Produced by Pedro Saborano. Para comentrios transcrio visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) HORA DO CRIME HORA DO CRIME Phantasia dramatica em 1 acto a proposito do assassinato do general Prim por Francisco Luiz Coutinho de Miranda Lisboa Typ. Livre--22, Rua da Padaria, 22 1871 * * * * * AO PUBLICO Nasci n'um anno em que o sangue dos cidados de Lisboa allagou as praas e as ruas da capital. Foi uma carnificina monstruosa, o 13 de maro de 1838! As guardas nacionaes, colhidas traio, fram covardemente espingardeadas ordem dos falsos interpretes das instituies, que a guarda nacional era chamada a zellar e defender! Ainda se no sabe ao certo o numero dos martyres d'aquella tremenda hecatombe! Eram pela rua aos montes os cadaveres dos populares e dos soldados, povo tambem, sacrificados n'aquelle dia aos caprichos e veledades do governo pessoal! E esses homens do povo, e esses guardas nacionaes, todas essas victimas innocentes da maldade e da ambio, eram na sua maior parte os valerosos companheiros do duque de Bragana; os que tinham amassado com o seu sangue generoso os alicerces do throno constitucional; os que tinham, pela sua coragem, pela sua dedicao, pelo seu civismo, conquistado para a filha do imperador-rei o throno de Portugal, na longa epopea que comeou na ilha Terceira e terminou em Evora Monte! Eu no havia ainda nascido; mas creio que minha santa me me concebeu ento. Vi a luz do mundo em nove de dezembro d'esse mesmo anno, quasi precisamente nove mezes depois de to amplo addicionamento ao livro immenso do martyriologio da liberdade! Bafejou-me ao nascer o ar das revolues! D'ahi talvez a origem das tendencias revolucionarias do meu espirito! Quasi que o meu primeiro vagido se confundiu com os gritos de dr das victimas da tyrannia! D'ahi por certo o meu amor pelo povo, e o meu horror pelos despotas! Emballaram-me no bero as descripes detalhadas das aces homericas dos sitiados do Porto; educaram-me no respeito pelo principio santo da liberdade; desenvolveram-me a raso, encaminhando-me sempre o espirito para as theorias, poeticas e patrioticas, do mais largo desenvolvimento dos foros e regalias do povo! D'aqui indubitavelmente a minha crena sincera e firme na religio democratica! Mas quem me diria, quando os primeiros alvores da raso comearam a esclarecer-me a intellegencia; quando eu escutava com infantil respeito, no vivo enthusiasmo da creana que facilmente se exalta palas santas doutrinas da liberdade, a descripo singella que meu velho pae me fazia dos sacrificios e das privaes, da fome e dos perigos, do sangue e das vidas, que a liberdade custara; quem me diria, repito, que aquelle honrado velho havia de ser victima dos falsos sacerdotes da sua religio politica; que eu proprio havia de ser constantemente torturado pelos depositarios infieis do thesouro riquissimo que meu pae ajudara a conquistar para o seu paiz! E esta , infelizmente, a verdade! Tantas cazas arruinadas, to ferteis campos tallados, tantas vidas preciosas offerecidas em holocausto liberdade, de que serviram? De bem pouco, na verdade! Em vez da tyrannia, a falsa liberdade! Em logar do despotismo brutal; mas franco, por que constituia a base do systema governativo, o despotismo hipocritamente encapotado no manto da liberdade, infamemente roubado deusa dos povos, pelos falsos levitas da sua religio! Em substituio do poder absoluto de um homem, o poder absoluto de muitos, que se dizem responsaveis, e que ainda no fizeram lei que torne effectiva a sua responsabilidade; que deveram ser filhos dos partidos, e que so oriundos de corrilhos e faces; que do conta dos seus actos a parlamentos immoraes e ridiculos, que teem por base a viciao da urna, sanctuario da liberdade, e o principio heriditario no exercicio de legislar, que um absurdo, ou a fornada, que pode ser um abuso! E para isto fugiste tu ao lar paterno, meu pae! E para isto abandonaste a me que te estremecia, e a irm, que se finou, com saudades tuas! E para isto foste ferido trez vezes em campanha, e alcanaste juz a essa medalha que tanto te ufanava, e que to pouco vale aos olhos dos ignorantes, e dos preversos, que teem deixado crescer espinhos e abrolhos no campo formoso que tu e os teus companheiros d'armas arrotearam, para as futuras geraes gosarem! Progresso! Liberdade! Tolerancia! Termos mentidos! principios falsos! palavras sem significao, na pratica desgraada de governos retrogrados, de ministros libertecidas, de homens que s respiram odios; e s aspiram vinganas! O progresso para elles a reaco! A sua liberdade a perseguio para os que mais livremente manifestam a sua opinio politica! Para elles a tolerancia est nas cadeias em que encerram os adversarios ou aquelles que, fatigados dos seus desvarios, lanam mo do recurso extremo, do remedio fatal, da ultima raso dos povos--a revoluo; principio em nome do qual elles so poder; arma de que nenhum d'elles tem deixado de usar, no jogo abjecto d'essa politica miseravel, em que o paiz se tem arrastado ha mais de trinta annos! Livre manifestao do pensamento! Pois isto por ventura principio pratico em Portugal? Apregoam para ahi uns orgos da imprensa, que livre, liberrima, a manifestao do pensamento politico! Mentira! Poucos como eu podem mais desafogadamente responder a uma tal assero: --Mentira! Poucos podem clamar, com mais documentado conhecimento da causa: Mentira! Sim, mentira, porque no meu paiz no existe liberdade para a manifestao do pensamento, e eu sou d'isso um exemplo vivo! Fallei uma vez ao povo, dizendo-lhe verdades que elle deve conhecer, e perseguiram-me! Nunca foi alterada a ordem publica nas pacificas reunies em que eccoou a minha voz, e processaram-me! Exercia um direito que meu pae me conquistara com o seu sangue, e vi cair na valla humilde do cimiterio, minado de desgostos, louco de rancor, desesperado de arrependimento, o velho honrado que me deu o ser, ao ver-me perseguido e homisiado pelo crime _horrendo_ de fallar em publico! Mais tarde, por que reincidi n'este crime _nefando_, os miseraveis roubaram-me o emprego, exercido durante; muitos annos com honra e zello, no desempenho do qual s recebera elogios, e nunca censuras, ou mesmo leves admoestaes! E a manifestao do pensamento livre, liberrima! Na imprensa o mesmo! Ainda bem a minha penna no tem traado um periodo vehemente de amarga censura, ou de pungente ironia, contra os que cynicamente antepem lei a sua vontade pessoal, e j os escrives e os juizes, os delegados e os esbirros da justia andam atarefados em levantar processos, que partam os bicos d'esta penna, que se no dobra venalidade, e que prefere ser molhada no fel amargo do calix da perseguio, do que nas amphoras douradas da corrupo, em que innutilisam as suas os jornalistas devassos! E a manifestao do pensamento livre, liberrima! Restava-me ainda um recurso! Descobri um outro campo em que podesse evangelisar a minha ida querida, sem offensa das idas de ninguem! Era o theatro! O theatro, onde na velha e sabia Grecia se fazia a apologia da virtude politica, e se erguia o patibulo moral dos homens publicos menos fieis aos seus deveres de cidados! O theatro, d'onde nos tempos do governo absoluto se dirigia a satyra pungente e a ironia mordaz, contra os que menos presavam a dignidade nacional, e se tornavam reus de leso patriotismo! Nem essa tribuna me pde ser franqueada; e no obstante eu no a busquei sem levar vestido o habito da decencia; no me preparei para ella sem o mais escrupuloso commedimento na phrase; eu no pensei em fazer do palco estatua de Pasquino, nem cruz ignominiosa de nenhum homem publico! E apesar d'isso conheo que me deffeso pr em scena as figuras com que mais sympathiso no grande theatro da politica universal! Vejo que me no ser permittido evangelisar luz civilisadora da rampa as theorias do meu credo politico, como se proclamam ali as theorias scientificas, como se apregoam as doutrinas philosophicas, como se apostolisam os principios humanitarios! Como se a sciencia, a philosophia e a humanidade no tivessem intimas relaes com a politica em geral! E livre, liberrima, a manifestao do pensamento! Mentira! Falsidade! Embuste! Vi para ahi na scena uma peas, alis bem urdidas, e correctamente escriptas, em que se relatavam scenas, mais ou menos exactas, da guerra barbara que tem assolado a Frana! E pensei: --Pois se permittida a representao de peas, em que os auctores se apresentam manifestamente inclinados causa da Frana, o que at certo ponto prejudica a neutralidade do paiz em presena da guerra; por que no ha de alguem, no campo altissimo das generalidades, tratar em these os mais altos principios politicos? Por essa occasio deu-se o tristissimo episodio da morte de Prim, que foi o fatal epilogo da revoluo de Cadix, e o negro prologo da monarchia que o valente general ergueu sobre os destroos da monarchia bourbonica. Na ignorancia dos pormenores d'aquella tragica scena, que no honra de certo os que a executaram; fervilharam os boatos a respeito da origem do crime. Uns atribuiam-no aos partidos, outros a individuos despeitados, e alguns em especial ao honrado partido republicano. Repugnaram-me todas estas hypotheses, e indignou-me a ultima. Onde est a abnegao, no existe o crime! Onde vive o amor da patria, no se demora o plano tenebroso de morte, contra uma gloria nacional! As boccas que proclamam a liberdade para o escravo, e o principio da inviolabilidade da vida humana; no pronunciam a voz de fogo na encrusilhada covarde! D'estas consideraes nasceu a ida d'escrever o--_ Hora do Crime._ Tracei-o, esforando-me por guardar todas as conveniencias. Puz em aco a ida democratica; mas sem offensa para ninguem. Advoguei o principio republicano, em these; sem que em nenhuma hypothese offensiva podesse ser ferido qualquer dos actores do grande drama tragico-festival, que nos ultimos dois mezes se representou em Hespanha. E li depois o meu modesto trabalho a um amigo consciencioso, conhecedor dos segredos da scena, e habilissimo escriptor dramatico, pedindo-lhe a sua opinio franca, sincera, desapaixonada, acerca do meu pobre escripto. Tive em resposta elogios immerecidos, que a sua amisade entendeu dever prodigalisar-me, e uma prophecia triste, que me calou todavia no espirito, pela experiencia que infelizmente me tem feito conhecer a intolerancia que, altiva e arrogante, domina no meu paiz! A prophecia foi: --A sua pea no pode ser representada, porque nenhum empresario, por mais liberal que seja, por mais desejo que tenha de dar ao seu trabalho a justa recompensa que merece, lh'o por em scena. O sr. no sabe em que paiz vivemos?! Acordei do lethargo em que me lanra o enthusiasmo pela minha ida! Conheci que o conselheiro que eu buscra cumpria o seu dever e era leal, porque me dizia verdade! Resignei-me com a fatalidade que persegue o meu pensamento, quando tenta manifestar-se; e disse commigo: -- atroz mentira, pungente ironia, refalsada falsidade, o principio que para ahi se proclama, asseverando que a manifestao do pensamento livre em Portugal! No ha tal; em Portugal o pensamento vive agrilhoado intollerancia! S livre para os que se entregam politica mesquinha do soalheiro! Em a ida se alargando pelos vastos horisontes da verdade eterna ha de ir forosamente responder por ella, como criminoso, ao tribunal ou cada, o que ousou manifestal-a! E como proverbio velho, que--contra a fora no ha resistencia; no insisti no intuto, e metti o trabalho na gaveta. A pedido de alguns correligionarios que o conhecem, dou-o hoje estampa. N'esta tribuna no temo as responsabilidades, por que respondo eu pelo que escrevi. No theatro pode o genio da oppresso embargar-me a voz; mas na imprensa e no comicio ha de ella soltar-se sempre livre e desembaraada, em quanto m'a no asphyxiarem os algozes da liberdade! * * * * * HORA DO CRIME PHANTASIA DRAMATICA * * * * * *PERSONAGENS* D. Emilio Castellar--chefe do partido republicano hespanhol. D. Ramon Viegas--correligionario de D. Emilio. D. Carlos Viegas--correligionario de D. Emilio. Martinez--ajudante do general Prim. Izabel--filha de D. Ramon e noiva de Martinez. Pablo--criado de D. Ramon. Correligionarios de D. Emilio A aco passa-se em casa de D. Ramon, rua de Alcal, em Madrid, na noute do assassinato de Prim. * * * * * Salla espaosa, guarnecida com modesta elegancia. Porta ao fundo e lateraes. Janella. Ao meio da scena uma mesa e uma cadeira, e aos lados duas ordens de cadeiras. SCENA I *Izabel e Martinez* IZABEL (_A Martinez, que se dispe a sahir_) Que precipitao essa, meu querido?! No sei o que me vaticina o corao! Desejava que no sahisses hoje d'aqui! MARTINEZ Louca! Poucos dias faltam para a realisao da tua e da minha ventura! Terminadas as festas da coroao sers minha esposa face de Deus. IZABEL E se tu no voltares, Martinez? Se os inimigos do novo rei, e elles so tantos! empregarem um recurso extremo para impedir que elle cinja a cora e empunhe o sceptro de S. Fernando? MARTINEZ Que vos terrores te obsecam o espirito! Ignoras acaso que o general cobre Amadeu, e que entrando em Hespanha o novo rei sob a egide de Prim, ha de chegar inculume, por entre o respeito e o enthusiasmo das multides, at aos degraus do throno que lhe conquistmos em Alcola? IZABEL Eu no duvido do prostigio do teu general, nem do valor dos seus briosos companheiros de Cadix, que ainda hoje o seguem; mas no creio na boa estrella que os monarchicos devisam onde eu s vejo negrura e trevas! MARTINEZ (_Ancioso_) Explica-te! IZABEL Ouo o que dizem meu pae e meu irmo; escuto as palavras dos seus correligionarios politicos que aqui se reunem; conheo as valiosas relaes que elles manteem entre as classes populares; sei que grande a sua dedicao pela republica, que immenso o seu enthusiasmo por ella, que sublime a sua abnegao, e que todos elles esto dispostos a implantar no solo da patria a arvore frondosa e santa da republica, ainda mesmo a troco dos maiores sacrificios! MARTINEZ (_Inquieto_) Queres tu dizer, Izabel, que os correligionarios de teu pae e de teu irmo esto dispostos... O que ouviste, Izabel? IZABEL (_Com dignidade_) O que eu ouo nas reunies que se realisam n'esta casa, no t'o digo eu agora, nem t'o direi jmais! Se o amor me prendeu o corao a um monarchico, no me obsecou o espirito a ponto de me fazer trahir a causa que a minha familia defende, e que eu reputo santa. MARTINEZ (_Hesitando_) Elles pensam em assassinar o rei? IZABEL (_Com indignao_) No! Os republicanos no defendem a inviolabilidade da vida humana para arrancarem covardemente a vida a um homem! Na religio democratica respeita-se a virtude, e condemna-se o crime! Os republicanos no pensam em assassinar ninguem, porque o assassinato um crime! MARTINEZ Confesso, porm, que as tuas palavras chegaram a inspirar-me um profundo terror! Tinhas dito ha pouco... IZABEL que os republicanos no so os unicos inimigos do rei! Amadeu tem contra si a m vontade de todos os partidos d'Hespanha; e dos que o repellem, dos que o guerreiam, dos que jmais lhe daro tregoas, s os republicanos teem por devisa o horror ao crime, s elles respeitam com dogma o principio da inviolabilidade da vida do homem! MARTINEZ Vers que te illudes! IZABEL Oxal!.. E se fosse s o novo rei que me inspirasse receios por ti! E o teu general?!... Ninguem como elle tem hoje um nome mais brilhante na Hespanha; mas ninguem como elle tem mais irreconciliaveis inimigos entre o povo hespanhol! Prim poz a cora de Izabel na cabea de Amadeu, e nem mesmo os mais encarniados inimigos da rainha lhe perdoam que elle lhe derrocasse o throno, para edificar sobre as suas ruinas o throno de um estrangeiro! MARTINEZ (_Sorrindo_) Vejo-me obrigado a fechar a sesso! Se te embrenhas to cegamente no labyrintho da politica, pouco tempo te restar para cuidares dos preparativos da nossa festa nupcial! Pena em mim, Izabel; ante-gosa a nossa proxima felicidade, e deixa a teu pae e a teu irmo o cuidado de vellarem pela patria que elles lealmente amam; e de prestarem cultos religio politica, que to nobremente professam. (_Vae a sair._) IZABEL (_Detendo-o_) Ento sempre vaes? MARTINEZ Que fazer? (_Consultando o relogio_) So seis horas e meia... Deve estar a findar a sesso do Congresso, e tenho de acompanhar o general, que parte hoje em minha companhia, e na de Nandin e Moya, para Cartagena, a fim de esperarmos e acompanharmos a Madrid sua magestade Amadeu 1. IZABEL Vae, vae, meu querido; e oxal que essa viajem do rei novo me no fira de morte o corao, onde se abriga um to grande amor por ti! Escreve-me, Martinez; escreve-me de todos os pontos onde descanares! Olha que se me parte o corao n'esta despedida! MARTINEZ Socega e espera! Se Deus quiz que nos amassemos tanto, no foi de certo para nos fazer infelizes! (_Abraam-se.--Martinez sae pelo fundo._) SCENA II *Izabel* (_s_) (_Triste e encostada janella_) Socega e espera!... Que tranquilidade ha de existir no peito de uma pobre mulher, que v quasi a despenhar-se no abysmo metade da sua alma! Que esperana pode abrigar-se-me no corao, se eu vejo Martinez, o meu noivo, o homem que eu amo mais que a minha vida, affrontar indifferente a morte, ao lado d'aquelle pelo qual metade da Hespanha se julga illudida, fazendo parte do sequito do rei que transformou por um--sim--imprudente as esperanas da patria em illuses e sonhos, que podem amanh produzir a guerra civil! (_Caindo anniquillada n'uma cadeira_) Oh! que infeliz eu sou! Oh! quo desgraada serei! Condemnada a viver perpetuamente entre os odios mortaes dos correligionarios d'aquelles que mais queridos me so no mundo! De um lado o receio da perseguio dos monarchicos ao pae e ao irmo que estremeo! Do outro, o temor da represalia dos republicanos, contra o homem com quem em pouco vou partilhar a sorte, e ao qual de ha muito dei inteiro o corao! Oh fatalidade! SCENA III *Izabel e D. Carlos* D. CARLOS (_Do fundo_) Ests aqui, minha irm? No te aborrece esta salla? No te soffoca a atemosphera que aqui se respira? IZABEL No! D. CARLOS Tu, to nova e to linda, aspirando o ar to pesado d'este recinto de conspiraes? IZABEL Sim! D. CARLOS Porque no vaes antes para os teus quartos? No te mais agradavel a vista risonha do jardim, que tu tratas to cuidadosamente, do que o aspecto d'esta salla, onde hoje reside o desespero, onde paira a indignao, onde bate por ventura as azas o demonio da vingana? IZABEL No. D. CARLOS (_Preoccupado_) No... sim... no outra vez!... Que tens tu, Izabel?... Respondes apenas por monosyllabos s minhas carinhosas interrogaes?... Que tens tu, minha irm? IZABEL Nada! D. CARLOS Nada, e eu vejo-te os olhos pisados!... Nada, e tu choras!... Desafoga commigo, Izabel!... Teu irmo ainda tem corao para recolher os teus pesares, e amor bastante para te prodigalisar consolaes! IZABEL (_Com desalento_) Martinez... o meu querido Martinez, parte esta noute para Cartagena, em companhia de Prim, que vae ali esperar o novo rei! Comprehendes agora a raso dos meus monosyllabos, a causa das minhas lagrimas, origem dos meus pesares? D. CARLOS (_Tranquilisando-a_) E que tem isso? O rei vem; mas isso no quer dizer que conseguir firmar solidamente uma dymnastia! Epoca vir, e talvez pouco distante, em que a nao lhe indique solemnemente o caminho da sua patria! Se Martinez vae hoje, como ajudante do general, que se disse democrata no exilio, e que to mal comprehendeu no poder a sua brilhante posio, esperar o rei que imposto nao hespanhola; talvez que em breve, convertido crena democratica, elle v, general da republica, fazer embarcar no mesmo porto o desvairado mancebo, que to facilmente se deixou fascinar peio brilhantismo de uma cora, que no sua, e que de certo pesada de mais para cabea to jovenil! IZABEL (_Com receio_) E se um tiro traioeiro, cortando o ar n'um ermo, vier feril-o, em vez de ferir Amadeu ou Prim? D. CARLOS (_Sorrindo_) Que lembrana! Em Hespanha o partido mais forte o republicano, por que aquelle que tem mais crentes retemperados na f do martyrio; e por isso o rei e o general, e todo o sequito de Amadeu, e toda a comitiva de Prim, passaro illesos por entre a indifferena publica! O assassinato um crime, e os republicanos no ferem o adversario seno no campo convencional da honra, ou no campo franco e aberto da batalha leal! IZABEL Sinto que tens raso; mas sinto tambem que se me comprime a corao nos horrores da duvida; apavoram-me os terriveis presentimentos que me assaltam o espirito! D. CARLOS (_Offerecendo-lhe o brao_) Vem commigo destrair-te. o amor que te faz delirar assim! Vem commigo! (_Izabel d-lhe o brao, e saem ambos pela porta leteral_). SCENA IV *D. Emilio e D. Ramon* D. RAMON. (_A D. Emilio--do fundo_) infelizmente assim, meu caro Castellar. Desde que aquelles hespanhoes, menos ciosos da velha dignidade castelhana, votaram na constituinte um rei estrangeiro, a minha f continuou inabalavel; mas a minha esperana no futuro diminuiu consideravelmente! D. EMILIO E porque, estimavel D. Ramon? D. RAMON Porque o moo inexperiente; mas ambicioso de certo, que imprudentemente trocou o bem estar e socego, pelos espinhos agudissimos da cora d'Hespanha, pode ser um bom rapaz, e -o decerto; pode possuir um corao bem formado, e creio que o possue; pode mesmo desejar abrir na historia nossa patria uma era brilhante de beneficios, de liberdades, de tolerancias; mas rei, e por mais digno que seja o seu sentir, por mais nobres que sejam as suas aspiraes, ho de em pouco transformal-o em tyranno, em despota, em liberticida, os aulicos que ho de cercar-lhe o throno, as camarilhas que ho de insinuar-se no seu animo para lhe dominar a vontade, os maus cidados, emfim, que mais do raso de ser ao credo republicano, e que todos os dias, e a todas as horas, e em todos os instantes lhe conquistam adeptos, encaminhando os principes pela vereda fatal do erro, impellindo-os cynicamente para o plano inclinado onde se tem despenhado tantos, tantos!... arrastando comsigo as naes cujos destinos dirigiam! D. EMILIO Tem raso em seus receios, D. Ramon; mas no a tem na sua descrena! Mau que um rei venha matar as esperanas mais fagueiras que o povo hespanhol concebeu, quando, ao grito do triumpho magestoso da revoluo de Cadix, viu cahir a pedaos o throno apodrecido d'essa mulher, que tanto sangue custou nossa nobre terra! E peior que esse rei, imposto livre e orgulhosa Hespanha, seja um estrangeiro! O nosso proverbial orgulho, esse orgulho indomavel, que tornou sempre respeitados os cavalheirosos filhos d'Hespanha, sente-se ferido de morte na mais vulneravel das suas manifestaes! Mas que importa isso? Quanto mais o justo orgulho, a nobre altivez de um povo se sente abatida e humilhada, tanto mais violento o esforo supremo que deve dar-lhe a desaffronta, e com a desaffronta a liberdade! Tenha f no futuro, D. Ramon! D. RAMON F!... Sei que a sua viva e sincera, Castellar; no ignoro quanto a patria deve sua dedicada abnegao e s suas profundas convices; sou o mais enthusiastico admirador desse talento collossal, que assombra a patria, e a Europa, e o mundo; mas sou velho, e na friesa que do os sessenta annos, e na impassibilidade filha de uma longa experiencia, vejo as cousas por um prisma tristissimo, fatal! Vejo que quando o italiano fr o senhor d'este paiz, por mais altivo e orgulhoso que o povo hespanhol seja, o jugo ferreo do despotismo ha de vir em seguida comprimil-o nas cadeias de escravo, e a emancipao da patria ficar por isso longamente addiada, porque as hecatombes e as carnificinas ho de levar o desanimo onde hoje existe o enthusiasmo, ho de levar a indifferena onde hoje vive o amor da patria! D. EMILIO (_Com gesto sublime_) Basta velho! Que o ancio no pronuncie jmais em presena de correligionarios seus to eloquentes palavras de descrena! A f e a esperana so principios religiosos do christo, e devisa inalteravel do democrata! E christos, e republicanos somos ns, para que aos nossos ouvidos possam chegar a descrena e o desespero, apostolados por um dos nossos! Reanima-te, nobre ancio! soldado velho da liberdade! evangelisador sincero da republica! O futuro, se no risonho e festival, no completamente negro e carregado de nuvens procellosas! A republica tem feito grandes conquistas no mundo! Na Frana opra milagres! na Suissa d nobres exemplos! na America offerece lio proficua! no nosso irmo e amigo Portugal cria profundas raizes! e at na propria Prussia produz phenomenos, porque ao passo que os exercitos devastadores do autocrata allemo talam os campos verdejantes da bella Frana, para asphyxiar a democracia, o povo de Berlim, que povo, e que por isso nobre, e generoso, e republicano, como todos os seus irmos no mundo, elege para seu representante ao parlamento o chefe ostensivo do partido republicano d'Allemanha! E n'esta conjunctura, que a voz auctorisada de um velho respeitavel ha de trazer o desalento ao espirito dos valentes campees da democracia hespanhola?... No, D. Ramon! O futuro nosso! Ao triumpho completo da Frana, e elle ha-de vir, deve seguir-se o derrocamento dos thronos! emancipao do povo francez seguir-se-ha a emancipao da Europa! A derrota do tyranno allemo deve necessariamente ser o signal da queda de todos os despotas do mundo! (_Durante esta falla tem entrado successivamente pelo fundo muitos individuos, e pela porta lateral D. Carlos, que recebe todos com cordialidade e affecto._) TODOS Apoiado!... Muito bem!... assim!... SCENA V *Os mesmos, D. Carlos, e os recem-vindos* D. EMILIO (_Voltando-se para o fundo_) Eil-os, os nossos amigos! Em todos a mesma f! Em todos a mesma esperana! D. RAMON (_Aos recem-chegados_) Conversavamos, eu e D. Emilio, acerca do futuro do paiz, e do obstaculo, no insuperavel, que a eleio do rei pode trazer realisao dos nossos desejos! D. EMILIO Tratemos porm agora do assumpto que aqui nos traz hoje. (_A D. Ramon_) D. Ramon, occupae a presidencia, vs, que sois o mais velho. (_A D. Carlos_) E vs, D. Carlos, exporeis as rases que vos determinaram a convocar esta reunio dos nossos amigos. D. RAMON (_Occupando a presidencia_) Acceito, no por vaidade; mas por condescendencia. Este logar pertence de direito ao honrado chefe do partido republicano hespanhol; que, modesto at ao extremo, nem mesmo entre os seus mais intimos e mais leaes amigos quer ser o primeiro; quando a verdade que nenhum de ns se lhe avantaja, nem em talento, nem em virtude, nem em dedicao! TODOS Apoiado! Apoiado! (_D. Emilio agradece com o gesto_) D. CARLOS Meus senhores, o rei est a chegar, o general Prim parte esta noute para Cartagena, a fim de o acompanhar a Madrid; mister pois que o partido republicano tome uma deliberao definitiva cerca do procedimento que deve adoptar no dia da coroao do italiano. UMA VOZ Formule a sua proposta. D. CARLOS (_Continuando_) o que vou fazer. Eu proponho que ns todos empreguemos os esforos possiveis, para que os nossos correligionarios madrilenos, sem excepo de um s, se apresentem vestidos de lucto pesado no dia da chegada de Amadeu a Madrid. Creio que faremos assim uma imponente manifestao, visto que imperiosas rases partidarias obstam a que ella seja mais ruidosa e mais energica. um protesto solemne contra a invaso ambiciosa do estrangeiro, e ao mesmo tempo um aviso ao seu espirito, que ver de certo no lucto do povo um argumento vehemente contra os que por adulao, por servilismo, por vil baixesa lhe ho de dizer no pao real, que elle inspira amor quelles que s sentem por elle profunda indifferena, se no lhe votam do intimo d'alma rancor e odio! D. EMILIO Approvo a ida; mas peo para fazer uma observao, talvez desnecessaria. A manifestao dos republicanos deve ser digna e nobre, para ser magestosa! Envidemos toda a nossa energia, ponhamos em aco toda a nossa actividade, para que nem o italiano, nem o general que o fez rei d'Hespanha, soffram sequer um insulto! Amadeu um principe ambicioso, talvez; mas julga acceitar legalmente a cora, por que legalmente lh'a julgou offerecer a maioria da assembla constituinte, no erro fatal a que a levou o seu grande respeito por Prim, e o desconhecimento dos poderes limitados que lhe conferia o seu mandato! O marquez de los Castillejos, por mais fatal que fosse para a patria a sua obsecao, ou quem sabe se a difficuldade da sua posio politica, hespanhol e liberal, foi o mais valente caudilho da revoluo de Cadix, um cidado benemerito, um general aguerrido, o heroe do Mexico, de Reus, de Castillejos, de Marrocos e de Saragoa! Que um e outro sejam pois respeitados por ns! Que Amadeu, quando o povo lhe indicar imperiosamente o caminho da sua patria, no possa accusar os republicanos d'Hespanha de uma grosseria, ou de uma crueldade! Que Prim possa ser de futuro o esteio solido da republica, como tem sido mais de uma vez o sustentaculo valente da liberdade! (_Ouve-se fra uma grande detonao._) TODOS (_Erguendo-se e correndo janella_) Que isto? Que isto? D. RAMON (_ janella_) Vejo muito povo aglomerado na esquina da rua do Turco... soldados e populares que correm para aquelle lado... e um fumo denso que de certo produzido pelos tiros que ouvimos! SCENA VI *Os mesmos, Izabel e depois Pablo* IZABEL (_Da porta lateral, correndo_) Que isto, meus senhores? No ouviram uma horrivel detonao? Foi de certo um crime tremendo que acabou de se perpetrar! ALGUMAS VOZES Ouvimos! Ouvimos! D. CARLOS (_Na janella_) L corre um homem de bluze azul!... Toma a direco do Prado! PABLO (_Do fundo. Vem precipitadamente, e hesita vendo tanta gente_) Perdo, meus senhores... no sabia... D. EMILIO (_Inquieto_) Falla! falla! O que aconteceu. PABLO Uma grande atrocidade, meus senhores!... Que tambem, verdade seja, elle tem feito morrer bastantes desgraados, e os senhores, quem sabe? talvez que algum dia tivessem de pagar o patau n'uma morte parecida com a que elle teve! VOZES Mas falla... dize... o que foi? PABLO Ora, o que foi? O general Prim vinha do Congresso, dirigia-se ao ministerio da guerra; vae seno quando... IZABEL Meu Deus! O general! No mentiram os meus presentimentos! PABLO (_Continuando_) Vae se no quando, o trem pra, por que a rua estava tomada por duas carruagens que a obstruiam; e palavras no eram ditas, quando um dos ajudantes do marechal deita a cabea de fra para vr o que aquillo era, uns poucos d'homens disparam queima roupa os seus trabucos para dentro da carruagem, e, por Maria Purissima! l ficaram todos de certo com os anjinhos! TODOS Horror! Infamia! IZABEL (_Desvairada_) E Martinez... tambem ia... tambem morreu? PABLO Eu sei l, menina! Eu no o vi; mas se l ia dentro... IZABEL (_Desfallecendo_) Morto!... elle!... (_Desmaia; mas s Pablo lhe presta soccorro, porque os demais personagens esto preoccupados com a noticia_) D. EMILIO (_Em tom solemne e com sentimento_) Meus senhores, tinhamos razes de desamor, no sei se profundo; mas quero bem crer que temporario, pelo heroe que depois de affrontar mil vezes a morte, no campo aberto da batalha, e de conquistar, para si e para a patria, immarcessiveis louros, acaba de soccumbir a um to covarde crime! Foi nosso companheiro no exilio, no chegou a comprehender os generosos intuitos do nosso partido, opz uma barreira de ferro s nossas aspiraes democraticas; mas era hespanhol e christo, e cumpre-nos, primeiro que tudo, enviar a Deus uma prece fervente pelo repouso da sua grande alma! De joelhos, amigos, e oremos! (Joelham todos.--Martinez aparece ao fundo.) SCENA VII *Os mesmos e Martinez* MARTINEZ (_Entre a porta do fundo, maravilhado_) Que vejo!... Todos estes homens orando! Elles!... os alcunhados pedreiros livres! Elles!... os temidos hereges! Elles!... os republicanos! D. RAMON (_Erguendo-se_) De que te espantas, meu filho? Somos christos, e oramos a Deus pela alma do teu general, to infamemente assassinado! MARTINEZ Felizmente so oraes perdidas, porque o marechal apenas se acha levemente ferido! Mas no foi perdida a scena que acabo de presenciar, o espectaculo commovente que vim surprehender! Bemdita a fatalidade que sem produzir os resultados negros a que mirava, operou a converso espontanea de um illudido, que se deixou desvairar pela calumnia atroz dos que infamemente pretendem esmagar o credito dos republicanos! (_Abraando D. Ramon_) Acceite no seu gremio um convertido! D. CARLOS Mas o general... no morreu? IZABEL (_Despertando_) Estas vozes... Estes rostos alegres... (_Vendo Martinez_) Tu... vivo!... (_Palpando-o_) Nem sequer foste ferido? (_A D. Ramon_) Perdo meu pae! (_Aos demais_) Desculpem, meus senhores! Martinez meu noivo... e em poucos dias ser meu marido! MARTINEZ Socega! No morreu ninguem! Eu estou so; o meu general foi levemente ferido n'uma das mos, pelos tiros d'aquelles miseraveis, e Nandin tambem tem um ferimento, que felizmente no grave. TODOS Ainda bem! Ainda bem! D. CARLOS (_A si mesmo_) No digo eu--ainda bem--porque sou medico. Receio bastante que a ferida seja mortal, por que sei que o ferimento produsido pela arma de fogo quasi sempre fatal, quando o frio intenso, como o d'estes dias tem sido. D. EMILIO Rendamos graas a Deus, por ter permitido que se frustrasse um to negro crime. que a Providencia reserva ainda de certo o general Prim, para algum grandioso commettimento em favor do seu paiz! IZABEL E oxal que assim seja! Oxal que um dia chegue, em que aquelle valente militar possa comnosco bradar:--Viva a republica! TODOS Viva a republica! IZABEL Desculpa, Mantinez! O meu corao teu, e da ida generosa e sublime de que estes cavalheiros so dedicados apostolos! MARTINEZ E de que eu comeo hoje o noviciado! IZABEL (_Muito contente_) Converteste-te?!... Oh! mais um presente da Providencia! Eu vol-o agradeo, meu Deus!... D. RAMON um anjo, que sente como ns santo amor pela republica! D. EMILIO Acompanho, intimamente regosijado, as saudaes angelicas da donzella innocente, que bem representa aqui a santa virgem da democracia! Mas que o nosso enthusiasmo nos no torne suspeitos de cumplicidade no crime nefando que tanto nos indignou! mister que todos ns, em vez das projectadas manifestaes de desagrado ao rei eleito, prestemos sincera homenagem ao vulto gigante, que ia sendo victima de um to monstruoso attentado! To feio crime s pde ter sido perpetrado por facinoras, por miseraveis, por maus hespanhoes! No foram de certo, no; no foram adeptos da nossa crena, religionarios convictos da nossa egreja, os que o perpetraram! Os republicanos no so covardes! Os republicanos no so vis! Os republicanos no so assassinos! As vestes alvas da democracia, a vestal que mantem o fogo sagrado da liberdade, a santa que tem por evangelho a tolerancia, a deosa que manda respeitar a vida humana, mancharam-se de sangue no Mexico, mas jmais se ennodoaro na nobre terra d'Hespanha! Amigos, protestemos todos, bem alto, contra um tal attentado! (_Signaes de approvao._) ISABEL (_A Martinez_)--E partirs com o general? MATINEZ No; apesar de ligeiros, os ferimentos do general impedem-lhe que parta hoje. IZABEL Mais um favor do ceu! Permittam, meus senhores, que eu v tocar no piano o nosso hymno patriotico, aquelle hymno de Riego, que tanto nos tem enthusiasmado nos nossos saraus commemorativos dos acontecimentos gloriosos do partido republicano! (_Inclinam-se todos--Isabel sahe pela porta lateral_). D. EMILIO E quem ir a Cartagena, em logar de Prim? MARTINEZ O almirante Topete, que cedendo s instancias de sua alteza o Regente, acceitou a presidencia do conselho de ministros, durante o impedimento do marechal Prim. D. CARLOS (_Admirado_) Topete!? D. RAMON (_Idem_)--O chefe dos unionistas!?... D. EMILIO (_Com gravidade_) O hespanhol honrado, que em presena do perigo da patria sacrifica ida primordial da sua crena, os compromissos particulares de um corrilho! Um republicano no devia, no podia, sem deshonra, entregar a Amadeu o sceptro hespanhol; mas um montpensierista pde, sem quebra de dignidade, sental-o no throno d'Hespanha! Que mais larga ida traduz Antonio de Orleans do que Amadeu de Saboia? No representam um e outro o principio monarchico? No so estrangeiros um e outro? No ambicionavam ambos a cora d'Hespanha? nobre o procedimento do almirante! Queria um rei, e por isso respeitando os votos dos seus correligionarios monarchicos, cobrir amanh o principe contra o qual hontem votou! Ns que no podemos cobrir nem um nem outro; supposto que tenhamos o indeclinavel dever de respeitar ambos! Ns que no podemos seno, no campo legal que a constituio nos offerece, ou no campo leal que as circumstancias nos traarem, velar pela conservao das liberdades que conquistmos, e propugnar pelo larguissimo desenvolvimento d'ellas! honroso o nosso posto! sublime a nossa misso! de esperana o nosso futuro! Se nem o duque de Aoste, nem o duque de Montpensier representam para ns o anjo do bem, fadado por Deus para tornar a Hespanha feliz, cumpre-nos evangelisar a republica, e mesmo batalhar por ella, para que a nossa patria possa breve proclamar o codigo politico, em que reside de certo o principio da regenerao dos povos! Firmes sempre, e sempre honrados, sacrificaremos embora as vidas e as fortunas; mas jamais venderemos o corao e a consciencia. (_Ouve-se no piano o hymno de Riego. Escutam-o todos cem respeito_). D. EMILIO (_Continuando, com enthusiasmo_) E ao som d'aquelle hymno patriotico, e animados pelas harmonias d'aquella musica, que tem sido a companheira fiel de todas as nossas glorias modernas, de todas as nossas conquistas liberaes, bradaremos sempre:--Viva a Hespanha! Viva a liberdade! Viva a republica! TODOS Viva a Hespanha! Viva a liberdade! Viva a republica! ISABEL (_Da porta lateral--correndo_) Perdo, meus senhores! Tambem eu quero acompanhal-os nas suas saudaes! Tambem eu quero soltar um brado de verdadeiro enthusiasmo!--Gloria aos martyres da Frana! Amisade sincera e leal ao nosso visinho Portugal, livre e independente! Viva a republica! TODOS Viva a republica! (_Rompe na orchesta o hymno de Riego._) (_Cae o pano_) End of the Project Gutenberg EBook of hora do crime, by Francisco Luiz Coutinho de Miranda License: Share Alike