Produced by Joo Miguel Neves, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) GUERRA JUNQUEIRO *Os Simples* PORTO TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL MDCCCXCII OS SIMPLES IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO: 1 exemplar em papel pergaminho 16 exemplares em papel Wathman Todos estes exemplares so assignados e numerados pelo auctor. GUERRA JUNQUEIRO *Os Simples* PORTO TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL MDCCCXCII A F. _Querida: este por emquanto o meu melhor livro. Pertence-te. teu J._ *PRELUDIO* I A CAMINHO (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos, olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manh_.) Um Lavrador (_de noventa anos, em mangas de camsa a lavrar uma terra_) Senhor to novo, d'olhos cr de esp'rana, Ides de caminho para algum logar? O Peregrino Vou dar volta ao mundo... O Lavrador Sem arnez ou lana?! Senhor to novo, d'olhos cr de esp'rana, Penas e miserias o que ireis achar!... Uma Velhinha (_mais adiante_) Senhor to novo, d'olhos inocentes, Ides com cuidados para um tal andar!... O Peregrino Vou a prender monstros, combater serpentes... A Velhinha Senhor to novo, d'olhos inocentes, Os drages ferozes vam-no espostejar!... Uma Joven Camponeza (_mais adiante_) Senhor to novo, d'olhos encantados, Ides pela fresca para algum pomar? O Peregrino Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados... A Camponeza Senhor to novo, d'olhos encantados, Feiticeiros negros vam-no enfeitiar!... Uma Pastorinha (_mais adiante_) Senhor to novo, d'olhos to brilhantes, Vossos olhos disem que ides p'ra casar... O Peregrino Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes... A Pastorinha Senhor to novo, d'olhos to brilhantes, Ha ladres nos bosques, vam-no assassinar!... Um Mendigo (_mais adiante_) Senhor to novo, d'olhos cr de chama, Vossos olhos ardem como a luz solar!... O Peregrino Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!... O Mendigo Senhor to novo, d'olhos cr de chama, Sobe o p mais alto que os troves do mar!... A Estrella D'Alva creana, d'olhos cr da flor dos linhos, Por infernos deixas tua paz, teu lar!... O Peregrino (_desaparecendo ao longe_) Florirei as pedras pelos maus caminhos! Levo a luz dos astros e as canes dos ninhos A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!... II DE VOLTA (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordo_.) Um Lavrador (_de cem anos, ainda robusto, porta do casebre_) Mendigo d'olhos sem esp'rana, Vaes-te perder na escurido... Entra em meu lar; dorme, descana... O Pobresinho (_andando sempre_) Quem dera a paz divina e mansa, Velho, que tens no corao!... Uma Velhinha (_a resar porta do moinho_) Mendigo d'olhos sem ventura, Dentro da azenha ha um enxergo; Ters lenoes, ters fartura... O Pobresinho (_andando sempre_) Eu s quizera essa candura, Irm da Graa e da Iluso!... Uma Camponeza (_que vem da vindima_) Mendigo d'olhos d'engeitado, Na nossa casa ha vinho e po; E ha leite fresco; e ha mel doirado... O Pobresinho (_andando sempre_) Tua alegria sem cuidado, Eis o que eu busco... em vo! em vo!... Uma Pastorinha Mendigo d'olhos de coveiro, Trago a merenda no surro; O queijo bom, mas grosseiro... O Pobresinho (_andando sempre_) D-me o teu riso feiticeiro, Lirio do monte inda em boto! Um Pedinte Mendigo d'olhos na agonia, Dou-te o meu manto e o meu bordo; Nada mais levo... a noite fria... O Pobrezinho (_andando sempre_) Apenas ai! desejaria Tua crist resignao!... A Estrella Vesper sonhador louco d'outrora, Teus sonhos lindos onde esto?! Ebrio da luz, rico d'aurora, Vi-te partir... e vejo agora Um morto erguido d'um caixo! Teus olhos fulvos namorei-os De dia e noite, da amplido: Vi-os sorrir entre gorgeios, Vi-os cantar e vi-os cheios De pranto e febre e indignao! Regressa emfim, teu destino, paz obscura, submisso... E outra vez meigo e pequenino Deixa dormir, como um menino, Teu velho e exhausto corao!... O Pobresinho (_chorando_) S tu, estrella, me conheces Em minha dor, minha aflio!... S tu no dormes, no esqueces... S tu ouviste as minhas preces... Bemdito, estrella, o teu claro! Setembro--91. I *A MOLEIRINHA* A MOLEIRINHA Pela estrada plana, toc, toc, toc, Guia o jumentinho uma velhinha errante. Como vo ligeiros, ambos a reboque, Antes que anoitea, toc, toc, toc, A velhinha atraz, o jumentito adiante!... Toc, toc, a velha vae para o moinho, Tem oitenta anos, bem bonito rol!... E comtudo alegre como um passarinho, Toc, toc, e fresca como o branco linho, De manh nas relvas a crar ao sol. Vae sem cabeada, em liberdade franca, O gerico russo d'uma linda cr; Nunca foi ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca Com o galho verde d'uma giesta em flor. Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, Toc, toc, toc, que recordao! Minha av ceguinha se me representa... Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta, Quem me fez o bero fez-lhe o seu caixo!... Toc, toc, toc, lindo burriquito, Para as minhas filhas quem m'o dera a mim! Nada mais gracioso, nada mais bonito! Quando a Virgem pura foi para o Egipto, Com certeza ia n'um burrico assim. Toc, toc, tarde, moleirinha santa! Nascem as estrellas, vivas, em cardume... Toc, toc, toc, e quando o galo canta, Logo a moleirinha, toc, se levanta, P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume... Toc, toc, toc, como se espaneja, Lindo o jumentinho pela estrada chan! To ingenuo e humilde, d-me, salvo seja, D-me at vontade de o levar egreja, Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan! Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga, Toda, toda branca, vae n'uma frescata... Foi enfarinhada, sorridente amiga, Pela m da azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros com luar de prata!... Toc, toc, como o burriquito avana! Que prazer d'outrora para os olhos meus! Minha av contou-me quando fui creana, Que era assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou nas palhas o menino Deos... Toc, toc, noite... ouvem-se ao longe os sinos, Moleirinha branca, branca de luar!... Toc, toc, e os astros abrem diamantinos, Como estremunhados cherubins divinos, Os olhitos meigos para a ver passar... Toc, toc, e vendo sideral tesoiro, Entre os milhes d'astros o luar sem veo, O burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem ser que moe estas farinhas d'oiro Com a m de jaspe que anda alem no ceo!... Novembro de 1888. II *CADAVER* I PRESTITO FUNEBRE Que alegrias virgens, campezinas, fremem N'este imaculado, limpido arrebol! Como os galos cantam!... como as noras gemem!... Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem, Refulgente e novo passarinha o sol!... Pela estrada, que entre cerejaes ondea, Uma pequerrucha,--tro-la-r-la-r!-- Vae cantando e guiando o carro para a aldeia... So os bois enormes, e a carrada cheia Com um castanheiro apodrecido j. Oh, que donairosa, linda boieirinha! Grandes olhos garos, sorrisinho arisco... D'aguilhada em punho lepida caminha, Com a graa aerea d'ave ribeirinha, Verdilho, arveola, toutinegra ou pisco. Loira, mas do loiro fulvo das abelhas; Fresca como os cravos pelo amanhecer; Brincos de cerejas presos nas orelhas, Na boquita rosea tres canes vermelhas, Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder! Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo, Nada mais esvelto, mais encantador! Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo... O chapeu palha que inda ha um mez deu trigo, A sata linho inda ha bem pouco em flor!... E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos, Na aleluia imensa, triunfal, da aurora, Vo como bondosos monstros enigmaticos, Almas por ventura d'ermites extaticos Ruminando biblias pelos campos fora!... Ao arado e ao carro presos noite e dia, Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'ro! E, submissos, uma pequerrucha os guia! E nos sulcos que abrem canta a cotovia, As boninas riem-se e amadura o po!... Levam as serenas frontes magestosas Enramalhetadas como dois altares: Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas, Abelhes ardentes desflorando rosas, Borboletas claras em noivado, aos pares... E eis no carro morto o castanheiro, emquanto Melros assobiam nos trigaes alem... Heras amortalham-no em seu verde manto... Deu-lhe a terra o leite, d-lhe a aurora o pranto... Que feliz cadaver, que at cheira bem!... Musgos, lichens, fetos,--chimica incessante!-- Fazem montes d'almas d'essa podrido... J n'esse esqueleto seco de gigante, Sob a luz vermelha, n'um festim radiante, Mil milhes de vidas polulando esto!... Sempre fortaleza casa-se a doura: Como o leo da Biblia morto n'um vergel, Do seu tronco ainda na caverna escura Um enxame d'oiro rutilo murmura, Construindo um favo candido de mel!... Oh, os bois enormes, mansos como arminhos, Meditando estranhas, incubas vises!... Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos, E por sobre os longos, torridos caminhos Dos seus olhos caem benos e perdes... Choraro o velho castanheiro ingente, Sob o qual dormiram sestas estivaes? Almas do arvoredo, o seu olhar plangente Saber acaso misteriosamente Traduzir as lingoas em que vs fallaes?!... Castanheiro morto! que da vida estranha Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu, E criou raizes, e se fez tamanha, Que tresentos anos sobre uma montanha Seus tresentos braos de colosso ergueu?!... Onde a alma, origem d'essas formas bellas? Em to varias formas que sonhou dizer? Qual a ideia, alma, convertida n'ellas? E desfeito o encanto, que nos no revelas, Que aparencias novas tomar teu ser?... Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso, Boieirinha linda, linda d'encantar, d'essa inocencia, d'esse paraiso, Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso, Da candura d'alva que ha no teu olhar!... Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha, Quem me dera a vossa mansido christ! Arrotear os campos, fecundar a vinha, E nos olhos garos d'uma boieirinha, Ter duas estrellas virgens da manh!... E tambem quizera, mortos castanheiros, Como vs erguer-me para o sol a flux, Dar tresentos anos sombra aos pegureiros, E n'um lar de choa, em festivaes braseiros, A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!... 1889. II IN PULVIS... Oh, que noite negra, que invernia brava! Nem uma estrellinha pelo ceo reluz! Chora o vento ao longe com a voz to cava, Como quando dizem que de dor chorava Toda a santa noite em que expirou Jesus!... Vem sanguinolentos gritos muribundos Das soturnidades torvas do horisonte!... J nos ermos andam lobos vagabundos... J os rios cheios, com bramidos fundos, N'um diluvio d'agoa vo de mar a monte!... Em casal de serras arde o castanheiro, Lampada de pobres a fazer sero; De redor do grande, festival braseiro, A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro, A mulher, os filhos, o bichano e o co. Queima-se o gigante, rude centenario, Que jamais os astros ho-de ver florir... E do seu cadaver o esplendor mortuario Faz d'essa choupana quasi que um sacrario Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!... Tem o velho ao colo o seu netinho doente; --Morte negra, foge do telhado, , ...-- E no lar as brasas simultaneamente Dizem para o anjo:--tudo oiro ardente... Dizem para o velho:--tudo cinza e p!... Quantas vezes, quantas! por manhs radiantes Em pequeno, alegre como um colibri, No trepara aos braos todos verdejantes D'esse castanheiro, que n'alguns instantes Ha-de ver em cinzas j desfeito ali!... Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno! Quantas noites, quantas! elle ali dormia Pelo mez das ceifas, quando o luar morno, E das restolhadas, quentes como um forno, Se evolavam cheiros d'arre bravia!... Como no sentir um entranhado afecto, Como no amal-o com venerao, Se lhe dera a trave que sustenta o tecto, Se lhe dera o bero onde repoisa o neto, Se lhe dera a tulha onde arrecada o po! Fez com elle o jugo e fez com elle o arado; Fez com elle as portas contra os vendavaes; E com elle feito o velho leito amado, Onde se deitara para o seu noivado, E onde j morreram seus avs, seus paes! E o bom velho embala o seu netinho doente... --Morte negra, foge... dorme, dorme... , ...-- E, fitando as chamas simultaneamente, Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente, Lagrimeja o velho, vendo cinza e p!... A velhinha resa, resa afervorada... To velhinha e branca, branca de jasmins, Que a idealiso e creio d'esplendor banhada, Entre palmas verdes at Deos levada N'um andor de rosas pelos serafins... Resa pelos mortos... resa virgem pura... Desde a sua infancia to ditosa e bella, J d'essa choupana (como a noite escura!) Quantos tem partido para a sepultura, Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!... Dentro d'alma d'ella, triste campo santo, Muitas almas vivem mortas a sonhar!... Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto... Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto, Nos seus labios roxos fosforece o luar... E essas almas fluidas que ella traz comsigo, --Talisman da crena, magico poder!-- Frias como a neve vem do seu jasigo, Vem sentar-se todas no logar antigo, A chorar roda do braseiro a arder!... Ai dos pobres mortos que no tem fogueiras, Nem velhinhas santas que lhe deem luz! Sob leivas, onde ninguem pe roseiras, Umas sobre as outras juntam-se as caveiras, Dando sangue aos vermes, podrides Cruz... D'esses desgraados, mortos no abandono, Onde esto as almas? P'ra que Deos as fez? Quando o vento uivando lhes perturba o somno Pela treva errantes, como ces sem dono, Andaro perdidas a ulular talvez!... Pois at por essas que ninguem conforta A velhinha chama... e todas ellas vem... --Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!) Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta, A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!-- E a dos olhos garos pastorinha bella Fia no seu fuso linho por corar; trigueiro o linho, trigueirinha ella... Rodopia o fuso... quando for donzella, J ter camisas para se ir casar!... E esse fuso alegre onde se enrosca o linho J foi ramo verde n'esse tronco em brasas: Deu j cachos brancos como o branco arminho, J sobre elle a ave construiu seu ninho, J sobre elle amando palpitaram azas!... Fuso como giras em dedinhos breves Prasenteiramente, com to louco ardor! Que estars fiando?... que enxovaes?... que neves? Se sero camisas, ou mortalhas leves, Cama para bodas, ou lenoes de dor!... No vetusto escano o lavrador sombrio Pensa na courela... Santo Deos, Jesus! Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio, Como que hade o gado pelo ardor do estio Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!... Choram ventanias!... panica tristeza!... Sentem-se na loja bois a ruminar... Queixas insondaveis vem da naturesa!... Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa, Contemplando a Noite sem poder fallar!... Ronronando ao lume, dorme o co e o gato. Almas misteriosas, em que sonharo?... Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto, De ter sido tigre lembra-se inda o gato?... De ter sido hiena lembra-se inda o co?... Eis as brasas mortas... Eil-o j converso O castanheiro em cinza, em fumo vo, em luz... Luz e fumo e cinza tudo ir disperso Reviver na vida eterna do universo, Circulo de enigmas, que ninguem traduz... Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama Vivero, morrendo a toda a hora... sempre!... Nuvem que troveja, calix que enbalsama, Planta, pedra, insecto, humanidade, lama, Sero tudo, tudo!... inconcebivel!... Sempre! Mas a alma, as almas quem as ha criado? Qual a origem d'onde a sua essencia emana?... Ah, em vo levanto o triste olhar magoado Para os olhos d'ouro que do azul sagrado Lanam as estrellas miseria humana!... Oh em vo!... que os astros, onde em sonho habito, So tambem fogueiras sobrenaturaes, Que na pavorosa noite do Infinito Crepitando espalham seu claro bemdito, Suas alvoradas roseas, virginaes, Para em torno d'ellas se aquecerem mundos A tremer com frio, a soluar com dor, Miseraveis monstros cegos, vagabundos, Atravez d'eternos turbilhes profundos, N'um virtiginoso, angustioso horror!... E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros, No Infinito imenso ou n'um tugurio assim, Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros, Atomos errantes, sonhos vos, argueiros Na inconsciencia calma da amplido sem fim!... E o mundo e os mundos a girar na altura Como vs, velhos, morrero tambem... Blocos de materia fria, sem verdura, Erraro na vaga imensidade escura, Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!... Dormiro? oh, nunca!... vo eternamente Circular na eterna vida universal: Nebulosa fluida, lavareda ardente, Lodo, o mesmo lodo, como antigamente, Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!... Formas da materia, que eu em vo desnudo, Que invisiveis foras, e almas encobris? Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo... Mas o enigma impresso no seu labio mudo S na treva aos mortos que a morte o diz!... S a Morte o sabe... mais a F que abrasa, Que penetra as coisas com o seu olhar! No ha f na alma, no ha luz na casa... A raso um verme, mas a crena aza... Verme! aos infinitos poders chegar!... velhinha santa, minha boa amiga, Resa o teu rosario, move os labios teus!... A orao ingenua? Vem de crena antiga? No importa! resa, minha boa amiga, Que oraes so lingoas de falar com Deos!... Ha pedintes cegos de inspiradas frontes, Com estrellas n'alma, com vises mentaes, Que atravessam rios, que vo dar com fontes, Que andam por agrestes, solitarios montes, Sem errar a estrada, sem cahir jamais!... Pelos bosques ermos, onde venta e neva, Com os seus farrapos mais o seu bordo, Marcham por milagre na continua treva... Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva? Que prodigio oculto? que invisivel mo? Pois, velhinha branca, tua crena pura, Tua resa antiga, que me faz chorar, egual aos cegos, que na noite escura No precisam d'astros para ver a altura, No precisam d'olhos para ter olhar! No Infinito mudo tua ingenua crena, Tremula ceguinha de risonho alvor, Eil-a andando, andando, como que suspensa, Pelos descampados d'uma noite imensa, Vastides d'assombros, amplides d'horror!... E onde a aguia, o genio de pupila ovante, Tem vertigens, auras, desfalece e cae, A ceguinha debil, vagabunda, errante, D'olhos s escuras. Infinito adiante, N'um enlevo aereo perpassando vae!... Branca e pequenina, ligeirinha e leve, Corta por abismos, plagas sem faroes, Stepes infindaveis que ninguem descreve, Lugubres desertos de mudez e neve, Bategas de brasas, turbilhes de soes!... Vae andando, andando, t que emfim cercada D'uma aleluia mystica de luz, Com o bordosinho que a amparou na estrada Bate s portas d'oiro da feliz morada, Presbiterio d'Almas, onde est Jesus!... Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa Pe-se de joelhos, em adorao... Diz-lhe o anjo:--Toma, guarda esta lembrana: Uma palma d'astros, a luzir Esp'rana, Que velhinha humilde levars na mo! E, ave pressurosa recolhendo ao ninho, J com alimento para os filhos seus, Eil-a que regressa por egual caminho, E vem dar-te, santa, cr de jaspe e arminho, To amada ofrenda que te envia Deos!... Resa esse rosario, santa lagrimosa! Sobre os teus joelhos deixa-me deitar! Triste da minh'alma!... v, que desditosa!... Unge-m'a de benos, mo religiosa!... Cobre-m'a de graas, cristalino olhar!... Resa-lhe baixinho, minha boa amiga! Resa-lhe rosarios de oraes ideaes! Morta de miseria, morta de fadiga, Deixa que ella durma na pureza antiga... Que ella durma... sonhe... e no acorde mais!... 89. III *EIRAS AO LUAR* EIRAS AO LUAR Alvor da lua nas eiras, Nem linhos de fiandeiras, Nem veos de noivas ou freiras, Nem rendas d'ondas do mar!... Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras, Na aleluia argentea do claro do luar!... Bailae sob as lagrimosas Estrellinhas misteriosas, Scintilaes, nebulosas, Fremitos vagos d'empyreos!... Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue s rosas, Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!... Ai, medas de prata e oiro, De lua branca e po loiro, Malhadas no malhadoiro, A enfeitiar e a fulgir!... Oh, bailae volta d'esse bom tesoiro, Que a codea negra que ceaes a rir!... Quem nas ladeiras e prados, Com as lanas dos arados, Abriu sulcos e valados Na terra gelida e nua? Oh, bailae volta desses bois deitados, Que esto d'olhos tristes adorando a lua!... Que bandos de passarinhos, Vem l de campos maninhos, De fraguedos, de caminhos, Jantar aqui, merendar!... Oh, bailae em volta de milhes de ninhos! Oh, bailae cantando para os acordar!... Entre as palhas do centeio, Quantas esmolas no meio, Que deixam lirios no seio E as mos escorrendo luz!... Oh, bailae em volta do celeiro cheio! Oh, bailae volta dos mendigos nus!... Quanta hostia consagrada, --Po da ultima jornada!-- Dorme na meda encantada Ao luar to leve e to lindo!... Oh, bailae em volta d'essa m doirada, Que bailaes volta de Jesus dormindo!... Alvor da lua nas eiras, Nem linhos de fiandeiras, Nem veos de noivas ou freiras, Nem rendas d'ondas do mar!... Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras, Na aleluia argentea do claro do luar!... Setembro--91. IV *AS ERMIDAS* AS ERMIDAS Alvas ermidinhas sob azues maguados, Vejo-vos de longe n'uma adorao, Como ninhos brancos de Ideal pousados L n'esses fragosos montes escalvados, Onde no ha agoa, nem germina o po. Serranias ermas, solides contritas... Azinheiras como velhos Briarcus.... Pedras calcinadas... gados parasitas... Tristes montes ermos! ermos cenobitas, Que em burel d'estevas amortalha Deos!... Pelas torvas, fundas noites de invernada, Quando os lobos uivam, quando a neve cae, Que infinitos sustos n'uma tal morada, Para debil virgem to desamparada Com um inocente nos seus braos... ai! Como que no treme pelo seu menino? Como que no chora seu piedoso olhar? Como que o seu labio, fresco e matutino, Se abre n'um sorriso, precursor divino Da estrellinha d'alva quando vae raiar?! No receia feras quem de rosto ledo Sofre sete espadas sobre o corao!... E ao filhinho a noite no lhe causa medo, Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo, Como um fructo d'oiro tem-no ali na mo!... L nos altos montes sem trigaes, nem vinhas, Sem o bafo impuro que dos homens vem, que a me de Christo com as andorinhas, E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas, N'um casebre terreo se acomoda bem. Bispos no precisa; servem-na pastores, Capeles d'ovelhas, mais o seu zagal... Lampada s Trindades, cho varrido, flores, Nada falta Virgem, me dos pecadores, N'uma egrejasinha que como um pombal. E nas brutas, rudes solides to calmas Ai, muito se engana quem a julga s! Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas, Para l caminham romarias d'almas... Todos ns l fomos com a nossa av!... Oh, as invisiveis procisses piedosas, Romarias fluidas, sobrenaturaes! Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas, Fica nos espaos um alvor de rosas E uma angelisante tremulina d'ais!... Almas de velhinhas, do palor silente D'uma estrella, quando desmaiando est... Vo buscar alivios p'ro netinho doente, Vo pedir noticias d'algum filho ausente, Vo rogar a Gloria para os mortos j... Almas de meninos, loiras como abelhas, A sorrir ao colo d'almas a cantar... Almas em noivados, roseas e vermelhas... E almas de pastores ofertando ovelhas, Chocalhinhos d'astros, velos de luar... Almas d'assassinos dos montados ermos, Com o seu remorso como um javali... Almas de mendigos, d'aleijes, d'enfermos... Almas vagabundas, de perdidos termos, Que atravessam agoas p'ra chegar ali!... Almas das corolas matinaes, dos ninhos, Das aradas verdes, da campina em flor... Almas de borregos, touros, passarinhos... E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos, Porque at nas fragas dorme o Sonho e a Dor!... E essas almas todas ella apasigua Com o dos seus olhos balsamo eficaz: Verte sobre as penas sugestes de lua, Mantos d d'estrellas miseria nua, Lagrimas aos crimes e ao remorso paz... Esconjura demos, bruxas, feiticeiras, E dos sonhos loucos o torpor febril... D verdura aos gados, chuva s sementeiras, Faz bailar as moas ao luar nas eiras, Faz fugir os lobos vendo o seu candil. Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas! Que romagem d'oiro no acodem j! Almas moribundas... Noites de procellas... Olha nos casebres tremeluzem velas!... signal que a Morte anda a rondar por l!... Mas a sempre linda Virgem da Amargura Baixa do altarzinho toda afadigada, E atravez de serras, pela noite escura, De menino ao colo,--santa creatura!-- L vae ella andando, no tem medo a nada!... L vae ella andando... no caminho estreito Deixa um rasto d'oiro pela escurido... Deixa um rasto d'oiro de divino efeito, Porque as sete espadas, a fulgir no peito, Pem-lhe um setestrello sobre o corao... E de povo em povo, que de serra em serra, Almas na agonia visitando vae; Quando chega, a Morte j as no aterra, Ella lhes d azas p'ra voar da terra, Seu menino beijos p'ra levar ao Pae... Virgem das Angustias, Virgem da Bonana, Quantas noites, quantas! tremula de dor, No vae ser parteira da ovelhinha mansa A parir, balando como uma creana, Entre fragaredos de meter horror! A deshoras mortas eil-a vigilante, Prompta a dar socorros ao menor queixume: Acender estrellas para o navegante, Ir levar s mes o cordeirinho errante, Defender das cobras a ninhada implume... Pois como no ha-de consolar as dores Dos humildes, simples, engeitados, nus, Se inda se recorda de s ver pastores, Com cordeiros brancos, cantilenas, flores, Na sagrada noite em que pariu Jesus!... Sim! adora a rude gente da lavoira, Sementeiras, gados, matagaes, lebreus, Porque no se esquece da vaquinha loira, Que se poz de joelhos ante a mangedoira, Quando nas palhinhas dormitava Deos... E por isso arreda pestes, ventanias, Fomes e procellas, bruxas e trovo, L para malditas, negras penedias, Onde silvam cobras doudas e bravias, E onde no existe nem christo, nem po!... E por isso ex-votos, que relembram dores, Cobrem de ternura todo o seu altar: Bustos de meninos, mos de cavadores, Tranas de donzellas, soluando amores... Coraes e peitos, de fazer chorar!... Alvas capelinhas, sempre milagrosas, Sois n'essas alturas para os olhos meus, Como ninhos virgens d'oraes piedosas, Miradoiros brancos de luar e rosas, D'onde as almas simples entreveem Deos!... 90-91. V *CANO PERDIDA* CANO PERDIDA Halitos de lilaz, de violeta e d'opala, Roxas maceraes de dor e d'agonia, O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala... Triste, canta uma voz na sincope do dia: Alguem de mim se no lembra Nas terras d'alem do mar... Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!... Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!... Com o beijo do sol na face cadaverica, Beijo que a morte esvae em palidez algente, Eis a lua a boiar sonambula e chimerica... Doce, canta uma voz melancolicamente: O meu amor escondi-o N'uma cova ao p do mar... Morre o amor, vive a saudade... Morre o sol, olha o luar!... Morre o amor, vive a saudade... Morre o sol, olha o luar!... Latescente a neblina opalica flutua, Diluindo, evaporando os montes de granito Em colossos de sonho, extasiados de lua... Flebil, chora uma voz no letargo infinito: Quem d ais rouxinol, L para as bandas do mar?... o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!... o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!... A lua enorme, a lua argentea, a lua calma, Imponderalisou a natureza inteira, Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma... Triste expira uma voz na cano derradeira: meu amor, dorme, dorme Na areia fina do mar, Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!... Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!... Maio--91. VI *O PASTOR* O PASTOR Sinos a defuntos! ai, quem morreria! Olha, foi o pobre do Ti Z-Senhor!... Velho to velhinho nenhum outro havia... P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia, Ha noventa e quatro que era j pastor. Zagalzinho alegre, desde tenra infancia J de surrosito cheio a tiracol, A escalar montanhas com ardor, com ancia, Por pastagens bravas d'auroral fragancia, Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!... A deserta, imensa, rustica paisagem, Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar, Tudo se invertera, por continua imagem, Em heroica, em livre candidez selvagem Na extasiada flor do seu ingenuo olhar. Ordenhado o leite, cantarinho cheio, Ala para a aldeia, por manhs sonoras, Mordiscando a codea do seu po centeio, Arrancando frauta um pastoril gorgeio, Rapinando s sebes chupa-meis e amoras. Fez-se moo e grande pelas serras brutas, Onde as aguias pairam, onde o roble medra, E onde os fragaredos barbaros, com grutas, Se encastelam crespos, infernaes, em lutas, Tal como tormentas de troves de pedra! Cada serrania alcantilada e brava, Sob o azul d'Agosto, cr de fogo e p, Recozida a febre e atordoada em lava, Lagrimeja apenas d'uma rocha cava Pranto, que o bebera uma ovelhinha s! E por essas fulvas, ingremes ladeiras Pastoreava o gado, quasi morto j: S rochedos tristes, nus como caveiras, E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras, Acres como pragas d'uma boca m! E depois as torvas, negras invernadas, Noites formidandas, lobos a ulular, Desmoronamentos, temporaes, nevadas, Carcaves abertos pelas enxurradas, Troncos de sobreiros de raiz ao ar!... Oh, as noites tristes, alapado e quedo, N'um covil de feras, ou algar deserto!... E dormia ao lume sem temor, sem medo, Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo, Na ermidinha branca lhe ficava perto... Mas no mez de Maro pincaros maninhos, Montes cenobitas, d'ossos e burel, Vestem-se de trevos e de rosmaninhos, Com sorrisos d'oiro que alvoroam ninhos, E distilam favos de inocencia e mel!... Era ento alegre como o sol nascente, Mais feliz nos campos do que Deos no altar! Anhos e cabritos, leite rescendente, Pastos to mimosos, que quizera a gente Transformar-se em ave para os no calcar! Tanto Abril florido, tanta calma adusta, Tantas inverneiras, sem pesar ou dor, Tinham-lhe gravado na expresso robusta Como que uma sombra de grandeza augusta, Junta a uma inocencia matinal de flor. Que importavam gelos, ventanias, feras? Peito nu, aberto; construo de touro! Quasi me admirava que nas primaveras D'esse peito rude no brotassem heras, Margaridas, lirios com abelhas d'ouro! Ao relento a cama no orvalhado pasto, Cerca dos carneiros e dos bons lebreus; Que divino leito primitivo e casto, Todo embalsamado de serpol, mentrasto, Sob a paz imensa do perdo de Deos!... E esse gigantesco latago corado Era, como os santos ermites, frugal: Duas azeitonas, queijo do seu gado, E de rala escura meio po migado N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal. No jantava morte, assassinato, dores, Hecatombes tristes que jantamos ns; E por isso ria como riem flores, Atrahindo em bandos aves de mil cores, Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!... Sua rude frauta de pastor ouvindo Na misteriosa luz crepuscular, Iam-se as estrellas uma a uma abrindo, E desabrochava pelo azul infindo Soluante a lua como um nenufar!... Que trinados vivos, d'argentino encanto Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu, N'essa frauta, quando de cajado e manto Ia deitar loas ao menino santo No altar-mr da egreja sorridente e nu! Fra l creana, magica ventura! Centenario quasi a derradeira vez... E gorgeava a frauta com egual candura, Pois a alma virgem, luminosa e pura, Conservara-a sempre como Deos a fez. N'ella penetrava, n'ella se embebia Tudo que inocencia, riso, amor, claro: Fremito de pomba, voz de cotovia, Canticos dos montes ao nascer do dia, Lagrimas dos astros pela escurido!... Longe dos Pecados de raivosas presas, Belzebuths famintos d'olhos de metal, Longe das horriveis tentaes acezas No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas, Pululantes larvas, vibries do Mal, O pastor ditoso envelheceu ridente Por despenhadeiros, alcantis, calvarios, E na fronte augusta de ermito, de crente, Lhe geavam anos luminosamente, Como as pombas brancas sobre os campanarios! Das ovelhas meigas,--intimas heranas!-- Recolhera toda a abnegao christ: Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas, Que com vosso leite sustentaes creanas, E vestis os pobres com a vossa l! Aos noventa anos, festival, risonho, Alamo gigante d'agoa viva ao p; Sim! inda na boca risos de medronho, E nos olhos lentos, a tremer em sonho, Dois miosotis virgens de candura e f! Com seu manto branco de burel grosseiro, Cans de puro arminho, baculo na mo, Alembrava um santo feito pegureiro, Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro D'uma ogiva d'astros, em adorao! Centenario quasi, recordava aspectos De lendario tronco n'um feliz vergel, Moribundo em meio de seus verdes netos, Com a Providencia a agasalhal-o em fetos, Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel, E que surdo voz dos ledos passarinhos, E que cego ao ether de esplendor ideal, Com o ai extremo lana dois raminhos, A chamar ainda por canes de ninhos E a dizer aos astros um adeos final! Tal o pastor santo, j de vez cahido, J corcovadinho, flebil, quasi morto, Arrimado ao velho baculo torcido, Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido, Vagamente olhando com o olhar absorto, Ia pelos montes na tristeza infinda D'um corao ermo, com a morte aceite, A pedir aos anjos para ouvir ainda Badalar ovelhas n'uma noite linda, Quando a lua os campos alagasse em leite!... Seu bisav fora guardador de gado, Guardador de gado seu av, seu pae; Creou filho e netos como foi creado, E morreu ditoso porque o seu cajado Seu rebanho ainda pastoreando vae! Candido, na paz das solides dormentes, Ignorando o mundo rancoroso e vil Aos cem anos inda, com a f dos crentes, Punha olhos claros, simples, inocentes, Na estrellinha d'alva das manhs d'Abril! Levar no esquife para os ceos a palma Da grandeza mansa, da virtude austera. Realisou no mundo a perfeio da Alma: Porque foi bondoso como a lua calma, Porque foi um santo sem saber que o era!... Vs, semideuses do entremez da Gloria, Cesares, tiranos, capites, heroes, Epicas figuras de imortal memoria, Que de serro em serro iluminaes a historia Como crepitantes, tragicos faroes, Na regio do Imenso, no Infinito puro, Onde me deslumbra, como um sol, Jesus, No sois mais que larvas a tremer no escuro, Que ninguem conhece, que eu em vo procuro Com meus olhos calmos n'esse mar de luz! E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio, Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas, To asselvajado, cabeludo e feio, Que dissereis quasi que esse monstro veio Da matriz da terra, como as pedras brutas, J liberto agora da Iluso do mundo Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor: Milhes d'astros seguem seu olhar jocundo, So rebanhos d'almas pelo azul profundo As ovelhas novas do Ti Z-Senhor!... 90-91. VII *O CAVADOR* O CAVADOR Dezembro, noite, canta o galo... Rouco na treva canta o galo... --Oh, dor! oh, dor!-- Aldeo no durmas!... Vae chamal-o, Miseria negra, vae chamal-o!... --Oh, dor! oh, dor!-- Bate-lhe porta, teu vassalo, Que traga a enxada, teu vassalo, Miseria negra, o cavador! O vento ulula... Tremem ninhos... Na noite aziaga tremem ninhos... --Oh, dor! oh, dor!-- A neve cae, fria d'arminhos... Na escurido, fria d'arminhos... --Oh, dor! oh, dor!-- Passa maldito nos caminhos, D'enxada ao hombro nos caminhos, Fantasma negro, o cavador! Vem roxa a estrella d'alvorada... Vem morta a estrella d'alvorada... --Oh, dor! oh, dor!-- Montanhas nuas sob a geada!... Hirtas, de bronze, sob a geada... --Oh, dor! oh, dor!-- Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada. Fantasma negro, o cavador! Cavou, cavou desde que dia... Cavou, cavou... Bateu meio dia... --Oh, dor! oh, dor!-- De p na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, --Oh, dor! oh, dor!-- Largando a enxada, Ave Maria!... Resa em silencio... Ave Maria!... Fantasma negro, o cavador! Cavou, cavou na serra agreste, D'alva noitinha em serra agreste... --Oh, dor! oh, dor!-- E um caldo em premio tu lhe deste, Meu Deos!... seis filhos tu lhe deste... --Oh, dor! oh, dor!-- Batem trindades... Pae celeste!... Bemdito sejas, Pae celeste!... Resa, fantasma, o cavador! Cavou cem montes... que do trigo?! Gerou seis bocas... que do trigo?! --Oh, dor! oh, dor!-- Bateu a Fome ao seu postigo... Bateu a Morte ao seu postigo... --Oh, dor! oh, dor!-- Que a paz de Deos seja comigo! Que a paz de Deos seja comigo!... Disse, expirando, o cavador! Junho--91. VIII *OS POBRESINHOS* OS POBRESINHOS Pobres de pobres so pobresinhos, Almas sem lares, aves sem ninhos... Passam em bandos, em alcateias, Pelas herdades, pelas aldeias. em Novembro, rugem procellas... Deos nos acuda, nos livre d'ellas! Vem por desertos, por estevaes, Mantas aos hombros, grandes bornaes. Como farrapos, coisas sombrias, Trapos levados nas ventanias... Filhos de Christo, filhos d'Ado, Buscam no mundo codeas de po! Ha-os ceguinhos, em treva densa, D'olhos fechados desde nascena. Ha-os com f'ridas esburacadas, Roxas de lirios, j gangrenadas. Uns de voz rouca, grandes bordes, Quem sabe l se sero ladres!... Outros humildes, riso magoado, Lembram Jesus que ande disfarado... Engeitadinhos, rotos, sem po, Tremem maleitas d'olhos no cho... Campos e vinhas!... hortas com flores!... Ai, que ditosos os lavradores! Olha, fumegam tectos e lares... Fumo to lindo!... branco, nos ares!... Batem s portas, erguem-se as mes, Choram meninos, ladram os ces... Resam e cantam, levam a esmola, Vinho no bucho, po na sacola. Fructa da horta, caldo ou toucinho, Do sempre os pobres a um pobresinho. Um que tem chagas, velho, coitado, Quer ligaduras ou mel-rosado. Outro, promessa feita a Maria, Deitam-lhe azeite na almotolia. Pelos alpendres, pelos curraes, Dormem deitados como animaes. Em caravanas, em alcateias, Vo por herdades, vo por aldeias... Sabem cantigas, oraesinhas, Contos d'estrellas, reis e rainhas... Choram cantando, penam resando, Ai, s a morte sabe at quando! Mas no outro mundo Deos lhes prepara Leito o mais alvo, ceia a mais rara... Os ps doridos lh'os lavaro Santos e santas com devoo. Para laval-os, perfumaria Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia. E embalsamados, transfigurados, Tunicas brancas, como em noivados, Vivero sempre na eterna luz, Pobres bemditos, amen, Jesus!... Outubro--91 IX *CAMPO SANTO* CAMPO SANTO Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!... Somno d'arminho... colxo de terra... lenol de flores!... Cahi dormentes, Cahi exanimes, trementes, Palidos silencios do luar dorido! Litanias fluidas do luar dorido! Misereres brancos do luar dorido! Balsamos, piedades, oraes dolentes Do luar dorido!... Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!... Cama to fresca!... cobertor branco, de jasmineiros... Cahi maviosas, Cahi somnambulas, piedosas, Concavas tristezas do luar magoado! Resonancias d'orgo do luar magoado! Extrema-unes profundas do luar magoado! Sincopes, oblivios, quietaes chorosas Do luar magoado!... Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!... Cama de violetas!... que lhe fez a Virgem, sua madrinha... Cahi radiantes, Angelisantes, Esfolhados lirios do luar divino! Musselina argentea do luar divino! Halitos de leite do luar divino! Perolas, opalas, beijos e diamantes Do luar divino!... Ai ao relento, ai ao relento as bisavs dormindo!... Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!... que sonho lindo!... Cahi cantando, Cahi mas brando, muito brando, Misticas nevadas do luar de prata! Linho da candura do luar de prata! Angelus da ermida do luar de prata! Extasis boiando, sagraes ondeando No luar de prata!... Dormi, dormi!... que bellas camas!... ai, que bons lenoes!... Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!... Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!... Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!... Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!... Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado... Durmam velhinhas! durmam creanas! durmam donzellas! Quando acordarem j tem os anjos espera d'ellas... Ha-de acordar tudo l nos ceos doirados... Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados... Pe a mesa a Virgem para os pobresinhos... Ai, que lindos fructos!... ai, que ricos vinhos!... Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar, Que no ceo os anjos regam com luar... Ordenhando ovelhas andam serafins, Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins. Outros nas arribas crestam as colmeias, Grandes favos brancos como luas cheias. Ai, que bom almoo, feito n'um vergel, Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!... Para as avsinhas tem l Deos bastantes Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes... Como vs, moas, l no ceo casaes, Ellas daro teias para os enxovaes... J no setestrello danam nos terreiros, Tamboris e violas, frautas e pandeiros... J l vejo os noivos, com S. Joo espera, N'uma ermida branca revestida d'hera... Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar, Que no ceo com anjos vos ireis casar... Ai, dormi, creanas! que no azul divino Brincareis alegres com o Deos-menino... Partir comvosco, porque vosso irmo, A laranja,--o mundo, que l tem na mo... Dormi, dormi, sem dor, sem penas... Dormi, dormi!... E em vossos leitos florescentes, De rosas brancas e assucenas, Caiam dormentes, Caiam exanimes, trementes, Graas do baptismo do luar alvissimo! Beijos do noivado do luar purissimo! Lagrimas da morte do luar tristissimo! Canticos d'exequias, oraes dolentes Do luar santissimo!... Abril--91. *EPILOGO* REGRESSO AO LAR Ai, ha quantos anos que eu parti chorando D'este meu saudoso, carinhoso lar!... Foi ha vinte?... ha trinta?... Nem eu sei j quando!... Minha velha ama, que me ests fitando, Canta-me cantigas para me eu lembrar!... Dei a volta ao mundo, dei a volta Vida... S achei enganos, decepes, pesar... Oh! a ingenua alma to desiludida!... Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!... Trago d'amargura o corao desfeito... V que fundas maguas no embaciado olhar! Nunca eu sahira do meu ninho estreito!... Minha velha ama, que me dste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!... Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho Pedrarias d'astros, gemas de luar... Tudo me roubaram, v, pelo caminho!... Minha velha ama, sou um pobresinho... Canta-me cantigas de fazer chorar!... Como antigamente, no regao amado, (Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como est mudado! Minha velha ama, como est mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... Canta-me cantigas, manso, muito manso... Tristes, muito tristes, como noite o mar... Canta-me cantigas para ver se alcano Que a minh'alma durma, tenha paz, descano, Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!... 90. *NOTA* NOTA este o primeiro dos tres volumesinhos, que ho-de encerrar as minhas liricas ineditas. Os outros dois--_Flores de Ideal_--e _Infinito_ (_Livro d'oraes_) viro a lume successivamente, com intervalos de mezes. Duas palavras sobre os _Simples_. Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_ (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, minha natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da _morte_ , no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li com sofreguido milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes, revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das coisas. Questionei a razo, ouvi a consciencia. Dei balano a mim proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? No este o momento de dizel-o, nem isso interessa seguramente. A minha metafisica para uso proprio. No construi um sistema de filosofia humana. Tratei de responder apenas s duvidas e curiosidades do meu espirto. No cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes, muitissimo diversos dos que j tinha anteriormente. Mas o que era intuio tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia s cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e resoluto. D'uma viso mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoes, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e no apenas uma evoluosinha toda literaria, meramente verbal e de superficie. No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as concluses ultimas do meu exame de consciencia, no pelo seu merito intrnseco, repito, mas como util comentario da minha obra poetica, de que ellas so verdadeiramente a alma essencial e geradora. Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento fisico, esbocei e dei comeo a este pequenino poema lirico d'_Os Simples_. Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustias, de vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldio para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E ento encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bblicos, na mansido dos bois arroteando os campos e nas lavardas d'oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa, d'abnegao e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldees na terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e desejaram. claro que essas figuras no so inteiramente reaes, da realidade estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a minha alma, com o meu proprio ideal. Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a paisagem, a pintura rustica, no o entendeu, nem o soube ler. muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros campestres e bucolicos. A feio, por assim dizer, regional, do livro , embora importante, subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ mnhota. O _Prestito funebre_ minhoto . Mas coisa curiosa, o segundo canto--_In Pulvis_ j de todo transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao p da sua chama... Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_ descobrir porventura contradies. Este lirismo o reverso d'aquella satira. Aquella indignao o comentario d'esta elegia. O christianismo dos _Simples_ o innocente e meigo christianismo popular, feito com a ignorancia absoluta do dogma e com a intuio humana dos Evangelhos. A exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, por vezes d'uma penetrao sublime e reveladora. As minhas antigas opinies religiosas, em vez de se modificarem, acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento progressivo de misticismo naturalista, a averso e a hostilidade egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e divino espirito de Jesus. Em quanto tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota no fosse escripta rapidamente, ultima hora, com o impressor espera. A forma poetica encaminha-se evoluo final. Horisonte imenso. O pouco que fiz de novo, em tal sentido, no deve nada a ninguem. meu, pertence-me. E, de passagem, uma ligeira observao. Este livro, s hoje dado a publico, d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia, que, embora leve, inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil. Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada. Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dir. 14 de Maio de 1892. _G. J._ *INDICE* PRELUDIO I--A Caminho II--De Volta I--A MOLEIRINHA II--CADAVER I--Prestito funebre II--In Pulvis III--EIRAS AO LUAR IV--AS ERMIDAS V--CANO PERDIDA VI--O PASTOR VII--O CAVADOR VIII--OS POBRESINHOS IX--CAMPO SANTO EPILOGO Regresso ao lar NOTA ERRATA Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos, de facil emenda para o leitor. PREOS DA TIRAGEM ESPECIAL Exemplar unico em pergaminho 45$000 Exemplares em papel Wathman 4$000 _A 1.^a edio d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr. Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as requisies_. End of the Project Gutenberg EBook of Os Simples, by Guerra Junqueiro License: Share Alike