Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) ANTONIO NOBRE Despedidas 1895-1899 Prefacio de Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_) _PORTO_ 1902 DESPEDIDAS DO MESMO AUCTOR: S (2. edio, illustrada), Paris, 1898. NO PRLO: _PRIMEIROS VERSOS_ Prefacio de Justino de Montalvo D'este livro, publicado por Augusto Nobre, tiraram-se dois mil exemplares Direitos reservados ANTONIO NOBRE Despedidas 1895-1899 Prefacio de Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_) _PORTO_ 1902 A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de Montalvo honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os fragmentos, ao deante publicados, do poema _O Desejado_, hesitei grandemente em acquiescer solicitao que refiro. Temi que malignas malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretenses de recommendao s delicadas leituras. O nme do poeta no smente conhecido; est decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco no conseguiria seno tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fsse a impulsional-o. Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria aliaz; porm mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me convidara a ceder captivante seduco do pedido, feito pelo irmo e pelo companheiro. Lembrava-me e lembrei-me de que fra eu quem, sem sequer de vista o conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle moo ignorado ento. Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o titulo generico e designativo de _Um bouquet de sonetos._ Eu lra as composies contidas na sympathica colleco e prestei preferente cuidado quellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nme que eu havia notado j, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundra, por esse tempo, um diario de propaganda politica _A Discusso_; na seco litteraria da folha estampei um artigo longo cerca do opusculo que me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas affirmativas minhas, concernentemente frma e essencia do genero artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminaes partidarias, indiquei o nme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito. Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dce, ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva sua imaginao, ardorosa e melancholica! Ora, j quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume _S_, como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz redomoinho, elle mostrou-me que no esquecera as palavras do jornalista portuense, as quaes s um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o lealismo d'uma emoo espontanea. Na escura rua de Trvise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a conversao do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolao, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva, como a minha por ento andava. S no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de volta do exilio eu, de regresso da illuso de estancias salvadoras elle. Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferena do homem; o poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperana tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante. No o tornei a vr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, fatal, physica e moralmente, s naturezas susceptivelmente quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvo, para que eu estivesse noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixo, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo. Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada. Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratido est cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referencia ao titulo do volume, _Despedidas_. Este titulo foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse. Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de _Despedidas_, significando este a sua retirada da vida litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a esperana de cura da doena que o torturava. Ainda s quinze dias antes da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenes de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente _O Desejado_, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo _in mente_, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos. D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jmais lograram os versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeies aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que no se atreveu a sujeitar o texto a alheia reviso minuciosa. Elle foi recebido como uma herana de corao; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella no fosse assaz respeitada. Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou sequer fria. No a essa especie de critica, a qual no comprehende porque no sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que o livro actual, fragmentario consoante , confirma a gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacar como uma das mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova gerao portugueza. Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_). SONETOS 1 Logica Ai d'aquelles que, um dia, depozeram Firmes crenas n'um bem que lhes voou! Ai dos que n'este mundo ainda esperam! Tero a sorte de quem j esperou... Ai dos pobrinhos, dos que j tiveram Oiro e papeis que o vento lhes levou! Ai dos que tem, que ainda no perderam, Que amanh, sero pobres como eu sou. Ai dos que, hoje, amam e no so amados, Que, algum dia, o sero, mas sem poder! Ai dos que soffrem! ai dos desgraados Que, breve, no tero mais p'ra soffrer! Ai dos que morrem, que l vo levados! Ai de ns que ainda temos de viver! Pampilhoza, 1895. 2 Ao Cahir das Folhas A MINHA IRM MARIA DA GLORIA Podessem suas mos cobrir meu rosto, Fechar-me os olhos e compr-me o leito, Quando, sequinho, as mos em cruz no peito, Eu me fr viajar para o Sol-posto. De modo que me faa bom encosto, O travesseiro compor com geito. E eu to feliz! por no estar affeito, Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto. At com gosto, sim! Que faz quem vive Orpham de mimos, viuvo de esperanas, Solteiro de venturas, que no tive? Assim, irei dormir com as crianas Quazi como ellas, quazi sem peccados... E acabaro emfim os meus cuidados. Clavadel, outubro, 1895. 3 SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS No me esqueo de si, minha Me, fra Onde fra. Ao contrario, lembro s vezes Essa viagem nossa (de ha alguns mezes) Sobre as agoas do mar! Se fosse agora... Oh o encanto da viagem seductora! Que bem me disse ento dos Portuguezes! Que faria hoje! foram-se os revezes! O que l vae pela Africa, Senhora! Depois, ao separarmo-nos no Tejo, Disse-me (com que voz e com que modos!) Deus o faa feliz, ao seu desejo! Mas no fez, minha Me! Talvez no co... Porque afinal os homens quazi todos Tm sido e so muito mais maus do que eu... St. Johann Am-Platz, 1896. 4 Nossos amores foram desgraados, Desgraada paixo! tristes amores! Se Deus me d assim tamanhas dores, porque grandes so os meus peccados. Quando viro os dias desejados? Quando vir Maio para eu vr flores? Nunca mais! ainda bem, santos horrores! Que os pobres dias meus esto contados. Passo os dias mettido no meu moinho, E me que me saudades e tristezas, Moleiro que no mundo est ssinho. Os lavradores destas redondezas Queixam-se at de que a farinha data Tanta que est de rastos de barata... St. Johann Am-Platz, 1896. 5 Placidamente, bate-me no peito Meu corao que tanto tem batido! E para mim, inda este mundo estreito P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido. Meus dias vo passando como as agoas Que o vento leva em ondas, ao mar-alto, E se de noite eu oio aquellas mgoas J no descano mais, em sobresalto. Placidamente, bate-me no peito Meu corao em luctas to desfeito, Que com a Vida, a Dr hei confundido. E se se ganha a Paz com o soffrimento, Deixae-me entrar emfim n'esse Convento... Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido! Berne, maio, 1896. 6 Appario VIRGEM SANTISSIMA Pelas espadas que tu tens no peito, Pelos teus olhos rxos de chorar, Pelo manto que trazes de astros feito, Por esse modo to lindo de andar; Por essa graa e esse suave geito, Pelo sorriso (que de sol e luar) Por te ouvir assim sobre o meu leito, Por essa voz, baixinho: Ha-de sarar... Por tantas benos que eu sinto n'alma, Quando chegando vens, assim to calma, Pela cinta que trazes, cr dos ceus: Adivinhei teu nome, Appario! Pois consultando manso o corao Senti dizer em mim A Me de Deus! Lausanna, junho, 1896. 7 Todas as tardes, vou Lman acima (E leve o tempo passa nessas tardes) A pensar em Coimbra. Que saudades! Diogo Bernardes deste meigo Lima. Na solido, pensar em ti, anima, Oh Coimbra sem par, flr das Cidades! Os rapazes to bons nessas idades (Antes que a Vida ponha a mo em cima...) Alegres cantam nos teus arrabaldes. Por mais que tire vm cheios os baldes, Mar de recordaes, poo sem fundo! Freirinhas de Tentugal, passos lentos! E o ch com bolos, dentro dos conventos! Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo! Lausanna, junho, 1896. 8 A MEU IRMO AUGUSTO Lman azul, que, mudo e morto, jazes. Quanto s feliz! assim podesse eu sel-o! Nem a sombra dos montes, nem seu glo, De turvar tuas agoas so capazes. Minhas cartas inuteis de doutor Eu rasgaria, certo, com prazer, Se eu podesse um dia vir a ser Dessas ondas, um simples pescador. Lman azul, nas agoas socegadas, Quantas vidas tu levas confiadas! Pareces ver meu mal, e escarnecel-o! S do meu corao, ao alto-mar, Ninguem se quiz ainda sujeitar. Quanto s feliz! assim podesse eu sel-o! Villeneuve, junho, 1896. 9 A JUSTINO DE MONTALVO Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento De Franciscanos. Fui-me l ha dias. Quando eu entrei, tocava a Av-Marias. Iam ceiar. Fra mugia o vento. Um pallido Christo, ao fundo da sala, Espalha em redor seu alvo claro; E, quando se reflecte a Cruz pelo cho, Os frades ingenuos no ousam pisal-a. Meu irmo... disseram, ao verem-me porta. Vontade, Senhor, tive eu de chorar! To s me sentia, pela noite morta... E quando na volta, luz das estrellas, Meu doido passado me vim a evocar, Pensei no perdo d'uma alma d'aquellas. Bex, junho, 1896. 10 Senhora! a todas as novenas ides, E porque vs l ides, vou tambem. um descano sem par s minhas lides, Aos meus males, e em summa faz-me bem. Essas graas que tendes (vs sorrides?) S nas flres as vejo, em mais ninguem. Se o vosso corpo magro como as vides, Os cachos d'uvas que o cabello tem! Fazeis-me andar n'uma continua roda, Pelas igrejas da cidade toda, S. Luiz de Frana, Encarnao e mais. Senhora! assim commigo em beato dais, Fao-me frade e vou para um convento... E adeus! que l se vae o cazamento! Lisboa, janeiro, 1897. 11 Ha j duzentos soes, ha quatro luas, Que te pedi que a Igreja abandonasses. Tu s cruel, Senhora! continas, Como se agora apenas comeasses. sexta-feira e ao sabbado jejuas, E tanto te pedi que no jejuasses. E o que de mais, Senhora, que insinuas Em voz que tanto de: Se me imitasses... Nenhuns peccados tens. s anjo e santa. Boa como o ceu, simples como a planta, Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras! Quaes so os teus peccados? peccadores Senhora! so os vossos confessores. Homens e basta: so mos como as cobras! Lisboa, 1897. 12 Monologo d'Outubro A MEU IRMO AUGUSTO Outomno, meu Outomno, ah! no te vs embora! s minhas, eu comparo as tuas extranhezas. Ah! nos teus dias no ha Julhos nem aurora, E s crepusculos... Crepusculos so tristezas! E tu que j passaste o Outomno s commigo No pensas ao cahir de tantas agonias Nas minhas, que tu sabes, meu melhor amigo? Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias! Ides morrer, folhas! mas morrer que importa? L vae mais uma... mal nasceu e j vae morta. Levaes saudades? Coitadinha, sois to nova! Tendes razo? Nem sei a fallar a verdade. Tombar quizera eu, s p'ra esquecer. Saudade, Irmo, no a terei tambem, l pela cova?... Foz, 1897. 13 Pedi-te a f, Senhor! pedi-te a graa, Mas no te curvas nunca, p'ra me ouvir. Tudo acaba no mundo... tudo passa, Mas s meu mal se foi e torna a vir. No busco a morte com arma ou veneno, Mas emfim pde vir quando quizer. Eu estarei de p, firme e sereno, Sorrir-lhe-hei at, quando vier. Tristes vaidades d'este pobre mundo! J me parecem taes como ellas so: Tristes mizerias deste mar sem fundo. Se tive algumas eu, na mocidade, No foram ellas mais que uma illuzo. E um dia eu ri da minha ingenuidade! Lisboa, janeiro, 1898. 14 O mar que embala, s noites, o teu somno o mesmo, flor! que noite embala o meu. Mas em vo canta a minha ama do Outomno, Pois pouco dorme quem muito soffreu. Mas tu feliz qual rainha sobre o throno, Dormes e sonhas... no que, bem sei eu! O teu cabello solto ao abandono, As mos erguidas de fallar ao co... Feliz! feliz de ti, doce Constana! Reza por mim, na tua voz chymerica, Uma Av-Maria de Esperana! Por minha saude e gloria (Deus m'a d) Por essa viagem que vou dar a America... Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porqu! Ilha da Madeira, maio, 1898. 15 Mam Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade, Toda a Ternura que de ti me vm, Amparam-me esta triste mocidade Como nos tempos em que tinha Me. Quanto eu te devo! Odios, impiedade, Indignaes e raivas contra alguem, Loucuras de rapaz, tedios, vaidade, Tudo isso perdi--e ainda bem! Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperana! Nunca m'a tires no, linda criana, (Linda e to boa no o fars, talvez!) Pois que perder-te, meu amor, agora, Ai que desgraa horrivel! isso fra Perder a minha Me, segunda vez. Ilha da Madeira, 1898. 16 Ha vinte annos j, que andas na Terra, Ha vinte dias s, que te conheo! Eu andava perdido pela serra, E o que eu era ento, j no pareo. Ha vinte dias s que te conheo, meu beijo de Luz! minha Chymera! s a Graa de Deus (com qu'estremeo) Talvez, o que no mundo, inda me espera. Sonho da minh'alma! meu ceu d'estio! Pois no tens piedade d'este frio Que sinto em mim, na minha solido! Minha benam de Christo, promettida, No sers tu a Paz da minha vida? Oh! no me digas no, que s Illuzo! Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898. 17 Riquinha Soffrer callada as suas proprias dres E chorar como suas as dos mais, Tal a Rainha do seu nome, em flres Transforma pedras e em sorrisos ais. A toda a parte leva o sol e amores, a _Saude dos Enfermos_ nos Cazaes; E, no mar-alto, os velhos pescadores Invocam-n'a entre espuma e temporaes! Quem ser ella, to piedoza e dce! Com uns taes olhos que no tinha visto Ser a Virgem? Oxal que fosse! Oh! flr mais bella do jardim d'esta Ilha! Fra outrora, talvez, filha de Christo, Se Christo houvesse tido alguma filha! Ilha da Madeira, 1898. 18 O Teu Retrato Deus fez a noite com o teu olhar, Deus fez as ondas com os teus cabellos; Com a tua coragem fez castellos Que poz, como defeza, beira-mar. Com um sorriso teu, fez o luar (Que sorriso de noite, ao viandante) E eu que andava pelo mundo, errante, J no ando perdido em alto-mar! Do ceu de Portugal fez a tua alma! E ao vr-te sempre assim, to pura e calma, Da minha Noite, eu fiz a Claridade! meu anjo de luz e de esperana, Ser em ti afinal que descana O triste fim da minha mocidade! Ilha da Madeira, junho, 1898. 19 Sestana Ia em meio da minha Mocidade, Perdido d'affeies, ao vento agreste, Quando na Vida tu me appareceste, Sestana, minha Irm da Caridade! Ninguem de mim d teve, nem piedade, Ninguem n'a tinha, s tu a tiveste: Quantas velas Virgem accendeste! Quantas rezas nos templos da cidade! Que te fiz eu, Espelho das Mulheres! Para assim merecer um tal cuidado E tudo quanto ainda me fizeres? Bemdito seja Deus que me escutou! Bemdito seja o Pae que te ha procriado! Bemdita seja a Me que te gerou! Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898. 20 Emilias (A UMA SENHORA QUE NO QUER SER EMILIA) Emilia s, quer queiras, ou no queiras: Que lindo nome o teu, soante de brizas! um nome de pastoras e moleiras, Loira morgada do solar dos Nizas! Muitas Emilias ha, entre ceifeiras, Ha Emilias nos seres das descamizas... Se tu, Senhor! ds nome s Amendoeiras Com o nome de Emilia que as baptizas! Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha! E com a tua Me seja madrinha, Quando ella, um dia, te levar Igreja! E, pura Gloria, que em teus olhos brilha! Dces presagios meus, que a tua filha Seja loira tambem e Emilia seja! Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898. 21 O corao dos homens com a idade, A pouco e pouco, vae arrefecendo... Quo diversos me vo apparecendo Do que eram ao abrir da mocidade! O sorrizo no tem j lealdade, Lagrimas so difficeis... no as tendo. Palavras no vos faltam, estou vendo Mostrar o que sentis s por vaidade. J no me illude, a Gloria que sonhei. Perdi a f em tudo quanto amei. Mas s agora, eu sei o que viver! No fazes bem, assim, em rir de mim! Tenho tido na vida horrores sem fim, Mas s agora, eu sei o que soffrer! Ilha da Madeira, dezembro, 1898. 22 O Senhor, cuja Lei sempre justa, Deu-me uma infortunada mocidade, Talvez para eu saber (o que verdade) Quanto bom ser feliz, mas quanto custa! Feliz de quem no mundo sem piedade, Encontrou alma que lhe entenda a sua, Que o mesmo que ter na mo a Lua To longe n'essa triste Eternidade! Os meus dias passavam tristemente Quando encontrei o teu olhar ridente: Foi a benam de luz da Me de Deus! Vaes deixar-me de novo, s na vida! Ao cabo de viagem to comprida Talvez sintas mais perto os olhos meus! Ilha da Madeira, janeiro de 1899. 23 Adeus a Constana Vae o teu Pae andar ao sol de vero, E mais chuva e ao vento; e s depois Poder ter a colheita d'esse po Que semeou cantando ao p dos bois. Feliz que eu fui em te encontrar na vida, Minha dce Constana desejada! Antes de vr-te a ti no via nada, Nem para mim a lua era nascida. Tu vaes partir em breve com teu Pae Por esse mar que to piedozo est. No sde amargas, ondas, mas chorae! Vaes vr campos em flr que te conhecem... E se a colheita se fizesse j, Talvez na volta as ondas te trouxessem! Ilha da Madeira, 1899. 24 Antes de partir Varios Poetas vieram Madeira (Pela fama que tem) a ares do Mar: Uns p'ra, breve, voltarem lareira, Outros, ai d'elles! para aqui ficar. Esta ilha Portugal, mesma a bandeira, Morrer n'esta ilha no deve custar, Mas para mim sempre terra extrangeira, minha patria quero, emfim, voltar. Ilhas amadas! Ceu cheio de luas! Ah como triste andar por essas ruas, Pallido, de olhos grandes, a tossir! Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vl-as, Vou com as ondas, voltarei com ellas, Mas como ellas p'ra tornar a ir! Ilha da Madeira, fevereiro, 1899. 25 Meu pobre amigo! Sempre silencioso! Assim eu fui. Scismava, lia, lia... Mudei no entanto de Philosophia. No creio em nada! e fui to religioso! Tomei parte no Exercito gloriozo Que foi bater-se por Israel, um dia! Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria, No creio em nada! tudo mentirozo! No vale a pena amar e ser amado, Nem ter filhos d'um seio de mulher Que ainda nos vm fazer mais desgraado! No vale a pena um grande poeta ser, No vale a pena ser rei nem soldado E venha a Morte, quando Deus quizer! St. Johann-am-Platz, outubro, 1899. OUTRAS POESIAS A FRANCISCO CEZIMBRA Eu chegara de Frana uns quatro dias antes E via-me to s n'um deserto sem fim, L deixara a alegria, amores, estudantes, Via a vida, aqui, negra adiante de mim. Que havia de fazer? Eu no tinha um desejo, Nada no mundo me podia estimular! Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo, Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar! Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar Pois para que me deste assim um corao! Tudo quanto via me dava que scismar De tudo tinha d, de tudo compaixo. meus amigos de Coimbra! que saudades Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzes! Porque chamaria eu agora, s vaidades Ao que outrora p'ra ns tinham sido vises? E conheci depois a phase lastimoza ( meus amigos certos, no m'a queiraes lembrar) Em que descri de tudo, at da meiga roza Que via entre velas, aos ps d'algum altar. De tudo ri ento, Senhor, como um perdido Mas era um rizo mau, Francisco, que feria... Tu cuja alma em flr ainda me sorria Como pudeste tu, meu rizo ter vencido? 1895. Ladainha da Suissa A MARTINHO DE BREDERODE Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo Pelas ruas, vendo-me passar: --Vem to doentinho, olhae! e ainda to novo... E assim ssinho, sem ninguem para o tratar! (Que boa a Suissa! que bom este povo!) Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes, Diziam entre si: Quem ser este senhor? Todo de preto, to pallido, olhos to grandes! E rezavam por mim, baixinho, com amor. ( pastoras to meigas d'estes Andes!) Por fim entrei receoso em uma caza immensa Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim. Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa: Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!... (Ah que tristeza a d'essa caza immensa!) No alto da escada umas Irms da Caridade Vieram, a sorrir, perguntar: Como vae? No olhar d'ellas (to doce!) havia tal bondade, Que me julguei feliz, at sorrir, olhae! (Minhas boas Irms da Caridade!) Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou... --E ento como passou? Gostou da sua viagem? E a Nossa-Suissa que tal acha, no gostou? ( Suissa da divina paysagem!) No me deixava com perguntas. Era Suissa E no deixara nunca esta alva nao. Ignorava o que era a Verdade, a Justia: Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdo. (Que ingenua s ainda, Suissa!) --V, quero que me diga o seu nome, primeiro E depois d'onde vem, quem ... pelo fallar... --Venho da beira-mar, e sou um marinheiro. E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar! (Nos meus olhos o viste tu primeiro.) Com que doura, com que mimo e com que graa Me arranjou tudo! At meu leito quiz abrir. E como uma ama diz ao menino que a enlaa, Disse-me: Boas noites. Faa por dormir!... ( Suissa cheia de graa!) E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno, E no outro dia eu j estava melhor. Passados trez, passei de pallido a moreno Passado um mez, no nada disse o doutor. (Oh! quanto eu era ento feliz, sereno!) E a boa Irm toda contente e dedicada Que sempre estava escuta em biquinhos de p --V, tantos sustos! e afinal no era nada! E se elle disse no nada que no ! ( boa Irm, de voz to delicada!) Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve A minha doida mocidade arrependida. Bemditos sejaes vs, Alpes cheios de neve! Bemditos sejaes vs que me salvaste a vida! (E o meu corao que dce paz vos deve!) Bemdita sejas tu, Suissa meiga e boa! Gloriosa entre os mais povos, s bemdita! Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa! Bemdita sejas tu entre as naes, bemdita! (Bemdita sejas, minha Suissa boa!) Lausanna, 1896. Confisso d'uma rapariga feia (INCOMPLETA) Ha raparigas n'este mundo, Ha raparigas que so feias, Mas nenhuma tanto como eu. De mim tenho nojo profundo, Ciumes do Sol, das luas cheias, Que vo to lindas pelo co! Nos arraiaes, nas romarias, Adelaides, Joannas, Marias, Todas tem par, mas menos eu. Todas bailam, rindo e cantando, E eu fico-me a olhal-as scismando Na sorte que o Senhor me deu! Se eu fosse cega ou aleijada, Talvez ficasse resignada, Porque havia de queixar-me eu? Mas sendo s, sendo perfeita Tua vontade seja feita, Senhor! sorte, fado meu! .................................. Affirmaes religiosas meus queridos! meus S.tos limoeiros! bons e simples padroeiros! Santos da minha muita devoo! Padres choupos! castanheiros! Basta de livros, basta de livreiros! Sinto-me farto de civilisao! Rezae por mim, minhas boas freiras Rezae por mim escuras oliveiras De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes: Tornae-me simples como eu era d'antes, Sol de Junho queima as minhas estantes Poupa-me a _Biblia_, Anthero... e pouco mais! No mar da Vida cheia de perigos Mais monstros ha, diziam os antigos, Que l nas agoas d'esse outro mar. O que pensaes vs a respeito d'isto, navegantes d'esse mar de Christo! Heroes, que tanto tendes que contar? Chorae por mim, prantos dos salgueiros, Pois entre os tristes eu sou dos primeiros! Lamentos ao luar, dos pinheiraes, E vs sombra triste das figueiras! Chorae por mim flr das amendoeiras Chorae tambem verdes cannaviaes! E quando emfim, j farto de soffrer Eu um dia me fr adormecer Para onde ha paz, maior que n'um convento: Cobri-me de vestes, folhas d'outomno, Ai no me deixeis no meu abandono! Chorae-me cyprestes, batidos do vento... 1897. Ares da Andaluzia formoza Andaluzia! Terra de Nossa Senhora! formoza Andaluzia Onde o luar parece dia Onde dia a toda a hora! Ai eu tenho sete muzas Quaes d'ellas prefiro eu? Ai eu tenho sete muzas, Trez d'ellas so andaluzas Porque as outras so do co. Malaga, terra de encantos, Terra das vinhas doiradas! Malaga, terra de encantos! Igrejas cheias de Santos, E Virgens cheias de espadas! Vossa bocca tem desejos Que a bocca das mais no tem... Vossa bocca tem desejos E j morria por beijos No ventre da vossa me! meninas de Sevilha Sou doente, vinde amparar-me, meninas de Sevilha Deixae-me a vossa mantilha Que eu no quero constipar-me! menina, ol, a mais alta Porque foge e me olha assim? menina ol a mais alta, Se a belleza no lhe falta, No julgue que mais que a mim. Ai esta Vida to curta! Ai o Amor dura um instante, Ai esta Vida to curta! Dormir, um dia, entre murta Nos braos d'uma outra amante!... Olhos de Cadiz to pretos (E o mar ao p to azul!) Olhos de Cadiz to pretos De luto por Esqueletos Que o mar traz com vento sul. J sorvi na minha bocca Beijos de toda a Nao! J sorvi na minha bocca Tanto mel, cabea louca! Mas assim como estes, no! Menina das pandeiretas! Que contente que hoje estaes! Menina das pandeiretas! To sria, de capas pretas, Ao lado de vossos Paes. Vem beber a mocidade Com a tua trana solta. Vem beber a mocidade No torna a vir esta idade E o Amor como ella no volta. seios como pombinhos seios por quem bateis? seios como pombinhos To alegres nos seus ninhos No sei eu, mas vs sabeis... Contas de rezar A Maria dos Prazeres Mizericordia dos mares! Que escrevi para tu leres, Que eu fiz para tu rezares! Maria dos Prazeres. Antonio sem Elles. Maria ! Violeta da Humildade Onda do mar das Indias! sempre triste! Porque andar to triste nessa idade Se o Deus em que ella cr para ella existe? Maria ! Violeta da Humildade! Onda do mar das Indias! to modesta E to grande que ella ! Que dr funesta A faz andar to triste nessa idade? E eu digo ao vl-a entrar, meiga e modesta, Na Igreja, quando ajoelha e se persigna: Parece incrivel faa parte d'esta Humanidade mentiroza e indigna! Quanto ella Santa! quanto ella boa! At tem d e compaixo por mim... Mal diria eu que a tragica Lisboa Tinha em seus muros uma Santa assim! Ella nasceu para assistir s guerras Ella nasceu p'ra atravessar os mares Ella nasceu para ir a longas terras Ella nasceu para proteger os lares! Ella nasceu para ir com portuguezes, Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas, Com remedios, ao p, mezes e mezes, Ou dar-lhe a unco com suas mos compridas! Ella nasceu para levar comsigo Um exercito leal, mystico e forte. Ser a ultima a dobrar ante o inimigo E a primeira a morrer, sorrindo morte! Ella nasceu p'ra commandar armadas Vestir a bluza azul dos marinheiros. Morrer que importa? Sobre agoas salgadas No immenso oceano no faltam coveiros! Ella formosa e grande entre as mulheres, Sua doura toda de velludo... Mas as respostas que do malmequeres! Tristes, Senhor! como na vida tudo! Quando ella passa toda cr de cera, Devagarinho e de missal na mo, Vae to ligeira, lembra uma galra Que segue viagem de vento feio! Os seus olhos so negros e to bellos Que grandes so! tm penas disfaradas... Que so elles? Ogivas de castellos Com duas meninas sempre debruadas. O seu cabello negro e immenso e roa Pelo cho, como a noite e a escuridade, Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa Senhora, quando tinha a sua idade! A sua voz baixinha vem da alma, Tudo o que ha nella do que eu gosto mais. assim que falla a aragem pela calma Quando mareantes pedem temporaes. Vozes assim s se ouvem no convento orao em silencio habituado, Que Deus entende a voz do Pensamento: Pde fallar-se a Deus e estar callado! Os seios lembram duas pombas gemeas No seu ninho a dormir, muito quietinhas. Amor, protege o somno d'ellas, teme-as, No acordes as pombas coitadinhas! Que dizer do seu corpo esbelto de aza! To delgado, onde passa o seu annel? o mais lindo Torreo da sua Caza! uma nu da India, a _S. Gabriel_. Os seus braos so debeis! mas exaltam E sustentam em mim toda a Esperana! Os seus braos, Senhor! so os que faltam A certa Venus que se admira em Frana! O seu sorrizo o sol, quando apparece, Vl-a sorrir vr o sol cantar; Mas o seu habitual, ai no se esquece! o sol s tardes quando cahe no mar... A sua bocca uma rom vermelha, Mostrando em rizos os seus gros de opala. Favo de beijos, que d mel abelha, A sua bocca uma flr com falla! Lisboa, 1898. A Ceifeira (INCOMPLETA) ............................................ Porque que te odeiam os homens se os levas A um mundo melhor? velha hospedeira da aldeia do nada, Tenho as malas promptas, vou breve partir. Prepara-me um quarto na tua pousada Que tenha a janella para o sul voltada E fontes roda para eu dormir... Sensaes de Baltimore (INCOMPLETA) Cidade triste entre as tristes, Oh Baltimore! Mal eu diria que na terra existes Cidade dos Poetas e dos Tristes, Com teus sinos clamando Never-more. Os comboios relampagos voando, Pela cidade de Baltimore, Levam uns sinos que de quando em quando Ferem os ares, o corao magoando E os sinos clamam Never-more, never-more. ........................................... Baltimore, 1897. Ao Mar (SONETO ANTIGO) meu amigo Mar, meu companheiro De infancia! dos meus tempos de collegio, Quando p'ra vir nadar como um poveiro Eu gazeava lio do mestre-regio! Recordas-te de mim, do Anto trigueiro? (O contrario seria um sacrilegio) Lembras-te ainda d'esse marinheiro De boina e de cachimbo? mar protege-o! Que tua mo oceanica me ajude, Leva-me sempre pelo bom caminho, No me faltes nas horas de afflico. D-me talento e paz, d-me saude, Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho! Trazer meus netos a beijar-te a mo... Dispersos 1 --Soffro por ti nesta auzencia, Tanto que no sei dizer. --Meu Antonio! Tem paciencia! Soffrer por mim soffrer? 2 Ah quem me dera abraar-te Contra o peito, assim, assim... Levar-me a morte e levar-te Toda abraadinha a mim! 3 Ai ella to pequenina Que, quando ao meu collo vae, Diz o povo: uma menina Que vae ao collo do Pae! 4 s to fraca, to fraquinha, Que, ao passar, uma andorinha Com um simples encontro Podia deitar-te ao cho. Mas tambem te levantava Sem grande custo: bastava Beijar-te (nem isso, at) Logo te punhas em p! 5 Espreitei tua porta, Quiz vr-te a dormir, sorrindo... Mas ai! s vendo-te morta, Saberei como s dormindo! 6 --D-me um beijinho, que eu peo? --Isso sim!--Furto-lh'o ento! --No que eu metto-o n'um processo Pelo crime de ladro! 7 O teu somno--ai que ventura Tantos sonhos, que sei eu? O meu uma noite escura Com uma _estrella_ no ceu! 8 Corao, bates saudades Saudades to tristes so, Lembra-me o sino s Trindades, O sino faz: Dlo! dlo! dlo! 9 Ai! na hora da partida, Parte-se o corao! Ai! como triste a Vida! Uns ficam... outros vo... 10 O corao apodrece, Apodrece como o mais Mas a dr, ai! reverdece, Essa no morre jamais. 11 s morena, moreninha, Morena de andar ao sol! No dia em que fres minha Como has de ser moreninha Na brancura do lenol! 12 So as meninas da Ilha da Madeira Ternas, graciozas, pallidas, ideaes; Fica-se doido, vendo-se a primeira, Doido se fica, se se veem as mais; Qual a mais bella da Ilha da Madeira. Se so todas eguaes? 13 Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes, Com uma caza s, a caza della. O mais o pr-do-sol, bouas e fontes Que compem a sua parentella. Encanto de possuir uns taes parentes! Fidalga excepcional que a Purinha! Que ella nas veias tem sangue dos poentes, E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha! Oh que ascendencia! que familia estranha! Onde ha fidalgos com uns taes avs? Sois os seus Paes, pinheiros da montanha, E assim ella altinha como vs! 14 Amo-te toda porque s linda, linda, linda! Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei l! Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda, a alminha de Deus que dentro de ti est. 15 Uma alma chega ao p do seio da Purinha! E bate devagar, docemente: truz! truz! --Quem ? (responde l de dentro uma vozinha) --(Antonio...) e logo veio porta, com a luz. 16 Mam te chamo porque me trazes ao peito, Filha te chamo pelo mimo que te dou, Irm te chamo porque te tenho respeito, Noivinha te chamo porque teu noivo sou! 17 Na sexta-feira s dez horas olha p'ra lua, Que eu, to longe, ai to longe! hei-de olhal-a tambem: Assim minha alma encontrar-se- l com a tua! E quem se encontra, filha!, porque se quer bem! 18 Tu s altinha como eu, embora Eu seja um homem e tu uma criana! Tanto que ao irmos pela estrada, agora, Ouvi dizer: Que lindo par de Frana! 19 Teus olhos so dois ceus. E nelles leio O que nos outros lem os pastores: Estrella da manh dos meus amores! Sete estrello que vaes do ceu em meio! 20 Ai que saudade! O amor das Extrangeiras! Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito, E um dia, l se vo andorinhas ligeiras, E nunca poisam, andorinhas sem Egypto! 21 No vosso leito, cabeceira, ponde isto, Ponde este livro ao p do vosso corao: Adormecei rezando a Imitao de Christo E Nun Alvares, que de Christo a imitao. O DESEJADO O poema, cujos fragmentos so agora publicados, no seria uma composio de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria esta conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella confirmada pelo que elle chegou a realisar da sua concepo. Assim, quanto de narrativamente historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado atravez da imaginao do auctor. Elle propunha-se evocar no uma figura de chronica mas um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao leitor o encanto idealista e romanesco do sebastianismo, considerado como elemento de estimulo para a f na nacionalidade e como incentivo e consolao nas esperanas e nas decepes da patria. Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo trao o programma da sua obra; mas em suas diversas seces no trabalhou com assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir coordenal-os n'uma ordem clara de successo, marcando-se com adequado signal typographico as interrupes que ahi apparecem. N'esta melindrosa faina foi de inestimavel valia a cooperao prestada pela benemerencia de pessoa distinctissima, a ex.ma snr. D. Constana da Gama, que tivera ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a explanao generica de sua phantasia e de seu intento. O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral _ Lisboa das naus, cheia de gloria_, a qual seria seguida de uma invocao, em offerecimento, _s Senhoras de Lisboa_, que uma especie de introduco historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe. A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desilluses e possuido da triste convico de que nada na vida o poderia abalar ainda ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar. Anrique enganara-se, porm; a sua alma generosa e confiante ainda haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos, que no ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a confidencia s Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique, escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria, como se ella fosse dote que se offerecesse. A feio symbolista do poema de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela representao da Lua, imagem do quanto v e irrealisavel a aspirao a um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo. Em Anrique se personifica a abstraco; e, abandonando seu solar portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de Hespanha, finalmente de Frana, onde vamos encontral-o em Paris, exhausto e desvairado pela insatisfao d'um desejo alto e incoercivel. A Paris erroneamente se encaminhara j no fito de encontrar da sciencia transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e so pungentes as alluses e referencias que a todo o instante apparecem historia propria do poeta, em sua ideao e em seu cruel soffrimento. Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde acolhido pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique no lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para lhe applicar salutifero balsamo. Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e merc de mil fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de freiras, justamente na occasio em que ellas iam comear a entoar a sua novena da tarde. s primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de saudade irreflectida e apaixonada. que em uma das frescas vozes que alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara l para longe, para alm das serras, em Portugal, quando no fra mais que a muito natural similhana de duas vozes meigas de rapariga. No fremito da illuso jubilosa e magoadra, uma excitada hallucinao o faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra o transumpto de uma anniquiladora tristeza. Como natural reaco, logo em sua alma e de seus labios rebenta uma exploso de fora e de enthusiasmo, saudando o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece lanar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e, aps consolaes inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique pe o poeta toda a resignada amargura da sua alma. J ento de todo a chimera parisiense se dilura. J de todo Anrique se voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino, affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique sauda com frvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra tragica. Ao passado volve olhos cubiosos da esperana no futuro; e a compensao prophetica que se lhe desenha -lhe figurada na vinda phantasiosa do _Desejado_, do chimerico D. Sebastio, do lendario Rey-Menino, que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a f, que foi a incarnao ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspiraes messianicas do povo portuguez. Porm, Anrique no demora muito n'este pensamento exterior; logo o preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de que chegado emfim terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva. Ento, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas contemplativas. Mas do velho solar s restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, s aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e indiscreta curiosidade; e do corao de Anrique soltam-se involuntariamente lamentos acres, pela traio d'aquella que elle amara. Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva agonia interior, onde mais doem na recordao as ingenuidades e os candidos embustes da quadra florente e illusionante. Este o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em Portugal, Anrique resolve-se a voltar a Frana, na saudade, agora corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados conselhos; alli elle se votar a uma confisso sincera e plena, embora pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara d'uma indifferena gelida. Infelizmente para as boas lettras, o poeta no pde levar a cabo o seu amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da sua phantasia cremos que estas linhas daro alguma luz. Assim, suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o leitor, de per si, aprecie e encarea, com legitimos gabos, as composies que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem qualificar de maravilhosamente bellas. LISBOA DAS NUS CHEIA DE GLORIA I Lisboa beira-mar, cheia de vistas, Lisboa das meigas Procisses! Lisboa de Irms e de fadistas! Lisboa dos lyricos preges... Lisboa com o Tejo das Conquistas, Mais os ossos provaveis de Cames! Lisboa de marmore, Lisboa! Quem nunca te viu, no viu coisa boa... II s tu a mesma de que falla a Historia? Eu quero ver-te, aonde que ests, aonde? No sei quem s, perdi-te de memoria, Dize-me, aonde que o teu perfil se esconde? Lisboa das Naus, cheia de gloria, Lisboa das Chronicas, responde! E carregadas vinham almadias Com noz, pimenta e mais especiarias... III Ai canta, canta ao luar, minha guitarra, A Lisboa dos Poetas Cavalleiros! Galeras doidas por soltar a amarra, Cidade de morenos marinheiros, Com navios entrando e saindo a barra De pra para paizes extrangeiros! Uns p'ra Frana, acenando Adeus! Adeus! Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus! IV Lisboa das ruas mysteriozas! Da _Triste Feia_, de _Joo de Deus_, _Becco da India_, _Rua das Fermosas_, _Becco do Falla-S_ (os versos meus...) E outra rua que eu sei de duas _Rozas_, _Becco do Imaginario_, dos _Judeus_, _Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_, E outras mais que eu ignoro e vs sabeis. V Meiga Lisboa, mystica cidade! (Ao longe o sonho desse mar sem fim.) Que pena faz morrer na mocidade! Teus sinos, breve, dobraro por mim. Mandae meu corpo em grande velocidade, Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim? Quando eu morrer (porque isto pouco dura) Meus Irmos, dae-me alli a sepultura! VI Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo? Lembra leite a escorrer de tetas nuas! Luar assim to meigo, to profundo, Como a cair d'um co cheio de luas! No deixo de o beber nem um segundo, Mal o vejo apontar por essas ruas... Pregoeiro gentil l grita a espaos: Vae alta a lua! de Soares de Passos. VII Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam, Cintra das solides! beijo da Terra! Cintra dos noivos, que ao luar desvairam, Que vo fazer o seu ninho na serra; Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron, Meu nobre camarada de Inglaterra! Cintra dos Moiros com os seus adarves, E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves! VIII Romantica Lisboa de Garrett! Garrett adorado das mulheres, Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete tua linda caza dos _Prazeres_. Mas qual seria a melhor hora, s sete, Garrett, para tu me receberes? O teu porteiro disse-me, a sorrir, Que tu passas os dias a dormir... IX Pois tenho pena, amigo, tenho pena; Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco! Que falta fazes Lisboa amena! Anda vr Portugal! parece louco... Que patria grande! como est pequena! E tu dormindo sempre ahi no choco. Ah! como tu, dorme tambem a Arte... Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte! X Lisboa vermelha das toiradas! Nadam no Ar amores e alegrias. Vde os Capinhas, os gentis Espadas, Cavalleiros, fazendo cortezias... Que graa ingenua! farpas enfeitadas! O Povo, ao Sol, cheirando s marezias! Vde a alegria que lhe vae nas almas! Vde a branca Rainha, dando palmas! XI suaves mulheres do meu desejo, Com mos to brancas feitas p'ra caricias! Ondinas dos Galees! Nymphas do Tejo! Animaeszinhos cheios de delicias... Vosso passado quo longiquo o vejo! Vs sois Arabes, Celtas e Phenicias! Lisboa das Varinas e Marquezas... Que bonitas que so as Portuguezas! XII Senhoras! ainda sou menino e moo, Mas amores no tenho nem carinhos! Vida to triste supportar no posso: Vs que ides novena, aos _Inglezinhos_. Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso, N'essa voz que tem beijos e de arminhos. Rezae por mim, vereis,--vossos peccados, (Se acaso os tendes), vos sero perdoados... XIII Rezae, rezae, Senhoras por aquelle Que no Mundo soffreu todas as dores! Odios, traies, torturas,--que sabe elle! Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores! E que, hoje, aqui est, s osso e pelle, A espera que o enterrem entre as flores... Ouvi: esto os sinos a tocar: Senhoras de Lisboa! ide rezar. S SENHORAS DE LISBOA Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo. Gosto do sol, oh certamente! mas segundo O meu humor. noite, ha esquecimento, ha paz, De dia, apenas tenho um ou outro rapaz Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem s vezes. Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes) Fao da noite dia. As grandes descobertas Que eu descobri! Estou de janellas abertas Quando os outros esto de janellas fechadas... fontes a correr como linguas de espadas, fontes a furar quaes mineiros a fragoa, fontes a rezar, como freirinhas d'agoa, Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas, E s vos falta estar, como ellas de mos postas! Ouvi, l rezam: sob o cu todo estrellado, Padre-Nosso! que ests no cu, sanctificado... Noites e dias sem parar um s momento, S vs me ouvis, e eu s a vs e mais o vento. Que dr a vossa! qual ser? no sei, no sei Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi! Agoas, s de perdo, suspiros e piedades, fontes de Belem! fontes de saudades! Contae para eu scismar, uma bonita historia Qualquer, a que vos vier mais depressa memoria. Contae que eu sou ainda uma criana, gosto Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto! rios a contar historias, como as criadas, Historias de ladroes, mais historias de fadas, A do Z do Telhado e da triste viuva Que s sahia rua pelas noites de chuva! E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes! Os tristes ventos a assoprar das quatro partes: So os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas, Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rlas; Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra. Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra Que azula o cu e o rio, e deu ao mar a gloria De levar as Naus do Gama India da victoria. E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora s Luas! Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas) Sonetos de ais que s comprehende quem ama: E de noivos a quem deu o lenol e a cama. As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes: (Pois quando est p'ra isso tambem conta s vezes) O mar! como elle conta s noites tanta historia, Contos de cavalleiros sublimes de victoria; Contos de espadas nuas, em mos desses guerreiros, E contos de segredo que ouviu aos marinheiros L pelas noites calmas, luz da lua branca, Quando choram seus males, que s a lua estanca. O mar! O mar, oh sim! O mar meu amigo. Quantas vezes a rir, vem conversar commigo N'essas noites to longas d'infinda solido Em que vela no mundo, to s meu corao! Quantas vezes na hora em que dormem crianas E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranas Para embalar o peito de quem no mundo as tem; hora em que ha mais treva nas sombras desta terra, (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.) hora em que ha mais luz no cu todo estrellado, Eu fico s e scismo, nas dres do meu passado. E quando emfim eu chro, pensando nessas magoas L oio a voz sublime d'aquellas grandes agoas Que querem vir chorar commigo e conversar. Historia uma d'elle, esta que vou contar; Ouvi-a em alta noite escura de janeiro E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro. ................................................ Senhoras escutae-a! se tendes corao, Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mo: Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraa Tambem caridade, Senhoras cheias de graa! Dae-me um pranto vosso a este soffrimento, Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento. ................................................ Senhora minha, perdo Anjo do meu corao Pois a escrever eu me affoito? Estamos no julho, a oito Dia de Vasco da Gama (D'oravante assim se chama) Ai as saudades que eu tenho! Pois olha escrevo-te e venho Dar-te noticias do teu Apaixonado. Sou eu. Anrique, pastor de ovelhas. Tenho-as brancas e vermelhas, Pretas, de todo o tamanho. Tivesse-te eu no rebanho Porm como tu ainda No vi nenhuma mais linda. Eu pensei que tu amavas O teu pastor, mas brincavas. Mas amo-te eu, muito embora. No sou amado, Senhora? --No o s, nem nunca o has-de ser-- Pois seja o que Deus quizer! Vou pelas serras mais altas Mas vejo que tu me faltas E logo fico a pensar Que bom e triste amar! Um amor sem esperana um bem que no se alcana. Nasci debaixo d'um signo Que em nada me benigno; J no pde ser desfeito O que est feito, est feito. Ai de mim! no sou amado! Ai de mim, triste e coitado! Fumo saindo dos cazaes Que aspiraes vs levaes! As minhas no vo to alto: ............................ So bem simples e modestas: Bons dias e boas sestas! Com mui pouco me sustento: O amor meu alimento. O meu po de cada dia, Lagrymas, minha agoa fria, Quem me dera andar comtigo No mar cheio de perigo! Ir Africa n'uma Nau Na _San Rafael_ de pau, Como os nossos Portuguezes! E andar por l sete mezes, Sete annos, ou mesmo mais Sem medo dos temporaes! Outros ha pior de passar... J tantos tive no mar J tantos tive na terra Que j nenhum me faz guerra. Ns dois ss, e porque no? Sem maior tripulao. Eu seria o commandante D'aquella nau almirante! Oh que formoza serias Queimada das marezias! Vestida de marinheiro Ai sobe! sobe! gageiro Aquelle topo real, Diz adeus a Portugal, Que l nos vamos, Adeus! E partiriamos com Deus! Oh que viagem venturoza! Pela Azia religioza Mais pelas terras do sul Com mar e ceu sempre azul! Vr no ceu planetas novos Vr pela terra outros povos, Outras leis, novos costumes, Capellas cheias de lumes, California do Oiro E l achar um thesoiro. Vr (que isso nunca se perde) O celebre raio verde Do sol-pr no mar da America! Oh! a viagem chymerica! De gatas, como as gatinhas, ........................... Tu subirias aos mastros (To altos que vo aos astros) Sem receios das procellas! E dobrarias as velas A bujarrona, a latina. Com tuas mos de menina! Oh! vem d'ahi commigo! eu parto! Quando estivesses de quarto A mo no leme segura A nau iria ventura suspiro das aragens! phantasticas miragens! No tenhas mdo. Morrer No custa nada, viver. Custa menos que se pensa. O principal ter crena. Morre o corpo, a alma abre aza E vae: mudar de caza... Mas nem sempre ha mares grossos E que houvesse! Os padres nossos Fazem muito em tua bocca. Voz dce acalma voz rouca! Tu no temes temporal s filha de Portugal! Se morressemos, que importa! Que bella serias morta! Minha Senhora da Esp'rana J na Bemaventurana! Ir comtigo pr'o outro mundo, E juntos para o profundo Para esses mares salgados, N'um abrao amortalhados! Meu pensamento fluctua Perdoa (l vem a Lua) Esta carta to comprida! Mas eu amo nesta vida Duas coisas, tu primeiro Depois o mar, sou poveiro! Mas hoje, Senhora minha, Sou pastor sem pastorinha, Ainda hontem era estudante Porque no sou navegante! Foi sempre a minha paixo; Era a minha vocao. Mas a minha Me no quiz Talvez fosse mais feliz. Ah, Senhora! vou deixar-te! Minha Me por toda a parte Anrique! Anrique, onde ests? A pregao que ella faz Tudo por amor de ti (E j lhe oio a voz d'aqui) E as ovelhas? Ai, Senhor! No sirvo para pastor. Cada uma p'ra seu lado No dou conta do recado. Minha Me ralha que ralha Ai, Senhor! Jezus me valha. E adeus que me vou embora Pois, boas noites, Senhora! Ah! eu estou, aqui, to bem... E l torna a minha Me --Anrique, Anrique, onde ests? --Onde te somes, rapaz! Tem razo, j to tarde! Na lareira o lume arde E fuma, aceza a candeia: Minha Me que faz a ceia! Ha que tempo ella passou Com a lenha que encontrou! Desprezada nos caminhos... Ns somos mui pobrezinhos! E eu, aqui, lua, farta. Prompto. Acabo, aqui, a carta. Adeus! so horas de eu me ir Cear, rezar... e dormir. Nossa-Senhora me ajude! A minha Me no se illude Com toda esta demora Ella bem sabe, Senhora! E l torna a Me: Anrique Queres que eu me mortifique? Anda cear, no tens fome? Jezus! Jezus! Santo Nome! Eu bem sei e bem no entendo. O que so Mes! Em me vendo Quando todo me concentro Que trago paixo c dentro. Isto j ha muitos mezes. Mas nada diz. S s vezes Quando no como e me deito Assim... a tossir do peito, Tambem no quer ella comer E aventura-se a dizer: Amores--filho, paixes S trazem consumies E assim , assim, Mesinha! Pois adeus, Senhora minha! .......................... Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza. a hora em que Paris comea a louca vida Na tragica cidade ao sol adormecida. O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna Que em tempos j molhei nas agoas do teu Sena Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar! Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards! vde a pallidez da luz d'aquelle gaz, Vde a cr mortuaria, que aos rostos elle traz! Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva; Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva Que pede aqui cantando, e canta ali chorando, E assim de pranto e riso seu po vae amassando; Paris de Verlaine e poetas sonhadores! Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores; Paris que me acolheste n'agreste mocidade Eu no te amo no, mas dou-te uma saudade. Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento, Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento. No vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo Nem vejo o cu azul, Senhoras!... mas eu vejo Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos, Que pela luz que tem no contam muitos annos. E a lua que anda fugida, l pelo cu profundo Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo. ............................................. Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras E quando no adro branco, as notas derradeiras Perderam-se voando, julgou n'um som dorido Reconhecer a voz do seu amor perdido! So sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios To brancos como elles... vermelhos nos martyrios! ............................................. Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir? Ingenuo o seu cantar... talvez vos faa rir! Vi-te ha pouco rezando nas novenas Ai to linda, to pallida, meu Deus! Quaes so as tuas dores, as tuas penas, Por quem levantas tuas mos aos cus! Cantae, freiras Benedictinas, Cantae, cantae, Cantae novenas, cantae matinas, Cantae, cantae. No Boul'Mich, os castanheiros da India Comeam a despir as folhagens, ao luar, Que bellas armaes, para galeras da India Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar! Tudo to triste! todos to tristes! Olhae, so poucas todas cautelas Doentes do peito, cuidado, ouvistes? Tirae do armario vossas flanellas! Cantae o canto Gregoriano Para eu chorar!... Cantae freiras! durante um anno Para eu... chorar!... Andam meus olhos luzitanos A procurar-te, Minha chymera! tenho vinte annos! Eu quero amar-te! sinos de toda a Frana Cantae, cantae o meu mal, To alto, essa voz no cana, Que ella os oia em Portugal! Cantae o canto Gregoriano Para eu chorar!... Cantae freiras durante um anno Para eu... chorar!... ................................... Morrera j o Sol; os altos castanheiros Choravam voz do vento, quaes lugubres troveiros, Os choupos retorciam os troncos j despidos, Parecendo erguer ao cu seus braos resequidos, Ao darem as Trindades no claustro, de mansinho, Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho. A cruz meio inclinada parecia desmaiar Perdida na cr pallida da luz crepuscular; Eram mysterios da hora nervoza da tardinha Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha! A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmos, Scismando no meu Lar, eu junto as frias mos; A hora em que o traidor por mais que faa esforos No pde em si calar o susto dos remorsos; A hora em que se acende o lume nas lareiras E ladram ces ao longe, em vla pelas eiras; A hora em que entristece na rua o caminhante, E pra vendo o Sol cahir agonisante; E as raparigas trmulas se vo fechar as portas, Ouvindo ao longe as rs, gritar em agoas-mortas! Senhora d'altas Espheras! Castell das minhas chymeras! meu amor! Amor mystico, amor celeste Que tu pelo Natal me deste, Senhor! Senhor! Sou forte agora, e temerozo, Sou um rei Todo Poderozo Seno olhae! S diante de ti me humilho Senhor! Senhor! Sou teu filho E tu meu Pae! Venham armadas de Inglaterra Venham as naus de toda a terra, De todo o mar! Que eu s por entre ellas e o Oceano, Na minha nau a todo o panno, Hei-de passar! Venha o exercito da Allemanha, Mais seus alliados, mais a Hespanha, Hei-de vencer! Tu s grande, s forte, Guilherme! Tu s um mundo, eu sou um verme... Vamos a vr! Venha uma immensa tempestade, Caiam raios sobre a cidade, Venham troves! Que eu irei s para as janellas, Sem Santa-Barbara, sem velas, Sem oraes! Soldados de Alsacia e Lorena! (A bella Frana assim m'o ordena) Vamos! Ento? Atirae balas aos meus peitos, Que eu apanho-as, como confeitos, Na minha mo! Venham Philosophos, Douctores, Venha Spinoza, outros maiores, Gregos, Judeus; Venham Estoicos, Pessimistas, Cynicos, os Positivistas... Eu creio em Deus! morte, minha amiga de outr'ora Que fazes ahi, ha mais d'uma hora! Queres-me? Ah sim? Cortei as relaes comtigo vae-te! j no sou teu amigo, Nem tu de mim! Luiz de Cames e da Esperana! Ao p de ti sou uma criana, Mas ouve c. Vamos cantar ao desafio, sua janella, sobre o rio, Ver qual mais d... troveiros de toda a parte D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte! O que sois vs? Minha lyra do seu cabello, E os meus versos, quereis sabel-o? So a sua voz! vento cantante do Norte! Minha lyra agreste mais forte Do que a tua! Vinde todos, troveiros do ar, Em desafio commigo a cantar Por essa rua! .................................... Vem entrando a barra a galera Maria Que vem de to longe e to linda que vem! Toca em terra o sino p'ra missa do dia Em frente, em Santa Maria de Belem! Mareantes trigueiros no alto dos mastros, A dobram as velas no so mais precizas! Ai que lindas eram, s luas e aos astros! Que doidas, aos ventos! que meigas, s brizas! Desdobra as amarras! apresta a fateixa! Pois todos em breve a nau vo deixar; terra! Que saudade a de quem te deixa terra! pela aventura do alto mar! Entra o piloto e abraam-se estes e aquelles. Abraam-se e riem tanto vontade... Abraos que levam almas dentro d'elles, Sorrizos de boccas que fallam verdade! S as intende (capites, no as sents) Quem, algum dia, passou as agoas salgadas Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas. E Maria vae indo pelo Tejo acima, E scisma Anrique: Que lindo Portugal! Vem as nymphas, vae uma d-lhe uma rima, Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal. E Anrique scisma: Quem no te viu ainda! minha Lisboa de marmore! Lisboa De ruinas e de glorias! Tu s linda Entre as cidades mais lindas, Lisboa! minha Lisboa! com oiros to constantes Pelas serras e cus e pelo rio! Com seus Jeronymos dos Poetas e Mareantes! Lisboa branca de Joo de Deus! I Lisboa! n'um seculo bem perto Quando a Africa e as Azias se mostrarem Civilizadas, sem um s deserto, E as esquadras do mundo inteiro entrarem N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto, Para dos grandes ventos descansarem, Lisboa (no so glorias chymericas) Voltada sobre as Azias e as Americas! II Porque que Deus aqui te poz entrada Seno para destinos imperiaes? Do mar da India a virao salgada Respiral-a tu, antes dos mais. A vr s tu, primeira, a alvorada E a ultima o sol nos fins occidentaes. Lisboa! quando eras pequenina Houve uma fada que te leu a sina? III O que j foste tu, n'outras idades Grande e famoza acima das Naes, Tu de novo o sers, porque as cidades Tm varias mortes e resurreies, Outras infancias, novas mocidades, Novas conquistas, outros galees... coragens, coleras, tormentos, Troves, Indias, relampagos e ventos! IV Velha Lisboa, minha mae-madrinha! Tu voltars a ser o que j foste, E no, no cuides que illuso minha, Pois nenhuma j tenho a que me encoste! No sei qu dentro em mim m'o adivinha No sei que voz m'o diz de que eu mais goste. E bem no sabes de bem longe: os Poetas No se enganam--so bruxos, so Prophetas! V L onde escoa o Tejo, os Esculptores De entre a agoa erguero altos heroes Poetas, Santos e Navegadores: Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does, Feridas de Astros! admiraveis flres! (Com auroras e poentes como os soes...) Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil, Pedr'Alvares, a mo para o Brazil!... VI Vasco da Gama a apontar l para onde Nasce o sol, terra da sua India amada, Outro a olhar l, onde o sol se esconde, Cames olhando triste a onda salgada; Mas a onda passa, passa e no responde... Que a leva o fado, vae muito apressada... Todos to vivos, os heroes colossos, Que dir-se-ia que tm sangue e ossos. VII E do seu forte, S. Julio, em summa, Sobre toda esta gloria e esta magoa, Luas conta a desfiar uma por uma, (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa E Ave Marias, de doirada espuma... E os outros, no deserto d'essa fragoa Pela noite o acompanham; e assim Rezam todos por seculos sem fim. VIII Eu confio em ti reza d'Heroes, E confiar em ti, no vaidade. Vossos nomes de bronze so pharoes Que luz daro, nossa tempestade. O nosso Rey... (cabello em caracoes!) J no dorme no Pao... Piedade! Deixareis a Patria engrandecida Por vossas mos p'ra sempre ser vencida? IX Cr do ceu a bandeira e cr de neve No a vejo na torre a fluctuar! Senhor! Vs bem sabeis que o Rey no deve Outras armas que a vossa apresentar. Se assim deixaes que outro povo a leve, Porque a dste ao nosso p'ra guardar? No elle o mesmo que em Ourique A acclamou nas mos do teu Henrique? X Anda tudo to triste em Portugal! Que dos sonhos de gloria e d'ambio? Quantas flores do nosso laranjal Eu irei vr cahidas pelo cho! Meus irmos Portuguezes, fazeis mal De ter ainda no peito um corao. Talvez s eu! (Amr ai tu m'entendes!) Possa ainda ter a paz que j no tendes. XI Talvez s eu irmos! mas que a mim Deve o Senhor as flores com que s'enfeita A mocidade!... que d'elle o meu jardim! Dizei-me vs irmos, na vida estreita Toda a desgraa no ter um fim? Se a ventura no pde ser perfeita Tenho agora a Patria em sepultura! Que mais quereis na taa d'amargura? XII Vir, um dia, carregado de oiros, Marfins e pratas que do cu herdou, O rei menino que se foi aos moiros Que foi aos moiros e ainda no voltou. Tem olhos verdes e cabellos loiros, Ah no se enganem, (ainda no chegou) Vir El-Rey-Menino do Estrangeiro, N'uma certa manh de nevoeiro... XIII Tem loiros os cabellos, e criana, Tem olhos verdes de luar nocturno: Olhos verdes, so olhos de esperana! Olhos verdes, so Luas de Saturno! Veio da Africa mais a sua lana Vae pr'o mundo, rezando taciturno. To pobrezinho, olhae! estende a mo: Quem d esmola a D. Sebastio? XIV Esperae, esperae, Portuguezes! Que elle ha-de vir, um dia! Esperae. Para os mortos os seculos so mezes, Ou menos que isso, nem um dia, um ai. Tende paciencia! finaro revezes; E at l, Portuguezes! trabalhae. Que El-Rey-Menino no tarda a surgir, Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir! L vem, l vem minha Amada, Rainha de Portugal. Vem com a capa estrellada, Debaixo d'um palio real Todo de seda vermelha, Com saias de oiro e coral. V o povo que ajoelha E faz o pelo signal! Que linda ! que formoza! Que graa ella tem a andar! Pagens vestidos de roza Vo frente a encaminhar, Tirando as pedras da rua No v ella tropear, To leve, parece a Lua, To leve que vae no ar! Vinde vr, vinde s janellas, Meninas de Portugal! Deixae o bordado, as telas, Deixae a agulha e dedal. No temaes a feia inveja Vinde vl-a cada qual. E que em honra d'ella seja Esta noite o arraial. Sua belleza tamanha Que pertence a Portugal. Como obra de arte, extranha, um poema, uma cathedral. Aos Luziadas semelhante, Aos Jeronymos egual, Onde os poetas e o mareante Dormem o somno final! Nem Mafra com seu convento Tem maior a altivez .............................. No se esquece, visto uma vez! Seu corpo uma obra de graa E de que suave pallidez! A minha amada a Alcobaa Onde jaz a linda Ignez! fidalga de nascena, Mais do que os Reis, do que vs. J poetas na Renascena Cantaram seus bisavs. Mas mais fidalga ella ainda Por sua alma (sem Avs). Ah! l vem ella to linda E vem rezando por ns! A minha Amada fidalga Que tem no mar seus brazes. Tem na bocca aromas de alga Brizas da India e outras regies, O que prova d'onde vejo J no tempo de Cames Era sobrinha do Tejo E prima dos Galees! toda de cazos bellos A tua nobreza fina, Toda torres e castellos Com legendas de menina. Excedes Reis e Prophetas ........................ Menos os Santos e Poetas Que tm costella divina! --Quatorze luas j foram passadas, Desde que eu a perdi e ao seu amor; Meu corao tem ainda as janellas fechadas, Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor. O POVO Chymeras tombadas! Chymeras tombadas! --A sorte deu-me j cabellos pretos Ai no precizo de os enluctar. --Mas olhe as brancas... meu senhor O branco lucto, podes, Ama, descanar! O COVEIRO O branco lucto: so brancos os esqueletos! -- illuzes que em ti puz to amigas! Oh! a esperana que em minha alma morta! Antes eu te visse cobertinha de bexigas Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta... TODOS Antes a visses morta! Antes a visses morta! --Dei-te o meu corao a ti, bella entre todas, Corao, que a ninguem ainda se dobrara, Chego do mar, venho assistir s tuas bodas, Ah! no mar salgado, porque no ficra. UM PASTOR Toca a noivado em Santa Clara Dobra a defuntos tres legoas em roda! --Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna, Meu Lar por terra! sem ninguem na multido. Fiquei na vida s, como o Conde de Luna, Mais sua espada. Ai do meu pobre corao! (Meu corao calla-te ou falla baixo: massa Os mais a nossa dr. Sim calla-te melhor) A procisso das Dres em mim sinto que passa E passa... e passa... e cada vez ser pior. THEREZA No que o fim d'uma desgraa o comeo d'outra maior! --Parti um dia, n'uma romagem, Levando a Esponja, o Fel, a Cruz! Regresso altivo d'essa viagem Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz) THEREZA. Senhor Douctor, tenha coragem Olhe que mais soffreu Jesus. --E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa, Meu Lar em p, o amor d'ella j no o meu. Minhas camizas, hoje, so de estopa, Foram de seda... Que vejo eu! OS VIZINHOS Foste pandega por essa Europa, Ahi tens o pago que o Senhor te deu! O mundo deu-me cabellos pretos Ai no precizo de os enluctar! ................................... E mais em breve porque vou cegar... UM CEGO A Anrique ceguinho diro Olhe no v tropear... --Amar a ella e d'ella ser amado, Ir em breve pedir a sua mo! E de repente tudo escangalhado! Ai que desgraa! como os outros so! THEREZA E que menino to estimado! E tudo n'elle perfeio! --Anrique meu amor, filho de Porto-Calle! Me dizia ella... Ai do meu corao! Amor j me no tem, no ha j Portugal... E que vejo, Senhor! de ruinas pelo cho! OS MENDIGOS Tantos vadios sem nada na mo Sempre espera de D. Sebastio. -- D. Sebastio a ti comparo, El-Rey de Portugal, a minha sorte, Se te encontrasse na vida, serias meu amparo, Ser-m'o has talvez depois da morte. D. Sebastio, rey dos desgraados, D. Sebastio, rey dos vencidos, El-Rey dos que amam sem ser amados El-Rey dos genios incomprehendidos. Sahi, um dia, a barra procura da gloria, Entre soluos e oraes, cuja memoria Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno, Que linda! O mar espreguiava-se com somno...) Por essa barra sahem, cheios de peccados, Bandidos com seus crimes e mais os degredados, Traidores Patria e ao Rey, infelizes e ladres. Por l sahiu, tambem, n'uma noite, Cames. No barco em que segui viagem nessa agoa, Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa E mais um sacco de Dr que por l me ficou. De volta trago tres, que aquelle no chegou. Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo. No lhes quero mal, seu erro to profundo! ............................................ ............................................ Todos partiram, todos fugiram. Os ladres assaltaram-me estrada Quizeram-me matar. No conseguiram. Ninguem me resta, no me resta nada! Fui enganado nos meus leaes amores. J tive de salvar a minha vida espada. No meu jardim semiei lilazes, Passado tempo vi nascer ortigas; Cada dia que nova dr me trazes? Lavrei canduras e colhi intrigas, Nasceram odios onde puz perdes. No digas mais meu corao! no digas Procreei gigantes vi nascer anes, Plantei nesta alma vinhas da piedade E vindimei, Senhor! Ingratides! Nunca se deve ter tanta bondade, Quando excessiva e tanto d inspira E uma falta at de dignidade. Ora eu assim cercado de mentira, Longe de tudo e todos, e enganado (Quando se foi to criana o que admira!) Vi-me sem Deus, s, triste e em tal estado Que se o contasse chorarieis... No! No falta em que empregar pranto salgado. Que infortunio, meu Deus! que decepo! Minha crena catholica perdi-a, J no sei persignar-me com a mo. Durante mezes, sempre, dia a dia, Ainda fui, por habito, Igreja: No sabia rezar a Ave-Maria! Chegava ainda at bemdita sejas... E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim Crava de pudor como as cerejas. Nunca na Terra se viu nada assim! Minha vida mudou-se de repente. A tosse veio... vs sabeis o fim. Foi a queda do Imperio do Occidente! Foi o desastre de Alcacer-Kibir! A Hespanha veio com Philippe frente! Que mais viria e estava para vir? E fui a Frana consultar um Bruxo Que eu j de ha muito desejava ouvir. porta havia uma cruz de hera e buxo E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa, Erguia-se em girandola um repuxo. Bolas de sabugueiro merc da agoa Iam e vinham, graas de meninos, Ascenes de prazer quedas de mgoa! Era a sorte a brincar com os destinos... No deixava de ter engenho o dianho Do Bruxo! Mas que symbolos to finos! Entrei. E vi um Velho alto, tamanho, De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos. --Sois vs o Bruxo?--Sim! esse o meu ganho! Tinha um sorrizo que s tm os velhos. E os labios brancos (de quem j no ama) Que contrastavam com os meus, vermelhos. --Venho de longe, aqui, por vossa fama. Vosso nome chegou ao meu paiz. --O teu paiz, Senhor! como se chama? No: d-me a mo, ella melhor m'o diz: Oh vens de Portugal? Oh se o conheo! Manda-me para c muito infeliz... Ouvindo taes palavras, estremeo. N'elle fixo os meus olhos de admirado E que me diga os fados eu lhe peo. Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado, N'uma cadeira antiga, ao p do lume. Eu assentei-me timido, ao seu lado. momento que um seculo resume! O So Paulo do Amr! Martyr christo, Que ao vr a espada j lhe sente o gume! Na sua mo tomou a minha mo. Seus olhos frios crava-mos na palma, Mas de repente muda de expresso. Que passado, Senhor! tem d d'esta alma! Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!... Mas eu logo acudi, com grande calma: --Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo. Eu conhecia-o j antes de vs. P'ra que lembrar-m'o? Sde meu amigo! N'uma sala contigua, etherea voz Rezava a ladainha, eram mulheres. --_Estrella da manh!--ora por ns!_ --Nada te digo, pois que assim o queres! Ouves? L dentro, rezam minhas filhas. E rezaro o tempo que quizeres. E continuou a lr: Que maravilhas! Que mo extranha! mo de tempestade! Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas! Vaes em meio da tua mocidade. Tens vindo em tua nau, desde criana, Por um sombrio mar da antiguidade. Agora, aqui, o temporal descana E v: segundo a altura do quadrante Dobras o Cabo da Boa-Esperana! Coragem! meu sombrio navegante! Paciencia! mais um pouco e aportars India! mais tua esquadra de almirante! Alli, te aguardam Bens te espera a Paz A boa Gloria e mais do que isso, at, Um grande amor,--e alli te coroars! O Velho disse. E, logo, puz-me em p. Mui feliz, no querendo ouvir o resto, Que eu sei o vasio que este mundo . Adeus! disse eu quelle sabio honesto, Formozo e de olhos grandes como cus! Adeus! e parti logo, altivo e presto. Caa o sol no oceano. Orei a Deus. Uma nau me esperava... Erguemos ferro E abalamo-nos de Frana. Adeus! Adeus! Que peccado Senhor! ou grande erro No mundo commetti que me ds tantos Trabalhos, como na Africa em desterro? No posso ser bem sabes como os Santos. Mas quantos homens neste mundo avisto To felizes (e maus!) quantos e quantos! E se no fui eu que pequei, Christo! Peccariam os meus antepassados? Quem foram elles? Vem contar-me isto! Religiozos, maritimos, soldados? E justas so as leis com que me aterras Sendo elles os unicos culpados? Na Arabia, na Phenicia ou outras terras Cauzaram, vae em seculos, paixes Fomes e sedes, ou atearam guerras? Comeu a terra os ossos d'esses lees, As suas cinzas foram-se nos ventos E eu soffro, apoz quinhentas geraes? Que injusta couza! que desleaes tormentos! Que faz rezar, noite, de mos postas, De que serve cumprir teus mandamentos?! Quem sabe se no foram meus avs, Senhor! Que tanto e tanto te offenderam, Mas meus archi-primeiros bisavs? Quando os vulces da terra arrefeceram, E lentamente, aos poucos, e as primeiras Effloraoes da vida appareceram; Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras E uivando, lua, e destruisse as mattas Que levaste a criar noites inteiras! Talvez, no dia em que baixaste terra, para ver a tua obra Vestido d'alvas vestes como pratas, Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra Occulta entre jasmins que te mordeu... Quando ias a colher algum... de sobra! Outrora o sol ardia no alto cu, Pediste sombra arvore n'um monte Que ergueu a rama e essa arvore... era eu! Quando o sol caa, tarde, no horisonte, Todo vermelho como agora, vde! Sequiozo, ias beber a agoa da fonte, E eu (que era agoa) no quiz matar-te a sede! Quem sabe se uma vez, pela noitinha, Foste ensaiar o mar, deitando a rede, E cobiou o peixe que l vinha E t'a furtou, (brinquedos de criana!) Alguma onda do mar, minha avsinha? Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rana! Como devo soffrer perseguies? (Eu concordo) legitima vingana? Ah no! eu no descendo de lees Nem da vil cobra que se vae de rastros, Que s concebe e d luz traies! Nem dos pinheiros altos como mastros Nem das agoas que vo regando os milhos: Ns os poetas descendemos de astros, Ns os poetas, Senhor! somos teus filhos! ... Assim scismava eu pelo mar alto Sob o luar partindo-se em vidrilhos... Quando n'uma manh de azul cobalto, Ao acordar, me vi no claro Tejo Orei a Deus. E logo sahi d'um salto. Mezes passaram, longos! que nem vejo Que differena em seculos, ou mezes: O tempo marca-o a ancia do Desejo! Que fazia eu? Nada. Scismava, s vezes, Errante, ao Deus-dar da vida: Sempre assim fomos ns, os Portuguezes! Ora em dia de Santa Apparecida (Mais uns minutos, esperae, Senhores, Que eu acabo esta historia to comprida), Errava n'um montado entre pastores Quando, subito, vi uma Donzella To linda! n'um Solar, colhendo flres. Oh doura de carne ou de estrella! Que esvelteza e que graa de alfenim! Meu corao disse-me baixo: ella! Qual de vs, Homens! J no teve assim Uma vizo, vendo erguer-se entre Nuvens, a vossa torre de marfim? Deixae que a minha alma se concentre. Deixae! que esse dia maior que quando Minha Maesinha me pariu do ventre. Quedei-me, ao vl-a, em extasis olhando. Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei; Meus labios moviam-se... rezando! Quem ser ella? a filha d'algum Rey? Atraz seguiam-na duas aias velhas: Quem ser ella, quem ser? No sei. Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas Voavam, ao sol, emquanto ella lia Um livro de horas com folhas vermelhas. Que paz! nem uma arvore bulia! E callavam-se as fontes! Que doura! Mas de repente uma voz chamou: Maria! Maria se chamava! Oh que ventura! Partiu. Eu quiz seguil-a, mas no pude! Que torpor esse que ainda hoje dura! A virgem me proteja e Deus me ajude! Vae alta a noite, eu caio de fadiga, Bambas as cordas do meu velho alade! Genio, no te partas sem que eu diga O encanto, mais a graa encantadora D'aquella virgem Castell antiga. Minha fronte vergou-se, scismadora: --Quem ser ella, mystica vizo! Parece com seu Ar Nossa Senhora! Mas eu j tive tanta decepo (Lde, lde, o principio d'esta historia) Que contive essa subita paixo. Tudo na Vida engana, at a Gloria. Para deixar de o crr fra preciso Lavar no Lethes minha fiel memoria. Assim pensava eu, meio indecizo, Quando na estrada junto a mim passava Um velhinho a rezar ao Paraizo. N'um cajado de lodo se apoiava. E detinha-se, s vezes, um momento, Erguia ao cu o olhar, e suspirava. As barbas brancas, fluctuando ao vento; Devia ter um seculo de idade E talvez vinte ou mais de soffrimento! Parou ao vr-me e olhou-me com bondade: Depois na sua voz meiga de briza: --Uma esmola, Senhor, por caridade! Uma lembrana dentro em mim se enraiza. --Dou-te, bom velho! tudo que quizeres, Se em troca me ds vestes e camiza. O velhinho sorriu como as mulheres. A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha, Que na botoeira tinha malmequeres... Ninguem a essa hora pela estrada vinha. Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito. E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha. Mas no estava ainda satisfeito, As suas barbas brancas eu queria, Comprar-lh'as era falta de respeito! Comprar-lh'as nunca eu me atreveria! Mas o bom velho o pensamento ouviu, Que aquelle olhar excepcional ouvia. grandes barbas! que ainda ninguem viu! grandes barbas! como eram bellas! Tal como outrora as de D. Joo, em Diu! --No lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as? povo portuguez! quanto s sympathico! povo portuguez das caravellas! Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico. Beijei-lhe as mos curvado... E o bom velhinho L se foi, a scismar... tossindo... asthmatico... O sol cahia ao longe no caminho! No tarda a noite, j lhe sinto os passos, Mas ha tempo: ella anda devagarinho. Enfarpellei sem grandes embaraos; A toillete tem poucos elementos, Muitos remendos sim, rotos os braos... Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos; Que nome tens, amigo? lhe gritei. Manoel. E digo eu, dos Soffrimentos. Cahia a noite: com pressa caminhava. Segui os passos deixados por Maria Que flres na mo, andando, desfolhava. No era aviso que assim daria? O meu olhar teria percebido? Que luz d'esperana a minha alma via! Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido Iro achar o pobre esfarrapado! Um mendigo velho... e to mal vestido! Pedi esmola e parei sobresaltado. Emquanto alguns me enchiam a saccola Um olhar lindo em mim era fixado. E que olhar p'ra mim! tanta doura evola! Senhores, eu no me tinha enganado... (Assim julguei ento... a Vida foi-me escola!...) Ella passou, de manso, para o meu lado E murmurou o meu nome, assim, baixinho... Disse-me depois que o houvera sonhado! .......................................... .......................................... THEREZA --E depois, menino, sabemos j o resto... Para que mortifica assim o corao? --Ai minha Thereza! tu tens talvez razo: Esse amor primeiro foi-me to funesto! O os meus dias idos em contemplao! O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe! Fallava eu s flres, como se ella fosse: Maria eu lhes chamava, cego de paixo. Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal! Eu hei-de lanar o teu nome aos quatro ventos! Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos, Eu, por graa de Deus, poeta de Portugal. --Quem , Thereza, que bate porta Quem vem a esta hora quebrar meu somno? --Ninguem , meu Senhor, a noite morta, So folhas a cahir, que j outomno... Quando eu era moa e menina, A-i--i! Um velho, um dia, leu-me a sina. Ha que tempos que isso l vae! A-i--i! (O vento continua uivando). --Quem , Thereza, que oio clamores, Vae vr porta, vae n'um instante! --Socegue, durma, so os lavradores, Que passam para a feira d'Amarante... E v de roda! e v de roda! Ol! E vira e vira e j virou! E na tarde da minha boda Houve baile, houve baile, ol! Tomou parte a aldeia toda, E v de roda! e v de roda! Ol! (O vento uiva sempre). --Quem , Thereza? quem , Thereza? Quem , Thereza, que bate porta? --Olhe a Fortuna no com certeza, Por isso... durma, durma, que lhe importa? (O vento uiva, uiva). --No ouves, Thereza, tres pancadinhas? Vae vr: a D. Felicidade. --Mas as senhoras no sahem ssinhas N'uma aldeia, nem mesmo na cidade... Durma menino, a dormir No soffre tanta paixo, Os sonhos que lhe ho de vir Afasto-os eu, com a mo. Durma menino, a dormir No ouve o seu corao, E p'ra o ajudar a dormir Eu canto-lhe uma cano: Era uma vez, n'um pao sobre o Tejo, Um moo Rey... de lindos olhos verdes; (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes, Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.) Andava o moo Rey com seu gibo De prata branca, reluzente d'oiros. Tinha em anneis os seus cabellos loiros, No cu era anjo e c... Sebastio. (O vento geme, geme sempre). --Quem , Thereza? quem , Thereza? No ouves passos, que vo pela serra No ouves gritos, quem , Thereza? -- D. Sebastio que vae para a guerra. ....................................... ....................................... Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes, E a chuva tomba sem parar um s momento, A chuva que parece de pontas de alfinetes, Por uma tarde triste assim, que Anrique Partiu. De novo abandonou o seu solar. Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique, E Thereza bem faz tambem pelo guardar. Por uma tarde de chuvinha miuda e vento, Anrique foi bater porta d'um convento. Bateu porta, um Frade veio-lhe fallar. Que desejaes, Irmo? e respondeu: Entrar. Frades! meus Frades! ai abri-me a porta! Abri-me a porta, que eu pretendo entrar. Eu trago a alma toda ferida, morta, S vs, Fradinhos, m'a podeis curar! Ha quantos annos vs estaes fechados N'estas muralhas de granito e cal! Ah se soubesseis, Frades corcovados! O que vae l por fra, em Portugal! ................................... Anrique, at que emfim cedes s magoas! At que emfim eu vejo-te chorar! Chorae, chorae, longos fios de agoas! olhos grandes como os globos do Ar! Ah chora Anrique, chora nos meus braos O moo Poeta que te est a cantar! Choremos entre beijos, entre abraos, Tambem eu choro por te vr chorar! Ah chora Anrique, chora, no te escondas! Tens pudor que te venham encontrar? Choram os cannaviaes, choram as ondas, S os cynicos no podem chorar!... Ah chora, Anrique, chora no meu peito, Assim baixinho, lento, devagar! Custa-te muito? no ests affeito! Chora, meu filho, que to bom chorar! Anrique ouve-me bem, minha criana! Nem tudo se perdeu com o teu Lar. Ainda tens na vida uma esperana... Meu pobre Anrique, s to lindo a chorar! Teu corao est morto, bem morto. Nada no mundo o poder salvar. Ah! moo que tu s, que desconforto! Tens razo, oh se tens! para chorar! Tens razo, Anrique; mas no emtanto, Quem soffreu como tu sem descanar, Anrique, ou d n'um cynico, ou n'um santo: No s cynico, no, sabes chorar. Ouve-me, Anrique: n'esses cus existe Um homem, Pae da Terra e mais do Mar, Que fez o Mundo (por signal to triste) E os olhos, no p'ra o vr, mas p'ra chorar. V! offerece-lhe a tua mocidade. V! vae soffrer por elle e trabalhar. Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade... Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar? No tens na vida uma alma amiga (Tu bem no sabes) para te amparar. S eu, embora curvo de fadiga, Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar! Todos os mais, malvados e egoistas, (Que tudo a Deus, um dia, ho de pagar) No te poriam nem sequer a vista, Fugiriam, ao verem-te chorar! A adversidade uma maravilha Que certas almas sabem respeitar, Mas aos olhos dos mais a dr humilha... Ah quanto grande vr um rei chorar! Ah pensa, pensa bem na tua sorte, Cautela, Anrique, nada de brincar. Ha outros males piores do que a morte, Cautela, Anrique, vamos trabalhar. Vae trabalhar por Deus.--Mas como e aonde? No vos disse que morto Portugal? P'r'o trabalho quem antes era conde!-- --Ai meu Anrique, no te fica mal! No me dizes que l por Portugal Andam as almas todas quebrantadas? Vae, meu filho, vae para Portugal Vae levantar as flores, j to quebradas. Anda, meu filho: vae dizer baixinho A esse povo do Mar, que teu irmo, Que no fraqueje nunca no caminho, Que espere em p o seu D. Sebastio. Anrique, vae gritar por essa rua --Vir um dia o Sempre-Desejado! Deu a vida por vs, Tu, d-lhe a tua, Esquece n'elle todo o teu passado. Procura bem Anrique, em Portugal; Procura-o na flr das primaveras, Procura-o na sombra do olival; Procura luz de todas as chymeras... ..................................... ..................................... INDICE Pag. Prefacio 5 I.--Sonetos: 1 a 25 3 a 27 II.--Outras Poesias: Eu chegra de Frana 31 Ladainha da Suissa 33 Confisso d'uma rapariga feia 37 Affirmaes religiosas 39 Ares da Andaluzia 41 Contas de rezar 45 A Ceifeira 50 Sensaes de Baltimore 51 Ao Mar 52 Dispersos 53 III.--O Desejado 61 _Acabou de se imprimir este livro aos dezoito de maro de 1902 segundo anniversario da morte do Poeta_ End of the Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by Antnio Nobre License: Share Alike