Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) MIRAGAIA ROMANCE POPULAR PELO A. DE ADOZINDA, BERNAL FRANCEZ, ETC. ILLUSTRAES DOS SRS. BORDALLO E COELHO. LISBOA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS LARGO DO PELOURINHO N. 24. MDCCCXLIV. Quando dei sta bagatella aos Srs. Editores do JORNAL DAS BELLAS-ARTES para encherem algum vo que lhes sobrasse n'aquella tam linda e tam elegante publicao, escrevi, a um canto do proprio rascunho original que no tive paciencia de copear, as seguintes palavras: Este romance uma verdadeira reconstruco de um monumento antigo. Algumas coplas so textualmente conservadas da tradio popular, e se cantam no meio da historia _rezada_, ainda hoje repetida por velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos tambem fabulam cada um a seu modo. O auctor, ou, mais exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do povo, e sobretudo quiz ser fiel ao stylo, modos, e tom de cantar e contar d'elle; sem o qu, sua ntima persuaso que se no pde restituir a perdida nacionalidade nossa litteratura. O postscriptum, servindo de nota ou commento, sahiu impresso no primeiro nmero do referido jornal com os dois primeiros cantares do romance, e foi ampliado com algumas observaes por extremo lisongeiras dos Srs. Editores, a quem tomra eu auxiliar como elles merecem por sua gentil imprza, que a mais bella e das mais uteis que se teem commettido em Portugal. Devo ao seu favor, no so o terem adornado a minha MIRAGAIA com as suas graciosas gravuras em madeira que todos teem admirado, mas o permittirem que fizesse com ellas sta pequena edio em separado com que quero brindar alguns amigos apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares. uma folha avulsa do meu ROMANCEIRO GERAL cujo primeiro volume ja est em podr do pblico; e l ser reposta em tempo e logar conveniente. Foi das primeiras coisas d'este genero em que trabalhei; e a mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos primeira luz da razo nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d'este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus paes n'uma pequena quinta, chamada o Castello , que tinhamos quem Doiro, e que se dizia tirar esse nome da vizinhana das ruinas do antigo castello mourisco que alli jazem perto. Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradio popular. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro,--cuja gua deliciosa com effeito; e tenho ida de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San'Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirado eu, como elle, n'um resto de muralha velha do castello d'elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra tambem. Assim lho para sta pobre Miragaia como para um brinco meu de criana que me apparecesse agora; e quero-lhe--que mal ha n'isso?--quero-lhe como a tal. No a julguem tambem por mais, que o no vale. Lisboa 24 de Janeiro 1844. MIRAGAIA I Noite escura tam formosa, Linda noite sem luar, As tuas estrellas de oiro Quem n'as poder contar! Como as folhinhas do bosque, Como as areias do mar... Em tantas lettras se escreve O que Deus mandou guardar. Mas guai do homem que se fia N'essas lettras decifrar! Que a ler no livro de Deus Nem anjo pde atinar. Bem ledo est Dom Ramiro Com sua dama a folgar; Um perro bruxo judio Foi causa de elle a roubar: Disse-lhe que pelos astros Bem lhe podia affirmar Que Zahara, a flor da belleza, Lhe devia de tocar. E o rei veio de cilada D'alm do Doiro passar, E furtou a linda moira, A irman d'Alboazar. A _Milhor_, que terra sua E est beira do mar, Se acolheu com sua dama, Nem de mais sabe cuidar. Chora a triste da rainha, No se pde consolar: Deix-la por [~u]a moira Deix-la com tal dezar! E a noite escura cerrada, Noite negra sem luar, Sosinha no seu balco Assim se estava a queixar: --Rei Ramiro, rei Ramiro, Rei de muito mau pezar, Em que te errei d'alma ou corpo, Que fiz para tal penar? Diz que formosa essa moira, Que te soube infeitiar... Mas tu dizias-me d'antes Que eu era bella sem par. Que ma, na flor da vida... Eu, se ainda bem sei contar, Ha tres que tinha vinte annos, Fi-los depois de casar. Diz que tem os olhos pretos. D'estes que sabem mandar... Os meus so azues, coitados! No sabem seno chorar. Zahara, que flor, lhe chamam A mim, Gaia... Que acertar! Eu fiquei sem alegria, A flor quem lh'a hade voltar? Oh! quem podra ser homem, Vestir armas, cavalgar, Que eu me fra ja direita A esse moiro Alboazar... Palavras no eram dittas, Os olhos foi a abaixar, Muitos vultos acercados Ao palacio viu estar. --Peronella, Peronella, Criada do meu mandar, Que vultos sero aquelles Que por alli vejo andar? Peronella no responde: Que havia de ella fallar? Riccas peitas de oiro e joias A tinham feito callar. A rainha que se erguia Por sua gente a bradar, Sette moiros cavalleiros A foram logo cercar; Soltam prgas de um turbante, A bcca lhe vo tapar; Tres a tomaram nos braos... Nem mais um ai pde dar. Criados da sua casa, Nenhum veio a seu chamar; Ou peitados ou captivos No n'a podem resgatar. So sette os moiros que entraram, Sette os esto a aguardar; No fallam nem uns nem outros... E prestes, a cavalgar! So um, que de aro a toma, Parece aos outros mandar... Junctos junctos, certos certos, Galopa a bom galopar! Toda a noite, toda a noite Vo correndo sem cessar; Pelos montes trote largo, Por valles a desfilar. Nos ribeiros--peito n'agua, Chape, chape, a vadear! Nas defesas dos vallados Up! salto--e a galgar! Vai o dia alvorecendo, Esto beira do mar. Que rio este tam fundo Que n'elle vem desaguar? A bcca ja tinha livre, Mas no acerta a fallar A pasmada da rainha... Cuida ainda de sonhar! --Rio Doiro, rio Doiro, Rio de mau navegar, Dize-me, essas tuas aguas Aonde as foste buscar? Dir-te-hei a perola fina Aonde eu a fui roubar. Ribeiros correm ao rio, O rio corre a la mar, Quem me roubou minha joia, Sua joia lhe fui roubar. O moiro que assim cantava, Gaia que o estava a mirar... Quanto o mais mirares, Gaia, Mais formoso o hasde achar. --Quantos barcos alli vem! --Barcos que nos vem buscar. --Que lindo castello aquelle! -- o do moiro Alboazar. II Rei Ramiro, rei Ramiro, Rei de muito mau pezar, Ruins fadas te fadaram, M sina te foram dar. Do que tens no fazer conta, O que no tens cubiar..! Zahara, a flor de teus cuidados, Ja te no d que pensar. A rainha, que era tua, Que no soubeste guardar, Agora morto de zelos Do moiro a queres cobrar. Oh!.. que barcos so aquelles Doiro acima a navegar? A noite escura cerrada, E elles mansinho a remar... Cozeram-se com a terra, L se foram incostar; Entre os ramos dos salgueiros Mal se podem divisar. Um homem saltou em terra: Onde ir n'aquelle andar? Leva bordo e esclavina, Nas contas vai a rezar. Inda a nvoa tolda o rio, O sol ja vem a rasgar, Pela incosta do castello Vai um romeiro a cantar: --Sanctiago de Galliza, Longe fica o vosso altar: Peregrino que la chegue No sabe se hade voltar. Na incosta do castello Uma fonte est a manar; Donzella que est na fonte Poz-se o romeiro a escutar A donzella est na fonte, A jarra cheia a deitar: --Bemditto sejais, romeiro, E o vosso doce cantar! Por stas terras de moiros maravilha de azar, Ouvir cantigas to sanctas Cantigas do meu criar. Sette padres as cantavam roda de um bento altar; Outros sette respondiam No cro do salmear, Entre vspera e completas; E os sinos a repicar. Ai triste da minha vida Que os no oio ja tocar! E as rezas d'estes moiros Ao demo as quizera eu dar. --Deus vos mantenha, donzella E o vosso cortez fallar: Por stas terras de moiros Quem tal soubera de achar! Por vossa teno, donzella, Uma reza heide rezar Aqui ao-p d'esta fonte, Que no posso mais andar. Oh! que fresca est a fonte, Oh! que sde de matar! Que Deus vos salve, donzella, Se aqui me deixais sentar. --Sente-se o bom do romeiro, Assente-se a descansar. Fresca a fonte, doce a agua, Tem virtude singular: D'outra no bebe a rainha Que aqui m'a manda buscar Por manhanzinha bem cedo Antes de o sol aquentar. --Doce agua deve de ser, De virtude singular: Dae-me vs uma vez d'ella Que me quero consolar. --Beba o peregrino, beba Por esta fonte real, Cntara de prata virgem, Tem mais valor que oiro tal. --Dona Gaia que diria, Que faria Alboazar Se visse o pobre romeiro Beber da fonte real?.. --Inda era noite fechada Meu senhor foi a caar: Maus javardos o detenham,. Que bem ruim de aturar! Minha senhora, coitada, Essa no tem que fallar: Quem ja teve fontes de oiro Prata no sabe zelar. --Pois um recado, donzella, Agora lhe heisde levar; Que o romeiro christo Lhe deseja de fallar Da parte de um que ja morto, Que morreu por seu pezar, Que hora de sua morte Este annel lhe quiz mandar. Tirou o annel do dedo, E na jarra o foi deitar: --Quando ella beber da agua No annel hade attentar. Fra d'alli a donzella, Ia morta por fallar... --Anda ca, Peronella, Criada de mau mandar, Tua ama morrendo sde E tu na fonte a folgar? --Folgar no folguei, senhora, Mas deixei-me adormentar, Que a moira vida que eu levo Ja no n'a posso aturar. Ai terra da minha terra, Ai _Milhor_ da beira-mar! Aquella sim que era vida, Aquillo que era folgar! E em sancto temor de Deus, No aqui n'este peccar! --Cal-te, cal-te, Peronella, No me queiras attentar; Que eu a viver entre moiros Me no vim por meu gostar. Mas ja tenho perdoado A quem l me foi roubar, Que antes escrava contente Do que rainha a chorar. Forte christandade aquella, Bom era aquelle reinar! Viver so, desemparada, Ver a moira em meu logar!.. Lembrava-lhe a sua offensa, Est-lhe o sangue a queimar... Na agua fria da fonte A sde quiz apagar. A fonte de prata virgem bcca foi a levar, As riccas pedras do annel No fundo viu a brilhar. --Jesus seja c'o a minha alma! Feitios me querem dar... O fogo a arder dentro n'agua E ella fria de nevar! --Senhora, c'o esses feitios Me tomra eu imbruxar! Foi um bemditto romeiro Que fonte fui incontrar, Que ahi deitou esse annel Para prva singular De um recado que vos trouxe Com que muito heisde folgar. --Venha ja esse romeiro, Que lhe quero ja fallar: Embaixador deve ser Quem traz presente real. III Por Deus vos digo, romeiro, Que vos queirais levantar; Minhas mos no so reliquias, Basta de tanto beijar! O romeiro no se erguia, As mos no lhe quer largar; Os beijos uns sobre os outros Que era um nunca acabar. Ia a infadar-se a rainha, Ouviu-o a soluar, E as lagrymas, quatro e quatro, Nas mos sentia rollar: --Que tem o bom do romeiro Que lhe d tanto pezar? Diga-me las suas penas Se lh'as posso alliviar. --Minhas penas no so minhas, Que aos mortos morre o penar: Mas a vida que eu perdi Em vs podia incontrar. Minhas penas no so minhas, Seno vossas, mal pezar! Que uma rainha christan Feita moira vim achar... --Romeiro no tomeis coita Por quem se no quer coitar: Do que fui ja me no lembro, O que sou no me dezar. Deus ter d da minha alma, Que meu no foi o peccar; E a esse traidor Ramiro As contas lhe hade tomar. --Pois no espereis, senhora, Por Deus que pde tardar: Dom Ramiro aqui o tendes, Mandae-o ja castigar. Em p est Dom Ramiro, Ja no ha que disfarar: Aquellas barbas tam brancas Cahiram de um impuxar; O bordo e a esclavina A terra foram parar: No ha ver mais gentilezas De meneio e de trajar. Quem viu olhos como aquelles Com que o ella est a mirar! Quem passou ja transes d'alma Como ella est a passar? Um tremor que no mdo, Um surriso de infiar, Vergonha que no pejo, Faces que ardem sem corar... Tudo isso tem no semblante, Tudo lhe est a assomar Como ondas que vo e vem Na travessia do mar. A vingana o prazer do homem; Da mulher, seu manjar: Assim perdoa elle e vive, Ella no--que era acabar. Vingar-se foi o primeiro E o derradeiro pensar Que, entre tantos pensamentos, Em Gaia esto a pullar: Logo depois a vaidade, O gsto de triumphar N'um corao que foi seu, Que seu lhe torna a voltar. E o rei moiro estava longe C'os seus no monte a caar, Ella so n'aquella trre... Prudencia e dissimular! Abre a bcca a um surriso Doce e triste--de matar! Tempra a chamma dos olhos, Abafa-a por mais queimar. Poz na voz aquelle incauto Que--ou minta ou no, fatal. E, com o inferno no seio, Falla o ceo no seu fallar. Ja os amargos queixumes Se imbrandecem no chorar, E em sua propria justia Com arte finge affrouxar. Protesta a bcca a verdade: Que no hade perdoar... Mas a verdade dos labios Os olhos querem negar. De joelhos Dom Ramiro Alli se estava a humilhar, Supplca, roga, promette... Ella parece hesitar. Seno quando uma bozina Se ouviu ao longe tocar... A rainha mal podia O seu prazer disfarar: --Escondei-vos, Dom Ramiro, Que chegado Alboazar; Depressa, n'este aposento... Ou ja me vereis matar. Mal a chave deu tres voltas, Na manga a foi resguardar; Mal tirou a mo da cotta, Que o rei moiro vinha a entrar. --Tristes novas, minha Gaia, Novas de muito pezar! Primeira vez em tres annos Que me succede este azar!.. Toquei a minha bozina s portas, antes de entrar, E no correste s ameias Para me ver e saudar! Muito mal fizeste, amiga, Em tam mal me costumar: No sei que fazes agora Em me querer emendar... No corao da rainha Batalha se esto a dar Os mais estranhos affectos Que nunca se hode incontrar: O que foi, o que agora, E a ambio de reinar... O amor que tem ao moiro, E o gsto de se vingar... Venceu amor e vingana: Deviam de triumphar, Que era em peito de mulher Que a batalha se foi dar. --Novas tenho e grandes novas, Amigo, para vos dar: Tomae esta chave e abride, Vereis se so de pezar. Com que ncia elle abriu a porta, Vista que foi incontrar!.. Palavras que alli disseram, No n'as saberei contar: Que foi um bramir de ventos, Um bater d'aguas no mar, Um confundir ceo e terra, Querer-se o mundo acabar... Vereis por fim o rei moiro Que sentena veio a dar: --Perdeste a honra, christo: Vida, quero-t'a deixar. De uma vez que me roubaste Muito bem me fiz pagar: D'esta basta-me a vergonha Para de ti me vingar. Sentia-se elrei Ramiro Do despeito devorar; Com ar contricto e affligido Assim lhe foi a fallar: --Grandes foram meus peccados, Poderoso Alboazar; E taes que a merc da vida De ti no posso acceitar: Eu no vim a teu castello Seno so por me intregar, Para receber a morte Que tu me quizeres dar: Que assim me foi ordenado Para minha alma salvar Por um sancto confessor A quem me fui confessar. E mais me disse e mandou, E assim t'o quero rogar, Que, pois foi pblica a offensa, Pblico seja o penar: Que ahi n'essa praa d'armas Tua gente faas junctar, Ahi deante de todos A vida quero acabar Tangendo n'sta bozina Tangendo at rebentar; Que digam os que isto virem, E lhes fique de alembrar: Grande foi o seu peccado, No mundo andou a soar; Mas a sua penitencia Mais alto som veio a dar. Quizera-lhe o bom do moiro Por fra alli perdoar: Mas se a prra da rainha Jurou de morte o levar!... Veis na praa do castello, Toda moirama a ajunctar; Em p no meio da turba Ramiro se foi alar. Tange que lhe tangers, Toca rijo a bom tocar; Por muitas leguas roda Reboava o bozinar. Se o ouviro nas gals Que deixou a beira-mar? De-certo ouviram, que um grito Tremendo se ouve soar... IV Sanctiago!.. Cerra, cerra! Sanctiago, e a matar! Abertas esto as portas Da torre de par em par; Nem atalaias nos muros Nem roldas para as velar. Os moiros despercebidos Sentem-se logo apertar De um tropel de leonezes Ja portas a dentro a entrar. Deixa a bozina Ramiro, Mo espada foi lanar, E, de um s golpe, fendente, Sem mais pr nem mais tirar, Parte a cabea at os peitos Ao rei moiro Alboazar. Ja tudo morto ou captivo, Ja o castello est a queimar, s gals, com seu despojo, Se foram logo imbarcar. --Voga, rema! d'alm Doiro pressa, pressa a passar, Que ja oio alli na praia Cavallos a relinchar. Bandeiras so de Leo Que l vejo tremular: Voga, voga, que alm Doiro terra nossa!.. a remar! D'aqui moirama cerrada At Coimbra e Thomar. Voga, rema, e d'alm Doiro! D'aquem no ha que fiar. poppa vai Dom Ramiro De sua gal real, Leva a rainha direita Como quem a quer honrar: Ella muda, os olhos baixos Leva n'agua... sem olhar, E como quem de outras vistas Se quer so desaffrontar. Ou Dom Ramiro fingia Ou no vem n'isso a attentar: Ja vo a meia corrente, Sem um para o outro fallar. Ainda arde, inda fumega O alcaar de Alboazar: Gaia alevantou os olhos, Triste se poz a mirar; As lagrymas, uma e uma, Lhe estavam a desfiar, Ao longo, longo das faces Correm... sem ella as chorar. Olhou elrei para Gaia, No se pde mais callar: Cuidava o bom do marido Que era remorso e pezar Do mau termo atraioado Que com elle fra usar Quando o intregou ao moiro Tam so para se vingar. Com a voz internecida Assim lhe foi a fallar: --Que tens, Gaia... minha Gaia? Ora pois! no mais chorar, Que o feito feito...--E bem feito! Tornou-lhe ella a soluar, Rompendo agora n'uns prantos Que parecia estalar: E bem feito, rei Ramiro! Valente aco! de pasmar! lei de bom cavalleiro, Para de um rei se contar! falsa fe o mataste... Quem a vida te quiz dar! traio... que d'outro modo No es homem para tal. Mataste o mais bello moiro, Mais gentil, mais para amar Que entre moiros e christos Nunca mais no ter par. Perguntas-me porque choro!.. Traidor rei, que heide eu chorar? Que o no tenho nos meus braos, Que a teu poder vim parar. Perguntaste-me o que miro!.. Traidor rei, que heide eu mirar? As torres d'aquelle alcaar Que ainda esto a fumegar: Se eu fui alli tam ditosa, Se alli soube o que era amar, Se alli me fica alma e vida... Traidor rei, que heide eu mirar? --Pois _mira_, _Gaia!_ E, dizendo, Da espada foi arrancar: _Mira_, _Gaia_, que esses olhos No tero mais que mirar. Foi-lhe a cabea de um talho; E com o p, sem olhar, Borda fra impuxa o corpo... O Doiro que os leve ao mar. Do estranho caso inda agora Memoria est a durar: GAIA o nome do castello Que alli Gaia fez queimar; E d'alm Doiro, essa praia Onde o barco ia a aproar Quando bradou Mira, Gaia! O rei que a vai degollar, Ainda hoje est dizendo Na tradio popular, Que o nome tem--MIRAGAIA D'aquelle fatal mirar. End of the Project Gutenberg EBook of Miragaia, by Joo Baptista da Silva Leito de Garrett License: Share Alike