Produced by Pedro Saborano MUSA VELHA Porto: 1883--Typ. de A. J. da Silva Teixeira 62, Rua da Cancella Velha, 62 FRANCISCO PALHA MUSA VELHA PORTO ERNESTO CHARDRON, EDITOR 1883 _Virgem dos olhos negros, se em tua alma memoria inda conservas d'outro tempo, s tu entenders porque este livro ousa s trevas fugir, e o sol encara; mas como quem escreve e quem publica no perde tempo, nem dinheiro gasta para teus ocios entreter smente, deixa-me vr se fora de assignantes, de venda avulsa, exemplares de mofo, ha mais no mundo quem me entenda e leia._ _DONA MORTE_ Deu na tonta de entrar na minha escada Dona Morte um dia. A pobre anda estafada do continuo ceifar desde que ao nada por divinaes processos da alchimia a terra foi roubada. * Da comprida queixola desdentada esta sentida nenia lhe saa: --Senhor! forte estopada! Sem poisar a caveira o mundo corro. Em toda a parte estou. A toda a hora prostro alguem a meus ps, e geme, e chora por minha culpa alguem! Nenhuma aurora, de luz nenhuma o jorro, as orbitas vazias me alumia!... Nunca uma esp'rana! nunca uma alegria! dr alheia pondo um suave termo s a minha o no tem!... S eu no morro emquanto o mundo no tornar um ermo!... obra! obra!-- E lepida subindo tocou a campainha: um lugubre tocar que dava medo; que no mais deixarei de estar ouvindo, e fez com que eu ento, muito em segredo, rezasse a ladainha. * Era um simples aviso, pois que a porta por si se escancarou e deu entrada quella feia ossada de vermes revestida, e negra, e torta, de mim ha longo tempo enamorada. --Senhora Morte, viva!-- disse ao vl-a, fingindo animo forte; mas c por dentro, como a sensitiva n'haste as folhas retre que lh'as no crte quem d'ella se aproxima e levemente a mo lhe pe por cima, c por dentro a minh'alma, em pasmo estranho por vr-se em to cruel extremidade, foi-se encolhendo at ser do tamanho d'um reles feijo frade! * --Desculpe a impertinencia-- continuei.--Como que usam tratal-a? Por tu? Por _Excellencia_ como hoje tratada toda a gente?-- A mim -me indifferente. No faz ninguem de tal miseria gala no reino onde eu impero. Esta resposta me deu a Dona Morte, e junto ao leito, onde eu espreguiava a mandrieira, chegou; puxou cadeira; sentou-se gravemente, sobreposta uma rtula n'outra. Com effeito mau vl-a!... peior cabeceira! E poz-me a fria mo aqui no peito. Que bons pulmes tens tu! e como pulsa na tua idade o corao ainda pelas paixes mundanas agitado! --Ento...--volvi com voz menos convulsa-- inda tenho a viver um bom bocado?!-- Conforme. Tudo finda quando me apraz e breve. --Se ao teu lado para afastar-te eu no chamar a Siencia.-- Dou-te um dce que a chames! Ce tu n'essa! descobriste a maneira, tem paciencia, de eu carregar comtigo mais depressa. --Banal! Banal! Cuidei que era outra coisa-- rosnei com meus botes.--Um vende bolas, um palurdio qualquer vindo de Loiza, da Lourinh, do inferno, esta sandice ancho diria qual a Morte a disse. * Ella no entanto, um p bamboleando, co'as phalanges dos dedos descarnados batendo sobre a tibia, ia soltando uns sons de castanholas com que se convocar gatos pingados s grandes, funerarias cabriolas. Aps pequena pausa de subito se ergueu. No ha remedio! Deixar-te vou por causa d'uns ganchitos que tenho aqui no predio. O cnego no dorme ha tres semanas. Rouba-lhe o ar a suffocante angina que o peito dilacera. Tem esgotado as provaes humanas. Na longa vida santamente austera fez jus, coitado! compaixo divina. Melhor que o da morphina, premio virtude, um somno lhe preparo brando, quieto, sereno como um lago. Apanha o padre agora! e apanha, claro, quem lhe abichar na S o logar vago. O conego aviado, tenho uns planos de ir tocar no ferrolho ao conselheiro. Quero abater-lhe a pra!... Setenta annos e sbe inda lampeiro outros tantos degraus!... Ento crado! redondo!... Uma cereja!... E como se espenneja quando vae pela rua engravatado, para as moas olhando s furtadellas como quem diz: _Assim quisessem ellas!_ Chucha um pisco ao jantar; um pisco ceia. Por no dormir de tarde nem trazer nunca a barriguinha cheia considera-se livre do meu jugo e d'isso faz alarde! Pois tu vaes vr, fradinho de sabugo! Travou da arqueada foice; disse-me:--Adeus! Eu volto. Eu volto. Espera: virou a espinha, e foi-se. * Sim, que te espero! Aqui te aguardo, fera! * Mal passado um minuto, instantes, penso, portas a abrir-se, gente que subia resmoneando latim, e cheiro a incenso, o _opoponax_ da velha liturgia. Desci. Curvei-me. Bemaventurado aquelle que tem f! Como um soldado, firme em seu posto o conego morria. * Volto a casa. Corri logo janella. Nos amplos ceus azues esmorecia a luz d'um sol d'abril. Do floreo seio perfumes exhalava a Primavera fallando-me por modo que a entendia. Quanto distava, quo diversa que era da outra scena aquella! Ento clamei: _Em ti, meu Deus, eu creio!_ Um mez depois alguem contar-me veio: --L puxou o visinho aqui do lado! Hontem, depois do ch e o rol escripto, sau da mesa, deu-lhe uma tontura, rodopiou, cau na sepultura co'a paz na consciencia e o palito no canto inda da bocca!-- No outro dia foi-se o bom conselheiro, encaixotado, direito ao cemiterio. Na turba que o seguia havia quem dissesse: _Um homem srio!_ E tudo era acabado. * Chega-me agora a vez. Prompto! Presente! Prompto sou a marchar!... mas descontente. No que eu tema morrer. Quem morre inteiro? Aquillo que me assusta, o que me aterra smente a lembrana de que terra, tal qual se semeasse fava ou trigo, o bruto do coveiro cantarolando, atirar commigo! Eu, que respiro ao sol da liberdade, fechado n'um segredo humido, immenso, frio, escuro, por toda a eternidade! Preso... amarrado ali! Meu nome inscripto n'um livro negro, em folhas cr d'ict'ricia, como se inscreve em notas de policia o nome do gatuno a quem o apito tranquillo no deixou bifar um leno! Numerado inda em cima! numerado como um grilheta!... _O cento e trinta e cinco._ de cestos de cal virgem carregado p'ra todo o sempre n'um caixo de zinco!... * No estou pelos autos. No!... Protesto. Quando a morte vier por este resto, d'homem... de coisa... nem eu sei ao certo isso que fui, que sou, para o que presto: quando ella pois vier, e vir cedo... e vem... que a sinto perto, ordeno que me estendam n'um penedo da minha amada Cintra. Redivivo, luz serena e pura dos puros ceus, o misero captivo reabrir seus olhos porventura! Inda l teu amor, tua belleza, a fora me daro, tres _estrellinhas_, para affrontar a idade, a natureza, e triumphar do Eterno! Com certeza que nem sequer, leitor, tu adivinhas, nem eu jmais direi de quem se trata. Bem o desejas tu, lingua de prata! Era um man! * sombra que fugiste, que sem cessar procuro em toda a parte e no encontro nunca, porque que tu no voltas, e d'est'arte de saudades a Dr, teimosa, junca o meu caminho triste?! Agora ao menos, anjo expatriado, em que eu por ti resumo n'uma lagrima s as que hei chorado ds que te dei minh'alma at est'hora, porque que tu no vens mostrar-me o rumo do ninho teu d'outr'ora?! Vem! e guia-me tu n'este momento dce paz do suspirado porto! Foste na vida o meu maior tormento... Ai! S na morte o meu maior conforto! _POR FIM..._ Tu queres, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja?! No ser melhor que esteja de noite a fazer colheres, de dia a apanhar carqueja?! Pelo ceu! que o matrimonio no mais que pellourinho, d'onde as barbas do visinho vemos ardendo! demonio disfarado em Cupidinho. O outono com seu cortejo de folhas seccas no cho! O eterno adeus illuso! O ultimo som do harpejo que Amor tira ao corao! O susto! a agonia! o trance de ir vivendo sempre espreita se ha quem tornar-nos alcance, pois tal historia deleita, _altos_ heroes d'um romance. E queres, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja?! Para qu? Para que veja que entre todas as mulheres uma existe que sobeja?! No! e no! Viva o solteiro! Aguia voando no espao sem ter certo o paradeiro, e cravando as garras d'ao nas pombas que v primeiro! Sae, e entra, e torna fra sem que ninguem lhe interrogue onde foi, qual a hora, nem pecuinhas lhe jogue sobre a provavel demora; Sem que a esposa ciumenta, Furia, Medusa, tormenta de ms caras, ms respostas, invente o que o diabo inventa: dormir-se costas com costas. E, depois, Madame Aline ra as unhas! Que se fine entre rendas d'Alenon! que o meu dinheiro no tine p'ra que tu andes no tom! J vs que debalde queres que eu tome os banhos da igreja. Ia o pau da carangueja! Nos turcos os escaleres, e para o largo veleja! Mas tambem... viver ssinho! Sem f... perdido... sem ninho... Sem se erguer uma s voz na aridez d'este caminho a Deus orando por ns!! Retornando ao lar deserto achar tudo a _trochemoche_!... O bahu sem chave e aberto dizendo ao larapio:--_Entrouxe, que voc que o esperto!_-- Sempre mal fervida a sopa! Sempre o caf mal torrado! Feita a passagem na roupa deixando o dono enleiado se foi a agulha se a choupa! Se ainda, Dorinda, queres que eu tome os banhos da igreja, no descances na peleja, que eu sou como os malmequeres: _no e sim_. Louvado seja! Ai! que bom durante os ocios, na fortuna e na miseria, achar ao lado uma Egeria que, em se fallando em negocios, no tuja sobre a materia; Que seja como a romana, meio amor e meio roca; no sia nunca da toca mais que uma vez por semana, nem tinja o cabello d'ca; Nem, quando a afiada foice da vida o fio nos crte, de rijo invective a Sorte, e diga baixinho:--_Foi-se! Quanto s minha amiga, morte!_-- E d'aqui outro consolo melhor que maracuj e que o dce de tijolo: ter quem, a rilhar n'um bolo, nos julgue e chame pap! Loura criancinha meiga, para o pai mimo celeste, e para o estranho uma peste que emporcalha de manteiga as calas que a gente veste. Inda agora que eu reparo nos teus olhos, creatura! So negros... d'um negro raro! Negros como a noite escura com seus qus d'um sol bem claro! Alto o seio e pura neve que mil desejos excita! O p delgadinho e breve; e quanto a mo... Deus permitta que a no tenhas muito leve. D-me o teu brao, Dorinda. Vamos aos banhos da igreja. Certo que no graceja quem diz que os refrescos, linda, curam toda a brotoeja. _CARTA_ ao Conde D'Almedina, Inspector da Academia Real de Bellas-Artes, que no estrangeiro sollicitou uma commenda para o author Tratante d'inspector, cuidei-te amigo e scas-te a mangar assim commigo! Traio! insidia! roubo! Eu, um pelintra que nem posso comprar um burro em Cintra, onde a commenda magna em chammas brilha sobre o manto azulado de escumilha que Deus usa no v'ro, e a natureza ironica sorri da pequeneza d'esta baixa comedia, eu--velho! eu--calvo! publica irriso a servir d'alvo?!... Qual foi meu crime? Qual? Era deveras menos duro entregar-me inteiro s feras. Ridiculo no ha na gente morta. Fra uma vez um Palha!... A questo corta e no se falla mais.-- Por no ter _guines_, tratante d'inspector, no me apepines. Eu amo a sombra fria. Odeio a moda. No bulicio d'um baile anda-me roda a caixa do miolo; um labyrintho onde, perdido, entontecer-me sinto. Moem-me as praxes; pesam-me etiquetas, e tudo sei rasgar... menos baetas. Por mais que mire uns outros enfeitados, to contentes de si, e to coitados que julgam ser alguem!, no sei... no acho nem honra nem razo no berbicacho dourado, reluzente, sol d'esmalte, do qual em cada raio no ressalte, ante luz de gloriosa eternidade, um feito illustre a bem da humanidade. D'outro modo o que ? Um mau bocado de po de rala a ces famintos dado: d'um rles charlato a taboleta, na qual, quem passa, l: _Dom Paparrta!_ ou l inda peior! Mette-me bulha, ters aqui o rol de quanto pulha _grande_ se fez tal qual se torna grande o bcoro a fossar e a comer lande. _Ai! no me pique usted!_ Sob o arminho busca, e talvez encontres pergaminho lavrado a ferro e sangue, fresco ainda, nos coiros fuscos de infeliz cabinda. Nem titulos pomposos nem veneras valem dez reis furados n'estas eras. Hoje o premio a heroes d-se ao dinheiro. Importa l se falso ou verdadeiro?! Comprou? Correu? O mais tudo historia. Nem o nome villo fica em memoria. Uma coisa escalracho, outra--papoila. Onde era a ndoa poz-se a lentejoila. Ha excepes, bem sei. Dou-lhes apreo. Morro d'amor por essas que eu conheo; mas como a estes raros no perteno, e menos inda aos outros, o bom senso manda que eu te agradea os teus favores e ria da merc. Quando tu fores, saudade ao peito, encasacado, srio, despedir-te de mim no cemiterio, vers que deso terra, oh! vista horrenda! nusinho tal qual vim; e por commenda inerte o corao, gasto da vida na rude, pertinaz, obscura lida. Tu mesmo ento, artista d'olho fino, dirs turba: Emfim o peregrino na paz eterna vai dormir agora! Andou mettido a vida inteira nora d'este poo sem fundo de miserias. Abusava do riso, das pilherias, e d'outras coisas mais em que no fallo. Foi Job em vez de ser Sardanaplo. Uma _raia_ da Sorte. Ella faz d'isto: d imprios ao dmo, a cruz ao Christo. Mas resta-nos, amigos, um consolo: tudo seria... excepto um grande tolo. _REQUERIMENTO_ Meu Couto Monteiro, senhor da Justia que nunca, que eu saiba, sau do tinteiro, e pae dos famintos que engolem missa o corpo sem mancha do santo Cordeiro. No rondo as arcadas fazendo-te esperas. No subo as escadas que ascendem aos atrios das altas espheras, levando no bolso memoria sebenta que ha mais de mil annos requer um despacho, nem ponho o toutio, j calvo aos cincoenta, em ar de tapete, em ar de capacho, no teu gabinete. S quero dizer-te que tenho defronte da casa onde habito um sino maldito. No sei se t'o conte... De dia, de noite, ao sol, ao luar, no faz outra coisa seno badalar! Nem elle repoisa nem deixa na rua ninguem repoisar!... Ha quem me assevere que o demo mofino montado no sino se foi baloiar!... Baloia-te, prro! Engendra um badalo do vil p caprino e d-lhe um estalo! e d-lhe a matar! No tremas, sabujo! que o sino foi bento; mas sabes que as benos so cruzes no ar; levou-lh'as o vento. Entrasse em teus ossos o meu rheumatismo; roesse a medulla; por noites e dias chumbasse-te o corpo n'um duro colcho; ento saberias, filho do abysmo, verias ento se assim te mexias! O caso que tu commigo caas e ris dos doutores, pois nunca tens dres, e nem te constipas! e, mais, andas nu! Parece impossivel! D volta cabea! Eu c, homem serio, que gema e padea; que em vindo janeiro me rape um catarrho!... E haver um brejeiro que passa o inverno sem chuvas nem lamas! quentinho nas chammas do prvido inferno! rival do Eterno! eterno elle mesmo! Sagaz Providencia, e s da justia, do amor s a essencia! Bem sei que o tal sino foi feito, fundido na terra dos cirios, da Carta, do hymno, d'aquelles quarenta de pllo na venta que ao reino opprimido quebraram algemas d'um jugo ferino; e a Carta era um mytho, so presas do olvido os nomes e as glorias de heroes legendarios se os sinos dormirem nos seus campanarios qual dorme a memoria dos feitos illustres nas sombras da Historia. Couto Monteiro, se a Carta est morta, o que que lhe importa, que importa aos guerreiros em p transformados, que toque ou no toque nas torres da Graa, da S, de S. Roque, o sino importuno masurkas e fados?! Nem isso os aquece, nem ha desafro qual este que os templos agora profana passando dos palcos aos orgos do cro, aos sinos de igrejas, a copla mundana. Nem tu me perguntes: Quem que armarieis com mais alegria que o meigo innocente, do somno lethal que treva o prendia, nos braos do Christo resurge immortal? Qual voz, como aquella, dos vivos implora por alma dos mortos a prece final? Por isso!... por isso, meu Couto Monteiro! O vil no repica, nem geme, nem chora, seno por aquelles que teem dinheiro! Que nasa, que viva, que durma na valla quem pobresinho, sem festas nem dobres! O sino s tange conforme a tabella, s diz:--_Baptisou-se_, dos mortos s falla se o manda o _sob'rano_ do reino dos cobres, a libra amarella! No ceu, felizmente, vigora outra escala na qual os primeiros so elles--os pobres, e poucos ricassos, que vo por engano. Se s, qual eu julgo, christo verdadeiro. Meu Couto Monteiro, justo que ponhas no prego o sineiro que patria com fome propines uns nacos de sino em patacos: vers como os come. _PREFACIO D'UM LIVRO INEDITO_ Mamsinha impertinente, no te ponhas com tolices. Faze como se no visses se vires a filha innocente lendo as minhas criancices. Deixa vs prohibies se este meu livro no queres escondido entre colches, que onde escondem mulheres livros, cartas, e... oraes. Depois, o livro que ensina? Muita coisa boa e m que ha de fazer a menina porque tu, que s menos fina, as fizeste ao seu pap. E sendo condo fatal que a filhinha, que tu crias com pretenses a Vestal, siga o exemplo das tias pela influencia carnal; Ao vr servir de palito n'este meu livro erudito tanta gente, ha de hesitar; e cova ir de palmito... se a morte cdo a levar. Deixa-te pois de tolices, mamsinha impertinente. Faze como se no visses se vires a filha innocente lendo as minhas criancices. _MAL POR MAL..._ Eu trago em minh'alma afflicta revolto mar de agonias. Tedio da vida os meus dias, as minhas noites, agita. minhas crenas d'outr'ora, dces amigas da infancia, a que longinqua distancia do meu peito andaes agora! N'esta cerrao escura assim me deixaes ssinho! e sem que volteis ao ninho baixarei sepultura! De mim te acerca bem perto, morte! No estreito abrao va commigo no espao, leva-me d'este deserto! Mas se na manso infinda, onde librar-me tencionas, nos do as mesmas taponas com que a sorte aqui nos brinda; Se esguio velhote avaro n'essas alturas se encontra, com seu barrete de lontra, olhar e sorriso ignaro; De fallas mansas, beato para vr se os santos pobres, saudosos dos magros cobres, lhe vo empenhar o fato; Se o operario, se o povo cr tambem que o mundo em ruina ha de sar da officina corrigido e mundo novo. E em lutas, que so eternas por lhe ser eterna a peia, quebrar pretende a cadeia e quebra a si proprio as pernas; Se n'esse logar bemdito pisamos a mesma lama que sobre a terra se chama --_O Asmodeu_,--_O Mosquito_--; Se Mercurio almiscarado o filho de Compostella; se por ventura um Alviella tem l de ser encanado; Se o Milho quem impera; se se fez Deus o egoismo; se ha dres de rheumatismo, e nas vinhas phylloxera: Fecha, anjo, as negras azas! que em tal apuro, olha o rente! tanto faz morrer a gente como mudar-se de casas! _A UMA CREATURA_ Que tens tu a dizer do teu destino? Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte? Desunhas-te a comer queijo londrino; na polka s a mais forte; essa fulva cabea de lea no passa d'avell; por isso s goso do bravo rapazio de Lisboa. Preludias na _banza_ um _rigoroso_ que os mortos ergue, as campas despova. Desmamadinho j, em salto airoso, balando, os longos ecos atorda o teu futuro esposo. Calando o largo p na estreita bota encaixaste o Rocio na Bitesga. Capaz s tu de entrar, sendo janota, no ceu... por uma nesga. Trazes um _dogue_ ao collo... Tens na tia _chaperon_ e banqueiro. Anda estafada a velha e mais a burra. A orthographia comtigo, ao vr as duas, no quer nada. Quem de mlho as barbas no poria vendo a barba visinha incendiada?! Ds lingua durante o santo dia, e bates na criada! A coisa mais feliz de quanto existe s tu portanto. E ds ento cavaco, maldizes, blasphemando, o mundo triste! e chamas-lhe velhaco! O mundo?! O mundo o que ? Por mim supponho ser apenas ironica pilheria que Jehovah soltou quando, risonho, pretendeu descansar de empreza sria. Ha n'elle o encanto espiritual do sonho. Ha n'elle o encanto vil da vil materia. Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho! a divinal miseria! A graa toda est n'estas _nuances_; nas sombras e na luz com que prepara da dr e do prazer os varios lances o velho Dulcamra; Nunca viste Neptuno carrancudo pendurar-se nas azas da procella, roar as cs no ceu e em silvo agudo dar por mortalha ao barco a solta vela? Agora no o vs sereno e mudo como a brincar na praia se ennovella? Pois similhante ao mar no mundo tudo. Resigna-te, donzella. E tudo ha de acabar, o mar e o mundo. At do meu amor a intensidade sumir-se ir no pelago profundo da fria eternidade! Eu escrevi--_amor_?! Fiz mal. grego; grego para ti: peior,--soskrito; e tu nas linguas mortas no ds rego. Se um dia, por acaso, o pequenito traquinas e cruel, alado e cego, tentasse dar-te um golpe... era bonito! Fugiria a gritar: _Armas que emprego no entram no granito!_ Tu partilha no tens na dce herana dos anjos que voaram! Antro escuro a tua alma ser! Nenhuma esp'rana!-- nenhum extasis puro! Como quando ao romper da rxa aurora deslisando na valsa doidejante soltas da trana a rosa que descora, de si te apartar n'um s instante o louco turbilho que te enamora. Pallido o rosto, o seio palpitante, ao ceu perguntars na dr d'ess'hora se a morte vem distante! O vcuo! a saciedade! o horror das trevas! Ninguem ao p da cruz no teu calvario! Por s cortejo ao cemiterio levas um padre mercenario! Nem esse volta l. Rezou, e a prece, em mau latim, por bons tostes foi paga. O fardo que largou mais no merece. Recebe por adeus grosseira praga d'um coveiro que o some, e breve esquece. Gro d'areia que foste ao mar co'a vaga, quem te busca depois? Quem te conhece? Teu fim quem que indaga? Se tempo, transviada, atraz teus passos! Abre o teu corao. A f te anime. No ha na vida mais estreitos laos. Amor tudo redime. Vl-o-has dissipar a nevoa densa que o teu dia transforma em noite escura. Respeitada sers. Trars, suspensa de teus vermelhos labios, a ventura; que eu no sei de ninguem a quem no vena puro amor abraado formosura. Sers mulher,-- essa a recompensa, em vez de _creatura_. Se mover-te consegue esta palestra manda morrer o co no Instituto; compra cartilha e pedra, e prova mestra que vales mais que o bruto. Depois reforma a tia. Ir na Graa accender ao Senhor trezentos lumes por tirar-lhe do lombo essa carraa. V-se livre da espada de dois gumes que a burra lhe sangrava, e na carcassa vasto caminho abria a vos queixumes. Menina, j que ests co'a mo na massa, reforma os teus costumes. E como incerto sempre o bem futuro e pde arrepender-se o arrependido, vae l pondo, cautela, no seguro o nome do marido. _ALM DA CAMPA_ (Imitao do hespanhol) N'um povo, perto de Cintra, foi o rev'rendo prior em fria cova depor o cadaver d'um pelintra mesmo ao p d'um seu crdor. Apenas se viram juntos por toda a vida sem fim romperam n'um tal chinfrim que, dizem velhos defuntos, ser virgem um caso assim. Voss pague! ai que vae torta! gritava o crdor.--Com qu?-- gemia o outro.--No v que entrei n aquella porta porque n me poz voss?!-- E n'este rosnar eterno, n'este diz tu direi eu, o crdor, que era judeu, enreda o outro n'um inferno como o inferno em que viveu. Se em meu derradeiro instante eu tiver crdor voraz, permitte, Deus, se te apraz, que por c fique o tratante p'ra que eu, morto, viva em paz. _A JULIO CESAR MACHADO_ que em folhetim do _Diario de Noticias_ dirigira ao author phrases benevolas Julio, meu amigo, o que disseste? Fallar em ns?! Fallar em mim?! Na peste d'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos? Fui um asno sem tom, nem som, nem furo; uma coisa p'r'ahi entre os humanos como entre o trigo o joio; um insensato cuidando toda a vida que o futuro se faz smente como o faz o gato por noites janeirinhas, e o menino d'onde ha de vir ridente, e rseo, e puro, da raiz... do verso alexandrino! Tu vers, se viveres. O destino se conda de ti a tempo e a horas, que eu j no temo nada. N'esta idade quanto mais o doutor me pe escoras mais depressa galopo Eternidade. No dia em que florir a ideia nova nem restos ha de mim na escura cova. Depois... Pensando bem, s vezes julgo que no deve ser mau vr estes numes na faina redemptora! E, mais, o vulgo j no cr n'outro Deus! Os bons costumes vo apanhar por fim um So Martinho qual nunca lhes foi dado... excepto em vinho que embrutece a razo! Pois com certeza leva uma _razzia_ o Torres e o Cartaxo! Ou bem que a gente gente ou que um cacho! D'amor, que velho, temos conversado! Rua com elle! Amor uma fraqueza. velho e cego, e no espera luas, e quando lhe appetece faz das suas, e so as suas d'elle o vil peccado! Basta cortar-lhe bem a ponta da aza e triumpha a moral. Rapaziada, nunca mais andars no mundo em braza atraz da tua amada! Mudei de metro como d'alimaria muda Tinoco, o bravo, na tourada, pois quanto em verso a frma fr mais vria menor a massada. Calcule-se o porvir pelo presente. Ns somos democratas; e fique o ponto assente. _Noventa e tres_ tudo quanto, em datas, a Historia nos tem dado mais nobre, e santo, e digno de imitado. Amor... e guilhotina! Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma! _Mayonnaise_ de sangue e de doutrina! Quanto o homem sublima e quanto o infama! _Noventa e tres_ e a Frana! Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rana. Anda tu c, lemma, que te quero! Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero! Somos, sim, democratas... capucha; Marats de sda frouxa; uma chalaa com Marselheza indigena,--a _Cachucha_. Palavra! que tem graa! Que o bom senso, to raro! nos acuda; nos tome um dia a srio! No ha Sebastio nenhum da Arruda, suando phalansterio, que no mande estampar nos seus bilhetes armas ducaes, brazes de pataratas! Morremos por trincar a monarchia; mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetes emquanto l do ceu Deus no envia novo man... de instituies baratas!... Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odios nem bombas... a no ser de Santo Antonio, bombas de luxo, bombas s de estrondo; indo buscar pretextos para brodios a casa do demonio, e quando os no achamos nem dentro em nossa casa nem na estranha, calado a polimento o p redondo, vazio o corao, repleta a entranha, vr desfilar a procisso de Ramos. E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles, no ardor da Saturnal, sonhaste, Julio, que um velho gordo, com as carnes molles, sem ter outro peculio alm do rheumatismo, sertanejo, viria em _petit-maitre_ dar aos folles do outr'ora enamorado realejo? Desde que o magano do deus Cupido no tem na aljava setta que me fira, passou-me do sentido tudo quanto em rapaz tanto sentira. Rabisaltona musa hoje em dia quem me ampara e conforta, e quem me inspira. Quando fugir, morri. Outra alegria qual te foi dada a ti, sol na velhice, conceder-m'o no quiz quem bem podia. E fez uma tolice. Eu sei se a fez, ou no; modestia parte. E s para dizer-te uma palavra d'affecto e gratido mo d'est'arte a tua paciencia! Antes do Lavra subisses a calada, ou lesses uma pea premiada. Era muito, bem sei; mas era menos. Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo, devera ter escripto. O mais fumo. Deixa-o seguir no espao o ignoto rumo, e d saudades minhas aos pequenos. _DIES IRAE_ novembro, e faz um frio! Eu ento que ando em braza! Pudera! se o senhorio me pede a renda da casa! Rles cobre em vo recruto no lidar da vida insano. Desertam n'um s minuto as vis poupanas d'um anno. Embora carne d tratos, velha carne exigente, deixando passar os pratos sem pr nos piteus o dente; Embora esguia quinzena traga j no extremo fio, e crte a rara melena s pelas calmas, no estio: No coalha esta formiga nem gro, nem sequer paveia! Sempre na mesma fadiga, enche... vasa... o p da meia! Sob o teimoso aguaceiro de tanta renda de casas, depennado, em meu poleiro, metto a cabea nas azas. Cana o sorrir da ventura; o rigor da sorte cana; s por entre o que no dura vae sempre durando a esp'rana. Eu espero a moradia, onde de graa me acoite, no seio da terra fria; nas sombras da infinda noite! Ao menos no eterno gelo, nos fundos antros escuros, no terei por pesadlo meus senhorios futuros! Um Deus: a esse um amigo satisfaa em padre-nossos. Outro o verme: eu c o espigo dando-lhe em paga os meus ossos. _O MEU TINTEIRO_ Era em agosto. O norte, desabrido, mugindo como um toiro, sacudia os troncos do arvoredo. Ia-se o dia: um dia d'amarguras to comprido que eu cheguei a pensar que a Eternidade nas chammas infernaes j me envolvia! Por meu mal terminou! que um outro veio depois d'aquelle, e foi peior mil vezes! A minha irm, dce companheira da longinqua, saudosa mocidade, coubera, nova ainda, a feliz sorte de ter, aps tres longos, tristes mezes d'um filho haver perdido, achado a morte. Antes d'ella expirar, cabeceira, em torno do seu leito, se agrupra tudo quanto durante a vida inteira fra por ella amado, e tanto a amra. Eu, fingindo sorrir, assim dizia: Agora ests melhor. No rosto as rosas da antiga primavera! Olhos em fogo! Uns olhos como d'antes! Vs, Maria, que ests melhor agora?! Em desafogo respira o peito j! Estas nervosas do vontade de rir! Que espalhafato! Um cortejo de coisas! Raa estranha! Por isso o outro fez com que a montanha dsse, aturdindo a terra, luz um rato! Vae a galope a enferma que melhora. manh, ou depois, saltars fra d'essa importuna cama. O que te cana ter o corpo ahi. Vamos a Piza passar o inverno todo. Alli serenos so sempre os ceus. Alli tepida a briza d vida a um velho! Ento a uma criana! Tontinha o que tu s! que ests chorando! sem que saibas porqu, aposto, ao menos! Iremos todos, grandes e pequenos! Quasi uma romaria, um cirio, um bando d'alegres passarinhos chilreando por essa Europa alm! Tu, pregoando: _Quem quer saude? Quem? Vende-se e d-se!_ irs distribuindo, co'a mo cheia d'essas papoilas, um _bouquet_ vermelho que pouco e pouco a desbotada face ha de tingir-te e... at fazer-te feia! --Iremos todos, sim!--fraca, tossindo, a pobre interrompeu:--Sim!... Vamos _indo_. ento manh que eu d'aqui saio? Depressa manh vem! D-me esse espelho. Se tu no mentes devo estar um Maio!-- Mirando-se, volveu:--A minha pena que... _ellas_... me no vejam n'este instante em que finda a comedia e deixo a scena! Se eu no soubesse que este mundo um sonho; se trouxesse o meu Deus de mim distante; como este despertar fra medonho!-- Depois foi repartindo as suas prendas por quantos eram l. --A ti... primeiro. Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro. Tu fazes versos. Sei que no te emendas; sempre te serve aquillo!-- Desde ess'hora, e j l vo cumpridos bons trinta annos, quando me engano a mim n'esses enganos da musa brincalhona, raro mlho a penna folgaz que me no traga nos bicos uma lagrima. Ai!... Eu lho... aos abysmos do mar pergunto: A vaga, que eu vi sumir-se, onde ? E o mar afaga a praia em que a deixei, e vae-se embora, e volta, e vae! mas no responde; chora. _A VENUS NOVA_ No, Rachel, no desvario. Venus, o estylo antigo, os seus dotes repartio bem largamente comtigo. Deu-te esse corpo divino! esses seios palpitantes! Fosse eu inda pequenino e tu minh'ama! Que instantes! Por ser branca e por ser loira tem o loiro em menos preo; por isso te deu da moira o negro cabello espesso. Chega aos olhos... De repente v que no tem na palheta cr nenhuma refulgente para imitar um planeta. Corre logo fonte limpa; e procedeu com acerto que em ocios no se repimpa quem se encontra em duro aperto. dce noite, ella exclama. Tu tens estrellas a esmo. Duas quero em rubra chamma, quasi soes; dois soes. o mesmo. A Noite, que velha fina, e foi sempre a Venus dada, responde:--Minha menina, s para a outra fornada.-- Pois ao forno! e j! que eu pago! A Noite, ouvindo-a, lampeira. A estrada de So Thiago deitou logo na caldeira. Fogo ao lado, e fogo ao centro! Quando a fervura era viva o sete-estrello p'ra dentro! e folhas de sensitiva! Ao cabo de poucas horas em duas orbitas fundas despejou duas auroras com que est'alma em luz inundas. Venus pulou de contente; mas depois... (que so mulheres!) disse outra em tom plangente: Adeus!... O que tu quizeres!... Fizeste-a fresca! Eu reinava. Era no Olympo a mais bella. Passei de rainha a escrava. A Venus agora... ella! _O LOBO E O CO_ Traduco da fabula de Lafontaine--Le Loup et le Chien No tinha um lobo mais que a pelle e o osso. Signal que de orelha arrebitada bem vigilante andava a canzoada. Encontra o lobo um dgue forte, grosso, nutrido, luzidio, uma belleza! que distrado abandonra a estrada. Sorri-lhe a nedia preza! Saltar-lhe logo ali, fazl-a em postas o seu desejo fra. Dura empreza! A lucta era infallivel. Voltar costas no usam perros quando so valentes, e, mais, os brutos! do s vezes cabo do fero contendor! Diabo!... Diabo! Ento aquelle, com aquelles dentes! * Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda; chega-se ao co; abaixa-lhe a cabea; puxa conversa; diz que folga em vl-o, que deixe que elle admire, que elle applauda topal-o assim... e com to bom cabello!... e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa! Esplendido senhor,--o co responde;-- de vs depende o ter igual gordura. Fug dos bosques, onde por teima da desgraa de fome e frio s achaes fartura, vs, senhor lobo, e a vossa pifia raa. Dias e dias sem comerem nada! e l por festas, raras, esquecidas, um petisquinho conquistado espada, tragado s escondidas! Ahi certa a morte! Furtae-vos a seus braos! Segu... segu meus passos; tereis outro destino e melhor sorte. --Mas como?--volve o lobo. --Fazer ento que devo?-- Bagatella: nem morte d'homem nem de egreja roubo; simplesmente estas coisas: no dar tregoa _santa_ gente rta, mendicante, bordo n'uma das mos, n'outra a tigela, que vem inda a distancia d'uma legoa e j tresanda a essencia de tratante. Lamber as mos ao dono; ser submisso... _dar cca_, o termo proprio, ao dono e a todo quanto bicho careta houver em casa. Salario apanhareis que vos apraza: ossos das aves, rodas de chourio, restos vindos da mesa, e tudo a rdo! At uns _tagats_ em cima d'isso! * Tendo prestado ao co attento ouvido o lobo, coitadinho! com perspectiva tal enternecido no tugiu nem mugiu, mas fez beicinho. * Iam caminho j do povoado quando o lobo notou que no pescoo o co era pellado. --Que tens ahi?--pergunta em alvoroo. Nada, que eu saiba. --Nada?!-- Frioleira. --Mas afinal o que ?-- Ora!... A colleira com que noite me prendem junto porta... --Prender-te?!--o lobo exclama.--No saes fra, no corres livre pela terra inteira quando te d na gana, e a toda a hora?-- Nem sempre. Isso que importa?! --Tanto importa que toda a trincadeira com que me acenas, um thesouro embora, por tal preo no quero.-- O lobo finda; pe-se logo na perna, e corre ainda. _DEUS E O AMOR_ (1870) No ceu, cabisbaixo, o Amor um d'estes dias entrava. O pobresito levava impressa no rosto a dr e as settas todas na aljava. Ao vl-o o Eterno exclama: Que vens tu fazer aqui?! --De Lysia, meu Deus, fugi porque l vivo da fama; os meus freguezes perdi. Busca a moa um noivo rico sem lhe importar nada mais. _So fumo as paixes e os ais; pintos, nina. Apanha o mico!--_ lhe bradam os proprios paes. Por isso, feito o consorcio, sae da egreja o par fiel, e o noivo compra papel para requ'rer o divorcio, passada a lua de mel. Torto j, e vara larga, o fino _dandy_ seduz. O mais que faz o lapuz quando em finezas se alarga roncar: _Que tal te eu puz!_ Do patrio amor todo o fogo traduz-se no _venha a mim_. Quem faz d'um jornal pasquim, sem trunfos entra no jogo e sae-se trunfo por fim. Bellini foi-se!... no presta. Da harmonia a nata, a flr, veio encontrar successor no _Fado_, que o rei da festa, o canto que faz _furor_!-- A virgem martyr Cecilia, ao ouvir blasphemia tal, ataca o _si_ natural, e, pedindo um ch de tilia, cae em deliquio mortal. Sem reparar no que passa solua o Amor e diz: --Murcha pende a flr de liz. Jaz prostrada na desgraa a patria de So Luiz! O Krupp a morte semeia de Sarbruck at Sedan, e Pars, a cortez, nas garras da fome anceia! Que sers, Frana, manh?! Pois n'estes dias sombrios a velha Europa sagaz, cuidando ter um antraz, fez ataduras e fios em vez de fazer a paz! Lisboa, toda vergonhas, e orgulhosa, e esmoler, atraz ficar-lhe no quer e desata a fazer _monhas_; mas fios, nem um, sequer! Acima da humanidade ha n'esse bom Portugal o novilho e o boi real. A dce fraternidade anda nos paus do animal. De meu seio a pura chamma deixa, Deus, arder aqui. De Lysia a correr fugi porque l j ninguem ama nem mesmo, Senhor, a ti! Nem mesmo! que sem respeito tonsurado berrador troveja em voz de Stentor, batendo murros no peito, que o teu brao vingador; Que ao reino teu infinito, manso da eterna luz, tua mo, Senhor, no conduz quem fez o enorme delicto de ignorar que houve Jesus; Que tu, meu Deus, que s o forte que destruiu Jeric, que s a Justia... tu s, habitas n'aquella crte; encarnas no immundo p! E para acabar o quadro, para lhe dar mais uno, afoga o impio sermo junto cruz que est no adro em ondas de carrasco! No templo teu, Pae divino, apparato theatral! Em redoma de crystal vestido Jesus Menino de _chch_ do Carnaval; E o alvo lirio, Maria, a pura depois de me, caracoes e rolos tem como usava a minha tia quando ia ao Pao em Belem! No altar-mr o scenario que effeito fazendo est! Pallida a lua... acol!... Alm a cruz... o Calvario... Fra, author! Bravo, Rambois![1] Na nave central--cavaco; e no cro, ai! pobre f! latages cr de caf uivando dentro d'um sacco: --Sou o Barba-Azul! Ol!-- A catholica Juda, o christianismo pago, ousa mais! Pe em aco do Homem-Deus a epopa na sensual procisso! s enfeitadas janellas corre a curiosa avidez. _Fazem cauda._ Esperam vez como se elles e ellas fossem vr um entremez! Depois comea o servio. Olho aqui... e olho l... no seu _tudo_, e no pap que embirra co'o tal derrio por andar no _b-a-ba_. Namorando as carnes nas do que vae no floreo andor, outras dizem:--Salvador, se todas so como as tuas quem no ser peccador?! Emquanto se eleva o incenso na caprichosa espiral, o garoto, essa vestal dos vates de hoje, no leno faz mo baixa e no metal. E, manso, por entre o grupo da ondulante multido, serpenteia a procisso. Rumoreja em torno o apupo. Consternam-se alma e razo. Que brutos cpos so esses? Vae Deus ali? Christo n posto a par do _manit_, homens dos torpes int'resses, filhos glotes de Esa?!... Tartufo os impetos doma. Vive agachado o chacal a espreitar se o olhar fatal de Filippe voz de Roma lampeja no Escurial! Fiar n'elle!... O incendio lavra occulto. Na escurido forja de novo o grilho consciencia, palavra, a satanica legio. Em teu nome o lar deserto!... O pranto manando a flux!... Morta a esp'rana! Extincta a luz! e da cruz contra o liberto mudada em punhal a cruz!-- Largamente aqui respira scca a lingua e falto de ar, que o terno Amor, a fallar, no como os de Tavira: --d-lhe... d-lhe at 'stoirar!-- Mas, depois, como o Vesuvio irrompe. Ao rosto gentil assoma a raiva, e febril bate o p; grita;--um diluvio manda ao infame covil! Outro diluvio! incessante a subir... subir... at que no fique nada em p! nem possa nenhum farante fazer arca e ser No!-- Deus, que os seus ouvidos presta s queixas que Amor lhe faz, sorri e diz: rapaz, um _T_ escripto na testa porventura me vers? Eu dei-lhes a lei sublime nas alturas do Sinai. Se contra a lei, contra o pae, conspira Lysia--no crime do crime o castigo vae. Triumpha o Milho, e Hero no houve mais que uma s? O Creso do oiro em p a flauta far de Nero, e da flauta um bom cip. E se os maridos, tontinho, fugindo s esposas vo, deixa-os l. Por fim tero, em vez do calor do ninho, os glos da solido. A vida passa ligeira; e, quando a morte vier, qual d'elles que no quer dce orao derradeira entre beijos de mulher?! Ai!... Acabar longe d'isto!... sem perdo!... sem paz!... e meu sem ser nenhum!... Galileu, tu que fizeste?... Christo, teu sangue que fructos deu?!... Fiz de ti a rsea aurora da universal redempo; inda aps o teu claro o Deus cpo o Deus que adora a proterva multido! Pois para amar-me preciso mais que os olhos alongar pelos ceus, por terra, e mar? mais que o pallr indeciso d'uma noite de luar?! Pois n'esses milhes de mundos, que girar no espao fiz, no falla tudo? no diz em seus canticos jucundos: --Senhor! Senhor, existis?!-- Erria o leo a coma? Nas sombras do Escurial ergue a pedra sepulchral de Filippe a astuta Roma?... Erga!... e surja o rei fatal!... Antro, e fera, e vil Tiberio, tudo no p sumirei!... que dos reis eu sou o rei, e as chaves do meu imperio a mo nenhuma entreguei! Perdes o tempo, creana! Se o perdes, meu doido Amor! Sei quanto s enganador! quanto s feroz na vingana e folgas da alheia dr! s vendado, s cego, e ousas como se visses fallar?! Pois has de terra voltar.-- E o pae de todas as cousas foi-lhe os olhos desvendar. Ento o dce fedelho, to dce como caj, repara em si... v-se n... faz-se azul... faz-se vermelho como um monco de per. Depois a fugir desata pelas ethereas regies. Atraz d'elle as maldies de quanta velha beata foi ao ceu... por alapes. Que o ceu que estamos mirando occultas entradas tem, e sem fiscal! Inda bem. A no ser por contrabando j l no entra ninguem. Va... va... mesmo um raio rapido o espao a rasgar. Va... fora de voar perde o alento, e n'um desmaio vem no cho co'as azas dar! N'essa noite a authoridade metteu, zelosa qual , o menino em So Jos; mas ninguem cr na cidade que a sciencia o ponha em p. Quem tem os dias contados mais viver no pde, no. do amor finda a misso ds que os fundos, bem cotados, valem mais que o corao. [1] Pronuncie _Rambo_. _ENTEADA_ Casou segunda vez certo sujeito que sempre viuvez torceu a cara. Deixra-lhe uma filha o velho leito, e mimo egual o novo lhe offertra. Quando eu as conheci, uma era forte, crada, alegre, brincalhona, viva; pallida a outra, triste, pensativa, como quem traz em si a dr e a morte. Das duas a mais nova, a que sada, a lapis, n'um papel, graciosos traos d'um corpo de mulher hontem fazia. No fim as palmas bate, e, erguendo os braos, Olha a mam! gritou, De longe basta... basta vl-a d'ahi!... No ser ella?-- Volve-lhe a outra em voz que o sangue gela: --_Agora pinta l uma madrasta!_-- Miserrimos poetas que ns somos! Por mais inspirao que nos abraze, por mais phantasiar tomos e tomos no valem juntos, no, aquella phrase. _N'UM ALBUM_ Por essa existencia fra nosso caminho diff'rente. Eu vou por onde se chora; tu por onde canta a gente. Tu chegas; tu vens agora; tu sobes qual sobe a aurora; eu, tal qual o sol poente, deso... deso!... Vou-me embora. _RAPHAELA_ I Era em maro, e a Folia, dando o brao ao Carnaval, entrava em _Dona Maria_. No sei que idea fatal me levou tambem festa. Sei que fui. Sei que vestia _domin_ cr de giesta, e que a mascara, que ao rosto trago presa todo o dia, eu trocra, brio de gosto, por outra que no mentia. II Ia a noite em mais de meio quando os ps na sala puz. Os gritos, a dana, a luz que os novos encanta, e creio que mais os velhos seduz, tocaram-me o corao por to estranha maneira, que a no ter ali mo as costas d'uma cadeira, dava co'as minhas no cho. Persuadiam-me que a Sorte quer que o homem seja egual smente perante a morte, e vi eu que o Carnaval tinha o mesmo poder forte! Junto a mim o sr _Sovela_, disfarado em lord inglez, trata por _tu_ o freguez, que n'outro _tu_ se nivela com quem as botas lhe fez. Ao longe o sujo vadio que, para impingir gente um bilhete do _Po quente_, corre a Baixa e o Rocio dando _Excellencias_ a rodo, agora vestido turca, _turca_ por dentro elle todo, grunhindo sem tom nem som paga depois da mazurka ponche ardente a quem tem _Dom_. N'aquelle canto escondido o calvo e gordo marido s moas falla d'amor; e como deve o traidor pela traio ser punido, n'outro canto anda a mulher a brincar co'o deus Cupido... d o brinquedo o que dr! Cada flr, rosa ou jasmim, com seu calix entreaberto embalsama este jardim, e s abelhas que andam perto como que as oio dizer: --Oh! Bebei dce prazer que rendida vos offerto!-- Isto vida! Isto aqui, sim! que a humilde e santa egualdade o mundo mergulha emfim no sol da eterna verdade!... III Boas noites, domin. --S isso me dizes?-- S. --Pois desde j te requeiro que manh fiques na cama, e manda o teu travesseiro dar umas voltas por c. Na chalaa, no epigramma, as lampas te levar.-- Quem de espirito to fino devra ser mais cortez. --Vestiu-se de peregrino a cortezia...-- Talvez d'essa longa romaria a que foi no voltaria! --Assim parece. No vs?! IV Quem me descobre a razo d'esta infame grosseria?... Consultando minha tia, disse-me ella:--s um rato! Coisas tuas!...-- Coisas minhas?! Ora essa! --De quem so? Se teu pae sem ter gallinhas te deu boa creao?!-- Mais ainda me condemna ser a mulher que offendi segunda Venus de Milo! Que remorso o que eu senti, e que n no gorgomilo, quando, absorto, o que era vi!... Que ao fallar olhei... Por Christo! juro que olhei sem ter visto. V Como usa a formosa filha da formosa Andaluzia, sob a elegante mantilha pelos hombros lhe caa de negro e farto cabello a madeixa ondeada e crespa. Na cinturinha de vespa... Alto l! De vespa, no; que corriqueira a figura e tola a comparao.-- A cintura... Se lhe chamo s delgada--aqui d'el-rei! porque prosa. Ah! J sei. Delgadinha como um ramo que sustm duas laranjas... E da voz os sons to finos com que os hei de comparar? Com voz d'anjos pequeninos, travssos, loiros, meninos que andam no ceu a cantar, aos quaes no tira o chapeu este pobre filho d'Eva emquanto Deus o no leva a conhecel-os no ceu?!... Impossivel!... Pois com qu?... Deixe-se l d'essas franjas, ruim poeta! Voc no sabe que a natureza faz coisas de tal belleza que um homem, se logra vl-as, ha de pasmado ficar, e pasmar... pasmar... pasmar; mas no tentar descrevl-as?! VI Qual a timida gazella que no prado anda brincando estremece e foge quando sente rumor perto d'ella, assim Dona Raphaela... Podia chamar-lhe Jnia, Mathilde, Elisa ou Antonia. Era o mesmo. mulher bella todo o nome fica bem. Toma-lhe a graa, a frescura: participa da candura de su'alma... se que a tem. Que a minha airosa andaluza como a gazella fugio, se o no disse a casta musa que me inspira, o leitor pio (no ha _calemburgo_ aqui) certo de si para si a crl-o no se recusa; mas o que o leitor ignora que eu proprio, eu que ind'agora lhe dissera: _Vae-te embora_, ao vl-a fugir fiquei triste, s, desamparado como o valido d'um rei quando cae em desagrado!... Ai! se o pensamento vrio mais vara o corao. Corao--Contradico-- affirma-me o diccionario que dois synonymos so. VII Amar depois que trinta annos nos pesam sobre o cachao; quando os frios desenganos guias so do incerto passo que nos vae levando campa; quando a edade a correr vem e nas faces nos estampa oitenta rugas, ou cem! amar sem crenas; amar sem possuir attractivos; padecer, penar dres do inferno entre os vivos. Sabia-o; mas se fadado fra eu j para essa dr! e diz Garrett, o doutor em taes materias versado, que ninguem foge ao seu fado! Funesto foi sempre o meu! Est'alma, que Deus me deu, em quantos affectos nutre que devorou Prometheu!. VIII Da rsea estancia em que mora com seu limpido claro, sorrindo, ao ceu vinha a aurora soltar do prgo as azelhas d'onde pende a escurido sobre chamins e telhas. A festival harmonia pouco e pouco esmorecra; e co'a luz do novo dia d'outra oschestra a afinao mais altos cantos rompra, pois que entre os rocios do orvalho levantra escopro, e malho, um hymno de gratido ao Deus, author do trabalho. Este aranzel, espremido n'uma phrase clara e ch, quer dizer:--era manh, e a solfa dos caldeireiros matava o bicho do ouvido na rua Augusta aos parceiros. IX Cheguei a casa. Quem ama tambem dorme o seu bocado; nem ha nada como a cama para amor ser bem tratado. Vde as ratices do mundo! Sentados no mesmo throno amor, que vida;--e o somno, que da morte irmo segundo!... Em to doloroso trance praxe no bom romance surgir a pallida insomnia beliscando a cachimonia do que s paixes no se poupa; mas eu, que sigo outra lei, fui-me enroscando na roupa, e dormi. Fiz mais: sonhei. Sonhei, sim. O que sonhar? fugir do captiveiro d'esta bola sublunar. A noss'alma, que gemia entre os ferros, encontrar a paz, o amor, a alegria, vivo, real, verdadeiro, o mundo da phantasia. n'um divinal momento conquistar, possuir, haver o que nunca o pensamento, por mais audaz, ousou crr que um dia mo nos viria. Sonhar vr palpitante a toda a luz da existencia o pae, os filhos, a amante que a morte apartou de ns! Ouvir-lhes a dce voz... interromper essa ausencia eterna, a eterna saudade que nos deixra o perdl-os! Sonhar esta piedade do ceu pelas nossas dres; esta mo cheia de flres que Deus esparge nos gelos!-- Tudo mais so pesadelos. Pois eu sonhei, e no digo o sonho que tive ento. No por ser segredo, no, que terra desa commigo; mas quem tem, como eu, vergonha, mesmo ao leitor seu amigo nem sempre diz o que sonha. X No outro dia ao almoo, frugal almoo invejado ao pobre e triste empregado a quem aos mezes o Estado permitte rilhar um osso, muitas vezes esbrugado; no outro dia a Gertrudes, velha magra, feia, teza, inda cheia, portugueza, de calvas e de virtudes, as quentes papas de milho veio pr-me sobre a meza. A mim a quem nada escapa logo ali me deu no gto O vl-a andar n'um sarilho a peneirar-se, e socapa sorrindo com ar garto. --Gertrudes, que historia esta?-- E ella a rir. --De que ri?!...-- A rir-se mais. --Temos festa! Vae grande baralha aqui se me no diz, como quero, porque essa bocca escancra, e se desengona, e rebola... Ella, atalhando: Salero! Soy, seorito, espaola! Figurem-se a minha cara!! A viso, a Raphaela com quem ha pouco sonhra, o bello typo andaluz, a flr de um dia... era ella sada das mos do Cruz![2] XI A moral d'este meu conto implica artigos de f: 1. Quem v masc'ra no v rosto. 2. Belleza vista de dia d-se-lhe sempre o desconto de trinta por cento em cr. 3. Depois do sol se haver posto at a Virgem Maria precisa ser vista ao p. 4. Mesmo assim, inda que perto, no se diga nunca ao certo que se est longe da S. [2] Guarda-roupa. _AS MINHAS MEMORIAS_ Exc.ma Snr. D. A. F. Pinto Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino ser inutil, vulgar, emquanto moo. De dr em dr, canado peregrino, chego triste velhice sem conforto. Nunca pude saber o que era tino, como a bolsa no soube o que _caroo_. Quando voltares hei de ser um morto. _ESTRELLA CADENTE_ Ella no tinha ainda os seus vinte annos. Eu j cincoenta, ou mais. Poucos enganos podia haver na conta. Trouxe-a ao cllo! No fra um plo em frente do outro plo; mas, inda assim, contando-se este caso, dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso, e era uma vez a Aurora... No sei como n'um bello dia, por ser vedado o pomo, por ser appetitoso, finalmente no sei porqu!... por eu ser um demente... por ser ella o retrato da que morta... fosse l porque fosse!--Isso o que importa n'um bello dia--amei-a!... Uma doena que a gente apanha quando menos pensa. * Sorriam de piedade os meus amigos todos uma, e os novos e os antigos. Nas salas bichanava-se em cochichos: Ora, o ginja! aparando inda os esguichos com que o _bisnaga_ amor! Atraz da pomba, o perfido lacrau! Deitavam tromba os outros pretendentes. Um barulho por nada. Ento porqu?! Por um arrulho?... Um simples suspirar?... Pois que mau era brotar-me em pleno inverno a primavera?... Durava pouco?... Tanto quanto dura em toda a terra tudo o que ventura. Engeita-se por isso?... A minha idade?! Fui de Mathusalem socio e confrade. Ado dizia ao vr-me: _Ol, compadre!_ Contemporaneo eu sou do eterno Padre. No ha mais nada acima. Querem isto?... O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo. Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito. Remiu. Salvou. Pz termo ao longo pleito entre as trevas e a luz, e, porque vinha em nome s do amor, annos que tinha ninguem lh'o perguntou. Sinceramente: ha rugas dentro d'alma?!... * Impenitente morrera n'esta f; sobre o Evangelho jurra que mais ama o que mais velho; se o ponto da questo, o delicado, outro no fra; um velho ser amado! Aqui que me de! necessario primeiro formular um questionario. Menos se quer flr, menos se trata, por ser de argilla o vaso e no de prata? Aqui... alm... embora onde estiveres... no s, flr, a mesma?... e das mulheres, --no digo j de todas; mas d'algumas-- igualmente o _boudoir_ tu no perfumas?... No busca asylo a crena, a christandade no presta o culto seu Divindade no templo secular, de negro aspecto, humida arcada, abobadas por tecto, como na alegre ermida redourada, quente aos raios do sol, sempre inundada de jubilos e festa?!... Amor travsso, s por vr para dentro, v do avsso? * No te illudas, louco! A Providencia dependente do amor fez a existencia. Para estimulo a amor fez a belleza, o vio, a fora, quanto com certeza tu j no tens. Por isso no concurso aos vagos coraes a pelle do urso, a penna luzidia do bom pato, do por si preferencia ao candidato. Esta a verdade crua. O sentimento depois que se faz. -lhe fermento, mister que primeiro insuffle a arteria, e n'ella o sangue injecte, a vil materia. A bocca, um p, a guia d'um bigode mais que as almas em fogo sempre pde. E tu no valsas!... tu no tens bocca o _argot_ da moda, a phrase insossa e ca! Por mais _cir_, torcido, repintado, que o teu bigode v... bigodeado s tu que ficas, velho! a torto e a esmo! Justo e fatal!... Fatal e justo o mesmo. No cho no rojes teus cabellos brancos n'um desespero ignobil! Para arrancos, para entrares no inferno como o Dante, a dr da tua clica bastante. Outras no queiras, outras no procures improprias j de ti. No; em nenhures rejuvenesce o Fausto; e, ds que ha mundo, quem disse um velho--disse um moribundo. * Ella no tinha ainda os seus vinte annos. Por no tel-os vivia n'uns enganos que eu no devia ter nos meus cincoenta. Distrada commigo olhou attenta para um moo qualquer. Nem eu me lembro do nome d'elle j! Era em setembro. Isso sei eu. Que noite!... Estou a vl-a! Ultima noite azul!... Rasto d'estrella, curva de luz nos amplos ceus cadente, illuminar-nos veio de repente. Ella assustou-se, e disse: _Dieu te garde!_ Pouco tempo depois, horas mais tarde, tal qual a estrella, em rapido trajecto, no mundo novo entrou d'um novo affecto. _AO ACTOR JOO ANASTACIO ROSA_ que, na sua officina de sapateiro, mandra fazer para uso do author umas botas impermeaveis Boas botas com effeito! Ha que tempos que te eu digo que, de pequeno, o teu geito ser sapateiro, amigo! Afra o bico da moda, que moda o _bico_ hoje em dia, quem da terra andasse roda _mestre_ assim no toparia. E l no mar,--tens ratices!-- com ellas por sobre as ondas anda a gente como Ulysses nas aguas das Trabisondas. O povo grita: Milagre!--; teus filhos:--Estamos salvos!--; e tu com graxa e vinagre vaes enganando os papalvos. Queima a Sciencia as pestanas buscando o que seja aquillo; e nem passadas semanas conclue que sebo de grillo! Tu proprio chuchas no dedo, _avis rara_, _raio_ d'ave; pois ao fechar teu segredo perdeste-lhe o tino e a chave. Seja qual fr teu systema, graxa s ou graxa e sebo, eu, indigena na gemma, applaudo o que no percebo. De to prodigioso invento s entendo, e no pouco, que ou me saste um portento ou s rematado louco! Mas que importa qual diploma um logar nos d na Historia? Toda a estrada leva a Roma. Por atalhos vae-se gloria. certo que ao fim da vida a luz do provir tua: luz accsa sem torcida!... porta aberta com gazua!-- V quanto o sec'lo fecundo! V; regista em tuas notas. Em poucos annos ao mundo botou dois homens das botas! _S RS PEDINDO REI_ Traduco da fabula de Lafontaine--Les Grenouilles Viviam certas rs n'um charco immundo em republica plena. Era um pagode! Tal qual uns democratas que ha no mundo julgando que a republica, no fundo, outra coisa no seno a gente fazer o que bem quer e quanto pde, a r tripudiava impunemente. Todos os dias era certo o choque entre o batrachio forte, intransigente, e parte da nao j descontente que a Jupiter pedia ou rei ou roque. O deus fez-lhe a vontade. Largou-lhe l do ceu um rei pacato, de summa gravidade. Das alturas tombando, o rei na quda fez tal espalhafato, que as fmeas em pavor, os machos fulos, aquellas saltitando, estes aos pulos, como uso das rs nas grandes crises, cada qual a gritar:--arreda! arreda!-- entre os juncaes, no ldo, nas raizes dos salgueiraes se enreda. * Por longo tempo em seus esconderijos das rs esteve homiziado o povo. Transformaram-se em medo os regosijos da antiga bacchanal. Gigante novo cuidavam ser o rei que o ceu lhes dra. No ousavam sequer sar da tca; pois, no raro, os instinctos maus da fera por imprudente a presa que os provoca. J n'essas eras muito a pllo vinha dizer: _Cautela e caldos de gallinha..._ O rei era um pedao de madeira. Nem mais, nem menos. N'uma bella tarde uma das rs, por ser menos covarde ou mais bisbilhoteira, tirou-se de cuidados, manso e manso na flr das aguas surge, e s guinadinhas com muito tento e geito do cpo se aproxima. Aps ella vem outra... e outra... aos centos. Vendo que o rei no sae do seu ripanso, rodeiam-no; coaxam: _Salta acima!..._ e coaxado e feito!... O rei, temido outr'ora, s pecuinhas d'essa chusma vill se v sujeito. Em rapido momento sobre elle a malta audaz se encarapita, e faz do bom monarcha um bom assento. Nem chus nem bus! Calado que nem porta, qual fra n'outros tempos!... Isto irrita. Rompem as rs ento n'uma algazarra que o pantano atorda, os fios d'alma a quem as ouve corta. Leva d'aqui, Jove, esta almanjarra que nem mexe, nem pune, nem perda, e mais parece uma alimaria morta, cabide d'uma c'ra, em vez de nosso rei--nossa vergonha! Vae Jupiter que faz? Uma cegonha, das muitas que possue, logo destaca, e manda que das rs ponha e disponha, n'uma das mos o queijo e n'outra a faca. Ora a cegonha, apenas em seu throno dona das rs se v e sem ter dono, diz comsigo: --Nasci dentro d'um folle! Quem tira agora o papo da miseria sempre sou eu!...-- Passeia toda sria, perna aqui... perna alm, n'um andar molle, e quanta r apanha quanta engole. * Geral consternao o charco enluta. Renovam-se as lamurias: que o rei doido e tem s vezes furias; que, doido ou no, o povo trata bruta; por fim, que faa o deus formal promessa d'outro rei que as no coma to depressa! O Jupiter tonante d'est'arte lhes responde: Inutil prece! Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo, que nem sempre se tem nem se merece: um rei que era um regalo! Foi vl-o e pl-o pela barra fra! Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo... um pouco extravagante... Meninas, aguental-o! Era bom o primeiro e foi-se embora. mau este de agora. Contentae-vos com elle, meus endezes, pois venha quem vier... peior mil vezes. _ONZE DE NOVEMBRO_ noite de So Martinho, rival do velho No. Cae agua em logar de vinho, e--milagre!--o meu visinho entra em casa por seu p!... Memorias do alegre santo, porque que tanto duraes se eu j nem bailo nem canto ds que me deram quebranto as peas originaes?! At as caras meninas, socias minhas na funco, rosas, d'antes, purpurinas, por muito favor--cravinas... d'Ambrosio cravinas so. Martinho, ao que chega a gente! Ellas feitas uns pasteis de carne velha e doente; eu comprando cada dente por tres e quatro mil reis! Bem me toucaram taes flres! Bem com ellas me touquei! Da cabea agora as dres quem m'as faz so os tenores, as portarias, e a lei! A lei!... a eterna cantiga! o eterno sarapatel! Na nossa edade, e na antiga, l para uns certos--espiga; l para uns outros--papel. S uma crta direito: s a lei da morte egual. Para calcular-lhe o effeito vou, deitado no meu leito, dormir um somno real. _ASSIM QUE EU GSTO D'ELLA!_ Eu nunca fui poeta. Era loucura mostrar depois de velho pretenses quando as no tive em horas de ventura, de to dces, mas breves, illuses. Ento era a minh'alma que gemia no vago anceio d'onde nasce o amor; mas hoje sei que amor no mesmo dia nasce, esmorece, e morre como a flr. Da meiga briza o tpido bafejo, a rosa perfumada, o pr do sol, as nuvens d'oiro,--esplendido cortejo do astro-rei, a voz do rouxinol; Esse hymno immenso com que a terra exprime viva saudade pela extincta luz, se para mim ento era sublime, ai! que j por meu mal me no seduz! Quando contemplo agora o fim da tarde, quando ao sumir-se no crystallino mar o facho accso sobre as ondas arde e vae depois nas ondas mergulhar; Sabeis vs o que penso em tal instante? --Vde a que prosa vil isto chegou!-- Sabeis vs o que penso?'... o que lamento?... O dia mais de vida que passou. De vida, sim, meus senhores, que no ha pechincha egual! S algum sarrafaal em horas de maus humores grunhir sombrio e rouco que pelo seu fim anhela! Eu c por mim acho pouco e morro d'amores por ella! A vida saboreada de um certo modo que eu sei. Nem limpa-botas nem rei; trazer camisa lavada; bem lavada a consciencia; libras velhas na algibeira; ter um trem e por decencia um garoto na trazeira. Cadeiras... todas de braos, ffas como po de l. Nunca dar ponto sem n nem pr ponto em dar abraos. Caadas... feitas no prato, e sobre a caa caf. Charutos... dos de contracto _Lib'ra nos!_ antes gal. Vejam se eu dava o cavaco ou se quebrava o toutio por ser tudo quebradio n'este mundo como um caco! Em se quebrando... acabou-se. Ora, adeus! Fortes lamechas! Era bonito se fosse ficando tudo p'ra mechas! Amor de marrafa branca como o co e a cadellinha sempre fiel! Que gracinha!... Ao ch por baixo da banca dando ternas pizadellas que as meias deixam de luto, que fazem vr as estrellas, e provam que o par bruto. Ter sempre o mesmo barbeiro e sempre o mesmo topete!... mesa do voltarete defronte o mesmo parceiro!... O molle ser sempre o molle!... sempre esperto o serigaita!... Na mesma gaita de folle soprar quem sopra tal gaita!... Quem pensa assim... ai! coitado! ou perdeu todo o juizo, ou se tem dente do sizo pelo alveitar foi achado. Para mim que sou amante do que muda e do que mexe, como havia ser seccante o tal mundo de escabeche! Beijar nos pulsos a algema com que Amor nos manietava; amanh mandal-a fava; a belleza eis do systema. Ser hoje amigo do Brito, amanh sl-o dos Soisas!... Viajar hoje no Egypto; vr manh novas coisas! Isto, sim, que prazer certo! Quem julgar que assim no presta diga adeus a esta festa que o cemiterio est perto! Pois pde haver tolerancia na China, aqui, ou em Ga com quem defende a constancia que a maada em pessoa?! Aqui d'el-rei porque mente toda a humana gerao!... Grande pena!... pois ento, se mente, mente-lhe a gente. Por mentira, mentirola. Por esparrella, esparrella. Assim vae esta charola: assim que eu gosto d'ella! Dizem que a vida os assusta porque em tudo encontram mca; que o bem a todos no toca, que a Justia no justa. Eu, por mim, quero-a mais larga, que, se acaso um dia fr parar-lhe s mos, menos carga sobre os hombros me ha de pr. E se o bem me no tocar tambem uma vez smente, ferro commigo no quente e, l, desato a chorar. No mau. Dou de conselho a quem quizer divertir-se que chore em frente do espelho e por fora acaba a rir-se. Chorar bom! Quem me dera nos tempos que j l vo quando, moo, o corao, ao romper a primavera sobresaltado tremia, e da terra toda em flr juntava meiga harmonia doces lagrimas d'amor! Se vida no acham geito porque todos tm chorado, c para mim vem barrado quem lhe pe este defeito. Elles que foram pequenos e contra as lagrimas chiam, de _lacrima christi_ ao menos um copo no beberiam? Tal resmuneia e se queixa que as filhas no fecha a me; que a me namora tambem, e mais que torna e que deixa! Ih! Jesus!... Que gritaria! Se a me as filhas fechasse, nenhuma as portas abria. Ai de quem as arrombasse! Caturras! Se ha quem supponha nas politicas regies que inda pde haver Cates sendo to rara a vergonha!... O galante que no jogo cada qual puxa o seu trunfo quando sem armas nem fogo alcanar pde o triumpho! Deploram republicanos que lhes tosquiam as azas? Pois vo l p'ra suas casas fazer dos creados--manos. Os outros temem que os thronos se despedacem? Demonio! No lhes resta ainda, monos, os thronos de Santo Antonio?-- Tudo aqui se remedeia; tudo tem facil sada se as honras dermos vida d'um jantar ou d'uma ceia. Quem tentar pl-a a direito perde o tempo e a razo porque luta peito a peito com phantastica viso. Eu nunca fui poeta. Agora vdes que menos do que nunca aspiro a sl-o. Se espalmar-me tentei pelas paredes do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pllo! Pe-me n se conservo n'este fato algum resto de parvoas pretenses, j que o mundo como , o mundo ingrato, despir-me soube as dces illuses. Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado na prosa da verdade emfim ca; mas como tudo tem sempre um bom lado ganhei gordura se illuses perdi. _EM CINTRA_ Tal qual como o sacrista, o velho Catecismo soletrando, primeiro se espreguia; cabeceia depois de quando em quando; por fim j no atina se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma; meninos e doutrina, rosnando manda missa; engendra um travesseiro da batina; deita-se e dorme emquanto dura a calma: farto da vida fui-me estiraando n'este alcantil, onde aves de rapina fizeram ninho outr'ora. Ao longe o sol declina; j sobre as ondas arde. Soltando a voz sonora n'um murmurio suave expira a tarde. Ai! quem me dera aqui morrer agora!... No ha somno melhor!... Somno?... Sera?... Eu penso que no , que sentiria em torno do meu sr, do meu sr novo, uma coisa qualquer que a phantasia no ousa precisar, qual aspiro, para a qual vou fugindo, que me chama, na qual hei de car como em seu giro alado insecto vae car na chamma. No tolice, no. Quem n'este mundo diria afoito ao sabio mais profundo, se n'esse tempo o mundo sabios tinha, que dentro da gallinha estava um ovo e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?... Assim succede em tudo. Muda a frma; as condies variam da existencia; mas, por mais que a materia se transforma, intacta se conserva sempre a essencia. Logo: hei de viver. Ter consciencia d'aquillo que ento fr!... UM CORVO (_que fende o espao, grasnando_) Senil demencia! Sobre essa rocha estoira como um dre: ters a mesma sorte de tudo quanto pdre. Serei eu s bastante para fazer-te o corpo n'um farrapo. Que vida has de viver desde esse instante mettido no meu papo? Aonde a consciencia?... o sentimento?... Perante a Eternidade tu duras um momento. Serviste o pensamento da grande Divindade; depois!... Depois da morte no s coisa que importe do mundo ao movimento. UMA ANDORINHA (_chilreando em roda da penedia_) Ai! terra onde nasci! Ai! dce patria minha! to longe eu sou de ti!... Saudosa do palmar, aqui, pobre avesinha, errante a voltear. Um dia... qual--no sei... um dia, em vindo o inverno, de novo patria irei. Ento sob o docel d'aquelle azul eterno, nos plainos meus d'Argel Emfim serei feliz! Nenhuma primavera roubar-me ao meu paiz Jamais conseguir!... Uma outra ptria, espera, tambem te surrir. UM SAPO (_no fundo do valle_) Cantigas! boas cantigas l por cima oio cantar. Do que vae c pela terra entendem mais as formigas, sabem mais reptis na serra que os passarinhos no ar. Deixa piar a andorinha. Bem facilmente se ad'vinha a tua sorte futura. Tu s, amigo, a doninha. teu sapo a sepultura. Cantigas! Boas cantigas! Quem trinca, trinca; trincou. As doninhas que hei papado por mais figas, figas, figas que as outras me tm armado, ninguem d'aqui m'as levou! O PINHAL (_ao longe_) N'um cantico dolente meus hymnos rumorejo. Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo em tudo o que palpita, e vive, e sente. balsamica rosa, quando a fragrancia exhalas docemente da petala mimosa; l quando do teu seio, tepido ninho d'um amor fremente, irrompem n'um gorgeio maternas alegrias, Deus que passa, o rosto surridente, cercado de harmonias. O SINO DA PENA Dong!... Dong!... Dong!... UM VELHO QUE VAE NA ESTRADA (_tirando o barrete_) Av, Maria, cheia de graa... O SINO Dong!... Dong!... Dong!... N'estas auras subtis do fim do dia --descobri-vos, mortaes!-- Deus que passa. Dong!... Dong!... Dong!... Desde a remota edade edade hodierna Descrena e F por esse mundo fra vo em perpetua luta caminhando. Da Sciencia os cartapacios consultando em Deus no cr, no cr na vida eterna quem da eterna sciencia tudo ignora. Sei d'alguns que no crem... porque moda... por ser qualquer idea contrabando em casco avariado. Finalmente, crr, ou no crr, a certos pouco importa, por isso que incommoda andar com seus botes pensando a gente no fim que ha de levar depois de morta. Eu Sciencia estranho e bom jarreta, eu que penso em morrer, por ser um vivo que fecha a mala e puxa da gorgeta, encontro s minhas maguas lenitivo crendo que ambas as coisas no so pta. Tudo em roda de mim o grande effeito d'uma causa maior, cuja existencia dois principios envolve fatalmente; amor e omnipotencia: poder que salva; amor sempre clemente. Isto me fique ao menos! Hei mudado de pensar e sentir bastantes vezes. S no pude sentir nem ter pensado ser o mundo um curral, e ns--as rezes. _PEDINDO O INDULTO_ D'UM ALUMNO MILITAR que em 1872 foi expulso do Lyceu de Lisboa por no haver restituido a outro alumno um livro que lhe pedira emprestado Misericordia!... Um rapaz sem reflexo e sem tino, que da milicia e inda traz reles buo de menino, brincando pede e sonega um mau livro a um mau collega. O facto grave! A moral traja luto!... Esta noticia corre por maneira tal que at chegou policia! Desloca a pedra angular do social edificio!... Cheira a Communa!... Pelo ar, em busca d'um outro officio, paira e pia a disciplina!... Ai de ns! que certa a ruina se um brao potente e audaz no suspende o cataclysmo!... Corte-se fundo o antraz! Da e pelle o sinapismo! Assim se fez. L no ceu ha quem nos proteja ainda. A lei pune. O infame reu cae prostrado, e o p'rigo finda. Sabia a lei no monstro fere _Cartouche e Robert Macaire._ N'um golpe os reduz a p! Da dupla calamidade, descascando um ovo s, livra e salva a humanidade! Os relaxados sandeus dizem:--No valia a pena.-- Mas que a Lei, pygmeus, no raciocina, condemna. E raciocinasse!... O pepino no se torce em pequenino? Aprender nos livros quiz? Quiz illustrar a sua farda? Fique burro, que o paiz gosta que o sirvam d'albarda. A vergonha, a nodoa, o que ? O que foi sempre. Esta fina! Um pinguinho de rap que se tira com benzina: um nada... que inhabilita: a letra fatal escripta com ferro em braza na mo! E n'este abysmo se lana sem piedade e sem razo uma inconsciente creana!... Melhor livro alguem pilhou sem ninguem lhe gritar:--Larga!-- Lambeu; os beios limpou; e poz-se de mo na ilharga! No! que o melro d'alto canta! e quando s vezes se espanta fazem-no Deus, tal crereis? Uno e bis trino,--isto srio, pois sendo os ministros seis s elle um ministerio! O supplicante, senhor, cartista puro, em presena dos factos que vem de expr, pede o indulto e a recompensa que o pobre rapaz merece. fundada a sua prece em ser a Lei coisa igual: e, sendo, j me contento, se no pde ser mar'chal faam-no ao menos sargento. _PROCESSO_ 1875 _LIBELLO_ _Le cynisme de l'apostasie._ (Berryer). Que graolas so essas, senhor Palha? Que estulto riso sobre tudo espalha? Costuma attribuir-se a pouco siso O sstro folio do eterno riso. E cuidou tirar joias d'um thesouro? Cuidou ter dito bocadinhos d'ouro? Pilherias de matar, chistes d'arromba? Pois nunca embalde co'a razo se zomba, E com ella zombou no seu escripto. Uma coisa _espirito_, outra _esprito_. J v que me refiro carta-asneira Abrindo aos disparates a torneira Nas illustres columnas do _Illustrado_. Quanto fra melhor estar calado! A defeza enterrou-lhe a protegida, Ha patronos assim; hoje perdida A causa da Madama. Andou de leve Em tudo quanto disse, e nunca teve Hora mais infeliz. Veja: primeiro O seu grande argumento --_d dinheiro!_ Que miseria inaudita! D'esse modo Bota abaixo a moral do mundo todo. venenos subtis, ferros finos. Quem maldir a mo dos assassinos Se vs rendeis milhes? lupanares Da vil prostituio, nos seus cantares Passou-vos Palha carta de limpeza. Lucraes muito por dia? Santa empreza. No quer saber de mais; o merecimento Afre-o pelo ganho; isto nojento. A moral, a virtude, que lhe importa? O caso est em quanto rende a porta, A corrupo geral que o deleita Ds que possa ser fonte de receita. A arte mascarou-se em traficante, A arte _chilrear_ e vr sonante. E houve quem berrasse, e inda hoje berra, Contra o barbaro interesse da Inglaterra Envenenando a China? Que patetas! No haviam mugir vacca as tetas? Se vem sangue no tarro que tem isso? O sangue tambem faz bello chourio. E fresquinha a _Madama_, e curto o fato? Diz elle que o reparo caricato. Pois quanto mais a filha mostra a perna E a linguagem mais cheira a taberna Mais acode o concurso hoje em Lisboa Que at na _crte_, em gripho, inda resa A fama de Cascaes e os lindos _fados_ Que por l se danaram, e os trinados Da banza afidalgada; haja folgana Que n'este mundo ha s prazer e pana. Na insulsa pea o Palha chocarreiro S d voto de peso ao bilheteiro; Com este tudo bom. Frivolidades. Phrases regateiraes, e necedades; A praa da Figueira, emfim, na scena. Sem um dito sequer que faa pena De no lembrar depois; eis o encanto Do Palha da Trindade; e faz-lhe espanto Que os da _Nao_ no saltem d'alegria, E ratos diz que so de _Sacristia_... Alto l, senhor Palha, mais decencia. No se emporcalhe assim _Vossa Excellencia_. No bula na _Nao_, que o trouxe ao collo, Que passa por ingrato, alm de tolo. Pois no andou por l de noite e dia? No foi rato tambem na sacristia? Ento o dizer mal mui mal lhe fica; Embora n'outra parte arme a futrica. O bonito caluda. Se hoje adora O que d'antes queimra, ra agora Nas lonas do theatro, chupe azeite Dos candieiros da rampa, mas no deite S por na corrupo viver contente M fama da que fra sua gente. Que mal lhe fez bolsa, em que s pensa, A antiga tradio, a antiga crena? Desertou; e bem viu que foi tranquillo. Nenhum tiro se deu a perseguil-o. Nenhuma voz se ergueu bradando--raca--, Nem ninguem lhe puxou pela casaca. Virou-a como quiz; e nem as trovas D'aquelle _Jos Paes de Torres Novas_ Ninguem lhe recordou: assim, nem pio, Que mais calvo o faro, e inda faz frio. Se seu honrado pae resuscitasse Como o rubor lhe subiria face Vendo o filho truo na patria cara Cuspir injurias, com facecia ignara; Vendo o filho nos tempos em que vamos Morder insano a procisso de Ramos! Que tem, que pde ter gambia obscena, Em anzol de patacos sobre a scena, Com pia procisso, qualquer que seja, Ds que tem por escudo a Santa Egreja? Como o tal velho Palha encresparia O sobr'olho a toda esta porcaria? Vr seu filho gabando os assobios D'amoladinhos vos e de vadios; Censurar a gravata sria e lisa; O _p fresco_ exaltar; gente em camisa; Ser-lhe, emfim, tudo antigo de quizilia E comicos s ter como familia!... manes venerandos e _embcados_ Dos Desembargadores, sois trocados Na voz do filho e neto, em sde d'ouro. Por titeres do palco! Forte estouro Levava o tal amigo se surgia Toda a Palha anci, se no morria De vergonha outra vez, que coisa dura Ver por nossos mordida a sepultura! Mas basta, senhor Palha, e se inda a fome Lhe exige mais roer, roa em seu nome. (_A Nao_). _CONTRARIEDADE_ _.......... e nunca teve Hora mais infeliz....._ (V. Exc. mesmo). Cantor das duzias, teu rosto porque que encobres assim? Quem s tu? Es Arlequim? Es o Furioso de Ariosto? Es o Roberto Pimpim? s um ano Torquemada com pretenses a Vestal, fructo da copla carnal do author da _Besta esfolada_ e do esfolado animal?... No s coisa alguma d'estas? Ento, santinho, o que s? Pedes p'r'a missa das dez, ou tocas rgo nas festas e ds aos folles co'os ps? Pela linguagem rasteira comtigo decerto dou. Se pae no s, s av da que chamas regateira, da propria filha da Angot. E a neta engeitas?... e neta condemnas a phrase ch? Que cheira mal a hortel dizl-o pde, pateta, a vil cebola albarr? franca? P'ra sempre o seja. Vale mais ter esse dom que ser beato e maon e berrar que contra a Egreja _colhr e trolha!..._ Chiton! Mostra uma perna? Essa boa! Olhem l co'o que elle vem! Mostrou uma? Pois tambem voc percorre Lisboa mostrando as quatro que tem. sociedade corrupta!... moralista infeliz!... que viste a perna da actriz e em vez de beber cicuta vaes beber... ao chafariz! Eu sei que o mundo doente. Tem um scirro que o corroe. Alm d'isso ao fraco heroe doe-lhe inda a raiz do dente que foi arrancar a Alcoy. Ao mais pequeno symptoma que indique augmento do mal recresce a faina geral. Com papas lhe acode Roma na regio temporal; D-lhe sangrias Castella; pe-lhe um cauterio o allemo, emquanto mata o capo e ferve pressa a panella a Italia no seu vulco. Em Frana a magna assemblea revlta, ignara, loquaz, discute se agua raz ou se forca a panacea n'este momento efficaz. Seguindo o fraterno impulso, o frio, sizudo inglez chega-se ao leito do endez e diz, tomando-lhe o pulso: _Inda no vae d'esta vez._ E o pai da magra Siberia, o grande doutor Moscow, da casa de Deus av brama:--_Pois se a coisa sria, rapazinhos, l vou._ Mas tu co'os teus alfarrabios e com teu surriso alvar vr, apalpar, e... obrar. Podera! Que valem sabios onde apparece o alveitar?... Assim, receitas antiga: Dois gros de moral... de Ado, que andou n e foi burlo. Com elles faa uma figa, raspe, e metta de infuso. Deite depois disciplinas com ponta de pita e n. Misture So Pedro em p, e co'as minhas proprias clinas fomente o enfermo sem d. Note bem. Rigor na dieta de acepipes liberaes. No cheirar sequer jornaes. Se a cura for incompleta d-lhe mais... e mais... e mais! O mau, o peior, o diabo, cego Miramolim, que essa droga ruim por um triz que j deu cabo do mundo vezes sem fim. No faas mais medicina que o tempo gastas em vo; e, se s tolo ou charlato, grunhe contra a tua sina, mas contra mim, isso no. Porque andei l na botica de _avantal_ e braos ns, porque os xaropes compuz, mais e mais se justifica meu tdio pelo alcauz. E se a _Nao_ me deu mama, se ao collo trazer-me quiz, porque estranhas se lhe eu fiz no regao e p'ra tal ama o que faz todo o petiz?! Sob a campa que os encerra deixa tranquillos os meus. No chames, rei dos pygmeus, para as contendas da terra aquelles que esto com Deus. Do seu tempo honradamente seguiram costume e lei. Com ser do meu provarei que amo a patria, a minha gente, e o seu exemplo imitei. E se algum, velha maluca, surgisse da eterna paz, de provar-me era incapaz, que os olhos esto na nuca; que o _direito_ andar p'ra traz. _SENTENA_ Estes autos correndo folha a folha, d'elles fica provado saciedade que tem bolha a _Nao_, e que tem bolha o Palha da Trindade. Marfra-se o jornal s porque em scena mostrra certa artista uma das pernas gordas, e essa--obscena. O Palha redarguiu: que era uma pena e, mais, uma injustia tratar como se fra de corista a perna d'uma actriz--das de mo cheia; --que a perna era a cubia do velho jornalista; --que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia cobrisse aquella gambia to rolia; por fim--que era um sacrista... insulto enorme a quem ajuda missa! s partes deu-se vista da perna questionada. Era postia. Recalcitra a _Nao_, accesa em febre: --que fra burla torpe, e facto novo em terra portugueza, dar-se ao povo um gato em vez de lebre. --Que falsa ou verdadeira a perna fosse, de rama d'algodo, ou simples cana, sempre era perna, e _gratis_ dava um dce a quem de lhe morder no dsse a gana. D'ahi a grave offensa pureza moral da raa humana; a indignao immensa d'uma s consciencia ultramontana! --Que o Palha tambem fra antigamente irmo na sacristia levantando a rao, conforme a havia, e sempre com bom dente. --Que l n'um bello dia fugira como um burro cacilheiro sem lhe gritarem: _Ch!..._ Que santa gente! Que o rles emprezario, tendo o fito nas cruzes do dinheiro, trazia todo inteiro, aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito: a frma d'animal mais predilecta do Belzebuth maldito quando a noss'alma empanzinar projecta. --Que os paes, avs, emfim toda a Palhada que jaz na cova, qual vivera, honrada, por causa da tal perna ficra condemnada d'uma eterna vergonha dr eterna. O ro contesta, e diz: --Que era verdade haver por l andado; mas n'uma tal edade que no chegra nunca a ser ferrado. --Que o tinham n'um cerrado onde brotava apenas a Saudade; constante era a estiagem; o ceu caliginoso; de lagrimas smente a beberagem; por festa o cardo; espinhos s por goso. --Que tiritando ali, aguado o pllo, extincto o movimento, transportado se vira n'um momento s pvidas manses do eterno glo. --Que, l muito de longe, a Liberdade lhe fez ento negaas. Tens frio?... Vem. Aqueo. A escuridade de razo deixal-a sepultura, veu das caveiras, manto das carcassas! Chama-te a luz! a luz que vem da altura dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!... Quanto mais caminhar a humanidade do espirito de Deus mais se avisinha. Apoz da seduco d'aquelle canto, ouvindo aquelles hymnos, homem por elles feito, erguida a fronte, partira ancioso em busca do horisonte onde, envolvida em nimbos purpurinos, c'roada d'amaranto, a deusa refulgia. Partira. Fra. E no se arrependia. Conspurcal-a pretendem? Na passagem cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode o templo augusto? Arrastam-na voragem? Ella pura sempre; sempre forte! Pde velar seu rosto; s no pde, sem que renasa, captival-a a morte! E disse mais. E disse d'esta sorte: --Que mesmo ao Santo Padre, e mais santo, no faz o dinheirinho um mau cabello... nem, em nome de Pedro, recebl-o. Para engeital-o, em menospreo tel-o, nas mos como Jos largar-lhe o manto, um pobre peccador e Belisario, seria necessario que fosse um dromedario; que fosse um gran camlo! --Que exhibir uma perna no theatro no era nada comparado s quatro sobre as quaes a _Nao_ a qualquer hora vae, cabisbaixa, manquejando legoas por esse paiz fra. --Que em seu rancor profundo, sendo christ, no dera ao menos tregoas quelles que dormiam descanados nas sombras do outro mundo!... Coitados!... Sim; coitados! Empenharam-se juntos na batalha em pr do mesmo rei. Nos mesmos fossos o mesmo p morderam. Na mortalha nem isso lhes valeu! Ai! pobres ossos! Ouvidos por tal frma ambos os lados; e --Sendo mais que certo que a folha authora, os olhos pondo em Christo, por um cantinho d'elles j tem visto pernas no palco, e pernas mais ao perto, sem que tora o nariz ou mostre nojo; --No podendo a Moral chegar to longe que exija a cada canto um Varatojo, nem de cada mortal engendre um monge dormindo sobre o tojo; e Visto que a _Nao_ no seu ataque foi rude, e foi cruel, e deu motivo do Palha ao fogo vivo que a poz, no ardor do saque, pouco mais, pouco menos, como um crivo; --Sendo que o Palha, embora na defeza, faltou s leis da guerra contundindo a _Nao_ prostrada em terra; inutil, bestial, impia fereza, inda em cima aggravada na certeza de estar sovando um martyr; Attendendo a ter o mesmo reu a consciencia do mal que procedia quando, esquecendo a antiga convivencia por futil ninharia, em vez de lhe deitar logo um remendo se poz a esg'ravatar na porcaria; Manda a Justia, a cega, a que machucha, a pomba immaculada, a fossil que nem chucha nem consente sequer em ser chuchada; ordena a incorruptivel,--Deus lhes valha!... que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa a bruxa da _Nao_! Veja outra o Palha. Assim, condemno os dois da vida airada. Em castigo ao jornal seja o Libello, n'um livro, publicado. E que o releia, (pequena penitencia ao grande excesso!) quem bilis soez abriu a veia. Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre ceia, os fructos do seu odio! Dal-o ao prelo, dar-se a si mesmo em elzevir impresso, jungidos ambos, presos n'um s elo, do Palha a pena seja, e o seu flagello! Na mesma falta incursos, e n'outra falta ainda, a de recursos, paguem os dois as custas do processo. _INDICE_ Dona Morte Por fim Carta ao Conde d'Almedina, Inspector da Academia Real de Bellas-Artes, que no estrangeiro sollicitou uma commenda para o author Requerimento Prefacio d'um livro inedito Mal por mal A uma creatura Alm da campa A Julio Cesar Machado, que em folhetim do _Diario de Noticias_ dirigira ao author phrases benevolas Dies ir O meu tinteiro A Venus nova O lobo e o co Deus e o Amor Enteada N'um album Raphaela As minhas memorias Estrella cadente Ao actor Joo Anastacio Rosa que, na sua officina de sapateiro, mandra fazer para uso do author umas botas impermeaveis s rs pedindo rei Onze de Novembro Assim que eu gsto d'ella! Em Cintra Pedindo o indulto d'um alumno militar que em 1872 foi expulso do Lyceu de Lisboa por no haver restituido a outro alumno um livro que lhe pedira emprestado Processo (1875) Libello Contrariedade Sentena End of the Project Gutenberg EBook of Musa Velha, by Francisco Palha License: Share Alike