Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha OPUSCULOS TOMO IX Proprietrios e editores: Jos hastes & C.^a--Typographia da Antiga Casa Bertrand, Rua du Alegria, 100--Lisboa, 1909. Opusculos POR A. HERCULANO TOMO IX LITTERATURA TOMO I *Antiga Casa Berfrand--JOS BASTOS & C.^a--Livraria Editora* 73, Rua Garrett, 75--LISBOA Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termos do ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889, mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro do mesmo anno. ADVERTENCIA Na colleco dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda at hoje no estava representado um dos grupos em que elle a dividiu--o de litteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com a probabilidade de ficar isolado na diviso a que pertence. Os avulsos litterarios do nosso escriptor no so todos da mesma ndole. Com alguns d'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appenso ao grupo dos romances e lendas e que est prompto a entrar no prlo. Foi depois d'esta seleco que passmos a apurar entre os demais os adoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os que constassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios. Nestas condies a obra do escriptor era bastante para que elle tivesse calculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, se aproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce que sendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litteraria do auctor, elle proprio dizia tencionar acompanh-los de um exame retrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara. tambm o que se deduz do plano geral da publicao exposto na advertencia do tomo I. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que o auctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso de espirito, no achmos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos artigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correces de linguagem, das quaes introduzimos nas cpias enviadas para o prlo as de immediata intelligencia. E ainda essas correces, to leves que ho-de passar despercebidas, seriam apenas preparativos de reviso, segundo o methodo adoptado pelo auctor,--meros signaes para marcar os logares e lembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes os motivos pelos quaes provavel que tenhamos de limitar-nos ao presente tomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aos elementos que ficam de reserva, no venham de futuro junctar-se outros que por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimento do grupo. Dada, porm, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo, conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasi constituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, sem embargo da falta de ampliaes que haviam de enriquec-lo; como que as generalidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a lio sobre litteratura patria. E no admira que assim succeda attendendo relao ntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foram escriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano a encaminhar por meio d'elles a revoluo litteraria que nascera para ns com a recente mudana de instituies politicas e que, sob o ponto de vista poetico com intenso brilho fra iniciada por Almeida Garrett, com os dois poemas _D. Branca_ e _Cames_. D'ahi a feio doutrinal e harmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza e variedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outros privilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossas letras que desde ento se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentos vem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com que elle os precedeu e os acompanhou, naquella esperanosa epocha de revivencia nacional. Nas paginas que precedem os artigos vo indicadas as datas em que estes vieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde j convm advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal _O Repositorio Litterario_, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835 na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nos dois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vinte combates do crco da cidade, em todos em que interviera o glorioso batalho a que pertencia de _Voluntarios da Rainha_. Segundo resam formais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nunca desmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armas exemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o crco despia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a lucta pelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperados conhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campo das idas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, se ajuizar da originalidade e vigor com que deu comeo propaganda exposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral da nossa litteratura naquelle periodo de transio, visando norte-la luz das novas aspiraes e exigencias sociaes, e nas varias frmas em que ella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, e como se o auctor j ento quisesse dar medida do poderoso engenho analytico de que era dotado, ao passo que vai explanando com extraordinaria erudio e lucidez a famosa questo dos classicos e romanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma alta poetica de concepo propria, com o pensamento de afastar o genio nascente das aberraes de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiar para a fecunda desenvoluo litteraria em que meditava. A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas do Repositorio, com a descripo das escholas de ensino elementar da Prussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e que no mais abandonou, em prol da instruco popular. Provocando o confronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade das nossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo em relevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir os destinos da nao, o maior dos obstaculos que tinham a vencer para assegurar o bom exito das instituies liberaes. O absolutismo politico fra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepes legislativas, arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lanar novas e grandes idas, de suggestionar os espiritos para que sobre os escombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdade e da civilizao. Era com o profundo sentimento, a nitida viso d'esta imperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava como propagandista no memoravel periodico portuense. _Maio de 1907_. O coordenador. Qual o estado da nossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje tem a seguir? *REPOSITORIO LITTERARIO* 1834 Qual e o estado da nossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje tem a seguir? Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confisso da decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores, exporemos a serie das nossas idas sobre este duplicado objecto. A convico de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um erro na Italia, que, extendendo-se Hespanha e a Portugal, transviou da legitima direco todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores classicos e modernos, que j nesse tempo illustravam a Europa: viu-se que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade, e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idas esqueceu e s se olhou para as frmas: sombra d'esta mania prosperavam os conceitos e as agudezas, chegando as letras a car numa barbarie, que tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilizao litteraria j exaggerada. _O Zodiaco soberano_, _Os crystaes d'alma_, _A Fenix renascida_ e outros muitos escriptos d'esse tempo, so lamentaveis monumentos da corrupo de gosto a que chegou Portugal no principio do decimo oitavo seculo. Porm o mal no foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver as letras severa singeleza das puras frmas da Grecia. Muito ae deve a Garo, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados poesia chamada pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo que bebera na eschola, em composies nas quaes era mui facil introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garo tentaram o mesmo genero, em nosso intender, Dinis no foi emulado. Capaz de todos os tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis exemplos, e as suas dissertaes sobre a poesia campestre so dictadas por um grande conhecimento da arte, ainda que no excedam em merecimento theorico as annotaes de Gomes s proprias poesias, nem os trabalhos de Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de Aristoteles e Horacio. Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de Jos I olhou as letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim o caracter das duas litteraturas a confuso dos principios absolutos com os de conveno. Cingindo-se quasi cgamente auctoridade dos antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia illimitada a alheias opinies contribuiu muito para a posterior decadencia. A impertinente questo dos archaismos e neologismos veiu tomar o logar das discusses da Arcadia e essa occupao dos meios talentos e da meia instruco, influindo sobre objectos mais importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou s suas poesias, fossem dedicadas a _coisas_, quo ricas messes ns colheriamos do saber d'este homem! Mas infelizmente no foi assim, e a polemica suscitada sobre o merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle vomitou o orgulhoso auctor do gelado _Oriente_, mostraram a que mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta, porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre ns, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do to grande quanto infeliz Cames ainda resta a fazer, apesar da abundancia de escriptos que sobre este objecto se publicaram. Emquanto assim entre ns a critica se apoucava, um sentimento vago de desgosto pelas antigas frmas poeticas, a influencia da philosophia na litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas inspiraes num mundo de idas mais analogas s dos nossos tempos, e emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, comearam a crear na Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones classicos. A Alemanha foi o foco da fermentao, e foi l que os principios revolucionarios em litteratura comearam a tomar desde a sua origem uma consistencia, e a alcanar uma totalidade de doutrinas methodicas e consequentes, no dada, ainda hoje, ao resto das naes. L no havia a luctar com a gloria nacional para a introduco de novas idas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz no honravam demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV, impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram comeo revoluo ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton de Racine e de Boileau; comtudo as opinies na Alemanha teem-se desviado, em parte, d'esta direco e as idas de Schlegel j teem reagido na sua tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram origem. Na Frana o antigo systema, amparado pelo renome de muitas produces immortaes, disputa ainda a campanha s innovaes que entre esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e monstruoso. Mas a Portugal no coube o figurar nesta lide. A parte theorica da litteratura ha vinte annos que entre ns quasi nulla: o movimento intellectual da Europa no passou a raia de um pas onde todas as attenes, todos os cuidados estavam applicados s miserias publicas e aos meios de as remover. Os poemas _D. Branca_ e _Cames_ appareceram um dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os annunciassem, um representando a poesia nacional, o _romantico_; outro a moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo s vezes o caracter meridional de seu auctor. No para este logar o exame dos meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar que elles so para ns os primeiros e at agora os unicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a de nossos maiores. Comtudo, no existindo ainda um s livro sobre as letras consideradas de um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma s voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus infieis commentadores, ser impossivel emittir um juizo imparcial sobre escriptos de similhante natureza. Julg-los por frmas que o poeta no admittiu, ser um absurdo, emquanto se no provar a necessidade d'essas frmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, s pode ser resultado de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos eruditos, vendo offendida a _inviolabilidade_ de um tropel de preceitos que julgavam imprescriptiveis, s daro ao genio nascente o sorriso do desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opinies contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes no conhecem, faro que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem ultimamente manchado a mais bella das artes na Frana e na Inglaterra. Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e serviria ao mesmo tempo de dar impulso s letras. Em Portugal ainda ha homens cheios de vasta erudio, de philosophia e de genio. Tyrannias mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na obscuridade de que devem sar, agora que se no receia a instruco, agora que os resguarda a egide da lei. Ns no desejariamos, porm, que uma tal obra fosse puramente orgo d'esta ou d'aquella eschola; d'este ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados de boa f e sem acrimonia: a intolerancia em idas politicas ou religiosas odiosa; em materias scientificas ridicula. Se coubesse nas nossas diminutas foras um trabalho de tanta magnitude, ns comeariamos por discutir qual o objecto da poesia, e d'esta questo nos parece que j se tirariam importantes resultados, e que as duas caracteristicas--o _icastico_ e o _ideal_--que distinguem as tendencias do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois na resoluo de varios problemas que se nos apresentariam na serie das nossas indagaes. O exame das differentes theorias sobre o bello e o sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que deveriamos emittir uma opinio absoluta e exclusiva: no resto respeitariamos as opinies de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo em que ellas se no oppusessem aos principios geraes. Indagando a historia da poesia nos diversos tempos e naes, v-la-amos depois da queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico, d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na Frana e nas duas peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime gigantesco do septentrio: achariamos essa originalidade nascente da litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome, foram sendo enxertadas em idas, em preceitos modernos: encontrariamos, finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual litteratura. O quadro das novas opinies nas suas variedades todas, as vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina que determinasse as propores essenciaes da futura poesia portuguesa, completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as produces das differentes eras e das differentes escholas, em relao ao seu genio particular, e philosophia geral das letras. Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou invectiva; outro a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a invoc-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os grandes interesses das naes nos congressos ou na tribuna popular. Foi a estas trs classes que elles reduziram a oratoria, diviso que ainda hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, ns respeitaremos em nossas reflexes. Em Portugal, onde a representao nacional no existia, onde os tribunaes eram fechados s defesas oraes e aos juizos publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora contradictoria, ora obscura legislao, e numa dialectica as mais das vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario no tinham quasi applicao: ficava smente a eloquencia dos panegyricos para o orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de interesse pessoal no podiam sair da bocca do orador acompanhados das inspiraes do enthusiasmo; e sem convico e persuaso propria no se pde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia sagrada nunca pde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que no divague do seu objecto--a moral religiosa. O fim da eloquencia persuadir; para isto no s necessario mover os affectos, mas tambem obrigar a razo. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre as naes civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christo. O incrdulo no vai ouvir sermes, e o orador que empregasse uma logica severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem d'isso est de antemo convencido, obraria com tanta impropriedade, como se o missionario diante de homens de diversa crena buscasse to smente mover os affectos sem falar razo. O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de dizer. So elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanas da imaginao, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que so elles modelos? , justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio se contm na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone no preencheu, nos discursos em que se lanou no abysmo dos mysterios, o objecto da arte: esta dirige-se vontade, pela aco; e a defesa metaphysica bem que eloquente dos dogmas christos no requer aco alguma. Bossuet est no caso contrario: para que as suas oraes tenham effeito necessaria a f. O homem indifferente em materias de religio, e que no possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormir tranquillamente leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica ou olynthia de Demosthenes far sempre impresso em todo o homem que tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pdem oppor sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, no sendo possivel o entrar aqui numa questo bastante vasta que estas reflexes no comportam, lembraremos s aos leitores que ns consideramos os panegyricos e os sermes de controversia como alheios do pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta natureza: _J'avoue_, diz elle, _qu'il est trs-rare de pouvoir suivre cette marche didactique dans nos chaires, o les discussions morales ne sont jamais problmatiques, et o la conscience, qui ne ment jamais, ne saurait contester la vrit ses remords_. O que entra justamente na ordem de nossas idas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito constitutivo da eloquencia sagrada. Voltando ao nosso pas, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em Portugal cultivada, s um orador deixou pela estampa monumentos dignos de exame, se attendermos fama popular que para seu auctor grangearam: j se v que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idas, e sobre tudo a essa instruco perfunctoria que comea a invadir a capital e que mais damnosa s letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da sublimidade de Bossuet, sem a unco de Fenelon, sem a profundeza de Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade, ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda soar na posteridade, no ser para as suas cinzas um bafejo consolador de gloria. Porm no a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa atteno: ella tem sido o luxo da religio, e ns desejamos v-la substituida por meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral do evangelho no precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero; e a religio practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais eloquente para insinuar a moral do Crucificado. Antes de passar avante occorreremos a um reparo que faro os leitores: o de no falarmos sobre a eloquncia desenvolvida nas crtes da nossa primeira epocha de liberdade, que frma uma excepo de quanto dissemos sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso razes, e talvez a principal seja o quo longe nos levaria o exame de alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da nossa patria que ento appareceram mui grandes homens, e que desejariamos ver publicar uma escolha das opinies e relatorios ento ventilados, maneira do que se fez em Frana das oraes dos representantes nacionaes desde o principio da revoluo. , portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia e persigam o crime nos tribunaes j publicos, que o estudo e ensino d'esta parte da litteratura se deve dedicar: assim que ns fariamos da essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de um curso litterario, tocando apenas de leve quanto formal na arte e que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis principalmente aos generos judiciario e deliberativo em relao nossa situao politica. Para isto seria do exame da eloquencia nos differentes tempos e logares, que ns partiriamos em nossas indagaes: veriamos Demosthenes, trovejando na tribuna, armado da razo e da indignao, admiravelmente conciso e misturando com esta conciso os sublimes movimentos do patriotismo, arrastar aps si a opinio das multides; veriamos Cicero defender os seus clientes, tractar os mais importantes negocios da republica quasi sempre com uma gravidade e eloquencia estudadas: na historia da oratoria moderna achariamos a vigorosa razo de Mirabeau acompanhada de um estylo raras vezes rasteiro; achariamos nos discursos de Maury os mais bellos monumentos de uma eloquencia mascula mas tranquilla; e, finalmente, o frenesi inspirado pelo amor s velhas frmas do absolutismo nas oraes de Montlosier: passando da Inglaterra exporiamos o genero de Pitt, genero severo, renovado hoje por Makintosh e Burdett, a que succedeu o igualmente nervoso, porm mais cheio de artificio, de Burke, Sheridan e Caning, e o genero medio de Fox, terminando assim o exame das fontes verdadeiras da eloquencia. Seria a d'esta ultima nao que ns proporiamos como principal modelo sem exceptuar comtudo as outras. Entre os gregos, romanos, e franceses ha muito que aproveitar; mas, se verdade que a litteratura em parte depende de certa harmonia com as circunstancias de cada povo, nenhuma eloquencia mais digna para ns d'estudo do que a inglesa. Nem entre os antigos, nem na republica francesa, ella estava na mesma relao com as instituies sociaes que vai a estar na nossa patria. O orador, na discusso de uma lei perante a plebe, que deve votar sobre ella ou influir na votao, como acontece no calor das revolues, tem de usar de meios differentes dos que hade empregar para a impugnar ou defender em uma camara, cujos membros so, ou devem ser, os mais conspicuos da nao por suas luzes e virtudes. No primeiro caso os raciocinios convem sejam acompanhados dos meios formais da arte para dirigir as paixes populares; no segundo, expostos a homens que conhecem a arte to bem como o orador, sem alcanarem o seu effeito, os artificios s attrahiriam sobre elle a suspeita de m f: isto sem pretendemos dizer que elle discuta com a secura de um geometra as questes do publico interesse; porm os seus movimentos devem surgir sinceros de um corao intimamente commovido e de nenhum modo dar a conhecer que foram tranquillamente calculados pelos preceitos de Quintiliano. Entre os romanos, a pequena poro de leis que havia ainda nos ultimos tempos da republica e o espirito de generalidade a que se limitavam, dava motivo a que nas causas particulares o advogado ou accusador de qualquer ro buscasse despertar a compaixo ou a sanha dos juizes, de quem muitas vezes era guia unica o senso commum e a moralidade, na falta de disposies preceptivas, e apesar da similhana dos tribunaes civis e criminaes de Roma com os nossos modernos jurados, existe entre ns e elles uma differena enorme por causa das circunstancias legaes. Hoje, entre os povos livres, ha, ou deve haver, um codigo que previne todos os casos com clareza e exaco, e o mister do orador reduz-se a provar se o seu cliente est ou no no caso da lei: ento todo o pleito dever ser uma questo de factos provados ou provaveis, e vice-versa. D'aqui se colhe quo sobrio elle deve ser empregando os meios que lhe ministra a arte. Clareza, ordem de idas, logica severa, eis os meios principaes da eloquencia do fro e das camaras legislativas. Tal o rpido quadro do nosso modo de pensar sobre a actual litteratura portuguesa, e sobre os meios de a dirigir. As curtas reflexes que temos feito sobre a poesia e a eloquencia so as bases em que julgamos dever-se fundar um curso de litteratura, que serviria como de introduco aos estudos mais profundos do poeta e do orador. Oxal que d'entre os nossos litteratos algum se encarregue d'esta util e importante tarefa. POESIA Imitao--Bello--Unidade *REPOSITORIO LITTERARIO* 1835 POESIA Imitao--Bello--Unidade Je donne mon avis non comme bon, mais comme mien. Montaigne. Na torrente de opinies contrarias sobre a critica litteraria, que na presente epocha combatem, morrem, ou nascem, tambem ns temos a nossa: e vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos principios em que se fundam os differentes systemas, procedem essas questes que se teem tornado interminaveis talvez por esse unico motivo. O genio, impellido a produzir no meio de idas vagas e controvertidas sobre as frmas, as condies da poesia, julga que todas ellas so indifferentes e desvairado se despenha; o engenho, dominado pelos preceitos que muitos seculos por assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca as suas produces temendo cair naquillo que julga monstruoso e absurdo. Tal , geralmente, o estado da litteratura: e emquanto se no estabelecer um corpo de doutrina que, afianando a liberdade do poeta, o circumscreva aos limites da razo, a republica das letras similhar as associaes politicas no meio de uma revoluo espontanea onde o despotismo extremo e a extrema licena, os terrores e as esperanas, a felicidade e a desventura, se cruzam, se arruinam e se anniquilam no meio de uma confuso espantosa. Os que conhecem o estado actual das letras fra de Portugal, na Frana, na Inglaterra, e ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Trememos ao pronunciar as denominaes de _classicos_ e _romanticos_, palavras indefinidas ou definidas erradamente, que smente teem gerado sarcasmos, insultos, miserias, e nenhuma instruco verdadeira; e que tambem teriam produzido estragos e mortes como as dos _nominaes_ e _reaes_, se estivessemos no XVI seculo. Infelizmente em nossa patria a litteratura ha j annos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraa publica: mas agora ella deve despertar, e despertar no meio de uma transio de idas. Esta situao violenta, e muito mais para ns, que temos de passar de salto sobre um longo prazo de progresso intellectual para emparelharmos o nosso andamento com o do seculo. Se as opinies estivessem determinadas, o mal ainda no seria to grande; mas num chos que nos vamos mergulhar e do qual nos tiraremos talvez muito depois de outras naes. A influencia da litteratura estrangeira torna necessario este acontecimento, se aquelles a quem est encarregada esta poro do ensino publico no tractarem de estabelecer uma theoria segura que previna tanto o delirio d'uma licena absurda como a submisso abjecta que exige certo bando litterario. Sabemos as difficuldades que tal trabalho encerra; porm o amor da lilteratura vencer todas quando ajudado do estudo e do genio. As reflexes que ora apresentamos so fructo de uma parte de nossas meditaes sobre tal objecto. Desejariamos t-las podido coordenar todas e estabelecer melhor algumas; mas trabalhos, posto que litterarios, de differente especie, impostos por um dever, nos distrahiram do nosso desenho. Offerecemo-las aos eruditos para que tendo alguma utilidade a aproveitem e sendo damnosas acautelem d'ellas aquelles a quem podem ser nocivas. Ns nos envergonhariamos mais de ter acertado com leveza do que de ter errado pensando. Talvez alguem as julgue em demasia abstrusas; mas, ou o bello, objecto da poesia, seja inteiramente resultado das relaes das nossas faculdades intellectuaes entre si, ou das d'estas faculdades com o mundo objectivo, ou, finalmente, resida neste, sempre a alma do homem quem o sente e goza. Para ns a sua existencia depende da nossa; e a metaphysica influir sempre em qualquer systema que sobre tal objecto venhamos a adoptar. Tem-se dito, e mil vezes repetido, que preciso para que a litteratura floresa afast-la d'esta sciencia: isto equivale a dizer-se que para os ramos de uma arvore se conservarem virentes mister decepar-lhe o tronco principal. Na poesia ha essencia e frmas: estas devem convir quella, ou, diremos melhor, d'ella devem partir. Sem levar o facho da philosophia ao seio das artes, sem examinar a essencia d'estas, as theorias formaes ficam sem fundamento; e justamente o que tem acontecido. Seguiu-se quanto a ns, methodo inverso ao que devera seguir-se, e um grande mal d'ahi resultou: a fluctuao dos principios, e consequentemente dos juizos criticos. Todos sabem das controversias de Boileau e seus sectarios com Perrault, Lamotte, e ainda Fontenelle e Huet; mas o que nem todos sabem que muitas vezes os ultimos tinham razo. E se possivel entender uns e outros, veremos que o arruido nascia da incerteza ou da contradico dos preceitos, o que nunca succederia se a poetica estivesse fundada em principios metaphysicos em que ambos os bandos conviessem. Mas qual era a consequencia da versatilidade das regras e das suas contradices? O fazerem homens, alis engenhosos, os juizos mais contradictorios sobre a mesma coisa, e haver uma falta de consciencia em todos esses juizos que salta aos olhos. A critica tomou naquella epocha um caracter mesquinho e pedante. Nem acreditemos que esse mesmo Boileau, to gabado pelos seus franceses como homem de summo gosto e fino tacto, sobrelevasse muito outros seus contemporaneos. A falta d'esse gosto e d'esse tacto achamos ns numa carta a Brossette acrca do Telemacho. Esta grande creao de um dos maiores genios do seculo (perdoem-nos os admiradores do inquisitorial e raivoso Bossuet) foi comparada pelo autocrata litterario da Frana com o romance de _Theagenes_ e _Chariclea_ de Heliodoro bispo de Tydea, romance obscuro escripto na decadencia do imperio romano e da antiga litteratura: bastava esta carta para sabermos o peso que deviamos dar s decises de Despreaux, quando nas suas poesias no encontrassemos j para isso erradas opinies acrca do Quinault e do Tasso. A historia da critica em Frana no reinado de Lus XIV e de Lus XV, e que tambem o com pouca differena da que vogava em Inglaterra durante o governo de Anna, se reduz a que, se um poeta ousava apartar-se das frmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a estimao publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar, se no a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a votar ao desprezo as produces do genero moderno. A opo no era duvidosa; as regras sempre tinham razo; mas como ante o tribunal da opinio era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre l se achava com que contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos no controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos seculos sem dar razo da sua existencia, bem como em nossas cathedraes os conegos sombra do culto religioso. A justia pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra, representa para ns o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a consciencia da immortalidade; mas a applicao d'este principio foi em nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos poemas dramaticos, e ns veremos brevemente que nem s essa unidade carecia de fundamento: porm, a fra das regras nascidas d'este principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta negar-lhes a validade. Que razo daria Horacio, tirada da essencia do tirania, para uma tragedia ou comedia no ter nem mais nem menos de cinco actos? Julgamos no teria outra melhor do que uma dada engraadamente pelo auctor do _Anno de 2440_ em nota a um dos seus dramas.[1] Ns devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma ingratido neg-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de esplendor admiravel; mas por as crear e aperfeioar no se deve concluir que acertaram em tudo ou tudo sabiam. Ns no dizemos com Mr. de Chateaubriarid que em litteratura s devemos estudar os antigos: Cames, Tasso, Klopstok no nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O mesmo Mr. de Chateaubriand uma prova de que o genio no partilha exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras a admirao pelos auctores classicos no deixou ver seus defeitos e erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de idas que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indagaes, largos annos de applicao davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos Aldos e aos Stephanos, a no verem uma s macula nos objectos caros que elles revelavam Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos remotos, emquanto as sciencias comeavam a fazer justia e a dar o seu a seu dono, o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que com repugnancia explicariamos. Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso recorrer s razes mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino, era obrigatorio defend-las sob pena de ser havido por ignorante ou por homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que s a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta proposio (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da vaga distinco do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e muita gente, comeou a applic-la por esse mundo poetico; mas embicou logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque recedunt_ recalcitrava, alm de outros, contra a sentena do mestre. Que fez o bom rio padre?--Zs--Uma razo digna de Fr. Gerundio: O verso de Virgilio exprime uma ida verdadeira, porque ha ahi uns annos descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de passar inconcussa: o verso e bello porque verdadeiro. Se fosse possivel um padre grave ludibriar o publico, ns diriamos que elle estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes so as miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos; mas voltemos ao nosso objecto. Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imitao do bello da natureza, tendo por condies a unidade e a verdade, ou a verosimilhana. esta em nossa opinio a maneira mais simples de exprimir a philosophia da arte entre elles, ou os elementos da sua poetica, os quaes o continuaram a ser at nossos dias. , pois, o valor dos termos _imitao_, _bello_, _unidade_, _verdade_ ou _verosimil_, que cumpre determinar para ver se as idas que exprimem esto em harmonia entre si, e se podem dar validade a uma poetica nellas fundada. A imitao suppe o bello em a natureza moral ou physica, e qualquer d'ellas existente fra de ns. Os actos humanos sero na primeira, digamos assim, o _substractum_ da imitao: na segunda s-lo-ho os corpos, e o bello nos ser communicado por meio das sensaes: qualidade dos corpos, frma das aces, naquelles a sua impresso ser universal, nesta nunca necessaria. O europeu, o chim, o hottenlote sentiro egualmente que o Apollo de Belvedere bello: a aco dos templarios cantando hymnos a Deus no meio das chammas, e cuja morte Mr. Rainouart pintou divinamente num s verso: Il n'en etait plus tems, les chants avaient cess. nunca ser nessariamente bella: se elle a imitou de um acto humano similhante, esse acto sendo contingente parece-nos no teria qualidade dotada de caracter necessario: se applicarmos isto a uma aco pica ou dramatica, ainda mais visivel a falta de necessidade da sua existencia e consequentemente a dos seus caracteres formaes. Se dissermos que o bello relativo e resultado do nosso modo de ver, da relao particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos tactos com as nossas idas moraes, nesse caso no poderemos affirmar que os _Lusiadas_ ou a _Odyssea_ sejam absolutamente superiores ao _Affonso_ ou ao _Viriato Tragico_. Poderemos dizer que para ns no ha sequer comparao; mas seria absurdo exigir dos outros o mesmo sentimento. Boileau julgou esquivar-se a esta difficuldade asseverando que a opinio geral devia ser a norma do nosso modo de sentir, e que a totalidade dos homens no se engana numa crena duradoura. Desejariamos que Boileau nos dissesse se era pela opinio geral que elle acharia frio o gelo e quente o fogo. Que nos importa a opinio quando se tracta de sensaes? Que vale mesmo aos olhos dos homens cordatos o credito de uma opinio geral? Cremos ns hoje na arte mgica, na alchymia, ou na virtude dos Jesuitas? E foram estas crenas porventura pouco geraes e pouco duradouras? Quando concedessemos o principio, elle nos seria inutil para julgar as produces contemporaneas, e a critica no nos serviria para conservar puras as letras, nem para gozar as creaes do genio moderno: a gloria ou o desprezo no encontraria j nem as cinzas do poeta. Seculos haveriam passado para reformar a opinio, quando isso mesmo fosse possivel. Mas felizmente no assim. Lamartine! com uma poesia celeste tu fazes adorar a religio que saudaste em teus hymnos solitarios. Monti! tu nos encheste de um terror delicioso conduzindo-nos aos umbraes do outro mundo. Schiller! quem no sentiu bater mais fortemente o corao lendo a despedida de Picolomini e Thecla? A infancia do seculo XIX j tem muitos titulos com que faa passar sua memoria enobrecida deante dos outros seculos. Elles julgaro como ns os genios que no meio das tempestades politicas consolaram o genero humano com a harmonia de seus cantos. Acrca de Lamartine, de Monti, de Schiller, e no s d'elles, ns damos seguro da posteridade. Tal o bello para quem o julgar em sua modalidade necessario e absoluto: uma ida opposta repugna e nos afflige: ns queremos que todos os tempos, todos os homens o julguem e gozem como ns, e diremos sem hesitar, o que no for de nosso sentir ou carecer de gosto ou o ter pervertido. esta circumstancia da necessidade do nosso juizo sobre o bello que distingue inteiramente este do agradavel.--Do primeiro ns affirmamos a existencia, do segundo a sua relao comnosco. O quadro da morte da Clorinda na Jerusalem Libertada bello, e que deixe os poetas aquelle que tal no o julgar. Um pomo saboroso para ns agradavel, talvez para outrem o no seja, o que nos indifferente. No primeiro caso julgamos; no segundo exprimimos a ida da relao particular entre ns e o phenomeno. A que reduzirio Burke e Delaunay a maxima parte do que escreveram sobre o assumpto se tivessem reflectido nesta differena? Poria um porventura os elementos do bello nas linhas curvas e no macio e t-lo-ia outro dividido geographicamente como se dividem as raas humanas? Estamos persuadidos que no. A incerteza acrca do criterio do bello no o unico resultado do principio da imitao: elle tambem est em contradico com o da unidade: esta debalde se procuraria nos corpos: as partes do universo coexistem; mas individualmente, e entre individuo e individuo medeia um abysmo que rigorosamente falando ns no podemos eliminar: generos, especies, familias, causas e effeitos necessarios so frmulas do entendimento; so como lhes chama Ancillon muletas da intelligencia. Se procurassemos a fugitiva unidade do total do Universo l mesmo ella seria para ns a nuvem de Ixion. Com effeito, sendo impossivel imaginao acabar a synthese dos phenomenos, ella disse quando cansou--isto o universo--; mas teem acaso os objectos que produziram essa ida uma ligao absoluta e una entre si?--No: a mente faz uma abstraco similhante que faz a historia natural deduzindo dos individuos generos, especies, familias. O Universo no seno a repetio indefinida da individualidade. Parece-nos, pois, que foroso ou abandonar a imitao do mundo physico, ou no exigir a unidade nas imitaes d'este genero. Outras razes existem para provar que a mesma difficuldade apresenta a conciliao dos dois principios no mundo moral; mas ns guardamos essas reflexes mais complicadas para quando voltarmos a este assumpto, temendo ser por agora tachados de prolixos. Do que temos dicto concluimos que o bello das imagem, o bello chamado physico no existe nos objectos porque a unidade e a necessidade da sua existencia seriam destruidas; mas sem estas duas condies o espirito no o admitte. , pois, em ns, no mundo das idas que o devemos buscar. Um typo independente do que nos crca, deve existir, com o qual a faculdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem particular. _Eu_--_No eu_, eis o circulo das existencias, os dois nomenos fra os quaes nada concebemos. Mas ns admittimos o necessario e o uno sem o encontrarmos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles residam em ns como frmas da intelligencia. visivel que um typo preciso para julgar o bello: sem elle as artes plasticas seriam impossiveis. As comparaes entre os objectos no podem jmais estabelecer regras invariaveis de gosto, e ellas suppem j uma comparao anterior. Quando comparamos dois objectos, um bello outro no, o unico resultado que tiramos d'ahi ver que so desimilhantes: mas por que modo agrada um, outro repugna? sem duvida porque um harmoniza com uma ida, bem que indeterminada, e outro se oppe a ella. Ser este typo resultado da experiencia? Cremos que no. Onde existe o typo da Venus de Medicis, de Laocoonte, ou de Marco Sexto? Quem se pde gabar de o ter encontrado na natureza? Elle existia na mente dos artistas: as idas d'estas creaces foram para elles antes de ser para ns: unisonas com o seu typo, o genio as traduziu no marmore, no bronze e na tela. Dir-se-ha, em ultimo caso, que o estatuario e o pintor reuniram o bello parcial para formar o todo. Porm seria aggregado uno? Alm d'isso, no claro que para essa escolha precisavam de um guia existente na sua alma? Quem os moveu a escolher esta fronte, estes labios, este collo com preferencia a outros? Parece-nos que estas perguntas ficaro sem resposta emquanto os homens procurarem fra de si o principio vivificante das artes. Quanto ao verosimil e verdadeiro na imitao, ns faremos s alguns leves reparos, porque de outro modo seria preciso examinar as mudanas que se teem feito na intelligencia d'este principio para devidamente o apreciar, e este trabalho exigiria longas paginas. Aristoteles estabelece a differena entre a verosimilhana e a verdade, dizendo que a primeira pertence poesia, a segunda historia: que a primeira consiste nos actos consequentes de um caracter em geral, a segunda nos actos practicados por um individuo existente e determinado. D'estas expresses resulta que para a distinco do verdadeiro e do verosimil physico o critico grego no nos deixou nenhuma regra, e que no moral cessa com o verosimil a imitao: na natureza no ha seno caracteres individuaes, os geraes existem por uma ida. Confessamos nossa rudeza; no entendemos como as paixes concebidas da maneira que as concebe o genio e applicadas a um individuo, ou supposto ou historico, sejam uma imitao. Quando quisessemos exprimir esse caracter por factos, dar-lhe uma existencia real e individua, nada mais fariamos do que destruir uma abstraco por nos servirmos da linguagem sensualista. Alm d'isso, suppondo que todas as nossas idas sejam resultado de sensaes, a ida geral e absoluta de um caracter uma chimera dando-lhe validade necessaria e imprescritivel. Circumstancias particulares, opinies, em fim as _cres locaes_ viriam introduzir a confuso e a anarchia no imperio da critica. Supponhamos que os caracteres dos heroes da Hiada foram traados, segundo a opinio de Aristoteles, pela ida geral do valor, mas ns vemos esses heroes fugirem do inimigo que temem. Odoardo e Gildippe, na Jerusalem, cem sob o alfange de Saladino sem terem voltado as costas, Sueno acaba sobre os cadaveres dos seus soldados no meio dos infiis sem depor a espada, apesar de ser impossivel vencer. Quem imitou a ida geral do valor? Foi Homero ou foi Tasso? Provavelmente Homero porque mais antigo. Algum futuro commentador de Aristoteles no-lo explicar. No nos tendo este deixado a norma para julgar o verosimil physico, vejamos se Horacio occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle comeou a epistola aos Pises. Descrevendo um monstro que imaginou, convida-os a rir do quadro que lhes apresenta--e porque? D o poeta a razo--_vanae fingentur species_,--Batteux paraphraseando accrescenta--_images vagues qui n'ont point de modle dans la nature_. E assim, o que for vo, o que no tiver typo na natureza nunca ser bello. Pobre Homero! Os teus cyclopes, o teu Poliphemo, os monstros de Charybdis, emfim teus lindos sonhos devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mesmo, crapulario Horacio, querers com o teu Pegaso fazer-nos estourar de riso? Com effeito, onde existem as fices dos antigos monstros da mythologia? Quem viu um homem ou um cavallo alado como o Amor e o Pegaso? Nem se diga que a crena popular lhes tinha dado a existencia: isto so palavras que soam mas sem sentido.--Cremos que existir na intelligencia no existir no mundo real. Se a phantasia produziu estas creaes ellas no foram imitadas, logo no teem modelo, logo no so bellas; porque nos persuadimos que a mais duradoura crena nunca poder fazer que uma coisa seja o que no .--Vemos, portanto, que para a theoria do verosimil pouco se aproveita a poetica do illustre adulador de Meenas e de Octaviano. Talvez Boileau nos satisfaa. Eis o que encontramos nas suas doutas poesias a este respeito: _Rien_ n'est beau que le vrai, le vrai seul est aimable.[2] Le vrai peut quelque fois n'tre pas vraisemblabe.[3] Qual seria a concluso que tirariamos d'estas duas proposies, dispondo-as em frma de syllogismo?--Quem respeitar Despreaux no ousar faz-lo. Metastasio falando da imitao nos commentarios da poetica d'Aristoteles, nos explica em que consiste o verosimil que o imitador obrigado a conservar na sua imitao: O alvo do copista, diz elle, que a sua cpia possa substituir o original, o do imitador conservar a _similhana possivel_ do objecto sem alterar a materia sujeita da imitao. Continua depois dizendo que o _admiravel_ d'esta consiste nas difficuldades que venceu o artista: o que, em nosso entender, equivale a dizer que o bello consiste em vencer as difficuldades da imitao: lembremo-nos, porm, que por este mesmo tempo Batteux reduzia as artes a um s principio--a imitao da _bella natureza_; e louvemos a Deus pela unidade de doutrina de uma eschola que hoje com tanta arrogancia accusa de barbarismo e incerteza todos os principios litterarios que no se amoldam aos seus. Tirou Metastasio da estatuaria um exemplo para nos dar a conhecer as differenas que ha entre imitao e cpia, mas, tractando-se de poesia, seria talvez bom que nesta o buscasse. Ns o faremos por elle comparando o retrato de Gabriella de Estes por Voltaire, com o de Ignez Sorel por Chapelain.--Para os nossos leitores poderem ajuizar transcreveremos ambos: CHAPELAIN En la plus haute part d'un visage celeste, ...un front grand et modeste Sur qui vers chaque temple bouillons spars Tombent les riches flots de ses cheveux dors Sous lui... Deux yeux tincelans... sereins... Au dessous se tait voir en chaque joue close Sur un fond de lis blanc une vermeille rose Qui de son rouge centre pandue en largeur Vers les extremits fait palir sa rougeur. Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfantine, Q'une petite fosse a chaque angle termine, Et dont les petits bords faits d'un corail riant Couvrent deux blancs filets... VOLTAIRE Telle ne brillait point au bord de l'Eurotas La coupable beaut qui trahit Mnlas. Moins touchante et moins belle, Tarse on vit-paraitre Celle qui des Romains avoit dompt le maitre * * * * * Elle entrait dans cette age, hlas! trop redoutable, Qui rend des passions le joug inevitable. Son coeur n pour aimer, mais fier et gnreux, D'aucun amant encor n'avoit reu les voeux. Semblable en son prinptems la rose nouvelle Qui renferme en naissant sa beaut naturelle, Cache aux vents amoureux les trsors de son sein Et s'ouvre aux doux rayons d'un jour pur et serein. Quem duvidar que Chapelain imita uma bella mulher com a _similhana possivel_ e que no retrato de Gabriella a imaginao nada pde affigurar-se que no seja vago e indeterminado? Quem duvidar tambem que o primeiro retrato obra de um borrador e o segundo digno de Albano? Comtudo hoje reputado barbaro e extravagante quem se ri das regras da velha poetica!... Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as artes em geral e a poesia em particular foram definidas--a imitao do bello da natureza. Esse principio se achava nos escriptos dos antigos, mas confundido com a ida de que do artificio da imitao tambem resultava um prazer similhante ao produzido pelo bello. Muito devemos a estes criticos; alis, fugindo constantemente da natureza para a arte e d'esta para aquella, a velha poetica salvaria uma grande parte dos seus canones dos olhos investigadores da philosophia. Era isto misturar a noo do agradavel com a do bello. Os modernos, reduzindo a poesia imitao d'este, cairam, em nosso entender, num erro analogo confundindo-o com o bom. Diderot disse que no util consistia o bello--Watelet que o era tudo o que preenchia o seu fim. Mr. Lemercier d como causa final das letras a utilidade. Mendelssohn creu-o a expresso sensivel da perfeio, e ao seu systema similha o de Mr. Laurentie cerca do bello intellectual. Todos estes enunciados se podem reduzir ao de Mr. de Bonald--o bello absoluto synonimo de bom. No sabemos o que Marmontel e Laharpe opinaram, porque temos a infelicidade de no entender as suas deffinies. Os sensualistas do seculo passado, depois de um longo rodeio, voltaram confuso do agradavel e do bello; e os espiritualistas d'aquelle seculo e do nosso foram progressivamente tirando o bello da natureza physica e collocando-o smente na moralidade, ou creando uma cousa chamada _bello relativo_ que, ou no existe ou o mesmo que o agradavel. Mr. Laurentie escreveu um volume para mostrar aos barbaros innovadores que o bom e o bello moral eram inseparaveis: neste livro toma o pobre Kant para a sua alma, visto que, por culpa d'elle, foi enxovalhado o rico e harmonioso idioma de Paschal e Bossuet com o _Eu_ e _No-eu_. At aqui bem vamos. Se Kant fosse vivo, como causa primeira de se commetter to horroroso attentado, devia acabar numa fogueira: e nisto, cremos, conviria Mr. Laurentie, porque nos seus escriptos alguma pena mostra de ter visto findar as assaduras dominicanas. Mas no que no tem razo em insultar a memoria do veneravel professor de Konigsberg, que estabeleceu antes d'elle a mesma verdade, como mostrariamos se este escripto comportasse uma exposio da doutrina d'aquelle philosopho acrca do juizo esthetico. No seria melhor que Mr. Laurentie, antes de decidir com um tom to dogmatico e magistral estudasse primeiramente as opinies que intentava impugnar? Similhante altivez no nos parece concordar com a humildade evangelica propria de um bom christo como Mr. Laurentie![4] Insistimos na differena do bom e do bello, porque o grande nome de Mendelssohn se colloca naturalmente frente dos que os declaram identicos. Esta ida se encontra j na philosophia no-platonica e talvez no Hippias maior do mesmo Plato, de cujas opinies Mendelssohn no estava mui longe. O que Mr. de Bonald e Alletz disseram sobre este ponto funda-se inteiramente naquellas doutrinas. Porm sero ellas verdadeiras? Ns cremos que no. A perfeio de qualquer coisa o complemento de seus fins, e estes devem ser bons, alis no se daria aquella. D'isto resulta sempre um interesse, quer no moral quer no physico, o que suppe uma existencia real: porm o sentimento do bello desinteressado e no carece de ser acompanhado do de existencia. Os jardins de Alcinoo, a ilha de Venus, no seriam mais bellos se os cressemos existentes fra da Odyssea e dos Lusiadas. A imaginao quem nos presta a ida de que resulta o juizo acrca do bello: o bom nasce de uma ida determinada pela razo; porque, para julgar uma coisa boa e perfeita, preciso saber para que serve, qual seu alvo, quaes suas relaes: um edificio irregular, mas commodo e reparado, ser bom, porque satisfaz o seu alvo objectivo: a Venus de Medicis chama-se bella, porque satisfaz, por uma ida da imaginao, o jogo das nossas faculdades quando a comparamos com o ideal do bello humano. Dissemos que o bello moral sempre acompanhado do bom. Concordando nisto com as opinies actuaes dos litteratos puros, julgamos no ser preciso prov-lo e portanto nos absteremos d'isso. O pouco que notmos basta para se ver em que consiste a differena das duas idas no mundo da moralidade. Cremos ter indicado, bem que mui de leve, as difficuldades e por ventura contradices que encerra uma poetica respeitada por tantos seculos. Mas desde Aristoteles estava apontado, e por elle mesmo, o vicio da sua construco. Applicando Iliada os canones que tinha estabelecido e que julgou ter deduzido d'ella, achou que s vezes elles falhavam, e viu-se obrigado a dizer que as regras se podiam pr de parte quando o bello assim o exigisse. No d'este modo que ns concebemos a poesia. Seus preceitos devem ser imprescriptiveis sendo deduzidos do bello e de suas condies. De que modo o nosso criterio pde ser seguro, ter este caracter de necessidade que a consciencia requer, sendo incertos os seus meios? O jogo de arguies e replicas que constituem o capitulo 25 da sua poetica seria digno de um sophista, no do maior philosopho da antiguidade: ellas fariam luzir um estudante das nossas aulas de rhetorica em uma sabatina; mas para o estudo da litteratura parece-nos que de nada servem. Tendo at aqui procurado derribar, cumpria edificar agora: mas no escrevendo um livro, nem possuindo para isso o cabedal necessario, apenas lanaremos os primeiros traos dos (quanto a ns) unicamente verdadeiros fundamentos de uma poetica razoavel, para estabelecer a theoria da unidade de um modo mais conforme a razo, e ao mesmo tempo mais concorde com os grandes monumentos litterarios. A poesia a expresso sensivel do bello por meio de uma linguagem harmoniosa. O bello o resultado da relao das nossas faculdades, manifestada como jogo da sua actividade reciproca. Esta relao consistir na comparao da ida do objecto com uma ida geral e indeterminada: a harmonia d'ella resultante produzir o sentimento do bello: esta harmonia ser sujectiva, residir em ns; e a sua existencia _a priori_ necessaria e universal. Como composta a ida do objecto leva comsigo a variedade; como geral o outro termo da comparao puramente subjectivo e consequentemente uno. A condio, pois, do bello a concordancia da variedade da ida particular com a unidade geral: condio que por tanto necessaria em todos os juizos acrca do bello. Mas existindo essa harmonia no jogo das faculdades e requerendo-se para ella a unidade, esta ser subjectivamente absoluta, e tudo o que na ida particular do objecto no estiver em relao com ella nunca poder ser julgado bello. Tanto nos basta da longa e difficil theoria do bello e sublime para o nosso intento. Na sua applicao restringir-nos-hemos aos poemas narrativos, porque os outros, sobretudo os dramaticos, exigiram um mais amplo desenvolvimento que no comporta este escripto. Dos principios que apresentmos e que em parte as antecedentes observaes pediam, se colhe o sempre imprescriptivel canon da unidade, porm esta collocada mui longe d'onde os antigos a collocavam. uma ida geral e indeterminada que a torna necessaria: a aco no mais do que a serie de variedades que devem, digamos assim, dar um som unisono com a ida geral e una. Ser, pois, em nosso systema o primeiro passo a dar no exame de qualquer poema o buscar qual foi essa ida, esse _deus in nobis_ que constrangeu o poeta a revelar-se ao mundo em cantos harmoniosos. Ns a buscaremos nos cinco mais celebres poemas da Europa--_a Iliada_,--_a Eneida_--o _Orlando furioso_--os _Lusiadas_--e a _Jerusalem libertada_. Se a theoria for verdadeira acharemos essa ida: as partes que os constituem sero concordes com ella; alis estes poemas cessaro para ns de ser considerados como absolutamente bellos, e ficaremos persuadidos de que a Europa inteira se enganou tendo-os por modelos do gosto. Antes, porm, de tudo convem sujeit-los a um exame cujo norte seja o que a antiga poetica exige para julgar similhantes produces. Seremos severos neste exame, mas limitar-nos-hemos ao mais importante principio--o da unidade de aco, a que ns temos a infelicidade de no dar valor algum. Com este nos contentamos, que de outro modo fariamos em vez de um artigo um volume. Quem ser nosso guia para vr em que essa unidade consiste? Aristoteles: ninguem o refusar. Elle o unico escriptor original sobre taes materias: os que vieram depois d'elle o copiaram, o commentaram e talvez demudaram suas idas. Diz Dacier que todas as poeticas se reduzem do Stagyrita, e por outra parte Mr. Lemercier nos assegura ser bastante para constituir um perfeito critico em poesia o entender bem as poeticas de Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux. Reunindo, pois, as opinies de dois to illustres litteratos parece-nos que nesse escripto do velho grego devemos buscar a norma de nossos juizos para avaliar os poetas. Busquemos l, com effeito, em que a unidade consiste. Ach-lo-hemos no capitulo 8. _Sero_, diz elle, _as partes de uma aco de tal geito ligadas entre si, que tirada ou transposta uma, fique tudo destruido ou mudado_. So os episodios que na epopa constituem essas partes da aco, rigorosamente falando. Assim o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o cria Voltaire dizendo que os episodios similham aos membros de um corpo robusto e bem affigurado. Um episodio, pois, que sendo omittido deixa a aco inteira, inserido nella destruir a sua unidade. Mas ficar, porventura, incompleta a aco da Iliada se lhe tirarmos o longo trecho da descripo das naus gregas e o muito mais longo do funeral de Patroclo? Cremos que no, e que portanto se, pela poetica de Aristoteles julgarmos a Iliada, d'ella desapparecer a unidade. Diz mais o critico grego, no comeo d'este capitulo, que a identidade do heroe principal nunca estabelecer a unidade, quando as aces forem multiplices. Ora, quem que une a primeira metade da Eneida segunda?--Apenas o heroe. Tudo novo depois da sua chegada Italia. Novas so as aventuras, novas so as personagens secundarias. o mesmo Virgilio quem nos indica a duplicidade da aco do seu poema. A exposio da Eneida estava plenamente desenvolvida no fim do sexto livro, e assim, logo no principio do setimo, elle nos avisa que vai contar uma nova ordem de coisas[5]. Podemos, pois, affirmar affoitamente que na Eneida da falta a unidade. Quanto aos Lusiadas nada preciso dizer. Salta aos olhos que a historia dos doze de Inglaterra, o assassinio de D. Ignez, teem tanto com a aco do descobrimento da India como com a da Odyssea. Todos acham bellissimo o Orlando furioso, ainda ninguem o achou uno. A distinco de poema heroico, de poema romance, de Dubois, Fontenelle, e de Mr. Lemercier nada mais do que a impotencia absoluta de applicar a certas produces as regras da antiga poetica. A Jerusalem libertada o poema que mais parece ageitar-se aos preceitos classicos pelo que toca unidade. Entretanto qual a aco do poema? A conquista de Jerusalem: e acaso conduziria o episodio de Olindo e Sophronia para o seu exito? Certo no. Alm d'isso, a aco da Jerusalem conquistada a mesma; o poeta mudou varios episodios e ella continuou a ser a da Jerusalem libertada, apesar de Aristoteles. Vejamos, segundo o nosso modo de julgar, se uma uma ida geral e indeterminada pde estabelecer a unidade na serie de aces, de quadros e de descripes que constituem estes cinco poemas. No tempo de Homero a historia grega apresentava s um grande feito, a conquista e ruina de Troia. Uma grande ida occupava a mente do poeta e esta ida era a gloria da Grecia. Foi, pois, roda d'ella que Homero agglomerou as variedades que lhe diziam respeito. Onde existiam ellas? Unicamente na memoria das batalhas pelejadas juncto aos muros de Troia: mas uma parte d'essa historia era vergonhosa para os gregos. Ou admittamos qualquer das opinies referidas por Herodoto acrca da queda d'aquella populosa cidade, ou as narraes de Triphyodoro e do supposto Dictys, a nodoa de fraqueza, quando no de dolo, sempre parece vir manchar os gregos. Neste caso o poeta repelliu todo o odioso da historia e aproveitou ou inventou o que dava um som unisono com a ida que o dominava: assim, na Iliada tudo a ella tende; assim, o poema comea quando a ialta de Achilles deixa fulgir o valor dos outros heroes e acaba quando a morte de Heitor devia, bem pelo contrario da verdade historica, fazer car Troia e dar a victoria aos gregos. Da era a mais gloriosa da semi-barbara Grecia, foram os successos de poucos dias que Homero escolheu para objecto de seus cantos; mas estes dias eram os mais bellos d'aquella epocha memoranda; nelles tiveram logar os mais brilhantes feitos de guerra to acintosa, e o poeta ainda os tornou mais admiraveis com os traos vigorosos do seu pincel divino. Os caracteres dos heroes da Iliada so todos agigantados e o valor d'estes rude, como o podia conceber a mente de Homero; mas os valentes de Troia so sempre homens, em quanto os da Grecia so muitas vezes semi-deuses. O mesmo Heitor, que hoje (ns pelo menos) achamos a personagem mais interessante da Iliada, e que parece vir destruir a opinio de que a unidade exista neste poema por uma idea vaga da gloria patria, uma prova do principio que estabelecemos. Para julgar Homero preciso collocar-nos no seu tempo e no seu pas. O amor paternal e conjugal por que Heitor nos interessa, no era para os antigos, sobretudo nos tempos primitivos, o mesmo que para ns. A robustez de brao e de corao era a principal virtude, e os affectos moraes estavam apenas esboados nessas sociedades nascentes. Por isso elle devia interessar, no despedindo-se de Andromacha, porm combatendo por uma causa que reputava injusta, mas que se tinha tornado a da patria; no por suas virtudes domesticas, mas pelas virtudes publicas e por seu valor quasi egual ao de Achilles. Foi por causa d'este que Homero desenhou to amplamente o caracter de Heitor. Com effeito, aquelle guerreiro que viu fugir ante si Diomedes, o vencedor de um nume[6], cai vencido e morto aos ps de Achilles. Quanto este devia parecer grande entre um povo que olhava o valor e a fora como o dote mais digno do homem, e qual seria a ufania e a gloria de um pas cujos filhos assim sobrelevavam os numes. Alguem cr dever notar o haver-nos Homero pintado Achilles arrastando o cadaver do seu inimigo roda dos muros de Troia. Parece-nos tambem nascer isto de se julgar os antigos por nossas actuaes idas. Ns vemos que para a maior parte das virtudes sociaes elles no tinham divindades particulares; comtudo havia-as para a amizade. Certo , pois, que esta nobre paixo tinha preo e valia entre elles. Esqueamo-nos das virtudes que devemos unicamente ao Christianismo, constituamo-nos gregos, e vejamos qual de ns no faria o mesmo no momento da vingana e da colera. Smente aquelle desgraado que no possuisse um amigo. Se assim examinarmos toda a Iliada, acharemos sempre a ida de gloria patria servindo de n a este admiravel poema que hoje se despreza por moda, crendo-se que nisso consiste o romantismo. J lemos numa enfiada de versos, de que no era possivel ler vinte sem bocejar, que Homero fazia dormir. Ao menos quem assim calca aos ps o velho trovador da Grecia no corre o risco de lhe acontecer o caso do soldado liliputiano que metteu a lana pelo nariz de Gulliver. Homero j no espirra. Que pensariam taes criticos poetas se lhes dissessemos que a Odyssea, quanto s imagens e mesmo s frmas, tem muitissimos caracteres proprios da poesia romantica? Certamente no nos entendiam. No em chamar ridiculo ao que bello, nem em destemperos que deve consistir a ingenuidade das modernas opinies litterarias.[7] Mas passemos a Virgilio. Foi na epocha d'este que Roma cau em terra e que Cepias se assentou sobre a campa da patria. Todos sabem a historia dos feitos romanos e a gloria que os cerca: mas a gloria acaba onde a escravido comea. Nesta transio appareceu Virgilio que, talvez exemplo unico, sabia mendigar as migalhas de um tyranno e nutrir idas generosas. As recordaes da republica, as memorias de um povo que j no existia reclamavam as canes do poeta. Esta ida o agitava e ella gerou a Eneida. Porm o corteso no podia no palacio de Augusto, nos banquetes da prostituio, ao som dos grilhes de Roma, entoar um hymno em que a lembrana da liberdade se associaria a quasi todas as imagens, a quasi todos os sentimentos. Por outro lado a grinalda dos louros romanos partia de uma caverna de salteadores: nascia de um ponto negro como o em que findava. Este podia illustr-lo Virgilio; uma messeniana[8] e um punhal bastavam; mas elle queria gozos e repouso: Augusto ameigava-o, e o manhoso Mecenas dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonhosos appetites. O mal denominado epicurismo que dominava na cidade eterna e que tanto contribuiu para ella deixar de o ser, o fazia olhar a vida feliz como um bem que se devia conservar mesmo custa da moralidade. Tudo contribuiu para envilecer Virgilio, e notemos que at no seu estylo encontramos a prova disso. Aquelle lavrado, aquelle _molle atque fecetum_ que Horacio achava em seus versos no sabemos o que tem de analogo s palavras suaves e attractivas de um homem abjecto quando a dula o seu patrono. Porque haver tantas similhanas entre as pessoas do tempo de Lus XIV que dava penses aos poetas, e as do seculo de Augusto que lhes dava tambem de comer? Porque sero elles nestas duas epochas modelos de perfeio, pelo que toca ao bem obrado do estylo, sempre em proporo de seus servios e da sua frequencia nos passos dos Reis e dos grandes da terra? Na impossibilidade de cantar os romanos, quando dignos d'este nome, smente restava a Virgilio um meio de satisfazer essa ida de gloria patria, d'esse Deus que o agitava, o collocar um monumento espantoso no bero obscuro da sua nao: elle o fez, e a Eneida foi este monumento. No tendo como Homero ao menos um pequeno cabedal de realidade, elle arrancou da phantasia todo o seu edificio, edificio o mais bem acabado que neste genero conhecemos. Porm observemos que elle desenhou os caracteres dos seus heroes mui differentes dos da Iliada. Os d'esta so rudes mas sublimes, os da Eneida so macios e cuidados, mas geralmente mesquinhos. No poema grego surgem, interessam individualmente os Aiaces, Dimedes, Ulysses, Agamemnon e tantos outros; no latino os heroes secundarios deslizam pelo poema, como as turbas de Roma deslizavam por uma existencia sem significao debaixo dos ps do Cesar. De todos os troianos, acabada a leitura da Eneida, apenas nos recordamos do filho de Anchises: Achates, Gyas, Cloantho sumiram-se como sombras. O mesmo Eneas tem um certo ar hypocrita que desagrada aos homens singellos e o colloca a seus olhos bem longe de Achilles. Foi a influencia do seculo quem fez Virgilio, nesta parte to inferior a Homero: se o poeta tivesse vivido no tempo dos velhos romanos, ns no possuiriamos hoje a mais agradavel poro do 4.^o livro da Eneida. Dido no teria sido seduzida e abandonada, embora isto contribua, e muito, para satisfazer a ida principal do poeta. Uma immoralidade to vil, o ludibriar a hospitalidade e a fraqueza s podia caber a um heroe inventado na epocha dissoluta da queda da republica romana. Afra isto ns no podemos deixar de admirar Eneas; e apesar da corrupo do seculo e da propria, Virgilio soube ainda dar um illustre fundador sua patria. De todos os restos de Troia s d'elle precisava o poeta, assim que s elle resplandece no meio dos seus troianos, emquanto os guerreiros da Hesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem muitas vezes uma cr homerica. Estes eram filhos da Italia e a Italia era o solo que viu nascer Virgilio. Quando Voltaire, acabando de ler a Eneida, achou que Turno interessava mais que Eneas, disse que apesar da falta da unidade de interesse no ousava reprehender Virgilio. Nem havia de qu: a unidade de interesse tem tanta validade como a de aco. Qualquer dos dois que interessasse principalmente, a ida geral estava preenchida. Nos bellos dias de gloria de Roma, todos os povos do Lacio estavam fundidos no romano e as suas recordaes nas d'este. Escondesse o filho de Venus o covil de Romulo com o seu escudo celeste, o fim de sua existencia estava satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades buscar as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som accorde com a ida que o dominava. Segundo nosso modo de pensar em litteratura, muitos defeitos que teem sido assacados Eneida no existem nella. Em nenhuma coisa offendeu Virgilio os principios eternos do bello, seno quando o seculo com sua peonha pde mais do que o genio extraordinario do poeta. Elle no teria egual se tivesse sido livre. A ordem das idas exige que desprezemos a rias datas. Circumstancias ha, como o leitor ver, que nos obrigam a falar dos Lusiadas em seguimento aos dois grandes poemas da antiguidade, e a unir as reflexes acerca do Orlando s que temos de fazer acrca da Jerusalem. Os Lusiadas so o poema onde mais apparece a necessidade de recorrer a uma ida independente da aco para achar a imprescriptivel unidade, e o seu titulo nos revela logo a mente de Cames. No foi, quanto a ns, o descobrimento da India que produziu este poema: foi sim a gloria nacional. Esta ida bella, pura, immensa, como a alma de Cames, gerou os Lusiadas. A unidade, que procurada de outro modo no pde encontrar-se neste poema, se encontra logo encarando-o por esta maneira. Era o feito mais espantoso da historia portuguesa que servia de frontispicio longa colleco de maravilhas que ella offerecia; foi por alli pois que rompeu a cano nacional que entoou Cames; mas todas as recordaes de Portugal, mesmo as suas debeis esperanas, esto consignadas nos Lusiadas. No um facto que elle cantou; so mil factos, mas unidos todos por um ponto, a ida do renome portugus. Cames lanou mo de nossos annaes, rasgou e maldisse suas paginas negras, e arrojou o resto eternidade. As differentes feies moraes traadas no seu poema teem uma individualidade que no cede, em nossa opinio, das personagens da Iliada ou da Jerusalem, mas todas com um ideal eminente de bello ou de sublime. Poucos sentimentos houve de que o poeta no revestisse algum de seus compatricios, e se Mr. de Chateaubriand accusa Tasso de ter esquecido o mais puro de todos elles, o da maternidade, no poderia dizer o mesmo do nosso Cames, que por este lado, despindo-nos de qualquer preveno nacional, no podemos deixar de chamar divino. Se nisto ninguem o excede, talvez ninguem o eguale em agglomerar num quadro selvas to densas e variadas de imagens e sentimentos. Diz Mr. J.B. Say que a descripo da partida dos portugueses para o descobrimento da India mais do que a narrao de um embarque. Ns dizemos que pouco achamos neste genero que assimilhar-lhe. Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos estar vendo ondear na praia do Restello um tropel immenso de pessoas de todas as condies e edades; cremos descobrir no gesto, nas expresses de cada uma d'ellas, a multido de idas, de paixes que tal espectaculo devia excitar, e quando ellas acabam de passar deante de nossos olhos, um velho l surge e fluem da sua bocca as palavras da sabedoria. Ns o escutamos: a vida exterior nos esquece: o ancio nos fez pensar sobre a vaidade de nossas paixes, sobre o nada de nossas esperanas; e o poeta terminando aqui e com arte summa um canto do poema, que nos vem despertar da nossa meditao, abrindo o seguinte canto com estes versos, que exigem uma expresso vagarosa, similhante ao modo por que um homem embebido em reflexes as deixa, e comea a volver os olhos para os objectos que o rodeiam: Estas _sentenas_ taes o velho honrado _Vociferando_ estava, quando abrimos As azas ao _sereno e sooegado_ Vento, e do porto amado nos partimos. Tal sempre um poeta livre, celebrando as memorias de uma nao illustre. Tal Cames a quem no pde envilecer nem a desventura, nem o ar da crte de D. Joo III e de seu illudido e absoluto neto, ar ja apestado pela escravido. Assim talvez o unico deleito dos Lusiadas seja o seu absurdo maravilhoso, que elle deveu ao sculo, e de que mesmo poderiamos tirar um argumento a favor da immensidade do genio de Cames, se o espao d'este artigo j demasiado longo no-lo permittisse. A admirao e o respeito que lhe consagramos nos fez desviar um tanto do nosso objecto: mas seja-nos isto desculpado. S por Cames ns os portugueses seriamos grandes. Opprobrio da Europa nos tempos modernos, era debaixo da sua cora de louro e das de antiga gloria, que j comeavam a desfolhar-se quando elle a cantou, que ns nos abrigavamos para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome de nossa patria. E esta com que retribuiu ao poeta? Nem com um amigo. O seu Antonio era filho da Asia. E em nossos dias levantou-se um verme da terra para insultar sua memoria. Deshonra eterna quelle que pretendia despedaar-nos nosso ultimo titulo de nobreza, nosso ultimo consolo no meio da infamia e das desditas! Ariosto e Tasso no tinham patria, porque no t-la o nascer numa terra de servos. D'este modo as duas idas que do unidade a seus poemas so duas idas geraes, mas estranhas como taes Italia,--a cavallaria e as cruzadas. A segunda parece conter-se na primeira, mas considerada em si to geral e to indeterminada como ella. O que a cavallaria? o espirito humano modificado de certo modo. O que so as cruzadas? A resposta do Christianismo terrivel pergunta que lhe fizera o islamismo quando os sarracenos invadiram a Italia, a Hespanha e uma parte da Frana. Qual de ns dominar a terra? Esta era a pergunta: a resposta foi o som das armas nos plainos de Ascalon, o estrondo das portas de Jerusalem estalando aos embates dos arietes de Godofredo. Incerta como a pergunta do mahometismo foi a replica da cruz. Vagas como o seu resultado, estas invases longinquas teem uma certa magnificencia moral, digamos assim, uma certa demasia de enthusiasmo religioso, de generosidade e de valor que esses glidos filhos do seculo XVIII, esses compiladores e discipulos da Encyclopedia escarneceram, porque eram incapazes de sentir profundamente o bello e sublime d'esse todo historico das cruzadas. Foi, pois, a ida geral de Ariosto uma epocha brilhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz contra o crescente. As variedades relativas primeira, eram em muitissimo maior numero do que as relativas segunda; assim o Orlando mais variado do que a Jerusalem. Multiforme, como a vida de um cavalleiro, a idade mdia se apresentou a Ariosto ora sublime, ora bella, ora ridicula nas suas variedades immensas, e se o Orlando tem muitas vezes um caracter de verdade objectiva, isso, em vez de servir de argumento a favor da imitao, unicamente prova haver-se muitas vezes quasi realizado o ideal nesses tempos hericos das naes modernas[9]. Faltam a Tasso a miudo as cres locaes, a verdade dos costumes, porque a sua grande ida tinha um lado extremamente moral, e nos costumes e no historico das Cruzadas havia muita cousa em desharmonia com ella. O poeta substituiu tudo isso por fices de cres muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sendo um canto admiravel elevado em honra do christianismo e do enthusiasmo dos baixos tempos. Tasso respeitava as regras: a Jerusalem _conquistada_ foi o fructo d'esse respeito. Felizmente a _Libertada_ j era publica: alis o poeta perseguido pelos preceitos e pelos pedantes teria destruido a sua obra prima para nos deixar um poema que ninguem hoje l. Seria mais um mal produzido pelo fanatismo litterario; e apesar de Galileo e de Dureau Delamalle, ns folgamos que tal no acontecesse.[10] Passmos de leve na applicao de uma parte de nossos principios aos cinco mais celebres poemas da velha e nova Europa, porque no era compativel com a brevidade o faz-lo de outro modo; por essa razo fomos talvez obscuros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia tractar d'esta materia, fra de uma folha periodica: ento mostraremos que esta nova theoria no to horrivel como agora parecer a muitos; nem se nos levar tanto a mal a nossa impiedade litteraria, quando, mais miudamente, fizermos surgir do chos da antiga critica suas contradices e absurdos. Mas, pertendendo destruir o systema da eschola classica, no somos ns romanticos? Alguem nos ter como taes: cumpre por tanto que nos expliquemos. Na verdadeira accepo do termo elle o nosso symbolo; porm este symbolo nada tem em rigor com aquillo acrca de que havemos falado. Tractmos das frmas da poesia. As modernas opinies dos verdadeiros romanticos versam sobre a sua essencia. Verdade que a theoria do bello, que indicmos apenas, d a razo da maior parte d'essas mesmas opinies, cujo exame nos absteremos de encetar. Diremos smente que somos romanticos, querendo que os portugueses voltem a uma litteratura sua, sem comtudo deixar de admirar os monumentos da grega e da romana: que amem a patria mesmo em poesia: que aproveitem os nossos tempos historicos, os quaes o Christianismo com sua doura, e com seu enthusiasmo e o caracter generoso e valente desses homens livres do norte, que esmagaram o vil imperio de Constantino, tornaram mais bellos que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos, agradaveis para elles, mas ridiculos para ns e as mais das vezes inharmonicos com as nossas idas moraes: que os substituam por nossa mythologia nacional na poesia narrativa; e pela religio, pela philosophia e pela moral na lyrica. Isto queremos ns e neste sentido somos romanticos; porm naquelle que a esta palavra se tem dado impropriamente, com o fito de encobrir a falta de genio e de fazer amar a irreligio, a immoralidade e quanto ha de negro e abjecto no corao humano, ns declaramos que o no somos, nem esperamos s-lo nunca. Nossa theoria fra a primeira a car por terra deante da barbaria d'esta seita miseravel que apenas entre os seus, conta um genio, e foi o que a creou: genio sem duvida immenso e insondavel, mas similhante aos abysmos dos mares tempestuosos que saudou em seus hymnos de desesperao: genio que passou pela terra como um relampago infernal, e cujo fogo mirrou os campos da poesia e os deixou aridos como o areal do deserto; genio emfim que no tem com quem comparar-se, que nunca o ter talvez, e que seus exaggerados admiradores apenas teem pretendido macaquear. Falamos de Byron. Qual e, com effeito, a ida dominante nos seus poemas? Nenhuma ou, o que o mesmo, um scepticismo absoluto, a negao de todas as idas positivas. Com um sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo. Religio, moral, affectos humanos, mesmo a liberdade e a esperana foram seu ludibrio. A leitura dos seus poemas s produz, em geral, descorooamento ou antes desesperao. Byron o Mephistopheles de Goethe lanado na vida real.--Virtude e crime, pudor e impudencia, gloria e infamia, que montam em seus cantos sinistros? Mas o homem, ser immortal, passageiro em um mundo transitorio, no nasceu para o scepticismo, para um estado violento, porque elle precisa crr, quando mais no fosse ao menos na voz esperanosa ou ameaadora da consciencia: infeliz, pois, d'aquelle que ao acabar de ler Byron no sente no corao um peso insupportavel: a sua alma ser to escura e to vasia como a d'este poeta sublimemente destruidor. De sua eschola apenas restar elle; mas como um monumento espantoso dos pricipicios do genio quando desacompanhado da virtude. Dos seus imitadores diremos s que elles faro com seus dramas, poemas e canes em honra dos crimes, que a Europa, volvendo a si, amaldioe um dia esta litteratura, que hoje tanto applaude. Nossa prophecia se verificar, se, como cremos, o genero humano tende perfectibilidade, e se o homem no nasceu para correr na vida um campo de lagrymas e despenhar-se pela morte nos abysmos do nada. No meio das revolues, na epocha em que os tyrannos, enfurecidos pela perspectiva de uma queda eminente, se apressam a exgotar sobre os povos os thesouros da sua barbaridade: emquanto dura o grande combate, o combate dos seculos, os hymnos do desespero soam accordes com as dres moraes; mas quando algum dia a Europa jazer livre e tranquilla, ninguem olhara sem compaixao ou horror os desvarios litterarios do nosso seculo. Muitos mesmo no os entendero. *Origens do theatro moderno--Theatro portugus at aos fins do seculo XVI* PANORAMA 1837 *Origens do theatro moderno--Theatro portugus at aos fins do seculo XVI O pas onde primeiro appareceu a arte dramatica moderna foi a Inglaterra, se arte dramatica podemos chamar a espectaculos tirados de passos historicos da Biblia, sem inveno ou enredo, e s copiados litteralmente em discursos e aces. Estas primeiras tentativas theatraes, a que depois os franceses e italianos chamaram _mysterios_, appareceram na Gr-Bretanha durante o seculo XI. Os monges as compunham e representavam, e ainda no fim do seculo XVI elles pediam a Ricardo II embargasse os comediantes de exercerem uma profisso que julgavam ser um privilegio seu, porque ordinariamente o objecto dos dramas se tirava do velho e novo Testamento. Pelas muitas relaes que havia entre a Inglaterra e a Frana, parece que os mysterios ingleses no tardaram em introduzir-se neste ultimo pas. A _Morte de Santa Catherina_, representada na abbadia de Dunstaple, em mil cento e tantos, foi no seculo seguinte posta de novo em scena no mosteiro de Sancto Albano em Frana, e talvez esta a memoria mais antiga que temos da arte dramatica francesa. Depois esta continuou e cresceu, chamando se s faras prophanas _jogos_ ou _representaes_, e aos dramas sacros _mysterios_. A Italia comeou mais tarde, com este genero de composies barbaras: mas, tendo primeiro que nenhuma outra nao seguido o gosto da litteratura grega e romana, brevemente o tomou tambem no theatro. Os dramas de Mussato compostos no principio do seculo XIV, e em latim, so _Ezzelino_ e _Achilles_, imitaes de Seneca, escriptas com um to falso estylo como o do dramaturgo romano. Foi no XV seculo que appareceram na Italia os primeiros dramas vulgares: Loureno de Medicis publicou a _Representao de S. Joo e S. Paulo_, e Angelo Policiano deu pouco depois a sua tragedia intitulada _Orpheo_. Desde o seculo XIV appareceram dramas na Alemanha; mas estes nada mais eram do que imitaes dos _mysterios_ franceses, e escriptos em latim pelos monges. Em meado do seculo XV foi que verdadeiramente comeou neste pas o theatro nacional. Hans-Folz e Rosemblut compuseram diversas faras, que se representaram em Nuremberg e Calmar: estas faras, obra de homens rudes, so um tecido de grossarias e indecencias apenas dignas de se recitarem diante da plebe mais desfaada. Depois de 1500 que appareceu _Hans-Sachs_, a quem podemos chamar o Gil Vicente da Alemanha. Na Hespanha, ou porque os arabes o introduzissem, ou porque os hespanhoes o inventassem, ou, emfim, porque muito cedo o imitassem dos franceses, o drama remonta aos primeiros tempos da monarchia. S, na verdade, do principio do seculo XIV conhecemos a scena hespanhola; mas restam memorias d'ella muitissimo mais remotas, e pouco depois de 1200, dizem que appareceram dramas em Valenciano. Do seculo XV ainda existem muitas composies neste genero de litteratura. Essas primeiras tentativas dramaticas eram forosamente um tecido sem nexo, sem ordem, e ridiculo: os seus auctores se entregavam desenfreadamente a todos os caprichos de uma imaginao fervente, e as produces d'esse tempo so em geral monstruosas e absurdas. Rodrigo de Cotta comeou a dar alguma regularidade ao drama na comedia de _Calisto e Melibea_; mas a licena de seus quadros e expresses mancha o merecimento d'esta pea, que depois foi algum tanto corrigida e accrescentada por Fernando de Roxas, auctor de outra comedia--_Progne e Philomela_. Apesar de assim emendada a obra de Cotta ainda monstruosa. Uma serie de enredos amorosos e de crimes se encruzam e estendem ahi atravs de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade dos costumes e caracteres e a verosimilhana dos episodios lhe deram celebridade; e com o titulo de _Celestina_ ella foi muitas vezes reimpressa, traduzida em diversas linguas e at na latina pelo celebre Barthius. A reputao da _Celestina_ fez nascer os imitadores; e novas composies, com o mesmo ou differente titulo, mas que esto longe de ter o merito da original, surgiram brevemente em Hespanha. Por este tempo floresceram mais outros dois auctores dramaticos, o Marquez de Villena e Joo de la Enzina, que foi o principal modelo do nosso Gil Vicente. Os dramas do primeiro foram representados em Saragoa na crte de D. Joo II, pelo meado do XV seculo; os do segundo o foram tambem, na crte de Fernando e Isabel nos fins d'aquella mesma era. Resurgiam ento as letras gregas e romanas, e a admirao do theatro antigo despertou na Hespanha o genio da tragedia. Oliva publicou duas composies trgicas--_Hcuba triste_ e _La venganza de Agamemnon_, as primeiras que neste genero se escreveram na Peninsula. Restrictas e acanhadas imitaes dos gregos, ellas se podem considerar como traduces livres da _Hcuba_ de Euripides e da _Electra_ de Sophocles. Em Portugal provavel comeassem as representaes scenicas pelo mesmo tempo em que principiaram na Hespanha; mas nenhuns vestigios restam d'esse theatro primitivo. O que certo que j nos fins do seculo XIV havia em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na chronica de D. Joo II, narrando as festas que se fizeram em Evora no casamento do principe D. Affonso com a infanta D. Isabel de Castella, fala, em varios capitulos, dos _entremezes_ e _representaoens_, que nessa occasio se fizeram, dando a entender pelo modo porque acrca d'elles se exprime, que eram uma coisa bem conhecida e vulgar, e no impossivel que ainda se nos depare algum monumento d'esse nosso primitivo theatro. Porm, o mais antigo drama que hoje conhecemos um de Gil Vicente, representado em 1502 na crte de D. Manoel, e Gil Vicente , no estado actual da nossa historia litteraria, considerado como o fundador da scena portuguesa, pela mesma razo porque o podemos ter por inventor dos _rimances_, ou _xcaras_, dos quaes os mais antigos que existem so os que elle entresachou pelos seus _Autos_, e o que elle dedicou morte de el-rei D. Manoel. Gil Vicente dividiu em quatro livros as suas composies dramaticas, incluindo no primeiro todos os autos a que chamou de _devoo_, por versarem em geral sobre objectos biblicos e religiosos; mas estas _obras de devoo_ parecem as menos devotas de todas, se das outras exceptuarmos a comedia de _Rubena_ que pertence ao segundo livro. Taes _autos_ so na essencia o mesmo que os mysterios franceses, como elles cheios de indecencias, porm ao mesmo tempo ricos de sal e chistes. O poeta abominava cordealmente o clero, sobretudo os frades, e no desaproveitou occasio alguma de os presentear com chascos e epigrammas. Os autos das _barcas_, que so como continuao uns dos outros, e formam a _trilogia_, ou drama em tres quadros, mais antiga da Europa, constituem com _Mofina Mendes_ e _Rubena_ a flr do theatro de Gil Vicente; porque talvez em nenhuma das scenas que os compem deixa de patentear-se em subido gru o genio da comedia. Este poeta reunia qualidade de auctor a de actor; e com seus filhos representava os proprios dramas na crte de D. Manoel e de D. Joo III. Apesar de corteso, o poeta morreu pobre, em Evora, depois de 1550. As suas obras se imprimiram em Lisboa em 1562, e muito mutiladas em 1586. Uma nova edio completa se publicou ultimamente em Hamburgo em 1833. Gil Vicente teve um filho do seu mesmo nome, que dizem desterrou para a India, levado pelo ciume de este o exceder no genio dramatico. Ao moo Gil Vicente se attribue a composio de um auto intitulado _D. Luiz de los Turcos_. Pelo meado do seculo XVI appareceram em Portugal varios poetas que mais ou menos seguiram as pisadas do auctor de _Rubena_. Ao infante D. Luiz se attribue o auto de _D. Duardos_, que anda impresso como de Gil Vicente. Antonio Ribeiro Chiado, to conhecido na crte de D. Joo III e de D. Sebastio, pelos seus gracejos e agudezas, e pela propriedade com que remedava a voz e o gesto de todos, nos deixou dois autos asss engraados, o da _Natural Inveno_ e o de _Gonalo Chambo_. Na _Primeira parte dos Autos e Comedias Portuguezas_, publicada em 1587, livro hoje bastante raro, se imprimiram sete autos de Antonio Prestes, que revelam espirito comico no inferior porventura ao de Gil Vicente, cuja escola Prestes seguiu, bem como Jorge Pinto, auctor de _Rodrigo_ e _Mengo_, e Jeronymo Ribeiro Soares, auctor do _Auto do Fisico_, que vem naquella colleco cuja segunda parte nunca se deu estampa. O nosso Jorge Ferreira de Vasconcellos, auctor dos dois romances da _Tavola Redonda_, floresceu tambem por estes tempos. Tres composies suas nos restam, _Aulegrafia_, _Euphrosina_ e _Ulyssipo_, a que elle chamou comedias, e que, realmente, so antes dialogos do que dramas. Nellas teve por alvo Jorge Ferreira reunir os proverbios e annexins da lingua ou a philosophia popular do seu tempo, e por este lado so ellas, na verdade, dignas da maior estimao; mas se as quisermos considerar como dramas bem pequeno o seu merito. No reinado de D. Sebastio, o cego Balthasar Dias, poeta natural da Madeira, publicou um grande numero de autos e outras obras, humildes pelo estilo, mas com toques to nacionaes e to gostosos para o povo, que ainda hoje so lidos por este com avidez. Correi as choupanas nas aldes, as officinas e as lojas dos artifices nas cidades, e em quasi todas achareis uma ou outra das multiplicadas edies dos _Autos de S. Aleixo_, _de S. Catherina_ e da _Historia da Imperatriz Porcina_, tudo obras d'aquelle poeta cego do seculo XVI. Este era o theatro verdadeiramente nacional at o anno de 1600, em que floresceu Simo Machado, auctor do _Cerco de Diu_ e da _Pastora Alfa_. Muitas composies d'este genero se perderam, ou no chegaram nossa noticia, como os Autos de Antonio Pires Gonge, de Sebastio Pires, e de Antnio Peres, que dizem que escrevera mais de cem dramas. O auto do _Fidalgo de Florena_, composto por Joo de Escobar, no reinado de D. Sebastio, teve nesse tempo grande celebridade, e se imprimiu repetidas vezes: porm d'elle ainda no encontrmos um unico exemplar. Emquanto assim a escola formada por Gil Vicente progredia, e, em nosso entender, se aperfeioava, independente de estranha influencia, poetas de grande nome trabalhavam por introduzir em nossa litteratura as frmas do theatro grego ou romano. Francisco de S de Miranda escreveu duas comedias intituladas _Vilhalpandos_ e _Os Estrangeiros_, as quaes se imprimiram, depois de sua morte, em 1560 a primeira, e a segunda em 1569. Nestas procurou elle seguir as pisadas de Planto e Terencio, como o confessa no prologo dos _Estrangeiros_, e com effeito ellas se podem comparar com as dos dois comicos latinos. Antonio Ferreira comps quasi pelos mesmos tempos as comedias _Bristo_ e _Cioso_ e a tragedia _D. Ignez de Castro_, a segunda que appareceu na Europa conforme a todas as regras classicas, sendo a primeira a _Sophonisba_ do poeta italiano Trissino; mas a de Castro superior; e ns a temos por um milagre dramatico, attendendo falta de modelos modernos e ao seculo em que foi escripta. O illustre Cames tambem nos deixou, com o titulo de autos, duas comedias--_Os Amphytrioens_ e _Filodemo_, das quaes a primeira quasi uma traduco de Plauto. Desde esta epocha o theatro portugus foi caindo e podemos dizer que nunca mais tornou a restaurar-se. *Novellas de cavallaria Portuguesas* PANORAMA 1838-1840 *Novellas de Cavallaria Portuguesas* I Amadis de Gaula As idas de honra, de valentia e de amor, que occupavam quasi exclusivamente os espiritos durante a edade mdia, reproduziram-se em todas as frmas sociaes e instituies d'aquella brilhante epocha: o sentimento religioso traduzia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o do prazer em justas, torneios e caadas, que eram imagem da guerra, ou em seres, onde os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou amores ou armas: as leis apesar de terem a sua principal origem no direito canonico e depois no romano, l abriam a lia aos combates judiciarios: as habitaes eram castellos, e os adornos dos aposentos corpos de armas pendurados, lanas, e razes, onde as mos das donzellas tinham lavrado a historia de combates. Neste predominio exclusivo de certas idas, como escaparia a litteratura de ser dominada por ellas? Assim, depois das cantigas dos trovadores, vieram os _rimances_ mais longos, os poemos e as novellas de cavallaria. Era esta a litteratura d'aquelles seculos, nem outra podia ser: a imaginao dos poetas e novelleiros no alcanaria espraiar-se alm das frmas da sociedade de ento; porque a litteratura de todas as epochas sem exceptuar a nossa, no mais do que um echo harmonioso, ou um reflexo resplendente das idas capites, que vogam em qualquer d'ellas. As aventuras, os amores, os feitos d'armas dos heroes do Boiardo eram a imagem, vista atravs de um prisma, dos homens do XV seculo: a ancia de liberdade descomedida, a misantropia, os crimes, a incredulidade dos monstros de Byron so o transumpto medonho e sublime d'este seculo de exaggeraes e de renovao social. O prazo durante o qual os portugueses tocaram a meta do espirito cavalleiroso, e o conservaram em toda a pureza e vigor, prolongou-se por obra de um seculo, desde os ultimos annos do reinado d'el-rei D. Fernando at o d'el-rei D. Affonso V. Antes d'esse tempo nossos avs eram demasiado rudes para conceberem e reduzirem a inteira practica a concepo immensamente bella da cavallaria; depois d'elle, eram muito cidados para serem cavalleiros. D. Alvaro Vaz d'Almada caindo morto na batalha de Alfarrobeira era o symbolo da cavallaria expirando nas paginas da ordenao affonsina. Nesta compilao indigesta e essencialmente contradictoria da legislao de tres seculos, no bastava o ser inserido o velho regimento de guerra portugus, emendado por jurisconsultos, para salvar da morte a cavallaria, que outras disposies d'esse codigo indirectamente assassinavam. Nisto como em quasi tudo o mais, das actas das crtes portuguesas anteriores a D. Joo II e da ordenao affonsina, se pde extrahir toda a substancia philosophica da historia dos primeiros tres seculos da monarchia. Se o espirito puro de cavallaria dominou to largo periodo, os _cavalleiros-modelos_ (permitta-se-nos a expresso) foram s os que se crearam na crte de D. Joo I; e a poetica fico dos Doze de Inglaterra pinta a epocha em que se diz succedera essa aventura. Cavalleiros andantes portugueses houve-os nos seculos anteriores; mas a cortesia, a louainha, e a galantaria que caracterizam a verdadeira cavallaria s as amostra a nossa historia nos guerreiros indomaveis, que na batalha de Aljubarrota formavam o esquadro brilhante chamado a _Ala dos Namorados_. Eram estes guerreiros que faziam aquelles _votos denodados_, em demanda de cuja execuo muitas vezes perdiam a vida: eram estes que, discorrendo pelas terras estrangeiras, ahi deixavam perenne memoria de seus esforados feitos. Foi na luzida crte do mestre de Aviz onde achou a cavallaria de toda a Europa o seu Homero em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquella houve poetas, assim antes d'este houve romancistas; como Homero eclypsou a memoria dos cantos dos seus antecessores, assim Lobeira fez esquecer as mal tecidas invenes dos mais antigos novelleiros, e o _Amadis de Gaula_ a primeira e a principal novella no extensissimo catalogo dos contos de cavallaria. Poucas memorias nos restam acrca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi natural do Porto, e armado cavalleiro por D. Joo I antes de comear a batalha de Aljubarrota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, e morreu em 1403. Escripto muito antes da inveno da imprensa, o _Amadis_ correu manuscripto at o tempo de D. Joo V; porque os nossos antepassados nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Foram assim escasseando as copias d'elle, e nos ultimos tempos se havia tornado to raro que apenas se lhe conhecia um ou dois exemplares. O conde da Ericeira, testemunha acima de toda a excepo, o viu, e o abbade Barbosa diz que o proprio original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terremoto de 1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa litteratura, e tudo nos incita hoje a crr que se perdeu para sempre. Mas, se j no existe o original, existem as verses d'elle, ainda que alteradas pelos traductores. Trasladado em hespanhol se publicou em Sevilha em 1510. Vimos esta traduco, de que ha um exemplar na bibliotheca publica da cidade do Porto; e bem sentimos no ter tomado d'ella varias notas, que de grande utilidade nos foram para o que vamos dizer. Lemos ultimamente a edio de Garciordonez de Montalvo, impressa tambem em Sevilha, em 1526, da qual nenhum bibliographo, que ns conheamos, faz meno. Segundo o abbade Barbosa as edies do _Amadis_, vertido em hespanhol, se repetiram em 1539, 1576 e 1588. Esta novella tambem appareceu em 1540, traduzida em francs e accrescentada por Nicolau de Herberay: em 1583 a publicaram os alemes na sua lingua; e Bernarda Tasso, pai do grande Tasso, a reduziu em italiano quasi por esse mesmo tempo, fazendo um poema riquissimo de versos pomposos, e... de dormideiras. Esta acceitao unanime das diversas naes o maior elogio que se podia fazer obra do nosso Lobeira. O _Amadis_, como hoje o conhecemos, na antiga verso hespanhola, consta de quatro livros, o ultimo dos quaes foi grandemente alterado por Garciordonez, segundo elle mesmo diz: "Corrigi (so palavras do prologo) estes tres livros do Amadis, que por culpa dos mus escriptores ou compositores mui corruptos e viciados se liam, e _trasladei_ e emmendei o livro 4.^o". Estes quatro livros, traduzidos tambem em francs, foram continuados por diversos auctores, constando hoje a obra de vinte e quatro. Sendo impossivel dar uma ida do _Amadis de Gaula_, teia immensa de aventuras, que ao modo das do Ariosto formam um labyrintho inextricavel, buscaremos ao menos dar a conhecer o tempo e o logar da aco, e o seu principal actor, com a brevidade a que nos constrangem os limites do _Panorama_. A epocha escolhida pelos romancistas de cavallarias para nella collocarem os seus heroes fabulosos indeterminada em todas as novellas. A do _Amadis_, ainda que bastante incerta, menos vaga. O heroe viveu muito antes do celebre Arthur ou Artus, rei de Inglaterra: mas j quando este pas e o de Frana eram christos. o que se l no 1.^o capitulo do _Amadis_, e sendo assim este guerreiro floresceu no VI ou VII seculo; e como a maior parte dos romances de cavallaria, que ainda existem, versam sobre a vida dos seus imaginarios descendentes, podemos tambem para elles estabelecer, ainda que imperfeitamente, uma especie de chronologia. O theatro em que se passam as aventuras de _Amadis de Gaula_, um theatro quasi tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. Joo I. O heroe e os mais cavalleiros seus contemporaneos cruzavam mares extensos, peregrinavam centenares de leguas, com a mesma rapidez e facilidade com que ns fazemos visitas dentro de Lisboa. Esta commodidade aproveitaram-na todos os novelleiros que vieram depois de Lobeira; e para as distancias que seria incrivel fazer correr em curtissimo prazo a um cavalleiro, l estavam as magas e os encantadores, especie de espada de Alexandre, que o escriptor sempre tinha mo para cortar todos os ns gordios que embaraavam as narraes. No nos cabendo neste logar tudo o que temos de dizer acrca do _Amadis_, o deixaremos para segundo artigo, continuando nos subsequentes com a historia das outras novellas de cavallaria portuguesas. II Amaclis de Gaula (Continuao) Promettemos no antedecente artigo dar uma brevissima ida d'esta primeira novella de cavallaria: cumpri-lo-hemos aqui, tocando depois um ponto em que de proposito deixmos de falar, e vem a ser a clebre questo acrca de saber se esta novella obra de um auctor portugus, hespanhol, ou francs. Todas estas tres naes a pretendem para si; e na contenda os portugueses parece estarem peior que os seus adversarios, visto j no existir o original. Mas, ao cabo, so elles que teem razo, segundo nosso entender; e por isso no duvidmos de attribuir o _Amadis_ a Vasco de Lobeira. O rei Perion reinava na Gaula (Frana): o rei Garinter na Pequena Bretanha, hoje a provincia de Frana d'este nome. Levado pelo desejo de conhecer Garinter intenta Perion uma longa viagem[11]; e com efteito o encontra numa caada; do-se a conhecer um ao outro, e Perion conduzido corte do seu novo amigo. Tinha este uma filha chamada Elisena, que se namora de Perion, o qual d'ahi a pouco parte para a Gaula, deixando-a gravida. Ella para esquivar-se infamia entrega o fructo dos seus amores merc das ondas, encerrado em uma caixa. Foi este Amadis. Encontrado por uma barca em que a Gandales, cavalleiro escocs, este o salva e cria com seu filho Gandalim, depois escudeiro de Amadis. Os dois moos so levados crte de Languines, rei da Escocia. Aqui viu a Amadis el-rei Lisuarte, que de Dinamarca vinha reinar em Inglaterra, o qual deixou na crte de Languines a sua filha Oriana. Foi ento que comearam os amores d'esta princeza com Amadis, que so o principal objecto da novella. Amadis reconhecido por seu pai Perion, j casado com a filha de Garinter, e cresce em poder e renome. Mil difficulclades se alevantam para elle chegar a possuir Oriana, as quaes vence com repetidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance acaba de um modo incompleto com os trabalhos que nos seus ultimos annos cercaram a el-rei Lisuarte. esta, em summa, a materia que enche o volumoso romance de _Amadis_, novella cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambem de muitas que grandemente excitam a curiosidade. O estylo em que est escripto o de uma velha chronica do seculo XV, e notamos nelle uma grande similhana com os escriptos do pai da nossa historia, o singelo chronista de Joo I, Ferno Lopes, que tantas vezes se mostra mais poeta que muitos que se arrogam este titulo. Traado um leve esboo da novella de _Amadis de Gaula_, segue-se tractar a questo de saber se a devemos attribuir a um escriptor portugus. Primeiro que tudo, de notar que a tradio constante em Portugal foi sempre que o _Amadis_ fra composto por Lobeira. Antonio Ferreira e o dr. Joo de Barros, que escreveram no seculo XVI, no duvidam d-lo por certo: o conde da Ericeira numa conta dada academia de historia, de certa colleo de livros que andava examinando, diz que ali se achava um manuscripto do _Amadis_, sem que sobre isso faa admirao ou reparo; o que parece provar que naquella academia nenhuma duvida havia acrca da existencia da novella, no original portugus. Mas no era s nossa esta opinio: a maior parte dos escriptores hespanhoes convem em attribuir a Lobeira o _Amadis de Gaula_. Pretendem os franceses (no todos os que na materia teem escripto) que esta novella fra traduzida em hespanhol do idioma picardo, e Herberay diz a vira nesta lingua: mas isto nada prova. Quem impedia que os franceses traduzissem o original de Lobeira? A outra objeco contra ns ter feito o auctor os seus heroes franceses e ingleses; mas isto tambem nada prova: por que prova de mais. Os ingleses teriam ainda mais razo para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser francesa a personagem principal, a maior parte dos acontecimentos pe-nos o auctor em Inglaterra, e quasi todos os cavalleiros notaveis so d'este pas, excepo de Amadis e seu irmo Galaor. O certo que Lobeira, tendo vivido no tempo de el-rei D. Fernando I e de D. Joo I, tinha visto as proezas que em Portugal obraram os cavalleiros ingleses, a quem devemos os progressos que ento fizemos na arte da guerra. Devia elle fazer portanto alta ida da cavallaria d'aquella nao. Nada havia mais natural do que fazer da Inglaterra o theatro das faanhas dos seus imaginarios heroes. Como, porm, o agente principal de todos os successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse um principe estrangeiro que viesse tornar brilhante a crte inglesa, com seus amores pela dama principal, a filha de Lisuarte, que no poderia alis corresponder affeio de um subdito de seu pai. Eis a razo obvia porque Amadis francs. Alem d'estas observaes ha uma principal, que ainda ninguem, que ns saibamos, se lembrou de fazer: o examinar em si a novella, para ver se das suas proprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem. Se isto se tivesse feito, a questo estaria de ha muito decidida. Citmos mui de proposito no primeiro artigo as palavras de Garciordonez, que diz emendara os tres livros de _Amadis_, que andavam viciados, e _trasladara_ o quarto. Aqui o verbo _trasladar_, claro que no pde significar seno traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a obra no era originalmente hespanhola. Seria francesa?--Dizemos, sem duvida alguma, que no. Perion encontrando Garinter diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vr. Era possivel acaso que um escriptor francs fizesse o rei da Pequena Bretanhi desconhecido do da Frana, e pusesse na boca d'este um to descompassado erro geographico? Alm d'isto Perion e Lisuarte reunem _crtes_, nos casos difficeis e circumstancias importantes: nestas crtes apparecem, no os bares das antigas assembleas feudaes da Inglaterra e Frana, mas os _ricos-homens_ e _homens-bons_ das crtes portuguesas. Emfim o auctor descreve a passagem do canal de Inglaterra como uma viagem de nove dias com vento favoravel. As frequentes relaes de guerra e de paz entre a Gr-Bretanha e a Frana permittiam porventura que ignorasse um escriptor francs a distancia de um a outro pas? Ns poderiamos accrescentar muitos outros exemplos d'esta natureza; mas cremos serem de sobejo os que apontamos, para que nao portuguesa seja cedida a palma de ter sado da penna de um escriptor seu a mais antiga e mais celebre das novellas cavalheirescas. III Novellas do seculo XV Quando escrevemos os dois primeiros artigos acrca das novellas de cavallaria portuguesas,[12] era nossa inteno continuar sem demora a publicao do breve resumo, que encetmos d'esta parte da nossa historia litteraria, por ser aquella sobre a qual menos se tem escripto. Mas por isso mesmo era preciso fazer maiores indagaes, que outros trabalhos nos no permittiam. Abrimos pois, mo do intento que hoje continuamos a pr por obra: no porque julguemos sufficiente o que temos colligido, desde ento para c, sobre a materia; mas porque mais valem poucas noticias que absolutamente nenhumas. Antes que passemos adiante cumpre-nos accrescentar aqui alguma coisa acrca do _Amadis_, de que largamente falmos nos artigos j publicados, e vem a ser um testemunho que corta por uma vez a questo da sua originalidade. Este testemunho o de Gomes Eannes de Azurara, historiador que os nossos leitores j conhecem[13], e que diz o seguinte no capitulo 63 da chronica do conde D. Pedro de Menezes--e assy o livro d'Amadis, como quer que smente este fosse feito a prazer de um homem, que se chamava Vasco Lobeira em tempo d'el-rei D. Fernando, sendo toda-las cousas do dito livro fingidas do auctor--Este logar de um escriptor, a bem dizer coevo, deve tirar a ltima sombra de duvida sobre a nacionalidade do celebre _Amadis de Gaula_. Assim como a crte de D. Joo I foi a eschola dos mais famosos cavalleiros de Portugal, assim a epocha do seu reinado se pode considerar como a mais favoravel para as letras, que Portugal viu, at o tempo de D. Manuel. D. Duarte, o bom e infeliz D. Duarte, proporcionalmente o mais instruido dos nossos reis, no teve que ir aprender, nem virtudes, nem cavallaria, nem sciencias nas crtes estrangeiras, porque as virtudes de que foi ornado, e os vastos conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na de seu illustre pai. O infante D. Pedro, principe grande entre os maiores que Portugal tem gerado, se correu o mundo foi para encher de assombro os sabios com sua sciencia, os valorosos com seu valor. O infante D. Henrique ha ahi quem no o conhea? Quem no conhea o fundador da nossa gloria maritima? Certo que no. Nome esse que nunca esquecer. E todavia de todos os quatro filhos de Joo I (contando o infante D. Fernando) elle quem occupa o logar mais baixo na escala das virtudes, e porventura na sciencia apenas lhe caber o terceiro depois de D. Duarte e D. Pedro. E ainda o infante D. Fernando, esse pobre cavalleiro da cruz a quem a nao ousou negar o resgate, preferindo alguns palmos de terra cingidos de muralhas, liberdade e vida de um homem leal, que bem a servira, antepondo uma infamia a uma perda, talvez facil de remediar; ainda, dizemos, o bom infante sancto, o martyr resignado da patria e da f, quo amigo e protector foi das letras e dos que as cultivavam! Ferno Lopes e Fr. Joo Alvarez foram feitura sua; e, provavelmente, no nos honrariamos hoje d'esses dois homens, dos quaes um deu o primeiro impulso nossa linguagem historica, e outro nossa linguagem oratoria, se a boa sombra de D. Fernando os no fizesse medrar. Leia-se o testamento que fez quando mancebo partiu para a Africa, e ver-se-ha quantos e quo notaveis livros possuia o infante; numa epocha em que, no existindo a typographia, muitas vezes em pases ento semi-barbaros, como por exemplo a Inglaterra, era necessario empenhar um castello ou um solar inteiro para obter a copia de qualquer livro. E todavia, de todos os quatro irmos D. Fernando o menos conhecido na nossa historia litteraria. Os vestigios da litteratura portuguesa do periodo que decorre desde os principios do reinado de D. Joo I at o de D. Affonso V so innumeraveis; mas so apenas vestigios. Das artes ahi est a Batalha, e ainda apesar de conegos, S.^{ta} Maria de Guimares, dizendo o que em Portugal foi essa era de toda a casta de glorias, a que vertendo sangue, se acolhem os coraes que por ora no renegaram do nome portugus, hoje vilipendiado e arrastado por tabernas e monturos d'estrangeiros. Dos monumentos, porm, da nossa velha litteratura apenas restam alguns nomes, e alguns titulos ou fragmentos d'obras, consumidas por incuria propria, e por terremotos e incendios, ou roubadas por castelhanos, franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles que teem querido tomar o leve trabalho de arrebatar, ou pr em almoerla as preciosidades dos nossos cartorios, bibliothecas e museus. Do j citado testamento do infante D. Fernando, do de Diogo Affonso Mangancha, do inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da livraria d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros documentos publicados e ineditos, bem como de varias passagens dos nossos chronistas, e ainda mais dos historiadores monasticos, se v quo grande era em Portugal o tracto dos livros, numa epocha, que por ahi se chama barbara, porque era de grandes virtudes. E no se creia que esses livros eram s latinos: pelo contrario, a maior parte estava escripta nas linguas vulgares de Hespanha, principalmente na portuguesa. As obras de Cicero foram traduzidas pelo infante D. Pedro, e por sua ordem o livro do Regimento dos Principes. S a lista das obras d'el rei D. Duarte espanta pela variedade de materias em que este rei philosopho empregou a sua penna nada rude. Marco Paulo j estava traduzido no seu tempo. O livro da crte imperial prova que naquella epocha se tractavam em vulgar as arduas materias de theologia polemica. Levantavam-se cartas topographicas do reino, se que os _Cadernos das cidades e villas de Portugal_, que existiam na livraria d'el-rei D. Duarte, no eram antes uma especie de estatistica, o que, em nosso entender, mais admiravel fra. Ento, Diogo Affonso Mangancha, Fr. Gil Lobo, os dominicanos Fr. Rodrigo e Fr. Fernando d'Arrotea, e tantos outros oradores, faziam descer do alto dos pulpitos palavras de eloquencia e de unco, que chegavam ao fundo dos coraes, como se viu nas exequias de D. Joo I. Estudava-se a philosophia e a historia, de que do testemunho os livros philosophicos, e historiadores romanos e modernos da mesma livraria d'el-rei D. Duarte. Emfim o ensino da jurisprudencia, trazido de Italia por Joo das Regras, produziu uma multido de jurisperitos, a quem depois Portugal deveu grande parte da legislao, excellente para aquelle tempo, que se encontra no codigo affonsino. Que resta de tantos homens e coisas? Esse codigo, que serviu de base aos que o substituiram. Dos livros que ajunctou D. Duarte apenas sabemos da existencia do intitulado _Crte Imperial_ e de um fragmento do _Regimento de Principes_. Tudo o mais quasi com certeza se poderia talvez dizer, que, ou o tempo o consumiu, ou jaz sepultado por bibliothecas estrangeiras, como succede s obras do mesmo monarcha. Na sua j citada livraria existiam quatro obras que pelos titulos se v serem novellas de cavallaria. Eram estas o _Livro de Tristo_, _O Merlim_, o _Livro de Galaz_, e o _Livro d'Hannibal_. O referido catalogo, que apenas merece o nome de rol, s declara expressamente ser em portugus o _Livro d'Hannibal_. Incrivel quasi que o _Amadis_ ficasse sem imitadores, e poder-se-ia conjecturar que alguma das citadas novellas fosse original portuguesa. De todas, porm, temos achado rastos nas litteraturas estrangeiras, vindo por tanto, a serem provavelmente todas ellas traduces do normando-saxonio (ingls), ou com mais probabilidade da lingua d'Oil (francesa) ou da lingua d'Oc (provenal). Para intelligencia d'esta nossa opinio poremos aqui resumidamente uma ida geral dos romances ou novellas de cavallaria. Os que teem escripto acrca d'esta materia, e nomeadamente Sismondi, dividem todos os romances em trs classes ou cyclos, conhecidos pelos nomes das primeiras personagens d'essas series de novellas, que partindo da historia de cada um d'aquelles heroes, continuavam pela de seus filhos e netos, alliados, ou inimigos indefinitamente. Estas tres classes so a das novellas de Amadis, a das de Artus, ou Arthur d'Inglaterra, e a das de Carlos-Magno. Todavia parece-nos que esta classificao imperteita. Dividiriamos antes essa multido de romances em cinco cyclos ou classes: a de _Artus_, a do _Sancto-Brial_, a de _Carlos-Magno_, a de _Amadis_, e a dos romances a que podemos chamar greco-romanos, porque eram as vidas dos heroes antigos, que davam materia s invenes dos novelleiros. No esconderemos que a do _Sancto-Brial_ est to ligada de _Artus_, que se confunde com esta; mas logo diremos porque nos parece dever-se d'ella separar. Os romances de _Artus_ ou da _Tavola-redonda_ so a historia fabulizada do famoso Arthur, ultimo rei d'Inglaterra, da raa dos bretes, e que defendeu valorosamente o seu pas da invaso dos anglo-saxonios. Esta serie de novellas comea no romance de Bruto, composto por micer Gasse em 1155; a ella pertence o romance de Merlin, filho de uma dama bret e do diabo, no qual se contam as guerras de Uter e de Pandragon, o nascimento de Artus, e a instituio da Tavola-redonda, isto , de uma especie de doze pares ingleses, que costumavam comer como _eguaes_ em uma _mesa redonda_ nos paos d'el-rei Artus: a historia de Tristo de Leonis tambem pertence a este cyclo, sendo Tristo um dos cavalleiros da Tavola-redonda; e estes dois romances cremos ns que eram os que existiam traduzidos na livraria de D. Duarte: no mesmo cyclo entram as novellas de Meliot de Logres, Melinus de Dinamarca, Micer Galvo, Lancelote do Lago, Vigalois, Vigamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas outras que fra longo enumerar. Os romances do Sancto-Greal, Gral, ou Graal (que os nossos escriptores chamam erradamente Santo Brial) formam um cyclo bastante ligado com o antecedente, mas distincto pelo pensamento que presidiu sua inveno. O Sancto-Greal (derivado de _Sang-ral_, ou _Sanguis-ralis_) era o vaso ou copa em que Jesu-Christo tinha comido com os seus discipulos na noite da ca, e em que Jos d'Arimathea tinha, segundo a tradio dos novelleiros, recolhido o sangue derramado pelo Senhor na cruz; vinha assim esta copa imaginaria a ser o mesmo que o Sancto-Catino que os genovezes se gabaram de ter trazido da terra sancta. Este precioso vaso estava guardado, segundo os romancistas, em um templo na Hespanha, num sitio desconhecido, e s os cavalleiros escolhidos por Deus podiam atinar com elle. Para isto era necessario que se alevantassem maior alteza, no s de feitos de armas, mas de virtudes moraes. V-se, portanto, que o pensamento d'estes romances era uma allegoria religiosa, um typo do alvo em que devia cada cavalleiro pr a mira do seu procedimento para merecer tal nome, ou para ser _escolhido_ de Deus[14]. A este cyclo pertencem o Perceval, Lohengrin, Titurel, e uma parte dos romances da Tavola-redonda, porque muitos dos cavalleiros de Artus trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal, que, segundo escrevem alguns dos novelleiros d'esse cyclo, tinha sido levado para Inglaterra. O primeiro e principal romance do Sancto-Greal foi escripto por Christiano de Troyes no seculo XII, e existe manuscripto na bibliotheca real de Paris, na sua frma original, que em verso. O cyclo dos romances de Carlos Magno comea com a chronica fabulosa do arcebispo Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas escripta, segundo a opinio mais seguida, no undecimo ou duodecimo seculo. Este livro passou muito tempo por historico, e as fabulas nelle contidas foram inseridas como authenticas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do seculo XII:[15] mas depois das cruzadas, a obra attribuida a Turpin no serviu mais seno como de llo de uma multido de novellas relativas aos suppostos pares de Frana, ou paladinos de Carlos-Magno. O romance de Bertha, o de Ogeiro de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de Montalvo, o dos quatro filhos d'Aymo, o de Flora e Brancaflor, o do gigante Morgante, e varios outros, de que se aproveitaram Boiardo, Ariosto, Pulci, e os mais poetas romancistas d'Italia pertencem a este cyclo. O cyclo dos romances do Amadis comea por o d'aquelle nome, e pertencem-lhe todas as emitaes que d'ellese fizeram, e das quaes, a mais notavel o Amadis de Grecia. Florismarte d'Hircania, Galaos, Florestam, as Sergas de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins d'Oliva e d'Inglaterra, e muitissimos outros entram nesta diviso. esta especie de novellas de cavallaria propriamente hespanhola. A maior parte d'ellas foram compostas nos idiomas da Peninsula, e muitas nem d'aqui saram. Desgraadamente os continuadores e emitadores de Lobeira foram, por via de regra, faltos de talento e cheios de mu gosto. D'ahi veio a graciosa justia que d'elles fez Cervantes por mos do cura, no seu inimitavel D. Quixote. A ultima classe de romances de cavallaria aquella em que as personagens e successos da historia antiga, conhecidos imperfeitamente, davam largueza imaginao dos novelleiros, que revestiam essas personagens dos costumes, crenas e opinies da edade-mdia, e affeioavam esses successos pelas instituies da cavallaria, enxerindo at os heroes da Grecia e de Roma, nas familias fabulosas dos Artus e de Amadis. Pertencem a este cyclo os romances d'Alexandre, descendente d'el-rei Artus, o d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segundo parece, tambem existia uma traduco em aragons na livraria de D. Duarte) e outros, com os titulos dos quaes escusado encher papel.[16] Em alguma d'estas cinco classes entram naturalmente todas as novellas de cuja existencia em Portugal, no principio do seculo XV, temos noticia. O _Merlim_ e o _Livro de Tristo_ indicam pelo seu simples titulo, serem, quando muito, verses dos dois romances do cyclo da Tavola-redonda, conhecidos por aquelles nomes. O livro de _Galaaz_ com toda a probalidade no era mais que a historia de _Galaad_, filho de Lancelote do Lago, pertencente ao mesmo cyclo. E finalmente o livro d'_Hannibal_ seria uma traduco de alguns dos numerosos romances do cyclo greco-romano. Nem nos admiremos de que na livraria d'el-rei D. Duarte predominassem os romances da Tavola-redonda. Todos sabem que sua mi, a rainha D. Philippa, era inglesa, e nada mais natural do que ella e as pessoas da sua nao, que com ella vieram a Portugal, fizessem conhecer essa classe de novellas que, mais que nenhumas, lisongeavam o amor proprio dos ingleses. De outras obras se faz meno no indice d'aquella livraria, que vehementemente suspeitamos serem novellas de cavallaria; mas no passando esta opinio de mera suspeita, guardaremos sobre isso silencio. Desde a epocha de D. Duarte at o principio do reinado de D. Manuel nenhum rasto temos encontrado d'este genero de litteratura. Foi em 1496 que se publicou a _Estoria do muy nobre Vespasiano emperador de Roma_, livro de que dmos noticia a pag. 164 do 1.^o volume d'este jornal. Esta _Historia de Vespasiano_, que examinmos por permisso do nosso erudito collega o sr. Vasco Pinto de Balsemo, e da qual o unico exemplar que existe pertence bibliotheca publica da crte, no seno uma novella de cavallaria, pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na verdade, alguns factos historicos, mas os costumes, e as particularidades da narrao no passam de meras fices. Que a obra seja uma traduco, no nos parece duvidoso. Na subscripo d'ella se diz que fra ordenada por Jacob e Josep abaramatia, que a todas aquellas cousas foram presentes. Isto indica bastantemente a origem estrangeira do livro. Se, porm, nos lembrarmos de que Jos de Arimathea, figura nos romances do Santo-Greal, como tendo recebido o sangue de Christo nesse celebre vaso, naturalissimo que o novelleiro, auctor da historia de Vespasiano, se lembrasse de lhe attribuir a propria composio, tanto mais que era quasi como lei entre os romancistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos remota, ao fructo das suas imaginaes. Accresce, para mais fundamentar a nossa opinio, que Mr. Fauriel menciona uma _historia romance_ da destruio de Jerusalem por Vespasiano, escripta em provenal, e que elle classifica como livro connexo com o cyclo das novellas do Santo-Greal. Este romance, que, segundo nossa lembrana, existe manuscripto na Bibliotheca Nacional de Paris, com toda a probabilidade, o original da novella portuguesa. Eis o que temos podido alcanar acrca dos romances de cavallaria em Portugal, durante o seculo XV. Outros mais habeis e mais felizes tero chegado a maior profundidade com as suas indagaes. Trouxemos praa, em proveito commum, a nossa pobreza. No eramos a mais obrigados. No artigo subsequente falaremos dos romances de cavallaria portugueses, no seculo XVI.[17] *Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol* PANORAMA 1839 *Historia do theatro moderno Theatro hespanhol* I Ha um anno a esta parte que o theatro comea a ter entre ns a importancia que ha muito tinha entre as outras naes da Europa. Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que no veem ao nosso proposito, contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos falam j das actuaes representaes, e julgam, bem ou mal, no s as novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque so levadas scena e executadas pelos actores: e no so, por certo, esses artigos os que se lem com menos avidez. No segundo numero do Panorama dmos ns uma noticia do nosso theatro, precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras naes: na conjunctura actual parece-nos que no ser fra de propsito o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos demais povos, cuja litteratura tem relao com a nossa, e como do theatro hespanhol veiu o portugus, conforme o que dissmos falando das origens d'este, ser da origem e progresso do drama hespanhol, que tractaremos em primeiro logar. Em Hespanha, como nos outros pases, foi a egreja que fez nascer o drama: todavia a primeira representao, a que estrictamente se pde chamar theatral, e de que ha meno nos annaes de Hespanha, a que se fez em 1414, na festa da coroao de Fernando o bom, rei de Arago. Foi composta pelo marquez de Vilhena, e s sabemos que era uma pea allegorica, em que figuravam a Justia, a Paz, a Verdade, e a Clemencia, de modo que pertencia classe das _moralidades_, que tiveram voga por algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de idas claras, reduziu a drama, com o titulo de _Comedieta de Ponza_, os incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto ilha de Ponza, entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este auctor, e s se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, at que o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo, o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol notavel pela habilidade que nella apparece, no s no modo de tractar um facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificao. Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula, f-los Joo de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e cujas obras formam por si s um cancioneiro. Depois de alargar os limites das representaes religiosas, compondo varios autos, onde no smente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenes do poeta, formou o projecto de fazer sar o drama dos objectos religiosos, para o que comps pequenas peas pastoraes, que denominou eclogas. Estas peas, em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do Infantado. Como a denominao o indica, ellas de nada mais constavam do que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor, imitao de Virgilio, usou a primeira vez d'esta inveno para celebrar, por via de alluses, algum acontecimento notavel, como a concluso de pazes ou a volta de algum principe; e depois inventou uma aco curta e simples, na qual reduziu a drama as paixes das suas personagens. Estas pequenas peas, cortadas por danas, e acabando com vilhancicos ou cantigas, continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo naturalidade e viveza. A primeira representao d'estas comedias pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem por este tempo que appareceu a famosa _Celestina_ de Rodrigo de Cota, de que j falmos no primeiro artigo. Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo XVI, e, o que mais notavel, fra de Hespanha. Um certo Torres Naharro, residente em Roma, comps alli varias comedias, que foram representadas perante Leo X.[19] Nellas a inveno feliz, os caracteres bem traados e o dialogo vivo, e contm algumas ousadias que neste auctor no eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na crte pontificia, comps satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero no estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro comps tambem uma arte dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a distinco da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies, comedia de _noticia_, isto , historica, e comedia de _phantasia_, isto , de imaginao: foi tambem elle que inventou os _introitos_ ou prlogos e que deu aos actos a denominao de _jornadas_, seguida depois constantemente pelos auctores hespanhoes nas divises dos seus dramas. As peas de Naharro, apenas appareceram em Hespanha, foram, prohibidas pela inquisio, como succedeu s pouco mais recentes de Christovam de Castillego, secretario dos imperadores Maximiliano e Fernando.[20] Estas, quando se imprimiram as obras de Castillejo, passados annos, foram supprimidas e perderam-se de todo. Apresenta assim o theatro hespanhol o phenomeno singular de ter tido duas infancias. Havendo sido prohibidas, as primeiras tentativas de composies dramaticas regulares no acharam imitadores, e at parece que inteiramente esqueceram, porque no casamento de uma infanta de Castella, em 1548, foi uma pea de Ariosto que se representou. Entretanto alguns eruditos, como Villalobos, Oliva e outros, trabalhavam por apresentar os antigos como modelos dramaticos, traduzindo as comedias de Plauto, Terencio e Aristophanes; mas estas antigas composies casavam-se mal com o genio hespanhol, de maneira que, emquanto as produces theatraes que a Hespanha possuia, jaziam sepultadas nas livrarias dos curiosos, ou nos archivos da inquisio, o povo se entretinha com as grosseiras caturrices dos jograes trues. D'aqui nasceu que Schlegel, Bouterweek, Sismondi, e quasi todos os criticos estrangeiros, ignorando at os nomes dos primeiros escriptores dramaticos hespanhoes, no s d'elles no falam, mas pem a origem do drama castelhano no meiado do seculo XVI. O fundador do theatro hespanhol a que verdadeiramente se pde chamar nacional e popular, foi Lopes de Rueda de Sevilha, que deixou o seu officio de btefolha para se ajunctar a uma companhia de comicos ambulantes dos quaes foi brevemente o cabea, ou, segunda a expresso hespanhola, o _autor_. Este titulo, derivado, no do latim, _auctor_, mas de _auto_, dava-se naquelle tempo ao que compunha e recitava peas; e tambm lhe chamavam _maestro de hacer comedias_. Lope de Rueda tinha ambas as castas de talento necessarias para ser um _autor_ d'aquella pocha; ganhou por isso grande reputao, e foi unanimemente julgado grande poeta e grande actor; e to completamente esqueceram as tentativas dramaticas feitas antes d'elle que o tiveram em conta de inventor da diviso em jornadas ou actos, e dos prologos chamados introitos, e depois loas. Durante uns poucos de annos discorreu Lope de cidade em cidade; mas por fim a sua grande reputao fez com que fosse chamado crte de Philipe II. Os poucos dramas, dialogos pastoris, etc., que d'elle restam, se destinguem por certa graa e viveza naturaes; e posto que sejam todos em prosa, elle os escrevia em verso com a mesma facilidade. Ha um facto curioso, que prova a indulgencia com que os ecclesiasticos olhavam, naquelle tempo, at para os dramas profanos; facto que se l na historia de Segovia, de Colmenares: na occasio da grande festividade da abertura da cathedral d'aquella cidade, a companhia de Lope de Rueda representou em um tablado, erecto no meio da egreja, depois de vesperas solemnes, _una gostosa comedia_. O proprio Lope, morrendo em Cordova no anno de 1567, foi alli enterrado com grande pompa, no cro da cathedral. Por este tempo (1561) a crte hespanhola, que at ento tinha andado vagueando pelas capites das differentes provincias, fez assento fixo em Madrid, circumstancia que foi favoravel para a arte dramatica, porque d'ella nasceu o haver um theatro fixo. Documentos authenticos provam que um anno depois da morte de Lope de Rueda havia theatros em Madrid. Existiam ento, tanto na capital como nas provincias, varias companhias de actores, distinctas umas das outras por nomes extravagantes e burlescos, e to numerosas, que um escriptor moderno hespanhol as distingue em oito especies differentes. Os progressos materiaes acompanharam d'ahi vante os litterarios e moraes. Por 1570 estabeleceram-se os dois theatros _de la cruz e del principe_, que ainda existem, e alguns engenhos summos comearam a trabalhar em composies dramaticas, o que at ento se tinha deixado aos directores das companhias ambulantes. Cervantes, tendo chegado do seu captiveiro de Argel, foi um dos primeiros que encetaram esta carreira; mas, apesar dos seus muitos meritos como escriptor dramatico, era mais inclinado ao genero narrativo, o que no se compadecia, por certo, com o estylo proprio do drama. Emquanto o auctor de D. _Quixote_ escrevia em Madrid, Joo de la Cueva fazia representar alguns dramas no theatro de Sevilha, reduzindo a quatro o numero de actos ou jornadas, que at ento eram cinco ou seis. A representao de cada noite constava da pea principal, e, alm d'isso, de tres entremezes e um baile. Tambem Valencia, que nas artes e boas letras era a rival de Sevilha, deu alguns passos na carreira dramatica. Foi um poeta valenciano Christovam de Virues, que ainda reduziu o numero de actos a que se limitaram d'ahi vante todos os escriptores dramaticos hespanhoes. At ento o drama, segundo o engraado conceito de Lope de Vega, tinha andado com as mos pelo cho (a quatro ps) como uma creana, porque estava na idade infantil. A pompa scenica do theatro hespanhol tinha j feito grandes progressos. Rojas diz que no tempo de Lope de Rueda toda a vestiaria e mais aprestos de qualquer companhia dramatica se podia carregar s costas de uma aranha, mas que no tempo de Cueva e Virues as actrizes representavam os seus papeis com vestuarios de seda e veludo, e com fios de prolas e cadeias de ouro; que nos entremezes se cantavam tercettos e quartetos; e que at appareciam no tablado cavallos, quando assim era necessario para ser completa a illuso. Digno de notar-se que j no seculo XVI se acha em Hespanha travada a guerra entre os escriptores dramaticos, que pugnavam pela sua liberdade, e os criticos, que os queriam sujeitar aos preceitos d'Aristoteles. Era assim que emquanto o _rhetorico_ Pinciano clamava que respeitassem as tres unidades, de que nenhum caso se fazia, Joo de la Cueva tomava despejadamente a seu cargo deffender as liberdades dramaticas no seu _Exemplar Poetico_. Pugnava por ellas porque eram o fructo de uma serie de seculos que tinham abolido todos os antigos costumes;--porque eram mais favoraveis aos vos atrevidos da imaginao;--e porque, emfim, eram o mais adaptado meio de agradar ao publico. Mas, apresentando to judiciosa opinio, estabelecia maximas para regular as composies dramaticas, taes que sero sempre approvadas pelo bom juizo e bom gosto, posto que os seus compatriotas nem d'estas mesmas fizeram caso, no seu ardor contra toda a casta de restrices litterarias. Este desregrado fervor de imaginao era o resultado necessario das particulares circumstancias que por muitos seculos tinham concorrido para formar o caracter nacional em Hespanha. Os hespanhoes, diz Schlegel, tiveram um quinho glorioso na historia da idade mdia, quinho muito esquecido pela ingratido dos tempos modernos. Elles foram ento como uns atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Peninsula era como um arraial exposto aos incessantes commettimentos dos arabes, e desamparado de alheio soccorro. Acostumado a combater ao mesmo tempo pela liberdade e pela religio, o hespanhol era afferrado a esta com o zlo fervoroso de quem a tinha comprado custa do mais puro sangue. Cada solemnidade do culto divino era para elle como um premio de suas aces heroicas; cada templo um monumento das faanhas dos seus antepassados. Em mais recentes epochas nunca importou aos hespanhoes examinar os actos de seus superiores, mas continuaram nas guerras de aggresso ou ambio com a mesma fidelidade e valentia que tinham mostrado nas guerras de defenso. A fama individual, e o zlo falso da religio os cegava acrca da justia das causas que os moviam. Empresas sem egual, levaram-nas felizmente a cabo; e o Mundo-Novo, descuberto por elles, foi conquistado por um punhado de valorosos aventureiros: casos particulares de crueza e rapina mancharam o brilho do mais acabado heroismo, mas estas corrupes no chegaram ao amago da nao. Em parte nenhuma como em Hespanha, sobreviveu o espirito de cavallaria sua existencia politica por tanto tempo, por isso que ainda brilhou depois de ter passado o predominio de Hespanha e de ter soffrido grande diminuio a opulencia interna do pas, em virtude dos ruinosos erros de Philippe II. Propagou-se o espirito cavalleiroso at o periodo mais florente da sua litteratura, e nella estampou o seu cunho, de no duvidosa maneira. A imaginao dos hespanhoes era audaz, como as suas aces: nenhuma aventura intellectual lhe parecia perigosa. A predileco do povo por maravilhas extravagantes j se havia mostrado nas novellas de cavallaria. Desejavam vr tambem o maravilhoso no theatro; e quando os seus poetas, eminentes na cultura litteraria, e na situao da vida, lhes representavam esta na frma requerida, introduziam nella uma especie de harmonia, e purificavam-na da sua grossaria real, resultando do contraste entre o objecto e a sua frma uma fascinao irresistivel. Imaginavam os espectadores que viam certo fulgor da omnipotente grandeza da sua nao, j muito abatida, quando toda a harmonia dos mais variados metros, toda a elegancia de agudas alluses, todo aquelle esplendor de imagens e comparaes que s na sua lingua se acha, se derramavam por enredos dramaticos, sempre novos, e quasi sempre grandemente engenhosos. Buscavam-se na imaginao os mais ricos thesouros de passados tempos para contentar o povo, como se realmente existissem: pode-se dizer que nos dominios de tal poesia, como nos de Carlos V, nunca se punha o sol. Foi quando os animos mostravam similhante tendencia, que surgiu Lope de Vega, para exercitar a sua protentosa fertilidade de inveno dramatica, e facilidade metrica. D'este illustre dramaturgo falaremos no proximo artigo. II Lope de Vega tinha o grandissimo e principal dote para primar na carreira que seguia: era este dote o conhecer profundamente o gosto e paixes do povo para quem escrevia: porm do que nunca elle deu mostras, foi do mais importante e nobre merito de estimar a arte e cultiv-la com enthusiasmo. O effeito, segundo a vulgarissima accepo d'este vocabulo, no era s o seu principal objecto, como cumpre que seja para todo o verdadeiro escriptor dramatico, mas unico--as miras todas p-las unicamente em bater neste alvo--e em verdade ninguem o alcanou como elle; deixando-nos assim o mais notavel exemplo de sacrificio de alta e duradoura reputao a troco de inegualavel mas temporaria popularidade. Na grande poro que nos resta das suas innumeraveis composies, o que mais admira a inexhaurivel inveno de incidentes, a variedade de caracteres, o jogo das paixes, e o mimoso e subtil do dialogo; mas todas estas brilhantes circumstancias esto como que affogadas na espantosa exuberancia com que pullulam, em cada scena, em cada fala, e at em cada verso. Cumpre, porm, que digamos que nem no seu pas nem fra d'elle, teve Lope de Vega modelo que imitasse, ou rival que excitasse a sua emulao. A Italia no tinha ainda passado da _Mandragola_ de Machiavello; nem a Frana sado das informes imitaes dos antigos: em Portugal s havia os esboos dramaticos de Gil Vicente, os dramas-novellas de Jorge Ferreira, e as imitaes classicas de S de Miranda e Ferreira; a Alemanha no tinha sado ainda dos _mysterios_; e a Inglaterra, onde j apparecera o divino Shakspeare, era, excepto pelo lado politico, uma terra incognita para os escriptores hespanhoes. Em 1621, dze annos antes da morte de Lope da Vega, sobreveiu a do triste e devoto Philippe III, a quem succedeu um principe mancebo inclinado aos passatempos, e mui addicto ao theatro. Philippe IV gostava do tracto dos homens de letras, recebia-os na crte, e se divertia em compor com elles essa especie de improvisos que ento, andavam muito em moda na Italia: at se lhe attribuem algumas composies dramaticas que appareceram anonymas; e tal affeio tinha aos dramas nacionaes, que no consentiu que em Hespanha entrasse a opera italiana, que ento era muito estimada em todas as crtes da Europa. Estas circumstancias augmentaram nova fora ao impulso j dado por Lope de Vega, e trouxeram o mais brilhante periodo do drama hespanhol. Durante a vida de Lope, grande numero de escriptores seguiram as suas pisadas: taes foram os doutores Ramon, e Mira de Mescua; os licenciados Mexia e Miguel Sanchez; o conego Tarraga, Guillen de Castro, Aguilar, Luiz Velez de Guevara, Antonio de Galarza, Gaspar d'Avila, Damian Salustrio del Poyo, e varios outros; mas todos eram meros imitadores de Lope de Vega, e muito inferiores a elle; no fim d'este dramatico reinado que devia apparecer um rival, que lhe disputasse a primazia. Foi este Calderon de la Barca, que, no menos conhecedor do genio e gosto do vulgo, do que o proprio Lope, unia a isso o amor pela sua arte, que ao outro faltava. Como as composies d'este grande escriptor teem a primazia entre os dramas hespanhoes verdadeiramente nacionaes; como ellas em nada so inferiores s de Lope, em variedade, e o seu numero mais que o das de nenhum outro, se approxima do numero das d'elle; e como, por consequencia, nos do os mais perfeitos monumentos de cada uma das differentes especies de produces dramaticas peculiarmente hespanholas; no ha meio nenhum de dar uma ida clara das fmas e genio do theatro hespanhol na epocha do seu maior esplendor, seno caracterizando breve mas distinctamente, as varias classes das peas de Calderon. A mais corrente classificao dos dramas profanos, para os mesmos hespanhoes, a de _comedias heroicas_, _comedias de capa y espada_ e _comedias de figuron_. As da primeira d'estas classes tinham o mesmo logar na litteratura dramatica, que nas fices narrativas tiveram as novellas de cavallaria que, expulsas da prosa pelo D. Quixote, se acolheram ao theatro, onde por muito tempo foram bem acceitas do publico. As da segunda classe, cujo nome vinha do vestuario que se usava na epocha em que foram escriptas, representavam os costumes hespanhoes d'esse mesmo tempo; mas, em consequencia do grande sabor de novella que esses costumes ainda conservavam, tinham um aspecto, que a homens modernos e de outras naes parece ideal. Isto (observa Schlegel) no fra possivel, se Calderon nos introduzisse no interior da vida domestica... Estas peas acabam, como as comedias dos antigos, por casamentos; mas quo differente tudo o que precede a este desfecho!... traa, na verdade os seus principaes caracteres de ambos os sexos no primeiro fervor da mocidade; mas o alvo a que elles miram, e diante do qual tudo abate bandeiras, nunca em seus animos se confunde com outro qualquer desejo. A honra, o amor e o ciume, so sempre os motivos da pea, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre lucta d'estas paixes... Nos caracteres mulheris o sentimento da honra no menos poderoso do que nos dos homens: este sentimento rege o do amor, que tem logar a par d'elle, porm no acima d'elle. A honra das mulheres, segundo o modo de pensar que transluz nos dramas de Calderon, consiste em amar um homem de reputao sem macula, e em am-lo com perfeita pureza. O amor requer ahi inviolavel segredo, at que uma legitima unio permitia declar-lo publicamente: este segredo o salva dos effeitos da vaidade, que poderia misturar nelle gabos de favores concedidos, ou pretenses a elles, e lhe d a apparencia de um voto, que, por isso que mysterioso, mais pontualmente observado. No meio d'esta moralidade dramatica, so, em verdade, admittidas manhas e dissimulaes, para fins amorosos, e a ponto de parecer que recebe quebra a honra: mas, quando essas manhas vo de encontro a deveres, como, por exemplo, os da amizade, o respeito mais pundonoroso constantemente guardado a esses deveres. O poder do ciume, sempre vivo, e revelado s vezes de terrivel maneira; ciume no como o dos povos do oriente, de posse, ou de gozos materiaes, mas dos sentimentos suavissimos do corao, serve para ennobrecer o amor. A perplexidade, que nasce d'estes differentes motivos moraes, acaba muitas vezes em nada, e ento o desfecho grandemente comico: s vezes, porm, a catastrophe trgica, e a honra se converte em uma especie de destino avesso, para aquelle que com ella no pde cumprir sem anniquilar a propria felicidade, ou tornar-se para sempre criminoso. Grande numero d'estas peas no teem seno um papel burlesco, o do creado ou gracioso, que serve principalmente para parodiar os motivos sublimes das aces de seus amos, o que, por via de regra, faz com muita graa, servindo raras vezes para instrumento do enredo.[21]. As comedias de _figuron_, ou de caracter, distinguem-se da classe de que tractmos no antecedente paragrapho, em o interesse da aco no ser dividido pelas personagens de um enredo variadissimo, mas concentrado em um individuo, no qual personalizado caracteristicamente algum vicio ou absurdo. Alguns dos dramas de Calderon, historicos ou mythologicos, no podem estrictamente ser classificados em nenhuma das tres especies antecedentes. Com a maior verdade aproveitou elle algumas epochas da antiga historia hespanhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao genio da sua nao, que no pde produzir facilmente o caracter das outras. A antiguidade classica era inintelligivel para elle, e por isso, o j citado Schlegel observa que a mythologia grega se converte, nas suas mos, em uma deleitosa novella, e a historia romana em uma hiperbole magestosa. Outra classe de peas tem Calderon a que elle chama _fiestas_: eram estas destinadas para serem representadas na crte em occasies solemnes. Posto que taes peas requeressem pompa theatral, frequentes mudanas de scenario, e at musica, todavia podemos chamar-lhes _operas poeticas_, isto , dramas, que pelo mero esplendor da poesia, produziam o mesmo effeito que na opera moderna produzem as vistas, a musica e a dana. Foi nestas composies que Calderon se entregou inteiramente aos vos da sua imaginao, podendo dizer-se que nellas as personagens apenas pertencem a este mundo. Mas na classe dos _autos sacramentales_, ou dramas religiosos, que o genio e o espirito de Calderon se desenvolveram com mais fora e formosura. As cerimonias religiosas dos gregos tinham gerado o theatro grego: as cerimonias do christianismo deram origem ao theatro moderno. O principio fundamental dos espectaculos dramaticos, introduzido ou sanccionado pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos dos fiis, em todas as festividades ecclesiasticas, e dias de commemorao de certos sanctos, a representao ao vivo da passagem do Testamento Novo ou do Catalogo dos Sanctos, que tinha connexo com essa festividade. Estas representaes, que no resto da Europa se denominavam mysterios, chamaram-se em Hespanha, desde o principio, _divinas comedias_ e _autos sacramentales_. Faziam-se com grande pompa, no s nas praas e nas procisses, mas tambem nos theatros publicos. Taes dramas, representados em dias solemnes, debaixo da proteco das auctoridades civis e ecclesiasticas, e em presena de todo o povo, no s davam ao auctor mais proveito, mas tambem mr gloria. Lope de Vega escreveu alguns centenares d'estas peas: mas Calderon tanta vantagem levou aos seus predecessores e contemporaneos, nisto como no mais, que lhe foi concedido um privilegio exclusivo de compor os autos que se haviam de representar na capital, monopolio de que gozou durante trinta e sete annos. Temos sido talvez mais technicos e extensos do que cumpria sobre o espirito e execuo dos dramas hespanhoes dos fins do seculo XVI e principios do XVII, porque as regras dos rhetoricos e pedantes, regras que se desfazem em p diante de um _porqu_,--persuadem o vulgo da republica das letras de que qualquer drama, a no ser grego ou romano, ou no trazendo, pelo menos, ps, casaca de seda e espadim, moda de Lus XIV, forosamente barbaro, rude ou absurdo. Este pensar acanhado, emquanto se no derrocar de todo, torna impossivel uma verdadeira regenerao dramatica: os portugueses devem ser em litteratura uma s nao com os hespanhoes: se quisermos ter originalidade, nacionalidade, e o que mais , verdade, estudemos Lope, Calderon e os seus contemporaneos; no nos envergonhemos de folhear livros por onde constantemente estudam os mais illustres escriptores dramaticos da Alemanha e da Inglaterra, apesar de no poderem tirar d'elles todo o proveito, que ns por certo tiraremos. Mas voltemos ao nosso assumpto. digno de notar-se, que, durante o mais bello periodo do theatro hespanhol, o conselho de Castella se atrevesse a propr como condio para se reabrirem os theatros que tinham estado fechados por causa de varios luctos da crte, desde 1644 at 1649, que os dramas que se houvessem de representar se limitassem a objectos edificativos, sem mistura das profanidades do amor; e que, por consequencia, todos aquelles que at ento se tinham representado fossem prohibidos, nomeadamente os de Lope de Vega, que to prejudiciaes tinham sido s moral. Felizmente o bom gosto do monarcha, concorde com o do publico, fez com que fosse regeitada a proposta dos austeros conselheiros. Durante a longa carreira de Calderon, appareceu Moreto, que dotado de menos fora inventiva e menos fervor de imaginao, se distinguiu principalmente por aperfeioar melhor as comedias de _figuron_ ou de caracter. Como exemplo, taes so os seus dramas--_O lindo D. Diogo_, e _O marquez de Cigarral_, especie de D. Quixote, endoudecido fora de ler e reler, sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e os costados da sua arvore genealogica. Por este lado, pde-se crer que Moreto foi um dos modelos de Molire, entre cujas peas, com effeito, se encontra uma fraca imitao do _marquez de Cigarral_. Nesta mesma epocha viveu outro poeta dramatico, cuja fama emquanto vivo no egualou a celebridade de que goza depois de morto e que, por um acaso extraordinario foi desconhecido aos mais eminentes criticos, como Signorelli, Sismondi e Schlegel: era este um frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles, que, com o supposto nome de Tirso de Molina, ps em scena um grande numero de dramas, que depois foram colligidos e publicados por um sobrinho seu. Menos engenhoso do que Calderon, e menos delicado, excede, todavia, os outros poetas do seu pas em certa agudeza maledica. Pouco lhe importam as regras, ou a verosimilhana, com tanto que lhe venham a pello gracejos pungentes e maliciosos, usando de uma linguagem, s vezes licenciosa, e de pensamentos que mostram to pouco respeito s potencias da terra como s do cu. Nada poupa, uma vez que esse objecto lhe desagrade ou possa mover a riso. Ha s um escriptor a quem elle deva com exaco ser comparado, e com quem, com effeito, tem muitissima parecena: este o moderno dramaturgo francs Beaumarchais. E assim como este auctor foi o verdadeiro pai de Figaro, do mesmo modo (facto certamente curioso) Fr. Gabriel foi o primeiro que ps em scena a famosa historia de D. Joo e a Estatua (_El combidado de Piedra_) aproveitando-se da lenda inventada, segundo dizem, pelos franciscanos de Sevilha para explicarem o desapparecimento do verdadeiro D. Joo Tenorio, que, conforme tambem alguns querem, fra por elles assassinado em vingana dos muitos vexames que lhes fazia. No proximo artigo mencionaremos mais alguns dramaturgos hespanhoes d'esta epocha, e concluiremos a historia do theatro hespanhol com a noticia dos escriptores mais modernos. III O periodo brilhante do theatro hespanhol encerra-se na primeira metade do seculo XVII. O gosto do monarcha, da crte e da nao, tinha lanado um grande numero de homens de letras nesta carreira, que ento era a mais honrosa e lucrativa. Assim, alm dos eminentes escriptores mencionados no antecedente artigo, appareceu um enxame de dramaturgos de segunda ordem, a cuja frente devemos collocar Francisco de Rojas, que tinha todos os dotes de Moreto, mas que o excedia nos defeitos. Seguiam-se a este Guillen de Castro, Ruis de Alarcon, La-Hoz, Diamante, Mendoza, Belmonte, os irmos Figueroas (que escreviam conjunctamente, como os modernos auctores de faras francesas), Cancer, Enciso, Salazar e Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse uma eschola sua, produziram ao menos importantes composies theatraes. Os desastres que sobrevieram monarchia hespanhola nos ultimos annos do reinado de Filippe IV, junctos com uns poucos de luctos publicos, que fizeram fechar por muito tempo os theatros, deram o primeiro golpe na arte dramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquelle principe, que tinha sido o seu mais zeloso protector, foi o signal da queda rapida e inteira do theatro. O successor de Filippe IV, o parvo Carlos II, era ainda creana; e a rainha regente assignalou o principio da sua administrao com um decreto, dictado, sem duvida, pelo seu director espiritual o jesuita Nitar, e, por certo, unico nos annaes dramaticos. Ordenava a rainha no citado decreto, que todas as representaes cessassem at seu filho ter idade de se entreter com ellas. Posto que esta extravagante ordem no pudesse ser executada risca, todavia claro quo grande effeito devia produzir numa epocha, em que a litteratura s podia progredir debaixo do patrocinio dos grandes, e em que o theatro, s com a especial proteco do monarcha podia resistir aos repetidos ataques do conselho de Castella. Para vermos o que d'aqui resultou poremos em contraste dois factos notaveis. De um memorial, dirigido a Filippe IV em 1632, pelo actor Ortiz, se v que havia ento em Hespanha mais de quarenta companhias de comicos, e que estas companhias davam a somma de mil actores; e que se tinham edificado tantos theatros, que poucas cidades ou villas notaveis havia que no tivessem o seu. No anno, porm, de 1679, quando Carlos II casou com uma infanta de Frana, na festa do casamento, no foi possivel reunir mais de tres companhias para virem representar na crte. Neste periodo de decadencia e desprezo um unico escriptor trabalhou por amparar o vacillante theatro: Solis, o eloquente historiador da conquista do Mexico, dedicou tambem ao theatro a sua brilhante imaginao, polida agudeza, e vigoroso estilo. Deixou-nos varios dramas dignos do periodo a que sobreviveu; especialmente um d'elles que intitulou--_Amor al uso_, tem grandissimo merito. Com Solis pde-se dizer que expirou o theatro verdadeiramente hespanhol. A subida ao throno de Filippe V, tendo dado valia ao gosto francs, e introduzido (ao menos na crte) os habitos e costumes da crte de Lus XIV, fez que os hespanhoes, depois de terem sido os mestres e precursores dramaticos dos franceses, se contentassem de se converter em humildes imitadores e copistas d'elles. verdade que, durante o seculo XVII, algumas tentativas fizeram para restabelecer o drama nacional, Zamora, Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas honrosas tentativas s alcanaram transitorio applauso; e para achar uma obra original (mencionando, todavia, os _sainetes_ de Ramon de la Cruz) cumpre chegar, no principio do seculo actual, a Moratin, o engraado e elegante auctor do _Caff_, do _Baro_, etc., e ao sr. Martinez de la Rosa, auctor de--_A me no baile, e a filha em casa_. A descripo que fizemos das varias especies de composies dramaticas do tempo de Calderon, mostra que no antigo drama hespanhol a tragedia classica, posto que menos que a comedia classica, podia ter amplo e effectivo logar. Todavia, enganados, segundo parece, pela palavra _comedia_, que na lingua hespanhola teve sempre uma significao to geral como a palavra alem _spiel_ ou a inglesa _play_[22], muitos criticos de nota, principalmente franceses, falaram da total falta de tragedias no theatro hespanhol, como de um phenomeno singular e inexplicavel. To enraizadas estavam nos animos de taes criticos as distinces _classicas_, com que os haviam educado, que assim o affirmavam com toda a gravidade, embora admittindo ao mesmo tempo, que o elemento tragico predominava em grande numero das mais afamadas peas do theatro hespanhol. Mas que este predominio seno o unico meio de destinguir a tragedia da comedia, unico que existe na essencia da natureza humana e da arte dramatica? Segundo este systema mais racional de classificao, o antigo theatro hespanhol, pela propria confisso dos criticos de que falamos grandemente abundante na tragedia. Noticiemos agora brevemente as poucas amostras de obras dramaticas, que na Hespanha appareceram mesmo com a _denominao_ de tragedias. Boscan, que primeiro introduziu na Hespanha o estilo italiano de versificao, dizem que traduzira uma das tragedias d'Euripedes, traduco que se perdeu. Tambem pelos annos de 1520 Ferno Peres d'Oliva, voltando da crte de Leo X, onde vira representar a _Sophonisba_ de Trissino, escreveu duas imitaes do theatro grego,--a _Vingana d'Agamemnon_, tirada da _Electra de Sophocles_, e a _Hecuba_, imitao de Euripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante prosa, ficaram desconhecidas fra das universidades, e at ha razo para crer que nem ahi foram representadas. Em 1570, Joo de Malara deu ao theatro de Sevilha varias tragedias, de objectos biblicos, como _Absalo_, _Saul_, etc; e em Madrid, que ento fra escolhida para capital do reino, um frade, chamado Jeronymo Bermudez, tomando o nome supposto de Antonio da Silva, publicou duas tragedias, que merecem fazer-se d'ellas especial meno. So ambas fundadas na celebre historia de D. Ignez de Castro. A primeira, intitulada _Nise Lastimosa_, uma imitao da Castro do nosso Antonio Ferreira: a segunda, intitulada _Nise Laureada_, que tem por aco a vingana, que o infante D. Pedro, quando subiu ao throno, tomou dos assassinos da sua amada, e a coroao do cadaver d'Ignez, mais original que a primeira, mas inferior a ella no enredo e desenlace. Estas duas peas, dividida cada uma d'ellas em cinco actos, entresachados de coros, so as primeiras tragedias regulares, que em verso castelhano se escreveram. Por este mesmo tempo, em Valencia, onde o primeiro theatro, edificado em 1526, era pertena de um hospital, foram representados varios dramas, ainda mais notaveis, compostos por Christovam de Virues, de quem j falmos, e por Andres Rey d'Artieda. Virues official militar, era um dos cabeas da grande eschola que, desde o seu principio se gloriara de menoscabar as restrices aristotelicas. Foi a sua primeira produco _La Gran Semiramis_, aco que ao mesmo tempo tractava, em Italia, Murio Manfredi. Todavia, Virues, em vez de fazer a pea em cinco actos ao modo grego, dividiu-a em tres _jornadas_, nas quaes metteu toda a vida de Semiramis, passando-se o primeiro acto na Bactriana, o segundo em Ninive e o terceiro em Babilonia. Comps depois, sempre com o mesmo desprezo das unidades, as tragedias da _Cruel Cassandra_, _Atila Furioso_, _Infeliz Marcella_, etc. A que intitulou _Elisa-Dido_, e que elle annunciou como escripta _conforme al arte antigua_, com effeito, a unica, em que as regras so inteiramente respeitadas. O consocio de Virues na antiga guerra contra os preceitos classicos, Juan de la Cueva, depois de traduzir o _Ajax_ de Sophocles, publicou em Sevilha duas tragedias originaes; uma fundada em certa tradio popular, e intitulada--_Los Siette Infantes de Lara_, a outra tirada da historia romana e reunindo dois objectos tragicos, a morte de Virginia e a de Appio Caudio, sendo La Cueva o primeiro que ps em scena estes successos, tantas vezes aproveitados depois. Entretanto no theatro de Madrid as tragedias de Bermudez eram substituidas pelas de Lupercio d'Argensola, as quaes Cervantes louva mais do que ellas merecem. O proprio auctor do D. _Quixote_ escreveu ento a sua _Numancia_, tragedia a mais classica que, porventura, tem o theatro hespanhol, porque aquella em que mais transluz a simplicidade e pureza do drama grego, posto que o espirito cavalleiroso de Cervantes apparea quasi sempre debaixo d'essas frmas antigas. claro que o espirito romantico predomina sobre o classico, at nas produces declaradamente tragicas do theatro hespanhol antigo. Todavia, quando a subida de Filippe V ao throno submetteu o gosto nacional influencia do de Paris, no s os poetas tragicos franceses foram traduzidos em lingua castelhana, mas tambem os poetas hespanhoes fizeram varias tentativas para os imitar. No numero d'estas se devem contar a _Virginia_ e o _Ataulfo_ de Montiano. Subsequentemente, durante o alumiado ministerio do marquez d'Arauda, Fernandez Moratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renovaram essas tentativas: o primeiro escreveu _Hormesinda_, o segundo _D. Sancho Garcia_ e o terceiro _Rachel_, mas estas obras, posto que valiosas, principalmente a ultima, no eram sufficientemente notaveis para haverem de naturalizar uma casta de dramas to nova em Hespanha. No principio d'este seculo tentou o mesmo genero, com melhor successo, D. Nicasio Alvarez de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento do celebre actor Isidoro Mayquez, de algum modo discipulo de Talma, e no indigno de seu mestre, posto que mais se approximasse da versatilidade maravilhosa do actor ingls Garrick, porque no s era feliz nos papeis tragicos, mas tambem em quaesquer outros, sem exceptuar os de truo e bobo. Depois de Cienfuegos, que deixou um _Idomeneu_, um _Pitaco_ e uma _Zoraida_, appareceram dois outros poetas tragicos, que cremos, vivem ainda ambos. Um d'elles, Quintana, auctor de uma tragedia intitulada _Pelayo_, fundada na historia d'esse antigo campeo da causa perdida da independencia hespanhola contra os arabes triumphantes, pea, em verdade, nobre e pathetica, da qual os modernos hespanhoes, obrigados como seus avoengos a repellir o dominio estranho, costumavam repetir as passagens mais energicas, marchando para os combates. O outro, Martinez de-la-Rosa, ha pouco primeiro ministro d'Isabel II, auctor de uma pea tambem patriotica, intitulada _A Viuva de Padilla_, fundada na memoravel lucta das cidades municipaes da Hespanha contra a aggresso tyrannica de Carlos V. Esta tragedia, a primeira de tal genero, que Martinez de-la-Rosa comps, foi feita e representada em um theatro, construido para isso em Cadiz, quando os franceses tinham esta cidade cercada. O mesmo auctor comps uma _Morayma_ um pouco ao modo da _Merope_ de Voltaire, e um Edipo, representado depois em Madrid, no qual, diz um dos mais entendidos criticos da litteratura hespanhola (Mr. Viardot) elle trabalhou por ser original, tractando um objecto j tractado por Sophocles, Seneca, Corneille, Voltaire, La-Motte e Dryden. Pelo que respeita a presente estimao theatral, que se faz dos antigos dramaturgos hespanhoes no seu proprio pas, devemos observar que, em quanto Lope de Vega est desterrado nas bibliothecas, e emquanto Calderon e Moreto raras vezes sobem scena, Tirso de Molina, de quem j falmos, apparece mais frequentemente no theatro que outro qualquer antigo escriptor dramatico. Fernando VII gostava muito dos _ricos_ gracejos do licencioso frade; e esta declarada predileco fazia calar o genio vidrento e pundonoroso de certas auctoridades, cuja sanha podiam excitar os motejos do frade contra os grandes. A comedia de Tirso, intitulada _D. Gil el de las calzas verdes_ era a de que el-rei mais gostava; e por isso a camara municipal de Madrid no deixava de a mandar representar nos dias de gala. Posto que a representao dos _Autos Sacramentales_ fosse supprimida em 1765, todavia o advento e a quaresma, e especialmente a Semana Sancta, ainda se festejavam ha poucos annos nas igrejas com taes representaes; levantava-se no cro uma especie de tablado, sobre o qual se representavam os passos da paixo de Christo, e em que as numerosas personagens que successivamente figuravam na pea, se apresentavam com os vestuarios da idade-mdia, quaes se deviam usar na origem d'estas representaes, como san-benitos, mascaras pretas, farricocos, cotas, camisolas, e, numa palavra, toda a vestiaria de uma procisso de _auto da f_. *Crenas populares portuguesas ou Supersties populares* PANORAMA 184O *Crenas populares portuguesas* I Todas as naes tanto antigas como modernas teem sido sujeitas doena moral chamada credulidade. Dada a crena da existencia dos espiritos e da sua immortalidade, os homens vendo diariameute morrer os seus semelhantes, e sentindo em si uma consciencia que repugna a anniquilao, perceberam facilmente que o espirito no morria: a revelao no fez mais que confirmar um sentimento innato no homem. Depois a saudade dos mortos que nos foram caros, e o temor que experimentavam os criminosos de que as suas victimas ainda se pudessem vingar d'elles alm do sepulchro: emfim amor e remorsos, ajudados da imaginao, povoaram este mundo de phantasmas. A Grecia, sempre poetica, formulou esta serie de factos intellectuaes em muitas expresses materiaes: sirva de exemplo a descida d'Orpheu aos inferno em busca d'Euridice, mytho formosissimo, com que os antigos gregos simbolizaram o amor como capaz de unir os espiritos que passaram com os que vivem na terra. A imaginao multiplicou e variou estas expresses de um pensamento vago e primitivo. D'ahi vieram os lemures, as strygas, e todas essas creaes extravagantes, que ainda no primeiro seculo christo o severo philosopho Plinio no se atrevia inteiramente a descrer. Entre as naes modernas a portuguesa passa por uma das mais inclinadas a muitas d'estas supersties. uma das multiplicadas calumnias que sobre nossas cabeas lanam estrangeiros: quem d'isso se quiser desenganar leia o _Diccionario infernal_ de Colin de Plancy, e achar que qualquer provincia da Frana, ainda das mais civilizadas, nos deita, como se diz vulgarmente, a barra adiante em supersties populares. Quasi o mesmo se pode dizer da nao mais allumiada da Europa--a allem. Na Inglaterra, basta dizer que no haver ahi perro turco, ou brahmane credulo que leve vantagem em superstio ao povo dos tres reinos unidos. As bruxas, diabos azues, vampiros, e seiscentas outras diabruras surgem, por assim dizer, debaixo dos ps dos ingleses, como nos pinhaes do Alemtejo e Estremadura se erguem, debaixo dos ps dos caminhantes, as ninhadas dos sapinhos, quando sobre o p das estradas cai em dia de vero um aguaceiro de trovoada. Apesar, porm, de no sermos dos povos mais abastados neste genero de riquezas (que poeticamente o so) tem havido entre ns muitas crenas populares dignas de se fazer meno d'ellas; por isso mesmo que as mais antigas so geralmente desconhecidas, e as mais modernas vo diariamente desapparecendo;--que ao menos esse bem temos tirado das nossas luctas politicas e d'este espirito do seculo, que renegou de tudo quanto nos transmittiu o passado;--tanto de umas como de outras colligiremos aqui algumas especies, que se nos no enganamos, sero lidas com interesse pelos leitores do Panorama. Um dos mais antigos documentos que nos restam sobre as nossas supersties populares a celebre postura da camara de Lisboa de 1385. Esta postura caracteriza essencialmente o espirito religioso da epocha de D. Joo I. Nella se prohibem as supersties populares, as quaes ahi se enumeram, como querendo a camara agradecer assim a Deus a victoria d'Aljubarrota, que assegurou a independencia de Portugal. Transcreveremos algumas passagens do referido estatuto, sem que tentemos explicar muitas d'essas supersties a que se allude, porque difficil fra apresentar mais do que conjecturas. Eis o que nos parece mais notavel naquelle assento municipal. Os sobreditos estabelecem e ordenam, que d'aqui em diante nesta cidade, nem em seu termo nenhuma pessoa no use, nem obre de feitios, nem de ligamento, nem de chamar os diabos, nem de descantaes, nem de obra de veadeira, nem obre de carantulas, nem de geitos, nem de sonhos, nem d'encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre d'advinhamentos... nem outrosim ponha nem mea cinta, nem _escante olhado_ em ninguem, nem lance agua por joeira... Outrosim estabelecem que d'aqui em diante nesta cidade e em seu termo no se cantem janeiras nem maias, nem a outro nenhum ms do anno, nem se lance cal s portas sob titulo de janeiro, nem se furtem aguas, nem se lancem sortes... Porque o carpir e depenar sobre os finados costume que descende dos gentios, e uma espcie de idolatria, e contra os mandamentos de Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que d'aqui em diante nesta cidade, nenhum homem ou mulher, no se carpa, nem depene, nem brade sobre algum finado, nem por elle, ainda que seja pae, mi, filho ou filha, irmo ou irm, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem nojo, no tolhendo a qualquer que no traga seu d, e chore se quiser... Muitas d'estas disposies dizem respeito a crenas que j no existem, ou so conhecidas por outras denominaes. As janeiras e maias duraram at os nossos dias e ainda no Minho se chamam maias as flores da giesteira amarella, com que se adornam as janellas no primeiro de maio; alem d'isso todos os que hoje vivemos nos lembramos de ver em Lisboa os maios pequeninos passearem as ruas cubertos de flores, bem como de ouvir cantar as janeiras, o que ainda dura em muitas partes das nossas provincias. As prohibies da camara relativamente aos prantos pelos mortos, alludem ao carpirem-se e arrepellarem-se sobre o cadaver e por elle, depois d'enterrado, certas mulheres, que d'isso viviam chamadas carpideiras ou pranteadeiras, e na falta d'estas os parentes mais proximos. Fr. Francisco Brando diz que tal costume se acabou no tempo de D. Joo I; mas engana-se manifestamente, porque nos nossos chronistas se acham memorias de similhantes prantos em epochas mui posteriores, e l diz Gil Vicente. Prantos fazem em Lisboa Dia de Sancta Luzia Por elrei D. Manoel Que se finou neste dia. Entre as supersties antigas podem contar-se os reptos, requestas, ou desafios, em que se appellava para o juizo de Deus quando um homem accusava outro de homicidio ou traio. Este costume, geral em toda a Europa, vogou muito em Portugal no principio da monarchia, sendo at declarados nos foraes de algumas terras os casos em que o duello devia servir de prova da justia ou injustia da accusao ou querella. Muito cedo porm comearam os nossos reis a trabalhar, por meio de leis prudentes e saudaveis, em pr termo a este costume barbaro. D. Dinis foi o primeiro que por lei de 1318 prohibiu houvesse reptos duas leguas em redor d'onde estivesse a crte.--Estabeleo e ponho por lei (diz elle) que d'aqui adiante nenhum Filho d'algo no desafie, nem mande desafiar outro, nem por si, nem por outrem, perante mim, nem nos logares onde eu fr, nem a duas leguas aredor de mim; e aquelle que contra isto vier, morra por isso, e a desafiao no valha--Successivas providencias se foram dando a este respeito, de modo que na ordenao affonsina apenas so permitidos os desafios no caso de traio contra a pessoa real, como se pode ver no titulo 64 do Livro 1.^o d'essa ordenao. Como, porm, os reptos no tinham logar em todos os casos, e tal era o de car a suspeita do crime em mulheres, as quaes no podiam ir defender s lanadas a sua innocencia, havia outros meios de recorrer ao juizo de Deus. D'estes eram geralmente em toda a Europa, as provas da agua fria, da agua quente, e do ferro em braza. A que se usou em Portugal foi a ultima, a qual consistia no seguinte: o accusado que queria arriscar-se prova, depois de se confessar, e de jejuar rigorosamente por alguns dias, e de receber exorcismos, benos e oraes de um sacerdote, ou se punha a andar descalo sobre uma vara de ferro em braza, ou pegava nella e caminhava apertando-a nas mos por certo espao. Se o _ferro caldo_ (como lhe chamavam) no produzia o seu natural effeito, o culpado era havido por innocente; mas se lhe queimava os ps ou as mos impunham-lhe a pena do crime de que fra accusado. J se v que era difficultosa empresa achar innocentes por meio tal; todavia algumas tradies existem que a serem verdadeiras, provariam que a providencia apiedando-se dos injustamente opprimidos, suspendera algumas vezes a favor d'elles as leis da natureza. Juncto ao sepulcro do commendador de Lea D. Garcia Martins se conservava, segundo o testamento de Jorge Cardoso, um ferro de arado, que, posto em braza, transportou para alli a mulher de um ferreiro accusada de adulterio. Fr. Bernardo de Brito e Fr. Antonio Brando citam uma doao feita ao mosteiro de Arouca, Por D. Tareja Soares, mulher de D. Gonalo Mendes de Souza, que sendo accusada pelo marido d'adulterio, recorreu, em sua defeza, prova do ferro em braza, e saindo illesa, se recolheu ao convento d'Arouca, ao qual fez uma doao, onde se menciona este successo, que seria em verdade extraordinario, se no fosse mais facil e razoavel crr na supposio do documento do que na realidade do milagre. Esta superstio da prova por fogo parece que ainda estava muito arreigada em Portugal no fim do seculo XIV. Quando o Mestre d'Aviz matou o conde Andeiro a rainha D. Leonor, ouvindo na sua camara o ruido que soava, mandou saber o que era, e vieram dizer-lhe que tinham assassinado o conde. A rainha quando isto ouviu, houve gro temor, porem disse: Oh sancta Maria vale me mataram em elle um bom servidor!--e sem o merecer; c (porque) o mataram, bem sei porque. Mas eu prometto a Deus que me v de manh a S. Francisco, e que mande ahi fazer uma fogueira, e ahi farei taes salvas, quaes nunca mulher fez por estas cousas. (Lopes chron. de D. Joo I cap II). Santos, narrando este mesmo successo, accrescenta: Alludiu ao antigo costume de se purificarem, tomando o ferro quente, as mulheres accusadas, ou murmuradas d'adulterio. (Mon. Lusiti Liv. 23, cap. 8). E com effeito no crivel que a rainha na sua afflico fizesse uma figura de rhetorica, dizendo que se queria sujeitar a um costume que j no existia; muito mais que Ferno Lopes, escriptor to vizinho d'aquelles tempos, parece reconhecer a actualidade de to barbara usana, accrescentando que a rainha _tinha mui pouca vontade de o fazer_. No era este supersticioso costume, que durou por tantos seculos, apenas uma inveno do vulgo. Nas antigas leis d'Hespanha, conhecidas pelo nome de _Fuero juzgo_, expressamente ordenada a prova da agua a ferver, e a do ferro em braza, e no foral de Baea se particularizam os casos em que taes provas tinham logar, bem como a maneira de as fazer. Transcreve-lo-hemos aqui por ser grandemente curioso, tanto mais que em parte diz respeito prova do desafio. A mulher, que sabidamente mover, sendo o movito por mau termo seja queimada, ou salve-se por ferro quente. E se alguma disser que prenhe de algum homem, e elle a no crer, tome ferro quente, e queimando-se, no seja crida; mas se escapar livre do ferro, d o filho ao pai, e crie-o como mandam as leis. A mulher que _ligar_ homens ou animaes, ou quaesquer outras cousas que podem ser ligadas, queimem-na, e se negar, salve-se por ferro quente; e se o ligador for homem seja aoutado e lanado fra da terra, e se negar, salve-se por combate. A mulher que der hervas peonhentas ou for feiticeira, seja queimada, ou se salve por ferro quente. A mulher que matar seu marido seja queimada, ou se livre por ferro quente. Toda a mulher que taes cousas faz, deve tomar ferro; mas no por erro da sua pessoa propria, salvo quando for approvada por m mulher, e que teve parte com cinco homens differentes. As _terceiras_ sejam queimadas, ou, se negarem, salvem-se por ferro quente. O ferro que se mandar fazer por justia para esta experiencia, tenha um palmo de comprimento, e dous dedos de largo, e tenha quatro ps (a modo de banco) to altos, que a pessoa que houver de fazer a salva possa metter a mo por baixo. E quando o tomarem, levem-no por distancia d'outo ps, e tornem-no a pr em terra suavemente. Mas antes o benza o sacerdote, e depois elle e o juiz aquentem o ferro, e em quanto o ferro se aquentar, nenhum homem se chegue junto ao fogo, porque no acerte de fazer alguma feitiaria; e a que houver de tomar o ferro primeiro se confesse mui bem, e depois seja olhada, porque no traga escondido algum feitio. Depois lave as mos diante de todos, e depois de limpas, tome ferro, mas antes faam todos orao, pedindo a Deus que mostre a verdade. E depois que tiver levado o ferro, o juiz lhe cubra logo a mo com cera, e sobre ella lhe ponha a estoupa ou linho, e depois atem-lha com um panno, e leve-a o juiz a sua casa, e passados tres dias vejam-lhe a mo e se for queimada, queimam-na tambem a ella. Vimos que a prova do fogo durou em Portugal, pelo menos at o fim do seculo XIV. No sabemos ao certo a epoca da completa extinco d'este abuso; todavia sabido que elle estava em esquecimento no seculo seguinte. No assim a crena em feitiarias que, como sabemos, durou at aos nossos dias, e ainda hoje tem bastante voga entre os espiritos mais rudes. A primeira lei, que nos lembre fosse promulgada em Portugal contra os feiticeiros uma de D. Joo I, do anno de 1403, em que se diz o seguinte: No seja nenhum to ousado, que por buscar ouro ou prata, ou outro haver, lance varas, nem faa circo, nem veja em espelho ou em outras partes. Esta lei foi confirmada no codigo affonsino, d'onde em substancia passou para os que se lhe seguiram. V-se por ella que a magia portuguesa d'esse tempo se reduzia a uma especie d'alchimia, ou sciencia de encontrar ouro, o que, em verdade, era bem pouco se o compararmos ao incremento prodigioso que teve a feitiaria no seculo seguinte. Da variedade de praticas supersticiosas que produziu este incremento, nunca encontrmos memoria mais curiosa, que o capitulo que trata d'esta materia no rarissimo livro das Constituies do arcebispado d'Evora, impressas em Lisboa no anno de 1534. Eis aqui o texto da constituio primeira do titulo 25, que se intitula--_Dos feiticeiros, benzedeiros e agoureiros_: Defendemos que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condio que seja, tome de logar sagrado, ou no sagrado, pedra d'ara ou corporaes, ou parte de cada uma d'ellas, ou qualquer outra cousa sagrada; nem invoque diabolicos espiritos, em circulo, ou fora d'elle, ou em encruzilhada; nem d a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer bem ou mal a outrem, ou outrem a elle; nem lance sortes para adivinhar, nem varas para achar haveres; nem veja em agua, ou crystal, ou em espelho, ou em espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em espadua de carneiro; nem faa, para adivinhar, figuras ou imagens algumas de metal, nem de qualquer outra cousa; nem trabalhe de adivinhar em cabea de homem morto, ou de qualquer outra alimaria; nem traga comsigo dente, nem barao de enforcado, nem faa com as ditas cousas, ou cada uma d'ellas, nem com outra alguma semelhante, posto que aqui no seja nomeada, especie alguma de feitiaria, ou para adivinhar, ou para fazer damno ou proveito a alguma pessoa ou fazenda: nem faa cousa para que uma pessoa queira bem ou mal a outrem, nem para ligar homem ou mulher, etc. Outrosim defendemos que nenhuma pessoa doente passe por silva ou machieiro, ou por baixo de trovisco, ou por lameiro virgem; nem benzam com espada que matou homem, ou que passasse o Douro e Minho tres vezes; nem cortem solas em figueira baforeira; nem cortem obro em limiar da porta; nem tenham cabeas de saudadores encastoadas em ouro, ou em prata, ou em outras cousas; nem apregoem os demoninhados; nem levem as imagens d'alguns sanctos cerca d'agua, fingindo que as querem lanar em ella, e tomando fiadores, que se at certo tempo lhes no der agua, ou outra cousa que pedem, que lanaro a dita imagem na agua, nem revolvam penedos e os lancem na agua para haver chuva; nem lancem joeira; nem dem a comer bollo para saberem parte de algum furto; nem tenham mendracolas em sua casa, com teno de haverem graas, ou ganharem com ellas; nem passem agua por cabea de co, para conseguir algum proveito; nem digam cousa alguma do que por vir, mostrando que lhe foi revelado por Deus, ou algum santo, ou viso, ou em sonho, ou por qualquer outra maneira; nem benzam com palavras ignotas e no entendidas, nem approvadas pela egreja, ou com cutellos de tachas pretas, ou d'outra alguma cr, nem por cintos e ourelos, ou por qualquer outro modo no honesto; nem faam camisas fiadas e tecidas em um dia, nem as vistam, nem usem de alguma arte de feitiaria II Transcrevemos os titulos das constituies do arcebispado d'Evora acrca de feitiarias, com preferencia a outro qualquer documento, por ser o que mais especificadamente tracta d'esta materia; as outras constituies diocesanas que vimos, promulgadas no seculo XVI, limitam-se em geral a prohibir agouros e bruxedos sem os particularizar, e sem que d'ellas se possa tirar maior luz para a historia das crenas nacionaes. Muitas d'essas antigas compilaes ecclesiasticas so hoje rarissimas, nomeadamente as que primeiro se imprimiram, como uma da diocese do Porto, de que nos lembra ter visto uma copia, e que pela linguagem e o estylo nos pareceu pertencer ainda ao seculo XV.--Nas mais remotas achar-se-hiam, porventura, outras noticias; mas no as pudemos alcanar. E de passagem lembraremos aqui aos amigos das velhas coisas do velho Portugal, que no ha, porventura, mais rica mina para a historia dos costumes de nossos avs, depois das compilaes das leis civis, que estas leis ecclesiasticas, que am devassar o proceder das familias, o proceder de todas as classes, de todos os individuos, no s nas suas relaes sociaes, como, por via de regra, acontece com aquellas, mas tambem nas relaes domesticas, nas relaes com Deus, tomando muitas vezes para si os misteres e direitos, que em boa razo s deveriam pertencer consciencia de cada qual. Pelas antigas constituies dos bispados quasi podemos seguir a existencia de nossos antepassados do bero ao tumulo, porque a religio de um at outro cabo os acompanhava, e ella ento era essencialmente positiva e pratica. A lei ecclesiastica vigiava a infancia, a puberdade, a idade viril, e a velhice; e para cada epocha da vida tinha preceitos, e para cada erro castigo. Perguntava ao celibatario se as suas noites eram solitarias, aos esposos se o seu leito era casto, ao sacerdote se o seu corao era puro; batia alta noite porta afferrolhada das casas da devassido, do jogo, da ebriedade, e fazia tremer o devasso jogador, o ebrio; porque no era uma lei morta, mas sim lei com a sanco de penas materiaes. Esta legislao particular que tinha por base o Evangelho, por objecto os costumes, devia primeiro que tudo conhecer exactamente estes, e ser definida e precisa nas suas disposies. assim que ella nos conservou a historia das crenas e abuses do povo: das suas paixes, dos seus trajos, das suas festas e jogos; e at dos seus alimentos: assim que talvez se possa dizer em rigorosa verdade, que s com as leis civis e ecclesiasticas se poderia escrever a historia intima, a _historia do viver_ das geraes que antes de ns passaram nesta terra portuguesa, desde os primeiros seculos da monarchia. Para isto, todavia, necessario consultar as mais remotas com dobrada curiosidade; porque o progresso da civilizao trouxe o habito de generalizar as idas, e este habito influindo na legislao, tornou a sua expresso mais geral, e por consequencia, neste sentido, muito menos histrica.[23] Mas, voltando ao nosso assumpto, de que um pouco nos affastmos, observaremos neste logar que a lei civil que por este mesmo tempo fra feita (Ord. Man Liv. 5.^o Tit. 33) fazia distinco, por assim dizer, da grande e pequena bruxaria; porque as feitiarias em que se usava empregar pedra d'ara ou corporaes, ou quaesquer outras cousas sagradas, era punida com pena de morte, bem como os esconjuros e invocaes de diabos, feitos em circulo ou em encruzilhada, e o dar a beber ou a comer cousas enfeitiadas para querer mal ou bem a alguem. Todos os outros bruxedos, porem, que naquella ordenao se acham especificados, e que so, pouco mais ou menos, os mesmos que enumeram as constituies d'Evora, tinham por pena a marca de ferro nas faces, e o degredo perpetuo para a ilha de S. Thom. As demais supersties populares, que no pareciam depender de tracto com o demonio eram punidas com aoutes, sendo o criminoso peo, e sendo vassalo ou escudeiro, ou mulher de qualquer d'estes, com degredo de dous annos para os logares d'Africa. Estas disposies passaram quasi textualmente para o titulo 3.^o do livro 5.^o das Philippinas, conhecidas geralmente pela denominao d'Ordenaes do Reino. E cumpre aqui advertir que, se quando se reformou este codigo no principio do seculo XVII se conservaram penas to severas contra individuos que no passavam de meros charlates, que por taes meios viviam custa da credulidade publica, ou que se enganavam a si proprios, imaginando terem imperio nos demonios e tracto com as potencias invisiveis, porque ainda ento se cria que similhantes sonhos eram realidades. E fomos s ns acaso os que isso acreditmos?--No. A Europa inteira estava na mesma persuao: nessa epoca todos os governos, e legisladores, e at homens da mais alta cathegoria litteraria admittiam a possibilidade dos maleficios, dos sortilegios, e dos adivinhamentos. E to duradora foi essa crena, que ainda no principio do seculo decimo-oitavo, quando appareceu a _Magica anniquilada_ de Maffeu (livro, em nosso entender, muito aqum da sua reputao) se levantou uma grande discusso a similhante respeito, o que claro signal de que para muitos homens instruidos a magia no era uma coisa inteiramente v. * * * * * Uma das coisas mais notaveis acrca da credulidade dos nossos antepassados no seculo XVII, um alvar datado de 15 de outubro de 1654, impresso no _Jornal de Coimbra_ e citado por J. P. Ribeiro, em que se d licena a um soldado, que dizia ter o dom de _curar com palavras_, para continuar a fazer uso d'esta estupenda habilidade com a obrigao de empregar o seu prestimo em beneficio dos militares que d'elle houvessem mister. O progresso, porm, das sciencias foi pouco a pouco destruindo estas abuses nos animos das pessoas sensatas, e os leiticeiros e bruxas, e adivinhes viram-se obrigados a refugiar-se entre a plebe ignorante das cidades, e entre a gente boa e simples dos campos. ahi onde, ha mais de cincoenta annos, apenas restam usanas que revelam a existencia das chamadas artes diabolicas. O conflicto entre o progresso intellectual e as antigas supersties acarretou por vezes desgostos e perseguies quelles que trabalhavam em allumiar as naes; mas tambem deu aso a acontecimentos mui graciosos, dos quaes re'ataremos aqui um, succedido em Evora no reinado de D. Jos. Um frade de certa ordem tinha sido nomeado mestre de philosophia naquella cidade. Querendo dar uma vez a seus discipulos ida da electricidade, pde obter emprestada uma machina electrica, com a qual fez algumas experiencias diante de varios padres graves do seu convento, que ficaram pasmados de coisa to extraordinaria, e suppuseram l comsigo andar nisto obra de feitiaria. Esperaram, portanto, um dia em que o mestre de philosophia sasse fra do convento, e mandando o prelado tocar communidade, revestido, e de cruz alada, seguido dos demais frades, foi ao aposento, onde estava a machina para a exorcismar. Comeados os exorcismes tanta agua benta lhe deitaram que dentro em pouco ficou completamente estragada. Quando d'ahi a dias o professor quis trabalhar com ella, nunca o pde alcanar; e os padres graves, rindo uns com os outros, escarneciam do pobre philosopho, a quem, com esconjuros, tinham inutilizado aquelle diabolico feitio. Concluiremos este artigo dando uma noticia do que temos alcanado acerca das feitiarias, bruxas, e lubis-homens, na opinio do vulgo, cuja imaginao ainda d existencia a estes sonhos ridiculos conservados nas tradies populares. O povo faz distinco entre feiticeiras, bruxas, e lubis-homens. So as feiticeiras e bruxas, por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias, immundas, e de genio melancholico, ou colerico. Estes motivos bastam para o vulgo as aborrecer, e para justificar a seus olhos qualquer accusao que lhes faam de feitiaria ou bruxedo. O mister das feiticeiras fazer maleficios a todo o genero de pessoas de qualquer idade que sejam: estas acompanham ordinariamente o diabo em todas as suas funces neste mundo. As bruxas teem poder limitado, estando apenas auctorizadas para chupar de noite o sangue ou a substancia das creanas, matando-as pouco a pouco d'inanio, ou de repente, se chupam desarrazoadamente. Os lubis-homens so aquelles que teem o _fado_ ou _sina_, de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espoujando-se no cho em logar onde se esponjasse algum animal, e em virtude d'isso transformarem-se na figura do animal _pre-espoujado_. Esta pobre gente no faz mal a ninguem, e s anda cumprindo a sua _sina_, no que teem uma cenreira mui galante, porque no passam por caminho ou rua, onde haja luxes, seno dando grandes assopros e assobios para que lh'as apaguem, de modo que seria a coisa mais facil d'este mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, accendendo luzes por todos os lados por onde elle pudesse sar do sitio em que fosse presentido. verdade que nenhum dos que conta similhantes historias fez a experiencia. A instituio de qualquer feiticeira ou bruxa pela seguinte maneira. A adepta levada alta noite pelas feiticeras professas a um logar ermo, onde o diabo apparece transformado em bode negro. Comea a ceremonia, como de razo, pela matricula, e a novia escreve o termo da vencia da sua alma com o proprio sangue: ento o diabo lhe entrega um novello e um pandeirinho que so os symbolos da nova dignidade que recebe, e pelo que fica habil para fazer os seus maleficios, e para se transformar no que quiser, quer sejam corpos animados, quer inanimados. Depois d'isto o demonio _bodificado_ se assenta no seu throno cercado de candeinhas, e por baixo d'este throno passa a novia tres vezes; acabado o que, a nova feiticeira d um beijo na proximidade da cauda ao transformado rei do inferno. Feita esta ceremonia as circumstantes (que so todas as feiticeiras da provincia, chamadas alli para assistir quelle auto) tocam os seus pandeirinhos, e com dansas mysteriosas levam a nova socia a casa, onde lhe mostram os respectivos novellos de fiado, que so maiores ou menores, conforme a importancia ou estimao em que as tem o diabo. Estes novellos diabolicos em que principalmente reside a fora e poderio das feiticeiras so compostos de uma especie de linha fiada _pela mo do diabo_, e cuja materia prima o pello do bode, em que o co tinhoso costuma transformar-se. Tambem as bruxas teem por apanagio uma maaroca preta; mas a demonologia popular no declara de que maneira, ou de que materia seja feita, bem como as dos lubis-homens, que tambem possuem este adminiculo, do qual apenas sabemos uma circumstancia, que o ser de fio pardo. Quando alguma d'estas importantes personagens, que tem pacto, ou fado, est para morrer, chama a pessoa que mais estima, e a esta entrega o fatal novello. Se lh'o no aceitam, no pode expirar, ainda que esteja em agonias mortaes; mas apenas essa, ou alguma das circumstantes lh'o recebe, a pobre creatura entrega logo descansadamente a sua alma a satanaz. Parece que a posse de tal herana d um direito na secretaria d'estado infernal, para o herdeiro ser preterido no prehenchimento do logar que ficou vago. Tem a feiticeira obrigao, cada vez que quer infeitiar alguem, de invocar primeiramente o diabo, e de lhe pedir licena para exercer seu officio, o que prova que no s na terra ha maus systemas de legislao. A formula usada em taes casos, segundo alguns gravissimos auctores, : _Tenato, ferrata, andato, passe por baixo_, o que se repete tres vezes. Acode o dmo ao reclamo, e a professora de feitios pde ento ter a certeza de tirar a sua a limpo. Se, porm, se no tracta de um feitio de segunda ordem; mas sim d'algum que deva produzir a morte do individuo enfeitiado, preciso mais trabalho, e pelas leis infernaes no licito a qualquer feiticeira tomar sobre si s tamanha responsabilidade, d'onde se pde concluir qual seja a prudencia, gravidade e consciencia do diabo, que por certo no to feio como o pintam. Quando, pois, alguma d'estas boas creaturas quer dar cabo de qualquer individuo, toca o seu pandeirinho e chama duas suas companheiras para d'ellas se ajudar naquella boa obra. Ento as taes fazem uma figura da pessoa condemnada a morrer, e compostos certos unguentos liquidos vo com elles unctando aquelle vulto, e proporo que o trabalho se vai adiantando, vai o enfeitiado adoecendo, at que chega s ultimas. Neste ponto a feiticeira mais velha tira o seu novello, pe-se a dob-lo, e quando o doente deve morrer uma das outras corta o fio com uma tesoura, e no mesmo instante expira o enfeitiado. Depois invocam todas tres o demonio, que vem, e solda de novo o fio que ficou cortado. Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais alguma individuao a mais notavel das supersties populares, o imaginario pacto com o demonio. Deixamos para outra occasio o falar de muitas outras crenas e costumes que poderiamos ajunctar a estes incompletos apontamentos, e ento daremos especial noticia das _mulheres de virtude_, especie de contraveneno com que o povo de algum modo quis destruir os terrores que lhe causava o poderio das feiticeiras que elle proprio creara. *A Casa de Gonsalo* COMEDIA EM CINCO ACTOS PARECER Memorias do Conservatorio 1840 *A Casa de Gonsalo* COMEDIA EM CINCO ACTOS PARECER A commisso encarregada de dar o seu parecer sobre a comedia intitulada--_A Casa de Gonsalo_--que concorreu aos premios destinados para os dramas originaes portugueses, que mais se avantajarem entre os outros no concurso aberto por este Conservatorio para o corrente anno de 1840, vem apresentar a sua opinio a este Jury, desempenhando assim o encargo que lhe coube em sorte. A comedia sobre que versa este parecer precedida por um prologo, ou, como seu auctor lhe chama, por um endereo aos censores. A Commisso hesitou se devia ou no fazer algumas observaes sobre a materia nelle contida: grave e importante esta; ridicula e talvez chula a frma porque o auctor a tractou; mas a Commisso intendeu por fim que tocando-se nesse prologo a grande questo das condies da arte, que hoje agita o mundo litterario, era da sua obrigao, entrar no exame das idas contidas nelle. Pospondo, por tanto, os gracejos do auctor, e considerando somente as suas opinies e proposies, at porque elle parece apresent-las, como norma por onde os censores houvessem de guiar-se, antes de julgar o drama dir algumas palavras sobre o mencionado prologo. Comea o auctor esse prologo pela sua biographia litteraria referindo como tem composto um bom numero de _comedias comicas_, e outras lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle diz, so muito apaixonados os alemes. Deixando de parte as noticias biographico-litterarias, importantissimas para uma nova edio da Bibliotheca Lusitana, ou do Diccionario dos homens illustres, mas que no caso presente nada montam para o Conservatorio, a Commisso apenas se faz cargo das duas circumstancias que deixa apontadas: a 1.^a de ter o auctor composto comedias lamentosas, ou como, com Voltaire, elle lhes chama, _larmoyantes_: 2.^a a de affirmar que d'este genero so muito apaixonados os alemes. Admira com effeito, que o auctor to afferrado aos sos principios dos antigos, to desprezador dos desvarios modernos, gastasse o seu tempo com um genero dramatico bastardo, em que os antigos nem sonharam, porque s conheceram a tragedia e a comedia, vendo-se daqui que houve uma epoca em que o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ sacrificou ao Moloch revolucionario: no admira menos, que um escriptor to versado em materias litterarias ignore que o drama lamentoso nasceu em Frana, e que a Alemanha s conta um auctor notavel neste genero--Kotzebue--que no teve successores, e que hoje est quasi completamente esquecido naquelle pas, onde exclusivamente apparecem poucas comedias, bastantes tragedias, e infindos dramas da eschola moderna que est bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos chores, lamentosos ou patheticos. Continua o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ dizendo que sabe que a sua comedia no hade agradar porque tem aquelle mau gsto de composio que recommenda Aristoteles e Horacio que eram uns ranosos e d'esse rano Menandro, Aristophanos e Terencio etc.; fala nos freios da arte da eschola classica, unidade de aco, consistencia de caracteres; paixes e affectos naturaes, verdade de costumes, (!) estabilidade de logar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as lices de poetica e rhetorica (!); diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os modernos destruiram a unidade d'aco, de caracter, de tempo, e de logar. Do que tudo conclue o auctor que a sua comedia no hade agradar, e que por isso a apresentou sem a mandar copiar. Se a letra em que a comedia est escripta, e a historia litteraria do illustre auctor inserida neste prologo, no revelassem, aquella a mo trmula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordaes do sapientissimo Sales, que, bem differente das magas das novellas de cavallaria, as quaes transformavam as rugas de velhice em vio de mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Commisso, digo, no inferisse de tudo isso que este prologo encerrava um pensamento de Sanso, classico, o qual vendo morta a sua nao quer morrer tambem levando comsigo os philisteus da nova arte, e se este pensamento no fosse generoso, ella se teria abstido de fazer observaes algumas acrca das idas do auctor, que em um homem moo e que no tivesse essas razes d'amor s coisas com que se creou, seriam apenas dignas de compaixo muda. A Commisso, porm, pertence infelizmente ao presente, e quando v um campeo do passado, de quem se pde dizer como Virgilio: _Et dulces moriens reminiscitur Argos. Do caro Sales lembra-se morrendo_. no pode deixar de lhe dar o extremo _vale_, nem licito que responda com um silencio que se poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem vem lanar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bella, mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada. Senhores! A guerra que os homens do passado fazem s opinies do presente um phenomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes, que, ou as meditaes ou as inspiraes do genio, ou finalmente a accumulao das idas e das observaes de muitos homens, tem produzido uma revoluo, seja ella de que natureza fr. A razo d'isto d-se neste prologo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de sciencia nunca pde passar alm de comprehender o que os outros pensaram, intende que a isto se deve reduzir todo o poderio intellectual do genero humano. Taes individuos so por via de regra os representantes da immobilidade. Bem longe da theoria do progresso indefinido, crem que a civilizao como a praia do mar, os homens como as ondas d'elle, que ora se aproximam ora se afastam em continuados stos. So taes individuos que nunca se persuadiriam de que as chamadas trevas da edade mdia no eram mais que a chrisalida de uma civilizao maior e melhor que a grega e romana, de uma civilizao cuja aura vital era a grande transformao religiosa chamada o christianismo. So taes individuos para quem fra baldada a demonstrao de que no objecto de que neste logar se tracta--o drama--uma nova epoca e por consequencia uma nova frma tinha comeado com o bero das naes modernas, e de que entre o nosso theatro e o dos antigos devia haver a mesma differena que ha entre a civilizao christ e a pag, entre o christianismo e o polytheismo; emfim que nas respectivas litteraturas dramaticas devia haver uma diversidade parallela que ha entre aparte material do theatro antigo e a do theatro moderno. Era licito, pois, a estes homens morrerem abraados com as poeticas e rhetoricas sobre que encaneceram; era-lhes licito desprezarem os fructos das cogitaes dos modernos; era-lhes licito terem commentado as regras, na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era licito menos ignorarem a historia da arte antiga, desconhecerem os principios da moderna, mentirem acrca d'aquella, e calumniarem esta. Isto o que tem feito os admiradores dos rhetoricos de todas as naes, isto o que se reproduz no prologo do erudito discipulo do eruditissimo Sales. A Commisso no entrar aqui no exame do valor relativo dos principios da eschola antiga, e da eschola moderna que tambem os tem mais profundos e por ventara mais creadores de difficuldades que os da antiga. A comparao d'esses principios seria materia de um livro, de um curso de litteratura dramatica, e nunca de um parecer que deve servir de base discusso especial do merito de um drama. Mas a Commisso se mostraria pouco attenta dignidade, e honra litteraria do Conservatorio se deixasse passar como exactas affirmativas contrarias historia do theatro e critica, sem que rectificasse inexactides que se lhe vem apresentar como verdades. O auctor diz que sabe que a comedia no ha de agradar por se verem nella cumpridos os decretos de Aristoteles e de Horacio. Desejaria a Commisso que elle tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza d'incorrer. Se era o do publico, como tendo essa certeza concorre s provas publicas?--Neste procedimento ha pelo menos um pleonasmo to flagrante como ha no titulo de _comedia comica_ que elle d a esta. Se o do Conservatorio, parece fazer com isso grave injria a este. O Conservatorio possue no seu seio homens de convices differentes, e at certo ponto oppostas, em materias litterarias: uns pertencem, como o auctor, s idas antigas, outros s opinies modernas. Para os primeiros a execuo d'essas regras um merito; para os segundos se as suas opinies assentam sobre uma theoria completa da arte--e a Commisso cr que sim--o desempenho d'essas regras indifferente, porque no nem na falta, nem na existencia d'ellas que consiste a arte. O auctor devia saber que a eschola moderna colloca quasi a par de Shakespeare e acima talvez de Calderon e Lopo da Vega, dois escriptores da arte dos preceitos--Moliere e Corneille: devia saber que ella rejeita d'esses preceitos aquelles que no teem uma sanco esthetica; aquelles que, ou o capricho, ou um exame superficial das materias litterarias, admittiu como canones imprescriptiveis; aquelles que so mui proximos parentes dos achrosticos, dos echos, e dos versos leoninos--mas devia tambem saber, que a eschola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo genio, apesar d'essas peias escholasticas, se remontasse a altura da verdadeira arte, e que, por tanto os membros do Conservatorio cujas opinies so modernas no rejeitariam o drama s porque se assujeitava s andadeiras rethoricas da eschola antiga. Se um pensamento unico tivesse precedido composio d'esta comedia: se o ideal de um ou muitos caracteres comicos tivessem nella revestido as frmas da vida real, embora o drama estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectarios da nova eschola teriam dicto com os da antiga; _equites romani plaudant_! O digno auctor da _Casa de Gonsalo_, seguindo as pisadas dos homens da sua eschola parece querer tornar solidaria a arte dos gregos e romanos com a arte do renascimento; essa arte bella, pura, e nacional dos antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortes e regreira do seculo de Luis XVI. Hoje no licito ignorar as differenas que ha d'aquella a esta: ignorar que alm de outras coisas duas regras essenciaes para os modernos faltam entre os antigos as unidades de logar e de tempo, e que vice-versa entre os antigos havia no theatro os coros que os classicos modernos deixaram, bem como a musica tanto dos coros como da scena, a qual fazia que o drama fosse ento o que hoje a opera italiana, ou a vulgar, onde esta existe. Senhores: o drama moderno nasceu dos mysterios ou representaes religiosas da edade mdia: o caracter essencial dos mysterios era o vestir o ideal christo--e o nome o est dizendo--com as frmas da vida real, e a vida real era ento como hoje, como sempre, uma indistincta mistura de lagrimas e riso, de paixes vis e nobres, d'infamias e de grandezas. Nos mosteiros onde o drama comeou, se reuniam os extremos oppostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a ignorancia vejetava ahi ao lado da sciencia, a crapula ao lado da modestia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitencia, os grandes crimes ao lado da pura innocencia. Ento o monge a quem a natureza fizera poeta, tendo quasi por unicos estudos a historia symbolica dos hebreus, as sublimes invenes da sua poesia, e esse evangelho to ideal desde a primeira at a ultima pagina, no conhecendo o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformao na arte dramatica e comeava essa eschola moderna, salva apenas na Hespanha e na Inglaterra no seculo XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais brilho, e aperfeioada pela philosophia. O caracter d'esta eschola na essencia um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real, positivo e at trivial e vestia-o de frmas ideaes: os caracteres, as paixes, as situaes procurava-as na vida quotidiana: nas expresses, na fraze que estava a poesia, e por isso que o poeta antigo carecia dos coros para ahi principalmente derramar as harmonias da sua alma; por isso, que Sophcles, ou Euripides no comprehenderiam o drama em prosa; por isso que o theatro dos antigos no separava a musica da letra, porque a tragedia no era seno uma larga elegia sobre as amarguras da existencia ordinaria; a comedia no era seno uma satyra, um escarneo contra os vicios e as ridicularias da vida commum. Pelo contrario o theatro da edade mdia buscava no ideal paixes, caracteres, situaes. Onde achamos ns essas martyres to suaves, to aereas, to amorosas de um objecto sumido nas profundezas do cu? Onde achamos esses demonios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses coraes, ao mesmo tempo to robustos e to delicados, dos cavalleiros do romance e do drama da edade mdia?--Nos mysterios e nos autos; e os mysterios e os autos so ascendentes do drama actual: as Angelas, os Myphistopheles, e os Hernanis no refusam a sua arvore genealogica. Esta familia, nobre, porque, como as familias humanas, vai entroncar-se na edade mdia, teve um tempo em que cau na abjeco: foi quando os paos a rejeitaram; quando appareceu outra, que se chamava mais illustre; outra que se dizia de mais antiga ascendencia, aparentando-se com gregos e romanos: mas a critica mostrou que isto era falso, a philosophia que, ainda sendo verdade, no era tal razo bastante para a preferencia. Esta em resumo a historia das vicissitudes da arte. Ha ainda duas proposies no prologo da _Casa de Gonsalo_ as quaes a Commisso intendeu que no devia deixar passar sem fazer sobre ellas alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruiram o principio do desenvolvimento logico dos caracteres, ou como o auctor e a sua eschola lhe chamam--a unidade de caracter. De todas as accusaes que se podiam fazer eschola moderna esta a mais infundada. Condio absoluta da arte actual essa unidade dos caracteres, e neste ponto a Commisso no recearia d'eslabelecer parallelos entre os melhores dramas classicos e os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo da influencia dos novos principios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quasi sempre aos ultimos. Consiste a segunda proposio em affirmar o auctor que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto ha uma falsidade e um rro de historia litteraria. Falsidade porque no preciso ter lido seno os prologos de Victor Hugo ao _Cromwel_, e ao _Ruy-Blas_ para se ver que ainda o dramaturgo mais exaggeradamente liberal da eschola moderna estabelece regras, que a Commisso no avalia aqui, mas que incontestavelmente o so, boas ou ms. Accresce que, sem falar numa grande multido d'escriptos sobre a arte dramatica publicados ha vinte annos, basta ler as revistas litterarias francesas, alems, e inglesas, para ver que a critica tem j assentado muitos principios incontestaveis para julgar as produces do theatro, e que se em outros ha diversidade de opinies, no isso de admirar numa eschola que conta apenas vinte annos como theoria, e que obrigada a provar a justia da sua causa com razes e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os defensores da antiga, firmados em monumentos e glorias seculares, desobrigados, e por ventura incapazes de crear obras de arte, no tem outro trabalho seno defender e amparar seus principios, principios que apesar d'esses monumentos, d'essas glorias, d'essas defenses, e sobre tudo de sua antiguidade, no deixam muitas vezes de ser incertos e at contradictorios. Agora quanto ao rro de historia litteraria a Commisso julga escusado dizer mais nada, seno que quem pe em parallelo Delavigne e Hugo, como egualmente destructores da arte antiga, mostra que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve ficar obrigado. Delavigne, o academico Delavigne, que treme a cada passo de pertencer ao seu seculo, no se julgaria em decente companhia vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe do que devera, crer-se-ia sujo de todo o p dos bacamartes pedantes dos commentadores d'Aristoteles, achando-se collocado a par do classico auctor da _Princesa Aurelia_, do bucolico auctor do _Pari_. Entremos no exame da comedia. O auctor tomou por objecto nesta composio o converter em uma aco dramatica um dos antigos proverbios populares, especie de formulas com que o vulgo exprime muitas vezes idas complexas. este o que se applica a qualquer casa mal governada e arruinada por toda a casta de desvarios: _ a casa de Gonsalo_:--eis a expresso proverbial; eis o pensamento que presidiu composio do drama. Vejamos como o auctor o tractou. Um viuvo e uma viuva so casados em segundas nupcias: ella tem uma filha. D. Farnacia o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo--pobre homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnacia prezada de fidalga, caprichosa, e gastadora. Gonsalo instigado por D. Farnacia ps na rua seu filho Bernardo, moo to sisudo e composto, quanto Leonor, filha de D. Farnacia, tola, namoradeira e desassisada. A familia compe-se, alm dos tres, Gonsalo, D. Farnacia e Leonor, de um irmo e de uma sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e D. Dorothea; aquelle um peralvilho, frequentador de botequins, e que no pensa seno em acceitar cartas d'amores; esta uma presumida de sbia, que em todos os seus discursos mistura palavras e phrazes francesas, e que s l novellas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem lido. Um creado e uma creada desobedientes, ladres, e desavergonhados completam aquella ninhada domestica. Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem deve obrigaes, e dinheiro, homem prudente e srio, que pretende tir-lo da vida de abjeco em que vive, aconselhando-o sempre para que tome o logar de verdadeiro dono da casa, e seguindo-se d'isto o ser cordealmente odiado por D. Farnacia. Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel--Constando e Carlos: o primeiro o namorado de Leonor. com estas personagens, que o auctor conduz a comedia a seu fim, e a Commisso seria demasiado prolixa se quisesse histori-la por todos os cinco actos em que elle a dividiu. Bastar dizer que fra de gastos loucos, Gonsalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o expulso e maltractado Bernardo, obtendo uma proviso para administrar a casa paterna, ajudado por Florencio, que sendo o principal credor exige para seu filho a mo de Leonor, e faz casar Bernardo com Dorothea, a qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos, amigo de Constancio, e que juntamente com elle frequentava a casa de D. Farnacia. Commisso parece que o drama em geral bem conduzido, o dialogo excellentemente travado, a successo das scenas logica e natural, e a linguagem accommodada ao assumpto, e com poucas excepes, limpa e corrente. Estes so os meritos que julgou se davam no drama, e pelos quaes seu auctor digno de ser louvado. Infelizmente partes e circumstancias so estas que no bastam. Obte-las-ha para as suas composies todo aquelle que escrever fortalecido de estudo: mas s o genio d vida s obras d'arte. As frmas exteriores pde-as traar mo amestrada; vida s a infunde o alento do poeta, que se assimelha ao spro vivificante de Deus. Os caracteres, as situaes, e os pensamentos das personagens de qualquer comedia abrangem forosamente toda a graa comica que nella se pde dar; e nesta no ha nem um caracter, nem uma situao, nem um pensamento verdadeiramente comico. D'isto ficaro persuadidos aquelles que se derem ao trabalho de ler o drama; a Commisso est prompta a mostr-lo quando haja quem o conteste. Do que fica ponderado se conclue naturalmente que este drama, falho dos meios de attrahir a atteno dos espectadores, correr grande risco em ser posto s provas pblicas, e portanto a Commisso louvando o que ha bom nelle, isto , o que propriamente se pde chamar a sua parte material, deixa ao Conservatorio o resolver o que mais justo e acertado fr quanto ao destino que se lhe deve dar. Conservatorio Dramatico, 17 de Julho de 1840.--_A. Herculano_, Relator. *Elogio historico* de SEBASTIO XAVIER BOTELHO Memorias do Conservatorio 1842 *Elogio Historico* de SEBASTIO XAVIER BOTELHO Senhores: Honrado com o encargo de revocar hoje a memoria de um nosso illustre consocio que a morte nos roubou, no posso deixar de sinceramente lamentar que este Conservatorio quisesse que eu, intendimento humilde, va bater porta do sepulchro para atravs d'elle citar uma nobre intelligencia, que repousa no seio de Deus, e dizer-lhe--Vem ouvir o processo da tua gloria, o julgamento sobre o modo porque desempenhaste a tua misso intellectual na terra. Porque, Senhores, ou muito me engano, ou esse o principal, diria quasi o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das letras, d'essa revelao formosa e sancta do ingenho humano, nos ajuntmos neste recinto: por ellas existimos como corporao: ellas nos fizeram irmos e eguaes. Pelas letras as differenas voluntarias e incertas do mundo--as riquezas, o poder, os nomes d'avs, se convertem em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel, talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre ns uma condio d'existencia. Nas associaes litterarias a vida de certo modo immaterial, e as nossas distinces so unicamente as da superioridade do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam o tribunal da posteridade. S a morte abre de par em par as portas d'este, e ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou ser lanado na herana dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a borda do sepulchro, onde foi repousar o que no pde ou no soube conquistar a immortalidade. por este caracter democratico, de todas as corporaes como a nossa, porque alheias inteiramente s condies da sociedade civil, que me parece no ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos, que provaro muito para outro genero de renome e gloria, mas que de nenhum modo vem a ponto para as canonizaes litterarias, no momento solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados, haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra a nossa misso: temos de perguntar ao que traou algumas palavras no livro eterno e immenso da arte e sciencia humana--Que foi o que fizeste?--Que era o que podias fazer? Isto o que nos pertence, o resto sociedade. O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastio Xavier Botelho. Para se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?--De l-la. Difficultosa similhante leitura; porque as palavras do homem de ingenho so concisas e profundas: soletram-nas a custo os que no possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que perteno a estes. A culpa do mu desempenho ser, pois, vossa, Senhores, que medistes erradamente as minhas foras pelos meus e pelos vossos desejos. A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra at quella em que importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas obrigaes, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo abrange o tempo que discorreu desde esta epocha at da sua morte. O primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal: no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo real. nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua intelligencia, e procurarei responder pergunta--Que servios fez o sr. Botelho ao progresso do espirito humano? As primeiras composies poeticas do nosso illustre consocio foram escriptas nos fins do anterior ou nos comos do presente seculo: d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo pela maior parte litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de publicao--o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordaes e o unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e civilizao modernas--a imprensa--faltou-lhes como ainda ha dez annos faltava commumente s obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e morriam sem a conhecerem; porque dois anjos mus a guardavam, os quaes tinham por nome--censura e ignorancia. Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr. Botelho, dos quaes apenas imperfeitissimamente conhecida a tragedia _Ignez de Castro_, e um pouco melhor a _Zulmira_, melodrama de que restam varias copias. _Zulmira_ , como todos os melodramas, uma composio hybrida, monstruosa, e falsa luz dramatica; mas considerada como um hymno aos nobres affectos do corao humano ella nos revela quanto era poetica e formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haver da epoca em que foi escripta, a no serem os do melhor metrificador portugus--Bocage--nos quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo to generosas idas, to affectuoso sentir, expresso muitas vezes com admiravel precizo. No um drama a _Zulmira_!--E que importa? _Esther_ uma elegia; _Athalia_ uma epopea; mas elegia e epopa sublimes de um poeta divino! Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas verses dramaticas do sr. Botelho--amparavam-nas, seus originaes, largamente conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro tragedias de Racine, _Berenice_, _Mitridates_, _Phedra e Bajacto_, elle transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas de Voltaire, como _Mahomet_, _Zara_, _Bruto_, _Marianna_, _dipo e Semiramis_, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres auctores dramaticos. J vedes, Senhores, quantas e quo largas vigilias o mancebo poeta consagrou ao theatro; as suas poesias volantes sabe-se que foram muitas, mas do naufragio do tempo apenas salvou a imprensa a epistola a Bocage, a qual mereceu os extremados louvores que este grande poeta d para me servir da linguagem arcadica d'aquelles tempos, ao vate Salicio. Vate Salicio era o Sr. Botelho, que ainda ento os poetas, por obrigao de seu officio, se desbaptizavam do nome christo, am em espirito pastorear velha Grecia, e voltavam de l no poetas, mas pastores e vates. Procurei, Senhores, lembrar-vos quo extensos foram os trabalhos poeticos do Sr. Botelho. Resta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o recordar-vos qual foi a significao litteraria d'elles--o averiguar como e quanto o nosso fallecido consocio contribuiu para os progressos da arte nesta to poetica terra de Portugal. Poeta elmanista, e um dos primeiros e mais distinctos sectarios d'esta eschola, que rainha da poesia, e dispensadora de gloria regeu sem partilha de imperio os dominios da arte, no julgamento d'essa eschola brilhante que est o seu julgamento. Os juizos individuaes em historia litteraria so to falsos como em historia social: o individuo que vai frente da sua epoca, no mais que a ida predominante d'ella encarnada no homem. Julguemos a ida, e teremos julgado o symbolo humano que a representa. Se aquelle que passou no a comprehendeu, no o chamemos tambem ao tribunal da posteridade, e deixemo-lo repousar na paz de seu esquecido sepulchro. Mas o pensamento progressivo que agitou uma gerao ou um seculo no vem s: vem com elle os pensamentos dominadores das geraes ou dos seculos antecedentes que o produziram, e vem os que elle gerou. Sem isso o processo ser incompleto: errada provavelmente a sentena. Expresso de uma serie contnua e eterna de idas, grandes porque veem de Deus, o progredir humano revela o elemento intellectual de cada uma das nossas transformaes successivas em todas as formulas da vida. Esse elemento, essa ida prolifica, busquemo-la em todos os aspectos da civilizao, que em todos a havemos de encontrar. Nas instituies, e nos costumes, na sciencia, e na arte, l est escripta--escripta pela mo do anjo do Senhor, que deixa cair sobre a terra uma lagrima de d, quando a mo d'algum louco cr que pde apag-la, ou a voz do insensato se ergue para a desmentir, e nella desmentir o brado do genero humano. na arte, qual foi completamente dedicado o primeiro periodo da vida litteraria do Sr. Sebastio Xavier Botelho, que eu buscarei principalmente o pensamento ou facto intellectual que caracteriza e explica a sua epoca e a sua eschola, ligando esse facto com os que o precederam e com os que d'elle vieram. Oxal que para animar-me em tractar um objecto acima de minhas foras me no desampare a vossa indulgencia! Vs sabeis, Senhores, que durante a primeira metade do decimo sexto seculo uma grande revoluo se operou e completou no Meio-Dia da Europa. As sociedades feudaes e municipaes, estas, no seu crescer, aquellas na sua declinao, deram o ultimo arranco aos ps da sociedade monarchica. Toda a vida anterior das naes do occidente desabou aps ellas. Entre ns mudou tudo: socialismo, sciencia, arte, caracter religioso. Ninguem curou d'isso. A robusta e intelligente monarchia d'esse tempo atirou espantosa actividade de nossos avs tres partes do mundo para esmagar: cevou-a em podero, e saciou-a de gloria. Compuseram-se ento todos os aspectos da sociedade a exemplo da unidade monarchica: o senhorio feudal tornou-se dependencia completa: o municipio delegao: os parlamentos letra morta. A chronica, essa frma to viva, to dramatica, to nacional da historia, cedeu o campo aos Thucydedes e Livios modernos: o platonismo christo e espiritual, fugiu, combatendo como os Parthos, ante o aristotelismo argumentador e materialista: as artes plasticas seguiram de longe os destinos de suas irms d'Italia, onde as illuminuras aereas e incorrectas dos missaes e horas, desappareciam deante do pincel terreno e correcto de Rafael e as cathedraes mysteriosas e symbolicas se desmoronavam ao altear do templo de S. Pedro, prostituido luz por Miguel Angelo: todas as artes se confessaram vencidas, na sua imperfeio e rudeza sublimes, pelos monumentos da arte antiga. O proprio christianismo se fez intolerante e sanguinario, como o polytheismo romano, o perseguidor dos martyres--e a inquisio restaurou o pretrio. Finalmente a poesia nacional, balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor da litteratura latina. As instituies de Roma, a Roma dos imperadores, annullaram as nossas instituies primitivas, e a poesia romana mudou o caracter da poesia moderna. A sociedade reproduzia o pensamento que guiava o seculo. Deixou de ser christ e nacional, para ser pag e peregrina. Roma que, viva e possante, no alcanara subjugar inteiramente este cantinho da Europa, cadaver j, profanado pelos ps de muitas raas barbaras, conquistou-nos com o esplendor da sua civilizao, que resurgira triumphante. Netos dos celtas, dos godos, e dos arabes, esquecemo-nos de todas as tradies d'avs para pedirmos s cinzas de um imperio, morto e estranho, at o genio da propria lingua! Mas essa civilizao violenta, enxertada em arvore de diverso genero, devia tarde ou cedo ceder o logar a outra mais homogenea com as tradies e costumes, com as crenas e habitos dos povos modernos. O mundo antigo fra condemnado por Deus: a sua condemnao era o evangelho. O ingenho humano pde vestir-lhe o trajo dos vivos; mas por baixo d'este estava-lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario dos mortos. Mais tarde ou mais cedo, repito, elle devia voltar sua jazida. E a reaco no tardou os annos de tres geraes. O seiscentismo foi uma reaco. Ha ahi acaso quem duvide de que elle era uma revolta, seno contra a essencia da arte romana, de certo contra as frmas exteriores d'essa arte? Bem sabeis, Senhores, que no difficil prov-lo, e que entre a poesia anterior ao renascimento e a dos seiscentistas ha alguns caracteres analogos, e muitas tendencias similhantes. No direi quaes, porque melhor o conheceis que eu--e porque preciso de approximar-me rapidamente epocha em que viveu para honra das letras o Sr. Sebastio Xavier Botelho. Qual foi a origem do seiscentismo? A historia litteraria diz-nos que foram Marino, Gongora, e no sei quem mais. uma d'aquellas falsidades historicas, que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens puderam assim mudar nem a minima das frmulas sociaes, em cujo numero a arte de certo no a ultima. So as geraes arrastadas e agitadas por idas que nasceram e se derramaram insensivelmente, que fazem similhantes transformaes. Esses cabeas d'eschola so o verbo da ida, so os interpretes do genero humano--e mais nada. O seiscentismo foi uma resoluo que falhou, uma tentativa de restaurao da nacionalidade em litteratura, que no sendo acompanhada pela restaurao social completa do modo d'existir portugus anterior s influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e alm d'isso ridicula. A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporao teve nas letras foi uma nova reaco litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as doutrinas romanas, posto que reflexas j d'Italia e de Frana, foi ainda mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O seiscentismo acabou s mos dos arcades, que restabeleciam o predominio da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D. Joo III e D. Sebastio, ao passo que o Marquez de Pombal procurava restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus principios administrativos, e com a aco vigorosa do seu governo de ferro. A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a restaurao da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam necessariamente passar--e passar rapidas. Assim aconteceu. Alm do anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissoluo. A frmula politica nunca fra to absolutamente monarchica: a frmula litteraria nunca fra to mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio fra to cabal explicao de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram to completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal comeava por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de discutir com elles. o que tem feito e far o nosso seculo. A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua misso. Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanio. Esta sociedade, to activa, to belligerante, to ruidosa nos seus comeos--expirou, e nem sequer o mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente vivera, porque nunca representara uma ida progressiva. Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos luminares era o Sr. Sebastio Xavier Botelho. Resta-me trazer vossa memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte. Bocage vinha depois de duas restauraes classicas, ou romanas; assistira ao derradeiro claro da segunda, e fora educado por ella. Os seus primeiros poemas so moldados pelos dos arcades, mas j nesses poemas ha mais inspirao, porque Bocage nascera e no se fizera poeta, com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garo. As variedades que gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco distinctas, salvo na metrificao em que escureceu completamente os arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composies, para substituir a mythologia pag pela allegoria, o que deveu talvez influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nao. Mas , Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem extraordinario para avaliar a misso da sua eschola, e saber qual transformao o apparecimento d'ella veio produzir na arte. Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. Joo III e da pocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortes, aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no corao essas paixes violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos campos de batalha, das sedies, dos grandes crimes e das grandes virtudes? Elles ignoravam o que so lagrimas de desterro, o que so contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos, ancia de gloria popular, ambies, miserias humanas, no existiam para elles. Os mares e os seus terrores, as solides profundas das serranias, o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, no imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este seculo grave e triste, porque o converteram melancholia e ao cogitar profundo os seus destinos solemnes--tudo isso era alheio suave existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspiraes uma vasta erudio. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam entre a frieza e trivialidade, e a exaggerao e mentira--porque para elles as paixes e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu universo. Bocage porm no era arcade. Era um homem do povo que alimentava no espirito todas as paixes violentas, e muitas vezes freneticas e desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais admiraveis versos no meio das multides, luz do sol ou dos astros da noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres--em todos os logares, a todas as horas. Depois de Cames, Bocage foi o nosso primeiro poeta popular; como Cames, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado; adormeceu, como elle, muitas vezes no balouar das vagas do oceano, e como elle orvalhou de lagrimas o po do desterro, e veio morrer na patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho passou pela terra abandonado, pobre, n; mas como os antigos romeiros trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes no privilegiadas, s quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e principalmente para ellas. Bocage o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia s-lo. Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do metro, essas almas rudes mais attentas harmonia da frma que ao poetico do pensamento. Feita assim a poesia plebea, duas consequencias deviam seguir-se d'esse passo gigante--a liberdade litteraria e o apparecimento do theatro. A poesia popular regeita como o povo, quando comea a pensar e deixa de querer, todas as leis que se fundam em auctoridade ou tradio e no em conveniencias; e o drama a frma mais completa da arte quando esta se faz burguesa. No aconteceu todavia assim: a razo d'isso obvia. A revoluo litteraria que a gerao actual intentou e concluiu, no foi instincto: foi resultado de largas e profundas cogitaes; veio com as revolues sociaes, e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. Mas nem Bocage, nem os poetas que o imitavam ou seguiam suas doctrinas, se doctrinas havia nessa eschola, curavam d'averiguar theorias estheticas; porque os tempos da grave discusso ainda no eram vindos. Poetas inspirados deixavam-se ir ao som das suas inspiraes, viviam numa especie d'excitamento intellectual; o _estro_, em que tantas vezes falam, era uma realidade, e o improviso a forma commum em que davam vulto aos seus pensamentos e affectos. Esses ingenhos ardentes respiravam numa atmosphera d'enthusiasmo, d'ebriedade poetica. Similhantes avesinha que solta o seu gorgeio como o aprendeu da natureza e do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espontaneo, acceitavam sem exame as regras que lhe ensinara a Arcadia. E que podiam fazer os pobres poetas pees seno curvar a cabea ao voto dos mui eruditos e cortesos pastores do monte Menalo? Por isso a eschola bocagiana preparou s metade da revoluo artistica: trouxe a poesia dos corrilhos e sales aristocraticos para a praa publica; mas no a fez nacional. Esta difficultosa empresa estava em grande parte guardada para um poeta to romano em intenes e desejos, quanto portugus na indole do seu ingenho. Francisco Manuel foi quem acabou o que Bocage comeara, completando pela nacionalidade o plebeismo da arte. Feito isto, seguia-se a revoluo--e um poeta mancebo, desterrado como Francisco Manuel, rasgou a bandeira romana e hasteou a portuguesa. Os poemas--D. Branca e Cames--foram o signal da revolta. As tradies da Arcadia estavam irremissivelmente condemnadas. Foi esse incompleto da eschola elmanista que impediu nascesse no meio d'ella um theatro original. D'este houvera sido o fundador o Sr. Sebastio Xavier Botelho, se as suas tendencias, o seu agudo ingenho, e continua applicao a similhante genero de litteratura fossem ajudados e acompanhados pelo espirito da pocha, e pelo caracter da eschola a que pertencia. Debalde com a paciencia e tenacidade de poeta, que so as maiores d'este mundo, no levantou elle mo de uma empresa que era impossivel levar a cabo, e em que tinha ficado vencido o incansavel Manuel de Figueiredo e Garo, o poeta da Arcadia. A nacionalidade no existia ainda, e nacionalidade e theatro no ha separ-los. O theatro para as multides, e o povo no intende seno quem lhe fala na sua linguagem e sobre as suas coisas; das suas tradies e crenas, ou das suas paixes e da sua vida actual. Assim, com a logica do genio, o Sr. Botelho vira qual era a consequencia da revoluo litteraria para que elle contribuia; conhecera que feita popular a poesia, e tirada dos aposentos de senhores e poderosos, ou do seio das academias para ser lanada no mundo--porque ella do mundo, devia tomar a frma mais adequada aos seus novos destinos; mas no viu, porque no podia ultrapassar as idas do seu tempo, que a transio era incompleta. Foi por isso que se enganou nos meios, e pensou que trazendo nossa scena as sublimes poesias liricas, epicas, e elegiacas, chamadas tragedias de Racine, e as dissertaes dialogadas de philosophia incredula, chamadas tragedias de Voltaire, o theatro resurgiria; mas o theatro deixou-se ficar morto, porque no era a voz da individualidade nacional, que o revocava vida. Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a eschola litteraria, a que pertenceu o Sr. Botelho no primeiro periodo da sua vida intellectual, e como me parece deve ser julgado elle proprio nas obras do seu ingenho. A essa eschola cabe um honrado logar na historia do progresso humano, ao Sr. Botelho toca especialmente o ter sentido, ou antes adivinhado, que, tornada popular a poesia, devia o drama vir a ser a sua mais completa expresso. Se no logrou seus desejos, segredo foi de cima. No quis Deus que essa mente gigante viesse ajudar-nos a evangelizar a nova religio da arte com a eloquencia da palavra, e com a mais vehemente ainda, de obras dignas da immortalidade. Vistes, Senhores, o nosso fallecido consocio--lidando por honrar as letras portuguesas, e restaurar o theatro; viste-lo consagrando poesia os annos proprios d'ella porque so os do imaginar; ve-lo-heis agora applicando na edade madura a meditao, a energia do seu vigoroso talento, e a experiencia alcanada no servio da patria, a estudos positivos, ao desenvolvimento das mais graves questes sociaes. O poeta affectuoso, delicado, harmonioso, converteu esse ingenho de que a natureza to prodigamente o dotara, philosophia politica, e nesta nova carreira do mundo positivo, quasi posso dizer, escureceu a reputao que anteriormente adquirira no mundo da idealidade. Foi na sua demorada rezidencia na banda oriental das nossas desprezadas colonias africanas, como governador de Moambique e dos vastos territorios adjacentes, que o Sr. Botelho colligiu os apontamentos e noticias para a sua Memoria estatistica sobre os dominios portugueses na Africa Oriental. Juiz incompetente, nada direi, Senhores, quanto materia do livro: escripto por um homem da capacidade do Sr. Botelho, e talvez em grande parte naquellas mesmas provincias, facil de suppr qual seja o seu valor intrinseco. Violentamente acommettida a obra em um dos principaes periodicos litterarios d'Inglaterra, a Revista d'Edimburgo, tal e to cerrada de razes e provas foi a resposta do Sr. Botelho, que no houve mais replicar, no sei se com quebra do orgulho ingls. Acrca da doutrina do livro, esta em meu intender a mais cabal defenso. O que porm, naquelle precioso volume chega a causar uma d'essas invejas que no deshonram, porque so nobres e honestas, o estylo e a linguagem d'elle. To sua tinha feito o Sr. Botelho esta formosa lingua portuguesa, to elegante e fluente o seu descrever e narrar, que difficultosamente lhe levaro vantagem os nossos principaes prosadores. Ha no livro do Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem notado: paginas inteiras das relaes dos naufragios, principalmente das que escreveu o celebre Diogo do Couto, se acham ahi reproduzidas textualmente. Estas paginas, o mais exercitado leitor do Couto no ser capaz de as distinguir entre as do nosso illustre consocio, to irmo-gemeo o seu estylo e linguagem com os d'aquelle admiravel historiador. Ou esse apparente plagiato fosse uma prova incontestavel, que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o seu talento e saber o egualavam com os nossos melhores classicos, ou fossem reminiscencias involuntarias (que no precisava elle d'alheios haveres para ser abastado) indubitavel que tal circumstancia basta para caracterizar a alteza a que chegara como prosador aquelle de quem como poeta dissera Bocage: O solemne idioma, o tom dos numes, A voz que longe vai, que longe sobe, Que sa alm do mundo, alm dos tempos. Esta importante Memoria foi coordenada e concluida no periodo que discorreu desde 1828 at 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteiramente afastado dos negocios publicos. Precedeu pois a sua composio aos opusculos politicos do nosso fallecido consocio, por isso a mencionei primeiramente. Estes opusculos so, a Carta a S. M. I. o Duque de Bragana, impressa em Londres em 1833, e as Reflexes Politicas publicadas successivamente no seguinte anno. Escriptos com a singeleza e sincera liberdade de homem que sentia bater dentro do peito um corao portugus, esses opusculos so, litteralmente considerados, uma nova cora para o Sr. Botelho pela gravidade do estylo e pelo pensar profundo que nelles transluz. Versam sobre importantes successos da poca em que foram publicados. Nesse tempo de paixes violentissimas, taes escriptos pareceram talvez revelar em seu auctor demasiado apego s coisas do passado, e ainda hoje assim parecero a muitos. Todavia, confesso-vos, Senhores, que no vejo eu ahi seno novos motivos de venerar a memoria do nosso illustre consocio, e de admirar a sua consummada prudencia, e o seu amor de patria. um filho extremoso que treme e desmaia vendo applicar a seu pai velho e infermo, medicina violenta, que pde salv-lo ou arremess-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar receios e hesitaes de um filho, nesse arriscado momento? A epoca de 1833 foi a unica epocha revolucionaria porque tem passado Portugal, neste seculo. Nem antes, nem depois, quadra tal epitheto aos successos politicos do nosso pas; porque s ento foi substituida a vida interina da sociedade por uma nova existencia. As fras sociaes antigas desappareceram para dar logar a novas foras; destruiram-se classes; crearam-se novos interesses, que substituiram os que se anniquilaram: os elementos politicos mudaram de situao.--Podia esta mudana fazer-se lentamente e sem convulses dolorosas, ou cumpria que a revoluo fosse rapida e energica? Nem saber, nem vontade tenho eu para o resolver. O Sr. Botelho julgou que o mais conveniente methodo era o primeiro; disse-o sinceramente, e procurou prov-lo. Eis a substancia do que nesses opusculos pde parecer menos progressivo a esses cujo espirito vai aps o futuro. Mas, na verdade, nem um s dos grandes principios de reforma, que ento se converteram em factos, foi combatido pelo Sr. Botelho. A questo que elle tractou era a do tempo, e era a prudencia quem movia a sua penna. As diligencias para conter o rapido desabar das velhas instituies e costumes, era dever dos homens, cuja edade grave e capacidade extraordinaria abonava d'experimentados. Inquieto e ardente por natureza o espirito da mocidade neste seculo de grandes idas e de grandes transformaes. Aos velhos, aos que, melhor que ns mancebos, conheceram a sociedade que expirou, incumbe apontar-nos o que ella tinha respeitavel e bom, e o que ha em nossas opinies exaggerado ou perigoso, e a ns incumbe escut-os com respeito. Esses homens falam-nos com a mo sobre o corao, porque entre elles e o julgamento de Deus, e da posteridade medeia s a grossura de uma loisa. Elles nos admoestam encostados borda da sepultura, e raro ser que at l a hypocrisia ou a lembrana de mesquinhos proveitos acompanhem os que viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes e venerandas julgo eu as palavras da velhice, porque a velhice uma especie de sacerdocio, e quando o ancio se ergue para soltar um brado de reprovao, se escutarmos esse brado, elle poder contribuir mais para o verdadeiro progresso do que se os ultimos homens da sociedade extincta saudassem covardemente a victoria das novas idas; se caminhando para a morte, imitassem os gladiadores de Roma, nos circenses do triumpho, que nesse momento supremo saudavam os Cezares vencedores com aquellas horriveis palavras: Salve, Cezar! Os que vo morrer te sadam! Arriscar-se-a com isso a ser despenho o nosso progresso, e ao despenho segue-se ou o perecer no abysmo, ou um doloroso retrogradar. Considerados a esta luz, os opusculos politicos do Sr. Botelho no so mais que o complemento de dilatados trabalhos encaminhados constantemente ao aperfeioamento intellectual dos seus compatricios. Poeta na mocidade, bem mereceu da arte: historiador e estadista na edade grave, mais bem mereceu da patria por escriptos proprios d'essa pocha da vida. Ns que o tractmos, que o vimos no meio de ns, que com saudade nos lembramos do seu mrito, fazemos-lhe inteira justia. Far-lha-ha tambem a posteridade--e mais completa; porque se como homem da arte e da sciencia to honrado nome deixou entre ns, que ser para o mundo, que alm d'essas razes de lhe venerar as cinzas, tem a rica herana dos exemplos de virtudes domesticas, d'amor de patria, de servios ao estado, emfim de um nobre proceder--como homem, como pai de familia, e como cidado? Os vindouros, que no ns, poro o cimo e remate ao formoso monumento da sua glria.--_Disse_. *D. Maria Telles* DRAMA. EM CINCO ACTOS PARECER Memorias do conservatorio 1842 *D. Maria Telles* DRAMA EM CINCO ACTOS PARECER A Seco de Litteratura encarregada por vs de dar um parecer que sirva de texto discusso dos meritos ou demeritos do drama--_D. Maria Telles_--que concorreu aos premios, offerecidos por este Conservatorio para animar os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-vos por minha interveno as reflexes que lhe occorrem sobre a materia, e que rectificadas e ampliadas pelas dos outros membros d'esta Academia, devem produzir a final um juizo prudente e acertado que sirva no s para em especial determinar o valor litterario d'esta composio, mas para illustrar os noveis que commettem to difficil genero de litteratura. _D. Maria Telles_-- um drama historico--historico ao menos na inteno, de seu auctor.--A aco e a poca escolhida pelo poeta, bem conhecida. A historia da formosa irm da nossa Lucrecia Borgia--de D. Leonor Telles-- uma d'aquellas biographias que encerram um s facto; mas que por esse facto so perpetuamente celebres. No ha ninguem que ignore com que arte infernal a adultera D. Leonor sabia obter sempre a satisfao das suas paixes: entre estas houve uma que era pura, o unico pensamento sancto e suave que mora no corao d'essas hyenas com gesto humano chamadas Telles ou Borgias, as quaes felizmente raro apparecem no mundo. Este affecto era o amor materno. Devia ser vivo e profundo, se o avaliarmos pelos crimes que D. Leonor commetteu para segurar na cabea de sua filha D. Beatriz a coroa de D. Fernando, que se cria seu pai e que talvez o seria. O Infante D. Joo era um obstaculo que podia oppor-se aos intentos d'aquella mulher diabolica. Como livrar se d'elle?--Convertendo-o em um grande criminoso. Foi ento que para o perder lhe soprou na alma as duas paixes mais ferozes do corao humano--a ambio e o ciume--e D. Maria Telles foi assassinada pelo marido porque D. Leonor precisava do seu cadaver para calar a estrada por onde D. Beatriz devia subir ao throno. este assassinio o desfeixo a que nos conduz o drama: os acontecimentos que o prepararam so a tela onde se desprega o lavor da imaginao do poeta. Os caracteres introduzidos neste drama so o de D. Maria Telles; o do Infante D. Joo: o de D. Lopo Dias de Sousa, filho de D. Maria e de seu primeiro marido: o de Garcia Affonso, Commendador d'Elvas; o de Joo Loureno da Cunha, marido de D. Leonor Telles; o de D. Fernando I; o de D. Leonor; o de Vasco, pagem de D. Leonor, e o de Fr. Soeiro, Director espiritual, segundo parece, de D. Maria Telles. Um carcereiro, Damas, Cavalleiros, povo, constituem isso a que se chama cheios, comparsas, ou personagens mudos. No se pde na verdade negar ao auctor d'esta composio uma grande ousadia litteraria em ajuntar no seu quadro tantos vultos difficultosos de desenhar, e que por ventura seriam rebeldes aos pinceis de grandes mestres. Vejamos como elle resolveu o seu problema dramatico relativamente aos caracteres principaes. D. Maria Telles era uma formosa viuva, de quem o Infante D. Joo se enamorou. Os affectos do Principe s acharam correspondencia quando prometteu casar com ella, e o casamento effectuou-se, porque a paixo do Infante era ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal proprio de uma Crte dissoluta como a de D. Fernando, e d'uma pocha em que o amor demasiadamente metaphysico nos escriptos dos trovadores, era asss grosseiro na realidade dos costumes. As probabilidades todas so que similhante consorcio foi do lado de D. Maria Telles um calculo d'ambio, e do lado do Infante um meio de satisfazer seus desejos. Isto o que resulta da historia. Mas o auctor podia substituir este argumento historico pelo de um amor talvez mais lyrico, mas por ventura no mais dramatico. O que no devia era dar a esse amor a frma e expresso que lhe deu. Expliquemo-nos. D. Maria Telles no era uma donzella na primavera da vida: era uma dona entrada j naquella edade a que se pde chamar o outono da formosura. O auctor nesta parte acceitou o argumento da historia, introduzindo no seu drama o Mestre de Christo, mancebo de dezoito ou vinte annos, filho de D. Maria Telles. Forosamente esta passara por isso o vio da mocidade. O seu amor portanto devia ser intenso, mas grave: revelar-se profundamente nos factos e muitissimo pouco em discursos. Devia ser um amor que no tarda a transformar-se em amizade; que, por assim dizer, comea a ter pudor do si mesmo, porque as illuses da juventude teem quasi todas passado. Difficil na verdade o pintar esse affecto severo e intimo; mas se j deixou de ser um merito vencer difficuldades inuteis, ainda restricta obrigao do poeta o conhecer as phases do corao humano, e no as desmentir jmais porque a natureza immutavel. O auctor sentiu ao que parece confusamente a verdade d'esta observao; quis dar gravidade ao caracter de D. Maria Telles: no lhe deu seno tristeza. Tristeza tanto quando se vai desposar com o Infante como depois que elle comea a afastar-se d'ella, e a dar-lhe no equivocos signaes de desamor. Porque est ella triste at morte, segundo a expresso de Job, quando se approxima aos altares? por certos presagios; por sonhos; por certo dizer do corao; por vergonha que tem de seu filho. Afora a ultima, nenhuma d'estas razes verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica inexplicavel, porque o pudor no melancolia. Sereno devia ser o seu contentamento; mas devia ser contentamento. No era nessa afflico e lucto infundados que podia revellar-se a gravidade do caracter de D. Maria Telles, quando por outra parte todas as palavras d'esta mulher affectuosa, como o auctor a quis pintar, s condizem com o amor dos vinte annos que se dilata impetuoso at aos extremos horizontes da vida. Seno nos enganamos o caracter de D. Maria Telles est falsificado em relao historia, e o que mais em relao natureza. O caracter do Infante apenas se pde dizer que existe: no primeiro apparece para dizer a D. Maria Telles que muito a ama. Das suas palavras no resulta individualidade; repete o que em similhante materia se diz desde o principio do mundo. No terceiro acto onde torna a apparecer, ameaado e affrontado por Joo Loureno da Cunha, e fica impassivel, salvo quando este, provavelmente aborrecido de tanta tranquillidade, volta as injurias e feros contra D. Leonor que est tambem presente. ento que o Infante arranca da espada; mas el-rei acode: um dialogo se trava entre este e Joo Loureno. E o Infante? No sabemos mais d'elle, seno no V acto em que j quasi persuadido de que sua mulher infiel, encontra as provas suppostas d'essa infidelidade. Desde este momento no mais possivel o desenhar D. Joo; porque a furiosa cholera que o domina o torna necessariamente similhante a qualquer outro homem em situao analoga. A honra offendida pede sangue; um pensamento doloroso moralmente necessario situao que depois d'isso actua no drama, no a individualidade d'um homem. Onde est portanto o caracter do infante? E todavia esse caracter l tinha os seus principaes lineamentos traados nos capitulos 98.^o e 99.^o da chronica de D. Fernando pelo grande poeta-chronista Ferno Lopes. O genio aventuroso, folgazo e ousado, do filho de D. Ignez de Castro, estudados nesses traos do grande mestre, dariam facilmente a individualidade do personagem ao auctor de--_D. Maria Telles_--e por certo que essa individualidade variando a monotonia dos caracteres produziria maior contraste, e por consequencia maior effeito no terrivel desfeixo do drama. A monotonia dos caracteres dissemos ns. A monotonia na inveno na verdade o principal defeito d'esta composio. Ha ahi quatro ou cinco vingativos, quatro ou cinco vinganas empastadas por toda ella. Vinga-se o Infante de sua mulher, de quem tambem se vinga o Commendador d'Elvas, cujo amor ella desprezara. Joo Loureno quer vingar-se de D. Leonor: D. Leonor de quasi toda a gente. D'esta identidade de situaes moraes forosamente devia resultar esse capital defeito. Os dois caracteres que nos parecem individuados so o de D. Leonor e o do D. Lopo Dias. D. Leonor a mulher successivamente hypocrita e insolente: vil e orgulhosa; pobre de crenas moraes, rica de paixes violentas. a D. Leonor da historia, salvo em uma ou outra scena; o vulto principal do drama. D. Lopo mancebo, poeta e triste como sua mi, mas sobram-lhe para isso razes. O mesquinho est phtysico, pelo que se collige das suas palavras. Molestia esta que tem levado muito poeta imberbe sepultura. Feliz ainda no meio de seus males, a afflico pulmonar que o consome chronica e por isso lenta, por tal arte que esperando elle morrer j no primeiro acto, ainda no quinto, (cujos successos so posteriores mais d'um anno, aos do primeiro) D. Lopo vive, e ao car o panno fica de saude, no perfeita; mas da saude que compativel com a existencia de tuberculos pulmonares. Apesar de que a phtysica no parea coisa excessivamente dramatica e possa ter algum perigo de ridiculo no theatro, certo que essa vida cuja distancia da morte a victima pde quasi exactamente medir: esse caminhar para o sepulchro por uma estrada onde no ha de retroceder, e na qual no passa hora ou momento em que a campa seno contemple erguida e immovel no horizonte: esse oratorio peior que o do sentenciado, porque dura meses emquanto este dura apenas tres dias; tudo isso tremendo e solemne, e o verdadeiro poeta poder achar nas phases da longa e cruel agonia do phtysico situaes dolorosas e terribilissimas. Alexandre Dumas as achou num dos seus melhores dramas. Seguiu-o de longe o nosso auctor, mas nem por isso deixa este caracter de ser um dos mais bem sustentados em--_D. Maria Telles_.--Os affectos de Lopo Dias so generosos e puros: teem certa brandura de resignao, certa saudade de quem pela esperana vive j num mundo melhor, mas que ainda pela affeio filial est preso s tristezas da terra. Este personagem na verdade possivel e poetico, absolutamente falando. O seu unico defeito o commum a todos; no representar a pocha a que o poeta que o creou quis que elle pertencesse. Os outros caracteres do drama ou so nullos, ou reflexos mais ou menos pallidos dos que ficam avaliados. Os sentimentos de vingana que subjugam D. Joo Loureno da Cunha e o Commendador d'Elvas, tornam confusos os traos de um com os do outro, apesar das diligencias que o auctor fez para lhes variar as situaes; confuso esta que se augmenta com a analogia que ha entre ambos e os de D. Leonor e do Infante. Fr. Soeiro perfeitamente nullo; e Vasco, seide de D. Leonor, um caracter que no pode fixar-se por demasiadamente transitorio, posto que fortemente concebido. Se tivesse passado de um esboo seria talvez o mais dramatico de todos elles. Isabel emfim a eterna confidente do theatro classico, cuja utilidade dramatica foi, e ser sempre passiva; substituio impertinente do monologo; especie de titere que se deixa mover merc do auctor, e que por mais que fale, se esfora ou chore, por via de regra, serve tanto para o andamento da aco como as pols em que se movem os bastidores. Notmos acima que os personagens d'este drama no representam a poca a que historicamente pertencem: este depois do uniforme, e confuso dos caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas consideraes que no parecero inteiramente inuteis para os cultores principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D. Fernando e D. Joo I incontestavelmente a mais dramatica da historia portuguesa. So-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza, porque as instituies feudaes que se haviam misturado com a nossa primitiva indole social, tinham tocado ento a mta do seu predominio: quando j a sua dilatada agonia comeava no resto da Europa: o povo dava signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia rept-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se uma transformao nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo revolucionario: revolucionario no tanto para as pessoas como para as coisas; os elementos da vida social foram ento chamados a uma grande lucta, e, como acontece sempre em similhantes situaes, tanto os que deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens extraordinarios, diriamos quasi homericos, que ento surgiram--os caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situao social do pas: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella smente se podem comprehender, avaliar e explicar. Se porm essas imagens to aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo cho e luz appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficaro convertidas em desenhos de morte-cr, e o que mais , perdero os seus lineamentos caracteristicos; sero abstraces; sero quando muito objectos d'estudo para a physiologia das paixes: sero representantes do genero humano em geral, mas nunca de uma gerao, de uma poca, e d'um pas: daro materia para o drama metaphysico, para o drama como o conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no _Manfredo_; porm no para o drama historico, para o drama que se incarna na realidade, para o drama que no um poema lyrico como a _Athalia_ ou uma amplificao brilhante como _Mahomet_, mas uma obra d'arte que toma por expresso a vida humana, e que destinada para a scena. O titulo do drama historico dado s composies mais notaveis neste genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa, como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, no foi uma phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade: representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstraco: os seus personagens so vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e que se movem nos raios do sol; no pisam a terra; no choram nem folgam humanamente; no descendem como ns de Ado; no esto sugeitos seno a certas condies da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa; buscar na historia ou fra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte. Satisfeita esta condio bem pouco importava se o personagem era romano, syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas dimenses eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam sido as crenas, as condies da vida civil, os varios aspectos emfim da sociedade e da poca em que o individuo que se arrastava para o theatro tinha vivido, e que forosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo modo as paixes ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior. _Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade no era pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do passado accusam de licenciosa pe apenas mil vezes mais duras condies aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres dramaticos, exige nestes circumstancias, que s o muito estudo e um ingenho profundamente synthetico pde fazer que se liguem s obras filhas da imaginao do poeta. Se to leves de soffrer foram outr'ora as condies dramaticas quanto aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos nas frmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram no tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que o drama no mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram o corollario foroso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta, e exclusivamente esta. A arte no se estuda; porque a arte o ideal, e o ideal vem de Deus; uma inspirao: o que se estuda so as formulas materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que estes possam ser claros e definidos como meios de communicao entre o poeta e o mundo. No drama a historia a expresso da arte, a voz articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a historia da pocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir d'interprete entre elle e as geraes que ho de escutar as suas revelaes de poeta. Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_ theoria, os seus estudos no houveram sido apesar d'isso nem largos nem custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstraces; resumia-se nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os homens eminentes. Ao passo, porm, que a arte se reconstruia, reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refrmas se viram e vem obrigadas a refutar o passado com as razes e com o exemplo. Mas o poeta constrangido a encerrar-se na poca e no pas cuja historia se acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros deixaro de vergar; mas que indispensavel leve a cabo aquelle que quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque no basta sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama historico: importa redigir-lhe a formula, e esta no est em achar quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreio completa da epoca escolhida para nella se delinear a concepo dramatica. Primeiro que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro voz ele Jesus, cheia de vigor e de vida. de lamentar que os nossos mancebos, esperanas da litteratura patria, prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo alis para isso a vida presente que tambem sociedade e historia. No seria melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos da sua imaginao com os trages da actualidade? No lhes era mais facil, mais agradavel at, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes, das conversaes, do ruido, do presente, no qual os leva irresistivelmente a lanarem-se a superabundancia de vida, o fogo da mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns pobres livros historicos que por ahi existem. No: a historia no est l! No, vs no achastes a formula material para a vossa idealidade; o vosso drama a viso infernal mas ridicula de Perrault; a sombra do cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma escova. Na vossa obra no ha drama porque na sua forma externa no ha realidade, e a expresso o real. Para achar este cumpre ter o estamago e os braos robustos, os orgos do olfacto endurecidos, a paciencia de ferro, porque preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do passado; preciso aspirar o p do sepulchro, deslizar prega por prega o sudario apodrecido das geraes extinctas: preciso contemplar as formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem apalpares cancros que as devoraram: preciso contemplar seus monumentos sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e incertas sentenas da sua legislao; preciso viver com os grandes d'outr'ora em seus paos esplendidos, mas assistir tambem s miserias e agonias dos pees, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior malaventurado. Tudo isto necessario, sem contar o grande e fatal risco de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a imaginao e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocao fatal leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaos. Ento podereis livremente escolher a urdidura da vossa ta, e bord-la com os ricos matizes das vossas inspiraes. Que resulta de se escolherem para objectos de composies dramaticas successos e individuos pertencentes a uma gerao e a uma sociedade cuja indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro antigo; fazer abstraces, e desmentir a verdadeira arte. o que succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes to conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se todas as alluses aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis d'ento, e o drama pertencer epoca e ao pas que nos approuver. E porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'ento: faltam o crer, os costumes, as relaes sociaes d'essas eras. E sendo isto assim poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico, que evidentemente quis seu auctor se lhe dsse? Julgmos ser nossa obrigao dilatar-mo-nos nestas consideraes sobre duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a cr e verdade historica e local, porque preciso confessar que depois da restaurao do nosso theatro, sobre estes dois pontos que a critica litteraria attenta em demasia a averiguaes, sobre a correco de lingua, tem sido asss negligente e escaa. Resta agora examinarmos com a brevidade possivel a disposio ou enredo do drama, a propriedade do seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traa do drama a seguinte. Primeiro acto.--O Infante D. Joo est a ponto de desposar-se com D. Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel est acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se v o tumulo do seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha anim-la e consol-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D. Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara no sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica desamparado; razo tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da mi, de que toda a familia ficar junta, por que elle Lopo Dias e o Infante so os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece porta da capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem : resposta; _sou um defensor de vossa mi_. D. Lopo diz que lhe fica muito obrigado mas que ella no precisa de defensores. Insiste o desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso a mim que toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o cavalleiro no acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que est sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A to bom conselho no havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido uso. Ento o cavalleiro sai, no sem offerecer a D. Lopo o seu brao e espada para qualquer lano apertado; j se sabe sem dizer quem ou onde mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as suas mos D. Lopo no responderia mais confiado: _ um homem que vos ama, e que vigia sobre vs_. No diz isto porque o conhea: mas porque o sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertao sobre o dom d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr. Soeiro: scena inutil.--Chega ento o Infante, acompanhado do Commendador d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens que faz, nos partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao altar provavelmente para receberem a beno matrimonial de Fr. Soeiro. Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de probabilidade. Como pde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV? Como rodou a ponte levadia para lhe dar passagem? Que fazia o madrao do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas, que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como entrou esse homem? Eis o que o auctor no diz, nem lhe fra facil diz-lo. Depois, acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje conhecer quem elle ? Homem que fosse, no descansaria sem o saber, quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe v buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminao de que ha de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia fazer d'esse ferro era pr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a viseira. Sua mi vai celebrar um casamento occulto, e quasi na hora prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos adivinham ser muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda no chegou a atinar com essa circumstancia nas affeces pulmonares, e os espectadores no podero admittir a razo com que o auctor por bocca de D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhana de tal procedimento, isto , que elle j tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por isso sabe que o desconhecido pessoa de confiana. O antigo theatro s consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle. Natureza e verdade so os seus unicos elementos. Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles est em Coimbra com seu filho, e o Infante que j comea a esquecer-se de sua mulher anda na crte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os declamar. Mas como lagrimas e versos continuados so duas grandes canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo, que melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objeces: a caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem m nomeada: ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer que todos esses medos so sandices do vulgo, e que l por certos barruntos que elle tem, adivinha que o solitario pessoa de porte e de bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria est a ponto de sair eis seno quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria l o contheudo d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como glo: nem uma palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua merc o Infante que no pode ir a Coimbra, demorado na crte por negocios d'alta monta. Desesperao de D. Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. Joo, marido j de um anno, e preoccupado por graves negocios, no lhe escreve uma carta de amores, e no lhe declara que negocios so esses que lhe embargam os passos. Vr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona de trinta e seis uma inverosimilhana inadmissivel. Se todas as mulheres casadas de mais de um anno morressem por no serem as cartas de seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporo das viuvas com o resto da populao seria mais descommunal e espantosa do que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer. Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem, razo tinha D. Maria Telles, porque mencion-los sem os particularizar, era fazer nascer desejos vos insaciavel curiosidade feminina, e todavia no podiam ser materias d'estado esses negocios?--no podiam ser coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Ferno Lopes, no havia ahi motivo. Por uns longes que se enxergam em dois partes do Commendador v-se que foi elle quem armou esta negregada inveno da carta, e que folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D. Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso no teria mostrado ser na tal inveno da carta, seno um solemnissimo mentecapto, se a sua inteno era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do Infante. Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario, porque s nelle poder achar consolaes. Pois que tem o solitario (de quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. Joo? O poeta, que fra o movedor d'esta ida est prestes, e l vo ambos por montes e valles em cata do mysterioso anachoreta. No tardam muito a encontr-lo. apenas o tempo necessario para a mutao da scena, cair e levantar-se o panno; no para mudana de acto, mas de quadro. O solitario est na caverna falando a ss comsigo. De seu dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e no podendo obt-la por ser j casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irm D. Leonor, que o deixou para subir ao throno. , portanto, o eremita--Joo Loureno da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a morte e sonhar vinganas, o que no a mais approvada disposio moral para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. neste ponto que chegam Lopo Dias e sua mi. lista apenas entra, diz-lhe que vem trazer-lhe consolaes. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou na vida eremitica por desventuras e no pelo arrependimento de seus peccados? Quem lhe d a certeza de que poder consol-lo, ella que no o conhece, e que no sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe consolaes?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de casa? Que vinha pedir e no offerecer consolo. Disse uma coisa sem sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da offerta e com razo. Affirmando-se porm na recem chegada, reconhece-a, e ella reconhece-o a elle.--Explicaes mutuas. Joo Loureno refere ento como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na crte o seu casamento, e a mo da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sa na bocca da caverna responde--_Acceitou_!-- o Commendador d'Elvas que assoma involto numa capa, j se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno. Este desfeixo do acto natural e dramatico, e a melhor coisa de todo elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a conversao, e em seus pensamentos de vingana no consentiu que outrem desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o efleito dramatico vem naturalmente da situao e caracter dos personagens. Quanto s scenas anteriores parece-nos que esto abaixo de toda a critica. Acto terceiro.--D. Leonor est s debatendo-se com os remordimentos de sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos, conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel Commendador. O triplicado da punio; as pontas, os rochedos e as brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. No assim a rainha a quem os sonhos pavorosos no podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaando a rainha. Apenas esta se acha s, entra Joo Loureno da Cunha: scena violenta entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se, amaldioa e ameaa, e em que elle fala constantemente a linguagem do odio profundo. No meio da altercao sobrevem o Infante que tendo Joo Loureno por morto, cr que a sua alma em pena. Este o ameaa tambem por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A rainha nega o casamento: Joo Loureno injuria-a de novo, e o Infante arranca da espada. A ponto j de brigarem acode el-rei aos brados de D. Leonor. Joo Loureno que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem D. Fernando que chega a levar a mo espada, mas que lembrando-se de quem , manda-o como era de razo, metter na cada. Partindo, o antigo marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defender D. Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu filho_!--E cai o panno. Este acto, tem entre todos como evidente, a primazia no desalinhavado e absurdo do desenho, posto que no lhe falta merito s vezes na execuo das scenas. Primeiramente como crivel que tendo Garcia Affonso sido encarregado pela Rainha de propr ao Infante o novo casamento, e estando este na crte, o Commendador antes de dar parte a D. Leonor do desempenho da commisso, fosse a Coimbra levar a celebre carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em segundo logar, no estaria doido Joo Loureno, tendo tomado a peito defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, s para a injuriar e aos outros seus inimigos, porque no consta do drama que viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no pao, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, seno ir jazer na cada? Depois como entrou elle sem licena at o quarto de D. Leonor? a mesma inverosimilhana do primeiro acto. O pao real no seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differena dos tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando e como lhe approuvesse; e todavia sobre estes argumentos que assentam os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto pelo apparecimento de um personagem inesperado. Acto quarto.--Joo Loureno est na masmorra em que a propria imprudencia o lanou. Ahi se de e queixa de Deus, em vez de se queixar de si. No meio de suas lstimas passa uma barca pelo Tjo, e ouve-se nella uma voz que se approxima da priso. A unica priso em que podia estar Joo Loureno era a dos paos do Castello e como de l se ouvia uma voz no rio e esta se approximava da masmorra no ser facil dizer: todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que d'ahi a pouco entra no calaboio, alis, no intendemos que pudesse trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem livr-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou. Isto de carcereiros comprados como meio dramatico, coisa quasi to velha e gasta quanto o esto os confidentes classicos. O prso recusa a liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de Joo Loureno. No podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?... Oh, nem uma esperana me dais_?--e agora que o querem soltar responde com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer morrer para que estava apoquentando os cus com seus queixumes? Isto era capaz d'impacientar at o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias ponderaes do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro. Fica s o prso, porm no tarda companhia. Uma porta secreta se abre e D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido. Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio: Joo Loureno depois de ameaas mutuas tira-lhe repentinamente a chave da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode a Rainha que no lhe achar seno o cadaver. Desesperao de Joo Loureno da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor inabalavel, ergue-se furioso e quer mat-la com um punhal que traz escondido: ento que ella supplica; ento que elle se torna inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperana amortece a cholera no corao do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mos. D. Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir no que lhe deixem a vida, porque esta j ella sabe que est salva; mas que a soltem: que lhe permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: ento a cholera trasborda do peito d'essa mulher que um abysmo de maldade. Nem a demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha. Apenas se acha s a rgia hyena corre, e lana raivosa as garras s grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaador exclama: _D'aqui a uma hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por certo luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle? Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro. Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, to curto que talvez a representao d'elle no occupe quinze minutos a scena, revela-se um poeta. No mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D. Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico. Oxal poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de louvor e admirao! Com magua temos feito o contrario, porque o nosso penoso dever distribuir recta e severa justia, e corresponder confiana que em ns depositou esta assembla. Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paos do Infante. Ao correr do panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a ss. A rainha, segundo parece, sau da priso e chegou a Coimbra antes que Joo Loureno e D. Lopo. No 6 isto provavel mas possivel; porque o odio entranhavel costuma ser s vezes mais diligente que todas as affeies. A scena da priso, uma vingana falha, uma humilhao necessaria mas cruel, espertaram toda a violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente accuse sua irm~ de adultera: conhecera pelo terror de Joo Loureno que este a amava, e de bom-grado fratricida para comear pela vingana que mais deve doer a seu antigo marido. este o verdadeiro retrato de D. Leonor, mas o que falso, o que no condiz com o caracter profundamente dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor to bem pintou no fim do 4.^o acto, o injuriar gratuitamente o mesmo homem que est incitando para que seja instrumento da sua vingana. Embora ambos se conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas estivessem sem mscara; mas ainda os maiores malvados no ouzam recordar uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles seno nos extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a inverosimilhana porm da origem diminue-lhes grande parte do merito que possam ter. As affrontas da rainha so correspondidas por Garcia Affonso, que acceitando a infame commisso, e um bracellete que deve servir de prova calumnia, sai praguejando e ameaando D. Leonor, e ameaado e praguejado por ella. Esta scena evidentemente desarrazoada, ou antes impossivel. D. Leonor fica s, e num monologo resolve a morte do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso do segundo. Resolvido o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha d um signal e apparece Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o pagem que lhe diga seu nome e elle morrer: esta scena est felizmente imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem rapida e profundamente traado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o qual, diz elle, Joo Loureno perdera. Fraquissima a prova, mas acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga, arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para l furioso. Garcia Affonso fica s e tirando um frasco de veneno, declara em um monologo que envenenar o Infante logo que tenha assassinado sua mulher. Vasco entra ento, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beber com elle um trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do que passou com a rainha, e de que este pagem o executor das suas vinganas secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lana cautella veneno em uma das taas que alli esto, e quando o pagem volta enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taas bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso pe a sua sobre a mesa e pergunta ao pagem qual o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer sab-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem continua a rir e replica que elle que o est, e que esse era o segredo. Garcia Affonso despejando a taa mostra que lhe no tocara: o pagem faz o mesmo. O Commendador ento lhe diz: _Pois bem! nem um nem outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldioa-se a si e ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai da camara com a adaga na mo tinta em sangue. Os remorsos fazem que o Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto. Garcia Affonso Joo Loureno chega j tarde seguido de cavalleiros e povo: o Infante desesperado pede que o matem, e Joo Loureno quer cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem e vai cair nos braos do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece ento D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irm e de Commendador diz para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo subitamente com a espada na mo, abre uma janella e mostrando a praa atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingar tambem a morte de sua mi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se conclue o drama. Este acto incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve ser grande. Apesar das imperfeies que n'elle se pdem e com razo reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles. Restam algumas observaes sobre estylo e linguagem: assim completaremos o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar. O estylo para dizer tudo em poucas palavras o da moda: isto , a maior parte das vezes falso: comparaes frequentes, que a situao moral dos personagens que as fazem no comporta: certa poesia na dico impropria do dialogo: fartura d'essas exaggeraes com que embasbacam os parvos da plata, e que os homens de juizo no podem soffrer. s mos cheias esto por ahi derramadas as maldies, os anjos de azas brancas, os rochedos em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica, usada hoje no theatro, e que no sabemos d'onde veio, porque sendo evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os grandes dramaturgos franceses, certo que raramente acharo l essa linguagem ca e falsa, que s pde servir para disfarar a falta de affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas no precisam nem usam de taes meios, e para citarmos de casa, j que temos c o exemplo, que esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico, se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de cortia e ouropel, ha essas expresses turgidas e descommunaes que fazem arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo tudo, dizia Voltaire. No somos da sua opinio absolutamente, mas incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poder obter para seu auctor uma reputao duradoira. No faltam na historia litteraria de todas as naes exemplos d'esta exactissima observao. Quanto aos erros de lingua e construco, faceis so elles de emendar: assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura! Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como _fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por _padecer_, sendo a significao portuguesa de _soffrer_ a de _padecer com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituio escusada de preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares: tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradaes s avessas, como: _cheio de desesperao e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o limite de tempo para o concurso lhe no deixou aperfeioar e pulir, e por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do Conservatorio. Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razes. Tem soado queixas contra a frma demasiado simples com que se costumam exarar os pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos sinceramente dados tem-se tomado pela expresso do orgulho; imaginou-se uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de novo. preciso confessar que pelo que toca ao no motivado, e brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam, justa a queixa. Todas as mais so infundadas. Os factos de quatro annos ahi esto provando o contrario. Se alguma culpa se pode lanar ao Conservatorio a nimia indulgencia; j algumas das suas sentenas favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por appellao ao grande jury da opinio da platea: todavia se os auctores d'esses dramas tinham a consciencia da injustia no julgamento, para l deviam aggravar-se. Esta a nossa defenso completa contra as vs accusaes de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado. A Seco da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenas. Tanto os concorrentes como a nao teem direito de assim o exigirem. O tempo da censura inquisitorial, que muitas vezes s serve de capa incapacidade, passou. nossa obrigao restricta fundamentar as opinies que assentamos: julgadores aqui, seremos l fra ros, e o commum juiz que o publico no est adstricto a julgar por nossas palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servir de correco aos auctores, para cuja emenda inutil um parecer superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor proprio para crer que no foram elles, mas fomos ns os que errmos. Alm d'isso, a Seco da Litteratura intende que necessario ser finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido unicamente em extenso: falta a profundidade. O numero dos dramas augmenta, mas o merito d'elles o mesmo, seno menor. A principio convinha affagar todas as tentativas: hoje preciso afastar as no vocaes dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em demasia ousadas, e preciso constranger aquelles que podem e sabem produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os honrem e honrem a patria. Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Seco de Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A leitura d'esta composio revla a verdura d'annos e inexperiencia do seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi absoluta dos costumes e instituies da epoca escolhida, e ainda mais a falta de conhecimento da logica das paixes e affectos, e por isso da consistencia dos caracteres esto dizendo que o mundo e a sociedade em grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe revelaro em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes que para melhorar o seu escripto lhe no recusaro, por certo, os membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poder subir scena, no com a certeza de obter a approvao de summo juiz o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que ns sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O parecer da Seco da Litteratura portanto, que a Mesa convide o auctor do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio resolver o que fr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_. *D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna* *D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24] Por grande que deva ser a gratido que se associa s recordaes d'aquelles que nos geraram, por funda que v a saudade inseparavel da memoria paterna, no corao do bom filho ha um affecto no menos puro, e no menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus destinos no mundo so mais elevados e nobres que os d'esses tantos que nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois morrerem sem deixar vestigio. Este affecto uma especie de amor filial para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: caminha! e nos apontaram para a senda do estudo e da illustrao, caminho to povoado de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se teem assentado, no para repousarem e seguirem vante, mas para retrocederem desalentados, quando szinhos no sentem mo amiga apertar a sua e conduzi-los aps si. Tirai paternidade os exemplos de um proceder honesto, as inspiraes da dignidade humana, a severidade para com os erros dos filhos, os cuidados da sua educao, e dizei-nos o que fica? Fica um certo instincto, ficam os laos do habito, e para impedir que to frageis prises se partam, fica o preceito de cima que nos ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles no nos prenda seno a dadiva da existencia, esse to contestavel beneficio. Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com a persuao e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos supremos que ella encerra; para esses no preciso que a lei de agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razo e a consciencia estamparam-na no corao: cada gozo intellectual do poeta, do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justia do sentimento de gratido que os domina. Estas reflexes occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor d'Almeida, que actualmente se publicam e de que j dois volumes se acham nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever estas cogitaes d'um momento. Aquella mulher extraordinria, a quem s faltou outra patria, que no fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vs pretenses de superioridade excessiva do nosso sexo, que eu devi incitamento e proteco litteraria, quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confess-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasio se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da senhora marqueza de Alorna no affectava jamais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que s vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura das proprias cs por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha no sei o que de natural e affectuoso que se recebia com to bom animo como os louvores, de que no se mostrava escaa quando merecidos. Uma virtude rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, a de no alardearem escusadamente erudio, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em grau eminente. A sua conversao variada e instructiva era ao mesmo tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu to bem, no dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os melhores, mas a moderna de quasi todas as naes da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de Stael ella fazia voltar a atteno da mocidade para a arte de Alemanha, a qual veio dar nova seiva arte meridional que vegetava na imitao servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Lus XIV. Foi por isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razo, se lhe attribuiu o nome de Stael portuguesa. A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se frente da edio das suas obras: para l remetto o leitor. Ahi ver como em todas as phases da sua larga e no pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: ver que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa estimao de principes e de illustres personagens da republica das letras. Ahi ver como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos annos no foco das idas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os dias repetir essas idas por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crena da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente ver como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal, no puderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio das injustias e violencias de todo o genero. O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna contm, afra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito annos de idade com sua mi, occorrendo a priso do marquez de Alorna D. Joo. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos mais viosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de to longo captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais severidade na escolha das composies d'aquella epocha, algumas das quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento s que seno pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora, que nas obras de to verdes annos annunciava j o seu brilhante futuro nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e vivo. O resto do primeiro volume e o segundo contm as poesias da senhora marqueza posteriores sua sada do mosteiro. Na disposio d'ellas tambem no se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composies no cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e que sabem entend-las appreciam-nas devidamente. Ellas so um illustre monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da piedade filial que as trouxe luz publica, e para em tudo esta publicao ser apreciada, a sua nitidez typographica uma prova dos progressos que a arte de imprimir tem feito entre ns[25]. FIM DO TOMO ndice Advertncia Qual o estado da nossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje tem a seguir? Poesia: Imitao--Bello--Unidade Origens do theatro moderno--Theatro portugus at aos fins do seculo XVI Novellas de cavallaria portuguesas Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol Crenas populares portuguesas ou supersties populares _A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer Elogio historico de Sebastio Xavier Botelho _D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna Notas: [1] Diz Mercier em uma annotao, que segundo nossa lembrana vem no 1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a diviso de cinco actos fundada em ser preciso atiar cinco vezes as luzes do theatro em quanto dura uma recita. [2] Epist. 9--v. 43. [3] Art. poet. C. 3--v. 48. [4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos um escriptor accreditado e ainda vivo. Ns sabemos que a urbanidade o principal dever de quem impugna qualquer opinio: mas confessamos que no pudemos resistir tentao. Mr. Laurentie um defensor do absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da Carta portuguesa. uma pequena vingana litteraria que se nos deve perdoar. [5] Major mihi rerum nascitur ordo: Majus opus moveo--7, 4 4. [6] Iliad, 5.^o. [7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo. [8] Alludimos s Messenianas de Barthelemy e s de Mr. Delavigne, de que talvez as primeiras deram a ida. Das ultimas lembrmo-nos principalmente da de Waterloo. [9] Em um curso de litteratura como ns o concebemos daria materia esta idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantssimos, o da theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia moderna. [10] curioso ver as observaes de Galileo acrca da Jerusalem libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim como o ler a dissertao de Dureau Delamalle comparando as duas Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de Mr. Michaud. [11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o. [12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840. [13] Opusculos, tomo V, pag. 10. [14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.) [15] Sismondi. De la litteratura du Midi--tomo I, pg. 289. [16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instruco consultem as dissertaes de Mr. Fauriel cerca da origem da Epopeia Cavalleirosa, no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de 1832). A opinio de Mr. Fauriel, contraria de Sismondi, pe o bero da maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provena; mas antes de abraar essa opinio cumpre lr e pesar maduramente as reflexes de Sismondi, que o pe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua Historia Litteraria do Meio-dia da Europa. [17] No appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol. 4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal interrupo no a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor, certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa meditao. [18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais, permitta-se-nos a expresso, preciso crear de novo. Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um objecto realtivo civilizao e moral publicas, entra naturalmente no plano d'este jornal. [19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edio existe na bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrana, livraria do Visconde Balsemo. [20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi provm, principalmente, a extrema raridade das primeiras edies de alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que s so conhecidos nas edies mutiladas. [21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de todas--bom ser que reparem nesta observao de Schlegel acrca do gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande critico alemo no apontou o motivo principal d'este elemento dramatico: o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representao da vida, onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam inextricavelmente. No ser o gracioso elemento necessario do enredo tem por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco pde deixar de ser necessidade da aco; mas nunca de ser essencivel _frma_ da aco: no quadro dramatico o gracioso no _desenho_, _cr_; a sombra do claro do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine morreu, porque no havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e viver para sempre, porque nella as lagrymas tolhem s vezes o riso: na comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia. [22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda no chamam geralmente qualquer drama, seno _comedia_, embora elle seja tragico. Porventura isto uma _tradio de bastidores_, conservada desde o seculo XVII, em que entre ns eram to vulgares as representaes dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha. [23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da historia, no dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das naes_, deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas constituies d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das representaes nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o povo julgava ento ou licitas ou piedosas. Deffendemos, diz a constituio 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e seculares, de qualquer estado e condio que sejam, que no _comam nas egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em ellas, nem em seus adros: nem os leigos faam ajuntamentos dentro dellas sobre cousas profanas; nem se faam nas ditas igrejas, ou adros dellas, jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa; nem _representaes, ainda que sejam da paixo de nosso Senhor J. C., ou da sita resurreio ou nascena; de dia, nem de noite_, sem nossa especial licena; porque _dos taes autos_ se seguem muitos inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos coraes d'aquelles que no esto muito firmes na nossa sancta f catholica, _vendo as desordens e excessos que nisto se fazem_. D'esta passagem se pde concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo sexto seculo, sendo, alm d'isso, provavel, que semelhante usana remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito, ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corra de Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se v de uma sua ordenana que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituio; mas que por brevidade no apontaremos aqui. [24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839. [25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao titulo as palavras _Panorama_--1844. End of the Project Gutenberg EBook of Opsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX, by Alexandre Herculano License: Share Alike