Produced by Vasco Salgado TEIXEIRA DE PASCOAES +ELEGIAS+ 1912 ELEGIAS OBRAS DO AUTOR Sempre--1897 Terra Prohibida--1899 Sempre (2.^a edio)--1902 Jesus e Pan--1903 Para a Luz--1904 Vida Etherea--1906 As Sombras--1907 Senhora da Noite--1908 Marnos--1911 Regresso ao Paraiso--1912 O Espirito Lusitano ou o Saudosismo--1912 O Doido e a Morte--1913 TEIXEIRA DE PASCOAES +ELEGIAS+ 1912 PREFACIO No tencionava publicar este livro. A dr que ele contem, muito embora arrefecida ao tomar expresso verbal, sagrada para mim. Estes versos, nascidos da morte d'uma creana bem amada, fram escriptos para seus Paes e Avs, para as pessoas que a rodearam de carinhos durante a sua doena e para os meus intimos amigos de alma. O soffrimento verdadeiro no ama a luz do mundo. Quem chora, esconde o rsto. A dr oculta-se por conhecer a desharmonia de que feita. Mas quando soube da subscripo nacional aberta a favor do divino Poeta da "Historia de Jesus" _para as creancinhas lerem_, resolvi pr venda este livro, com o fim de inscrever o seu producto, ainda que modesto, na subscripo referida. Fui _eu_ que resolvi?... Gomes Leal ver no producto das "Elegias" no a minha pessoa, mas o proprio espirito d'essa Creana... ela a agradecer-lhe a dedicatoria do Poema, sublime de emoo religiosa, onde murmura, eternamente viva, a alma de Jesus. Maro de 1913. [Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.] DEDICATORIA _Este pequeno livro para ti, Minha irm. Has de l-lo com amor, Pois nele encontrars o que soffri E uma sombra talvez da tua dr. E nele, embora em nevoa, encontrars A Imagem de teu Filho... minha irm, Sei que s a campa viva onde ele jaz; Sei que este livro cinza, poeira v Que eu espalho em redor da tua cruz... Mas ante a negra dr que me tortura, Quiz vingar-me da Morte, e ergui luz, Cantando, este meu calix de amargura._ ME DOLOROSA Vi-o doente, ouvi os seus gemidos; Sinto a memoria negra, ao record-lo! A Me baixava os olhos doloridos Sobre o Filho. E era a Dr a contempl-lo! Depois, nesses instantes esquecidos, Ou lhe falava ou punha-se a beij-lo... Mas, retomando, subito, os sentidos, Estremecia toda em grande abalo! Fugia de ao p dele suffocada, A sua escura trana desgrenhada, Os seus olhos abertos de terror! E ento, num desespro, a Me chorava, E, por entre gemidos, s gritava: Amr! amr! amr! amr! amr! JUNTO DELE Que terrivel tragedia ver a gente, No seu exiguo e doloroso leito, Uma creana morta, um Inocente, Um pequenino Amr inda perfeito! Oh que mimosa palids tremente A do glido rsto contrafeito! A as mosinhas de cra, docemente, dr, dr, cruzadas sobre o peito! Deus cruel que matas as Creanas! Auroras para o nosso corao, Alegrias, alivios, esperanas! No sei quem s; eu no te entendo, Deus! E penso, com terror, na escurido Desse teu Reino tragico dos Cus... NAS TREVAS Como estou s no mundo! Como tudo lagrima e silencio! tristsa das Cousas, quando noite Na terra e em nosso espirito!... Tristsa Que se anuncia em vultos de arvoredos, Em rochas diluidas na penumbra E soluos de vento perpassando Na tenebrosa lividez do cu... tristsa das Cousas! Noite morta! Pavor! Desolao! Escura noite! Phantastica Paisagem, Desde o soturno espao fria terra Toda vestida em sombra de amargura! rma noite fechada! Nem um leve Riso vago de estrela se adivinha... Smente as grossas lagrimas da chuva Escorrem pela face do Silencio... Piedade, noite negra! No me beijes Com esses labios mortos de Phantasma! Sol, vem alumiar a minha dr Que, perdida na sombra, se dilata E mais profundamente se enraiza Nesta carne a sangrar que a minha alma! Ilumina-te, Noite! Vento, cla-te! Negras nuvens do sul, limpae os olhos, Desanuviae a bronzea face morta! Oh, mas que noite amarga, toda cheia Do teu Phantasma angelico e divino; Espirito que, um dia, em minha irm, Tomou corpo infantil, figura de Anjo... E para que, meu Deus? Para partir, Com seis annos apenas, no primeiro Riso da vida, em lagrimas, levando Toda a luz de esperana que floria Este rmo, este remoto em que divago... Como estou s no mundo! Como triste A solido que faz a tua Ausencia, E o terrivel e tragico silencio Da tua alegre Voz emudecida! noite, noite triste! minha alma! Tu, que o viste e beijaste tantas vezes, Tu, que sentiste bem o que ele tinha De angelica Creana sobrehumana, No vs as proprias cousas como soffrem, E como as grandes arvores agitam As ramagens de lagrimas e sombras? Repra bem na lugubre tristsa Da nossa velha casa abandonada Da divina Presena da Creana! Ah, como as portas gemem e o beiraes Tm soluos de vento... L fra, no terreiro onde brincavas, A noite escura chora... minha alma, Embebe-te na dr das Cousas rmas; Chora tambem, consome-te, solua, Junto Me dolorosa, de joelhos... OLHAR ETERNO Aquele olhar to triste, Onde ia, feito em lagrima, o que eu sou, Isto , tudo o que existe, No instante em que pousou, Relampago do Alm, Sobre ti, meu querido e pobre Anjinho, J deitado na cama e to doentinho, Cercado da afflico de tua Me; Esse olhar fez-se eterno, Em meus olhos ficou: luz do inferno Que tudo me alumia... Parece a luz do dia! NO SEU TUMULO Sobre o seu frio bero sepulcral, Meu espirito resa ajoelhado; E sente-se perfeito e virginal Na sua dr divina concentrado. Ca, gotas de orvalho matinal! Astros, ca do cu todo estrelado! Scas flres do zfiro outomnal, Vinde enfeitar-lhe o tumulo sagrado! luar da meia noite, encantamento De sombra, vem cobri-lo! doido Vento, Dorme com ele, em paz religiosa... Sobre ele, terra, s brandura apenas; Faze-te luz, toma o calor das pennas; S Me perfeita, ba e carinhosa. DELIRIO No posso crr na morte do Menino! E julgo ouvi-lo e v-lo, a cada passo... ele? No. Sou eu que desatino; a minha dr soffrida, o meu cansao. Delirio que me prendes num abrao, Emendars a obra do Destino? V-lo-ei sorrir, de novo, no regao Da me? Verei seu rosto pequenino? Misterio! Sombra imensa! Alto segredo! Jamais! jamais! Quem sabe? Tenho mdo! Que vejo em mim? A treva? a luz futura? Ah, que a dr infinita de o perder Seja a alegria de o tornar a ver, Meu Deus, embora noutra creatura! REMORSOS Onde comtigo, um dia, me zanguei, hoje um sitio escuro que aborreo; E sempre que ali passo, eu anoiteo!... Ah, foi um crime, sim, que pratiquei! Quantas negras torturas eu padeo Pelo pequeno mal que te causei! Se, ao menos, presentisse o que hoje sei? Mas no; fui mau; fui bruto; reconheo! E sffro mais, por isso, a tua morte, E dou mais chro amargo ao vento norte, Mais trevas se acumulam no meu rsto... vs que n'este mundo amaes alguem, Seja linda creana ou pae ou me, No lhe causeis nem sombra de desgsto! NO CREPUSCULO Nasce a luz do luar dos derradeiros, rmos, soturnos pincaros ssinhos... Andam sombras no ar e murmurinhos E vagidos de luz... e os Pegureiros Descem, cantando, a encosta dos outeiros... Tangendo amenas frautas amorosas, Seus vultos, no crepusculo, desmaiam E assim como os seus canticos, se espraiam Em ondas de emoo. As fragarosas Quebradas que o luar beija, misteriosas Furnas, boccas de terra, murmurantes, Arvoredos extaticos orando, Rochedos, na penumbra, meditando, Desfeitos em ternura, esvoaantes, Pairam tambem no espao comovido, Das primeiras estrelas j ferido, Todo em luar e sombra amortalhado... E eu choro sobre um monte abandonado... E o Phantasma divino da Creana, Sombra de Anjinho em flor, Nos longes dos meus olhos aparece, Como se, por ventura, ele nascesse Da minha incerta e trmula esperana, E no da minha firme e eterna dr! E choro; e alem das lagrimas, eu vejo Aquele dce Vulto pequenino, Em seu leito de morte e soffrimento; Jesus martirisado, inda Menino... E como cinza morte o meu desejo E como extinta luz meu pensamento! Depois, a sua Imagem soffredra Regressa Vida, veste-se de aurora; Os seus labios sorriem para mim... E aquelles verdes olhos cristalinos Abrem-se radiosos e divinos, E vejo-o ento brincar no meu jardim! Vejo-o como ele foi, como ele existe No corao da Me por toda a vida! Anjinho tutelar da nossa casa! A divina Esperana florescida, Brilhando alm de tudo quanto triste... Longinquo Alivio, protectora Asa! Mas de que serve? Eu choro sem descano, No meio da tristsa indiferente Das Cousas que tm a alma sempre ausente... S eu na minha dr nunca me cano. brutsa das Cousas! No infinito E glido silencio, eu ouo um grito! Na funda solido que me rodeia, Um sr apenas, ttrico, vagueia... Quem grita? O meu espirito. E que importa? ele a errar no mundo solitario, Sem principio nem fim, sem pae nem me! cu indiferente! terra morta! grito de Jesus sobre o Calvario, A subir no Infinito, cada vez Mais cercado de tragica mudez, Mas afflicto, mais alto, mais alm!... Cousas que j fizestes companhia A este espirito meu que, em vs, se via, Porque me abandonastes? rmo Vento, Insonia do ar correndo o Firmamento, S vejo, em ti, loucura inanimada, Revolta inconsciencia destruidora! Alta estrela, na noite, incendiada, Passarinhos do cu, cantos da aurora, J no palpita em vs meu corao... Sois o silencio, a treva, a solido. Alm de mim j nada avisto. As cousas, Arvores, nuvens, serras pedregosas, So penumbras que luz do meu olhar Se dissipam, de subito, no ar. De tal forma meu sr se concentrou Na viso da Creana, que alm d'ela, No vejo flr ou ave ou luz de estrela, Limpido cu azul, verde paisagem! Dir-se- que o seu Espectro reencarnou Em mim,--que no sou mais que a sua Imagem! SOBRESALTO Quantas horas passava contemplando Seu pequenino Vulto. Era um Anjinho Dentro de nossa casa, abenoando... Era uma Flr, um Astro, um Amorzinho. Um dia, em que ele, ao p de mim, ssinho Brincava, estes meus olhos inundando De graa, de inocencia e de carinho, De tudo o que celeste, alegre e brando, Vi tremer sua Imagem, de repente, No ar, como se fra Apario. E para mim eu disse tristemente: "Pertences a outro mundo, a um cu mais alto; Partirs dentro em breve." E desde ento Eu fiquei num constante sobresalto! ENCANTAMENTO Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar A tua dce e angelica Figura, Esquecido, embebido num luar, Num enlvo perfeito e graa pura! E fora de sorrir, de me encantar, Deante de ti, mimosa Creatura, Suavemente sentia-me apagar... E eu era sombra apenas e ternura. Que inocencia! que aurora! que alegria! Tua figura de Anjo radiava! Sob os teus ps a terra florescia, E at meu proprio espirito cantava! Nessas horas divinas, quem diria A sorte que j Deus te destinava! O QUE EU SOU Nocturna e dubia luz Meu sr esboa e tudo quanto existe... Sou, num alto de monte, negra cruz, Onde bate o luar em noite triste... Sou o espirito triste que murmura Neste silencio lgubre das Cousas... Eu que sou o Espectro, a Sombra escura De falecidas formas mentirosas. E tu, Sombra infantil do meu Amr, s o Sr vivo, o Sr Espiritual, A Presena radiosa... Eu sou a Dr, Sou a tragica Ausencia glacial... Pois tu vives, em mim, a vida nova, E eu j no vivo em ti... Mas quem morreu? Fste tu que baixaste fria cova? Oh, no! Fui eu! Fui eu! Horrivel cataclismo e negra sorte! Tu fste um mundo ideal que se desfez E onde sonhei viver apoz a morte! Vendo teus lindos olhos, quanta vez, Dizia para mim: eis o logar Da minha espiritual, futura imagem... E viverei luz daquele olhar, Divino sol de mistica Paisagem. Era minha ambio primordial Legar-lhe a minha imagem de saudade; Mas um vento cruel de temporal, Vento de eternidade, Arrebatou meu sonho! E fugitiva Deste mundo se fez minha alegria; Mais morta do que viva, Partiu comtigo, Amr, luz do dia Que doirou de tristsa o teu caixo... Partiu comtigo, ao p de ti murmura; maguada voz na solido, Dce alvor de luar na noite escura... E beija o teu sepulcro pequenino; Sobre ele va e erra, Porque o teu Sr amado j divino E o teu sepulcro, abrindo-se na terra, Penetrou-a de luz e santidade... E para mim a terra um grande templo E, dentro dele, a Imagem da Saudade... E reso de joelhos, e contemplo Meu triste corao, saudoso altar Alumiado de sombra, escura luz... Nele deitado ests como a sonhar, Meu pequenino e mistico Jesus... Lagrimas dos meus olhos so as flres Que a teus ps eu deponho... Enfeitam tua Imagem minhas dres, E alumia-te, s noites, o meu sonho. Todo me dou em sacrificio tua Imagem que eu adoro. Sou branco incenso triste luz da lua: Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro... MINHA ALEGRIA Minha alegria foi no teu caixo; Deitou-se ao p de ti, na sepultura, A fim de acalentar teu corao E tornar-te mais branda a terra dura. Por isso, para mim consolao Esta sombria dr que me tortura! E ponho-me a cantar na solido, Meu cantico esculpido em noite escura! Consola-me saber minha alegria Longe de mim, perto de ti, na fria Cova a que tu baixaste apoz a morte. Fste tu que m'a deste, meu amr; Agora, dou-t'a eu: a minha flr; Eu quero que ela soffra a tua sorte. TRISTSA O sol do outomno, as folhas a cair, A minha voz baixinho soluando, Os meus olhos, em lagrimas, beijando A terra, e o meu espirito a sorrir... Eis como a minha vida vae passando Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir Silencios da minh'alma e o resurgir De mortos que me fram sepultando... E fico mudo, extatico, parado E quasi sem sentidos, mergulhando Na minha viva e funda intimidade... S a longinqua estrela em mim actua... Sou rocha harmoniosa luz da lua, Petreficada esphinge de saudade... A MINHA DR Tua morte feriu-me no mais fundo, Remoto da minh'alma que eu julgava J fra desta vida e deste mundo! E vejo agora quanto me enganava, Imaginando possuir em mim Alma que fsse livre e no escrava! Meu espirito treva e dr sem fim. Todo eu sou dr e morte. Sou franqusa. Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim Prgar a noite, a lagrima, a incertsa, A luz que, para sempre, anoiteceu... Esta envolvente, essencial tristsa, Tristsa original donde nasceu O sol caindo em lagrimas de luz, Chro de oiro inundando terra e cu! Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz, Meu ilusorio sr crucificado Lembra um morto phantasma de Jesus... E aos ps da minha cruz, no cho maguado, A tua Ausencia a Virgem Dolorosa, Com tenebroso olhar no meu pregado. Ah! quanto a minha vida religiosa, Depois que te perdeste no sol-psto, Se fez incerta, fragil e enganosa! Em meu sr desenhou-se um novo rsto. Sou outro agora; e vejo com pavor Minha mscara interna de desgsto. Vejo sombras luz da minha dr... Sombras talvez de eternas Creaturas Que vivem na alegria do Senhor... E quem sabe se os Mortos, nas Alturas, Vivem na paz de Deus, em sitios rmos, Entre flres, sorrisos e venturas?... E quem sabe se as dres que soffremos E nosso corpo e alma, no so mais Que as suas vagas sombras irreaes?... Ah, ns smos ainda o que perdemos... A ME E O FILHO Teu sr tragicamente enternecido, Em desespero de alma transformado, Vae atravs do espao escurecido E pousa no seu tumulo sagrado. E ele acorda, sentindo-o; e, comovido, Chora ao vr teu espirito adorado, Assim to s na noite e arrefecido E todo de rmas lagrimas molhado! E eis que ele diz: " Me, no chores mais! Em vez dos teus suspiros, dos teus ais, Quero que venha a mim tua alegria!" E s nas horas em que a Me descana, que ele inclina a fronte de creana E dorme ao p de ti, Virgem Maria! AUSENCIA Lgubre solido! noite triste! Como sinto que falta a tua Imagem A tudo quanto para mim existe! Tua bemdita e efmera passagem No mundo, deu ao mundo em que viveste, nossa ba e maternal Paisagem, Um espirito novo mais celeste; Nova Forma a abraou e nova Cr Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste! E ei-la agora to triste e sem verdor! Depois da tua morte, regressou Ao seu velhinho estado anterior. E esta saudosa casa, onde brilhou Tua voz num instante sempiterno, Em negra, intima noite se occultou. Quando chego janela, vejo o inverno; E, luz da lua, as sombras do arvoredo Lembram as sombras plidas do Inferno. Dos recantos escuros, em segredo, Nascem Vises saudosas, diluidos Traos da tua Imagem, arremdo Que a Sombra faz, em gestos doloridos, Do teu Vulto de sol a amanhecer... A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos... Mas eu que vejo? A luz escurecer; O imperfeito, o indeciso que, em ns, deixa A amargura de olhar e de no vr... A voz da minha dr, da minha queixa, Em vo, por ti, na fria noite clama! Dir-se- que o cu e a terra, tudo fecha Os ouvidos de pedra! Mas quem ama, Embora no silencio mais profundo, Grita por seu amor: voz de chama! E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo, Para onde quer que eu olhe, aqui, alm, A tua Ausencia tragica! E no fundo De mim proprio que vejo? Acaso alguem? S vejo a tua Ausencia, a Desventura Que fez da noite a imagem de tua Me! A tua Ausencia tudo o que murmura, E mostra a face triste luz da aurora, E se espraia na terra em sombra escura... Quem traz o outomno ao meu jardim agora? Quem muda em cinza o fogo do meu lar? E quem solua em mim? Quem que chora? a tua Ausencia, Amr, que vem turbar Esta alegria etrea, nuvem, asa De Anjo que, s vezes, passa em nosso olhar! O Sol a tua Ausencia que se abrasa, A Lua tua Ausencia enfraquecida... Da tua Ausencia feita a minha vida E os meus versos tambem e a minha casa. TRAGICA RECORDAO Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora De o ver brincar, e avisto novamente Seu pequenino Vulto transcendente, Mas to perfeito e vivo como outrora! Julgo que ele ainda vive; e que, l fra, Fala em voz alta e brinca alegremente, E volve os olhos verdes para a gente, Dois beros de embalar a luz da aurora! Julgo que ele ainda vive, mas j perto Da Morte: sombra escura, abysmo aberto... Pesadlo de treva e nevoeiro! viso da Creana ao p da Morte! E a da Me, tendo ao lado a negra sorte A calcular-lhe o golpe traioeiro! IDILIO Sinto que, s vezes, choras, minha Irm, No teu sombrio quarto recolhida... que ele vem rompendo a sombra v Da Morte, e lhe aparece luz da vida! E afflicta, como choras, minha Irm... Teu chro tua voz emudecida, Ante a imagem do Filho, essa Manh Em profunda saudade amanhecida. Silencio! No palpites, corao; Nem canto de ave ou mistica orao Um tal idilio venham perturbar! Deixae o Filho amado e a Me saudosa: O Filho a rir, de face carinhosa, E a Me, to triste e plida, a chorar... DE NOITE Quando me deito ao p da minha dr, Minha Noiva-phantasma; e em derredor Do meu leito, a penumbra se condensa, E j no vejo mais que a noite imensa, Ante os meus olhos intimos, acsos, Extaticos, surprsos, Aparece-me o Reino Espiritual... E ali, despido o habito carnal, Tu brincas e passeias; no comigo, Mas com a minha dr... o amr antigo. A minha dr est comtigo ali, Como, outrora, eu estava ao p de ti... Se fsse a minha dr, com que alegria, De novo, a tua face beijaria! Mas eu no sou a dr, a dr etrea... Sou a Carne que soffre; esta miseria Que no silencio clama! A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama... NOITES EM CLARO Passas em claro as noites a chorar; Dia a dia, teu rosto empalidece... Faze tu, pobre Me, por serenar, Santa Resignao sobre ela desce! Rochedo que a penumbra desvanece, Tu, por acaso, no lhe podes dar Um pouco d'esse frio que entorpece O corao e o deixa descanar?... Jamais! No ha remedio! Nem as horas Que passam! Toda a fria noite choras; Tua sombra, no cho, mais escura. Soffres! E sinto bem que a tua dr, Como se fra um beijo, acso amr, Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura. DUAS SOMBRAS Pelas tardes divinas, Quando a cr se dissolve em lagrimas doiradas, Eu vejo duas Sombras pequeninas, Andando de mos dadas. Como duas creanas que elas so, Percorrem, a brincar, Esta minha infinita solido; E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar... Bate-me o corao; caminho... Na distancia, Atravs do crepusculo divino, Vejo a Sombra infantil da minha infancia E a Sombra do Menino! E d'elas me aproximo; e paro; tenho mdo De as vr fugir, assim... Seus Vultos de chimera e de segrdo Tremem deante de mim... E como se parecem! O mesmo adeus no olhar, o mesmo rsto e altura... E ao p d'elas as cousas se enternecem, E este meu corao aberto em sepultura. Durante a tua vida, meu Amr, Quantas vezes, ao ver-te, imaginava Olhar de perto, a minha infancia toda em flr! E ainda mais: pensava Que eras a minha propria Infancia novamente, Mesmo deante de mim, resuscitada E brincando comigo alegremente, N'esta velha Paisagem bem amada, Terra da meia noite, alma do outomno... N'esta casa velhinha, evocadora, Tocada de luar, de sombra e de abandono, Da alegria de outrora... E por isso, no dia em que morreste, Quando tudo era lagrima, a distancia, Corao, duas cruzes padeceste; Duas mortes soffreu a minha infancia. LAGRIMA Bate-me o luar na face, e o meu olhar Em lagrima saudosa se condensa... Vejo-a deante de mim, como suspensa Na sombra do ar. E em seu liquido seio de esplendor, Tua Imagem comea a alvorecer, Pois toma corpo e vida no meu sr, Quando a beija, sorrindo, a minha dr... bria do teu espirito sagrado, A radiosa lagrima estremece, Emquanto a minha face empalidece E o luar e a noite scismam ao meu lado... E a comovida lagrima crepita... Relampago de dr... E nada vejo; Pois nela est presente o meu desejo E a minha vida fragil e infinita. E a lagrima scintila, num adeus... E, desprendida de meus olhos, ei-la J distante, no espao: nova estrela Subindo aos cus... MEDITAO A nocturna lembrana consumida Da tua horrivel morte dolorosa, Eneva de lagrimas a vida... E sinto a luz tornar-se duvidosa, Tocando a minha fronte que lhe gasta A seiva etrea, a fluida cr viosa. O meu olhar maldito logo afasta O Sr que s suas lagrimas empece, E o perfil animado lhe desgasta! O meu olhar as cousas anoitece... E elas choram na sombra e na incertsa, A minha propria dr... E eis que aparece, Deante de mim, o Espectro da Tristsa... E tudo transfigura... E eu fico a vr, Como atravs da Morte, a Natursa... O bero cova. Que nascer? Morrer. Quem abre ao sol os olhos, escravisa A alma, a luz espiritual do sr... Um rio de emoo, em mim, deslisa... Para cantar se fez pequena fonte; Seu canto bruma plida e indecisa. E fito, de olhos tristes, o horisonte: Nele me perco em nevoa: sou distancia... Intima cruz a erguer-se em tsco monte... Vsper, sorriso de oiro, luz, fragancia Da noite que amanhece, ao teu fulgr, Vejo Espectros que so da minha infancia... Formas mortas que nem meu proprio Amr Anima,--ele que d'antes animava A sombra, a pedra, as arvores em flr! E como outrora tudo me encantava! Como perdi no turbilho dos dias O sabr que nas cousas eu gostava! Tristsas so phantasmas de alegrias... E entre Phantasmas vivo... meus amres, Folhas mortas, outomno, ventanias!... Sombras da meia noite! Me das Dres Em teu altar ssinho, na capela Do monte sem romeiros e sem flres! Noite! Virgem triste! rma Donzela! Se eu fra sombra de alma adormecida, Silencio de alma, solido de estrela?... Mas no; eu vivo e penso n'esta Vida; No Mal victorioso e na Bondade Quasi sempre ultrajada e perseguida! Vejo a Inocencia s mos da Crueldade Morta, desbaratada, e vejo a aurora Alumiando esta negra, ferrea edade! Vejo um pequeno Anjinho que enamora Meu comovido esprito encantado... E divinos sorrisos ele chora, E s de v-lo, eu sinto-me sagrado! E fica todo em flr meu corao, Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado! E, sbito, l vae: sonho vo! E sobre mim, afflicta, a noite desce: Mar cheia de treva e solido. E o sangue em minhas veias arrefece... altura do meu rsto, vejo o Mdo Que, nos rmos crepusculos, me empece! E como tudo sombra, dr, segrdo! De longe, aspectos de alma que nos falam; De perto, brutas formas de rochedo! Quantas intimas dres nos abalam! Porque no ha no mundo quem as oua, As dolorosas vozes que se calam! gente enamorada! gente ma! Que, de repente, ao tumulo baixaes, Qual o vosso pecado? a culpa vossa? Procisso das lagrimas, dos ais, Deante de mim, passando eternamente A caminho das sombras sepulcraes! Dr sem fim, sem principio, dr presente, Martirisando as almas, e sobre elas O sorriso de Deus indiferente! O Deus que pe na face das estrelas Nodoas de sombra e enfeita com as flres Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas; O Deus acso em tragicos furres, Que mata as creancinhas sem peccado E parece viver das nossas dres, E fez do nosso chro o mar salgado, E fez da nossa angustia um rmo outeiro, E sobre ele Jesus crucificado; O Deus que me tornou prisioneiro, E que transforma tudo quanto eu amo Em desfeita viso de nevoeiro; Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo, profundo silencio, indiferena, A propria sombra morta que eu derramo... Remoto Deus--Phantasma, sem presena, Que em materia de dr edificou As arvores, o Sol, a noite imensa, E em doloroso barro alevantou Minha figura tragica e reprsa, Num impotente, empedernido vo; o Deus do Abysmo, o Pae da Natursa, Nocturno Deus da vida material, Divindade da fnebre Tristsa; O Deus creador das Trevas, contra o qual Ssinho, se ergue em mim, mas sem temor, O meu divino Sr espiritual; Meu Sr heroico acso em puro amor! Sol comovido, ardente meio dia, Trespassando de luz a noite e a dr! Meu Sr, onde se muda em alegria A corporea tristsa; onde a Materia Se faz alma perfeita de harmonia; Meu Sr que afirma o Bem, ante a miseria Das transitorias cousas; que alevanta, Contra a sombra do inferno, a Luz etrea! Meu Sr espiritual que, alegre, canta, Se, por ventura, eu choro desolado, E que os Phantasmas lgubres espanta; Meu Sr creador do Esprito sagrado, O Redemptor das lagrimas, dos ais; Senhor dum novo Olimpo sublimado... Novo Orfu nos Abysmos infernaes. ESPERANA E TRISTSA Minha tristsa peor que a tua dr. Um dia, no teu ventre sentirs Reencarnar para o mundo o teu amor: A mesma alma, o mesmo olhar... vers!... Eu sei que ha de voltar; e assim ters A alegria primeira, ainda maior... E ento, de novo, alegre ficars; Ser primeiro o teu segundo amr! Mas eu que, antes do tempo, j declino, Quem sabe se verei o teu Menino, Numa edade em que possa compreender? E partirei talvez sem lhe deixar, Na memoria, esse interno e fundo olhar, A comovida imagem do meu sr... SSINHO Tarde. Vagueio s por um outeiro. Sua Imgem chimerica fluctua, Deante de mim, no espao: nevoeiro Vestindo de emoo a terra nua... E como na minh'alma se insinua Aquele etreo Vulto... amr primeiro! Ouo-o falar, l fra, luz da lua. Vejo-o brincar na sombra do terreiro. Apenas vm meus olhos, n'este mundo, O seu perfil angelico, o seu fundo, Misterioso, verde negro olhar... Vejo uma estrela? ele. Vejo um lirio? ele. Tudo ele. E o meu delirio ele: o seu esprito a cantar! DEPOIS DA VIDA Quando meu corao parar desfeito Em sombra, na profunda sepultura, E o meu sr, j phantastico e perfeito, Vaguear entre o Infinito e a terra dura; Quando eu sentir, emfim, todo o meu peito A transformar-se em constelada Altura; Eu, divino Phantasma, o claro Eleito, O Enviado da Vida Morte escura; Quando eu fr para mim minha esperana, Meu proprio amr jamais anoitecido, E a minha sombra apenas fr lembrana; Quando eu fr um Espectro de Saudade, Entre o luar e a nevoa amanhecido, Serei comtigo, Amr, na Eternidade. O ENCONTRO COM O RETRATO Receio o teu encontro, pobre Me, Com o retrato de teu Filho. Vaes Contemplar suas formas materiaes, O que pertence morte e a mais ninguem... Mas para que exaltar ainda mais Aquela dr que s do mundo? Tem Paciencia. No o vejas. Olha bem: De que servem as lagrimas e os ais?... Essa dr no a ames, que profana. Sim: no adores nele a forma humana, A ilusoria aparencia, o sonho vo... Pois verdade, Me, que tens presente Seu imortal esprito inocente Em ti mesma, em teu proprio corao!... NA MINHA SOLEDADE Aqui, por estes sitios onde ns Vivmos; tu brincando no jardim; Eu a ouvir encantado a tua voz E vendo em ti um Anjo, um sonho, ao p de mim; Aqui, por estes vales de alegria Emquanto tu viveste, E agora escuras, rmas terras de elegia Batidas do nordeste, Eu ando minha sombra redusido E mais a tua Imagem. E quem nos v, de longe, diz entristecido: Dois Espectros, alm, vagueando na Paisagem... A TUA IMAGEM Os meus olhos abrigam como um templo, Tua divina Imagem que os eleva E os enche de pursa e santidade; So os meus olhos intimos, aqueles Que entre as nuvens avistam, certas horas, Azas de Anjos, relampagos de Deus, E no meus pobres olhos materiaes Na cr, nos formas vs crucificados. E tu vives e falas nesse mundo, Ao p do qual meu corpo de tragedia sua antiga e vaga Nebulosa... E em meu nocturno espirito reba Aquela tua voz amanhecente Que espalhava alegrias pelo ar. E a tua voz divina, por encanto, Se esplha em minhas lagrimas que ficam Todas, por dentro, acsas num sorriso. A lagrima v tudo: a propria voz, Pousando sua trva superficie, Nela desenha, em ondas, o seu Vulto. Meu doloroso sr com tua Imagem Eterna comunica. A minha vida Na tua morte assim se continua... Embora exista entre elas a distancia De sombras lampejantes, que separa Nosso corpo mortal do nosso espirito. E eu canto, e me deslumbro em minha dr! De subito, anoiteo, e me disperso, E vejo-me Phantasma... e, a ss, divago Pelos caminhos lgubres da Morte... E chego porta em flr do teu sepulcro; E uma alegria misteriosa vem Doirar a sombra v de que sou feito... E esta alegria s tu... que me apareces!... Minha segunda vida transcendente Nasceu da tua Ausencia que lhe imprime O drama eterno, a aco divina e triste. Tua morte refez meu sr: abriu-lhe Novo sentido de alma; aquele olhar Que no seio das lagrimas desperta, E veste de infinito e de saudade A tsca rocha bruta que se torna Espirito vivente no crepusculo: Esphinge em cujos labios a tristsa Das cousas interroga a dr humana. E vs, brutas cousas reviveis Perante o meu olhar que vos penetra De seu liquido lume visionario. Tornastes a viver. As vossas almas Que a minha dr primeira afugentou, So presentes, de novo, em vosso corpo. Ei-lo scismando, triste, luz do luar, Na projectada sombra que, a seus ps, Desenha ignotas formas de silencio... Ei-lo embebido em mistica ternura, Tremulo de emoo, reverdecendo, Esculpindo, no ar, melancolias... E a tua Imagem paira sobre mim... Todo eu palpito em ondas de anciedade! Abysmo de emoo, em mim me perco! E minh'alma exaltada e comovida, D'este meu sr trasborda e inunda tudo! Arde no fogo virgem das estrelas, Em cada humana lagrima scintila, Chora nas nuvens, no rmo vento geme! E julgo haver, meu Deus, resuscitado Da morte que soffri para nascer! Sim: o meu bero irmo do teu sepulcro; Teu cadaver baixou quele abysmo Donde subi outrora luz da morte... E l tu me encontraste ainda em vida, Na Aurora que precede o nascimento, E parece doirar a nossa Infancia... Sinto que estou comtigo em outro mundo. L vivemos os dois em companhia, Muito embora eu arraste sobre a terra, Que teu cadaver, to mimoso! esconde, Esta minha Presena de afflio! E beijo a tua Imagem, de joelhos... E, em meu silencio, reso... E a tua Imagem Agora grave, sria, quasi triste, Porque se fez sagrada alm da Morte. A NOSSA DR Emquanto chora a Me desventurada, Sobre o seu corao, de noite e dia, Eu canto a minha dr; e a dr cantada Como que intimamente se alumia... Se me levanto cdo e a madrugada J vem doirando os longes de harmonia, Sinto que ests ainda despertada E eu ouo, em mim, cantar nova elegia. Abre-te a dr os olhos sem piedade, Durante as longas noites de amargura... Mas para mim a dr j saudade. A dr, em mim, canto que murmura; A dr, em ti, negra tempestade: Sou a noitinha, e tu, a noite escura! VIDA ETERNA Nele adora somente o que no passa; O que imortal, perfeito, e no teu sr fonte de oraes, de luz e graa. Adora a sua Imagem a viver, Numa perpetua infancia florescendo, Perpetuamente isenta de soffrer. Dia a dia, ns vamos falecendo; Esta vida carnal um arremdo Da Vida, luz da qual eu no entendo Nem morte ou aparencia ou dr ou mdo... Teu Filho agora luz, revelao; E tu, Me, crepusculo e segrdo! Adora, sim, teu proprio corao Se desejas amar teu Filho. Resa E no chores, que a luz duma orao Mostra-te bem melhor sua belsa, Seus verdes olhos de alma, a fronte e o rsto Que as lagrimas sombrias de tristsa. Seja alegria eterna o teu desgsto Corporeo, transitorio! Seja aurora De idilio o teu dramatico sol-psto! A alma ajoelha e resa, mas no chora. MEMORIA Memoria, Elisios Campos, Paraiso, Espirituaes Paisagens! Vales de luz, outeiros de sorriso, Onde vivem as misticas Imagens. Jardim florido de Almas que o estortr Da Morte libertou! Jardim povoado De luminosas Sombras que em amr E sonho iluminado, Dando-se as mos de luz e intimidade, Vagueiam pelas verdes avenidas, Ao luar misterioso da Saudade, Evocando outros mundos, outras vidas... Vejo, em grupos, os velhos conversando... E murmuram palavras... voz de outomno Que se vae em silencios desfolhando Num rmo cho doirado, ao abandono. Mais adeante, em dce companhia, Caminha enamorada a gente nova: O Heroe caido, morto, luz do dia, A Noiva que baixou fria cova! E mais adeante ainda, em mais ruidosos E alvoroados grupos, as Creanas Falam alto, tm gestos luminosos... So bandos de esperanas, To cdo luz do mundo arrebatadas E aos braos maternaes! E brincam a sorrir, inda molhadas Das lagrimas eternas de seus Paes... E com um ar de riso, As beija o Sol do Alem... Nem se lembram das mes, no Paraiso; So Almas, sim, e as Almas no tm Me! Ao Sol espiritual que as faz corar Durante os seus brinquedos, Somente Deus as pode contemplar Do seu trno de trevas e segrdos. Deus contempla as Creanas que roubou Ao fundo amr materno... E bem se v Nos seus olhos a nuvem que os toldou... E a si mesmo pergunta: Para qu? E luz do eterno dia, Os Phantasmas divinos das Creanas Fazem os seus bailados de alegria, Elas que so tristissimas Lembranas! E a nova formosura que elas tm! O novo e estranho encanto! Assim tocadas j do sol do Alem, At aos ps vestidas do meu Canto! Memoria, Jardim de Almas todo em flr Que as canes e os perfumes enevam, Se para mim s dr, s luz e amr, Para os sres amados que o povoam! E eis tudo quanto resta Creatura: Saber que o seu tormento perfeita alegria, alta ventura, Em outro Firmamento! Quando os meus olhos intimos, em sonho, Esse mundo ideal conseguem vr, Fico to deslumbrado que suponho Haver morrido j sem o saber! E eis que sou na Paisagem da Memoria! Lembrana de mim mesmo, eu j penetro Na cidade phantastica e ilusoria... J sou Apario, Viso, Espectro! Que da minha Presena? No me vejo! Ah, no me encontro em mim! Sou a Orao Redimida, sem Deus e sem desejo; Amr sem corao! Sonho liberto, ascendo no Infinito. A propria Altura j profundidade! Onde ests? onde ests? corpo aflicto! Meu sr perdeu-se em alma: ei-lo saudade! Outubro de 1912 INDICE Prefacio Dedicatoria Me dolorosa Junto dele Nas trevas Olhar eterno No seu tumulo Delirio Remorsos No crepusculo Sobresalto Encantamento O que eu sou Minha alegria Tristsa A minha dr A Me e o Filho Ausencia Tragica recordao Idilio De noite Noites em claro Duas sombras Lagrima Meditao Esperana e tristsa Ssinho Depois da vida O encontro com o retrato Na minha soledade A tua imagem A nossa dr Vida eterna Memoria ACABOU DE IMPRIMIR-SE AOS 21 DE JUNHO DE 1913 NA TYPOGRAPHIA COSTA CARREGAL TRAVESSA PASSOS MANUEL, 27--PORTO. End of the Project Gutenberg EBook of Elegias, by Teixeira de Pascoaes License: Share Alike