Produced by Mike Silva ALOCUO AO Senhor Presidente da Repblica PROFERIDA PELO PRESIDENTE DA COMISSO EXECUTIVA DA CAMARA MUNICIPAL Dr. Joo Duarte de Oliveira COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 1919 ALOCUO AO Senhor Presidente da Repblica PROFERIDA PELO PRESIDENTE DA COMISSO EXECUTIVA DA CAMARA MUNICIPAL Dr. Joo Duarte de Oliveira COIMBRA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 1919 EXCELENTSSIMO PRESIDENTE DA REPUBLICA PORTUGUESA: Na minha qualidade de Presidente da Comisso Executiva da Cmara Municipal de Coimbra, ao ter de brindar V. Ex., sinto que se apoucam as minguadas foras do meu espirito para a condigna elevao de minhas saudaes at dignidade de to alta posio, e at s culminncias no menos altas do Vosso mrito. Se, em meu nome individual, eu viera para levantar aqui a minha voz sincera, mas destoante, por sua insignificncia, do vibrante esplendor festivo em que fulgura esta hora viva, certamente a comoo tomaria o passo ousadia; e o meu silncio seria o melhor bocado de oiro, com que eu podia contribuir para que a fulgncia de tanto brilho se no minguasse com este reflexo plido da minha palavra, de arte to empobrecida. Mas a imponncia do imperativo, que me comanda, no admite escusa--Tenho de falar. EXCELENTSSIMO PRESIDENTE: A cidade de Coimbra recebeu-vos com os sentimentos da mais sincera elevao e nobreza que os seus brios patriticos impem a uma condigna saudao ao Supremo Magistrado da Nossa Repblica. Aprumou-se numa exaltao jubilosa, para que pudsseis medir a envergadura do seu entusiasmo; mas curva-se, perante Vs, na reverncia profunda do seu respeito dignidade da alta Magistratura que representais. Vo, pois, os nossos cumprimentos Vossa Pessoa ilustre, frementes do sentimento profundo que o mais acrisolado patriotismo pode acender em coraes portugueses. A subida honra da visita de Vossa Excelncia a esta Cidade, marca, nos fastos da sua histria brilhante, uma data de relevo e esplendor seguramente nunca excedido, se que alguma vez j foi igualado. De esperar seria, pois, que, aqui, na minha voz, ressoasse um eco, ao menos, dsse entusiasmo que canta e ri em todos os coraes, e dessa alegria que trasborda dos peitos de todos ns, como filhos desta Ptria querida, agora aconchegados em torno do mais ardente dos seus coraes e da mais flgida das suas almas. Mas onde h dotes de eloquncia rara, ou sas de inspirao profunda, que possam apanhar em sntese as vibraes que enchem estes ares de harmonias, ou iriar com brilhos aurifulgentes as facetas rtilas do alto sentimento patritico que, em Vossa Excelncia, se incarna divinamente? Eu quisera ser o taumaturgo ou o iluminado capaz de caldear, nas forjas duma alquimia sobrenatural, as almas e os coraes, num bloco de diamante, onde fulgurasse a condensao luminosa das radiaes dos mais puros ideais; porque, ento, no silncio duma comoo profunda, eu passaria da minha mo vossa mo, esse bloco mudo que, s nas scintilaes do seu brilho, vos diria melhor que todas as frases, qual a moeda de gratido com que a Cidade de Coimbra pagava a subida honra de Vossa visita. E eu no Vos diria nada. Mas nessa sntese sublimada da quintessncia dos puros ideais, Vs saberieis ler tudo; porque em todas as faces brilhariam reflexos da Vossa luminosa Alma sublinhados pelo nosso amor, e de cada aresta chispariam scintilaes como os relampagos da Vossa eloquncia, falando-vos assim a Alma de Coimbra, num simbolismo de luz, a nica linguagem digna dEla e de Vs. EXCELNCIA! Se, em nome do Municpio de Coimbra, eu brindo, jubilosamente, ao Excelentssimo Presidente da Nossa Repblica, como cidado portugus, eu no posso deixar de brindar tambm em Vossa Excelncia a pessoa alta e nobre do Excelentssimo Dr. Antnio Jos d'Almeida, como figura aureolada pelo nimbo esplendoroso das mais ldimas virtudes cvicas. A sua estatura moral no funo, apenas, dum determinismo poltico, porque as propores elevadssimas do molde social, em que se enquadra, ampliam-se pela exuberncia do prestgio pessoal que Vos ilustra; com a dignidade da elevada Magistrura que representais, defronta-se altssimo, tambm, o pedestal de todos os coraes que Vos elevam suprema incarnao dos nossos sentimentos patriticos. Jmais, na atmostera buclica desta terra linda, to impregnada de lirismos poticos, esvoaou a pomba alada dum esprito, que mais se desprendesse do tremedal da terra para o cu dos altos ideais; e foi nessa altitude ampla da ideia que um forte amor patritico vos inspirou o pensamento scintilante e fogoso, revelando vosso gnio dominador e empolgante, pelo brilhantismo do Verbo ao servio de radiosa esperana. Essa alma, exuberante de aspiraes generosas, faiscando em reflexos diamantinos de puros sentimentos iluminados, ensaiou aqui suas asas de condor, a pairar sobre o pntano duma monarquia ptrida, naquele vo firme de guia que s poisa nos pncaros da crista montanhosa; e, sempre imerso no azul das alturas, respirando sempre e s o oxignio dos ares limpos, jmais conspurcando-se ao contacto da Terra suja, irradiou daqui o vosso verbo luminoso como luz de nvoa doirada que fosse despedida do alto, a espargir clares de redeno sobre os negrumes desta Ptria, que se esfacelava no Calvrio da Histria, agonisante de impotncia, exangue de vitalidade, num pessimismo sem alentos, exausta de futuro e moribunda de esperanas. Foi aqui que Vosso Corao, abrasado num patriotismo ardente, se acrisolou nas chamas do ideal libertador; e, ao fogo das prprias inspiraes, ganhou a incandescncia que vos fez astro, a refulgir no Cu da Ptria, entre todos os que muito brilham nas rbitas da nossa Histria. Rasgando a nuvem torva que ensombrava os horizontes do futuro vida da nao, fulminaram os raios da vossa eloquncia a luz daqueles relmpagos, com que a palavra inspirada do tribuno mais empolgante abria os olhos ao povo, sobre os negrumes da hora triste que passava. E essa lngua em labaredas, verbo em chamas purificadoras, feito cautrio de luz e fogo, aplicou-se teraputica deste pas, fistulando o abcesso da corrupo poltica, que lhe corroa as fibras da aco e estrangulava os anceios de Liberdade. Mas, revolvendo os miasmas do pntano, por muito que nas rajadas do seu verbo redemoinhassem as toxinas da podrido que agitava aos ares, jmais a assepsia rigorosa da lmpida atmosfera do seu esprito, se contaminou da virulncia menos leal duma ideia duvidosa ou facto suspeito, que infiltrasse leve sombra na pureza austera da sua alma imaculada sempre. Nessa luta ingente, de mpetos e ardores indomveis, que vos encheram de convulses picas a grande vida de revolta at 1910, nunca, como Vs o dissesteis--o brao se erguia para dar um golpe sem a outra mo desabotoar a camisa desnudando o peito ao ferro do inimigo. Os exemplos comoventes daquela lealdade herica com que algumas figuras de lenda, desde a aurora incipiente da nossa infncia nacional, bafejaram alguns episdios picos da nossa Histria, resurgiam no corao do Exmo. Dr. Antnio Jos de Almeida, a bafejar do hlito de idntica lealdade generosa os arrebois dessa madrugada, em que a aurora dos sonhos ideais ia romper definitivamente, com o sol esplendente da Liberdade fulgindo no carro triumfante da Repblica. Leal, nobre e generoso, sempre, como um forte: e forte como um Atlante, na robustez da mais austera envergadura moral, nunca o sonho audaz dum misticismo redentor Vos encadescia o crebro, sem repuxar do peito a chama abrasada do sentimento luminoso a doirar a ideia fulgentssima. Por isso, at mesmo quando ateveis as fornalhas da Revoluo com a metralha demolidora da vossa eloquncia rubra, rutilavam sempre, nas labaredas do ideal, as estrofes do canto de guerra comoventes como um hino de amor. Alma de mstico absorvida em sonhos de vidente, fizesteis da luz subjectiva da ideia o astro que ilumina toda a realidade objectiva da vossa aco. E, depois de ter dado Repblica todo o ardor inquebrantvel da vossa f, e posto sempre na politica toda a nobreza austera do vosso ideal, a Justia, em prmio de toda uma vida de nobre civismo e amor ptrio, transfigurou os lampejos fugidios de vossa quimera de sonho nos clares eternos dum diadema de glria. EXCELNCIA--Perdoareis, se o entusiasmo da minha sincera admirao excede os mbitos da benevolncia com que me escutais; mas eu tinha necessidade de evocar um pouco a alta nobreza moral da vossa vida passada, como apoio indestrutvel consoladora esperana do que ser, para esta querida Ptria, a Vossa poltica futura. A poltica uma ideia que s prospera sbre o apoio concreto dos factos. Os ideais fecundos teem uma meta, que s se atinge com passo bem seguro no campo das realizaes prticas. Nesta hora intensa, duma fermentao mundial agitada e tumultuosa, no h torro de Ptria exgua, sbre que no se revolva, formidvel, o problema indeciso da sua vitalidade histrica. A nossa Repblica, por ventura hesitante ainda nos primeiros passos da sua infncia, no podia deixar de estremecer ao tocar-lhe a aura perturbadora dsse cataclismo hiperblico em que, parecia, os gonsos da mquina do mundo ruirem, desconjuntando-se. Mas passou. Agora, aos mpetos brutais da fora destruitiva, segue-se o desenvolvimento calculado das energias creadoras. Os paroxismos duma nevrose de morte do logar s contraces tnicas dum intenso labor de vida. Hoje, mais do que nunca, a afirmao da existncia s se faz por um desenvolvimento de progresso. Sero prsperos os povos que progredirem. preciso, pois, estimular a vida, fomentar a riqueza, dar sas ao Comrcio para que se espanda, impulsionar os volantes da Indstria para que progrida. Todo o labor fecundo haure a seiva creadora da Scincia, tornando esta produtiva pela Indstria. Eis os dois plos do mesmo eixo, em que os Governos teem de fazer girar a actividade intensa dos povos. Prestigiar a primeira com seguros elementos de progresso, animar e promover a segunda com slidas garantias de xito, eis a misso suprema dos Governos que saibam vr, para alm da hora triste que nos desalenta, a miragem dum futuro que nos reanime. EXCELENTSSIMO PRESIDENTE! Enche toda a vida de Vossa Excelncia um denodado esforo para rasgar as vias de um futuro livre, ao nosso povo; fareis merc agora, certamente, de toda a vossa autoridade e prestigio para crear um futuro prspero Nao. E, nessa orientao do Vosso alto espirito patritico, Coimbra, como nenhuma outra Cidade do Pais, ter js a merecer-vos sempre a solcita ateno do Vosso patrocnio valioso. Esta Cidade, que hoje o centro duma vida municipal intensa, de h anos se encontra francamente encaminhada, na via duma administrao eminentemente progressiva. Graas ao esforo de inteligentes e vigorosos espritos rasgados em amplas iniciativas de fomento, Coimbra tem refundido inteiramente o seu aspecto material e o seu valor econmico, no curto espao de alguns anos, como se sobre ela tivesse passado a aco renovadora dum sculo. E o seu exemplo frutifica, servindo de espelho e de estmulo a progressivas realizaes congneres, que se esboam por outros municpios. Mas, Coimbra, no seu avano j adquirido, no pode estacionar. O prprio benefcio reconhecido nas realizaes efectuadas imperioso incentivo a aspiraes futuras, para onde, na ampla via aberta, temos de caminhar. Uma desvelada solicitude dos Governos da Nossa Repblica tem sido comprovada, na satisfao de algumas das urgentes necessidades dste Municpio. A essa solicitude dos altos Poderes do Estado, a Cidade de Coimbra afirma-se-lhe reconhecida com sua mais calorosa gratido; e corresponde-lhe numa inquebrantvel dedicao patritica s Instituies Republicanas; sendo-me, neste momento, muito agradvel recordar a elevada distino com que, h pouco ainda, foi galardoada, pelo Exmo. Ministro da Guerra, a sua fidelidade ao Regimen. Bem fundamentada ser, pois, a nossa esperana de que todas as justas aspiraes deste Municpio encontraro nos Governos da Repblica, e no valioso patrocnio de V. Ex., aquele acolhimento e reforo necessrios para que as iniciativas fecundas se concretisem em realidades de progresso. E, como hoje, neste dia to jubilosamente festivo, sempre a Alma de Coimbra, na expresso profundamente sincera da sua viva f republicana, poder gritar com o maior entusiasmo: Viva a Repblica Portuguesa! Viva o Exmo. Presidente da Repblica Portuguesa! Viva o Povo de Coimbra! End of the Project Gutenberg EBook of Alocuo ao Senhor Presidente da Repblica, by Joo Duarte Oliveira License: Share Alike