de te amar; mas sabe tu que maior mal no m'o podias fazer. Supplico-t'o--no digas mais nada. E lanando-me a seus ps, exclamei: O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo! LXI Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella. Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moo e inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no seu caracter muitos caractres diversos, queria eu que visse as coisas absolutamente como eu as via. Eu, o que ento sabia, era que as palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim, representavam para Fanny umas idas, e para mim outras. Ignorava que o custoso para mim no o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa inteno para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, no descontava nada sua fraqueza. Depois que apprendi a conhecl-a. Quantos maiores esforos eu fazia para desligar Fanny de seu marido, mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado. Bem sentia eu que a importunava, mas no estava em mim deixar de a repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. No me passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu ciume, como principal causa da nossa separao. Que candura! Eu via nas manifestaes do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com tudo, to facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forar a comparaes, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella dependia. Mas mais simples que tudo seria no amal-a!... Ama ella o marido? No acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal, resultante do costume e agradavel s almas pacificas, porque naturalmente contina as coisas, e no cansa o espirito em mudanas, esse devia tel-o. E o vr o despota humanisado diante d'ella, commovia-a; e o receber caricias da mesma mo que a castigava rudemente, dava-lhe uma especie de satisfao. No era isto fraqueza nem ingenita baixeza de animo; era uma certa indifferena de genio, explicavel na idade d'ella Fanny, em fim, certo, no tinha uma alma varonil, nem mesmo uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver; era, porm dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submisso completa. At certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem nome, a probidade, esta rara perola, se esconde? LXII Era urgente que eu accedesse nova concesso do aproximarem-se os esposos. Mas de concesso em concesso l se ia, desfeita em lagrimas, a minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que no pde resistir, com gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingana. Ah! se Fanny soubesse que ella devia accusar-se s a si da minha abominavel vingana! LXIII Inraivecido por no poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny, trahi-a. Amor e ciume, quiz tentar matal-os na devassido. Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladro que se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sde de vingana. Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiana dos ludibriados, eu arrastava commigo, aos braos da mulher querida, a torpe recordao das creaturas degradadas, cujas caricias no tinha podido sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis immundices. Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por minhas proprias mos, martyrisava-me com o profundo pensamento da inutilidade dos meus esforos. No sei que desgosto corporal me subia aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo os tormentos do cerebro. Debruado sobre o parapeito das pontes via redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos lamaaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel, mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim, perpassando como phantasma nas sombras que se tiravam ao longo das ruas, via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar sombrio, como que a visitar-me, mas forando-me a pensar n'ella quando eu ia cuidando em matar-me para esquecl-a. Oh! que terrivel estado aquelle, sem repouso nem treguas s minhas angustias! que me exacerbava e prostrava! que incharcando no njo a minha desesperao, infamava o meu ciume sem applacal-o! LXIV Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o remedio at encontral-o, e, no o tendo, emprehender algum arrojo de desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os estragos que uma ida fixa pde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos roja at vr o bem nas coisas repugnantes s menos temerosas consciencias. Aps maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima concesso. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com o mal, e dispe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de seus dias. Tudo te perdo!--disse eu a Fanny.--nunca mais te fallarei dos nossos eternos motivos de discordia. No examinarei o teu proceder; no te sondarei os sentimentos; tudo te concdo, tudo acceito, excepto a abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e to demorada tem sido. No posso mais... antes quero vr-te desgraada; antes morta; quero morrer eu. S-me leal, supplico-t'o--accrescentei com tristeza--porque me faz um mal horrivel duvidar de ti. --Pois bem, no haver mais partilha--respondeu Fanny, com um aperto de mo--no te inquietes, no soffras mais. Quando meu marido voltar, approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condies. Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a vida Roger, socega, s emfim feliz. No dependia de mim o seres feliz ha mais tempo. Restitues-me a vida!--exclamei, lanando-me aos ps d'ella, e abraando-os. --Querido filho! --Liguemo-nos por um juramento. A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mos, e fixados mutuamente os olhos. E agora--disse eu--se por qualquer motivo, uma vez s, resolveres faltar palavra, juras que me avisars, para que no haja entre ns traio. --Por que queres tu que eu jure. Pela minha vida. Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente. Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como a recordao de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta. Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava. LXV E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava outra vez a sua casa campestre, e eu ia vl-a algumas vezes, por noite, no caramancho da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando engenhava pretexto para passar fra um dia. Mostrava-se mais livre que d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos debates, novos tormentos a faziam desgraada; e, lastimando-a de todo o meu corao, animei-a resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia. Fanny, porm, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus beijos flr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor. Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que eu no intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza--imputando-a a discordia que o respeito do seu juramento devia acarear--soube um facto que me atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas. Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara para Frana, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como as filhas do Norte, com bellas cres rosadas, e finos cabellos sedados que se desenrolavam languidamente em longos anneis at ao peito. Jubiloso de nova tal, fiz teno de lhanamente contal-a a Fanny, a fim de fortalecl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa altura. Fanny, como tantas outras mulheres, atraioando seu marido, no queria que elle a atraioasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu credito realidade da historia, nem sinceridade da justificao. --Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente, para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses sentimentos enoja-me tanto que no posso perdoar-lhe, faa o que fizer. Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o demonstra. O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de calumniar um homem que, por causa do snr., desgraado. Foi tamanha a minha estupefaco, que nem me occorreu a ida de censurar aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me da sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta calumnia a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim, espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se afastara d'elle. Esperava eu aces da graa, e sahiu-me clera, orgulho offendido, retaliaes, que, a meu vr, tinham as apparencias todas do ciume. Isto era para indoudecer! LXVI Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porm, o acceital-as docilmente, no me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiana como vibora no corao, e o germen da peonha, que ella ahi revessara, circulava-me nas veias. O ciume resurgiu mais abrasado. A s escusa, que podia mitigal-o, era imposssivel. No era j da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da mais rasteira traio. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preo. Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito, quando me estava a morte no corao. Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e s commigo, fiz quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a casa contigua de Fanny. Instalei-me secretamente l. Todo o dia, cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa visinha, e via tudo que l entrava, como se estivesse espera de vr algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De noite, escoava-me atravs da sebe de arbustos que separavam os nossos quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladro que estuda o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manh os creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedr dos moveis, deslocados na limpeza dos quartos e da sala. s oito horas, o dono da casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. s nove apparecia Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. s onze horas chamava a campainha ao almoo. Ao meio dia, esperava o _coup_ porta. O marido sahia, e s voltava s sete horas para jantar. Muitas vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore enorme, que assombrava largo ambito, conversar com os filhos, lr, ou occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das tres s seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na areia, sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar os cavallos portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens, caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma graa incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calr no era ardente. O marido passeava ento com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz s oito horas, e quando tornava, era por alta noite. Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no _coup_ com o marido.--Qual de ns o enganado?--dizia eu commigo. Eu montava, e por travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era to pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os eu espiar. Nunca ia seno ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava a mostrar-se prodigo com ella em demasia. Era um homem prefeitamente feliz. No o attribulavam suspeitas nem inquietaes: rico, pae de galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o. Mas no me bastava assistir vida exterior da familia, cujos segredos eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Alm disso, a frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vl-a concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoo, de longe a via, quando se julgava ssinha, cahir sobre um banco, e esconder n'um leno, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as minhas suspeitas. LXVII Por uma bella noite de agosto que eu executei o horrivel designio, cujo exito devia decidir do meu destino. No sei que hora era; mas, havia muito que as estrellas radiavam na face do co a sua suave claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa contigua de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela rampa; pendurei-me do varo sutoposto baranda da casa visinha; fixei um p na goteira da sacada, depois o outro p, e saltei. Estava em casa d'elles. Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas precipitadas pulsaes do corao. Perto de mim, uma janella alumiada como um grande quadrado de luz, branqueava de claro bao, a parede innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta janella no estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se, mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca, pendentes diante das vidraas, deixavam-me vr todo o quarto atravs d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos. Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre este, uma cora de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro que contrastavam com a brancura dos lenoes. esquerda da cama, um tapete estreito, direita, uma commoda; ao p da chamin uma poltrona de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam l, mas eu no reparei. Ao principio, no vi ninguem no quarto, alumiado desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz, que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como quer que eu me chegasse vidraa para examinar se elle estava occupado, uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas cortinas brancas. Pulsou-me o corao mais rijo. Agachei-me rente com a sala, recuando um pouco. Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A virao tepida da noite de agosto, suspirava volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu no via, no sentia, no investigava seno elle. Alongando o pescoo para ajustar os olhos entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse para mim coisa extraordinaria vl-o de p n'um quarto de sua casa. Tinha os ps nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos encontros uma larga cala branca de flanella. Despeitorado, arregaado o colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os braos. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu estava, via-lhe perfeitamente a sola do p n levantada ao nivel dos meus olhos, e o brao carnudo descanado sobre o encosto da cadeira. O outro brao subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos beios o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava at mim. De repente, voltou a cara para uma porta que eu no tinha devisado, collocada ao p do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha razo, uma frma vaga alumiada em rosto por um castial que ella trazia. Potestades do co! Era ella! Oh Deus! por que me no fulminaste n'aquelle momento! Entrou vagarosamente, depoz o castial sobre a commoda, e, atravessando longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava tranquillo, e sem levantar-se. Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira algumas vezes pelas manhs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim com os filhos. Era um chambro muito farto de cachemira azul aberta no peito, entre flocos de cambraia, deixando vr o comeo dos seios. Sahiam-lhe das largas mangas os braos ns. Trazia desmanchados negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor, l o apparentava no semblante. Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? No pde a recordao do amante retl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a existencia d'algum homem para ella, seno aquelle que alli estava sentado, encarando-a, sereno como ella. Fuzilou-me na alma um relampago de esperana, mas foi relampago. Abaixado sobre os joelhos e as mos, embaciado o vidro pelo meu bafo, senti oscillar-me os braos como se o balco estremecesse debaixo de mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros; rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas foras tinha, ergui-me sobre os joelhos e punhos. Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava, vagamente, e como em distraco nos objectos de sobre os moveis, tal qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho. Fallavam; mas a minha commoo s me deixava ouvir um murmurinho. Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso melancolico. Quiz vr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forada. No se mostrava pensativa, nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente sua vontade, natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a irritadora tranquillidade. O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes. Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusao que ella fazia, sem clera, mas como uma malignidade gracejadora, que no era isempta de desdem e altivez. Discutiam to pacificamente que pareciam nenhum acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da testa quadrada do marido, brilharam mortios os olhos; e, quando ella perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o p, a deciso foi prompta; calou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher, sem resistencia, fl-a assentar no seu joelho. Saltaram-me as lagrimas ento, lagrimas ardentes, que as palpebras no podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces at aos labios. Emfim, comprehendia tudo; via a profanao, posto que a no quizesse vr; affirmava que no era sonho aquillo, e queria duvidar. No posso exprimir o que ento se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o mal que me fazia vr aquella mulher, que eu adorava, nos braos d'outro. Fanny continuava sentada com as mos cruzadas sobre os joelhos, e com os olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella expresso dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela cinta, amimava-lhe a face com a mo livre. A final, Fanny lanou-lhe por sobre o hombro o brao esquerdo, e pendeu para elle langorosamente. Vi-lhe ento as costas, cobertas de tranas dos cabellos, e o vestido fazia roda por largo espao com impudor esplendido. Oh! como a abominavel creatura cheia de graa e lascivia se aconchegava d'aquella espadua robusta! -- impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--No ha-de ser assim!--Mas elle abraou-a, collando a boca espessa s puras faces d'ella, e no sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto negativo com a cabea, muitas vezes, sem crar. Elle, por cortezia, insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou algum tempo. No sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella mulher de resplendores e flres, e, por um s movimento de braos e hombros, fez escorregar o chambre at aos ps. Eu cahi de joelhos, e ergui as mos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os ps do monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia deps ella, vagarosamente. E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaal-a, ingolphar meus braos nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo o sangue d'ella, no se apagaria o ardr da minha tortura. Arquejante como o tigre, que v a garra do leo cravada na sua preza, ergui-me a prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face, soluava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e perdido, avanara um passo! mas os cabellos heriaram-se-me, e os olhos saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir vante, e no pude. A punio pregava-me os ps balaustrada, e de minha bca sahiam gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo, a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que no tem nome nas linguas humanas! Tentei de novo avanar, por que ouvira suspiros, e queria saber qual das duas bcas os exhalavam. Por um esforo prodigioso dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei ainda um passo; mas por que ao corao intumecido me refluira todo o sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balco. LXVIII Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri as mos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua exteno; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva glacial. custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava com o corao, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir at ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim. Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha fraqueza no podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao cho, e ahi, com o rosto entre as mos, desafoguei-me em soluos. --Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o co impassivel!--De subito ergui-me, e, sem ida fixa, atravessei as trvas, rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada; saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr sempre, com a cabea nua, chorando e fallando ssinho, atirei-me como um attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos flancos. Onde ia eu? no sabia. Fugia quelle espectaculo. Salvava-me a todo o correr, para o mais longe possivel, para no vr a imagem horrenda que me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa. Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os meus vestidos a pedaos, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos, estradas que desfilavam roda de mim, como se o solo fosse arrastado commigo no arremeo d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respirao, e eu corria ainda, chorando, chorando sempre. -- minha me!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro! De repente, achei-me com os ps em agua. Ante mim, distendia-se um vasto espao negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei tropeando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida, embargavam-me o passo. Horrida tentao me assaltou. Contemplei o co sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dce astro dos amantes; puz a mo sobre o corao, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas sentia sempre o cho lodento em redor dos meus ps que escorregavam. No podia mais. Vergado fadiga e commoo, soluando como as mulheres, cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura. LXIX O que decorreu depois d'isto, no sei. Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria. Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabea em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabea aos ps, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabea. Veio um homem, e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias. Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem sentidos, nas margens do Sena, com a cabea envazada no ldo. Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente. Fanny, porm, ignorante de tudo, admirada de me no vr, veio uma manh; mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que sabia. Quiz afogar-se--disse elle--e agora est doido--Ella, porm, no quiz crr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao leito, com os braos alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei na porta, que se abriu ao p do meu leito, uma frma humana, de p e quieta. No atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vr moribundo, adornada de trajos de estio to elegantes e frescos, com braceletes nos braos e flres no chapo: tambem no entendi por que chegava com ambas as mos o seu vo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que no queria ser penetrado. A mulher adiantou-se at minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o vo. Como que senti refrigerar-se-me a alma, de vr sobre o meu rosto aquella face viosa cheia de graa, e como perfumada de saude. Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braos. Fanny abaixou-se a soluar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecl-a; levei-lhe face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso sai d'aqui! Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de fora que a raiva me dra, bati-lhe no hombro, e, ao lanar-me fora da cama, cahi por terra aos ps d'ella. LXX Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mos postas, aos meus enfermeiros, que no deixassem entrar em minha casa aquella mulher. Ella, porm, que no podia suspeitar o succedido, e continuava a crr na minha demencia, vinha todos os dias--disseram-m'o depois, e todos os dias com gestos afflictivos, sollicitava vr-me.--O medico no consente--respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e prendas; mas comprehendendo a final que a sua presena podia matar-me, retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da minha, a sua vida. D'isto no sabia eu nada ento. Decorriam os dias, e, por desgraa minha, graas aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a pouco affluiu apagando a febre. LXXI Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescena. J os amigos me tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presena to mal me fizera uma vez. Sempre com repello lhe disse que o expulsava se a deixasse entrar. O desejo, porm, de a vr, entrou commigo, e tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado sobresaltado, que no intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu no sabia; que ella vinha diariamente, e elle j no sabia que dizer-lhe, para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a. Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperana tentasse renascer em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a clera se desvanecera; mas ganhara-me uma dr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o meu por tudo--que no podia viver. Aquella noite terrivel da traio, lembrava-me como um sonho mo. A um tempo, amava e desprezava a mulher graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel. Estava eu sentado n'uma poltrona, ao p da minha janella, com os olhos fechados, repassando no animo o que eu diria prejura, quando senti apertarem-me a mo, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os olhos. A meus ps, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava. Fanny ergueu-se, abraou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os seus dois braos ns. No resisti, porque me era aprazivel receber aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto no fallasse. E por isso mesmo que no fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a no abraava, Fanny disse: --Foi-se o teu amor, Roger? --Ainda no--respondi, tapando o rosto com as mos. Ella no intendeu, e deteve-se em p e agitada defronte de mim. --Fanny, diz-me que um sonho, ou que estou doido. Diz-me que no devo odiar-te, porque este odio dilacera-me. No crou. No impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada. Foi ento que eu, reunindo as minhas foras todas, a tomei pela cintura gentil em meus braos, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe: --Sei tudo. O que? tu que sabes? --Vi tudo. Mas que? --Porque me trahiste? Tu no cedeste, porque foste tu quem o procurou, no foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a elle. Fanny no perdeu ainda a cr, e quiz fallar. Eu, porm, com os olhos cravados n'ella, sem clera, e frio como o ao, continuei: -- necessario dizer-te tudo? No merecias confiana. Comprei a caza vizinha da tua, em Chaville... Aqui, impallideceu, e disse: E depois? --Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vo quinze dias, arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balco da tua casa. No sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraa do quarto de teu marido, pude vl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle s. Entraste... Isso falso! exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim. --Ser preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito n. Calavas chinellas de setim. Ns, trazias os braos. Serena como sempre, no momento mesmo em que prejuravas, no amaldioaste aquelle que vinhas saciar, por que ha em ti dois coraes, para amar dois homens, Fanny, a elle, e a mim. Fanny sacudiu rapidamente a cabea, e disse com voz abafada: falso! falso! tu no me conheces! --Ser preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traio, que certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle puchou-te para sobre o corao, e tu deixaste-te sentar sobre os joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle espectaculo diante... Basta!--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer horrorosamente; mas no chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas accrescentei: --Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e de crr que a vergonha e a dr no matem, por que eu vi tudo, e no morri. Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em contemplao, e immoveis. Por fim, disse ella: Eu devo fazer-te horror! --Fazes. Ergueu-se, levantou as mos ao co, lanou-se a mim, como sobre uma preza, apertou-me entre os braos, sentou-se-me nos joelhos, peito a peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamaes: --No importa! eu adoro-te sempre. Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao cho, e ella ahi ficou. Abismada a meus ps, como a Magdalena, soltas as tranas, nodados os braos aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava: Perdo! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te sempre! Tem compaixo de mim. E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propz-me a fuga, bradando: Mata-me, e no me repulses! Esmaga-me aos teus ps. Sou culpada, mas no me abandones. Amo-te. Rasga-me o corao... Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narrao do meu supplicio. Voltei as costas quella mulher, cuja soberba, por tanto tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para mim os braos; mas fiz-lh'os recuar face, com um gesto. --Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu-- isto o meu castigo, por que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim, s uma deshonra, e mais nada. s um idolo attascado em lama. Vi-te, em attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos ces. Cala-te! tu fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara: essas, ao menos, no mentem. Mas elle meu marido!--disse Fanny. --No tens consciencia? Diz-me com franqueza se certo seres tu um ser intelligente, e se uma ida dirigiu a tua aco funesta. Quem te obrigava a ir procural-o? Fanny, com grande esforo, respondeu: Eu via que elle se desprendia de mim. No o amo, por que te amo, mas dependendo d'elle. No natural? Repartida entre o desejo de conservar sua affeio, e o receio de ser forada a mostrar-lhe uma affeio semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O temor de me vr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me. Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, a causa de tudo. Eu preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e tu no conheces as mulheres. No calculas quanta honestidade pode haver nas traies d'ellas. --E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mos afflictivamente. Eu prosegui: --Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. No cedeste seno ao orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que no amas, e te no ama, e te opprime, e te despreza e insulta. No cedeste tambem sde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo. Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando: Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o corao deste corpo. O meu corao est puro. Vr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado, bastra-me sempre. Por isso mesmo que te amo, que tu s o unico ente, mais que homem para mim. Tu s neste mundo o meu amor unico. s a minha vida. --Amas-me!--bradei eu com raiva.--Mas de que modo me amas? Acima de mim, em teu corao to puro, esto vs consideraes do mundo, razes de sociedade, costumeiras mesquinhas, est teu marido. No me falles de teus filhos. Que amor aquelle que no conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que limitado? que soffre prescripes? que no uma abnegao absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurana do seu futuro, e chega, por amor delle, at ao crime, e se tortura a inventar maiores provas ainda, no d o mais radioso testemunho da paixo exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor no vive seno de si, e nada reserva fra de si. Renegado sublime, piza os mais santos objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a impassibilidade. Porm, tu! mulher das dedicaes mesquinhas, das virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. alto de mais para ti! a tua vista no alcana tanto. O que tens, superior a ti, a tua casa, o teu bem-estar, o luxo que te cerca, a falsa estima do mundo que tanto se d de ti como das outras, so as relaes banaes, um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade? Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preo da minha felicidade? No ultrajes, pois, o amor, a paixo soberanna, que no quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que no seja a sua. Crs que amas por te haveres entregado? Vai, j te disse que vi tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braos para os delle como d'um vestido para outro. Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braos cruzados, exclamei: --Hasde ouvir tudo! Faltou-me a expresso. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram gritos. Cerrei os punhos em postura ameaadora; Fanny olhava-me de revz com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas: --Eu nunca tive crena em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraioavas, que, por minha desgraa, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraioei-te com as mais rasteiras mulheres. Fanny no me acreditava. Attribuia impotencia do furor o que eu dissera, e fez um gesto de denegao soberba. Mo grado meu, repassado de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha clera cahiu sob o pezo da piedade. --Sabe, pois, murmurei eu com as mos erguidas, que eu te amava ao mesmo tempo com amor de me, de mulher, de creana. Quanta piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no corao, quantas delicias, tocam a divinisao pela maviosidade, todas senti por ti, desde o primeiro dia em que te vi passar com tuas graas, com a tua serena suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que s em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu s amava por que te era aprazivel. V que choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua me, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio at que o amava a elle, por que, em meu espirito, a tua imagem andava associada d'elle. Nem minha me amei como a ti. Por ti, tl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras. Perdo! exclamou ella, recahindo de joelhos. --E tu, Fanny, calcaste aos ps este respeito, este amor incomparavel, este corao... Piedade! --Recalcaste-me como a fra impassivel que esmagou com as garras as primeiras flres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um desgraado que no pode amar alguem, como o ancio, que viu em roda de si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu corao. Estou velho! tenho cem annos! vou morrer! sou um sepulchro! Tu sabes de mais que estou ssinho no mundo... Piedade! perdo!--exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis e nas paredes.--No me digas que s desgraado! --Oh! desgraado! e no digo bem o que sou. A lingua no tem voz que o diga. Ingrata! No te bastava ser senhora da minha alma, do meu corao, da minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima de ti... que me era mais que tu mesma! Piedade! piedade!--continuava ella exclamando. --Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxal que nunca soffras o que eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me! Dito isto, quiz feril-a e abraal-a ao mesmo tempo; mas cahi desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto s apalpadellas, no a encontrei. LXXII No dia seguinte, senti-me saciado de vingana. Experimentava aquella especie de serenidade cruel, que segue as execues supremas. Sentia-me satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova do crime que puniu. J me no afligia o pensar n'ella. No obstante, eu previa lucidamente os graves desgostos da sua vida. --Soffrer longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, debalde tentar soffrl-o corajosamente. A resignao desdiz do caracter d'ella. Outro vir, mais tarde, substituir-me. Se a no amar, ser despresado. Amando-a, repetir-se-ho immediatamente, e com as mesmas phrazes--identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas. Emquanto viva, Fanny perseguir fatalmente a sua chimera. O amor ideal que a arrasta no se dessipar mesmo nos gelos da idade; quando as rugas sobrevierem a provar-lhe que tudo mudavel na terra, ella continuar a evocar o phantasma d'uma paixo que foi e ser sempre o seu supplicio. Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirar commoes para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os filhos, que adora, no a consolaro. Quem sabe se viro a desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, no se far feliz a si, nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio; para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem corao de mais, e coragem de menos. Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo conhecera, custa da minha ventura. No posso dizer que a lastimava. Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritao surda, contra ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre ns as suas barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza. O estygma intalhado a fogo no corao, no podia eu, forado do amor desvanecl-o. LXXIII Se, porm, julgando-a, me no compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta affeio filial, ternura piedosa, e venerao, exhalava-se de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravra. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que saboreou a vida e no quer morrer. A affeio de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differena de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem suavissimo; a venerao, em summa, que lhe era a ella um incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu corao, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas da Asia, por um turbilho fluctuando raso com o cho, tal eu me sentia perplexo nas minhas revolues, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em frmas confusas: fugia tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspiraes, tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, ssinho, n'um grande espao. E desse turbilho nevoento de sensaes, vontades, e habitos; densas oscillaes impalpapeis de penas, prazeres, e esperanas, prolongadas at ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que subia, subia at ao co, tristemente involvido em pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu j visto crescer para mim, e me sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi minha me, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me aferrara nos braos a glacial SOLIDO. Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixra Fanny n'aquelle quarto que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a cabea, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braos de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle pegada do seu sapato, no coxim em que ella descanava os ps; acol, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as flres que ella amava; alm, as cortinas que ella tantas vezes levantava com sua mo timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella estava olhando sempre; aqui, o vo d'ella, aqui as cartas, seus dces reflexos; alm, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acol, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorvamos. Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos. Como longinqua musica, trazida na virao do mar, soava-me nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanao de flres que se evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mo que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixo, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vl-a chegar assustada, como a cerva dos bosques, a esconder-se em meus braos. Mas, ao mesmo tempo, no sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluos e gemidos. Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idas. Meditativo, como pde sl-o o homem no leito da morte, eu dizia commigo:--Acabou tudo! no nos tornaremos a vr, ns, que tanto nos amamos!... LXXIV Era tamanha a minha tribulao, que eu receei succumbir paixo. A imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditaes. Como no podia arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado que no quer ouvir os gritos de maldio sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mo cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Canado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi... No queria porm, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara como um louco, ou como creana infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vr se a cura me pde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, s, meditativa, austera. Estou resolvido a esperar at final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero. Fio-me no sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto. No a desprezo j. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto, e me arrependo de a no ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar! que supplicio! As foras da minha alma esto extinctas. J me no pulsa o corao. Hoje principalmente, que dou fim aos traos do drama da minha vida, sinto a tentao terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo. Mas, porque ha-de ser aqui, e no ha-de ser alm ao p d'ella? porque me resta ainda o pudr d'um ciume feroz, que no quer ser carpido. Qual besta-fra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais. FIM PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA-EDITORA OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO _MOVIDAS A ELECTRICIDADE_ 44 a 54--Rua Augusta--44 a 54 LISBOA End of the Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau License: Share Alike