Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) A HARPA DO CRENTE. TENTATIVAS POETICAS PELO AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA. * * * * * LISBOA--1838 NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS. _Rua direita do Arsenal--n. 55._ A HARPA DO CRENTE. TENTATIVAS POETICAS PELO AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA. PRIMEIRA SERIE. LISBOA--1838 NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS. _Rua direita do Arsenal--n. 55._ *A Semana Sancta.* A S. Ex. O MARQUEZ DE RESENDE. _Em testemunho de amisade e venerao_ Offerece o Auctor. A Semana Sancta. Der Gedanke Gott weckt einen furchterlichem Nachbar auf, sein Name heisst Richter. _Schiller._ I. Tibio o sol entre as nuvens do occidente J l se inclina ao mar. Grave e solemne Vai a hora da tarde!--O oeste passa Mudo nos troncos da lameda antiga, Que j borbulha voz da primavera: O oeste passa mudo, e cruza a porta Ponteaguda do templo, edificado Por mos rudes de avs, em monumento De uma herana de f, que nos legaram, A ns seus netos, homens de alto esforo, Que nos rimos da herana, e que insultamos A cruz e o templo e a crena de outras eras: Ns, homens fortes, servos de tyrannos, Que sabemos to bem rojar seus ferros Sem nos queixar, menospresando a Patria E a liberdade, e o combater por ella. Eu no!--eu rujo escravo; eu creio e espero No Deus das almas generosas, puras, E os despotas maldigo.--Entendimento _Bronco_, lanado em seculo fundido Na servido de goso ataviada, Creio que Deus Deus, e os homens livres! II. Oh sim!--rude amador de antigos sonhos, Irei pedir aos tumulos dos velhos Religioso enthusiasmo, e canto novo Hei-de tecer, que os homens do futuro Entendero:--um canto escarnecido Pelos filhos dest' pocha mesquinha, Em que vim peregrino a vr o mundo, E chegar a meu termo, e repousar-me Depois sombra de um cypreste amigo. III. Passa o vento os do portico da Igreja Esculpidos umbraes: correndo as naves Sussurrou, sussurrou entre as columnas De gothico lavor: no orgam do coro Veio em fim murmurar e esvaecer-se. Mas porque sa o vento?--Est deserto, Silencioso ainda o sacro templo: Nenhuma voz humana ainda recorda Os hymnos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome Neste dia de lucto e de saudade! Trvas da quarta feira eu vos saudo! Negras paredes, velhas testemunhas De todas essas oraes de mgoa, Ou esperana, ou gratido, ou sustos, Depositados ante vs nos dias De uma crena fervente, hoje enlutadas De mais escuro d, eu vos saudo! A loucura da cruz no morreu toda Apoz dezoito seculos!--Quem chore Do sofrimento o Here existe ainda. Eu chorarei--que as lagrymas so do homem-- Pelo Amigo do povo, assassinado Por tyrannos, e hypocritas, e turbas Envilecidas, barbaras, e servas. IV. Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro; Que no espao entre o abysmo e os ceus vagueas, D'onde mergulhas no oceano a vista; Tu que do trovador na mente arrojas Quanto ha nos ceus esperanoso e bello, Quanto ha no inferno tenebroso e triste, Quanto ha nos mares magestoso e vago, Hoje te invoco!--oh vem!--lana em minha alma A harmonia celeste e o fogo e o genio, Que dm vida e vigor a um carme pio. V. A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se afogou: a luz dos mortos, Dos brandes o claro fulgura ao longe, No cruzeiro somente e em volta da ara: E pelas naves comeou rudo De compassado andar. Fiis acodem A visitar o Eterno, e ouvir queixumes Do vate de Sion. Em breve os monges Lamentosas canes aos ceus erguendo, Sua voz uniro voz desse orgam, E os sons e os cchos reboar no templo. Mudo o cro depois, neste recinto Dentro em bem pouco reinar silencio, O silencio dos tumulos, e as trevas Cubriro por esta rea a luz escassa Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas. Imagem da existencia!--Em quanto passam Os dias infants, as paixes tuas, Homem, qual ento s, so debeis todas: Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo Gemido do remorso, a qual lanar-se Vai, com rouco estridor, no antro da morte, L onde tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e no mais: as cas e rugas, Breve, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que o ar ferindo Se esvau pelo espao immensuravel. E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro Cortou a penedia; e o canto enorme. Polido alveja alli no espesso panno Do muro collossal, que ha visto as eras Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado: A faia e o sobro no car rangeram Sob o machado: a trave affeioou-se; L na cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas. Homem, do que s capaz! Tu, cujo alento, Se esve, como da cerva a leve pista No p se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra em que s estranho Sar fazes as moles seculares, Que por ti, morto, fallem: ds na ida Eterna durao s obras tuas! Tua alma immortal, e a prova a dste! VI. Anoiteceu:--nos claustros resoando As pisadas dos monges ouo: eis entram; Eis se curvaram para o cho beijando O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a! Igual vos cubrir a cinza um dia, Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto a pedra do tumulo. Se-lo-ia Mais se do justo s a herana fora; Mas tambem ao malvado dada a campa. E o criminoso dormir quieto Entre os bons sotterrado!--Oh no! em quanto No templo ondeam silenciosas turbas, Exultaro do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais mpio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que oraes apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta s lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz soltaram De consolo palavra, ou de esperana: Sim:--malvados tambem ho-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus, qual vai sumindo Nos mysterios da campa a humanidade. Porm a turba esvae-se: ermam bem poucos Do templo na amplido: s l no fundo De affumada capella, o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um corao que espera, e no mentidas De labios de impostor, que engana as turbas Com seu meneio hypocrita, calcando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Ento exultaro os bons, e o mpio, Que passou, tremer. Em fim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem-se verter no sussurrar das praas, E pela galil s ruge o vento. Em trevas no ficou silenciosas O sagrado recinto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta l da cornija; pelas fendas Dos sepulchros deslisa um fumo espesso, Onda pela nave--esvi-se: um longo Suspiro no se ouviu!--Olhai! l se erguem De umas espectros palidos, medonhos, A quem bao claro da luz dos mortos Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem Radiosos espiritos que o premio Da virtude, nos ceus, ho recebido: Alli treme ante o pobre o rico, e o forte Ante o humilde, que nelle os olhos fita Severo:--oh que tormento! infernaes dores So doces para o mu, a par do aspecto Do bom, que mudo lhe recorda os crimes. Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas Ainda habita o remorso. Embalde, espectro, Te curvas ante as aras que insultaste: Debalde imploras o perdo celeste. Expiraste: o perdo morreu comtigo. Infeliz para sempre, a mo levanta A essa fronte gelada; entre teus olhos De azulado fulgor ampla rajada Toca--eterno signal que no perverso Do cherubim da morte a dextra estampa: Toca-a... Deus reprovou-te; a herana tua Volveu-se em maldico: luz de esperana Para ti apagou-se: o abysmo evoca O filho seu; despenha-te no abysmo! VII. Vaga meditao onde arrojaste Minha imaginao!--s horas mortas De alta noite, no templo solitario, E em congresso de mortos, quando o espanto Os resguarda co'as azas acurvadas Da vista do que vive!--Alli corria Minha mente, qual vaga a mente do homem, Que em febre ardente desvairou por sonhos, Onde se ajunctam troos de existencias, Em nebuloso quadro; ou como ondea, Entre a esperana e o susto, o moribundo, A quem do passamento o vu j cinge A amarellada fronte, e a quem j pesam Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa Do anjo da morte o resonante grito. VIII. Mas troa a voz do monge, e no meu seio O corao bateu. Eia, retumbem Pela abobada aguda os sons dos psalmos, Que em dia de afflico ignoto vate Teceu, banhado em dr: talvez foi elle O primeiro cantor que em varias cordas, sombra das palmeiras da Idumea, Soube entoar melodioso um hymno. Deus inspirava ento os trovadores Do seu povo querido, e a Palestina, Rica dos meigos dons da natureza, Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo. Virgem o genio ainda, o estro puro Louvava Deus somente, luz da aurora, E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron:--agora o genio morto Para o Senhor, e os cantos dissolutos Do lodoso folguedo os ares rompem, Ou sussurram por paos de tyrannos, Assellados de putrida lisonja, Por preo vil, como o cantor que os tece. IX. _O Psalmo._ Quanto grande o meu Deus!... T onde chega O seu poder immenso! Elle abaixou os ceus, desceu, calcando Um nevoeiro denso. Dos cherubins nas azas radiosas Sentado elle voou: E sobre turbilhes de rijo vento O mundo rodeou. Se lana terra o olhar, a terra treme, E os mares assustados Bramem ao longe, e os montes lanam fumo, Da sua mo tocados. Se pensou no Universo, ei-lo patente Todo perante o Eterno: Se o quiz, o firmamento os seios abre, Abre os seios o inferno. Dos olhos do Senhor, homem, se podes, Esconde-te um momento: V onde encontrars logar que fique Da sua vista isento: Sobe aos ceus, transpe mares, busca o abysmo, L teu Deus has-de achar; Elle te guiar, e a dextra sua L te ha-de sustentar: Desce sombra da noite, e no seu manto Involver-te procura; Mas as trvas para elle no so trvas; Nem a noite escura. No dia do furor, em vo buscras Fugir ante o Deus forte, Quando do arco tremendo, irado, impelle Setta em que pousa a morte. Mas o que o teme dormir tranquillo No dia extremo seu, Quando na campa se rasgar da vida Das illuses o vu. X. Callou-se o monge: sepulchral silencio sua voz seguiu-se: e um som soturno De orgam partiu-o; som que assemelhava O suspiro saudoso, e os ais de filha, Que chora solitaria o pe, que dorme Seu ultimo, profundo e eterno somno. Harmonias depois soltou mais doces O instrumento suave; e ergueu-se o canto, O lamentoso canto do propheta, Da patria sobre o fado. Elle, que o vra, Sentado entre ruinas, contemplando Seu avto esplendor, seu mal presente, A quda lhe chorou: l na alta noite, Modulando o Nebel, via-se o vate Nos derrubados porticos, abrigo Do immundo stellio e gemedora poupa, Extasiado--e a lua scintillando Na sua calva fronte, onde pesavam Annos e annos de dor: ao venerando Nas encovadas faces fundos regos Tinham aberto as lagrymas: ao longe, Nas margens do Kedron, a ra grasnando Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo Era Sion!--o vasto cemiterio Dos fortes de Israel. Mais venturosos Que seus irmos, morreram pela patria; A patria os sepultou dentro em seu seio: Elles, em Babylonia, as mos em ferros, Passam de escravos miseranda vida, Que Deus pesou seus crimes, e, ao pes-los, A dextra lhe vergou. No mais no templo A nuvem repousra, e os ceus de bronze Dos prophetas aos rogos se amostravam, O vate de Anathoth a voz soltra Entre o povo infiel, de Eloha em nome: Ameaas, promessas, tudo inutil; De ferro os coraes no se dobraram. Vibrou-se a maldico: bem como um sonho Jerusalem passou: sua grandesa Somente existe em derrocadas pedras. O vate de Anathoth, sobre seus restos, Com tal lamento se doeu da patria: Canto de morte alou: da noite as larvas O som lhe ouviram: squallido esqueleto, Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos Do portico do templo erguia um pouco, Alvejando, a caveira:--era-lhe alivio Do sagrado cantor a voz suave Desferida ao luar, triste, no meio Da vasta solido que o circumdava: O propheta gemeu: no era o estro, Ou o vivido jbilo que outrora Inspirra Moyss: o sentimento Fui sim pungente do silencio e morte, Que da patria lhe fez sobre o cadaver A elegia da noite erguer, e o pranto Derramar da esperana e da saudade. XI. _A Lamentao._ Como assim jaz e solitaria e quda Esta cidade outrora populosa! Qual viuva ficou e tributaria A senhora das gentes. Chorou durante a noite: em pranto as faces Sosinha, entregue dr, nas penas suas Ninguem a consolou: os mais queridos Contrarios se volveram. As amplas ruas de Sion so ermas, E cubertas de relva: os sacerdotes Gemem: as virgens pallidas suspiram Involtas na amargura. Dos filhos de Israel nas cavas faces Est pintada a macilenta fome; Mendigos vo pedir, pedir a estranhos, Um po de infamia eivado. O tremulo ancio, de longe, os olhos Volta a Jerusalem, della fugindo; V-a, suspira, ce, e em breve expira Com seu nome nos labios. Que horror!--as proprias mes os seus filhinhos Despedaaram: barbaras quaes tygres, Os sanguinosos membros palpitantes No ventre sepultaram. Grande Deus, nosso opprobrio olha piedoso! Cessa de Te vingar! V-nos escravos, Servos de servos em paiz estranho; Adoa nossos males! Acaso sers Tu sempre inflexivel? Esquecste de todo a nao tua? O pranto dos hebreus no Te commove? s surdo a seus lamentos? XII. Doce era a voz do velho: o som do Nablo Sonoro: o ceu sereno: clara a terra Pelo brando fulgor do astro da noite: E o propheta parou: erguidos tinha Os olhos para o ceu, onde buscava Um raio de esperana e de conforto: E elle calra j, e ainda os ecchos, Entre as minas sussurrando, ao longe Iam os sons levar de seus queixumes. XIII. Chro piedoso, o chro consagrado s desditas dos seus. Honra ao propheta! Oh margens do Jordo, paiz to lindo, Que fostes e no sois, tambem suspiro Dodo vos consagro!--Assim fenecem Imperios, reinos, solides tornados!... No:--nenhum deste modo: o peregrino Pra em Palmyra e pensa: o brao do homem A sacudiu terra, o fez dormissem O seu ultimo somno os filhos della-- E elle o veio dormir pouco mais longe: Mas se chega a Sion treme, enxergando Seus lacerados restos. Pelas pedras, Aqui e alli dispersas, ainda escripta Parece vr-se uma inscripo de agouros, Bem como aquella que aterrou um mpio Quando, no meio de ruidosa festa, Blasphemava dos ceus, e mo ignota O dia extremo lhe apontou de crimes. A maldico do Eterno est vibrada Sobre Jerusalem!--Quanto terrivel A vingana de Deus! O Israelita, Sem patria, e sem abrigo, vagabundo, Odio dos homens, neste mundo arrasta Uma existencia mais cruel que a morte, E que vem terminar a morte e inferno. Desgraada nao!--aquelle solo Onde manava o mel, onde o carvalho, O cedro e a palma o verde, ou claro ou torvo, To grato vista, em bosques misturavam: Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham Crescimento espontaneo entre as roseiras, Hoje, campo de lagrymas, s cria Humilde musgo de escalvados cerros. XIV. Ide vs a Mambr:--l, bem no meio De um valle, outrora de verdura ameno, Erguia-se um carvalho magestoso: Debaixo de seus ramos, largos dias Abraho repousou: na primavera Vinham os moos adornar-lhe o tronco De capellas cheirosas de boninas, E coras gentis traar-lhe em roda. Nasceu com o orbe a planta veneravel, Viu passar geraes, julgou seu dia Final fosse o do mundo, e quando airosa Por entre as densas nuvens se elevava, Mandou o Nume aos aquiles rugssem. Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco, Murcharam-se cando, e o rei dos bosques Servio do pasto aos tragadores vermes: Deus estendeu a mo:--no mesmo instante A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros Da Palestina os platanos frondosos No mais cresceram, como d'antes, bellos: O armento, em vez de relva, achou nos prados Somente ingratas, espinhosas urzes. No Golgotha plantada, a Cruz clamra Justia: a seu clamor horrido espectro No Moriah sentou-se; era seu nome Assolao--e despregando um grito, Cau com longo som de um povo a campa. Assim a herana de Judah, outrora Grata ao Senhor, existe s nos ecchos Do tempo que j foi, e que ha passado Como hora de prazer entre desditas. Minha Patria onde existe? l somente! Oh lembrana da Patria acabrunhada Um suspiro tambem tu me has pedido: Um suspiro arrancado aos seios d'alma Pela offuscada gloria, e pelos crimes Dos homens que ora so, e pelo opprobrio Da mais illustre das naes da terra! A minha triste Patria era to bella, E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro E o sabio e o homem bom acol dormem, Acol, nos sepulchros esquecidos, Que a seus netos infames nada contam Da antiga honra e pudor e eternos feitos. O escravo portuguez agrilhoado Carcomir-se-lhes deixa juncto s lousas Os decepados troncos desse arbusto, Por mos delles plantado liberdade, E por tyrannos derrubado em breve, Quando patrias virtudes se acabaram, Como um sonho da infancia. O vil escravo Immerso em vicios, em bruteza e infamia No erguer os macerados olhos Para esses troncos, que destroem vermes Sobre as cinzas de heres, e, acceso em pejo, No surgir jmais?--No ha na terra Corao portuguez, que mande um brado De maldico atroz, que v cravar-se Na vigilia e no somno dos tyrannos, E envenenar-lhes o prazer nos braos Das prostitutas vs, e em seus banquetes De embriaguez, lanar fel e amarguras? No!--Bem como um cadaver j corrupto, A nao se dissolve: e em seu lethargo O povo, involto na miseria, dorme. XV. Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia Terei de erguer Patria hymno de morte, Sobre seus mudos restos vagueando! Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta Minhas preces e lagrymas:--se em breve, Qual jaz Sion, jazer deve Ulissea: Se o anjo do exterminio ha-de risc-la Do meio das naes, que d'entre os vivos Risque tambem meu nome, e no me deixe Na terra vaguear, orpham de Patria. XVI. Cessou da noite a gro solemnidade Consagrada tristeza, e a memorandas Recordaes:--os monges se prostraram A face unida pedra: a mim, a todos Correm dos olhos lagrymas suaves De compunco. Atheu, entra no templo; No temas esse Deus, que os labios negam, E o corao confessa: a corda do arco Da vingana, em que a morte se debrua Frouxa est; Deus bom; entra no templo. Tu para quem a morte ou vida frma, Frma smente de mais puro barro, Que nada crs, mas nada esperas, olha, Olha o conforto do christo: se o calis Da amargura a provar os ceus lhe deram, Elle se consolou: balsamo sancto Dentro no corao a f lhe entorna "Deus piedade ter!"--Eis seu gemido: Porque a esperana lhe sussurra emtorno: "Aqui--ou l--a Providencia justa." Atheu, a quem o mal fizera escravo, Teu futuro qual ? Quaes so teus sonhos? No dia da afflico emmudeceste Ante o espectro do mal. E a quem alaras O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas No altera por ti?--Ao ar, que some Pela sua amplido as queixas tuas? Aos rochedos alpestres, que no sentem, Nem sentir podem teu gemido inutil? Tua dr, teu prazer existem, passam, Sem porvir, sem passado, e sem sentido. Nas angustias da vida, o teu consolo O suicidio s, que te promette Rica messe de goso, a paz do nada!-- E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso, No limiar da morte indo assentar-te! Alli grita uma voz no ultimo instante Do passamento: a voz atterradora Da _Consciencia_ ella: e has-de escut-la Mau grado teu: e tremers em sustos, Desesperado aos ceus erguendo os olhos Irados, de travez, amortecidos-- Aos ceus, cujo caminho a Eternidade Co'a vagarosa mo te vai cerrando, Para guiar-te solido das dores, Onde maldigas teu primeiro alento, Onde maldigas teu extremo arranco, Onde maldigas a existencia e a morte. XVII. Calou tudo no templo: o ceu puro: A tempestade ameaadora dorme. No espao immenso os astros scintillantes O Rei da creao louvam com hymnos, No ouvidos por ns, nas profundezas Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo, Ante milhes de estrellas, que recamam O firmamento, ajunctar seu canto Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa Mortal, no meio da harmonia etherea, No concerto da noite? Oh, no silencio, Eu pequenino verme irei sentar-me Aos ps da Cruz, nas trvas do meu nada. Assim se apaga a lampada nocturna Ao despontar do sol o alvor primeiro: Por entre a escurido deu claridade, Mas do dia ao nascer, que j rutila, As torrentes de luz vertendo ao longe, Da lampada o claro sumiu-se inutil Nesse fulgido mar, que inunda a terra. _Lisboa_--1829. *NOTAS.* NOTAS. Eis o poema da minha mocidade: so os unicos versos que conservo desse tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje me dissessem: faze um poema de quinhentos versos cerca da Semana Sancta, eu olharia ao primeiro aspecto esta proposio como um absurdo: entretanto eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. No esta a primeira das minhas contradicces, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia, que no seja a ultima. Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta no sau semelhante Semana Sancta da Religio. O que esta, de feito?--Um poema representado, um drama, cuja essencia um facto universal, o maior de todos; o que veio mudar idas, civilisao, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu foras para o tractar? No por certo; porque at hoje s houve um Klopstock; talvez s um haver at a consummao dos seculos. Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanas do fucturo; chorei sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos infernos; saudei o sol, e as trvas da noite; em tudo, e em toda a parte busquei inspiraes, menos onde as devia buscar; por que acima da minha comprehenso estava o meu objecto--a redempo, e as suas consequencias. Foi disto justamente que eu no tractei; e era disto que eu devia tractar, se o podesse ou soubesse fazer. Porque, pois, no acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fogueira! Porque publco um poema falho na mesmissima essencia da sua concepo! Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque no ha poeta, que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trvas o fructo das suas vigilias. [Pag. 9.] _A loucura da Cruz no morreu toda_ "Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est". _Paul. Ad Corinth. 1.--1._ [Pag. 15.] _ignoto vate_ _Teceu_ Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha cerca disso muita incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel que alguns lhe no pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem alluses a pochas mais recentes. Verdade que se chegou a crer heretica semelhante opinio; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo, julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro foi quem reuniu estes hymnos, e nessa colleco provavel fizesse entrar todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso. [Pag. 16.] _E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron_ Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao occidente de Jerusalem. Cumpre no a confundir com a outra Bethoron ou Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou Naplusa. [Pag. 16.] _O Psalmo._ Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et commota sunt, quoniam iratus est eis. Ascendit fumus in ira ejus: et ignis facie ejus exarsit: carbones succensi sunt ab eo. Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus. Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum. _Psalm. 17--v. 8--9--10--11._ Qu ibo a spiritu tuo? et qu facie tua figiam?-- Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades. Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris: Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua. Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in deliciis meis. Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur: sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus. _Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12._ ------- arcum suum tetendit et paravit illum. Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit. _Psalm. 7--v. 13--14._ [Pag. 18.] _------ e um som soturno Do orgam partiu-o:_ O orgam um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos. Os protestantes, apartando-se da communho romana, e fazendo voltar o culto quasi simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam to bem s idas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno. Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos. [Pag. 18.] _Modulando o Nebel_ O _Nebel_, que os gregos traduzem por _Psalterion_ ou _Nablon_, era entre os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os christos o orgam. A sua frma triangular, e o ser instrumento de cordas, fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica _Nebel_, umas vezes por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a Dissertao de Calmet cerca da musica dos hebreus. [Pag. 18.] _Do immundo Stellio_ O Stellio o lagarto da 1. especie, ou a salamandra de Lacepede. _Stellio_ manibus nititur et moratur in aedibus regis. _Prov. 30 v. 28_--Migale, et chamaeleon, et _stellio_, et lacerta, et talpa. _Levit. 11--v. 30._ [Pag. 19.] _Nas margens do Kedron a ra grasnando_ A torrente de _Kedron_, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao oriente da cidade, scca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas so torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sa como--_torrente da tristeza_--. Alguem lhe chamou--_torrente dos cedros_, tomando a palavra hebraica _Kedron_ pelo plural grego _Kedron_. [Pag. 19.] _O vate de Anathoth_ Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in Anathoth, in terra Benjamim. _Jer. 1--1._ [Pag. 19.] _Entre o povo infiel, de Eloha em nome_ _Eloha_ ou _Elah_--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra asss commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural _Elohim_ ou _Elahim_ para significar, ora o _Deus uno_, ora os deuses dos pagos. Consulte-se Volney, _Recherches sur l'histoire ancienne._ Cap. 17. [Pag. 19.] _Inspirra Moyss_ Alluso ao cantico depois da passagem do mar roxo. [Pag. 20.] _A Lamentao._ Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo. Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et facti sunt ei inimii. Viae Sion lugent, e quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae, et ipsa oppressa amaritudine. _Threni c. 1--v. 1--2--4._ Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque piro cibo ad refocilandum animam. _C. 1--v. 11._ A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane. _Oratio Jerem. 6._ Jacuerunt in terra foris puer, et senex. _Threni c.--v. 21._ Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum in contritione filiae populi mei. _Thren. 4.--v. 10._ Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium nostrum. Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos. Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum. Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine dierum? _Orat. Jer. v. 1--2--8--10._ [Pag. 22.] _Bem como aquella que atterrou um mpio._ Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque secundm suam bibebat aetatem. Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem, ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae. Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: _Mane_, _Thecel_, _Phares_. Et haec est interpretatio sermonis: _Mane_: numeravit Deus regnum tuum et complevit illud. _Thecel_: appensus es in statera, et inventus es minus habens. _Phares_: divisum est regnum tuum, et datum est Medis, et Persis. _Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28._ [Pag. 23.] _Hoje, campo de lagrymas, s cria Humilde musgo de escalvados cerros._ Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo. Os viajantes modernos no-la descrevem como uma regio arida e inculta. O despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos arabes; so em grande parte causa da aniquilao da agricultura na Palestina; porm a sua esterilidade no se pde attribuir, por certo, a uma causa politica. Os sectarios do Crucificado no podem deixar de vr neste phenomeno os effeitos da maldico de Deus sobre a terra que bebeu o sangue do _Filho do Homem_. [Pag. 23.] _Ide vs a Mambr:_ O valle de Mambr estava situado juncto de Kariath-Arb [Hebron] na tribu de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abraho, que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de Constantino, o tornava notavel. cerca desta arvore clebre existem muitas tradies entre os Judeus; e at para os christos dos primeiros seculos era o valle de Mambr um logar de devoo e romagem. Sozomeno nos descreve o _Valle de Terebintho_ como um sitio de festivas reunies, e foi a sua narrao quem suscitou este pedao de Poema. [Pag. 23.] _na primavera Vinham os moos adornar-lhe o tronco_ Aqui [em Mambr] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalm quasi 250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. _Sozom. Histor. Eccles._ [Pag. 24.] _No Golgotha plantada a cruz clamra_ O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta palavra significa: _Logar onde repousam os craneos dos mortos._ [Pag. 24.] _No Moriah sentou-se:_ O monte Moriah, onde estava o templo de Salomo, levantava-se no meio de Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar estivera Abraho para sacrificar seu filho.--_Calmet Diction._ A HARPA DO CRENTE. TENTATIVAS POETICAS PELO AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA. SEGUNDA SERIE. LISBOA--1838 NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS. _Rua direita do Arsenal--n. 55._ *A Arrabida.* A RODRIGO DA FONSECA MAGALHES, ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA, _Em testemunho da sincera amizade,_ Offerece o Auctor. A Arrabida. [1830.] I. Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! Salve, oh terra de paz, deserto sancto, Onde no chega o sussurrar das turbas! Slo sagrado a Deus, podesse o bardo Ser um dos teus, e no voltar ao mundo! II. Suspira o vento no alamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra Nos rochedos da concava bahia: Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro, Insondado oceano, e o ceu ceruleo Se abraam no horizonte: immensa imagem Da eternidade e do infinito, salve! III. Oh, como surge magestosa e bella, Com vio da creao, a naturesa, No solitario valle!--E o leve insecto, E a relva, e os matos, e a fragrancia pura Das boninas da encosta esto contando Mil saudades de Deus, que os ha lanado, Com mo profusa, no regao ameno Da solido, onde se esconda o justo. E l campeam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que sancto: Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando at o mar o ultimo abrigo Da crena viva, da orao piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes. Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o claro; a brisa esvae-se Por esses matos de alecrim flordo, Embalsamando o ar de brando aroma: O roco da noite rosa agreste No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dar um dia! Formoso ermo do sul, outra vez, salve! IV. Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que verdecem, Ricas d'encantos, co'a estao propicia; Suavissimo aroma, que manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solido subindo aos ares, s digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vs filhas da espessura, Que s teceis da natureza os hymnos; O que cr, o cantor, que foi lanado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixes e opprobrio, E vr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma s vez pura saudar-lha. Comvosco eu sou maior: mais longe a mente Pelos seios dos cus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solido solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e v-se impressa A dextra sua em multiforme quadro. V. Escalvado penedo, que repousas L no cimo do monte, ameaando Ruina s matas de alecrim e murta, Que nesta encosta ondeam, meneadas Pelo vento do sul, foste j lindo, J te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A tua formosura: as grossas chuvas, Despedidas das nuvens, se arrojaram Sobre ti, oh rochedo, arrebatando A terra e o vio, que te ornava o cimo. Eis-te n esqueleto!--o sol queimou-te: Tua alvura passou: to negro s hoje, Quanto de mar erguido escuras vagas. Cveira da montanha, ossada immensa, tua campa o ceu: sepulchro o valle Um dia te ser. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expanso dos volces, e o mar bramindo, Lanar praia vagalhes cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te Do vasto dorso, o fundo deste valle Te ve servir de tumulo: e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os freixos, Arrastados por ti l da collina, Comtigo ho-de jazer.--De novo a terra Te cubrir o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor ho-de adornar-te: E tu, ora medonho, e n, e triste, Ainda bello sers, vestido e alegre. Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle Dos tumulos cair; quando uma pedra Os ossos me esmagar, se me fr dada, No mais reviverei: no mais meus olhos Vero o pr do sol, em dia estivo, Se em turbilhes de purpura, que ondeam Pelo extremo dos cus sobre o occidente, Ve provar que um Deus ha a estranhos povos, E alem das ondas tremulo sumir-se; Nem, quando, l do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Nem mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que vla o criminoso, A quem ntima voz rouba o socego, E em que o justo descana, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso. VI. Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, ento qudas, do oceano, Eu tambem o louvei, sem ser um justo: E meditei--e a mente extasiada Deixei correr pela amplido das ondas. Como abrao materno, era suave A aragem fresca do car das trvas, Em quanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhes d'estrellas. Tudo calado estava: o mar somente As harmonias da creao soltava, Em seu rugido; e o freixo do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos O pranto me correu, sem que o sentisse, E aos ps de Deus se derramou minha alma. VII. Oh, que viesse o que no cr, comigo, vecejante Arrabida, de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movedias ramas, que povoa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espao oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:--elle chorra, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vo orgulho. VIII. aqui neste valle, ao qual no chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O corao, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado: aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte. Essas penhas, que, l no alto da encosta, Negras, despidas, dormem solitarias, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico, e o repouso To desejado do que em Deus confia. Bem semelhante paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas serranias, o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz o cu e a terra. Como tu vens cercado de esperana, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso reca horrorisado: Aps si volve os olhos; na existencia Deserto rido s descobre ao longe, Onde a virtude no deixou um trilho. Mas o justo chegando meta extrema, Que separa de ns a eternidade, Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz l dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueou na terra, Sem encontrar um corao de fogo, Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por l busca; e quando as eras Vierem juncto s cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondra a inveja, Elle no erguer a mo mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justia, gloria, amor, saudade, tudo, Ao p da sepultura, som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saborea, Entre os braos, da morte o extremo somno, J no dado ao filial suspiro: Em vo o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruado, Rega de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra sempre fria, E para sempre as flores se murcharam, IX. Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma, Aspirando o futuro alm da vida, E um halito dos ceus, gemer, atada columna do exilio, a que se chama, Em lingua vil e mentirosa, o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no corao, bem juncto Com minha f, meu unico thesouro. Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto?--Aqui no cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada, por mo do homem, Que lhe diga: s escrava: e erga um ferro, E lhe decepe os troncos. Como livre A vaga do oceano, livre no ermo A bonina rasteira, e o freixo altivo: No lhes diz: nasce aqui, ou l no cresas: Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou; se a flor pendida murcha, que o rocio no desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida. Ceu livre, terra livre, e livre a mente, Paz ntima, e saudade, mas saudade Que no doe, que no mirra, e que consola So as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram. Ahi, na branda encosta, hontem de noite, Alvejava por entre as azinheiras Do solitario a habitao tranquilla: E eu vagueei por l: patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperana, Sob as azas de Deus, luz dos astros, Em leito, duro sim, no de remorsos, Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia!--A leve aragem lhe ondeava As raras cas na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo atravez passava um raio Da lua--astro de paz, astro que chama Os olhos para o ceu, e a Deus a mente-- E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemo o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades; Comparei o deserto silencioso Ao perptuo ruido que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paos dos reis; e condo-me Do corteso suberbo, que s cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldices e perennal remorso. Gloria!--A sua qual ?--Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vo cingir-lhe a fronte altiva, Ao som do choro da viuva, e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens--seus irmos--flagella e opprime. L o filho do p se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar, para traga-lo, Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagem de marmore, que esconde O cadaver do grande, mais duravel Do que esse cho sem inscripo, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos ps do throno Do Omnipotente, a demandar justia Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos. X. Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixes, e de amarguras! Tu l ests, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeando Os theatros, e os paos, e o ruido Das carroas dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os praseres de uma vida Tempestuosa, e o tropear contnuo Dos frvidos ginetes, que alevantam O p e o lodo corteso das praas; E as geraes corruptas de teus filhos L se revolvem, qual monto de vermes Sobre um cadaver putrido!--Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dr e o goso, Honra, infamia, pudor, e impudicicia, Ceu e inferno, que s tu?--Escarneo ou gloria Da humanidade?--O que o souber que o diga! Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas rua, praa, ao templo, Que a noite sorve, e que vomita o dia, Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixesa extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos ps de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram; E depois sobre o nada adormecendo. V-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos, nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abenoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente, Em seus terrores, o senhor das turbas. Passae depois. Se a mo da Providencia Esmigalhou a fronte tyrannia; Se o dspota cau, e est deitado No lodaal da sua infamia, a turba L vai buscar o sceptro dos terrores, E diz-- meu--; e assenta-se na praa; E involta em roto manto, e julga e reina. Se um mpio, ento, na affogueada boca De volco popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sobe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas alm: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolao; e se amontoam vagas Desse mar d'abjeco, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos, Cava fundo da Patria a sepultura, Onde, abraando a gloria do passado E do futuro a ultima esperana, As esmaga comsigo, e ri morrendo. Tal s cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paos sumptuosos, Teu ouro, teu poder:--sentina impura Da corrupo, eu no serei teu bardo! XI. Cantor da solido, eu me hei sentado Juncto do verde cespede do valle; E a paz de Deus do mundo me consola. Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do ceu, por este sitio, De virtudes depois to rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vo cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compunco apagam Da lembrana de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no p. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que espirando perdoava, o Justo Que entre os humanos no achou piedade. Religio! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustia, Tu consolas aquelle, que ouve o verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraa no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao p desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortia, e a fervorosa E contnua orao foram cerrando Nos coraes dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que no cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, At sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagem tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo. Eremiterio antigo, oh se podesses Dos annos que l vo contar a historia; Se ora, voz do cantor, possivel fosse Transsudar desse cho, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos ps da cruz!... se vs podesseis, Broncas pedras, fallar, o que dirieis! Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da magoa, ou do remorso as longas noites! Aqui veio talvez buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trvas do infortunio: Aqui, talvez, gemeu o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero: aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram Suas vestes mortaes, nenhum vestigio Resta dos nomes seus.--E isso que importa, Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes Elle contou, para as pagar com gloria? Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda, Que dos montes alm conduz ao valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida, em mar de escolhos: Ao christo infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe: a patria tua l no ceu:--abraa-te comigo: Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dr, as mos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que conforto Dos que aos ps deste symbolo da esp'rana Vem derramar seu corao afflicto: do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio. XII. Feliz da terra, os monges no maldigas; Do que em Deus confiou no escarneas!-- Folgando segue a trilha, que ha juncado, Para teus ps, de flores a fortuna, E sobre a morta crena, em paz descana. Que mal te faz, que goso vae roubar-te O que ensanguenta os ps nas bravas urzes, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma orao erguida, Nas solides, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos cus, s Deus escuta? Oh, no insultes lagryimas alheias, E deixa a f ao que no tem mais nada!... E se estes versos te contristam--rasga-os. Teus menestreis te vendero seus hymnos, Nos banquetes opiparos, em quanto O negro po repartir comigo, Seu trovador, o pobre anachoreta, Que no te inveja as ditas, como aos bardos Do prazer dissoluto eu no invejo Essas cras, que s vezes cingem frontes, Onde, por baixo, se escreveu--_Infamia!_-- *A Voz.* A Voz. to suave ess'hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia; Se em alcants marinhos Nas rochas assentado, O trovador medita, Em sonhos enleiado! O mar azul se encrespa Co' a vespertina brisa, E no casal da serra A luz j se divisa. E tudo em roda cala, Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso, Quebrando em furna algosa. Alli folga o poeta Nos desvarios seus; E nessa paz que o cerca Bemdiz a mo de Deus. Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente; E sbe, e cresce, e immensa, Nos ceus negra fluctua, E o vento das procellas J varre a fraga nua. Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor: Do vagalho nas ribas Expira o vo furor. E do poeta a fronte Cubriu vu de tristesa: Partiu-se luz do raio Seu hymno naturesa. Feia alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento. Era blasphema ida, Que triumphava em fim: Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim: "Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas; E o fremito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga; Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso, Typo da vida do homem, do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida. Se ergueste a Deus um hymno Em dia de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura, Seu nome no maldigas, Quando se turba o mar: No Deus, que pae, confia, Do raio ao scintilar. Elle o mandou:--a causa Disso o universo ignora-- E mudo est:--seu nume, Como o universo, adora!" * * * * * Oh sim: torva blasphemia No manchar seu canto! Brama procella embora; Pese sobre elle o espanto; Que de su' harpa os hymnos Derramar o bardo, Aos ps de Deus, qual oleo De recendente nardo. _Lea da Palmeira 1835_ *A Victoria e a Piedade.* A Victoria e a Piedade. Eu nunca fiz soar meu canto humilde Nos paos dos senhores: Eu jmais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se porta do abastado, O qual com ouro paga a alha infamia, O cantico aviltado. O filho das canes, da gloria o bardo No manchou o alaude; O ingenho seu ha consagrado Patria; Seu canto da virtude. Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste Nos dias de afflico, Qual solto vento em areal deserto, Livres teus cantos so. No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente: Pela terra natal, na flor dos dias, Eu suspirei ausente. O solo do desterro, ah, quanto ingrato para o foragido; Ennevoado o ceu; arido o prado; O rio adormecido! Eu l chorei, na idade da esperana, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu;--e antes de tempo Ergueu hymnos morte. E que infeliz ha hi, a quem no ria Da sepultura a imagem? Alli que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem. Mas, quando o pranto me queimava as faces, O pranto da saudade, Deus escutou dos profugos as preces, Teve de ns piedade. Armas!--bradaram do desterro os filhos: Bem-disse-os o Senhor: E vencer ou morrer juncto com elles Jurou o trovador. Pelas vagas do mar correndo affoutos, gloria nos votmos; E, nos campos nataes, pendo invicto Os livres, ns, plantmos. Fanatismo, ignorancia, odio fraterno; De fogo cus toldados; A fome, a peste, o mar avaro, as hostes De innumeros soldados; Um futuro sem raio de esperana; Ouvir o vo lamento De infante, a vida incerta conduzido Por mo do soffrimento; Comprar com sangue o po, com sangue o fogo Em regelado inverno; Eis contra o que, por mezes de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas constancia e valor tudo ha vencido: Ganhou-se eterna gloria; E dos tyrannos apesar, colhemos Os louros da victoria. Tea-se, pois, o cantico subido Aos fortes vencedores. Livres somos!--Sumiram-se qual fumo Da Patria os oppressores. Sobre essa encosta, sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canho troou, por mais de um anno, Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alade, irei sentar-me; Pedir inspiraes A amiga noite, o genio que me ensina Suavissimas canes. Reina em silencio a lua, o mar no brame, Os ventos nem bafejam..... Mas que ossadas so estas, que na encosta, Aqui e alli, alvejam? Esses?--So ossos vs, que no resguarda O sussurrar da gloria; Herdeiros s das maldices das gentes, Das maldices da historia: So os restos dos homens, que luctaram, Valentes no seu crime, Contra ns, contra a mo da Providencia, Que os maus derruba e opprime. Mas quem por padro que aos evos conte, Seus feitos derradeiros! Quem dir--aqui dormem portuguezes; Aqui dormem guerreiros--? Quem vir na alta noite erguer por elles Resas de salvao? Quem ousar pedir para o vencido Um ai de compaixo? Viro, acaso, alevantar seus filhos O pranto solitario, Pelo que lhes legou de avs o nome Involto em vil sudario? Ser a esposa, que lhes cubra as cinzas Com orao piedosa? No!--nenhuma ousar dizer, chorando, Eu fui do escravo esposa. Ser a amante?--Em tremedaes a pura Rosa nascer no sabe: A mais bella paixo no de servos; Vil goso s lhes cabe. De me o amor tentra, unicamente, Sobre os corpos gelados, Vir chorar a esperana, em flor colhida, De seus annos cansados: Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito Do rude velador; Da noite os medos; de armas, j sem donos, Nas trvas o esplendor. Quem, pois, consolar gementes sombras, Que ondeam juncto a mim? Quem seu perdo da Patria implorar ousa, Seu perdo de Elohim? Eu:--o christo:--o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que no sei cuspir o fel da affronta Sobre uma ossada nua. O misero pastor desceu dos montes, Abandonando o gado, Para as armas vestir, dos cus em nome, Por phariseus chamado. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, no ns, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, A virtude insultando, ao crime incitas, Ds do furor o exemplo! Sobre os restos da Patria, tu bem creste Folgar de nosso mal, E, sobre as cinzas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu corao insipiente, Disseste--Deus no ha!-- Elle existe, malvado!--e ns vencemos: Treme.... que tempo j. Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes. Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdo, tambem, s cinzas de infelizes! Perdo--oh vencedores! No insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. Que resta aos desditosos?--Somno eterno, Da Patria a maldico, A justia de Deus, tremenda, ignota, E a humana execrao. Mas ns, saibamos esquecer os odios De guerra lamentavel; generoso o forte, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdo para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle mudo:--pedi-lo j no pde; O da-lo a ns deixou. Da lei a espada puna o criminoso, Que v a luz dos cus: O que legou terra o p da terra, Julga-lo cabe a Deus. E vs, meus companheiros, que no vistes Nossa inteira victoria, No precisaes do trovador o canto; Vosso nome da historia. Eu do vencido consolei a sombra; Eu perdoei por vs. Filhos da infamia os desgraados eram; Ricos de gloria ns. _Porto--Agosto de 1833_ NOTA. Este fragmento, que segue, e que servir para intelligencia dos precedentes versos, pertence a um livro j todo escripto no entendimento, mas de que s alguns capitulos esto trasladados ao papel. A guerra da restaurao de 1832 a 1833 o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo. Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de _D. Branca_, do _Cames_, de _Joo Minimo_; o Sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil de Mindello no tiveram um cantor; e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta poro de tanta riquesa poetica. Oxal que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca valia, no fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos ns temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de regra, tanto como poesia de politicos. _Fragmento._ O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginao: eu cria vr ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos feridos, o som das armas caindo-lhes das mos, o gemido doloroso e longo da sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os dentes me rangeram de clera, e a lagryma envergonhada de soldado me escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes cairam nesse dia! Eu ia amaldioar os cadaveres dos vencidos, que ainda por ahi jaziam; porm pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de expirarem, as idas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma s, como tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Ento ore a Deus por elles: antes de irmo de armas eu tinha sido christo; e Jesu-Christo perdora, entre as affrontas da Cruz, aos seus assassinos. A ida de perdo parecia me consolava da perda de tantos e to valentes amigos. Havia nessa ida torrentes de poesia; e eu te devi ento, oh crena do Evangelho, talvez a melhor das minhas pobres canes. (_Da Minha Mocidade--Poesia e Meditao Cap...._) A HARPA DO CRENTE. TENTATIVAS POETICAS PELO AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA. TERCEIRA SERIE. LISBOA--1838 NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS. _Rua direita do Arsenal--n. 55._ *Deus.* Deus. Nas horas do silencio-- meia-noite-- Eu louvarei o Eterno! Ouam-me a terra, e os mares rugidores, E os abysmos do inferno. Pela amplido dos cus meus cantos soem, E a lua prateada Pare no gyro seu, em quanto pulso Esta harpa, a Deus sagrada. Antes de tempo haver, quando o infinito Media a eternidade, E s do vacuo as solides enchia De Deus a immensidade, Elle existiu--em sua essencia involto; E, fra delle, o nada: No seio do Creador a vida do homem Estava ainda guardada: Ainda ento do mundo os fundamentos Na mente se escondiam Do Omnipotente, e os astros fulgurantes Nos cus no se volviam. Eis o Tempo, o Universo, o Movimento Das mos se do Senhor: Surge o sol, banha a terra, e desabrocha Uma primeira flor: Sobre o invisivel eixo range o globo: O vento o bosque onda: Retumba ao longe o mar: da vida a fora A naturesa anca! Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te, Ou cantar teu poder? Quem dir de Teu brao as maravilhas, Fonte de todo o ser, No dia da creao; quando os thesouros Da neve amontoaste; Quando da terra nos mais fundos valles As aguas encerraste?! E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, Com dextra poderosa, Fez, por lei immutavel, se librassem Na mole ponderosa? Onde existia ento? No typo immenso Das geraes futuras; Na mente do meu Deus. Louvor a Elle Na terra e nas alturas! Oh, quanto grande o Rei das tempestades, Do raio, e do trovo! Quo grande o Deus, que manda, em secco estio, Da tarde a virao! Por sua Providencia nunca, embalde, Zumbiu minimo insecto; Nem volveu o elephante, em campo esteril, Os olhos, inquieto. No deu Elle avezinha o gro da espiga, Que ao ceifador esquece; Do norte ao urso o sol da primavera, Que o reanima e aquece? No deu Elle gazella amplos desertos, Ao cervo o bosque ameno, Ao flamingo os paues, ao tigre um antro, No prado ao touro o feno! No mandou Elle ao mundo, em lucto e trvas, Consolao e luz? Acaso, em vo, algum desventurado Curvou-se aos ps da cruz? A quem no ouve Deus? Smente ao mpio, No dia da afflico, Quando pesa sobre elle, por seus crimes, Do crime a punio. Homem, ente immortal, que s tu perante A face do Senhor? s a juna do brejo, harpa quebrada Nas mos do trovador! Olha o negro pinheiro, campeando Dos Alpes entre a neve: Quem arranca-lo de seu throno ousra, Quem destruir-lhe a seve? Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia Extremo Deus mandou! L correu o aquilo: fundas raizes Aos ares lhe assoprou. Suberbo, sem temor, sau na margem Do caudaloso Nilo, O corpo monstruoso ao sol voltando, Medonho crocodilo. De seus dentes em roda o susto mra: V-se a morte assentada Dentro em sua garganta, se descerra A boca affogueada. Qual duro arnez de intrepido guerreiro seu dorso escamoso; Como os ultimos ais de um moribundo Seu grito lamentoso: Fumo e fogo respira quando irado:-- Porm, se Deus mandou, Qual do norte impellida a nuvem passa, Assim elle passou! Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume; Perdoa ao teu cantor! Dignos de ti no so meus frouxos cantos; Mas so cantos de amor. Embora vs hypocritas te pintem Qual barbaro tyranno; Mentem, por dominar, com ferreo sceptro, O vulgo cego e insano. Quem os cr um mpio!--Arrecear-te maldizer-te, oh Deus: o throno dos despotas da terra Ir collocar nos cus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existencia Tranquillo, e sem terror, sombra posto Da tua Providencia. _Plymouth--Setembro de 1831._ *A Tempestade.* A ANTNIO FELICIANO DE CASTILHO. _Alma affinada pelas harpas de anjos; Rei das canes--entenders meu hymno!_ O Auctor. A Tempestade. Sibilla o vento:--os torrees de nuvens Pesam nos densos ares: Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas Pela extenso dos mares: A immensa vaga ao longe vem correndo, Em seu terror involta; E, d'entre as sombras, rapidas centelhas A tompestade slta. Do sol, no occaso, um raio derradeiro, Que, apenas fulge, morre, Escapa nuvem, que, appressada e espessa, Para apaga-lo corre. Tal nos affaga em sonhos a esperana, Ao despontar do dia, Mas, no acordar, l vem a consciencia Dizer que ella mentia. As ondas negro-azues se conglobaram; Serras tornadas so, Contra as quaes outras serras, que se arqueam, Bater, partir-se vo. Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume, Da naturesa aoite! Tu guias os bulces, do mar princesa; E teu vestido a noite! Quando no pinheiral, entre o granizo, Ao sussurrar das ramas, Vibrando sustos, pavorosa ruges, E assolao derramas, Quem porfiar comtigo, ento, ousara Da gloria e poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro, Turbar-se o claro rio? Quem me dera ser tu, por balouar-me Das nuvens nos castellos, E vr dos ferros meus, em fim, quebrados Os rebatidos los! Eu rodera, ento, o globo inteiro: Eu sublevra as aguas: Eu dos volces, com raios accendra Amortecidas frguas: Do robusto carvalho e sobro antigo Accurvaria as frontes; Com furaces, os areaes da Lybia Converteria em montes: Pelo fulgor da lua, l do norte No polo me assentra, E vra prolongar-se o gelo eterno, Que o tempo amontora. Alli eu solitario, eu rei da morte, Ergura meu clamor, E dissera: sou livre, e tenho imperio: Aqui, sou eu senhor! Quem se poder erguer, como estas vagas, Em turbilhes incertos; E correr, e correr--troando ao longe-- Nos liquidos desertos! Mas entre membros de lodoso barro A mente presa est!.... Ergue-se em vo aos cus:--precipitada, Rapido, em baixo d. Oh morte!--amiga morte!-- sobre as vagas, Entre escarceus erguidos, Que eu te invoco, pedindo-te feneam Meus dias aborridos: Quebra duras prises, que a naturesa Lanou a esta alma ardente; Que ella possa voar, por entre os orbes, Aos ps do Omnipotente: Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem Desa, e estourando a esmague; E a grossa proa, dos tufes ludibrio, Solta, sem rumo vague! Porm, no!--Dormir deixa os que me cercam O somno do existir: Deixa-os; vos sonhadores de esperanas Nas trvas do porvir. Dce me do repouso--extremo abrigo De um corao oppresso-- Que ao ligeiro prazer, dor canada Negas no seio accesso, No despertes--oh no--os que abominam Teu amoroso aspeito; Febricitantes, que se abraam, loucos, Com seu dorido leito! Tu, que ao misero ris com rir to meigo, Calumniada morte; Tu, que entre os braos teus lhe ds azilo Contra o furor da sorte; Tu que esperas s portas dos senhores; Do servo ao limiar; E eterna corres, peregrina, a terra, E as solides do mar, Deixa, deixa sonhar ventura os homens; J filhos teus nasceram: Um dia acordaro desses delirios, Que to gratos lhes eram. E eu, que vlo na vida,--e j no sonho, Nem gloria, nem ventura; Eu, que esgotei to cedo, at as fezes, O calis da amargura; Eu, vagabundo e pobre, e aos ps calcado De quanto ha vil no mundo, Morrer sentindo inspiraes de bardo, Do corao no fundo; Sem achar sobre a terra uma harmonia De alma, que a minha entenda; Porque seguir, curvado ante a desgraa, Esta espinhosa senda? Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa Fragor da tempestade; Psalmo de mortos, que retumba ao longe; Grito da eternidade!.... Pensamento infernal!--Fugir cobarde Ante o destino iroso? Lanar-me, involto em maldices celestes, No abysmo tormentoso? Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me Nas lagrymas da terra; Guardarei minha estancia attribulada, Com meu desejo em guerra. O fiel guardador ter seu premio, O seu repouso, em fim; E atalaiar o sol de um dia extremo Vir outro apoz mim. Herdarei o morrer!--Como suave Beno de pae querido, Ser o despertar; vr meu cadaver, Vr o grilho partido. Um consolo, entretanto, resta ainda Ao pobre velador: Deus lhe deixou, nas trvas da existencia, Doce amisade e amor. Tudo o mais Sepulchro, branqueado Por embusteira mo; Tudo o mais vos prazeres, que s trazem Remorso ao corao. Passarei minha noite a luz to meiga, At o amanhecer; At que suba patria do repouso, Onde no ha morrer. _A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Maro de 1853._ *O Soldado.* O Soldado. I. Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio: Dos campos, que elle rega, Mansissimo armentio: Roco matutino: Prados tao deleitosos: Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos: Terra da minha infancia: Tecto de meus maiores: Meu breve jardimzinho: Minhas pendidas flores: Harmonioso e sancto Sino do presbyterio: Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio, Onde os avs dormiram, E dormiro os paes; Onde eu talvez no durma, Nem rese, talvez, mais: Eu vos sado!--E o longo Suspiro amargurado Vos mando.-- quanto pde Mandar pobre soldado. Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vs j fiz soar Meus cantos dolorosos. Na proa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo; Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que s minora Sopro de tempestade; Mas que se irrita, e cresce, Quando tranquillo o mar; Quando da Patria o cu Cu puro vem lembrar, Quando, l no occidente, A nuvem vaporosa A frouxa luz da tarde Tinge de cr de rosa; Quando, qual globo em brasa, O sol vermelho crece, E paira sobre as aguas, E em fim desapparece; Quando no mar se estende Manto de negro d; Quando ao quebrar do vento, Noite e silencio s; Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em torno a sombra aclara. II. Eu j ouvi, de noite, No pinheiral fechado, Um fremito soturno Passando o vento irado: Assim o murmurio Do mar, fervendo pra, Com o gemer do afflicto, Sumido, accorde soa: E o scintillar das aguas Gera amargura e dr, Qual lampada, que pende No templo do Senhor, L pela madrugada, Se o oleo lhe escaca, E a espaos expirando, Affrouxa e bruxula. III. Bem abundante messe De pranto, e de saudade, O foragido errante Colhe na soledade! Para o que a patria perde o universo mudo; Nada lhe ri na vida; Mra o fastio em tudo; No meio das procellas; Na calma do oceano; No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno; E no entestar co'a terra Por abrigado esteiro; E no pousar sombra Do tecto do estrangeiro. E essas memorias tristes Minha alma laceraram; E a senda da existencia Bem agra me tornaram: Porm nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trvas do futuro: Do meu paiz querido A praia ainda beijei; E o velho castanheiro No valle ainda abracei! Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso; E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso. Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperana vinham Ao corao tristonho. Mas o sonhar que monta Se passa, e no conforta? Minh'alma deu em terra, Como se fosse morta, Foi a esperana nuvem, Que o vento some tarde. Facho de guerra acceso Em labaredas arde! Do fratricidio a luva Irmo a irmo lanra; E o grito: _ai do vencido!_ Nos montes retumbra. As armas se ho cruzado: O p mordeu o forte: Caiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte. Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou; E o adro do estrangeiro Seus ossos no tragou. Elle herdar, ao menos, Aos seus honrado nome: Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome. IV. E a balla sibillando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia; E as ameaas torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor; E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a palidez do morto, Nu, sanguento, insepulto, Eram um chos de dores, Em convulso horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel! E suspirei:--nos olhos Me borbulhava o pranto; E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto. Oh, sim!--maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascra. Que , em fraternas lides, Um canto de victoria? um prazer mesquinho; triumphar sem gloria. Maldicto era o triumpho, Que rodeava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa cr! Ento olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar. De desespero um brado Soltou, impio, o poeta. Perdo!--chegra o misero Da desventura meta. V. Terra infame!--de servos aprisco, Mais chamar-me teu filho no sei: Desterrado, mendigo serei; De outra terra meus ossos sero! Mas a escravo, que pugna por ferros, Que herdar s maldicta memoria, Renegando da terra sem gloria, Nunca mais darei nome de irmo! Largo o mundo ahi 'st ante o livre; Que este mundo a patria do forte: Sobre os plainos gelados do norte, Luz do sol tambem mana do cu: Tambem l se erguem montes, e o prado De boninas, em maio, se veste; Tambem l se mena um cypreste Sobre o corpo que terra desceu! Que me importa o carvalho da encosta? Que me importa da fonte o ruido? Que me importa o saudoso gemido Da rollinha sedenta de amor? Que me importam outeiros cubertos Da verdura da vinha, no estio? Que me importa o remanso do rio, E, na calma, da selva o frescor? Que me importa o perfume dos campos, Quando passa de tarde a bafagem, Que se embebe, na sua passagem, Na fragrancia da flor do alecrim? Que me importa? Pergunta do inferno! meu bero!--A minh'alma est l! Que me importa?.... esta boca o dir?! Maldico, maldico sobre mim! Combatamos!--O ferro se cruze, Assobie o pelouro nos ares; Estes campos convertam-se em mares, Onde o sangue se possa beber! Larga a valla!--que, apoz a peleja, Ns e elles seremos unidos! L, vingados, e do odio esquecidos, Paz faremos.... depois do morrer! VI. Assim, entre amarguras, Me delirava a mente!-- E o sol a fugindo No termo do occidente. E os fortes l jaziam Co'a face ao cu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada. Porm, a noite delles No era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e no findava. Contrarios ainda ha pouco, Irmos em fim l eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o p, cederam. No limiar da morte, Assim tudo fenece! Inimisades callam, E at o amor esquece! Meus dias rodeados Foram de amor outr'ora; E nem um vo suspiro Terei, morrendo, agora: Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida: Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida. Meu derradeiro alento No colhero os meus? Por minha alma atterrada Quem pedir a Deus? Ninguem!--Aos ps o servo Meus restos calcar; E o riso do despreso Vaidoso soltar. O sino luctuoso, No lembrar meu fim: Preces, que o morto affagam, No se erguero por mim! O filho dos desertos, O lobo carniceiro Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro! Oh morte!--o somno teu S somno mais largo: Porm, na juventude, o dormi-lo amargo. Quando na vida nasce Essa mimosa flor, Como a cecem suave, Delicioso amor: Quando a mente accendida Cr na ventura e gloria: Quando o presente tudo, inda nada a memoria; Deixar a cara vida, Ento, doloroso; E o moribundo terra Lana um olhar saudoso. A taa da existencia No fundo fezes tem; Mas os primeiros tragos Doces--bem doces--vem. E eu morrerei agora, Sem abraar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos cus? Morrer!--E isso que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Eu dormirei tranquillo. Dormir?--S dorme o frio Cadaver, que no sente; A alma va, e se abriga Aos ps do Omnipotente. Tambem eu para o throno Accorrerei do Eterno: Crimes no so meu dote; Erros no pune o inferno. E vs entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei. Por mim livres chorar Vs podereis um dia, E s cinzas do soldado Erguer memoria pia. _Porto--Julho de 1832._ *D. Pedro.* D. Pedro. Pela encosta do Libano, rugindo, O nto furioso Passou um dia, arremessando terra O cedro mais frondoso; Assim te sacudiu da morte o sopro Do carro da victoria, Quando, ebrio de esperanas, tu sorrias, Filho caro da gloria. Se, depois de procella em mar de escolhos, A combatida nave V terra e o vento abranda, o porto aferra, Com jubilo suave. Tambem tu demandaste o cu sereno, Depois de uma ardua lida: Deus te chamou:--o premio recebeste Dos meritos da vida. Que esta? Um ermo de espinhaes cortado, D'onde foge o prazer: Para o justo ella existe alm da campa: Teme o mpio o morrer. Plante-se a acacia, o symbolo do livre, Juncto s cinzas do forte: Elle foi rei--e combateu tyrannos-- Chorae, chorae-lhe a morte! Regada pelas lagrymas de um povo, A planta crescer; E sombra della a fronte do guerreiro Placida pousar. Essa fronte das ballas respeitada, Agora a traga o p: Do valente, do bom, do nosso Amigo Restam memorias s; Mas estas, entre ns, com a saudade Perennes vivero, Em quanto, voz de patria e liberdade, Ancear um corao. Nas orgias de Roma, a prostituta, Folga, vil oppressor: Folga com os hypocritas do Tibre; Morreu teu vencedor. Involto em maldices, em susto, em crimes Fugiste, desgraado: Elle, subindo ao cu, ouviu s queixas, E um choro no comprado: Encostado na borda do sepulchro, O olhar atraz volveu, As suas obras contemplou passadas, E em paz adormeceu: Os teus dias tambem sero contados, Covarde foragido; Mas ser de remorso tardo e inutil Teu ultimo gemido: Do passamento o calis lhe adoaram Uma filha, uma esposa: Quem, tigre cru, te cercar o leito, N'essa hora pavorosa? Deus, tu s bom:--e o virtuoso em breve Chamas ao goso eterno, E o mpio deixas saciar de crimes, Para o sumir no inferno? Alma gentil, que assim nos has deixado, Entregues alta dr, Anjo das prces nos sers, perante O throno do Senhor: E quando, c na terra, o poderoso As Leis aos ps calcar, Juncto do teu sepulchro ir o oppresso Seus males deplorar; Assim, no Oriente, de Alboquerque s cinzas O desvalido indiano Mais de uma vez foi demandar vingana De um despota inhumano. Mas quem ousra patria tua e nossa Curvar nobre cerviz? Quem roubar ao lusitano povo Um povo ser feliz? Ninguem! Por tua gloria os teus soldados Juram livres viver. Ai do tyranno que primeiro ousasse Do voto escarnecer! N'esse abrao final, que nos legaste, Legaste o genio teu: Aqui--no corao--ns o guardmos; Teu genio no morreu. Jaz em paz: essa terra, que te esconde, O monstro abominado S pisar ao baquear sobre ella Teu ultimo soldado. Eu tambem combati:--nas patrias lides Tambem colhi um louro: O prantear o Companheiro extincto No me ser desdouro. Para o Sol do Oriente outros se voltem, Calor e luz buscando: Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso, C ficarei chorando. _Porto--Novembro de 1834._ End of Project Gutenberg's A Harpa do Crente, by Alexandre Herculano License: Share Alike