Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Mar. 2008) NOVA ACADEMIA DE PINTURA DEDICADA S SENHORAS PORTUGUEZAS _Que amo ou se applico ao estudo das Bellas Artes_. ....las Mugeres quando Talves, applicar se han visto A las Letras, o las Artes, Los Hombres han excedido. LISBOA: NA IMPRESSO REGIA. ANNO 1817. _Com Licena_. PROEMIO. Quando vou discorrer sobre a Arte da Pintura, parece que deveria comear pelo seu elogio; mas no o farei, por me parecer cousa superflua, e bem sabida de todos: observarei smente, que a Arte por si s, inda que fosse levada a hum alto gro de perfeio, no poderia fazer illustre, e estimavel aquelle que tivesse o odioso, ou ridiculo comportamento de hum Brouwer,[1] de hum Aleixo Transpadano,[2] ou de hum Bufalmaco;[3] mas se pelo contrario, algum soubesse ajuntar honra, e virtude os talentos de Rafael, de Corregio, ou de outro grande Pintor, estas raras qualidades assim reunidas, constituirio (diz Richardson) hum mortal cujo esplendor poderia luzir mito, mesmo em hum mundo ainda melhor de que este. Na Poesia no se admittem medianias; mas na Pintura ha tantas e taes difficuldades a vencer, que O Pintor de segunda ou terceira classe merece o mesmo gro de estimao que hum homem de primeira ordem em qualquer outra Faculdade. Mas se esta scientifica Arte, pela sua belleza e profundidade, tem sido digna da applicao de muitos homens da mais alta esphera, no deixa ella tambem, de ser igualmente propria, ou talvez mais propria ainda, para as Senhoras; principalmente naquelles casos em que so mais necessarias a graa, e a delicadeza: assim, tem feito as Naes conhecedoras o maior apreo das obras da Sirani, da Sophonisba, da Rosalba, e de muitas outras, cujos nomes fazem tanta honra ao bello Sexo, como s suas patrias. A Musica he huma arte angelica, e pode entreter deliciosamente qualquer Senhora, huma ou duas horas cada dia; a leitura a divertir tres ou quatro; mas a Pintura faz parecer pequenos os maiores dias de Junho, e torna amavel e apetecivel a mesma solido: he huma arte no s imitadora de toda a Natureza, mas tambem creadora; arte emfim, que sympathisa grandemente com a vivacidade das pessoas espirituosas, e discretas, muitas das quaes desejo saber pintar, e nem sempre o conseguem; ou por viverem em terras aonde no ha quem as ensine, ou por se limitarem nas lies a huma pratica mui superficial. A Pratica he de absoluta necessidade, e por ella se deve no s comear, mas avanar muito, sem nunca a perder de vista; porm ha huma baliza, alm da qual seno podem fazer ulteriores progressos sem estudar a fundamento os preceitos theoricos. Os Poetas, e Oradores tem as suas regras fundamentaes, escritas por bons Authores; ns tambem temos as nossas: o numero dos Escriptores que as trato he muito grande; os idiomas em que correm impressas so mui diversos; e he assaz difficultoso poder fazer dellas huma sufficiente colleco; e quando se fizesse serviria talvez, mais para confundir a mente de hum principiante, que para a illustrar. Ha em taes livros muitas cousas inuteis, e outras que parecem, ou so contradictorias; por tanto he preciso escolher, resumir, e concordar: he o que ns procurmos fazer nesta pequena obra, extrahindo de muitas flores, como fazem as abelhas, s o balsamo que he proprio para compor o mel; pondo de parte quanto nos pareceo improprio, ou desnecessario. A Praxe, como dissemos, he indispensavel aos Artistas; mas a theoria he indispensavel perfeio da mesma pratica. Ella nos manifesta em pouco tempo as descobertas de muitos seculos. Desde que os restaudores da Arte comero a fazer alguns progressos, cuidro logo em ir estabelecendo, como maximas fundamentaes, as verdades que foro descobrindo; e para que ellas fossem bem apuradas e debatidas, antes de se adoptarem, e bem interpretadas depois de estabelecidas, fundro Academias, compostas dos mais sabios Artistas daquelles tempos; e s especulaes mais e mais apuradas dos seus Academicos, he que se deve a perfeio a que chegou a Arte no tempo de Raphael: e como a doutrina da nossa nova Academia he derivada, e recopilada das doutrinas de todas ellas, no ser fra de proposito dizer de passagem alguma cousa a respeito das mais notaveis. Tendo-se perdido a Arte, nos seculos que as invases dos Godos fizero barbaros, e infelices, s em Constantinopla, aonde elles no entrro, se conservou huma sombra della, que no seculo XI. comeou a diffundir-se pela Italia. Pelos annos 1000 foro alguns daquelles chamados Pintores, fazer de Mosaico, o coro da Igreja de Santa Miniata em Florena: por 1072, sendo Doge de Veneza, Domingos Contarino, foro outros Gregos de Constantinopla ornar tambem de Mosaico a igreja de S. Marcos: hum seculo depois o Abbade Joaquim fez pintar sobre a porta do Thesouro, como por inspirao, os retratos de S. Francisco, e S. Domingos, que ainda no ero conhecidos: os Annaes de Sena fazem meno de alguns estatutos da Arte no seculo XIII.; mas huma das mais antigas sociedades de Artistas, foi a dos Padres Gaudentes, em Florena, no fim do mesmo seculo; muitos dos quaes bordavo, escrevio bem, miniavo, e pintavo. Gioto, no principio do seculo XIV. fundou a primeira Academia das tres Artes, em Florena; e Jacomo Casentino concorreo muito para se erigir a Irmandade de S. Lucas em Santa Maria a Nova. A Pintura fazia progressos; e quando as Artes sobem, os discipulos excedem os mestres: Thaddeo Gaddi excedeo seu mestre Gioto, no colorido, e nas expresses: Paulo Ucllo fez grandes progressos na perspectiva: Pedro Cavallini, e Fr. Joo Angelico dero hum r muito devoto s Santas Imagens:[4] o Massolino[5] deu grande nobreza s figuras, e huma certa vida aos olhos; mas o seu discipulo Massacio excedeu-o tanto, quanto elle havia excedido os outros; porque deu muita fora de relevo, muita correco, graa, e bellas attitudes s personagens que pintava; e pde-se dizer que abrio o templo da Immortalidade a Miguel Angelo, e a Raphael. Loureno de Medicis estabeleceo no seu Palacio, e Jardim, huma destas Universidades, ou Academias, bem provida de preciosos Cartes, desenhos, quadros, e estatuas; e dava premios, e penses aos estudantes mais aproveitados. Dalli sahio o Buonarota, o Torrigiani, o Ghirlandro, e outros sabios. Fr. Joo Angelo, que era bom Escultor, obteve o beneplacito, e a proteco do Gro Duque, para se restabelecer a antiga Academia, e a Irmandade de S. Lucas, j quasi extinctas, no Convento dos Anjos, e depois em S. Loureno. Em quanto isto se passava em Italia, tambem se fundro iguaes estabelecimentos quem dos seus montes, taes como o de Antuerpia, o de Nuremberg, o de Bruxellas, etc.; sendo hum dos mais antigos o de Bruges, aonde Joo Van-Eych no seculo XIV. inventou a pintura a oleo. No principio do seculo XVI. erigio em Roma, o divino Raphael, a mais douta Universidade da Pintura que viro os modernos; mas durou pouco tempo; porque faltou o Reitor della em 1520, e os alumnos todos se dispersro, sete annos depois, quando o exercito do Condestavel Carlos de Borbon saqueou aquella Capital: porm Gregorio XIII, fundou outra, em considerao do Musiano, e do Zucaro, que a dotro. Os seus Academicos edificro o Templo de S. Lucas, e Santa Martinha, hum dos mais bellos e mais sumptuosos de Roma, pelos desenhos do famoso Pintor Pedro de Cortona; o qual lhe deixou 200$000 cruzados para se construir o Altar mr, de bronzes e marmores finos, e se lhe erigir hum mausolo.[6] O Painel da dita Capella mr, o qual representa S. Lucas retratando Nossa Senhora, he de Raphael. Pela Lombardia fez a Arte grandes progressos, e teve boas Academias em Milo, Veneza, Mdena, Parma, Bolonha, etc. A dos Caraches foi a mais clebre, pela quantidade de grandes homens que della sahio. Alli se estudavo as tres Artes, a gravura, a perspectiva, e a anatomia: era provda de esqueletos, manequins, gessos originaes, vestidos, armas, arnezes, etc. Alli se distribuio lugares, empregos, e premios, tudo debaixo da direco de Luiz Carache. Depois desta houve tambem em Bolonha a do Guido, que teve 200 discipulos, a do Albani, a do Pasinelli, a do Conde Cignani, as do Conde e do Senador Ghisiliere, e outras muitas; mas como todas ero de particulares, depressa se extinguio. Em Julho de 1706, juntro-se 80 ou 90 Pintores (entre os quaes, diz Zanoti, havia alguns que tinho o seu merecimento) na Galeria do Conde Fava, que sabia pintar, e tinha boa colleco de pinturas, a fim de buscarem meios para reprimir a ousadia de certos _artigiani_ intrusos, que abusando da illimitada liberdade da Pintura, em hum paiz aonde no havia Academia, se incumbio da direco de grandes emprezas, e reduzio os habeis artistas a huma abjecta servido. O resultado foi que o dito Conde, o General Marsili, e Carlos Maratti obtivero do Papa Clemente XI., que se estabelecesse a desejada Academia de Pintura, e fosse alojada, com a Filosofia, no Palacio do Instituto de Bolonha, debaixo da Proteco de Santa Catharina de Vigri, religiosa de S. Domingos, e Pintora Bolonheza. Os Authores Francezes fallo em desenhos seus, feitos penna no seculo XII., com estylo nada inferior ao que depois usou Cimabue:[7] e nos tempos de Gioto, tinho j muitos daquelles que alli se chamo _barbouilleurs_, formado huma corporao, mecanica sim, mas muito privilegiada pelo Parlamento; e em virtude dos seus privilegios ousro incommodar os grandes Pintores, que apparecero no tempo de Luiz XIV. Estes, indignados contra a sua audacia, fundro a Academia Real de Pintura, e Esculptura, que em 1663 foi dotada com 4$ libras annuaes; mas Luiz XVI. lhe condeo 10$. Mr. Urry, director das obras Reaes, em 1737, inventou o chamado Salo; lugar aonde de dois em dois annos, os Artistas expem ao Publico as melhores obras que vo fazendo; cousa que foi mui vantajosa Arte. No lhe foro menos uteis os que se chamo quadros de Maio: os Ourives comero em 1449 a offerecer a Nossa Senhora com grande solemnidade, hum ramo verde, a que chamavo o Maio: depois, juntro aos ramos certas maquinetas; e por fins, desde 1630 comero a offerecer cada anno, hum painel, feito sempre por algum dos melhores Pintores da Frana. Luiz XV. estabeleceo o grande Concurso da Academia Real em Pars, sendo o premio dos vencedores, a sustentao em Roma (aonde tem outra Academia) por tempo de quatro annos, para se aperfeioarem. Na Hespanha fundro-se tambem varias Academias; mas a mais famosa foi a de Sevilha, aberta por Morilho em 1660. A de Madrid estabeleceo-se muito mais tarde pelas dissenses dos mesmos Artistas. O partido dos menos habeis, que era muito maior, triumphou por mais de 120 annos, at o de 1744; tempo em que Philippe V. mandou absolutamente que se fundasse. Fernando VI., dois annos depois, a dotou em 12$ pezos; e exaltou-a extraordinariamente, e aos seus professores. Inda que estas mimosas Artes sejo mui pouco fecundas nos climas frios, tem-se estabelecido as suas Academias na Dinamarca, na Russia, e por todo o Norte da Europa. Os Pintores Inglezes tambem se associro em _S. Martin's-lane_ em 1750, a fim de deitarem os fundamentos n'huma especie de Academia: dez annos depois conviero em fazer huma exhibio publica das suas melhores obras, em hum salo similhante ao de Frana, aonde se entraria por dinheiro. Em 65 obtivero o beneplacito Regio para se estabelecerem; e em 68 teve a Sociedade o titulo de Academia Real das tres Artes. O dote era o producto das exhibies; mas como nos primeiros annos no chegasse para as despezas, supprio o bolsinho Real a falta de 45$ cruzados. Os Artistas expem venda, ou censura pblica, naquelle Salo, as obras que querem; e os curiosos que as pertendem ver, pago pela entrada hum xelim cada hum: estas entradas produziro 13 a 14$ cruzados annuaes at o anno 1779; mas no seguinte, que foi o primeiro da exhibio em _Somerset-Palace_, subio a receita a 27$ cruzados; e dalli at o anno de 96 andou sempre por 22 a 23$ de sorte que excedendo a receita a despeza, comprou a Academia huma boa propriedade, e applicou os seus rendimentos em beneficio dos Artistas precisados. Este estabelecimento, soffreo tambem, como todos os mais, grandes opposies; porque os no admittidos em a nova Academia, fundro outra; e outra exhibio; mas como no tinho grande credito, tudo desappareceo em pouco tempo. De todas estas, e outras famosas Eschlas, he que deriva a Doutrina, que em compendio vamos ensinar nesta nova Academia: mas antes de comear as lies, he preciso dar s nossas illustres Academicas huma idea verdadeira da Arte. A Pintura pde ser considerada de duas sortes, ou como natural, ou como artificial. A Pintura natural he aquella que naturalmente se imprime na retina dos nossos olhos; e dalli, pelos nervos opticos, se communica alma; e a Pintura artificial, he a imitao da Pintura natural. A esta imitao, se he bem feita, chama-se _Verdade_. A Verdade na Pintura, ou he simples, ou ideal, ou composta de huma e outra: Verdade simples he a imitao exacta da Pintura natural, tal como ella se estampa dentro dos nossos olhos, com todas as suas bellezas, e defeitos: Verdade ideal, he a imitao daquellas imagens, que se nos represento na imaginao: Verdade mixta he a imitao da Pintura natural, emendada nos seus defeitos, pelos modelos de perfeio que o grande Artista concebe na sua mente. Esta verdade mixta, ou composta, he a que se acha nas obras de Raphael, e de outros grandes homens; mas principalmente no _Antigo_.[8] Os que estudo a Arte devem, primeiro que tudo, adquirir a pratica da verdade simples, costumando-se a imitar perfeitamente tudo quanto se apresentar diante dos seus olhos; mas podem, e devem faze-lo de sorte que em virtude da boa escolha dos objectos, achem tambem nos seus exemplares a verdade composta. As Pinturas do Carache no palacio Farnesio, e as de Raphael no Vaticano so as duas grandes eschlas de Desenho. A terceira, e no menos importante para os que esto mais adiantados, he a das boas estatuas antigas: os que no puderem estudar pelos originaes, basta que estudem por exactissimas copias. A Pintura comprehende tudo quanto se pde ver, e imaginar; e como he to vasta, divide-se em muitas partes, e em muitos generos. Os generos, so: 1.^o o Historico, ou (como os authores lhe chamo) o grande Genero: 2.^o o dos Retratos: 3.^o o das Batalhas: 4.^o o das Bambochatas: 5.^o o das Paizagens e Perspectivas: 6.^o o das Marinhas: 7.^o o dos Animaes: 8.^o o das cousas inanimadas, como flores, fructos, ornatos, quadraturas, etc. As partes de que se compe a Pintura, so: a Inveno; a Expresso; a Distribuio, ou Disposio; o Desenho; o Colorido; o Clar'escuro; o Estylo, ou Pincel; a Graa; a Grandeza; o bello Ideal; etc. etc.: mas todas estas partes se podem reunir debaixo de tres principaes chefes, que vem a ser: _Composio, Desenho, e Colorido_. Na ordem dos estudos praticos, comea-se pelo Desenho; mas na ordem da doutrina theorica principia-se pela Composio, por ser a primeira cousa que o pintor habil tem a fazer quando quer comear o seu painel; motivo porque principiaremos tambem por esta parte o nosso compendio. NOVA ACADEMIA DE PINTURA PRIMEIRA PARTE. _Composio._ Crear, ou para dizer melhor, reproduzir de novo as obras do Creador; renovar e perpetuar sobre hum painel os feitos heroicos, os acontecimentos memoraveis, he o mais nobre emprego do genio pitoresco. Dispr as idas em huma bella ordem, apresenta-las debaixo d'hum aspecto luminoso, he o grande primor da arte. Desta duplicada operao, da Arte, e do Genio, nasce a Composio. Os pensamentos so os seus membros. Mas assim como os materiaes de hum edificio no o poderio formar, se no estivesse cada hum no seu lugar; assim as idas no representario bem huma passagem historica, seno estivessem distribuidas na composio do quadro, com sabia economia, e com reflexo magistral. A composio divide-se em Inveno, e Disposio. SECO I.^a _Inveno._ A inveno he a combinao dos pensamentos que concorrem para a composio de qualquer assumpto: he huma Musa que sendo dotada de todas as bellas qualidades das suas irms, as Musas das Bellas letras, e inspirada pelo espirito de Apolo, vem por isso mesmo a ser mais elevada, e a resplandecer com mais viva flamma: he hum talento natural que se no adquire pelo estudo, nem pela pratica; porque a fonte das invenes est na faculdade imaginativa, e requer tres cousas, _imaginao_, _prudencia_, _erudio_. No ha regras para a Inveno, porque a arte de imaginar no se communica; mas podem haver conselhos uteis. Racine, quando compunha as suas tragedias fazia todos os esforos para entrar nos sentimentos que queria dar a Hippolito, a Phedra, a Athalia, e a Esther. A Inveno he a poesia da Pintura, e a parte mais propria para descobrir o talento do artista: ella desenvolve a primeira ida de toda a obra; e o Pintor no a deve perder de vista at a ultima pincelada. No basta que elle encha hum painel com muitas e boas figuras, se estas no servirem todas para explicar o principal objecto; e se a totalidade da obra no declarar logo ao espectador qual he o assumpto de que se trata; preparando, e dispondo a mente de quem v a pintura, para ser commovida com as expresses, e affectos das figuras principaes: sem o que, de nada serviria dar-lhes expresses violentas e exaggeradas, como fazem aquelles que querem affectar muito espirito. O excesso, ou affectao he a cousa mais nociva boa inveno. A Pintura sustenta-se, assim como a Poesia, pela fabula, e vive de fices; cada virtude se transforma n'huma divindade: Minerva he a Prudencia; Venus a formosura; Diana a castidade; cho no he hum som, he huma nympha; o cabo das tormentas no he hum promontorio, he o gigante Adamastor. Assim o Pintor, e o Poeta, orno e elevo todas as cousas. He tambem importante, associar escolha dos objectos todas as circumstancias, e todos os episodios, que podem augmentar o seu interesse; tendo porm muito cuidado em que os accessorios no prejudiquem em cousa alguma a aco principal. As particularidades relativas ao _costume_ devem ser exactamente observadas na Inveno: transportemo-nos em ida aos diversos paizes; chamemos nossa imaginao os passados seculos; occupemo-nos dos usos, costumes, e trajes de todas as personagens, para no cahir-mos naquelles anachronismos, que so capazes de tirar o merecimento ao quadro mais felizmente concebido, e executado. Tudo o que se chama original he inventado; mas nem tudo o que he inventado merece o titulo de original; porque esta palavra no s d ida de inveno, mas tambem de grande magisterio. Arrojar-se a inventar sem ter subido todos os degros da escada optica, he querer precipitar-se. Alguns desfiguro s vezes os seus pensamentos querendo enriquece-los. La o Pintor muitas vezes a historia que ha de compr, e quando estiver bem senhor della imagine as personagens: faa o desenho interno na sua ida; porque sem isso rascunhar muito, e no far nada. Depois da composio mental, querendo passar execuo da obra, retire-se do tumulto; porque entre rumores, e estrpitos nada se far com acerto. No pinte seno quando se sentir excitado por hum certo impulso; porque a pezar das Musas no se pde fazer obra louvavel. A _Inveno_ requer muito fogo, e muito genio; e a _Disposio_ muita fleuma, e prudencia: e como estas cousas to oppostas raras vezes se combino, por isso tem sido raros os grandes Pintores. He porm mais facil moderar o genio de fogo, que escaldar o de gelo. Nem todos os pensamentos so proprios para formar huma intelligivel e elegante composio. Lucas Jordo rejeitou as Invenes dos sabios que por ordem de Carlos II. lhe davo assumptos Theologicos para elle executar no Escurial. Todos ero orthodoxos, discretos, eruditos; mas no ero capazes de fazer por elles huma bella e pittoresca composio: portanto deve-se escolher hum assumpto nobre, e que seja susceptivel de bom colorido, graa, belleza, instruco, recreio, etc.: escolhendo, para o compor, o mais bello de toda a Natureza, segundo o gosto dos antigos, e dos modernos que melhor os soubero imitar. A escolha das Invenes deve ser analoga aos lugares que ellas vo ornar. Nas Casas Reaes convem as aces dos Principes, e dos grandes Capites; convm triumphos, victorias, e outros assumptos capazes de levantar o nosso espirito a pensamentos heroicos, e a desejos de honra, e de gloria. O grande Artista pde, e deve ser grato aos beneficios que recebe da Patria, dos Principes, e dos grandes Senhores: e se Virgilio immortalisou os Romanos, Cames os Portuguezes, e Homero os Gregos; tambem Raphael teve poder para perpetuar a gloria de Julio II., e Leo X.; Lebrun a de Luiz XIV.; e o Ticiano a de Carlos V. Nos Consistorios ecclesiasticos, tem bom lugar a assembla dos Filosofos, ou o concilio dos Theologos; como fez Raphael no palacio Pontificio: mas nos seculares, no ser impropria a pintura do conselho dos Gregos para a expedio de Troya: a de Licurgo, Demosthenes, etc. Nos templos claros pode-se pintar S. Joo prgando turba; a absolvio da Adultera; a converso de S. Paulo; e outras passagens alegres: mas n'hum tribunal de Justia ser a proposito representar o juizo de Salomo; aquelles que se dedicro morte por amor das leis; e outros semelhantes. Nos jardins, ao p das fontes, no sero improprias as metamorphoses de Acteon, Arethusa, Salmacis, Narciso, e Egeria; mas entre os bosques Hippomenes, Atalanta, Meleagro, Marsyas, Apollo; os quatro tempos, e os mezes do anno; bailes de nynfas, e satyros; e tambem algumas perspectivas, e paizagens, com Cephalo, etc. Sobre as chamins das salas pintar-se-ha Prometheu furtando o fogo do Ceo, Hercules na pyra, Ascanio com a flamma nos cabellos, Vulcano, Phaetonte, Perillo, Scevola, Curcio, Meda, Ceres procurando a filha, e outras. Os corredores ou galerias abertas, sendo nobres como so as lojas de Raphael, ou o Claustro do Escurial, podem ser enfeitados com elegantes ornatos, e arabescos, compostos de aves, flores, fructos, medalhas de estuque, paizagens, perspectivas, folhagens, animaes, insectos, monstros, figuras humanas, e tudo quanto cria a Natureza, e a ida pde imaginar. As galerias interiores, bem pintadas, so como preciosos volumes, sempre abertos, e escriptos em huma linguagem universal, que todos entendem; onde vemos descriptas as proezas de Luiz XIV.; a proteco efficaz que elle concedeo s Artes e Sciencias; as aces de Francisco I.; e tantas outras cousas nobres, sublimes, e interessantes, executadas pelo Rosso, pelo Primaticio, pelo divino Raphael, por Le Brun, por Mignard, e por muitos outros sapientissimos Pintores. Rubens na Galeria do palacio de Luxemburgo, edificado por Maria de Medicis, tambem deixou em vinte e quatro paineis immortalisadada a vida daquella heroina. No primeiro, onde est representado o seu destino, apparecem as tres parcas fiando os bellos dias da futura Rainha, debaixo dos auspicios de Juno, e de Jupiter. No segundo est Lucina allumiando com a sua flamma as Graas da Princeza recem-nascida; e deposita-a entre as mos da Cidade de Florena: Os Destinos espalho sobre ella flores s mos cheias: o signo de Sagittario indica o tempo do seu nascimento: o Genio da felicidade, deixando ver a coroa, o sceptro, e as flores de liz, claramente manifesta que aquella menina nasce para ser Rainha de Frana. A Inveno dos outros quadros, que he igualmente poetica, e pittoresca, contm: a educao da Rainha: o ajuste do seu casamento com Henrique IV.: O casamento effectuado: o desembarque da Rainha em Marselha: a Cidade de Lyo, que lhe sahe ao encontro: o nascimento do Delphim: Henrique IV. se dispe a partir para a guerra d'Alemanha, em soccorro dos Marquezes de Brandeburgo, e de Neuburgo: coroao da Rainha como Regente: Apotheose de Henrique IV., e Regencia da Rainha: o seu governo: viagem militar da Rainha Ponte de C, para reprimir a guerra civil: a troca das duas Rainhas, Isabel de Frana, que casou com Filippe IV., e Anna de Austria, com Luiz XIII., em 9 de Novembro de 1615: felicidade da Regencia: maioridade de Luiz XIII.: fugida da Rainha do Castello de Blois, onde seu filho a tinha presa: a Rainha acceita a paz, e a conclue com seu filho: a mesma paz confirmada no Ceo: o tempo descobrindo a Verdade. Alguns destes assumptos so assaz triviaes, e parecem estereis; mas o grande e fecundissimo Genio de Rubens soube achar para todos as mais bellas imagens, que se podio desejar. SECO II.^a _Disposio._ A disposio he pr em boa ordem as idas achadas pelo genio da Inveno, a fim de compr com magisterio a scena de hum painel. Toda a composio he historica, allegorica, ou mixta: a que he historica tem por objecto representar hum facto, com as circumstancias allegadas pelos historiadores: a que he allegrica relata os acontecimentos metaforicamente; exprimindo debaixo d'hum vo figurado, hum sentido diverso da expresso literal: a mixta diz a verdade historica, ornada ou corroborada com alguma agudeza da allegoria, que lhe sirva de commento; e sem a qual no se poderia entender bem o que se quiz dizer. ARTIGO I. _Da Disposio relativa ao Grande Genero._ A Inveno, diz Du Fresnoy, acha os convenientes objectos; e a Disposio os arranja; mas a distribuio ha de fazer-se de sorte, que o tom, e a scena do quadro, primeira vista, inspirem a principal paixo no animo dos espectadores: isto he, que inspire alegria se o assumpto for alegre; ou que infunda tristeza, e horror, se for triste, e horroroso. As composies sejo conforme os textos dos bons escriptores, e segundo os tempos, costumes, e naes: a licena que Horacio concede aos pintores, e aos poetas, deve ter os limites, que elle mesmo prescreve; nada de sonhos, ou delirios extravagantes. Aquelles que quizerem fazer progressos na Pintura historica, devero familiarisar-se com os livros, que podem elevar as suas idas; para, nos seus vos, no se servirem de alheias azas, de que no conheo bem o uso, nem a fora. Quando se escolherem as attitudes das figuras, devem-se prever os effeitos e harmonia das luzes, e cores; para collocar tudo de hum modo natural, e vantajoso, e rejeitar o que pde fazer confuso: imitando a tragedia, irm da pintura, a qual emprega todas as foras da sua arte onde recahe o forte da aco. Para o Heroe, e para as principaes figuras, escolh-se attitudes cujos membros sejo grandiosos, amplos, e desiguaes nas suas posituras; de maneira que os de diante contrastem com os de traz, e todos sejo balanceados, ou equilibrados no seu centro commum. A principal figura apparea no meio do quadro, debaixo da mais viva luz, tendo alguma cousa notavel que a distinga de todas as outras; nem seja affrontada por alguma dellas. Os gruppos sejo separados por hum vacuo, para no fazerem confuso; evitando nelles repeties de fysionomias, e movimentos; ou tendencia para a mesma parte. Entre varias figuras de frente esteja tambem alguma de lado, ou de costas: advirta-se que o pezo da composio no penda para hum s lado. Evite-se o grande numero de figuras; mas se o assumpto o pedir, attenda-se primeiramente harmonia do todo, e depois se cuidar em cada objecto; cedendo o interesse de cada hum em particular ao bem commum de todos. As figuras, que estiverem atraz de outras, no tero graa se os movimentos das mos no forem perfeitamente de acrdo com as expresses dos semblantes. Evitem-se os escoros, as aces violentas, ou pouco naturaes, e tudo quanto for desagradavel vista; como linhas parallelas, ou figuras geometricas, que pela sua regularidade fao mo effeito nas composies; porque a boa composio he huma bella desordem. No vos sujeiteis tanto Natureza, que no possais fazer cousa alguma sem a ter diante dos olhos; nem a abandoneis de modo, que tudo pinteis de pratica, porque hum tal costume seria huma libertinagem anti-pittoresca. Quando o quadro tiver huma s figura, dever ella ser bellissima, e realada com vivas cores. As roupagens devem ter simplicidade, e natureza; tendo sempre atteno s qualidades das pessoas que as vestem: as dos Senadores sejo amplas; as das donzellas leves, e suaves; as dos rusticos grossas e estreitas. Para encadear as luzes, he preciso s vezes, relevar algumas dobras sobre espaos mais profundos. As divisas das virtudes, ou distinctivos das sciencias; os instrumentos de guerra, e dos sacrificios, pela sua nobreza, concorrem muito para o ornato das figuras; mas o ouro, e as joias sejo raros. Fuja-se dos ornamentos gticos; porque so outros tantos monstros produzidos nos seculos infelices. As paizagens, ou architecturas nos fundos dos quadros, sejo executadas segundo o costume e natureza do seculo, nao, ou paiz da scena. He mui difficil exprimir bem as paixes d'alma; nem ellas podem ser naturaes seno nas pessoas verdadeiramente apaixonadas: he onde o Artista as deve estudar. Fazei o maior esforo para dar a tudo muita graa, e muita nobreza; mas este dom dimana antes do Ceo, que dos estudos. Leonardo de Vinci tambem nos deixou muitos, e optimos documentos sobre a Composio. Quando souberdes, diz elle, esboar bem huma figura por todos os lados, aprendei a compr; e comeai por dois combatentes de igual valor, desenhando-os em varios aspectos, e em differentes attitudes; depois fazei o valente brigando com hum cobarde, tudo bem estudado: e aproveita-te das manchas casuaes das paredes, e dos marmores, que representem frmas de batalhas, e de outras cousas. Estes acasos suggerem muitas invenes fertil imaginao. Depois de conheceres bem as partes de cada membro, e a totalidade dos corpos inteiros, nota, e observa com diligencia os seus particulares movimentos; mas de modo que as gentes no entendo que as observas, para que no mudem de affectos: assim podes estudar a clera, a ira, a dor, a admirao, etc.; e tudo apontars no livro de memoria, feito de papel gessado, com ponteiro de prata; e depois o tirars a limpo para ser o teu mestre nas composies. Faze as figuras de modo, que entendamos pelas suas mos, olhos, sobrolhos, e por todos os gstos do corpo, o que nos querem dizer; como fario os mudos, ou os pantomimos para se explicarem: attendendo porm mais ou menos gravidade das pessoas que fallo, e natureza das cousas que nos dizem. O Principe, ou o sabio, tenho differena das gentes vulgares; com tanto, que os tristes sempre pareo mais ou menos tristes, e os alegres alegres. Nos gruppos misturem-se objectos de todas as sortes; mulheres, homens, moos, velhos, animaes, arvores, montanhas, edificios, etc., etc.; observando com tudo, que os membros e gstos d'hum velho sejo de velho, e os de hum moo sejo de moo: os dos gordos ou magros; preguiosos ou diligentes, sejo como convem a cada hum. No se misturem muitos rapazes com muitos velhos, nem moos com meninos, nem mulheres com homens, se a historia o no pedir. Faze poucos velhos, porque os velhos so mais raros; e separa-os dos moos, de cujo genio no gosto; e onde no ha uniformidade de costumes, falta a amizade, e esta falta motiva a separao: mas se o assumpto for de conselho prudente, fao-se poucos moos, porque no gosto de bons conselhos. Se hum fallar a muitos, em materia persuasiva, sejo os seus gstos apropriados mesma materia; mas, se tratar de cousa demonstrativa, tome com dois dedos da mo direita hum da esquerda, tendo os dois menores fechados: a boca esteja hum tanto aberta para parecer que falla; e o rosto voltado para o povo. Se estiver assentado, parea que se eleva hum pouco, direito, e com a cabea inclinada para diante; mas se estiver em p, tenha algum tanto o peito e a cabea inclinados para o povo; o qual povo tacito e attento olhe para o orador com actos admirativos. Se fizeres huma s figura, para evitar a critica da ignorancia, foge no s do escoro total, mas tambem dos parciaes; porm na multido, e principalmente em batalhas, faze-os de todos os modos. As cousas que fizeres n'hum quadro, no as repitas em outro. Faze tudo contraposto: o feio ao bello, o fraco ao forte, o velho ao moo. Observa o decro; isto he, a conveniencia da attitude, vestido, sitio, e as demais circumstancias das cousas que queres representar: hum Rei tenha o r magestoso, e esteja n'huma scena bem ornada; e os circumstantes estejo com reverencia e admirao: mas nos assumptos baixos seja tudo pelo contrario. As attitudes de hum menino, de hum velho, de hum moo, e de huma mulher, sejo todas diversas, e apropriadas, cada huma ao seu actor. O Cavalleiro Sir Josu Reynolds, grande Pintor de retratos, e tambem de historia, do ultimo seculo, ensinava aos seus discipulos que se em hum quadro de historia entrassem alguns retratos, devia ser de sorte que no parecessem retratos. Hum pintor retratista, lhes dizia elle, que quer fazer algum quadro de historia, e no est bem costumado, entra insensivelmente nas minucias, e d hum certo r de retratos s suas cabeas, como fazio os pintores gthicos, antes que as grandes idas fossem bem entendidas, e praticadas. Hum pintor historico pinta o homem em geral; o retratista imita hum particular, e por consequencia defeictuoso modelo: por tanto, a pratica habitual em algum dos ramos menos elevados da Arte, pde ser hum obstaculo para possuir perfeitamente o mais sublime. A variedade he huma das cousas mais recommendadas pelos authores: com tudo, dizia Claudio Coelho, e dizia bem _que estando j todas as bellas attitudes achadas, e executadas pelos melhores artistas, nem por isso deveriamos escolher as ms, para evitar as repeties_. Gerardo Lairesse, chamado por antonomasia o Raphael Hollandez, diz que o Artista, para bem compr, deve ter a mo prompta, e obediente; boa memoria, e bem exercitada; juizo so, e cultivado. Quando occorrerem boas idas, no se demre a execuo; para evitar o pesar do esquecimento. Em hum lugar tranquillo traaremos o plano, e o horisonte do painel, e marcaremos com linhas os lugares, e as grandezas, que devem ter as figuras, e os outros objectos, que occuparem o primeiro e o segundo pavimento. Recomearemos depois pela figura principal, considerando qual he a paixo que lhe compete, a attitude que deve ter, e o que devem fazer as outras; se voo, se correm, se ando, ou se esto quietas; como recebem a luz; de que sorte devem contrapr, e destacar; e tudo isto se delinear sobre outro papel. Comearemos terceira vez a examinar quaes corpos devem ser ns, ou vestidos; quaes tero nobre caracter; quaes commum; para depois passar eleio das cres locaes. O Pintor no deve ser plagiario; nem contentar-se com ser menos que Raphael. Faa-se hum esquisso, bosquejo, ou rascunho da historia que se quer tratar; e depois leo-se os melhores historiadores, que sobre ella escrevero: e aponte-se no esquisso o que tiver esquecido. Note-se depois o paiz, o mez, e a hora em que se passou a aco, para abrir, ou apertar mais a luz, e enriquecer o fundo. O fim da aco deve-se collocar no primeiro pavimento, e o principio della nos longes. Indicai tudo no esquisso, e tornai a ler vinte vezes o vosso assumpto. Cada dia pela manh imaginai que sois algum dos actores, e que estaes transportado ao lugar da scena: marcai logo os gruppos, e as attitudes; escrevendo o nome de cada personagem. Ponde o here no centro do quadro, e em lugar superior. O maior defeito que pde ter hum painel, he o de no deixar ver logo qual he o assumpto que representa. Se hum orador que quizesse louvar Alexandre, empregasse as mais bellas figuras da Rhetorica para elogiar o Bucfalo, seria bem mo compositor. De ordinario ha no quadro tres pavimentos: no primeiro, que he luminoso, esto os principaes heroes; o segundo he sombrio; no terceiro, outra vez claro, estaro os objectos menos importantes: colloquem-se as grandes figuras atraz das pequenas: a luz opponha-se sombra, ou ao menos cr sombria. Isto feito, fazei novo esquisso: desenhai os ns do natural, e as roupas de manequins, o mais acabado que fr possivel, dando a cada objecto particular a mesma luz geral de todo o quadro, e os mesmos pontos de vista, e de distancia. Os desenhos, e estampas so utilissimos para ver, e examinar como os grandes mestres soubero fecundar, e enriquecer os assumptos, que parecio mais estereis, e pobres. O assumpto heroico deve ser nobre, e grave; o jocoso engraado; as bambochatas carregadas. Em hum grande concurso devem haver diversas frmas de corpos, e varias propores. A paixo do here faz nascer muitas: quando hum Filosofo discorre, os discipulos attendem. Deve-se imaginar, e indicar em cada actor, a aco precedente, a actual, e a consequente. Pinte-se o que he honesto, e capaz de inspirar virtude; e fuja-se do que for lascivo, e cruel. Entre os bons escriptores da Arte tem Joo Paulo Lomazo hum dos primeiros lugares; e l-se nos seus escriptos que o famoso Leonardo de Vinci querendo pintar em hum painel muitas figuras rusticas, e alegres, convidou huns poucos de camponezes engraados; e em quanto elles comio e bebio foi-lhes contando as cousas mais loucas e ridiculas do mundo; de modo tal que os fez rir desatinadamente: elle observou tudo; e pintando-os depois com os mesmos gstos e attitudes, provocava tanto a riso a pintura, como os mesmos originaes. Passando depois aos preceitos, diz. O movimento interno he motivado pelas paixes da alma; e o movimento externo, que exactamente lhe corresponde, faz conhecer que paixes so: por elle se conhece o que est triste ou alegre, morto ou vivo; por elle se distinguem o louco e o sabio; o humilde, e o soberbo. O conhecimento deste movimento he tido na Arte por cousa mui difficil, e estimado como hum dom celeste: este he o furor pictorico com que deve nascer o Pintor; mas este furor ou enthusiasmo ha de ter huma medida tal, que no toque no fogo da impaciencia, nem no gelo da extrema regularidade. Os movimentos naturaes so engraados, e os contrafeitos so desengraados; mas as mesmas paixes fazem effeitos varios em diversas pessoas segundo os seus temperamentos: os movimentos do melancolico, que he trreo, sero pendentes e acanhados; mas o colerico todo se retorce, como o fogo de que he composto. Todo o corpo concorre para a expresso das paixes; mas principalmente os olhos, que so como as janellas da alma: elles mostro o prazer, o abatimento, o enfado, a severidade, a amenidade, a colera, a admirao, etc. etc. Depois dos olhos e do rosto, as mos so as servas, e as interpretes da alma: os seus infinitos movimentos explico o desejo, a esperana, a supplica, o horror, os ameaos, e tantas outras cousas: com as mos tememos, perguntamos, approvamos, recusamos, duvidamos; e podemos concluir que assim como as mos supprem nos mudos a falta da voz articulada, tambem no devem contribuir pouco para fallar huma linguagem muda, qual a da Pintura. No se pdem dar regras precisas para exprimir todas as paixes, e para as variar sempre; porque a obra seria infinita. Quintiliano he de parecer que, a pesar da sua difficuldade, pde-se achar hum caminho que nos conduza a esta parte importantissima da Pintura, e da Rhetorica; e que este caminho he, como j dissemos, o estudo da Natureza. _O Domenichino, que foi optimo nas expresses, estudava-as diante do espelho, depois de entrar elle mesmo nas paixes que queria imitar_. Horacio he tambem de parecer que os movimentos se exprimiro muito melhor, e sero mais naturaes, se o Poeta, (ou Pintor, que neste caso he o mesmo) imaginar que se acha no mesmo estado, em que se deverio achar as pessoas verdadeiramente apaixonadas. He preciso, diz tambem Quintiliano, que sejamos os primeiros a sentir huma paixo, se quizermos commover os coraes alheios: mas como? Formando-se fantasmas, e imagens das cousas ausentes, como se effectivamente as tivessemos diante dos olhos; e aquelle que conceber mais vivamente aquellas imagens, exprimir melhor as paixes. Entre os mais celebres escriptores da Arte ha hum Portuguez, de quem os estrangeiros se tem aproveitado, e ns apenas conhecemos: he Francisco de Hollanda, que foi Pintor d'El-Rei D. Joo III. Queixava-se elle, no seu livro, de que em Portugal no se dava a devida estimao Pintura, por culpa talvez dos Pintores, que se contentavo s com a mantena, ou no sabio exerce-la com primor. Para remediar em parte aquelles inconvenientes, aponta algumas advertencias, e faz discretas observaes. O Pintor para ser perfeito ha de ter, diz elle, o genio dentro em si mesmo, como a semente tem o fructo. Na puericia o deixar ver; na adolescencia exceder os outros, e sonhar com pinturas. Deve ter espirito magnanimo; porque sem elle nunca far obras sublimes: ha de estudar muito o _Antigo_ para a grande inveno, graa, decro; e escolher do melhor o optimo, sem confuso; ha de evitar os grandes defeitos, (que os pequenos passo bem) e fazer os erros com o maior acrto possivel. A nobreza, e propria casa da Pintura he saber reunir bem a natureza dispersa, e rejeitar o que no convem; e se esta escolha for bem feita, ter feito com isso a melhor parte da obra. Antes de comear a empreza ha de ter a ida da obra, como vista em sonho, e pintada na fantasia. As figuras no occupem confusamente toda a taboa; mas fiquem intervallos para darem despejo e clareza obra; e para os olhos dos espectadores descanarem. As attitudes sejo graves e modestas; e que humas figuras no damnem as outras, (antes se possa pr, que tirar alguma cousa) e todas fao com efficacia os seus officios. He necessaria tanta arte para fazer bem as figuras ociosas, como as occupadas. O menimo seja rolio, o mancebo ousado, o velho prudente, o doente languido, o morto hirto; o que corre parea que corre, e o que anda parea que se move. Faa as idades, physionomias, cores de carnes, movimentos, mos, ps, tudo diverso e contraposto; hum de perfil, outro de costas; este voltado para baixo, aquelle para cima; aquell'outro deitado, escorado, etc. Figuras escoradas sejo as menos possiveis. As roupas, os edificios, e os outros accessorios sejo os que competem ao assumpto; mas no parea que se poz alli todo o saber. Se o assumpto, ou imagem for triste, no o representemos em jardins, ou scenas alegres; antes parea que os mesmos brutos, arvores, penedos, e at os Ceos sentem a sua tristeza. A dr da pessoa aflicta no se mostre com lagrimas; mas no semblante angustiado, no vestido, na solido. O doente no parea so, nem o morto semivivo, nem o que dorme acordado: escolha-se de tudo o mais formoso, e grave para se imitar; encostando-se sempre ao _Antigo_. O primor da Pintura consiste tanto no que se faz, como no que seno quiz fazer; antes no que deixou de fazer se conhece melhor o grande pintor, assim como o ignorante em encher tudo de arvoredos, rios, caminhantes, castellos, cidades, e paizagens: o mais santo, e louvavel he fazer poucas figuras, pouco rumor de paizes, menos ainda de edificios; mas o pouco seja tal que valha mais que o muito: porque este he o fazer de avisado e gravissimo mestre, e o outro de obreiro e aprendiz. O que dizemos do total, appliquemos tambem a cada particular objecto: nelle no se faa cousa que se no desejasse ver da maneira que est feita; porque esta he a admiravel doutrina da Arte. O mesmo Author escreveo certas maximas sobre o que se deve seguir, e o que se deve evitar na Arte da Composio. Para seguir: Despejo de pouca obra; formosura bem escolhida; decro; deixar de fazer muitas cousas; bello r em todas as cousas; diversidade nas figuras; ousadia nas sombras; antigas, e escolhidas novidades; escolha de architectura; n perfeito, e honesto; bons pannos; bom encaixe de pescoo; mos to boas como o rosto; ps to bons como a figura; bons animaes; bons cavallos; gravidade, e magestade; etc. Para evitar: Affectao; confuso; muita obra; fealdade; desproporo; desr nas figuras; rostos repetidos; o muito vulgar; mos ns; muito panno; ms mos; pouca reverencia; indiscries; etc. Rugrio de Piles, amigo de Carlos du Fresnoy, e o melhor commentador do seu poema de _Artegraphica_, tambem enriqueceo a biblioteca da Arte com doutas observaes suas: A boa disposio, diz elle, forma os gruppos; e o verdadeiro modo de gruppar acha-se em Raphael, Julio Romano, Polidoro, e outros grandes mestres. A escolha das bellas attitudes faz a maior parte das bellezas do gruppo: a contraposio faz o resto. Deve haver contraste no s nas figuras, mas tambem nas cousas inanimadas; havendo em todos os objectos huma opposio de linhas, e contornos, pela qual elles se fao valer huns os outros, e augmentem a graa, que he to necessaria em tudo. O modo de deitar as prgas tambem pertence composio dos gruppos: o primeiro requisito das roupas he que indiquem o que ellas cobrem, de sorte que se conheo as propores, e a elegancia das frmas das pessoas, que as vestem; por tanto convem que antes de vestir a figura se desenhe toda na. As dobras que se encruzo com os membros do corpo no pareo, por fortes, to profundas que posso penetrar as carnes. As pregas sejo poucas, e grandes; mas se alguma vez se fizerem miudas, siga-se a maxima dos antigos, que em tal caso as collocavo aos lados dos membros, e no em cima delles. As grandes no s ho de contrastar o n, mas tambem humas as outras, para terem vida, e movimento: a contraposio he huma especie de guerra, que anima tudo; mas he necessaria muita prudencia, principalmente nas figuras em p, aonde as contraposies so muitas vezes inverosimeis, porque o peso da roupa a faz cahir direita. A ordem das pregas, sendo hum effeito dos movimentos do corpo, tambem d vida aos mesmos membros, que parecem move-las: huma discreta repetio de pregas, em ordem circular, ajuda muito o bom effeito dos escoros. As roupas devem-se sempre estudar do natural: as do manequim parecem immoveis, e he preciso que se lhes tire aquella apparencia: os pequenos figurinos vestidos de papel molhado podem servir para o todo de huma composio, e no para cada objecto de persi. Leo Baptista Alberti affirma que no compr, ou distribuir bem os objectos consiste todo o engenho. A varidade deleita tanto a vista, como o ouvido, e o paladar. Os espectadores n'hum quadro, inda que estejo quietos, exprimo os seus sentimentos. A cabea, a fronte, e todos os membros do que est triste descahem. De sete modos se inovem os corpos: para cima, e para baixo; para a direita, e para a esquerda; para diante, e para traz; e em fim girando ao redor: todos estes movimentos entrem nas composies: huns vo, outros venho. Os movimentos sejo naturaes e suaves: os artistas fogosos cuido que as attitudes violentas so mais vivas, e engano-se. Os cabellos, e as roupas tenho tambem os sete movimentos; mas os ramos das arvores, agitados pelo vento, correndo todos para a mesma parte, so bellissimos. Quando quizeres compr, pensa, l, esquissa, modla, e pede conselho aos amigos _e talvez aos inimigos, porque no lisongeo_. O Pintor deve ser bom, honesto, civil, e douto nas bellas Artes; deve ler poetas, historiadores, oradores, e sabios, para poder bem inventar. A aco, diz o Raphael Francez Nicolo Pusinno, he a voz da Pintura; sem ella no ha persuaso. A Arte sublime requer quatro cousas: 1.^a materia ou argumento: 2.^a conceito: 3.^a estructura ou composio: 4.^a estilo. O Argumento deve ser grande, heroico, e delle se devem desterrar as cousas miudas. Conceito he hum pensamento alto, elevado, como o de Homero para o seu Jupiter, que s com o pensamento _movia a terra, o Ceo, e o mar irado_. A composio seja natural, e no exaggerada, ou extravagante. O Estilo he hum modo particular de pintar procedido do genio de cada hum, e que nasce naturalmente do seu engenho. Muito agrada a novidade na Pintura; mas esta novidade no consiste em achar assumptos ou motivos novos, seno em compor os antigos por novo modo. Se o Pintor quizer que o admirem, no se faa estranhamente singular; mas procure fazer tudo com prudencia, e perfeio. A composio de hum quadro (diz Richardson) he de grandissima consequencia; he a primeira cousa que se apresenta nossa vista, e que nos pde prevenir em seu favor, ou desgostar-nos delle; por tanto, as figuras de hum painel, e os seus fundos, devem compr massas de luz, e de sombra, que mesmo de longe, sejo gratas vista. Em cada painel ha de haver hum sitio mais rico, e brilhante; e alli he o lugar da principal personagem, e da aco mais notavel, aonde tudo deve ser mais bello, e bem acabado. Os outros objectos sejo todos subordinados a este; mas cada hum delles ha de ter huma parte que domine as outras, e se deixe logo ver. Se o Pintor fr obrigado a collocar alguma das figuras principaes a hum lado, e em meia luz, faa-a distinguir pela cr viva do vestido, como fez o Ticiano no Bacco e Ariana; ou de outra maneira discreta, e artificiosa. O Pintor deve saber perfeitamente a historia que quer pintar, e meditar depois se pde accrescentar algum incidente de sua inveno, que no seja inverosimil. Pde tambem s vezes (mas raras vezes) apartar-se da verdade natural, e historica, como fez Raphael, muito discretamente, no Carto da Psca miraculosa, onde pintou huma barca muito pequena, proporo das figuras, a fim de no encher o painel com hum barco, ou de no fazer as figuras pequeninas; cousa que tornaria a composio mesquinha: tambem se apartou o mesmo author da verdade historica, no outro Carto do Paralytico, aonde a architectura da entrada para o Templo he de sua inveno, e no como consta que ella era; mas aquella licena foi muito feliz, porque deo hum r mais nobre, e magestoso a todo o painel. Estas excepes da regra so permittidas; mas poucas vezes. Cada painel historico ha de representar hum unico instante de tempo, e seja quelle que for mais vantajoso. Nenhum objecto, por excellente que seja, interrompa a atteno devida ao here. No se introduzo figuras, ou ornamentos superfluos; antes pelo contrario, conceda-se alguma cousa imaginao, e ao desejo dos espectadores. Em tudo haja grande variedade. Bardon affirma que o pittoresco de huma composio consiste em huma singular, e exquisita escolha dos effeitos da Natureza, ajudada pelo gosto, e espirito sustentados pela razo. O Heroe do quadro deve brilhar alli, como hum monarca entre os seus cortezos, e attrahir as vistas do espectador por algum accidente de luz, ou particular effeito de cr; ou tambem por alguma privao da mesma luz, manejada com arte. O Pusinno, e Paulo Veronez modelavo a composio inteira, giravo ao redor della, e escolhio o ponto de vista, e o aspecto mais vantajoso, para o seguir, e imitar. A luz principal deve ser unica; mas para que o effeito do quadro no parea de lanterna, ou luz de noite, hajo alguns reclamos della nas principaes partes da composio; sempre em marchas diagonaes. Andr Felibien, tratando da composio, inculca como o mais raro e perfeito exemplo desta parte essencial da Arte, o precipicio dos gigantes pintado por Julio Romano no palacio do T. Como Julio era tambem o architecto daquelle palacio, mandou fazer o salo redondo, e lizo como hum forno: os mesmos alizares, e a chamin, ero feitos vontade da pintura. Toda a casa parecia hum s painel representando huma vasta campina por onde muitos gigantes levo montanhas s costas, e vo colloca-las em cima d'outras para dar hum assalto ao Olimpo. A derrota comea: os gigantes maiores esto no primeiro pavimento j prostrados por terra: alguns jazem debaixo das montanhas; e Briaro est quasi todo soterrado. Pelo rto de huma gruta se avisto muitos ao longe, que fogem amedrontados, e so colhidos pelos raios de Jupiter. No mesmo tempo, os templos, e os grandes edificios cahem arruinados em cima de outros; ficando a chamin, entre paredes e columnas precipitadas, fingindo parte da ruina; e to artistamente executada, que quando se accende o lume, parece que ardem os gigantes, e que he huma boca do inferno, por onde Pluto, em companhia das Furias, se vai precipitar no Tartaro. Quando se compe, deve-se deixar o genio em plena liberdade; e s depois de feita a composio he que se ha de consultar a natureza; e depois o _Antigo_, para emendar por elle os defeitos do natural. He preciso variar todos os objectos, mas sem violencia nem affectao: ha de parecer que as figuras se collocro por si mesmas; e nisto consiste a graa da _disposio_. Antonio Rafael Mengs, a quem os artistas modernos chamo o Raphael Alemo, ensina que o Pintor, antes de comear qualquer composio, deve-se fazer senhor no s daquella passagem historica que quer pintar, mas tambem de toda a historia que lhe he relativa, para conhecer perfeitamente as indoles de todas as personagens que ha de pr na scena; o que se no poderia fazer com muito acerto sem as conhecer a fundo, e sem saber com quaes vistas se movo a aco; por que se deve manifestar, na pessoa que a est fazendo, e na sua fysionomia, o seu proprio caracter, e qual seja o motivo porque a faz. He preciso tambem transferir-se ao tempo, ao lugar, e aos usos das gentes que se represento; e dar-lhes os vestidos proprios das suas naes, e dos seculos em que vivero, ou seno constar bem, ao menos os das naes com quem tratavo, ou donde procedio. Em quanto s contraposies nas figuras, siga-se como regra geral, que, se hum brao avanar, a perna daquella parte, e o outro brao devem recuar: os dois braos nunca ho de avanar, porque ninguem poder recuar ambas as pernas sem cahir: a cabea incline-se para a parte do brao levantado, e volte-se para onde a mo estiver mais avanada: nenhum membro deve formar angulo recto; nem dois membros ho de ser reciprocamente parallelos. Huma das mos nunca se deve achar defronte da outra; e nenhuma extremidade esteja na mesma linha vertical, ou horisontal de outra; nem se encontrem duas mos e hum p, ou dois ps e huma mo, collocados em linha recta. O gruppo he huma unio de figuras que se ho de encadear humas com outras, e em numero impar; como 3, 5, 7, ou ao menos seja composto de dois numeros impares como 6, 10, 14.[9] A composio do gruppo seja piramidal, mas de planta redonda, _como huma fogueira_: as grandes massas ho de estar no meio: os lugares das figuras formem linha curva, e no recta: no concorro duas cabeas na mesma linha horisontal ou vertical: os dois braos ou as duas pernas da mesma figura nunca tenho escoro igual; e a que nos mostra a palma de huma das mos, deixe ver a costa da outra. Appareo as partes mais bellas dos corpos, como as juntas, o pescoo, as espaduas, os cotovelos, pulsos, joelhos, costas, e peitos; e isto por dois motivos; primeiro, porque nas extremidades, e articulaes pode-se deixar ver muita expresso, e muita sabedoria; segundo, porque os peitos e as espaduas so as partes mais grandiosas do corpo, e as mais capazes, por isso mesmo, de reunir no gruppo grandes massas de luz, e de cr agradavel, qual he a das carnes. Nas mulheres, todas as partes nuas, que se podem ver honestamente, so mui gratas vista; mas algumas, como os peitos, parecem mais bellas no estando de todo descubertas. Quando se combino varios gruppos tambem devem ser em numero impar, ou hum inteiro no meio do quadro, e duas ametades aos lados. A figura mais nobre esteja sempre no do meio, e as mais notaveis aproximem-se ao here; mas este esteja no segundo pavimento, e no no primeiro, para ser como o centro no circulo dos espectadores. A tortuosidade na planta do gruppo, pde ser concava, ou convexa; porque de ambas as sortes se pde collocar no meio o objecto principal, e o mais brilhante. Inda que se deva fazer alardo das mais bellas partes, evitem-se com grande cuidado as rplicas; porque sem a variedade no ha agrado. Quando fr possivel, meto-se na composio pessoas d'ambos os sexos, e de todas as idades; o que produzir huma varidade muito grata nas expresses, e nas aces. Corregio distribuia assaz bem os gruppos; mas dispunha-os antes para produzirem bellas massas de clar'escuro, que para exprimir quaesquer affectos. Foi admiravel nos escoros, e he de crer que fazia figurinos de cera para todas as composies dos tctos, a fim de poder observar bem os contornos, e o clar'escuro das figuras escoradas; e este era o forte da sua composio. Fugia de deixar ver nos corpos que pintava, as partes rectas; e tanto, que raras vezes fez cabeas que no fossem vistas debaixo, ou de cima; e nunca de frente. O mais egrgio Pintor cujas obras se conhecem, Raphael, foi no s sublime, mas singular na composio; e esta he a parte da Pintura em que foi mais sabio. Elle a inventou; porque nem entre os poucos quadros antigos que pde ver, nem entre os modernos, achou perfeito modlo para imitar. A principal cousa que se deve observar em hum quadro he a inveno; isto he, a expresso verdadeira de hum assumpto: e nisto no teve igual. Nenhuma das figuras que elle poz em scena poderia servir em assumpto de diversa expresso. O pensativo, o alegre, o melancolico, o colerico, todos se acho na sua competente situao: nem a expresso perfeita se acha s em cada figura; mas todas ellas, e os episodios, correspondem perfeitamente paixo da principal personagem. Mostrou grandissimo talento na variedade com que soube exprimir huma grande paixo, fazendo s vezes intervir muitas figuras em hum movimento parcial; e isto no por acaso, ou por encher o quadro, mas pelo pedir assim a fora da expresso. Nos seus quadros ha de ordinario muita variedade de cousas, sem contradies; paixes violentas, sem deformidades; mostrando a expresso algumas vezes, at no movimento de hum dedo, e no effeito que fazem as paixes sobre as partes tendinosas, e aponevroticas. Muitas cousas que em outros serio defeitos, ero nelle grandes bellezas pelo modo com que as accommodava. Entre hum quadro de Raphael, e o de qualquer outro Pintor ha a mesma differena, que haveria entre hum here como Alexandre, e hum comediante que o quizesse representar; e isto, porque os outros toco algum dos extremos nas attitudes, e nas expresses; mas Raphael dava s suas figuras os proprios movimentos da alma: para esse fim seguia huma pratica diversa do costume. Os Pintores pem ordinariamente toda a sua atteno nos gruppos, e na composio de cada figura, segundo as contraposies, e as regras da Arte; porem elle comeava por figurar na sua mente o total da sua historia, e todos os objectos que poderio concorrer para a expresso geral, e depois he que tratava de cada figura em particular, elegendo os membros que havio de cooperar, segundo as paixes do animo; deixando mais ou menos quietos os que nellas no tinho parte: observando o caracter de cada figura; porque hum Apostolo, ou hum Filosofo no se ha de mover como hum soldado, nem huma honesta donzella como huma meretriz. Assim he que demonstrava, tanto as paixes internas que se indico pela testa, olhos, nariz, boca, dedos; como as externas que movem o corpo todo; porque o seu excesso no admitte moderao. Nunca fazia as aces completas; porque, se hum homem que caminha no tem acabado de formar o passo, est em movimento, tem vida, e sabemos o que faz; mas se tivesse acabado o passo no saberiamos o que tinha feito nem o que hia fazer. O Pintor de Urbino tinha de mais a louvavel facilidade, e huma certa negligencia apparente, to difficil de conseguir; como tambem a arte de occultar com felicidade hum membro, huma mo, hum p; ou para no mostrar partes ociosas, ou para no affrontar as partes principaes, ou em fim para evitar o mo effeito que poderio alli fazer. A composio he em geral de duas especies; a expressiva, e a de grande effeito: nesta, que he mais propria para as grandes maquinas, como cupulas, tectos, etc. foro excellentes o Corregio, o Lanfranco, Pedro de Cortona, e Lucas Jordo; ella agrada muito, e a muitos. Em quanto expressiva, que sem duvida he a mais sabia, bella, e difficultosa, nenhum chegou a Raphael; mas o Domeniquino, e o Pusinno approximaro-se muito. Se n'huma composio Raphael fizesse as figuras, Pusino o fundo, e Domeniquino os rapazes, seria ento perfeitamente expressiva. Bem se v que a parte principal toca a Raphael, e que elle por consequencia, foi na expresso o maior de todos os Pintores. O Abbade Joo Baptista Dubs, nas suas _Reflexes criticas sobre a Pintura_ deixa ver em muitos lugares, que pouco entendia da Arte; mas como era sabio, e tinha lido bons authores, diz tambem algumas cousas attendiveis. Elle observa que ha assumptos excellentes para a Poesia, que nem por isso so bons para a Pintura. A historia Sagrada, a Grega, e a Romana fornecem assumptos pittorescos, e interessantes; assim como a historia Franceza ser bem acceita em Frana, e a Portugueza em Portugal. O sacrificio de Efigenia no he proprio para figurinhas de huma paizagem. Venus, e as Graas no se devem fazer colossaes. Le Brun servio-se bem da allegoria mixta quando pintou Luiz XIV. em hum carro, guiado pela Victoria, atropelando as Cidades e os Rios da fronteira Hollandeza. A Hespanha, querendo suspender-lhe a marcha; recebe alguns tiros, e deixa cahir a mascara. A prudencia em taes composies he mui precisa; porque nada faz dizer tantas tolices como o excessivo desejo de parecer discreto, e sabio. Claudio Watelet comps hum elegante poema sobre a Pintura: Publicaro outros dois, o Abbade de Marsy, e o Panegyrista de Pedro Mignard: todos tres fallaro muito bem na _composio_; mas como o que sobre ella discorrero se encontra com o que j temos dito, ou vamos dizer, no augmentaremos este volume com inuteis repeties. Pelo mesmo motivo omittiremos tambem o que a este proposito dissero Le Comte, e outros muitos. Daniel Webb, era mais versado nas letras humanas, que practico nas boas artes: em Roma frequentou a casa de Mengs, e aproveitou-se dos seus dictames: apesar disso, a sua doutrina, inda que corroborada com sentenas de authores gravissimos, no carece de sofismas. Elle diz que a Historia pintada tendo muita correlao com o Poema dramatico podemos alli considerar a scena, e a poesia. A excellencia da primeira consiste em huma agradavel disposio das figuras que compe a aco. Se de noite, prosegue elle, levantarmos os olhos aos Ceos, a nossa atteno no ser attrahida por algumas estrellas espalhadas c, e l; mas recahir logo sobre aquellas que esto gruppadas em constellaes; e por esse motivo as composies bem gruppadas de Lanfranco, e do Cortona, agrado muito mais, que as dispersas do Domeniquino; inda que este fosse maior Pintor que os outros. Francisco Xavier Lobo, Pintor Lisbonense, do ultimo seculo, era amigo de pensar, e dado leitura e especulao da Arte: elle escreveo alguns dialogos criticos sobre a Pintura pratica, e especulativa. Authorisa-se com Leonardo de Vinci para exigir que o Pintor historico nenhuma cousa ignore do que pertence Arte; porque no painel se ha de achar tudo; figura, architectura, paizagens, fructos, flores, etc.: e por isso aqui fallarei, diz elle, do que alguns estranharo que eu falle Quando o Pintor distribuir as figuras na sua composio deve lembrar-se logo das luzes, e cres que lhes ha de dar; dando-lhes attitudes, e movimentos taes, que no embaracem o effeito do clar'escuro. He evidente que huma cabea voltada contra a luz no faz o mesmo effeito que voltada para ella. O objecto principal no se ponha da parte da sombra. Nas figuras vestidas parea sempre que ha algum r entre a carne e as roupas; mas nas Santas Imagens deve-se usar isto com muita moderao para que no pareo danarinos; antes inspirem affectos de devoo. Tem muitos authores feito os seus paineis seguindo dois pensamentos, ambos possiveis; hum de romper com claro por detras de algum corpo escuro que esteja no primeiro pavimento; isto he, logo na entrada do painel; outro de dar a fora da luz nesta mesma entrada, e hir por degraos abatendo os claros para o fundo: o primeiro me parece bom; o segundo melhor; porque, no affecta sabedoria de arte. Bento Coelho foi sem duvida hum grande compositor; e com tudo, so raros os seus quadros que tenho figuras tenebrosas na entrada, as quaes muitas vezes parece que furo e recorto o painel. Atqui o nosso Lobo; mas a passagem parece-me digna de algumas observaes. O escuro, diz Mengs, he melhor que o claro para se pr adiante; porque, alm de outras razes muito attendiveis, por muito claros que se fao os objectos pintados, sempre parecero fracos, e pouco brilhantes, em comparao da luz natural; e por isso, os habeis artistas sempre fizero alguma massa escura no primeiro pavimento. Estas regras porm, tem como todas, bastantes excepes. A regra mais universal que se possa seguir, he, segundo me parece, que no primeiro pavimento ha de a fora da massa ser toda opposta ao tom do fundo do quadro: se o dito fundo for claro destacar bem, e parecer visinha a ns huma massa escura; com tanto que seja moderada, e suave nos contornos; mas se o fundo fosse escuro, hum corpo tambem escuro, inda que estivesse no primeiro pavimento, pareceria estar mui longe, e no faria effeito algum. Bento Coelho, que fazia os fundos quasi pretos, punha sempre o branco no primeiro pavimento, o vermelho ou amarello no segundo, e assim hia degradando. Raphael usou tambem pr os brancos, e os maiores claros adiante do painel, ainda mesmo quando os fundos no ero muito escuros; o que se pde ver na Transfigurao, na Batalha de Constantino, na Escla de Athenas, e em quasi todas as suas composies; mas os Venezianos, e muitos Francezes, como Le Brun, em algumas batalhas de Alexandre, e no Triunfo de Jerusalem, tem posto a diante corpos sombrios; o que sendo feito em paineis de muitas figuras, e com sabio artificio, facilita muito o bello effeito do todo. D. Jos Nicolo de Azara diz que a Composio he a arte de bem collocar as partes que compe hum todo. O Poeta pde representar a sua aco em varios pontos; mas o Pintor s pde escolher hum unico ponto em toda a aco, e nelle ha de representa-la precisamente e quasi concentra-la, sem tratar do que o precede, ou do que o segue. Este ponto deve ser o mais essencial da historia, pelo qual se entenda facilmente o resto; e, como dizia Mengs, a historia ha de se explicar pelo quadro, e no o quadro pela historia. Por expresso entendo a arte de patentear convenientemente os affectos por meio de toda a sorte de sinaes exteriores. A unio da alma com o corpo, he tal, que no pde nella haver movimento algum, que no excite nelle o seu movimento correspondente. Devendo pois o Pintor dar aco s suas figuras, estas devem exprimir nos seus semblantes, e em todo o resto dos seus corpos aquellas alteraes, que so proprias das paixes que lhes suppomos; rejeitando porm as que prejudicario a graa e a belleza, ou fazendo-as de hum modo agradavel, visto que, entre os extremos de todas, ha hum grande numero de gradaes mais ou menos violentas. O Laoconte, e seus filhos, exprimem a mais dolorosa situao, que a humanidade possa soffrer, sem prejudicar com os seus gestos, e convulses a belleza das formas: deixando-se ver no pai, huma grande alma superior sua desgraa; e nos filhos, que sentem iguaes dores, e pedem soccorro ao pai sem movimentos, que desfigurem a belleza de seus corpos, e sem faltar no mesmo tempo fora da expresso. O gruppo da Niobe he outro exemplo da nobre maneira, com que os Gregos exprimio as situaes mais violentas sem alterar a formosura dos seus objectos: cousa verdadeiramente grande, e difficil! Os Gregos possuio esta arte com tal magisterio, que nas suas estatuas, parece que elles no se occupavo com a expresso; porque lhes davo sempre hum tal repouso, que mostro toda a belleza sem alguma alterao; e com tudo, cada huma diz o que deve dizer, pois que hum suave e doce movimento da boca, dos olhos, ou smente a aco, exprime o affecto, encantando a alma, e os sentidos. Entre os modernos houvero muitos que s tinho por expressivas as figuras espritadas; fazendo com muito trabalho muito pouco effeito. O celebre Winckelmann observou que os antigos tinho adoptado duas regras principaes de _Composio_, das quaes nunca se affastavo, primeira a economia das figuras, segunda a moderao nas suas attitudes. Em quanto primeira, parece que a regra de Sophocles de nunca pr na scena mais de tres figuras, era tambem a regra dos Pintores. Os Antigos sabio exprimir muito com pouco. Theon pintou a lucta de hum s guerreiro contra muitos adversarios, sem pr no painel mais que o heroe. Do baixo-relevo de Meleagro, e de varias pinturas d'Herculano, consta que elles sabio bem gruppar quando lhes convinha; mas no gostavo da confuso: tambem conhecio o contraste ou contraposio, como os poetas, e oradores conhecio a _antithesis_; mas fazio-a natural, como nascida do seu assumpto, e no como filha de hum grande esforo do genio, como fazem muitos artistas d'agora, para os quaes o contraste he tudo, e desculpa tudo. As Personagens d'huma composio devem, em primeiro lugar, ser discretas, e tranquillas; e no ho de ter movimentos violentos, e convulsivos, como as do celebre La Fage: segundo no se ha de nella introduzir cousa alguma que seja inutil, ou ociosa: terceiro tudo deve ser diversificado, sem repetio de movimentos, attitudes, etc. Aquelle que escrevendo ao seu amigo, lhe dizia Eu no tenho tempo para me exprimir mais laconicamente sabia bem, que o pouco, e bom, he mais difficil, que a grande superabundancia. Tiepolo[10] fazia mais em hum dia, que Mengs em huma semana; mas a obra de Mengs, inda que menor em quantidade, valia mais. O Juizo final de Miguel Angelo, e a Batalha de Constantino de Rafael, so duas grandes esclas de _Composio_. A m distribuio dos objectos conduzio o Caravagio, e o Hespanholeto a huma maneira negra, e mui desagradavel: os que se colloco com intelligencia, como recebem melhor as luzes, so mais claros e mais distinctos; porm os mos conhecedores daquelle tempo admiravo aquella maneira negra, e a preferio dos Caraches, e do mesmo Guido, s porque ero claras. Pedro Mignard examinando huma das Sagradas Familias de Raphael, da colleco Real de Frana, observou que sendo a grandeza da expresso a cousa mais admiravel daquelle Artista, e a que lhe dra o titulo de Divino, comearia por louvar a grande modestia, e respeito que se admira no rosto, e gesto de Nossa Senhora; o amor desta Santissima Mi para seu filho, e a ternura do Filho para sua Mi; a venerao de Santa Isabel, e a profunda humildade de S. Joo; o repouso de S. Jos, e o gosto acompanhado de admirao to bem exprimido nos semblantes dos dois Anjos. Elle disse que naquelle quadro se via bem a elevao do espirito, e o grande juizo do Author, considerando de que maneira elle se conduzira naquelle trabalho, e a escolha que fizera de quanto ha mais bello para ornar com decro as suas Figuras. Em quanto _Disposio_, elle as collocou, segundo as suas dignidades. Poz o Menino Jesus no primeiro lugar, e Nossa Senhora no segundo: inda que todas as figuras estejo attentas a hum s objecto, e occupadas em contemplar o Deos Menino, no ha huma s, cujo rosto no seja visto vantajosamente, e de que as partes todas no estejo dispostas de huma maneira a mais agradavel. Mignard fez tambem ver que pelo meio das luzes, e sombras, no smente do a fora, ou debilidade conveniente a todos os corpos; mas fez que a luz parecesse mais viva sobre as figuras principaes, tendo-a espalhado mais fortemente sobre o Corpo do Menino, e depois pelas outras, com tal discrio, que no recebem seno a que lhes he necessaria para fazer todo o effeito que o assumpto requer. Para illuminar superiormente o Menino evitou Raphael todos os incidentes que pudessem interromper os raios da luz, e fazer-lhe alguma sombra, a fim de no haver a menor obscuridade naquelle, que he a fonte de toda a luz. Temos allegado bastantes authoridades, e trazido memoria hum numero de regras, e preceitos sobre a _Composio_, que parece sufficiente para encaminhar as Senhoras applicadas: resta-nos smente dizer alguma cousa do que ensina D. Antonio Palomino. O officio de Polymnia, diz elle, he manifestar os conceitos que concebe o entendimento; o que o Pintor pde fazer, dando s figuras pintadas to viva expresso de paixes e affectos, que parea que esto fallando. A composio, seja de huma ou muitas figuras, deve ser honesta; mas a nudeza pde ser honesta, e mesmo edificante, como he em Jesus Christo, em Susana, nas Santas martyres, nas Almas do Purgatorio, e em muitas outras pinturas. O Padre Siguenza, na Historia da Ordem de S. Jeronymo, reprova muito o zelo indiscreto dos que mandro cobrir huma perna na de Santa Margarida em hum quadro do Ticiano, que estava no Escurial; cousa, a que outro author chamou _sciochissima correzione_. A pintura de corpos ns he indifferente em grande numero de fabulas, ao mesmo tempo que em figuras vestidas encontro-se s vezes actos provocativos; e estas imagens so obscenas sem serem nas. Palomino ensina tambem outros dois modos mais faceis de inventar: ao primeiro chama elle fazer por estampa; porque consiste em pintar o painel todo por huma s estampa, ou desenho alheio, pondo o colorido da sua inveno: ao segundo chamo os Pintores furtar; porque he furtado de muitas estampas. O talento de bem furtar he pouco inferior ao da total inveno;[11] porque alm de ser original a composio e colorido, he preciso grande magisterio para arranjar os objectos furtados debaixo de huma s e mesma luz, e de hum s ponto de vista, e de distancia, de sorte que parea que tudo foi feito para aquelle lugar;[12] e he muito melhor copiar bem, ou compr por estampas, que fazer mal de pura ida. Mas quem puder consultar o _natural_, e o souber imitar bem, esse ser mais applaudido. Tambem se pde seguir a composio de hum quadro, ou estampa, em quanto s massas de luz e de sombra, mudando todas, ou algumas figuras; estudando-as porm do _natural_, e no fazer de pura pratica; porque conduz ao maneirado. Temos reduzido a poucas paginas quanto se acha de maior interesse em muitos volumes sobre a _Composio_, relativa ao grande Genero; e se este trabalho for bem acceito, proseguiremos com gosto o resto da obra, que ser igualmente resumido e interessante. No fim daremos tambem hum catalogo das insignes Pintoras Portuguezas, e Estrangeiras. FIM. *Notas:* [1] Brouwer foi hum grande Pintor Hollandez de Bambochatas; mas foi tambem hum grande bebedo. _De Piles vie des Peintres, Moreri, Houbraken,_ etc. [2] Homem facinoroso, que esteve preso na Torre de Civitavechia; e sendo perdoado pela sua pericia na Arte, em gratificao pintou alli algumas casas, que os curiosos vo admirar. Falla nelle Vieira no Canto 7.^o pag. 251. [3] Pintor facto, que se ridicularisava em pblico com as suas macaquices. Veja-se a sua vida em Vasari, De Piles, no Bocacio, etc. [4] O primeiro fez o famoso Crucifixo que se affirma fallra a Santa Brigida: o segundo era religioso de S. Domingos, muito estimado do Papa Nicolo V. a quem recusou o Arcebispado de Florena: ambos vivero e morrero em cheiro de Santidade. [5] Massolino, he o mesmo que Thomazinho. [6] Alli j havia huma Igreja dedicada a Santa Martinha, que Xisto V. em 1588 deo Academia dos Pintores, a qual a reedificou com grande magnificencia, e a dedicou a S. Lucas, no tempo de Urbano VIII. [7] Cimabue, Florentino, he considerado como o pai da Pintura moderna, por ter sido o primeiro que deu alguma sombra de regularidade s figuras pintadas. Morreo em 1294 tendo 81 annos de idade. [8] Por _Antigo_ entendem os Artistas as mais bellas esculpturas, que nos resto dos antigos Gregos, e Romanos; taes como a Venus de Medicis, o Apollo, o Laoconte, o Gladiador, etc. [9] Todas as regras geraes tem varias excepes. [10] Joo Baptista Tiepolo, grande Pintor a fresco, Veneziano, concorreo com Mengs, e Corado na pintura dos tectos do Palacio Real de Madrid. A sua composio, e colorido encantavo; mas na correco do desenho era muito inferior a Mengs. [11] Era o talento de Andr Gonalves, de Ignacio de Oliveira, do Rocha, do Bruno, de Negreiros, de Roque Vicente, do Padro, e de quasi todos os nossos bons Pintores; porque entre ns he mui difficultoso poder-se o Artista servir do _natural_; nem o Pblico o exige. [12] Depois que se inventro as estampas, alguns artistas, mesmo da primeira ordem, se serviro s vezes dellas. Miguel Angelo gostou tanto d'huma inveno de Heemskerk, que a pintou. Andr del Sarto servio-se das de Alberto Durer. Muitos habeis Pintores do tempo do Parmaso pintavo pelas suas estampas: esta pintura agrada a muitos, porque he mais barata; mas toda a nao que se contentar com ella, nunca far grandes progressos na perfeio da Arte: ter brilhantes crystaes; mas no ter diamantes. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ |#pg. 19| Rephael | Raphael | |#pg. 32| Le Brnn | Le Brun | |#pg. 39| muito | muita | |#pg. 50| Quintiliauo | Quintiliano | |#pg. 54| afficta | aflicta | |#pg. 55| pou a | pouca | |#pg. 56| elless e | elles se | |#pg. 69| avariedade | a variedade | +----------+---------------------+----------------------+ Foram adicionadas aspas onde foram necessrias (ex: quando se iniciavam e no terminavam e vice-versa). End of Project Gutenberg's Nova academia de pintura, by Cirilo Volkmar Machado License: Share Alike