Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) URBANO LOUREIRO QUESTO DE PALHEIRO COIMBRES E LISBOETAS Estavas, linda Ignez, posta em socego... VERSO. PORTO: NA TYP. DE MANOEL JOS PEREIRA, 4, Rua de Santa Thereza, 6. 1866. URBANO LOUREIRO QUESTO DE PALHEIRO COIMBRES E LISBOETAS Estavas, linda Ignez, posta em socego... VERSO. PORTO: NA TYP. DE MANOEL JOS PEREIRA, 4, Rua de Santa Thereza, 6. 1866. QUESTO DE PALHEIRO COIMBRES E LISBOETAS Dai passagem, romanos, ao proscripto, Que vem vr se na praa ha peixe frito! FABIA. I. Ahi p'ra as bandas de baixo que barulho, que rumor! o vinho do Cartaxo, ou do Aleixo o licor? A questo anda ateada, por um tris no ha pancada, e nem um cabo sequer! Nem cabos, nem regedor, nem alma viva na rua, nem um co ladrando lua, p'ra despertar a patrulha, que resona agasalhada nos capotes d'oleado, s soleiras encostada sem se importar com a bulha, que me vai na visinhana. Estaremos na Bairrada?! Que agentes de seguranca!... Mas falla-se em litt'ratura; litt'ratura d'espartilho e litt'ratura nevoenta...? Adivinhei a final! No por vinho o barulho, vem a ser outro o sarilho: a gente do Quental com a gente do Castilho! Ora o leitor quer saber d'onde que nasce a questo? Vou fallar-lhe sem paixo; attenda e confie em mim, que no sou parte suspeita; a historia, co'a maleita, l vai tim-tim por tim-tim. II. Uma pergunta em segredo a respeito do Castilho. --Sabem quem o sujeito?-- Um velhote de respeito, sempre co'a mo no gatilho d'algum doirado epigramma; que a pedido faz prefacios, onde ha perolas e lama; que no encontra poetas como os Virgilios e Horacios; que foi o author infeliz do a-b-c repentino, e da Lilia abandonada, que p'lo ciume ralada se trespassou co'um pepino. J o conhecem?--Pois bem! Um dia 'stava o bom velho co'uma das mos n'um joelho, n'um joelho ou n'um artelho, (isto diz-se; no n'o juro) meditando no futuro, talvez prevendo da Hespanha o rebentar da castanha; e batem de rijo porta. --Quem ?--a criada indaga. --Manoel Pinheiro Chaga.-- --Manda subir a visita.-- E de si p'ra si:--Que praga!-- E quando elle entra na sala: -- meu amigo, que dita! Como se lembrou de mim no meio dos seus triumphos o Mry do folhetim?-- -- lisonja; agradecido; acabei o meu poema...-- --E vem a mostrar-m'o, sim? Ento, amigo, no trema; o tremer de criana; em mim no pe confiana? Parece pouco animoso!...-- --Bagatella! isto nervoso! Padeo muito dos nervos!-- --Eia, sus, meu irmo, eia, vate sonoroso! a ti a minha atteno!-- E o poeta recitou-lhe d'um s fl'go a _Invocao_: e logo apoz o poema, que na filha d'uma _beef_ (p'lo modo sria menina, que o Chaga baptisou Emma) fui descobrir a heroina. E por fim o poemeto, em que o heroe papa-fina, p'ra no dizer papa-moscas, chuva, mui socegado, medita no seu passado. E vai e disse o Castilho quando o Chaga terminou: --Muito bem! d-me um abrao, aperte-me este espinhao! O senhor no leu, cantou! Mil parabens!-- --Agradeo, so favor's que no mereo.-- O velho deu quatro passos, e para encobrir o riso: --Oua c, tive uma ida; se eu lhe escrevesse um juizo, p'ra o livro fazer mais bulha, urdido moda de tea, e n'ella entalado um grulha, que espirrasse co'a pitada? --Vossa excellencia pinhora-me --Acceita?-- --Muito brigada; isso mesmo era o que eu qu'ria p'ra os volumes no ficarem nos lotos da livraria...-- --Ento, 'st dito?-- --'St dito!-- Retiro-me.-- --Adeus, amigo; p'ra tudo conte commigo.-- E o vate desceu a escada trauteando o pirolito. III. Leram do livro o final? Toparam com a pitada ao Anthero do Quental? Pois o Anthero deu patada! Viu em tudo aquillo fel, e sem qu'rer foi parede! Botou o Castilho a rede e pescou... um bacharel! Veio o _bom-senso_ e o _bom-gosto_ provar que estava no posto o rato, que se incumbira de chamar os compradores p'ra o livro que no sahira dos armarios do livreiro sem do Anthero os mos humores. Levou p'ra baixo o Castilho; aquillo que foi malhar! e malhar em ferro frio, segundo se ousa affirmar, que o velhote, esse, nem pio! No se pde em si conter aquelle pobre Quental! Foi uma tunda de mestre no mestre, mas a valer! No lhe queiramos ns mal. E o Castilho, sempre moita, ri d'aquelle que o espanca; no tinha mais que fazer do que ao Quental responder! E o Quental por cima tranca! IV. Tinha esquecido dizer que o Quental coimbro, e no gosta do Castilho com razo ou sem razo; d'isso no quero saber. E de Coimbra e Lisboa os litteratos de pra saltaram logo p'ra o campo a discutir a questo, pregando fachada toa, a maior parte no cho, e creio que toda em vo. Cada qual quiz ser juiz no barulho, em que o bom-senso appar'ceu, segundo penso, esmorrado do nariz. E veio arena o Roussado com chalaas a granel (que em chalaa jubilado) a entampar o bacharel, que havia ao mestre bufado. Sinto que fosse infeliz n'autopsia que fez s Odes; mas como no culpado conte que est perdoado. O volume do Quental no deve ser mo petisco no sexto ceo do ideal. Comparo-o (mas ao poeta) a qualquer pardal ou pisco, e sobre tudo ao pardal, que pretendesse imitar... que sei? a aguia real, quando fende altiva o ar para as campinas do ceo do mais puro azul sem veu; na phrase dos Victor Hugos, a quem tiro o meu chapeu. Ao illustrado Quental peo muita paciencia a par de alguma indulgencia. Desculpe sua excellencia; o que eu digo nada val. Siga a bicha em continencia! V. Havia ha pouco appa'rcido o reportorio em questo, do senhor Manoel Roussado (aqui tam mal succedido) quando veio um coimbro chamado, se no me engano, fulano de tal Elmano, a responder ao Anthero, (pondo parte o trocadilho) com ar ginja e pedantesco, e qu'rendo dar ao Castilho alguns salutar's conselhos. O conselheiro burlesco!!... Fez _fiasco_ o tal rato; mesmo na propria Coimbra lhe chamaram papelo. Diz-se aquillo ir burcar l para surdir tosquiado! Parva eschola coimbr! P'lo morto... tres padre-nossos ao deitar, depois de ca. Madrasta eschola, d'Elmano nem sequer ters os ossos!! --Non habebis ossa mea!....-- VI. Faamos a vista grossa, p'ra no ter de esmiuar o que disse a grande troa de escriptor's folhetinistas, que no assumpto quiz fallar. ( mais proprio debicar.) Para o lado o Carvalhal, que affirmou que o suicidio no era ida immoral; e defendeu o Quental com gracinhas de funil, jogadas do Chaga ao livro no Diario Mercantil. Para o lado o proprio Chaga com todo o seu folhetim; vamos direitos ao Braga a pedir-lhe as Theocracias. Muito bem! agora sim! Que citaes e que nomes! Que fundas philosophias! O Braga, palavra d'honra, vale doze livrarias!!.... At fallou em javardo!!!.... Eu prefiro um homem d'estes a qualquer frade bernardo. Pois estouro no Castilho? contam-se as bombas p'las phrases! Ai, velhote, nunca tu te metteras com rapazes! Essa gente--isto um facto!-- que no respeita o rabicho faz de ti gatto-apato; o melhor despresal-a, como quem despresa o licho; despresal-a... por capricho! Ao Braga, seguiu-se... quem? Ah! o Julio de Castilho, que, no meu pensar, filho do velhote espadachim; pois trouxe barra um folheto sem vir tarjado de preto!!!.... As tres paginas do fim do bade-meco alludido so talvez as de mais graa! Eu ri-me como um perdido... No que est boa a chalaa! mesmo boa de uma vez! Pe o s Julio em praa, em portuguez e francez, os nomes, que teem rendido da nossa lyra ao princez homenagens de partido. Elle sempre ha cada maa!!... Logar a mais um p'ra a sucia, que chegou; lisboeta. P'lo nome talvez conheam Amaro Mendes Gaveta, respeitavel escriptor. Elle muito conhecido; traz algodo n'um ouvido, e tem o pai ferrador. Eis o caso! O tal sujeito com basofias de pimpo, a tratar bestas afeito, aos da questo serviu palha, tojo e palha, e com razo. --Desconfio que o Gaveta se prope a deputado n'esta proxima eleio; eu sei as suas idas a respeito da fuso.-- Mas voltando vacca fria, do tal Amaro direi, que, parte a semsaboria, tem chiste n'alguns bocados. pena que entre bons versos viessem alguns errados. Isso porm acontece. Quem ha 'hi que um trambulho n'uma descida no dsse? --Estava j p'ra fechar.-- No fecharei sem primeiro de um tal Carrero fallar; de um Carrero ou de um Carreiro; tanto no posso affirmar. Eu c, dos dois appellidos, votava p'lo derradeiro. _C'est assez_ de divagar. O Carrero (seja assim) deixou-me quasi entalado; p'ra dizer o que nos disse antes ficasse calado: ou fizesse brisa, lua, versinhos de p quebrado, como fez outr'ora Ulysses, que no mar das trapisondas, entre outras muitas ratices, caminhou ardendo em braza, por cima das turvas ondas, como ns por nossa caza. Deu-se isto quando vivia no cimo da cotovia. Se acaso me do licena, entro na ordem do dia. VII. Quem falta mais?--Falto eu, que na renhida questo no sei quem tenha razo. P'ra que saibam:--Sou poeta, e se vim com isto feira no reinado da careta, e da policia secreta, foi que faltar no podia sem mentir vocao. Mas quem se ri d'isto tudo o Chaga e o Castilho. Nenhum d'elles anda mal. Esta questo do Quental parece questo de entrudo. Eu, por mim, tambem me rio, que da historia vejo o atilho. E tu, leitor, no te ris? Ri-te de mim, se quizeres; aqui 'stou, aqui me tens. Em vez de fazer colheres, coisa muito aconselhada, fiz o folheto que vs. --No me ds os parabens por esta grande estopada; d-me s... cinco vintens... Entrudo, no meu faval, tantos de tal. Da meia noite ao bater no relogio do visinho, procurando adormecer da cama no patrio ninho. Preo, o da taxa--100 reis. End of the Project Gutenberg EBook of Questo do Palheiro: Coimbres e Lisboetas, by Urbano Loureiro License: Share Alike