Produced by Vasco Salgado TESTAMENTO POETICO-ANACHREONTICO POR +Joo de Figueiredo Maio e Lima+ (Precedido d'uma noticia bibliographica pelo editor e d'uma poesia dedicatoria pelo dr. Francisco Nunes Pouso). EDITOR Antonio Jos Torres de Carvalho ELVAS TESTAMENTO POETICO-ANACHREONTICO POR +Joo de Figueiredo Maio e Lima+ (Precedido d'uma noticia bibliographica pelo editor e d'uma poesia dedicatoria pelo dr. Francisco Nunes Pouso). ELVAS Typographia e Stereotypia Progresso _Rua de Manoel Gomes Estella, 2-B_ 1906 JOO DE FIGUEIREDO MAIO E LIMA +Noticia bibliographica+ falta de elementos proprios para traar uma ligeira bibliographia de to distincto poeta soccorremo-nos das poucas noticias colhidas a seu respeito por Innocencio da Silva e Nunes Pouso. Joo de Figueiredo Maio e Lima, author da Ode epodica que sob a epigraphe--_Testamento poetico-anachreontico_--publicou em 1838 no _Ramalhete_, jornal d'instruco e recreio, nasceu, no Alemtejo, na villa das Galvas, em 10 de Fevereiro de 1779, sendo seus paes Bernardo de Figueiredo Maio e Lima e D. Joanna Michala de Bastos. Destinado vida ecclesiastica e j professo na ordem de Aviz, cursava em 1808 os estudos universitarios de Coimbra, quando as hostes napoleonicas irromperam em Portugal. Levado quia do ardor da mocidade e de seus sentimentos patrioticos, interrompeu a carreira academica e sentou praa de cadete em artilharia 3, onde serviu por espao d'um anno, findo o qual, foi promovido a alferes para o regimento de infanteria 22, em cujo posto e corpo se conservou at ao termo da campanha. Com que saudade elle invoca o _venturoso_ tempo em que, esbelto mancebo, lustrava a sua brilhante farda d'official pelas ruas d'Elvas!... Bastas vezes pediu e instou em prosa e verso para ser elevado ao posto de capito, mas nunca obteve o desejado deferimento. Julgando-se preterido em seus direitos no poucas vezes requereu tambem sem ser attendido, a exonerao do servio, que s lhe veio a ser concedida em 1814, quando finda a guerra peninsular. Desligado da vida de soldado, voltou de novo os olhos para o altar, entrando como freire professo na ordem d'Aviz, e, ordenando-se pouco depois de presbytero, conseguiu o priorado da matriz da villa de Borba que era da apresentao dos freires d'Aviz. Aqui, na pastoreao do seu rebanho e no cultivo predilecto das bellas lettras, perdeu completamente a luz dos olhos, mas no a do espirito rutilante que resalta da composio agora reproduzida, e que, como outras do author, no merecia ser votada ao esquecimento. Maio e Lima--tem qualidades poeticas apreciaveis: vivo de phantasia, feliz nas imagens, harmonioso no canto e correcto na metrificao, pouco menos que conhecido, ainda entre gente lida e illustrada. Verdade seja que identico stygma pesa ingratamente sobre outros poetas. Quem se lembra hoje, por exemplo, de Joo Xavier de Mattos, cujas odes e canes encantam pela concepo, contextura e harmonia?!... E comtudo merecia no ser esquecido numa litteratura onde os verdadeiros engenhos no abundam. D-se frequentemente no mundo intellectual o phenomeno singular d'uma lei do mundo physico: as _palhas_ sobrenadam ou fluctuam superficie do lago, em quanto os _graves_ se afundam nos abysmos do pego!... Reparmos em parte a injustia trazendo novamente luz o _Testamento_ de Maio e Lima que inspirou a Francisco Nunes Pouso, quando delegado do procurador regio em Elvas, a poesia dedicatoria, inedita, que o precede. No perdoaram ao poeta, cego e sexagenario, que esquecesse a gravidade do sacerdocio, e bem caro lhe fizeram pagar a ousio da sua musa erotica e travssa arrojando-o aos horrores d'uma priso, onde jazeria os ultimos annos da vida, se mo piedosa e valedora o no fosse de l arrancar. O seu temperamento e rara energia resistiram ainda por muito tempo s vicissitudes da sua existencia atribulada, pois que tendo publicado o _Testamento_ em 1838, s veio a fallecer 12 annos depois, em 15 de Janeiro de 1851. Embora publicadas em sua vida, algumas das suas composies, seno todas, so hoje rarissimas. Innocencio d o catalogo d'ellas, a que juntaremos uma _Ode_ dedicada ao seu amigo dr. Jos Valentim d'Oliveira e Gama, a qual reputmos inedita e que brevemente publicaremos. +A Joo de Figueiredo Maio e Lima+ D'um destino cruel ferio-te a farpa... Vo de prantos nas faces te desceu! Em lagrimas soltaste ento da harpa Tristes cantos de dr, que me prendeu. Tu havias cantado a relva, as flres O estendal de matiz do patrio Sr, E o gorgeio das aves, e os pastores, E d'estes o singello, ardente amor; As campestres choras... as meiguices Da pastora gentil ao seu dilecto... Do amor juvenil as mil doidices... Vehementes canes d'um igneo affecto; Aquellas confisses, que d'alma sahem luz da meiga lua, junto fonte... E as promessas, que a flux dos labios cahem E os adeoses, que curvo triste a fronte; Aquelles _sins_ soltados to medrosos Em tapetes flordos nos rosaes... Aquelles mil protestos calorosos, Que d'amor a chamma accendem muito mais!... Quando a patria depois pedio teu brao, Tu da patria o pendo seguiste altivo; Mas sempre da ventura o sopro escasso! Mas sempre da intriga um trao vivo! Tu infloras ento o aureo plectro Das saudades, que tens, co'a roxa flr; Relembras, Figueiredo! em triste metro Os tempos juvenis no argenteo Sr; E os jardins amenos do teu rio _Mais doces, mais mimosos, mais dourados_ [1] De mais verde tapete e mais macio _Que os Jardins das Hesperdos sonhados!_ [1] Os versos em letra italica so tirados da varias composies do poeta Figueiredo. de ver como ento plangente endeixa Lembra o tempo da tua Marca qu'rida, Como em terno suspiro a dor se queixa, Como a alma na dr se vai perdida!! E tu cantas tambem, como aborrias Do Sacerdocio a vida destinada, Pensando em modos mil, por que podias Sem ser padre no Co dar a entrada! Contra a Frana em soccorro a patria chama Ai! do filho! que a me no vio bradar! _Brandos myrthos, que a doce Venus ama_ Pelos louros mavorcios vaes trocar! Longo tempo nas armas passado E mo clemente a banda te cingia... Mas pela _cara irm_ (rigor do fado!) _Dragona solitaria em vo carpia_. Mais tarde, Lima! a _Virgem Durindana_ Trocaste pela estolla, pelo altar; Como dizes, rubra cinta ao Guadiana Aureas franjas e elmo vaes lanar. Mas n'essa nova senda ora trilhada Sempre as plantas o espinho vem fender; No fatal _Testamento_ desfolhada A rosa da ventura vs morrer! certo, Figueiredo, que imprudente Foste um pouco no acceso imaginar! Ergueu-se em altos vos teu estro ardente, E no viste o calyx sancto, o teu altar!! Pobre Vate! O arrojo bem pagaste! Em tetrica masmorra o pranto cae! Mas d'um anjo o amparo emfim ganhaste, [2] Adeja bemfeitor, soltar-te vae! [2] A Condessa das Galvas empenhou-se a favor do poeta para elle ser solto. E tornaste, Pastor, ao teu armento! E voltaste, Poeta, s tuas canes! Brilhou de novo o sol no firmamento, Fallou de novo o plectro aos coraes! Acceita, excelso Vate, em teu sudario, Aljofar de saudade--este meu pranto! Ha quem tenha na terra o teu Calvario, Ai! mas falta-lhe o teu mimoso canto! N. Pouso. +Testamento poetico anachreontico+ _Aut prodesse volunt, aut delectare Poetoe_ Horacio--_Art. Poet._ Na solitaria testa j branqueiam Os desbotados louros, Que as Muzas algum dia me enramvam Com grinaldas de rosas E em dourados anneis por estes hombros, Ao desdem esparsidos, Eram do vento alegre o dezenfado. D'onze lustros ao pzo carga enorme o corpo j succumbe Carunchzo e quebrado; Ruga senil as faces lavra e cresta, Sinto estalar os ossos, Vrgam as costas, no circula o sangue Na intumecida artria; Frio torpor occupa os membros todos, Vo-me cahindo os dentes Uns apz outros, falta o lume aos olhos, Aos olhos perspicazes, Que nos d'outros amantes descubriam Reconditos mysterios; E sob o vo mais denso e o mais escuro De travessas Nerinas Os lacteos peitos, os limes de neve, Quando de amr e zlos, De susto ou de prazer lhes tetilavam. No, meus socios amigos, No me custa, no vr o Sol brilhante, A rxa, a fresca Aurora, O Iris de furta cres, o d'estrellas Azul manto da Noite C e l embutido, plantas, bosques, Loura seara ondeando Com o bafejado Norte, um horizonte Immenso e dilatado, Onde o pincel apura, esgota as tintas, Toda a Arte, e a Natureza; No ver da meiga Lilia as tranas de ouro, Da trefega Corina Os gestos, os tregeitos, os acnos Com que a um tempo engana Sagaz, dois, trez, quatro, cinco amantes; No ver da terna Elfira Os nedios braos, os cabellos d'ouro; No vr de Clores e Filis Os rubros lbios, quando a furto beijam No baile mos alheias; Em fim no ver... No vr um ar, um rizo, Uns meneios suaves, Uns olhos cr do Co, um alvo rosto, Eis o que mais me custa!!... O gz Celeste, o scro enthuziasmo, Que me fervia n'alma, J se extinguio de todo; o arrebatado Giro dos annos tudo Levou comsigo inexoravel; tempo, Tempo aquelle venturoso, Em que eu d'Elvas as ruas descalava C a ferrage ingleza, Na luzidia bota, e quazi sempre A passo accelerado: Quando do infausto gallo negras pennas, Que outras ainda mais negras J ento me agouravam, o acharoado Murrio meu compunham; Quando aurea franja me pendia aos hombros, Purpurea banda cinta, Virgineo sbre ao lado, que impio abria Profundas brexas, rgos Em bcos e travessas da cidade, E a azul, e airosa farda, Obra do insigne meste Nigromante Em Adonis, em Marte, Me transformva. E agora esta sotaina Da cr de meus peccados! E azas, que o Sul a bel' prazer meneia, Qual ronceira falua, Ou barco d'agua-acima com dous rmos; Um chapo de trez ventas, Candieiro das trvas c'o a pombinha, Que topeta com tudo, E diz a todos--Alto! vade rtro!-- Enorme horrenda aranha, De que o mesmo S. Bento horror teria, Que aos nossos Hebreos luzos O seu Moiss tricrnio me figura, Ou moinho gigantesco Ao bravo here da Mancha! Ento que vezes, Musico Amphio canro, Pedras, peitos crueis tornei mais brandos, Mais dces, que o ml de Ibla; Mais que o alvo assucar do Brazil em ponto! Quantas e quantas vezes, Manhozas mes, rapzas surrateiras, Finas abelhas mestras, Fros Drages, mil Argos de cem olhos, Que guardvam insomnes D'ouro as bellas maans, d'Inco as vaccas, Outro Alcides valente Amancei, enganei c'o ambrozia, o pasto Da mllica Poezia, E engenhozo Mercurio ao som da flauta, Ao som da minha Lyra, Dos Numes, dom adormeci cantando! Nem vs, cros doutores, Jocoso Valentim, sisudo Salles, Avicenas peritos Da nossa cidade, Hypcrates famosos, Deozes da Medicina, Nem vs co' as garatujas Tubalenses, Infaliveis, hericos Filtros, venenos, Sam Migueis, balanas, Tudo e toda a Pharmcia, Podiam revocar tam bellos tempos De saudosa memoria, Restituir ao plido semblante A cr de rosa e neve, A luz perdida aos olhos, clros dentes Ao deslocado queixo, A deserta cabea povoar-me De meus antigos louros, Tornar-me finalmente juventude; Nestores de trez sclos, Mathusalens de novo j caducos, E sem calr, nem foras, S banhos e aguas do Jurdo remam. Quando alta noite sinto Bater na velha porta a frrea arglla, Cuido que a Parca horrenda J vem buscar-me, e que me bate porta Com a fouce longa e curva, Impune devassando, e ento a que horas! Das leis em menoscbo, A casa, o lr, o azilo, o sancto alcaar, Os penetraes sagrados Do cidado pacifico e innocente, Que drme a smno solto! Ah! quando eu lhe cahir nas impias garras Sabei, ternos amigos, Minha ultima vontade: no, no quero, Que a triste campainha Publique aos mais viventes minha morte Pelos cantos das ruas, Que em dro escuro, em rmo cemitrio Repousem minhas cinzas; Nem que o frio cadver seja invlto Em vestimenta escura; Nem com funebres cirios, negros vultos, A passo grave e lento, Mudos cabisbaixos me acompanhem: Quero que a minha amada Co' os ddos de jasmim piedosa e meiga Meus turvos olhos crre, E co' avarento vo, que ao Sol esconde Glbos de neve e leite, E o Sol beijar dezeja, a derradeira Lgrima ento me enchugue Ao longo pela face escorregando Em reluzente fio. Item--que sbre o feretro me ponham A lyra, a penna, a espada, Que seis louros mancebos revestidos De tunicas bem alvas, E ornados de odoriferas cape'las, Aos hombros me conduzam; Quero que oito donzellas das mais lindas, Que houver n'estes contrnos, Tambem de branco e flores adornadas, Ao tumulo precedam, E que em vz de canes, tristes endeixas, Ou luctuozas nenias, Tangendo adufes, charamellas, flautas, Me cantem sempre alegres Hymnos do meu Cmes, versos de Lbo, De Bernardes, e d'outros Da nossa antiga, illustre, douta, e honrada Mas pobre confraria: Que juncto de hum loureiro e de huma fonte O sepulchro me cavem; E no quero que o barbaro coveiro, Homem sem d, abutre, De carne morta nunca farto crvo, C a ferrugenta enxada, Com mao funeral, rodeiro e horrendo, Qual de Hercules e clava, Meus tristes, velhos e canados ossos Ma, desfaa, strua, E a cabea me quebre ainda em mrto! Basta, o que basta em vida!-- Item--mais,--que os mancebos, e donzellas Em tripudios e danas, Ao derredr da campa honrem meu nome Porque estou livre e solto J do crcere da vida, tantos males, Perigos e cegueira; Que a par e par, de espao a espao todos Venham mui mansamente, Lanar-me terra, e flores no jazigo; E trez vezes batendo C esquerdo p no cho, por Figueiredo Brdem trez vezes todos, Dizendo em alta voz: Em pz descana! A mesma cerimnia Se far em meu dia anniversario At ao fim do mundo; Que findas as exquias, findo tudo A donzella mais tenra, Mais ma, mais mimoza, mais galante, D'entre as oito que frem, Slle, crre o caixo, e entregue a chave A Mrcia, que beijando-a, Pranto saudso ha-de verter sobre ella, Pranto, que dr podia Ao mrto vida, se tocsse o morto: E finalmente quero Que no tronco do proximo loureiro Em caracteres grandes, Por que melhor o viajante o leia, Se escreva este epitaphio.-- Aqui jaz Figueiredo, que em mancebo Seguio armas e lettras; No imitou no genio a Homero e Milton, Na cegueira imitou-os; Foi das nimphas cantor, cantor d'amores, Cantou heres e guerras; Foi sempre ao rei fiel, temente aos Deoses, Sempre amigo dos homens; Sempre objecto da intriga, alvo da inveja, Em todos os estados; Quanto lhe foi pesada a vida, agora Lhe seja a terra leve! End of the Project Gutenberg EBook of Testamento Poetico-Anachreontico, by Joo de Figueiredo Maio e Lima License: Share Alike