Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Nov. 2009) OPUSCULOS OPUSCULOS POR A. HERCULANO SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO DE FRANA (ACADEMIA DAS INSCRIPES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC. TOMO III CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS TOMO I LISBOA VIUVA BERTRAND & C.^a--SUCCESSORES, CARVALHO & C.^a Chiado, 78 M DCCC LXXVI Lisboa--Imprensa Nacional Contem este volume diversos escriptos sobre duas questes historicas. A primeira, que se refere s tradies fabulosas cerca da batalha de Ourique, quasi que no tem valor algum luz da sciencia. Expr semelhantes tradies era, por assim dizer, refut-las, e perante a historia tal refutao seria de sobra. A segunda, relativa situao das classes servas na Hespanha desde o VIII at o XII seculo, versa sobre a legitimidade da soluo que adoptei n'um dos mais difficeis problemas que se me offereceram ao escrever o terceiro volume da Historia de Portugal na epocha decorrida desde a fundao da monarchia at o fim do reinado de Affonso III. As phases da lenta transformao do escravo das sociedades antigas no obreiro, cidado livre das sociedades modernas, obscuras ainda em parte na historia da civilisao e do progresso humano entre as naes d'alm dos Pireneus, muito mais o so quem delles. As divergencias, e divergencias profundas, entre os que se dedicam a estudar o assumpto nascem dessa obscuridade, e dos debates que elle pode suscitar que ha de surgir a final a luz. Como tantas vezes succede, no foi a questo grave e difficil que alevantou arruido: foi a insignificante que despertou as attenes e que produziu viva agitao na imprensa e fra da imprensa, dividindo em dous campos o publico que l. que na primeira interessava apenas a sciencia, e a segunda contrariava os intuitos de uma parcialidade e as preoccupaes dos espiritos vulgares, que constituem o grande numero. Se a religio era extranha ao assumpto, ou antes ganhava na suppresso de uma pia fraude, perdia com isso a maioria do sacerdocio, atarefada, hoje mais que nunca, em tecer a rede de suppostos milagres em que parece querer amortalhar o catholicismo. Escrevendo um livro serio, eu affastara brandamente para o limbo das fabulas aquellas fices ridiculas, porque era foroso faz-lo. Nem tivera a inteno do escandalo, nem a cousa o valia. A maioria, porm, do clero no o entendeu assim. Na carta ao patriarcha de Lisboa, com a qual este volume comea, est a resumida noticia das aggresses de que fui alvo e que por algum tempo supportei com resignao ou indifferena, resignao ou indifferena em que provavelmente, hoje, que sei melhor o que taes aggresses valem, continuaria a permanecer. Estava, porm, ento naquella epocha da vida em que a paciencia christan no a virtude mais vulgar do homem. O leitor ajuizar se os prelados portugueses foram ou no imprudentes em tolerarem ou talvez favorecerem aquellas ineptas e brutaes manifestaes da ignorancia e do interesse ferido. Pelo que toca ao opusculo sobre o estado das classes servas da Peninsula no decurso dos seculos VIII a XII, destinado a combater as opinies do erudito Muoz y Romero, bem de crer que ao meu illustre adversario no faltassem argumentos para contrapr s objeces que lhe fiz; mas affastaram-no do debate outros estudos, at que veio salte-lo a morte, quando a Hespanha tinha a esperar os melhores fructos da alta intelligencia daquelle incansavel cultor da historia. Buscando ambos a verdade, a discusso encetada conduzir-nos-hia, provavelmente, a modificarmos, tanto um como outro, as nossas ideas, talvez absolutas em demasia, e a estabelecermos uma doutrina solida sobre to espinhoso assumpto. Entretanto, ainda hoje me persuado de que, para nos aproximar-mos, seria elle que teria de andar mais caminho. Julg-lo-ho os que, depois de lerem attentamente o meu modesto trabalho, examinarem com igual atteno o escripto de Muoz y Romero e a apreciao desse escripto por Mr. de Rozire. Janeiro de 1876 A BATALHA DE OURIQUE I EU E O CLERO AO PATRIARCHA DE LISBOA (_Junho, 1850_) debaixo da impresso de vivo desgosto, e cedendo emfim ao impulso de justa indignao, que dirijo a vossa eminencia esta carta. A desculpa que merece um animo turbado por offensas immerecidas, e o favor que sempre encontrei em vossa eminencia me fazem esperar que esse favor no padecer quebra, se alguma phrase mais forte do que eu desejara me fugir da penna ao escrever este papel; papel que, solemnemente o declaro desde j, no tem por objecto, como alguem poderia suppr, pedir desaggravo das offensas a que alludo. De natureza so ellas, que nem preciso nem quero que outrem as puna. Sei e posso eu faz-lo, se cumprir, de um modo que sirva de escarmento ignorancia perversa e hypocrisia insensata. O meu intuito apenas rogar directamente a vossa eminencia, e indirectamente aos demais prelados de Portugal a cujas mos chegar esta carta por interveno da imprensa, que, obstando a novas provocaes da parte do clero, me poupem a dar uma dura lico a individuos, que, desconhecendo os deveres do sacerdocio e incapazes de sentimentos de moderao, tentam excitar as paixes odientas de um fanatismo que j nem, talvez, o povo comprehende contra um homem que nunca lhes fez mal, e que nem sequer se lembra delles, porque tem cousas um pouco mais srias em que cogitar. Ha quatro annos que publiquei o primeiro volume de uma Historia de Portugal, que tem feito certa impresso no paiz, e ainda fra delle. Na benevolencia com que esse livro foi recebido por naturaes e extranhos nada ha provavelmente que deva lisonjear o amor-proprio litterario do auctor, mas ha uma prova de que o publico reconheceu nelle certa independencia de espirito e uma estricta imparcialidade, para a qual o longo e severo exame dos factos o habilitava. Como eu o previra na advertencia posta frente daquelle primeiro volume, a sinceridade da narrativa, estribada em monumentos indisputaveis, destruindo muitas dessas tradies, mais ou menos improvaveis, que deturpam a historia de todos os povos, suscitou contradictores. Era cousa natural. As manifestaes de colera, as injurias vertidas contra mim na imprensa, no podiam causar-me nem estranheza nem abalo. Estava resolvido a guardar silencio perante ellas e a proseguir na senda que abrira, sem me distrahir com luctas estereis. A verdade fica, e as preoccupaes passam. Ao mesmo tempo a minha resoluo inabalavel era, e , desprezar todos os respeitos humanos que se contraponham voz da propria consciencia. Todavia o no nos affastarmos dos seus dictames empenho que no sae de graa neste mundo de paixes pequenas e ms; e bem louca esperana seria a minha, se a tivesse de evitar os effeitos de uma lei universal. Era por isso que estava resolvido a esgotar resignadamente o meu calix. Pouco depois da publicao do primeiro volume da Historia de Portugal, n'um periodico litterario da universidade de Dublin um critico ingls punha em duvida se eu, que expurgara de lendas fradescas a historia do bero da monarchia, teria esforo bastante para avaliar como cumpria as longas e violentas dissenses dos reis da primeira dynastia com os bispos e com a curia romana. Quando li isto, sorri-me. Nessa mesma conjunctura publicava-se em Lisboa o meu segundo volume, onde se continha a narrativa de boa parte daquellas discordias. Ahi me parece ter dado documento de que os receios manifestados na imprensa inglesa no eram dos mais bem fundados. Mas esse volume, accendendo novas coleras, despertou em alguem a ida de me refutar de modo inaudito. Do pulpito de uma das igrejas de Braga, da antiga metropole, onde ainda devem estar bem vivas as memorias do veneravel Caetano Brando, do illustre prelado que pretendia reformar o breviario e missal bracharenses por causa _das suas intoleraveis patranhas e falsidades_ (phrase do grande arcebispo), o meu nome foi lanado s multides ladeado dos epithetos de hereje, de impio e de outros semelhantes. Um egresso fanatico e ignorante (como o so centenares de sacerdotes no meio do nosso clero, que no recebe ha muitos annos nem educao moral nem educao litteraria) cubriu-me de injurias diante de um concurso numeroso, segundo me informaram, porque no meu livro usara do direito de historiador, qualificando devidamente essas intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e cubiosas que cingiram a thiara papal, e que se chamaram Gregorio, Innocencio ou Honorio. A principio acreditei que isto no passara de um impulso de fanatismo individual; mas em breve me desenganei de que o facto pertencia a um systema organisado de aggresso. A imprensa politica noticiou procedimentos analogos para comigo em outros lugares do arcebispado. Se o objecto das invectivas era o mesmo, se igual a violencia das expresses, ignoro-o: mas o que me pareceu evidente foi que havia, como disse, em to insolito proceder um systema uniforme e combinado. Calei-me. A minha equanimidade foi bastante para tolerar este ataque brutal liberdade do pensamento; foi tamanha como a do respectivo prelado, que guardou silencio, e que devera ter advertido o seu clero de que, no havendo eu offendido doutrina alguma da igreja, e tendo-me limitado a julgar os homens e os factos da epocha sobre que escrevia, por mais erradas que fossem as minhas opinies, ellas no podiam ser qualificadas publicamente de hereticas, concitando-se assim contra mim a credulidade popular. Um sermo no o meio de refutar erros litterarios, e muito menos o qualificar taes erros como offensas da f para os transformar em crimes religiosos. Em semelhante terreno a lucta sera impossivel, porque delle brota o risco pessoal, ou pelo menos a perda da reputao moral para um dos contendores, ou melhor direi para a victima indefensa, amarrada ao poste desse novo genero de patibulo. Os ignorantes olhariam com horror para o Luthero ou Calvino que surge na terra da patria, e esse odio publico uma verdadeira coaco liberdade legitima do escriptor: legitima, digo, porque, apesar de tantas declamaes e queixas, evidente que no meu livro no ha uma unica palavra que offenda a orthodoxia da igreja. Se eu tivesse proferido alguma heresia, os prelados portugueses, e em particular vossa eminencia como meu pastor, no seriam capazes de faltar aos seus mais estrictos deveres, deixando de me advertir do erro com caridade evangelica, e de me condemnar se eu insistisse n'elle. Era ento que aos bispos, e no a qualquer desses cirzidores de farrapos de sermes velhos, desses inimigos figadaes da lingua, da grammatica e do senso commum, denominados, por antiphrase, prgadores ou oradores, que era licito, que cumpria lanar sobre mim o anathema. A guerra desleal que uma parte do clero (digo uma parte, porque no seu gremio ha muitos homens leaes e verdadeiramente illustrados) me declarara no norte do reino no tardou a apparecer no meio-dia, no recincto da propria capital. O primeiro commettimento foi tentado n'uma solemnidade notavel, e n'um dos templos mais frequentados de Lisboa. Nesse acto o absurdo da aggresso nasceu antes da impropriedade do logar, do que das formulas empregadas pelo aggressor, que se absteve de injurias grosseiras. Lisboa no Braga, e o negocio precisava aqui de maior circumspeco. Entretanto a tentativa desagradou geralmente, e eu pensei que emfim me deixariam em paz. No succedeu assim. Ultimamente na minha propria parochia, e dous dias depois n'outra igreja da capital, fui de novo arrastado perante as turbas na torrente da eloquencia clerical. Se no primeiro caso houve a inteno de se me administrar face a face uma correco fraterna, o calculo falhou. Creio que vossa eminencia me faz a justia de acreditar que no me deleito excessivamente em ir ouvir mus sermes de ha sessenta annos, ou traduces detestaveis de fragmentos de sermonarios franceses, declamadas, ou antes carpidas, em tom ainda mais detestavel. O annuncio de um sermo para mim por via de regra a espada percuciente do anjo do paraiso flamejando porta do templo. Salvo em rarissimos casos, no haveria foras que podessem arrastar-me a assistir aos partos da oratoria, que, por irriso sacrilega, se denomina sagrada. A resistencia dos meus nervos em tal conjunctura seria mais forte do que a propria vontade. Em Braga, e creio que nos outros logares daquella diocese, a censura tinha sido fulminada contra a liberdade com que falei dos chefes da igreja nos seculos mdios, da curia romana, e talvez dos bispos portugueses de ento. Ao menos l a invectiva tinha certa originalidade. No patriarchado, porm, as accusaes, postoque menos brutaes, tiveram o defeito de ser um verdadeiro plagio. Narrando no primeiro volume da Historia de Portugal o recontro de julho de 1139 em Ourique, reduzido s dimenses que supps e supponho exactas, ommitti a fabula do apparecimento de Christo, como cousa indigna da gravidade da historia, e, sob certo aspecto, demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo. Apenas n'uma nota alludi a essa tradio absurda, affirmando que se estribava n'um documento falso, o celebre juramento attribuido a Affonso I, juramento que ainda existe no supposto original. Eis o grande escandalo para os prgadores de Lisboa. Confesso que ahi tractei esse embuste com o desprezo que elle merece, porque, na verdade, conhecendo eu muitos diplomas forjados com maior ou menor destreza, este , sem contradico, o mais inhabilmente executado. As poucas palavras que dediquei a semelhante ninharia suscitaram o zelo de alguns individuos, persuadidos de que eu tinha despedaado, com as tres ou quatro linhas que a tal proposito escrevi, o palladio da independencia nacional, que bem fraca independencia sera se estivesse como adscripta crena ou descrena n'um conto de velhas. Houve at um pobre homem, o qual, no meio das discordias civis que assolaram o reino pouco depois da publicao do meu livro, dirigiu aos povos do Alemtjo uma proclamao, em que affirmava que, ligado por um pacto infernal com os membros do governo ento derribado, eu ia demolindo as glorias portuguesas para vendermos de commum accordo a independencia da patria. No me recordo agora do preo, nem de quem foi o comprador, mas a venda parece que era indubitavel. Entretanto publicavam-se artigos de jornaes e folhetos avulsos contra mim. Nada mais legitimo; nada mais liberal. Se os corsarios da palavra de Deus, que esbombardeam o meu pobre livro de um logar aonde eu no posso subir, do alto do pulpito, convertido em chapiteu de proa de junco malaio, houvessem seguido este rumo, seria eu to ridiculo como o instrumento da appario, se disso me queixasse a vossa eminencia ou aos outros prelados do reino. A imprensa uma estacada onde nos julgadores do combate, e sobretudo de um combate litterario ou scientifico, ha j um grau de illustrao, que at certo ponto affiana uma deciso justa. Reptado ahi, eu podia erguer a luva, ou deixar, quando assim o entendesse, que o livro delatado servisse por si mesmo de resposta aos accusadores. Em um e outro caso procederia livremente, e no ficaria, como no campo em que sou aggredido, collocado debaixo de uma coaco moral. Ahi os reverendos prgadores, que tem tido a condescendencia de tractar da minha humilde pessoa, at poderiam appellidar-me, se quizessem, hereje, impio, atheu, demonio incarnado: eu respondia-lhes que elles estavam bem livres de ser nenhuma dessas cousas, e ficavamos perfeitamente pagos. Dous dos folhetos avulsos dirigidos contra a Historia de Portugal, que me chegaram s mos, tractavam justamente desse gravissimo negocio da appario, que em parte me tem feito victima, por me servir de uma phrase do padre Isla, da _dialectica eloquencia dos selvagens da Europa_. Ambos comedidos e corteses, ao mesmo tempo que produziam no meu animo um sentimento de tristeza, inhibiam-me de responder-lhes, ainda quando no estivesse, como ha pouco disse a vossa eminencia, no firme proposito de evitar luctas estereis. A tristeza que senti leitura daquelles folhetos nascia de achar nelles a prova da decadencia a que tinham chegado neste paiz os estudos historicos. N'um livro que, com bons ou maus fundamentos, mudava completamente o aspecto at aqui attribuido ao complexo dos successos do nosso paiz, na infancia da sociedade portuguesa, havia por certo mais de uma inexaco, mais de um defeito importante, como obra que era de homem--de homem desajudado n'uma empreza de tal ordem, e entregue unicamente aos proprios recursos e foras. cerca, porm, das materias positivas, historicas, susceptiveis de serio exame, apenas appareceu, que me conste, um artigo no periodico litterario a _Revista Universal_, e outro no _Observador_ de Coimbra. As duas publicaes avulsas que me vieram s mos, ambas, como disse, curavam exclusivamente de me demonstrar o milagre da appario, milagre do qual (atrevo-me quasi a affirm-lo) ainda que os meus adversarios o tivessem sustentado com boas razes _historicas,_ me parece que eu, vossa eminencia, toda a gente, que no seja algum leigo capucho, haviamos de continuar a rir, cada qual segundo o papel que acceitou nesta grande comedia humana--uns em publico, outros em particular. Agora pelo que respeita aos motivos que, alm da razo geral j dada, me inhibiam de responder aos dous escriptores, permitta-me vossa eminencia que eu dilate um pouco o discurso a este proposito. No a digresso alheia ao assumpto. O meu silencio ante contendores francos e leaes, que me buscavam com armas corteses no campo da imprensa, interpretou-o a ignorancia como um signal de fraqueza. No contribuiria isto para despertar a audacia dos meus anathematisadores? No seria eu proprio o culpado da minha affronta? Desculpe vossa eminencia uma comparao, acaso ambiciosa em demasia. Tem o merito de se referir a uma fabula, e ns achamo-nos n'uma questo de fabulas. Quando o leo jazia moribundo, foram as feras valentes e generosas que arrostaram o perigo. O onagro s veio ferir-lhe a fronte pendida, depois que, averiguada a situao do rei das florestas, se persuadiu de que podia injuri-lo a seu salvo. Se fui, pois, o causador do mal, devo justificar o silencio que o gerou. a esse alvo que se dirige a digresso de que falo. Um dos folhetos era escripto por um ancio respeitavel, no s pelas suas cans, mas tambem pelos seus padecimentos physicos, considerao fortissima para mim, que entendo ser sempre digna de respeito a desgraa; era produco de um homem chegado quelle quartel da vida, em que o espirito parece eivado da ruina do corpo, que vem annunciando a proximidade do tumulo. Com a mo na consciencia eu protesto a vossa eminencia que ainda hoje sentiria remorsos, se, na fora da vida e do pouco talento que Deus repartiu comigo, no tivera sabido domar os impulsos de um ridiculo amor-proprio; se houvera ido derramar a afflico sobre o leito de dor do afflicto, para saborear o triste e vergonhoso prazer de ouvir os apupos do publico a um pobre velho, que queria, que tinha direito de morrer em paz abraado com as tradies da sua infancia; que precisava de protestar contra um homem, o qual, embora involuntariamente, ia prostituir-lhe no corao idas e affectos, amigos constantes da sua larga existencia. Se Deus podesse fazer milagres absurdos e inuteis, como o da appario, eu preferiria ver-me convertido em cirzidor e carpidor de farrapos pareneticos a ter de accusar-me de uma aco, que no sei qual seria mais, se covarde, se despiedada. Quanto ao outro folheto, composto por um homem de talento, instruido, e no vigor da idade, no militavam as mesmas razes de conveniencia moral; militavam, porm, outras assaz fortes, e de natureza analoga. Affastadas as consideraes poeticas, alheias a materias historicas, os argumentos colligidos naquella publicao a favor do milagre de Ourique dividiam-se em duas categorias, ou antes eram apenas dous argumentos. Um consistia no consenso de certo numero de escriptores, todos de epochas mais recentes que o meado do seculo XV. A futilidade desta argumentao evidente. Os _classicos_ so respeitaveis como mestres de lingua; mas como testemunhas de um facto, que se diz acontecido pelo menos trezentos annos antes que elles escrevessem, de nada servem. A qualidade de classicos no exclue a de credulos, e nem sequer a de inventores de patranhas. A chronica de Clarimundo, a da Tavola-redonda, a de Palmeirim d'Inglaterra so escriptas por tres classicos como Barros, Jorge Ferreira, e Francisco de Moraes, e eu supponho, no sei se me engano, que esses livros no encerram seno mentiras. Se o auctor queria provar-me a perpetuidade da tradio de Ourique, no devia esquecer o _criterium_ estabelecido por Vicente de Lerins, e com elle pelo senso commum, para distinguirmos das falsas as tradies verdadeiras: _Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est_. Era-lhe necessario mostrar-me essa tradio atravs de todos os seculos, e sobretudo dos seculos onde ella desapparece, os tres immediatos ao supposto facto. Confesso a vossa eminencia um peccado, e alliviarei delle a consciencia, porque o confesso perante o meu pastor: a minha intelligencia foi demasiado orgulhosa para descer a refutar semelhantes objeces. Que me importava, de feito, que a fabula tivesse este ou aquelle motivo, nascesse no seculo XVI ou no XV? Tomara eu tempo e monumentos para averiguar os successos verdadeiros e as suas causas, circumstancias e effeitos. Genealogico d'embustes mistr para o qual me falta inteiramente a vocao. A segunda categoria de argumentos, ou antes, o segundo argumento em favor do milagre era a citao de dous textos precisos, de duas auctoridades contemporaneas, que relatavam o successo. Uma era nada menos que a de S. Bernardo; outra a de uma copia coeva do juramento, copia conservada em Roma, e transcripta no volume 51 da _Symmitica Lusitana_, manuscripto da Bibliotheca Real, de cuja existencia abonador o illustre Cenaculo. Este argumento estava longe da obvia fraqueza de est'outro. A tradio a assim prender-se do seculo XV ao XII, embora obscurecida no periodo intermedio. Alguem imaginar, portanto, que para no responder a objeces deste valor apparente s me conteve o proposito de evitar disputas escusadas. No foi assim. Contiveram-me consideraes de maior monta. Se o eram ou no, vossa eminencia o julgar. Antes de tudo, observar vossa eminencia que eu digo _disputas escusadas_. Digo-o, porque esses testemunhos contemporaneos no bastam, como vossa eminencia sabe, para acreditarmos nos milagres da idade mdia. excessiva devassido e bruteza aquelles tempos de trevas uniam uma crena fervorosa, confundida com superstio extrema. A ida religiosa formulava-se em tudo, na guerra, na vida civil, nos affectos do corao, nas artes, na litteratura, na sciencia; e quando uma ida domina assim a sociedade, converte-se em prisma atravs do qual as cousas se illuminam com as cres que elle lhes transmitte. O maravilhoso introduzia-se em todos os factos em que as imaginaes, possuidas de uma especie de febre moral, achavam pretextos mais ou menos plausiveis para lh'o attribuir. Accrescia a tendencia innata dos homens para indagar as causas dos diversos phenomenos. Comprimida n'um ambiente de ignorancia e rudeza (ambiente em que vive boa parte do nosso clero), essa tendencia dilatava-se, respirava pelo unico resfolgadouro possivel, pela facil theoria do maravilhoso, do sobreintelligivel. Nas chronicas d'ento quasi que o miraculoso o regular, e o natural a excepo. Dos chronistas dos seculos barbaros o mais despreoccupado o benedictino ingls Matheus Paris. Todavia centenares, que no dezenas, de milagres absurdos so gravemente narrados na _Historia Major_. Permitte-me vossa eminencia que lhe recorde um exemplo do modo de vr daquellas eras? Sem sairmos do reino, nem do seculo XII, e at limitando-nos vida do personagem a quem se attribue o singular favor de Ourique, temos mo um exercito de milagres, postoque em sentido inverso ao da appario. Alludo aos desgostos de S. Rosendo com o nosso primeiro rei. A vida do sancto, _escripta no seculo XII_, foi, como vossa eminencia sabe, publicada por Florez, e uma copia, talvez coeva, ou quando muito do seculo XIII, existe ainda entre os manuscriptos de Alcobaa (codice 133). Ahi lemos que o rei portugus fora obrigado a levantar o sitio do castello Sandino, nas margens do Arnoia, por uma tempestade de raios que o sancto desfechou contra elle. Se acreditarmos o pio agiographo, o seu implacavel heroe nunca perdoou a Affonso I, apparecendo por tres vezes a diversas pessoas para protestar vingana contra o principe, que nas suas correrias na Galliza no respeitara as terras do mosteiro de Cellanova. Nesta lucta atroz entre o grande da terra e o grande do ceu, S. Rosendo no poupava maravilhas. Debalde; porque, como observa o monge historiador, o corao do rei, que elle compara caritativamente a Simo Mago, estava obdurado, qual o de Phara, _para maior cumulo da sua condemnao_. A malevolencia milagreira do sancto no abandonou Affonso Henriques seno no tumulo. Os contratempos dos ultimos annos do reinado do fundador da monarchia, incluindo o desbarato de Badajoz, a fractura da perna, o aleijo com que ficou at a morte, tudo foi obra de S. Rosendo, e havia mesmo quem affirmasse ter visto o sancto revestido do corpo humano e muito atarefado, na occasio em que o rei de Portugal cau prisioneiro do genro. So pelo menos vinte milagres attestados por um escriptor desses tempos. Penso que no me accusaro de avaro ou de desagradecido os que querem enriquecer fora o thesouro das minhas crenas com a appario de Ourique. Vinte por um. Indisputavelmente eu sou muito mais rico do que elles em proviso de milagres. De todas essas maravilhas, porm, apesar de subministrarem credulidade melhores fundamentos que a de Ourique, fao eu tanto caso como desta ultima, pelas consideraes que indiquei, alis bem escusadas para a comprehenso e litteratura de vossa eminencia. Mas nem foi unicamente o preceito que a mim proprio impusera de no malbaratar o tempo em questes desta ordem, nem essas consideraes, que obstaram a que eu respondesse a um escripto, em que o erro, e talvez o despeito, vinham envoltos em frmas to corteses, que tocavam a raia de lisonjeiras, e em que a argumentao tomava emfim o aspecto de uma cousa sria. No, eminentissimo senhor! A refutao sera na verdade facil, decisiva, fulminante; mas ella lanaria uma torpe mancha sobre nomes illustres e caros igreja portuguesa. Repugnava-me sobretudo esta ida. Por maiores precaues de que eu me rodeasse, a logica implacavel do publico tiraria as legitimas illaes das minhas palavras, e convert-las-hia em desdouro commum de uma classe que nenhum mal me havia feito. Se hoje a necessidade de repellir a insolencia covarde, como a insolencia o sempre, me obriga a expr actos vergonhosos e inqualificaveis, a culpa no m'a lancem. Dous annos de paciencia provam que o fao constrangido por aggresses demasiado graves, no por si, nem por seus auctores, cousas profundamente insignificantes, mas pelo logar onde se commettem, por serem feitas com a inteno de excitar contra mim animadverses immerecidas, por se tentar, emfim, converter atraioadamente uma questo, que nem chega a ser historica, em questo religiosa. A gloria do escandalo deixo-a inteira aos que o provocaram. Se vou bater sobre campas, que cobrem cinzas envoltas em vestes sacerdotaes; se perturbo a paz dos mortos para lhes bradar--_Falsarios!_--esta mo que se estende para indicar os criminosos, esta voz que se ergue para os condemnar, so minhas, mas protesto a vossa eminencia, que quem as suscitou no foi o meu corao, nem a minha vontade. Ha no soffrimento um ponto que sem deshonra no licito ultrapassar. Consta-me que o mais recente dos meus reverendos accusadores clamara no excesso do seu _sincero_ zelo pela historieta da appario, que _melhor fora que eu no houvera falado em tal_. Melhor ainda do que isso me parece teria sido que elle no houvesse feito trasbordar o calix, j demasiado cheio, de uma justa indignao. A affirmativa de que no volume 51 da _Symmitica Lusitana_ se encontra trasladada uma cpia do instrumento da appario, coeva de Affonso I, MENTIRA. O texto de S. Bernardo, relativo mesma appario, que se encontra inserido no Breviario, no officio das Chagas, FALSO. Se algum dos reverendos cirzidores sabe latim ( licito duvidar disso com a igreja, que manifestou a sua hesitao a este respeito mandando accentuar as palavras dos livros rituaes com temor das syllabadas) que venha Bibliotheca Real, e ahi, no volume 51 da Symmitica a paginas 128, ler ou soletrar as seguintes palavras, escriptas na lingua latina, por baixo do traslado do instrumento da appario, nota escripta pela mesma letra do copista==_Brando, Monarchia Lusitana, Parte 3.^a pagina 127. Extrahido de um codice que o auctor viu em Lisboa._==Eis em que consiste o traslado da copia _coeva_. Cenaculo, citando o documento pelo indice, quando podia cit-lo pelo logar competente da colleco, o que lhe era igualmente facil, commetteu uma daquellas levezas que no raro occorrem nos seus escriptos, ou practicou uma _pia fraude_? O bello e nobre caracter do bispo de Bja me faria adoptar sem hesitao o primeiro supposto, se o empenho em que elle entrara de provar a fara de Ourique, cuja vaidade o seu elevado espirito necessariamente havia de sentir, no podesse perturb-lo a ponto de practicar um acto indigno de quem, como elle, era um homem de letras, um prelado virtuoso, e a todos os respeitos um varo singular. A historia da passagem falsamente attribuida a S. Bernardo, , porm, materia mais grave, porque nessa vergonhosa historia se acha compromettida a honra e a dignidade moral e litteraria do alto clero portugus no meiado do seculo passado. No direi da curia romana, porque nesse ponto no ha j para ella compromettimento possivel: vossa eminencia conhece to bem e melhor do que eu os seus annaes. A narrativa desse escandalo em resumo a seguinte: O patriarcha D. Thoms d'Almeida requereu a Bento XIV que concedesse ao clero de Portugal o officio proprio e missa das cinco Chagas, que, por decreto de 4 de julho de 1733, fora concedido a certas freiras de Florena. Accrescentava-se na supplica dirigida ao pontifice que na sexta lio se houvessem de addicionar as seguintes palavras==_Quas lusitanum imperium etc._==que constituem o texto allegado contra mim. Consistindo, porm, a sexta lio daquelle officio n'uma passagem de S. Bernardo, uma vez que no houvesse a devida distinco entre essa passagem e o novo additamento, este se converteria n'um testemunho importante a favor da lenda da appario, de que provavelmente os homens instruidos comeavam a rir-se depois do impulso que aos estudos historicos dera o governo no reinado de D. Joo V. Accedeu Bento XIV supplica do prelado portugus. O decreto de concesso, o officio e a missa expediram-se para Portugal impressos na typographia da camara apostolica. Segundo parece, a impresso foi feita no estio, e o compositor romano, no acto de compor a fatal sexta lico, estava perturbado pela febre da _malaria_. O additamento ficou enxertado nas phrases solemnes do grande abbade de Claraval com to subtil sutura, que faria honra a um operador de rhinoplastica. Atacado tambem pelos miasmas putridos das lagoas pontinas o revedor da camara apostolica _esqueceu-se_ de emendar o erro. Aquelle _innocente_ engano partiu, emfim, para Portugal. Aqui, n'uma epocha em que ainda os estudos do clero no tinham chegado decadencia em que hoje os vemos e de certo vossa eminencia lamenta como eu, e em que as cadeiras episcopaes do reino estavam occupadas por muitos homens notaveis por sciencia e virtudes, o antecessor de vossa eminencia que ento presidia metropole de Lisboa _esqueceu-se_ de que essa passagem perfilhada a S. Bernardo tinha um auctor bem moderno, e entre os bispos, entre os theologos do clero secular no houve um s que _advertisse_ no falso testemunho que na sexta lico do novo officio se alevantava ao fundador dos cistercienses. Os seus filhos, os seus proprios monges, calaram-se. Os prelos tm gemido durante um seculo com as reimpresses do breviario, e neste longo periodo nem uma voz, que eu saiba, se ergueu para dizer que em nenhuma edio, em nenhuma codice manuscripto das obras de S. Bernardo se encontra a supposta passagem. E que admirao?--respondeu-me um malicioso, a quem manifestava em certa occasio o meu espanto vista deste phenomeno singular.--O clero no l os padres da igreja: deixou essa tarefa aos seculares. E para que os havia de ler, se lhes de sobra o Larraga? Dou a minha palavra a vossa eminencia de que repelli com todas as minhas foras este rude epigramma. Eu sei que ha, conheo, at, sacerdotes cuja instruco to solida como vasta. O tracto de vossa eminencia, durante a epocha em que fomos collegas no parlamento, me fez conhecer um dos mais distinctos entre elles. Infelizmente, esse epigramma, injusto na sua frma absoluta, no deixa de ser merecido em muitos, talvez no maior numero de casos. Sabe vossa eminencia quem protestou contra essa falsificao audaz, contra essa fingida ignorancia, contra esse torpor inexplicavel ou explicavel de mais? Foi aquella ordem cerca da qual ento se repetiam, e hoje se repetem diariamente graves accusaes de immoralidade. Foram os jesuitas, que n'uma edio do novo officio, feita para o proprio uso, separaram com um asterisco o texto de S. Bernardo da inveno moderna. Acaso este procedimento deu origem a um livro, _os Novos Testemunhos_, do celebre e implacavel inimigo dos jesuitas, o padre Pereira, livro que se o no tomarmos como uma longa ironia, deshonra a memoria de uma das mais fortes intelligencias que Portugal tem gerado. Agora fica vossa eminencia habilitado para avaliar se eu procedi com circumspeco guardando silencio ante as refutaes que se me dirigiam pela imprensa; se no houve no meu proceder uma dessas abnegaes que no so vulgares, em desprezar um triumpho to facil como decisivo, preferindo ficar como vencido e humilhado aos olhos dos menos instruidos a salvar o meu nome de uma nodoa litteraria e at certo ponto moral. Se, emfim, justo, se decente, que membros do clero aggridam de um modo illicito, e profanando a sanctidade dos templos e a sanctidade do seu ministerio, um homem que sacrificou o proprio orgulho para no rasgar o vu de uma fraude dessas, que os hypocritas qualificam de pias, e que eu qualificarei de immoraes. Como Sem e Japhet queria encubrir a falta de pudor de No: o sacerdocio obrigou-me emfim a ser como Cham. Fizeram-me voltar a face: contrangeram-me a descerrar os olhos. Practicaram uma boa obra: devem della gloriar-se. E quem o homem que os prgadores de Portugal offerecem execrao publica, porque no quiz vender a sua alma ao demonio da mentira; porque no quiz deshonrar-se e deshonrar com embustes o seu livro? Que vossa eminencia me consinta fazer aqui esta dolorosa pergunta minha consciencia; interrogar severamente o meu passado. Tem o clero a combater em mim um inveterado e perigoso inimigo? o seu to insolito proceder um impeto de vingana, que o excita a repellir um perseguidor implacavel? Ha quinze annos que trabalho na imprensa, e seno por merito proprio, ao menos por circumstancias, que no importa aqui recordar, muitas das paginas avulsas que tenho deixado aps mim na carreira da vida se derramaram por todos os angulos do paiz, penetraram aonde livros e jornaes de mais alto pensar nunca haviam chegado, e talvez nunca depois chegaram. Haver nessas pobres paginas alguma cousa que possa incitar a colera sacerdotal? Como procedi eu sempre cerca da igreja e do clero? As idas do seculo, recalcadas por uma compresso violenta, a que, fora confess-lo, a maioria do sacerdocio se havia associado, tinham reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado quando eu entrei no campo da imprensa, no campo das batalhas do espirito. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade que fora, e no meio delles o clero, disperso, empobrecido, cuberto de affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situao da igreja portuguesa nessa epocha, e sobretudo a situao dos regulares, sabemos todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja sangue. Os homens das velhas opinies politicas, no meio do terror, vergados pelo desalento de uma quda tremenda, duplicadamente dolorosa pela desesperana, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava nesta terra de Portugal a favor da igreja batida pela tempestade. Ainda ento esse grupo de mancebos cheios de talento, de inspiraes grandiosas e de crena fervente na liberdade humana, e pela liberdade na eterna justia; essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem novos soldados, e que no se envergonha de Deus nem do seu Christo, no tinha ainda comeado a surgir para ser generosa, amplamente generosa, com os adversarios das suas idas, quando a desventura os sanctifica. Na imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, s eu, tive por muito tempo palavras de affeio e consolo para a desgraa; s eu tive animo para accusar os homens do meu partido d'espoliadores e d'insensatos; para tentar revoc-los poesia do christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mo que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta, mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre os symbolos da sua religio de affectos, eu guardo para mim, e s para mim, mais de um papel escripto por mos trmulas de velho monge, e talvez regado por lagrymas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas idas que no fosse absolutamente um malvado. sobre estas reliquias que eu quero encostar a cabea para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar. No receiem pois os que me chamam hoje impio e herege, que eu os envergonhe com o testemunho dos que valiam mais do que elles, dos verdadeiros martyres do passado. So cousas queridas e sanctas para mim. Estejam certos de que no as prostituirei jmais. Depois, pouco a pouco, foi-se estabelecendo nos animos uma reaco salutar: comeou-se a sentir que o templo e o sacerdote eram importantes elementos de paz, e que podiam ser instrumentos de liberdade. Vieram outros pelejadores, todos mais fortes e dstros, combater na arena onde por tanto tempo eu me tinha achado s. No foi de certo a minha influencia litteraria que trouxe este resultado. Trouxe-o o progresso da razo humana, a fora irresistivel da verdade. Entretanto, parece que, retirando-me do posto que defendera com os limitados recursos que Deus repartira comigo, merecia do clero, por si e pela igreja, um _vale_ de paz. Em logar disso tenho a guerra, acerba, covarde, atraioada. Porque? Porque trouxe para o campo da historia o mesmo amor da verdade singela, que tinha mostrado n'uma das mais graves questes sociaes. No me arrependo do que fiz. Cumpri um dever que me impunham Deos e a minha consciencia. No espero arrepender-me do que fao. Cumpro uma obrigao litteraria, e estou certo de que bem mereo da terra em que nasci escrevendo a verdade. Sabe vossa eminencia sobre que eu hesito? sobre a legitimidade absoluta das minhas queixas; sobre se, no que supponho um dever d'honra, no haver um pouco da obcecao da vaidade. Quando Roma, que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo, crucifica no seu _Index_ nomes como os de Chateaubriand e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, terei eu, verme que passo sombra do meu nada, direito de offender-me porque de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus ou ignorantes lanam sobre mim o vilipendio das suas palavras? Quando a igreja, envolvendo a fronte no vu da sua immensa tristeza, e sentindo humedecer-lhe os ps o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal, contempla atterrada o futuro, ha dor de individuos a que seja licito um brado? Cerrarei aqui o discurso, porque temo ir mais longe do que eu quizera. Permitta-me vossa eminencia que conclua fazendo um voto, ao qual sei que vossa eminencia se associa, bem como os outros prelados de Portugal:--Oxal venha em breve o dia em que o clero d'este paiz possa receber uma educao digna do seu elevado destino, e conhecer, por estudos severos e bem dirigidos, que o ser christo no ser nem hypocrita nem fanatico. II CONSIDERAES PACIFICAS SOBRE O OPSCULO EU E O CLERO AO REDACTOR DA NAO (_Julho, 1850_) A necessidade de reprimir o abuso do ministerio do pulpito que contra mim se estava practicando obrigou-me a dirigir a sua eminencia o Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem faltar considerao devida ao prelado da diocese, nem aos outros bispos do reino, entendi que cumpria usar de uma linguagem severa, mas justa, para com a maioria do clero. Habituado a patentear livre e singelamente as minha opinies cerca dos homens e das cousas, no soube nem quiz buscar rodeios, ou adoar as phrases para me exprimir de modo menos aspero n'uma questo que me respeitava pessoalmente, e em que at certo ponto estava compromettido, no s o meu caracter litterario, mas tambem, o que mais importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa periodica, politica e no politica, sem distinco de partidos, foi unanime em condemnar actos que me obrigavam a dar um passo a que bem desejaria me houvessem poupado. Como os outros jornaes, a _Nao_ reprovou as aggresses inauditas perpetradas por uma parte do clero, e toleradas por outra. O procedimento de v.. para comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre, quanto certo que a indole do seu jornal deveria talvez lev-lo a rebater a opinio de diversas publicaes periodicas, se o sentimento da justia no fosse mais forte no animo de v.. do que outras quaesquer consideraes. assim que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave misso, e remedeia do modo possivel a decadencia do sacerdocio religioso. Continuando, porm, a tractar de uma questo, que, embora interessasse um simples e quasi obscuro individuo, era demasiado importante pelo alcance e significao dos factos que a haviam suscitado, v.. teve a bondade de dirigir-me algumas observaes, que me pareceu exigirem de mim explicaes como christo e como homem de letras. No as dei logo, porque no tardou a annunciar-se publicamente uma refutao da minha carta, em desaggravo do clero. Falava-se n'um milagre de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu teria de fugir desalentado como os sarracenos de Ourique diante do da appario. Citavam-se, at, nomes: falava-se em summidades da igreja e da eschola. Como entendo que no bom fugir sem ver de que, esperei que rebentasse o temporal. Se fosse por elle submergido, de que aproveitariam as explicaes dadas a v..? Se, porm, podesse salvar o meu fragil baixel, pediria misericordia aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v.. razo de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado no oratorio, com o ouvido attento ao som que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora, todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade, eu alimentava esperanas de salvao com um argumento que fazia a mim mesmo. No provavel, dizia comigo, que um membro do clero illustrado e honesto queira vir combater-me no terreno desigual e escorregadio em que a imprudencia collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical tem impedimento dirimente para entrar neste empenho. Para escrever preciso saber ler e ter lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por este lado podia eu estar tranquillo. certo que o annuncio feito nos jornaes no foi materialmente vo. Appareceu um folheto, que parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me que de um mancebo principiante. Revela, sem dvida, algum talento no auctor. Com o tempo, e estudando, este pde vir a ser um escriptor soffrivel, e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou d'outras questes com honra sua e proveito do paiz. Non ragioniam di lui, ma guarda, e passa. pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei do modo mais breve que me for possivel. Se alguma phrase menos comedida me fugir da penna, declaro desde j que a retiro. Dirigindo-me a um escriptor como v.., to urbano nas proprias censuras que me faz, embora sobre to melindrosa materia como o so as cousas da f, espero que v.. no veja por caso algum nas minhas palavras a menor inteno offensiva. Tres censuras irroga v.. ao contedo da minha carta; a primeira contra a antithese contida no titulo do opusculo _Eu e o clero_: a segunda contra as expresses de _intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e cubiosas_, de que me servi para qualificar alguns papas: a terceira contra a phrase, _Roma que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo_, e contra os terrores que attribuo igreja cerca do futuro. Considerarei em especial cada uma dessas tres censuras. Diz v.. que me era licito collocar-me em antagonismo com um ou outro clerigo, porm no com o clero em geral, por honra e credito meu, que nada podia ganhar em lucta to desigual, e que, a existir, seria a minha condemnao. Antes de tudo necessario observar duas cousas: 1.^a, que o antagonismo no o creei eu: resultou de factos practicados pelo clero, que tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria talvez sempre em silencio, se no receiasse que no progresso da aggresso chegassem a levantar-me um pulpito diante da porta, para d'ahi me fazerem um sermo sobre a sanctidade dos papas da idade mdia, ou sobre os milagres referidos por S. Bernardo: 2.^a, que pelo opusculo e no pelo seu titulo, que se h de avaliar at onde esse antagonismo vai, e se elle legitimo. No apparece uma unica passagem da minha carta em que eu me refira com phrases hostis a _todo_ o clero portugus. Os homens que ha no meio delle illustrados e virtuosos, respeito-os; respeito-os duplicadamente pela sua illustrao e pelas suas virtudes; pelo seu caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal. Esses no sobem aos pulpitos a dizer despropositos; no me querem mal, nem a mim nem aos meus pobres escriptos. Ao que eu me contraps foi s turbas tonsuradas; foi maioria material e numerica; minoria nos dominios da intellectualidade, das idas, e dos puros e nobres affectos. Faria uma offensa gratuita; practicaria uma brutalidade indesculpavel, estaria em contradico comigo mesmo, com as minhas opinies, se assim, sem motivo, sem provocao, tivesse o proposito de maltractar aquell'outra parte do clero. esta a ida que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a reler. Quanto a esses de quem me queixo, no sou eu homem que esconda as proprias convices. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria do nosso clero tal como eu a qualifiquei, e se no fosse a natural repugnancia a despedaar um cadaver, daria aqui as razes da minha persuaso. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: no tergiverso, no me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades, seno mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu somno deixasse de ser profundo, como o habitualmente. Postas as cousas nestes termos, que so os exactos, no me possivel comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta desigual, que envolveria a minha condemnao_. Se v.. viu naquella fatal antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu no valerei mais, litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem, mas mil, mas dez mil clerigos mus ou insipientes, ainda que os fundam e os acrisolem, chegaro, acaso, a produzir o equivalente de um homem de alguma intelligencia e de alguma honestidade? No. O resultado de todas essas operaes ser sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou de corrupo. Peccado de soberba no creio, portanto, t-lo commettido. Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porm, v.. ao perigo litterario? Tambem no pde ser. v.. assaz instruido para sentir que por esse lado a lucta me d tanto cuidado como daria a v.. se estivesse no meu logar. o perigo religioso? A ida da condemnao antes de contestada a lide, e envolvida na proposio da causa, torna talvez plausivel esta interpretao. Nessa hypothese, v.. no teria advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero portugus no a maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico no constitue por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposio com esta; mas confio em que a Providencia me livrar de cair nesse abysmo, no s agora, mas sempre. Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, ser condemnavel, seno pela substancia, ao menos pelos accidentes? Ser condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes, de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepo. de um padre da igreja, a cujas obras o nosso clero foi to affeioado, que at lh'as quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos. Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta so de suprema doura comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a corrupo, no do clero de um paiz, no da maioria desse clero, mas em geral do sacerdocio do seu tempo. _Manou a iniquidade_--dizia S. Bernardo--_dos ancios, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus; daquelles que parecem governar o teu povo! J no licito dizer_--_tal o povo, tal o sacerdocio; porque este peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os teus maiores perseguidores so os que mais ambicionam a primazia, e exercem na igreja o mando supremo_[1]. E, como se estas acres expresses no bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta dirigida, no a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os bispos as cousas sanctas_ a ces, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e elles em paga mettem-nas debaixo dos ps. Assim o quizeram, assim o tenham_[2]. Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que matinada se alevantaria contra mim! Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu no passo de um peccador e obscuro christo? Assim . Por isso o segui de longe, _non passibus quis_. Comtudo, v.. no deixar de advertir em que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge, humilde, simples, sem pretenses orgulhosas, sem presciencia de que tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bca esses brados d'indignao, como loucas provocaes arrancaram da minha penna palavras muito menos violentas. J agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado portugus quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasio de alludir na minha carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brando cerca do clero portugus no principio deste seculo. O metropolita explicava n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a desconsiderao sobre o poder pontificio: _So aquelles_--dizia o arcebispo de Braga--_que fora de supplicas importunas, de respeitos humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir da curia romana provises beneficiaes_, que mais parecem titulos de contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos; _provises a favor das quaes tem infestado as parochias e cros_ (collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos indignos, etc.[3]. Que se leia inteira a passagem impressa daquella carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais desabrida linguagem. Apesar disso, suas reverencias ho de tolerar-me a crena de que no esto no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brando, nem a de S. Bernardo. Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me quer ver collocado, em relao maioria do clero. Foram apenas alguns que me provocaram do pulpito, e eu chamo autoria o grande numero. verdade. No sei com certeza seno de alguns factos de aggresso, mas a noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem, dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho. acaso provavel que se no repetissem por outras dioceses? Em Lisboa, onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustrao, onde, at, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria f mais tibia, onde, emfim, os prgadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria delles, houve dous exemplos. No me ser licito inferir que, no tendo eu uma policia s minhas ordens, ignoro muitos successos analogos? Depois, houve, vista desses factos repetidos, no digo punio de semelhante abuso do ministerio sagrado, o que no peo, o que at me contristaria, porque me lembro das palavras de Christo _Perdoa-lhes Pae, que no sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a renovao de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero diocesano? No tenho eu direito de suppr que elles tambem entendem que a sanctidade dos papas da idade mdia ou o apparecimento de Ourique so partes integrantes da crena catholica, e que se trepassem ao pulpito, e lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se no esto de accordo com os prgadores, como se esquecem de que os padres de Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados _divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos mesmos oradores que _no falem imprudentemente de milagres, limitando-se aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois v.. que eu no increpe o maior numero e que no o supponha alistado contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia? Passando ao segundo capitulo de accusao, sinto verdadeira magoa em ser constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi cerca dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha. Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas, violentas e cubiosas, alguns delles que se chamaram Gregorio, Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz, creio eu, justia, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque viveu antes de nascer a monarchia. singular como v.. pde perceber que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! No teria eu direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me parece indubitavel que alguma convico historica preoccupava o espirito de v.. quando nas minhas expresses vagas e geraes viu um ataque directo e especial memoria daquelles homens extraordinarios, cujos meritos no neguei, nem tenho empenho em negar. Entretanto no pense v.. que com isto pretendo lanar fra de mim a responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III. No tenho a minima dvida em lhes applicar as designaes de intelligencias violentas e cubiosas, como no a tenho em chamar corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. verdade que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisao, e Innocencio III com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisao constitua dogma de f, e obste liberdade do historiador para avaliar como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que, fundando-se as canonisaes em provas humanas, e no em factos revelados, as decises pontificias a tal respeito so sempre falliveis, o que bem se manifesta da orao que ainda no seculo XIV os papas faziam na solemnidade das canonisaes, pedindo a Deus permittisse que no se houvessem enganado. Esta doutrina corrente, e v.. no a ignora, nem poderia ignor-la[6]. Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous pontifices a justia que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos que a civilisao lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos no conheo nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se valer exclusivamente da ida em que se resume a historia do progresso humano. Esta ida a _lucta do espirito com a sua manifestao, com a frma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no meio da fora do acaso_[7]. Elle v-a representada, incarnada, digamos assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da instituio. inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe a manifestao da ida, e em philosophia historica os defeitos desses papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por que elles desempenharam a misso providencial do papado n'aquella epocha. Todavia, na apreciao _moral_ dos seus actos como individuos, por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu da historia _No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade no se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. No so os phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo delles_. Para avaliar o pontifice como representante e typo da instituio, a regra exacta; para o avaliar como homem, no; porque a _inteno_, a causa moral dos actos, necessaria para a apreciao abstracta de um caracter. A suberba, a ambio e at a cubia de Gregorio VII esto pintadas nos factos a que accidentalmente me referi n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se possivel, documentos irrefragaveis. Queremos, porm, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa inteno moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouamos um seu contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas cousas os sanctos padres. So respeitaveis auctoridades! _De resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que no se enfurea tanto comigo, e que a sua veneranda suberba no me fustigue com to longa flagellao_[9]. De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um pobre velho: S. Pedro Damio n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao proprio cardeal. Verdade que no saba quo grande sancto havia de vir a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge est explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior intellectualmente aos outros homens, a ambio de os dominar a todos f-lo at negar a realeza, no s como facto, mas tambem como principio. Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? No o creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas. Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos principes) no estar sujeita que Deus estabeleceu para gloria propria? Quem no sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes pagos, os quaes por instigaes do diabo, _que o verdadeiro principe do mundo_, movidos por cega paixo e levados por intoleravel presumpo, _usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os crimes?[10] No lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse, o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso que o sancto varo fazia do famoso texto biblico: _Per me reges regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._ Podemos ns os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio) acceitar as idas do celebre S. Satanaz? No ha nessas idas um orgulho, uma intolerancia para com os poderes da terra, que no comprehenderiamos, talvez, hoje, se no tivesse vivido no nosso seculo uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleo Bonaparte? Vamos s ultimas censuras de v.. em que me parece no ter mais razo do que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_, no pde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma no se pde entender seno o poder pontificio, no se pde significar seno o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S. Bernardo para me salvar da condemnao eminente. Nesta contenda, no sei porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellaes para o papa, e alludindo a dous bispos allemes carregados de crimes, que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro, haviam sido repellidos nas suas pretenses e offertas, S. Bernardo exclama: _Grande novidade! Quando at o dia de hoje rejeitou Roma dinheiro?_[11] Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, no pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bca do grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a opinio do severo cluniacense, _era mais facil entrar honesto, do que tornar-se l homem de bem_[12]; essa curia que me obrigaria a encher paginas e paginas de citaes se quizesse colligir as passagens relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se tractava de receber ouro, passagens que se encontram s dezenas nos escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, at, versos das cantigas populares contra a cubia da curia, o que prova ter-se tornado proverbial a corrupo de Roma[13]. Mas concedamos que, ultrapassando alm da curia romana, eu tivesse em mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos publicos so do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos moraes e politicos poderem trazer graves turbaes, dias de amargura igreja, no licito a todo e qualquer christo deplorar essas consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_ ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem de ter a inteno directa de o destruir? Ou eu no sei portugus, ou empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a ida de attribuir a esse individuo a inteno directa do suicidio? Ou ser que as expresses simples, as phrases innocentes dos outros homens se convertem em peste e veneno, quando saem da bca do feroz herege que ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo cerca do milagre de Ourique? Em que tempos estamos ns? Para onde caminha a reaco religiosa? Que!? Eu no poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um papa, em relao aos futuros destinos da igreja, e S. Thoms de Cantuaria poderia sem ser um reprobo lanar em rosto a Alexandre III as gravissimas accusaes de o trahir, e de querer conduzi-lo morte[14]? Poderia S. Thoms de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII, ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro dizia _no possuo nem ouro nem prata_--responder-lhe _que tambem era passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e anda_[15] epigramma pungente atirado s faces de um papa, cuja cubia no conheceu limites; poderia, digo, S. Thoms ser um doutor da igreja, depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilho de igrejas_[16]? Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florena, que no duvidou de pintar com as mais negras cres os vicios hediondos de Clemente V[17]. No chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que no sou nenhuma dessas cousas, no tenho direito de aferir pelos principios eternos da moral, da justia e da caridade evangelica as aces dos papas sem renegar da igreja. No disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos. Cada qual pde v-los luz que julgar verdadeira. Ao que, porm, eu tenho jus a averiguar se exacta a proposio absoluta de v.., de que o futuro da igreja muito sabido, claro e indisputavel _para os catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em que a proposio assim absolutamente enunciada, conduziria ao impossivel? O que certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um dos seus membros, que ella ser perpetua, indestructivel. Mas por quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de tribulao; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, viro ou no como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v.. sabemos. Est acaso v.., que eu creio profundamente catholico, habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram voz da curia romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compresso inexoravel, preferida politica evangelica da tolerancia, do perdo das injurias, da caridade sem limites, poder varrer para sempre dos animos italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor pde v.. julg-los legitimos ou illegitimos: no disputarei sobre isso. Mas que elles no existam; que elles no possam triumphar algum dia, eis o que v.., por certo, no affirmar com a mo na consciencia. E nessa hypothese, quem saber dizer at onde chegaro os excessos da colera e da vingana, azedadas pelo padecer, e at certo ponto legitimadas por elle, se legitimidade se pde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem catholico licito imaginar, sem que por isso vacille a sua f cerca da perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve entristecer, aterrada pelo porvir; licito suppr que as lagrymas dos seus futuros martyres vem j de antemo cair-lhe ardentes sobre o seio materno. Se attribuir ao gremio dos fiis, composto de homens, os affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, no , de certo, das tradies evangelicas, nem das tradies dos antigos padres. J no seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quo frequente era pintar-nos o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio Magno no duvidava de dizer: _A sancta igreja, emquanto vive esta vida de corrupo, no cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que passa_: e n'outra parte: _A dor esmaga a igreja quando v os perversos prosperarem na propria maldade_[20]. dessas vicissitudes a que allude o sancto pontifice que eu falo; a essas vicissitudes, demasiado provaveis, que os erros dos homens, as paixes anti-christans do sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previses, um caracter de terribilidade. Tenho dado razo de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto que o limitado espao de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo, o inhibisse de assim o practicar. Gsto de ser advertido dos erros em que caio, quando a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister, e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas ulteriores observaes v.. me convencesse de que eu errava. ignorancia presumida, ou insolencia estupida, que no costumo fazer a honra de responder. Quanto a esta questo, que no suscitei, e que at deploro, ella terminou para mim. Que os hypocritas faam visagens beatas contra a minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas so essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras inquisitoriaes, merc de Deus, acabaram para sempre. A raa dos escribas e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle mais cordealmente amaldioou, immortal e immutavel; mas deix-la viver. Quem diz ao sapo:--no sejas asqueroso?--Quem diz vibora:--no sejas peonhenta?--Babem e mordam; o seu destino, coitados! O que no tolerarei que me chamem de novo, a mim ou aos meus escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se deshonram os pulpitos. Que os prelados faam ou no o seu dever a este respeito, pouco me importa. Estejam certos de que no ser a suas excellencias que pedirei desaggravo. III SOLEMNIA VERBA AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES (_Outubro, 1850_) Porque vir tempo em que muitos homens no soffrero a san doutrina; mas..... accumularo para si mestres conforme aos seus desejos: E assim apartaro os ouvidos da verdade e os applicaro s fabulas. _S. Paulo, Epistola II a Thimoteo c. 4. v. 3, 4._ Permitta-me v.. que, sem existirem entre ns outras relaes que no sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa, uma carta a v.. Esta carta ser um pouco extensa. Ser talvez seguida de outras. No o sei ainda. N'uma questo litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que o procedimento de alguns individuos da ordem sacerdotal converteu n'uma contenda que no sei at onde chegar, v.. fez-me a honra de ser meu adversario, escrevendo dous opusculos em que combate as minhas opinies n'um, ou para melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria. Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas epochas, v.. se houve sempre para comigo com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia de um espirito cultivado. Pde haver ahi uma ou outra expresso mais viva, que feriria certas vaidades demasiado mimosas; se, porm, as ha, no me feriram a mim, endurecido j nestes recontros, e que tambem no sou dos menos sujeitos a ceder s vezes aos impulsos da vivacidade. No meio dos que me tem combatido, v.. representa a meus olhos a parte san, os homens sinceros do gremio, da eschola, do partido (como quizerem chamar-lhe, porque os nomes importam pouco) a que v.. pertence. Representa, digo, essa parte, postoque, e ainda bem que assim , no a resuma. Igual testemunho devo deixar aqui, se os meus escriptos tem de viver mais algum dia que eu, cerca dos Redactores do jornal _A Nao_. Meus adversarios tambem, no recebi delles na impugnao das minhas doutrinas, seno provas de considerao e de urbanidade. Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita em que quiz encerrar-se no seu ultimo e recente opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses homens probos e leaes que estimo e respeito, embora julgue erroneas, deploraveis at, as suas opinies n'uma contenda, que, no por minha culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma direco fatal. Deus queira que os imprudentes que lhe deram origem no tenham de chorar a sua loucura com lagrymas amargas! Sera bem triste que essa poro de compatricios meus em cujos coraes o amor do passado um sentimento puro, postoque, a meu ver, s vezes se manifeste de modo pouco reflectido, me cressem traidor sancta causa da patria. Se os erros de nossos paes e os erros de todos ns os que vivemos, erros que nos trouxeram a uma situao que no posso, que no quero definir aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal, ameaado na sua independencia e nacionalidade, brade por todos os seus filhos para um esforo supremo, para o salvarem ou para morrerem, espero em Deus, e depois de Deus na minha consciencia, que, sem crer no milagre de Ourique, no serei o ultimo a acceitar esse terrivel convite. O passado! Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com mais saudade para as suas tradies? Mas as tradies de que tenho saudade; mas o passado que eu amo, no o so essas lendas absurdas (desculpe v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas por interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que sejam, nem a philosophia nem o christianismo consentem se faa o cu instrumento. Nos tempos que foram o que me sorri, no s como saudade, mas (porque no direi agora o que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem como esperana, so as tradies dessa liberdade primitiva, postoque incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para me, para abrigo das sociedades da Peninsula; dessa liberdade, rude e turbulenta como uma creana educada lei da natureza, mas como ella robusta e viosa; dessa liberdade que se estribava nos habitos, que resultava de instituies positivas e exequiveis, e no de instituies copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os Pyreneus; dessa liberdade que tornava a monarchia uma cousa sancta, necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraa sua e nossa, foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio, politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e Commentarios das escholas d'Italia; dessa liberdade, que, desenvolvida e organisada logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez gloria immensa, mas para ns mais que esteril, de nos convertermos em victimas da civilisao da Europa, de revelar o Oriente sua cubia, para logo virmos assentar-nos extenuados n'um occaso de tres seculos; dessa liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em esforos impotentes de emancipao, que tommos como lices d'extranhos, e que era mais velha para ns do que o era para elles. Eis-aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual no s creio, mas tambem espero. Peo a v.. e aos animos honestos que pensam como v.. se persuadam de que o homem que no admitte certas narrativas infundadas, nem por isso deixa de ser bom portugus, e que, se no est excessivamente inclinado a adorar o Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em Deus. Com elles, com v.. a discusso grave, pausada, modesta, possivel; mais, uma necessidade do espirito, em que este se sente viver da vida, a elle to congenita, do raciocinio. Mas como replicar seriamente a homens, no s ignorantes e ineptos, do que elles no tem culpa, mas que falsificam, truncam, omittem as palavras do adversario, que lhe alteram as ideas, que, mettidos no charco mais fetido dos becos da Alfama ou do Bairro Alto, atram s faces do _impio_ que passa quanto lodo lhes cabe nas mos, contrahidas e convulsas pela colera? A taes desgraados que se pde fazer, seno dar-lhes a triste celebridade dos Cotins ou dos freis Gerundios, e envi-los gerao futura, envolvidos no sudario do escarneo, para lhe distrahir os tedios? Se as expresses, talvez severas e acres em demasia, que me escaparam n'um impeto de indignao contra a maioria do nosso clero, e no contra os homens honestos e instruidos que pertencem a essa classe, como sem pudor se inculca, no estivessem justificadas pelos actos que as suscitaram, as consequencias do meu escripto t-las-hiam remido. Dos que me impugnaram, foi aos seculares que coube a moderao, a lealdade, e a elevao dos pensamentos; foi a sacerdotes que couberam as manifestaes de odio incrivel[21], a transfigurao das minhas ideas, e a linguagem sem nome das prostitutas. Isto significativo. que esses seculares nunca tinham trajado a roupeta, usada a cubrir mais hypocritas e devassos ignorantes do que vares religiosos e sabios: tinham, sim, vestido a farda de soldado, costumada a despertar tantas vezes nobres e grandes instinctos. E que me importam a mim esse odio impotente, essa linguagem vergonhosa? O que o futuro ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o v.. As ameaas, que ahi se murmuram pelos cantos, essas causam-me d. Se ao poder publico faltasse a fora para manter illesa a segurana dos cidados, devolvia-se a estes o direito da propria defesa. Mas os Jacques-Clementes no apparecem seno onde a sinceridade das convices degenerou em delirio, e no onde as crenas so especulao. Para ser Jacques-Clemente requer-se mais alguma cousa do que saber assassinar; necessario saber morrer. Entrarei na materia. Na questo suscitada pelo modo como tractei na Historia de Portugal a lenda de Ourique, e ainda outras lendas analogas, necessario confessar que se tem partido sempre de um ponto nebuloso e fluctuante. Para se chegar a um resultado preciso era necessario ter convindo em certo numero de principios, acceitar certas formulas de raciocinio. No se fez isso. E todavia, a crtica historica tem regras para a credibilidade, regras a que todo aquelle que tracta de taes materias deve sujeitar-se, porque se estribam, no s na acceitao dos homens de sciencia, mas tambem na razo commum. Estes preceitos so no nosso seculo, em que os estudos historicos tm feito na Europa tantos ou mais progressos que as outras sciencias, assaz severos; mas essa severidade comeou a desenvolver-se desde os fins do seculo XVII, em que a congregao de S. Mauro, aquelle brilhante seminario de homens illustres, creou a diplomatica. O estudo dos archivos, estudo alumiado pela philosophia crtica, mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas compilaes de trabalhos historicos dos seculos anteriores. de S. Germo dos Prados, de S. Brs da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos da Frana e da Allemanha, que partiu o movimento intellectual da Europa nesta parte do saber humano. O que o seculo presente, amestrado por maior experiencia, tem feito apertar mais as condies da credibilidade, evitando ao mesmo tempo todo o genero de preoccupao que possa proceder dos interesses de partido politico ou da incredulidade em materias de religio; tambem o ter dirigido as indagaes historicas mais para o estudo da indole das sociedades, do que para os actos dos individuos. No nega as tradies da antiga sciencia; completa-as, aperfeioa-as. No exame dos monumentos, na sua confrontao, tem dado exemplos de imparcialidade e de paciencia, que mereceriam os applausos dos grandes reformadores benedictinos, se podessem contemplar os resultados da eschola que elles crearam, embora a sciencia moderna, como era natural, os tenha deixado bem longe de si. Os doutos que tm comparado os _Monumenta Germani Historica_ de Pertz, os _Monumenta Histori Patri_, publicados em Turin, a Colleco dos Archivos d'Inglaterra, a continuao dos _Scriptores Rerum Francicarum_, e emfim as demais publicaes desta ordem com o que os maurienses nos deixaram nesse genero, sabem que passos gigantes tem dado a crtica das fontes historicas. O uso dessas fontes, a applicao dos preceitos a ellas, tem produzido historiadores como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amri, Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira conhece e admira. a estes typos que hoje forosamente ha-de tentar aproximar-se quem escrever historia, se no quizer deshonrar-se e deshonrar a litteratura do seu paiz. Foi essa aproximao que eu tentei, persuadido de que bem merecia por isso da terra em que nasci. Se assim ou no, pertence decidi-lo quelles que vierem aps ns. No meio de uma revoluo litteraria no ha desafogo de animo bastante para se fazer inteira justia, nem aos meus esforos, nem candura das minhas intenes. Conheo a difficuldade de se abandonarem antigas preoccupaes, e seria louco se me irritasse com isso. Mas para refutar as impugnaes que at aqui tm apparecido no me parece necessario invocar a sciencia no seu estado actual, e nem sequer a sciencia anterior na sua applicao historia profana. Bastam-me as regras acceitas pelos historiadores ecclesiasticos mais respeitaveis, inculcadas por theologos, estabelecidas por membros illustres do clero, a quem nem uma unica voz ousar accusar de menos crentes, ou sequer de menos piedosos. , creio eu, e v.. o julgar, acceitar a situao mais desvantajosa possivel: tambem o que eu j tinha feito invocando a regra de Vicente de Lerins. Se a religio (cuja base a crena em cousas que excedem a comprehenso humana, e que nos impe a synthese, o dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente analyse) exige dos factos tradicionaes, antes de os acceitarmos, as condies de terem sido acreditados _sempre, em toda a parte, e por todos_, quem pede para crer ou deixar de crer factos puramente humanos (sujeitos pela sua natureza a toda a discusso possivel) apenas as garantias de liberdade intellectual que a igreja, to parca em conced-las, concede aos fiis para acceitarem uma parte das suas crenas, no abdica evidentemente de uma liberdade, de uma vantagem que sua, que ninguem lhe disputaria? Mais de uma vez terei talvez de appellar para a probidade litteraria e para a intelligencia de v.. e dos homens sinceros e honestos que pensam como v..; mas aqui, parece-me to evidente a materia, que a deixo discrio do espirito mais vulgar, da consciencia mais prevenida. Se Galileu, quando descobriu que era a terra e no o sol que andava, tivesse presentes as condies do Comonitorio, no o teria affirmado, e evitaria as perseguies da inquisio, postoque deixaria para outro a gloria de ter descuberto um facto importante. Aquelle canon, applicado sciencia, mais perigoso para a verdade nova do que para o erro antigo. Eu disse que as auctoridades que estabeleceram as regras historicas acceitas por mim sero ineluctaveis para aquelles mesmos que mais ferrenhos se mostram em conservar quanto os tempos passados nos transmittiram. Essas regras, pois, ao menos as principaes, permitta-me v.. que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver uma parte do clero insultar-me nos pulpitos e na imprensa, calumniar-me nas praas e corrilhos, porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas _para se estudar e escrever a historia da igreja_ por homens que so a gloria e honra da classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos, na consciencia de todos no estivesse quanto escrevi cerca da decadencia intellectual da maioria do nosso clero, parece-me que o que vou transcrever sera medida sobeja para por ella se aferir essa verdade. J que falei dos religiosos da congregao de S. Mauro, comearei pelo mais celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon. Eis o que elle nos ensina: 1.^o Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da historia em evitar todos esses vicios em que facil cair; quero dizer, evitar admittir por verdadeiro o que falso, ou deixar-nos dominar pelas affeies particulares dos historiadores. necessario, primeiro que tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se idoneo e sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou seita... 2.^o Devemos averiguar _se o auctor que lemos synchrono_ (contemporaneo); se escreveu elle proprio, ou se copiou outro; se prudente nas suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas; porquanto, dada a paridade no demais, deve preferir-se a opinio do auctor coevo do mais moderno. Digo--dada a paridade no demais--porque pde acontecer, e acontece s vezes, escrever a historia com inteira madureza o auctor no synchrono, estribado _em monumentos serios_ e boas razes, e o contemporaneo muito ao contrario, ou seja por negligencia, ou seja por ignorancia dos factos, ou seja por alguma preveno, ou finalmente porque o _subjuga a fora do proprio interesse_. 3.^o Segue-se d'aqui _no se dever confiar demasiado naquelles factos sobre que os escriptores rigorosamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos, guardaram silencio_; postoque possa acontecer que um auctor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados em logar occulto quando os factos aconteceram, ou visse escriptores synchronos, ou quasi synchronos, cujas obras depois se perdessem. _Se, porm, esses escriptores, ou os que lhes succederam, no intervallo de um at dous seculos, nada dizem a tal respeito, e no obstante isso, um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho ou auctoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente esses factos, bem pequena conta se deve fazer delle_, alis abririamos ampla estrada para errarmos, e para enganarmos os outros. 4.^o Com todo o cuidado nos devemos premunir para no sermos illaqueados por alguns auctores suppositicios, inventados nestes nossos tempos... 5.^o No se deve proscrever qualquer auctor por um ou outro defeito de paixo ou allucinao, pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeio propria da natureza humana, comtanto que seja sincero e pontual no resto... 6.^o No se devem desprezar os antiquarios, auctores de resumos historicos, e compiladores... 7.^o Quando as narrativas variam, no nos devemos deixar attrahir pela considerao do numero, mas sim pelo merito e gravidade[22] dos auctores; visto que muitas vezes acontece que a auctoridade de um auctor grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos f, _porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discusso e diligente exame das cousas_... 8.^o Por este mesmo motivo no deve fazer-se grande fundamento na quasi innumeravel multido de casos que muitos modernos costumam amontoar nas vidas de certos sanctos... Dizendo isto, sinto apertar-se-me o corao, e com magua devo accrescentar, que so muitissimo mais exactos os auctores profanos escrevendo vidas de ethnicos, do que muitos christos relatando vidas de sanctos, o que j no receou affirmar Melchior Cano, referindo-se a Diogenes Laercio e a Suetonio. Ouamos ainda n'outra parte o fundador da diplomatica francesa: necessaria a crtica para distinguirmos as historias verdadeiras das falsas; para no darmos temerariamente credito a narraes supersticiosas, a vans opinies, a delirios aereos, a _milagres fingidos ou duvidosos_, a _escriptos suppostos dos sanctos padres_. O veneravel Guigo, quinto geral dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma de crtica: ..._Buscae a prova de tudo; o bom respeitae-o. Quem cr de prompto leve de corao._ Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador da igreja catholica. Depois de varias consideraes sobre os documentos falsos com que o clero innundou a Europa nos seculos de trevas, e da falta de instruco que entre elle reinava, o historiador observa: Outro resultado da ignorancia tornarem-se os homens credulos e supersticiosos, por falta de principios seguros de crena e de exacto conhecimento dos deveres religiosos. Deus poderosissimo, e os sanctos tm alto valimento para com elle: verdades so estas que nenhum catholico rejeita: logo devo acreditar todos os milagres attribuidos intercesso dos sanctos. M concluso. Cumpre examinar as provas delles, e com tanta mais exaco, quanto esses factos mais incriveis e importantes forem. Porque, dar por certo um milagre falso nada menos , segundo S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus, como mui judiciosamente observa S. Pedro Damio. Assim, longe de ser acto de piedade cr-los de leve, a propria piedade que nos obriga a averiguarmos com rigor as provas em que se fundam. _O mesmo se deve dizer das revelaes, das apparies de espiritos, das operaes do demonio... Em summa, toda a pessoa dotada de bom juizo e religiosidade deve ser cautelosissima em acreditar factos sobrenaturaes._ Mas observemos as precaues de que Fleury se rodeava, as balisas que para si proprio punha, ao comear o immenso lavor da sua _Historia Ecclesiastica_, ainda hoje no substituida, apesar de tantas monographias excellentes com que depois tem sido illuminada, por um ou por outro aspecto, n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis os limites que elle estabeleceu credibilidade n'um genero de escriptos onde esta poderia ser mais ampla, limites que _fortiori_ no ser nunca licito ultrapassar em matria de tradies humanas. Mas antes permitta-me v.. que cite algumas passagens, as quaes me parecem grandemente applicaveis a essa parte do clero, que, em vomitando, no pulpito ou na imprensa, contra quem diz a verdade, quantos adjectivos injuriosos contm o diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra dessas fabulas e crendices que esto costumados a propalar entre o povo, provavelmente pela mesma razo por que prgam mal, isto _porque os festeiros gostam d'isso_, embora os concilios lh'o prohibam, os apostolos os condemnem, os membros mais doutos e pios da igreja catholica lhes mostrem o abysmo em que se precipitam! Para onde has tu fugido, oh religio de Christo?! Vejo bem--diz Fleury--que a minha historia no ha-de agradar aos espiritos acanhados, atidos s suas preoccupaes, e sempre promptos em condemnar os que pretendem desengan-los; aos que tapam os ouvidos quando a verdade soa, para se abraarem com as fabulas, buscando doutores que vo com elles. No lhes faltaro livros acommodados ao paladar. Escrevo em vulgar para ser util aos homens de juizo... Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um de credulidade, outro de critica. Nem s a simpleza faz credulos. Pessoas ha que o so por politica e por deploravel sobranceria. _Julgam que o povo incapaz ou indigno de saber a verdade; e tem por necessario alimentar-lhe todas as opinies que lhe foram inculcadas como religio_, receiosos de abalar o que solido, atacando o que frivolo. Na essencia, estes suberbos politicos so ignorantissimos. Desconhecendo a religio, no a tomam a serio, e nada os liga a ella seno as preoccupaes da infancia e os interesses temporaes. Nunca examinaram as seguras provas do evangelho, nem sentiram a excellencia da sua moral e a esperana dos bens eternos. _ por isso que no ousam profundar as cousas antigas e temem conhec-las_: sabem que lhes no so favoraveis. Querem crer que sempre se viveu como hoje, porque no querem mudar de vida, como se nos fosse proveitoso enganar-nos a ns mesmos, ou se a verdade podesse trocar-se em mentira fora de averiguaes. Graas a Deus, a f christan passou pelo chrysol; o que ella _teme_[23] que no a conheam. A outra especie de pessoas credulas em demasia so christos sinceros, mas fracos e escrupulisadores, que propria sombra da religio respeitam, e sempre receiam crer de menos. Falta a uns a instruco; cerram os outros os olhos, e no querem fazer uso do entendimento. para os taes objecto de devoo crer quanto escreveram os auctores catholicos e quanto cr o ignorante vulgo. A meu vr, a _legitima devoo consiste em prezar a verdade e a pureza da religio, e em observar, primeiro que tudo, os preceitos expressamente estabelecidos na sagrada escriptura_. Ora, vemos que S. Paulo recommenda repetidas vezes a Tito e a Timotheo que evitem as fabulas, predizendo tambem que uma das desordens do fim do mundo ser o affastarem-se os homens da verdade para se aterem a crendices; vemos que as fabulas eruditas no merecem menos desprezo a S. Pedro que os contos de velhas de S. Paulo; e do mesmo modo que elle condemna as fabulas judaicas, teria condemnado as christans, se j ento as houvesse. Que diro a isto aquelles que a timidez torna to credulos? No tero escrupulo em menosprezar semelhante auctoridade? Diro que nunca houve fabulas entre os christos? Seria desmentir a antiguidade em peso... A critica portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradies, deve averiguar-se quaes so dignas de credito; devemos faz-lo, at, se no queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os milagres esto bem provados, para lhe no levantarmos falso testemunho, attribuindo-lhe os que elle no fez. Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico cerca dos milagres, estribado nos livros que Deus inspirou. Quem ser, pois, o impio, o incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que esquecidos dos deveres, no digo do sacerdocio (porque neste caracter, o seu procedimento no tem nome), mas do simples christo, ousam perguntar ao historiador sincero: _Se necessario, se util que o historiador se constitua campeo acerrimo contra essas tradies que deturpam a historia?_ e que respondem:--_ um arrojo mui imprudente e reprehensivel no historiador semelhante intento. Que preciso, que vantagem ha em destruir as crenas theocraticas[24], que uma tradio de seculos fora radicando no corao do povo? Nenhuma ha:_ e depois accrescentam esta maxima impia de Laharpe--_a politica sabia e devia tirar partido do poderoso movel da geral crena, cujos effeitos so geralmente bons em todo o governo, mesmo quando a crena erronea!_ No peo a v.. to cavalheiro e to indulgente para comigo; peo ao homem que mais me odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os desgraados que no se envergonham, christos e sacerdotes, de invocar contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que insultam, no a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia, mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo. Mancebos, cujos coraes generosos a indignao pde desvairar! No meio destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos hombros seu velho e j to roto manto, e nua e vinolenta pragueja a verdade, atira com a f aos ps da politica, rasga as sacras paginas, maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, no volteis, cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. No! A philosophia, a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que esto sanctificadas no livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no templo ouvirdes dizer que a mentira sancta, que o povo s pde ser virtuoso se crer em falsos milagres, sa, porque o templo est polluido pela blasphemia e pela calumnia; mas no renegueis da cruz. A cruz est pura; a cruz ser eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio chegasse, o que no creio, a corromp-lo inteiramente; se no achassemos uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz l est hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos irmos abraar com ella: os mortos no tem ouro, os mortos no so festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi no se tem blasphemado. Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christo sincero o ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preo por que o venderam, acolhamo-nos s placidas discusses da sciencia, e vejamos, como j disse, as mais importantes dessas regras que o pio e douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia credulidade. No tenho em conta de provas, seno o testemunho dos auctores originaes, isto , daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou pouco depois_. Porque a memoria dos successos no pde subsistir por muito tempo sem ser escripta. _Bastante ser se durar um seculo._ O filho pde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou av lhe referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos que tem passado por varias geraes no obtem a mesma certeza: cada qual lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar. _ por isso que as tradies vagas de factos muito antigos, que tarde ou nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando a factos provados. _Nem se diga que as historias pdem ter-se perdido; porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos anteriores a elles muitos seculos; _se no citam os auctores d'onde os tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os rumores vulgares_..... Os proprios auctores contemporaneos no devem adoptar-se sem exame... deve averiguar-se bem se o escriptor digno de f, quasi como quem inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em outros diplomas da epocha, deve ser preferido s narrativas dos historiadores._ At aqui Fleury. Para estas largas citaes preferi dous homens de indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagos ou protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma questo que evidentemente no interessa os dogmas da nossa f. Poderia invocar a bella sentena de Cicero: _Quem ignora que a primeira lei da historia no ousar dizer a menor falsidade, e a segunda no nos faltar jmais valor para dizermos a verdade?_ certo que uma parte do clero portugus do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--_Ignoramo-lo ns._--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no seculo XVII, as palavras de Joo Leclerc:--Quando se escreve a historia, _sobretudo de tempos antigos_, no licito dissimular a minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulao, inutil para aquelles, profundamente damnosa a estes.--No me quiz aproveitar dessas auctoridades summas, porque um no era christo, outro no era catholico. Parece-me que levar longe o escrupulo. E todavia, o protestante Leclerc estribava-se na opinio de S. Isidoro Pelusiota--Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras encobrem a verdade, muito mais desgraados me parecem de que os que no a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho no a alcanaram, estes no so talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam, commettem mais grave e imperdoavel peccado. Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Sero os theologos de profisso mais indulgentes para com as lendas e tradies no provadas? Exigiro, ao menos em referencia historia da igreja, maior credulidade nos que a estudam ou escrevem? Ouamos o celebre Melchior Cano, o qual ninguem accusar de excessivo amor pelos fros e liberdades do raciocinio: eis algumas das suas observaes cerca do credito que deve dar-se s tradies infundadas. A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que os presenciaram_... cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a historia ecclesiastica no podem ser gente boa e sincera, e que toda a sua narrativa tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas so as queixas de Luiz Vives cerca das historias inventadas no seio da igreja; _prudentes e graves as arguies que dirige quelles que julgam obra pia fazerem de mentiras religio_, cousa altamente perigosa e profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado tiraro, talvez, se no negar-se f s cousas verdadeiras por causa das falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa consciencia auctores de inteira veracidade_. Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade, outro bem diverso extracto. Juro que no o fao com o intento de humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vr, cega um erro deploravel. para vingar a religio injuriada; para dar ao paiz um desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. S advirto que a passagem concepo de um sacerdote, que celebra por certo tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro tempo: Hypocritas! Bem prophetisou cerca de vs Isaias, quando disse: Esta gente honra-me com os labios; mas o seu corao est affastado de mim. Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peo venia de lanar, depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que dirigido a um homem to delicado como v.. Os historiadores tm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios singulares, que registavam em seus escriptos _no eram fundados seno em rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta precauo, j porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... j porque elles no julgassem dever abalar a crena vulgar; bem convencidos que sombra de um prejuizo repousava s vezes uma verdade util, a que talvez tivessem vergonha de prejudicar. Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos historiadores, cerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario querer campar por uma anomalia extravagante e ridicula..._ Se, porm, gravemente offende o melindre patriotico de uma nao aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas tradies historicas constantemente recebidos e venerados; quanto no se torna mais altamente _ru d'este attentado_ aquelle escriptor, que no s os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de cara descuberta os vir insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente tenha commettido _to reprehensivel e extranho excesso_, por certo o auctor da carta aviltante, a respeito da Appario de Christo a D. Affonso Henriques. _ uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropra... Como crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, no receio diz-lo_, por effeito dessa universal crena dos sabios, _perdido a sua natureza e deixado de o ser!!!_... Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a averiguar tranquillamente se os theologos de profisso concordam com os eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda algumas palavras de Melchior Cano. Achareis outros, no to ineptos, mas quasi to imprudentes, que no buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar onde raro encontr-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto frequentemente aos inconstantes e leves de cabea; _porque os homens graves e severos no costumam andar caa dos dictos vos do vulgo_. Desamos j aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenas mais sanctas e legitimas em milhares de coraes. Vacillou, acaso, por isso a critica dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua falsa miragem? V.. o julgar pelas doutrinas de muitos vares religiosos dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam precedido. Por exemplo, o theologo piemonts Denina, diz-nos: Acontecem algumas cousas fra da ordem natural, que, de per si s, so incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres, os quaes, _nem licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem acceitar todos sem seleco_... Pertence prudencia do historiador _nada escrever, que no saiba por si proprio, ou no se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_, cumprindo-lhe, no menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem pde ter conhecimento do que narra, se no viveu no tempo em que os factos aconteceram; nem sab-los de pessoas fidedignas, se estas no os presenciaram_; nem escapa de credulo, se no explicar e expender as razes, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o fazem _nenhum credito merecem_... Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar; salvo constando que fra curioso em indagar e explorar... Se o historiador referir cousas, no do seu tempo, mas succedidas muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores d'onde as tirou_, sendo _alis daquelles que as podiam saber_... No duvido de chamar _mu historiador_ a todo aquelle que devendo ter por norma o no ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que motivo for_... Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos, a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituies de historia ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As seces desses compendios relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais so do que o desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram ex-professo ou accidentalmente da crtica historica. Andam esses livros nas mos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este, coitado, no sabe ler. No serei, por isso, demasiado extenso em cit-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem sobretudo ao intento. Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente, ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou por vontade nos _queiram_ illudir, s podmos acquiescer ao seu testemunho, se no houver razes sufficientes para duvidar da sua habilidade ou sinceridade. A auctoridade das testemunhas no uma e a mesma, e portanto deve attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relao aos sentidos, 2.^o em relao ao entendimento, 3.^o em relao vontade. Em relao aos sentidos, essas testemunhas ou so de vista ou de ouvida. _As de ouvida ou so coevas, ou no coevas mas que ouviram aos coevos o que narram_... D'aqui se segue, _que pouca f deve dar-se quillo que os escriptores ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de mencionar_... A verdade dos conhecimentos historicos no depende de modo nenhum da abundancia dos historiadores, visto que _no provm maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos elles junctos no valem mais do que o primeiro que o referiu_... A considerao do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que escreveu importa muito em relao ao seu intuito de falar verdade. N'alguns paizes a liberdade de escrever franca; n'outros opprimida; n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia romana receberam s vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde vigorou o terrivel tribunal da inquisio, a fogueira estava prompta para a verdade._ No faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a outros. Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo Dannenmayr: Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos e largamente provados._ Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina, uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas sinceros nas suas prevenes, houvessem de julgar-me, no tanto no foro da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha direito de trazer o litigio, mas n da mais restricta piedade. Em these, a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e que apologia, meu Deus!) das tradies fabulosas, no comigo; com os apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente no se lembrou de que lhe caa a mascara, e de que alguem poderia levant-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de justia lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz respeito, o meu dever provar aos homens sinceramente pios que, rejeitando falsas lendas, no ultrapassei os limites de uma crtica irreprehensivel. Ser esse o objecto da carta immediata, que em breve espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razo das minhas opinies cerca da maioria do nosso clero, e cerca da curia romana. Compelliram-me a isso; f-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os conhecesse: ho-de ser satisfeitos. Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes dias de tempestade! IV SOLEMNIA VERBA SEGUNDA CARTA AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES (_Novembro, 1850_) Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais exaco, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas as principaes regras da critica, em relao s fontes historicas. Dessas regras resulta o que a boa razo est por si indicando; que necessario premunir-nos contra a credulidade, no s por honra da sciencia e pela considerao do proprio credito litterario, mas tambem, o que mais grave, para no deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os outros se consubstanciam, o atermo-nos unicamente aos testemunhos synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer sobrenaturaes e incriveis para a razo humana; quer elles nos sejam transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porm, se tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impe as palavras de S. Paulo, o dever de no levantarmos falsos testemunhos a Deus. Que podia eu fazer em relao ao supposto milagre de Ourique, escrevendo a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas, historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de provas daquella celebre tradio, s tinha servido de convencer-me das aberraes em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados, quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os caracteres desta a um preconceito. No me era possivel omittir a batalha de Ourique. Que podia eu fazer, repito, cerca do milagre da appario? Ou mentir minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospr as doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram de critica historica, calcar aos ps a maxima do mais illustre escriptor romano, ou ento manifestar sem hesitao as proprias convices, que julgava e julgo legitimas, isto , proceder de um modo que v.. mesmo cr nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, no sei se est em perfeita harmonia com a ida geral que predomina nas consideraes que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria commum, da manifestao das minhas doutrinas. Disse, pois, o que supps e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me dilatar, sem exaggerao, sem pretenses a ter feito um importante descobrimento historico; porque realmente o no era: disse-o singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito diz-lo, nem v.. nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides concentravam todas as foras em Africa, para salvarem o imperio da ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem a heroica guarnio de uma praa como Aurelia ao seu triste destino. A narrativa anterior, o quadro da situao dos lamtunitas e das perturbaes quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam o leitor para por si fazer conceito das dimenses da batalha de Ourique. Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar, talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum modo desculpar a significao exaggerada que depois se lhe attribuiu. Sobre a appario disse apenas o restrictamente necessario para o leitor vulgar conhecer que eu no a admittia. Se tivesse o proposito deliberado de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo, cr v.. que eu no teria recursos para aproveitar o lado contradictorio e at ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se no possa encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da historia? Cr v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da inveno dessa maravilha, e avali-las severa ou, se quizerem, malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me dizer que foi necessaria demasiada preveno contra mim, ou a favor da inviolabilidade da appario, para se no ver que procurei, quanto me era possivel sem offender a verdade, no converter os factos que se prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas com que finalisa cada volume do meu livro so destinadas para os homens da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opinies. Estas notas so, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores no se cansa com essas discusses tediosas. Foi, porm, ahi que eu alludi ao ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaa, o que fiz apenas pelo desejo de dar uma satisfao aos homens professionaes. Se eu fosse o impio, o atheu, e no sei que mais, que por ahi me chamam os padres ignorantes e mal procedidos, no tiraria vantagem dessa falsificao insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas do cu para fins terrenos? No practicaria ao menos aquillo que a justissima indignao de qualquer homem religioso o levaria talvez a practicar? Se tal se houvesse de crer, no deveriam qualificar-me de impio, mas sim de insigne mentecapto. Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as minhas opinies, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de juramento conservado em Alcobaa, eu fiz uma citao contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano no nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaa?--_Quem desejar conhecer a impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc._--Se o auctor concorda comigo em que elle falso, onde est a improcedencia da citao? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma que acreditava na appario, posto negasse a genuinidade do pergaminho de Alcobaa, e que eu no creio nem no documento, nem no facto. Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. No era, porm, para a opinio manifestada pelo academico em relao ao successo, mas sim para as suas razes contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o que elle diz em favor do facto no mais do que repetir o que outros disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente de Fra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, d como provavelmente tirada _de outro original falso_. O que se v de tudo aquillo que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaa, quiz ao menos salvar-se, protestando pela pureza da sua crena no milagre de Ourique. Talvez, se eu vivesse ento, fizesse o mesmo, em atteno circumstancia que nos recorda Gmeiner: _onde vigorou o terrivel tribunal da inquisio, a fogueira estava prompta para a verdade_. Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho pelo meu paiz desta necessidade de disputar cerca de um diploma falso, que se acha depositado nos archivos do estado, onde qualquer pessoa pde examin-lo. Qualquer pessoa, sim; porque no preciso ter a menor ida de paleographia para o reconhecer por falso. Basta pr-lhe ao lado dous ou tres diplomas genuinos do meiado do seculo XII, e comparar. Esses multiplicados recursos que possue a diplomatica para desmascarar falsarios so aqui perfeitamente inuteis. Estou certo de que v.. nunca o viu; porque tambem estou certo de que, se o houvera visto, eu acharia v.. a meu lado para dizer aos homens sem pudor que ainda ousam inculcar como legitima essa inveno torpe: _Sois uns miseraveis!_ Sinto sinceramente que v.. se dignasse de tomar para si, a favor da appario, um argumento que devia pertencer precipuo aos apologistas dos clerigos ignorantes e devassos. Consiste elle em que, negando eu que a tradio de Ourique remonte aos tempos a que se refere, devo dizer quando, como, e para que a forjaram. Onde existe semelhante canon de critica historica? O que sei que ella comeou a apparecer no ultimo quartel do seculo XV, mais de trezentos annos depois da epocha em que se diz succedido o milagre; o que sei que em nenhum escriptor, nem em nenhum documento legitimo, coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de semelhante tradio; o que sei que os escriptores modernos que a publicaram no se referem a testemunho contemporaneo ou proximo; o que sei, portanto, que as regras de critica adoptadas por homens no menos pios que sabios me obrigam a rejeit-la. Diga-me v..: se um devedor seu pretendesse pagar-lhe certa quantia em moeda falsa, v.., depois de a examinar e convencer-se da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios por que pretende julgar-me, devia reconhec-la por boa e acceit-la, emquanto no podesse mostrar quando, como, por quem e para que fora forjada. No v v.. que uma tal regra de critica nos obrigaria a adoptar como verdadeiras at as lendas indicas de Vishn e de Brahma? Outro argumento me faz v.. que eu tambem desejara tivesse deixado aos ex-frades ignorantes e hypocritas: o da impossibilidade de nossos avs terem adoptado uma tradio que no fosse verdadeira. Quer v.. que lhes concedamos a mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma honra, o mesmo amor da propria fama e dignidade que ns temos. Concedo por um momento. Mas o patriotismo de v.. no ser to inimigo da logica, nem to cego, que recuse os mesmos dotes aos avs dos actuaes castelhanos, franceses, italianos e allemes. Por aquella doutrina, v.. deve acreditar todas as lendas desses paizes, ainda quando a critica historica as tenha feito abandonar aos castelhanos, franceses, italianos e allemes de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo, acreditar _ fortiori_ a historia da papisa Joanna, embora j os proprios protestantes se riam dessa calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou por seculos. Mais ainda: v.. assaz instruido para no ignorar qual foi a civilisao dos arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura, qual a nobreza do seu caracter. Apesar disso, elles nunca deixaram de crer na tradio dos milagres de Mafoma. No de esperar da justia de v.. que recuse a esse povo to culto os dotes intellectuaes e moraes que attribue a nossos avs. Adoptar v.. as lendas mussulmanas cerca do propheta de Mekka? Principios que provam tanto, ou antes que provam tudo, permitta-me v.. desconfiar de que no provam nada. Deus nos livre de pensar que uma fabula que se generalisa, se converte por isso em verdade. Semelhantes doutrinas, deixe-as v.., christo, cavalheiro, e homem de letras, para essa parte da cleresia, que quer lucrar com as illuses populares. A ns, christos, incumbe recordar-nos daquellas tremendas palavras do divino Mestre: Guardae-vos do fermento dos phariseus, que a hypocrisia: _Porque nenhuma cousa ha occulta que no venha a descubrir-se; e nenhuma ha escondida que no venha a saber-se_.... E todo o que proferir uma palavra contra o filho do Homem ser-lhe-ha dado perdo; mas _quelle que blasphemar contra o Espirito Sancto, no lhe ser perdoado_. V.. sabe, to bem como eu, que, segundo Sancto Agostinho, uma das blasphemias contra o Espirito Sancto _ o negar a verdade conhecida por tal_. E isto o que responde a todas as consideraes que v.. me faz sobre a conveniencia de no desilludir o povo cerca das suas tradies mentirosas: so estas palavras do Salvador, que fulminam os phariseus modernos, como fulminaram os antigos, que me obrigam a falar verdade escrevendo a historia. Ainda que essas consideraes fossem exactas, a patria verdadeira do christo o cu, cujas portas ficaro cerradas, conforme a doutrina de Christo, aos que tiverem desmentido a verdade na terra. A patria deste mundo nosso dever am-la, sacrificar-lhe tudo, menos a honra, menos as esperanas de alm do tumulo, menos a f. esta a mais sancta das tradies que herdmos de nossos paes. O crucifixo sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os que nos geraram, no o insultemos na vida, para podermos tambem despedir o ultimo alento, abraados com elle, sem terror, sem remorsos, e para o legarmos immaculado a nossos filhos; para que elles, no momento de o transmittirem moribundos a nossos netos, no se lembrem horrorisados de que essa imagem do Redemptor j foi bafejada pelo extremo respirar de um blasphemo. Amemos e respeitemos a tradio divina, e tenhamos esforo bastante para repellir mentiras, sobretudo quando, segundo as palavras do apostolo, ellas envolvem um falso testemunho contra Deus. Isto para os christos. Para os falsos politicos, que cuidam ser a religio apenas um instrumento que serve para conter os humildes e pobres, a que Christo chama os grandes do seu reino, e a que elles chamam massas brutas; para esses, que no crendo acaso em Deus, accusam os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores de nossa gloria; para esses liberaes e at democratas, que desprezam o povo ainda mais do que o desprezavam os poderosos de outros tempos; para os taes no applico eu s o dicto de Fleury, de que so ignorantissimos em materias de religio; digo tambem que o so em materias de politica. Para o povo ser livre, necessario que seja religioso e honesto; no que seja credulo. Para que elle seja religioso e honesto necessario que conhea as doutrinas do evangelho, que no so mais do que a confirmao divina da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpre inculcar-lhe os principios do christinanismo, e as consequencias daquelles principios: cumpre illustr-lo, em vez de o conservar na ignorancia; fazer-lhe sentir que a fora de practicar grandes e nobres sacrificios, to recommendados por Jesus, o caracter que distingue o espirito immortal do homem do instincto que anima as alimarias. preciso convenc-lo de que o patriotismo, de que esse puro e sancto affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as affeies do corao, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a intemperie das estaes, para irmos morrer n'um campo de batalha, salvando a terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de nossas irms e mulheres, a manifestao mais solemne da energia do espirito humano, e da abnegao christan. E estas verdades eternas; estas verdades, que, gravadas nos coraes do povo, tantas vezes tm salvado as pequenas naes dos intentos ambiciosos das grandes, d'onde se deduzem? das invenes dos milagreiros e falsarios, ou das divinas paginas da biblia? V.. deve conhecer, como homem de letras que , a historia dos povos mussulmanos. Houve nunca no mundo crena que se estribasse tanto como o islamismo em falsos milagres, quasi sempre conducentes a inspirar o amor da guerra e o enthusiasmo das multides credulas? E todavia, quaes foram os effeitos desse enthusiasmo, que no correspondia a doutrinas accordes com os instinctos naturaes da nossa alma, que no se fundava em convices reflectidas, na certeza moral do dever, mas que se inspirava de promessas fingidas do cu? Os mussulmanos devastaram e submetteram a melhor poro da Asia e da Africa, e ainda uma pequena parte da Europa: formaram quinze ou vinte naes de falsos crentes, e estas naes cresceram e civilisaram-se combatendo sempre. E depois? Depois, quando foi preciso conservar o edificio; quando se tractou de defender a patria, em vez de a tirar aos outros; quando foi preciso repellir em vez de aggredir, mostrar essa perseverana, que nem se exalta com o triumpho, nem desanima com o revs; que padece, calada e soffrida; essa perseverana que a mais poderosa arma dos povos ameaados na sua existencia, tudo faltou. As naes mussulmanas desmembraram-se, fundiram-se, annullaram-se umas, desappareceram outras, e conservando todas as suas crenas, todos os seus milagres, ei-las ahi esto as que restam, ludibrio da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo ao crepusculo da passada gloria, lanando nos dias da afflico e do perigo os olhos para o occidente, a vr se os filhos da cruz estendem o brao para proteger o crescente. As tradies das victorias, as maravilhas celestes dos tempos heroicos de Islam l esto gravadas na memoria de todos. Porque no salvam, no regeneram ellas essas sociedades atrophiadas e moribundas? Ainda hoje ha homens das novas idas, os quaes se dizem cheios de illustrao e de philosophia, que, abandonando os milagres suppostos, no porque os tenham por infundados ou absurdos em si, mas porque suppe que o fanatismo pde lucrar com elles, no querem que se toque nas tradies humanas que se ligam gloria nacional. verdade que no sabem bem que deva consistir a gloria de uma nao, porque nunca pensaram nisso. Para elles, que vivem no seculo XIX, onde quer que pereceram milhares de homens, combatendo por interesses que no comprehendiam, ou por torpe cubia; onde quer que o ferro e o fogo arrasaram as cidades, despovoaram os campos, embora dessas cidades e campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos gigantes da assolao, dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans, avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens as faanhas dos proprios avs. Se a historia pergunta:--Acaso esses combates, em que, sem duvida, se practicaram grandes feitos, foram uteis ao progresso moral e material do povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram a sua decadencia? Est ou no essa gloria militar, alis indisputavel, assombrada por grandes crimes? Foi a inteno, a qual s determina o valor moral das aces, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela ambio, ou pelo capricho de algum principe?--A historia que faz estas perguntas ou outras analogas, porque esse o seu dever, commette aos olhos dos taes um crime de leso-patriotismo. O castelhano, por exemplo, que disser:--As barbaridades e crimes commettidos por Cortez, Pizarro, ou Almagro, na conquista da America, deshonram as emprezas arriscadas e longinquas dos filhos da Peninsula, embora o descubrimento do Novo Mundo demonstre a sua pericia, o seu ardimento de navegadores e de soldados. Os effeitos dessa conquista foram o corromperem-se os costumes, morrerem as industrias nascentes, despovoarem-se os campos da Hespanha, seccarem-se, em summa, todas as fontes da sua prosperidade solida e legitima: foram amontoarem-se nas mos do fisco e dos poderosos o ouro e a prata, que, obtidos sem custo pelos crimes, se desbarataram sem pudor pelos vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades, e com ellas o sentimento da dignidade humana, cujo ultimo brado soou nas rebellies contra a tyrannia de Carlos V:--o hespanhol que disser isto um mau cidado aos olhos dos mansos guerreadores destes nossos tempos. E porque? Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se, elevar-se pelas tradies da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas vezes tracta de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde o bero de farrapos at a enxerga rota em que fenece, vai travada de receios, de sobresaltos, de desalentos, e de agonias, pensa l nas cutiladas que se deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou quatro seculos, por mos d'uns homens, cujos nomes e cujas faanhas se memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque no sabe ler, nem tem dinheiro para po, quanto mais para livros? Que so essas palavras retumbantes de regenerao pelas tradies, seno sons cos, que no correspondem a nenhuma ida? Supponhamos, porm, que todas essas recordaes chegavam ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de lico para as suas necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza passageira destruiu os habitos do trabalho e da economia, entorpeceu pela miseria, resultado infallivel da prosperidade ficticia, a energia do corao, que faz luctar o homem com a adversidade e venc-la, de que serve estar de contnuo a prgar ao povo:--Teus avs levaram o terror do seu nome aos confins do mundo, saquearam e queimaram emporios opulentos em plagas remotas, metteram a pique poderosas armadas, derribaram os templos alheios, violaram as mulheres extranhas, passaram espada os que eram menos valorosos que elles, abriram caminho ao engrandecimento dos outros povos da Europa, e affeitos a gosos faceis, deposeram aos ps do absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os grilhes que lhes deitavam aos pulsos por que eram dourados, e tornaram-se ludibrio do mundo.--Estas lices que ho-de ensinar a actividade no trabalho, a severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas verdadeira, o desejo de cultivar as artes da paz, no meio de um paiz decadente, cuja unica esperana de salvao est em se desenvolverem nelle essas e outras tendencias analogas? No! O povo, que tem mais logica do que os prgadores de vos apophtegmas, ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de concluir que assaz fidalgo para no contrahir habitos villos e ruins. De historias d'aggresses e de conquistas brilhantes no se deduz a necessidade de morrer obscuramente em defesa da terra da patria; no se deduz a moderao revestida de firmeza, que faz respeitar pelas grandes as naes pequenas; no se deduzem nem o amor do trabalho, nem o amor da virtude. Em vez de contarem ao povo as faanhas da Africa e do Oriente, contem-lhe qual era o commercio de Lisboa, e o movimento agricola do paiz no no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia desses e de outros factos analogos lhe mais proveitosa, material e moralmente, de que recordar-lhe a gloria de batalhas e de conquistas. Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras lendas humanas nunca salvaram um paiz, quando a podrido penetrou no amago da arvore social. Onde e quando o homem renega da sua origem divina, vende a liberdade a troco de delicias, esquece que o elevar-se acima de viciosas paixes traz um goso interior que vale bem todos os que do os sentidos, no lisonjeando-lhe vaidades, que, nem sequer respeitam a magestade de Deus, que o havemos de revocar ao sentimento da dignidade e do dever. V.. sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio romano, e nomeadamente a historia do baixo-imperio. No leio essas paginas melancholicas, sem que involuntariamente volva os olhos para o estado actual de algumas naes modernas: as analogias que encontramos entre estas e aquella so symptomas dolorosos; mas no vem para aqui. Eu peo a v.. que reflicta sobre essa historia em relao efficacia das tradies. Ella completa o quadro que nos offerecem as naes mussulmanas. No foi no tempo da republica, foi sob o ferreo dominio dos cesares, que os poetas cantaram os mythos da gente romana, que os historiadores celebraram as suas glorias, e deram a importancia da verdade a centenares de lendas tradicionaes e fabulosas, que a sciencia moderna, as investigaes do grande Niebuhr, reduziram j ao seu justo valor. De que serviram, porm, essas glorias, esses milagres do polytheismo, contados gravemente a um povo servo e gasto, que apodrecia aos ps dos tyrannos? Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos espraiavam-se em exaggeraes sobre as grandezas passadas, emquanto os cidados recusavam combater por uma patria que se tornara em nome vo, e preferiam o jugo dos barbaros a uma nacionalidade mentida. Os hymnos, as gloriosas recordaes romanas serviram s para acompanhar ao cemiterio da historia o atade de Roma. Consinta v.. que a estas rapidas consideraes eu ajuncte ainda um exemplo domestico, sobre o qual peo a v.. que medite. Na lucta violenta e tenaz que Portugal sustentou nos fins do seculo XIV para repellir o dominio estrangeiro, ninguem se lembrou de fortalecer os animos invocando o milagre de Ourique; ao menos no espero que v.. me aponte o menor vestigio historico que me desminta. A razo para desaproveitar tal auxilio foi demasiado forte; foi a razo do cordeiro da fabula--_o milagre ainda no era nascido_. E todavia o triumpho coroou os heroicos esforos de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente ser livre. Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava, absoluto e no contradicto, no commum dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de modo innegavel. E todavia, quasi sem combate, as espadas castelhanas acabaram com a independencia de Portugal n'um dia. Entre os dous factos est, alm do milagre, a grande gloria das conquistas, gloria que no era uma tradio remota, quasi oblitterada na memoria do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a bem dizer actual. Alguns dos que mais tinham contribuido para ella ainda viviam. Estes dous phenomenos, que determinam duas epochas principaes da nossa historia, assim aproximados, so a negao mais solemne da utilidade dos embustes religiosos, ou para melhor dizer, anti-religiosos, e do orgulho selvagem de ter annaes escriptos com o sangue humano vertido em guerras no provocadas, em guerras de aggresso, e sobretudo de cubia. Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso singular, um general ou um homem d'estado tirasse vantagem dessa deploravel fora moral que se estriba nas supersties, ou nas idas de uma gloria feroz. A questo , se hoje o povo portugus tem alguma vantagem que tirar dessas tradies, na situao em que a Providencia o collocou. Sejamos sinceros. Pde elle sonhar em ser conquistador, ou sequer em constituir uma potencia maritima ou continental que pse com demasiada fora na balana dos acontecimentos politicos? Parece-me que nenhum sisudo o dir. Somos pequenos; mas nem isso vergonha, nem impedir que as grandes naes nos respeitem, se formos respeitaveis. Para obtermos considerao basta que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem Europa que sabemos, queremos, e podemos regenerar-nos pela sciencia, pelo trabalho e pela morigerao. Morigerao, trabalho, sciencia, eis as armas com que a philosophia politica deste seculo ensina as naes civilisadas a combaterem n'uma lucta generosa. Os espiritos mais altos, seja qual fr a sua crena religiosa e politica, proclamam a paz e a fraternidade entre os homens. E no s as proclamam, mas at empregam a poderosa alavanca da associao para promoverem, digamos assim, uma cruzada sancta contra as tendencias guerreiras. Os esforos collectivos desses homens summos sero baldados? No o cremos. Elles tem um alliado irresistivel. Quando os exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tiverem devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e mais pura seiva da sua vida economica, ento que a philosophia politica hade alcanar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa ser seno o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de dezenove seculos, de uma demonstrao practica e invencivel, de que a lei moralmente necessaria das sociedades modernas o christianismo, o verbo de amor e da paz revelado no Evangelho? Nesses dias, que porventura tardam menos do que muitos pensam, que destino daro os sacerdotes da bombarda, da lana e da espada aos seus deuses fulminados? As palavras faanhas, gloria guerreira, conquistas, como sero definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou dous seculos? Como julgar a historia os milagres inventados para sanctificar o derramamento de sangue humano? Desculpe v.. esta digresso, que no creio nem inutil nem extranha ao assumpto. De novo entrarei directamente nelle, para proseguir nas explicaes que devo aos meus adversarios sinceros, honestos e instruidos, e no ignorancia malevola e presumida de hypocritas insignificantes. Comearei por dar a v.. a razo moral, a razo suprema, porque rejeito no s o milagre de Ourique, mas tambem os outros milagres, como o de Alcacer, a que ou a m f, ou a piedade pouco illustrada quizeram attribuir a sorte das batalhas, sorte dependente dos occultos designios da Providencia e de mil accidentes, previstos ou fortuitos, explicaveis ou inexplicaveis para a historia. No creio que essas guerras contra os infiis fossem cousa excessivamente christan, e por isso o meu espirito recusa-se a acceitar como factos verdadeiros os testemunhos de approvao divina a um procedimento anti-evangelico. Na idade mdia passava como cousa corrente, que o guerrear os infiis e fazer-lhes acceitar fora o jugo, alis to suave e to livre, do christianismo, era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se desta doutrina, ou, para sermos justos, acreditavam-na, em geral, sinceramente: acreditavam-na, at, a maior parte dos homens intelligentes e pios. Entre estes se distingue o proprio S. Bernardo, que o excessivo zelo da gloria do christianismo incitou a promover a segunda cruzada, cujo infeliz resultado lhe acarretou tantas accusaes amargas, tantos desgostos pungentes. A favor das guerras contra os mussulmanos durante a idade mdia, principalmente a favor da que se fazia na Peninsula, podem militar boas razes de politica, e at de direito, porque essa guerra no era mais do que a reaco contra uma conquista. Razo religiosa que eu no vejo nenhuma que a favorea. Repugna-me consciencia que o Christo, o Deus de paz e misericordia, viesse pessoalmente ou enviasse os seus anjos a incitar christos a derramarem o sangue humano, a levarem a assolao e a morte ao meio daquelles que no o adoravam. Ser este um modo errado de vr? A S. Thoms de Aquino, que ainda alcanou os tempos das cruzadas, no fizeram fora alguma as opinies que haviam dado origem quellas expedies longinquas, para deixar de estabelecer que a diversidade de crena no motivo bastante para um povo atacar outro. Reprovando a guerra de religio, no era possivel cresse que Deus approvava essas luctas crueis com manifestaes sensiveis. V-se, portanto, que os _milagres militares_, que ento se contavam a tal respeito, pouco credito mereciam a um dos homens mais pios do seculo XIII, e sem contradico ao mais profundo philosopho do seu tempo. Ouamos, porm, o grande historiador da igreja, falando dessas guerras contra os mussulmanos. Os christos--diz Fleury--devem applicar-se, no a destruir mas sim a converter os infiis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer ao mundo a guerra, da sequencia do seu discurso, e do procedimento dos seus discipulos se manifesta claramente que s se referia s turbaes que havia de excitar a sua doutrina celestial, turbaes em que a violencia havia de vir toda dos inimigos, a quem os christos opporiam a resistencia que as ovelhas oppem aos lobos. A verdadeira religio deve conservar-se e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu, pela prdica discreta, pelas obras virtuosas, e mais que tudo por illimitada paciencia. Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres, mais prompto ser o effeito. Quando Machiavello dizia que os prophetas desarmados nunca saram com seus intentos, mostrava-se a um tempo ignorante e impio; porque Jesu-Christo, o mais desarmado de todos, foi o que fez conquistas mais rapidas e firmes; conquistas como elle as queria, ganhando as almas, mudando de todo os homens, e tornando-os de maus em bons, o que nenhum conquistador jmais fez.... Repito pois, que no se deve tractar de diminuir as falsas religies, ou dilatar a verdadeira pelas armas e pela violencia: no so os infiis que se devem destruir, mas sim a infidelidade, conservando os homens, e illustrando-os cerca dos seus erros. Em summa, para isso no ha seno um meio, persuadir e converter.... Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres d'Alcacer e de Ourique, milagres em que se faz intervir o cu para o derramamento do sangue humano; milagres, que nem tem o merito de originalidade, porque no havia por essa pocha paiz da Europa, onde tambem a credulidade de muitos, e a m f de alguns no tivessem associado largamente o cu s luctas sanguinolentas daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres, emfim, que, por sua natureza, so, religiosa e moralmente, absurdos. De passagem lembrarei a v.. que no bem fundada a accusao que me dirige, de que no appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente de Lerins, quando foi exactamente o contrario que fiz. Dos tres testemunhos presenciaes que temos cerca daquelle celebre recontro, s em dous se allude aos signaes miraculosos que se viram no cu. O auctor da Historia Damiatana, que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia milagrosa. No acha v.. significativo este silencio? Em todo o caso falta o _ab omnibus_ de Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a doutrina de Mabillon, citada por mim na carta antecedente, de que _temerario_, no s o acreditarmos em milagres falsos, mas at nos simplesmente _duvidosos_. Quando o sentimento religioso, o respeito das doutrinas evangelicas no obstasse crena nesse favor do cu, obstar-lhe-hia a severa doutrina do grande benedictino. Se no fosse o desejo de dar satisfao plena aos homens escrupulosos, mas capazes de se convencerem da verdade, como v.. talvez concluisse aqui esta carta, porque as grosserias parvoas da ignorancia e os rugidos do interesse ferido, que v fugir atraz da appario de Ourique todos os milagres rendosos, s se punem com a immortalidade do ridiculo. No concluirei, porm, sem dizer alguma cousa em especial sobre a tradio do apparecimento de Christo a Affonso I, considerada na sua origem, e no modo como foi propagada e defendida. Os principios mais solidos da critica, o silencio absoluto, no s dos contemporaneos, mas tambem de dez geraes successivas, bastaria para condemnar a tradio aos olhos dos desapaixonados, quando ella no fosse absurda em si, porque absurdo pr Deus em contradico com a indole do christianismo. Ha, porm, na historia da inveno, propagao, e aperfeioamento dessa lenda tanta hesitao, tantas contradies, tanta imprudencia, tanta falsificao, tantos desejos de se illudir ou de illudir os outros, em homens que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas, que o colligir as provas disso offerecer uma lico salutar do perigo que ha em abusar do sentimento religioso do povo para fins mundanos, e da miseria a que podem chegar ainda os altos engenhos, quando se esquecem das doutrinas evangelicas, e de que as duas cousas que o Salvador mais solemnemente amaldicoou neste mundo foram a mentira e a hypocrisia. O silencio de mais de tres seculos sobre um facto estrondoso, que deveria andar na memoria de todos, como o milagre de Ourique, no s negativo, por assim nos exprimirmos; tambem positivo. Conjuncturas houve, antes dos fins do seculo XV, em que elle se teria publicamente invocado, se no fosse uma fabula ainda no inventada. Citarei duas. Seria inexplicavel, se admittissemos a existencia da tradio cem annos antes de 1485, que nem um s dos prgadores, letrados, e capites de D. Joo I, os quaes mais de uma vez, nas suas allocues ao povo e aos soldados, reccorreram s cousas religiosas para accender os animos contra os castelhanos, e para crear a confiana de victoria final na lucta brilhante da independencia; que nem um s desses prgadores, letrados e capites, os quaes no cessavam de accusar os inimigos de scismaticos, pretendendo ligar sua causa a causa de Deus, se lembrasse jmais de citar as promessas feitas por Christo a Affonso I, o que era decisivo. Antes disso, tambem, nos principios do seculo XIV, tractando-se com grande empenho da separao da ordem de Sanctiago em Portugal do gro-mestrado de Castella, o mestre e os freires portugueses dirigiram ao papa um longo arrazoado em que argumentavam, que, sendo os bens que a ordem possuia em Portugal, reino separado e independente de Castella, dados pelos reis deste paiz, no era justo que o gro-mestre castelhano os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para firmar na origem do reino a independencia daquella parte dos cavalleiros que nelle residiam, o mestre Pedro Escacho e os seus commendadores allegavam ao papa um facto novo, mas do qual era quasi impossivel que separassem a historia da appario, se della houvesse vestigios. O facto novo era a acclamao de Affonso I em Ourique. Outr'ora--diziam em Roma os procuradores dos spatharios--o rei de Portugal, D. Affonso I de clara memoria, o qual, esmagando com mo poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo de Ourique, foi elevado a rei pelos seus nobres e _pelos outros concelhos_, combateu os dictos sarracenos inimigos da religio orthodoxa com todas as foras, para exaltao da f catholica e defenso do proprio reino. O mesmo rei, debellando e expugnando os infiis, acommetteu-os e tirou-lhes castellos, fortalezas e muitas terras. Acceso em zelo da f, e attendendo ao esforo do mestre e freires de Sanctiago que ento viviam, concedeu-lhes, etc. No fazendo caso da ignorancia dos procuradores de Pedro Escacho[28] cerca do estado da sociedade portuguesa no meiado do seculo XII, quando mencionam os villos dos concelhos como intervindo n'uma eleio de rei, no faz peso a v.. que no se lembrem do milagre da appario? Se existisse a tradio, poderiam elles ignor-la, e no a ignorando ommitti-la, quando tanto convinha invoc-la? No era evidente que o titulo e a independencia do rei obtinham incomparavelmente mais importancia e firmeza dos mandados positivos de Christo, do que das acclamaes da soldadesca? Deixo imparcialidade de v.. o resolver estas questes. Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas as memorias e documentos anteriores a 1485 cerca da appario no s negativo; que tambem positivo. Mas existe realmente este silencio?--perguntar-me-ha v.. Conforme a sua opinio, estribada na de Cenaculo e Pereira, elle no existe. No folheto recentemente publicado, que v.. intitulou _Nova Insistencia_, com lealdade de cavalheiro e de homem de letras v.. abandonou o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que tambem o antigo documento da _Symmicta_ ao destino que elles mereciam; mas insiste nos outros documentos que se citam. Examinarei se v.. tem razo na insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar aqui v.. das injurias que a bruta ignorancia de um pobre tonto vomitou indirectamente contra v.. por no distinguir o texto attribuido no breviario a S. Bernardo; cabe-me, digo, consol-lo com o meu exemplo, e com o de um sacerdote instruido, que, enganado com v.. por aquella insigne falsificao, expondo-lhe eu as minhas opinies cerca do milagre de Ourique, me contrapunha o testemunho do grande abbade de Claraval, inserto no breviario. Como, porm, para escrever a historia do nosso paiz necessario caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja, l com todas as prevenes contra os salteadores, c attentos sempre a que no nos illuda a cada momento um fabricante de mentiras ou um falsificador de documentos e textos, amestrado pela experiencia repliquei que duvidava da passagem do breviario, e que duvidava sobretudo pelo adjectivo _lusitanum_, que nella se l, e que eu tinha a certeza de no se encontrar em monumento nenhum do seculo XII para significar _portugus, cousa portuguesa_. Na duvida, passmos a examinar o texto do sancto, e a falsificao appareceu-nos logo mais clara que o dia. Assim v.. teve companheiros na illuso; nem creia que tem tido s dous: ha-de ter tido milhares delles. Ria-se destes eruditos que adivinham tudo quanto se lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra, que logo distinguem _pelo estylo_ quatro ou cinco linhas interpoladas nas obras de qualquer escriptor. Mas, voltando s cousas srias, v.., repito, insiste nas outras provas, desprezadas as evidentemente falsas. E quaes so as que ficam? Creio que v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon, e de toda a gente que no esteja em guerra declarada com o senso-commum, _de que no provm maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que o outro tinha dicto. Todos elles junctos no valem mais do que o primeiro que o referiu._ Assim, tendo nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do seculo XVI annullam-se completamente. Ha, porm, outras anteriores, dir talvez v.. verdade que Cenaculo as prope. Mas quaes so ellas? Examinemos. 1.^o Um indice, escripto em Roma, de documentos relativos a Portugal em que se memora o facto da appario. Como Cenaculo nos no diz a data do indice, estamos desobrigados de discutir o documento a que se refere: provavelmente havia de ser pelo gosto do da Symmicta. 2.^o A doao ao mosteiro de Claraval, feita por Affonso Henriques. Tem o pequeno inconveniente de ser falsa. Joo Pedro Ribeiro reduziu-a a lastimoso estado na segunda das suas Dissertaes Chronologicas. Estou certo de que o bispo de Bja, se resuscitasse, no havia de ter vontade de tornar a falar nella. 3.^o Nos _Commentarios_ de Affonso sabio, traduzidos em portugus no tempo de Affonso IV, termina o capitulo 416 por uma passagem, em que Cenaculo quiz ver a memoria do milagre, embora nella no haja uma palavra a semelhante respeito. Este testemunho, ainda suppondo que a passagem diga o que no diz, tem tambem outro pequeno inconveniente. que Affonso sabio no escreveu Commentarios nenhuns. Veja v.. se os encontra mencionados no extenso e minucioso artigo cerca de Affonso X, na _Bibliotheca Hespanhola_ de Rodrigues de Castro, ou se acha em parte alguma vestigios de taes Commentarios. 4.^o Uma passagem de uma chronica inedita dos reis de Portugal, que, _pela frma da letra e pela linguagem_, se conhece ser do tempo de Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta de um codice da camara d'Evora. Pedirei pela primeira vez um favor a v.. que no acredite demasiado na pericia paleographica de Cenaculo. A diplomatica ainda no acho meios sufficientes para distinguir com certeza pela frma dos caracteres, nos codices portugueses, os que so do seculo XIV ou do XV. Tanto em letra assentada como em cursivo, no ha nelles seno a alleman pura, ou a francesa com maior ou menor resabio de monachal ou alleman. Isto commum a ambos os seculos. A mesma romana pura ou restaurada, que comea a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio da monachal. Pelo que respeita outra adivinhao de Cenaculo relativamente linguagem, v.. como homem de letras, est por certo habilitado para avaliar a _fora_ deste meio de apreciao. Se o bispo de Bja vivesse, eu compromettia-me a apresentar-lhe passagens extensas, escriptas em vulgar no meio do seculo XIV e outras escriptas j na segunda metade do XV, e se elle fosse capaz de dizer quaes eram as antigas e quaes as modernas, dava-lhe a minha palavra de honra de ficar crendo no milagre de Ourique. Esta experiencia que eu offereceria ao erudito bispo, estou prompto a offerec-la a quem quer que pretender tent-la. Agora accrescentarei mais alguma cousa. No archivo da camara d'Evora, que examinei por meus proprios olhos, posso certificar a v.. que nada ha anterior a D. Joo I; nem diplomas, nem codices. Que feito da tal chronica que o bispo de Bja diz existir no archivo da camara d'Evora? O que havia de estimao naquelle archivo foi distrahido pelo antiquario Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de Cenaculo. Isto sabido pelas pessoas eruditas d'aquella cidade. V.. deduzir d'aqui as concluses legitimas. A erudio immensa de Cenaculo tem um defeito que nelle provinha do excesso de uma util faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa. Era essa faculdade a da memoria comprehensiva e tenaz. Lia muito e fiava-se na fora da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos seus escriptos que grande numero das citaes que fazia e das auctoridades em que se estribava no as verificava, e que a memoria o trahia s vezes, quando menos em particularidades e accidentes que modificavam a significao dos textos, servindo mal os intuitos do bom do prelado e tornando suspeita a sua candura. Os _Commentarios_, por exemplo, de Affonso sabio, traduzidos em portugus, podiam ser, no uma inveno, mas sim uma reminiscencia, ou uma nota tomada pressa por Cenaculo, e talvez a chronica inedita dos reis de Portugal, que _pela frma da letra e pela linguagem_ se conhecia ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa analoga aos taes _Commentarios_, isto , apenas uma confuso de idas, ou, quando muito, uma inexaco de apontamentos. Existe uma compilao historica em vulgar, ou colligida ou accrescentada nos meiados do seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal abrange a regencia e morte do infante D. Pedro (cap. 438) e nada contm posterior a este facto, continuando nos capitulos seguintes a historia dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se tres exemplares desta compilao, que constitue, ao menos intencionalmente, uma historia geral das Hespanhas desde os tempos mais remotos at os seculos XIV e XV. Em Pars e em Madrid conservam-se os dous exemplares mais antigos. O de Pars trasladou-o o dr. Nunes de Carvalho com o intuito de imprimir aquelle curioso inedito. Dadiva do meu to erudito como modesto amigo Jos Gomes Monteiro, possuo eu o terceiro exemplar, que parece ter pertencido a Manuel Severim de Faria. O codice de Madrid talvez o mesmo que menciona pouco explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A _Cronica General_ attribuida a Affonso sabio subministrou ao compilador a historia fabulosa e a historia antiga da Peninsula at a epocha leonosa. A corographia d'Hespanha, bem como a narrao da entrada e conquista desta pelos mussulmanos e dos primeiros tempos do seu predominio so extrahidas da historia arabe de Arrazi, conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e iniciativa daquelle principe uma traduco do livro do historiador musulmano, e effectivamente esta parte da compilao uma daquellas que parecem mais antigas pela rudeza da linguagem. A chronica do Cid, publicada modernamente pelo P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por Masdeu, era conhecida j do compilador, que largamente a aproveitou na composio do seu livro. No exemplar de Pars, conforme o que se v da copia de Nunes de Carvalho, faltam os capitulos 411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no exemplar de Madrid. Encontram-se, porm, no que pertenceu a Severim de Faria; e justamente nestes capitulos, desde o 412 at o 438 que est inserida a chronica dos reis de Portugal, comeando na vinda do conde D. Henrique e finalisando nos primeiros annos do governo de Affonso V. uma narrativa asss resumida, distinguindo-se apenas a parte relativa aos reinados de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos verdadeiros ou fabulosos so mais particularisados. Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto, com o n.^o 79, um antigo codice transferido para alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de Coimbra. Contm varias memorias historicas e outros papeis avulsos escriptos por diversas mos, tudo colligido, segundo parece, nos fins do seculo XV. Acaba o codice por dous chronicons em vulgar[29]. Um tem por titulo _Como e donde descenderom os reis de Portugal_: o outro _Aqui se compea a istoria dos reys de Portugal_: Ambos se referem em breves palavras ao conde Henrique, dilatando-se com os successos e lendas da vida de Affonso Henriques, successos e lendas aproveitados pelo chronista Galvo. Ao passo, porm, que o primeiro chronicon no ultrapassa a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque em breve resumo, as vidas dos seus successores at D. Dinis. Em relao aos tempos de Affonso Henriques so em parte identicos, no s no contexto, mas at nas phrases. Ha todavia entre elles uma differena digna de reparo: a de que no primeiro se repetem mais de uma vez as palavras _conta a historia_, que no apparecem no segundo, ao passo que n'aquelle se referem tradies relativas a Affonso I ommittidas neste, donde se conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho historico mais antigo, de que talvez o segundo seja apenas um extracto, embora accrescentado com leves traos dos subsequentes reinados. No exemplar da compilao que pertenceu a Severim de Faria a narrativa dos successos de Portugal durante a vida de Affonso I pde dizer-se que um complexo dos dous chronicons de Sancta Cruz, s vezes perfeitamente semelhante, outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se os chronicons na compilao ou tiraram-se della? Por outra: qual dos tres monumentos mais antigo? o que no importa nem eu me atrevo a resolver. O que importa o que se l nestes monumentos, os mais remotos que nos restam escriptos em vulgar, cerca da batalha de Ourique. Vejamos se l se encontram vestigios do celebre milagre. O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos que Affonso Henriques, acclamado rei pelo exercito antes do combate, depois deste, _por memoria daquelle boo aquecimento que lhe deus dera ps no seu pendam cinquo escudos por aquelles cinquo reis e pose-os em cruz por renembrana da cruz de nosso senhor ieshu christo, e ps em cada huum XXX dinheiros por memoria daquelles XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu christo._ No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada da lucta de Affonso Henriques com sua me e com o conde de Trava (a que faz seguir immediatamente o recontro de Valdevez) e a lenda do cardeal legado e do bispo negro medeia a noticia da batalha de Ourique por estas simples palavras: _E depois ouve batalha em nos quanpos dourique e venceo a._ Indicio notavel de que ainda no seculo XV havia quem desse quelle acontecimento uma importancia secundaria. Na compilao a passagem relativa jornada de Ourique a seguinte: Ajuntou suas gentes e foyse sobre os mouros e correolhes a terra ds coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e correo toda a terra ataa o campo de Ourique, onde achou elRey ismar, que a essa sazon era Rey da estremadura, com sinco Reys que o vinham buscar sabendo o grande dapno que lhes fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha no lugar que se chama crasto verde, e vencos e prendos e matou a mayor parte de todas suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha os seus o alaram por Rey, e ds enton se chamou Rey de portugal: e depois que os Reis forom vencidos, elRey dom Affom de portogal, por memoria daquelle boo acontecimento que lhe deus dera trouve por armas sinco escudos por aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrana da cruz de nosso senhor jesu cristo, e poz em cada huum escudo trinta dinheiros por os trinta dinheiros por que judas o vendo, e dsi tornouse para sua terra muy honradamente. Onde estar o milagre em qualquer destas tres passagens no posteriores aos meados do seculo XV e que por ventura so mais antigas? muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa e variadissima leitura, tivesse visto alguma copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente a compilao no exemplar de Severim de Faria, que viveu no Alemtejo, onde tambem Cenaculo residiu longamente, e onde o manuscripto podia conservar-se ainda no tempo do bispo de Beja. Uma circumstancia digna de notar-se torna mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim do capitulo 416 dos suppostos _Commentarios_, e na compilao os ultimos periodos do capitulo 415 so os que se referem batalha de Ourique e aos seus resultados. O logar do capitulo citado o mesmo: a differena est na numerao deste, e essa differena apenas de uma unidade. Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz derivar o imaginario escudo de Affonso Henriques, nada mais facil do que Cenaculo, citando de memoria, dar compilao, tirada em grande parte da _Cronica general_, o titulo de Commentarios d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo tempo a lenda do escudo d'armas com a lenda da appario, acerca da qual no ha ahi uma palavra. Tudo isto no passa de conjecturas, mas de conjecturas que pem em salvo a probidade litteraria de um dos nossos mais illustres prelados de uma epocha ainda pouco remota, em que os bispos portugueses eram bispos, e no vigarios do papa[30]. Em Cenaculo a defenso do milagre de Ourique era empenho cego. No sei, nem me importam os motivos. Importa-me o facto, que annullaria melhores testemunhos do que esses que cita, quando elle fosse o seu unico abonador. Quer v.. uma prova decisiva da cegueira do douto prelado? Eu lh'a dou, e irrefragavel: o seguinte periodo: O advertido padre Pereira faz ver que desde o seculo XV se acham escriptores mui auctorisados, que referem o acontecimento como de cousa _ento vulgar entre as pessoas que haviam tractado os immediatos contemporaneos do successo, em maneira que a tradio coetanea._ Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer que em 1485 (epocha do primeiro testemunho preciso sobre a appario, o de Vasco Fernandes de Lucena), havia gente que tinha conhecido individuos do tempo da batalha de Ourique, ou por outra, que no seculo XV havia pessoas _com trezentos annos de idade._ Quem diz isto pde dizer livremente o que lhe aprouver. Quando um espirito no-vulgar chega a este estado, que nos resta seno confessarmos o nosso nada diante da summa intelligencia de Deus? Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto me foi possivel, a falar de leve na appario; eis porque tenho at hoje reluctado em descer discusso especial dessa mentira ridicula, com que os prgadores vo ludibriar o povo na cadeira do evangelho. Estas miserias e vergonhas, e as que successivamente apontarei, sobre quem recaem? Sobre homens que alis tm direito reputao que adquiriram na historia litteraria do paiz e nos annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso talvez de amor proprio[31], talvez uma piedade ou um patriotismo irreflectido, fizeram com que, em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova de que tal ou tal cousa era verdade, caminho deploravel em cujo termo certo o precipicio. Fra dos testemunhos cujo nenhum fundamento acabo de mostrar, Cenaculo reduziu-se a adoptar as pretendidas provas do padre Pereira, sem exceptuar o juramento de Alcobaa. E note v.. que elle o conhecia to pouco ou era to fraco diplomatico, que no hesitou em escrever estas palavras memoraveis:--_Duvidar da appario_ emquanto o desconhecimento dos testemunhos a faz presumir de piedade popular e crena apaixonada, _pode ser critica_; mas a interpretao livre e esquerda da palavra real e fundada (o juramento de Alcobaa) merece ser sempre vista com desapprovao e desagrado.--Isto quer dizer que, se no houvesse o instrumento da appario, podiamos com boa critica deixar de crer no milagre. Assim, se o bispo de Bja vivesse hoje, vista da declarao official da falsidade do documento, que o meu amigo Rebello da Silva arrancou ao juiz mais competente na materia, o lente de diplomatica e guarda-mr interino do Archivo Nacional, elle teria de passar com armas e bagagens para o campo dos _impios_, se quizesse (havia de querer) intitular-se bom critico. Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria hoje a opinio de Cenaculo, vamos aos _Novos Testemunhos_ do padre Pereira. Disse eu que este escripto traria deshonra ao auctor da _Tentativa Theologica_, e da _Vida de Gregorio VII_, se no fosse uma ironia. Confesso a v.., que antes quero salvar, por esta hypothese, a reputao de um nome illustre na nossa litteratura, do que acceitar a anecdota, a que alguns attribuem a concepo dos _Novos Testemunhos_, anecdota que mais de uma vez tenho ouvido referir. Conta-se, que, sendo o padre Pereira pouco aferrado ao dinheiro ( defeito de classe: no creia v.. que usurario nenhum fosse nunca homem de letras) veio a achar-se um dia com a bolsa completamente vazia. Advertido da apertura da situao pelo creado, pegou n'algumas folhas de papel, escreveu os _Novos Testemunhos_, mandou-os ao seu editor, e recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos por dous ou tres dias. Eu prefiro a ironia anecdota, que no sei se verdadeira. Mas ou a musa do opusculo fosse a preciso de dinheiro, ou fosse a vontade de gracejar, o que tenho por certo que, a no ser assim, a obra fora indigna de um homem, que pulverisou as pretenses illegitimas e insolentes da curia romana, e que fez tremer boa meia duzia de hypocritas e pedantes do seu tempo. As provas de que os _Novos Testemunhos_ precisam da minha explicao, ou d'outra qualquer, vou d-las a v.., comeando por transcrever uma passagem da introduco do opusculo. Depois de apresentar como demonstrao de no ser forjado _o juramento d'Alcobaa_ o haver, antes de Brito o publicar, testemunhos _da tradio_ de Ourique (argumento na verdade singular!) o padre Pereira prosegue: Mas quanto a verificar o caso da appario, tem a dita demonstrao _o defeito de que nenhum dos testemunhos em que ella se funda remonta a maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel_. E assim _podero_ os emulos das nossas glorias _repr_ que uns _testemunhos do principio do XVI no so sufficientes_ para extorquir delles o assenso a um facto, que se suppe _acontecido no meio do seculo XII_. Depois d'isto, que digam todas as pessoas que lerem esta carta, no sendo algum clerigo mau e ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte quaesquer prevenes, o que se deve esperar no opusculo? O auctor confessa que a favor da appario no bastam os testemunhos posteriores ao anno de 1495, insufficientes para provas de um facto succedido em 1139, logo elle vai offerecer-nos documentos, trezentos, ou, pelo menos, duzentos annos anteriores. Eu digo o que nos offerece Pereira em logar dos _testemunhos insufficientes_. 1.^o A narrativa de Olivier de la Marche na introduco s suas Memorias. Esta introduco foi comeada a escrever em 1492, conforme o proprio auctor das Memorias declara[32]: isto , as passagens relativas s armas reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres annos antes de comear a epocha em que os testemunhos cerca de um milagre succedido 357 annos antes nada provam, segundo confessa o padre Pereira, advertindo que, por esses no prestarem, nos a expor quatro novos, _todos de tanto peso e authoridade, que no ha para que se desejem outros mais graves_. Destas premissas segue-se, que o testemunho dado a favor de um facto 357 annos depois do tempo em que se diz succedido _defeituoso e insufficiente_, mas dado 354 annos depois do successo igual ao de qualquer pessoa, ou de muitas pessoas que houvessem presenciado este, visto que _nada ha mais grave_, do que um testemunho posterior de 354 annos, emquanto o posterior de 357 no presta para nada. Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico? Deixo a escolha a v.. postoque estou certo de que das duas explicaes ha-de preferir a ultima. Mas o caso no pra aqui. Tenha v.. paciencia, porque no fui eu que quiz discutir o milagre de Ourique; foram os padres, que me tm insultado porque o tractei como elle merecia, que me compelliram a isso. Ho-de esgotar o calix da ignominia at as fzes. Elles dizem do pulpito abaixo que era melhor que eu no tivesse falado em tal; e eu digo-lhes da imprensa, do meu pulpito, que era melhor continuarem a aleijar o latim do breviario e do missal, e deixarem-me em paz escrever a historia verdadeira do meu paiz. Digo que o caso no pra aqui, porque o modo como narrada a historia da appario por Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas, curiosissimo. Segundo elle, o conde Henrique tinha escudo branco: depois este escudo adornou-se por quatro vezes: 1.^a quando Affonso I, passando o Tejo, desbaratou em campo d'Ourique (_Cambdorick_) os cinco reis mouros, e, em alluso a cinco bandeiras que lhes tomou, ps no escudo branco cinco escudetes azues. 2.^a Houve nova mudana quando _o mesmo rei foi a Roma_ emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu pondo-se inteiramente n, e desafiando o papa e os cardeaes para que lhe mostrassem todos junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes das que elle tinha recebido pela f de Christo. Era maravilhoso, de feito, o numero d'ellas: cinco com visiveis indicios de deverem ter sido mortaes, a no se haver dado milagre no caso. O argumento fora peremptorio. O papa e os cardeaes disseram-lhe que vestisse a camisa; e para lhe darem uma satisfao da injusta pronuncia, mandaram-lhe que em cada um dos escudetes posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria daquellas famosissimas lanadas de que os mouros o haviam servido. 3.^a Tendo o infante D. Fernando, rei de Portugal, casado em Frana com a condessa Maria de Bolonha, teve um filho, chamado Henrique, o qual accrescentou a orla do escudo em que esto os castellos. E sobre este ponto discute o auctor o erro que havia nos dictos castellos, estribando-se na opinio de portuguses notaveis. Entre estes devo advertir, para o que v.. logo ver, que elle havia j mencionado especialmente _e com elogios extraordinarios_ o celebre Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a dignidade de escano de Madama Margarida, viuva de Carlos o Temerario[33]. A 4.^a alterao, que vinha a ser a quinta frma das armas reaes portuguesas, foi o pr-lhes uma cruz firmada no escudo um rei de Portugal (j se v que muito posterior a Affonso I), facto cuja origem _alguns attribuiam (aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido uma cruz no cu_ durante uma batalha com os sarracenos, o que vendo o principe dissera, orando a Deus, que _mostrasse_ antes a _cruz_ aos infieis, e _assim se fez_, com o que os mouros ficaram desbaratados. Accrescenta Olivier de La Marche que talvez o milagre seja verdadeiro; mas que _para elle a verdade que o bom rei Joo_ (D. Joo I) foi quem ajunctou s armas portuguesas os quatro braos floreteados firmados no escudo. Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la Marche em toda a sua fora e pureza, postoque resumido. No lhe fao commentarios. Deixo a v.. e a todos homens instruidos que os faam. Eu por mim estou satisfeito. Inverterei aqui a serie dos quatro _irrecusaveis_ testemunhos do padre Pereira, porque tenho uma razo de ordem que me obriga a reservar o segundo para o ultimo logar. Falarei, portanto, do terceiro. Gomes Eannes de Azurara, na continuao da chronica de D. Joo I por Ferno Lopes, transcreve um discurso feito quelle principe pelos seus confessores, frei Vasco Pereira e frei Joo Xira, a quem elrei pedira lhe dissessem se era servio de Deus intentar a conquista de Ceuta. A resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se no exemplo de muitos outros principes e cavalleiros famosos, que haviam acommettido os infiis na persuaso de que practicavam uma obra meritoria, offerecendo-se morte. Os que a tinham alcanado, entendiam os dous frades que ficavam equiparados no cu aos martyres, e que os que no a haviam obtido, nem por isso deixavam de ser sanctos, estando resolvidos a morrer alegremente pela f. Os theologos terminaram a serie dos exemplos (nos quaes figuram entre aquella especie singular de bemaventurados o Cid Ruy Dias e o conde de Castella Ferno Gonalves, que nunca desconfiaram de que eram sanctos) pela seguinte passagem, conforme se l na edio de 1644: ...temos ante nossos olhos a memoria do mui notavel, fiel e catholico christo elrei D. Affonso Henriques, cujas reliquias tractamos entre nossas mos. Vde, senhor, os signaes que trazeis em vossas bandeiras, e perguntai e sabei como e por que guisa foram ganhados; os quaes certamente de todas as partes mostram a paixo de Nosso Senhor Jesu-Christo, _por cuja reverencia e amor o bemaventurado_ rei offereceu o seu corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles cinco reis, como vossa merc sabe. Considerae _isso mesmo_ (do mesmo modo) Senhor, _se elle duvidara se o seguinte trabalho era servio de Deus, no tivereis vs hoje em dia esta mui nobre cidade_ (Lisboa) nem a villa de Santarem, com outros logares, etc. Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque illustrava o sentido das phrases relativas batalha de Ourique. O que frei Joo Xira queria dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera a morrer por Christo em Ourique, entendendo que fazia servio a Deus, como depois, na tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala aqui no milagre? Se houvesse outras testemunhas daquella epocha (1415), que positivamente referissem a appario, ainda se poderia, embora com violencia, suppr nas phrases do frade uma alluso ao successo; mas faltando-nos absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa tal supposio. Trazer esta passagem para provar, que j em 1415 existia a tradio, ao passo que, para ella poder ter a significao forada que se lhe quer dar necessario suppr a existencia da mesma tradio, o que , seno um circulo vicioso, uma petio de principio? No , porm, s isso. Nestas lendas, inventadas com fins humanos por milagreiros e falsarios, quasi que no possivel dar um passo sem encontrar falsificao. A chronica de Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra contra os castelhanos, depois da revoluo de 1640, e precedida por uma gravura representando a appario, foi viciada nesta passagem, provavelmente para se ver nella uma alluso obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu ver, o padre Pereira. No codice authentico do Archivo nacional, onde no impresso se l _vencendo_, est escripto _vendo_. Vendo torna o sentido da passagem claro. O rei _vendo_ os _cinco_ reis mouros, offereceu o seu corpo a Jesus, e ps nas suas bandeiras os _cinco_ escudos. Substituida, porm, a palavra _vendo_ por _vencendo_, a phrase obscurece-se; a causa de se prem os cincos escudos nas bandeiras, isto , o serem os reis mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que se cria tirar vantagem em 1644, ganha em frei Joo Xira um novo, postoque bem debil, alliado. Mas supponhamos tudo quanto quizerem. Adoptemos como exacto o texto impresso de Azurara: vejamos ahi a appario, embora no haja l uma unica palavra a semelhante respeito. O testemunho singular de frei Joo Xira em 1415 no seria um pouco tardio para provar um successo de 1139, profundamente esquecido nos chronicons e monumentos coevos? No o rejeitam as regras da critica sincera; regras estabelecidas accordemente por tantos e to respeitaveis escriptores ecclesiasticos; regras, emfim, cuja solidez a experiencia demonstra de contnuo aos que se votam a serios estudos historicos? Quer v.. um exemplo domestico da utilidade das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos, dos Fleurys, desprezadas s por aquelles que desprezam tudo, menos os dezeseis tostes de um sermo de milagres? exemplo que no est no cartorio da camara de Evora, nem nos Commentarios ideaes de Affonso X, mas no Archivo Nacional, onde todos o podem vr. Consiste n'uma especie de summario historico dos reis de Portugal, lanado no 4.^o volume de Inquiries de Affonso III, no reinado de D. Joo I. No preambulo daquelle summario, destinado a avaliar-se, vista dos factos historicos, a genuinidade das doaes dos reis anteriores, affirma-se que para o escrever se averiguara com extrema exaco a verdade, fixando-se assim a serie chronologica dos principes portugueses. Sabe v.. qual a exaco desse monumento destinado a servir de padro legal, para por elle se afferirem diplomas que importavam fortuna particular e aos direitos da cora? Citarei s os erros relativos a Affonso I. Segundo o summario official, elle nasceu em 1092, foi casado com a filha de D. Affonso de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em dezembro de 1184. D'aqui ver v.. o credito que deveriam merecer-nos os testemunhos do seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre do seculo XII, quando esses testemunhos existissem, e no fossem um rol vergonhoso de falsificaes e mentiras. O quarto testemunho do padre Pereira o proprio instrumento da appario, que existiu em Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o de Alcobaa. O auctor dos Novos Testemunhos diz que no sabe se os dous foram uma e a mesma cousa, passando o celebre documento do archivo daquelle mosteiro para o d'Alcobaa. Como demonstra elle, porm, essa existencia? Pelo depoimento de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556, e publicado por outro frade cruzio, insigne forjador de textos e diplomas, e chronista da ordem, frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario pelos seus proprios confrades[34]. Se acreditarmos este, os conegos de Sancta Cruz, _empenhados em fazer canonisar Affonso I_, requereram se tirasse um depoimento de testemunhas sobre os milagres do primeiro rei portugus, do _Phara obdurado_ dos monges de Cella-Nova. Quem primeiramente deps foi um _dos conegos empenhados_, e foi este que disse constar o milagre de Ourique pelo juramento que existia do mesmo rei. Desse juramento original tiraram-se ento em duplicado copias authenticas; uma para se guardar no mosteiro, outra para ir a Roma, o que no chegou a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz o original e uma copia em instrumento, e fra d'alli outra copia authentica. Tudo isto se perdeu, e nada resta de um documento de tanta valia, que forosamente se havia de guardar com recato, seno a grosseira impostura dos frades bernardos, restando tambem, nos fins do seculo passado, um traslado que se dizia transcripto de _um original_, diverso no seu theor do _outro original_ de Alcobaa, e s semelhante a elle em ter sellos pendentes, cousa que no existia na epocha em que o juramento se diz exarado. O que tudo isto vem a ser uma serie de vergonhas e miserias repugnantes, e sobretudo de falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios, elles nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os seus embustes. Se frei Nicolau, ou os conegos de 1156 (porque eu no sei se a historia do depoimento se verificou, ou se inveno do chronista) se lembrassem do que passou antes d'elles, teriam procedido com mais cautela nas suas mentiras. Quem l a faanhosa chronica dos conegos regrantes conclue que no tempo de frei Nicolau os pergaminhos originaes eram aos milhares em Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui est o que no s elle proprio, postoque fraca testemunha, mas tambem escriptores mais serios, que se reportam a um documento coevo, nos referem como acontecido em 1411. No dia de Corpo de Deus desse anno, uma tempestade que estourou sobre Coimbra produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu o mosteiro de Sancta Cruz. A agua (diz o auto que sobre isto se redigiu) levou, alm de muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas de memorias antigas e de doaes que os reis fizeram ao dicto mosteiro, que _todas_ foram molhadas _e a mr parte dellas perdida_. Sabendo elrei D. Joo I do successo, segundo confessa o mesmo frei Nicolau, ordenou se trasladassem em publica frma as _doaes e mais escripturas_ que restavam dando-se a este transumpto a mesma fora dos originaes, _com o que_, prosegue o chronista, _se restaurou parte da perda de tantas e to antigas escripturas que hoje nos fazem grande falta_. De duas uma: ou o instrumento da appario depositado em Sancta Cruz pereceu em 1411, ou escapou. Se escapou, devia ser trasladado no chartulario em que, segundo a ordem delrei, se lanou o que restava. Esse chartulario existia ainda no tempo do chronista, e provavelmente existe ainda hoje. Para que inventaram, pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaa? Porque, em vez de imaginarem cem mentiras para amparar a tradio, no foram a Sancta Cruz extrahir desse traslado authentico dez ou cem traslados novos, que tambem seriam historica e at legalmente authenticos? Porque no vo l busc-los ainda hoje para confundirem a minha impiedade? Se, porm, o pergaminho original pereceu em 1411, que so essas historias de publicas-frmas _do original_ feitas pelos notarios Manso e Thom da Cruz, e no sei por quem mais, seno embustes, ou copias tiradas de um documento falso. Porque eu no disputo, nem me importa, que elle fosse forjado pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de S. Bernardo. Falta o segundo testemunho, que deixei para ultimo logar, porque se prende com o que me resta a dizer a v.. sobre a lenda da appario. Esse testemunho o de Vasco Fernandes de Lucena, que, indo como orador da embaixada enviada por D. Joo II ao papa em 1485, referiu a historia da appario no discurso que recitou perante Innocencio VIII e perante a curia. Como prova do successo, elle tem pouco mais ou menos o valor do de Olivier de la Marche. Se aos historiadores que escreveram depois de 1495 se no pde attribuir, segundo Pereira, e muito mais segundo as doutrinas dos pios e eruditos escriptores a que me referi na carta antecedente, auctoridade bastante para nos compellirem a acceitar a tradio de Ourique, t-la-ha, porventura, o testemunho singular de um homem que o refere apenas dez annos antes, tractando-se de um milagre que se diz succedido n'uma epocha anterior de mais de tres seculos? impossivel que v.. no sinta que semelhante auctoridade nada vale. Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu. O primeiro e o segundo so dos fins do seculo XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a um s. Persuadem-no o affirmar Olivier de la Marche que sobre a questo das armas portuguesas ouvira pessoas _notaveis_ de Portugal com quem tractara[35] tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos elogios sciencia e talento de Vasco de Lucena. O terceiro uma passagem, alis viciada, de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer correcta, no contm uma unica palavra cerca da appario. Finalmente, o quarto o juramento de Affonso Henriques, que _consta_ existia em Sancta Cruz muito antes de Fr. Bernardo de Brito encontrar o de Alcobaa, o qual se no sabe se o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas que ns sabemos perfeitamente que falso. Eis aqui os testemunhos do milagre de Ourique, _de tanto peso e auctoridade, que no ha para que se desejem outros mais graves_. Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo a decidir se o padre Pereira escreveu isto em seu juizo, ou se estava dando largas sua jovialidade. Resta-me s fazer um esforo para acceder, at onde possivel, a uma pretenso de v.. embora j ficasse provado que ella era infundada. Diz v.. que para refutar plenamente a fabula da appario deveria eu dizer quando, como, para que, e por quem fora inventada. evidente que o falsario havia de precaver-se para no o descubrirem, e s elle poderia dizer positivamente qual era o seu intuito quando forjou a patranha. Sendo homem astuto, saberia no somente guardar segredo, mas tambem fazer espalhar com arte a fabula. Que calumnias no tem alevantado uns aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos? Muitas dellas, passando primeiro de boca em boca, vindo imprensa, combatidas pelos calumniados, nem por isso ho deixado de generalisar-se, e de tomar s vezes tal consistencia, que possivel passarem algumas, d'aqui a um seculo, por factos historicos, at que uma critica severa e desapaixonada as reduza ao seu justo valor. Sobre a origem da fabula de Ourique no se podem produzir factos decisivos, mas podem reunir-se alguns, que, assim aproximados, offerecero fundamento a suspeitas vehementes sobre a epocha do nascimento da tradio, sobre seus auctores, e sobre os fins com que foi inventada. Note v.. que eu falo da tradio e no do juramento, que provavelmente, no estado em que hoje o temos, mais moderno. Quanto a esse invento grosseiro, considerado em si, confesso que me fallece o animo para o analysar. Partamos de um facto. O primeiro testemunho sobre a existencia da tradio relativa ao milagre de Ourique, preciso, incontroverso, o de Vasco Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais so chronicas que _se perderam_, vestigios que _se apagaram_, obras que _ninguem conhece_. Isto faz lembrar o gracioso livro das _Antiguidades de Evora_, que muitos tem tomado por obra de um tolo, e que na realidade so a satyra dos falsarios e crendeiros, feita por um homem espirituoso e engraado. Tudo quanto se cita anterior a 1485 so embustes e ridicularias, sem exceptuar as chronicas do tempo de Affonso Henriques attribuidas aos imaginarios chronistas Joo Camello e Pedro Alfarde, onde se diz que _talvez_ se achasse a tradio. A inveno dos taes chronistas, frades de Sancta Cruz, tinha j sido reduzida a p pelo cruzio D. Thoms da Incarnao, e por frei Manuel de Figueiredo, frade d'Alcobaa. A referencia a semelhantes mentiras feita por Pereira e por Cenaculo, que escreveram depois de ellas estarem refutadas, prova a _sinceridade_ com que foram redigidos nesta parte os _Cuidados Litterarios_, e tambem os _Novos Testemunhos_. Temos, pois, um homem celebre, um castelhano, erudito, valido de D. Joo II, que, n'um discurso recitado perante Innocencio VIII, menciona pela primeira vez a appario. Singular origem de uma fabula, que, revelada por um estrangeiro, vem luz em terra estrangeira, regida por um governo theocratico, que tem por fundamento primitivo do seu dominio temporal um titulo falso. A memoria de D. Joo II odiosa. Entre todos os reis legitimos portugueses, elle o unico ao qual sem injustia a historia pde attribuir a qualificao de tyranno. Elle foi quem deu o golpe mortal nas velhas liberdades desta nossa terra. No seu reinado tem de ir buscar o historiador a causa fundamental da nossa decadencia, que comea com o estabelecimento do absolutismo, embora a podrido que corroe a arvore se esconda por alguns annos no cerne. tambem singular por esta circumstancia a origem da tradio. Nasce, dilata-se, cresce, firmando as raizes no tumulo da liberdade. Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado do _principe perfeito_ um foragido portugus, seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da Costa. Depois do assassinio judicial do duque de Bragana, o cardeal aproveitou o ensejo para malquistar o rei portugus com Sixto IV. Em consequencia d'isso (ao menos assim se acreditava), o papa enviou em 1483 um nuncio a Portugal, a queixar-se dos abusos do poder temporal contra as pretendidas immunidades da igreja, que o filho de Affonso V respeitava tanto como os foros politicos do reino. Foi o rei emprazado para apparecer ante o papa, por si ou por procurador, para dar explicaes cerca do seu procedimento. Nomearam-se embaixadores; mas antes de partirem, Sixto IV relevou o rei da citao, diz-se que a instancias do mesmo cardeal que excitara a tempestade, receioso de que os ministros portugueses, chegando a Roma, lhe pagassem em igual moeda, fazendo-lhe perder parte do poder e credito de que gosava[36]. Parece, porm, que, emquanto proseguia em Portugal a lucta tenebrosa e encarniada de uma aristocracia suberba com um rei ambicioso e inexoravel, o cardeal no dormia em Roma. Invectivava-se ahi ou fingia-se invectivar contra a frouxido de Sixto IV, que deixava o rei portugus quebrar os privilegios do clero sem se lhe comminarem censuras[37]. Deste clamor sincero, ou desta fara, resultou uma bulla concebida em durissimos termos, que se expediu nos primeiros mezes de 1484. A linguagem della era a linguagem habitual da curia, insolente e grosseira; mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo. O papa recordava uma cousa de que os reis portugueses se haviam esquecido; recordava a D. Joo II que _tinha a dignidade real por dadiva da s apostolica e de que era seu tributario[38]_. Uma bulla destas faria hoje desatar a rir quaesquer ministros portugueses, at em pleno parlamento. Naquelle tempo, porm, ainda o negocio era um pouco serio. D. Joo II, se riu, foi em particular. O arcebispo D. Joo Galvo, um dos valdos do rei e inimigo figadal da familia de Bragana[39], tinha sido transferido, ainda em tempo de Affonso V, da s suffraganea de Coimbra para a metropolitana de Braga. O arcebispo olhava para as cousas ecclesiasticas como certos prgadores d'hoje olham para a prdica; pelo lado solido. Sem lhe importar obter o pallio, foi usando do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas da mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava devorar pacificamente to bom quinho na mesa ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir o clero[40]; mas at que ponto eram graves as culpas do arcebispo, que assim se arriscava a perder a dignidade archiepiscopal (como tem succedido a muitos outros) no sei eu dizer: falo pela boca do papa, que lhe dirigiu tambem uma carta de ameaas. O que certo que o movedor das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal da Costa, no devia esquecer-se de carregar a mo no valdo do seu adversario. Odio de padre contra padre ainda mais profundo e tenaz do que contra qualquer secular. As relaes com Roma offereciam, pois, um aspecto pouco agradavel, quando Sixto IV veio a fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura em que elrei apunhalava em Setubal o Duque de Viseu, mandava envenenar o Bispo d'Evora, assassinar D. Gotterre no fundo de um calabouo, e degolar e esquartejar em praa outros fidalgos. D. Joo I tomara da crte de Inglaterra o esplendor, os habitos cavalleirosos, o amor da cultura litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje distinguem as classes elevadas na Gran-Bretanha. Seu bisneto tomava da crte de Frana apenas um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava modelar as manifestaes da sua alma. A casa de Bragana procedia de D. Joo I, mas de D. Joo I antes de rei e simples mestre da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se enlaado com as armas de Portugal, porque D. Joo I no se esquecera, depois de rei, de que fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava. Com as mos tinctas do sangue do duque de Viseu, D. Joo II arrancou a cruz do escudo de Portugal, e alterou a posio dos escudetes lateraes, collocados at ahi horisontalmente, dando assim nova frma s armas do reino. Dir-se-hia que at d'alli quizera affastar a memoria da linhagem dos seus principaes adversarios. Era essa a causa da mudana? No o sei. Ruy de Pina, um dos amoucos do principe perfeito, attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar ou recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O que certo que a alterao se fez no mesmo anno de 1484. Hoje a heraldica e os brases so dixes com que se entretem as creanas barbadas: o jogo do xadrez cousa incomparavelmente mais grave. Nos fins do seculo XV no era, porm, assim. A atteno da Europa devia volver-se principalmente para o ensanguentado drama que se representava na crte de Portugal; mas a cruz de Christo expulsa das moedas, dos sellos e das bandeiras do reino, pelas mos de um rei algoz, havia de dar occasio a mais de um commentario pouco favoravel. Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco escudetes representassem uma cruz, e ao mesmo tempo contivessem uma alluso mysteriosa paixo de Christo; se as arruellas que os ornavam representassem os trinta dinheiros por que Judas vendeu o Senhor, que falta faria a cruz floreteada de Aviz nas armas de Portugal? No ficava ahi uma cruz mystica, um symbolo piedoso? Fallecido o papa que recordara a D. Joo II qual era a origem da independencia de Portugal relativamente a Leo, e que ainda ousava lembrar-se do signal de vassallagem que outr'ora se offerecera igreja de Roma, elle fora substituido por Innocencio VIII. Sabido o successo, elrei resolveu mandar a Roma uma embaixada, para orador da qual escolheu um homem de plena confiana, o castelhano Vasco de Lucena. Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor que as bullas de Lucio II e de Alexandre III cerca da independencia do reino, e que talvez Affonso Henriques houvesse dado a guardar aos seus chronistas, Joo Camello e Pedro Alfarde? Se o tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem dessa circumstancia o novo papa, tirando assim curia a vontade de repetir as doutrinas carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV. Porei aqui a parte mais interessante do discurso, que o orador de Portugal fez ao papa rodeado dos seus cardeaes, em cujo numero se contava o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre Pereira j traduziu uma poro desse discurso; mas era um preguioso aquelle bom do padre Pereira. V.. hade permittir que eu o seja menos, e d um talho mais largo. Depois de indicar em poucas phrases as origens de Portugal, o orador fala dos primeiros annos do governo de Affonso I e da pequenez dos seus estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas e conquistas: Leiria, Santarem, Lisboa tomadas, o Tejo transposto, a provincia transtagana submettida, com Evora sua capital, Cezimbra e Palmela, fortalezas inexpugnaveis, reduzidas, sendo por elle desbaratados _milhares infinitos_[41] de mouros com poucos cavalleiros. Outra vez (ou _novamente_)--prosegue Lucena--no campo de Ourique, naquelle sitio a que o _vulgo_ chama _agora_ Cabeas dos Reis, com um pequeno exercito venceu cinco poderosissimos reis mouros. Na qual batalha, para se ver quo porfiada fosse, e quo excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram as lanas dos barbaros os escudos que embraava na mo esquerda. Desta singular e famosa victoria procedeu _fixar elle as insignias e armas dos reis de Portugal_, pondo nellas cinco escudos, e collocando em cada um delles cinco dinheiros, sendo sabido que at ento as armas eram um escudo s, todo semeado de besantes. Estes cinco escudos _postos em frma de cruz_, e estes besantes quinarios _tambem distribuidos em cruz_, que nos indicam seno os trinta dinheiros, preo do sangue de Christo, pelo qual este foi entregue aos judeus pelo crudelissimo Judas? Antes de dar o signal para a batalha, este rei, orando de joelhos, viu o Salvador pendente da cruz, e foi tal a confiana do regio animo, tal a f gravada no seu corao, que, sem se aterrar com a estupenda maravilha, _se atreveu_ a dizer que _no convinha_ que Christo apparecesse a um firmissimo crente, mas que tal apparecimento era necessario aos hereges, aos que se afastavam da f christan. D'isto e d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa sanctidade conhecer mais claro que esta luz que nos alumia _por qual constancia d'animo, por qual ardor de virtude, por que prendas, por quaes degrus e successos subiu ao fastigio regio_; como esse varo to religioso, forte e pio augmentou os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo jugo da servido; com que razo, por fora da _clarissima vontade e da suprema direco_ (optimo auspicio) _da eterna magestade_, com _auxilio do povo_ e _adjutorio_ da sancta igreja romana, _tomou o regio nome com direito perfeito_ (optimo jure) _e o legou aos seus successores_; mais feliz nisto que outros principes, dos quaes muitos aspiraram ao titulo real pelo favor dos povos; outros por temor dos seus satellites armados; poucos, a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro caminho da virtude. Aqui tem v.. o que se l na orao de Lucena relativamente a Affonso I. Note v.. que o orador passava por um dos homens mais instruidos do seu tempo, e no podia por ignorancia fazer o que fez; isto , inverter a ordem dos successos do reinado d'aquelle principe. Deste discurso o que se deduz que a batalha de Ourique foi a ultima faanha notavel delle, posterior a tudo, inclusivamente tomada de Evora, e quem sabe se bulla de Alexandre III, que concedeu ao principe portugus a qualificao de rei? O que certo que, se a chronologia fingida por Lucena fosse verdadeira, a batalha e o milagre de Ourique, em que elle visivelmente quer fundar a independencia de Portugal, _embora com o favor do povo e de Roma_, teriam sido posteriores carta de feudo s apostolica e bulla de acceitao de homenagem expedida por Lucio II. Assim, a dignidade do rei e a independencia de Affonso I assentariam n'um titulo, no s incomparavelmente melhor, qual era a vontade de Deus milagrosamente manifestada, mas tambem posterior offerta e acceitao da homenagem feita em 1144, que por esse facto ficavam invalidadas por inuteis. Presupposto isto, a impertinente recordao da curia romana, inserida na bulla _Ut saluti_ de Sisto IV, ficava tambem de todo o ponto refutada. Mas dir v..--o cardeal D. Jorge da Costa, presente ao acto, no podia impugnar este inaudito milagre?--No se impugnam assim milagres. Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra mim, porque no seculo XIX no creio n'uma fabula provada tal at a saciedade, e imagine se um padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre nos fins do seculo XV; e quando se atrevesse a dizer alguma cousa, seria em particular ao papa e aos cardeaes. Outra flagrante mentira dizia ahi Lucena sem temor de que D. Jorge o contradissesse: era a historia dos cinco dnheiros em cada escudete, desmentida por todas as armas reaes gravadas nos sllos e moedas dos nossos antigos reis da primeira dynastia, comeando em Sancho I. Restam muitos desses sllos e moedas; muitos mais deviam restar naquella epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa notavel: havia de ter visto muitissimos; mas nem por isso Lucena titubeou, antes nesta parte o seu discurso, geralmente frio, melifluo, calculado, tem certo sabor de colerica invectiva contra os que disso duvidassem. O descaramento , ha muitos seculos, um dos dotes do homem d'estado. Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador de Portugal no concilio de Basila, e na embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as oraes de abertura nas crtes de 1478 e de 1481. Todas essas oraes, que no deviam ser menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas escapou a da embaixada de Roma de 1485, e no s escapou, mas tambem foi impressa, e no s foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se della duas edies em caracteres gothicos e sem data, ao que parece, estampadas _fra do reino_ e com todos os signaes de _pertencerem aos primeiros tempos da arte da impresso_[42]. Se de feito a orao foi reproduzida pela imprensa pouco depois de recitada, devia s-lo fra do reino, onde a imprensa de livros latinos e vulgares no consta que existisse ainda. Mas duas edies da mesma epocha, que provam, seno que _alguem interessava em dar quelle discurso a maxima publicidade_? Recorde-se v.. do que eu disse a proposito de Olivier de la Marche, e da influencia que provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista flamengo cerca das armas de Portugal. V-se que em 1492, em que este escrevia, as opinies andavam encontradas. As armas que ahi mais se deviam conhecer eram as antigas com a cruz d'Aviz, porque a reforma de D. Joo II tinha apenas oito annos. Entretanto a noticia do milagre de Ourique, postoque alterada, corria j alli, e a alterao provinha de quererem _alguns_ acommodar a fabula s armas antigas. Consequentemente, outros no queriam: logo disputava-se cerca disso: logo a historia da appario era uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a explicao sabida e ordinaria, como Lucena dissera em Roma, teria De la Marche accumulado a serie de despropositos que anteriormente transcrevi? Elle falara cerca d'isto com muitos portugueses, e escrevia vista das suas informaes. O que indica essa completa confuso d'idas do chronista? Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente no meio das lendas que se ligavam ao brazo dos reis de Portugal, as tinha inteiramente baralhado. Agora note v.. que por estes mesmos annos de 1491 e 92 Lucena devia estar em Flandres, porque neste tempo que elle comea a intitular-se conde palatino (titulo que parece provir-lhe do cargo d'escano da viuva de Carlos o Temerario), ao passo que nessa conjunctura o achamos ausente de Portugal[43]. V.. ajuisar das illaes que destes factos se podem tirar. Mais ou menos inexactas que sejam as noticias que nos restam cerca da existencia em Sancta Cruz de Coimbra de um monumento relativo appario, parece todavia que alguma cousa ahi houve, e o transumpto do juramento de Affonso I, feito pelo notario Manso _em tempo d'elrei D. Joo II_, no de desprezar, logo que um homem como frei Francisco Brando affirma t-lo visto. Tal transumpto, se no prova a existencia de um documento verdadeiro, faz crer que _alguma cousa sobre a appario tinha_ apparecido _em Sancta Cruz no tempo daquelle rei_. Advirta, porm, v.. que D. Joo Galvo, o arcebispo de Braga, valdo de Joo II, tinha sido prior mr de Sancta Cruz, devendo por isso conservar estreitas relaes com os frades, e que a familia Galvo parece ter tido particular tendencia para aquelle mosteiro; um outro D. Joo Galvo era seu prior crasteiro no principio do seculo XVI, e, como vimos, diz-se que em 1556 um frade cruzio, velho de oitenta annos, o _cartorario_ D. Manuel Galvo, deps que existia o auto do juramento de Affonso I, _em que os prelados e os grandes da corte estavam assignados_, grossa mentira, seja de passagem dicto, porque o estylo constante, sem excepo no seculo XII e ainda no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo notario que os exarava os nomes dos prelados e ricos-homens confirmantes. Mas os Galves no acabam aqui. Duarte Galvo, _irmo do arcebispo valdo_, escrevendo depois de 1500 a chronica de Affonso Henriques (no fim da qual adverte _innocentemente_ que seu irmo o arcebispo lhe dissera que tinha motivos para crer _que Affonso Henriques fora sancto_,) introduz na narrativa da batalha de Ourique a historia da appario, aperfeioada com a scena do ermito que esquecera a Lucena. Galvo refere-se nesta parte ao que _elle mesmo_ (Affonso I) _disse, e dentro da sua historia se contm_, o que parece alludir a uma especie de memoria ou diploma em que figura o filho de D. Theresa, o _Phara obdurado_. Tudo o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em fama; isto , a reprehenso dada pelo rei a Christo por lhe apparecer a elle; as promessas da proteco perpetua do reino feitas por Deus; emfim tudo aquillo que os frades de Alcobaa metteram para dentro do _seu original_ do juramento, porque em verdade era pena que andasse tanta cousa boa s em _confirmada fama_, como diz Duarte Galvo. Mas se os frades bernardos souberam aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem um juramento vistoso, e de uma appario rachitica uma appario ancha e acabada, o chronista no tinha mostrado menos juizo em lhe dar uma applicao util. Para D. Joo II, morto e sepultado, no servia ella j de nada. A bulla _Ut Saluti_, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio VIII tinham desapparecido da scena politica. Na cadeira de S. Pedro estava assentado o sancto padre Alexandre Borgia, que tinha assaz que fazer em administrar piamente a igreja de Deus, para no cogitar na sujeio politica de Portugal sancta s. O milagre de Ourique andava de todo desaproveitado. Era uma lastima. O chronista olhou para o mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro dos Galves, e entendeu que a appario lhe podia ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente da appario, no que ninguem at ahi sonhara. Fora a causa de tamanha merc do cu o ter Affonso I fundado e enriquecido Sancta Cruz _com grande devoo_. Na verdade isto era em parte mentira; porque as grandes doaes de terras, castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques quelles frades, so todas posteriores a 1139 e anterior batalha de Ourique apenas a de uma horta em Coimbra[44]. Antes, porm, da pontilhuda dialectica dos diplomaticos no se olhava de to perto para as cousas. A mentira util tornava-se em verdade pelo consenso dos sabios, e sabios eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade de explorar a tradio em beneficio dos conegos cruzios era indisputavel. Os caseiros e emphyteutas do mosteiro, raa dura e rebelde em pagar suas rendas e foros, no pagava, e ria-se das excommunhes; os officiaes da coroa quebravam impiamente os privilegios da ordem, e at, anteriormente, os villos de Montemor tinham ousado accus-la de haver obtido com dolo e mentira parte das suas rendas e direitos senhoriaes[45]. Depois, naquella conjunctura, o mosteiro estava gasto e desbaratado das guerras que pouco antes o prior D. Joo de Noronha tivera com o bispo de Coimbra, em razo de uma pouca de carne furtada da cozinha do bispo pelos criados do prior; guerras em que se deram cruas batalhas nas praas de Coimbra, sendo necessario que o poder publico mandasse marchar tropas para pacificar fora os dous reverendos campees[46]. Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes, os bens e rendas de Sancta Cruz sob a proteco de um bom milagre, naquella occasio desoccupado, d'ahi s podia provir utilidade aos cruzios sem damno de terceiro. Valia a pena, por isso, de achar a causa verdadeira do milagre de Ourique, com que ninguem ainda tinha atinado. Paro aqui; e peo desculpa a v.. da minha linguagem. Ha cousas que nenhuma equanimidade basta para dellas se falar sem indignao, ou sem riso. necessario escolher, e eu prefiro o ultimo quando se tracta de embustes e miserias que j no fazem mal. V.. tomar na conta que merecem os factos e as reflexes que no decurso desta carta lhe submetto, e de que no seu foro intimo tirar as concluses que julgar razoaveis. Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado pela imprensa que se retirava da arena da discusso. Por mais oppostas que sejam em tantas cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica com um homem honesto, cortez e instruido, era-me summamente agradavel. Mas d'hoje avante, dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que no faria uma aco boa. At certo ponto sera ferir pelas costas um adversario leal. Cessou por isso a nossa correspondencia. Restam mil outros meios de falar com o geral dos homens de bem e sinceros, e de dizer ao meu paiz as verdades em que a guerra da maioria do clero me obriga, por propria defesa, a faz-lo pensar. V A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO (_Maro, 1851_) Meu amigo.--Remette-me v.. o folheto de A. C. P. (que me diz ser um academico o sr. Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os crimes, as fabulas, as contradices, as ignorancias e no sei quantas cousas mais, em que o peccador de mim caiu na narrativa da batalha de Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa no seu jornal acerca desta publicao, a qual fez, segundo v.. affirma, certo effeito, por causa das garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por lithographia ao folheto, como prova dos progressos da arte typographica entre ns, que o mais que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas. Sabe o bom redactor da _Semana_ a primeira impresso que o folheto me causou? A que em mim produzem muitas cousas que se publicam nesta nossa terra. Lembrei-me da Divina Providencia, para lhe agradecer que o estudo da nossa lingua esteja to pouco generalisado na Europa. A reputao litteraria do paiz ganha immensamente com isso. Dizem que no se deve nunca desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que litterariamente desesperava della, se no fosse a mocidade, qual Deus queira dar bastante amor do estudo, e alumi-la com um sancto horror a cruzar os umbraes da Academia. A dizer a verdade, meu amigo, comea a fallecer-me a paciencia e a vontade para discutir cousas que nos escorregam para o cho quando tentamos submett-las analyse. Demais, do que eu tracto agora de pr quanto antes na imprensa o quarto volume da _Historia de Portugal_, que, em consciencia, me tem dado mais que pensar do que todas as criticas academicas, presentes e futuras. Com a mo no corao, digo-lhe que, _exceptis excipiendis_, o areopago censorio mais inoffensivo, mais divertido at, que ha em todo o mundo a Academia de Lisboa. Collectivas ou individuaes, as censuras que partem d'alli nem sequer arranham a supposta victima. Se no escorchassem, por via de regra, a grammatica e o senso commum, no s seriam suaves e morbidas; seriam at, permitta-me diz-lo, voluptuosas. Traduzidas em chim, tomavam-nas por obra de algum collegio de mandarins letrados do celeste imperio. O opusculo que o meu amigo me remette pasmoso no genero: um botaru da maravilhosa fabrica das memorias e actas academicas tirado do seu logar, e a que fizeram perder aquella parte de formosura que lhe houvera resultado da harmonia do todo. Sinceramente, uma cousa que lastimo. Agora o que, tambem sinceramente, eu no esperava era achar no opusculo certa cortezia nas frmas que o auctor empregou. Saba que se estava imprimindo contra mim um cartapacio mourisco. Pensei que fosse obra dos reverendos, que, to pobres de saber e de intelligencia como ricos de odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria a colera que os abafa. E ainda bem! Apesar do nojo que tenho desses pobres-diabos, no quero que elles estourem, porque so meus irmos, como em gira jesuitica se costuma dizer a cada punhalada que se d no proximo. Estou j to affeito aos improperios da imprensa devota, caridade dos nossos khatibs e ul-mis, que no esperava no imminente opusculo seno mais uma prova a favor da minha crena na atrophia moral e intellectual da maioria do nosso clero, crena que elle se encarregou de demonstrar at a saciedade. Enganei-me: era obra secular; academica, porm cortez; cortez (entendamo-nos) at o ponto de no usar o auctor das phrases dos prostibulos e das tabernas, mas no at o ponto de respeitar o meu caracter moral, porque ahi sou accusado de _falto de sinceridade_ (pag. 10), de _critico cheio de fel_, de _criminoso_ (pag. 15), de _aviltador do valor portugus_ (pag. 18). Isto, porm, pode ser violento, mas no immundo. Os mentecaptos indecentes so os que a minha dignidade de escriptor e de homem me no consente refutar. Assim, ser-me-ha licito satisfazer aos desejos do bom redactor da _Semana_ e remetter-lhe algumas notas cerca deste curioso papel. Uma explicao. Quando digo que no posso refutar mentecaptos indecentes, no quero significar que essa guerra que se me faz, atroz na inteno, ridicula nos effeitos, ha de ficar sem punio. No sou homem disso; mas tambem no sou homem que gaste polvora com guerrilhas. Hei de ir buscar a seu tempo as columnas de infanteria e os macissos de cavallaria que esto atraz dellas. As miserias que ahi vo pela imprensa contra mim so um veu que encobre, ou antes descobre por demasiado raro, negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se a Europa catholica se hade infeudar de novo s corrupes da curia romana, com o seu cortejo de jesuitas de todos os formatos, de todas as idades e de todas as mascaras; com os seus titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas em miniatura. Tenta-se este solo de Portugal: manda-se hostilisar em mim o progresso das novas idas, a independencia das opinies, no porque eu seja o mais forte, mas porque circumstancias, que no preparei nem provoquei, me collocaram na primeira linha do combate. O que certo que alguem se ha de enganar cerca do desfecho da lucta, ou ns, ou esse grupo, essa cousa, que por ahi anda a ajunctar quanto p e podrido ha no cemiterio dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida; essa cousa hedionda, que, incapaz das ambies grandiosas, do despotismo esplendido da Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho que ella desmente, fulminada pela philosophia que ella detesta, depois de apurar as suas doutrinas espirituaes nas fontes catholicas das margens do Neva, vem refocilar-se para a peleja, e desafiar a justia de Deus e dos homens atraz dos olhos buliosos da madona de Frosinone. Aqui, no ultimo occidente, o recontro final ha de ser mais tarde. Que a mocidade no durma, porm! Prepare-se para os dias de prova, e talvez de tribulao, com a severidade dos costumes, que d a energia moral, e com a severidade do estudo, que subministra as armas para a victoria. Por ora pedem-nos s jesuitas; o perigo da petio no grande. A igreja da _Memoria_, cujas grimpas vejo d'aqui, collocada l a meia encosta, vigia a foz do Tejo. Os filhos de Loiola no passariam quem da barra sem que o sangue de D. Jos I gemesse nos fundamentos do templo, e este gemido retumbaria pelo reino de Portugal, porque a imprensa tem echos. Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por no deshonrar esta terra: empreguemos unidos os nossos esforos para augmentar os thesouros da civilisao no paiz; associemo-nos lealmente a quantas idas generosas e puras de progresso material e intellectual surgirem no meio de ns. Filhos da imprensa, os nossos deveres so arduos; mas necessario cumpri-los. Porque estou eu tranquillo no meio da tormenta que ruge? Porque tenho a consciencia de os haver desempenhado escrevendo a historia. Se transigisse com vaidades e mentiras; se vendesse a minha penna a paixes pequenas e ms; se recuasse diante de consideraes miseraveis, as horas da solido e do silencio, que so as mais da minha vida, no seriam to repousadas para mim. Alumiado por essa luz moral, que nunca devemos perder de vista, espero levar ao cabo o empenho que tomei, at porque a historia de Portugal uma das mais ricas em lices para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas, e essas lices so hoje altamente proficuas. No ha nella, sob tal aspecto, uma s epocha infertil, desde os tempos barbaros em que o arcebispo Joo Peculiar, furioso contra o seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos paos episcopaes deste, convertia a cathedral em estabulo dos seus cavallos, e espalhava por terra as sacras frmas, n'um impeto de bruta colera, at aquelles, no barbaros mas corruptos, em que os devotos e pios inquisidores, depois de mandarem desconjunctar nos tractos do potro os membros delicados das virgens hebreas, ou das tidas por taes, iam, curvados sobre o leito da dr, pousar mollemente os olhos lubricos nos debeis corpos das martyres, e fartar a sua luxuria de tigres palpando aquellas carnes pisadas e sangrentas. Quando a justia de Deus pe a penna na dextra do historiador, ao passo que lhe pe na esquerda os documentos indubitaveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, elle deve seguir vante sem hesitar, embora a hypocrisia ruja em redor, porque a misso do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina. E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo! O opusculo tinha-me profundamente esquecido. O eruditissmo academico meu adversario declara-me inhabilitado para escrever a historia do dominio mussulmano na Hespanha, porque no sei arabe. Pois ento dou-a por no escripta. Largo o titulo de historiador; mas consolo-me com a boa companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras no sabiam arabe; Barros no sabia o sanskrito; Raynal no sabia as linguas bunda, tupinamba e iroquesa; Bossuet no sabia as setenta e duas linguas da torre de Babel. O auctor do opusculo passa a demonstrar como eu no sei arabe. No era preciso: nas notas do meu livro estou mais que confesso. Nunca citei um texto escripto nessa lingua, que no dissesse de que traduco me tinha valido. Eis, todavia, as provas _da minha_ insciencia: Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem phenicia. E contino a attribuir-lh'a. O nome radical do rio _Ana_: e os eruditos concordam geralmente em que a palavra phenicia. _Guadi_, _wadi_, ou como em mouro direito for, rabe, e significa rio. At ahi chega o meu arabismo. Mas no so essas syllabas que o distinguem, porque os sarracenos as ajunctavam a muitos _nomes proprios_ de rios. _Guadiana_ nada mais que o _rio Ana_. Segunda: Digo que _Alcacer_ significa _paos reaes_. E porque no o havia de dizer? Os _Vestigios arabicos_ de Moura do-lhe a significao de _palacio acastellado_; e eu, que no sei arabe, mas que sei outras cousas que o auctor do opusculo ignora, affirmo-lhe que naquella epocha o _Al-kassr_ ou _Al-kassba_ (aqui me colhe n'alguma tropelia arabica) era isso, ou mais exactamente, um _castello apalaado_. Quanto ao adjectivo _reaes_, asseguro-lhe f de christo (e tanto da gemma, que no entendo o alcoro) que em virtude das instituies politicas d'aquelles tempos, assim entre sarracenos como entre nazarenos, o _alcacer_ era necessariamente _real_, isto , dependente do poder publico. Terceira: Chamo a _Ourique_ nome proprio de logar. Sobre isso falaremos d'espao. Quarta: Interpreto _Iman_ dignidade religiosa. Esta accusao deixou-me quasi academico. Para um arabista parece-me gracejo forte de mais. Pois _Iman_ no significa dignidade religiosa? O auctor do opusculo devia ento dizer-nos se o _iman_ era algum capito de mar e guerra, mercador de retalho, dentista, ou que demonio era o _iman_. Quem a mim me metteu nestes trabalhos sei eu. Foi o celebre traductor e refutador do alcoro, Marraccio, que teve a insolencia de dar sempre palavra _iman_ a significao de _chefe do culto_, de _principal sacerdote (sacrorum antistes)_[47]: foi o orientalista Von-Hammer[48], que sabe mais das cousas mussulmanas, que toda a eschola arabica de Lisboa desde a sua fundao at hoje: foram todas as exposies da organisao religiosa entre os mussulmanos, no s da Peninsula, mas de todo o mundo. Quinta: Digo ser _Ismar_ corrupo de _Omar_ ou de _Ismael_. possivel que eu me enganasse: todavia, porque no me fez o auctor do opusculo um favor especial; porque no me citou na historia de Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou na de Al-Keiruani, onde se mencionam milhares de individuos mussulmanos, um s que se chamasse _Ismar_? Assim fico em duvida, e desconfiado de que tenhamos outra anecdota como a d'_Iman_. Felizmente as provas no continuam. Se o auctor proseguisse, temo que demonstrasse contra mim que eu saba arabe. Era um aperto em que me punha; porque na realidade eu no sei decifrar um unico daquelles engaos de passas, que elle lithographou ao cabo do seu opusculo. Passado o preambulo, o auctor annuncia que vai provar-me pelos historiadores arabes que a batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o _golpe fatal dado no dominio mussulmano_. Sancto breve da marca! Sempre so mouros! Se tal affirmam, digo ao illustre arabista que no os acredite. Os monumentos christos, ainda os mais exaggerados, no contam tanto. O dominio mussulmano ficou como estava depois da jornada d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para os seus estados, ao norte do Mondego, porque saba do officio de soldado. Sessenta annos de lucta depois da bulha d'Ourique no bastaram para expulsar de todo do actual territorio portugus os mussulmanos. Apesar da celebre jornada de 1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando palmo a palmo a Estremadura e o Alemtejo. Que _golpe fatal_ foi, portanto, esse de Ourique? Ah mouros, mouros! Isso debicar com o proximo. Depois de citar o que eu refiro como introduco narrativa da batalha, o opusculo vem deitar-me tudo por terra com um sopro. Errei a chronologia, os nomes dos imperadores almoravides, tudo. Oh peccador de mim! L vai o texto do nosso academico arabico: Nada tem o facto de Ourique, succedido no reinado de Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este Aly-Ibn-Iussuf foi o primeiro imperador da dynastia dos morabethins e falleceu no anno 496 da Hegira, 1103 da era Christ... No foi, _portanto_, no reinado de Aly-Ibn-Iussuf, nem durante o de Aly-Ben-Taxefin, que comeou a pretenso do celebre El-Mohdy, mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly, que succedeu a Aly-Ben-Taxefin, isto , principiou no reinado do III imperador e s tomou seu maior incremento no meio do reinado do IV imperador da dynastia dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin: logo no reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi a batalha de Ourique, no houve revoluo, nem politica, nem religiosa, que distrahisse as tropas; o que tudo confirmamos, convidando nossos leitores a que leiam os capitulos desde 32 at 36 inclusivamente da Historia Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim. Transcrevi todas estas blasphemias historicas, para que se veja com quanta razo dou graas a Deus de que a nossa lingua seja pouco conhecida, e o que se deve esperar de uma academia onde ha destes eruditos. Ps vista de todos o corpo de delicto. Vamos ao auto. A serie dos imperadores almoravides que resulta das precedentes passagens a seguinte. 1.^o Aly-Ibn-Iussuf 1103 (morto) 2.^o Aly-Ben-Taxefin 1139 (batalha d'Ourique) 3.^o Taxefin-Ben-Aly (apparecimento do Mahadi) 4.^o Ibrahim-Ben-Taxefin. Em que se funda o auctor? Que o que cita em seu abono? Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia de Assaleh-Ben-Abdel-Halim, ou Salihn Abd-Alihim, conforme for em mouro a graa de sua merc, porque no ha dous arabistas que escrevam um nome de gente do mesmo feitio. Ora os capitulos citados[49] tem apenas o pequeno inconveniente de se referirem s primeiras conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento do seu dominio na Africa _na segunda metade do seculo XI_. no capitulo 37 que se narra a primeira passagem Hespanha de Iussuf-Ibn-Tachfin e a victoria de Zalaka em 1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a terceira em que Iussuf incorporou nos seus dominios os estados mussulmanos da Peninsula, que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf foi o primeiro imperador almoravide d'Africa e de Hespanha. A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos 39 e seguintes da Historia de Assaleh-Abdel-halim : 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido) em 1106 2.^o Aly-Ibn-Iussuf (appel. Abu-Hassan) (fallecido) em 1142 3.^o Tachfin-Ibn-Aly (morto em) 1145 Se o meu amigo comparar isto com o que se diz no opusculo, no me ha-de acreditar. Tem razo. monstruoso, incrivel, absurdo; mas est la. Se quizer desenganar-se, procure a verso de Assaleh pelo padre Moura esplendidamente impressa pela Academia em papel pardo e letra safada. Veja o que diz o historiador arabe, o que eu digo, e o que diz o opusculo. Depois julgue-nos; e, ainda depois, faa idea do que ir pela _Classe de Sciencias Moraes e Bellas-letras_ (ou, como quem o dissesse em portugus, _e Boas-letras_) da Academia[50]. assim que esta gente salva a gloria nacional e vindica a bulha d'Ourique contra a minha m f, contra o fel da minha critica. A m f minha. Repare bem nisso. Mas haver outros textos de Abdel-halim, que tenham alguns capitulos 32 a 36, que nos contem essas historias do opusculo? Na parte da _Historia do Dominio dos Arabes_ por D. J. Conde, relativa dynastia almoravide, o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte do seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve aproveitar-se com cautela. Todavia Conde era incapaz de commetter um erro to grosseiro como transtornar completamente a chronologia daquella epocha. Isto estava reservado para um membro da nossa academia. Eis o resumo da chronologia de Conde quanto dynastia almoravide[51]: 1.^o Abu-Bekr-Ibn-Omar (unicamente na Africa) 2.^o Iussuf-Ibn-Tachfin, fallecido na egira 500 (1106-1107) 3.^o Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na egira 534 (1139-1140) 4.^o Tachfin-Ibn-Aly fallecido na egira 541 (1146-1147) A ordem dos imperadores a mesma. Conde atraza dous annos a morte de Aly-Ibn-Iussuf e adianta um a de seu filho. Ainda admittida a chronologia Conde, a jornada de Ourique cai dentro do reinado de Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira 534 correu de _agosto_ de 1139 a agosto de 1140. Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan e Ibn-Al-Khatib consideram Iussuf-Ibn-Tachfin como o fundador da dynastia almoravide. Eis a chronologia seguida por elles: 1.^o Iussuf, fallecido na egira 500 (1106-7) 2.^o Aly, fallecido na egira 537 (1142-3) 3.^o Tachfin, fallecido na egira 539 (1144-5)[52] J se v que, segundo a chronologia de Ibn-Khallekan e de Ibn-Al-Khatib, a ordem da dynastia a mesma, e que o successo d'Ourique tambem cai no reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre Abu-l-Feda concorda com elles. Na Egira de 500--diz Abu-l-Feda--morreu Iussuf-Ibn-Tachfin, _amir al-moslemin_. Succedeu-lhe Aly seu filho (Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o titulo de _amir al-moslemin_, como seu pae[53]. Resta apontar o que resulta da narrativa do principal historiador arabe do dominio mussulmano Peninsula, Al-Makkari, cerca da dynastia almoravide: 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin 1052 a 1106 2.^o Aly-Ibn-Iussuf 1106 a 1143 3.^o Tachfin-Ibn-Aly 1143 a 1145 4.^o Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin 1145 a 1147[54] Que tal parece ao meu amigo a erudio arabica da parte sarracena da nossa Academia? Nos arabes v-se que se encontra exactamente o contrario do que se l no opusculo. Certamente o auctor descubriu essa deliciosa historia dos almoravides, que nos conta, nos escriptores christos coevos ou quasi coevos. Sempre era gente que se confessava. Mouro e judeu mentem por officio. Vejamos: A chronica dos godos nas suas referencias aos imperadores almoravides: 1.^o Iussuf (batalha de Zalaka) 1085 alis 1086 2.^o Aly-Ibn-Iussuf (cerco de Coimbra) 1117[55] A conimbricense: 2.^o Aly (cerco de Coimbra) 1117[56] Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII mais instruido na litteratura arabe e christ da Peninsula, estabelece para a dynastia almoravide d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55 annos desde a Egira 484 at a Egira 539, a seguinte chronologia: 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (principio da dynastia) 1091-2 2.^o Aly-Ibn-Iussuf 3.^o Tachfin-Ibn-Aly (fim da dynastia) 1144-5[57] Ao _digno_ academico restam talvez para estribar as suas famosas historias _almoraviditicas_ (na falta de arabes e christos) alguns historiadores tartaros, mongoles, ou chinas. provavel que seja assim. Perde, meu amigo, estas extensas citaes. Era necessario dar uma prova, que no admittisse subterfugios, dos deploraveis, por no dizer vergonhosos, extremos a que o desejo de me combater tem levado certas pessoas. O auctor do opusculo negou, com a mesma sem cerimonia com que transtornou a serie dos imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi (Mohammed-Ibn-Tiumarta) comeasse a revoluo almohade no reinado de Aly, e que nos ultimos annos deste reinado, isto , na epocha da batalha ou recontro de Ourique, essa revoluo houvesse tomado um incremento irresistivel. Todavia so os mesmos escriptores arabes que contam o successo como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim, em que elle finge estribar-se com uma citao _falsa_; _falsa_, digo, porque tanta confuso involuntaria moralmente impossivel. A narrativa de Abdel-halim , que em 1120 appareceu o Mahadi; que de 1122 a 1125 j se achava com foras para vir assentar campo perto de Marrocos; que, tendo fallecido em 1130, tomou o commando dos almohades Abdel-mumen, o qual foi acclamado imperador em 1133, continuando guerra incessante contra os almoravides at os destruir[58]. elle que, depois de narrar as victorias de Tachfin-Ibn-Aly contra os christos desde 1126 at 1137, refere que logo passara Africa[59]. Conde diz-nos que fora chamado por seu pae ameaado da ultima ruina[60]. Habil e feliz general contra os christos, esta causa da sua partida parece confirmada, no s pela razo, mas tambem pelo texto de Al-Khatib[61]. Um monumento christo, escripto por individuo do mesmo seculo, a _Chronica Adefonsi Imperatoris_, confirma e particularisa o facto. Narrando os successos de 1138, diz que Tachfin levara comsigo, retirando-se para a Africa, at os mosarabes e os prisioneiros christos para os oppr aos almohades[62]. Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas almoravides, quando a defesa de Marrocos o obrigava a converter em soldados os proprios nazarenos captivos? Destroem-se estes factos com citaes falsas? Como se explica o abandono d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco) no occidente da Peninsula entre almoravides e portugueses, quando de Africa se no dispensava um soldado para a salvao d'aquella chave da fronteira musulmana? Que se pde dizer que tenha um vislumbre de senso commum contra o que a este proposito reflecti? Quem d documentos de m f? Sou eu ou os meus adversarios? Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico arabe no vale a pena disso. Depois d'estas faanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusaes curiosissimas. Fora extenso de mais cit-las todas. Uma d'ellas que chamo serie dos imperadores almoravides _dynastia lamtunense_ para explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a merc de dizer-me que o vocabulo _lamtunense, ou antes almolatamenense_, no serve para indicar covardia. Devras? E eu que no caa em nada! Isto incrivel, amigo redactor da _Semana_. Digo mais: era impossivel haver quem fizesse d'estas, se no houvesse academias. Chamei aos principes almoravides _dynastia lamtunense_, ou _lamtunita_, porque todos os historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib, Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raas bereberes que serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da tribu de Masufah pertencente a essa raa. Aquella phrase do opusculo _ou antes almolatamenense_, deliciosa. Como o nosso arabista precisava de mostrar a sua pobre erudio, fez pouco mais ou menos este raciocinio: o auctor da Historia de Portugal denomina os principes almoravides _lamtunenses_; eu digo-lhe, _ex auctoritate qua fungor_ que era melhor chamar-lhes _almolatamenenses_: ora como esta denominao provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforo, embora elle no usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehend-lo por isso; porque uma violencia negar a um pobre escholar arabico a occasio de mostrar erudies _reconditas_. Sabe o meu amigo o que isto faz lembrar? Faz lembrar o prgador que punha o barrete na borda do pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o sua vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra mim: Que os principes almoravides usaram do titulo de _amir-el-muminin_[64]. A prova disto curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no, segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de Cordova. No o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se v que o titulo dos soberanos lamtunenses era _amir-al-moslmin_ (principe dos mussulmanos). Ouamos agora o sr. Gayangos: No consta da historia--diz elle--que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores tomasse nunca o titulo de _Amiru-l-muminin_, que era reservado para o khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de _Amiru-l-muslemin_, ou _principe dos moslems_ (de Africa e de Hespanha). Os proprios sultes de Cordova, postoque descendentes do tronco dos Benu-Umeyyah, e to intimamente ligados com a familia do propheta, no se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbs no chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova e d'outras cidades da Peninsula[65]. Effectivamente Abu-l-Feda nos certifica que Abderrahman III foi o primeiro entre os principes ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de _amir-al-muminin proprio do Khalifa_[66]. Isto no so citaes falsas. Por ellas pde ver o meu amigo com quanta exaco eu escrevi cerca dos almoravides, embora no fosse esse o objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o opusculo sarraceno destinado a refutar-me. No fica, porm, aqui o negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de _amir-al-muminin_, porque, diz elle, o de khalifa s se deu aos imperadores do oriente, e estas palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeo a ultima novidade; mas eu no escrevia grammatica; escrevia historia, e, politicamente, as duas expresses eram synonimas. Que se pensaria de quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que, falando do imperador da Russia, dissesse _o czar ou autocrata_? Por outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de khalifa se deu ou no se deu aos principes mussulmanos do occidente, ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha, cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6 d'Al-Makkari, ahi achar que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam III foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu _os titulos de khalifa e de amiru-l-muminin_. Se tambem quizer saber se os principes almohades tomaram ou no o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e l achar este periodo: El-Mohdi _elevou o khalifado_ para os que lhe succederam[67], e mais adiante, onde se conta certa anecdota do primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, ler que um poeta da crte dizia a outro: At quando importunars tu _o khalifa_?; porque de advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha criticos academicamente originaes. Mas, em consciencia, meu amigo, eu s vezes merecia ser feito socio effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue toda a matalotagem arabica do _digno_ academico, se lhe rebella e tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E seno, ouamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leo e ao papagaio, de que Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador, traduzidas por Moura na sua verso de Abdel-halim, so _as victorias e o poder competem ao califa Abdelmumen_[68]. verdade que o auctor do folheto, que repete a historia do leo e do papagaio, no sei para me provar o que, traduz, em logar de _califa_, _successor_. Mas aqui para ns, meu amigo, postoque eu no saiba arabe, apostava que isso foi uma esperteza, e que naquella expresso _algalifatu_ (ou, como Moura l, _el-califa_) anda o que quer que seja de _khalifa_. Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraa, duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique no nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa _adversidade_ ou _infortunio_. Sou, porm, nesta parte absolvido do peccado, porque quem me deitou a perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento, que o digno academico fez, exactamente a contraria da que elle desejava. Se assim , torna-se impossivel achar jmais uma passagem de auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora at aqui no tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas desde que a palavra ourique (tirei-lhe o _O_ maiusculo, no pensem que teimo em faz-la nome proprio) significa s _adversidade_ ou _infortunio_, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtjo um facto provado pelos testimunhos que eu colligi; o que no est provado, nem se ha de provar nunca, que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do _campo de Ourique_; mas como o auctor do opusculo no consente que esse pobre _o_ tome as dimenses de letra maiuscula, qualquer passagem que apparea ha de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: Houve em 1139 um combate entre os moslems e os infieis _no campo da adversidade ou do infortunio_. Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e consequentes, houve muitos recontros entre os christos e os mussulmanos, segue-se que no saberemos a que conflicto allude o auctor arabe; porque todos os campos de combate so de adversidade ou infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este modo de defender a importancia da batalha de Ourique galantissimo. O que, porm, verdadeiramente academico e digno do pincel de Molire o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura cerca da etymologia de Ourique. bem clara--diz elle--_ainda para os que no sabem arabe_, a nenhuma analogia que se nota _com o ouvido_ entre _orique_ e _arique_. Agora, quer o meu amigo saber com que palavra arabe _orique_ se parece muito? com _araka_. Isto no precisa de commentario. Nas contendas dos nossos rapazes cerca da Stoltz e da Novello, quem devia dar a sentena definitiva era o illustre arabista. Proponham a questo Academia. Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo paragrapho. uma novidade que escapou a todos os etymologistas e ethnographos. Na translao das palavras de umas linguas para as outras, ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta da ignorancia das multides, que so quem ordinariamente faz essas adopes de termos peregrinos. As proprias transformaes das linguas so assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas da Europa occidental. Nestas mudanas e adopes no ha letra que no possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para no o ignorar. Agora oua o meu amigo um mysterio da lingua arabe: Moura--diz o opusculo--foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo _araka_, cuja primeira letra radical, que um _alif, no soffre a converso_ para a letra _o_ nas linguas europeas. Isto quer dizer que aos rudes portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras, quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes caam nas unhas, era prohibido tocar no _alif_, especie de _noli-me-tangere_ arabico. Certamente, meu amigo, no alcoro ha uma sura intitulada _Dos escorchamentos etymologicos_ onde o propheta diz: Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra _alif_ para della engenhar um dos seus maldictos _s_, vai preso. Foram peccados meus que me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo sarraceno. Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de sciencias moraes e bellas-letras, elle entender assim melhor a phrase); vem uma longa chicana sobre as palavras _fossado_, _correria_, _entrada_, e no sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudio pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado expedio de Affonso I em 1139, porque todas as etymologias do mundo no podem fazer com que uma cousa deixe de ser o que . O fossado era uma expedio que se fazia em regra todos os annos no comeo do vero s terras inimigas: questionar sobre isto no sera mais do que mostrar-se profundamente ignorante das nossas cousas antigas. _Correria_ um nome que cabe ao fossado to bem como _expedio_; porque correria uma especie do genero expedio, mais nada. Quem faz uma expedio, fossado, ou correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcoro ou a Academia no mandarem o contrario) e por consequencia faz uma _entrada_. No uma miseria, alm disso, affirmar-se n'um papel que tem a pretenso de ser cousa sria, que eu me contradigo, porque, chamando correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a ida de que os mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos no podiam precaver-se? Que resposta sria se pde dar a isto? Fique-se entendendo que quando um paiz invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar como carneiros e no se unem para se defenderem, ou que os soldados que fazem correrias, no andam, mas voam, ou vo em aerostatos descer aonde e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de Ourique no houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem, cousa to absurda, quanto certo que essa expedio importava uma longa marcha de cincoenta leguas (que tantas iro de Coimbra ao campo de Ourique) quasi toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos, Ourique ficava _no corao das terras mussulmanas_. Qualquer cabo de esquadra sabe que difficuldades se offerecem marcha de tropas, embora disciplinadas (como de certo no eram as de Affonso I) atravez de um paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O principe portugus deixava, alm disso, na sua retaguarda, por um e por outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos, taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim, meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos, embora no tivesse as dimenses que lhe attribuiram depois, foi ou no foi um acto de bastante ousadia. De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo _derrota_ por _destroo_ ou _desbarato_ (dos sarracenos em Ourique). No escrevi o meu livro para se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico portugus, e por isso na sua lingua, ao menos at onde eu a saba. Vamos questo principal. Para a tractar no me parece que fosse necessario accumular previamente tanta inexaco e tanto desproposito. Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio cerca da batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposio _contraria_, isto , que nesses diversos escriptores arabes se encontram, no s vestigios della, mas tambem a sua _descripo_, e as suas _consequencias terriveis_. Algum de ns, pois, engana o publico; algum de ns commette uma aco indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta verdade. Eu consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio mussulmano na Peninsula, e que esto traduzidos. Era essa unicamente a minha obrigao, porque no sei arabe. O auctor do opusculo _devia_ t-los visto antes de escrever, e _podia_ ter lido outros, porque diz que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros comparados com os monumentos christos, e o auctor achasse que esses no-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era preferivel ao delles e ao dos monumentos christos, sendo accordes uns com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda no seculo XII ou nos comeos do XIII. Das tres fontes historicas resulta ou no resulta o que eu disse? Resulta ou no resulta, que antes de julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo as tropas que pde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christos? verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou _de abril a setembro ou outubro_[69]? verdade que os seus defensores pediram debalde soccorro a Tachfin, _que se achava ento em Africa_? So, portanto, bem deduzidas as minhas inferencias de que absurdo imaginar que havia trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso Henriques, e no os havia para descercarem uma praa daquella importancia? para responder negativamente a estas perguntas de um modo to categorico como eu as fao, que desafio o auctor do opusculo sarraceno. Ao que se colhe dos monumentos christos e mussulmanos coevos ou quasi coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porm, oppr o _digno_ academico? Vejamos: Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, _que viveu no principio do seculo_ XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou transcrever, porque gsto de apresentar o corpo de delicto: E dizem alguns dos sabios precedentes _sobre_ o governo da Andaluzia (_sic_) que ella muito se engrandeceu: _e na verdade conquistou com boa posse_ (_sic_) muitos dos logares _os_ (_sic_) mais notaveis: e foi isto depois que l'Enrick _derrotou_ os mussulmanos; (_sic_) no persistiram estes depois disso no paiz seno quando obravam pacificamente; e _por isso_ (_sic_) ficaram os christos neste paiz senhores de suas terras e de suas riquezas (_sic_), (_sic_), (_sic_). O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que at certo ponto simula lingua portuguesa, ha, _no s claros vestigios_ da batalha de Ourique, mas tambem a _descripo della e das suas consequencias_. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes que eu no soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opinies aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi v em meio-mouro. Realmente a cousa sria, sobretudo exornada com as erudies e commentarios do traductor, a quem Deus d alguma inclinao mais proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos viajantes marroquinos. Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a l'Enrik (que possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra _ulm-i_ para significarem os _seus_ historiadores. Vamos por partes. Se o sr. Hamed escreveu _sabios precedentes_, porque j tinha dicto quem elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertao cerca da palavra _ulm-i_, no seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as notas de sr. Gayangos verso de Al-Makkari, notas preciosas como fonte de erudio arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para sabermos que importancia deveriamos dar aos _sabios precedentes_ como auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava. Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem vindo a Hespanha e repetissem o que por c tivessem ouvido cerca do recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos antes, provariam tanto a favor della como a _precedente_ traduco prova que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa lingua. Suppondo, porm, que Hamed se refira no principio do periodo a historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o que certo que a phrase relativa a l'Enrik no dos taes _sabios precedentes_, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe bastante da lingua franca para ver que desde as palavras _e na verdade_ no so os _sabios precedentes_, mas sim o proprio Hamed, em corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu testimunho o dicto delles, se possivel perceber aquelle _imbroglio_ que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior que o proprio texto est provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a facto algum especial, se refere em geral s victorias e conquistas de Affonso I, (se que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que eu particularisei com a miudeza e exaco, a que os _sabios precedentes_, os _ulm-i_ da nossa terra, no tinham chegado. Se Hamed se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik, tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como j disse, Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtjo, ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabea ao jugo christo. Aqui tem o bom redactor da _Semana_ o que e o que vale o papel da tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis. o dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio s vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias! O famoso texto do viajante marroquino reforado com um contraforte tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o texto _inedito_ de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe luz do dia: E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139) desbaratou o general Taxefin as multides dos christos _nos campos de Attibbat_; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de seus prisioneiros _seis mil captivos: em consequencia do que_ partiu para Marrocos, e sua chegada _lhe saiu ao encontro seu pae_, o imperador dos mussulmanos, _que ficou em profundo desgosto e cheio de grande susto_. No capitulo 33 do Kartts traduzido pelo padre Moura no vem esta passagem. Entretanto no devo crer que o auctor do opusculo a inventsse. Cumpre suppr que elle se serviu de algum exemplar mutilado, viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na verso de Moura no capitulo 40 que se contm as ultimas aces do Tachfin na Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz: No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido e tomado de assalto _a cidade de Segovia_, levando comsigo _seis mil captivos_; e tendo chegado a Marrocos _veio seu pae encontr-lo_ com grande pompa e _se alegrou com elle_, etc.[71] As duas passagens so, se no identicas, por certo parallelas. Tracta-se em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um triumpho em que captivou seis mil homens. A differena est nas circumstancias, e _na data_. Qual dessas se deve preferir? Vejamos. Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas pe-na como immediata reduco de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de 1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a sada do principe almoradive para a Africa devia verificar-se j em 532, isto , nos fins de 1137 ou nos principios de 1138. Com esta data concorda o auctor da chronica de Affonso VII, mencionando a partida de Tachfin para alm-mar entre os successos de 1138, e descrevendo a mensagem que lhe enviaram Africa os defensores de Aurelia durante o cerco posto a esse castello por Affonso VII _em abril de_ 1139. O chronista christo vai de accordo na chronologia com os historiadores arabes sem os conhecer, e limitando-se a narrar os factos que _ouvira s pessoas que os tinham presenciado_[72]. No quero suppr, torno a repetir, que o auctor do opusculo forjasse a passagem que cita, ou que alterasse a data da hegira para provar que Tachfin estava em Hespanha em julho de 1139. N'uma questo em que se tem procurado associar ida de que ca n'um erro historico a de que tive em mira deshonrar o meu paiz, tal procedimento fora duplicadamente torpe. Todavia o _digno_ academico ainda assim tem d'escolher entre a ignorancia e a m f. Se conhecia a chronica de Affonso VII, a narrativa de Conde e a verso de Assaleh por Moura, tinha que fazer duas cousas: primeira, provar que essas auctoridades em que eu me estribava eram insufficientes; segunda, mostrar que o seu manuscripto tinha uma importancia, uma auctoridade tal, que as annullava. Onde o fez? Como o fez? Acaso s porque se mandaram escrever n'uma pedra lithographica uns poucos de caracteres arabicos ou o que quer que seja, provou-se que as palavras que resultam da sua unio so indubitaveis como o evangelho, ou sequer que preferivel a leitura do codice de que se tiraram leitura de codices j conhecidos e traduzidos por outros arabistas, que pelo menos sabiam tanto arabe como o auctor do opusculo? vista destas simples e claras reflexes, o texto de Abdel-halim citado pelo digno academico vale tanto e prova tanto como o de Hamed-el-Nabil. Eu, porm, acceito-o por um momento. Vamos a discuti-lo em si. Que diz o tal texto? Que Tachfin desbaratou no campo da total destruio (Attibbat) as multides dos christos; que aprisionou seis mil homens, e que partiu para Marrocos, com o que seu pae ficou cheio de desgosto e de susto. Onde se fala aqui em Ourique? Para entender _Ourique_ por _Attibbat_ o auctor faz o seguinte raciocinio:--a batalha de Ourique foi de _total destruio_ para os mussulmanos, logo _Attibbat_ Ourique:--e querendo provar que o recontro de Ourique foi uma grande batalha, faz outro raciocinio do mesmo jaez:--Attibbat quer dizer Ourique, logo em Ourique houve uma _total destruio_.--Todos os argumentos, todas as erudies do folheto nesta parte, embora por outras phrases, reduzem-se a isso; reduzem-se a duas peties de principio. Depois, no admiravel o desgosto e susto de Aly-Ibn-Iussuf vendo seu filho voltar Africa depois de uma victoria em que desbarata os christos, mata muitos, e leva seis mil captivos? Felizmente para Aly, Tachfin no levou, em vez de seis, doze mil captivos, e no deixou o resto passado inteiramente espada. Se tal acontece, o pobre amir el-moslemin caa fulminado por uma apoplexia. At o auctor do opusculo achou a cousa absurda. Mas como sau da difficuldade? Dizendo-nos que o texto arabe tanto pde significar _Tachfin desbaratou os christos_ como _os christos desbarataram Tachfin_. Estava eu to desgostoso por no saber arabe como o velho Aly por seu filho ganhar victorias, quando veio esta declarao consolar-me. A historia impossivel na lingua arabe; porque a mesma phrase significa branco e significa preto; exprime os dous factos mais oppostos. Os traductores de historias sarracenas tem andado a debicar com a Europa: onde dizem que tal batalha foi ganhada por A contra B, podiam ter dicto com a mesma veracidade que fora ganhada por B contra A. Isto, meu amigo, no se discute: est discutido por si. Depois de vermos sacrificada a logica e at o simples senso commum necessidade de achar um texto arabe que prove a importancia da batalha de Ourique, o que mais divertido o completo esquecimento em que o auctor do opusculo sarraceno, enlevado no seu Abdel-ha-lim _particular_, deixa os monumentos christos coevos que referem o successo. A chronica lamecense, a conimbricense, a dos godos, todas dizem que o general sarraceno era Ismar (_prside rege Smare_). Se Ismar no significa Tachfin como Attibbat significa Ourique, segue-se que ou mentem as chronicas coevas, ou mente o Abdel-halim _particular_, que diz ter sido o general dos sarracenos o proprio Tachfin, ou a passagem citada no se refere ao successo de Ourique. Daqui parece-me que no ha fugir. A ultima explicao sem duvida a verdadeira. Essa passagem evidentemente a que Moura traduziu, e Conde substanciou; passagem que se combina chronologicamente com a narrativa da chronica de Affonso VII, e que no opusculo apparece alterada nas circumstancias e na data. Quem a alterou, e para que fim? Isso pertence a Deus, que v os coraes, e nos ha de julgar a todos no dia de juizo. Depois, como accommodar os factos, que o auctor do opusculo acceita do seu Abdel-halim particular em demonstrao da grandeza da batalha, com o que nos diz a chronica dos godos e com o resultado daquella jornada? Pois os mussulmanos so postos em fuga ao primeiro recontro, por um troo de cavalleiros escolhidos (_electi milites_) ficando entrincheirados os restantes dos poucos soldados (_paucis suorum_), de Affonso Henriques, e Tachfin, que foge, leva seis mil prisioneiros? Que digo eu, seis mil! Segundo o commentario do digno academico eram muitos mais. Aquelles seis mil foram escolhidos um a um, no meio do grande vagar que para isso tinham os sarracenos fugitivos, entre milhares de christos de rebotalho, aos quaes iam cortando os pescoos. As causas determinantes da escolha (que eu deixarei nas paginas do opusculo, porque no as consentem as paginas da _Semana_) deviam tornar os bons dos sarracenos demasiado pechosos na seleco, e pelas minhas contas, para apurarem seis mil como lhes eram precisos, no podiam deixar de refugar os seus cento e noventa quatro mil, esmando pelo baixo. A mim parece-me, salvo o respeito devido a um representante da parte sarracena da Academia, que era melhor ter traduzido do Abdel-halim particular, (lithographando tambem no fim do opusculo o original mourisco e subministrando assim mais abundante alimento pasmaceira dos parvos) uma carta de Tachfin dirigida ao principe portugus, escripta ao comear a retirada, e concebida pouco mais ou menos nos seguintes termos: Meu Affonso-Ibn-Errik. Estou capaz de renegar Mafoma com a grande rta que me dste. Vou para Africa amuado, metter-me em casa de meu pae, que se chama Aly-Ibn-Iussuf, embora os _ulm-i_ academicos da tua terra queiram fina fora chamar-lhe Aly-Ben-Taxefin. A guerra guerra, e uma batalha perdida ou ganhada no motivo para nos desestimarmos. Eu preciso de levar comigo em ar de prisioneiros uns seis mil rapazes christos airosos e bempostos. Se os podres dispensar, far-me-has nisso particular favor e uma aco de cortezia. S Deus Deus e Mohammed o seu propheta. Aos 26 de zilkhada da Hegira 533.--Com isto ficava tudo explicado. Os seis mil prisioneiros tinham sido uma generosidade do _Phara obdurado_, embora fingida; porque, tendo Christo acabado de lhe asseverar que havia de vencer sempre os sarracenos, no s podia fazer presente a Tachfin de todos os soldados imberbes do exercito, mas tambem de quanto soldado barbudo, velho e relho, achasse alli mo vasculhando o acampamento, os quaes, se no prestassem para mais nada, prestariam para bichos da cozinha do amir-el-moslmin. Meu amigo, n'outro qualquer paiz, uma academia, cujos membros fossem capazes de escrever opusculos destes, dissolvia-se para se reconstruir com outros elementos, aproveitando s, e com grandes cautellas, o pouco que ahi houvesse de aproveitar. A nossa Academia, especie de congregao bernarda que come e dorme, acodem-lhe s vezes pelle estes tumores litterarios, estas secrees eruditas, que, longe de a matarem, lhe fortificam a compleio. Deus lhe d uma longa vida. DO ESTADO DAS CLASSES SERVAS NA PENINSULA DESDE O VIII AT O XII SECULO 1858 I Por mais que a tradio de antigas malquerenas e o ciume da nossa autonomia nos affaste dos outros povos da Hespanha, dos quaes os eventos politicos fizeram, mais ou menos foradamente, uma s nao, certo que, apesar de todas as repugnancias entre portugueses e hespanhoes, nas opinies, nos costumes, nas tendencias moraes de ambas as naes se est revelando a cada passo uma origem commum. Postoque cada uma dellas tenha defeitos especiaes, como os ha de provincia para provincia, do-se alguns to nossos e to hespanhoes, que de per si, sem outros adminiculos, provam de sobejo essa communidade de origem. Esta reflexo occorreu-me naturalmente ao comear um escripto, em que tenho de dizer poucas palavras crca do homem a quem elle dirigido. Ha na Academia da Historia, de Madrid, um modesto empregado, envolvido na obscuridade da sua situao, sem cargos publicos, sem condecoraes, sem pingues sinecuras, e de que talvez se podesse dizer--sem po--se a Academia no o houvera encarregado das suas colleces litterarias. Este empregado modesto, este homem socialmente obscuro, todavia um dos maiores eruditos da Hespanha, um dos que mais profundamente e com mais san consciencia (dote raro nestes nossos tempos) tem cavado na rica e to pouco explorada mina das antigas instituies e costumes da Peninsula, isto , do que na historia della ha mais serio, mais importante e mais difficil d'estudar. Falo de Thoms Muoz y Romero, do auctor da _Colleccion de Fueros Municipales_, obra notavel, que, sendo de um homem s, honraria uma corporao litteraria, que a houvesse emprehendido e executado. E todavia, esse livro importante foi interrompido, segundo me affirmam, por falta de proteco; e Muoz y Romero ainda nada mais hoje do que era ha dez annos, quando publicou aquelle seu primeiro trabalho, o modesto official da bibliotheca da Academia da Historia! o que provavelmente succederia ao livro e ao homem nesta terra, neste fragmento da Peninsula chamado Portugal, irmo gemeo desse maior fragmento, que chamam especialmente a Hespanha. Na _Revista Espaola de Ambos-Mundos_, nos numeros correspondentes a novembro de 1854, appareceram successivamente dous artigos, assignados por Muoz y Romero, sobre o estado das pessoas nos reinos de Asturias e Leo nos primeiros seculos posteriores invaso dos Arabes. Escriptos como aquelles, manifestaes to brilhantes de verdadeira sciencia, no so frequentes em publicaes periodicas, ainda alm dos Pirenus. Li-os com avidez e interesse sempre crescentes. Ahi encontrei que aprender, e sobretudo pude emfim assentar as minhas idas crca da origem, ou antes da denominao dos malados e das maladias, ponto em que a propria opinio que adoptara no terceiro volume da Historia de Portugal no me satisfazia completamente. Vi, porm, que discordavamos n'uma questo capital d'historia; no modo de apreciar o estado das classes servis nas Asturias e Leo durante os seculos immediatos reaco christan, e tive o desgosto de no poder, apesar de todas as consideraes do sr. Muoz, abandonar a propria opinio para adoptar a sua. Ou seja por um modo errado de interpretar os antigos monumentos, a que o meu espirito se tenha affeito, ou porque a razo esteja do meu lado, certo que nenhum dos muitos documentos que o sr. Muoz oppe s minhas opinies me pareceu contrari-las: alguns, pareceu-me que at serviam para as corroborar. Desde esse momento entendi que no sera absolutamente inutil ao progresso dos estudos historicos da Peninsula expr as duvidas e reflexes que me occorriam sobre a materia, deixando depois aos homens competentes comparar os dous systemas e escolher entre elles. Quando pensava em realisar este designio, sobrevieram acontecimentos que durante quasi dous annos me foraram a abster-me dos trabalhos historicos. Affastado por to largo tempo dos meus habituaes estudos, se, custa de serios desgostos, aprendi muito a respeito dos homens e das cousas do meu tempo e do meu paiz, esqueci tambem muito do que saba ou cria saber crca dos homens e das cousas do passado. Aberto para mim de novo o caminho dos trabalhos historicos pela fora da opinio em lucta com a immoralidade do poder, renovei esses abandonados estudos, mas renovei-os como um dever de consciencia, como um servio que me exigem, como o cumprimento de um contracto tacito com o publico. O amor, diria antes a religio ardente, com que cultivava a sciencia da historia, perdi-o no campo de batalha. Escrever hoje para mim o mesmo que ser vereador, jurado, ou membro de um conselho de districto: um encargo e mais nada. No horisonte das minhas ambies, e Deus sabe se falo sincero, s vejo o dia em que possa depr a penna, e sumir-me em completa obscuridade. Ser esse o melhor da minha vida. Na situao d'animo em que por tanto tempo me achei, a questo dos servos na Peninsula durante os seculos medios esqueceu-me completamente. Veio recordar-m'a, porm, uma circumstancia casual. Tendo de examinar um volume da _Revue Historique du Droit Franais et tranger_, passou-me pelos olhos um artigo de M. de Rozire (julho e agosto de 1855) sobre o escripto do sr. Muoz, escripto que o illustre professor, a quem devo mais de uma prova de benevolencia, resume com a sua habitual lucidez, e cuja doutrina acceita como a mais verosimil. A doutrina, porm, expressamente combatida pelo auctor do opusculo sobre o estado das pessoas nos reinos de Asturias e Leo, nos primeiros seculos depois da invaso arabe, unicamente a minha. de mim que elle declara discordar completamente sobre a natureza da servido na monarchia no-gothica desde o VIII at o XII seculo. A verosimilhana da sua opinio torna portanto menos provavel para o illustre professor da _cole des Chartes_ a doutrina que estabeleci. Se a questo pendesse to smente entre mim e o sr. Muoz, demorar, ou, at, pospr completamente a defesa da minha theoria crca da servido n'aquelle periodo no teria grande inconveniente. Os documentos invocados pelo sr. Muoz e as suas ponderaes, e bem assim os documentos que eu citei e as concluses que delles deduzi esto ao alcance dos homens de letras da Peninsula que se dedicam aos trabalhos historicos; e os archivos de Portugal e de Hespanha encerram centenares de outros monumentos ainda no estudados, que poderiam lanar nova luz sobre o assumpto. Nada mais facil, at, do que conduzirem-nos novas investigaes, a mim ou ao sr. Muoz, a abandonar o proprio systema, porque ambos buscamos sinceramente a verdade. Mas desde que a materia do debate, transpondo os Pirenus, foi exposta a uma luz que no creio verdadeira, por um homem como Mr. de Rozire, e a um publico privado dos meios de apreciar por si proprio os documentos e raciocinios em que se fundam as duas opinies oppostas, entendo que do meu dever publicar as observaes que se me offerecem relendo os artigos do sr. Muoz, observaes que, feitas ha dous annos, quando estas materias eram quasi a unica occupao do meu espirito, seriam sem duvida mais efficazes para a defesa de um systema que ainda hoje me parece ser o que melhor se estriba nos antigos documentos, e que ao mesmo tempo melhor os explica. Antes de tudo cumpre determinar bem a materia controversa e circumscrev-la. Tanto eu como o sr. Muoz falmos da servido no periodo em que por successivas transformaes o homem de trabalho, o homem escravo, o homem _cousa_ dos romanos chegou a ser a pessoa civil, a pessoa livre, o cidado mais ou menos humilde dos tempos modernos. Deixando de parte maiores ou menores differenas de opinio entre ns quanto aos tempos da monarchia gothica, ou que se possam deduzir das nossas palavras quanto aos tres ultimos seculos da idade mdia, limitar-me-hei a expr o que contradictoriamente entendemos cerca da situao das classes servis do VIII at o XII seculo. Escrevendo um artigo e no um livro, procurarei affastar todas as questes secundarias que se ligam a esse grande facto da transformao das classes trabalhadoras, e abstrahindo das causas e consequencias da situao em que se acharam os servos depois da invaso arabe e da reaco asturiana (successos coevos e quasi simultaneos) em tudo o que no fr indispensavel para a clareza da materia, reduzirei o discurso ao que a razo persuade e os monumentos confirmam cerca do facto geral da transformao gradativa da populao serva naquelle periodo de quatro para cinco seculos. II O estudo reflectido dos historiadores arabes e dos monumentos christos da pocha da conquista e do dominio sarraceno tem feito sentir que essa conquista e esse dominio extranho foram, na historia das invases e da sujeio de raa a raa, de povo a povo, entre os factos de semelhante ordem, um dos que custaram humanidade menos tyrannias, menos lagrymas e menos sangue. Tem-se dado o devido desconto s exaggeraes das chronicas e linguagem de certos escriptores christos contemporaneos, aonde auctores mais modernos foram buscar os lineamentos dos seus quadros de terror, quando ahi mesmo se encontram as provas de que os factos no correspondem s expresses genericas com que descripto como um dos mais crueis flagellos o predominio dos sarracenos na Peninsula. Se juncto ao Guadalete se desmoronou o imperio dos godos, a sociedade wisigothica ficou. As provincias ou as cidades que acceitaram sem resistencia o jugo dos novos senhores no tiveram que padecer seno as consequencias dos grandes movimentos militares sobre qualquer territorio, as violencias accidentaes e individuaes durante a lucta. Em geral, a ordem das relaes civis, e uma parte das publicas continuam a subsistir do mesmo modo que d'antes. O tributo e o exercicio das altas funces da administrao do Estado que mudam. Nas provincias meridionaes da Hespanha fica, at, por algum tempo um simulachro do imperio gothico, o reino de Theodemiro, tributario mas livre, que se incorpora obscuramente depois nos dominios do khalifa. No meu livro busquei desenhar com fidelidade essa nova situao; dar aos successos o seu verdadeiro valor, estribando-me nos monumentos coevos, e fazer sobresair a populao mosarabe (godo-romana), to esquecida em geral pelos historiadores. Entre os mosarabes a situao dos servos devia ser a mesma que entre os godos antes da conquista. No provavel que esta formula da sociedade civil se alterasse quando todas as outras se mantinham. Nessa parte a conquista arabe no trouxe o que trazem sempre os grandes abalos politicos, um progresso de civilisao. Succedeu o mesmo com a reaco asturiana? Podia succeder? Ps este problema a mim mesmo, e resolvi-o negativamente; porque a razo e os documentos me foravam a essa soluo negativa. O levantamento de Pelaio no chegou a ser uma revoluo: foi uma resistencia: resistencia feliz nos primeiros passos e que no tardou a converter-se n'um perigo serio para o dominio mussulmano. Dentro de poucos annos a reaco obscura de um punhado de soldados godos fundava uma monarchia christan e independente, que se contrapunha ao islamismo triumphante, que estabelecia fronteiras, embora variaveis, e que tomava ou fundava logares fortes, onde os novos senhores da Hespanha encontravam dura repulsa s suas diligencias para suffocar esta perigosa entidade politica. Da desproporo das foras entre as duas potencias mussulmana e christan, se o nome de potencia pde dar-se aos estados de Pelaio e dos seus immediatos successores, resultava necessariamente um facto. Todo o homem vlido devia ser chamado s armas nas Asturias, mas de um modo em que interviesse a espontaneidade individual. No alcano sequer como podesse ser de outro modo. A servido dos godos; os senhores levando os servos armados ao combate, sem crena, sem ardor, sem interesses moraes ou materiaes que defender, como nos tempos gothicos, sera um facto que no sei como poderia dar em resultado a fundao e engrandecimento da monarchia de Oviedo. Na verdade, com o tempo, as instituies wisigothicas foram-se restaurando medida que se engrandecia o novo reino, que uma parte do territorio deixava de ser perenne campo de batalha, e que a segurana, maior ou menor, favorecia o maior ou menor desenvolvimento da agricultura e de uma especie de industria. Uma parte da populao mosarabe, ou pelas migraes tanto foradas como espontaneas, ou pela aggregao successiva de territorios habitados por ella, incorporava-se gradualmente na sociedade no-gothica, e, trazendo comsigo a jurisprudencia antiga, que tinha conservado intacta sob o jugo sarraceno, devia exercer naquelle sentido uma influencia, digamos assim, reaccionaria. Mas o que no podia era destruir a fora das circumstancias; o que no podia, n'uma sociedade em cuja origem, em cujo amago estava a resistencia, a espontaneidade, a liberdade, era restabelecer a servido pessoal antiga em toda a sua plenitude. Supponhmos um nobre, e at um simples _possessor_, acolhendo-se s Asturias, a Oviedo, nos tempos de Pelaio ou dos seus immediatos successores. Como arrastar elle comsigo os servos que o rodeiam? Invocar a fora publica, a auctoridade mussulmana para os constranger a acompanharem-no? Sera absurda a hypothese. Esse nobre, ou esse _possessor_ ha-de descer persuaso; ha-de falar de manumisso, ha-de approximar de si o homem envilecido, ha-de recorrer aos afagos, s promessas. Ficar onde se acha para o servo a liberdade, quando o senhor abandona o lar domestico. Devemos acaso crer que nelle esto inteiramente mortos todos os instinctos humanos? Supponhmos a conquista; a accesso de territorio. O mosarabe senhor de servos, que se incorpora por esse facto na sociedade ovetense, acha actuando energicamente nesta o sentimento da liberdade e da espontaneidade individuaes, as classes servis armadas, os antigos laos hierarchicos quebrados em grande parte. Esse facto no influir em nada nas suas relaes com os proprios servos? Depois, alm, pouco alm, esto os castellos sarracenos, a administrao mussulmana. Se elle no affrouxar os rigores da servido; se no ligar a si o homem de trabalho por algum interesse, por algum motivo racional, ser difficil que esse homem o abandone, e que conquiste pela fuga, e talvez pela mudana de f, a sua emancipao? Se os documentos nos no provassem que a servido de gleba fora o passo immediato dado pelas classes infimas para a liberdade, a razo, longe de nos persuadir que a servido se mantivera em Oviedo e Leo como nos tempos gothicos, far-nos-hia antes acreditar que ella fora substituida pelo colonato espontaneo. O colonato, eis o grande meio de ligar o homem de trabalho terra, por este instincto, por este amor quasi connubial, que une a me commum ao individuo que a faz fructificar. Da servido gothica, porm, para a adscripo havia um passo gigante, e as classes servis eram asss rudes para no perceberem toda a differena do colonato adscripo, porque essas differenas so pela maior parte de ordem moral. Na practica, materialmente, sobretudo em tempos de bruteza e violencia, n'uma sociedade perturbada e vacillante, as distinces entre a posse e o uso da terra pelo colonato ou pela adscripo no podiam ser demasiado sensiveis. O sentimento, a aspirao do individuo que cultivou o solo, que construiu a choupana, que plantou a arvore principalmente o no separar-se do campo, da choupana, da arvore. A este sentimento correspondem ambas as formulas de consorcio entre o homem e a terra, mais ou menos imperfeitamente, no tanto em virtude das condies theoricas de cada uma das duas formulas, como do estado mais ou menos civilisado da pocha em que se applicam. Acaso a historia no nos subministra provas de oppresses exercidas sobre colonos espontaneos, e consagradas at por contractos, to barbaras como as que padeciam os adstrictos gleba, quando j a adscripo do homem tinha cedido o campo servido exclusiva da terra? Assim comprehende-se como a transformao do servo em adscripto podia resultar da situao em que se achou a monarchia ovetense-leonesa no seculo VIII, em vez de resultar della o colonato livre, que primeira vista a razo nos pinta como mais provavel, e que de feito o era, se abstrahirmos das circumstancias sociaes para s attendermos s politicas. Mr. de Rozire, expondo o debate entre mim e o sr. Muoz, diz: Esta transformao (a da servido para a adscripo) tinha-se realisado de todo quando os christos se refugiaram nas Asturias sob o mando de Pelaio? No o cr o sr. Muoz, e combate, neste ponto, a opinio dos historiadores de maior credito. Os exemplos, em que esteia o seu pensar, do a este um alto gru de verosimilhana. Nelles se vem escravos destinados ao servio domestico; uns so cozinheiros, padeiros, sapateiros ou alfaiates; outros empregam-se no commercio e servem nas lojas de venda. Nada ha fixo nas suas funces, que dependem do capricho do dono. A sorte dos escravos agricolas no mais segura: uns trocam-nos por cavalgaduras; outros entregam-nos aos mussulmanos em resgate de captivos: todos podem ser separados da propria familia e do campo que cultivaram. N'esta exposio ha uma inexaco chronologica: a doutrina que eu estabeleci no que a adscripo se tinha j substituido servido quando occorreu o alevantamento de Pelaio: que este alevantamento e a fundao do reino de Oviedo trouxeram de necessidade essa transformao. Sejam quaes forem a differena ou a semelhana entre o meu modo de pensar e o sentir do sr. Muoz sobre a servido gothica, no ahi que est a profunda divergencia entre ns. A divergencia completa refere-se aos tempos posteriores invaso dos arabes. , at, o que se deduz do titulo do opusculo do sr. Muoz: a essa pocha que verdadeiramente se refere o trabalho publicado na _Revista de Ambos-Mundos_. Eis as suas palavras: Um escriptor... do vizinho reino de Portugal estabelece a doutrina de que a servido se distinguia, _na pocha de que tractamos_, em estar vinculada ao solo, no admittindo outra classe de servos seno a dos adscriptos gleba. A seu vr no existia nenhuma outra servido pessoal seno a dos arabes captivos na guerra, o que cremos no ser conforme com o que o mesmo escriptor diz n'outra parte, isto , que o servio domestico dos senhores e nobres parece ter sido desempenhado, sob o dominio leons, por membros das familias adscriptas, e que este servio se converteu n'um acto espontaneo no seculo XIII. Se os homens e familias podiam contra sua vontade ser separados da gleba, onde se achavam estabelecidos, para o servio domestico, no podiam chamar-se adscriptos, porque este nome traz comsigo a ida de inamovibilidade do colono do torro que cultiva. Alm d'isso, a sua opinio no concorda com os monumentos da nossa historia. N'outra parte do opusculo do sr. Muoz leem-se as seguintes passagens, em que elle estabelece positivamente a sua theoria relativa servido dos tempos neo-gothicos. A condio dos servos era indubitavelmente a de cousas. Podiam ser vendidos ou dados como um animal domestico, como uma alfaia... Esta opinio, que sustentmos n'uma obra publicada ha annos, foi impugnada pelo sr. Herculano n'uma extensa nota sobre o caracter da servido na monarchia no-gothica... Na monarchia no-gothica continuaram os servos a ser o mesmo que na dos godos... E se em Asturias e em Leo se encontram vestigios de servido diversa da dos adscriptos, podero julg-lo os que examinarem os documentos que j publicmos e os que damos agora luz. Effectivamente aos documentos impressos na _Colleccion de Fueros Municipales_, o sr. Muoz ajuncta muitos outros tendentes, segundo cr, a corroborar a sua doutrina. Que antes de entrar na apreciao delles, me seja permittido fazer breves reflexes. O sr. Muoz, limitando o debate aos textos dos documentos posps os factos sociaes e politicos de que deduzi, digmos assim _ prior_, a necessidade de uma profunda alterao das classes servis nas origens da sociedade no-gothica. Os factos podem no ser como eu os exps, ou as consequencias que delles tirei ser inexactas, ou finalmente essas consequencias no ter tido fora bastante para mudar a situao d'aquellas classes: podem peccar de muitos modos as largas observaes que fiz a este proposito no terceiro volume da Historia de Portugal, e que tentei resumir em poucos periodos deste modesto trabalho. Mas seria licito deixar ou esquecidas ou inconcussas essas ponderaes? O methodo que segui foi estudar os acontecimentos, examinar qual devia ser a sua influencia na condio dos servos, e verificar se os documentos confirmavam _ posteriori_ as illaes deduzidas dos mesmos acontecimentos. Bem sei que, prevenido por essas illaes, era possivel, era at facil, se quizerem, apreciar preoccupadamente os documentos; no poderia, porm, o sr. Muoz, interpretando-os sem attender aos factos geraes, s consequencias naturaes dos successos historicos, s leis moraes que regem as phases das sociedades, dar-lhes uma significao diversa da verdadeira? Foi, se no me engano, o que de feito lhe succedeu. essa justamente uma das difficuldades capitaes dos trabalhos historicos relativos idade media. O historiador tem de attender constantemente aco e reaco mutuas dos factos politicos e dos factos sociaes uns sobre os outros para d'ahi deduzir factos desconhecidos; tem de substituir por illaes fundadas nas leis que actuam nas sociedades humanas, independentes da vontade dellas, o silencio tantas vezes inopportuno dos monumentos. Quando estes existem e so genuinos, claros e precisos, sem duvida constituem o guia mais seguro para determinar os factos, e se as illaes que tirmos os contradizem, necessario confessar que os principios eram inapplicaveis hypothese, ou que se applicaram mal. Mas, abstrahindo da questo de genuinidade, so a clareza e a preciso qualidades vulgares nos documentos dessas pochas tenebrosas? O sr. Muoz sabe to bem como eu quo raros so os que achamos com taes condies; quantos annos, quantas vigilias necessario applicar ao estudo dessas fontes historicas para nos habituarmos a comprehend-las. difficuldade, que resulta das referencias a cousas vulgares no tempo em que o documento se redigiu, e que actualmente so desconhecidas ou conhecidas imperfeitamente, ajuncta-se a lingua barbara, s vezes horrivelmente barbara, que nelles se empregava, mistura monstruosa de latim de todas as epochas com uma linguagem vulgar que hoje se pode reputar morta, to transformada se acha nas linguas modernas da Peninsula: accresce a isto a differena profunda entre os homens daquelle tempo e os do nosso, no modo de conceber e exprimir as idas; ajuncta-se a tendencia, quasi invencivel, para vermos as cousas da idade media atravs do prisma dos habitos, das opinies, dos costumes, e direi, at, das preoccupaes actuaes. Subjugar esta tendencia difficil; porque presuppoem um esforo de abstraco, de que no so capazes s vezes os mais robustos espiritos. Mas, vencidos todos estes obstaculos, resta ainda a vencer o que resulta da comparao dos proprios documentos, especialmente quando nelles estudamos as instituies, a organisao da sociedade. ahi que o talento historico tem de passar por mais dura prova, e onde o discernimento nas apreciaes precisa de ser mais subtil. A idade media no procedia sempre como ns das idas geraes para a applicao especial, ou antes possuia poucas idas geraes. Os costumes, as instituies, os usos, os factos tinham principalmente o caracter individual, local. Essas poucas idas geraes que havia eram pela maior parte mal circumscriptas, fluctuantes. D'aqui as antinomias nas doutrinas, a contradico frequente nos factos. Na verdade o senso moral, a tendencia instinctiva para a generalisao produziam a maior parte das vezes em contraposio ao desordenado, ao repugnante, as analogias ou a identidade de factos, quando se davam as analogias ou a identidade de circumstancias; mas o phenomeno era mais casual do que intencional, e nem por isso faltavam as excepes, a desharmonia, quando as paixes, os interesses ou a inexperiencia vinham augmentar a confuso natural dos tempos barbaros. Saber deduzir os caracteres geraes de uma pocha, debaixo dos seus diversos aspectos, no dos principios que guiavam os homens na vida practica, porque a maior parte das vezes no os havia, mas dos factos isolados, dos monumentos especiaes; differenar a regra da excepo, regra e excepo, que no raro existem s por uma abstraco para ns, e que no existiam para elles, eis a summa difficuldade no estudo dos documentos, da legislao, e das memorias historicas da idade mdia, mas difficuldade que cumpre superar para se escrever de modo util a historia daquellas obscuras ras. Longe de mim a pretenso vaidosa de ter navegado sem naufragios nesse mar d'escolhos; mas seja-me ainda permittido duvidar de que tal infortunio me occorresse na questo do estado dos servos do VIII at o XII seculo; seja-me licito por emquanto suspeitar que fiz fazer um progresso historia da Peninsula, collocando sua verdadeira luz a situao dessa classe durante aquelle periodo. Como j disse, o sr. Muoz, abstrahindo das consideraes _ priori_ que fiz a semelhante respeito, limita-se a combater a minha opinio e a propugnar a sua com os factos que elle cr resultarem de um grande numero de documentos que invoca: limitar-me-hei tambem por isso a apreciar esses documentos e a examinar o que elles provam, recorrendo smente a outros quando o julgar indispensavel para estribar melhor as minhas affirmativas. III Estabelecendo a doutrina de que o servo contina a ser na monarchia de Oviedo e Leo o que era entre os godos, o sr. Muoz funda-a n'uma serie de factos, que em seu entender resultam dos documentos e caracterisam a condio do escravo, a posse e dominio absolutos do homem sobre o homem, a servido na sua frma mais completa e humilhante, a do homem-cousa, a do homem animal de trabalho. Estes factos consistem na venda, doao e troca dos individuos sem dependencia de um contracto crca do solo em que elles habitam; em serem arrebatados nas guerras privadas os colonos de herdades privilegiadas ou nobres ou ecclesiasticas, reduzidos escravido dos raptores e vendidos por estes como escravos; na entrega dos servos christos aos sarracenos como preo de resgate de nobres captivos (pag. 5 a 7)[73]; em exercerem os servos os diversos misteres do servio domestico e os officios mechanicos, sendo parte de taes misteres incompativeis com o cultivo do solo; em viverem alguns nos coutos de igrejas e mosteiros obrigados a servios geraes, isto , a quaesquer que lhes mandassem fazer (pag. 12 a 13). Excluidos da representao em juizo pela lei (wisigothica), que no admittia o seu testemunho seno falta de outras provas, no tinham aco para perseguir um delicto contra a propria pessoa ou contra os filhos; ao dono competia sollicitar a indemnisao do damno padecido pelo servo como de cousa sua. No caso de homicidio, era elle quem tambem obtinha a compensao pecuniaria; e do mesmo modo se o servo matava, feria, ou atacava propriedade alheia, o responsavel era seu dono (pag. 15 e seg.). Os filhos de um servo e de uma serva de diversos donos eram pessoalmente divididos entre elles (pag. 24 e 25). Taes so os factos sociaes que o sr. Muoz apresenta como contrariando a minha opinio: esses factos estriba-os nos documentos cujas passagens correlativas transcreve, referindo-se outras vezes aos monumentos por elle j publicados na _Colleccion de Fueros_, ou a alguns que se encontram em outros escriptos, principalmente nos appendices da _Espaa Sagrada_. Se o meu animo no fosse sincero; se eu no quizesse trazer evidencia o erro em que me parece laborar o sr. Muoz, limitando-me ao que menos importa, defesa do meu livro, facil me seria annullar as illaes tiradas dos documentos invocados contra mim, visto que o sr. Muoz no nos mostra, nem talvez lhe sera possivel mostrar, que elles se referem a servos de raa e no a prisioneiros de guerra, a sarracenos captivos nas continuas luctas entre os reis de Oviedo e Leo e os principes mussulmanos, ou aos filhos e descendentes desses captivos[74]. Um ponto em que estamos ambos de acrdo que a sorte destes era a de verdadeiros escravos. Das chronicas de Sebastio de Salamanca, de Sampiro, do Silense e de outros vemos que o systema de exterminio adoptado a principio pelos immediatos successores de Pelaio no tardou em ser modificado, e que milhares de captivos vinham successivamente car nos ferros da escravido, ou reservando-os o rei para si, ou distribuindo-os pelos seus guerreiros. Uma parte dos edificios religiosos alevantados por Fernando-magno foram construidos por esses desgraados, salvos da morte por uma politica menos deshumana que a dos barbaros reis das Asturias. Com um monumento, porm, to incontroverso como explicito, eu provei[75] que ainda no meiado do seculo XII a sorte dos mosarabes, aprisionados com as armas na mo pelos soldados dos principes christos, era analoga dos crentes do islam, sendo como elles reduzidos escravido. No crivel que a sua sorte fosse melhor nos seculos anteriores. Ainda suppondo que os documentos citados pelo sr. Muoz se devessem entender em geral como elle pretende que se entendam, ninguem poderia affirmar que os nomes gothicos a que ahi se allude no fossem sempre e em todos elles de captivos mosarabes ou de filhos seus e no de mouros convertidos ou no convertidos. Tambem me parece que poderia limitar-me a advertir que, fundando-se a minha opinio em muitos documentos, que o sr. Muoz no se encarrega de interpretar de um modo acorde com a sua doutrina, e tendo, alm disso, a meu favor as illaes que tirei dos successos politicos, poderia considerar todos esses diplomas a que elle recorre apenas como manifestaes das violencias, das excepes; como mais uma prova da falta de caracteres constantes, de regras geraes absolutas nos factos sociaes de uma pocha de barbaria e de transformao. Mas estas solues, que talvez bastassem ao debate, no bastariam minha consciencia: poderiam abonar uma opinio, alis estribada em outros fundamentos, mas deixariam certa duvida no espirito dos que estudassem o assumpto. Desamos, por isso, analyse dos factos e documentos a que o sr. Muoz recorre para assentar a existencia da escravido pessoal como regra nos quatro primeiros seculos da monarchia leonesa. IV A venda, troca e doao dos individuos da classe servil sem dependencia de um contracto relativo ao solo em que habitam o primeiro facto que affirma o sr. Muoz, e que estriba nos seguintes documentos: 1.^o Carta de doao s de Oviedo por Affonso II em 812. Incluem-se entre as dadivas _mancipia, id est, clericos sacricantores_, dos quaes um presbytero, outro diacono, e os mais simples _clericos_, talvez ostiarios, psalmistas, exorcistas, etc. Alguns, declara-se terem sido comprados pelo rei. Os outros _mancipia_ so seculares, declarando-se tambem que alguns foram havidos por compra. Os nomes tanto de uns como de outros so godos. 2.^o Carta de dote de 887. O noivo doa esposa, alm de alfaias, bens semoventes e dinheiro, dez _pueros_ e dez _puellas_, 30 villas (aldeias granjas) as quaes diz serem situadas _in Nemitos_, e enumera-as _Generoso_, _Vivente_ etc. 3.^o Doao de marido a mulher, de 1029. Doa, entre outras cousas, _mancipios et mancipiellas quos fuerunt ex gente hismaelitarum et agareni_, os quaes nomeia: uns tem nomes godos, outros nomes arabes. Alm destes, doa-lhe _de avolengarum criazone parentum_ varios individuos cujos nomes parece serem todos godos. 4.^o Carta de agnio de 962 em resultado de uma demanda entre o mosteiro de Cella-nova e o conde Ordonho Romaniz. Versava a questo sobre duas granjas ou aldeias, querendo o conde tirar _homines et hereditates de jure monasterii volens eos ad servitutem abdigare_. Apresentaram os monges os seus titulos perante elrei, e quando iam a provar, diz o sr. Muoz, que o rei Ramiro dera os homens que o conde usurpava, e o bispo D. Rosendo os entregara ao mosteiro, o conde supplicou aos magnates que obtivessem dos monges darem-lhe as duas villas em prestamo vitalicio, _absque homines in adtonitum_, no que os monges convieram. 5.^o Carta de agnio de 1074, em resultado da demanda entre o mosteiro de Cella-nova e a condessa D. Guncina, que affirmava ter o rei Ramiro tirado do testamento (predio ecclesiastico) de Vanate dez homens, os quaes dera ao mosteiro de Porcria. Replicava o abbade de Cella-nova que _de hodie, quod est 120 annos nunquam auditum fuit istum tale verbum_. Julgou-se a favor do abbade. 6.^o Doao de 1094 feita s de Lugo por Suario Moniz de varias _villas cum sua criacione et homines pertinentes... excepto Alvito Pepiz et suos filios_. 7.^o Carta de arrhas de 1108 em que o noivo doa varios bens de raiz, e alm disso, um cavallo baio e _uno homine de creacione_. 8.^o Doao do mosteiro de Sobrado em 1118 feita pela rainha D. Urraca a Fernando Peres e a seu irmo com todos os termos e coutos antigos e suas pertenas, _et cum sua criacione, servos et ancillas, exceptis quibusdam_. 9.^o Memoria da diviso de Rovoredo, sem data, caractres do seculo XIII. Na opinio do sr. Muoz pertence ao seculo XI. Um certo Vermudo Cresconiz comprara o sarraceno Sendimiro (nome godo) que fora visav de Diogo Erit. Este foi a Rovoredo e casou com uma mulher que era vaqueira de Ardio Dias, uma de duas irmans, que, herdando Rovoredo, haviam dividido entre si o predio. Veio em busca delle Pelagio Froilaz (provavelmente herdeiro ou representante de Vermudo Cresconiz) e levou-o comsigo. Seguiu-se uma manda entre Ardio Dias e Pelagio Froilaz, que terminou por uma composio, em virtude da qual ficou Diogo Erit em Rovoredo e foi dada em trco delle uma irman da vaqueira de Ardio Dias. Taes so os documentos de doao, vendas e escambos, exclusivamente de individuos, que o sr. Muoz cita em prova da inexaco da minha doutrina. No 1.^o documento peo que se note que as pessoas doadas so denominadas _mancipia_, e no _servos_, e que entre elles um presbytero, outro diacono, e outros simples clerigos; que os seculares so tambem denominados _mancipia_, e que todos elles tem nomes godos. Pergunto: tolerava a disciplina ecclesiastica recebida na Peninsula naquella epocha, que homens servos, e que continuavam a ser servos, doados ou vendidos depois a bel-prazer de seus donos, fossem elevados no s menos importantes funces do culto, mas ordem do presbyterado e ainda do diaconado? No era impossivel acumular as condies da servido e do sacerdocio? Basta abrir o resumo dos canones da igreja d'Hespanha publicados por Aguirre e Cenni para nos desenganarmos da impossibilidade desta associao monstruosa. Todavia o facto da venda de um presbytero, de um diacono e de outros clerigos deu-se no principio do seculo IX, como o prova este documento. No haver, porm, atraz desse facto outro ou outros que o expliquem? A designao de _mancipium_, applicada a individuos dos mais elevados grus do sacerdocio, o presbyterado e o diaconado, no menos singular. Notei mais de uma vez no meu livro[76] que a palavra _mancipium_, entre os godos, sem deixar de se tomar s vezes na significao lata de servo, significava de ordinario o servo infimo, o _escravo_, o individuo reduzido ultima degradao; significava antes uma _situao_ de aviltamento do que uma _condio_ originaria. So notaveis a este proposito dous logares do codigo wisigothico, a lei que tracta dos _escravos dos servos fiscaes_, e a que tracta dos _mancipia_ dos judeus, quer _ingenuos_, quer servos. Antes de mim j Masdeu tinha feito com pouca differena a mesma observao. Entre os romanos _mancipium_ era synonimo de _servus_, mas a origem dos vocabulos era diversa: _servus_ de _servire_; _mancipium_ de _manu captum_, do homem aprehendido, do prisioneiro reduzido escravido. Evidentemente a designao de _mancipium_ serviu a principio para indicar o captivo, o individuo a quem se deu a vida, que se lhe podia tirar, para o collocar na situao de um animal de carga, de uma alfaia; representou um facto accidental, personalissimo, differente da servido herdada, da servido de raa, ou para exprimirmos com dous vocabulos modernos duas idas semelhantes, mas diversas, o _mancipium_ era servo, mas _escravo_. Na Russia ha _servos_; na America ha _escravos_. Note-se, porm, que com este exemplo no quero estabelecer analogia completa entre a distinco primitiva e a distinco actual. Baste, porm, que _mancipium_ servisse entre os godos para exprimir especialmente a mais vil servido, a escravido. No teria a palavra na monarchia neo-gothica este mesmo valor especial, embora s vezes pela fluctuao da linguagem (fluctuao que existe sempre, mas que grandissima nas epochas barbaras) se tomasse como synonimo de servo, por isso que, n'um grande numero de relaes, a sorte de um e a sorte de outro eram identicas? No 3.^o documento que cita o sr. Muoz, os individuos doados so denominados _mancipios_ e _mancipiellas_, e exprime-se que so da gente ismaelita e agarena; que so captivos. N'uma carta de doao s de Lugo[77] de 897 Affonso III doa-lhe, alm de outras cousas, _mancipia, quae ex hismaelitarum terra captiva duximus_. No meio de uma lucta odienta e atroz, como foi durante o seculo VIII e ainda durante o IX a das monarchias de Oviedo e de Cordova, natural, crivel, sequer, que a sorte dos prisioneiros de guerra que no eram passados espada fosse inteiramente a mesma dos servos de raa, classe a que, alm de outros, um documento de 985 chama _servos originales_[78], por infima que se reputasse a condio destes? E no haveria um meio de expressar por palavra ou por escripto a differena das duas situaes, quando fosse necessario faz-la sentir? indubitavel, vista das chronicas coevas e dos documentos, que os reis de Oviedo e Leo e os seus capites, alargando os limites da monarchia ou reduzindo o poder mussulmano por victorias repetidas, por saltos e correrias inesperadas, por devastaes e incendios, conduziam annualmente para o interior das provincias ovetense-leonesas milhares e milhares de captivos. Devemos acaso suppr que nenhum desses contractos sobre individuos pessoalmente escravos, em que se calla a procedencia dos mesmos individuos, se refira a prisioneiros de guerra, e que entre estes no houvesse muitos mosarabes? A pretenso parece-me que sera insustentavel. Embora eu no queira, nem seja preciso explicar por esse facto muitos dos documentos citados pelo sr. Muoz, ha outros em que semelhante explicao a mais simples e natural, e a este numero pertence indubitavelmente a doao de 812. Civilmente, socialmente, os mosarabes eram sarracenos. Do modo como essa grande maioria da populao romano-gothica buscava em geral assimilar-se aos conquistadores temos sobejas provas nos escriptos contemporaneos de Alvaro de Cordova, d'Eulogio, do biographo de Joo de Gorze, nas actas dos martyres Voto e Felix e em outros monumentos. Os mosarabes serviam nos exercitos mussulmanos e por consequencia combatiam contra os seus correligionarios. Entre os altos officiaes da coroa na corte de Cordova figuram condes godos, e apparecem-nos a cada passo magistrados, funccionarios, prelados, sacerdotes godo-romanos nas provincias do vasto imperio dos Benu-Umeyyas. Quantos destes, pospondo as questes religiosas, e adoptando a tolerancia dos dominadores arabes, seriam verdadeiramente addictos situao politica em que se achavam, elles que abraavam no raro os nomes proprios, os costumes, as usanas, a civilisao e a lingua dos mussulmanos, a ponto de esquecerem completamente o idioma neo-latino, segundo o testemunho de Alvaro de Cordova; elles que admittiam, at, a circumciso, se acreditarmos o _Indiculum_ e a biographia de Joo de Gorze? No achamos ns ainda no seculo XI os bispos mosarabes, esquecidos das funces episcopaes, e dedicados inteiramente vida politica, empregarem-se no servio profano dos respectivos soberanos sarracenos?[79] Se nos proprios estados dos reis de Leo a mistura dos usos mussulmanos com os christos dava s vezes, nas exterioridades do culto, occasio a factos que seriam comicos, se no fossem irreverentes[80], o que seria essa mistura entre mosarabes e ismaelitas nos estados mahometanos? Imaginar, portanto, que entre os milhares de captivos que annualmente eram arrastados da Spania para os sertes das Asturias e de Leo no vinha um grande numero, digamos assim, de _sarracenos christos_; que entre uns e outros captivos se fazia distinco, se poderia sequer fazer; que os violentos e brutaes bares e cavalleiros dos reis leoneses consentiriam em perder uma parte dos seus escravos, que exteriormente em nada se differenavam dos restantes, dos verdadeiros mussulmanos, ainda admittindo gratuitamente que os principes o desejassem, seria suppr uma cousa inacreditavel, embora no existisse o testemunho do biographo de S. Theotonio, testemunho preciso de que a praxe era inteiramente contraria. Na adiantada civilisao de hoje no se comprehenderia o direito de vida ou de morte sobre os prisioneiros de guerra, e nem sequer a escravido para o vencido, ou que possa haver outros prisioneiros seno combatentes. Deste estado da civilisao derivam a distinco entre prisioneiro e prisioneiro, e os diversos grus de benevolencia e de attenes para com os mais qualificados. Entre barbaros ou nas eras barbaras, o nosso proceder, as nossas idas actuaes a este respeito seriam igualmente incomprehensiveis. Na verdade o senhor do captivo, sabendo que se apoderara de um homem opulento, importante entre os adversarios, podia por calculo de cubia tract-lo melhor, evitar-lhe os padecimentos e as injurias espera de avultado resgate. Mas a regra, o principio, a ida de ento consistia em ser o captivo, fosse quem fosse, como um ente novo, a cujo nascimento, digamos assim, no se tinha opposto o gume da espada. O passado desse ente no importava para nada. Era um animal, uma propriedade do que o captivara e que licitamente poderia ter feito com que no existisse: era o _manu-captum_, a acquisio, o escravo; emfim, o _homem-cousa_. Tendo presentes todos estes factos, que o sr. Muoz no ignora, mas que me era necessario recordar aqui, entende-se facilmente a doao de Affonso II s de Oviedo: entende-se como esses clerigos podiam ser em parte comprados, em parte libertados pelo rei, e unidos s ovetense. Eram mosarabes arrebatados, mau grado seu, por occasio de alguma correria. Pelos canones da igreja gothica os sacerdotes viviam n'uma especie de adscripo canonica igreja a que pertenciam, e Affonso II, conforme o chronicon de Albaida, foi quem restabeleceu em Oviedo as jerarchias civis e ecclesiasticas dos godos[81]. Resgatando aquelles individuos da escravido, e ligando-os indissoluvelmente s ovetense, respeitava as idas do seu tempo e mantinha a antiga disciplina ecclesiastica, embora o fizesse de modo um tanto rude. Se admittissemos, porm, a hypothese de que elles eram servos originarios semelhantes aos servos dos tempos gothicos, que como taes haviam recebido ordens sacras, que, depois de doados s de Oviedo, continuavam a ser o que eram, segundo a theoria do sr. Muoz, isto cousas e no pessoas, e que, portanto, podiam ser destinados pelo bispo Adaulfo para exercerem os mais abjectos misteres, o diploma de 812 ficaria no s repugnando historia, mas sendo, alm disso, um indecifravel mysterio. Este documento no me escapou quando redigia o VII livro da Historia de Portugal; mas tinha de attender a muitos outros, de condensar muitos factos sociaes em poucos periodos. No podia descer analyse minuciosa delle. Estava to convencido da verdade da doutrina que estabeleci, que no o julguei sufficiente para a destruir. O leitor avaliar se elle effectivamente a destroe. Supps que, quando muito, era uma das anomalias to frequentes nos factos sociaes dos tempos barbaros, a manifestao da anarchia que reinava ainda nas idas e nos factos. A analyse parece-me provar que nem sequer isso era. O 2.^o documento explica-se como o antecedente pela existencia d'escravos captivos. notavel que nelle tambem se evite a palavra _servos_, mais generica, para se empregar a singular expresso _pueros_ e _puellas_. Parece haver a necessidade de recorrer a um vocabulo especial para exprimir uma variedade da servido. Alm disso, este documento parece igualmente entrar na categoria de varios outros que citei no meu livro para provar a adheso do servo originario gleba, pelo modo por que indistinctamente se empregava o nome do individuo ou o da propriedade para designar esta. Doando trinta granjas, o doador declara que so situadas no districto de Nemitos, e que so _Generoso_, _Vivente_ &c. nomes proprios de individuos e no de predios. O 3.^o documento creio servir antes para combater a opinio de sr. Muoz do que a minha. O doador distingue em dous grupos os servos doados: a 1.^a dos _mancipios_ e _mancipiellas que foram das gentes dos ismaelitas e agarenos_, e dos quaes, todavia, uns tem nomes godos, outros nomes arabes: a 2.^a dos _homens de creao havidos de avoengas_ (heranas de familia) _dos antepassados_ (do doador) e cujos nomes so todos godos. Porque a diviso em dous grupos, se a condio dos que pertencem a uma e a dos que pertencem a outra absolutamente identica? Porque uns so chamados _mancipios_, outros _homens de creao_, equivalente de servos de raa? Porque entre os _mancipios_ tem uns nomes godos e outros arabes, emquanto os de _criazione_ so todos godos? Peo ao sr. Muoz que aproxime estes factos das ponderaes que acima fiz, e que decida depois se o documento prova contra a minha, se contra a sua doutrina. Refere-se no 4.^o documento a historia de uma demanda entre o conde Ordonho Romaniz e o mosteiro de Cellanova crca de certas herdades do mosteiro e dos homens que n'ellas viviam. O que neste documento importa para a questo o desfecho da contenda. Convencido de que no tinha razo, o conde props aos monges uma transaco, que acceitaram, e que consistia em elle possuir as granjas emquanto vivo _absque homines in adtonitum_. Nestas ultimas palavras o sr. Muoz v a separao dos homens da terra. Ser essa a verdadeira interpretao? _Adtonitum_ evidentemente a traduco latino-barbara da palavra _atondo_. _Atondo_ significava alfaia, _traste de uso_, _objecto de servio_. As obrigaes do servo de gleba, como depois as dos colonos livres em seculos mais proximos de ns, eram, em relao ao senhor da gleba, e depois em relao ao senhorio directo do predio, de duas especies--prestaes agrarias e servios pessoaes; estes abrangiam servios de todo o genero, ainda os mais baixos; alguns, at, que poderiam ser feitos por animaes domesticos. Nada mais facil, portanto, do que applicar a palavra _atondo_ ao servio pessoal dos servos, n'uma pocha que de certo se no distinguia pela preciso rigorosa da linguagem[82]. Que ficava percebendo Ordonho por aquella concesso dos frades? As prestaes agrarias. Os servios pessoaes ficavam ao mosteiro. E os monges procediam assisadamente fazendo uma concesso restricta ao homem poderoso. Pelos individuos que agricultavam as glebas, cujos redditos senhoriaes elles cediam vitaliciamente ao conde, ficando alis esses individuos ligados pelos servios pessoaes ao mosteiro, era facil provar a todo o tempo a quem o solo pertencia, se, como eu creio, o servo se achava unido ao predio que agricultava e onde vivia. No comprehendo como possa applicar-se materia debatida o 5.^o documento citado pelo sr. Muoz. Para elle servir ao intento era necessario que a condessa D. Guncina provasse o que affirmava. No o provou, porque a sentena deu-se a favor dos frades. Logo a separao dos dez homens pelo rei Ramiro nunca existiu conforme o que pretendia o abbade de Cellanova. Supponhamos, porm, que fosse verdade o que ella dizia. N'esse caso perguntaria: d'onde consta que dez glebas do testamento de Vanate no passaram com os dez homens para o dominio do mosteiro de Porcria? A contenda podia versar sobre os dez servos e os dez predios, embora se falasse unicamente de homens: esta confuso da linguagem juridica nos documentos daquelles tempos uma cousa que me parece ter demonstrado no meu livro at a evidencia. No 6.^o documento doam-se varias granjas _com sua criacione et homines pertinentes_, exceptuando um d'estes homens com seus filhos. No comprehendo igualmente como se possa invocar contra mim um documento de que me poderia ter servido, cumulativamente com tantos outros, para estribar a minha theoria, se o houvera conhecido. A phrase latino-barbara acima citada exprime exactamente a situao dos servos: doam-se as glebas com a _sua_ creao, com os homens _que lhes pertencem_. Supponhamos que a reserva que se faz de uma familia signifique o que o sr. Muoz pretende. Sera um acto legitimo ou illegitimo; mas o que certo, pelo menos, que at ahi essa familia pertencia quellas glebas como os outros homens de creao. Isoladamente este documento no seria bastante para provar o facto geral da adscripo, embora prove que havia adscriptos; mas o que elle de certo no prova que a situao dos servos na sociedade leonesa fosse a mesma dos tempos gothicos. A adheso gleba era um facto de indole complexa. Por um lado era um progresso immenso das classes laboriosas no caminho da liberdade; por outro uma garantia para os donos do solo; porque, circumscrevendo, coarctando a aco do senhor sobre o servo, a tornava por isso mais legitima e por consequencia mais solida. Nas relaes entre ambos havia vantagens mutuas, de que espontaneamente se podia ceder de parte a parte para as trocar por outras vantagens maiores. A adscripo no era uma lei escripta, como na Russia moderna; pelo menos nenhuns vestigios restam de que o fosse: era um facto social, um costume, uma praxe, que resultava da natureza das cousas, de factos politicos anteriores. possivel apparecerem exemplos de separao entre o servo e a gleba por um acto violento do senhor. De que actos violentos deixa de nos subministrar exemplos a idade media? Mas o senhor tambem podia quebrar os laos que prendiam o servo ao predio com vantagem e assenso delle, como por exemplo para o unir a uma gleba mais productiva ou mais vasta, sem que por isso se reputasse offendida a praxe, a especie de lei mental que a fora das cousas trouxera, e sem que hajamos de inferir d'ahi a no existencia do facto contrario como regra. Isto explicaria a reserva de Alvito Pepiz e seus filhos na doao de 1094 s de Lugo, se no se podesse tambem entender que com elles fora exceptuada a respectiva gleba. Depois do que fica dicto a analyse dos 7.^o, 8.^o e 9.^o documento do sr. Muoz parece-me inutil, e a theoria da adscripo no obstar por certo sua facil interpretao. Seja-me, todavia, licito fazer algumas observaes a respeito do ultimo documento. No me lembra ter jmais visto mencionado, nem nos historiadores nem nos monumentos, um unico mussulmano cujo nome seja godo. E comtudo na memoria da diviso de Rovoredo menciona-se o _sarraceno_ Sendimiro. No sera um captivo mosarabe? Mosarabe, porm, ou arabe, elle no fora um homem de creao, fora um escravo. Diogo Erit fugindo para Rovoredo casou ahi. Mas porque no sera a mulher da sua condio e da sua raa? E ento porque no se daria em troco d'elle uma irm da sua mulher? Que pde esse facto provar contra a adscripo dos servos originarios? Onde neguei eu que a escravido dos sarracenos ou de seus filhos fosse a servido pessoal? V Outra ordem de factos, que o sr. Muoz recorda como vehemente indicio de que a condio dos servos era a mesma dos tempos gothicos, que s vezes os poderosos nas suas depredaes roubavam uns aos outros os colonos e iam vend-los, o que no poderia acontecer se a servido pessoal no existisse; que se davam servos aos mouros em resgate d'illustres captivos[83]; que os servos eram obrigados ao servio domestico, a trabalhos mechanicos da industria, como por exemplo, a serem cozinheiros, padeiros, teceles, carpinteiros, ferreiros, alfaiates, etc.; que alguns tinham os mais baixos encargos, como limpar os logares immundos, concertar os caminhos, tractar das cubas em que seus senhores se banhavam etc.[84]; o que tudo, no entender do sr. Muoz, repugnava adscripo. Lembra-se ento de alguns monumentos em que esses factos podem estribar-se, e que cr servirem para condemnar a minha opinio. Examinemo-los. N'uma doao de Bermudo III s de Santiago fala-se de um certo Galiariz, que, entre outras rapinas que fez, roubou seis homens alheios e vendeu-os como captivos (_et vendivit eos sicut captivos_). Se eu procurasse um documento que positivamente contradissesse a doutrina do sr. Muoz, no o acharia por certo mais a proposito. Galiariz vendeu os servos alheios _como se fossem captivos_, e este acto enumera-se entre os seus delictos. O que pois se vendia sem offensa dos usos e costumes era o prisioneiro, _captivum_. Vender como tal o servo alheio uma circumstancia que aggrava o roubo, e porque? Porque o servo, o homem d'alguem, no era um captivo, uma _cousa_ venal. Peo que se reflicta neste documento. Dous nobres de Galliza, conforme refere a Historia Compostellana, foram aprisionados pelos sarracenos. Tractou-se do seu resgate, e deram-se para os remir LX _captivos christianos, tamen ex servili conditione_. E sobre semelhante texto que o sr. Muoz assenta a ida de que se entregavam servos originarios aos sarracenos em resgate de cavalleiros leoneses! Que o que se deu pelos dous nobres? Captivos christos. Pois _captivo_ foi nunca synonimo da palavra generica _servo_? _Captivo_, na idade media, significava o que significa hoje, o que significou sempre, o prisioneiro. O que houve foi uma troca de prisioneiros. Deram-se por dous sessenta, facto que o historiador explica: _tamen ex servili conditione_. Se dessem sarracenos nobres dariam um, dous, quatro, ou seis. No tinham prisioneiros de mais elevada jerarchia ou no os quizeram entregar: deram sessenta de condio servil. Mas esses homens eram christos. Por certo; mas tambem eram indubitavelmente captivos. A Compostellana igualmente explicita a ambos os respeitos. Eis a necessidade de nunca esquecer a populao mosarabe. Por ella se explica facilmente a existencia de prisioneiros christos em poder de christos. Aprisionados com seus senhores ou sem elles n'uma batalha ou n'uma correria dos leoneses na _Spania_, tinham mudado de donos, e agora entregavam-nos a outros donos em cujo poder de certo a sua condio desgraada no melhoraria. Eis o que unicamente se pode inferir com plausibilidade da narrativa da Compostellana. No escrevendo a historia de Leo, ou dos outros estados da Peninsula, mas a de Portugal, eu era obrigado a esboar rapidamente a organisao social da Hespanha de que se desmembrara a monarchia portuguesa; s, porm, at onde fosse necessario para se entender a historia social do meu paiz. Apesar disso, creio que fui o primeiro que tentei fazer sentir aos escriptores hespanhoes a importancia de dedicar profundas investigaes historia dos mosarabes, dessa populao distincta, que, em meu entender, devia constituir a maioria dos habitantes da Peninsula, ainda dous ou tres seculos depois da invaso dos arabes e da tentativa de Pelaio, pela simples razo de que a grande massa da populao de um vasto paiz no se pode substituir como o poder supremo, como o predominio de um precedente conquistador, sobretudo quando se tracta de uma nao civilisada, e no de tribus selvagens, sempre insignificantes em numero, e que a atrocidade fria e permanente dos vencedores chega a destruir no decurso de seculos. Depois das invases e conquistas germanicas, a grande massa da populao do imperio romano ficou sendo celto-romana: depois da invaso e conquista da China pelos tartaros mantchs, a maioria dos habitantes daquelle immenso paiz ficou sendo chim: o sangue ingls o sangue anglo-saxonio, apesar do predominio normando. E todavia nenhuma daquellas raas de conquistadores foi to moderada, to benigna para com os vencidos como os arabes na Hespanha. Por essa mesma brandura e tolerancia certa ordem de factos politicos e sociaes, que se do depois dos grandes cataclysmos das naes, deviam ser mais prominentes, mais efficazes na Hespanha, e portanto influir mais poderosamente nas phases dos acontecimentos posteriores tanto politicos como sociaes. Ns, os homens d'hoje, que vimos ou ouvimos contar a nossos paes as scenas do dominio francs na Peninsula no principio d'este seculo, deveriamos saber adivinhar o estado moral da populao romano-gothica depois do estabelecimento do imperio dos khalifas, se alis os monumentos fossem menos explicitos ou guardassem silencio a tal respeito. O transitorio dominio francs na Peninsula no deixou de produzir logo um grande numero de _afrancesados_ na Hespanha e de _jacobinos_ em Portugal. Qual sera o jacobinismo, permitta-se-me a expresso, entre os godo-romanos em relao aos sarracenos pode imaginar-se tendo presente o estado de dissoluo moral do imperio wisigothico, anniquilado n'uma unica batalha; o longo dominio dos arabes; a superioridade da sua civilisao material; a sua tolerancia para com a religio dos vencidos; o respeito guardado s instituies civis destes; a benevolencia, emfim, dos principes mussulmanos para com os seus subditos christos. No quero dizer com isto que o patriotismo wisigothico; que a impaciencia do jugo extranho; que o sentimento de hostilidade religiosa no ardessem em muitos coraes, e at subissem ao gru de fanatismo. Pelo contrario. No era preciso que os monumentos nos dissessem que a reaco se manifestava at na corte de Cordova. O conhecimento da indole das paixes humanas dispensa s vezes em historia o testemunho dos monumentos. O homem essencialmente o mesmo em todas as epochas. Mas por isso que os interesses, a reflexo, os vicios, as virtudes, os habitos, a educao, as mil causas moraes que impellem e dirigem o individuo e lhe determinam os affectos e as tendencias, deviam impellir outros, e talvez o maior numero, a manifestaes oppostas. O _Indiculo Luminoso_ de Alvaro de Cordova, especie de extenso artigo de fundo de jornal partidario, libello apaixonado contra o mosarabismo, revela-nos quo numeroso e importante era o partido arabe entre os romano-godos da Spania, partido que abrangia nobres, guerreiros, prelados, sacerdotes, magistrados, povo. Se no existisse este testemunho insuspeito, a razo e a experiencia nos diriam o mesmo que elle nos diz[85]. Imagine-se agora qual sera durante a lucta entre a monarchia no-gothica e o imperio dos Benu-Umeyyas o papel dessa maxima parte da populao peninsular chamada os mosarabes: uns indifferentes contenda, acceitando do mesmo modo o dominio dos reis d'Asturias e Leo ou o dos principes sarracenos, no meio dos stos da guerra; outros forcejando por identificar-se com a nova sociedade que se constituia semelhana da patria wisigothica; outros, emfim, addictos por esperanas, por cubia, por beneficios recebidos, e at por laos de sangue, resultado dos consorcios mixtos, manuteno do dominio mussulmano, e calcule-se quantos factos politicos haviam de dimanar de um estado de cousas tal; quantas peripecias, quantas violencias se dariam em qualquer districto ou provincia da Hespanha a cada invaso, a cada correria, quer dos sarracenos, quer dos leoneses; como se traduziriam em vinganas acerbas os odios occultos; como as paixes mais oppostas trariam a mudana de partido e at de crena; como os homens da mesma raa e da mesma religio se perseguiriam, se denunciariam por desleaes a um ou a outro dos dous poderes publicos, que pelos accidentes da guerra se succediam to frequentemente nos variaveis limites dos dous estados; como a condio do mesmo individuo mudaria mais de uma vez; como o nobre, o rico, o funccionario, o sacerdote poderiam cair de repente da situao mais elevada na mais abjecta servido, e os mais humildes elevarem-se por acontecimentos imprevistos at as mais altas graduaes sociaes; como, finalmente, os monumentos na sua linguagem, nos factos que delles resultam podem illudir-nos, se entre os elementos a que devemos recorrer para a sua apreciao esquecermos o elemento mosarabico. Que se me permitta referir aqui uma anecdota que pinta a vida agitada da populao mosarabe nos territorios submettidos ora pelos arabes, ora pelos leoneses, no meio das vicissitudes da guerra, e que est confirmando o que precedentemente disse crca do mosarabismo e das peripecias a que estavam sujeitos os individuos naquella situao incerta e cambiante. Dos territorios da Hespanha nenhum, talvez, mudou mais vezes de senhores durante a lucta do que os districtos d'entre Douro e Tejo, sobretudo nas proximidades do oceano, e porventura que em nenhum ficaram mais vestigios da existencia da sociedade mosarabica, da sua civilisao material, das suas paixes, dos seus interesses encontrados, e at dos seus crimes e virtudes. A publicao, que a Academia prepara, dos documentos dessas epochas, e especialmente dos que nos foram conservados nos archivos da cathedral de Coimbra e do mosteiro de Lorvo, lanar grande luz sobre o assumpto. um desses documentos, tirado do chartulario de Lorvo, o Livro dos Testamentos, e que foi publicado j por Fr. Munuel da Rocha, mas horrivelmente deturpado, que me subministra os elementos de uma narrativa, a qual reproduz, embora apenas n'uma das suas phases, o viver daquelles tumultuarios tempos. Era nos fins do seculo X e regia o abbade Primo o cenobio de Lorvo. Coimbra, em cujo territorio estava situado o mosteiro, pertencia coroa leonesa pouco antes da epocha em que a espada irresistivel do hadjib Al-manssor fez recuar de novo as fronteiras da monarchia no-gothica para alm do Douro (987). Os districtos ao sul deste rio, que depois da invaso de Tarik e Musa tinham pertencido a maior parte do tempo aos sarracenos, encerravam uma populao essencialmente mosarabe. Cordova era ainda para ella a capital da industria, das artes, da civilisao. O architecto cordovs Zacharias viera a Lorvo, provavelmente chamado pelo abbade Primo para alguma obra do mosteiro. Sabendo isto, os regedores de Coimbra falaram com o abbade para que o architecto cordovs construisse algumas pontes sobre os rios das circumvizinhanas. Primo accedeu, e acompanhou Zacharias na empreza. Edificaram-se ento quatro pontes, em Alviaster (Ilhastro), em Coselias (Coselhas), em Latera Buzat (Ladeiras do Bussaco?) e na ribeira de Forma (Bosso?) Aqui, em memoria da ambos, e por conselho do architecto, Primo construiu umas azenhas que ficaram pertencendo ao mosteiro. Taes foram os factos succedidos nos fins do seculo X que narra o documento de Lorvo. Passaram tres quartos de seculo. Coimbra e o seu territorio, submettidos de novo por Al-manssor, tinham-se conservado sob o jugo do islam. Fernando magno veio, porm, a unir definitivamente aquella provincia coroa de Leo nos meiados do seculo XI. As azenhas da ribeira de Forma j no eram do mosteiro. Fernando I restituiu-lh'as, ajunctando o senhorio da ponte. Pelagio Halaf, nome que indica um mosarabe christo, fora, segundo parece, espoliado naquella restituio. Demandou os monges, affirmando que seu av Ezerag edificara as azenhas, ao passo que o abbade Arias invocava os nomes de Primo e Zacharias. O mosarabe Sisnando, conde ou wasir de Coimbra, exigindo o juramento de Arias crca do que este affirmava, manteve a restituio. Surgiu ento novo contendor. Era Zuleiman Alafla, primo-coirmo de Pelagio, talvez mussulmano, talvez christo, mas como elle da raa mosarabe. Sisnando enviou os contendores curia do rei. Ahi, longe de estribar o seu direito na fundao do av, Zuleiman recorreu a um titulo que hoje sera singular, mas que ento elle cria asss natural, e sufficiente para legitimar a sua pretenso. Era a historia do que se havia passado quando Al-manssor se apoderara de Coimbra. Ezerag habitava em Condeixa quando se restabeleceu o dominio de Cordova. No tumulto da invaso os habitantes das aldeias internavam-se nos bosques. Ezerag pensou ento que a desordem geral podia enriquec-lo. Dirigiu-se ao chefe sarraceno Farfon-ibn-Abdallah, e abraou o islamismo. Depois pediu trinta soldados sarracenos, escondeu-os nas brenhas, e dirigindo-se gente foragida, aconselhou-os a voltarem aos seus lares, asseverando-lhes que tudo estava pacificado. Acreditaram-no e voltaram s aldeias. Os soldados sarracenos, saindo ento dos escondrijos, captivaram muitos, e levando-os a Santarem venderam-nos por grossas sommas. Os captivos foram conduzidos a Cordova com guia de Ibn-Abdallah e com o preo por que tinham sido vendidos. Ento Ezerag pediu em recompensa os moinhos de Forma e diversas aldeias. Al-manssor concedeu-lhe tudo; porque Al-manssor era um heroe, e os heroes no tem tempo para pensar nos direitos da humanidade conculcados[86]. Era nesta concesso que Zuleiman fundamentava a sua justia. A doao do hadjib aos olhos de Alafla, do neto do renegado, era um titulo legitimo, embora essa merc tivesse tido por causa uma atroz villania, e procedesse de um acto de auctoridade que o tribunal leons, conforme as ideas de hoje, no poderia reconhecer. Zuleiman, porm, suppunha to legitima, to respeitavel a concesso de Al-manssor como o julgamento da curia de Fernando-magno. Era um poder que passara na terra: era outro que nella existia agora. Nisto se resumia, necessariamente, a crena politica de uma grande parte dos proprietarios e agricultores mosarabes. Mas o mais importante neste documento o proceder d'Ezerag e os factos que d'ahi resultaram. Elles nos explicam como quaesquer individuos da grande maioria da populao podiam descer ao misero estado d'escravos. Sem duvida a historia de Ezerag no a unica da sua especie succedida naquelles quatro seculos de uma terrivel lucta: devia repetir-se com circumstancias variadas. E mais que provavel que as converses ao christianismo por baixos intuitos de cubia, de vingana ou de traio, fossem, pelo menos, to frequentes como as converses mussulmanas. Insisti neste ponto, porque o reputo capital. Passemos agora objeco deduzida de serem os servos originarios obrigados a trabalhos industriaes e ao servio domestico dos senhores, trabalhos e servios que, no entender do sr. Muoz, repugnavam adscripo da gleba. No opusculo do sr. Muoz parece-me haver duas preoccupaes que allucinam o illustre escriptor. A primeira a das idas modernas applicadas s expresses, s phrases e aos factos da idade media. Desta facil possuirmo-nos, e nella terei eu cado mais de uma vez. A outra na verdade singular, mas em boa parte deriva da primeira. Consiste em suppr a impossibilidade de accumular os trabalhos da vida rural com os industriaes e mechanicos, ou com os servios pessoaes feitos a outro individuo. Entre as naes onde o progresso das industrias fez predominar quasi exclusivamente o principio economico da diviso do trabalho, effectivamente no se d tal associao: o official mechanico, o operario fabril, o creado domestico no associa de ordinario a occupao a que se entregou com o grangeio dos campos. Mas assim como a diviso e subdiviso dos misteres se vai multiplicando com o desenvolvimento industrial, assim quanto mais atrazado se acha um povo, mais o homem vara de occupaes, porque obrigado a variar, e porque justamente a imperfeio das industrias, a simplicidade e grosseria dos artefactos favorecem a accumulao e a variedade das occupaes individuaes. No sei o que succede em Hespanha: em Portugal, nos districtos ruraes, mais de uma industria fabril se associa com a agricultura sob o tecto do lavrador. E todavia, por atrazado que esteja este paiz nos progressos fabris, est sem comparao mais adiantado do que a monarchia leonesa no seculo X ou XI. Recusar admittir que o servo da gleba podesse separar-se do cultivo da mesma gleba para se empregar de outro modo no servio do senhor, no s negar o passado; negar o presente. O campons russo servo da gleba, e nem por isso deixa de separar-se della para exercer outros misteres. O que no pode ser vendido como os brutos. Muda de senhor, ao menos legalmente, s quando alienada a terra a que pertence. O V volume da Historia de Portugal, ainda no publicado, conter uma parte relativa ao systema do tributo, da renda, e do servio publico nos seculos XII e XIII. Ahi se encontraro numerosas provas de que n'uma pocha em que j a adscripo voluntaria succedera forada existiam para o colono, pessoalmente livre, ao lado das prestaes agrarias esses mesmos encargos de servio pessoal que ao sr. Muoz parece repugnarem, no ao colonato livre, mas propria servido da gleba; e o mais que continuamos a encontr-los ainda nos contractos emphyteuticos de seculos mais modernos. Por singulares, por extranhos vida rural que esses servios se nos affigurem nos documentos citados no opusculo que examino, os dos colonos portugueses do seculo XIII, colonos indubitavelmente livres de uma gleba serva, no so menos singulares e extranhos. Lembrarei, entre outros, o encargo que pesava sobre os moradores de tres casaes de Tras-os-Montes. Deviam ir servir de espias em Leo quando a isso os enviassem.[87] Era, por certo, um servio mais abjecto do que o _purgare tristigas_ de que falam os documentos leoneses. Mas o mais notavel que o proprio sr. Muoz se encarregou de combater a sua opinio. Ao lado da servido _pessoal_ dos servos _originarios_ admitte a existencia da servido de gleba, a existencia simultanea de adscriptos, de que frma uma classe parte. Depois de enumerar as prestaes agrarias que pagavam esta especie de colonos-servos, o sr. Muoz adverte[88] que, alm de uma quota de fructos, e de variadas foragens, esses colonos forados estavam adstrictos a servios pessoaes, que consistiam nos amanhos de predios diversos da propria gleba, em construces de edificios, e _em fazer quanto se lhes ordenasse_. Supps o sr. Muoz que havia contradico em dizer eu que os servos originarios eram todos adscriptos e ao mesmo tempo obrigados a servios pessoaes fra da respectiva gleba, e todavia no s acceita essa doutrina contradictoria no seu mesmo opusculo, mas, alm disso, acceita-a depois de affirmar a sua impossibilidade, para desta inferir contra mim a continuao na monarchia ovetense-leonesa da servido wisigothica. Se os servios pessoaes alheios ao cultivo da gleba importavam forosamente a no-adscripo, necessario confessar que a adscripo, cuja existencia o sr. Muoz cr descubrir ligada com quaesquer encargos de servio pessoal ao senhor, um sonho, e que os documentos que se referem a esse estado de cousas, ou so falsos, ou se ho de entender, custe o que custar, de escravos semelhantes aos dos wisigodos ou aos captivos sarracenos. Na _Colleccion de Fueros Municipales_[89] publicou o sr. Muoz dous interessantes documentos sem data, mas que parecem do seculo IX, relativos aos encargos pessoaes dos servos originarios. A estes documentos se reporta igualmente no seu opusculo para abonar a these que estabelece da existencia simultanea de adscriptos e de escravos originarios. o primeiro uma memoria dos servios a que era obrigada para com a s de Oviedo cada familia serva da terra de Gauzon: o segundo uma memoria especial das obrigaes dos servos de Pravia, logar ou aldeia incluida no mesmo territorio de Gauzon. Na _Colleccion_ v-se que as idas do sr. Muoz fluctuavam ainda. Estas duas memorias suppe-nas elle ahi relativas indistinctamente aos servos da s ovetense residentes naquelle territorio, quer adscriptos, quer no: no opusculo[90] suppe-nas, porm, relativas exclusivamente aos no-adscriptos, isto , aos servos de raa, que, segundo a sua doutrina, continuaram a ser na monarchia no-gothica de condio identica dos servos do VI e do VII seculos. Permitta-me, todavia, o sr. Muoz pensar que se houvera reflectido mais detidamente nestes documentos elles o teriam, talvez, conduzido a diverso resultado. Suppondo que se refiram a servos que, no seu entender, equivaliam a cousas, e de que seu antes dono que senhor podia dispr livremente, a propria existencia dessa especie de memorias sera incomprehensivel. Na idade media no se escreviam cousas absolutamente inuteis, porque a arte de escrever poucos a possuiam, e at a materia da escriptura era assaz rara. Ora nada mais completamente inutil do que esses _cobrinellos_ ou ementas, dada a theoria do sr. Muoz. Para que escrever n'um pergaminho: _a familia de fulano de tal aldeia ou granja_ (villa) _ obrigada a tal servio_? Pois uma familia de escravos, que pode ser empregada a bel prazer do senhor nos mais oppostos misteres dentro do mesmo anno, do mesmo mez, do mesmo dia, como um animal domestico; que por arbitrio delle pode mudar de domicilio quando isso convier; que, em summa, pode collectiva ou individualmente ser vendida, escambada, doada; uma tal familia, digo, tem acaso obrigaes determinadas, de que seja necessario conservar a memoria para o futuro? De que serve declarar a granja, o villar, o casal onde cada uma dessas familias reside, se, no dia seguinte ao da redaco da ementa, o senhor pode achar mais conveniente outra distribuio dos seus escravos? Apesar da facilidade com que hoje se escrevem cousas inuteis, no se reputaria louco o proprietario que escrevesse e archivasse a seguinte memoria: _A raa do cavallo N. tem de conduzir madeiras; a raa do touro_ _N. tem de lavrar taes terras; tal vehiculo tem de servir de transporte a tal objecto; tal alfaia destinada a tal uso_? Na minha opinio, o que estas memorias provam o mesmo que provam directa ou indirectamente todos os documentos que se referem condio ou aos encargos dos servos originarios, ou homens de creao: que estes esto unidos a certos predios indissoluvelmente; que desse complexo do homem e do predio o senhor tem de auferir prestaes agrarias e servios determinados. Nesta hypothese o _cobrinellum_ uma cousa racional. A _casata_, isto , a familia que vive n'uma certa choupana ou grupo de choupanas, (_casa_) tem de satisfazer, de gerao em gerao, perpetuamente, aquelles encargos. Os enlaces inevitaveis com outras familias podem produzir complicaes de direitos entre diversos senhores, mas o _cobrinellum_ ou ementa particular de cada um servir para os deslindar, indicando os servios, independentes das prestaes agrarias, que essas familias devem, _debent_. Esta ida de dever que se manifesta nos documentos presuppem a do direito. O escravo no tem deveres; porque as _cousas_ so incapazes delles. Nos proprios tempos barbaros dever e direito so inseparaveis; porque as duas idas so forosamente correlativas. Conforme o que n'outro logar adverti, a adscripo no era de feito simplesmente uma grande restrico da liberdade; importava tambem vantagens, as de uma especie de co-propriedade do servo colono na sua gleba. O sentimento do servo de gleba devia ser analogo ao do campons russo dos nossos tempos. No momento em que os servos separados da terra--diz o marquez de Custine--vissem vend-la, arrend-la, cultiv-la independentemente delles, amotinar-se-hiam de golpe, clamando que os despojavam _dos seus bens_[91]. Do mesmo modo que na Russia, onde se caminha da barbaria para a civilisao, nas origens barbaras da monarchia no-gothica a adscripo como regra succedeu naturalmente servido pessoal, e a servido da terra cultivada por um colono pessoalmente livre succedeu adscripo nos seculos XII e XIII, como me persuado que demonstrei no meu livro. Suppr que da escravido se passou de salto liberdade pessoal affigura-se-me a supposio de um impossivel historico. Effectivamente: como achamos mais geralmente estabelecido o colonato nos seculos XII e XIII? O colono _obrigado_ a morar no predio que cultiva, mas no forado a isso. Se delle sai, no lhe licito cultiv-lo; perde-o; no o reconduzem, porm, violentamente a elle. A unio do homem terra subsiste, mas essa unio no indissoluvel. A liberdade pessoal nasceu. Entre esta situao e a do homem-cousa, do escravo, ha um abysmo. Como se transps? O meio principal consistiu na servido da gleba. O homem-cousa foi-se transformando em _pessoa_ serva: a pessoa serva em pessoa livre; mas ficou ainda adscripta na qualidade de colono. Para ser plenamente pessoa livre precisava de desaggregar de si esta qualidade; de divorciar-se da gleba, a que alis o prende esse amor ardente do homem de trabalho ao solo que cultiva. E que importava, se _podia_ faz-lo? por isso que disse no meu livro que a servido desceu do homem para a terra. Depois, lentamente, que veio o colonato na sua frma quasi definitiva: o lao unico que liga o colono a soluo do canon e a prestao dos servios pessoaes ao j no _senhor_, mas _senhorio_. Depois, finalmente, chegou-se formula definitiva: os servios pessoaes ou desappareceram ou poderam ser substituidos, vontade do colono, pela soluo de um _quantum_ que os representasse. Desde este momento o colonato no conteve mais em si elemento algum que repugne s nossas idas actuaes de direito, e nem sequer s da economia politica. Eu cri ver a liberdade humana despontando tenue nos horisontes da vida do povo desde os tempos wisigothicos. Para o sr. Muoz a noite profunda da escravido durou nesses horisontes at a fatal jornada do Guadalete. E no s, na sua opinio, durou at aquella epocha, como tambem subsistia ainda com todo o peso das suas sombras no seculo XI. Mas em que periodo collocar a transio para a liberdade pessoal dos seculos XII e XIII, cuja existencia demonstrei como facto predominante no colonato dessa epocha, se no for no estado dos servos originarios da monarchia leonesa? Se assim no houvera sido, singular excepo lei de desenvolvimento gradual e constante do progresso humano sera a historia da Peninsula durante quatro seculos! VI O sr. Muoz contrape ainda minha opinio varios factos, que entende provarem ser o estado dos servos o de cousas na monarchia de Oviedo e Leo. Um delles no ter o servo representao em juizo, nem poder servir de testimunha, havendo outro meio de prova. De se me oppr este facto parece poder inferir-se ter eu affirmado em alguma parte que o servo se convertera em homem plenamente livre na monarchia leonesa. Nesta hypothese a objeco poderia parecer plausivel, ainda que realmente o no seja; porque no se segue da plena liberdade do individuo, em qualquer estado social, a necessidade positiva de ser igual em direitos, ainda civis, a todos os individuos livres. O que, porm, affirmei, e o que julgo poder continuar a affirmar que a servido mais ou menos absoluta dos wisigodos se tornou na monarchia no-gothica em servido da gleba, e que esta modificao foi um grande passo para a emancipao das classes populares. Se o servo no podia desaggregar-se da gleba, evidente que a gleba tambem no podia desaggregar-se do servo, e que desse estado resultava para elle uma especie de co-propriedade de facto, que, por indestructivel, creava um direito positivo. O alcance deste direito era tal que as suas consequencias, na successo dos tempos, deviam trazer mais tarde ou mais cedo a plena liberdade pessoal, como de feito trouxeram. Eis o que eu estabeleci. Objectivamente, a existencia da pessoa civil resulta da manifestao da sua capacidade juridica, embora essa manifestao seja incompleta. Entre os romanos, o servo considerava-se como cousa, porque objectivamente era incapaz, no de um ou de outro direito, mas de todos elles, e por isso perdia a personalidade: nas sociedades modernas, porm, o privilegio, a jerarchia, a idade do homem, o seu estado physico ou moral produziram sempre e produzem ainda differenas de direitos, at civis, que nem por isso destroem a personalidade de ninguem. Fosse o poder publico, fosse o proprio adscripto que podesse invocar o principio da adscripo para no ser violentamente separado da gleba nativa; fosse o costume, a opinio, ou a lei que sanctificasse a unio da terra com o seu cultor, o que certo que se invocava, sanctificava e mantinha um direito, uma vantagem importantissima do adscripto. Fosse qual fosse a dependencia deste do respectivo senhor, a sua personalidade existia. Assim, quaesquer que fossem as restrices que houvesse a respeito dos servos no systema judicial desde o seculo VIII at o XII, essas restrices nem provam contra a personalidade objectiva dos servos, nem importam adscripo ou no adscripo. Sobre aquelle systema judicial e sobre o papel que os servos representavam nos pleitos poderia accrescentar aqui algumas ponderaes que me parece mereceriam a atteno do sr. Muoz, mas que me levariam mais longe do que comportam as dimenses deste pequeno trabalho, e que seriam sobejas para o fim que me proponho. Deixando, pois, de parte questes agora inuteis, venhamos a outros factos juridicos em que o sr. Muoz v a morte da personalidade, e que evidentemente no provam o que elle pretende, antes em parte demonstram que do mais ou menos incompleto dos direitos civis em individuos desta ou daquella classe nunca se poder deduzir a escravido, a no-personalidade, a suppresso absoluta desses direitos. Competia ao dono smente--diz o sr. Muoz--reclamar a indemnisao do damno padecido pelo servo como cousa de sua propriedade[92]. Os documentos, alis numerosos, em que esta affirmativa pde estribar-se no servem de modo algum para dirimir a contenda; porque para provarem a no-personalidade dos servos e a sua no-adheso gleba (suppondo que o facto o provasse) cumpria mostrar que elles se referiam aos servos originarios, e no a escravos captivos. Admittindo, porm, que taes documentos se refiram a servos originarios, essa concesso de nada servir para revalidar a opinio do sr. Muoz. A representao pelo senhor no se limitava ao escravo, e nem mesmo a este e ao servo de gleba: estendia-se a individuos livres collocados na dependencia juridica de alguem. Seguir-se-ha d'ahi que semelhantes individuos eram cousas; no tinham personalidade? O sr. Muoz estabeleceu excellentemente no seu opusculo[93] a natureza da malada. O malado era o homem livre, que se collocava n'uma especie de vassalagem para com seu senhor adoptivo, e esta especie de relaes provei eu que eram inteiramente pessoaes e independentes do caracter de colono, situao em que o malado podia estar em relao a outro senhor, bem como mostrei a transmisso da maladia de paes a filhos[94]. A reparao, porm, dos damnos feitos aos malados revertia ainda no seculo XI em beneficio do patrono[95]. Admittida a doutrina estabelecida depois pelo sr. Muoz, esta jurisprudencia provaria contra elle proprio; provaria que o malado, longe de ser, como tal, homem livre, era apenas uma cousa, apenas uma propriedade do _dominus_. Como os malados, os solarengos (solariegos) eram colonos livres. Di-lo o sr. Muoz, e com elle dizem-no os monumentos. Todavia ns lemos no Foro Velho de Castella[96]: _Ninguem deve pousar nem entrar por fora em casa de nenhum solarengo, e se alguem o fizer deve pagar 300 soldos ao senhor, de quem for o solar, e o damno em dobro ao lavrador que recebeu o aggravo_. Nos foraes do typo de Salamanca lemos tambem: _Se alguem matar o creado de qualquer vizinho, receba este a multa do homicidio. O mesmo applicavel ao seu hortelo, ao caseiro que lhe paga quartos, ao seu moleiro e ao seu solarengo_[97]. A simples relao de vassalagem e clientela produzia s vezes os mesmos effeitos. Assim, em alguns desses foraes do typo de Salamanca se estatue tambem que _se forem assassinados homens que alguem tenha nas suas herdades, ou que sejam seus vassalos pertencer ao senhor a multa do homicidio_[98]. Eis aqui como ainda nos seculos XII e XIII o senhor ou patrono havia a multa dos crimes commettidos contra os seus dependentes, sem que d'ahi se possa nem por sombras inferir que a dependencia do cliente, do vassalo, do malado, do solarengo ou do creado fosse a da escravido. Nada direi acerca de o sr. Muoz qualificar a _calumnia_, a multa judicial, _de compensao pecuniaria imposta como pena ao matador_. O sr. Muoz sabe perfeitamente que no era essa a indole de taes multas: foi uma phrase inexacta que lhe escapou na rapidez da composio, como talvez me tero escapado a mim outras analogas. Mas o que no posso deixar de observar uma circumstancia que prova como os espiritos mais elevados e de mais solida sciencia chegam a precipitar-se quando subjugados por um preconceito. Possuido da ida da escravido dos servos originarios nos quatro primeiros seculos da monarchia leonesa, o sr. Muoz, ao passo que viu dimanar a no-personalidade do servo do direito do senhor s multas dos crimes perpetrados contra elle, no viu, buscando estribar-se em documentos, que o primeiro que citava, tirado de um chartulario do mosteiro de Cellanova, continha a refutao peremptoria da sua doutrina. Este documento do anno 940 uma carta ao mesmo tempo de _agnio_ e de _incommuniao_, em que Pelagio _incommuna_ os bens que tinha em certas aldeias a D. Ilduara e a seus filhos, por elle haver com uns clientes seus espancado por tal modo Froila, _junior_ de D. Ilduara, que o espancado morrera, e Pelagio, no podendo talvez pagar a D. Ilduara a multa que lhe fora imposta, recorria ao expediente de lhe _incommuniar_ aquelles bens[99]. Mas Froila era um _junior_, colono da mais humilde classe, porm livre. O texto das cortes de Leo de 1020 e a sua antiga verso em vulgar no consentem que se interprete de outro modo a palavra _junior_: nisto o sr. Muoz est perfeitamente de acrdo comigo no seu commentario quelle celebre monumento legislativo[100]. Como, pois, se invoca um diploma que formalmente contradiz a doutrina que destinado a sustentar? VII Os consorcios entre individuos das classes servis offereciam varias hypotheses juridicas: o servo podia casar com uma serva do mesmo senhor, ou com a de outro: ter um ou mais filhos ou nenhum: o marido podia ir viver na residencia anterior da mulher, ou a mulher na residencia anterior do marido: materialmente, essas translaes de domicilio podiam occorrer com licena do senhor ou sem ella. Estes diversos factos influiam necessariamente nas relaes do senhor e do servo. Restam em Portugal e em Hespanha bastantes documentos de que elles se davam, e de que se buscavam arbitrios para solver as difficuldades que d'ahi procediam. Achamos contractos, inqueritos, memorias particulares, sentenas, em que se previnem, se memoram, ou se remedeiam as consequencias dessas varias hypotheses em relao aos direitos dos senhores, e em que, portanto, obtemos a certeza de ellas se haverem dado desde o VIII at o XII seculo. Para occorrer aos conflictos de interesses e de direitos, v-se dos mesmos documentos que se recorria diviso das familias. Em que consistia esta diviso? O que que se passava na realidade? O desacrdo entre mim e o sr. Muoz j se v que deve ser completo na apreciao dos documentos relativos a semelhante assumpto. Elle v a escravido como condio geral dos individuos da classe servil do seculo VIII ao XII: eu vejo-a s em relao aos captivos sarracenos, e a servido da gleba em relao aos _homines de creatione_, aos _servi originales_. N'uma nota do meu livro[101] mostrei, segundo creio, que os documentos com que elle pretendera provar que os filhos do servo e da serva de differentes senhores se dividiam entre estes[102] se deviam entender de um modo diverso. Na minha opinio, o que se dividia eram os servios pessoaes, e em certos casos (como na incerteza de pertencer a um ou a outro senhor o dominio da gleba habitada pelo homem de creao) as prestaes agrarias. Em relao s glebas possuidas de paes a filhos pelas familias servas, a minha theoria era e que o _dominio_ e o _uso_ de qualquer desses predios se moviam em duas espheras: que o _dominio_, manifestado, traduzido materialmente na percepo das prestaes agrarias e na exigencia de servios, era a propriedade do senhor; constituia o objecto de uma grande parte desses milhares de contractos do seculo VIII ao XII que restam nos archivos da Peninsula; que o que se vendia, doava, escambava mais ordinariamente era o direito a haver dos servos, dos _juniores_, dos malados, dos solarengos, do homem de trabalho, em summa, ingenuo ou no ingenuo, certas prestaes agrarias e certos servios pessoaes, que nas glebas servis derivavam da duplicada servido do homem e da terra a que estava unido, e que na herdade ou casal do peo (_junior_), na maladia, no solar, derivavam de um contracto voluntario, tacito ou expresso; que as prestaes e os servios do adscripto, representando a renda da terra e a obrigao servil do individuo nella incorporado, eram duas cousas que facilmente podiam distinguir-se quando por consorcios, ou por outra qualquer eventualidade, o direito s prestaes da gleba e aos servios do homem ou da familia vinha a achar-se dividido entre dous proprietarios (_domini_) diversos; que, assim distinctos, tanto aquellas prestaes, como aquelles servios podiam no s affastar-se, unir-se de novo, mudar de proprietario separadamente por toda a especie de transmisso, mas at fraccionar-se em si mesmos ou accumular-se, sem que por isso mudasse a condio do individuo que usufruia o predio, quer como adscripto, quer como colono livre. No sei se varios documentos que o sr. Muoz cita, logo no principio do seu opusculo[103], provam, como elle pretende, que as palavras _servus_, _homo_, _creatio_, _familia_ se applicavam indistinctamente aos servos, s familias da mesma origem, aos adscriptos, e no poucas vezes aos homens livres, postoque sujeitos a alguma especie de vassalagem. No vem isso para esta questo. O que sei que mostram, como muitos outros, a verdade da precedente theoria, por ser ella unicamente que os explica. Assim, lemos alli que em 934 Eximina doou a aldeia ou granja de Malares ao mosteiro de Sobrado com todos os seus bens e pertenas, _e com todos os seus homens, assim servos como livres, que serviram na mesma aldeia no tempo de meus paes e avs_; lemos que em 1016 o mesmo mosteiro fez um escambo com Gutier Dominico dando este a aldeia de Luzario com as suas dependencias e _com a sua creao, servos e libertos e homens livres, quantos servem na mesma aldeia_; vemos que na doao de certas aldeias ao mosteiro de S. Salvador, em 932, se diz doarem-se _com a familia, libertos e pessoas livres (que faam) ao dicto mosteiro e aos dictos senhores o servio que costumavam fazer_. Como explicar doaes e escambos de pessoas livres e ainda de libertos conjunctamente com os de servos e com os das aldeias em que tantos estes como aquelles moravam, se entendermos esses documentos ao p da letra? No evidente que se tracta das prestaes agrarias, que pagavam tanto as glebas servis, como os predios colonisados por homens livres, e dos servios que tanto os adscriptos como os ingenuos, foradamente uns e por contractos espontaneos outros, eram obrigados a fazer? No vemos, at, no 1.^o documento que os individuos de ambas as categorias so, sem distinco, _herdeiros_, uns nos predios colonisados, outros nos predios de adscripo, porque os servios que delles devem uns e outros vem de tempos remotos: _tam servis seu ingenuis qui ad ipsam villam deservierunt in vita aviorum et parentum meorum_? A hereditariedade do servo na gleba, consequencia forosa da adscripo, eis, como j disse n'outra parte, o grande passo dado na Peninsula, desde o seculo VIII at o XII, pelo homem de trabalho, pelo antigo escravo, para a liberdade. Quando o artigo VII do concilio ou cortes de Leo de 1020 diz:--_Ninguem compre_ a herdade do servo da igreja, do rei ou de alguem. _Quem a comprar perca-a e o que deu por ella_--faz-nos recordar a doutrina parallela do codigo wisigothico[104]. Mas ha na lei de 1020 duas palavras que assignalam um abysmo entre as duas legislaes: _haereditatem servi_, phrase que seria monstruosa no seculo VII, mas que no XI indica apenas um facto asss trivial para exigir providencias que o regulem e limitem. _Haereditas_ nas actas daquella assembla, como em geral nos documentos das Hespanhas, o _hereditagium_ de alm dos Pirenus; o predio possuido de paes a filhos, o predio em que se succede por herana. O servo ligado gleba sabe que, quando morrer, ficaro ahi os proprios descendentes; porque tambem sabe que elles e a gleba mutuamente se pertencem. Nas palavras _herdade do servo_ est resumida a historia de uma transformao social. Que oppe o sr. Muoz a um facto que as leis, os contractos, as decises forenses conspiram em mostrar no s como existente, mas tambem como universal em relao a todos os servos originarios ou homens de creao? Uma difficuldade practica. Suppe que o servo de uma gleba poderia ir casar com uma mulher de uma gleba remota e de diverso senhor. Prestaes agrarias no as podia pagar, porque a terra era de outro dono; servios pessoaes no os podia prestar, pela distancia em que vivia. Assim seus filhos. Dividindo-se estes materialmente, e levando o senhor do pae metade delles, emquanto a outra metade ficava na gleba materna, aquelles podiam ter o destino que conviesse a seu dono se eram escravos, ser repostos na gleba paterna se fossem de raa adscripta. D'aqui a necessidade de entender os documentos no seu sentido apparente, e de crer que a praxe de se dividir a prole dos servos de dfferentes senhores era a geralmente seguida. Ora esse facto, equiparando a classe servil aos bens semoventes e aos moveis, destruia a personalidade dos individuos de semelhante classe, escrava em tal hypothese, situao que o opusculo do sr. Muoz tende a provar ser a dos servos desde o VIII at o XII seculo. Mas este argumento pcca pela sua propria indole. Inferir que no existiu, ou pelo menos que no foi geral e predominante certa instituio, de ter ella inconvenientes, que alis no existiriam predominando uma instituio diversa ou contraria, e concluir d'ahi que foi esta a que existiu ou predominou, parece-me que seria um pessimo raciocinio na historia de pochas e de paizes altamente civilisados, quanto mais na de eras semi-barbaras e de um paiz semi-barbaro. Que havia em Oviedo e Leo desde o VIII seculo at o XII no direito publico, na administrao, no estado das pessoas, nas relaes civis, que fosse absoluto, uniforme, sem excepo na practica? Que condies sociaes havia que no fossem incompletas, antinomicas, obscuras sob um ou sob outro aspecto? Que foi a idade mdia, seno a infancia dolorosa e longa da civilisao moderna; que foi, seno uma serie de experiencias e tentativas de organisao das naes, que surgiam do singular consorcio da sociedade romana, corrupta e dissolvida, com as aggregaes quasi selvagens das hostes e das tribus germanicas, mixto tornado ainda mais confuso na Peninsula pelo influxo da cultura arabe? Que cousa mais enredada, mais desharmonica, mais cheia de solues difficeis do que a vida social d'ento? Sem duvida que certas leis supremas, que regem a humanidade em qualquer situao que ella se ache, actuavam ento entre os povos, como sempre, e as paixes impelliam os individuos do mesmo modo e produziam effeitos identicos ao que produzem em todos os tempos; mas disto perfeio, harmonia das instituies vai uma distancia immensa. Acceitando, porm, a doutrina do sr. Muoz sobre a escravido absoluta dos servos originarios ficam, acaso, resolvidas as difficuldades de applicao practica que elle v na existencia da servido de gleba? A hypothese que lembrou pde modificar-se. Supponhamos que o escravo, ido para outro logar e ahi casado com uma escrava de diverso dono, tinha um filho s. Como se dividiria materialmente esse individuo? Supponhamos que tinha um filho e uma filha. luz a que os escravos eram considerados, isto , como animaes de carga, como machinas de trabalho, como cousas, emfim, o sexo dos individuos representava forosamente um valor diverso. A quem cabia o filho? A quem a filha? Mais: supponhamos a unio infecunda. Conforme quer o sr. Muoz, o meio ordinario de reparar a perda do escravo ou escrava, que pelo consorcio ia viver na gleba de um senhor differente, era a repartio material dos filhos. Na falta destes, resignava-se, acaso, o senhor do servo fugido a perder os servios delle, porque, no podendo dissolver-se o matrimonio e vivendo a familia escrava a grande distancia, no era possivel exigi-los? A lei wisigothica, porm, ainda em vigor na monarchia no-gothica, estatuia a respeito destes consorcios, no devidamente consentidos, entre servos de differentes donos uma regra clara e exequivel. Aquelle dos dous senhores que se aproveitara desse acto irregular, que se appropriara por tal meio o servo ou a serva alheios, perdia os dous conjuges e a respectiva prole em beneficio do que fora espoliado[105]. Se a situao dos servos originarios no tinha mudado, porque no se applicava a lei? Que a diviso das familias, quer como a entende o sr. Muoz, quer como eu a entendo, constituia j a jurisprudencia ordinaria do seculo XI uma cousa de que os documentos citados por elle, e outros que poderia citar, no permittem que se duvide. Porque se oblitterou a lei wisigothica nesta parte? evidentemente porque, tendo mudado a situao dos individuos a que ella era applicavel, devia buscar-se um meio de reparar a offensa do direito sem tractar os servos como bens semoventes. O direito dos senhores das glebas, s quaes os servos pertenciam, sobre as prestaes agrarias das mesmas glebas e aos servios dos individuos ou familias a ellas adscriptos no offereceria realmente os inconvenientes practicos que suscitaria o systema supposto pelo sr. Muoz. J notei que este argumento mu; mas certo que nem esse mu argamento favorece a sua opinio. O servo, que se desaggregava da gleba sem consentimento do senhor, podia ser reconduzido violentamente a ella. Este era o principio. Mas se elle lhe fizesse os servios pessoaes que d'antes fazia, parece que devia ser facil o chegar-se a uma transaco, a um acrdo. A gleba l ficava cultivada pelo resto da familia adscripta e produzindo as mesmas prestaes agrarias, ao passo que o individuo desempenhava os mesmos deveres pessoaes. Suppondo que este fosse residir a grande distancia (hypothese rarissima n'uma epocha em que no existia a menor facilidade de communicaes) esses servios podiam ser transformados em prestaes em generos, ou em moeda. Se o servo se casava e tinha filhos, metade dos servios da nova familia pertenciam ao seu antigo senhor, obrigao herdada, que podia ser satisfeita do mesmo modo. Era um systema complicado, e que daria, como dava, origem a mais de um pleito entre senhor e senhor, mas que me parece no offereceria hypotheses insoluveis como a theoria adoptada pelo sr. Muoz. Na _noticia_ dos homens do mosteiro de Cartavio publicada na _Colleccion de Fueros_[106] l-se _in Garrio, Maria Ectaz medium cum suis filiis mediis... in Mirites... Savaricum integrum... in Mintes... Petrum Vistiz integrum cum suis filiis mediis_, etc. Temos, pois, nos proprios documentos publicados pelo sr. Muoz a prova de que um individuo morador em certa granja ou aldeia podia pertencer integralmente ou parcialmente ao dono dessas glebas. uma das hypotheses que eu figurei, e que o sr. Muoz nos no diz como se resolveria no seu systema.[107] A interpretao que dou aos documentos que se referem diviso dos servos originarios, e que eu supponho geralmente adscriptos, to obvia; esses documentos provam to pouco que a diviso dos membros da familia serva se haja forosamente de entender como uma diviso material; era to possivel moverem-se os individuos, em relao ao dominio, n'uma esphera diversa daquella em que se moviam as prestaes agrarias e os servios pessoaes; a confuso da terra com o homem, da obrigao com a pessoa a quem ella imcumbia, era to vulgar na linguagem juridica, que o proprio sr. Muoz adopta o meu systema de interpretao a proposito de documentos analogos nas expresses quelles com que pretende refutar o mesmo systema. Falando de diplomas, em que se faz doao, venda, ou permutao de solares incluindo os solarengos, accrescenta: _Obstam muito pouco alguns documentos de venda, doao e troca feitas junctamente com os solarengos. No quer isto dizer que se vendessem as pessoas; mas sim os tributos e servios que estas tinham obrigao de prestar._ Se a linguagem dos documentos se pde tomar como figurada em relao aos solarengos, porque no se poder entender do mesmo modo em relao aos servos originarios ou homens de creao? Como se pretende deduzir dessa linguagem um argumento para provar que estes eram vendidos, escambados, ou doados como cousas, como bens semoventes, e sem personalidade, no se permittindo tirar igual inferencia a respeito dos solarengos? A questo do estado das classes servas na monarchia no-gothica comportava maiores desenvolvimentos. Esses desenvolvimentos no cabem, porm, neste breve opusculo e na forma de publicao a que destinado: por isso pararei aqui. Permitta-me o sr. Muoz y Romero que repita, acabando, as expresses de sincero apreo pelo seu alto merito litterario, e pelos seus esforos para derramar luz nas trevas da nossa idade media. O que ha de abnegao, de zelo pela sciencia, de foras intellectuaes consummidas em desbravar os desvios por onde o sr. Muoz se embrenhou s o conhece aquelle que nesse duro lavor deixou passar os melhores dias da vida, sem saber o que a mocidade tem de gozos, a idade viril de ambies, e a velhice de vaidades, e cuja recompensa unica ser escrever-se-lhe na campa: _Aqui dorme um homem que conquistou para a grande mestra do futuro, para a historia, algumas importantes verdades._ INDICE *A batalha de Ourique* I Eu e o Clero 3 II Consideraes pacificas 35 III Solemnia Verba 1.^a 72 IV Solemnia Verba 2.^a 99 V A Sciencia arabico-academica 185 *Do estado das classes servas na Peninsula* I 237 II 245 III 263 IV 265 V 285 VI 317 VII 318 Notas: [1] Sermo De Convers. S. Paul. [2] Epistolar. Epist. 152. [3] Mem. de D. Fr. Caetano Brando, T. II, p. 411. [4] Concil. Trident. Sess. 25, Decr. de Purgat. [5] Concil. Colon I, tit. 6 c. 25. [6] Van-Espen, Jus Eccles. P. 1 tit. 22 cap. 10. [7] Gesch. der Italienisch. Staat. IV B., 4 kap. 6. [8] Vol. 1 Nota 3 p. 466 e segg. [9] S. P. Damiani Epistol. ad Sum. Pontif. L. 1 Epist. 16. [10] Greg. VII Epistolar. Liv. 8 Epist. 21. [11] De Considerat. L. 3 c. 3. [12] Ibid. Liv. 4 c. 4. [13] Um grande numero dessas passagens e cantigas, relativas aos seculos XI, XII e XIII, acham-se colligidas na Historia dos Hohenstaufen de Raumer, Vol. 6, pag. 178 e segg. [14] Scriptores Rer. Francicar., T. XVII p. 558. [15] Art de Verif. les Dates, vol. 1 pag. 299. [16] Matth. Paris, p. mihi 607 col. 2. [17] Chronic. pag. mihi 287. [18] Def. de la Declar. I. 6. [19] D. Hilar. Pictav., In Psalm. 53. [20] D. Gregor., Expos. in Job L. 8 c. 6, L. 13 c. 4. [21] Recordo-me de ler em a _Nao_ um communicado de Coimbra, assignado por um parocho, em que se me dizia que, se as assaduras da inquisio tinham acabado, c estavam os bispos. O bom do homem ainda espera que os bispos de Portugal possam queimar gente. uma doce illuso como qualquer outra. [22] ne ab uberiori auctorum copia alliciamur, sed potis ab ipsorum merito et _gravitate_; multotis enim fit, ut _gravis_, periti atque sinceri scriptoris auctoritas, etc. Que diria um desses furiosos que crm que o vocabolario dos prostibulos pde supprir os rudimentos da sciencia, e que me condemnou como ignorante por falar em _gravidade da historia_ em relao, no ao estylo, mas sim materia, se ouvisse o venerando Mabillon falar na gravidade do historiador tambem em relao essencia e no forma, e isso duas vezes n'um unico paragrapho!! Chamava-lhe ignorantissimo. Oh clero portugus, clero portugus! [23] Elle _ne craint que_ de n'tre pas connue: Fleury diz que, no a igreja, mas o proprio christianismo _teme_. Em Portugal a theologia das tabernas entende-o d'outro modo. uma consolao ser impio e herege com o virtuoso prior de Argenteuil. Pobre igreja portuguesa. [24] Todas as pessoas mediocremente instruidas sabem o que quer dizer _theocratico_; mas o demente que escreveu estas blasphemias no sabe portugus, quanto mais grego. Fez uma phrase ridicula para introduzir ahi um vocabulo que os ignorantes no entendessem e que portanto admirassem. [25] Accentuado por causa das freiras que dizem missa. A ignorancia das freiras a razo capital da accentuao nos livros rituaes, segundo o digno sacerdote que, por vingana, acceitou das _capellas_ o pio mister de me injuriar e calumniar sanctamente. [26] Nova Insistencia, etc., pag. 34. [27] Demonstrao pag. 34.--Insistencia pag. 10. [28] Poucos annos antes, os embaixadores de D. Dinis tinham offerecido inutilmente ao pontifice uns artigos com o mesmo intuito, e contendo em substancia o mesmo que os de Pedro Escacho. Ahi nem uma palavra se diz sobre a acclamao em Ourique, em que tambem no fala nenhum dos chronicons coevos. Assim, a inveno da historia da acclamao pde fixar-se no principio do seculo XIV, tendo talvez em parte dado motivo a ella esta questo da desmembrao da ordem de Sanctiago, negocio que foi assaz rudioso e importante. Veja-se a Historia de Portugal, Vol. I, pag. 489 (Nota XVIII). [29] Estes chronicons esto publicados nos _Portugaliae Monumenta Historica_, Vol. 1, p. 26. [30] Tanto este como os dez paragraphos precedentes foram supprimidos nas edies avulsas das _Solemnia Verba_. Era uma digresso que pouco servia para rebater as opinies adversas, e que entretanto affrouxava o cerrado da argumentao. [31] Os Cuidados Litterarios de Cenaculo, a Memoria de frei Joaquim de Sancto Agostinho sobre os codices d'Alcobaa, o Elucidario de Viterbo, as Observaes de J. P. Ribeiro publicaram-se proximamente pelo mesmo tempo. Viterbo, frei Joaquim de Sancto Agostinho, Ribeiro eram _innovadores perigosos_ ento, como eu o sou hoje. Cenaculo era um bispo erudito. Quantas palestras litterarias, quantas contendas oraes precederiam a publicao daquelles escriptos oppostos! [32] l'heure que je commence a dicter ce present escrit je suis en la soixante sexieme anne de ma vie. Petitot f-lo nascido em 1426. Falleceu no 1.^o de fevereiro de 1502, segundo se deprehende da sua inscripo sepulchral, com 76 annos d'idade. [33] D'aqui vinha por certo o titulo de _conde palatino_ de que usava Vasco de Lucena, titulo que tanto tem feito scismar os nossos antiquarios. [34] Vejam-se as provas indisputaveis d'isto em Ribeiro, Observaes de Diplomatica, pag. 79 e seg. [35] Et cette opinion je tiens de plusieures notables gens portugalois qui ont est de ma congnoissance. [36] Pina, Chron. de D. Joo II, c. 15. [37] Bulla: _Ut saluti_ 5 febr. 13.^o Sixti IV. [38] Preafatae ecclesiae, a qua regiae dignitatis culmen accepisti, cuique annuum censum debes: Ibid. [39] Bulla: _Venerabilis frater_: 6 febr. 13.^o Sixti IV. [40] Carta de D. Alvaro de Bragana escripta de Castella a D. Joo II. (Ms. da Biblioth. R.) [41] Talvez seja gente de mais. Mas deixe v.. passar; porque isto era j estylo peninsular naquella epocha. [42] Jorn. de Coimbra, 1813, Abril, p. 310. [43] Memor. do R. Archivo, pag. 59. [44] Chancell. d'Aff. II. (M. 12 de For. Ant. N.^o 3). [45] Veja-se o alvar de D. Manuel, de 1502, no Liv. dos Privileg. de Sancta Cruz fl. 2, o doc. de 1458 a fl. 157 do mesmo Liv., o do L. 5 da Estremadura fl. 116 v. no Arch. Nac., etc. [46] Chron. dos Coneg. Regr., L. 9, c. 29. [47] Prodrom. ad refutat. Alcorani _passim_. [48] Uber die Lnderverwaltung unter dem Khalifate (Berlim 1835) Schaefer, Gesch. Span. 3 Th. S. 145. [49] O _digno_ academico refere-se evidentemente traduco de Moura; porque nem o commum dos leitores, que elle convida para lerem esses capitulos, entendem o arabe, nem o original tem capitulos, como se deprehende do prologo de Moura, e se v das citaes do texto arabe feitas pelo sr. Gayangos nas suas notas verso inglesa de Al-Makkari. [50] Nesta classe, como em todas, ha excepes respeitaveis: falo em geral. [51] Dominac. de los Arab., P. 3 in fine. [52] Al-Khatib, Bibl. apud Casiri Bibl. Arab., T. 2, p. 216 e segg. [53] Abu-l-Feda, Annales Moslemici, T. 3, p. 359. [54] Al-Makkari (verso de Gayangos), Liv. 7 c. 5 e segg. L. 8 c. 1 e 2. Veja-se tambem a taboa chronologica a p. 89 dos Append. do 2 vol., e os extractos no livro _Kitabu-l-iktif_ (Append. C. ad fin.). O reinado de Abu-Is'hk, sitiado em Marrocos pelos almohades, foi apenas nominal. [55] Chron. Gothor. ad aer. 1125-1155. [56] Chron. Conimbric, ad aer. 1155. [57] Roder. Tolet. Histor. Arabum, cap. 49. [58] Assaleh, verso de Moura, c. 43, 44, 45. [59] Ibid. c. 40. [60] Conde, P. 3, c. 33. [61] Casiri, T. 2, p. 218, col. 2. [62] Espaa Sagr., 21, 373. [63] O nome mais geral nos auctores arabes _Lamtuna_; mas Ibn-Khaldun (Gayangos, vol. 1, p. 408 nota _a_) chama-lhe _Lamtah_ e Leo Africano (Casiri, vol. 2, p. 219) _Lemta_. [64] A pag. 22 do opusculo diz-se que escrever _emir_ erro do vulgo dos traductores em vez de _amir_ (o caso serio), e a pag. 11 diz-se que em vez de _emir-el-muminin_ eu deveria escrever _emir el-muminina_. Em que ficamos? Em _emir_ ou em _amir_? Quanto a _muminina_, Gayangos, Casiri, etc. escrevem sempre _muminin_. [65] Gayang. vers. d'Al-Makkari, Vol. 2, p. 386 [66] Abulfeda, Annal. Mosl., T. 2, p. 471. [67] Verso francesa de Pellissier et Rmusat p. 192. Ibn-Khalddun denomina frequentemente khalifas os imperadores almohades. (Gayangos, Vol. 2, App. D.) [68] Assaleh. c. 45. Neste capitulo fala-se muitas vezes no _califado_ e no _califa_ Abdelmumen. [69] No s a chronica de Affonso VII que refere a queda de Aurelia: os Annaes Toledanos referem-na igualmente. [70] O Kartts (titulo da historia d'Abdel-halim), propriamente, segundo o testimunho de Haji-Khalfah, e conforme o que se l em diversos exemplares da obra, escripto por Ibn-Abi-Zara, que viveu no seculo XIII. Ab-del-halim parece ter sido um copista, ou talvez um abbreviador. Veja-se a nota do sr. Gayangos ao L. 8, c. 2 de Al-Makkari. [71] Assaleh--vers. de Moura, c. 40 p. 182. [72] Chronica Adef. Imper. Praef. et 64. [73] Sigo a paginao do opusculo, tirado parte depois d'impresso na _Revista de Ambos-Mundos_. Um exemplar delle que possuo, devo-o urbanidade e benevolencia do sr. Muoz, que teve a bondade de m'o remetter. [74] Em documentos do seculo XIII vemos ainda a designao de servos applicada aos escravos mouros. N'um testamento de 1232 so legados ao mosteiro d'Alcobaa _sarracenos et sarracenas servos et servas_. Doc. de Alcobaa na Collec. Especial, Gav. 81 na Torre do Tombo. [75] Hist. de Port., T. 3, p. 313 da 3.^a edic. [76] Hist. de Port., T. 3.^o, p. 255 (nota 4) 274 &c. [77] Esp. Sagr., T. 40, Append. 19. [78] Doc. de Moreira na Torre do Tombo, Collec. Especial, G. 78. [79] Por exemplo, o 1.^o bispo de Coimbra depois da restaurao, Paterno, que, sendo bispo de Tortosa e vindo por embaixador dos Beni-Huds de Saragoa a Fernando-magno, foi alliciado pelo alvasir Sesnando para acceitar o episcopado de Coimbra, o que fez alguns annos depois. _Qui suprafatus episcopus_ (diz o documento do Livro Preto da S de Coimbra que refere o facto) _eo tempore Tortuosane Urbis sedem tenebat, sed propter societatem paganorumofficium et ordinem suum minim adimplere valebat_. [80] N'uma doao de 1083 igreja de Vousla (Livro Preto f. 144) mencionam-se entre outras alfaias _una casula tiraz et una dalmadiga tiraz_. O _tiraz_ era um estofo precioso de fabrica sarracena, de que usavam as pessoas principaes entre os mussulmanos, onde se liam bordadas oraes do culto islamitico e sentenas de koran. Quando os sacerdotes da igreja de Arcozelo qual tinham pertencido aquelles paramentos, ou os da de Vousla, qual se doaram, celebrassem, revestidos com elles, os officios divinos, os assistentes que no ignorassem a leitura do arabe poderiam ir misturando as preces da igreja com as do islamismo, e lendo as sentenas do koran, emquanto os celebrantes repetiam os textos do evangelho. [81] Gothorum ordinem... tam in ecclesia... quam in palatio... statuit: Chron. Albeld 58. [82] Martim Moniz (genro do conde Sesnando e seu successor no governo de Coimbra) doa perpetuamente a Joo Gosendes os bens na villa de S. Martinho _que ibi obtinuit Cidel Pelagis in autondo de consule domno Sesnando_. (Livro Preto da S de Coimbra f...) Aqui _atondo_ significa servio (_no servio do conde Sesnando_) ou retribuio por servio, mas temporaria, por isso que os bens se doam depois hereditariamente a outro. Documento hoje publicado nos _Portugali Monumenta Historica, Diplomata et Chart_, Pars. 1.^o N.^o 770. [83] Pag. 7. [84] Pag. 12 e 13. [85] surda aure cum inimicis summi Dei amicitias conligamus, et placentes eis nostrae fidei derogamus--Quotidie opprobriis et mille contumeliorum fascibus obrupti, persecutionem nos dicimus non habere--Christianos contra fidei suae socios, pro regis gratia et pro vendibilibus muneribus et defensione gentilium praeliantes, non maledicimus nec detestamus, sed religiosos pro vero Deo certantes anathemate percutimus et infamamus--Nonne ipsi qui videbantur columnae, qui putabantur ecclesiae petrae... nullo cogente... Dei martyres infamaverunt? Nonne pastores Christi, doctores ecclesiae, episcopi, abbates, presbyteres, proceres et magnates haereticos eos esse public clamaverunt?--Dm enim circumcisionem ob improperantium ignominiam devitandam... cum dolore etiam non medio corporis exercemus--Et dm eorum versibus et fabellis mille suis delectamus, eisque inservire, vel ipsis nequissimis obsecundare etiam premio emimus... ex inlicito servitio et execrando ministerio abundantiores opes congregantes, fulgores, odores, vestimentorumque, sive opum diversarum opulentiam, in longa tempora nobis filiisque nostris atque nepotibus praevidentes,--ob honores saeculi fratres cum crimine regibus impiis accusamus,.. inimicis summi Dei ad occidendum gregem Domini gladium revelationis porrigimus, ducatumque eorum et ministerium ad ipsum facinus exercendum pecuniis emimus.--Nonne omnes juvenes christiani, vultu decori, linguae disserti, habitu gestuque conspicui, gentilitia eruditione praeclari, arabico eloquio sublimati, volumina chaldaeorum avidissim tractant, intentissim legunt, ardentissim disserunt?--linguam suam nesciunt christiani, et linguam propriam non advertunt latini, ita ut omni Christi collegio vix inveniatur unus in milleno hominum numero, qui salutatorias fratri possit rationabiliter dirigere litteras, et reperitur absque numero multiplex turba qui erudit chaldaicas verborum explicet pompas. _Alvar. Cordub. Indicul. Lumin. passim._ [86] ille dixit quomodo fuit suo avolo Ezerag de Condeixa, et quando filarunt mauros Colimbria fuit ille Ezerag ad Farfon ibn Abdella et fecit se mauro et petibit XXX.^a mauros de arragaza et metivit illos in matos et dixit ad illos christianos de illas villas exite gente benedicta quia jam pace filavi cum mauros et exibant de illos matos et populabant illas villas et exiebant illos mauros de illos matos et levarunt eos ad Sanctaren et venundabant eos et fecerunt in illos VI haretas de argento et inderenzarunt illos ad Cordova cum carta de Farfon et cum isto ganato, et petivit illos molinos de Forma et alias villas multas et donavit illos. Almanzor: _Lib. Testamentor. f. 76 v._ [87] Na freguesia de S. Martinho, aldeia de Valloura, districto de Aguiar de Pena, havia 3 casaes, cujos moradores, alm de outros onus, tinham o seguinte: _et vadunt in mandatum ad Legionem, ut sciatur per ipsos quid facit rex legionensis_: Inquiries de 1220: Liv. 5 de D. Diniz f. 118 v. [88] Pag. 19 e 20. [89] Pag. 124 e 153. [90] Pag. 12. [91] La Russie, Lettre X. [92] Pag. 15. [93] Pag. 44 e segg. [94] Hist. de Port., T. 4, pag. 336 e 482. [95] Doao de Diogo Olidiz a Tructesindo Gutierriz da igreja de S. Marina: damus ad vobis illa pro plagas et feridas malas que cemus (_sic_) ad vestros malados, et non abuimus unde illas pectare: Doc. original do mosteiro de Moreira de 1075 no Arch. Nacional. [96] Liv. 1, Tit. 7, l. 2. [97] Qui conductarium alienum occiderit dominus ejus accipiat inde homicidium. Similiter de suo ortolano et de suo quartario et de suo molendinario et de suo solarengo. [98] Et homo de Nomam qui suos homines habuerit in suis hereditatibus, aut sui vassali fuerint, et aliquis illum mactaverit, suus senior colligat inde homicidium: For. de Numo de 1130. [99] ...... peccato impediente battivimus vestro junior, nomine Froila, cum alios meos galiasianes... et pervenit ipse Froila de ipsa badtedura ad mortem, et pro ipso homicidium abui vobis ad dare in judicato quinque boves, et pro ipsis quinque boves incommunio vobis pro medio &. Est. de las Person., pag. 15. [100] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 130 e seg. [101] Hist. de Port., Vol. 3., Nota final XVI. [102] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 126. [103] Pag. 2. [104] Liv. 5, tit. 4, l. 13. [105] Liv. 2, tit. 4, l. 5. [106] Pag. 160 [107] A confuso, na phrase, entre o colono e o predio, tomados um pelo outro, confuso que sobretudo se deduz claramente das singulares expresses _homem inteiro_, _meio homem_, etc. apparece ainda s vezes nos nossos monumentos do seculo XIII. Nas Inquiries da terra de Faria, feitas naquella epocha, l-se, por exemplo: S. Leocadia de Pedrafurada: homines de ista collacione solebant pectare vocem et calumniam, sed modo non pectant nisi quinque homines et medium qui dant annuatim singulas gallinas, et _medius homo_ dat mediam gallinam: et ista casalia... dant vocem et calumniam et singulas gallinas et duos, duos solidos, tribus vicibus in pedida, sed _medium casale_ medium forum facit. Inquir. d'Affons. III, L. 7, f. 14 v. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ |#pg. 21| a a que | a que | |#pg. 36| aggressses | aggresses | |#pg. 50| encarnada | incarnada* | |#pg. 106| esse inveno | essa inveno | |#pg. 137| instinctos | intuitos* | |#pg. 157| desprezados | desprezadas* | |#pg. 160| de | do* | |#pg. 171| as creana | as creanas | |#pg. 187| giria | gira* | |#pg. 191| pena | penna* | |#pg. 249| ?uccessores | successores | |#pg. 287| da | de* | |#pg. 288| prudente | precedente* | |#pg. 292| conpio | condio* | | | | | |#nota 80| celebran | celebrantes* | +----------+---------------------+----------------------+ * correces feitas com base na errata do prprio livro. Aspas foram adicionadas nos locais onde deveriam existir: (#pg. 50: delles. Para) O nmero da nota de rodap #55 (#pg. 202) encontra-se omitido na obra, tendo sido acrescentado neste e-book. Variantes da palavra "mussulmano" foram mantidas de acordo com o original. End of the Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03, by Alexandre Herculano License: Share Alike