Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Nov. 2009) O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL _RAMALHO ORTIGO_ O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL _Monumentos architectonicos--Restauraes--Desacatos Pintura e esculptura--Artes industriaes O genio e o trabalho do povo--Indifferena oficial--Decadencia Anarchia esthetica Desnacionalisao da arte--Dissoluo dos sentimentos Urgencia de uma reforma_ LISBOA Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor 50--Rua Augusta--52 1896 Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa _ Commisso dos Monumentos Nacionaes_ dedica respeitosamente este humilde trabalho _O AUCTOR_ Durante a Renascena, e ainda atravez da Edade Mdia, to insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o fausto e a pompa hierarchica no smente construindo palacios e castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforos do talento de uma raa, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus, em nome do rei, em honra da patria. N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a pintura das vidraarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbao dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e o vo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de paz, de verdade e de justia. Dentro d'essas egrejas, ameaadas hoje de proxima ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendes dos officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as franquias, os foros da communa. Ahi se prgava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando o orgo emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as las e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao rufar dos adufes. Ao lado dos brazes e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros. Esse alcaar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaar mais sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado, aos maltrapilhos, aos villes, aos mendigos, aos lazaros e s lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, s mulheres adulteras, s mancebas, s mundanarias, s barregs. O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento de to grandes obras. Creamos instituies de caridade, fazemos regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido pela revoluo liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente incapazes de consagrar pratica das virtudes, de que julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que nossos avs lhe levantaram _a proll do comum e aproveitana da terra_, dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcobaa ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoo e a sua escudella debaixo do brao, participava, alm da rao quotidiana que se lhe distribuia pelo caldeiro da communidade, de um agasalho de principe e de um luxo d'arte com que hoje no competem os maiores potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam de todas as joias artisticas de que pela abolio dos vinculos e pela extino das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do bric--brac. Falta-nos a alta noo de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegao, falta-nos a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f dos nossos avs. Na architectura trabalhamos unicamente para ns mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento de continuidade de raa ou de familia, deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos. Entre as nossas antigas construces hydraulicas ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias geraes successivas acarretaram para essa construco os materiaes; e lentamente, pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles que de to longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal empresa a humilhao e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com egual carinho ao futuro aquillo que deve previdencia, aos sacrificios e aos desvelos do passado. O nosso ideal na arte de construir que a obra se faa em pouco tempo e por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a pedra e a madeira, em que nimiamente moroso para a morbida inquietao do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor. Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga misso perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de enformar a vapr a habitao moderna e o moderno edificio publico--a gare, o quartel, o mercado ou a cadeia. O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia. No succede assim, porque so inviolaveis as leis do progresso. Ao seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte nunca em nenhum outro periodo da civilisao chegaram eminencia attingida pelos investigadores contemporaneos. tambem em sua maneira um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que erigiu a erudio do nosso tempo, constituindo scientificamente a archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites, especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica, para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigaes a cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que to amplo claro teem derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuio das raas, da formao das linguas. Fixaram-se pelas escavaes de Troia, de Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confuso existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos bronzes, a das joias, a da tapearia, a da illuminura. Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos, ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino. Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e classificaram-se as inscripes gregas e romanas dessiminadas pela Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas lapidares da edade mdia e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos. Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos e cuneiformes das inscripes egypcias, caldas, assyrias e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuao e pela evoluo da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto greco-syriaco do Museu Britannico at a minuscula italiana egual dos primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as primitivas habitaes do homem, as suas primeiras fortificaes, os seus mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce at o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto como a estatistica moral das sociedades extinctas. D'esse novo criterio resultou a atteno especial com que todos os povos cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios publicos. Em mais de um documento da edade mdia se encontram provas de que os antigos poderes no abandonavam, to completamente como hoje se poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as edificaes consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei 6., titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: Por bienaventurado se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Seor Jesucristo, et como quiere que todo home mujer la puede facer a servicio de Dios, pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et en las vestimientas... Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores, procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos aougues, e eram do antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a esse tempo edificava. E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde estam e em as ditas casas faram muito, e ainda nobresa as cidades haverem em ellas bas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu fundamento he as faser para ns em ellas havermos de pousar, Ns vos rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em essa cidade ter cuidado de as tirar donde estam, etc. Estas linhas so um trao caracteristico da policia do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a interveno regia para bulir em duas pedras de um velho monumento, operao que hoje se realisa com menos formalidades, e at, como sabido, sem formalidade alguma. Era porm entendido como doutrina corrente no desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo neologismo restaurar operao desconhecida dos antigos. A obra architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas edificaes, quer em reparao de antigas, o systema e o stylo da epocha em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as reconstruces se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela tradio, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes que haviam servido glorificao de feitos anteriores, como no arco de Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das influencias diversas atravez das successivas phases da construco por differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos; outros comeam romanicos e concluem gothicos; outros, gothicos de nascena, acabam no clacissismo greco-romano do renascimento; e frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mr no stylo barroco de D. Joo V, de D. Jos ou de D. Maria I. D'esses casos de polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha. A cathedral de Colonia n'este ponto de vista, um facto particularmente expressivo. A construco, principiada no meado do seculo XIII, proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, ornamentada em stylo rococo. Smente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma restaurao authenticamente archeologica, segundo o plano original, cabendo o projecto da concluso a um architecto que ao mais profundo estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais perspicaz. Na historia da cathedral de Milo circumstancias analogas s de Colonia veem ainda corroborar a affirmao de que unicamente ao seculo XIX cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milo iniciada no seculo XIV, interrompida por desavenas entre os architectos, uns allemes, outros italianos, outros francezes; continuada no seculo XVI em stylo da renascena; e to smente em 1805 a restaurao do monumento no seu stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou determinada por Napoleo I, o qual pela vastido do seu genio, ainda que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas da intelligencia indicou de antemo o ponto da victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na carta do Piemonte o logar de Marengo. Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830, quem primeiro indicou em Frana o programma das restauraes architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha, onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se no emprehende obra de especie alguma nos edificios monumentaes sem prvia consulta da commisso dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na Allemanha, que haviam precedido a Frana na proteco da arte nacional; na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na Grecia, na Turquia. Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, no smente ampliando os seus preceitos, mas dando da applicao d'elles o mais notavel exemplo na restaurao do castello le Pierrefonds. Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com to paciente laboriosidade, escriptos com to lucido e penetrante engenho, e conhecida a legislao europa baseada n'esses estudos to completos e to perfeitos, a questo puramente administrativa de dar aos monumentos nacionaes de cada povo a proteco que se lhes deve, quando menos por simples solidariedade intellectual na civilisao do nosso tempo, questo perfeitamente illucidada e rigorosamente definida. Vejamos agora qual em Portugal, perante as responsabilidades da administrao, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim de pr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede. Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos architectonicos da nao, os quaes assignalam e commemoram os mais grandes feitos da nossa raa, sendo assim por duplo titulo, j como documento historico, j como documento artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a dignidade, para a gloria da nossa patria. Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dr e a vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a cumplicidade official. Os primeiros so uma consequencia de desdem; os segundos so um resultado de incapacidade. A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a conservao e a guarda da nossa architectura monumental, procede com esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle mesmo no tome essa resoluo lamentavel, assassina-o. Na primeira hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda no definido vernaculamente na applicao pratica. Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos monumentos, o desastre denominado _restaurao_. Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os factos so de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na materia de que se trata. Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da nao, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a Batalha. Nos Jeronymos a construco desmoronou-se, sem provocao alguma de agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o commentario. A restaurao, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o programma de tal restaurao?! As seguranas de execuo falham precisamente na parte mais rudimentar do problema. Attente-se em que no se trata ainda de uma questo de archeologia, nem de uma questo de arte; no se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades inherentes ao estudo das frmas constructivas ou ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas escolas no tempo e na regio a que o edificio pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construco, e esquece, incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto dos scenographos, que a primeira condio de um architecto a quem se confia a restaurao de um monumento que elle seja, antes de tudo, acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos os constructores. Na Madre de Deus, onde alis o primitivo portal da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do tempo de D. Joo III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da ornamentao vegetal do nosso seculo XVI se v reinar nos entablamentos a figurao, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigao da autopsia. Nas restauraes da Batalha, umas j em realidade, outras ainda em projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de materiaes, condies de resistencia e de equilibrio, systema geral de structura, determinao do stylo, desde as suas grandes linhas e dos seus motivos dominantes at os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas, at o extremo desdobramento d'esses motivos, mo de obra, direco e apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc. Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alados, photographias, desenhos de projectos, systemas de stylisao, methodos de estudo e de trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos ns, que no somos architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico, decidir se o restaurador da Batalha est ou no est ao nivel da sua misso. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se entrega a restaurao de um monumento, ns no podemos julgar seno de um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da execuo, para o qual nos fallece a competencia profissional. Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque o unico architecto portuguez de quem conhecemos, com relao historia do edificio e ao plano da restaurao da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a que me refiro, alm de mui interessantes revelaes sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os visitantes com cabeas das figuras de que elles se compunham, contm alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear, comprehendia a sua delicada misso. E excellente o methodo por elle proposto para a conservao das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao restaurador repugna adoptar, para o fim de pr o monumento ao abrigo das intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao tempo da construco primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de cimentos modernos na vedao de uma cobertura, etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque no obstante um trabalho de incontestavel merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela primeira vez a atteno dos poderes publicos. At Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castells, os seus paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos attributos--lanas, montantes, elmos, guantes de ferro, falces, adagas, bstas e bandolins, pediam um scenario de fortificao feudal, fossos e pontes levadias, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de menagem, amplas chamins com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que no eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O romance historico, tanto em voga durante a gerao litteraria de Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas s da poesia cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni. A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira appario da _Abobada_ no _Panorama_, at hoje, o _grande livro de marmore_, o _immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante affirmao da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lana de D. Nuno Alvares Pereira e pela penna de Joo das Regras. Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria, destinado a commemorar esse feito, por voto de D. Joo I. Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha , como a epopa dos _Luziadas_, a imagem technica das idas e dos sentimentos da patria, medeia--me parece--um largo abysmo. Olhemos por um momento a historia d'esta construco. Frei Luiz de Sousa diz que El-rei chamara de longes terras os mais celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de cantaria dstros e sabios; convidara a uns com honras, a outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto. Este testemunho precioso e est acima de toda a suspeita, porque nos vem de um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundao. Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte na direco das obras nos primeiros annos da fundao, e no consta de documento authentico que qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que medeiam entre o seu comeo e o anno da morte de Affonso Domingues, em 1402. Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta opinio; de modo que se tornou uma cousa to corrente como se estivesse demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha. James Murphy, porm, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por _informaes que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do Tombo_, que o encarregado da construco foi o architecto inglez Stephan Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua sde principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por interveno da rainha D. Filippa, mulher de D. Joo I, ingleza de nao, filha do duque Joo de Lencastre e neta de Eduardo III. O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de York no permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois edificios. Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra de um portuguez ou de um inglez, a verdade que as duas igrejas nasceram de inspiraes artisticas analogas, homogeneas e contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impresso tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha. Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt. Na Torre do Tombo no se encontra documento algum relativo construco da Batalha, nem vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu. claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou no em Portugal o architecto de York. No consta to pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se fra de toda a contestao. O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz que no v razo para pr em duvida a habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. Joo I, na qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nao da Europa se achava mais adeantada que a nao portugueza, tanto na arte da architectura, como em todas as outras_. O patriotismo imprudentemente levado at s affirmaes da natureza das de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que o de fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicao dos nossos sentimentos civicos historia da arte europa. Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha de Frana e na regio circumstante. Foi n'esses logares que at o seculo XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega em Frana aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de Chartres. Os allemes e os inglezes teem contestado Frana a prioridade do emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle procedem. O que, porm, est acima de todo o litigio, que o systema ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, no procede da inveno dos paizes meridionaes, de cu azul, mas sim das regies nevoentas de longos e rudes invernos. No norte da Europa, durante a edade mdia, tratou-se de edificar a grande cathedral que dsse um abrigo espaoso s numerosas congregaes de fieis e de cidados; como a pedra escasseava, como a neve cahia em abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de construco, que, sem difficultar a circulao da gente com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que, no pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os, deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltrao da humidade no interior do templo. Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas condies sociaes, e no de um mero capricho inventivo, que resultou para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado, puzeram de parte, para o fim de dar logar na construco das basilicas christs enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo. Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fra das influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e da indole da nossa raa, que nasceu o stylo architectonico da egreja da Batalha. A affirmativa de que nenhuma nao da Europa, com excepo da Italia, se achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. Joo I, nas artes da architectura, smente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou no viajou nunca em Frana e na Allemanha, ou no visitou n'estes paizes os monumentos anteriores ao fim do seculo XIV. A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, chronologicamente um dos ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar de toda a sua belleza, est, como obra d'arte e como magnificencia monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame (1275), etc. Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construco do convento da Batalha, encorporada na colleco das memorias da Academia, tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma ida do enorme abysmo que no tempo de D. Joo I nos distanciava ainda dos grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo XII e no seculo XIII. Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha, Burgos e Toledo. Anterior Batalha no ha em Portugal monumento algum que prenuncie, prepare e explique a appario d'este. Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulaes estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe chegava o tempo para desbravar o slo e para bater os inimigos, que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e aguerrida. A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, j ento consagradas na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma planta exotica. D'onde que foi transplantado para terra portugueza este producto de uma civilisao superior, em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada pelas fortes corporaes operarias e mercantis, impellira as communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo, nas cidades novas, um asylo de religio e um fco de vida civil? No sei responder peremptoriamente a esse quesito. O problema assim estreitado , no fim de contas, de pura curiosidade. O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o estylo ogival no tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade. S poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma corporao de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres eram as unicas corporaes que na edade mdia possuiam os conhecimentos necessarios para o plano e para a execuo dos edificios sagrados, quer para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral. Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros livres se compunham de cidados de todos os paizes, que reconheciam a supremacia da egreja romana, no seria possivel determinar positivamente os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o logar preciso do seu bero. Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas no so a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma congregao encerrando no seu gremio homens de todas as naes. Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig l-se com referencia s associaes maonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes formando uma s corporao dirigida por um ou por varios chefes. Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construces em toda a Europa e so auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as construces d'essa poca fundamentalmente identico. As associaes alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemes, flamengos, francezes, inglezes, escocezes e at gregos. Foi d'essa maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de Milo, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da Inglaterra. Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque no conheo os documentos positivos em que se baseia o escriptor allemo--condiz perfeitamente com a lio de Frei Luiz de Sousa, e talvez de todas a mais verosimil com relao aos constructores da Batalha. Que fosse, porm, uma associao de artistas e de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que no inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou Huet, de nao inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhana offerece a de ter sido o monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto. O mais superficial exame aos edificios anteriores Batalha manifesta do modo mais evidente que no tinhamos nem escola, nem tradies, nem tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu a egreja da Batalha. Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a verso relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas accrescenta: muito para admirar, no devo negal-o, que houvesse n'aquella poca em Portugal um artista to consumado como o que fez o risco do monumento, achando-se a architectura entre ns, antes da execuo d'esta obra em um estado, que, se no era de grande atrazo, tambem no se lhe poder chamar de adiantamento; em um estado pelo menos que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como escola d'onde pudesse sahir um artista to completo. A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo com a tradio geralmente recebida, exclama um tanto contricto: N'este caso lanarei mo de uma conjectura, no pela necessidade de sahir do embarao, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da acclamao do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeioar na sua arte. Bem sei que n'essa poca no eram dados os artistas, pelo menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmo natural, filhos de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues, levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da architectura gothica no genero da Batalha. Confessemos que preciso ter vontade de attribuir por fora a Affonso Domingues uma obra que este no podia fazer, para formular a conjectura de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os filhos de Duarte III. Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de seu irmo com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e de que no ha o minimo vestigio historico, no ser talvez inutil reflectir que depois d'essa excurso a Inglaterra--paiz to debilmente _classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que no tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa pr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar, proximamente no mesmo estado em que para l tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como vamos vr. Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas associaes de artistas seculares, architectos, esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira renascena da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento universal. Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral de _franco-maonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de exercer a profisso na qualidade de mestres. Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados adjacentes. Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras em que empregar a associao, cada vez mais numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a sua actividade fora do solo natal. Este expatriamento no representava unicamente uma expanso artistica mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista internacional da egreja latina. Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do Norte da Europa, constituia como que um solido reforo esthetico, temporal, naturalista e humano sagrada legio espiritual vulgarisadora do credo latino pela ramificao das ordens religiosas sobre todas as latitudes da terra. Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa. A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, to importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a influencia da antiga civilisao hellenico-romana. Como incentivo e amparo da vasta odyssa, a que se aventuravam os denominados pedreiros livres receberam ento da auctoridade pontificia, emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados a assegurar confraria errante uma especie de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia resultar de um congresso universal, tendo em vista pr acima de qualquer contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana. Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem reconhecido a f catholica apostolica romana, todos os privilegios que a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era oriunda. Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposio obrigatoria para os naturaes do paiz em que se encontrasse. S associao caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem appellao nem aggravo, a quanto dissesse respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o artista no iniciado nem admittido na associao estabelecer para com ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena de excomunho, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia s prescripes da egreja. Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a _Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas confederados, vindo em seguida allemes, francezes, belgas e inglezes. Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em communicao com os chefes das demais decurias e com a direco central. Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam a fora e o prestigio da associao, alistando-se como membros da irmandade. Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes distinces e particulares privilegios as suas lojas nacionaes. Para o fim de evitar que individuos estranhos associao aproveitassem fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e bem assim para que, em qualquer regio do mundo, cada irmo pudesse communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciao e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes maonicos_, por meio dos quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o acto de iniciao e matricula de formalidades solemnes, de provas especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade se obrigava no smente a no revelar a quem quer que fosse os signaes, com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de que a associao tinha a posse. Esta collaborao phenomenal dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este periodo mais alta perfeio scientifica e technica, a que jmais chegou a obra da intelligencia e da mo do homem. Quando a longa e laboriosa gestao de todos os demais ramos do saber humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma confuso tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as mais caracteristicas frmas de stylo, resolveram-se os mais complicados e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica, acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos, que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande confraria dos maons morreu a tradio de que elles tinham a guarda e o segredo. No tempo de Eduardo III a maonaria, que s um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor. Ora, dado que s muito lentamente e por via de provas espaadas e progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir qualificao de mestre, e s como simples obreiro podia ser admittido e iniciado, dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois de utilisado em qualquer obra, parece-me no haver um excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho maonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha, seria ento da maonaria e no d'elle o monumento de que se trata. Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que elle no encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra, ameaava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral. Sem exposio de plano referido s obras que recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discusso, quem, como eu, no tem voto na materia para a resolver por sentena, precisaria de entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes demonstraes para pr em evidencia todos os erros que em taes obras se teem comettido. Para no tornar pelo emprego d'esse processo, excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital, sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na restaurao da Batalha. Pela entrada principal da egreja, semelhana do que succede em grande parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete se me no engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por assistido de razes plausiveis para modificar o alludido systema, rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por esse modo tendo de altura a dimenso de duas larguras em vez de largura e meia approximadamente, segundo a dimenso primitiva. O architecto havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estaes superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta approvao. Ser difficil encontrar em um to breve episodio de construco uma to vasta affirmativa de desoladora ignorancia. Poder parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio da sua profisso. O erro todavia no caso sujeito to flagrante que no supporta defesa. Um barbarismo architectonico est tanto ao alcance de um escriptor como um barbarismo grammatical est ao alcance de um architecto. Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de proporo e de relacionao que se chama a _escala_. Sem escala no ha obra de architectura nem ha construco alguma sensata, por mais subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a unidade abstracta d'essa medida o modulo. Na architectura da edade mdia a unidade o homem. N'este simples principio, to magistralmente exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da architectura medieval. D'essa referencia de toda a construco pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras da cantaria altura das paredes e das pilastras, porque a escala gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente s dimenses do material. Assim pela serie das juntas, sempre em evidencia na sobreposio das cantarias, a vista calcula rapidamente, por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a proporo entre as dimenses da pedra e a estatura do homem, e entre a altura do homem e a elevao da nave. Do que fica exposto resulta que a simples substituio de uma pedra por uma pedra de dimenso differente na base de uma hombreira no portal da Batalha , em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente a dimenso exacta e precisa, que esquadria da cantaria impe a dimenso do bloco, um elemento fundamental da escala pela qual se rege todo o edificio; e no pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se. Mas temos de considerar ainda que com essa mudana de pedra se offendeu o preceito da unidade, alterando a frma e a dimenso de um dos mais importantes membros da construco. O conjuncto de um monumento--diz Quatremre de Quincy-- de tal modo combinado, que n'elle se no pode nem tirar nem pr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Du desenvolve esse preceito da maneira seguinte: um erro grosseiro suppr que um qualquer membro de architectura da edade mdia pode ser impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura no ha membro algum, que no esteja na escala do monumento para que foi composto. Alterar esta escala tornar esse membro disforme... Os erros de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restaurao. As dimenses das portas--j dizia Vinhola--devem ser de uma proporo relativa escala pela qual se construir o edificio, grandeza das suas differentes peas e finalmente s particularidades da obra e do local em que esta fr feita. Com relao s portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana as propores entre a altura e a largura dos portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porm um papel mais preponderante que em qualquer outro systema de construco. De hora avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta deixar de augmentar em proporo com o edificio, porque, sendo feita para o homem, conservar sempre a escala propria do seu destino. A medida de extenso na edade mdia era a toeza, correspondente estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao portador de uma lana de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz ou de um pendo, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas toezas e meia, segundo as regies em que se construia. O portal gothico tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a condio de representar na fachada do templo como que um summario de toda a obra. do principio da arcada, de que a porta o motivo predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as demais frmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio. Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que so na egreja da Batalha seno applicaes e desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas constitutivas da porta principal do templo? Quo tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos os servios da arte para que possa dar-se um attentado da ordem d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que uma repartio publica auctorise, para que um ministro da cora sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade mdia, alterando as frmas de uma porta, que a porta principal d'essa gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alaram pela bitola dos estandartes, dos balses e das bandeiras de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira do morrio dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados! Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restauraes da Batalha teria de referir-me s vs deturpaes por que est passando a capella do fundador; ao detestavel altar mr, em cuja pedra to miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de um mosaico, e a odiosa colorao das vidraas, em que o doce tom de ambar, que os vidristas da edade mdia obtinham por uma emulso de mel na preparao da tinta, se v substituido pelo de um reles amarello cru, de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu horrorisado espanto perante esse to insolente e to irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em proporo e em escala unicamente permittidas, por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados, na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias. O meu fim porm no fazer a critica das restauraes da Batalha, mas sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos e capitaes, que nas restauraes emprehendidas tanto n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados a expensas do estado, no houve antecedencia de programma, nem estudo previo, nem determinao de methodo, nem sanco critica, nem fiscalisao technica, nem policia artistica de especie alguma. Pelo numero e pelo quilate das mutilaes, deturpaes e superfetaes, inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que so objecto os monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares esto no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto. Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome villa. Esta ponte, em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada por dois castellos ogivaes. A vereao, com o motivo de desafogar a vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar as ameias da alludida ponte. Outra vereao, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla, fundao dos primeiros tempos da monarchia, para o fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa razo uma praa. A Real Associao dos architectos civis prope-se a esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A junta de parochia prefere derretel-os. No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de crte na edade mdia, certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias e de pyrotechnica. Na alcaova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde. A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das _Viagens na minha terra_, arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No oramento d'essa demolio, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais tempo se no podia protrahir_, fra vantajosamente arrematada pela quantia de trinta e nove mil ris, calculando-se em mais de cem mil o valr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de alegria oramental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com as espadas e as lanas gottejantes de sangue mouro, firmando por esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal. A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por disposio do respectivo municipio. A destruio das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes, com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido a grande preocupao vesanica das municipalidades modernas, absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradies locaes de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado. Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica cidade do Porto. O Arco da Vendoma, rua Chan, que havia sido uma das portas da circumvalao sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de Frana pelo bispo D. Nonego, desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito seculos de existencia. Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razes algumas que expliquem mais esta demolio que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_, onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente cedido armada de D. Joo I para a expedio de Ceuta. Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol s resta o nome, foi acclamado D. Joo I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasio das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre. O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo linda narrativa portuense de Almeida Garrett, sacrificado como os demais ao alvio municipal da cidade invicta. O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festes de flores pendentes das velhas janellas de resalto, flamenga, sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva de ouro. Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se est mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a Torre das Cabaas. Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as medidas do cche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer, e desfizeram-se diligentemente a pico, nas ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de entalao para o trajecto da real berlinda. No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio transito. Entre a Torre do Alporo e a Torre das Cabaas o passo porm apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio cche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira mandra previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fra, presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os dois monumentos. Ento, depois de haverem marrado por um momento no problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a difficuldade, redobando a fita da medio inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados covados debaixo dos braos, e mandando simplesmente arrasar a Torre do Alporo, monumento do dominio romano, do alto do qual, durante a occupao serracena, o arabe dictava ao povo a lei de Mahomet. A Torre das Cabaas muito menos antiga e menos documental que a do Alporo. Com quanto Garrett a faa invocar anachronicamente no _Alfageme de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invaso castelhana, como um dos traos mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa torre data apenas do tempo de D. Manoel. No tem caracter propriamente architectural, uma simples pea de alvenaria quadrada. Mas o seu estranho remate, em grande elevao, formado pelo sino a descoberto, sustido na convergencia superior de quatro vares de ferro, estribados obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no tanger das horas e dos signaes de rebate, d-lhe uma feio verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. No ser talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas de certo o mais suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa to formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de _relogio das cabaas_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no ouvido lembrana das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de improvisao e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que parece armada em quatro pampilhos, uma verdadeira obra d'arte, que lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradio pastoral da regio em que surgiu. Os conspicuos burguezes do senado de Santarem no podem ter opinio sobre esta questo de esthetica, porque elles carecem absolutamente do ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaas, a qual evidentemente se no construiu para que suas excellencias a alveitassem doutoralmente de dentro dos paos do concelho, ou c fora na praa, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas, abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaas fez-se para ser olhada do vasto campo da Golleg ou do campo de Almeirim, vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de cabeada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaas de barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que no vejo em arte razo alguma plausivel para que, como motivo ornamental de uma torre, folha do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira. No! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella est a sua to caracteristica torre, para que se no diga que dos tres potes, que de antiga tradio consta acharem-se soterrados na Alcaova, um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade no encontrou seno o ultimo para o despejar sobre os monumentos publicos sujeitos sua jurisdio e confiados sua guarda. Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a Torre do Alporo, para passar uma rainha, uma desdita em extremo lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a Torre das Cabaas, para que passem os proprios vereadores, um desando grande da publica administrao para muito peior do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora D. Maria I. A torre da S Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nao. Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos das relaes do marquez de Pombal com D. Francisco de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve historia da demolio da torre da S Velha. Em carta de 3 de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos d conta ao marquez de que demoliu a torre: ...A dita torre era um monto de pedra e cal sem arte e figura, que servisse de ornato cidade, e antes estava tirando a vista do Pao das Escolas, e de muitas casas. E principalmente muito nociva Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente vista de todas estas razes que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo o que foi preciso fazer. Em sigla marginal a esta carta opina o marquez de Pombal: Que est muito bem feita a providencia sobre a torre da S antiga. E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez, em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos: Tambem me pareceu bem ajustada a providencia e resoluo que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da S antiga que no servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, s proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc. Do mosteiro de Alcobaa desapparece todo um claustro do tempo de D. Affonso Henriques. Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimenses da rosacea no frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em risco todo o equilibrio da empena. Alm d'isso, para o fim de aproveitar a pedra para outras applicaes, desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala do convento que lhe servia de encontro. No castello de Palmella e em S. Salvador de Pao de Sousa acham-se violados e deshonrados pelo mais completo despreso, alm das campas dos cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Pao de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia de um bebedouro publico. A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundao de D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos capiteis e os floridos arcos da sua restaurao manoelina, converte-se em uma das cavallarias do regimento aquartelado no convento. Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente. Parece que no houve tempo para satisfazer essa to breve formalidade de respeito. As saras, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de ser a esculptura removida para S. Joo do Alporo pela benemerita commisso administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou morrer s lanadas para salvar a vida do seu rei. O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associao dos architectos trazido para o museu do Carmo. Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasio em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo para bebedouro especial dos cavallos com mormo. As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe j de quem eram, por que, para no escorregarem os cavallos do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se continham. A sepultura de Pedro Alvares Cabral est na egreja da Graa, um dos bellos templos da fundao da monarchia em Santarem. Esta egreja cedida pelo governo pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de meios para custear o decoro do culto e a conservao do edificio. Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um azylo que n'ella fundou. A egreja da Graa de Santarem est portanto, a bem dizer, desamparada. A quem que se acha confiado o tumulo de Pedro Alvares Cabral? No se sabe bem, e so grandes, como pessoalmente tive occasio de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar com o depositario das chaves para ver a egreja. s gloriosas cinzas d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda. O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio. Em Guimares mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia envidraada a graciosa arcaria, e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro oculos. Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este vero, um raio fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mr, despedaa a madeira do arco que a separa da nave, e pe a descoberto, por baixo d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes de uma arcaria da Renascena, em que cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laaria afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da esculptura haviam sido desbastados a pico para nivelar a superficie da pedra em que assentara a madeira. Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as columnas, os artezes e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa camada de pintura. O material subjacente o lindo marmore polychromico da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a inteno esthetica de imitar a borres d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie to sordidamente conspurca. Quando ha quatro annos o governo mandou pr em hasta publica uma parte do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do qual do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, a mais delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza n'esse interessante periodo da transio do stylo romanico para o advento do gothico, na evoluo capital da arte na Edade Media. A virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da preceituao hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, invasivamente tocante na concepo de varios episodios d'esta composio, como o da Annunciao, o do Sonho de Nossa Senhora, o da Adorao dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificao de Jesus, que, pela primeira vez nas representaes d'este periodo, nos apparece flagellado pela cora de espinhos e com os dois ps sobrepostos, fixados ao madeiro por um s cravo. Acompanhando e envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pr em suggesto o pensamento que d'essa obra deriva. uma construco ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religio, no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpo ou de orgulho. Nem um s nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazo, cora, paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambies, a fora, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem espheras. A mesma aconchegada dimenso do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de novia, que poderia do cho acarinhar as imagens dos capiteis com uma flr de aucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma vegetao arbustiva, que ainda sobrevive antiga ornamentao floral do pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de uma expresso intradusivel. O claustro de Cellas , pela extranhesa e pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne, em que a agua no vem de alterosos e magestaticos aqueductos cantar ao sol em taas brunidas de prophyro ou de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de violetas em flr. Providenciando sobre o destino de um to delicado monumento, posto em leilo pela quantia de um conto de ris, dispunha o governo que os capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se recolhessem n'um museu! No sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O que sei que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado da perpendicularidade das suas columnas, no espera seno o primeiro dos mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente. Na linda egreja de S. Joo, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e mais villa cantaria. Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos por que est passando o antigo mosteiro das Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria com a collaborao de Santa Isabel. Na S de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos logares para onde as transferiram, e, com o fim de no transtornar inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os ps decepados aos joelhos das figuras. Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D. Affonso, filho de D. Joo I, obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em adorao. A caixa tumular, ornada de brazes, cingidos de arabescos e silvados em relevo, descana sobre lees. Em 1881 foram roubadas as cabeas dos lees, os ps e as mos da estatua, e os dois anjos que ladeavam a cabea do principe. O templo est completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se tudo de branco--madeiras e cantarias. A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de Evora. Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaa os de D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pao de Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento alis se attribue uma verba s reparaes d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em Alemquer, o de Damio de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da egreja da Varzea. Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor da India no tivesse mais importancia historica que a que se liga a qualquer pedreira. Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma praa, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paos do concelho, edificada em tempo de Affonso V, por Joo Mendes Cecioso, o _pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alteraes_, to minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua _Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. Joo II. Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece at haver sobre tal assumpto uma resoluo assente, o projecto inaudito de eliminar toda a bella alpendrada da praa, da rua Ancha e da rua da Porta Nova. Outra resoluo da camara de Evora, resoluo definitiva e aprasada para muito breve, a de destruir a pequena e to graciosa egreja do convento do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praa entre as duas ruas de Machede e de Mendo Estevens, s quaes faz esquina aquelle templo. A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da Costa, um dos mais graciosos documentos architectonicos do seu tempo. Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida colleco de praas largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos bairros historicos so hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em muitos logares, onde esses bairros no existem, esto-os inventando, esto-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa tradio historica, poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no pelintrismo das suas innovaes, bota abaixo os mais venerandos monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse effeito de bordado a cortia ou a miolo de figueira; pica os seus historicos brazes para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos reporters. Mas eu que no posso deixar de dizer cidade de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella nos retem no so as suas novas avenidas, nem as suas praas, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, so os seus velhos mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas, estreitas e sinuosas, to curiosos e to archaicos como o de _Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate da_ _Condessa_; so os quadros incomparaveis do seu pao archiepiscopal; so os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua architectura da Renascena, to especialmente amoiriscada n'esta parte do Alemtejo; so os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria, a tapearia, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doaria famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pdre, de farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os hebreus da Biblia, mesa de Abraho. Com as improvisaes do seu modernismo Evora como Vianna do Castello, Braga, Guimares, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que smente interessam os viajantes pela sua antiga arte, e no valem realmente a pena de que alguem as visite pelo que do de novo. Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo de uma magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores smente se pode comparar de Mafra. A mo d'obra de uma perfeio magistral a ponto de parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente sua concluso a cupula do tecto e o lageamento do cho. Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, no tem cobertura, e est servindo de armazem de arrecadao do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito. A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela ornamentao to portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou de desapparecer, como o convento da Esperana, sem se saber porque, nem para que. A restaurao, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fra, to particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a nobreza d'aquelle templo. Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido objecto a S de Lisboa so to lastimosos quanto innumeraveis. Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da companhia de illuminao a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais suggestivo padro da nossa gloria militar e maritima, j no emerge da areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto, como a alvura de uma hostia em elevao se destaca do fundo de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua expresso moral, como a immaculada estalactite, formada beira do mar pela concreo mysteriosa de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de consternao e de enthusiasmo, choradas por um povo de embarcadios; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascena, mais expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem emparceira-se com a chamin do mais vil e sordido barraco, a qual sacrilegamente a cuspinha e enoda com salivadas de um fumo espesso, gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos, houvesse sido to subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda e tremula o pavilho das quinas, mascarrado de carvo como um chch de entrudo. Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles parea attentar em um tal desdouro, expresso viva do mais abandalhado rebaixamento a que, perante as suas tradies historicas e artisticas, podia chegar a degenerao de uma raa. Por seu lado o parlamento e a imprensa so insensiveis responsabilidade de taes civicias, porque esses dois poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade e a noo de patria, relaxando completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica legitima representao, desinteressada e altiva, do espirito portuguez. Consta no emtanto que brevemente ser celebrado em Lisboa o centenario da India; e da comprehenso que temos d'esse feito culminante da nossa historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo, mostrando o monumento que commemora tal faanha, envolto, como nas dobras de um crepe, pela fumaada de uma fabrica, que ns mesmos lhe puzemos ao p, para o deshonrar. Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria. Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o que ainda resta do nosso patrimonio artistico. Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu. Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudana de dono, pela mudana de destino, pela transformao mais radical da vida interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o typo das habitaes nobres em Lisboa. Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, Junqueira; o do marquez de Pombal s Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela colleco das suas mobilias; Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olho; o do marquez de Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio do seculo, como o do baro de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde de Almada, e o do conde de Sampaio. A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invaso franceza, verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peas das industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes de charo, bufetes e contadores feitos na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D. Manoel, por artistas indianos. Os servios de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas da China e do Japo. A colleco das colxas e dos panos de armar, com que no dia da procisso de Corpus-Christi se revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes desenhos persas. Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias famosas de Lisboa. Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes, as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de face e gravis, redes, cadenetas, desfiados. As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em besties e em silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laarias, eram um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes festas do anno em todas as casas de jantar. O mogno francez do imperio, com as suas applicaes de bronze, representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com as modas da revoluo liberal muitas casas lisboetas, sem todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascena, em cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na poca de D. Joo V e de D. Maria I. Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos, em escala mui clara, to caracteristicos da nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de Tibes, de S. Gonalo de Aveiro, e da S Nova de Coimbra. O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que no occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na sua machineta em forma de urna, semelhante s que se destinavam a conter uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus. Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel galeria de pintura: paineis de devoo, retratos de antepassados, e um ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame Guiard, por Grard e por Therbouch, em casa do visconde de Sobral. Entre os quadros de devoo destacavam-se frequentes obras primas nacionaes, do seculo XVI, referidas vida da Virgem Maria, lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e Julia. Nos sotos d'essas antigas casas havia accumulaes seculares de moveis inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia na evoluo europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canaps desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charo, abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras composies de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montes de manuscriptos, montes de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol, que ns fomos os primeiros que fabricmos e que introduzimos na Europa, ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os companheiros de Ferno Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos de ch, com os primeiros vasos de porcellana, com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florena, a Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da civilisao moderna. E tudo isso desappareceu, ou se est evolando, com o successivo desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casares despejados. Esto nas bibliothecas extrangeiras, em Frana e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores genealogicas. Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino Jos Rodrigues, de Antonio Ferreira, de Machado de Castro, j no ha intacta seno a colleco da S. Destroaram-se as da Madre de Deus, do Corao de Jesus e do marquez de Borba em Santa Martha. O que ainda persiste da obra to curiosa e to caracteristica dos barristas de Alcobaa est ao desamparo no abandono d'aquelle incomparavel monumento. Lanas, espadas, adagas, elmos de todas as frmas--almafres, capellinas, bacinetes, barbudas e morries--, couraas, escarcellas, grevas, manoplas, escudos e rodellas, todas as peas, emfim, da armadura dos nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balas, as sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes. A espada de Vasco da Gama hoje propriedade de um particular, que ha pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional. Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, peas ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer resguardo que as defenda da irreverencia do publico, esto na Batalha merc dos moos, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca. Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por disposio testamentaria de Henrique II de Trastamara, v-se uma armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do rgo, em todo o respeito devido a um tropho sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--Aquella a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na batalha de Toro contra ns outros, tendo tido decepadas as duas mos, morreu s lanadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei. E em frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a p da padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual p uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos viajantes que para esse fim lhe vo bater porta. No est feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia da nossa habitao, e do nosso trage. Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada nas suas dimenses primitivas pela interpollao de um novo hostiario e de duas pilastras, que j no so do primeiro ouro das conquistas, mas de simples prata dourada. Depois dos to numerosos e to grosseiros erros a que tem dado origem a investigao da identidade de Gro Vasco, a historia, a classificao e a attribuio da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se ainda por fazer. A restaurao dos antigos quadros est constituindo na historia da nossa arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restaurao da nossa architectura. Alguns annos mais sobre o systema devastador que se est seguindo, e ninguem poder reconhecer nas taboas da nossa grande poca uma s pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten Massys ou os Dierik Bouts. N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida portugueza desde o meiado do seculo XV at o fim do seculo XVI, isto , durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu da nossa gloria. So raras as puras composies historicas e raros os retratos d'esta poca. Os grandes feitos da navegao e da guerra celebravam-se de preferencia nas tapearias, que se perderam, e constituiam o principal adorno d'arte dos paos dos reis e dos palacios dos nobres. Na pintura religiosa, porm, e nos quadros votivos, conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo misturam-se em brilhante anachronismo s figuras sagradas, e muitas authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos est ahi, por ns mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes. Ahi esto os reis, as rainhas, os sacerdotes, os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascena. So essas as caracteristicas figuras dos nossos avs: as faces cheias, a pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A essas nobres e delicadas cabeas femininas serviram de modelo as mais lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulao leve, sinuosa e ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os utensilios da casa e os estados do espirito. O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais bella obra da nossa historiographia. _A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam todas as aptides intellectuaes de que dispe o paiz, por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o quadro: 1. _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_ portugueza, que ns to opulentamente enriquecemos, pelo commercio das conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro jardim de acclimatao, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado da Europa, pela introduco do ch, do caf, do assucar, do algodo, da pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylo, do cravo das Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya, da ona, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo arabe. 2. _O mobiliario_, cuja fabricao to fecundamente desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administrao de Affonso de Albuquerque. 3. _A indumentaria_, comprehendendo, alm da historia do _traje_, a dos _tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da China, da Persia, de Benguella, to profundamente influenciadas pelo nosso contacto nas suas origens, to especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lavr do pao, onde trabalhavam ao bastidor e agulha as mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas rainha pelos capites da India. 4. _As armas_, de guerra, de torneio e de crte. 5. A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a to curiosa evoluo em Portugal da frma e do ornato dos calices, das custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peas em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascena, como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros, taxos de perfumar luvas, copas, taas, gomis, bacias d'agua s mos, maas, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar, guarnies de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias, guarnies de coifa, tranadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabea, tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar. 6. _As embarcaes_--galees, naus, caravellas, bergantins, fustas, toda essa portentosa colleco dos nossos barcos de guerra e dos to variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestes do mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que o navio grego do tempo de Herodoto. 7. _A olaria e a cestaria popular_, em que to atticamente se affirma o hereditario engenho artistico da nossa raa, e cujos productos tanto se compraziam em reproduzir os nossos pintores. 8. Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba, etc. Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza artistica da nao, no ha porm catalogo, nem inventario, nem rol. Nos nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa s fontes da tradio e da nacionalidade, em que cada um de ns tem a mais restricta e a mais instante obrigao de ir retemperar e fortalecer de portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educao a que se pode condemnar um paiz. No ha colleco publica, chronologicamente completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta industria artistica no emtanto d'aquellas de que mais legitimamente nos podemos gloriar. At o seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a evoluo peninsular, de influencia mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo azul e branco, em vastas composies historicas e de genero, paizagens, merendas, caadas, allegorias religiosas e lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado talento de composio historica e decorativa. Raro ser o anno em que de Portugal no tenha desapparecido um quadro inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de cohero, sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das crtes ou da imprensa. hora a que escrevo estas linhas me dizem que est venda ou vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindra um fidalgo da sua crte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que era uma gloria da nao. No , em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz. bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes, fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se suavemente, a pouco e pouco, at chegar a no existir do deposito primitivo seno unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia sido collocado. O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos por Estacio da Veiga, ainda hoje se no acha instalado. Da inestimavel colleco das antigas peas de loua e de obras de barro, que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu tudo. To vasta a nossa riqueza artistica e to profundo o desleixo de a escripturar, que so quasi to frequentes as surpresas no que se encontra como no que se perde. Como exemplo direi que era assentado no haver em Portugal vestigio algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e no existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente propriedade da _Bibliothque Nationale_, em Paris. entretanto nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios personagens, da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de dimenses eguaes, relacionados entre si por analogia de data e de assumpto. Est bem conservado, e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente de Fra, no vo de uma janella, junto dos aposentos habitados n'essa occasio por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene. O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma reproduco photographica, destinada a illustrar a nova edio ingleza da _Chronica da Guin_. Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto Nepomuceno comprou por 300$000 ris, e se achava encorporada no mosteiro fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de bella pedra d'Anan, que simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela mo d'obra e pelo estado de conservao em que se acha, uma das obras capitaes da esculptura da Renascena em Portugal. Compe-se de dezesete figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor, est prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres Marias, Nicodemus, Jos de Arimathea e S. Joo Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra a composio um bello portico, de columnas e tabellas preciosas, chancellado pelo brazo dos Valles. S outro Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja, esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar. Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthon dos Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco sarcophagos de que se compe o jazigo verdadeiramente regio dos Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mr da egreja constituem uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis contos de ris. Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje dispersos pelo paiz, so em numero talvez superior aos dos quadros de mesma poca recolhidos pelo estado depois da abolio das ordens religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, s sua parte, noticia de no menos de cem obras desconhecidas do publico. Das que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadao da Academia das Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, no ha uma s photographia registrada pelo Estado, semelhana do que se faz em todos os museus do mundo. Por occasio da ultima exposio, to interessante, realisada nas salas devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio, a direco das Bellas Artes no respondeu ao pedido da modesta quantia de 50$000 ris que a commisso executiva da mesma exposio lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em manuscripto na mo do redactor. Por essa mesma occasio os peritissimos e benemeritos photographos portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes to valiosos e desinteressados servios devem as artes portuguezas, dirigiram ao governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho. Inutil me parece alludir ainda disperso das mais ricas peas do mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascena artistica e industrial do nosso seculo XVIII. Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapearias da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas da India, do Japo e da China, credencias, leitos torcidos ou empennachados, canaps e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da Real Fabrica das sedas, louas artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric--brac extrangreiro nos leva em cada anno, com uma cubia e uma rapacidade que bem melancholicamente lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia Cicero que s ficou da arte o que a ganancia no quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho mestre romano, mas j no ha verrinas. D'esta desorganisao geral de toda a policia da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra da tradio esthetica nacional, que a seiva de toda a produco artistica. infecundao do individuo pelo espirito da raa corresponde o desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a esterilidade do estudo, a degenerao da phantasia, o abandalhamento do gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da decadencia geral, a desnacionalisao pelintra de todo um povo. Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo producto da arte tudo o que no unicamente obra da natureza. O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma fatalmente a configurao das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe enformam a personalidade. Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver egreja que os reuna, e j evidente esta enorme catastrophe: que na arte de Portugal faltam coraes portuguezes. Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual. Em resultado de no termos uma historia geral da arte portugueza, devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos seus capitulos, vemos grassar, no s entre o vulgo mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar e de reger a opinio, o erro criminoso, profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz de concepes artisticas originaes. A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de applicao e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas. Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue vermelho da raa, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixes mais profundas, todo de improvisao e de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido. Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimento. Por egual razo no teem caracter nacional, sendo portanto destituidas de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia mercantil, todas as nossas industrias. A decapitao official da nossa educao artistica manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na apparencia dos predios, na decorao das praas, das avenidas, dos cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das reparties do estado e das habitaes particulares. Em Lisboa, por exemplo, onde no ha uma sala de concertos populares, nem vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona Maria se no representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se no canta Marcos Portugal, onde no ha um museu de arte decorativa, nem um simples mostruario da nossa produco industrial, nem um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa, a lio que um museu contm, ha pelo contrario escaparates de apparatosos armazens, que so para quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da mais corrompida perverso, do mais provocante e pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de construco. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade mdia era um accessorio movel, e s no seculo XVI se principiou a fixar com pregos ao banco ou cadeira, invade boalmente todo o movel, armado em ripes de pinho, como uma ea de defunto, embrulhado em pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente m creao da cr. E horripilantes lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulao do contorno at o material empregado, porque todas as linhas so aleijadas, a prata zinco, o marfim gesso, o charo de papel e o marmore esculpido de sabo. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos, desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e de canalhismo de casta para a vida toda. Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao transito do publico, em vez da ornamentao da flora regional, em vez dos longos massios de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em fosquinhas para trambulhes do viandante. Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas, em Lisboa prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas. Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradio portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a aco do nosso clima. O to commodo, to modico e to gracioso typo da nossa antiga casa de campo substituido nas construces modernas pelas frmas de um exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confuso allucinada do chlet suisso, do cottage inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa. Em presena de um to inverosimil scenario de magica, de operetta ou de revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicaes, anedocticas e chorographicas, ser capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre que casta de gente se est passando a pea. Tal a delirante epidemia de que esto combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter um indicio nacional da nossa tradio, entre as casas de campo ou de praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a Cascaes vr o typo, unico, da habitao dos condes de Arnozo, to saudosamente semelhante casa de nossos avs, com o seu pequeno eirado sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de pedra, destinados s varas do estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros e de mangericos, em frente do poo de roldana, no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora. Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominaes que esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade esthetica dos habitantes. No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas to sympathicamente suggeria a lembrana bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a do _Moinho de Vento_, a do _Poo_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da _Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram, como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradio lisboeta, para dar s ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas moram ou se diz que por l passaram. E com egual afouteza se dissolvem, n'um borro de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente vinculados historia do povo e historia da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos. Os trages populares, alguns to pittorescos, to suggestivos e to bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se ridiculamente, porque no ha entre a gente culta quem preze esse trage, quem o honre e quem o entenda. Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias populares. Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de cr e mais graa de risco esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com estopa, com linho, com l ou com algodo, de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo, de Loul. Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, to pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto. Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve iniciativa e propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o _ethereal Ruskin_. Este glorioso campeo da esthetica e da arte em todas as suas mais complexas e mais variadas manifestaes no pode deixar de ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, so um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome consagrado de _ruskineana_. Grande homem de aco, gloria dos da sua raa, tomando por divisa _To day_, Ruskin no se emparedou, como a maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das contemplaes expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de ris da legitima paterna em subvenes das mais generosas empresas sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundaes de escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a trinta contos a edio) um rendimento de riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario. Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_, fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu arte todo um novo ideal e uma religio nova, creando uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta expresso auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo, em nome da arte, que um traado de caminho de ferro deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma commisso da Camara dos Lords a consultar uma commisso de artistas sobre se a passagem de uma linha ferrea no affectaria ruinosamente a parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de certo valle. porm com um intuito especial,--a proposito das nossas to resistentes industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de Ruskin. O trabalho rural da fiao mo e da tecelagem no estreito e primitivo tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradio ingleza. Ruskin, considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de satisfao, de educao esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppresso d'essa antiga actividade artistica da familia no campo inglez, dedicou-se com um esforo portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos de l em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da fora individual uma vela de moinho nos cabeos das collinas ou a corrente da agua beira dos riachos. Elle mesmo d o exemplo da nova organisao do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de Laxey. Recompe-se uma antiga roda de fiar com as peas desarticuladas e esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de uma velha tecedeira. reconstruido um primitivo tear sobre o modelo florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente, encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo, espadelado, assedado, fiado, crado e tecido pela mesma mo de mulher, porta ou janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice, substituida banal perfeio estupida e antipathica do apparelho mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiao a vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto aperfeioado, recebe a alta proteco da princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente por preos consideravelmente superiores ao dos productos da grande industria mechanica. Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na ilha de Man. conhecida no s em toda a Inglaterra mas em toda a Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados mo, de desenhos combinados na urdidura e na trama com as cres naturaes da l, sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caa, de viagem, de equitao, o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. a esta evoluo das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor remunerativo com as grandes industrias, e no a destructiva absorpo do trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu chamo _transformao de industrias caseiras em industrias de concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso d'aquelle que eu lhe ligo. Em Portugal certo que definham de dia para dia, e que successivamente se vo extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente, por culpa da administrao economica dos nossos governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragana a industria da sericultura e a da fabricao do veludo. Acabou em Guimares, entre outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas e dos brocados. No Algarve talvez que j hoje se no faa um unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares caseiros na Covilh, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas margens do Lima, porm, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a l, o algodo, e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais consistentes e mais bellos, de sua fabricao exclusiva em todas as phases por que passa a materia prima, desde que cegada no campo ou tosquiada no carneiro at se converter em vestido. feira semanal de Vianna as raparigas d'essa regio trazem em lindas canastras, alm dos ovos e dos frangos que criam, alm da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho, os cortes de saias de l e de algodo, as peas de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou agulha. As de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de Thomar vende-se em graciosos novellos da frma de casulos a melhor linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se ainda a antiga tradio das _mantas do Alemtejo_, citadas j por Gil Vicente na _Fara dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de l, que so o _homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis, estamenhas, briches, saragoas, jardos, sorrubecos. Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico, que primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as industrias, desde que os aperfeioamentos da electricidade desloquem o eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um tenue fio de arame o quinho de fora que tem para distribuir por cada operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforo propulsr do sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das mars, da corrente dos rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presena da revoluo das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de tradio desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde a tradio sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a todas as oppresses que a esmagam! notoria desde o seculo XVI a aptido artistica, que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados, pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho torcido ou entranado. Ninguem como elle manusa os ferros e as amarraes, o poleame e o talhame, o cabo, a adria ou o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unho, a boa, a linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E no o ha mais dextro em lanar a volta, em enastrar a pinha e em dar o n de escota, de fateixa ou de botija, o n direito e o n torto, o de cogula, o de borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho at o Guadiana, a enorme variedade de frmas nas embarcaes da pesca maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a persistencia da tradio no grande genio maritimo de to pequeno povo. Os que ainda vo pesca do bacalhau, Terra Nova, equipam de uma maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porm o typo latino do hiate e do lugre. Os que vo cavalla, pescada e ao sarrajo, no mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olho, semelhantes aos de toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de pra redonda, apparelhando com dois bastardos. pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida no portinho de Gontinhes; a lancha pveira, de bocca aberta, apparelhando com um s mastro e a verga munida de uma grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canas de Belem, de Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou _canas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira empregam-se embarcaes numerosas e variadissimas. Na arte de galeo agrupam-se: o _galeo_, coberto, de pra direita e arrufada, apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de pra e caa ppa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na roda de pra e sem coberta; a cana do galeo, e o _acostado_, que se emprega no transporte do peixe. Na armao fixa do atum e da sardinha, nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos, do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calo_, grande lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por banda, tendo na pra arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e, pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _lade_. Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calo_ , como alguns barcos do Douro, de pra comprida e alta, propria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao das embarcaes portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos. _Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os _saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro at a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Gal, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as _muletas_ e os _bateis do Seixal_. O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de embarcaes empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_, a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a _lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcao portugueza da nossa costa meridional, a _caadeira_ e a _focinheira de porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_, o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueiro da ria de Aveiro_, a _lancha de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os typos da Africa, dos Aores, da ilha da Madeira, no descriptos, infelizmente. So ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fo e da Apulia, para a apanha do sargao; as de Neiva e as de Sedovem. Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos os outros povos, verdadeiramente inacreditavel que em Portugal no haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem. No ha tal museu. Em terra to variada a colleco popular das vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros, como variada na agua a frma das embarcaes. A simples nomenclatura do vasilhame portuguez d, s de per si, uma ida, ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas frmas, porque ha typos que variam de regio para regio, de dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes so a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boio, o tarro, o cantil, a almofia, o alcatruz, o porro, o ccho, o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeiro, a caldeira e a caldeirinha, o tacho, a caoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a pichorra, a botija, a cabaa, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha correspondente velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastio, sobreviveu porm na tradio e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com quatro decilitros de capacidade, to maneira, to graciosa, to bem proporcionada a uma sde d'agua, ainda hoje na olaria de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote da regio, de uma elegancia to fina e to attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa. As frmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do bombylio, etc., so por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas, as mais engraadas ou as mais nobres, as mais irreprehensivelmente puras, parecendo que roda mechanica do operario as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a pea por pea, o sorriso acariciante de um artista. De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em Frana o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o bule de um servio de almoo, que ficou tradicional na fabricao de Svres. A industria popular da cestaria acompanha na evoluo das frmas a industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do nosso paiz notariam que cada regio tem a sua canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na frma ou no ornato. Ha-os de todas as configuraes, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados, oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a frma e a construco americana dos samburs, dos tipitis e dos cfos tupis, feitos de taquara e de cip, que introduzimos talvez no Brazil ou, mais provavelmente, l aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configurao, semelhante de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o canistel, a cesta, a condea, o ceiro e a ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do cesto o vime, o junco, a fasquia de castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a taba, a juta e a pita. Em algumas regies, como nas Caldas e Vizeu, os cestos so obras primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, um simples prodigio de fabricao minudente e delicada. No Algarve a alcofa, de filiao arabe, por vezes ornada de apparatosas flores bordadas a seda ou a l. Sem embargo, continuando a affirmar-se que no temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias domesticas, e no negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia, to originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados d'esses tecidos, nem a loua, nem a cestaria, nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos, e da qual to lindos effeitos se tirariam, applicando-a em ouro a servios de toucador, a frascos de cristal, a molduras de retratos, a encadernaes de devocionarios, etc, etc. Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa civilisao artistica. A arte que menos estudamos a arte hispanhola, qual todavia indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de temperamento, de tradio e de ideal. Juntamente com os hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a produco artistica da Peninsula imprimiram a feio differencial mais caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso stylo romanico, ogival e da renascena. E da mesma procedencia, mosarabe ou mudejar, so algumas das nossas mais interessantes industrias, como a da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da encadernao, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordoves_ por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita. At o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catales, asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando identicos feitos de guerra, de religio e de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da mesma invocao popular. Das nossas relaes com Flandres s conheciamos--at ha bem poucos annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a reciproca aco dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da proteco dada aos artistas nacionaes por D. Joo II e por D. Manoel, de uma s vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres, entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia. Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos esto sendo diligentemente continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia. Em uma recente publicao do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais Envers au XVI^{me} sicle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licena para ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os seus creados, foi para a civilisao que os acolheu de uma importancia incomparavelmente superior que jmais exerceu a colonia flamenga em Portugal. Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundao da primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base, alm das exportaes do reino, o commercio das especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasio da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda cr de purpura, bordada de ouro e de rubis, com botes, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraa e espada, vestiam librs de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose moult riche et triomphante voir_. Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe Filippe de Hispanha, de D. Joo II e de D. Manoel. Em outro arco de triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da Felicidade, da Religio, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. Joo I, D. Manoel e D. Filippe II. Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e queimar canela em todas as fogueiras das chamins. Outro portuguez, Simo Rodrigues d'Evora, era baro de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia reduzidas indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes de Arago. O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade conferida pelos portuguezes a Alberto Drer ficou assignalada pelas grandes festas a que deu origem. Drer retribuiu esses favores com presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de Portugal. Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Drer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins. Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos, escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia Lopes, Damio de Goes, etc. Outro curioso symptoma da nossa desaffeio dos estudos da arte nacional a estagnao das velhas idas preconcebidas na apreciao dos nossos monumentos architectonicos. J me referi ao co basbaquismo privilegiado de que objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno. Por notavel superstio epidemica, por inercia de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por commodidade, por conveno admirativa, ou por qualquer outro motivo, os criticos portuguezes, que mais teem governado a opinio, estabeleceram axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal o da Batalha. Toda a modificao nas linhas constructivas ou nos motivos ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia! Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. Joo em Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia! Decadencia emfim toda a obra architectonica da poca manoelina. A termos acceitado tal principio na sua applicao pratica, teriamos tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel, como o neo-greco-romano da renascena, que o triumpho consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas de construir, a cristalisao da rotina, a sujeio de toda a imaginao, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como to cegamente, to estupidamente, to inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com os seus correspondentes aphorismos de proporo e de symetria, seu pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilho, a mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua effuso esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as suas despropores e todas as suas assymetrias, no precisamente seno a contraposio da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores enfatuao idolatrica, pedantesca preceituao rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o neo-classicismo da renascena razoirou todo o talento humano. O stylo gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na palpitao do seu lavor evocaes de idas e de sentimentos proprios dos homens da sua raa e da sua terra. Os artistas manoelinos no teriam feito talvez monumentos _correctos_, na accesso indigente em que as academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos _expressivos_,--o que melhor. Porque no so as academias que pautam as propores e os limites da creao artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte no um producto de escola: a livre expresso individual de uma alma, convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma vibrao nova do sentimento. A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria, deduz-se da maior ou menor quantidade das idas que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percusso ella determina. Nos monumentos architectonicos pela sobreposio do ornato esculptural s linhas geometricas da construco que a arte se exerce. principalmente na esculptura que reside a expresso poetica do monumento. Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construco, submettendo assim as frmas constructivas ornamentao esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra, que to consideravel impulso teem dado s idas estheticas e moderna evoluo artistica, entendem porm, ao contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas na construco de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a consagrao da escola manoelina pela critica que n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a arte gothica e a arte da renascena. Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes to vigorosamente accentuaram a palpitao victoriosa do genio, da originalidade, da poesia, da gloria do povo lusitano. O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evoluo do stylo gothico em Portugal a modificao portugueza d'esse stylo, a sua nacionalisao, a originalidade local, imposta pelos architectos portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construco, commum a toda a Europa. Diro que no isso precisamente um novo stylo. Certamente que no, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura constituio complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accepo, nenhum stylo novo em toda a architectura da edade mdia e da renascena. Todo o processo constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos gregos no inventaram a columna, nem os romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na architectura de qualquer povo , como em Portugal, na poca manoelina, a subordinao de um systema qualquer de geometria architectural s condies do clima e da paizagem, natureza dos materiaes empregados, flora, fauna, concepo religiosa, historia, poesia, ao temperamento e psychologia dos artistas, em cada regio. Quanto mais intensa for a interveno d'esses factores mais original ser a obra. Assim, na evoluo do gothico na architectura portugueza, quanto menos modificado, isto , quanto mais _puro_ fr o stylo, mais insignificante ser o monumento como documentao artistica, como expresso social. _decadencia_ do gothico da Batalha que ns devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a flammejante janella da sala do capitulo a obra mais eloquente, mais convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais estremecidamente portugueza, que jmais realisou em nossa raa o talento de esculpir e de fazer cantar a pedra. Na ornamentao d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno da ida christ, todo o sagrado pantheismo das velhas religies da India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada ao orgo, no deslumbramento dos cirios, no aroma das aucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggesto mais profunda. O artista, em plena posse da sua ida, em completa independencia do seu espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execuo, desdiz todos os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando nas entranhas da sua propria vaidade a opinio de si mesmo, unicamente porque tem f na verdade que enuncia, porque concentrou toda a fora da sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixo do seu sangue, no amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu. As columnas na janella da sala do capitulo so polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra cobriu o bero da civilisao no littoral mediterraneo, providencia dos peregrinos nos oasis do deserto, qual os arabes da Peninsula dedicavam uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminao do polen,--a arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico um attributo da paixo e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos so as ondas do mar, taes como ellas se representam na heraldica; so os troncos seculares e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos montes, extrema expresso de fora na fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradio e a familia prendem a debil e errante creatura humana, ao corao da terra em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas carreta alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortia, enlaam a decorao, amarrando-a vigorosamente empena por fortes argoles, como se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composio, partindo das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma trepidao de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante na vastido dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo, formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de um galeo da India. O nosso povo porm desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos, que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar. Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender os productos d'arte. Em julho de 1890 o ento ministro da Instruco Publica consultou sobre a questo de que se trata uma commisso de artistas, de archeologos e de escriptores. Da resposta, at hoje inedita, d'essa commisso, de que me coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos. O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se prope effectuar o ministerio da instruco publica e das bellas artes --ponderava o relatorio--a pedra fundamental de toda a construco destinada a dar arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da nacionalidade, na orientao do sentimento collectivo do povo, no conjuncto dos elementos de impulso e de progresso para o desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da Europa. O inventario de que se trata, comprehendendo no s os edificios monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentao preciosa para a historia da arte em Portugal,--determinao das suas origens ethnicas e sociaes, fixao dos seus caracteres distinctivos e sua relao com a psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspiraes, com as ideias, com os costumes e com as instituies sociaes. Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas modalidades, segundo as influencias especiaes de cada poca, de cada phase de cultura, de cada estadio social, todas as foras emotivas, todas as aptides estheticas da nossa raa. A historia dos seus monumentos para cada povo a historia da sua individualidade, porque no ha monumento artistico que no traduza, mais ou menos directamente, a aco intellectual e politica da sociedade que o concebeu. A ideia do inventario projectado no --para honra nossa--inteiramente nova. No reinado de D. Joo V existia na Bibliotheca Real uma obra em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada Theatro do reino de Portugal e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que por scenas repartido. Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. Jos, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse os debuxos de todas as povoaes do Minho, o que elle cumpriu no anno de 1726. Por indicao da Academia Real da Historia, e para o fim de inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos no chegaram a ser dados estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de 1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas casas dos duques de Bragana, ao Thesouro Velho. As disposies do alvar de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvar: Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessa de qualquer estado, qualidade e condio que seja, desfaa ou destrua em todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos (assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas, marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos inferiores at o reinado do Senhor Rey D. Sebastio; nem encubro ou ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego s camaras das cidades e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, daro conta ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia que se lhes participar, podero dar a providencia que lhes parecer necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto. Etc. Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar sobre a mesma materia, assim designado: Alvar com fora de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido suscitar o alvar de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservao e integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peas de Antiguidade: mandando que as funces do mesmo Alvar, que at agora pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca Publica; tudo na forma acima declarada. Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mr da Bibliotheca Nacional de Lisboa Jos Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes termos: Para o bibliothecario mr passaram attribuies que competiam Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente tem sido at hoje letra morta, a tal ponto que at ignoram as suas disposies os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave detrimento, no s d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se acha estacionario em aquisies archeologicas, mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario mr deveria sempre ter, por obrigao do seu cargo, promovido a conservao e segurana dos monumentos que no podem ou no devem transportar-se. Em seguido prope o bibliothecario que se torne effectiva a responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com o bibliothecario, etc. Ficou porm to morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella se refere. Por decreto de 10 de novembro de 1875 nomeada uma commisso para propr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o plano de um museu, as providencias que julgar mais adquadas conservao, guarda e reparao dos monumentos historicos e dos objectos archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino. A commisso alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fra confiado. A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real Associao dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim de lanar em 1880 as bases de uma inventariao systematica dos monumentos nacionaes, no foi, assim como o zeloso trabalho da commisso de 1875, seguida de resultados praticos. Independentemente da preceituao official, teem sido modernamente do mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores artisticos a Exposio Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em Lisboa em 1882, a exposio de Coimbra, a exposio de Aveiro, a exposio de Guimares, a recente exposio do centenario antonino, e as exposies de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de Instruco. De algumas das exposies alludidas ficaram documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa colleco photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos museus e das exposies celebradas, se poderia extrahir desde j um esboo de inventario, que no seria difficil aperfeioar e prehencher, emprehendendo novas exposies e systematisando completamente as investigaes e os estudos correlativos. A commisso de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo das pesquisas que, convm continuar, para recolher ou arrolar os valores artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporaes ou de particulares, a commisso incumbida do inventario geral e definitivo desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as peas de que ha conhecimento, j pelo exame de que foram objecto nos museus onde existem, ou nas exposies at hoje feitas, j pelos catalogos e relatorios que d'essas exposies existem, j pela consideravel colleco de photographias que reproduzem os objectos expostos. Emquanto catalogao e conservao dos objectos pertencentes a particulares ou a corporaes de caracter civil ou religioso, no conviria desde j estabelecer principios absolutos. O modo de proceder dos delegados do governo em tal servio seria indicado pelas circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porm altamente para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das artes gloria do catholicismo, conseguissem fazer penetrar na convico das auctoridades eclesiasticas das suas circumscripes quanto inseparavel da historia da egreja a historia da arte christ, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos, ainda uma frma do culto ou um desdobramento d'elle na ordem civil, alm de ser o permanente attestado da alliana da crena religiosa com a immortal aspirao da poesia no corao e no espirito da nossa raa. Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de expor indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma lei, semelhante que existe hoje na Italia, em Frana, nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente e assegurar, de combinao com a legislao canonica, com os principios da concordata e com a legislao geral da propriedade, os direitos especiaes do Estado com relao guarda dos monumentos e parte que elle tem na posse dos objectos d'arte, determinando assim o caracter especial da propriedade artistica. Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commisses regionaes, dependentes da commisso central, e incumbidas, em suas localidades, da guarda e da conservao dos monumentos e dos objectos d'arte. Estas commisses, semelhana do que foi disposto na lei italiana de 1878, da qual se inspirou em Frana, para a organisao de eguaes servios, a Direco das Bellas Artes, seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro da nomeao dos municipios e quatro da nomeao do governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do governador civil ou do administrador do concelho. Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o estuda, que o comprehende. a collaborao preciosa d'esses pobres poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do publico, que aos organisadores das commisses locaes compete acolher e utilisar. O processo de inventariao de cada pea artistica constaria de duas partes. A primeira seria a reproduco photographica, ou em gesso, ou pela galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo clich ou molde. A segunda, a confeco de um simples verbete, impresso, correspondendo photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes quesitos: 1. Descripo summaria do objecto; 2. Logar onde elle se encontra; 3. Nome do individuo ou da corporao em cuja posse se acha; 4. Antecedentes; 5. Attribuio; 6. Avaliao; 7. Escala em que houver sido feita a reproduco. Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de Vienna, o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais expedito. Com applicao ao inventario da arte hispanhola elle foi proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposio historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pr em execuo, tendo-o sanccionado a approvao unanime de uma commisso presidida pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia indiscutivel e de uma notoriedade europeia. Com a colleco completa das photographias e dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nao um inventario to desenvolvido e to perfeito como o que outros paizes possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo. Da colleco integral, subdividida em tantas series diversas quantos os differentes criterios de classificao que se lhe applicassem, se extrairiam colleces especiaes, em edies mais ou menos modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas s escolas de bellas artes, s escolas industriaes, aos museus das escolas primarias e secundarias, s officinas, aos operarios, facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo preo, a todas as classes sociaes um pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da arte em cada uma das suas mais especiaes applicaes, da evoluo das frmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica, em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial. Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias, os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados quesitos de classificao, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais simplesmente pedagogicos, a discernir as pocas e os stylos, retendo todas as diversidades da frma pela memoria da vista. Alm do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos architectonicos e das riquezas artisticas da nao, o estado fundaria simultaneamente o mais interessante museu de reproduces. A Commisso dos Monumentos Nacionaes no inteiramente, pelos seus meios de aco e pelos seus fins, a commisso a que se refere a consulta de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commisso se reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commisso do inventario geral da d'arte, ao qual urgentissimo que se proceda. Na parte em que a commisso tem de responder pela conservao dos monumentos nacionaes, preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pr em execuo esse programma, no de um modo como at hoje officioso e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para esse effeito a aggregao e a collaborao effectiva de dois architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicao periodica de um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados do trabalho feito. Conseguidas as condies de consistencia technica, de auctoridade e de expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe commisso arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os monumentos confiados sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz possue; nomear as commisses locaes; definir claramente o que _conservar_, o que _restaurar_, e o que _continuar_ ou _concluir_ um monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares minudencias (porque n'este ponto tudo est por definir e por estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente todo o projecto de conservao, de restauro ou de acabamento na obra de cada edificio. Os cuidados de _conservao_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos os monumentos. Para esse effeito o programma simples, e a despesa insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasies em que cabe _restaurar_ so relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem _concluir_, a no ser nos casos em que vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos servios vigentes da civilisao contemporanea. Este mesmo criterio economico se deveria applicar opportunidade das _restauraes_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou uma habitao particular![1] Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que com to patriotico desinteresse constituem a Commisso dos Monumentos Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentao e auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a. Se o Estado no intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um decisivo esforo de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam. Est-nos dado o exemplo na actividade e na abnegao de alguns cidados benemeritos. O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e emprehende e realisa, sob a intelligente collaborao do sr. Antonio Augusto Gonalves, a restaurao da S Velha e a de Santa Cruz, com uma segurana de criterio, de que no ha exemplo em obra alguma do mesmo genero modernamente consumada pelas officinas officiaes. O sr. bispo de Beja applica um egual fervor s obras do convento da Conceio; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade, por concurso patriotico de alguns cidados, funda-se o mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos. Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si s a dispendiosa reparao do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria j desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo D. Joo II. Na ultima visita que fiz, em setembro passado, S de Braga, ahi me foi affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da reconstituio artistica d'aquelle importante monumento. Em Cette e em Pao de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes esforos para a conservao dos monumentos gloriosos a que n'esses logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonalo Veques e de Estevam da Gama. A obra to desvelada da extincta Sociedade de Instruco do Porto e a da Sociedade Martins Sarmento, em Guimares, so verdadeiros monumentos de erudio, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica. Para a constituio integral da historia da arte e da tradio artistica portugueza, quantas contribuies dedicadas, quantos esforos individuaes, desassociados e dispersos, na obra, to incomprehendida e to despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto Gonalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimares, Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano Bellino, Teixeira de Arago, Vilhena Barbosa, Conceio Gomes, Filippe Simes, Manoel de Macedo, Jos Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino Brando, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimares, Freire d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais obscuros! O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que s devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar a outros coraes a sympathia, que filialmente prende o meu terra em que nasci, e raa de que procedo! pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religio da nacionalidade se exteriorisa e se exerce. Desde que nas consciencias se extinguiu a f, por meio da arte que as tradices se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os affectos se depuram, que as paixes se enobrecem. pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo sobreviver aos seus dogmas no enternecimento, no amor, na saudade dos homens. tambem pela arte que em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituies, dos systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa. A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attraco para as idas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas, infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu s anteriores, como succeder s que se seguirem. No momento presente so unicamente os poetas, os philosofos e os artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma effuso de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdo, que caracterisa bem o nosso tempo, e de que no ha na historia outro exemplo. Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que deu motivo o tratado de Loureno Marques, quem na minha susceptibilidade portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que os estadistas inglezes (tratava-se ento do sr. Disrali e do sr. Gladstone) lhe no mereciam nem mais respeito nem mais considerao que duas velhas gaitas de folle. Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de _British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual tender sempre e irrevogavelmente a terna gratido do nosso espirito. unicamente pela arte, inherente natureza humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na solidariedade da especie. pela arte que o genio de cada raa se patenteia, que a autonomia nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma, no s pela sua especial comprehenso da natureza, da vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura, na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio. pelo culto da arte, e pela educao artistica que esse culto comprehende, que a produco industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade caracteristica do producto, e transforma pela prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma nao, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria, na Allemanha, por via da simples reconstituio dos museus e da multiplicao das escolas. Finalmente,--se para cada povo a arte a segurana da tradio, o refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e at politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes na magoa e na ruina de tantas crenas extinctas, de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte ainda--como diz Schopenhauer--_a unica flr da vida_. *Notas:* [1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado Commisso dos Monumentos Nacionaes, em sesso de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras, pelas concluses seguintes: 5. O Templo deve ficar destinado, smente, s grandes celebraes religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores e Navegadores portuguezes. 6. Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento e installao do Archivo Nacional, convindo que essa installao se ache concluida at o mez de maio de 1897. No concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se transporte para o edificio annexo egreja dos Jeronymos o archivo da Torre do Tombo, e to pouco em que se remova da egreja o exercicio parochial do culto. Por complexas razes, que no vem para aqui desenvolver, eu votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, alm de que, em minha humilde opinio, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem uma instituio historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito tradio do monumento. Foi o infante D. Henrique quem transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma bula a doao do infante ordem de Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para o publico seno o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvao da alma do infante D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel, tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a estatua do infante porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das mos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz. Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou ordem de Christo. A data d'esta carta de doao de 26 de dezembro de 1498. Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratido, e um torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores se cumpra, como de razo juridica e de probidade nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e pea um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e pela de el-rei D. Manoel. Que se adopte porm ou se no adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro, o que technicamente no de certo admissivel que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem resoluo tomada cerca do destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ |#pg. 71| ta boas | taboas | |#pg. 74| onem | nem | |#pg. 74| dimens | dimenso | |#pg. 105| ascebispo | arcebispo | |#pg. 142| privilegido | privilegiado | +----------+---------------------+----------------------+ Variantes dos nomes prprios foram mantidas de acordo com o original. End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by Jos Duarte Ramalho Ortigo License: Share Alike