Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) AS MINAS DE SALOMO Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira Rua da Cancella Velha, 70 RIDER HAGGARD AS MINAS DE SALOMO Traduco revista POR EA DE QUEIROZ PORTO LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON Casa editora LUGAN & GENELIOUX, Successores 1891 Todos os direitos reservados INTRODUCO Agora que este livro est impresso, e em vesperas de correr o mundo largo, comea a pesar fortemente sobre mim a desconfiana de que, para elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia. Emquanto Historia, realmente, no pretendi, nem tentei, metter n'estas paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem terra dos Kakuanas. Ha todavia n'esse estranho povo coisas que mereciam exame detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu dialecto (to aparentado com a lingua dos Zuls), o magnifico systema da sua organisao militar, a sua arte subtil em trabalhar os metaes... Que interessante estudo se faria, alm d'isso, com as lendas que ouvi e colleccionei cerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de L! Que curiosa, tambem, a tradio que entre elles se tem perpetuado sobre os _Silenciosos_, os dois colossos que jazem entrada das cavernas de Salomo! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram o baro Curtis e o capito John) que seria mais efficaz contar a historia a direito, e sccamente, deixando todas estas particularidades sobre a regio e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, n'um tomo especial, com minudencia e largueza. Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios. Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: no sei, nem possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara ida, as coisas simples so as mais impressionadoras--e mais facilmente se deve acreditar e estimar o livro, que venha escripto com sria e honesta singeleza. _Lana aguda no precisa brilho_, diz um proverbio dos Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha historia, na, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados gales da Eloquencia. Allo Quartelmar. AS MINAS DE SALOMO CAPITULO I ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS bem estranho que n'esta minha idade, aos cincoenta e seis annos feitos, esteja eu aqui, de penna na mo, preparando-me a redigir uma historia! Nunca imaginei que to prodigiosa occorrencia se podesse dar na minha vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem duvida, por a ter comeado to cedo! Com effeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escla, j eu andava agenciando o meu po por esta velha colonia do Cabo. E por aqui fiquei desde ento, mettido em negocios, em servios, em travessias, em guerras, em trabalhos--e n'essa dura profisso, que a minha, a caa ao elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, s ultimamente, ha oito mezes, _arredondei o meu sacco_. um bom sacco. um sacco grado, louvado Deus. Creio mesmo que um tremendo sacco! E apesar d'isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre as mos, no me arriscava a passar outra vez os transes d'este terrivel anno que l vai. No! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pelle intacta e com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e ando farto, refarto de aventuras! Como dizia pois, coisa estranhissima que assim me lance a escrever um livro. No est nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras--ainda que, como outro qualquer, aprecio as bellezas da Santa Biblia e gzo com a _Historia do Rei Arthur e da sua Tavola Redonda_. No emtanto tenho razes, e razes consideraveis, para tomar a penna com esta mo inhabil que ha quasi cincoenta annos maneja a carabina. Em primeiro logar, os meus companheiros, o baro Curtis e o digno capito da Armada Real John Good (a quem chamo por habito o capito John) pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao Reino dos Kakuanas. Em segundo logar, estou aqui em Durban, estirado n'uma cadeira, inutilisado para umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquelle infernal leo me traou a cxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os annos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadella. duro que depois de um homem matar, no decurso da sua honrada carreira, quarenta e cinco lees, seja justamente o ultimo, o quadragesimo sexto que o file e use d'elle como de tabaco que se masca. duro! Quebra a rotina, a estimavel rotina--e para mim, pessoa d'ordem, qualquer surpreza me sabe peor do que fel). Em terceiro logar, alm d'encher os meus ocios, componho esta historia para meu filho Henrique, que est em Londres, interno no hospital de S. Bartholomeu, estudando Medicina. uma maneira de lhe mandar uma longuissima carta que o entretenha e que o prenda. Servio de doentes, n'uma enfermaria abafada e lobrega, deve pesar intoleravelmente. Mesmo o retalhar cadaveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e tedio:--e assim esta historia, onde tudo ha menos tedio, vai por uns dias levar ao meu rapaz uma saudavel e alegre sensao de aventuras, de viagens, de fora e de vida livre. E emfim, como ultima razo, escrevo esta chronica, por ser, sem duvida, a mais extraordinaria que conheo--na Realidade ou na Fabula. Digo extraordinaria mesmo para os Leitores profissionaes de Romances--apesar de n'ella no haver mulheres, alm da pobre Fulata. Ha Gagula, sim. Mas esse monstro tinha cem annos, pouca frma humana, e no sensibilisa. Em todas estas duzentas paginas, realmente, no passa uma _saia_. E todavia, assim escasso como nas graas do Feminino, no creio que exista um caso mais raro e mais captivante. A unica vez que tive de fazer publicamente uma narrao foi diante dos Magistrados, no Natal, quando depuz como testemunha sobre a morte dos nossos serviaes Khiva e Vanvogel. Por essa occasio comecei assim, muito dignamente, com approvao de todos, com louvores do periodico de Durban:--Eu, Allo Quartelmar, residente em Durban, no Natal, _gentleman_, declaro e juro que...--No me parece porm que seja esta a adequada maneira de principiar um livro. Alm d'isso posso eu affirmar, em typo de imprensa, que sou um _gentleman_? O que um _gentleman_? O que ser _gentleman_? Conheo aqui Cafres ns que _o so_: e conheo cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anneis d'armas nos dedos, que _o no so_. Eu, pelo menos, nasci _gentleman_--apesar de me ter volvido depois n'um pobre e simples caador de elephantes. Ora, se n'essa carreira e nos acasos que ella me trouxe, permaneci sempre _gentleman_, no me compete a mim avaliar. Deus sabe que com valente esforo procurei conservar-me _gentleman_--como nascera. Tenho morto, certo, muito homem: mas estas duas mos, bem haja a minha fortuna, esto puras de sangue inutil. Matei para que me no matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como sagrados depositos que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este principio: e conto que o bom Deus, um dia, me dir l em cima--_Fizeste bem, Quartelmar_! Este mundo, meus amigos, aspero de atravessar: e os destinos violentos impem-se por vezes com uma logica inexoravel. Aqui estou eu, homem ordeiro, timido, bonacheiro, que, constantemente, desde creana, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca roubei. Uma occasio, verdade, abalei com quatro vaccas que pertenciam a um Cafre. Mas o Cafre tinha-me rapinado sordidamente--e desde ento essas quatro vaccas trago-as sempre na consciencia. S quatro vaccas. Pois tm-me pesado mais que uma manada de gado! * * * * * Foi ha dezoito mezes, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens que deviam ser meus companheiros n'esta aventura singular terra dos Kakuanas. N'esse outono, eu andra n'uma grande batida aos elephantes, para l do districto de Bamanguato. Tudo n'essa expedio me correu mal, e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas, larguei para as minas de Diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei o carro e o gado, debandei os caadores, e tomei a diligencia para o Cabo. Ao fim d'uma semana, no Cabo, descobri que o Hotel me roubava infamemente: alm d'isso j vira todas as curiosidades, desde o novo Jardim Botanico que ha de certamente conferir grandes beneficios cidade, at ao novo Palacio do Parlamento que, tenho a certeza, no ha de conferir beneficios nenhuns: de sorte que decidi voltar para o Natal pelo _Dunkeld_, pequeno vapor costeiro que estava nas docas espera do paquete de Inglaterra, o _Edinburgh Castle_. Tomei passagem, e fui para bordo. N'essa tarde chegou o _Edinburgh Castle_: os passageiros que trazia para o Natal transbordaram para o _Dunkeld_, e levantamos ferro ao pr do sol. Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o _Dunkeld_, havia dois que me despertaram logo certo interesse. Um d'elles, um homemzarro de perto de trinta e cinco annos, tinha os hombros mais cheios e os braos mais musculosos que eu at ahi encontrra, mesmo em estatuas. Alm d'isso cabellos ondeados e cr d'ouro; barbas ondeadas e cr d'ouro; feies aquilinas e de crte altivo; olhos pardos, cheios de firmeza e de honestidade. Varo esplendido que me fez pensar nos antigos Dinamarquezes. Para dizer a verdade, Dinamarquezes s conheci um, moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras: mas lembro-me de ter admirado um quadro, os _Antigos Dinamarquezes_, em que havia homens assim, de grandes barbas amarellas e olhos claros, bebendo n'um bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam bca. Este cavalheiro (vim a saber depois) era um Inglez, um fidalgo, um _baronet_. Chamava-se Curtis--o baro Curtis. E o que me feriu mais foi elle parecer-se extremamente com alguem, que eu encontrra no interior, para alm de Bamanguato. Quem?... No me podia lembrar. O sujeito que vinha com elle pertencia a um typo absolutamente differente, baixo, reforado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo pelas suas maneiras que tinhamos alli um official de marinha; e verifiquei depois, com effeito, que era um primeiro tenente da Armada Real, reformado em capito-tenente, e por nome John Good. Esse impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguem mais escarolado, mais escanhoado, mais engommado, mais envernizado! Usava no olho direito um vidro, sem aro, sem cordel, e to fixo que parecia natural como a palpebra. Nem um s momento o surprehendi sem aquelle vidro, e cheguei mesmo a pensar que dormia com elle cravado na orbita. S muito tarde descobri que noite o mettia no bolso das calas--no mesmo bolso em que guardava a dentadura postia, a mais bella, a mais perfeita dentadura que me recordo de ter contemplado, mesmo em annuncios de dentistas. E o capito, d'estas, possuia duas! Apenas nos fizemos ao largo, comeou o mau tempo. Brisa forte, nevoa humida e fria. Depois cada solavanco (o _Dunkeld_, barco de fundo chato, no levava carga) que no se podia arriscar uma passada confortavel na tolda. De sorte que me recolhi para junto da machina, onde fazia um calorzinho sereno, e alli fiquei olhando para o pendulo, que marcava, com desvios largos, o angulo de balano do _Dunkeld_. --Pendulo errado, rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da noite que cahia. Olhei. Era o official de marinha. --Errado, hein?... Acha? perguntei. --Acho o que?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pendulo, no se tornava mais a levantar... Aqui est o que eu acho. Mas sempre assim, com estes capites de marinha mercante... Felizmente, n'esse instante, tocou a sineta ao jantar, com immenso allivio meu--porque se ha, sob a cupula dos cos, uma coisa temerosa, a loquacidade d'um official da marinha de guerra, desabafando sobre a inepcia dos officiaes da marinha mercante. Peor do que essa coisa temerosa--s a coisa inversa! O capito John e eu descemos juntos para o salo. O baro Curtis j l estava, no topo da mesa, direita do commandante do _Dunkeld_. John accommodou-se ao lado do seu companheiro: eu defronte, onde havia dois talheres desoccupados. Logo depois da sopa o commandante, com a lamentavel mania dos homens de mar, comeou a fallar de caa. Primeiramente de caa miuda, de condores e de abutres. Depois passou a elephantes. --Ah! commandante (exclamou ao lado um patricio meu, de Durban), para elephantes temos presente uma grande auctoridade... Se ha homem em Africa que entenda de elephantes aqui o nosso companheiro e amigo Allo Quartelmar. Por acaso, n'esse momento, eu pousra os olhos no baro Curtis; e notei que o meu nome, assim pregoado com a minha profisso, lhe causra emoo e surpreza. John cravou tambem em mim o seu vidro, com uma curiosidade que faiscava. Por fim o baro inclinou-se, atravs da mesa, e n'uma voz grave e funda, bem propria do robusto peito d'onde sahia: --Peo perdo, disse, mas porventura ao snr. Allo Quartelmar que me estou agora dirigindo? --A elle proprio. O homemzarro passou a mo pelas barbas,--e distinctamente, muito distinctamente, o ouvi murmurar: Ainda bem! No se passou mais nada at ao dce. Mas fiquei ruminando aquelle espanto e aquelle ainda bem! Depois do caf, enchia o meu cachimbo para subir tolda, quando o baro, com os seus modos srios e lentos, se adiantou para mim, e me convidou a passar ao seu beliche, tomar um grog, e conversar... Aceitei. O baro occupava um camarote de tolda, o melhor do _Dunkeld_, espaoso, arejado, com um sof, espelhos, e duas largas cadeiras de verga. O capito John viera tambem. Todos tres nos sentamos, accendendo os cachimbos, emquanto o moo corria pelos grogs. Houve primeiramente um silencio. Outro creado entrou, a accender o candieiro. Por fim appareceram os grogs. O baro Curtis ento passou a mo pelas barbas, n'esse geito que lhe era costumado, e voltando-se bruscamente: --Diga-me uma coisa, snr. Quartelmar... Aqui ha dois annos, por este tempo, esteve n'um sitio chamado Bamanguato, ao norte do Transwaal. No verdade? --Perfeitamente, respondi eu, pasmado de que aquelle cavalheiro se achasse, no seu condado, em Inglaterra, to bem informado das jornadas que eu fazia no sul d'Africa! --A negocio, hein? acudiu o capito John. --Sim, senhor, a negocio. Levei uma carregao de fazendas, acampei fra da feitoria, e l fiquei at liquidar. O baro conservou durante um momento pregados em mim os seus olhos cinzentos e largos. Pareceu-me que havia n'elles anciedade e temor. --E diga-me, encontrou ahi, em Bamanguato, um homem chamado Neville? --Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a descanar o gado antes de metter para o norte. Aqui ha mezes recebi eu uma carta d'um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito d'esse sujeito... Respondi como pude... --Bem sei! atalhou o baro. Li a sua resposta. Dizia o snr. Quartelmar que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no principio de maio, n'um carro, com um servial e um caador cafre chamado Jim, tencionando puxar at Inyati, ultima estao na terra dos Matabeles, para de l seguir a p, depois de vender o carro. O snr. Quartelmar accrescentava que o carro decerto o vendera elle, porque seis mezes depois vira-o em poder d'um portuguez. Esse portuguez no se lembrava bem do nome do homem a quem o comprra. Sabia s que era um branco, e que se mettera para o matto com um Cafre... -- verdade, murmurei eu. Houve outro silencio, que eu enchi com um sorvo ao grog. Por fim o baro proseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e anciosos: --O snr. Quartelmar no sabe quaes fossem as razes que levavam assim esse sujeito Neville para o norte?... No sabe qual era o fim da jornada? --Ouvi alguma coisa a esse respeito, murmurei. E calei-me prudentemente, porque nos iamos avisinhando d'um ponto em que, por motivos antigos e graves, eu no desejava bolir. O baro voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar. O outro, por entre a fumaraa do cachimbo, baixou a cabea, n'um _sim_ mudo. Ento o meu homemzarro, decidido, abriu os braos, desabafou: --Snr. Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidencia! Vou-lhe mesmo pedir o seu conselho, e talvez o seu auxilio... O agente que me remetteu a sua carta afianou-me que eu podia confiar absolutamente no snr. Quartelmar, que um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado como nenhum em toda a colonia do Natal. Dei um sorvo tremendo ao cognac, para esconder o meu embarao--porque sou extremamente modesto. --Snr. Quartelmar, concluiu o baro, esse sujeito chamado Neville era meu irmo. --Ah! exclamei. Com effeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o baro se parecia! Era com esse Neville. Smente o outro tinha menos corpo, e a barba escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma deciso. --Era meu irmo, continuou o baro. Meu irmo mais novo, e unico. At aqui ha cinco annos, vivemos sempre juntos. Depois um dia, desgraadamente, tivemos uma questo, uma terrivel questo. E, para lhe dizer a verdade toda, snr. Quartelmar, eu comportei-me para com meu irmo da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do despeito, da clera, certo... Mas em summa comportei-me injustamente. --Cruelmente, murmurou do lado o capito John, que fumava com os olhos cerrados. --Cruelmente, com effeito. Como o snr. Quartelmar sabe, em Inglaterra, quando um homem morre sem testamento e no tem seno bens de raiz, tudo passa para o filho mais velho. Ora succedeu que meu pai morreu exactamente quando meu irmo Jorge e eu estavamos assim de mal. Herdei tudo; e meu irmo, que no tinha profisso, nem habilitaes, ficou sem real. O meu dever, est claro, era crear-lhe uma situao independente. o que todos os dias se faz em Inglaterra, n'esses casos. Mas por esse tempo a nossa questo estava em carne viva. Eu no lhe offereci nada. Elle tambem, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim ficmos, de longe, eu rico e elle pobre... Peo perdo de o fatigar com estes detalhes, snr. Quartelmar, mas preciso pr as coisas bem claras... No verdade, John? --Escrupulosamente claras! acudiu o outro. De resto o nosso amigo Quartelmar guarda para si esta historia... --Pudera! exclamei. --Pois bem, continuou o baro, meu irmo possuia de seu, n'essa poca, umas duzentas ou trezentas libras. Um bello dia, agarra n'esta miseria, toma o nome de Neville, e abala para Africa a tentar fortuna! Eu s o soube tarde, mezes depois d'elle ter embarcado. Passaram tres annos. Noticias d'elle, nenhumas. Comecei a andar inquieto. Escrevi-lhe. Naturalmente as minhas cartas no lhe chegaram. E eu cada dia mais afflicto! Para o snr. Quartelmar comprehender tudo bem, deve saber que, desde pequeno, desde o bero, meu irmo foi a forte e grande affeio da minha vida. E por outro lado a nossa questo, assim amarga e aspera por sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de qu? D'uma mulher. D'uma mulher cujo nome j quasi me esqueceu. E meu pobre irmo, coitado, se ainda vivo, no se lembrar mais que eu. Ora aqui tem! E j por isto o snr. Quartelmar comprehende... --Perfeitamente, perfeitamente... --Pois bem, descobrir meu irmo passou a ser a minha ida constante, dia e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquizas. Um dos resultados, o mais importante, foi a sua carta, snr. Quartelmar. Importante porque me dava a certeza que, mezes antes, meu irmo estava na Africa, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente, continuar as pesquizas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, no tm o interesse de corao: com o corao justamente que eu conto, com a perspicacia, a inspirao especial que elle s vezes possue. De resto sempre tencionei visitar as nossas colonias d'Africa... E aqui tem o snr. Quartelmar a minha historia. O mais extraordinario, que o tivessemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irmo vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia a dirigir apenas chegasse ao Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou, prompto para tudo, com o meu velho amigo, o capito John, companheiro fiel de muitos annos, que teve a dedicao de me acompanhar. O outro encolheu os hombros, sorrindo, com a sua esplendida dentadura. --No havia n'este momento nada interessante a fazer na velha Europa!... Gasta, insipidissima, a velha Europa! Depois, reenchendo o cachimbo, accrescentou muito srio: --E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos trazem Africa, e o interesse que nos prende a esse homem chamado Neville, espero da sua lealdade que no ter duvida em nos dizer tudo o que sabe, ou tudo que ouviu, a respeito d'elle. Hein? Impressionado, respondi: --No tenho duvida, por ser questo de sentimento. CAPITULO II PRIMEIRA NOTICIA DAS MINAS DE SALOMO Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mo, e comecei, muito devagar, para tudo pr bem claro e bem exacto: --Aqui est o que ouvi a respeito d'esse cavalheiro Neville. E isto, que me lembre, nunca, at ao dia d'hoje, o disse a ninguem. Ouvi que esse cavalheiro fra para o interior busca das minas de Salomo. Os dois homens olharam para mim, com assombro: --As minas de Salomo!? Que minas?... Onde so? --Onde so, no sei. Sei apenas onde _dizem que esto_. Aqui ha annos vi de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas milhas de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguem (quero dizer, homem branco) que o atravessasse, a no ser um, n'outras ras. Porque toda esta historia vem muito de traz, de ha seculos! Eu no tenho duvida em a contar, mas com uma condio: que os cavalheiros no a ho de transmittir sem minha auctorisao. Tenho para isso razes, e fortes. Esto os cavalheiros de accrdo? --Com certeza! Narrei ento longamente tudo o que sabia, historia ou fabula, sobre as minas de Salomo. Foi ha trinta annos que pela primeira vez ouvi fallar d'estas minas a um caador d'elephantes, um homem muito srio, muito indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas atravs d'Africa, tradies e lendas singularmente curiosas. Tinha-me eu encontrado com elle na terra dos Matabeles, n'uma das minhas primeiras expedies ao interior, busca do elephante e do marfim. Chamava-se Evans. Era um dos melhores caadores d'Africa. Foi estupidamente morto por um bufalo, e est enterrado junto s quedas do Zambeze. Pois uma noite, sentados fogueira, no matto, succedeu mencionar eu a esse Evans umas construces extraordinarias com que casualmente dera, andando caa do _koodoo_ por aquella regio que frma hoje o districto de Lydenburg no Transwaal. Essas obras foram depois encontradas, e aproveitadas at, pela gente que veio trabalhar as minas d'ouro. Mas ninguem (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era uma estrada enorme, magnifica, cortada na rocha viva, levando a uma galeria sem fim, mettida pela terra dentro, toda de tijolo, e com grandes pedregulhos de minerio d'ouro empilhados entrada. Obra extraordinaria! E a raa que a fizera--desapparecera, sem deixar um nome, nem outro vestigio de si, alm d'aquella estrada e d'aquella galeria, que revelavam um grande saber, uma grande industria e uma grande fora! --Curioso! murmurou Evans. Mas conheo melhor! E contou-me ento que no interior, muito no interior, descobrira elle uma cidade antiquissima, toda em ruinas, que tinha a certeza de ser Ophir, a famosa Ophir da Biblia. Lembro-me bem a impresso e o assombro com que eu escutei a historia d'essa cidade phenicia perdida no serto d'Africa, com os seus restos de palacios, de piscinas, templos, de columnas derrocadas!... Mas depois Evans ficra calado, scismando. De repente diz: --Tu j ouviste fallar das serras de Suliman, umas grandes serras que ficam para alm do territorio de Machukulumbe, a noroeste? --No, nunca ouvi. --Pois, meu rapaz, ahi que Salomo verdadeiramente tinha as suas minas, as suas minas de diamantes! --Como se sabe? --Como se sabe!? Tem graa! Sabe-se perfeitamente. O que _Suliman_ seno uma corrupo de _Salomo_? O nome das serras, realmente, sempre foi _serras de Salomo_. Alm d'isso, uma feiticeira do districto de Manica, uma velha de mais de cem annos, contou-me tudo... Isto , contou-me que para l das serras vive um povo que da raa dos Zuls, e falla um dialecto zul: mas como fora, e corpulencia, e coragem, vale mais que os Zuls. Pois n'esse povo ha videntes, grandes feiticeiros, que de gerao em gerao tm trazido o segredo d'uma mina prodigiosa, que foi d'um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje est cheia de pedras brancas que reluzem... De sorte que no ha duvida nenhuma. Para mim havia toda a duvida. As minas d'Ophir interessavam-me, como da nossa crena e da Biblia: mas das minas de _pedras brancas que reluzem_, conhecidas em segredo por feiticeiros zuls, teria certamente rido se no fra o respeito devido a um caador to digno como Evans. De madrugada Evans partiu, a acabar tristemente nas pontas d'um bufalo. E no pensei mais em Salomo, nem nas suas minas de diamantes. Aqui ha vinte annos porm, n'um encontro muito singular que tive no districto de Manica, de novo ouvi fallar das minas de Salomo, e d'um modo que para sempre me devia impressionar. Era n'um sitio chamado a aringa de Sitanda. No ha peor em toda a Africa. Fructa nenhuma, caa nenhuma, tudo scco, tudo triste--e os pretos vendem os ossos d'um frango por fazenda que vale uma vacca. Apanhei l um ataque de febre, e estava fraquissimo, enfastiadissimo, quando me appareceu um dia um portuguez de Loureno Marques, acompanhado por um servial mestio. Entre os portuguezes de Loureno Marques--ha soffrivel e ha pessimo. Mas este era dos melhores que eu vira--um homem muito alto e muito magro, de bellos olhos negros, os bigodes j grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram pensar nos velhos fidalgos portuguezes que aqui vieram ha seculos e de que tanto se l nas historias. Conversmos bastante n'essa noite, porque elle fallava um bocado de mau inglez, eu um bocado de mau portuguez; e soube que se chamava Jos Silveira, e que possuia uma fazenda ao p da cidade, em Loureno Marques. Na manh seguinte, cedo, antes de partir com o mestio acordou-me para se despedir, de chapo na mo, cortez e grave como os antigos, os que tinham _Dom_. --At mais vr, camarada! --Boa viagem! at mais vr! O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que rebrilhavam. Depois accrescentou muito srio: --Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica d'este mundo! E pde contar, camarada, que no me hei de esquecer de si! Nem ri. Estava muito debilitado para rir. Fiquei estirado na manta olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabea alta e cheia de esperana, se mettia pelo matto dentro. Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no cho defronte da barraca, rilhando a ultima perna d'um d'esses frangos que os pretos me vendiam por chita do valor d'uma vacca, e pasmando para o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto--quando de repente avistei, escura sobre a vermelhido do poente, n'uma elevao de terreno, a figura d'um homem que era certamente europeu porque trazia um casaco comprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos n'elle, o homem oscilla, cae de bruos e comea a arrastar-se pelo cho, lentamente! Com um esforo desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo comoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos meus caadores que acudisse. E quando elle voltou, amparando o homem nos braos--quem hei de eu vr? O Jos Silveira! Jos Silveira--ou antes o seu miseravel esqueleto, com todos os ossos rompendo para fra da pelle, mais scca que pergaminho e amarella como gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara, maneira de dois bugalhos de sangue. E o cabello que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo branco como uma bella estriga de linho. --Agua! gemeu elle. Agua, pelas cinco chagas de Christo! O infeliz tinha os beios horrivelmente estalados, e entre elles a lingua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe agua com leite, de que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi necessario arrancar-lhe a vasilha. Depois cahiu de costas, rompeu a delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de Suliman, os diamantes e o deserto! Levei-o para dentro da tenda: e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite socegou. Eu, esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz, dou com elle (frma sinistra!) de joelhos, porta da barraca, de olhos cravados para o longe, para o deserto! N'esse instante, um raio de sol que nascia frechou atravs do vasto descampado, e foi bater ao fundo, a cem milhas de ns, o pico mais alto das serras de Suliman. O homem soltou um grito, atirou desesperadamente para diante os dois braos de esqueleto: --L esto ellas, Santo Deus, l esto ellas!... E dizer que no pude l chegar! Parecem to perto! Logo alli, uns passos mais... E agora acabou-se, estou perdido, ninguem mais pde l ir! De repente emmudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, a face livida e como esgazeada por uma ida brusca. -- camarada, onde est voss?... J o no distingo, vai-me a fugir a vista! --Estou aqui; socegue, homem. --Tenho tempo para socegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a morrer. Voss tem sido bom commigo, camarada... E para que havia eu de levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguem se aproveita! Talvez voss l possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto que matou o meu pobre creado, que me est a matar a mim... Comeou ento a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou por fim uma especie de bolsa de tabaco, j velha, apertada com uma correia. Estava to fraco que as suas pobres mos nem puderam desfazer o n. Fez-me um gesto, um gesto exhausto, para que eu o desatasse. Dentro havia um farrapo de linho amarellado, com linhas escriptas, n'um tom antiquissimo, de cr de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel dobrado. --O papel, murmurou elle n'uma voz que se extinguia, a cpia do que est escripto no trapo. Levou-me annos a decifrar, a entender... Foi um antepassado meu, um dos primeiros portuguezes que vieram a Loureno Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acol n'aquellas serras. Chamava-se D. Jos da Silveira, e j l vo trezentos annos... Um escravo que ia com elle, e que ficra a esperar, do lado de c do monte, vendo que o amo no voltava procurou-o, foi dar com elle morto, e trouxe para Loureno Marques o bocado de linho que tinha letras. Desde ento ficou guardado na nossa familia. Ha trezentos annos! E ninguem pensou em o decifrar at que eu me metti n'isso... Custou-me a vida. Mas talvez outro consiga. Talvez outro chegue l, s malditas serras! Ser ento o homem mais rico d'este mundo! O mais rico, o mais rico! Tente voss, camarada... No d o papel a ninguem! V voss! As ultimas palavras sahiram como um debil sopro. Cahiu de costas, recomeou a delirar. D'ahi a uma hora tudo acabou, Deus tenha a sua alma em descano! Morreu serenamente, sem esforo e sem dr. Por minhas mos o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do peito. Ao menos assim no daro com elle os chacaes. Foi ao p da cova, onde o desgraado jazia, que examinei o documento. Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado d'uma fralda de camisa e do tamanho d'um palmo. No topo tinha os traos de um mappa, ou de um roteiro, rapidamente e toscamente lanados. Era pouco mais ou menos isto: [Figura] Por baixo vinham linhas escriptas, n'uma letra muito antiga e cr de ferrugem. Para mim eram inintelligiveis. Mas o papel continha a decifrao, e dizia assim: Estou morrendo de fome, n'uma cova da banda norte d'um d'estes montes a que dei o nome de Seios de Sab, no que fica mais a sul. Sou D. Jos da Silveira, e escrevo isto no anno de 1590, com um pedao d'osso, n'um farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui voltar, reparar n'este escripto, e o levar para Loureno Marques, que o meu amigo [_aqui um nome illegivel_], logo pela primeira nau que passar para o Reino, mande estas coisas ao conhecimento d'El-Rei, para que Elle remetta uma armada a Loureno Marques, com um troo de gente, que se conseguir atravessar o deserto, vencer os Kakuanas que so valentes, e desfazer os seus feitios (devem vir muitos missionarios) tornaro Sua Alteza o mais rico Rei da Christandade. Com meus proprios olhos vi os diamantes sem conto amontoados n'um subterraneo que era o deposito dos thesouros de Salomo, e que fica por traz d'uma figura da Morte. Mas por traio de Gagula, a feiticeira dos Kakuanas, nada pude trazer, apenas a vida! Quem vier siga o mappa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sab, o esquerdo, at chegar ao cimo, d'onde ver logo, para o lado norte, a grande calada feita por Salomo. D'ahi siga sempre, e em tres dias de marcha encontrar a aringa do rei. Quem quer que venha que mate Gagula. Rezem pelo descano da minha alma. Que El-Rei Nosso Senhor seja logo avisado. Adeus a todos n'esta vida! Tal era o extraordinario documento que textualmente li ao baro Curtis e ao capito, porque trazia sempre commigo (e ainda trago) uma traduco d'elle, em inglez, na carteira. Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por fim o capito, com o leve suspiro de quem repousa d'uma prolongada emoo, bebeu um trago de grog--e mais sereno: --O nosso amigo o snr. Quartelmar no nos tem estado a intrujar? Metti com fora o papel na algibeira, e, erguendo-me, repliquei sccamente: --Se os cavalheiros assim pensam, no me resta mais nada seno desejar-lhes muito boas noites! O baro acudiu, pousando-me no hombro a sua larga mo: --Pelo amor de Deus, snr. Quartelmar! Nem John, nem eu duvidamos da sua veracidade. Mas, emfim, tenho ouvido dizer que aqui na colonia coisa corrente e bem aceita troar um pouco os que chegam, os _novatos_ d'Africa... E depois essa historia to extraordinaria! Insisti, ainda offendido: --O original escripto pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o em Durban! Ser a primeira coisa que lhes hei de mostrar em chegando!... No ha uma palavra... O baro atalhou gravemente: --Toda a palavra do snr. Quartelmar coisa sria, e como tal a tomamos. Durante um momento ficmos calados. Eu serenei. Por fim o baro, que dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante de mim: --E meu irmo? Como soube o snr. Quartelmar que meu irmo tentou tambem essa jornada s minas? Narrei ento o que me succedera com esse sujeito Neville, quando estavamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu no o conhecia; nem ento comemos relaes, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia perfeitamente o servial que o acompanhava, um chamado Jim. Era um Bechuana, excellente caador--e, para Bechuana, esperto, consideravelmente esperto! Na manh em que Neville devia metter-se para o serto, vi Jim, ao p do meu carro, cortando folhas de tabaco. --Para onde essa jornada, Jim? perguntei eu, sem curiosidade, s para mostrar interesse ao rapaz. Ides a elephantes? Jim mostrou os dentes todos, n'um riso vivo: --No, patro. Vamos a coisa melhor que marfim. --Melhor que marfim!? Ouro? --Melhor que ouro! murmurou elle, arreganhando mais a dentua. Calei-me, porque no convinha minha dignidade de patro e de branco revelar curiosidade diante d'um Bechuana. Confesso, porm, que fiquei intrigado. D'ahi a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas por alli se quedou, rondando, coando devagar os cotovlos, espera, com os olhos em mim. No dei atteno. -- patro! murmurou elle, n'uma ancia de desabafar. Permaneci indifferente, por dignidade. Elle tornou: -- patro! --Que , homem? --Vamos procura de diamantes, patro! atirou-me elle ao ouvido. --Diamantes!? Boa! Ento ides para o lado opposto. Devieis metter direito ao sul, para as Diamanteiras. O Bechuana baixou mais a voz: -- patro! J ouviu fallar das serras de Suliman? Pois l que esto os diamantes. O patro nunca ouviu? --Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim. --No tolice, patro. Eu conheci uma mulher que veio de l, com um filho, e que vivia no Natal. Morreu ha annos, o filho por l anda. E foi ella que me disse tudo. Ha l diamantes! --Olha, Jim, o que te digo que teu amo vai dar de comer aos abutres, que andam por l esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens nos ossos, tambem vai d'aqui direitinha aos abutres! O homem teve outro riso fino: --A gente tem de morrer, e eu no desgsto de experimentar terras novas. O elephante por aqui j no rende. O Bechuana c vai para os diamantes, e o Bechuana vai cantando! --Pois quando a morte te agarrar pelas guelas, veremos ento se ainda canta o Bechuana! Jim abalou. D'ahi a meia hora o carro do snr. Neville poz-se em marcha para o norte. Mas no rodra ainda dez jardas, quando Jim voltou para traz, a correr. --Adeus, patro! exclamou. No me quiz ir de todo sem lhe dizer adeus, porque me parece que o patro tem razo, e que nunca mais c voltamos! --Ouve c, Jim, teu amo vai com effeito s serras de Suliman, ou tudo isso patranha? O Bechuana jurou que no contava patranhas. O amo ia realmente em demanda das serras e das minas que estavam para alm. Ainda na vespera o amo dissera que, para tentar fortuna na Africa, tanto montava ir em cata de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque no torro tudo havia. Assim elle ia aos diamantes, que era o mais rapido para enriquecer--ou para morrer. Reflecti um momento. --Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas has de prometter que no lh'as entregas seno em chegando a Inyati! Inyati ficava d'ahi a umas quarenta leguas. O Bechuana prometteu. Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lapis estas linhas: Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sab, o esquerdo, at chegar ao cimo, d'onde ver logo, para o lado norte, a grande calada feita por Salomo. --Bem! Ora agora, Jim, quando deres este papel a teu amo dize-lhe que lh'o manda quem sabe, e que siga bem a indicao! Mas ouviste? S lh'o ds quando chegares a Inyati; que eu no quero que elle me volte para traz e me venha fazer perguntas! Entendeste? Ento abala, madrao, que o carro come caminho! Jim agarrou o bilhete e largou a correr. D'ahi a pouco o carro sumiu-se por traz das collinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a respeito d'esse sujeito Neville. Mal eu acabra, o baro, sem hesitar, e com perfeita simplicidade, disse: --Snr. Quartelmar, vim Africa procurar meu irmo. Desde que alguem o viu pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim mesmo marchar tambem para esse lado. Pde ser que o encontre; ou que venha a saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou que no volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu dever, desde que me impuz esta tarefa, tomar o caminho que meu irmo tomou. E agora pergunto eu: quer o snr. Quartelmar vir commigo? Tambem no hesitei. Foi logo, de golpe: --Muitissimo obrigado, snr. baro! Se tentassemos atravessar as cordilheiras de Suliman, ficavamos l como os dois Silveiras. Eis a minha candida convico. Ora ha em Londres um pobre rapaz que anda nos seus estudos, que meu filho, e que me no tem seno a mim n'este mundo. E por elle, se no j por mim, no me convm por ora morrer. Em todo o caso agradeo a sua lembrana. de amigo! O baro voltou-se para o seu companheiro, com um ar profundamente desconsolado, e que quasi commovia n'aquelle homem to robusto e to nobre. O outro murmurou:-- pena, grande pena! --Snr. Quartelmar! exclamou ento o baro. Quando eu me metto n'uma empreza, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma grande fortuna, e necessito do seu auxilio. O snr. Quartelmar pde portanto pedir-me o que quizer pelos seus servios, j no digo dentro do razoavel, mas dentro do possivel. Alm d'isso, apenas chegarmos a Durban, vamos a um tabellio, e eu obrigo-me por uma escriptura a continuar a educao de seu filho, no caso de lhe acontecer a si um desastre, ou a deixar-lhe uma independencia, no caso de eu estourar tambem. V que estou prompto a tudo. Ainda mais. Se por acaso descobrissemos os diamantes, metade d'elles ficariam pertencendo ao snr. Quartelmar, outra metade ao capito John. verdade que nenhum de ns acredita nos diamantes, e portanto esta vantagem conta como zero. Mas podemos applicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que encontrarmos. Finalmente escuso de dizer que todas as despezas da expedio correm por minha conta. Creio que no posso fazer mais. Eu olhava para elle, deslumbrado: --Baro, essa proposta a mais generosa que tenho recebido na minha vida! Mas tambem, que diabo, a empreza seria a mais arriscada em que me tenho mettido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe darei a resposta. Por hoje ficamos aqui. --Ficamos aqui por hoje! acudiu o capito, erguendo-se, e respirando com allivio. Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no meu beliche, at de madrugada, sonhei com o antigo D. Jos da Silveira, com El-Rei Salomo, e com montes de pedras que reluziam no fundo d'uma caverna. CAPITULO III O HOMEM CHAMADO UMBOPA Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do baro. Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para as minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre caa, sobre aventuras de caa na Africa. Os dois, homens de grande _sport_, no se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de memorias e j anecdotico, no me fartava de contar. Finalmente, n'uma esplendida tarde de janeiro (que aqui o mez mais quente do anno) avistmos a costa de Natal--com a esperana de dobrar a ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa adoravel, com as suas longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres aringas dos Cafres espalhadas aqui e alm, e a orla espumosa e alva do mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a regio toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as plantaes d'assucar: e a espaos uma casa muito branca, sorrindo para a azul placidez do mar, pe uma linda nota, humana e domestica, na vastido da paizagem. Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban. Mas quando deitmos ancora j era crepusculo cerrado, tarde de mais para entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao salo, para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vr o salva-vidas remar para terra com as malas do correio. Quando voltmos tolda, a lua ia alta, e to brilhante sobre mar e praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra vinham, atravs do ar calmo, aquelles picantes e dces aromas de especiarias, que, no sei por qu, me fazem sempre lembrar hymnos de egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as varandas alumiadas. N'um grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros estavam cantando, ao som do _banjo_. Era uma noite d'encanto, como s as ha n'este abenoado sul d'Africa, que lanava sobre a alma uma infinita paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. At o bull-dog d'um passageiro irlandez, que no cessra de rosnar ferozmente durante toda a jornada, cedera emfim s pacificadoras influencias do sul, e dormia, estirado no convs, com um ar de tregoa e de perdo aos homens. O baro, o capito John e eu, estavamos sentados junto roda do leme, olhando e fumando em silencio. --Ento, snr. Quartelmar? exclamou de repente o baro, sorrindo. Aqui estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas? --Vamos ou no vamos de companhia busca do snr. Neville? echoou do lado o amigo John. No tugi. Mas ergui-me, e fui devagar sacudir para fra da amurada a cinza do meu cachimbo. A verdade que, depois de muito matutar, eu ainda no tomra uma resoluo,--ou antes a minha resoluo permanecia vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior que a definisse e a fixasse. E foi justamente aquella exclamao risonha dos dois, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo fixou e definiu no meu animo. Ainda a cinza no cahira na agua e j eu estava resolvido a partir. --Pensei e vou! declarei, voltando a sentar-me. E se os cavalheiros me do licena, direi as razes por qu, e as condies com qu. Expuz logo as condies, muito claramente: O baro, em primeiro logar, corria com todas as despezas; e qualquer achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedio, seria irmmente dividido entre mim e o capito John. Em segundo logar, o baro pagar-me-hia em dinheiro de contado, antes de partirmos, quinhentas libras, compromettendo-me eu a acompanhal-o e fielmente servil-o at que a jornada terminasse ou por um triumpho, ou por um desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em terceiro logar, o baro obrigar-se-hia por uma escriptura a dar annualmente a meu filho, emquanto durassem os seus estudos, uma penso de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilisado... Ainda eu no findra, j o baro aceitra tudo, largamente, alegremente! O que eu quero, seja por que preo fr (dizia elle), a sua companhia, snr. Quartelmar, o soccorro da sua experiencia! --Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condies em que vou, quero dizer as razes por que vou. porque se ns tentarmos atravessar as serras de Suliman, no voltamos de l vivos! O que succedeu ao velho Silveira, ao que tinha _Dom_, ha trezentos annos; o que succedeu ao outro, ao que no tinha _Dom_, aqui ha vinte; o que succedeu naturalmente ao snr. Neville, o que nos vai succeder a ns! No sahimos de l vivos. Olhei attentamente para os dois homens. O amigo John arripiou um bocado a face. O baro ficou impassivel, murmurando apenas:--Corremos-lhe o risco! Eu prosegui: --Agora diro os cavalheiros: Se julgas que no sahes de l vivo, para que vaes l? Em primeiro logar, porque sou fatalista. Se Deus j decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de Suliman hei de morrer ainda que l no v. E se Deus decidiu j o contrario, posso l ir impunemente e de cara alegre. Isto claro. Em segundo logar, estou velho, e j vivi tres vezes mais do que costuma viver na Africa um caador de elephantes. De sorte que, continuando n'esta carreira, e desgraadamente no tenho outra, que posso eu durar ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em cima, o meu pobre rapaz ficava n'uma situao m, coitado d'elle! Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui tm os cavalheiros a coisa em duas palavras. O baro ergueu-se, excellente homem! e apertou-me as mos com effuso. --Essas razes, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, snr. Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou no da aventura, o tempo dir. Eu por mim estou decidido a ir at ao cabo, seja qual fr, triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer to cedo, no me parecia mau que antes d'isso, pelo caminho, arranjassemos uma batida aos elephantes. Sempre desejei caar o elephante, e com a perspectiva de deixar assim os ossos nas serras de Suliman, prudente que me apresse... No verdade, John? --Com certeza!... De resto, todos ns vimos j muitas vezes a morte diante dos olhos. um detalhe; para que se ha de insistir n'elle? Viemos Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus grande. --Est tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que chegou a occasio d'um grog. Fomos ao grog. No dia seguinte desembarcmos. Alojei os meus amigos n'uma barraca que possuo na Berea, e a que chamo em dias d'orgulho a minha casa. construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e uma cozinha. Em redor, porm, est plantado um bom jardim, com esplendidas arvores e flres, que um dos meus caadores, chamado Jack, traz lindamente tratadas. um pobre homem a quem um bufalo esmigalhou a perna na terra dos Sikukunes. J no pde seguir a caa; mas na sua qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zul nunca faria decentemente. O Zul tem horror s artes da paz. O baro e o seu amigo dormiram n'uma tenda que lhes armei no jardim (dentro de casa no havia espao), no meio do laranjal. Aqui em Durban as laranjeiras tm ao mesmo tempo a flr e o fructo: de sorte que com o perfume todo em torno, e o brilho das laranjas cr d'ouro, e o murmurio d'aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na Europa. Logo no dia seguinte, sem mais tardana, comemos os preparativos. Antes de tudo fomos ao tabellio lavrar a escriptura em que o baro se obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em Inglaterra as propriedades do baro: mas arranjou-se uma tangente, e segura, graas s artes de um Advogado, que pelos seus servios apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passmos a comprar o carro e as juntas de bois. Descobrimos um carro excellente, com eixos de ferro, solido e leve, que j fizera uma excurso a Loureno Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um carro dos que chamamos de _meia-tenda_--isto , toldado smente at ao meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofades onde podiam dormir bem duas pessoas: alm d'isso suspenses para as espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas. Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma aventura d'estas, vinte bois no vo de mais. Todos eram de raa zul, a mais pequena d'Africa, mas a melhor; e todos elles _salgados_. Chamamos aqui _salgados_ aos bois j muito jornadeados pelo sul d'Africa, e prova portanto da agua vermelha--que destroe s vezes todas as juntas d'um carro. Alm d'isso, todos tinham sido vaccinados contra a _maleita de pulmes_, frma horrivel de pneumonia, que n'estas terras um flagello para o gado. Em seguida organismos provises e remedios. Este detalhe demandava sciencia e cuidado, porque convinha, n'uma empreza to accidentada, que nem faltasse o necessario, nem o carro partisse abarrotado e carregado em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o capito John, que em tempos estudra para medico da Armada, e que (alm de possuir, muito a proposito para ns, um estojo de cirurgia e uma pharmacia de viagem) conservra conhecimentos genericos e uma toleravel pratica. Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre com uma maestria--que fazia appetite vr! O que o perturbou foi o Cafre (que observra a operao em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois para lhe pr _outro dedo novo_. Restava emfim a importante questo de creados e armas. Armas tinhamos por onde as escolher--entre as que eu possuia e a colleco esplendida que o baro trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois canos para differentes cargas e differentes caas, tres carabinas Winchester, tres rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a creados, depois de muita consulta e reflexo, decidimos limitar o numero a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviaes. Boieiro e guia achmos ns facilmente em dois Zuls, que se chamavam--um Goza e outro Tom. Mas os serviaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da paciencia, da fidelidade, da coragem dos serviaes poderiam muitas vezes depender as nossas pobres vidas n'esta aventura sem igual. Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito zul, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para os meus companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote j eu conhecia. Era um dos melhores farejadores de caa de toda a Africa. Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito srio consistia na _bebida_. Mas como iamos para regio onde no ha aguas-ardentes nem quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno Venvogel. Tinhamos pois dois serviaes. O terceiro parecia impossivel descortinar. Tentei, tentei--at que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar, antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati e Zukanga. Na vespera porm da nossa partida estavamos jantando, quando Khiva, o rapaz zul, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu portal, minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapago muito esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais para Zul. Floreou no ar o cajado maneira de saudao, encruzou-se sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. No lhe dei logo atteno. Assim se deve proceder com os Zuls. Se o branco lhes falla com promptido e agrado o Zul conclue immediatamente que est tratando com pessoa _de pouco commando_. Observei no emtanto que este homem era um _Keslha_, um _homem-de-annel_--isto , que trazia na cabea aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma _idade de respeito_ ou attingem nas suas aringas uma posio superior. Tambem me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella. --Bem, disse por fim, como te chamas? --Umbopa, respondeu o homem n'uma voz lenta e grave. --Estou a pensar que j te vi algures. --J, Makumazan! _Makumazan_ o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os olhos bem abertos. --Makumazan, continuou o Zul, viu-me em Izand-luana, na vespera da batalha... Lembrei-me ento completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford, na desgraada guerra com os Zuls. Por acaso, na vespera da batalha de Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando levar para fra do acampamento uns poucos de carres de bagagens. Quando se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troo de Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o acampamento no estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento _trazia cheiro de inimigo_. Respondi-lhe que dobrasse a lingua, e deixasse a segurana do acampamento a melhores cabeas que a d'elle. Pois grande razo tinha o Zul! Logo n'essa noite o acampamento foi terrivelmente assaltado... Tudo isso porm vem na Historia. --Que queres tu? perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que queres. --Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n'uma grande expedio, com os chefes brancos que vieram d'alm do mar. verdadeira a voz? --Verdadeira. --Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de Manica. verdade? Franzi o sobr'olho, descontente de vr assim to conhecido o roteiro da nossa expedio. --Para que queres tu saber? que tens com isso? --Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para to longe, eu quereria ir comvosco. Havia uma altivez nas maneiras d'este homem, e especialmente no seu emprego da expresso _oh brancos_ em logar de _oh inkosis_ (chefes), que me surprehendeu grandemente. --Ests esquecendo a quem fallas! repliquei. As palavras sahem-te demasiadas e imprudentes. Como o teu nome? onde a tua aringa? necessario saber quem temos diante de ns! --O meu nome Umbopa. Sou da raa dos Zuls, mas no sou Zul. O sitio da minha tribu muito longe, para o norte: os meus ficaram l quando os Zuls desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, antes de Chaka ser rei. No tenho aringa. Muitos annos vo que ando errante. Quando vim do norte era creana. Depois fui dos homens de Cetewayo no regimento de Nomabakosi. Por fim fugi dos Zuls, e vim para o Natal para vr as artes dos brancos. Foi ento que servi na guerra contra Cetewayo, e que te encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto, quero ir para o norte. O meu logar no aqui. No peo soldada, mas sou valente, e valho bem o po que comer. Eis as palavras que tinha a dizer. Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me singularmente. Era certo para mim que s dissera a verdade: mas na cr, nos modos, differia muito do Zul ordinario; e a sua offerta de vir comnosco sem soldada, extraordinaria n'um Africano, enchia-me de desconfiana. Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes conselho. O baro pediu-me que mandasse pr o homem de p. Umbopa ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casaco militar que o envolvia, e ficou diante de ns, mudo, erecto, soberbo, todo n, com um simples pedao de pano em torno dos rins e um fio de garras de leo enrolado ao pescoo. Era, realmente, um esplendido homem! Tinha mais de dois metros de altura, e largo em proporo, agil, admiravel de frmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia apenas muito trigueira, como a d'um arabe. Aqui e alm, pelo corpo, conservava cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia. O baro foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se no baixaram, e que rebrilharam: --Gsto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu servio. Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zul: --Est bem. Depois, atirando um olhar para a grande estatura e fora do branco, accrescentou: --Somos dois homens, tu e eu! CAPITULO IV OS ELEPHANTES Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas que vo d'aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue, chegmos, pelos meados de maio, a Inyati, no longe da aringa de Sitanda, onde acampmos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas d'aquellas que so usuaes em todas as travessias d'Africa e j muito contadas nos livros. Em Inyati, ultima estao mercante da terra dos Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) rei, separmo-nos, com fundas saudades, do nosso confortavel carro. Dos vinte bois que trouxeramos de Durban, s doze restavam. Um morrera da mordedura da cobra, tres da falta d'agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma herva venenosa, chamada _tulipa_. Os restantes deixmol-os com o wagon ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos vigiasse o carro, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjmos em Inyati, largmos para o deserto, a p, em seguimento da nossa temeraria aventura. Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos prmos em marcha estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo, decerto, se jmais tornaria a vr o carro, os bois e o Missionario. Eu por mim levava a certeza _que no_. Os primeiros passos foram lentos, dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente, rompeu n'um grande canto--uma cano zul, dizendo d'uns homens que, cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao deserto, para achar occupao ou morrer, e que, para alm dos sertes, subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moas, de gado, de caa, e de inimigos para matar! Esta cano pareceu-nos de boa promessa. A quinze dias de marcha de Inyati comemos a atravessar uma regio arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas de matto que os indigenas chamam _idaro_: e por toda a parte se estendiam bosques de _machabelas_, arvores que do um fructo amarello, enorme, quasi todo caroo, mas deliciosamente fresco e dce. As folhas e fructos d'estas arvores so o alimento querido dos elephantes; e decerto os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo, vai assolando. Uma tarde, depois d'uma caminhada fatigante, chegmos a um sitio particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro todo vestido d'arvoredo. Ao p serpeava o leito scco d'um rio, conservando ainda aqui e alm poas de agua crystallina e fria, espesinhadas em redor pelas largas pgadas de feras. Em frente verdejava um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e cheias de flr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso, impenetravel. Decidimos ficar alli e construir um _scherm_, a pouca distancia d'uma das poas d'agua. O _scherm_ uma especie de acampamento entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso e armando-o circularmente n'uma vasta e rude sebe que frma defeza. Todo o espao interior se aplaina como uma arena: ao centro amonta-se herva scca, um capim chamado _tambouki_, que serve de divan e de cama; aqui e alm, em volta, accendem-se alegres fogueiras. Quando acabmos de arranjar o _scherm_--vinha nascendo a lua. O jantar estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d'uma girafa, que n'essa tarde, ao fim da ssta, fra morta pelo capito John com um tiro providencial. Mas depois de corao de elephante (a mais fina delicia que se pde ter), tutano e lombo de girafa so os petiscos superiores d'Africa, e grandemente os saboremos sob o esplendor da lua cheia, que ia alta nos cos. Depois accendemos os cachimbos, e conversmos no vasto silencio em roda do lume. Os meus companheiros no se fartavam de contemplar aquella scena de serto, familiar para mim, com os meus quarenta annos d'Africa, mas que a elles s offerecia estranhezas--at na maneira por que as claridades alumiam, at na maneira por que a noite silenciosa. Eu por mim, confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capito John. Alli estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em cima d'um sacco de couro,--to apurado, to correcto, to bem pregado, como se viesse de passear n'um parque luxuoso de castello inglez, em dia de caa ao faiso. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com chapo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de pelle de co, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postios rebrilhando em gloria! Nunca o serto africano vira decerto um homem mais catita. At trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha), de que emmalra na mochila uma escandalosa poro--por serem leves (dizia elle), faceis de lavar, e dar logo gente um ar de asseio e distinco. Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e observando os Cafres, que chupavam a _dacca_ nos seus longos cachimbos feitos de cornos de _eland_, e que, um por um, se iam enrolando nas mantas e estirando beira do lume. S Umbopa por fim ficou acordado, longe dos Cafres (a quem geralmente no admittia familiaridades), com o queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n'uma d'aquellas abstraces em que por vezes eu o surprehendera desde o comeo da nossa jornada. De repente, da profundidade do matto, por traz de ns, subiu no ar um longo e rouco rugido. um leo! exclamei. Todos nos erguemos, a escutar. Quasi immediatamente, junto poa d'agua pura, visinha do nosso _scherm_, resoou como em resposta a estridente trompa d'um elephante. _Unkungunlovo_! _Unkungunlovo_![1], murmuram uma os Cafres, levantando as cabeas das mantas:--e momentos depois avistmos uma fila de enormes e escuras frmas, movendo-se devagar da beira da agua para o matto. O capito, com um salto, agarrra a espingarda. Tive de o segurar pelo brao: -- inutil, no se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir. --Em todo o caso, disse o baro excitado, este sitio para um caador um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?... Estranhei: porque at ahi o baro, impaciente, viera-nos sempre apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera alli o carro em que viera de Bamanguato e se internra no serto com um Cafre por servial. Mas ouvira o leo, ouvira o elephante--e os seus instinctos de caador dominavam, irresistivelmente. --Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado de divertimento, ter-se-ha; mas manh. Por agora tratar de dormir, e erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes que elle v aos seus negocios. Toca pois a accommodar. O capito John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o monoculo e os dentes postios dentro do bolso das calas, dobrou tudo cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu _makintosh_, alisou o cabello, tomou um bochecho d'agua, e estirou-se de lado para dormir, com correco e conforto. O baro e eu, depois de contemplar, rindo, estes requintes, embrulhmo-nos simplesmente n'um cobertor:--e d'ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo, absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que a recompensa e a consolao de quem moureja por estas terras negras. Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a p, preparando para a aco. Tommos as carabinas, munies abundantes, cantis cheios de ch frio (que a melhor bebida, a unica, quando se caa), e partimos, depois de engolir de p um almoo breve, acompanhados de Umbopa, de Khiva e de Venvogel. No tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastra-se durante a noite; e eram quasi nove horas, j o calor ardia em co e terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d'arvores esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos andavam cerca--e seguros. D'ahi a instantes, effectivamente, avistmos o rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculra), parados n'uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro repasto, e sacudindo com lentido e magestade as suas immensas orelhas. Era uma vista soberba! S as ha assim na Africa! Estavamos separados d'elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de capim e atirei-o ao ar para tomar a direco do vento:--porque se um elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pr as carabinas cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria, soprava para ns do lado dos bichos: de sorte que rastejmos cuidadosamente atravs do matto, mudos, sem respirar, at nos aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de ns, e de ilharga para ns, estacionavam tres magnificos elephantes machos, um d'elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei, baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o baro apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capito ao Patriarcha. --Agora! murmurei. Bum! bum! bum! O elephante do baro tombou redondo, varado no corao. O meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e findei-lhe misericordiosamente a agonia. Voltei-me ento para vr o que se passra com o elephante do capito, o Patriarcha, que eu ouvira por traz de mim bramando de dr e furia. Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido, rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um salto), e seguira, furioso e sem vr, para a banda do nosso acampamento. O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado, atravs da espessura. Durante um momento ficmos indecisos entre seguir o Patriarcha ferido ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de primavera. Achal-os, porm, era mais complicado: e tivemos, durante duas infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os avistarmos. L estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos machos): e pela inquietao com que se mexiam, pelo constante erguer das trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam outro ataque. Um dos machos afastado, laia de sentinella, vigiava para o nosso lado, de tromba ameaadora e alta. Entre elle e ns mediavam umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontmos, todos tres lhe atirmos. Bum! bum! bum! Morto! Mas os outros partiram, n'uma desfilada, como collinas rolando. Infelizmente para elles, logo adiante havia um _nullah_, isto , uma ribeira scca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique do lado fronteiro (sitio parecido quelle em que o Principe Imperial foi morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em tropel. Quando chegmos borda, dmos com elles em medonha confuso, esforando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta), empurrando-se uns aos outros, n'um furor e egoismo verdadeiramente humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando to depressa como carregavamos, dmos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de galgar a ribanceira, no largassem a fugir ao comprido do leito scco que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os perseguir, enjoados tambem d'essa vasta mortandade. Oito elephantes n'uma manh, antes do _lunch_, decente. De sorte que, depois de descansarmos e vrmos os Cafres cortar os coraes a dois dos elephantes para servir ceia, voltmos vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os carregadores viriam serrar. Ao passar no sitio em que o capito tinha ferido o Patriarcha, encontrmos um rebanho de _elands_. No lhe atirmos, porque no ha nada no _eland_ que valha dinheiro, e mantimentos j traziamos, deliciosos e abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois, adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flr, parou; e todos a um tempo se voltaram, a olhar para ns, espantados. O capito nunca vira um _eland_. Quiz aproveitar a occasio, deu a carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito, para o tufo de arbustos em flr. O baro e eu sentmo-nos espera, n'uma pedra. O sol ia justamente descendo, n'um grande esplendor de vermelho e ouro. O baro e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de co e luz, quando de repente ouvimos o bramido d'um elephante e vimos, escura sobre a vermelhido do poente, uma vasta frma avanando a galope, de tromba erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa horrivel:--o capito, e Khiva, o servial zul, fugindo para ns n'uma carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido, o Patriarcha que alli ficra, errando. Agarrmos n'um impeto as carabinas. Mas qu! Fera e homens, correndo para ns, vinham juntos! Se disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficmos n'esta indeciso, com o corao a tremer, quando o pobre capito escorrega n'aquelles infames botins de bezerro com que teimava em trilhar o serto--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do enorme elephante que chegava bramindo! Fugiu-nos a respirao! O pobre camarada estava perdido! Largmos ainda a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com effeito--mas d'um modo bem differente. Khiva, o Zul (valente, heroico rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a toda a fora contra a tromba do elephante. A fera lana um uivo de dr, arrebata o desgraado Zul, bate com elle no cho, pe-lhe uma immensa pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito, rasga-o--litteralmente _o rasga em dois_. Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez, furiosamente--at que o elephante se abateu como um monte sobre os pedaos sangrentos do Zul. Foi um instante de indizivel consternao. Apesar de endurecido por quarenta annos de caa e carnificinas, eu proprio sentia um n na garganta, e creio que me fiz pallido. O baro tremia todo. E o pobre capito torcia as mos, na dr de vr assim despedaado o servo valente que dera a vida por elle. S Umbopa teve a palavra serena que convinha disciplina. Veio, com os seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n'uma poa de sangue, junto massa enorme do elephante, moveu a mo no ar e disse: --Morreu. Bem d'elle, que morreu como um homem! CAPITULO V A NOSSA ENTRADA NO DESERTO Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levmos a serrar-lhe os dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d'uma arvore enorme, que destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um signal inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! S os dentes do Patriarcha pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta arrateis! O pobre Khiva, esse, sepultmol-o ao p da collina, com uma azagaia ao lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada para o Paraiso zul. Ao romper do terceiro dia levantmos o acampamento--todos ns fazendo votos no silencio da nossa alma para que nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--voltar e desenterrar este rico marfim! Depois d'uma fatigante marcha, cortada d'esses episodios africanos que todos os Africanistas experimentam, chegmos emfim aringa de Sitanda, ao p do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso ponto de partida. Ahi comeariam as nossas miserias. Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita descia, transmalhada, uma pequena povoao de negros, com curraes de gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva alta, onde a caa abundante esvoaava. E para a esquerda era o escuro, silencioso, infindavel deserto. O nosso acampamento ficou junto d'esse riacho alegre que corria entre arbustos em flr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas erguemos as tendas, subi l com o baro. Era aquelle o sitio, aquelle o outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n'uma tarde como esta, a figura do pobre Silveira, com o seu grande casaco comprido, apparecer cambaleando, toda escura na vermelhido do poente. Como ento, o globo do sol afogueado descia j rente da terra--e os seus raios flexavam obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua, sem vida, terrivelmente mudo, que matra o pobre portuguez, que nos ia talvez matar a ns. Ficmos olhando para elle em silencio. O ar era d'uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe, podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu companheiro: --A entrada das minas de Salomo l est... Chegaremos ns l? N'esse instante senti alguem por traz de ns respirando: era Umbopa, que trepra tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa gravidade. Vendo que eu reparra n'elle, deu um passo lento, depois outro mais lento. E dirigindo-se ao baro (a quem parecia ter-se affeioado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes: -- para aquella terra alm que tu vaes, Incub? _Incub_ uma palavra do dialecto zul, que significa elephante, e que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a audacia d'Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa de fallar a seu amo... Que o negro d uma alcunha negra ao patro, por lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--v! Que a um como eu, pobre caador que ganha o seu po, o negro se dirija sempre pela alcunha negra--v ainda! Mas que a atire face d'um senhor, d'um fidalgo--isso no! --Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo comem da mesma gamella! O Zul teve uma risadinha dce que me enfureceu. --Que sabes tu, accrescentou elle, se eu no sou igual ao amo que sirvo? Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se v logo: mas talvez eu pertena a uma casta maior! Pelo menos sou to forte como elle, e posso com elle repartir o que tenho no corao. S pois a minha bca, oh Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incub meu amo! E attende-as tu tambem, porque em mim s ha verdade! Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallra n'aquelle tremendo tom! Mas, no sei porque, o maldito Zul tinha a arte de me impressionar. Alm d'isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia impudente e ousada. O baro, porm, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o Zul: -- para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d'um homem da minha raa, d'um irmo meu, que atravessou este deserto, e que eu supponho estar alm! O Zul moveu lentamente a cabea: --Assim , assim ... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como ns, levando um s servial... Nunca mais voltaram... --Quem te disse? perguntei, vivamente. Porque te sahem s agora essas palavras? Onde te disseram? Antes de Inyati, um homem que elle encontrra no caminho. Contra-lhe que o branco se parecia com o chefe Incub, mas tinha a barba escura: e que ia seguido por um caador bechuana chamado Jim. --So elles! exclamei. No ha duvida! so elles! Jim conhecia eu bem.... O baro ficou pensativo. --Se meu irmo tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito no era da tempera d'elle. Ou no vive, ou est para l das serras. O Zul, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou muito gravemente: -- uma longa jornada, Incub. --Quartelmar, diga-lhe que no ha jornada que o homem no possa emprehender, replicou o baro (que evidentemente estimava e considerava aquelle singular Zul). Nada ha que o homem no possa fazer; nem desertos que no possa atravessar, nem montanhas que no possa subir, se puzer n'isso alma e vontade. O essencial contarmos a vida por coisa nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus ordenar. Quando o Zul comprehendeu, toda a face se lhe illuminou: --Grandes palavras, meu pai Incub! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a bca d'um forte! Que a vida, na verdade? a semente da herva que o vento sopra aqui e alm. s vezes cae em boa terra e fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? sempre a morte. Eu por mim irei comtigo, Incub! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei sempre fiel... Parou. E subitamente rompeu n'uma d'essas rajadas de poesia, frequentes nos Zuls, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de gerao em gerao, mostram que se a raa no intelligente, pelo menos imaginativa. --Que a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braos, n'aquelle tom cantado que os Zuls tomam n'esses momentos de exaltao). Que a vida? Dizei-me, oh brancos, vs que sabeis os segredos d'este mundo, e do mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que est para alm das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida! D'onde vem ella, para onde vai?... No podeis, no sabeis! Escutai ento! Ns sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro acossado pela tormenta, ns sahimos do fundo da escurido: durante um momento passamos, e as azas brilham-nos luz das fogueiras: depois, de novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida o pyrilampo que fulgura de noite e de dia negro! o halito dos rebanhos no ar de inverno! a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao poente!... Calra-se, com os braos ainda abertos, o olhar perdido nas alturas. --s um homem bem singular, Umbopa! exclamou o baro, que o escutra assombrado. O outro pareceu acordar, sorriu: --Creio que nos assemelhamos, Incub. Talvez eu tambem v procurando um irmo entre as gentes que esto para l das montanhas. Olhei para Umbopa, com o sobr'olho franzido. --Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para l das montanhas? --Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para alm uma terra de feitios, de jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem l chegar, l ver! Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que no queria revelar. Elle decerto percebeu a minha desconfiana--porque acudiu, espalmando as mos: --No te arreceies, Macumazan! No te arreceies! No abro covas para que tu cias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o que sei. Mas a Morte est l com uma lana, nossa espera. Melhor te fra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a fallar. E meneando a azagaia maneira de saudao, desceu o comoro, recolheu ao acampamento--onde d'ahi a instantes o encontrmos limpando uma carabina, attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e vontade. --Homem extraordinario! murmurou o baro. --Extraordinario de mais! No gsto nada d'aquelles mysterios... Mas, emfim, ns estamos mettidos n'uma aventura phantastica, e um Zul mysterioso de mais ou de menos--no tira nem pe! Na manh seguinte comemos os preparativos para a marcha. Era impossivel naturalmente levar comnosco, atravs do deserto, todo o pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forados (depois de debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era abandonar as nossas magnificas armas merc d'aquelle velho malandro--cujos olhos se fixavam j nos nossos bens com um fulgor de cubia e rapina. Tomei por isso as minhas precaues. Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n'um tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiados--e que se elle lhes tocasse alli (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro despedindo um _raio_! Immediatamente (como eu calculra), o Cafre puxou o gatilho a uma carabina Express. E o _raio_ partiu. Partiu, com tanta felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, beira d'agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada fora do reco. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o co, olhava para o cho... Por fim rompeu aos berros: --Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os l em cima, sobre o colmo!... Ai, que no fica vivo um de ns! Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma s arma d'aquellas faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se ns morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos ps, tornar-lhe o gado bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e fazer a vida na aringa to dura e terrivel que seus proprios filhos o amaldioariam... Emfim, dei-lhe uma ida razoavel do Inferno, com horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife infinitamente supersticioso. Em seguida combinmos o que ns cinco--o baro, o capito John, eu, Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco atravs do deserto. Muito calculmos, muito experimentmos. No logrmos chegar a um peso menor de quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui o que conduziamos: Cinco espingardas--com a competente munio (quatrocentas cargas); Tres rewolvers; Cinco cantis d'agua, de cinco quartilhos cada um; Cinco mantas; Vinte e cinco arrateis de _biltong_--que uma especie de carne scca; Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas; Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d'algibeira, uma enx, uma garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo. Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n'uma semelhante empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem, por um sol terrivel, atravs d'um deserto esteril! Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um s costas uma larga cabaa d'agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na frescura da noite). Os negros, a quem eu contra que iamos caar o abestruz, no acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sde e de fome no grande serto: elles proprios temiam a morte e os demonios que vagam no deserto: e s consentiram em nos seguir, a troco de tres facas de matto e d'uma manta vermelha. Durante todo esse dia descanmos e dormimos. Ao pr do sol celebrmos um grandioso jantar, de caa, de carne fresca e de ch--o ultimo ch, observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e longos mezes. Depois, apetrechadas as mochilas, espermos que nascesse a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que parecia to mudo, solemne, impenetravel e virgem de pgadas humanas como o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia nos erguemos ns tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na mo:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de ns alguns passos, Umbopa, de azagaia na mo, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente para o deserto: atraz de ns, n'um grupo, Venvogel, com os tres negros que levavam as cabaas d'agua, esperavam, direitos e mudos: e ns tres, os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o corao. De repente, o baro tirou devagar o chapo. E com profunda emoo: --Amigos, vamos comear uma das mais estranhas jornadas que homens tm ousado tentar. O que ser de ns, no sei: mas, para bem ou para mal, juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo pde! Escondeu a face entre as mos, ficou immovel. O capito John e eu baixmos tambem a cabea, com reverencia, com humildade. Eu por mim, confesso, nunca fui homem de oraes. Caadores de elephantes, na dura vida d'Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso, n'aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais alegre e mais leve. Creio que o capito (religioso no fundo, apesar de praguejar medonhamente) tambem rezou. O baro esse era homem de piedade e crena... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o brao,--e com um bello ar de resoluo e de esperana: --Prompto?... Larga! Os bordes resoaram na terra dura,--e largmos. Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de Suliman, e o roteiro que o velho D. Jos da Silveira trara no pedao de camisa. Cada um de ns trazia na algibeira uma cpia d'esse mappa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A nossa salvao, n'aquella jornada, seria encontrar a laga, ou poa de agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcra a meio caminho entre a aldeia d'onde partiramos e as serras de Suliman. Se a no achassemos, tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sde. E, para mim, as probabilidades de descobrir uma laga de tres ou quatro metros n'aquella vastido de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima. Mesmo suppondo que o Portuguez a marcra com exactido--quem nos afianava que n'esses trezentos annos ella no seccra ou no fra coberta pelas areias movedias? Era n'isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos marchando sob o luar silencioso. O caminho no era facil: o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite no estar quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solido, o silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de _teus dces olhos_, parecia lugubre n'aquella severa immensidade. O engraado homem emmudeceu. E seguimos n'uma fila muda atravs do matto mudo. Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de ns uma balburdia medonha de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos frmas, como garupas, galopando atravs do tojo, entre rolos d'areia. Os negros atiraram-se ao cho, gritando que eram demonios acordados! Eu proprio e o baro ficmos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando avistmos John, apparentemente montado n'um potro, fugindo aos gales para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais--e vmol-o sacudir os braos no ar, e de novo desapparecer, no matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d'um rebanho de zebras adormecidas: John estatelra-se exactamente sobre as costas d'uma, enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalra com o nosso amigo nas ancas. Felizmente no se magora no tombo final: fomos dar com elle sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, indignado--mas intacto de pelle e osso. Depois d'isto marchmos socegadamente at perto das duas horas da noite. Fizemos ento uma paragem, bebemos uns goles d'agua (no muitos, nem largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta minutos de descano recomemos a caminhar para diante, para diante sempre, at que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d'uma tremula refraco d'ouro--e ser dia! No parmos apesar de j cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido esplendor. Com effeito, s seis horas j ardia! Por felicidade avistmos ento na planicie um monto de rochas. Para l nos arrastmos, exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um pedao d'areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhmos: e, depois de beber alguns goles d'agua bem contados e de comer uma lasca de _biltong_, adormecemos deliciosamente. s tres horas acordmos. Os carregadores que tinham trazido as cabaas j se preparavam para voltar sua aringa. De sorte que absorvemos uma farta tarraada d'agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos homens as facas de matto promettidas. D'ahi a instantes vimol-os (no sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua! s quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor se parecia alargar em silencio e desolao. Ao principio ainda avistavamos, aqui e alm, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a mosca l est. Foi este decerto o primeiro dos sres vivos que surgiu sobre a terra. J havia moscas para pousar no nariz de Ado. O derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno face. E talvez haja moscas no Paraiso. Ao sol-posto parmos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena que nunca surgiu ella s dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo brilho, na mudez da vastido, caminhmos, caminhmos... O sol nado pz um termo valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d'agua dos cantis, atirmo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a todos quatro simultaneamente. No havia necessidade que um velasse. Nada tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n'aquella immensidade despovoada. D'esta vez porm nenhuma rocha nos abrigava--e s sete horas acordmos sob o sol faiscante, com a sensao que deve experimentar um bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo _fritos_! O sol por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos erguemos, de salto, quasi sem respirao. --Santo Deus! murmurou o baro, sacudindo os enxames de moscas. --Pde-se chamar a isto calor! gemeu do lado o capito, que arquejava. Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta extenso nem um abrigo! S matto rasteiro--e por cima uma vibrao radiante, to viva e intensa que viamos tremer o ar. --Que se ha de fazer? exclamou o baro. impossivel aguentar isto! Olhmos uns para os outros, estupidamente. --Se abrissemos uma cova? lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e cobrir-nos com tojo... uma ida. No brilhante! Mas era a unica:--de modo que, j com a enx, j com as mos, passmos a abrir uma cova do tamanho aproximado d'uma larga cama. Cortmos uma poro de matto; e alli nos sepultmos, collados como sardinhas n'uma caixa, todos quatro, o baro, John, eu e Umbopa,--porque Venvogel, como Hottentote, no sentia os ardores do sol. Foi elle que nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d'aquella fossa, em que cada torro, junto do corpo, era como uma braza viva! No comprehendo como nos desenterrmos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos estendidos, hirtos, sem ter j que suar, quasi cortidos, arquejando anciosamente. S possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os beios com uma gota d'agua muito medida! Esta avara medio da agua era o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa tentao de sorver d'um s trago os quatro cantis. Mas qu! se a agua faltasse--breve viria a morte! Tudo tem um fim n'este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se possa esperar. Espermos: a horrivel, interminavel manh passou: e pelas tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de vir) a ser por ella lentamente envolvidos n'aquelle infame buraco. Reconfortmo-nos com um curto sorvo nossa agua,--que diminuia terrivelmente, e subira j temperatura do sangue. E com um esforo rompemos de novo atravs da planicie flammejante. Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do velho D. Jos da Silveira, a total extenso do deserto estava fixada em quarenta leguas; e a famosa poa de agua salobra vinha marcada a meio do deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porm, fizemos pouco mais d'uma milha por hora. Ao pr do sol parmos espera da lua. Deixei-me cahir para o cho, como um morto, cerrei os olhos. Mas d'ahi a um instante Umbopa fez-me erguer e notar, distancia de oito ou nove milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente na planicie rasa. No parecia uma elevao natural de terreno, na sua semelhana estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar adormeci logo, murmurando: Que ser?... Ao romper da lua de novo partimos, j alquebrados de cansao e de sde. O andar franco e firme acabra para ns. Era agora um arrastar de passos quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que cahiamos para cima da areia, sem fora, de corao desmaiado. Nem animo nos restava para conversar. At ahi ainda gracejavamos, heroicamente. John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer! Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d'alma, chegmos ao p do comoro estranho. Era uma especie de duna d'areia, escura, lisa, atarracada, da altura d'uns trinta metros, e cobrindo na base duas geiras de terreno. Parmos. E desesperados com a sde, sorvemos o resto da agua. Tinhamos meio quartilho por bca! Podiamos ter emborcado um almude! Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, resvalava j dcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si proprio em zul: --O que a vida! Se manh no achamos agua, a lua ao nascer encontra aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! vida, murmurio que finda! Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sde n'um deserto d'areia!), adormeci profundamente. * * * * * Eram quatro da manh quando acordei. E bruscamente entrou commigo a tortura da sde! Estivera todo o tempo sonhando que passeava beira d'um regato d'agua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mos; mos e face pareceram-me mais sccas e duras do que coiro; e as palpebras e os beios estavam to pegados, to collados, que tive de os descerrar fora com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda vinha longe; mas no reinava no ar a natural frescura matutina, antes uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solido. E pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d'aves, e toda uma sensao de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir ssinho n'um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei! Voltei a mim, quando os outros em redor se comearam a mexer, erguendo-se devagar sobre o cotovlo, esfregando como eu as faces resequidas, separando fora como eu os labios sem saliva e mirrados. J rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, comemos a fallar da nossa situao--que era sombriamente desesperada. No nos restava uma gota d'agua! Voltmos os cantis para baixo, chupmos-lhes os gargalos. Mais sccos que ossos! O capito John, que guardra a garrafa de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas o baro arrancou-lh'a das mos. Beber alcool, n'aquelle estado?... Era a morte. --Mortos estamos ns (murmurou o capito encolhendo os hombros) se d'aqui noite no achamos agua! --Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a poa d'agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n'esta altura exactamente que elle a achou... Os outros nem responderam. Realmente nenhum de ns tinha j confiana no roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poa existisse--como encontrar n'essa immensido o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais pequena e perdida do que uma moeda de prata n'uma praia d'areia? S por um bamburrio! Ou s se ella jazesse junto d'accidente do terreno, que, pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente attrahisse os olhares e os passos. A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lanando conjecturas, n'esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote Venvogel andava a distancia, com os olhos no cho, lentamente, como quem procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o brao espetado para a terra. --Que ? exclammos todos. E corremos alvoroadamente. --Pgadas de coro! bradou elle em triumpho, apontando para o cho. --E ento? --Coros nunca andam longe d'agua! -- verdade! gritei eu. E louvado por isso seja Deus! Foi como se renascessemos vida. No era ainda a agua--mas a esperana d'ella, para breve! E n'uma crise afflictiva como a nossa, uma esperana, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que enche logo a alma. Venvogel no emtanto comera a andar em redor, com o nariz erguido (o seu largo nariz mais chato que o d'um _bull-dog_), sorvendo o ar quente, farejando. --_Cheiro agua_! dizia elle, _cheiro agua_! E ns todos atraz d'elle, farejando tambem, quasi _j viamos_ a agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens, possuem um faro maravilhoso. Mas n'esse instante os grandes raios do sol que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma to grandiosa paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sde! Diante de ns, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o portuguez chamra os Seios de Sab; e de cada lado d'elles, estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira de Suliman! No possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel grandeza e belleza d'aquelle quadro de montanha! Alli estavam as duas enormes serras que no tm iguaes na Africa, nem creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil ps d'altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de portentosa solemnidade, enchendo o co at acima das nuvens. E o que esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se como um muro disforme de granito, d'altura de mil ps: as duas serras formavam como os dois torrees d'uma porta, perdidos nas profundidades: a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique, lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configurao d'uma porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d'uma muralha cercando uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda! Bem justamente chamra o velho fidalgo portuguez aos dois montes Seios de Sab! Tinham com effeito a frma perfeita de dois peitos de mulher: as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n'uma curva dce e tumida, parecendo quella distancia formosamente redondas e lisas: e no cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve, semelhava exactissimamente a ponta, o bico d'um peito. Prodigiosa estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, uma mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos! Mas minha imaginao (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada n'esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha estupenda, cercando e defendendo uma regio de infinito mysterio; e a cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra d'Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos assombrados, comearam a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos mortaes a magestade d'aquelle dito, que uma vontade divina nos deixra por um momento entrever. D'ahi a pouco os Seios de Sab estavam envolvidos de todo, resguardados sob o mystico vo--atravs do qual s podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!... Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares, estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma cortina de Sacrario. S a certas horas, ao romper do sol, a cortina se descerrava, como n'uma celebrao, desvendando aos homens a maravilha sem par. Passada a violenta surpreza, de novo nos considermos com a mesma anciosa interrogao--que fazer? Venvogel insistia, convencido, que lhe _cheirava a agua_:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em redor, esquadrinhavamos atravs do matto. Nada! S a areia ondulando, com manchas de matagal. Dmos a volta toda ao singular outeiro onde pararamos de noite. Avanmos para os lados, em todas as direces do vento, com attentos e lentos passos, e olhos sfregos que furavam a terra. Nada! Nenhum vestigio d'uma nascente, d'uma poa, d'um charco. S areia, arido tojo. --Idiota! gritei eu desesperado com o Hottentote. No ha, nunca houve aqui agua! N'aquella aspera, arida immensidade no parecia, com effeito, haver possibilidade, nem sequer verosimilhana d'agua... E quanto tempo de resto poderia durar alli uma poa salobra, como a que encontrra o velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias movedias? No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas erguidas e abertas: --Eu sinto o _cheiro_ d'agua, patro. Sinto-a no ar! --No ar no duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem no duvido que venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos! O baro no emtanto cofiava a barba pensativamente: --E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O sitio este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha direita de norte a sul, da aringa de Sitanda s Serras. aqui. Aqui esteve agua! Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e scca! Quem nos afianava de resto a exactido do portuguez, esvado de fome, meio delirado, no comeo da sua agonia? J no era pequena estranheza que elle a tivesse encontrado, n'esta deserta immensidade, justamente quando d'ella lhe dependia a vida!... A no ser que para ella fosse attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno, muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... Uma collina! E quando eu assim pensava, eis que o baro grita, como echoando o meu pensamento: --No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina! --Tolice! acudiu o capito encolhendo os hombros. Agua no topo d'uma collina! Onde se viu isso? --Procuremos! disse eu, com um bater de corao que era todo de esperana. Trepmos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca, com os braos no ar: --_Nanzie manzie_! (agua aqui!) Pulmos para junto d'elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina, n'uma cova redonda como uma taa, l estava agua, agua escura, agua lbrega--mas agua! Agua! agua! Gritavamos de puro gozo. E n'um momento, estirados de barriga no cho, com as faces na poa, sorviamos deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso, que to bem imitava agua. Cos! O que bebemos! E mal findmos de beber, arrancmos o fato, saltmos para o charco, e, sentados n'elle, ficmos horas a embeber-nos de frescura atravs da pelle--da nossa pobre pelle mais dura e mais scca que um pergaminho secular. Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne scca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella hora de consolao. E o somno que nos tomou at ao meio dia, deitados junto da poa e da sua humidade, foi profundo e bemdito! Todo aquelle dia tardmos junto da agua, bebendo d'ella, mergulhando n'ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo que to exactamente a marcra no mappa. Por fim, tendo enchido d'agua os estomagos e os cantis, continumos a marcha, mais animados e ageis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n'essa noite. No tornmos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as nevoas, avistmos de novo a cordilheira e os dois Seios de Sab (agora afastados de ns apenas vinte milhas) tomando o co com a sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E ao outro alvorecer pismos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sab! Com amargo espanto no encontrmos agua, e a nossa j ia findando! No havia agora esperana de topar nascentes antes de chegarmos linha de neve, que branquejava l longe, no alto da serra: e j a sde nos comeava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os passos por sobre o torrido cho de lava que formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manh, apesar de curtos repousos, estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e rugosos que nos magoavam horrivelmente os ps. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos descanar umas fartas horas sua sombra providencial. Para l nos empurrmos, por l nos abrigmos. E no foi pequena surpreza (se ainda nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena distancia, n'um planalto formando terrao sobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formra alli um cho de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham alastrado e verdejado... Dmos, porm, pouca atteno a essas hervagens, porque no havia l nem fructo nem agua--e de relva s Nabuchodonosor se conseguiu alimentar. Alli ficmos pois, estirados sombra dos pedregulhos, sem fora no corpo e sem esperana n'alma, pensando que nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em silencio a leira de verduras, caminhra para l lentamente. E qual no o meu assombro ao vr aquelle individuo, ordinariamente to composto e grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mo o quer que fosse de verde! Arremettemos para elle, na esperana anciosa de agua descoberta. -- agua, Umbopa? gritava eu pulando por sobre a lava. --Agua e sustento, Macumazan! exclamava elle agitando no ar a coisa verde, com effusivo triumpho. Percebi emfim o que era. Era um melo! Tinhamos dado n'um meloal, um enorme meloal bravo, com milhares de meles, a cahir de maduros! --Meles! uivei eu para os companheiros que corriam atraz. --Meles! meles! foi o berro victorioso que resoou nas quebradas. N'um momento, cada um de ns tinha os dentes cravados n'um melo, sfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta meles; e apesar de mediocres creio que nunca nada na vida me soube to deliciosamente. Mas o melo no alimenta--e refrescada a sde no tardou a fome, mais intensa e aguda. Conservavamos ainda o _biltong_, a carne scca; mas j nos enjoava atrozmente: e alm d'isso deviamos poupal-a com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provises na longa ascenso da serra. N'esse dia, porm, estavamos em sorte decididamente, como disse John. Lanando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta terrivel evidencia, _a fome_--vi de repente uns oito ou dez grandes passaros voando em direco a ns, lentamente. --Atire, patro, atire! exclamou baixo o nosso servo hottentote, acaapando-se immediatamente no cho. Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a cr da lava, no fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas, que no seu vo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por cima das nossas cabeas. Tomei uma carabina Winchester, e esperei acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em monto; e atirando massa escura, pude facilmente abater um soberbo bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia uma fogueira de talos sccos de melo: e o bicho aloirava em cima. Foi um banquete! Comemos aquella betarda toda, fra carcassa e bico! N'essa noite continumos a ascenso do monte, luz da lua, carregados de meles para a sde. maneira que subiamos, o ar esfriava consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da linha de neve. Encontrmos mais meles: e a agua emfim, louvado Deus, j no nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regies do gelo. No emtanto era immenso o nosso pasmo de no encontrar nascentes, quedas d'agua, um riacho corrente; porque decerto no vero as neves, derretendo, deviam encher d'agua aquellas encostas. Por onde corria a agua pois, para onde se sumia a agua? S mais tarde descobrimos que (por uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho ou em queda, descia pela vertente norte da serra. A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma milha por hora. A carne scca acabra. Meles, nenhuns mais encontrmos. O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora muitas horas que no comiamos. A serra subia, subia diante de ns, cada vez mais desolada, mais na de verdura ou vida. Os nossos momentos de repouso passavam n'um silencio sombrio e cheio de desesperana. Eu por mim ia j to debilitado e confuso, que, d'esses tres dias que nos levou a ascenso da serra, no me recordo com bastante nitidez--e s poderia reconstruil-os pelos apontamentos do meu _Diario_. Na nota com data de 22 de maio encontro isto:--Partimos ao nascer do sol. Vamos meio desmaiados de fraqueza. S quatro milhas andadas. Comemos os pedaos de neve que comemos a encontrar. Frio intenso. Cada um de ns bebe uma gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim conservamos calor. Estamos verdadeiramente _soffrendo de fome_. Julguei que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite.--Tudo isto j terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda soffrimentos mais vivos:--Estamos n'uma situao medonha. A no ser que encontremos que comer hoje, o nosso fim est proximo. O cognac acabou. Venvogel, que como todos os Hottentotes no pde aguentar frio, parece perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros dizem que sentem o mesmo) uma especie de adormecimento, de torpor no estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a _porta_, o colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sab. Para traz de ns estende-se o deserto que atravessamos... Para que o atravessamos ns? Logo abaixo d'estas linhas ha outra, escripta decerto n'um dos momentos em que paravamos:--Deus se amerceie de ns, que chegou o nosso fim! Esta linha no tem data, mas sem duvida foi traada no dia 24. Depois os apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n'esse estranho dia. Iamos ento caminhando atravs da neve, com paragens incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer, fosse animal ou planta. Quasi ao pr do sol chegmos junto da ponta do seio, d'essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da montanha (da montanha que reproduzia a frma perfeita d'um seio), parecia ella propria o bico d'esse peito descommunal. Apesar de exhaustos, prendemo-nos um instante na admirao d'aquelle esplendido cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e cr de rosa em que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d'uma carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admirao no podia durar em homens collocados como ns, a to extrema visinhana da morte. O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d'aquellas neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir noite que vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n'essa branca e lisa vastido de neve? --A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou o capito John. Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados, esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros: --Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos ns, ou beira d'ella. O baro, porm, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactido do velho D. Jos da Silveira. Se elle a achou (argumentava o baro, e com razo) que essa cova est situada de tal sorte, to saliente e to visivel, que no pde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de quem fr trepando a serra. --Ainda a encontramos, e antes do sol posto! affirmou elle com um grande gesto de esperana. --Se a no encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier sobre ns, assim desabrigados, o fim da nossa aventura. Em todo o caso, real ou metaphoricamente, _ a cova_! Durante dez ou doze minutos arrastmos os passos n'um silencio mortal. Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de couro muito apertado, arrochado em volta da cinta para encolher a fome. Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei n'elle que parra, e que me agarrou pelo brao: --Macumazan, acol! exclamou surdamente, apontando com o cajado. O que elle apontava era a linha abrupta onde comeava, subindo, a primeira encosta do bico do peito. E ahi na brancura da neve destacava uma mancha preta. -- a caverna! exclamou Umbopa. Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d'um buraco. Para l endireitmos os passos. E na realidade encontrmos uma gruta, de entrada baixa e lbrega, que bem podia ser a que o velho D. Jos da Silveira marcra no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E bemdito era o seu encontro--porque (como succede n'estas latitudes) o sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d'elle, de golpe, sem crepusculo, sem gradao, a noite cahiu, gelada e negra. Enfimos bem depressa para dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegmo-nos uns contra os outros, sentados no cho, costas com costas. E alli ficmos na treva, mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria. Mas o frio, intenso de mais, no nos consentia dormir. Estou convencido que n'aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome! Pois alli estivemos em monto, encolhidos uns nos outros, durante a infindavel noite, sentindo a cada instante, atravs do corpo, comeos de congelao ora n'um p, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos apertavamos! Para qu! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar carcassa alheia. s vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas para acordar logo em sobresalto, recomear a tremer. De resto, n'aquellas condies, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo por um violentissimo e teimosissimo esforo da vontade. Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se tivesse adormecido. As costas d'elle pousavam contra as minhas costas. Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes as repelli. Duas vezes a _pedra_ se abateu sobre mim, mais fria. O ar no emtanto clareava. entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa luminosa, feita da refraco do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando ento para traz descobri que o pobre Hottentote estava _morto_! Decerto morrera quando o ouvi suspirar. Pobre Venvogel! No admirava que lhe tivesse sentido as costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findra. Alli estava agora, na mesma postura, com as mos apertadas em torno dos joelhos, a cabea cahida para baixo, _gelado_. Todos nos erguemos de salto, com horror. J a esse tempo o dia penetrra na caverna, n'uma luz mortia e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a cabea, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que no tinha mais de quatro metros, uma frma, uma figura humana, sentada n'uma pedra, com a cabea toda descahida sobre o peito, os braos hirtos e pendentes para o cho! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um _morto_. Peor ainda, percebi que era um _branco_! Os nossos nervos, desorganisados j, no puderam com esta nova e brusca emoo. Tropeando uns nos outros, largmos desesperadamente a fugir para fra da caverna. * * * * * Mas depois, fra, na plena luz, olhmos uns para os outros--envergonhados. --Vou vr outra vez, exclamou o baro terrivelmente pallido. Talvez a figura que vimos seja a de meu irmo. Era possivel. E um por um, n'um silencio apavorado, atraz do baro, tornmos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. Avanmos para ella. O baro ajoelhou, espreitou a face morta, teve um suspiro de allivio: --No, graas a Deus, no elle! Fui tambem olhar. No, nem remotamente se parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrra em Bamanguato. O cadaver era o d'um homem alto, de meia idade, com feies aquilinas, cabello j grisalho, e longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda esticada sobre os ossos. No tinha fato, a no ser uns restos de meias altas, de l, at aos joelhos. Do pescoo, preso por uma correntesinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham petrificado. --Quem poder ser? murmurei, assombrado. O capito John contemplava a figura pensativamente. --Tenho uma ida... No pde ser seno elle! o velho fidalgo! D. Jos da Silveira! Eu e o baro soltmos o mesmo grito de incredulidade: --Impossivel! Ha trezentos annos! Mas o capito tinha as suas razes, e decisivas. N'uma temperatura como a da cova, que a d'uma geleira, um corpo morto pde perfeitamente conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de sol entrra jmais n'aquella cova voltada para noroeste: no havia animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam tres seculos? A carne de aougue que vem da Nova-Zelandia para Londres dentro das geleiras artificiaes est fresca ao fim de trinta dias; e conservada em iguaes condies, no se deterioraria ao fim de trinta seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o encontrou morto, tirou-lhe o fato, no se deu ao trabalho de o enterrar, e abalou... --E olhai! accrescentou o capito apanhando uma especie de osso da frma d'um lapis, e aguado, que jazia no cho, ao lado. Aqui est com que elle desenhou o mappa! Tirou sangue do brao, escreveu com esta ponta de osso! Passmos o osso de mo em mo, em silencio, esquecendo as nossas proprias miserias no espanto d'aquelle encontro. J no podia haver duvida. Alli estava elle pois, sentado n'uma pedra, frio e duro como ella, o homem cujo derradeiro escripto, traado havia mais de trezentos annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue riscava o roteiro que d'alm-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha! Alli tinha eu na mo a rude penna com que elle trara essas linhas! E parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira; a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente lanadas; a penna informe escorregando-lhe da mo; a treva da noite enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento dado ainda aos seus, terra d'onde partira n'um galeo, ao Rei que servia com indomada f; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para a morte, n'aquelle immenso silencio e na immensa solido! Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e energicas feies do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera nos braos. Talvez imaginao. Em todo o caso _elle_ alli estava, o primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallra, estendendo os olhos j embaciados para os distantes seios de Sab. Alli estava; e provavelmente l est ainda, l estar, atravs dos seculos que ho de vir, para espantar outros aventurosos homens como ns, se jmais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria tumba! --Vamos embora! exclamou o baro, muito pallido. Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficra na mesma postura, com os joelhos bca, os braos apertados em volta dos joelhos: --Dmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n'este esquecimento. Erguemos ento o cadaver de Venvogel e collocmol-o sentado na pedra, junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o baro quebrou a corrente que pendia do pescoo de D. Jos da Silveira, e guardou o crucifixo no seio. Eu proprio tomei o osso em frma de lapis. Aqui o tenho ao meu lado, emquanto estas linhas escrevo. s vezes assigno com elle o meu nome. Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d'outras eras e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retommos em fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como elles, gelados e hirtos, n'um barranco da serra. Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegmos emfim extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o bico do peito. E foi uma grande emoo. Por baixo de ns, adiante de ns, estava (devia estar) emfim essa regio mysteriosa para alm das serras, que ns vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficmos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistmos ento um pendor da serra, muito dce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo atravs, e beira d'agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes. A nossa alegria--foi como a d'uma resurreio. Caa! Alli estava caa para comer, e deliciosa! Era a salvao, era a vida! A difficuldade era caar--essa caa!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroo tivemos uma rapida e atarantada discusso, em voz baixa e tremula--se deviamos aproximar-nos da caa ou fazer fogo d'alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a Express! Indeciso terrivel--porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina Express, apesar d'um alcance inferior, era preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam _algum_ dos antilopes. Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrmos de puro gozo. Estavamos salvos! salvos! De fome j no morriamos! Corremos aos trambulhes pela neve abaixo:--e em poucos momentos tinhamos nas mos os figados e o corao do animal, quentes e fumegando! Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caa? --Gente faminta no tem exigencias! gritou excitadamente o capito John. A ella, e cra! No restava outra soluo--e no nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavmol-as na agua corrente--e devormol-as com voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne cra me soube divinamente! D'ahi a um quarto de hora, que mudana! Voltra-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim _sentia_ positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias! O baro apertou as mos, e disse simplesmente: --Louvado seja Deus por isto! Ficmos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n'um sorriso mudo. E no havia em ns outra sensao--seno a de estarmos salvos, de estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dcemente no sol, que subia macio e tepido. Quando acordmos, e esfregmos os olhos, o nevoeiro desapparecera. Toda a vasta regio em baixo nos appareceu n'um relance. Demos um grande _ah_, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e da fome passada, parecia-me que morrera, que chegra ao Paraiso, e que o Senhor nos ia apparecer! Estavamos no planalto d'um dos Seios de Sab, com um dos bicos do peito erguendo-se por traz de ns at s nuvens, sublime e brilhante de neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n'uma profundidade de cinco mil ps; e para alm das derradeiras faldas, a perder de vista, eram leguas e leguas d'uma terra esplendidamente fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante ns como um immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim abrangidos n'um relance, davam a impresso d'um paraiso resumido onde Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente se pde detalhar uma paizagem to formosa e vria. Aqui alastrava-se uma vasta mancha de floresta; alm um rio ondulava com vivos brilhos d'ao novo; para diante longas pradarias tapetavam o slo de verde tenro e claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensao prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava illimitadamente a alegria do seu fulgor d'ouro. Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella regio to rica estivesse pelo menos cinco mil ps acima do nivel do deserto. E depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado opposto ao serto, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no horisonte azulado. Nenhum de ns fallava, arrobados na contemplao d'aquella incomparavel natureza. Por fim o baro estendeu o brao: --Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomo, no verdade? Pois l est, alm, para a direita... E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo dos nossos ps, branquejava uma grande estrada! Tinhamos j perdido toda a faculdade de admirar. E a nenhum de ns pareceu estranho, que, no topo d'uma montanha, no centro d'Africa, a centos de leguas de toda a sciencia e civilisao, houvesse uma estrada, com as propores e grandeza d'uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os abysmos. --O melhor descermos, disse simplesmente o capito John. A estrada ficava (como disse) nossa direita, surgindo por traz de grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortmos para l, devagar, ora atravs de grandes espaos de neve, ora por sobre montes de lava. Quando dobrmos por fim as penedias, avistmol-a de repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia comear alli, ao meio da serra, bruscamente. Continumos a descida alvoroados, pozemos emfim os ps sobre as suas fortes lages. Olhmos, explormos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra, entre umas rochas de lava entremeadas de neve! --Extraordinario! exclamou o baro. Porque comea esta estrada assim, ou porque acaba assim, de repente, no meio da serra? Abanei a cabea, em perfeita ignorancia. --Parece-me que percebo, disse o capito coando o queixo. Esta estrada simplesmente maravilhosa! No acaba aqui. Antigamente galgava a cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para alm, foi coberta por montes de lava, n'alguma erupo: e a parte que cortava o deserto foi invadida pelas areias movedias. No pde ser seno isto. Talvez fosse. Em todo o caso largmos os passos por sobre essa surprehendente estrada que tinha o nome de Salomo. Esta suave descida por uma magnifica calada, com as foras restauradas, e a abundancia a esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e com a afflictiva incerteza do que estaria para alm. Na verdade, se no fosse a triste lembrana do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle espectralmente ficra ao lado do velho fidalgo d'outras eras, poderiamos cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se tornava mais macio e tepido:--e a regio em torno parecia crescer para ns, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era positivamente portentosa. Affirmava o baro que tinha semelhanas com a estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim no vira maravilha maior! N'um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d'uns trezentos ps de largura, d'uma profundidade de mais de cem ps: pois este abysmo estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurana. N'outros sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios, com parapeitos que a defendiam e formavam balces sobre o abysmo. Mais adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas. Nas paredes d'este tunnel corriam singulares relevos representando guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanas em confuso, e captivos acorrentados. --Tudo isto obra egypcia, dizia o baro parando a cada instante. Tudo isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada vir de Salomo. Mas estas esculpturas so das mos de egypcios. Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha at s faldas baixas onde comeava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos silvestres. Depois a estrada penetrava n'um bosque de olmos, uns olmos cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha s existirem no Cabo. --Estamos ao menos em terra de lenha! exclamou enthusiasmado o capito John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim j digeri aquella carne cra... Reentremos solemnemente na civilisao! Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direco a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem depressa fizemos um fogo de ramos sccos; e, cortando succulentos bifes do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de espetos de pau, velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto accendemos os cachimbos--e estirados sombra das frescas arvores, gozamos emfim, depois de to longos e duros dias, um repouso perfeito. O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e alm cresciam tufos de flores. Uma brisa tpida e macia como velludo susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias. Nenhum fallava, no enlevo d'aquella paz e d'aquella doura. E por muito tempo nenhum de ns se moveu--at que o capito John, surgindo de repente n do leito espesso de fetos onde se enterrra, correu para o riacho, e mergulhou n'um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n'um bem-estar indizivel, occupei-me ento a observar aquelle homem admiravel, que, apenas se achava n'uma regio d'ordem, retomava os seus complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se beira do regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta barrela sacudiu, escovou, esticou as calas, o collete, o jaqueto, dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou s botas, que esfregou com uma mo cheia de feto, e depois besuntou com gordura de antilope (que pozera de lado) at lhes dar uma apparencia comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de monoculo fixo e cabea banda, encetou outras e mais delicadas operaes. D'um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba j grossa d'oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a cabea com desconsolao e tdio. Comeou ento pelas unhas que aparou e poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente, com uma ida, calou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com as pernas nas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o espelhinho n'um ramo d'arvore. O arranjo no provou satisfatoriamente, porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o espelho n'uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mo no sacco e tirou uma navalha de barba... Santo Deus! pensei eu erguendo-me no cotovlo, o homem ir fazer a barba? Ia. Tomando outra vez o pedao de gordura de antilope com que ensebra as botas, lavou-a escrupulosamente no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e principiou a rapar o pllo aspero de dez dias. Era porm uma operao difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d'um angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando, de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabea. John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma margem do regato, a distancia d'uns trinta passos, dei com os olhos n'um bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta, e cr de cobre. Alguns d'elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabea umas coras de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente do bando, um rapaz d'uns dezesete annos conservava ainda o brao erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d'uma estatua que eu vira no Cabo, um Ephebo grego que lana um dardo. Evidentemente a _coisa_ que passra e brilhra era um dardo--e fra o moo airoso que o arremessra. Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d'entre o grupo, e, agarrando o brao do rapaz, fallou-lhe baixo como se o avisasse. Em seguida todos avanaram para ns. O baro, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os homens todavia continuavam avanando, devagar, em grupo. Percebi logo que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim tranquillamente os tres canos erguidos. --Baixem as armas! gritei aos outros. Tinha comprehendido tambem que a nossa segurana entre essa gente selvagem dependia toda de conciliao e de ardil. Apenas pois os companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho. --Bem vindo! exclamei em Zul, ao acaso, sem saber que idioma entenderiam aquelles homens. Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, no em Zul, mas n'um outro dialecto, to parecido com o Zul, que Umbopa e eu o percebemos perfeitamente: --Bem vindo! Como viemos a saber depois, a lingua d'este povo era uma frma antiquada da lingua Zul--e estando para o Zul do sul como o inglez do tempo dos Tudores est para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho avanra outro passo, erguendo a mo. --D'onde vindes? continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vs as faces brancas, e o outro a pelle como ns e como os filhos de nossas mes? E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela cr, pelas feies, era muito semelhante quelles homens formidaveis. Eu ento repeti a saudao ao velho. E, muito espaadamente, para que elle apanhasse bem o meu Zul: --Somos gente d'outros sitios, vimos em boa paz, e este homem nosso servo. O velho abanou lentamente a cabea, ornada de immensas plumas negras que ondulavam. --Mentes! A gente d'outros sitios no pde atravessar as montanhas, nem o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas no importa que mintas... Se sois estranhos e vindes d'outros sitios, tendes de morrer, porque no permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes! Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens levarem logo a mo ao cinto d'onde lhes pendiam umas armas em frma de pesadas navalhas. --Que diz esse malandro? perguntou o capito, percebendo o meu embarao. --Diz simplesmente que nos vai retalhar faca. --Santo Deus! murmurou o nosso amigo. E, como era seu costume, em frente d'um perigo ou d'uma crise, passou nervosamente a mo pelo queixo e pelos beios. Alguma coisa decerto lhe succedeu ento dentadura postia (que momentos antes tirra para lavar e que tornra a pr), porque n'um relance lhe vi os dentes todos de fra, e logo sumidos para dentro! No percebi bem o caso. Mas qual o meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para traz, em tropel! --Que foi? exclamei. --Foram os dentes! acudiu o baro, excitadamente. Os selvagens viram-lhe os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez os assustes. O capito promptamente comprehendeu, passou a mo devagar por sobre a bca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n'uma ancia de curiosidade, avanavam de novo, com os olhos arregalados para John. E foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mo, com solemnidade: --Quem este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas nas, cabello s em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem elle que faz mexer assim vontade os dentes para dentro e para fra da bca? --Abra a bca, John! murmurei eu baixo para o capito. John arreganhou os beios, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas, desdentadas como as d'um recemnascido. Entre os selvagens passou um susurro d'espanto. --Onde esto os dentes? Ainda agora tinha dentes! exclamavam elles, entre si, com gestos apavorados. Ento John deu um movimento vagaroso cabea, passou a mo pela bca com soberana indifferena, e desfranzindo de novo os beios--mostrou duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sos, que rebrilhavam. No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o cho, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mos, n'um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e to encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro. S quem conhece selvagens e a mobilidade d'aquellas imaginaes infantis pde comprehender como subitamente, em cada um d'elles, ao desejo de nos matar ia j succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou a levantar a voz, foi muito humildemente e n'uma postura de supplica: --Vs sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca houve homem nascido de mulher que tivesse s cabello n'um lado da cara, e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente crescem outra vez... Vs sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores, perdoai-nos! Aproveitei logo esta esplendida occasio. E estendendo o brao, com soberba magnanimidade: --Estaes perdoados. Era porm necessario, para nossa salvao, que deslumbrassemos e inteiramente nos apoderassemos d'aquellas almas ferozes e simples. E para isso, n'Africa (como n'outras partes) o mais prompto instrumento o sobrenatural. No hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto, com o negro da Africa Central, que _pela primeira vez_ v o branco, e assiste a alguns dos _milagres_ que o branco pde realisar com os pequenos recursos da sua pequena civilisao, este procedimento o mais seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e assim, poupando ao negro as traies, os brancos poupam a si proprios as represalias. Ergui pois a mo, e disse, com vagar e magestade: --J que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos alm, por cima das nuvens, n'uma d'aquellas estrellas que vs vdes de noite brilhar. E viemos visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos! Entre os indigenas correram grandes _ah_! _ah_! lentos e maravilhados. Eu prosegui, mais grave: --Ns conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conheo todas as linguas. --A nossa bem mal! arriscou com timidez o velho guerreiro. Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma diverso brusca quella observao to justa e perigosa: --Viemos em paz, certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez devessemos castigar j o ultraje feito por esse moo, que sem provocao atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e cahem. --Oh no! meu senhor! gritou n'uma anciosa supplica o velho guerreiro. Poupai-o! Poupai-o, que o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o ajudei a crear. S eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos! Affectei no comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior indifferena: --As nossas maneiras de castigar so simples e terriveis. N'um instante ides vr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa), d-me a arma de feitios que troveja. Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas affirmaes de divindade, e que (Zul intelligente, afeito aos brancos e s _suas manhas_) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina Winchester, com humilissima reverencia. Justamente n'esse instante avistei, para alm do riacho, a umas setenta jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um monto de rochas. --Vdes aquelle gamo? exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d'aqui d'onde estou, s com fazer estalar um pequeno trovo? --No possivel! murmurou recuando o velho guerreiro. No possivel para homem nascido do ventre da mulher! --Ides vr. Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou morto, immovel, estatelado nas pedras. Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu accrescentei simplesmente: --Ahi est. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo! O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caa. E amontoados em volta d'ella, todos em silencio (n'um silencio que era religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o buraco da bala que lhe acertra entre os hombros. --Se no estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d'um gamo me quereis vr matar um homem, que um de vs se colloque alm sobre as pedras ou mais longe, e o raio ir ter com elle. Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando. --No! No! gritaram alguns. Acreditmos, acreditmos... No vale a pena gastar feitios com ns outros, que acreditmos e que somos amigos! O velho guerreiro interveio, com alacridade: --Assim ! Ns somos amigos. E para que nos conheaes bem, oh almas das estrellas, que trovejaes e mataes to de longe, sabei que eu sou Infands, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moo Scragga, filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada, sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, Tuala o d'um-s-olho... --Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos ento ao rei Tuala. Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, ns s fallamos a reis! --Certamente, meu senhor, certamente... Mas ns andavamos caando n'estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. So tres dias que tendes de caminhar. --Caminharemos. Escuta tu, porm, Infands, e tu, Scragga, filho de Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traio, ou se essa ida vos atravessar sequer a cabea, ns, que tudo adivinhmos, tomaremos de vs tal vingana que far ainda estremecer os filhos de vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vo e vm, incendiar todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e despedaar todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E ns faremos resoar os canos que trovejam d'uma maneira que ser pavorosa! Toda a agua seccar. Todo o gado morrer. E os espiritos maus viro, nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho. Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda assim o velho Infands saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais servil, repetindo tres vezes estas palavras: _Krum_! _Krum_! _Krum_! Como depois soubemos, esta a maneira kakuana de saudar o rei. Corresponde ao _Bayte_! dos Zuls. Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram s costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes voltas e com olhares de terror. Um d'elles lanou mo ao fato do capito John, ainda cuidadosamente dobrado beira d'agua. O excellente John deu logo um pulo para as calas. E rompeu ento uma immensa altercao. --No, meu senhor, gritava Infands, no consentirei que o meu senhor carregue com essas coisas! --Mas que eu quero pr as calas! berrava John. --Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar... --Mas as calas... --Meu senhor!... --Larga as calas, malandro! Tive de intervir, suffocado de riso. --Escute, John. O caso mais serio do que parece. Um dos motivos do terror que estamos inspirando a sua luneta, a sua cara meia barbada e meia rapada, os seus dentes postios, e essas pernas brancas mostra... Tudo isso espanta as imaginaes de selvagens. E se o amigo quer que no nos percam o medo, necessario continuar a apparecer-lhes n'essa figura. Se o amigo lhes surgir manh d'outro modo, tomam-nos por impostores, e a nossa vida no vale mais um pataco. Assim o viram n'esta terra, assim n'ella tem de ficar. John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o baro: --O amigo Quartelmar tem razo, affirmou o baro. E d graas a Deus que j estavas de botas, e que a temperatura to dce. John teve um suspiro de furiosa resignao. E, durante a nossa estada na terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou notaveis feitos--de botas, de pernas nas, com uma metade da cara rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento! CAPITULO VI PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas bagagens. Ns iamos no meio, entre Infands e Scragga. Pouco a pouco, Infands e eu descahimos n'uma palestra familiar e amigavel. O velho era esperto e loquaz. --Quem fez esta estrada, Infands? --Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido atravs de geraes... J ninguem pde fazer estradas assim... Mas o rei no consente que se desmanche, nem que lhe cresa a herva por cima. --E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infands? --A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que esto para alm (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para baixo no puderam seguir, segundo diziam nossos avs, que o disseram a nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. No puderam por causa das altas montanhas que esto em redor, e do deserto onde tudo morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e to fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus regimentos, o cho treme todo com o seu peso, e at onde a vista alcana s se vem plumas de guerreiros e lanas. --Mas se a terra est murada de montanhas, e se no tendes visinhos, para que so tantos soldados? --A terra est aberta para alm (e indicava o Norte). E s vezes descem de l multides, que no sabemos quem so, e que ns destruimos. J correu a tera parte d'uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre ns, irmo contra irmo. --Como foi isso, Infands? Infands comeou ento uma d'essas historias de pretendentes e de guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d'elle, Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da primeira mulher (elle, Infands, era filho d'uma concubina) dois gemeos. Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja sempre destruido. Mas a me, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo n'uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava Imot, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passra a guerra com os povos do Norte: os campos no tinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande miseria e dr entre o povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para despedaar. Foi ento que Gagula, a mulher que tudo sabe e que no morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imot reinava sem ser rei. Imot a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma ferida. Comeou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a me tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis so marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabea e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: Eis o vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora! O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, largou a bradar: Este o rei! Este o rei! Alguns sabiam bem que no--e que n'este s havia impostura. Mas n'esse momento, ouvindo os alaridos, o rei Imot sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e porque pediam elles o rei! Immediatamente Tuala, o irmo, corre para elle e crava-lhe uma faca no corao! E o povo, que as aces decididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: Tuala rei! Tuala provou que rei! Diante d'isto a pobre mulher de Imot agarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n'uma aringa, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais voltou. --De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, que Tuala no o verdadeiro rei. O velho respondeu com prudencia: --Tuala, o grande, rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, s esse tinha o legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta. O rei elle. Smente decerto ha muito que Ignosi morreu... Casualmente n'esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os calcanhares, absorto n'aquella historia de Imot e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a expresso de quem de repente lembra coisas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras. N'essa occasio permaneci indifferente. Mas, depois, atravs da jornada, muitas vezes pensei n'aquella anciosa, esgazeada curiosidade do Zul. * * * * * No emtanto j trilharamos algumas fortes milhas d'estrada. As montanhas de Sab ficavam para traz envoltas nos seus mysticos vos de nevoa. E o paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico. Ao comeo da tarde avistmos emfim uma grande povoao,--que, segundo Infands nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma vasta guarnio. O velho guerreiro mandra mensageiros adiante, correndo, n'um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos aproximmos da alda, descobrimos com effeito, sahindo das portas e marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados. O baro tocou-me no brao, com um receio que as coisas se apresentassem desagradavelmente. Infands decerto comprehendeu, pelo tom, pelo franzir de sobrancelhas do baro, o sobresalto que o tomra (e a mim), porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia: --Que os meus senhores no suspeitem de mim! Aquelle um dos regimentos que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos que vm do mundo das estrellas... Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferena. Realmente estava bem inquieto! A povoao ficava direita da estrada, separada d'ella por um declive de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formra em parada. Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercmos, podmos vr com admirao e assombro, de que esplendida, de que formidavel raa eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis ps d'altura; e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes, prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a cabea todos traziam a cora d'altas e pesadas plumas negras, sempre tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saio feito de rabos de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no brao esquerdo sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante dos Zuls--e tres facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que elles chamam _tollas_ e que arremessam a distancias de cincoenta jardas e mais, com uma certeza terrivel. As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas, medida que iamos passando em frente d'ellas, cada official (que se distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudao real, a grande voz: krum! krum! krum! Assim penetrmos na povoao ao rumor de acclamaes. A alda devia ter uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por uma alta estacada feita de troncos d'arvores. Na porta central, do lado da estrada, havia uma ponte levadia. Parecia uma alda admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores, corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais estreitas, formando sries de quarteires, cada um dos quaes alojava uma companhia. As cubatas, redondas, feitas d'uma grossa verga entrelaada, findavam maneira das dos Zuls por tectos de colmo em frma de zimborio agudo: mas, differentes n'isto das dos Zuls, tinham uma porta, larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo cho de cal dura rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres, que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella raa de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello mais ondeado que encarapinhado, as feies por vezes aquilinas, e os beios sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vrem-nos desfilar, to estranhos e differentes de todos os homens que at ahi tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma exclamao: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as pernas niveas do pobre amigo, que, rodo de vergonha, praguejava baixo. Quando chegmos ao centro da alda, Infands parou em frente d'uma espaosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo. E com palavras grandiosas, maneira dos Zuls, offereceu-nos a hospitalidade: --Aqui habitareis, meus senhores. E no tereis de apertar o ventre com fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns carneiros. No muito, oh Espiritos! Mas dado por coraes, que se regosijam de vos vr. --Bem, bem, Infands, murmurei eu. O que precisamos sobretudo descanar, fatigados da nossa descida atravs dos espaos e dos reinos do ar... A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no cho, grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. D'ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu porta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou. Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou a cozer a carne n'uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira accesa porta da cubata: e ns mandamos convidar Infands e Scragga para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer, se no encruzavam no cho maneira dos Zuls--mas se sentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados s paredes. O jantar foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doura e respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para ns, e para cada um dos nossos gestos, com singular desconfiana. Talvez, ao vr que ns comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, comeava a suspeitar da nossa origem divina. No me agradou este sentimento, to real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquellas turbas negras, seno o terror supersticioso? Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos d'espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zuls, a planta do tabaco cresce em abundancia--mas elles s a sabem usar torrada e scca, pulverisada. S conhecem o rap. No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infands j tudo organisra para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava ento na sua grande cidade de L, preparando-se para a revista de tropas, a dana das flores, e caa aos feiticeiros, que constituem a maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana de junho. E segundo affirmava Infands, ns deviamos (a no ser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de L ao fim de dois dias de marcha. Depois, como comeavam a luzir as estrellas e a alda ia cahindo em silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de ns atiraram-se logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as traies. Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura. CAPITULO VII O REI TUALA No me dilatarei nos incidentes da nossa jornada at L--que nem foram consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhmos a estrada de Salomo, por entre ricas terras cultivadas, e alegres povoaes que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada instante passavam por ns troos de gente armada, regimentos emplumados marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No segundo dia, ao pr do sol, parmos n'uma collina, que a estrada galgava por entre dois renques d'arvores em flr:--e em baixo, n'uma planicie deliciosamente fertil, avistmos emfim L, a capital dos Kakuanas. Para cidade d'Africa era enorme,--com seis milhas talvez de circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas, erguia-se uma collina, que offerecia a frma singular d'uma ferradura: e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie, em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve. --A estrada (explicou Infands, vendo que contemplavamos com estranheza os tres montes) acaba alm n'essas serras, que se chamam as _Tres Feiticeiras_. --E porque acaba alm, Infands? --Quem sabe! murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas esto todas furadas por cavernas. Ha no meio d'ellas uma cova immensa. l que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os homens antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas... --Que coisas, Infands? exclamei eu, cravando n'elle um olhar que o sondava. O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro: --Os Espiritos que vm das estrellas sabem decerto mais do que um Kakuana... --Com effeito! acudi eu, n'um tom sciente e profundo. E por isso te posso dizer, Infands, que esses homens antigamente vinham procurar um ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam. --Talvez fosse, talvez fosse! balbuciou Infands, embaraado, afastando-se bruscamente para lanar uma ordem aos carregadores da bagagem. --Acol, disse eu aos companheiros mostrando as _Tres Feiticeiras_, esto as minas de Salomo! Todos tres, commovidos, ficmos a olhar aquelles montes to proximos, onde jaziam ainda talvez (se o velho D. Jos da Silveira contra a verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento chegra a nossa aventura! De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite cahiu, sem transio, visivelmente, como uma coisa tangivel. N'aquellas latitudes no ha crepusculo. A luz acaba como a chamma d'um bico de gaz que se fecha: e, n'um instante, a terra toda fica envolta n'uma cortina de treva. N'essa occasio porm, durou pouco a escurido, porque bem cedo a mais larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente ao co, derramando uma to sublime refulgencia, to divinamente serena, que, sem saber porqu, cada um de ns tirou o chapo, como n'um templo, ante uma imagem sagrada. Infands, porm, quebrou a nossa contemplao, dando o signal de descer para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia infindavel atravs da planicie. E d'ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadia, entre piquetes de sentinellas a quem Infands deu baixo o _santo e senha_, seguiamos calados pela rua central de L, toda ladeada de sombras d'arvores e de senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos grade d'um pateo redondo, com o cho muito batido e duro, todo caiado de branco. Em volta erguiam-se cubatas espaosas, cobertas de colmo. Eram alli (segundo declarou Infands) os nossos humildes pousos. Cada um de ns tinha, s para si, uma cubata. Havia dentro um grande asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxerges de herva aromatica. Uma esteira tapetava o slo. Tripeas pintadas alternavam com frescas vasilhas d'agua. No podiamos esperar mais cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavmos, sacudimos o p, appareceu logo um bando de raparigas, das mais bellas que at ahi encontraramos no paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos de madeira. Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas (precauo que encheu de riso as raparigas),--e no tardamos em adormecer com grata tranquillidade. Acordmos quando o sol ia nado--e a primeira e aprazivel impresso que recebemos foi a do bando das raparigas, acocoradas no cho, a um canto, espera que despertassemos para nos ajudar a lavar e a vestir. Quando uma d'ellas, a mais alta (e que figura! que braos!) fez esta amavel offerta, o capito John teve uma exclamao, um gesto d'atroz desespero: --Vestir! bom de dizer! Quando uma pessoa no tem seno uma camisa e um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi por essa cidade... No! isto no pde continuar! Eu no arredo p d'aqui da cubata, seno de calas! Quero as calas! Vi o meu amigo to decidido, que reclamei as calas. Mas uma das raparigas voltou d'ahi a momentos declarando que essas sagradas e maravilhosas reliquias tinham sido j mandadas ao rei! O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a face direita; porque na esquerda no consentimos ns que elle eliminasse um s pllo farta suissa que j lhe crescra. Aquella cara espantosa, rapada d'um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raa sobrenatural. Todos ns, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os cabellos do baro, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora at aos hombros, n'uma juba rude, que lhe dava o ar d'um barbaro dos tempos do rei Olloff. O almoo j esperava, fra, no terreiro, em caoulas que fumegavam. Mas, primeiramente, quizemos tomar o nosso _tub_, atirar pelas costas alguns frios baldes d'agua. E o assombro, a desconsolao das raparigas foi consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando a porta de vime... Logo depois do almoo, Infands appareceu annunciando que el-rei Tuala nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio. Declarei immediatamente, com indifferena e altivez, que ainda nos achavamos canados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc. Convm sempre, tratando com potentados negros, no mostrar pressa nem respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que, apesar da nossa anciedade em vr o terrivel Tuala, retardmos nas cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos presentes que destinavamos ao rei e crte: a espingarda do pobre Venvogel, um bocado de sda, alguns fios de contas de vidro. Afinal partimos, guiados por Infands--e seguidos por Umbopa que levava as dadivas. * * * * * Ao fim d'um curto kilometro, chegmos a um immenso terreiro, com o cho duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma estacada baixa. Em redor, fra da estacada, corria uma fileira de cubatas, que (segundo nos informou Infands) pertenciam s mulheres do rei: e ao fundo, fronteira porta por onde entraramos, estendia-se uma construco, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de colmo, que era o palacio real. No recinto no crescia uma arvore: e todo elle estava n'esse dia cheio de regimentos em frma, perfilados, immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os escudos brancos, as lanas a rebrilhar. Em frente cubata real ficava um espao vasio, com uns poucos de escabellos de madeira. A convite do bom Infands occupmos tres d'esses assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de p: e assim ficmos espera, no meio d'um silencio absoluto, sentindo cravados sobre ns oito mil pares d'olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e surgiu d'ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles de tigre lanado sobre o hombro, e uma azagaia na mo. Atraz d'elle vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeas de pau. Scragga permaneceu de p, por traz, apoiado lana. A velha macaca arrastou-se para a sombra que lanava a cubata real, e alli se acocorou lentamente. O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo. Ento a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se, offerecendo s vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica! Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda s vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beios muito grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente brilhante, d'um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saio d'uniforme, feito de rabos brancos de boi. Ao pescoo trazia uma gargalheira d'ouro: e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no ar, um tufo esplendido de plumas d'abestruz. O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d'aquella presena assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser Tuala, o rei) levantou a lana no ar. Oito mil lanas faiscaram ao sol. E de oito mil peitos rompeu, atroando o co, a grande acclamao real:--_Krum_! _Krum_! _Krum_! Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula, horripilante, e que parecia vir da macaca agachada sombra: --Treme e adora, oh povo! o rei! E oito mil peitos de novo atroaram o co, bradando: -- o rei! o rei! Treme e adora, oh povo! E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixra cahir o escudo. Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira: --Avana tu! berrou, n'um tom trovejante. Um soberbo rapago sahiu da fileira, ficou perfilado. --Co infernal! rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo? Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vm das estrellas! --Foi sem querer, oh mestre das artes negras! acudiu o rapaz cuja pelle fusca parecia empallidecer. --Pois, tambem sem querer, vaes morrer! O soldado baixou a cabea e murmurou simplesmente: --Eu sou a rez do rei! --Scragga! bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lana. Vara-me aquelle co! O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e levantou o dardo. O desgraado tapou a face, e esperou, immovel. Ns nem respiravamos, petrificados. Um, dois, tres! Scragga soltou a lana. O soldado atirou os braos ao ar, cahiu morto. D'entre os regimentos subiu ento um longo murmurio que rolou, ondulou, se esvaiu por fim no silencio. O baro, livido de indignao, agarrra a espingarda das mos d'Umbopa. E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas estavam merc do rei, e que eramos quatro contra todo um reino. Tuala, no emtanto, sorria sinistramente: --O golpe foi bom. Arrastem para fra o co morto. Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo. E ento a mesma voz esganiada, sibilante, horrivel (que evidentemente era da macaca) cortou o ar: --A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora, oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita, a vontade foi feita! Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de loua, e, atirando d'elle cal s mos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala permanecia immovel, como um idolo. Por fim, lentamente, voltou para ns a face medonha. --Gente branca! disse elle. Gente branca, que vindes no sei d'onde, nem sei a qu, sde bemvinda! --Bem estejas, rei dos Kakuanas! respondi eu, com dignidade. Houve um silencio, atravs do qual ficamos immoveis, sentados, com os olhos cravados no monstro. --Gente branca, volveu elle, que vindes vs procurar aqui? --Vimos do mundo das estrellas, oh rei! No indagues como, nem para qu. So coisas muito altas para ti, Tuala. O rei franziu a face, d'um modo inquietador: --Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... No esqueaes que as estrellas esto longe e a minha vontade est perto... Pde bem ser que saiaes d'aqui como aquelle que agora levaram. Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaa. Comecei por lanar uma risada, muito cantada (e na verdade muito forada): --Oh rei, tem cautela! No caminhes sobre brazas que pdes escaldar os ps! Toca n'um s dos nossos cabellos e a tua destruio est certa. No te disseram estes (e apontei para Infands e para Scragga), que especie de homens ns somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como ns, entre os filhos dos homens? --Nunca vi, murmurou elle. --No te contaram esses como ns damos a morte de longe, atravs d'um trovo? --No creio! exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me primeiro, vs mesmos, a vossa arte. Matai um d'esses homens que esto alm (apontava uma companhia de soldados magnificos junto porta da aringa) e eu prometto acreditar! Repliquei que no derramavamos nunca sangue de homem, seno em justo castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, atravs dos soldados, e antes d'elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre. O rei rompeu a rir. --Um boi! Um boi!... No, matai um homem para eu acreditar! --Perfeitamente! exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei, caminha atravs do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa rolars morto no cho. Ou, se no queres ir tu mesmo, manda teu filho Scragga. A isto, Scragga deu um grito, lanou um pulo, e fugiu para dentro da aringa real. Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, sua escolha--Tuala ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em ns, ora no cho. Depois, n'um tom surdo: --Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo! Dois homens, immediatamente, largaram correndo. --Baro, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. No quero que imaginem que s eu sei fazer as maravilhas. O baro tomou a carabina Express, e esperou, no fundo silencio que se alargra. Por fim, porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multido, o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu. --Agora! gritei ao baro, vendo a vacca de lado e em bom alvo. Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no corao. De toda a enorme soldadesca se exhalou um murmurio de admirao e terror. --Ento menti, rei Tuala? exclamei eu, fitando o monstro com altivez. --No, verdade, rosnou elle. Baixra o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana confiana: --Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence. Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a estilhaos. Escuta! Manda cravar alm no cho, com a ponta do ferro voltada para cima, essa lana que tens na mo, a tua propria lana, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei! Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no cho, ao fundo da aringa, a lana real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol. --Bem, disse eu. Agora v em que estilhas vai ficar a tua lana invencivel. Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lana e separou-a em bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou atravs do terreiro. Dei ento um passo para o rei, com a carabina na mo. --Tuala, este tubo magico que troveja e destroe um presente que te fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traio em ti, esse proprio tubo se voltar contra o teu peito, e sers como a vacca morta ou como a lana partida. Aqui tens. E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiana, com uma scca antipathia, e pl-a no cho, aos ps, devagar. N'esse instante aquella figura estranha que o acompanhra, e que me parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites conhecidos da vida humana. A face que voltou para ns estava reduzida ao tamanho d'uma facesinha de creana, d'uma creana d'um anno, toda em rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem entalhadas em marfim. A bca j se no via, de sumida, entre o queixo sahido para fra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida, com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabea de facto pareceria a d'um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes no refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d'aquelle semblante estava no craneo, todo n, pellado, liso como uma bola, e a que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem o capello. No se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror. Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois estendeu lentamente um brao descarnado, a mo scca de Parca, verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e comeou, n'uma voz silvante que regelava: --Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, cos, coisas vivas e coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro de mim e eu vou prophetisar! As syllabas findaram n'um uivo longo e triste. Toda a multido que enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na Africa os esgares e as declamaes das feiticeiras, senti no sei que peso no corao. A velha era decerto terrifica. --_Som de passos, som de passos que vem_! proseguiu ella, com a garra tremula no ar. So os passos da gente branca que vem de longe! a terra que treme sob os passos dos brancos. _Cheiro a sangue, cheiro a sangue_! So rios de sangue que vo correr. Eu j os vejo, j os sinto. Toda a terra est vermelha, todo o co fica vermelho! Os lees lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria! Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um grito longo, como uma ululao sepulchral. --Sou velha! velha! velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vr correr muito ainda, e danar de gozo! Que idade pensaes vs que eu tenho? Os vossos paes j me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi muitas coisas. J vi o branco, e sei o desejo que elle tem no corao. Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras nas rochas? No sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui antes de vs virdes, que voltar e vos destruir, e ficar aqui quando vos frdes como a nuvem de p que passou! E de repente, deu um passo, com os dois braos, as duas garras recurvas estendidas para ns: --Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vs? No est aqui. E o que veio, ha muito, ha muito, veio s para morrer. So as pedras que brilham que vs procuraes? Eu conheo o vil desejo do corao do branco. Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas voltareis vs s estrellas, ou ficareis aqui commigo? Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam querer despedaar: --E tu, tu que tens a pelle escura, quem s, que procuras aqui? No as pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te conheo! Oh cos! oh montes! Sers tu?... Eu conheo, eu conheo pelo cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura... Um momento, ficou como esgazeada em face d'Umbopa. E subitamente, batendo os braos no ar, cahiu no cho, como morta. Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braos a feiticeira. Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lanou um gesto:--e uns aps outros os regimentos comearam a desfilar, at que todo o pateo ficou vasio e rebrilhando ao sol. Ento Tuala voltou-se para ns, com a face pavorosamente franzida: --Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Est-me a parecer que vos devo matar. Eu sorri, com superioridade. --Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca? --Oh gentes, vs ameaaes o rei! volveu elle, cerrando os punhos. --No ameao. Digo s que to facil s nossas Artes matar uma vacca como matar um rei. Pensa e treme, Tuala! O enorme bruto levou os dedos testa, reflectindo. --Ide em paz! disse por fim. Esta noite a Grande Dana. Vireis e vereis. No tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E manh decidirei. --Est bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto. E acompanhados por Infands, recolhemos nossa aringa. Quando chegamos s cubatas, depuz n'um escabello o rewolver, e voltando-me para Infands que entrra comnosco: --O teu rei Tuala um monstro, Infands! O velho guerreiro teve um suspiro. --Ai de mim! Toda a nao geme com as suas crueldades, meu senhor! Vereis esta noite. a grande caa aos feitios; vem Gagula e _as suas farejadoras_ farejar, adivinhar quem so, d'entre os guerreiros e o povo, os que meditam ou j commetteram feitios e maleficios. Se o rei appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe torne infiel, Gagula ou uma das _farejadoras_ aponta para esse homem, e o homem logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha vez. At aqui Tuala tem-me poupado em respeito minha experiencia das armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala cruel, a terra toda soffre e est canada d'elle! --Mas, pela luz das estrellas, porque no depondes vs ou mataes essa fra? Infands encolheu os hombros: -- o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o corao mais negro, pesaria sobre ns com mais furor. Se Imot no tivesse sido morto, e se Ignosi, o filhinho d'elle, no tivesse acabado tambem no deserto com a me, ento havia uma esperana no reino! Mas assim... De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance to romanesco, to semelhante aos que se lem nos contos de grande enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata: --E quem te diz a ti que Ignosi morreu? Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa. --Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? gritou Infands que, como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades. Umbopa deu para ns um passo lento: --Escuta, Infands. No verdade que o rei Imot foi morto, e que a mulher e o filho desappareceram? No verdade que correu ento voz de ambos se terem perdido e morrido nas montanhas? Com um gesto, Infands concordou. --Escuta! Nem a me nem o filho morreram. Galgaram as montanhas, atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram ter a um povo dos Amazulus que da raa dos Kakuanas. Escuta ainda! O filho cresceu, a me morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos brancos: trabalhou com as suas mos, meditou dentro do seu corao: e sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou servio com elles, atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de neve, pisou terra dos Kakuanas--e est na tua presena, Infands! E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou n diante de ns, com os braos abertos, gritando: --_Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas_! Infands precipitra-se sobre elle, com os olhos fra das orbitas, a examinar-lhe o ventre onde corria, n'uma tatuagem azul, o desenho d'uma cobra que lhe dava volta cinta e juntava a bca com o rabo logo abaixo do umbigo. Esta tatuagem a marca, o emblema real, que se grava a tinta azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia l estava, certamente irrecusavel, porque Infands cahiu sobre os joelhos, bradando: --_Krum_! _Krum_! o filho de Imot! o rei! o rei! Umbopa acudiu: --Ergue-te, meu tio Infands, que ainda no sou rei! Mas com a tua ajuda, e a d'estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois. Queres pr a tua mo na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o corao de fra? Dize. O velho Infands pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a ajoelhar diante de Ignosi, pz a sua larga mo na mo d'elle, e murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial: --Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mo na tua mo, e at morrer sou teu homem! Ns, de p, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O baro e o capito John s muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu assombro em exclamaes, contemplando Umbopa--quando elle nos interpellou, com um gesto que comeava a ser regio: --E vs, homens brancos de quem comi o po? Quereis vs ajudar-me tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso brao forte. Mas essas pedras brancas que reluzem, e que vs amaes, se, como rei, eu as vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta isto? Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O baro franziu o sobr'olho: --Quartelmar, diga-lhe que um inglez no se vende por diamantes. Mas de graa, porque sempre o achei leal, porque gosto d'elle, e porque me appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa com o pouco que posso, que o meu brao. E tu John? O capito encolheu os hombros: --Que lhe havemos ns de fazer? Alm d'isso homem que no briga enferruja. Em todo o caso ponho uma condio: quero as calas. Communiquei estas adheses a Umbopa--que apertou ardentemente as mos dos meus dois amigos. --E tu, Macumazan, mestre da caa, olho vigilante, mais fino que o bufalo, estars tu tambem por mim? Cocei a cabea, pensativamente: --Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que s; eu no gosto de revolues... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n'esta jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, s ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caador de elephantes e tenho de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os diamantes. Se lhe pudrmos lanar mo, aceito-os, e quantos mais e mais grados melhor! No que eu acredite muito n'elles. Mas, se apparecerem, desde j te prometto que, com licena tua, hei de abarrotar as algibeiras... --Tantos quantos puderes levar! exclamou Umbopa radiante. E j se voltava para Infands, n'aquelle triumphal enthusiasmo de pretendente a quem as adheses affluem--quando eu o interrompi vivamente: --Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Ns viemos, como tu sabes perfeitamente, procura do irmo do Incub (era a alcunha do baro, em Zul). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como rei para nos ajudar a encontral-o... Comea por te informar agora com teu tio Infands. Ignosi pousou os olhos em Infands, com singular magestade: --Meu tio Infands, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve j algum homem branco que, antes d'estes, tivesse vindo terra aos Kakuanas? --Nunca, meu senhor! --E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses? --Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse. O baro deu um longo suspiro. --Bem! Bem! exclamei logo, para lhe no matar de todo a esperana, e cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fr rei teremos ento mais facilidade de procurar o irmo do Incub, at aos confins do reino, e nas terras que esto alm! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu, Ignosi, para recuperar a cora? Porque emfim, meu rapaz, bom ser rei de direito divino, mas... --No tenho plano. E tu, meu tio Infands? Infands pensou um instante, com a barba sobre o peito. --Esta noite, disse elle por fim, a caa aos feitios. Muitos vo morrer, e em muitos outros mais recrescer o odio contra Tuala. Depois da dana, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispr de regimentos. necessario que os chefes te venham vr, Ignosi, se convenam com seus olhos que s o rei. E se elles pozerem as mos nas tuas, manh tens vinte mil lanas para combater por ti. Porque a guerra certa. Depois da dana, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui, para combinar na escurido. Mas a guerra certa! N'este momento houve fra do terreiro um brado, annunciando que se avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d'elles trazendo erguida nas mos uma cta de malha que rebrilhava como prata e uma magnifica acha de batalha. Um arauto que os precedia exclamou, batendo no cho com o conto da lana: --Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vm das estrellas! --Agradecemos ao rei, volvi eu sccamente. Ide! Apenas os homens partiram, examinamos as ctas com grande interesse. Eram maravilhosas, d'uma malha to fina, to cerrada, to elastica e macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mos. Perguntei a Infands se eram fabricadas no paiz. --No, meu senhor, so coisas que existem ha muito, e que herdamos de paes para filhos. J muito poucas restam. S os de sangue real as podem usar. E o rei que as mandou que est muito contente ou que est muito assustado. Em todo o caso no ha ferro que as atravesse, e bom ser, meus senhores, que as useis esta noite na dana. Quando Infands sahiu, ficamos conversando n'este estranho incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n'uma aventura politica. Como notou o baro, fra este decerto, desde a nossa partida de Natal, um dos dias mais ricos de emoes e surprezas. --Extraordinario, disse o capito. Tem de ser registrado no _Livro de Bordo_. Chamava elle _Livro de Bordo_ a um Almanach do anno, com folhas brancas intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa espantosa empreza. --Que dia hoje? perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o joelho. --3 de julho. O baro e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d'ahi a instantes, o capito exclamou com os olhos no almanach: -- curioso! manh, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a Africa! Deve comear s duas e quarenta minutos... Bom terror vo ter os pretos! Escassamente demos atteno quella noticia: e como o capito findra de escrever, preparamo-nos para partir para a grande dana, porque o sol j descia, e j ia fra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente conselho de Infands envergamos as ctas de malha,--que achamos confortaveis e leves. A do baro, homem de forte estatura, vestia-o como uma pellica: a do capito e a minha danavam-nos sobre as costellas com pregas pouco marciaes. A lua surgia, magnificamente clara, quando Infands appareceu, com todas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres cinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos. No terreiro, onde estiveramos de manh, encontramos a mesma formidavel parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto para as farejadoras de feiticeiros (como nos foi explicando Infands). No havia outra luz alm da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras de faiscas nos ferros altos das lanas. D'aquella escura massa d'homens, do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impresso de magestade e tristeza. --Est aqui todo o exercito, murmurei eu para Infands. --Um tero, no mais, meu senhor. Outro tero ficou nas guarnies. E o outro est fra, em torno a palacio, para o caso de sedio, quando comear a matana... --Escuta, Infands! Achas que corremos perigo? --No sei, espero que no... Mas no mostreis medo! E se escaparmos com vida esta noite--quem sabe? Talvez manh Tuala seja como o raio que feriu e se apagou. Iamos no emtanto caminhando, atravs dos regimentos mais immoveis que bronzes, para espao vasio diante da cubata real, onde havia como de manh uma fila de escabellos d'honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com um brilho e ruido d'armas, sahia da aringa real. -- Tuala, disse baixo Infands, e Scragga, e Gagula, e os homens que matam. Os homens que matavam eram uns doze negros gigantescos, de faces hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhes e de azagaias pesadas. --Bemvindos, gentes das estrellas! gritou logo Tuala abatendo-se pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E no percamos o tempo que a noite curta para as grandes coisas que tm de ser feitas. Olhai em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jmais tantos valentes juntos... Mas vde tambem como elles j tremem, os que abrigam maldade no seu corao! --_Comeai_! _comeai_!--ganiu na sua silvante voz Gagula, que se agachra aos ps do rei. As hyenas tm fome de ossos, os abutres tm sede de sangue... _Comeai_! _comeai_! Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente, como um prenuncio de matana e de horror. O rei ento agitou a lana. Immediatamente vinte mil ps se ergueram, e tres vezes, em cadencia, bateram no cho que tremia. Depois, l ao fundo, d'entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando n'este estribilho: --Qual a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer? E os regimentos todos volviam, n'uma unica, grande e rolante voz: --Morrer! Mas pouco a pouco, as companhias, umas aps outras, foram entoando uma estrophe da cano, at que toda a vasta multido armada formava um cro--cro barbaro, rude, informe, onde todavia por vezes distinguiamos como conscientes expresses de sentimentos--notas suaves e lentas de amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de orao. Depois os cantos varios fundiam-se n'um lamento unico, contnuo, ululado, como d'um povo n'um funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lugubre estribilho gemia no ar: --Qual a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer? E de novo a multido clamava n'um unisono desolado: --Morrer! O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as mos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de ps de gazellas: e, d'entre os profundos renques dos soldados, appareceram correndo para ns estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quasi todas velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as costas. Traziam as faces pintadas s listas brancas e vermelhas: dos hombros pendiam-lhe esvoaando, e misturadas s madeixas, longas pelles de serpente: em torno cinta cahiam-lhe como breloques de ossos humanos que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mo uma curta forquilha. Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o cho com as forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braos, gritou: --Me, aqui estamos! --_Bem_, _bem_, ganiu o decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem claros, Isanusis? --Bem claros, oh me! --Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis? --Bem abertos, oh me! --Ide ento! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra o rei, os que devem morrer por ordem de cima! Farejai! vde os pensamentos que se no mostram, ouvi as palavras que se no dizem! Ide, meus lindos abutres! Os homens das estrellas tm fome e sde de vr a grande Justia! _Agora_! Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para todos os lados, atravs das fileiras armadas. No as podiamos seguir a todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a atteno na que ficou junto de ns, uma velha, esgalgado feixe d'ossos, que deitava lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados parou _farejando_. Depois rompeu a danar, girando sobre si mesma, to rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita de estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por entre silvos de alegria:--J o farejo, o homem do mal! Alli est elle, o que envenenou a me! Acol treme o que pensou mal do rei! E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, at que a espuma lhe sahia aos flocos da bca e os ossos lhe rangiam alto! De repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar, devagar, como uma fera que rasteja, avanou de forquilha estendida para a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n'um indominavel terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d'um rapaz soberbamente forte. Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braos, o empurraram para defronte do rei. O desgraado caminhava sem resistencia, inerte, j morto na alma. O bando dos executores avanra a passos graves: --Mata! disse o rei. --Mata! ganiu Gagula. --Mata! rugiu Scragga. E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel tombra morto, com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de clava. --_Um_, contou Tuala, sorrindo com satisfao. Mal findra o feito horrivel, j outro soldado era arrastado como uma rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de pelle de leopardo. Dois golpes de facalho vibrados com destreza bastaram para o acabar sem um suspiro. --_Dois_! contou o rei. E assim at cem! At _cem_! E ns alli, aterrados, immoveis, impotentes para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu findra por fechar os olhos. meia noite emfim houve uma suspenso. As farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o suor. Respirei, n'um infinito allivio, suppondo que findra todo este incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza, descobrimos Gagula, erguida, apoiada n'um cajado, dando alguns passos que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, vr o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude, ganhando alento, remoando quasi, j direito, j vibrante, medida que se acercava da fileira dos homens, a recomear por gosto proprio a obra sinistra das farejadoras! Mas n'ella o estylo era differente. No danava, no uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e alm, cantava baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim cantarolou, at que de repente se precipitou sobre um magnifico velho, perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o cajado. Um murmurio de dr, de contida indignao, correu entre os soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois d'elles, empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o aougue. Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalho e clava--e Tuala contou _cento e um_! Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de macaca, comeou a avanar para ns, n'um movimento muito lento de valsa, que era medonho na repulsiva bruxa. --Justos cos! murmurou o capito John, querem vr que agora comnosco! --Tolice! acudiu o baro, pallido todavia. Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na bca. Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caa. --Qual ser? murmurou o baro. Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi) sobre o hombro: --Morte! gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Est cheio de maleficio e de traio. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes que por elle gema em desgraa o reino!... Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza: --Este homem, oh rei, o servo dos teus hospedes, e quem deseja o seu sangue como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que cumpre aos reis manter, exijo a tua proteco para elle! Tuala franziu o sobr'olho: --Gagula, me das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe a traio dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos! --Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o p no cho, que tem de morrer! --Agarrem-no! bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, j todos manchados de sangue. Dois brutos romperam para ns--mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia, decidido a morrer combatendo. --P'ra traz, ces! berrei eu, n'um tom tremendo. Tocai n'um s cabello do homem, e vs mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, no vereis mais a luz do dia! E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O baro tinha j o seu erguido contra um dos carrascos: e John marchra sobre Gagula. Houve um instante de indizivel assombro. --Decide depressa, Tuala! gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano do rewolver. O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n'um tom surdo: --Tirai para l os vossos canos magicos! Invocastes as leis da hospitalidade, e s por amor d'ellas, no por medo de vs, poupo a vida a esse co... Ide em paz. --Est bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das estrellas, nada podem os homens da terra! O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lana. Os regimentos comearam logo a desfilar. D'ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando luz de uma das curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio feito de fibra de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que affirmavamos todos com convico, com ardor, era a necessidade e a justia urgente de ajudar a conspirao de Umbopa contra um villo como Tuala! CAPITULO VIII A GRANDE DANA J muito tarde, quasi de madrugada, Infands appareceu, como promettera, com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expr a sua romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, comeou por tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada a outro. Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a fuga com a me atravs do deserto. Os chefes permaneceram calados. Infands, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraou as matanas d'essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas illustres, tinham sido trucidados s por possuirem grandes rebanhos que Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello razo e ao corao dos chefes, que s tinham a escolher entre o monstro que por avidez e capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados. Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados. Finalmente, um d'elles, homemzarro possante, de carapinha branca, deu um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de Tuala, e que seu proprio irmo n'essa noite estava sendo pasto das hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes afianava que elles no ergueriam as suas lanas por um impostor? A guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o sol que brilha, que o sol que ainda no nasceu. Necessitavam pois uma evidencia. E quem melhor lh'a poderia dar que os homens das estrellas, senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e sabiam decerto os segredos? --Se elle o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas que o provem, fazendo um grande milagre. S assim o povo acreditar e tomar armas por elle! --Mas a cobra, o emblema sagrado! exclamei eu. --No basta. A cobra podia ser pintada no ventre j depois de elle ser homem... Necessitamos um milagre! O povo no se move, nem ns mesmos, sem um milagre! Um _milagre_! A situao era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso lance. --Parece-me que se pde arranjar, disse John, depois de um curto silencio. Pea a estes amigos que nos deixem ss, Quartelmar. Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram na sombra: --Temos o eclipse! exclamou o nosso admiravel John. Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o _Livro de Bordo_), e que n'esse dia, s duas e quarenta minutos, devia ser visivel em toda a Africa. --Ahi est o milagre! affirmava John. annunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi o rei, e que devem pegar em armas por elle, ns faremos desapparecer o sol! A ida era esplendida. O unico receio que o almanach estivesse errado. --No! um almanach maritimo, no pde estar errado. Os eclipses so calculados mathematicamente. No ha nada mais pontual que um eclipse... Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta regio toda ficar em trevas. --Eu, por mim, disse o baro, parece-me que devemos arriscar o eclipse. --V pelo eclipse! Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar, magestosamente, que ns os homens das estrellas no gostavamos de alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e confuso... Mas, como se tratava d'uma grande e santa causa, estavamos decididos a fazer um milagre. --Escutai! Julgaes vs que um homem pde soprar sobre o sol, e _apagal-o_? Os chefes olharam para mim, recuando com assombro. --No, murmurou um d'elles, no ha homem que o possa fazer! O sol mais forte que toda a terra! --Perfeitamente, conclui eu. Pois manh, depois do meio dia, ns homens das estrellas _apagaremos o sol_ durante uma hora, espalharemos trevas sobre a terra, e ser o signal de que Ignosi o verdadeiro rei dos Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Ser bastante este milagre? O chefe da carapinha branca abriu os braos para ns, esgazeado: --Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre ser mais que bastante! --Bem. Tereis o milagre. Agora Infands, que experiente, diga o momento em que mais convem que ns apaguemos o sol. --Apagar o sol! murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae de tudo, que brilha eternamente! --Falla, Infands! --Meu senhor, na verdade um milagre espantoso que vs prometteis! Mas emfim... O melhor momento o da dana das Flres, que ha de logo comear ao meio-dia. As mais lindas raparigas de L esto l, para danar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas , segundo o costume, morta por Scragga em sacrificio aos _Silenciosos_, as figuras de pedra que esto alm na montanha vigiando. Que os meus senhores n'esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditar! --O povo na verdade acreditar! exclamaram todos os chefes. --A duas milhas de L, continuou Infands, ha uma collina em frma de meia lua, que realmente uma fortaleza, onde esto aquartelados o meu regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar de modo que ainda esta manh cedo marchem para l tres ou quatro regimentos dos mais fieis minha vontade. E se os meus senhores apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escurido, fazel-os sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde ficaro a salvo e d'onde comearemos a guerra contra o rei. --Est entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois combinar com os Espiritos! Com longas reverencias, Infands e os chefes deixaram a nossa aringa. O sol ia nado. --Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. certo que podeis fazer esse milagre, ou estaveis vs ganhando tempo e soltando no ar palavras vs? --Parece-me que no nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu Ignosi, declarei eu sorrindo. -- espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo pde! Mas ah, se vs fizerdes isso por mim, o que no farei eu por vs? --Uma coisa j tu nos podes prometter, Ignosi! acudiu gravemente o baro. , se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as farejadeiras de feitios, com matanas como as d'esta noite, e no consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter sido julgado pelos doze mais velhos do logar. Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituio do jury, que este digno baro queria implantar no centro selvagem da Africa! No ha seno um liberal inglez para estas esplendidas imposies de civilisao e de ordem. Com razo hesitou o astuto Ignosi! Com razo conservou longo tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n'um rasgo de generosidade ou de condescendencia: --Os costumes dos pretos no se podem moldar pelos costumes dos brancos. Comtudo, uma coisa te prometto, Incub! que no haver no meu reino, nem matanas de festa, nem execues sem julgamento. Ests contente? O baro apertou-lhe a mo em silencio. D'ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sccas, e profundamente dormimos, at que Ignosi nos acordou s onze horas. O nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fra da cubata, olhar para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu to brilhante e to seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme, absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder alterar! --Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem querer, com tres honrados homens! Depois de almoar, um solido e valente almoo que nos amparasse na crise imminente, revestimos as ctas de malha, afivelamos os cintures de cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dana. E ao meio dia para l voltamos os passos--que a inquietao interior e a certeza do perigo no permittiam que fossem nem bem alegres nem bem ligeiros! O terreiro real offerecia n'essa manh um aspecto bem diverso--e onde na vespera reinra o horror transbordava agora a graa. Em logar de fuscos e duros guerreiros, todo o espao estava occupado por longas filas de raparigas kakuanas, escuras tambem verdade, mas lindas, pelas frmas, a expresso, a viosa mocidade. _Toilette_, no tinham nenhuma--nem mesmo o _panno_, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta encantadora deficiencia pelo franco luxo das flres. Todas traziam na cabea uma cora de flres; grinaldas de flres, grandes como festes, envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mos uma palma verde e um lyrio branco. Nos escabellos de honra j estava o rei--acompanhado por Infands, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula. Reconhecemos tambem, de p, por traz d'elle, alguns dos chefes que n'essa noite tinham comnosco conspirado. Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau. --Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vdes hoje aqui coisas diversas; mas no to bellas, no to bellas! Beijos e festas de mulheres so dces; mas mais dce o brilho das lanas e o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar n'esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d'estas raparigas as melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos. O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros, deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a recrutar alli, para occupar o seu corao na terra dos Kakuanas, um serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receiando as complicaes do eterno feminino, apressei-me a recusar: --No, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vm das estrellas s se ligam s mulheres brancas que esto nas estrellas... Tuala riu: --Est bem, est bem... Ns temos um proverbio kakuana que diz: Aproveita a que est perto, porque com certeza a que est longe te engana! Mas talvez seja d'outro modo nas estrellas... Sde pois bemvindos, e comece a dana! Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que tres mocinhos sopravam agachados no cho. As fileiras de raparigas avanaram, cantando um canto muito lento e dce,--e fazendo ondular nas mos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos ps, n'uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaadas aos pares, redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre confuso, n'uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flres desfolhadas. Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, mais airosa que uma Diana caadora, avanou devagar, e rompeu n'uma dana estranha, cheia de graa e de brilho, em que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida at os pulos bravos da cora ciosa... Assim danou longamente: os seus olhos cada vez mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flr a flr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze humedecido. Por fim, canada, sorrindo, recuou at ao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de lyrios. Veio ento outra, muito alta, danar; e outra depois, e muitas ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caadora tinha belleza, graa e consummada arte. O rei ergueu a mo, o tam-tam cessou. --Gentes das estrellas, disse elle, qual d'ellas achaes mais linda? --A primeira, respondi eu irreflectidamente. E logo me arrependi, lembrando o que annuncira Infands--que a mais linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora. Tuala no emtanto sorria: --Os vossos olhos, gentes das estrellas, vem ento como os meus. A primeira a mais bonita. E mau para ella que tem de morrer! --_Tem de morrer_! echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa, e acordava, j interessada, desde que presentia sangue e dr. --Morrer! exclamei eu, sorrindo tambem, como se no acreditasse. Porque, oh rei? Ella danou bem, a todos agradou. Alm d'isso moa e linda. Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte. A fera affectou uma sympathia, que, n'elle, arripiava: --Tambem o lamento, mas o costume do meu reinado. Os _Silenciosos_, que esto alm na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha uma prophecia do nosso povo que diz: O rei, que no dia da grande dana no sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecer, e com elle a sua casa. Por no ter cumprido a ordem de cima, cahiu meu irmo e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas), trazei a virgem! E tu, meu Scragga, agua a lana! Dois da guarda real marcharam para a pobre e dce rapariga, que desfolhava nervosamente as ptalas do seu lyrio branco. De repente, e s ento, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mos fortes agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para diante de Tuala. --Que nome o teu, linda moa? ganiu a horrivel Gagula. No respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer a lana, sem saber quem tu sejas? A isto, Scragga deu um salto com sofreguido, alando a sua immensa azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre as mos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou toda, toda a tremer. O medonho Scragga teve uma risada bestial: --Como ella treme, como ella treme diante da minha fora! --Ah canalha, se te apanho a geito! rosnou o capito, apertando na mo o rewolver. No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraada: --Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! No temas! --Oh me! balbuciou a pobre creatura entre soluos, n'uma voz que desfallecia. Oh me! O meu nome Fulata, e sou da casa de Suko. Mas porque hei de eu morrer, eu que no fiz mal nenhum? --Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que vigiam alm na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia. Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da casa de Suko, vaes morrer s mos reaes do filho do nosso rei. Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei quasi cruel! No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mos, supplicava, com gritos de angustia: --Oh me, oh rei, no me deixeis morrer!... E eu to nova! Pois nunca mais hei de vr a aringa de meu pae? nem embalar meus irmos pequeninos? nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para danar e eu dancei! O meu noivo est l fra minha espera! Minha me ficou sentada debaixo das machabelles at que eu volte para mugir as vaccas... E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa casa deixava sempre cahir gros de aveia para os passaros levarem aos ninhos... Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluavam baixo. E subitamente, o capito John, sem se poder conter mais, arrancou o rewolver da cinta e fez um movimento to saliente, de to clara interveno--que a rapariga viu, n'um relance comprehendeu... Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio arrojar-se aos ps de John, abraando-lhe as pernas nas: --Oh pae branco, que vens das estrellas! gritava ella. Deixa acolher-me sombra da tua fora... Salva-me d'estes homens, e de Gagula, a me que to cruel... Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria to intensa que ainda hoje o recordal-a me aquece o corao, vi uma linha de sombra, muito fina ainda, surgindo orla do disco radiante! --O eclipse! gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga atraz! E armas na mo, rapazes! Immediatamente, avancei para o rei: --Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Ns, gentes das estrellas, no podemos consentir n'esta maldade! Tal no ser! Deixa que a rapariga volte para a sua morada! Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de assombro, e talvez de esperana. --_No consentis_! bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E quem s tu, perro branco, para vir latir contra o leo na sua caverna? _Tal no ser_! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade prevalecer contra a minha fora? Scragga, mata a creatura! E vs guardas, ol, agarrai esses homens! Uma multido de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O baro, Umbopa e o capito (com Fulata agarrada a elle) vieram pr-se ao meu lado de carabinas apontadas. Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente, avanava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiana, ergui a mo, bradei: --Parai! Ns, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga no morrer! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avanar contra ns um passo, ns, os magicos das grandes artes, _apagaremos o sol_ e mergulharemos o mundo em trevas! O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de ns, com a lana erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os braos com furor: --Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois que o faa, e a rapariga ir livre para a sua morada! Mas se o no fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os ces malditos que vm latir contra ti! Sem mais, ergui a mo solemnemente para o sol (movimento que logo imitaram John e o baro) e rompi a bradar. No me lembro j das coisas absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare, pedaos da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse _em inglez_, na lingua magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro do systema planetario. Gritava: Anda-me assim, solzinho da minha alma! P'ra diante, valente! Deixa avanar essa rica sombra! Ah que ests um catita, meu astro! Mais, mais!... E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avanava, comia a luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multido. Volvi ento a fallar kakuana, livremente: --V tu, oh rei! V tu, Gagula! Vde vs, oh chefes! Mentem ento os homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, some-te nossa ordem, mata o mundo com escurido e frio, e, que sem ti, parem para sempre estes coraes crueis!... O sol vai morrer! Gritos de terror resoavam j no terreiro. As mulheres, cahidas de joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia. S Gagula resistia ao pavor: --Vai passar, vai passar! uivava ella. Eu j vi o sol assim. Ninguem o pde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu j vi, eu que sou a mais velha, e conheo os segredos! Eu por mim animava os companheiros: --V, rapazes! J no sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de alguns versos, baro. Tudo serve, at pragas! E John, admiravel marinheiro, rompeu ento a praguejar. Foi sublime. Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu! No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras fluctuavam no ar. Uma triste quietao descia sobre a terra. Todos os passaros se tinham calado. Ao longe os ces uivavam. E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornra-se espessa. J mal distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o que restava do sol parecia uma luz agonisante. --O sol morreu! berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!... E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a toda a fora contra o peito do baro. Mas a cta de malha repelliu o ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o baro arrancra-lhe a lana das mos e passou-lh'a atravs do corao. Com um uivo hediondo, Scragga tombou morto. Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o sol, o mundo, e a descendencia do rei! N'um terror indizivel, a multido de raparigas largou fugindo, em confuso e gritos, para as portas da aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos, desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n'um pavor vil. Uma debandada--que nos deixou ss, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda agarrada a John, Infands, os chefes que conspiravam, e o cadaver de Scragga. --Chefes! gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora que Ignosi o rei unico e forte. O feitio est trabalhando. Corramos para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura! --Vinde! exclamou Infands, segurando-me pela mo. E vs todos segui! O dia nosso! Ao chegarmos porta da aringa, a luz findou inteiramente. Agarrados uns aos outros pelas mos, com Fulata no meio, fomos tropeando atravs da escurido. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de terror. E para o augmentar, lanavamos a espaos, atravs da treva, um lugubre brado de revolta e de guerra: --Morte a Tuala! CAPITULO IX ANTES DA BATALHA Durante mais de uma hora caminhamos, atravs da escurido, guiados por Infands e pelos chefes--at que de novo surgiu, como um fino trao luminoso, a orla do sol. D'ahi a pouco havia j luz sufficiente; e achamo-nos ento longe de L, junto de uma larga collina, de duas fartas milhas de circumferencia, em frma de ferradura, e toda ella inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto fra (segundo nos disse Infands) aproveitado como acampamento permanente, e ordinariamente occupado por uma guarnio de tres mil homens. N'essa manh, porm, maneira que iamos trepando os flancos da collina, luz j viva e quente do sol, descobriamos successivos regimentos, formando uma diviso de dezoito ou vinte mil homens, quasi todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos atravs das suas filas cerradas, em direco a um grupo de cabanas que se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos l dois servos, espera, carregados com todas as nossas bagagens, cantinas, e munies que n'essa manh deixaramos nas cubatas de L. N'uma trouxa as calas de John. Com que sofreguido elle as envergou, pudico homem! --Fui eu que mandei vir tudo, cautela! explicou o servial Infands. Quem sabe quantos dias estaremos n'este deserto! Como no havia tempo a desperdiar, o velho e activo guerreiro deu ordem para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta j decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por quem iam combater. Meia hora depois os regimentos (a flr do exercito dos Kakuanas) estavam em formatura nos tres lados d'um immenso quadrado. Do lado aberto ficamos ns com Ignosi, o velho Infands e os chefes conjurados. Logo que um arauto intimou silencio--Infands avanou: e com um calor, um enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de Ignosi, o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de seu pae mo de Tuala, a sua fuga atravs dos montes, o seu exilio entre estranhos. Depois retraou o reinado cruento de Tuala, os seus crimes, as suas espoliaes, as frias e inuteis crueldades. Em seguida contou como os homens brancos das estrellas, que de l de cima tudo vem, se tinham compadecido da grande afflico que ia no reino dos Kakuanas; como tinham ido ento buscar Ignosi, o rei legitimo, s terras distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela mo, atravs dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como n'essa manh, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e provar aos chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses magicos que nenhuma fora vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, o falso rei--e pr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro! Apenas elle findra, entre um longo murmurio de approvao, Ignosi deu dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as tropas.--Ellas tinham ouvido Infands, seu tio! Cada palavra d'elle luzia como a verdade. Os Kakuanas agora s podiam escolher entre Tuala, o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e desordem,--e elle, rei legitimo, que no permittiria mais no reino a caa aos feiticeiros, nem matanas de festa, nem castigos sem julgamento, nem a oppresso dos mais fortes... Pelo contrario, sob elle, s haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o ajudassem daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre Tuala, iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descano e alegria para sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado, para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a fora das suas artes magicas? No tinham elles visto o sol apagado, depois outra vez brilhante, ordem dos espiritos brancos? Um rumor de acquiescencia, de adheso, corria j entre as tropas. Ignosi ento recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel machado de guerra: --Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem, d'entre vs, que diz que eu no sou o rei, que sia a terreiro, se bata commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no cho provar que na verdade sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, vs todos! Sou eu o rei! --s o rei! foi a universal, acclamadora resposta, que atroou toda a collina. --Bem! Tuala est mandando j emissarios a reunir os seus homens para nos combater. Os meus olhos esto abertos, e vero aquelles que mais fieis me so, e que merecero mais terra, mais gado, mais riqueza. E agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei! Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mo; e os vinte mil homens, ferindo o slo com as azagaias, soltaram a grande saudao real--_krum_! _krum_! _krum_! Ignosi estava acclamado rei. Os batalhes immediatamente recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem. Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capites. Era evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. J do alto da nossa collina ns viamos regimentos marchando, a concentrar-se em L--e um incessante movimento de armas por toda a estrada de Salomo. Do nosso lado contavamos com vinte mil homens. Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na manh seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d'esses, muitos eram recrutas; e a forte flr do exercito, os veteranos endurecidos, os capites de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a collina da Revolta. O primeiro cuidado era fortificar a nossa posio. Comemos por obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da planicie. Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras. Accumulmos orla do planalto montes de pedras para arremessar sobre os assaltantes. Aqui e alm cavmos fossos. E, como todo o exercito trabalhava, ao fim da tarde a collina fra convertida em cidadella. Justamente antes do pr do sol, vimos um grupo de homens que de uma das portas de L avanava para ns, fazendo soar um tam-tam. Um d'elles trazia na mo uma palma verde. Era um arauto. Ignosi, Infands, dois ou tres chefes, eu e os amigos descemos ao seu encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moo, com a pelle de leopardo aos hombros. --Saude! gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu saudar quelles que lhe fazem uma guerra infiel. O Leo envia o seu saudar aos chacaes. --Falla! bradei. --Estas so as palavras do rei:--Entregai-vos minha merc, antes que a minha forte mo cia sobre vs!--Assim disse o rei. J foi arrancada ao toiro negro a espadoa direita! J o rei o anda enxotando ensanguentado em volta ao acampamento![2] --Quaes so as condies de Tuala? perguntei por curiosidade. O arauto declarou que as condies eram misericordiosas e dignas de um grande rei. Muito pouco sangue o contentaria. De cada dez homens um seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incub que matra Scragga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e Infands que preparra a rebellio, seriam postos a tormentos, em sacrificio aos _Silenciosos_. Taes eram as misericordiosas condies do rei. Consultei um instante com os chefes, e repliquei, n'um tom estridente para que todos os soldados ouvissem, por sobre a collina: --Volta para Tuala que te mandou, oh co, filho de co! E dize-lhe em nome de Ignosi, legitimo rei, e de Infands, seu tio, e dos homens das estrellas que apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui juntos, dize a Tuala--que antes que o sol d duas voltas o cadaver de Tuala jazer hirto e frio no terreiro de Tuala... Vai e treme, oh co, filho de co! O official riu, com arrogancia: --No se assustam homens com palavras inchadas! manh se ver em que terreiro e que corpos jazero hirtos e frios. Adeus pois, homens das estrellas. Para meu proprio regalo espero que tenhaes o brao to forte como tendes ousada a lingua! Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quasi immediatamente a noite desceu. luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defeza. Depois, j por noite alta, quando tudo se completra, o baro, Ignosi e eu, acompanhados por um dos chefes, descemos a collina a visitar os postos avanados. maneira que caminhavamos, viamos de repente surgir dos sitios menos esperados, de uma cova na terra, de uma moita de arbustos, de um monto de rochas, alguma enorme figura emplumada, com a ponta da azagaia rebrilhando lua, que, trocada a palavra de passe, logo se sumia, como dissolvida na sombra das coisas. A vigilancia era realmente perfeita. Demos assim toda a volta collina, que tornamos a subir pela vertente norte, atravs das companhias de soldados adormecidos. A lua batia nas lanas ensarilhadas. Aqui e alm uma sentinella destacava immovel, com as suas altas plumas ondeando brisa fria da noite. E os robustos homens escuros, estirados no cho, uns contra os outros, no confuso abandono da fadiga e do somno, formavam como um vasto monto de humanidade j prostrada e preparada para a sepultura. Quantos d'aquelles estariam ainda vivos quando na outra noite de novo nascesse a lua? Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos d'esses tinham alegria e paz nas suas aringas. Um principe ambicioso passava. E eis que milhares que alli dormiam um somno tranquillo cahiriam, varados por lanas, seriam frios cadaveres, desappareceriam em p impalpavel, sem de si deixar mais vestigio que folhas de arvores que um vento leva. E ns mesmos--quem sabe? Tornariamos ns a vr a lua brilhar n'aquella collina? --Baro, disse eu de repente, dando voz a estes pensamentos, sinto-me n'um lamentavel estado de atrapalhao e de medo. --O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se... --No, no! D'esta vez serio. Nem sinto as pernas. Ns manh somos atacados com foras colossalmente superiores e no escapa um de ns. estupido! E para que? No temos nada com as questes dynasticas dos Kakuanas! Somos estrangeiros, somos neutros! -- verdade. Mas j agora, estamos envolvidos na aventura e necessario leval-a a cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale morrer de repente, n'uma batalha, que durante mezes na cama!... Eu pensei commigo (e bem estupidamente) que o melhor era no morrer nem n'uma cama, nem n'uma batalha. E d'ahi a instantes recolhiamos nossa estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande aco. Infands veio-nos acordar ao romper da alvorada, dizendo que se observavam j do lado da cidade movimentos de tropas, e que j ligeiras escaramuas tinham obrigado as nossas sentinellas avanadas a recolher. Comemos logo, febrilmente, os nossos preparativos. O baro, pelo principio de que na Kakuania se deve ser Kakuano, armou-se e enfeitou-se como um guerreiro selvagem--pelle de leopardo aos hombros, enorme pluma de abestruz presa testa, cintura de rabos de boi, escudo de ferro coberto de couro branco, machada de combate, facalhes de arremessar, azagaia, todo o complicado armamento d'um chefe negro. E devo confessar que assim armado e emplumado era uma esplendida e formidavel figura! O capito John no causava tanta impresso. Em primeiro logar insistira em conservar as calas que Infands lhe obtivera; e um cavalheiro baixote e gordote, de monoculo, suissa d'um lado e a cara rapada do outro, com uma cta de malha de ferro mettida para dentro das pantalonas, grande lana e chapo cco, offerece na realidade um espectaculo mais estranho que imponente. Eu por mim, ao contrario, tinha tirado as calas para correr mais lesto se tivessemos de retirar: mas a fralda da camisa apparecia-me por baixo da cta de malha: um facalho que pendurra cinta batia-me lamentavelmente nas canellas: o escudo enfiado no brao entanguia-me os movimentos: e sentia em geral que no apresentava para combate uma figura sufficientente heroica. De sorte que espetei uma immensa pluma no meu bonet de caa--e procurei dar ao rosto uma expresso de ferocidade. Alm do arsenal de armas selvagens, tinhamos naturalmente as nossas carabinas, que tres soldados atraz conduziam com os sacos de munio. Apenas armados, engulimos pressa o almoo, e abalmos. N'uma das extremidades do planalto do monte havia uma especie de casebre de pedra, que servia ao mesmo tempo de quartel-general e de torre de vigia. Encontrmos ahi Ignosi, magnificamente emplumado e apetrechado. Com elle estava Infands: e como guarda real o regimento de Infands, decerto o mais numeroso e aguerrido de todo o exercito. Este regimento tinha por nome os _Pardos_, porque usava plumas pardas na cabea. Era composto de tres mil praas; e estava collocado de reserva, deitado em ordem e por companhias sobre o capim que alli crescia. Os chefes, n'um grupo, junto do casebre, com as mos em pala sobre os olhos, observavam o movimento das tropas de Tuala--que vinham n'esse momento sahindo de L em longas columnas semelhantes a formigueiros. Cada uma d'essas columnas tinha de onze a doze mil homens. Logo que sahiram as portas de L e se acharam na planicie pararam: depois, formadas em batalha, marcharam uma para a direita, outra para a esquerda, a terceira em direco nossa collina. --Bom, murmurou Infands, vamos ser atacados por tres lados! CAPITULO X O ATAQUE DA COLLINA Devagar, em perfeita ordem, as tres columnas avanaram. A da direita e a da esquerda, separadas, e obliquando como para envolver e cercar a nossa posio: a do centro, direita sobre ns, marchando por aquella lingua da planicie que entrava pela nossa collina dentro--collina que (como disse) tinha a frma d'uma meia lua com as duas pontas voltadas para a cidade de L. A umas quinhentas jardas esta columna parou--dando tempo a que as outras circumdassem a nossa posio. O plano das gentes de Tuala era evidentemente dar, por cada lado, nossa cidadella um assalto simultaneo e brusco. --Ah! suspirou John, olhando aquellas multides espalhadas em baixo, quem tivera aqui uma metralhadora! --Nem fallemos n'essa delicia! exclamou o baro com igual pezar. Em todo o caso, Quartelmar, veja se a sua carabina chega at quelle magano, de pelle de leopardo, que parece commandar a fora. Carreguei tranquillamente a carabina com bala, agachei-me por traz d'uma pedra e apontei. O pobre commandante de pelle de leopardo avanra das fileiras uns trinta passos, seguido por uma ordenana, a examinar a nossa posio; e erguia justamente o brao quando eu lhe mandei uma bala. Tombou sem um movimento mais, com a face no cho. Os nossos regimentos espantados, acclamaram este milagre do homem das estrellas; e eu (tanto a guerra nos endurece o corao) gostei d'estes applausos. Creio mesmo que agradeci, como um actor! No emtanto o baro apontra a um outro official, que correra a recolher o cadaver do camarada--e que, por seu turno, bateu com os braos no ar, cahiu morto. A fora inimiga, aterrada, comeou logo a recuar. Os nossos uivavam de deleite e de furor. John juntra-se a ns com a sua carabina; e antes que a diviso se tivesse retirado para fra do nosso fogo, abatemos uns dez ou doze homens. Como _effeito moral_ parecia excellente. De repente, porm, ouvimos um immenso clamor nossa direita, e um clamor igual nossa esquerda. Eram as duas columnas circumdantes que nos atacavam. Immediatamente a massa de homens em frente de ns rompeu avanando por aquella lingua de planicie que penetrava em subida suave no interior da nossa meia lua. Vinham n'um passo vivo, certo, elastico, que cadenciavam entoando um canto rouco. Comeamos de novo a fazer fogo. Muitos homens cahiram. Mas era como se atirassemos pedras a uma grande vaca de equinoxio. A mar humana subia. Subia com grandes brados, repellindo os nossos postos, collocados entre as rochas, base da collina. A sua marcha porm diminuia de impeto, maneira que a subida se convertia em ladeira, depois em ingreme pendr de monte. Ahi onde comeava o monte, estacionava a nossa primeira linha de defeza. J de lado a lado, entre as foras, se comeavam a atirar as _tollas_, grandes facas de arremesso que faiscavam no ar. Os que avanavam vinham bradando: _Tuala, Tuala_! _Chiel, Chiel_! (mata, mata!) Os nossos replicavam: _Ignosi, Ignosi_! _Chiel, Chiel_! As primeiras azagaias entrechocaram-se; e, com o encontro, peito a peito, das duas massas de homens, na vertente da collina, a batalha comeou. As foras que atacavam eram esmagadoras; e a nossa primeira linha, onde os homens cahiam como folhas no outono, cedeu, e reentrou na segunda linha de defeza. A lucta aqui foi terrivel; mas os nossos recuaram, e a terceira linha entrou em batalha orla j do planalto. O baro, cujos olhos se accendiam, no se conteve mais. Brandindo a sua machada de guerra, arremessou-se para o meio do combate, seguido do capito John. Ao avistar a gigantesca figura do homem das estrellas que vinha em seu soccorro, os nossos soldados bradaram com enthusiasmo:--_Nanzie Incub_! (Ahi vem o elephante!) _Chiel, Chiel_! E, carregando com redobrado vigor, em poucos momentos repelliram a diviso de Tuala, que, j canada, sem poder romper a sebe viva de lanas que a continha, voltou a descer a collina em confuso. N'esse instante tambem um mensageiro esbaforido veio annunciar a Ignosi (ao lado de quem eu ficra) que o ataque na esquerda da serra fra rechaado; e j eu e Ignosi nos congratulavamos, quando, com grande horror, vimos os nossos, que estavam defendendo a direita, vir correndo pelo planalto, acossados por multides inimigas, que evidentemente n'aquelle ponto tinham rompido as nossas linhas. Ignosi bradou uma ordem. Immediatamente o regimento dos _Pardos_ se desdobrou, para reter a debandada dos nossos, rechaar a invaso. E, sem que eu comprehendesse bem como, instantes depois achei-me envolvido n'uma furiosa carnificina. Tudo o que me lembra o estridente ruido dos escudos de ferro entrechocando-se--e logo adiante a appario d'um enorme bruto furioso, com os olhos sangrentos a saltarem-lhe das orbitas, que erguia sobre mim uma longa azagaia. O meu rewolver findou-lhe os furores para todo o sempre. Mas quasi em seguida, senti uma pancada na cabea--e quando tornei a abrir as palpebras, estava no casebre do quartel-general, deitado n'uma esteira, com o excellente John ao meu lado, velando. --Ento, exclamou elle anciosamente, pondo no cho a cabaa d'agua com que me borrifava. Antes de responder, ergui-me muito devagar, apalpei com cuidado o meu precioso corpo. --Bem, obrigado. Estou perfeitamente bem! --Graas a Deus! Quando o vi, trazido n'uma padiola, deu-me uma volta o corao! --No, no foi d'esta! Levei s uma bordoada, supponho eu. E a batalha? --Por hoje repellimos a pretalhada do rei. Mas perdemos perto de dois mil homens. Veja aquelle horror, Quartelmar! E o bom John mostrava fra o terreiro, convertido n'um hospital de sangue. Para transportar os seus feridos, os Kakuanas usam um longo e esguio taboleiro com uma argola a cada canto. E d'estes taboleiros, postos no cho, cada um com o seu homem, havia longas filas--por entre as quaes caminhavam, curvados, os cirurgies Kakuanas. O methodo d'estes clinicos simples o piedoso. Se a ferida se apresenta curavel, o soldado besuntado com os unguentos nativos, e isolado nas senzalas. Se a ferida incuravel ou muito grave, o cirurgio, com uma lanceta, corta subtilmente uma arteria do homem, que expira em poucos instantes sem soffrer. Fugindo a estes espectaculos, John e eu seguimos para o outro lado do quartel-general, onde encontramos o baro (ainda de machado na mo, todo tinto de sangue) reunido em conselho com Ignosi, Infands e dois chefes idosos. --Ainda bem que chega, Quartelmar! gritou o baro. Eu no posso comprehender o que quer esta gente... Parece que vamos ser cercados! E assim era, segundo explicou lentamente Infands. Tuala repellido reunira reforos, e parecia tomar disposies para pr sitio collina, e vencer-nos pela fome e pela sde. Os mantimentos no durariam mais de dois dias. Mas o peor era que a nascente d'agua, sorvida a cada instante por dezeseis mil bcas sedentas, estava prestes a esgotar-se; e antes da manh seguinte o exercito gemeria de sde. N'estas conjuncturas, Ignosi queria saber o que propunham os homens das estrellas. --Dize tu, Macumazan, velha raposa, que tens visto muito, e sabes todas as artes. Conversei um momento com os amigos, e declarei em seguida ao conselho, que, sem po e sem agua, nada nos restava seno fazer immediatamente uma tremenda sortida contra Tuala. Todos approvaram com ardor a minha ida. Mas sob que plano se tentaria esse ataque? Cabia a Ignosi, o rei, decidir:--e os olhos de cada um voltaram-se para o nosso antigo servo, que agora, nas suas armas e plumagens de guerra, tinha um magnifico ar de rei guerreiro. Depois de pousar dois dedos sobre a testa, maneira Zul, Ignosi fallou e desenvolveu um plano excellente. Ao comeo da tarde (era ento meio-dia) os _Pardos_, commandados por Infands e o baro, desceriam aquella lingua da planicie que penetrava na meia lua da collina, e avanariam sobre Tuala, emquanto elle proprio, Ignosi (que eu devia acompanhar), ficaria de reserva por traz com tropas frescas. Decerto Tuala, vendo os _Pardos_ romper n'uma sortida, lanaria sobre elles toda a sua fora para os esmagar. Emquanto na lingua de terra se estivesse dando esse primeiro recontro, uma tera parte das nossas foras desceria pela ponta direita da collina, levando comsigo John, o do olho rutilante; outra tera parte iria de manso pela ponta esquerda; subitamente ambas cahiriam sobre os flancos de Tuala;--e n'esse instante elle, Ignosi, desceria pela frente com as tropas frescas, e se a fortuna estivesse com elle ceariamos n'essa noite contentes na cidade de L! O plano foi acolhido entre applausos--e immediatamente entrou em preparao, com uma presteza, um methodo, que fez honra aos officiaes Kakuanas. No espao de duas horas foram servidas as raes aos homens, as tres divises formadas, a ordem de ataque bem explicada aos chefes, e toda a fora (menos uma guarda que se deixou aos feridos) collocada nos seus postos. Era pois outra immensa carnificina que se preparava e em que me veria envolvido--eu, homem de ordem, de gostos simples, que tanto detesto violencias! Quando John, ao partir com a ala direita, nos veio dizer adeus, um pouco commovido--eu, com a voz abalada tambem, s tive estas palavras: --Se escapar, amigo John, louve a Deus, e no se metta mais com pretendentes! CAPITULO XI A BATALHA DE L No contarei os pormenores sangrentos d'este grande combate, que se ficou chamando a batalha de L. Todos estes medonhos conflictos de selvagens, mesmo travados com a disciplina dos Kakuanas, se assemelham. sempre uma vasta confuso de corpos escuros e emplumados, um estridente ruido de escudos entrechocando-se, azagaias reluzindo no ar, saltos, guinchos, uivos, clamores immensos onde destaca uma nota assobiada, o _sgghi_! _sgghi_! que solta o selvagem quando trespassa com o ferro o inimigo. O plano de Ignosi de resto foi triumphalmente realisado. Os _Pardos_ avanaram n'aquella lingua de terra que penetrava na nossa meia lua, e com admiravel heroicidade sustentaram os ataques de regimentos aps regimentos, arremessados sobre elles por Tuala. Quando dos _Pardos_ restava apenas metade, e a atteno de todo o exercito inimigo estava concentrada n'esta lucta com o heroico regimento, as duas alas nossas, que tinham caminhado pelos dois cornos da meia lua, cahiram sobre os flancos desprevenidos do inimigo como um circulo de ces de fila sobre lobos descuidados. Comeou uma pavorosa matana. Ignosi carregou ento de frente com as reservas frescas--e decidiu a batalha. Eu fiz parte d'essa carga: e no sei como, achei-me ao p do baro, que parecia o verdadeiro deus da guerra, com os longos cabellos de ouro a esvoaar ao vento, todo elle vermelho de sangue, e soltando a cada grande golpe de machado o velho grito saxonio de ataque _O-hoy_! _O-hoy_! Tambem me parece que avistei Tuala na confuso, coberto com a sua cta de malha, arremessando as _tollas_, as facas enormes dos Kakuanas, que dois guerreiros atraz d'elle traziam em sacos de coiro. Lembro-me ainda tambem d'um chefe que, em vez de escudo, erguia para se defender o cadaver de um _Pardo_, e que combatia cantando. De resto, tudo se me confunde na memoria--o sangue correndo, os corpos tombando, um grande estridor de armas, um immenso esvoaar de plumas. Com o embate das duas columnas nossas sobre os flancos do exercito de Tuala a batalha ficou ganha--e dentro em breve a vasta planicie que se estendia entre a nossa collina e a cidade de L estava cheia de soldados fugindo em terrivel desordem. O regimento dos _Pardos_ no emtanto (ou o que d'elle restava) reunira n'uma pequena elevao de terreno--onde tristemente verificamos que, dos tres mil valentes que o compunham, ainda de manh, apenas acudiam chamada cento e noventa e cinco homens. Entre elles estava Infands, que combatera heroicamente tendo smente um leve golpe no brao. Ignosi, com um grupo de chefes, entre os quaes vinha John (ferido n'uma perna e manquejando), em breve se veio juntar a esta gloriosa phalange dos _Pardos_. E foi seguido d'ella, como da sua guarda de honra, que o rei, e ns com elle, marchamos sobre a cidade de L. s portas da cidade, ainda fechadas, estavam j postados grossos destacamentos dos nossos para as atacar. Mas dentro os soldados de Tuala, inteiramente desmoralisados pela derrota do seu rei, no pareciam dispostos resistencia. Com effeito, s primeiras intimaes dos arautos, a ponte levadia da porta chamada _Real_ foi descida: e, seguindo Ignosi, penetramos emfim na cidade vencida. Nas ruas, s portas das aringas, nos terreiros, por toda a parte se apresentavam soldados, com a cabea baixa, os escudos e as lanas pousadas aos ps em signal de submisso, que saudavam Ignosi como rei. Assim chegamos aringa real. No terreiro silencioso, porta da sua grande senzala, solitario, abandonado, sem um soldado, sem um cortezo, sem uma das suas mil mulheres, estava Tuala, sentado n'um escabello, com o rosto cahido sobre o peito, as mos pousadas sobre os joelhos. Cheguei a sentir uma vaga piedade pelo pobre rei derrotado! Um unico sr lhe ficra fiel, Gagula--que, agachada aos seus ps, rompeu n'um fluxo de injurias, mal nos viu assomar ao terreiro, seguindo o triumphante Ignosi. Tuala, esse no parecia vr, nem sentir. S quando Ignosi parou, e os soldados bateram em cadencia com os contos das azagaias no cho, o velho tyranno ergueu a cabea emplumada. Depois atirando sobre ns um olhar mais reluzente que o grande diamante que lhe ornava a testa: --Salv, rei! gritou elle a Ignosi, com amargo escarneo. Tu que, por feitios dos homens das estrellas, seduziste os meus regimentos, dize, que sorte me destinas? --A sorte de meu pae, que tu mataste!--foi a fria e dura resposta. --Bem! saberei morrer, para que te fique como exemplo quando a tua vez chegar. Mas reclamo um privilegio da familia real dos Kakuanas. Quero morrer combatendo. --Concedo, respondeu Ignosi. Escolhe o teu homem. Eu no posso, porque o rei no se bate em combate singular. O sinistro olho de Tuala percorreu-nos lentamente a todos. E, como durante um momento se fixou em mim, eu senti alli o mais atroz pavor da minha vida aventurosa. Justos cos! se elle se quizesse bater _commigo_? Tambem, tomei logo a minha resoluo--recusar, fugir, ainda que fosse apupado por toda a nao Kakuana! Felizmente o bruto escolheu: --Incub! exclamou, estendendo a mo para o baro. Tu que mataste meu filho, querers tu luctar commigo, ou ser chamado um cobarde? --No, gritou logo Ignosi, Incub no se bater comtigo! --Decerto no, se tem medo. Infelizmente o baro comprehendera. Todo o sangue lhe subiu s faces. E avanou logo, de machado erguido. Acudimos, supplicando-lhe que no arriscasse a vida com aquella fra, inteiramente desesperada, de antemo condemnada morte. Provas de heroico valor j elle as dra de sobra! Para que ir-nos despedaar o corao, se uma desgraa lhe succedesse? O baro porm permaneceu inabalavel. --Nenhum homem vivo, civilisado ou selvagem, me chamar nunca cobarde. Quero bater-me com elle! Ignosi, bem a custo, cedeu. --Seja pois!... Tuala, o grande Incub vai marchar para ti! Tuala riu, ferozmente; e os dois gigantescos homens ficaram frente a frente. O primeiro ataque foi o do baro, que lanou sobre Tuala o machado a toda a fora. Com um salto Tuala esquivou o crte, e arremessou outro em resposta sobre o baro, que o aparou no escudo. E durante um momento houve assim uma viva e faiscante troca de machadadas, que ora bruscos saltos evitavam, ora os broqueis defendiam. Ns nem respiravamos. O regimento dos _Pardos_, esquecida a disciplina, fizera circulo, e soltava gritos, batia palmas a cada golpe vibrado. John, agarrado ao meu brao, andava aos saltos sobre a perna s, animando o baro com berros: --Bravo! Anda-me ahi! Esse foi bom! Atira-lh'o de ilharga!... Subitamente um brado de horror resoou. D'uma pancada Tuala cortra o cabo do machado do baro, que ficava assim desarmado--e, erguendo o seu proprio machado, cahia sobre elle com um uivo furioso de triumpho. Tudo acabra, eu fechei os olhos... Quando os abri, Tuala e o baro, agarrados um ao outro como dois gatos bravos, estavam rolando no cho--e o baro, com um desesperado esforo, procurava arrancar a Tuala a machada que elle tinha preso ao pulso por uma correia de bufalo. Pareceu-me uma eternidade o tempo que elles assim rolaram um sobre o outro, n'esta furiosa lucta pela posse do machado. Finalmente a correia quebrou--e com um ultimo, monstruoso arranque, o baro, desprendendo-se de Tuala, ergueu-se de salto, com o machado na mo. N'um instante Tuala estava tambem de p--e ambos tinham as faces a escorrer sangue. Foi Tuala, que, mais rapido, arrancou do cinto o facalho e o vibrou contra o peito do baro. O valente homem cambaleou, mas a couraa de malha repelliu a facada. De novo Tuala arremetteu com a lamina--e ento o baro, retesando-se todo n'um esforo, alou o machado, no momento mesmo em que Tuala se inclinava, e deixou cahir uma machadada com tremenda fora sobre o pescoo. Houve um grito enorme.--E, coisa pavorosa! vimos a cabea de Tuala saltar-lhe dos hombros, dar como uma plla dois pulos pelo cho, e rolar at aos ps de Ignosi! Durante um segundo o corpo ficou erecto, com o sangue sahindo em grossos borbotes e a fumegar. De repente tombou, com um ruido surdo. E do outro lado o baro cahiu tambem, desmaiado. Erguemol-o anciosamente, encharcamos-lhe o rosto em agua. Pouco a pouco abriu os olhos. Estava salvo! O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabea de Tuala que alli ficra n'uma poa de sangue, e, desapartando o grande diamante que lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei: --Salv, rei dos Kakuanas! Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um p sobre o peito de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de victoria. CAPITULO XII O REI IGNOSI Tudo findra gloriosamente. Chegra a hora de repousar--ou, melhor, de convalescer. O baro e o capito (cuja perna, de todo inchada, o fazia agora soffrer muito) foram levados em braos para a aringa palacial de Tuala. E eu para l me arrastei, exhausto de emoes, com a cabea consideravelmente dorida da paulada d'essa manh na defeza do planalto. O primeiro cuidado foi despir as ctas de malha, tarefa difficil (pelo nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se constituira, desde o comeo da revolta, nossa vivandeira, nossa enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as ctas, vimos que os nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita lanada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha impenetravel; mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na perna, e a do baro a quem uma das machadadas de Tuala cortra profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns emplastros de hervas aromaticas que nos alliviaram as dres. E como o capito John tinha noes e pratica de cirurgia (segundo contei), foi elle que fez o tratamento da ferida do baro e da sua propria, to bem quanto lh'o permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana. Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas magnificas pelles que juncavam o cho da aringa do rei. Mas no pudmos dormir. De toda a cidade, em torno de ns, subia a triste e ululada lamentao das mulheres, chorando, maneira dos Zuls, os valentes mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam carpindo a morte de Tuala com estridente dr. A noite ia cheia de prantos--e alm d'isso a cada instante sentiamos os gritos agudos das sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi s de madrugada que pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a vr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes estremecia em sobresalto e me erguia no cotovlo a procurar as minhas armas, ou a lanar uma ordem de ataque. Quando emfim acordei, com o sol j alto, soube que os meus dois amigos tambem no tinham dormido. De facto, o capito John estava com uma intensa febre e comeava a delirar. Alm d'isso, symptoma assustador, toda a noite cuspira sangue. O baro, esse, mal podia ainda mexer o corpo; e a ferida da face no lhe permittia comer, escassamente fallar. Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente Infands que chegava, to fresco e agil como se na vespera, em logar de uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a doena de John. Entrou um momento na cubata para o vr e o baro, que no se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre o seu ffo leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infands contou-nos que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras cidades chegavam ferventes adheses, e que o novo reinado se firmava para longas ras de prosperidade e de paz. Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. No pude deixar, ao vl-o, de pensar nas estranhas revolues da sorte! Aquelle moo, que havia mezes, na minha casa em Durban, me pedia para entrar ao meu servio--eil-o agora rei, grande Potentado d'Africa, commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de terras sem conta! --Salv, rei! exclamei eu, erguendo-me com respeito. --Graas a ti, Macumazan, e aos teus amigos! exclamou elle, apertando-me as mos com carinho. Entrou tambem, como Infands, na cubata para vr o baro e o pobre John, que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de Gagula. --Gagula o genio mau d'esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar para findar com ella, que j velha de mais! --Mas tem segredos! Mas sabe muito! repliquei eu. --Sabe sobretudo o segredo dos _Silenciosos_, volveu o rei pousando os olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis esto enterrados, e o do logar dos diamantes. Ora eu no esqueo a promessa que te fiz, Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula: e s por isso a poupo. --Est bem, Ignosi, registro as tuas palavras. Mas no foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque atravs de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os nossos coraes em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se no fossem os desvelos, a adoravel dedicao de Fulata. Dias amargos esses para ns! O baro, j ento restabelecido, e eu, nada mais fizemos durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de ps a senzala onde elle delirava. Remedios no tinhamos para lhe dar, alm d'uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido da raiz d'uma especie de tulipa. S podiamos contar com a forte natureza d'elle e a boa merc de Deus. Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para manter perfeito socego em torno ao doente, ordenra que todos os que l viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente ao lado d'elle, sentada no cho, dando-lhe a bebida refrescante, arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sccas d'uma planta que faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto. No nono dia da doena, noite, antes de recolher, o baro e eu entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no escabello dava uma luz funebre. No havia um rumor. E o meu pobre amigo jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegra o seu fim, tive um soluo que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou _chut_! E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo no estava morto, mas tranquillamente adormecido, sob a caricia das mos de Fulata, que lhe cobriam a testa, onde um suor fresco comeava. Era a crise do nono dia, o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque no serei acreditado) Fulata, a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim, com as mos pousadas sobre a testa d'elle, sem comer, sem se erguer, sem se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente. Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braos, porque a heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga. A convalescena de John foi rapida. Ao fim d'outra semana, j passeava pelos arredores da cidade, entre os pomares, beira do rio, acompanhado por Fulata, que o salvra, e a quem elle votra (segundo dizia) um reconhecimento eterno. Mas eu no agourava bem d'aquelle reconhecimento, d'aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter, mais perigosa ainda, alguma aventura d'amor! Apenas John se considerou a si proprio escorreito e prompto para outra--Ignosi comeou as festas da sua proclamao. Todos os Indunas (chefes supremos) das provincias do reino vieram a L prestar vassallagem. Houve revistas de tropas, danas, formidaveis banquetes. Os homens que restavam do regimento dos _Pardos_ foram todos doados com terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande Assembla que d'ora em diante no haveria mais _caa aos feiticeiros_, nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto ns residissemos no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como elle, a saudao de _Krum_! No ultimo dia d'este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegra, de realisar a sua promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras brancas que reluzem. Ignosi abraou-nos com grande affecto. --No me esqueci, amigos! J indaguei a verdade, e eis o que sei. Aquella estrada branca que trilhmos acaba alm junto das montanhas chamadas as _Tres Feiticeiras_, onde esto as figuras de pedra, os _Silenciosos_. Jaz ahi uma grande cova, d'onde se diz que homens muito antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para alm d'essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala j foi conduzido. E por traz d'essa caverna fica uma camara secreta de que s Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas geraes, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d'essas que para os Kakuanas nada valem: o branco porm no teve tempo de arrecadar essas riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d'esses tempos o escorraou outra vez para alm das montanhas... --A historia verdadeira, acudi eu. No te lembras, Ignosi, que nas montanhas, na caverna de gelo, encontramos ns, petrificado, esse homem branco? --Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe, sob pena de morrer, que vos leve camara secreta, meus amigos... E as riquezas que encontrardes, oh meus amigos, so vossas! N'esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braos a hedionda Gagula; que gania e os amaldioava. Mal a largaram, toda ella se abateu e achatou sobre o cho--como um monto de trapos onde dois olhos ferozes viviam e refulgiam. --Que me queres tu, Ignosi? uivou ella. No me toques, que te destruo. Treme das minhas artes! O rei encolheu os hombros. --As tuas artes no salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes? Aqui est o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara secreta onde esto as pedras que reluzem. --S eu o sei, e nunca o direi! bradou ella. Os brancos malditos voltaro, levando vasias as mos malditas! --Bem, volveu tranquillamente o rei. Ento, Gagula, vaes morrer lentamente. --Morrer! gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu no te atrevers, Ignosi! Ninguem me pde matar. Que idade pensas tu que eu tenho? O teu pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem ousar tocar-me, porque sobre esse cahiro as desgraas sem fim. Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua azagaia: --Dizes? --No! Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o monto de trapos onde reluziam os dois olhos ferozes. Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em p, de salto. Depois tornou a cahir, e rolou no cho esperneando. De novo a lana de Ignosi a procurava: --Dizes? --Digo, digo, oh rei! ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao sol, e respirar o ar dce, e ter um osso para chupar!... --Bem; manh irs com meu tio Infands e com os meus irmos brancos a esse logar, mostrars a camara secreta e o escondrijo das pedras que reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver traio, morrers devagar, e em tormentos. --No, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a desgraa vem a quem penetra n'esse logar. Outr'ora veio um homem, encheu um saco d'essas pedras brilhantes, e uma grande desgraa cahiu sobre elle! E foi uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez fosse minha me! Ou a me de minha me! Quem sabe? Ser uma alegre jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde! Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as costellas cas. A morte vive l, e est espera. Ser uma alegre jornada! CAPITULO XIII A GRANDE CAVERNA Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n'um casebre desmantelado, em frente das _Tres Feiticeiras_, as tres montanhas que tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a L, e onde deviam jazer, segundo a tradio dos Kakuanas e o roteiro do velho D. Jos da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas de Salomo! Tinhamos partido de L doze dias antes, acompanhados por Infands, por Fulata (que no deixra mais o seu doente, o bom John), por Gagula que vinha n'uma liteira, e por uma forte escolta de serviaes e soldados. E foi s no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle estranho sitio, to cheio de terror para os Kakuanas e para ns de maravilhosas promessas. Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na primeira e fresca luz da manh, vimos os tres montes isolados, em triangulo, um nossa direita, outro nossa esquerda, o terceiro ao fundo, em face de ns, erguendo magnificamente ao co os seus cimos resplandecentes de neve. Um tojo em flr, d'um escarlate ardente, cobria as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita branca da estrada de Salomo cortava a direito at _Feiticeira_ central, a que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e mysteriosamente. Ahi, junto d'esse monte, estavam as fabulosas minas, que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo portuguez, o do seu descendente, e decerto o d'aquelle que ns vinhamos procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula) encontrar desilluso e desastre. Seria essa a nossa sorte? Ns chegavamos sob a proteco do rei, cercados de serviaes e de guardas... E apesar d'isso sentiamos pesar-nos sobre o corao, tristemente, a prophecia da horrenda mulher. No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era to viva a anciedade de chegar e de vr, que os carregadores da liteira de Gagula mal podiam acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava, estendendo para ns, por entre os pannos da liteira, os braos descarnados, as mos em garra: --No vos apresseis, homens brancos! A morte est vossa espera e no foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a tendes! Dava ento uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente abrandavamos o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso irresistivel da curiosidade e da esperana! Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de Salomo, e tendo j deixado nossa direita e nossa esquerda as duas _Feiticeiras_ que formam a base do triangulo--quando chegamos junto d'uma immensa cova circular, em funil, offerecendo talvez trezentos ps de profundidade e meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a forravam, surgiam grandes pedaos de greda azulada: quasi ao fundo corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel d'essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposio do canal, a natureza da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de Salomo, fossem n'outros mais recentes, uma mina de diamantes. A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a circumdavam; e a espaos, esta via circular era feita de enormes lages de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infands; e bem depressa percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas. Conjecturamos logo que deviam ser os _Silenciosos_, esses idolos, to temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos. Mas s ao chegar junto d'elles pudmos apreciar a estranha e terrivel magestade d'essas vetustas figuras. Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e olhando a direito para a estrada de Salomo que atravs de sessenta milhas de planicie seguia at L--enchiam um grande espao as tres gigantescas frmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres sentadas, medindo talvez cada uma a altura de vinte ps. A figura de mulher, toda na, com dois cornos, como os de um crescente de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens, pareciam mais bem conservadas. Um d'elles tinha uma face medonha, feita para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expresso de dura indifferena, de uma indifferena de rocha, que nenhuma prece pde abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser talvez os falsos Deuses que adorou Salomo--Asthoreth deusa dos Sidonios, Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de Amnon. Assim diz o Livro Santo. --Que lhe parece, baro? --Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus, a Astart dos Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomo. De Astart fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente da meia lua na cabea... Se Salomo tinha aqui as suas minas, era natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua da sua Deusa. Quem pde saber? Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de uma remota antiguidade, Infands, que caminhra sem se apressar, chegou junto de ns, e saudou reverentemente com a lana os _Silenciosos_. Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar primeiro a refeio da manh. Como no eram ainda onze horas, e a nossa curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando comnosco provises para se l dentro a fome excitada pelas emoes nos assaltasse. Infands fez ento signal aos carregadores para que se acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um cesto, para levarmos, uma poro de caa fria e duas cabaas d'agua. Ns entretanto deramos uma volta em torno s tres figuras de pedra. Por traz d'ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das _Feiticeiras_ que formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada n'ella, corria uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no cho, a horrenda creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e vivos, largou em silencio para o arco escuro. Ns seguimos, calados, tambem. entrada, o monstro parou, voltado para ns, com um riso livido na caveira. --Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na cova onde as pedras reluzem? --Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente. --Bem, bem! Entrai! E pedi fora aos coraes para affrontar as coisas que ides vr! E tu, Infands, que trahiste teu amo, vens tu tambem? O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr'olho: --No me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, Gagula, tem cautela, e treme! Os homens que vo comtigo so os amigos do rei! Por elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um s cabello lhes succeder em mal, nem todos os teus feitios te livraro de morrer em tormentos. Comprehendeste? --Comprehendi, comprehendi, Infands! ganiu ella, com um risinho gelado e lento. No receies! Eu vivo s para fazer a vontade do rei. Tenho feito a vontade de muitos reis, em muitas geraes! E os reis findaram sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para lhes fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada est accesa! Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma cabaa cheia de oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do arco negro pareceu desmaiar e tremer. --Vens tu tambem, Fulata? exclamou John, volvendo os olhos em redor, inquieto. --Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga. --Bem. Ento d c o cesto! --No, meu senhor, para onde frdes, vou eu tambem! --Bem! pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga para dentro da mina! No emtanto Gagula mergulhra na galeria, que dava apenas logar para dois caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada, que a voz de Gagula, que repetia n'um tom lugubre: --Avanai, avanai! A morte est perto! De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos no mais maravilhoso sitio que olhos humanos tm contemplado. A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da abobada. Ao comprido d'esta vasta nave, como na nave de um verdadeiro templo, corriam renques de gigantescas columnas, d'uma cr algida de glo e de magnifica belleza. Alguns d'estes nobres pilares estavam, por assim dizer, interrompidos no meio--um pedao erguendo-se do slo, como a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedao pendente da remota abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimenses diversas, cavernas semelhana de capellas, tendo tambem as suas filas de columnas, algumas to pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de creana. Aqui e alm havia construces estranhas, da mesma substancia algida que parecia glo--uma da frma de uma vasta taa, outra offerecendo a vaga apparencia d'um pulpito com lavores pendentes. Um ar de indescriptivel frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos, na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo. No tardamos em perceber que estavamos simplesmente n'uma caverna de stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d'aquellas gottas de agua, que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando n'aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas incompletas notei eu uma rude inscripo entalhada decerto por algum obreiro phenicio das minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia phenicia. Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas crescera para cima da inscripo uns tres ps e meio. E ainda estava em via de formao, porque eu distinctamente senti, emquanto a examinava, cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de agua! Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a formar-se, assim largas, massias, altas como torres, as columnas innumeraveis que se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa velhice da Terra. Gagula porm no nos deixou muito tempo n'esta curiosa contemplao. Inquieta, batendo o cho com o cajado, a lampada erguida sobre a cabea, a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros. --Vamos, vamos, que a Morte est nossa espera! O capito John ainda tentava gracejar com a atroz creatura. Mas quando ella nos conduzia ao fundo da nave, diante d'uma pequena porta semelhante s dos templos egypcios, e nos perguntou se estavamos bem preparados a entrar a morada da Morte--todos estacamos, inquietos, mudos, sem ousar o primeiro passo. --Isto est-se tornando sinistro, murmurou o baro. Os mais velhos adiante. Passe l, Quartelmar! Entrei a porta egypcia e achei-me n'um corredor inclinado, todo de abobada, horrivelmente negro. A lampada de Gagula esmorecia. O bater do seu cajado dava um echo lugubre. E a meu pezar parei, dominado por um presentimento de desastre e de morte. --Para diante! para diante! murmurou John, que trazia Fulata agarrada pela mo. Com um esforo desesperado venci o receio, alarguei o passo. E, quasi collados uns aos outros, desembocamos n'uma sala subterranea, evidentemente excavada outr'ora por poderosos obreiros no interior da montanha. Esta sala no tinha uma luz to clara como a cathedral de stalactites; e tudo o que eu pude descobrir a principio foi uma enorme e massia mesa de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir outras figuras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui uma frma encruzada. E quando emfim, acostumado penumbra, percebi o que eram aquellas frmas, voltei costas, e largaria a fugir como uma lebre--se o baro no me agarrasse pelo brao fortemente. Cedi, tremendo todo. Mas a esse tempo o baro tambem se habitura luz diffusa, comprehendera tambem, e largando-me o brao, com uma exclamao, ficou a meu lado, quedo, arripiado, limpando o suor que lhe cobrira a testa. A pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada ao pescoo de John. E Gagula triumphava, com sinistra zombaria. O que tinhamos, com effeito, ante os olhos apavorados, era terrivel. Alli, no topo da longa mesa de pedra estava a _Morte_--a propria _Morte,_ um medonho e gigantesco esqueleto, de p, todo debruado para diante, com um dos braos apoiado ao rebordo da pedra como se acabasse de se erguer do seu assento, e com o outro levantando no ar uma enorme lana, que parecia arremessar sobre ns; o craneo da caveira alvejava lugubremente; das covas das orbitas sahia um fulgor negro: e as maxillas estavam entreabertas, como se fosse fallar, e desvendar o seu segredo. --Santo Deus! murmurei eu, tranzido. Que pde isto ser? --E estas figuras, em redor? balbuciava John. --E alm, aquella coisa, no meio? exclamou o baro apontando para a inexplicavel figura encruzada sobre a mesa. Ento Gagula poisou a lampada e agarrando o brao do baro, com o dedo estendido para a frma encruzada: --Avana, Incub, homem forte na guerra! Avana, e contempla aquelle que tu mataste e que est agora junto aos seus avs! O baro deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a mesa, inteiramente n, com as pernas encruzadas, e a cabea que o baro cortra poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo rei dos Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a sua hedionda cabea decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe para fra do pescoo encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro tinha j uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais pavoroso, e cuja natureza eu no podia comprehender--at que senti _tic_, _tic_, _tic_, um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada, lhe escorria pelo pescoo, e d'alli pelo corpo, para se escoar depois por um buraco cavado na mesa. Ento percebi tudo--_o corpo de Tuala estava sendo convertido n'uma stalactite_! E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos Kakuanas, j transformados em _stalactites_! Havia trinta e sete--sendo o ultimo o pae de Ignosi. esta, desde tempos immemoraveis, a maneira por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos, expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon Real que existe decerto na terra. E nada pde igualar a terrifica impresso que causava aquella srie de reis, pertencendo a muitas dynastias, amortalhados n'uma camada de gelo que mal lhes deixava j distinguir as feies, alli sentados, volta da immensa mesa, em espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte! E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? No decerto os Kakuanas. A sua composio, o seu trabalho revelavam uma arte perfeita. Era obra dos artistas phenicios? Fra collocada alli em tempo de Salomo, para guardar, pelo terror da sua lana, a entrada dos Thesouros? No sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as estranhas sensaes por que passei n'aquella camara sinistra. CAPITULO XIV O THESOURO DE SALOMO No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepra para cima da mesa e acercra-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que no comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da _Morte_, cahiu de bruos, com os braos estendidos, e ficou como mergulhada em orao. Era um espectaculo to arripiador, n'aquella penumbra de sepulchro, a hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas ao enorme esqueleto--que eu, j enervado, lhe gritei que viesse, nos levasse ao logar dos thesouros. Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando por traz das costas da _Morte_, ergueu a lampada, mostrou a parede de rocha: --Entrai, homens brancos, entrai, se no tendes medo! Olhamos, procurando a entrada. S vimos a rocha solida e negra. --Gagula, disse eu com os dentes cerrados, no zombes de ns que te mato! --Mas a porta aqui, homens brancos, a porta aqui! gania ella, com as costas apoiadas muralha, onde roava de leve uma das suas mos descarnadas. E ento, luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha, do feitio e tamanho d'uma porta, se ia erguendo lentamente do slo, e desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a receber. No pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n'um equilibrio de peso, que uma mla, collocada n'um logar secreto da muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n'esse momento, arrancar a Gagula o segredo da mla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa massa subir, devagar, muito devagar, at que desappareceu, deixando diante de ns um grande buraco negro. Estava emfim aberto, para ns n'elle penetrarmos, o caminho que levava aos thesouros de Salomo. A emoo foi to intensa, que eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedao de papel, o velho D. Jos da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a ns, as maiores riquezas que jmais um rei accumulou na terra? Poderiamos ns vr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fra de Salomo, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e para isso bastava dar um passo. Dei esse passo--e com explicavel sofreguido. Mas Gagula defendia ainda com os braos o buraco negro: --Escutai, homens das estrellas! Escutai o que necessario saber! As pedras que brilham, que vs ides vr, foram tiradas da cova circular no sei por quem, e guardadas aqui no sei por quem. A gente que, de gerao em gerao, tem vivido n'esta terra, sabia da existencia do thesouro, mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei d'ento, que era o quinto, alm, sentado mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou na mo outra pedra, maior que todas... E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em ns. --Contina! exclamei eu, que escutra sem respirar. O homem era D. Jos da Silveira. Que se passou mais?... A velha feiticeira recuou espantada. --Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem pde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para o cho o saco cheio de pedras, e fugiu, levando s agarrada a pedra maior que tinha na mo. a que Tuala trazia no diadema. a que tu dste a Ignosi! --E ninguem mais entrou aqui? --Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum porm entrou, porque dizem prophecias j muito antigas que aquelle que aqui entrar morrer antes d'uma lua nova. Esta a verdade, homens das estrellas. Entrai agora! Se eu no menti a respeito do homem que se chamava Silveira, vs encontrareis no cho, entrada da porta, cahido, o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou no sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vs mais tarde o sabereis... E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo ao alto a pallida lampada. Ns, no emtanto, olhavamos uns para os outros com hesitao, quasi com medo--bem natural de resto em nervos abalados por tantas emoes estranhas. Foi John o mais corajoso: --Acabou-se! C vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as tonterias d'uma velha macaca! Adiante! E avanou seguido por Fulata e por ns dois, em silencio. Mas dados alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que tropera, quasi cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula erguera mais a lampada: --No receeis!... So pedras que a gente d'outr'ora tinha ahi accumulado para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, no tiveram tempo! E com effeito havia alli como umas obras interrompidas--pedras serradas e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha, semelhantes s que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que desde a nossa entrada na caverna no cessra de tremer de medo, sentou-se sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, no podia mais caminhar... Alli a deixmos, com o cesto de provises ao lado, at que ella ganhasse alento. E seguimos. Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau, curiosamente pintada a cres, e toda aberta para traz. E no limiar da porta, l estava, cahido no cho--_um pequeno saco de couro que parecia cheio de seixos_! --Ento, brancos, que vos disse eu? ganiu Gagula em triumpho, brandindo a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi est ainda, desde geraes! Que vos disse eu? John ergueu o saco. Era pesado e tinia. --Santo Deus! Est cheio de brilhantes! balbuciou elle quasi com medo. E com effeito, meus amigos! A ida d'um saco de couro repleto de diamantes-- de causar medo! --Para diante, para diante! exclamou o baro, com subita impaciencia. D c tu a lampada, bruxa! Arrancou a luz das mos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer pensar mais no saco que John atirra outra vez para o cho, transpozemos a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomo. Durante um momento olhmos vagamente em redor, n'um silencio apavorado. luz debil e mortia da lampada s percebemos, ao principio, que o quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas at abobada, uma poro immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez uns quinhentos ou seiscentos dentes. S aquelle marfim nos poderia tornar a todos ricos para sempre. Era d'esse espantoso deposito que Salomo fizera talvez o grande throno de marfim, de que fallam os livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com venerao, como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas. --Alli esto os diamantes, gritou John. Trazei a luz! Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o baro baixra mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas de escarlate. A tampa d'uma, to antiga que mesmo n'aquelle ar scco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios d'arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mo atravs, e tirei-a cheia, no de diamantes, mas de moedas de ouro, como ns nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras e torres em relevo no cunho. --Justos cos! murmurei suffocado. Aqui devem estar milhes! Isto nem se acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos mineiros... Estaremos ns a sonhar? --Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. Onde esto por fim os diamantes? S se o portuguez os metteu todos no saco! Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente: --Alm, alm, onde mais escuro! L esto os tres cofres de pedra, dois sellados, um aberto! A sua aguda voz tomra um som cavo e sinistro. Mas qu! Onde ia agora, diante de to inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era alm, no recanto escuro? Para l corremos, sondando com a lampada. --Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitao. Aqui. Oh meu Deus! So tres arcas de pedra! E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando os tres lados d'uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada muralha. Baixamos a lampada para dentro. No pudmos distinguir nada ao principio, deslumbrados por uma vaga refraco prateada que faiscava e tremia. Quando os olhos se habituaram quelle brilho estranho, vimos que a arca immensa estava cheia at ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as mos n'elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! No havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam _sabonaceo_! Era uma arca cheia de diamantes! Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. frouxa luz da lampada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E no havia em ns nenhuma alegria. Era um torpr, como se a alma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade d'aquella riqueza. Eu murmurei com um suspiro de creana: --Somos os homens mais ricos d'este mundo! John passava os dedos pelo queixo, n'uma distraco quasi melancolica: --Eu sei l!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro! --E transportal-os? e transportal-os? dizia o baro, abanando a cabea. De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. Gagula que ia, vinha, s voltas, na sala escura, como um morcego, de brao estendido para ns: --Hi! Hi! Hi! Ahi est satisfeito o desejo vil dos vossos coraes, homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares d'ellas! E todas vossas! Agarrai n'ellas! Rolai por cima d'ellas! Hi! Hi! Hi! _Comei_ as pedras! Hi! Hi! Hi! _Bebei_ as pedras! Havia alguma coisa de to grotesco n'aquella ida de beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, s gargalhadas. E alli ficmos todos, de mos nas ilhargas, perdidos a rir, a rir, a rir! Riamos de qu? Nem sei. Riamos dos diamantes--d'aquelles diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomo tinham escavado para _ns_, que os agentes de Salomo tinham armazenado para _ns_... Pertenciam a Salomo... Mas onde ia Salomo? Eram _nossos_ agora, os seus diamantes! No tinham sido para Salomo, nem para David, seu pae, nem para nenhum rei de Jud! No tinham sido para o atrevido e velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para _ns_! S para _ns_! Para ns aquelles milhes e milhes de libras, que, n'este seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam to poderosos como outr'ora Salomo. De facto eramos _Salomes_! De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente. --Abri as outras arcas! gania no emtanto Gagula. Esto tambem cheias! Todas as pedras so vossas! Fartai-vos, fartai-vos! Em silencio, com uma sofreguido brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n'um desesperado esforo! Hurrah! Cheias tambem! Cheias at cima!... No, a terceira estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, d'um peso, d'um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello. Eram diamantes de cr, como elles dizem em Kimberley, nas minas. Tinha eu um d'estes na mo, enorme, quando de repente ouvimos gritos afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata: --_Acudam_! _Acudam_! _Que a porta de pedra est a cahir_! Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente: --Larga-me, rapariga, larga-me! --_Acudam_! _Acudam_! _Ai Gagula que me matou_! Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. luz frouxa da lampada vimos a porta de pedra descendo, e junto d'ella Gagula e Fulata enlaadas n'uma lucta furiosa. De repente Fulata cae, coberta de sangue. Gagula atira-se ao cho, para fugir como uma cobra atravs da fenda que havia ainda entre o cho e a porta. Mette a cabea e os hombros!... Justos cos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a creatura uiva de agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo j preso. Vem d'elle gritos e gritos, como eu jmais ouvira--at que ha um som horrivel de coisa _esborrachada_, e a porta immensa fica immovel, fechada, justamente quando ns, correndo sempre, esbarramos de roldo contra ella! Isto durra quatro segundos--quatro seculos. Voltamos ento para Fulata. A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer. --Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan! exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fra. Eu no a vi, estava meia desmaiada. Ento a porta comeou a descer... Ella ainda entrou, foi olhar para vs... Depois tornava a sahir, quando eu a agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro! --Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! gritava John. E como no podia fazer outra coisa, comeou a dar-lhe beijos, longos beijos. Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois: --Macumazan, ests ahi?... Ja mal vejo... Ests ahi?... --Estou, Fulata. Que queres? --Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que no me comprehende bem. Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que morro contente, porque elle no se podia prender a uma rapariga como eu... O sol no se casa com a noite. Teve um suspiro. A sua mo errante procurava em redor. --Macumazan, ests ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para eu sentir os seus braos. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de tornar a vl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em estrella, procura d'elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda... Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta. As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John. --Morta! murmurava elle, agarrando ainda as mos de Fulata. J me no ouve! E no a tornar a vr, no a tornar a vr! O baro disse ento, devagar, e n'uma estranha voz: --No tardar, amigo, que a tornes a vr. --Como assim? --_Oh homens, pois no percebestes ainda que estamos enterrados vivos_? Foi ento, s ento, que pela primeira vez comprehendi o indizivel horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra estava fechada. O unico sr que lhe conhecia o segredo jazia esborrachado por ella, sob ella. Foral-a, s se tivessemos alli massas de dynamite! Estava fechada para sempre! E ns alli fechados detraz d'ella! Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em p, junto do cadaver de Fulata. Toda a fora de homens, a coragem de homens, fugia de ns bruscamente. Eramos sres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano monstruoso de Gagula--as suas ameaas, as suas ironias, o seu sinistro convite para _bebermos_ e _comermos_ diamantes. Sim, era o que tinhamos para beber e comer! Desde L, decerto, ella viera planeando a traio--e s nos trouxera caverna, para nos deixar l dentro, morrendo junto dos thesouros que appeteceramos! -- necessario fazer alguma coisa, exclamou o baro, n'uma voz rouca. Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos achar o segredo, a mla que move a rocha. Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do corredor. No achamos nada, em mais d'uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as mos. --A mla, se tal mla ha, est do lado de fra, disse eu. Foi por isso que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, porque se queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes... Malditos sejam elles, e maldita seja ella! --De resto, lembrou o baro, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda que sabia bem que pelo lado de dentro no podia levantar a rocha. No ha nada a fazer com a porta. Vamos vr outra vez, na camara. Levantamos ento com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o collocar dentro, no cho, com os braos em cruz, junto das arcas de dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provises. E sentados junto dos cofres de pedra atulhados de riquezas que nos no podiam salvar, dividimos as provises em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Alm da caa fria e das carnes sccas tinhamos duas cabaas d'agua. --Bem, jantemos, disse o baro, que talvez o nosso penultimo jantar n'este mundo. Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d'agua, reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperana. Comeamos ento a examinar systematicamente as paredes da nossa priso, contando com a remota possibilidade de que existisse, alm da porta da rocha, outra sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o slo, exploramos a abobada. Ficamos exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o oleo estava chupado. --Que horas so, Quartelmar? perguntou o baro. Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado s onze na caverna. --Infands ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos no vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar... --E ento? exclamou o baro. De que serve? Infands no conhece o segredo da porta, ninguem o conhecia seno Gagula. Ainda que conhecesse a porta, no a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as suas azagaias, pde furar cinco ps de rocha viva. Ninguem nos pde salvar seno Deus! Houve entre ns um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou, mostrando, n'um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata estirado diante d'ellas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refraco que sahia dos cofres de pedra abertos, e as lividas faces de ns tres, alli sentados a um canto, espera da morte. Depois a luz bruxuleou e morreu. CAPITULO XV NAS ENTRANHAS DA TERRA No me possivel descrever com exactido as agonias d'aquella noite. E ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaos. Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais me torturava era o _silencio_. Um silencio tenebroso, tangivel, absoluto,--o silencio d'uma sepultura cavada nas profundidades rocheas do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do co estalando, no poderiam fazer chegar a menor vibrao de som, fosse elle ao menos to leve como um leve zumbir de mosca... E ento, acordado, a monstruosa ironia da nossa situao ainda mais me acabrunhava. Em torno de ns jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de muitos estados, construir frotas de couraados, erguer palacios todos feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as imaginaes... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor, mas que ns no podiamos quebrar com as nossas mos, tornavam-nas inuteis, to sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de diamantes dariamos ns com infinito prazer por um pouco de po, ou por outra cabaa d'agua. Mais! dariamos todas as arcas de diamantes pelo privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o que a riqueza? Sonho, estupida illuso! --John, disse o baro, do seu canto, n'um dos momentos em que eu assim pensava, quantos phosphoros te restam? --Oito. --Accende um, v as horas. A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra! A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flr! Os soldados d'Infands comeariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras apagadas--e as nascentes d'agua, junto d'elles, cantariam de rocha em rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos. --Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o baro. --Para que? exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto, melhor! --Emquanto Deus permitte a vida, que permitte a esperana! respondeu o baro gravemente. Repartimos uma pouca de carne scca e d'agua. Emquanto comiamos, um de ns lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos com toda a fora, porque talvez Infands, andando j na caverna nossa procura, ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, tinha o habito de gritar, desceu o corredor s apalpadellas, e comeou a berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram to inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca agua que restava. Gritar s nos fazia sde. Desistimos d'esse esforo inutil. De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes, n'aquella horrivel inaco que era um dos nossos maiores tormentos. E eu ento cedi ao desespero. Deixei cahir a cabea no hombro do baro, e desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluava tambem. Grande alma, e corajosa, e dce, era a do baro. Se ns fossemos duas creancinhas assustadas, e elle a nossa me, no nos teria animado e consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado. Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, ns estavamos simplesmente chegando quelle fim a que todos tm de chegar, que tudo em breve acabaria, e que a morte por inanio suave (o que no verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos abandonassemos misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na nossa miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a d'este homem! Quanta serenidade, e quanta fora! Eu por mim acolhia-me a elle como a um grande refugio. E por sua exhortao, rezei e serenei. Assim passou o dia (se tal treva se pde chamar dia), at que accendi outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos ento em comer. E quando estavamos dividindo a carne scca, occorreu-me de repente uma ida estranha: --Porque , disse eu, que o ar aqui se conserva to fresco? um pouco espesso, mas fresco. --Santo Deus! exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei n'isso! Com effeito fresco... No pde vir de fra pela porta de pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas... Tem de vir de outro sitio. Se no houvesse uma corrente d'ar, deviamos ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo deviamo-nos sentir abafados. Evidentemente o ar renovado. Vamos a vr! Ainda elle no findra, j ns andavamos, de gatas, s apalpadellas, na escurido, procurando sofregamente qualquer indicao de buraco ou fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a mo no quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, j rigida. Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, at que o baro e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de ter constantemente batido com a cabea nos muros, nos dentes de elephante, e nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a esperana, declarando que era melhor aquillo que pensar na morte, de braos cruzados. De repente, teve uma exclamao: --Oh rapazes! Aqui! vinde c. Com que precipitao corremos para o canto d'onde elle fallra! --Quartelmar, ponha aqui a mo, onde est a minha. Ahi. Que sente? --Parece-me que sinto um fio d'ar. --Agora oua! Ergueu-se, e bateu com o p no cho. Uma immensa esperana relampejou-nos n'alma. A lage _soava co_. Com as mos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n'um recanto, de que ainda no suspeitaramos--e aos nossos ps, na lage que pisavamos, e como encrustada n'ella, havia uma grossa argola de pedra. No tivemos uma palavra, na immensa excitao que de ns se apoderou. John tinha uma navalha, com um d'esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e comeou a raspar com o gancho, em torno da argola. Raspou, raspou--at que conseguiu introduzir a ponta do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pl-a a prumo. Depois deitou-lhe as mos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu. --Deixai-me vr a mim! exclamei com impaciencia. Agarrei, pondo toda a minha fora no puxo contnuo e intenso. Escalavrei as mos. A pedra no se moveu. Depois foi o baro. Sentiamol-o gemer. A pedra no se moveu. De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em redor a frincha por onde ns sentiamos como um debil halito de ar. Em seguida tirou um grosso leno de sda que lhe envolvia o pescoo, e passou-o na argola. --Agora, baro! Mos ao leno, e puxar at rebentar! Quartelmar, agarre o baro pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, _v_! Em silencio, com os dentes rilhados, puxmos, puxmos--at que eu sentia rangerem os ossos do baro. Era elle que fazia o esforo maior, com os seus enormes braos de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer... --Agora! agora! Est cedendo! Mais! la, la! Hh! Um estalo, uma rajada brusca d'ar, e rolmos estatelados no cho, com a pedra por cima de ns. Fra a immensa fora do baro que fizera o prodigio. Que grande coisa, a fora! --Um phosphoro, Quartelmar! exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante. Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! vimos diante de ns os primeiros degraus d'uma escada de pedra! --E agora? perguntou John. --Descer! E confiar em Deus! --Esperai! gritou o baro. Quartelmar, veja se apalpa e acha o resto da comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar? Achei logo as provises, que estavam junto da arca de pedra, cheia de diamantes. E j enfira o cesto no brao, quando pensei nos diamantes... Porque no? Quem sabe? Talvez por merc divina, achassemos uma sahida! No fazia mal nenhum, cautela, metter um punhado de diamantes na algibeira!... Se chegassemos a sahir d'aquella horrivel cova, no teriam sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de diamantes nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mo na arca e comecei a encher todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das pantalonas. J abalava, quando voltei ainda, com uma ida, arca onde estavam as pedras mais gradas. E encafuei uma enorme mo cheia d'elles para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d'aquellas riquezas fez-me pensar nos outros. --Oh rapazes! No quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi as algibeiras. --Diabos levem os diamantes, disse do canto o baro, impaciente. At me faz nauseas a ida de diamantes! marchar, marchar! Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de joelhos, junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus quella que por elle morrera! Quando nos achamos juntos do alapo, j o baro descera o primeiro degrau. --Eu vou adiante, segui devagar. --Cuidado, gritei eu! Pde haver por baixo algum medonho buraco. V tenteando... Mo encostada sempre parede... O baro desceu contando os degraus. Quando chegra a quinze parou. -- um corredor, gritou elle debaixo. Descei! Quando chegmos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos restavam. luz que elle deu, vimos um pequeno espao, onde se encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro morreu, queimando-me os dedos. E ficmos n'uma horrivel hesitao! Qual dos tunneis seguir? John ento lembrou-se que a chamma do phosphoro se inclinra para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado do ar. Aceitmos a ida. E apalpando sempre a parede, no arriscando um passo sem tentear o slo, seguimos n'esta nova e incerta aventura. Ao fim d'um quarto de hora de marcha lenta, esbarrmos n'um muro. Era outro tunnel transversal, por onde continumos cosidos com o muro. Depois d'esse topmos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais largo. E assim durante horas. Estavamos n'um labyrintho de rocha viva. Para que tivessem servido outr'ora estas innumeraveis passagens subterraneas, no sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de mina. Finalmente parmos, esfalfados, com a esperana meia perdida. Comemos os restos das provises, bebemos os derradeiros goles d'agua. Tinhamos escapado de morrer nas trevas d'uma cova de diamantes--para vir talvez morrer nas trevas d'uma mina vasia... Quando assim estavamos sentados no cho, encostados ao muro, n'um infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a distancia. Avisei os outros, escutmos sem respirar. E todos muito claramente distinguimos um _som_. Era muito tenue, muito remoto,--mas era um som, um som murmurante e contnuo. --Santo Deus! exclamou John. agua a correr! Tenho a certeza que agua a correr. N'um instante estavamos de p, caminhando para o som. A cada passo o sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um ruido forte, o ruido d'uma corrente d'agua. Mas como podia haver agua corrente n'estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli perto corria agua com fora. John, marchando adiante, jurava que lhe percebia j a humidade e o cheiro. --Devagar, John, devagar! gritou o baro. Devemos estar perto... De repente um baque n'agua, um grito de John! Tinha cahido. --John! John! onde ests? berrmos, perdidos de terror. Falla! Falla! Que allivio, quando a voz d'elle nos veio de longe, suffocada. --Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu vr onde estaes! Raspei o meu ultimo phosphoro. sua luz tremula vimos aos nossos ps uma immensa massa d'agua, correndo com grande fora. Que largura tinha no percebemos... Mas a distancia distinguimos a frma vaga do nosso companheiro, pendurado d'um penedo agudo. --Preparai para me agarrar, gritou elle de l. Vou nadar para ahi! Outro baque, uma grande lucta de braos batendo a agua. Depois junto de ns um resfolegar ancioso. E por fim uma exclamao do baro, que agarrra o nosso amigo pelas mos, o puxra para dentro do tunnel, a escorrer. --Irra! balbuciava John, offegando. Estive por um fio. uma corrente furiosa e parece-me que no tem fundo. Evidentemente, d'este lado nada conseguiamos. De sorte que, depois de John descanar, de bebermos farta d'aquella agua que era deliciosa, e de lavarmos a cara, deixmos as margens d'aquelle tenebroso rio, e retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegmos a outro tunnel, que se inclinava para a direita e parecia mais largo. --Seguimos este, disse o baro inteiramente desalentado. Todos elles so iguaes. O melhor andarmos, andarmos, at cahir ahi para um canto, sem poder mais, espera da morte. Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastmos os passos na treva, atraz do baro, cujas fortes pernas j frouxeavam. De repente esbarrmos com elle--que estacra, como attonito. --Quartelmar! exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o brao. Eu estou a delirar ou aquillo alm luz? Arregalmos desesperadamente os olhos. E com effeito, l ao longe, ao fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperana estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessra, deliciosamente. Era _luz_--uma desmaiada mancha de luz! Tropeavamos uns contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de mos no cho. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de rastos. Mas a rocha findra. Era terra, terra friavel, que se esboroava... Um empuxo, um gemido, e o baro furou, e John furou, e eu furei--e sobre as nossas cabeas luziam as bemditas estrellas, e na nossa face batia uma aragem dce! De repente faltou-nos o cho, e todos tres, uma, rolmos, de escantilho, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de ldo, berrei pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo, d'uma terra ch onde o baro fra parar. Resvalei at l, e fui encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritmos ento por John. E uns _ols_ arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no desesperado tombo. Sentmo-nos ento todos tres na relva--e vendo-nos fra da funebre caverna, salvos, sos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoo foi to forte que comemos a chorar de alegria. Seguramente fra Deus misericordioso que nos guira por aquelle tunnel, para aquelle buraco, que era a porta da Vida! E agora, a manh que julgavamos nunca mais vr, estava roseando o topo dos montes. sua luz bemdita vimos ento que nos achavamos no fundo, ou quasi no fundo, d'aquella immensa cova circular que fra outr'ora a mina de Diamantes. L no alto, j podiamos distinguir as confusas frmas dos tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos vagueado, to angustiosamente, communicavam outr'ora com as Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! S isto era essencial e dce de saber! No podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras. Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de p e de lama, sangue nas mos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres espantalhos medonhos. Mas no havia a pensar em nos sacudirmos ou nos ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para corpos como os nossos to exhaustos. De sorte que comemos, com lentos e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, atravs da greda azulada, agarrando-nos s raizes, e agarrando-nos ao tojo, n'um esforo ultimo que nos esvaa. Ao fim d'uma hora estava terminada a faanha--e os nossos ps tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomo. A umas cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta d'ella estavam homens. Para l caminhmos, amparando-nos uns aos outros, e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de bruos ao cho, tremendo, gritando de medo. --Infands, Infands, somos ns, teus amigos! Elle levantou a cabea, depois o corpo. Por fim correu para ns, com os olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo: --Oh meus senhores! Sois vs! Sois vs! Voltaes do fundo dos mortos!... Voltaes do fundo dos mortos!... E o velho guerreiro, abraando-se ao baro pelos joelhos, rompeu a soluar de alegria. CAPITULO XVI A PARTIDA DE L Dez dias depois estavamos de novo em L--nas nossas confortaveis cubatas de L, sombra dos machabelles. E poucos vestigios nos restavam d'aquella atroz aventura, alm dos muitos cabellos brancos que eu trazia, e da melancholia em que cahira o nosso pobre John, com o corao ainda cheio de Fulata. inutil accrescentar que no tornmos a penetrar no thesouro de Salomo--apesar de sagazes e methodicas tentativas. N'aquelle dia em que Infands nos acolheu como a resuscitados, nada fizemos seno comer, dormir, descanar, gozar o sol. Logo no dia seguinte porm, descemos com uma escolta grande cova, na esperana de encontrar o buraco por onde tinhamos furado para a luz e para a vida. Foi debalde. Em primeiro logar chovera copiosamente de noite, e todas as nossas pegadas tinham desapparecido; mas alm d'isso os declives em funil da enorme cava estavam por todos os lados cheios de buracos, uns naturaes, outros feitos por bichos. Qual d'elles nos salvra entre tantos milhares? Impossivel descobrir! Depois d'isso voltmos caverna de stalactites, affrontmos outra vez os horrores da Camara dos Reis Mortos: e durante muito tempo rondmos diante da muralha de pedra, para alm da qual jaziam inaccessiveis para sempre os maiores thesouros da terra, para sempre guardados funebremente pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar de examinarmos a muralha durante horas, de a apalpar, de martellar sobre ella, no nos foi possivel achar o segredo da porta,--sob a qual jaziam pulverisados os fragmentos da hedionda bruxa, que com a sua traio s ganhra a sua perda. Emquanto a forar aquelles cinco ps de rocha viva, quem podia pensar em tal feito? Nem todo o exercito dos Kakuanas, trabalhando annos, lograria passar atravs. S com dynamite,--ou trazendo pelo deserto poderosas machinas. E assim, l esto ainda, n'esse remoto canto de Africa, os thesouros, que desde os tempos biblicos tanto tm fascinado a imaginao dos homens. Um dia talvez, quando a Africa toda estiver civilisada, cortada de estradas, coberta de cidades, alguem mais feliz que ns, e com os incalculaveis recursos da sciencia d'ento, penetrar no vedado thesouro, e ser rico alm de toda a phantasia! Esse, se jmais existir, encontrar l, como vestigio da nossa passagem, as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma lampada apagada. A esse tempo j estar perdida a memoria d'este livro, contando a estranha aventura. E esse explorador futuro mal suspeitar ento, ao dar com o p n'esses ossos, ao remexer essas riquezas, que tres homens do seculo XIX passaram alli um dos mais tragicos lances que jmais foi dado a homem passar... Devo todavia accrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna no foi de todo inutil. Como contei, ao abandonarmos o thesouro, eu tive a esplendida precauo de atulhar as algibeiras de diamantes. Muitos d'estes, e sobretudo os maiores, cahiram, ficaram perdidos, quando eu rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos bolsos uma enorme quantidade. No lhe posso calcular o valor. Deve ser immenso! Supponho que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos tres millionarios, e possuirmos os tres mais ricos adereos de joias que existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista economico, a aventura no gorou. Em L, fomos acolhidos pelo rei Ignosi com grande amizade e regozijo. Apesar de fundamente absorvido nos cuidados d'um Reinado que comea (e sobretudo na reorganisao do exercito) estivera em grande inquietao durante a nossa longa demora nas Minas. E foi com ardente curiosidade que escutou a nossa maravilhosa historia. A noticia da morte de Gagula foi para elle um allivio immenso. --Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio escuro, no acharia ainda artes de me matar a mim tambem! Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma dana. E foi n'essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar, que ns annuncimos ao rei o nosso desejo de deixar emfim o seu reino, e regressar nossa patria. Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as mos: --O que vs annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu corao! Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi ento, oh valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta? Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que minha, vossa. Escolhei! uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus homens, ensinados por vs, edificaro uma entre jardins... Dizei! E cada um dos vossos desejos tem j a minha promessa de rei. --No, Ignosi, no! acudi eu. O que ns simplesmente desejamos voltar para as nossas terras. Elle ento sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos coraes nunca houvera amor por elle, mas s cubia das pedras que brilham. Agora tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que ficava chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos ns bem cedo! Eu pousei-lhe a mo no brao: --Escuta, Ignosi! As tuas palavras no vm do teu corao. Escuta. Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens brancos do Natal, no sentias tu o desejo da terra d'onde vieras, e de que tua me te fallava? No se te voltavam os olhos para o Norte, para onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde brincras com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido teu pae?... --Assim era, Macumazan, assim era! exclamou o rei commovido. --Pois do mesmo modo o nosso corao deseja a terra em que nascemos. Ignosi baixou a cabea. --As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vm cheias de verdade e razo. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque no mais me chegaro noticias vossas, e vs sereis para mim como mortos! Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos acompanhados pelo regimento dos _Pardos_ at s montanhas, e d'ahi com uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle s recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da passagem das serras. Em seguida, erguendo a mo jurou ante os chefes que no permittiria jmais que nenhum branco entrasse no seu reino a procurar as pedras que brilham:--mas que ns poderiamos voltar sempre porque eramos os irmos do seu corao! E por fim decretou que os nossos nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha. --E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os d'uma mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, Incub, Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos! Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para ns, um por um; depois escondeu a cabea no seu manto de pelle de leopardo, e fugiu para dentro da senzala real. Ns afastamo-nos em silencio, e com o corao pezado. Na madrugada seguinte partimos de L acompanhados por Infands e pelo regimento dos _Pardos_. Apesar de to cedo, as ruas estavam apinhadas de gente que nos lanava a saudao _Krum_, e nos desejava boa jornada! As mulheres atiravam-nos flres ao passar. Todos os _tam-tams_ resoavam. Era como uma grande ceremonia real. Pelo caminho Infands foi-nos explicando que havia, com effeito, uma passagem nas montanhas mais fcil do que aquella por onde vieramos--ou antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os dois seios de Sab como um muro separa duas torres. Havia um anno, um bando de caadores Kakuanas, indo ao deserto procura do abestruz, tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d'elle encontraram o deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massios de arvores. Levados pela sde caminharam para l, e acharam um largo e fertil oasis, cheio de fructa, de caa e d'agua. E d'ahi, diziam os caadores, podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como uma continuao de oasis. D'este modo era talvez possivel diminuir os horrores d'uma nova travessia no deserto. Ao fim de quatro dias de marcha chegmos com effeito ao alto da escarpa--d'onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que comemos a descida--e foi ento que nos separmos do nosso amigo Infands. O excellente homem quasi chorou de mgoa. --Nunca os meus olhos, exclamava elle, vero homens como vs. Aquelle golpe de machado, Incub! Que belleza! Sois os fortes dos fortes! E o meu corao fica cheio da vossa lembrana. Adeus! Tivemos realmente saudade do velho Infands; e John, como lembrana, deu-lhe--adivinhem o qu?--_um monoculo_! Tinha um de sobresalente, e presenteou com elle o heroico e leal selvagem! Infands, enthusiasmado, procurou logo entalal-o no olho, certo de que essa _pupilla resplandecente_ augmentaria o seu prestigio entre as tropas. E foi esta a derradeira impresso que me ficou dos nossos amigos da Kakuania--um velho guerreiro, n, com uma pelle de leopardo ao hombro, grandes plumas negras na cabea, franzindo a face, de _monoculo no olho_! D'ahi a pouco, tendo apertado affectuosamente a mo a esse honrado Infands, comeavamos a nossa descida pela escarpa que liga os seios de Sab, entre as trovejantes acclamaes do regimento dos _Pardos_. Fizemos essa descida em doze horas. noite estavamos acampados orla do deserto, conversando em torno das fogueiras cerca d'esses dois estranhos mezes que passaramos entre os Kakuanas!... --Ha sitios peores para se viver, dizia o baro. --Quasi desejava ter l ficado, accrescentava John, com saudade. Eu no dizia nada. Tinhamos l passado temerosos momentos. Mas por vezes a vida fra dce. E no alforge traziamos um saco de diamantes! Na madrugada seguinte encetmos a marcha para esse oasis que os nossos guias conheciam. Trilhmos tres dias o deserto--mas sem desconsolo, graas ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e que nos permittia levar provises fartas e agua farta. Pelo comeo da tarde do terceiro dia avistmos um bosque--e o nosso jantar j foi regaladamente servido debaixo de copadas arvores, e junto de frescas aguas correntes. CAPITULO XVII EMFIM! E agora resta-me contar a maior maravilha d'esta maravilhosa jornada. To estranho, quasi inverosimil , que, para no lhe augmentar o ar de romance que ella j de per si tem, preciso narral-a com a maxima brevidade e maxima simplicidade. Foi isto. Na manh seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido d'uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n'um frondoso outeiro sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente--vejo uma confortavel cabana, construida maneira cafre, mas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo. E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n'um oasis do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba at cintura, um _homem branco_! Ficmos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n'esse momento o baro e John appareceram. O homem crava os olhos em ns, com um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um cxo pde correr, aos tropees. Esbarra, rola no cho. O baro acode. Ergue o homem. E grita: --Santo Deus! _ meu irmo Jorge_! Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim. E ainda mais! Ao alvoroo do baro, s exclamaes que seguiram, outro homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na mo. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mos carapinha: --Oh Macumazan! Oh Macumazan!... No me conheces? Sou Jim. Sou Jim! Aquelle papel que tu me dste para o patro perdi-o... Estamos aqui ha dois annos. E o pobre Jim rojava-se no cho diante de mim, chorando e rindo, n'uma alegria furiosa. Com effeito, havia dois annos que o irmo do baro e o seu servo Jim viviam n'aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n'essa tarde que Jorge Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes partira da aringa de Sitanda, como ns, para atravessar o deserto, e procurar as minas de diamantes para alm das montanhas. Por informao porm, que lhe deram uns caadores de abestruzes que felizmente encontrra, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que seguira outr'ora o velho D. Jos da Silveira, e que ns seguiramos guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era atravs do deserto, mas entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e estava junto das Montanhas de Salomo, quando lhe aconteceu uma grande desgraa. No dia mesmo em que aqui parra, estava sentado junto do rio, por baixo d'umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel d'abelhas mansas. De repente, a um esforo qualquer que Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge, esmigalhando-lh'a horrivelmente! Desde esse dia no pde mais andar. E muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caa e fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente morreria. E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias que decidira mandar Jim para traz, aringa de Sitanda, a buscar soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim no voltaria... --E sois vs agora, que appareceis de repente. Justamente tu, irmo! E tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter encontrado em Bamanguavo! extraordinario! E foi tudo a misericordia de Deus! N'essa noite tambem lhe contmos as nossas aventuras. Quando eu lhe mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto: --Santo Deus! Ao menos o que soffrestes no foi em vo! Emquanto que eu!... Esta triste exclamao tornou-me pensativo. E desde logo decidi partilhar com elle um lote d'aquellas pedras, que a elle tinham trazido uma to longa desgraa. * * * * * E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi extremamente trabalhosa. No soffremos tanto da sde, porque, segundo o novo roteiro indicado pelos caadores de abestruzes, encontrmos a espaos pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, que mal podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim dizer, tivemos de o transportar atravs do deserto. Emfim attingimos a aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas armas e bagagens, ficou indignado de nos vr voltar, vivos e sos, para as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente aqui, na minha casa em Durban, sombra das laranjeiras. * * * * * Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes na mo. o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do baro, que eu transcrevo, porque d exactamente a concluso da minha historia: Solar de Braley--Yorkshire. Meu caro Quartelmar. S algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmo Jorge, John e eu, chegmos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas deixmos o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro trem. No imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu logo na manh seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito, coitado, na pobre Fulata. E agora emquanto a negocios. Levmos os diamantes aos melhores joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer em quanto elles os avaluaram. uma somma descommunal. Est claro que elles no podem dizer com exactido, porque nunca appareceram no mercado pedras d'este tamanho em tal quantidade. Emquanto a compral-os elles, est fra de questo. Apesar de ser uma forte casa, no poderia nunca reunir semelhantes sommas. Aconselharam-me que os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e devagar para no inundar o mercado. Um d'esses lotes, o que o Quartelmar to generosamente reservou para meu irmo, esto elles todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras. O que o Quartelmar deve fazer, agora que est to rico, vir para Inglaterra, e comprar uma propriedade ao p da minha. O melhor seria vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho c por essa occasio o nosso John. A respeito de seu filho Henrique posso dizer que est bom. Esteve aqui uns dias commigo a caar. Gosto d'elle. Pregou-me uma carga de chumbo n'uma perna, extrahiu elle proprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver sempre em todas as partidas de caa um estudante de medicina. Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu _Henrique Curtis_. * * * * * Hoje sabbado. Ha um paquete para Inglaterra alm de manh. Creio, na realidade, que vou partir n'elle... J tenho saudades do meu rapaz. E depois quero vigiar eu proprio a publicao d'estas memorias. INDICE Introduco Capitulo I--Encontro com os meus camaradas Capitulo II--Primeira noticia das minas de Salomo Capitulo III--O homem chamado Umbopa Capitulo IV--Os elephantes Capitulo V--A nossa entrada ao deserto Capitulo VI--Penetramos no reino dos Kakuanas Capitulo VII--O rei Tuala Capitulo VIII--A grande dana Capitulo IX--Antes da batalha Capitulo X--O ataque da collina Capitulo XI--A batalha de L Capitulo XII--O rei Ignosi Capitulo XIII--A grande caverna Capitulo XIV--O thesouro de Salomo Capitulo XV--Nas entranhas da terra Capitulo XVI--A partida de L Capitulo XVII--Emfim! Notas: [1] Elephante! Elephante! [2] Este cruel costume commum a muitas tribus de Africa, por occasio de guerra. End of the Project Gutenberg EBook of As Minas de Salomo, by Rider Haggard License: Share Alike