Produced by Pedro Saborano MYSTERIO DO NATAL DO MESMO AUCTOR Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600 Serto, 1 vol. . . . . . . . . . . 600 Agua de Juventa, 1 vol. . . . . . 700 A bico de penna, 1 vol. . . . . . 700 Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . . 500 Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . . 500 Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . 500 Miragem, romance, 1 vol. . . . . . 600 Theatro, vol. 1. . . . . . . no prlo Theatro, vol. 2.. . . . . . . . . 400 Ouebranto (Theatro), vol. 4.. . . 500 Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . 500 No prlo, a seguir em novas edies: Inverno em flor. . . . . . . . . 1 vol. O Rei phantasma. . . . . . . . . 1 vol. Capital federal. . . . . . . . . 1 vol. O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol. O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol. O Rajah de Pendejab. . . . . . . 2 vol. A Conquista. . . . . . . . . . . 1 vol. A Tormenta. . . . . . . . . . . 1 vol. O Turbilho. . . . . . . . . . . 1 vol. Coelho Netto COELHO NETTO MYSTERIO DO NATAL PORTO LIVRARIA CHARDRON De LELLO & IRMO, editores RUA DAS CARMELITAS, 144 ---- 1911 O "Accordo" assignado no Rio de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre o Brasil e Portugal, assegurou o direito de propriedade litteraria e artistica em ambos os paizes. A presente edio est devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes, de Lisboa e Rio de Janeiro. PORTO--IMPRENSA MODERNA * * * * * A partida Era a hora silenciosa e triste do crepusculo. Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra, como o fumo das aras, pannos alvos de nevoa. Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas espontadas de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas cinta, desfilavam donzellas conversando e rindo. Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro pastor seguia-as cabisbaixo. Esbatiam-se as nuvens de ouro quando Jos e Maria appareceram no limiar da casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em direco terra farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto. Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela saudade. O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo, limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu. Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio, falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe frma e lustro. Ella, mean de altura, fina e fragil. Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde d'agua, e como dois lagos purissimos num areal, ao sol; e os cabellos, escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na fronte uma frisa de ouro. Mal se lhe adivinhava o collo abotoado. Os ps, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os pulsos finos. Trilhando a estrada que ia ter fonte e seguia direita aos campos, paravam para falar s moas, companheiras e amigas de Maria, para corresponder saudao dos homens, para attender s crianas que deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das terras de alm conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o soluo das ondas. E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso. Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam no recosto das collinas como estendaes de nevoa. Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro de lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de uma rampa. Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos montes. L ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos, como um pacifico rebanho adormecido. Ao longe tudo era carregado e lugubre. A noite chegava primeiro s alturas. Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite. Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado alm da fronteira da terra natal. Alongando os olhos pela vastido que a vista alcanava, montes, varzeas, esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo. Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixra; raros lumes picavam a trva. Ouvia-se vago murmurio, como escacho d'aguas, subindo do fundo obscuro onde jazia a cidade. Sahiu-lhe do corao um suspiro maguado: --Onde fica Bethleem? Jos levantou o brao e estendia o cajado na direco da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando radiosamente o ceu profundo. --Ali! disse o patriarcha, numa voz que tremia, comprehendendo, maravilhado, que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta de Deus moa predestinada. * * * * * O anjo A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas, abocando entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de alcatas famintas em ronda cva, a fariscar redis. Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem. Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco. Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras levantavam ruidos temerosos. s vezes Jos detinha-se, hesitante na bifurcao de duas trilhas, mas pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao passo que a outra rutilava fulgida, como calada a diamantes, offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos. Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas anfractuosas, eriada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna, ouviram leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas. Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de p, attenta, alargando as azas, ficra em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho. O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, apertou com fora o cajado e levantou os olhos. Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma orao ao Senhor. O receio de um ataque em sitio to desolado, longe de toda habitao, onde nem choa de pegureiro havia, deteve o homem. Os coraes batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo tragico das sombras do Schel, que erram, noite, pelos descampados; nelle era temor por ella. No falavam, de olhos muito abertos, quietos, immoveis como os rochedos que os emparedavam. De repente um claro fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles viram uma grande luz flor da terra e clareando as rochas. Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada. Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha. A virgem sorria de enlevo e Jos, tolhido de commoo, no se atrevia a encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um claro de luar. E as azas aflavam docemente no silencio. A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudra com as palavras mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e Jos reviu o divino emissario que lhe apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graa perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a leiva, eternamente pura. * * * * * Lyrios Clareava. Manhan opca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, esgarando-se, diluindo-se em fumo tenue que se esvaa no ar silencioso. A espaos frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam. Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas. A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, medida que os viajantes avanavam e o caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros. Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, to baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos. Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas, evocativas, annunciavam casaes. Maria tiritava. A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura. Jos distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando. Todos aquelles atalhos tortuosos, aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarchas. Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente. Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afira o gladio libertador nas arestas daquellas penhas. Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol. J apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha rasgava-se para a resurreio. Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria, contente, d'olhos em extase, esperava o astro annunciado pela fulgurao das nuvens. Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e quieta reluzia. Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos. Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se to perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta. Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se rev o passaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, at o punho, as mos ambas no paul. Quiz Jos reprehendel-a, vendo-a, porm, sorrir, sorriu tambem. Gottejando sahiram as pequeninas mos da agua que tremia. Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores subirem tona, brancas, abertas em cinco petalas, erectas em finas hastes, como se o reflexo das mos da Immaculada se houvesse materialisado em memoria da abluo ligeira. Eram lirios e trescalavam. Virtude, brilho das almas, que importa que desas vasa? s impermeavel como a luz, purificadora como o raio de sol. No perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a Graa; se afundas no Crime, tiras o arrependimento. O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mos de Maria, s com o aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula, symbolo formoso e candido da innocencia. * * * * * A refeio Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou a cabea dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo. Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino, to alvo que no despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam; to louro que a sua cabea alumiava. Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na musica, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros. Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo. Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar! Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam. Ficou o rebanho unido, to junto que no fazia mais que um vello e as abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaar em torno dos lirios alvos. Jos adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco. Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava. Foi primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida. J a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes. Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de Jos. Refeito, o patriarcha insistiu na ddiva da moeda, mas o menino negou-se a recebel-a: Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo. Saudou-os, e, pondo-se frente das ovelhas, levou a frauta aos labios. Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi ento que Maria viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando musica da frauta. --Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se s abelhas que fugiam, perguntou a Jos: Que tero ellas buscado nas flores d'agua? --O arma e o nctar, explicou o patriarcha. Chegaram-se os dois s flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel crystallino e louro como o ambar precioso e to perfumado como se contivesse toda a essencia das flores. Tomou Jos um dos lirios e deu-o a Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes. --A frauta j no sa, vai muito longe o pastor, disse Maria. --Vai muito longe! repetiu Jos contricto, levantando os olhos para o ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas. * * * * * A nuvem Sob a irradiao do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de rescaldo. Triste, flagellada Samria pagan! Os deuses do Garizin, depois da destruio do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a f, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas humidas. Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram e um sol mais rdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas. Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar inclemencia e os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas. Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam. Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos. De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua salobra. s vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno. Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijes. No se ouvia cantar um passaro--s o gypaeto atravessava o espao fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeo das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear. Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os ps mimosos, o sol abrazava-lhe a cabea. Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma arvore. terras frteis da Galila! valles alfombrados e frescos de tanta belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Galila! Tudo era desolao na tristonha Samria e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivaes. Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do crepusculo; mas a pressa que levavam no lhes permittia demora. Jos, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porm, comeava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe. --Chega-te sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu. Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas, calava as dores dos delicados ps abertos em feridas, no querendo que o esposo soffresse com o seu soffrimento. O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal. Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande vento. Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de vero. A terra entenebrecia passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal. O ruido augmentava tornando-se como o escacho das catadupas. Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto. Subito Maria sorriu: --So pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que, muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas. Jos baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, no deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle, em extase, adorava-a. Ento proseguiram sombra do immenso pallio azul e fra da nuvem viva a terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol. * * * * * Ao pr do sol No ceu desbotavam, esbatiam-se as cres vivas, o ouro e a purpura fundiam-se em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou: --Porque mais triste do que a noite o breve instante do pr do sol? --Porque uma agonia, respondeu Jos. No a morte que impressiona, o morrer. A luz que vasqueja como o corpo que estrebucha. A noite serena, tem a immobilidade do cadaver. Quantas sombras havia na terra? tantas quantas so os seres e as coisas que existem. O sol, porque a vida, discrimina, d a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal. O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma regio e o gro de areia destaca a sua mancha. A noite condensa na mesma sombra todo o universo. No instante da agonia a alma, como o saltador que reca para ganhar impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando a vida, desde os dias primvos at hora suprema. O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, um reco madrugada para o salto dentro da noite. --Aquelle claro que alveja nos montes o luar. A lua como uma lampada que o sol deixa accesa quando parte. Como a noite linda! --E purificadora. O somno um mergulho na Eternidade. --Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e s depois de rezar conseguia adormecer. --Porque a F uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que no cr como o cgo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo. A F como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando. O homem de f anda mais seguro na escurido do que o incrdulo ao sol. O horizonte do crente Deus. --Porque bate com mais vigor o corao noite? --As aguas murmuram mais alto no silencio? no, a voz a mesma, a calma que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas sombra da vinha ouves balar o rebanho? no, entanto, noite, soergues-te no leito voz lamentosa duma ovelha perdida. O corao parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento. Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz ruido. essa uma das vantagens da noite--estabelecer o silencio, a quietude nalma para que a consciencia faa o seu acto de contrico. --E as estrellas? quem as accende no ceu? --Aquelle mesmo que abre as flores na terra. --Ninguem o v. --E o Pensamento, quem o v? Enunciado um relampago, realisado um esplendor; a sua essencia o genio, que gera a Ordem. O mundo a realisao do Pensamento de Deus; as obras ephemeras do mundo so a consubstanciao do pensamento humano. O homem constre, o artista; Deus cra, o Verbo. --E eu? --Tu s Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente. Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do ancio: ... cheia de Graa, o Senhor comtigo. Bemdita s tu entre as mulheres. Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo: --Que dizeis, meu senhor? Jos, que nada ouvira, respondeu: --Digo que s uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella. Os chacaes latiam no deserto ao doce claro da lua. * * * * * A tentao Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto, sarapintados de hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas, deitadas sobre stelas negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos. Mal chegaram entrada portentosa logo uma luzente guarda de cataphractos, com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando lanas que alumiavam, formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverisao de aromas. Os olhos perdiam-se na viso de uma vasta cidade mirifica, toda em marmores e prphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas, jardins de redolentes leas, rios beirados de arvores, com as rampas em alcatifa de flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em tremulina, o luar. Barcos de pras curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos sob doceis de seda. Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores, mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balouavam-se em redouas. Os zimborios dourados, os frontes dos templos tauxiados de ouro, as escadarias largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de mosaico, esplendiam. Surdo rumor agitava a cidade onde a multido, em festa, tumultuava numa variedade de trajos multicores. Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas cinta, emplumados turbantes cabea. Plaustros rodavam com crepitaes levantando uma nevoa loura. Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, s vezes, pendente, a oscillar como uma grossa liana. Jos olhava pasmado e Maria encolhia-se timida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente. No era a triste Sichem nem a sombria Jerich. Que cidade seria aquella to rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha regio da Samria? Subitamente, com improvisa fulgurao, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira. Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso. O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte. Ceruleo claro refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruos, com um tinir argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braos a Maria extatica. A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como se o emmoldurassem chammas. --Vem! O meu amor esperava-te ancioso. s a eleita de minh'alma. Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas do fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos so aucenaes extensos. Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem! A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braos que alumiavam como caudas d'astros. Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanas formando uma abobada de scintillaes. Jos olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um gallo cantou em alguma herdade proxima. Instantaneamente, com uma surda exploso, toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se. Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram. De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar livido. Maria, com o corao sobresaltado, murmurou: --Que lindo sonho, meu senhor. --No foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os lirios trescalam, os gallos cantam; a madrugada que vem. Puzeram-se a caminho. E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, monstruosa, com dois cornos que coruscavam. * * * * * O milagre das lagrimas A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas. Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam de Jopp, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos vivida fulgurao do sol. Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes. Caravanas desfilavam--os homens a cavallo, com as lanas altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianas sob as pontas dos mantos. Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de p nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam tumulos. Jos evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos para evitar a chacota da gente nomade. Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moa morena que trazia nos braos uma criana inerte. Ps ella uma pequenita, j com abundancia de flores, ainda varejava os mattos procurando anemonas. Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em Jos os olhos rasos d'agua, perguntou: Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se tanto no bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho. Jos estendeu o brao na direco do Levante: --Era alm, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas do Jordo. Maria, commovida, quiz vr o infante. A mi descobriu-lhe o rosto. Era lindo! Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a herva que via no abandono. A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente que o sol exhauriu e estalou. No se movia e, to rigido, to frio estava que s a illuso do amor podia ainda emprestar-lhe vida. A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando. --Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o patriarcha, accrescentando: Baruc pde sarar enfermos, mas s Elias resuscitava os mortos. --Quereis dizer que elle est morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, ainda hontem, embalei-o nos braos... Se ainda estou com os peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas. Ai! de mim... Bem que eu no queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braos. Ai de mim! Adormeci-o para sempre. E agora? quem ter piedade da minha solido? Era elle s... Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade mudar o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim! E a moa deixou-se cahir beira do caminho apertando nos braos o corpo do filho morto. A pequenita continuava a rebuscar anemonas. Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade rolaram na fronte gelida do defunto. Logo abriram-se os olhos da criana. Eram azues, cr do ceu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabea no collo materno. O espanto emmudecera, immobilisara a moa. Subito, ergueu-se com um grito d'alma, poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de amamentar o filho. Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mi, sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como petrificada. Maria chorava por vl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem na terra, a pequenita no teve mos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, s mil, as bolhas de ar. * * * * * Caminhando Maria caminhava em silencio, pensando naquella mi que, repentinamente, passra da maior desventura maior felicidade pelo prestigio das lagrimas misericordiosas. --O pequenito dormia e a pobre mi tinha-o por morto. Foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos. -- que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que testemunhara. Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realisavam passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso offerecendo o leito enxuto para a travessia; arvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios limpidos que rebentavam das pedras e, durante os curtos somnos da donzella, no lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos avelludados. A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu. Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graa, a Virgem pura de Jud, da qual devia nascer o Messias das gentes. Elle acompanhava-a, no como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos quando a via adormecida. Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mi porque sentia no seio os movimentos do Sr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor. J lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido. O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio. --As mis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mis como a rosa que cresce entre espinhos. Praza aos cus que meu filho no soffra emquanto fr pequenino. As crianas no falam, no atinam a indicar onde lhes punge a dr, de sorte que a gente no sabe como as ha de alliviar quando soffrem. --As mis adivinham. --So to fracas as criancinhas que tudo perigo em torno dellas. Tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, to franzino e to pobre. Onde o agasalharemos ns? --Entre os nossos braos, como os passaros resguardam o ninho entre os ramos. --E o frio? --Temos o nosso calor. --E a fome? --Os peitos maternos so dois celleiros sempre cheios. --Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de ns? --Por ti, por Elle, por todos, disse Jos enlevado. Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de musgo. Um velho cgo repousava sombra, ouvindo cantar uma criana que brincava sentada nas folhas seccas. * * * * * O cgo O velho era de Jerich. Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tmaras ou um esgarado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao deus de Abraho, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes. Jos ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moas beira da fonte, os pastores nos cerros, hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam. Conversaram os dois velhos--Jos falou da sua viagem, o cgo falou da sua cegueira. --Estava assim desde moo, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro. J se habituara treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao carcere. Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse. Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou: --Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrar as coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e no so varias como as almas. Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a enterrar, mas no vi o enterro. Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que no existe e ouo a alegre voz dos passarinhos de outr'ora. As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a cegueira conserva a viso do passado. O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jerich voz do batalhador. Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos. Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que no olha seno a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, esvoaar atordoada e, se no regressar priso, morrer de fome perdida nas florestas frondosas, se no cahir nas garras dos abutres. O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? No! Vivo no passado, o meu tempo j foi. No caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade, ouvindo o rumor do tempo devastador, sem vr os desastres, sem vr as lagrimas, sem vr os enterros. Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. J agora estou habituado sombra. Para que hei de sahir se, l fra, s me esperam ossadas? Se o proprio Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte. Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as nossas pegadas. O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu ou morreu. S ha um meio de no caminhar chorando-- seguir sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis? --A Bethleem. --Casa do po. ali que deve nascer o Annunciado. Casa da abundancia, celleiro do Senhor, Bethleem da fertilidade! De l que nos ha de vir o Messias. O campo de Booz dar o trigo que ha de fartar as almas. -- para l que vamos. --Que as estrellas vos sejam propicias, como fram a Ruth, a moa de Moab. * * * * * Dentro da noite Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam. O cgo j havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas. Jos empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram. As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares como uma cinza. Monstruosos penhascos, talhados a pique beira de precipicios, avultavam temerosamente na sombra. Palmeiras debruavam-se sobre as rampas. Toda a vegetao contorcida, com as raizes flor da terra, agarrando-se nervosamente s arestas dos penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escacho soturno d'aguas constrangidas. Escurecia. Os montes ridos da Juda apresentavam-se hostis aos peregrinos. Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, s vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas. Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres. Jos caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas. Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mo e sentia a aspereza das penhas. -- imprudencia insistirmos em proseguir em tal escurido, disse Maria com medo. Deus que nos retm. Jos deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente. Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam nos algares. Mas um claro suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho. Uma centelha passou na escurido, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos das arvores ficaram incrustados de brazas. Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessido estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila umbella pairando sobre Maria e Jos como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto. Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos obscuros. E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que s ao clarear d'alva desappareceu nos ares. * * * * * Presagio O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando. Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de humidade, ou eriados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro. Docemente baliam placidos rebanhos. As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham s portas, bocejavam lanando por entre as barbas um halito brumoso. Sentia-se a visinhana de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos trotavam com alcofas e ceires de frutas. Risos crystallinos annunciavam crianas; ouvia-se um estrepitante chapinhar e, volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa ramagem do salgueiral, meninos ns saltavam, atiravam-se de mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados. Nos campos, a espaos, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, pombos cercavam-nos em revoada arrulhante. Por entre a palha das choas esfiava-se o fumo azul. J os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagao oleoso. Maria, que caminhara contente at aquellas paragens, medida que avanava, sentia apertar-se-lhe o corao em presagio funesto. Olhava anciosa os longes dos horizontes. Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixra. Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o corao e j transbordava em lagrimas. Vendo-a chorar, Jos perguntou com meiguice: --Sentes-te fatigada? --No, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse. --E porque choras? --No sei. O corao aperta-se-me, um grande medo invade-me, constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo aquelle que apparece alm, to alto, to negro, sob o vo dos corvos? Jos seguiu com o olhar a direco do gesto de Maria. --O que vs so as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pr do sol. --Alm das muralhas, aquelle tumulo negro, to triste, onde agora o sol brilha. Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa. Jos saudou-a, a velha sorriu Maria abenoando-a e a Virgem, escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe: --Que tumulo aquelle, alm! to alto, dentro dos muros da cidade? Os corvos rondam-no, deve haver mortos ali. -- um monte, disse a mulher. --Um monte! repetiu Maria surprehendida. --O Golgotha. O outro o Goreb. --O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. Jos assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe: --Que tens? Ella no poude responder. Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos, contendo os soluos, poz-se, de novo, a caminho, em direco cidade branca e atorreada, ao sol. * * * * * Piedade Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as pernas enroladas at os joelhos em vello srdido, entraram em Jerusalem pela porta do mercado, hora em que as buzinas romanas troavam nas torres. Jos procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas primeiras sombras da noite. A Virgem, porm, seguia calada, sem animo de levantar os olhos, o corao cerrado em tristeza invencivel. Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo cinta; phenicios cobertos de jias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos geis passando ligeiros entre a multido, com a tunica colhida ao brao, as pernas enlaadas em tiras de couro. Mulheres mostravam-se s portas das casas, encostadas languidamente aos umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios cr de purpura. A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam. Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas. Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha airosa, moas iam e vinham com amphoras e crateres. O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro. A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. L achariam pousada e, como ficava longe e no recebia mulheres, no seriam incommodados pelos legionarios que, menor agitao, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lana. Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes. O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeio na sala lobrega que uma candeia alumiava. Rusticos bebiam, jogavam e fra, junto a um monte de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella. Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras. s chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaos de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldies e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se. O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar. Enorme co saltou da sombra rosnando, o taverneiro aulou-o contra o leproso que se encolhera estarrecido. Vendo o co investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz. O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o co, que o alcanara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo. E Maria, extactica, no via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue. * * * * * Cantico messianico Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direco ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o gro que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade. Legionarios recolhiam canadamente a Makros. Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos. Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam bois e homens bradavam. Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue. Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vo cantando na alegria do sol. Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante. --L est Bethleem! disse Jos estendendo o cajado na direco dos montes ainda enfaixados em nevoa. Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma: Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se s Tu que em mim assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen da Redempo, em Flor de Misericordia. Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu claro espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no corao dos homens. Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se do meu seio que vais jorrar, bemdita seja a Dr que me lanou na vida, bemditas sejam as lagrimas que j por Ti hei vertido. Espirito Perfeito, esperana dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te hei de dar, bemdita seja a afflico de minh'alma na hora atormentada em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade. Espirito Perfeito, se s a Redempo annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trmite e prostro-me ante a Tua Graa e exalto a Tua Beneficencia. Espirito Perfeito, Sr dos sres, no nado ainda, gloria a Ti e Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se no macula por transmittir ao corpo a viso. Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo olhar, no cerebro. Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica. Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como uma imagem que se reflecte nagua. Espirito Perfeito, Graa de Israel, Esperana das Gentes, Messias... Meu corao alegra-se sentindo-Te e o meu corao o captivo que almeja a liberdade. Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em Perdo... Jos ouvia-a com os olhos rasos d'agua. As cotovias cantavam na altura luminosa. Longe, sob a fulgurao do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, entre outeiros. * * * * * O campo de Booz hora clida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moas juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do cho, na raiz do trigal. Maria, com o manto sobre a cabea, enlevada naquella messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fsse o proprio campo que cantasse o louvor do sol. Ia to entretida que no viu Jos adiantar-se, direito a uma palhoa onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando. Aligeirou os passos e alcanou o esposo justamente quando elle saudava o ancio. --Dizei-me a quem pertence este campo to rico e cheio de tanta alegria? --A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador. --Foi, ento, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou? --Sim, foi aqui. Esta a leira de Ephracta, a mais fertil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raa robusta dos reis de Israel. Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encher as almas de ineffavel ventura. Este o celleiro de Iaveh. E vs, vindes de longe? --De Nazareth, na Galila. --E ides? --A Bethleem. Urge que l cheguemos antes do pr do sol. --Tendes tempo. Sentai-vos um momento, a hora da refeio. O que tenho d para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada; que descance um instante sombra, gosando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde. Aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro: sentaram-se e comeram do po molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso. Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu. As moas cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente. * * * * * Na estrada de Bethleem Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da tarde silenciosa. No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaavam caladas. Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no campo restolhado, soavam como gemidos. Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas. Maria parava de instante a instante, arfando. Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu canao. Jos, porm, notou-lhe a lentido dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso: --Estamos a chegar. L apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem. Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem. -- um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me to fraca que no sei se poderei acompanhar-vos at as collinas de alm. Toda eu esmoreo. O meu desejo deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande. Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, to carregado est de medo e de cuidados sombrios. Que ser de mim e d'Elle ao nascer em to desabrigados lugares, longe de tudo, friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal? O chiar de um carro levou-lhes a atteno para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda: Hervas do campo florido, Que aroma! Que trescalar! Bem se v que o seu vestido Andou por vs a roar. Outeiro em flor, o teu vello, Verde e fino, ao meu ciume Confessa que o seu cabello Deixou nelle o seu perfume. O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acacias. Jos dirigiu-se ao carreiro, robusto moo, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso. O moo accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram. E caminhando, Jos ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga: Hervas do campo florido, Que aroma! Que trescalar Bem se v que o seu vestido Andou por vs a roar. * * * * * Na caverna Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse: --Aqui me despeo, este o meu rumo. A estrada em que estais, direita e facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco. Sem esforo Jos tomou a Virgem nos braos, pousou-a na terra, agradecendo ao moo a gentileza de a haver recebido no seu carro. E elle, galantemente, respondeu: --Trouxe a flor viva no trigal ceifado, e, com to geitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso. Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de soffrimento; mas no poude ir alm da caverna e deteve-se. O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo flammejar d'uma fogueira junto qual um velho pastor, as mos estendidas ao lume, cantarolava baixinho. Ovelhas ondulavam na sombra. Logo entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com o seu novilho. Disse Jos a Maria: --Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna. O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor. --Seja o Senhor comvosco! --Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde. --Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que no consente esforo, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu corao vos ha de louvar. O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos espalhados pelos hombros, que um melte cobria, soergueu-se e falou: --A caverna no tem porta, ainda mais franca que os templos. Entrai e abeirai-vos do lume, que a noite comea a esfriar. --Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha. E o patriarcha partiu. Ainda que no conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que no lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem. Logo entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros. O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse: --So homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos. Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram grande m de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E Jos proseguiu. Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras. Debalde o ancio entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou at tarde sem exito. J o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos ces errantes, em rumo caverna. Avistou-a de longe, alumiada por um claro de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo azas largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no espao, rondando a noite. Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena. * * * * * Natal O esplendor mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem. Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito claro resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, to intensa que atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor. Jos soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mos, offuscado pela claridade vivida que irradiava em stalactites de um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero slo, eriado em pedrouos, uma rea esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas. O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente. Os dois homens, atordoados, no falavam--estendiam as mos e os seus dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento. Alm da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor arrastar-se at o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma salamandra. Tremulo, chegou entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido. Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu aberto em radiante prtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillaes de pedrarias. No poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das azas. No disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfigurao da noite. Jos conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor. Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as palhas onde um pequenino infante, as mosinhas na boca, os olhos candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se. Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de incomparavel belleza. Uma, as mos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na mo debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito, envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado. Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? No os poude reconhecer o patriarcha, mas chegando-se Virgem tomou-lhe a mo e beijou-a. Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura to meiga que o sorriso no poude por si s exprimil-a e lagrimas correram. Assim deram os olhos, d'uma s vez, todos os seus thesouros: o brilho do olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor. Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna. As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braos, chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o. Foi mi antes de ser serva. S depois de o beijar estremecidamente ouviu as vozes que atroavam a noite: Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de ba vontade. Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, ento, que o Sr nascido do seu seio era o Deus da Promessa. Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o. Jos, afastado do grupo, prestava culto Virgem e ao Infante e o ceu, pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a vinda do Filho do Homem, portador da Piedade. Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, ouvindo os anjos, sahiu a correr bradando inspiradamente a Ba Nova. E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada do mundo. * * * * * As tres virgens Quando o Menino adormeceu Jos, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de luz? A Immaculada respondeu no mesmo tom discreto: --Logo que sahiu do somno, ainda antes de vr meu filho, dei com ellas, immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido. No falavam. No sei quem so. Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem. --Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no silencio: --A primeira toda a Crena do Homem: a Virtude que leva a Alma presena do Altissimo. Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao Paraiso atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais rduos soffrimentos, vencendo as mais perversas tentaes, sempre direita, inflexivel e segura. a F. O seu olhar no se desvia, a sua linguagem a prece, a sua confiana Deus. a mais forte das tres. A segunda uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: a Esperana. Veste-se de illuses, recama-se de sonhos para distrahir a Alma, livrando-a do desespero. como o ramo verde que se inclina borda dos abysmos. a divina miragem que, atravez das agruras da vida, reanima o corao combalido, creando perspectivas venturosas. S, uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada F a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma. Sem ella a miseria seria um flagello, a dr seria intoleravel. uma fora feita de sonho. Isolada a fantasia. A terceira o Amor, a lagrima que se converte em misericordia, a bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignao que remitte, a paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece. o conjuncto amoroso de todas as beneficencias--a Caridade. So as tres irmans que acompanham o Messias. Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua essencia. Eram as Karites, so as Virtudes. Fram as Graas, so as beneficiadoras. Com ellas Jesus far a redempo do Homem. Para combater o mal, podendo trazer as legies adamantinas, trouxe as humildades. Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados. --No ouviste falar? --Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de p e olhavam, como se tambem procurassem o mysterioso, interlocutor. Mas o Menino agitou-se no leito palhio, estendeu os bracinhos e chorou. Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. --Deve ser frio, disse Jos. --Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino Filho. * * * * * O primeiro leite primeira suco da boca da criana Maria estremeceu, sentindo uma dr aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porm, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dr orvalhara de lagrimas. vido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava passagens como a torrente que se despenha da altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha levada. O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de leite--sangue e agua fundidos em candura--o ceu commungava na terra. A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a beno e o perdo. A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo claro da fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna. Fra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espao. Por vezes um claro relampejava diante da gruta esplendida passagem rapida de um anjo. Maria, inclinada sobre o Filho, s a elle sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar do leite que elle sugava soffrego. Todo o mundo ali estava nos seus braos: a terra com os seus vergeis floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas. Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mi! Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criana, via dois pequeninos seraphins alegres? Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu corao transbordava de felicidade com aquelle amor! Levantou-se um alarido fra, na estrada obscura. Jos sahiu ao limiar. Um bando de homens corria em tropel em direco ao abrigo agreste. frente delles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das azas, um anjo estendia o brao mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros. No cimo dos cerros grupos resplandeciam. Subito uma grita atroou o silencio: Hosannah! Hosannah! O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo. Hosannah! Hosannah! bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou: --Quem clama assim, meu senhor? --Pastores. Guia-os um anjo. Vm adorar o Infante. E ella, cuidadosa: --Comtanto que o no despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o junto do corao. * * * * * Adorao dos pastores Tumultuosamente os pastores chegaram caverna e o velho, dono do rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao patriarcha: --Deixai-nos vr e adorar o Deus vivo. J o tinha por tal e quando sahi para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Ba Nova. Os homens que dormiam nas choas, as ovelhas que se apertavam nos apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as mesmas pedras sem vida estremeceram minha voz pregoeira. Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou como o trovo tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no valle, na montanha e na furna. De mim sahia a annunciao e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares viva, levando s pvoas mais remotas a venturosa noticia. O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que sam docemente. No havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos brilham no fundo ceu. No havia folha em ramo e as arvores esto todas cobertas e cantam festivamente passarinhos nas montas. O outono vestiu-se com as galas da Primavera. S um Deus faria prodigios taes. Deixai-nos vr e adorar o Deus vivo. Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo: Hosannah! Hosannah! E, como Jos se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante. Todos levavam ddivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, em orao intima, a graa do Menino Deus. Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como eram muitos os mais velhos levantavam nos braos os pequenos para que vissem o Recem-nado e diziam-lhes: Pede! As crianas, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma morresse, que nunca as aguas seccassem. Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo e calado. Pede! disse-lhe o homem. --Se Elle fosse Deus... murmurou a criana, e uma lagrima rolou dos lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de quando em quando, um timido balido. Repentina, triumphante, uma voz bradou entrada da caverna: --Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do pegureiro, voltou a cabea e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braos magros procurando abrir passagem na multido reverente. Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braos que o mantinham, correu ao seu encontro e, lanando-lhe os braos cinta, disse commovido: --Fui eu, mi, que Lhe pedi. Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas. Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de p sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava: --E tu, to pobresinho! que lhe deste, meu filho? --Uma lagrima, minha mi... e foi tudo que lhe pude dar. * * * * * Dr Tomando a urna, ao clarear d'alva, quando o velho pastor sahia com o rebanho, Jos acompanhou-o para que elle o guiasse fonte. Logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna cresceram prodigiosamente, emmaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada. A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em extase contemplando o Filho, cujo halito dbil cheirava docemente a leite. Posto que apenas tivesse horas j ella lhe havia descoberto todos os encantos e se lh'o arrebatassem dos braos, confundindo-o com mil crianas, reconhecel-o-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no corao gravado. Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobresalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os ps rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com elle, commovidas. Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a chorar afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a gotta como o orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento. Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino amor, to novo, to innocente, to sem culpa e j supportando as torturas herdadas da carne. Comeava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinao de Deus atravez da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro. Elle havia de conhecer todas as Dres, todas as Angustias para poder julgal-as alliviando o Homem, cuja redempo trazia. Tenro, mal pousado na vida, j estrebuchava doridamente. E comeava apenas--era a iniciao. Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda tragica da existencia, onde a alegria como o nimbo solar que passa difficilmente por entre as frondes compactas. Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se o Infante a mamar vagindo, estremecendo e ella, relanceando em torno os olhos humidos e afflictos, implorava o mysterio. Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? J haviam regressado ao ceu. O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava desacompanhado no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na Humanidade. S lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso dos braos, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de novo, adormeceu tranquillo, no mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitaes do corao materno. * * * * * Receio Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabea do Infante adormecido. Todas as aves chilreavam, garrulas moas passavam na estrada; s vezes eram rcuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello. Maria prestava atteno ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com amorosa avareza. To lindo! quem o no desejaria! E se um d'aquelles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatal-o, quem o defenderia? Na treva ficava a coberto de todos os olhares. No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do estellicidio respondia um som lacrimoso. O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fra, o sol brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abobada escabrosa. Quando Jos reappareceu--a herva da entrada subitamente esmarriu--vendo deserta a palha, estacou, olhando espantado, com apprehenses de desgraa. Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O corao batia-lhe, tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo: --Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou: --Porque buscaste to obscura jazida onde o ar regela e a luz no chega? L fra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessido dos tumulos. --Eu estava s, meu senhor e o corao, dantes to animoso, agora to timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo s para que olhos maus no fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o. No sei que voz me fala dentro do corao pedindo-me que o defenda. Ouo-a a todo instante. Dizem-me os anjos que Elle Deus... No me passaram despercebidos os prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o resguarde, que o no perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque pequenino e fraco. No sei se pecco com a presumpo de defender quem omnipotente, mas como hei de lutar contra mim? --Mas se o ceu nos diz e prova que Elle o Filho de Deus porque has de receiar os homens? -- o corao que receia. --E entre o que diz o corao e o que affirmam os anjos hesitas, Maria? --Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o corao fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo. E, humildemente, ajoelhou-se ante o bero. Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe quizesse responder, sorriu. * * * * * O somno Maria mal humedeceu os labios borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho estremecia sobresaltava-se-lhe o corao, se o via immovel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o. --Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno necessario vida, a sombra em que a alma repousa. O espirito das crianas refugia-se no somno como o dos velhinhos--o primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. No o despertes, deixa-o dormir. -- que me parece estar morto. No faz o mais leve movimento e, quando elle assim fica, meu corao pra retransido. -- a serenidade. S o somno dos maus transmitte ao corpo a convulso do pesadello. O somno uma visita morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores fazem-na espavoridos. No receies que Elle passe to cedo Eternidade de onde veiu. Ainda que no trouxesse a misso que o fez baixar ao mundo, fosse Elle to da terra como o filho da zagala dos montes, no o deverias tirar do repouso. No desenterras a semente por no a veres flor do solo, deixas que ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresa. O somno uma incubao. Porque no sonha? porque no tem impresses. O sonho como um reflexo em que ha echo, a reproduco confusa da vida com a repercuo indistincta das vozes e dos ruidos. Ha quem veja presagios no sonho como o nmade v realidades na miragem. Com que ha de sonhar quem no tem consciencia da vida? Deixa-o dormir. noite que a floresta cresce e a criana como a arvore. O luar manso, uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a treva--no desperta. As estrellas so meigas porque a noite deve ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. Conserva-te immovel e calada, no perturbes a vida mysteriosa. Demais, Elle o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por um raio de sol. Deixa-o dormir. Bem sei que o egoismo das mis chega a insurgir-se contra as leis de Deus; no te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento. --Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mos, commovida. --So palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mo direita! So palavras que digo. Deixa-o dormir. * * * * * Palavras de Maria Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso! Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a cr da purpura e veste-se de branco para no macular os labios innocentes, toda a minha vida nelle se concentra. A Felicidade e a Desgraa sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroa e nos presagios estranhos que me occorrem. preciso ser mi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor. A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao corao. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos como quem fita um objecto ao sol e depois o v em toda parte, ainda na treva mais densa. Dantes, quando as mis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem! O meu desejo era no ter na boca outras palavras seno estas: Meu filho! So as que o corao inspira-me, so as que me agradam ouvir. Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. Sahem-me dos labios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu corao e tornam boca. Meu filho! E no ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais preciso para a ventura? Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vr nas suas pupillas--que so agora os meus espelhos--o que ellas contm. Fico to perto que ellas s a mim reproduzem. Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes. Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri to grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faa, e choro e rio. Ai! de mim quando Elle chora. No tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que no se sacia de alimento? No que tenha fome, no; mas penso n'Elle e, como preciso que Elle encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro. Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faa surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora. Eu no era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho no parece que vivo no mundo, s d'Elle me lembro. Onde Elle est ahi que me apraz viver. O seu bero um oasis em immenso deserto. Dizeis, s vezes, que me distraio porque no vos respondo de prompto. No distraco, que a alma est junto d'Elle--o corpo fica vasio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara. Dissestes uma vez: As mis adivinham. Como conheceis o corao materno! E ha mis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vr sem luz? Como no sossobram no pranto? Eu... --Porque choras, Maria? --Porque sou feliz, meu senhor... * * * * * As duas mis Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo, gozando o frescor da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com rumoroso ruflo d'azas, passando, repassando em torno. Jos descera fonte. Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas do orvalho, fazia da paizagem uma extensa scintillao. A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda aligera das aves, quando uma pallida mulher, andrajosa e descala, os cabellos desgrenhados, os olhos fundos, a caveira estalando a pelle secca, appareceu no caminho, to lenta e com to alto e angustioso arquejo que foi por elle que Maria sentiu a aproximao da infeliz. Era ainda moa, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza. Os olhos negros ardiam febris como dois carves em que faiscassem fagulhas; as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados e lividos, estalavam em fendas como golpes. Trazia nos braos, envolta em grosseiras faixas, uma criana que vagia. Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada, tremendo, estendeu a mo magra, a pedir. Maria encarou-a compadecida e, como no possuisse moeda, no respondeu infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluou: --No por mim que peo, por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio, bebendo sangue--no um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do pobresinho est da cr da anemona. No lamentaria a dr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas o sangue no farta e, ainda que eu lhe no recuse o que me resta de vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais. J no chra, nem abre os olhos, comea a agonisar, como a planta que o sol mirra na terra adusta. Dai-me o bastante para que elle viva um dia, s emquanto eu viva. Que elle morra depois de mim para que eu o receba na morte. Maria fez lugar junto figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu sugar avidamente. A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia. To enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E toda ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a cr ao rosto. Satisfeita, a criana adormeceu ao collo de Maria e da boquinha entreaberta escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como uma prola, na raiz da figueira. As duas mis olharam-se caladas por que as crianas dormiam. Trocaram-nas tomando, cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel, agradecendo a esmola, foi-se por entre as margaridas do caminho. Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lanante do cerro. De repente, j no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabea como para olhar o ceu em pleno e subito, lanando os braos, tombou sobre os joelhos. Dera, sem duvida, pelos peitos cheios. Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os--estavam molhados de leite. D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha. A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e sempre a verte mostrando-a aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho, como uma prova da misericordia suave. * * * * * A estrella Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estrebilhos tristes, Jos, entrada da caverna, as mos cruzadas sobre o cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no occidente, onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo. Um molle, languido quebranto prostrava a natureza. As arvores espreguiavam-se em movimentos morosos; raros passaros aligeiravam o vo atravessando a luz vesperal. Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando, escachoando de pedra em pedra at fluirem mansas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio. Longe, na cidade, resoava o tumulto humano. Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas estrellas esmaltando o ceu. A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia. O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para o lado do oriente obscuro, viu um como fulgido alfange chammejando na treva. Tremeu e, fitando o olhar na estranha appario, notou que avanava no ceu vagarosamente. Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo farrapo que a seguia atravez do espao. O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam sua passagem como se se retrahissem timidas. Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos olhando o prodigio. Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros fugiam aterrados; crianas choravam espavoridas. E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda aberta, pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assignalasse o bero do Messias. * * * * * Epiphania Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto. Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, luz de archotes, cujo claro tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado. Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham. Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios enxairelados caminhavam entre lanas garbosamente empunhadas por cavalleiros robustos. Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos. Os ces de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos como se reconhecessem os chegadios. Por vezes as lanas chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se. Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem. Ligeiramente, destros e aodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se. Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavalleiros cravaram as lanas pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas. Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para vr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia. Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia s costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro. Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu tenda mais sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas. Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes altos, escudos lampejavam e, como o negro o impellisse, viu-se o pastor na presena de tres homens ricamente paramentados, com fotas na cabea rutilantes de gemmas. Eram magos das terras remotas. Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias; outro da cr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o terceiro negro, com immensas camandulas de ouro em volta do pescoo, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um nastro, um diamante que coruscava. O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando um dos homens tranquillisadoramente perguntou: --Se sabia em que pao, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se victima de uma zombaria. Lembrando-se, porm, dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica, respondeu vagamente: --Perto d'aqui nasceu--e os ceus festejaram o seu natal--um menino, filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda l est no mesmo tugurio, ao collo da mi, que uma linda moa, sob a guarda de um ancio veneravel. bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu. Levantaram-se os tres homens--o pastor sahiu da tenda e, estendendo o brao na direco do outeiro, disse: -- ali, sob a estrella. --Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de p, em silencio, contemplando adorativamente a estrella que resplandecia. * * * * * Adorao dos magos Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direco caverna. A grande estrella ainda luzia no ceu. Os magos seguiam frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam, caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os seus caparaes de purpura. Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes marchetados, os magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos, levando nas mos, devotamente, as pareas significativas. Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao collo, os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes, e, inclinando a cabea, ficaram um momento em venerao silenciosa. O primeiro falou offerecendo a myrrha. --Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina que te offereo. O seu perfume uma fora que se oppe destruio da carne: eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito. O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro: --Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que te offereo: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle vence: a miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e perverte, o bem e o mal. Nas mos munificas luz que aclara e salva; nas mos crueis chamma que consome. O negro falou por ultimo com uma patena de incenso: --A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume, converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra. Como lagrima, uma concentrao; como aroma, uma oblata. o incenso com que se glorificam os deuses. a offerenda das terras negras ao Deus que redime. Gente, que afluira caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos, mulheres e crianas das arribanas proximas entraram e, diante da palha humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o sol, como enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara para cumprir as prophecias trazendo aos homens a religio do Amor. E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, contemplava, adorava o pequenino Filho. O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de p no meio da turba, com Jesus ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara s gentes o Divino Perdo. INDICE Pag. A partida 5 O anjo 13 Lyrios 19 A refeio 25 A nuvem 31 Ao pr do sol 39 A tentao 45 O milagre das lagrimas 55 Caminhando 65 O cgo 71 Dentro da noite 77 Presagio 83 Piedade 91 Cantico messianico 97 O campo de Booz 105 Na estrada de Bethleem 109 Na caverna 113 Natal 121 As tres virgens 129 O primeiro leite 135 Adorao dos pastores 141 Dr 147 Receio 151 O somno 157 Palavras de Maria 161 As duas mis 167 A estrella 175 Epiphania 179 Adorao dos magos 185 End of Project Gutenberg's Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto License: Share Alike