Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.) VERSOS DE BULHO PATO LISBOA Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza. 6, Rua do Thesouro Velho, 6. 1862 A HELENA Lembras-te, Helena, o dia em que deixmos O teu saudoso valle, e lentamente Pela elevada encosta caminhmos? O sol do estio ardente, J no brilhava nos frondosos ramos Do arvoredo virente. Chegra o fim do outono: a natureza, Sem ter os mimos da estao festiva, Nem aquelle esplendor e gentileza Que tem na quadra estiva, Na languida tristeza, Na luz branda e serena D'aquelle ameno dia, Que immensa poesia, E que saudade respirava, Helena! Subindo pelo monte, Chegmos ao casal onde habitava A tua protegida, Aquella pobre anci que se agarrava Aos restos d'esta vida! Assim que te avistou, ergueu a fronte Curvada ao peso de to longa edade, Sorrindo nesse instante Com tal vida, que a luz da mocidade Parecia alegrar o seu semblante! Estendeste-lhe a mo, entre as mos d'ella, Grosseiras pelo habito constante Do trabalho da terra, Queimadas pelo vento sibilante, E pelo sol da serra, Produzia essa mo graciosa e bella, Effeito similhante Ao que por entre o mato Produziria a rosa de Benguela, A flor mais alva e de mais fino trato! Vinte annos tu contavas nesse dia; A fiel servidora, Era a primeira vez que no podia Deixar a casa ao despontar da aurora, E cheia de alegria Caminhar para o valle como outr'ora, Depr uma lembrana em teu regao, E unir-te ao corao num meigo abrao! Tu, na fora da vida, Circundada de luz e formosura, Foste levar pobre desvalida Os dons do lar paterno; Alegrar com teu riso de ternura Aquelle frio inverno! Ao ver-te com teus braos, Nos seus braos senis entrelaados, A ventura nos olhos encantados, A inspirao na fronte deslumbrante, Afigurou-me ento o pensamento Ver um anjo descido dos espaos, D'aspecto fulgurante, Enviado por Deus nesse momento, Para animar os derradeiros dias De quem canado do lidar constante Abre o seio na morte s alegrias! As lagrimas de gosto, Corriam cristalinas No rosto d'ella e no teu bello rosto! Como orvalhos do ceo aquelles prantos, Um brilhava na hera das ruinas, Outro na flor de festivaes encantos, Na rosa das campinas! Quando voltaste a mim illuminava O teu semblante uma alegria infinda. Depois quizeste ainda Ir visitar a ermida que ficava No apice do monte: Firmaste-te ao meu brao, e caminhmos. No esplendido horisonte J declinava o sol quando chegmos. Era singelo, mas sublime o quadro! Em roda o mato agreste; No meio a pobre ermida; ao lado d'ella Um secular cypreste, E sobre a cruz do adro Pendente uma capella De algumas tristes, desbotadas flores, Talvez emblema de profundas dores! Oh! como tu, suspensa Num extasi ideal de sentimento, Expandias o livre pensamento Pela amplido immensa! Como depois descendo das alturas Aonde te arrojra a phantazia, Parece que a tua alma me trazia Occulto premio de immortaes venturas! Tanto expressava o teu olhar profundo, Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia O homem neste mundo, Jmais me trouxe a ida Do suppremo poder da Providencia Com tamanha eloquencia! O sol quasi no termo Com um brando reflexo, Cingia a cruz do ermo Em amoroso amplexo! O rei da creao, o astro orgulhoso, Que enche a terra de luz, Tambem vinha prostrar-se saudoso Aos ps da humilde cruz! Era solemne e santo Naquell'hora supprema o teu aspecto! Nos labios a orao, no rosto o pranto, As mos cruzadas sobre o seio inquieto, Os olhos postos na amplido do espao, E em derredor da frente Um luminoso trao A inundarte de luz resplandecente! .................................. Branda a tarde expirou! D'aquelle dia, E de outros dias de ntimas venturas, De immensa poesia, Nasceram essas paginas obscuras, Que hoje a teus ps deponho, Como saudoso emblema, Do tempo em que sorrira O nosso bello sonho! Terias um poema, Se to gratas memorias Podessem ser cantadas numa lyra Votada a eternas glorias! Emfim: se um pensamento, Se uma singela ida onde transpire O perfume de vivo sentimento, Nestas folhas traar a minha penna... A estrophe, o canto que o leitor admire, Seja o teu nome, Helena! 6 de Junho de 1862. I A CONVALESCENTE NO OUTONO Revive teu rosto pallido chamma do meu amor; De novo com mais ardor Pula em teu seio, querida, O sangue, o prazer, a vida. O sopro que na existencia D'esta luz nos illumina, No se ha de extinguir jmais; Oh! provm da mesma essencia, Da mesma poro divina, Com que a mo da Providencia Torna as almas immortais! Firma teu brao ao meu brao, Vem commigo respirar Este ar vivo e salutar. No sentes na luz do ceo, E no perfume saudoso Do bosque espesso e formoso, Que o doce outono volveu? As folhas que pelo cho Crestadas dispersa o vento, No desprendem um lamento Que intristece o corao!? E a voz d'essa ave amorosa, Que alem na balsa murmura, Melancolico modilho, No parece a voz saudosa Da me que adormenta o filho Entre os braos com ternura? D'aquelle pobre casal, O fumo que vae subindo Em ondulante espiral, No diz que em volta do lar Se reune a pobre gente, Que j de perto pressente, O frio inverno chegar? No vs que ha tanta tristeza Na voz que se eleva a Deus Agora da natureza! Oh! mas como aos olhos teus, E como ao meu corao grata a melancolia D'esta languida estao! Toda a explendida poesia Do ceo, da terra, e das flores, Quando mil canses de amores Improvisa o rouxinol, Alegrando o mez de maio Desde os clares do arrebl At que em doce desmaio Nas aguas se occulte o sol, Ter, sim, tem mais frescura, Mais vida e mais esplendor, Mas no tem tanta ternura, Nem respira tanto amor! Paremos aqui, descansa Um momento neste abrigo; O sopro da aragem mansa Anda em roda a murmurar, E um raio de sol amigo, A teus ps se vem prostrar ........................... Oh! que noites de amargura! Que horas lentas de agonia! Que instantes naquelle dia, Quando tu sem voz, sem gesto, Suspensa num fio a vida... Emfim te julguei perdida! Chegra a noite; uma estrella, Uma s, no transluzia No ceo triste e carregado; Oppresso e desalentado, O corao me batia. Pouco a pouco no horisonte Foi rompendo a nevoa densa; Era a vida, a luz, o dia, Aquella alegria immensa, Que no murmurar da fonte, No perfume da campina, Na brisa e na voz divina Do amoroso rouxinol, Seduz, arrebata, inspira, Quando acorda a terra em canticos, Aos raios vivos do sol! Pois tudo se anima agora, Tudo nasce com a aurora, Tudo vida e tudo luz; S nesta face adorada, Inerte, fria, gelada, Nem um s claro reluz! Ouviu Deus naquelle instante A minha supplica ardente; Em teu lvido semblante Vi despontar docemente Um reflexo semelhante Ao que o sol derrama tarde Sobre as nuvens do ponente. Prostrei-me a rogar ento; E essa estrella de bonana, Essa casta divindade, Risonha irm do infortunio, Companheira da saudade, Que o mundo chama--Esperana-- Senti-a no corao! Com aquelle sol explendido Que rompra a nevoa densa, E com a alegria immensa Do mar, da terra, e dos ceos, Quiz de novo a Providencia Que eu visse nos olhos teus O mundo, a luz, a existencia! Agora pois, neste instante, Agora, que l distante, O sino da pobre ermida D signal do fim do dia, Co' a prece da _Ave-Maria_, Erg-mos, ambos querida, Graas mil a Deus piedoso, Por te haver tornado vida! Setembro de 1854. II FELIZ DE AMOR! No sabes que ao ver-te triste, E pensativa a meu lado, O rosto na mo firmado. E os olhos postos no cho, Calado, ancioso, anhelante, Quero ler no teu semblante A causa da dr constante Que te opprime o corao? Pois no basta o meu amor Para te dar a ventura? Responde: quando a luz pura Do sol vem beijar a flor, No lhe accende mais a cr? No lhe d mais formosura? Agora, quando se inflamma Em teu peito aquella chamma, qual tudo se illumina De viva, encantada luz, Dize: quando, minha vida, Pallida, triste, abatida, A tua fronte se inclina, E melancolica sombra, De mal contida amargura Nos teus olhos se traduz?! Certeza de que s amada Com quanto poder na terra Em peito de homem se encerra, Tem-la em tua alma gravada! Ento de fundo desgosto Porque vem nuvem pesada Carregar teu bello rosto? Pois se ao vvido calor Do sol a rosa fulgura E redobra aroma e cr, No te ha de dar a ventura A chamma do meu amor?! Maio de 1859. III VAES PARTIR! Vaes partir! cada instante que passa Aproxima o adeus derradeiro, Para mim neste mundo o primeiro, Que teus olhos proferem aos meus! Vaes partir! nessas morbidas palpebras, Treme agora uma lagrima anciosa, J deslisa na face formosa, J teus labios me dizem adeus! Vaes partir! contemplar esses campos, Que o sol vivo de abril illumina, Ver as relvas da alegre campina J cobertas agora de flor. Escutar as estrophes sentidas Que de tarde improvisam as aves, Recordar os instantes suaves De outros dias de encanto, e de amor. Vaes partir! vaes tornar aos logares Testemunhas de um ceo de delicias, Que em suaves risonhas caricias, Para ns neste mundo brilhou! Cada flor, cada tronco vioso, Cada espao de relva florda Vae lembrar-te uma scena da vida, Um momento feliz que passou! Quando for aos clares da alvorada O perfume das plantas mais brando, Quando as aves voarem em bando, E cantarem ditosas no val; Quando as aguas correrem mais vivas, Pelo verde declivio do monte, Quando as rosas erguerem a fronte Animadas de um sopro vital... Que saudade! ai que funda saudade Has de ter d'esse tempo encantado, Em que bella e feliz a meu lado Viste as pompas da terra e dos ceos! Quando a aurora era a pura alegria, Uma vaga saudade o sol posto, Quando meigo sorria teu rosto Se eu fitava meus olhos nos teus! ................................. Vaes partir! cada instante que passa Aproxima o adeus derradeiro, Para mim neste mundo o primeiro Que teus olhos proferem aos meus! Vaes partir! nessas morbidas palpebras, Treme agora uma lagrima anciosa, J deslisa na face formosa, J teus labios me dizem adeus! Abril de 1855. IV A JULIA (Da Paquita) Naquella deserta ermida, Que alveja na serrania, Deu signal, Julia querida, O sino da _Ave-Maria_. Este som to conhecido Da nossa innocente infancia, Como agora vem sentido Trazer-me viva lembrana, Toda essa doce fragrancia D'aquelle existir d'ento! Ai! lembrana no, saudade! Saudade Julia, to funda... Mas to grata, que me innunda De ventura o corao. Espera... se neste instante Mandasse terra o Senhor, Anjo de meigo semblante, E aos dias d'aquella edade Nos tornasse o seu amor... Oh! responde-me, querida, Se quanto depois na vida De bello nos ha passado, No devera ser trocado Por esses dias em flor?! Que l vo! lembras-te ainda? Tu risonha doidejavas, Por entre as moitas de flores Como ellas fragrante e linda. Quando o som pausado e lento D'_Ave-Maria_ escutavas, Ento naquelle momento Aos ps da Cruz te prostravas!... Que fronte de anjo era a tua Vista ao reflexo amoroso Dos frouxos raios da lua! Uma tarde, ao pr do sol, No recosto pedregoso Do monte nos encontrmos; Lembras-te! essa hora bateu, Porem ns mal a escutmos! Os olhos, tu perturbada, Baixavas, e no semblante No sei que luz te brilhava, Eu sei que naquelle instante O prazer me enlouqueceu. Oh! fatal loucura aquella! Tinha-me ali to perdido, Que, sem mais ver, delirante Nos braos te arrebatei. No sei por onde vagava, Nem quanto, nem como andei; S me lembra que a ventura Ali real me fallava, E que aos incertos lampejos Das estrellas desmaiadas, Impremi ardentes beijos Nas tuas faces rosadas! Foi breve aquelle delirio; Ao menos breve o julguei; E quando, outra vez vida De sobressalto voltei, Desbotada como um lyrio Pelos vendavaes batido, Nos meus braos te encontrei! Setembro de 1851 V IMPROVISO Porque languida essa frente Descai, quando a tarde espira? Porque nesse olhar dormente Tua alma ingenua suspira? Porque? ai! porque? responde; Que se amor do ceo procura, Eil-o; em meu peito se esconde; Vive, teu, tens a ventura! Vers como ento brilhante, Seduz, toma vida, inspira, Esse teu bello semblante, Que apenas hoje se admira! Ilha da Madeira--Novembro de 1850. VI A UM RETRATO s tu, sim, o mesmo olhar, A mesma ardente expresso, Com que teus olhos sabiam, To habilmente occultar O glo do corao. Como fascina o teu ser? Agora, que eu posso ver, Vejo bem que no s bella. Quem for buscar no teu rosto, A severa correco Que esta palavra revela, Tirar feio, por feio... No pode achal-a, bem sei. Oh! mas nessa viva luz, Que teus olhos illumina, Ha de achar, como eu achei, O fogo que nos seduz, A chamma que nos fascina! E agora vais escutar; Agora, que a Providencia Piedosa me quiz salvar D'essa fatal influencia, Vais saber como te amei! No smente da gloria, Das illuses, da ventura, Que doce narrar a historia. Repassando na memoria Tantas scenas de amargura, Vendo-as saltar palpitantes Ante meus olhos agora, Com toda a sinistra pompa Da vida que tinham d'antes, Ao ver de quanto capaz, No sabes?... na propria dor, O corao se compraz! Medindo o padecimento Do martyrio atroz e lento Que me trouxe o teu amor, S'inda aterrado contemplo, As crenas que fui depr Sobre as aras d'esse templo, A dor do arrependimento Ha de salvar-me da culpa Ante os olhos do Senhor. Ai de ti! mil vezes mais s tu desgraada agora! Viveste, reinaste um'hora, E com que imperio! jmais, Em delirio o pensamento Te fez julgar adorada Como eu te adorei, jmais! Ninguem neste mundo ousra, Erguer a mo para um culto To santo como eu crira! Tu foste a que, cega um dia, Por loucura e por vaidade, As crenas que nelle havia, Destruiste sem piedade! Punida ests, bem punida, Sabe pois que amor do ceo, Amor como foi o meu, Encontra-se um s na vida! Inda ao ver-te... porque no, Porque t'o devo occultar?! Este morto corao, De novo sinto pular Em meu peito fatigado! Emfim, se o destino agora, Quer que no possa existir Da esperana do porvir, Deixal-o existir embora, Da saudade do passado! Esse meu como tu foste Na illuso de tanto amor, E tu mesma, tu, que um dia Com semblante mudo e frio Lhe disseste o extremo adeus, Com quanto remorso e dor Has de ter rogado a Deus Perdo de tal desvario! E dizes tu que ao _dever_, Sacrificaste a existencia E sujeitaste o meu ser!!... Pois ha dever neste mundo, Que aos olhos da Providencia, Possa mais alto valer Do que aquelle amor profundo Que tu fizeste nascer?! ............................. ............................. Quando foi? vivo o momento, E quanto ento nos cercava Existe em meu pensamento: Era tarde; o firmamento, De nuvens se carregava, E nos fraguedos da costa O mar soturno quebrava. Olhei-te, e vi nesse instante, Assumir o teu semblante, Aquella mesma expresso, Que de toda a natureza Fatal respirava ento. Pausada, lenta, glacial, A tua voz respondia, A tudo que eu proferia! E depois dos labios teus Desprendeste um frio adeus! Cuidaste sacrificar A Deus em tua loucura, Sem ver que foste apagar A chamma d'essa ternura Que s elle pode dar, E te atreveste a tentar O poder do Creador, Na obra da creatura! Ai de ti! mil vezes mais s tu desgraada agora! Viveste, reinaste um'hora, E d'esse imperio, jmais Na terra sers senhora! Fevereiro de 1855. VII QUIEN NO AMA, NO VIVE Pois no vs que se a luz do sol nascente rosa na manh desabroxada, No illumina as folhas, desbotada Fica n'aste pendente, Sem perfume, sem vida abandonada? Dize: ento queres tu que a formosura Que o Senhor estampou no teu semblante, Sem renome, sem gloria, passe obscura No mundo em que radiante Ostentar-se podia magestosa? Queres vel-a abatida como a rosa Que o sol no illumina? Pois o que falta a essa fronte bella? Oh! vais sabel-o:--O amor! Que se anime e reviva luz divina E vers se depois alguem ao vel-a Lhe nega o seu fulgor! Ajuda 1850. VIII AMANH! Resta um dia, mais um dia, Algumas horas ainda De amor, de ternura infinda! Amanh nos olhos teus, Uma lagrima sentida; Em teus labios, um _adeus_! O instante da despedida To perto est!... Minha vida, Crava teus olhos nos meus, Um sorriso, um beijo ainda, Mais um'hora de ternura, De amor, de alegria infinda Antes d'esse longo _adeus_! Adeus de tanta amargura! Sabe Deus! oh! sabe Deus, Quando outros dias viro, To gratos ao corao! Quando nessa face linda Verei sorrir a ventura; Mas agora um beijo ainda Antes que chegue o momento De soltar o extremo _adeus_! Oh! tira do pensamento, A hora da despedida; Mais um instante de vida, De delicia e gloria infinda!... Amanh!... ai! no te lembres De tal dia de amargura! Crava teus olhos nos meus; Inda um'hora de ventura, De amor, de alegria infinda Sorrindo nos olhos teus: Um beijo, mais outro ainda, O derradeiro: oh! _adeus_! Abril de 1857. ANJO CADO Na flor da vida, formosa, Ingenua, casta, innocente, Eras tu no mundo, rosa! Quem te arrojou de repente Para o abysmo fatal! Viste um dia o sol de abril; O teu seio virginal Sorriu alegre e gentil. Ergueu-se aos clares suaves D'aquella doce alvorada A tua face encantada. Amaste o doce gorgeio Que desprendiam as aves, E no teu candido seio Quanto amor, quanta illuso Alegre pulava ento! Mal haja o fatal destino, Maldita a sinistra mo, Que em teu calix purpurino Derramou fera e brutal Esse veneno fatal. Hoje s bella; mas teu rosto Que outr'ora alegre sorria, todo melancolia! Hoje nem sol, nem estrella, Para ti brilha no ceo; Mal haja quem te perdeu! Novembro de 1857. X PIEDADE! Em torno da mesma ida, Meu ardente pensamento Constantemente volteia. Que horas estas de tormento! E pde viver-se assim? Que fora tens, corao? Pois tudo que sinto em mim s capaz de supportar? Oh! basta! por compaixo Deixa emfim de palpitar! Agosto de 1856. XI BELLEZA E MORTE Quando Deus terra envia Um anjo dos seus, breve A vida que lhe confia. ......................... Como a flor branca de neve Que ao primeiro alvor do dia No prado desabroxou, Assim ella veiu ao mundo, E to rapida passou, Que d'este rumor profundo Nem um som, nem um gemido Por esse anjo foi ouvido! Nasceu, e sorrindo amou! Quem ao vel-a to ditosa To feliz por ser amada, E to feliz por amar, Bella, fragrante, viosa, Cheia de vida no olhar, De luz na face encantada; Quem diria que esse amor Seria a chamma fatal, Que a devia emfim matar!? Pobre florinha do val, Da aurora ao primeiro alvor Nasceu, e sorrindo, amou, Mas com a tarde... expirou! Junho de 1857. XII ORAO DA MANH filha do meu amigo Magalhes Coutinho Vem reflorindo a aurora; A voz do rouxinol, Mais inspirada agora, Sauda a luz do sol. A perfumada aragem Beija no campo a flor; Tudo sorri imagem, Do nosso Creador. No bosque as avesinhas Soltam os hymnos seus; No bero as criancinhas Resam tambem a Deus. Por minha me, por ella, E por meu pae, Senhor! Dai-lhes propicia estrella, Gloria, ventura, amor! Cercai de mil delicias, A sua vida emfim, Como elles de caricias Me tem cercado a mim. As preces da innocencia No ceo ouvidas so; E a minha, oh Providencia, Parte do corao, Parte ao florir da aurora, Co'a voz do rouxinol, Que se desprende agora Saudando a luz do sol! Junho de 1859. XIII CARIDADE Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca Como avesinhas implumes Enjeitadas nos seus ninhos, Deixa a sorte os pobresinhos, Sem lar, sem po, sem carinhos De maternal corao. Escutando os seus queixumes, Compassiva a Providencia, Volve os olhos innocencia, E em sua eterna clemencia Da-lhes lar, ensino, e po. Mais vivos torna os desejos No seio da caridade, Que desvalida orfandade Vai com sincera piedade Inundar de puro amor; Amor, que em candidos beijos, Suavemente procura Dar conforto na amargura, Aos que fez a desventura, Orfos no bero e na dor. A quem busca a Providencia Para amparar o destino, Do que pobre e pequenino Se encontra sem luz, sem tino, Logo no mundo ao nascer!? Anjos de viva clemencia, Que onde existe o sofrimento, Correm, voam num momento, A dar todo o sentimento, Que taes almas sabem ter! So ellas mes, so esposas, E recordando os carinhos Que tiveram seus filhinhos, No podem ver pobresinhos Sem amor, sem lar, sem po! No bero desfolham rosas, Onde espinhos s havia, E o sol de pura alegria, J de affectos alumia, Dos orfos o corao. Salve pois, oh Caridade! Que assim abres o teu seio, quelle que sem esteio, luz d'este mundo veiu Para viver na afflico. Salve casta divindade! Terna irm da desventura, Que os suspiros da amargura Convertes creatura Em risos de gratido! Junho de 1856. XIV BELLA SEM CORAO Era uma esplendida imagem De olhos rasgados e bellos; Negros, negros os cabellos; Boca gentil como a rosa, Que luz da manh formosa Sorri ao sopro da aragem. Alta, graciosa, elegante, Um ar de tal distinco, Na figura e no semblante, Que eu disse commigo ao vel-a: Como esta mulher bella, Sobre tudo na expresso De pallidez namorada, Que tem na face encantada! Esta sim, por Deus o juro, Esta ha de ter corao! A estao, o sitio, a hora... Era a hora do sol posto, E um frouxo raio de luz Vinha bater-lhe no rosto. A estao o meigo outono, Quando o prado se descora, No bosque cessa a harmonia, Quando tudo emfim seduz Com vaga melancolia. O sitio, ameno e saudoso, Onde livre a alma podia Dar-se inteira aos sentimentos De paz, de amor, de poesia! Aproximei-me da imagem Meiga, risonha, singela; Soltra a voz, era bella, Bella sim, vibrante e pura, Mas sem aquella ternura, Sem aquelle sentimento, Que diz tudo num momento! Sem tremor, sem sobresalto, Voz que dos labios saa, Dos labios s, que se via, No provir do corao; Voz sonora, porem fria; Bella sim, mas sem paixo. Pois essa gentil figura, Esse pallido semblante, Essa expresso de ternura Que todo o teu ar respira, A luz do olhar scintillante, Dize emfim: quanto se admira, Quanto ao ver-te nos encanta, Ser sem alma, e sem vida?! Sorrindo me respondeu: Aqui no ha corao! Mas eu vi que elle bateu D'essa vez precipitado Por que a sua nivea mo Tentou comprimil-o em vo! E no olhar enamorado, E na voz que estremecia, Oh! Deus! o que no dizia A bella sem corao! Setembro de 1856. XV PERDOASTE! Anjo offendido; outra vez, Volve teus olhos do ceo quelle que te offendeu! Vel-o abatido a teus ps, Anjo esquece, e compassivo, Num sorriso de perdo, Torna a dar-lhe o corao. A cada instante mais vivo O remorso cresce em mim; Perdoa, oh! perdoa, emfim! Offendi-te num momento De terrivel desvario; Era o ciume violento! O rubor da castidade A tua face affrontava, E eu cego, eu perdido, ousava Proseguir! oh! por piedade, Por piedade, anjo do ceo, Perdoa a quem te offendeu! Em breve a razo voltou, E com ella essa anciedade Do desgraado que ousou Num momento de loucura Offender a divindade. Nas trevas da noite escura, Nem ao menos uma estrella, Brilhava serena e bella! E eu caminhava em delirio Sem fora para acabar A vida que era um martyrio! A to profunda amargura Quem me podia arrancar, Quem, seno um teu olhar? L, nas sombras do horisonte, Despontou por fim a luz, A mesma que em tua fronte Bella e placida reluz. No peito afflicto e canado Senti dilatar-se ento Este oppresso corao; O teu olhar adorado A mim outra vez volveu, Terno, meigo, apaixonado. Perdoaste, anjo do ceo! Abril de 1857. XVI TRES RETRATOS (Num album) Como as horas passam rapidas Nesta doce companhia! Brilha impaciente alegria Em tudo roda de mim. Nunca fui to venturoso, Nunca a mo da Providencia Fez com que eu visse a existencia To bella e risonha emfim. Esta noite, quando a lua No horisonte resvalava, Inspirado a saudava Nas balsas o rouxinol. Vem agora a primavera Abrindo o virginio manto, Cada dia um novo encanto Nos traz o romper do sol. Como a vida assim bella, Nesta amena convivencia, Com tres anjos de innocencia De formosura, e de amor! Dezaseis annos talvez No tem Julia, bem contados, Alta, airosa, olhos rasgados, E sorriso encantador. O pesinho estreito e breve Cinturinha delicada, A fronte um pouco inclinada, Com seu ar sentimental. Na ramagem das pestanas Occulta a traidora chamma, Que no instante em que se inflamma Dardeja um raio mortal. Mas que morte to suave! Inda ha pouco, em certa hora, Que essa chamma seductora O corao me accendeu... Se morte esquecer a terra, Naquelle instante morria, Por que tudo o que sentia, Era a ventura do ceo! Vel-a sorrir entre os campos, Bella, candida, animada, Como as flores que a alvorada De sua luz inundou!... Vel-a, co'as mos impacientes, Afastar do rosto bello, O basto e fino cabello, Que a aragem desalinhou! Vel-a depois pensativa, Quando tibio o sol declina, Na corrente cristalina Os olhos negros fitar! Vagas sombras de tristeza Que vem toldar-lhe o semblante, So to bellas nesse instante, Dizem tanto sem fallar! Laura, Elisa, as outras duas, Laura, pallida e morena, Baixa um pouco, mo pequena, Expressivas as feies; Os olhos claros e vivos, No seu brilho insinuante, Reflectem a cada instante Milhares de sensaes. Eliza, a timida Eliza, Que innocente singeleza, Que perfume, que belleza Naquella face gentil! Cabellos loiros cendrados, Olhos d'esse azul escuro, Que semelhante ao ceo puro De um bello dia de abril! As rosas da formosura Sempre vivas no semblante, O corpo esbelto e ondulante, Se permittida a expresso; Uma tal ingenuidade, No seu todo se revela, Que em se olhando para ella, Bate alegre o corao. Tirados daguerreotypo No ficavam mais exactos De certo estes tres retratos Que procurei desenhar; Qual porm mais sympathico, Mais perfeito, deve agora Dizel-o a amavel senhora Do livro onde os vou deixar. Eu de certo no me atrevo! Nos olhos tem Julia a chamma Que nos sentidos derrama Torrentes de languidez! Laura... Eliza... mil encantos; Emfim, no sei qual prefiro, No sei a que mais admiro, Sei que adoro a todas tres! Setembro de 1857. XVII ADEUS Vai-te, oh! vai sombra mentida, Para nunca mais volver! Vai-te, deixa-me na vida, Que esse teu estranho ser, Fatal sempre me tem sido, Fatal sempre me ha de ser. Qual era a traidora mo Que para ti me impellia? Eu desvairado no via, Ser aquelle um fulgor vo Que no horisonte luzia?! Crente a vista repousava Na luz clara, intensa, bella, Que para a terra manava Do seio da meiga estrella, E que minh'alma inundava D'aquella celeste chamma Que a vida e razo inflamma No ardente fogo de amor! Deixei-me cegar por ella; Quanto e como ento vivia Ao grato e doce calor D'essa que assim me perdia, No sei; porem sei que um dia, Num'hora de maldio, No vi mais no firmamento O seu mentido claro. Desvairado em tal momento Fugi sem norte e sem tino; Mas quem foge ao seu destino!? Numa d'estas noites placidas, Em que as estrellas fulgentes, Reflectem vvida luz, flor das aguas dormentes; Em que o rouxinol seduz, Co'as inspiradas endeixas Soltando sentidas queixas, D'entre as balseiras virentes; Quando respira no ar, Do monte que o mato veste Aquelle perfume agreste, Que to grato de aspirar; Quando emfim a natureza, No seu mais pleno vigor Ergue a Deus seu hymno eterno De graas, de paz, de amor! Eu na minha alma abatida, Procurava, mas em vo, Uma s nota do canto Immenso da creao. Debalde encontrar buscava, Naquella ardente anciedade Em que o peito arqueja e cana, No passado uma saudade, No porvir uma esperana! Debalde a vista alongava, Pelo ceo onde as estrellas, Resplandeciam to bellas! Em meu peito arido e morto O reflexo d'uma d'ellas Nem sequer compenetrava! Fatigado, exangue, absorto, Sem luz, sem norte, e sem tino Prosseguia o meu destino! Quando ao chegar um instante Em que afflicto a vista erguia, Dei com teu bello semblante, Pallido, triste, abatido, Que para mim se volvia Saudoso e compadecido. Oh! to fundo sentimento Brilhava nos olhos teus Que ao ver-te nesse momento Quem te no dissera um anjo Do ceo terra descido, E que volve arrependido, Outra vez aos ps de Deus! L, na extrema do horisonte Vinha ento rompendo a lua; Melancolica a luz sua, O teu semblante inundou; E nunca no prado ou monte, Aquella face formosa, Outra to pallida rosa De um reflexo illuminou! Comtemplava-te perdido, De esperana, amor, e gosto, Quando teu languido rosto, Pouco a pouco se animou; E a tua voz docemente Murmurando ao meu ouvido, De novo um amor ardente Outra vez me protestou. Hesitava em crer-te ainda; Mas o pobre corao, Quando se v na desgraa Encontra a crena to linda! A plenos tragos a taa, D'esse philtro enganador Ancioso esgotava ento, Sem me lembrar que no fundo, Estava o fel da traio. Vai-te, adeus, pallida sombra, Vai, porque este corao, Por tuas mos lacerado, Com a tua vista se assombra, E de ti foge aterrado! Janeiro de 1855. XVIII A VISO DO BAILE Foi num baile que a viste cercada De perfumes, de luz, de harmonia, Onde viva, impaciente alegria, Nos semblantes andava a saltar; E ella triste, abatida, indolente Entre as pompas da festa encantada, Co'a tristeza na face estampada, E infinita saudade no olhar. Ai! que luz! que expresso nesses olhos Quando instantes nos teus se cravaram! De repente em tropel acordaram Mil affectos no teu corao! E debalde a seu lado quizeste Revelar o que n'alma sentias, As palavras, a voz eram frias Para aquella infinita paixo. D'essa noite os instantes voaram, Entre amor, entre gloria e ventura, E no fim com que immensa ternura, Seu olhar para ti se volveu! que havia chegado o momento De deixar essa estancia inundada Dos primeiros clares da alvorada, Que j vinha rompendo no ceo Mas depois, quando o sol d'esse dia Desmaiava nas veigas virentes, Quando as aves soltavam gementes A voz doce nas balsas em flor, No a viste assomar janella, E sorrindo, mirar-te um instante? No brilhava naquelle semblante, Um sublime reflexo de amor!? No sonoro recinto do templo Quando as preces sinceras subiam, Quando os hymnos sagrados se ouviam Aspirando suaves aos ceos, No ouviste dizer-lhe: Sou tua, Ante Deus, ante os olhos do mundo Que este affecto suave e profundo, Vem do ceo e bemdicto de Deus! Hoje pois, que na luz d'esses olhos, Nessas fontes de amor e candura, Encontraste na terra a ventura, Cuidas tu em deixal-a, e partir? Oh! no vs que fatal o destino, Que chegou para ti essa hora De encontrar a mulher seductora Que te deve encantar o porvir? Ai, poeta, debalde procuras Esquecer a viso adorada; Ai! debalde! tua alma inspirada Outra igual neste mundo encontrou! So irms, e co'a mesma ternura Vivero abraadas no mundo, Num affecto sincero e profundo A suprema vontade as juntou! 31 de Maro de 1857. XIX RECEIOS s vezes, quando a teu lado Comparo a expresso que outr'ora Tinha teu rosto adorado, sua expresso de agora... No sei que tristeza vaga Que impresso sentida e funda, O meu corao esmaga! Oh! mas sei que a alma se inunda De uma subita amargura, De uma tal angustia e dor, Que toda a luz da ventura, Que me vem do teu amor Toda com ella se apaga! Loucuras sero, delirio D'este ardente imaginar; Sero, sim; mas o martyrio, Com que me sinto acabar, S tem poder tua mo Para de todo o findar Neste oppresso corao! Setembro de 1855. XX LEMBRAS-TE? Lembras-te? frouxa expirava Aquella doce harmonia Que em nossas almas entrava. De uma luz to resplendente Teu limpido olhar brilhava, Como a da aurora nascente, E aurora gentil sorria, No meigo azul de teus olhos Para raiar entre rosas Fragrantes e sem abrolhos. Quando mais tenue partiu A cadencia saudosa, Tua boca proferiu No sei que cortadas fallas, Que o ouvido no sentiu, Porque vieste graval-as Com a voz do ceo no peito, Que a ti rendido e sujeito Anhelando t'as ouviu. Ao proferil-as, dormente O teu olhar descara, E em teu pallido semblante A expresso se reflectra Dos affectos que agitavam A tua alma nesse instante. Ai! nesse instante do ceo, Que terra breve fugra, Que a elle inteiro volveu! No horisonte estremeciam, Ebrias de amor as estrellas, E teus olhos se fitavam Na luz scintillante d'ellas; que no ceo procuravam O eterno d'aquelle instante Que na terra presentiam Que passaria inconstante. O alvor da nascente aurora, Que no horisonte assomava, Das estrellas desmaiava A viva luz, e inda agora, Tenho em minh'alma, querida, A expresso com que me olhaste Apontando para ella! que essa aurora to bella No brilhava mais na vida! Janeiro de 1849. XXI POIS SER PALLIDA DEFEITO? Pois ser pallida defeito? E de todo o corao, Diz, pondo a mo sobre o peito, Que um rostosinho desfeito No pode inspirar paixo? Ora diga: a rosa bella Quando o sol lhe accende a cor, bella sim, mas ao vel-a Desmaiar n'haste singela No lhe inspira mais amor? Viosa, fresca, orvalhada, De manh toda luz; Mas tarde desmaiada, Co'a pallidez namorada, Oh! quanto mais nos seduz! Est convencida vejo, Deveras no, inda no? Pois se todo o seu desejo Ser corada, d-me um beijo, E ver se cora ou no! Porque esconde o rosto lindo? Santo Deus! descubra-o j! Aposto que vai sentindo Um certo rubor subindo... Ai! como corada est! Neste espelho, olhe-se agora, Veja bem que linda cor; Quando nasce a fresca aurora, A luz que a face lhe cora, No tem mais vivo fulgor. Sorri-se a furto, bem vejo, Occulta o rosto na mo: Pois vamos, agora um beijo, Quem cumpriu o seu desejo, No merece, diga, no? Junho de 1852. XXII DEVER S bem vinda estao melancolica! S bem vinda! minh'alma abatida, No teu seio procura essa vida, Que to bella, e to breve passou! Oh! so estes os campos formosos, bem este o deserto mosteiro, Onde ouvra o adeus derradeiro Que teu peito anhelante soltou! J nas folhas do bosque frondoso Se desbota a risonha verdura, E co'a aragem que tarde murmura, Vo caindo dispersas no cho. J nos campos de todo cessaram, Os modilhos da ingenua avesinha, Que nas moitas espessas se aninha, Presentindo a invernosa estao. Que saudade na luz que desmaia, Nestes campos sem vio nem flores, Quando tarde os incertos fulgores Do sol tibio resplendem no ceo! Que saudade na aragem agreste, Que deriva do cimo do monte, E no azul d'este vasto horisonte, Onde pallida a lua rompeu! Foi aqui nestas margens viosas Hoje tristes, desertas, sombrias, Que sorriram os unicos dias, Para mim de ventura e de amor; Quando tu inspirada a meu lado Caminhavas com tremulo passo, E firmando-te alegre ao meu brao Davas graas da vida ao Senhor. Era aqui, junto cruz mutilada, Aos extremos reflexos do dia Quando o sino da ermida se ouvia Dar signal da singela orao, Que tu vinhas prostrar-te soltando Com voz flebil a prece sentida, Pelo bem, pelo amor, pela vida, Dos que a sorte deixou na afflio. E depois nos meus olhos cravando Os teus olhos de pranto orvalhados Os protestos mil vezes jurados, Vinhas mais uma vez proferir; Nesse esforo baldado do espirito, Que nas frases da terra procura Expressar a celeste ventura, Que smente se pode sentir. E pensar que este ceo de delicias Se acabou para ns na existencia! Que no temos mais nada que a essencia Da saudade que d'elle ficou!... Ver que a mo de um poder sobrehumano, Nos traz cegos do mesmo delirio, E votarmos a vida ao martyrio, Porque o mundo um fantasma creou!! Pois se Deus quiz ligar nossas almas, Se fatal que ellas sejam unidas, Queres tu desprender duas vidas Que se acharam irms ao nascer? Vs que foi a suprema vontade Que as juntou num abrao divino, E ousas tu, desvairada e sem tino, Separal-as voz do _dever_! O _dever_?! O dever mais sagrado E mais santo que temos no mundo, mantermos o affecto profundo Que d'um sopro divino nasceu; Attentar contra a sua existencia, Debelar sem piedade essa vida, No ser como ser suicida E affrontar a vontade do ceo!? Sobre as aras de um templo mentido, Num altar pelos homens creado, Vais queimar quanto ha puro e sagrado, Por um falso julgar da razo! Sem pensar no teu crer insensato Que no pde jmais ser extincto, Este amor to profundo que eu sinto E tu sentes co'a mesma paixo! .................................. Oh! de novo a meu lado, querida, Volve, em quanto no ceo e na terra, Nos agrestes perfumes da serra, A suave estao respirar! Volve pois, porque as veigas frondosas No perderam de todo a verdura, E inda a mesma infinita ventura Neste sitio has de agora encontrar. Setembro de 1856. XXIII morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez Bella, graciosa e timida, Na aurora da existencia Rosa de grata essencia Sorrias em boto! A luz do sol explendido Vinha inundar-te a frente, Suave e docemente Beijar-te a virao! Como os affectos intimos Da maternal ternura Enchiam de ventura, A tua vida em flor! E como a face candida Serena, reflectia A magica poesia D'ess'alma toda amor! Dos pensamentos lugubres, Das ambies da terra, Das maguas que ella encerra, Dos crimes que contm, Jmais a teu espirito Chegar o som profundo, Anjo descido ao mundo S para amar o bem! Um dia, a immensa abobada, Azul e resplendente, Toldou-se de repente Ao sopro do tufo! Era o primeiro fremito, Nuncio da tempestade, Que vinha sem piedade Rosa, lanar-te ao cho. Ao ver abrir-se o tumulo Sorrias sem receio, E se a teus olhos veiu Funda expresso de dor, Foi quando a boca tremula Da me que te perdia, tua enfim se unia, Com mais profundo amor! Ento, como ella, pallida, Soltando o extremo alento, Volveste num momento gloria perennal! E logo fria, gellida, Sem ter nem cor nem vida, Par'ceste adormecida, No seio maternal! Setembro de 1856. XXIV PARISINA A Pedro Jacome Corra MEU CARO AMIGO. A ida de emprehender a imitao d'este bello romance do autor do Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se no fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. por isto que tomo a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico. Chamo-lhe imitao, porque me parece mais modesto o titulo, posto no seja essa a opinio geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. Nesta porm, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle. No sei se fao perceber bem a minha ida: intendo que interpretar as obras do genio, mais difficil do que imital-as de longe. A traduco deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o pensamento predominante da composio, e conservar alguns toques da cor primitiva do quadro. No sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor particular que se encontra em todas as composies do grande poeta, dar-me-hei por satisfeito; se, como mais provavel, nem isso houver conseguido, terei o castigo na indifferena publica. Com o que eu decerto conto com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a insignificancia d'esta offerta ao Seu do corao Janeiro de 1857. BULHO PATO. PARISINA Imitao I na hora, em que a voz bella e sentida Do meigo rouxinol, entre a folhagem Das balsas escondido, solta ao vento A saudosa cano do fim do dia: Hora solemne e grata em que os amantes Renovam mil protestos de ternura, De constancia e d'amor; em que o susurro Da fresca virao vai confundir-se Co'o murmurar da trepida corrente. De cristalino orvalho borrifadas, As vicejantes flores da campina Mais vivo aroma espargem no ambiente. Accendem-se no ceo milhes de estrellas, mais escuro o azul flor das vagas, E a verdura do bosque mais sombria. Entre as trevas e a luz, o firmamento Jaz velado por languido crepusculo, Que rapido se esvai nos frouxos raios Da lua, despontando no horisonte. II Mas no para ouvir os doces carmes Do amoroso cantor, que Parisina Do palacio feudal ao parque desce; Nem para contemplar a luz brilhante Das tremulas estrellas, que divaga Por entre as sombras que diffunde a noite. Se procura um desvio na espessura, No para aspirar o vivo aroma Das matisadas flores; e se escuta, No de certo para ouvir das aguas O brando murmurar. Sons mais queridos Espera o seu ouvido nesse instante. Rangendo as folhas seccas denunciam Que se aproxima alguem: empallidece De susto e de prazer ao mesmo tempo. D'entre as ramas que a brisa doidejante De espao a espao agita, mansamente Parte emfim uma voz: voz amiga; De subito o rubor lhe volta s faces, E mais livre, porm no menos forte, Bate-lhe o corao no peito agora. Mais um momento s j passado, Aos ps da bella jaz o cego amante. III O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca, Que lhes importa nesse doce instante? Tudo nada a seus olhos deslumbrados Pelo fogo do amor; tudo se perde, Se confunde, e se esvai nesse delirio! Nos suspiros que vem do fundo d'alma, Nesses mesmos, respira tal ventura, Que, se fosse mais longa, dentro em pouco A vida ou a razo succumbiria! Oh! quem sente lavrar dentro do peito O fogo da paixo com tanto imperio, No pensa na desgraa, nem se lembra Da curta durao de taes enganos! Ai! quantas vezes despertmos antes De saber que no volta o mago sonho!! IV Vo partir: vo deixar com passos lentos O encantado logar que presencera O seu transporte em delirante crime. Vo partir: e apesar dos mil protestos, Da esperana que em breve ho de juntar-se, Dor profunda no peito lhes comprime Agora o corao, como se fosse Aquella a derradeira despedida. Parisina, cravando os olhos languidos No firmamento azul, treme, sentindo Que aquelle ceo no pode perdoar-lhe. Elle outra vez a cinge contra o peito; Um suspiro, um adeus, inda outro beijo, foroso partir, levando n'alma Os amargos, crueis presentimentos, Que de perto acompanham sempre o crime. V Tranquillo no seu leito solitario, Hugo repousa, e pode sem receio Livremente soltar o pensamento. Porm ella descana a fronte pallida Das fadigas do amor, junto do esposo. Sonhando, em voz sumida solta um nome, E suppondo estreitar contra seu peito, Agitado e febril, o terno amante, Entre os braos comprime esse que dorme Agora ao lado seu. Subito acorda suave impresso do meigo abrao O esposo que se julga idolatrado, At nos sonhos da adorada esposa! VI Sobre o seu corao com quanto affecto Reclina aquella fronte encantadora! Com quanto afan procura ouvir as frases, Que de seus labios solta entrecortadas! Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento, Azo, o altivo senhor, estremecra Como tendo escutado a voz do archanjo! Oh! deve estremecer, porque a sentena, A sentena fatal que os seus ouvidos Acabam de escutar, vai despenhal-o Para sempre no abismo da desgraa! O nome que ella em sonhos proferra, Que sora tremendo como a vaga, Quando arremea aos concavos rochedos A debil prancha que sustenta o naufrago, Esse nome qual foi? O nome de Hugo; Hugo, o filho da pobre e linda Branca, Que o principe illudiu, e sem piedade Depois abandonou! Hugo, seu filho, Fructo innocente de um amor culpado! VII Azo arranca o punhal, mas pra olhando-a! Quem podera immolar um ser to bello?! Oh! ninguem! Apesar do negro crime, Da nefanda traio, faltam-lhe as foras, Ao contemplal-a assim adormecida. Nem a acorda sequer, mas por instantes No seu rosto encantado crava os olhos. Se de subito agora despertasse, A infeliz nesse olhar sentra a morte! Pela fronte do principe trado, Frio corre o suor, e luz da lampada Estremecem brilhando as grossas bagas. E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias Nesse instante fatal foram contados! VIII Assim que o sol desponta no horisonte, Azo corre a indagar pelos que o cercam, E as derradeiras provas apparecem. As aias da princeza, largo tempo Conniventes no crime, revelaram Quanto havia de occulto nesse drama. No tem que duvidar! Azo, escutando A longa historia de to negro crime, Sente em ondas subir-lhe o sangue s faces, Que de profunda cholera se inflammam. IX Na vasta sala do feudal palacio O orgulhoso Senhor da casa d'ste, Sobre o purpureo throno est sentado. Nobres, pagens, soldados o circundam, Os olhos crava nos culpados ambos, Ambos jovens e bellos. Duros ferros Tem sujeitos os pulsos do mancebo, Que fra brutalmente desarmado Por mercenarias mos da nobre espada. Na presena de um pae d'este modo Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?! Porm, Hugo infeliz, nesse momento, Tem de ouvir a sentena incontrastavel Dos labios paternaes, prestar ouvidos triste narrao do seu opprobrio! E comtudo a expresso do nobre rosto, A distincta altivez conserva ainda! X Pallida, sem alento e silenciosa, Aguarda Parisina nesse instante As palavras fataes. O seu destino Quo rapido mudou! Ha pouco ainda, D'aquelles olhos a celeste chamma Pelos sales doirados espargia A meiga seduco. Se nesses olhos Visse alguem borbulhar uma s lagrima, Mil cavalleiros da mais nobre estirpe, Arrancando da espada, a vingariam! Mas agora, infeliz! quantos a cercam, Mal disfaram no rosto carregado A contida expresso do seu desprezo! E elle, o amante adorado da sua alma, Elle, oh Deus! que liberto por instantes, Por instantes que fosse, a houvera salvo, Jaz preso ao lado seu em duros ferros! Jaz ali, mas no v que aquellas palpebras Onde outr'ora fugia a cor suave Da terna violeta, convidando A mil sequiosos, demorados beijos, Se entumecem, velando a vista immovel Das pupillas, nas quaes a dor intensa Accumula uma lagrima apoz outra! XI Oh! por ella tambem, nesse momento, Derramra o infeliz amargo pranto, Se de tantos a vista a no cercasse. A dor que o devorava, parecia No mais intimo d'alma adormecida; A fronte macilenta e transtornada, Conservava-se altiva. Por mais forte, Mais acerbo que fosse o seu tormento, No quizera humilhar-se na presena D'aquella multido que o comtemplava. A companheira bella de infortunio, No se atrevia a olhar. Ao recordar-se Das horas do passado, do seu crime, Da vingana de um pae, do seu destino, E sobre tudo do destino d'ella, No ousava lanar sobre esse rosto A desvairada vista, receando Que, cedendo ao remorso, revelasse Quanto o seu corao fra culpado. XII Azo emfim slta a voz: Ha pouco ainda, Numa esposa e num filho resumia Toda a minha ventura neste mundo. A aurora dissipou to bello sonho! Antes do pr do sol, nem um nem outro Me devem pertencer. Quebrem-se embora, As ligaes mais caras da minh'alma! Hugo! um padre te espera, e depois d'elle A justa punio do teu peccado. Ergue preces ao ceo antes que o lume Das estrellas se accenda no horisonte: Talvez te d perdo. Mas neste mundo No existe logar onde possmos Ns ambos respirar. Adeus, no quero Assistir ao teu ultimo momento! Porm tu, fragil ser, ensanguentada Ters de vr cair essa cabea. Vai, traidora mulher; sobre a tua alma Pese o remorso da desgraa d'elle! Vai-te, adeus, e se podes, contemplando Este exemplo fatal, ter vida ainda, Gosa d'ella, que livre t'a concedo! XIII Velando a face pallida e sombria, Onde as veias inchando palpitavam, Como se o sangue em ondas refluisse Do corao fronte, Azo ficra Callado longo tempo. Hugo, soltando Profunda, porm firme, a voz do peito, Roga ao pae que o escute alguns momentos. O principe em silencio lh'o concede: Tu bem sabes que a morte no receio; Tinto em sangue mil vezes nas batalhas Me viste ao lado teu, onde mais forte, Mais travado e mortal, era o combate. Ento deves lembrar-te que esta espada, Que ha pouco os teus escravos me arrancaram, Derramra mais sangue do que em breve Far correr a mo do teu carrasco. Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa? Quite me deixas d'esse dote infame! Presente, viva tenho na memoria A injuria com que as faces affrontaste De minha pobre me; e a vil herana Que recebi no bero, inda me accende O semblante de cholera e vergonha. No tumulo onde agora ella repousa, Ir juntar-se em breve o meu cadaver. Transido o peito seu por mil desgostos, Separada do corpo esta cabea, Entre os mortos diro at que ponto Foste amante fiel, pae carinhoso. Ultragei-te, verdade, mas bem sabes Que trocmos affronta por affronta. A mulher a que chamas tua esposa, Victima ingenua do teu fero orgulho, No te lembras que fra largo tempo Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a, Contemplando o seu rosto, desejaste-a, E para emfim provar que no podia Pertencer-me jmais ousaste affoito, Allegar o teu crime e a minha origem. Era indigno de ser esposo d'ella! E porque?! Por que as leis no consentiam Que eu podesse aspirar ao throno d'ste. E comtudo, se a mo da Providencia Me conservasse a vida, dentro em pouco Podra conquistar de certo um nome To nobre como o teu. Tive uma espada, E sobeja ambio para elevar-me Com ella aos feitos de sonhada gloria. Bem sabes que as esporas mais brilhantes, Nem sempre as traz aquelle que nascra Embalado na purpura, e que as minhas, O corcel que montava, por mil vezes Avante arremessaram dos mais nobres, Mais valentes senhores, quando, lembras-te? Carregando eu bradava: _ste e victoria!_ O meu crime conheo, e no procuro Minoral-o, descana, nem to pouco Implorar-te alguns dias de existencia, Rapidas horas que sem ser contadas Passaro sobre a pedra do meu tumulo! Delirio, como foi o do passado, No podia ser longo. A minha origem, O meu nome, no so de mancha isentos; Mas comtudo, apesar do teu orgulho, Regeitar perfilhar-me!... nesta face, Quaes olhos no vero que sou teu filho? A minh'alma tambem de ti procede! De ti, sim; por que tremes? de ti veiu O indomavel vigor do meu caracter. No foi somente a vida que me deste, Porm quanto podia emfim tornar-me Em tudo igual a ti. Comtempla a obra Do teu culpado amor! Na semelhana, Semelhana fatal que vs no filho, Irada te castiga a Providencia! Est'alma no pois a d'um bastardo, Como a tua no soffre a tyrannia. O passageiro sopro da existencia, Nunca em mais o presei do que tu proprio, Quando juntos na fora do combate, A galope os corceis, a espada em punho, Por mil vezes nas renques do inimigo Rompendo a ferro frio penetramos. O passado acabou, e dentro em pouco O futuro com elle ir juntar-se, Mas oxal que a mo do Omnipotente He houvesse dado a morte em taes instantes! Era pouco deixar-me orfo no mundo Do affecto maternal; ousaste ainda Arrebatar-me a noiva! Mas que importa? Sou teu filho, conheo-o neste instante, E a sentena cruel que proferiste, Posto venha de ti, no posso agora, No fundo de minh'alma achal-a injusta. No peccado nasci, morro na infamia; Por onde comeou, termine a vida. Errando o filho, o pae tambem errra; Num, castigas os dois. Perante os homens Eu, quem sabe? serei o mais culpado, Porm Deus julgar entre ns ambos. XIV Cruzando as mos no peito Hugo fizera Resoar os grilhes, e d'entre os chefes, Que a sala do palacio povoavam, No houve um s, que ouvindo esse ruido Deixasse de tremer. Depois cravaram Sobre a fatal beldade a vista a um tempo. Parisina, infeliz! pallida e fria, Immovel como estatua de alabastro, Dissemos que assistra scena horrivel, Da perdio do amante. Os olhos fixos, Scintillantes, abertos, desvairados, Nem sequer por instantes se volveram. Nem uma vez as palpebras, cerrando-se, O fito olhar velaram; mas em torno Das pupillas azues, e resplendentes, Sem cessar se alargava o alvo circo! Uma lagrima a custo conglobada, Lentamente das palpebras saa, Tremendo sobre a franja das pestanas: Quem o sabe contar? nesse momento, Os que a viam, pasmavam, no podendo Crer que a olhos de humana creatura, Fosse dado verter to grossas lagrimas! Quiz fallar, mas a voz morreu cortada: Comtudo no som cavo que soltra, Nesse longo suspiro, parecia Que vinha o corao; apoz instantes Tentra inda outra vez, porm debalde! Do mais fundo do peito a voz partira Num grito, num gemido prolongado, E depois como a pedra, como a estatua Derrubada da base, como tudo O que de vida falto emfim cara Digno emblema do tumulo da esposa, Do trado senhor da casa d'ste! Porm no da mulher que sente n'alma O remorso do crime, e nelle segue Pelo ardor dos desejos instigada. Do lethargo fatal tornra em breve, Mas no para a razo; cada sentido Por dor intensa fra aniquilado. Como das cordas do arco humedecidas Lassas da chuva, as settas disparadas Vo bater ao acaso, assim do cerebro As magoadas fibras s soltavam Desvairados, e vagos pensamentos. O passado, e porvir! Ermo o passado! Nas trevas do porvir apenas via Um sinistro claro, de espao a espao, Semelhante ao do raio quando fende As nuvens conglobadas no horisonte, E cai sobre um logar deserto e triste. Gelada de terror sentia n'alma O peso do remorso; que existiam A vergonha, o peccado, na consciencia, Uma voz mal distincta lh'o lembrava; Que a morte estava ali pairando livida Sobre alguem, nesse instante o presentia. Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida O sopro que seus labios respiravam? Era o ceo, era a terra, eram os homens, Que tinha ante seus olhos deslumbrados? Os homens, ou demonios que a miravam Com sinistra expresso? Eram os mesmos Cujo olhar noutro tempo revelava To suave, e profunda sympathia? Tudo era incerto e vago no seu animo, Receios, e esperanas insensatas; Agora um meigo riso, logo um pranto, E no seu desvairado pensamento, Cuidava ser aquelle um sonho horrivel No qual o corao se debatia. Porm d'elle, oh! debalde procurra Acordar a infeliz jmais na vida! XV Na torre pardacenta do mosteiro, Balanam lentamente agora os sinos, E o som profundo e triste dentro dalma, Desperta dolorosos sentimentos. Por aquelles que sombra do cypreste, Repousam para sempre, ou dentro em pouco Tero de repousar, o canto funebre, Que ouvis neste momento se desprende. Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos; Ante os olhos o cepo, ao lado um padre! Braos nus o carrasco attento espera Pelo instante fatal; certeiro e forte, Deve o golpe car. Horrivel quadro! Mas comtudo ao redor avidamente, A turba silenciosa se reune, Para ver, Santo Deus! no cadafalso Por ordem de seu pae morrer um filho! XVI um'hora encantada a que precede O derradeiro adeus do sol explendido! Na pompa de seus raios fulgurantes, Parece escarnecer da scena horrivel Que se aproxima de seu termo agora. Curvado aos ps do monge, em voz sumida Hugo profere a derradeira prece, Prece contricta, humilde, fervorosa. Nessa fronte inclinada e pensativa Bate um raio de luz, porm mais vivo, Mais brilhante reflecte sobre a lamina, Que proxima da victima responde Por um forte, mas lugubre, reflexo. Como est'hora suprema dolorosa! O crime fra atroz, justo o castigo; Mas comtudo o supplicio nesse instante Faz gelar de terror quem o contempla! XVII As oraes extremas acabaram; O filho ao pae traidor, o audaz amante, Tudo emfim confessou. Rapidas tocam As horas no seu ultimo momento. As ondadas madeichas de cabello J cairam no cho. O nobre manto Bordado pelas mos de Parisina, No deve acompanhal-o sepultura. Tentam vendar-lhe o rosto, no consente Esta final affronta. O seu orgulho, Comprimido no mais intimo d'alma Pela expresso de fria indifferena, Acorda nesse instante, repellindo A mo do algoz que vem cobrir-lhe os olhos. O meu sangue, culpado, teu, pertence-te, Preso, algemado estou; co'a vista livre, Quero ao menos morrer: Fere e dizendo No logar do supplicio inclina a fronte. Ao proferir esta palavra: Fere Brilha o ferro no ar; silvando o golpe Cai rapido e fatal. Rola a cabea, O corpo palpitante e transtornado, Pula envolto no p, que bebe o sangue Sado em borbotes pelas arterias! Inda instantes os labios estremecem, Nos olhos inda fulge a luz da vida; Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, Como deve morrer o homem culpado Que se arrepende no momento estremo, Elle o seu corao oppresso e triste A Deus smente consagrou ness'hora. A imagem de seu pae, da propria amante O que eram sua alma atribulada? Um sentimento das paixes terrestres No viera turbar naquelle instante A pura contrico do seu espirito, A no ser quando expondo a fronte nua, Ao cutello do algoz quiz ver a morte. Era o unico adeus que proferira, s testemunhas do cruel supplicio. XVIII A multido gelada e silenciosa, Mal ousa respirar. Alguns gemidos Cortados, mas profundos, se escutaram; Nada mais, a no ser o som socturno Do cutello batendo sobre o cepo. Nada mais? houve um som, um grito horrivel, Estridulo, selvagem, semelhante Ao da me, que de um golpe repentino V cair a seus ps sem vida o filho! O grito de quem foi, de onde partiu? De um seio feminil, e mais terriveis No os solta jmais o desespero! XIX Hugo jaz no sepulchro, e Parisina Dissera acaso eterno adeus ao mundo, Refugiando sua alma atribulada No silencio da cella de um convento? O veneno, o punhal talvez seriam O severo castigo do seu crime? Ou succumbira emfim nesse momento, Em que vira brandir o duro ferro Sobre a adorada fronte? compassiva A mo da Providencia permittiu, Que ao quebrar-se em seu peito confrangido De angustia o corao, se terminasse Tambem com elle a fragil existencia? No o soube ninguem. Aquella vida, Ai! de mim! acabra neste mundo Pela dor como a vida principia! Setembro de 1856. XXV A VALSA Venceste: sou teu, bem ves Quo facil foi a victoria! Cahi-te rendido aos pes. E sem disputar a gloria. Aos _golpes_ da tua mo Expuz logo o corao! Venceste: sinto nas veias Correr o sangue agitado: Todo o fogo do passado J nos sentidos me ateias. Submisso, humilde, sugeito Ao teu estranho poder Existe todo o meu ser! Em ti palpita o meu peito; E a razo que me delira, Em ti vive, em ti respira, Com teu imperio a rendeste; Sou teu: venceste, oh! venceste! Quanto tempo decorreu Desde aquell'hora maldita? Quanto tempo est'alma afflicta Na angustia se debateu, Sem que um sorriso, um olhar A viesse consolar! Em vo buscava no ceo As scintillantes estrellas; No via em nenhuma d'ellas Nem formosura, nem lume, E no prado por mais bellas Que se ostentassem as flores, Para mim no tinham cores, Nem encantos, nem perfume! .......................... Uma tarde, era o sol posto, Vi-te assomar janella; Depois inclinar o rosto Sobre a mo graciosa e bella, E contemplar fascinada, A natureza encantada. A aragem com brando alento Agitava os teus cabellos, E julguei nesse momento Ver-te flor dos olhos bellos Estremecer cristalina Uma lagrima divina! Sobre o cimo flexuoso Do monte se reflectia Ainda o claro saudoso Do brando expirar do dia, Quando afogueada rompeu A lua no azul do ceo. Teu seio battia inquieto, E eu senti no corao A chamma do antigo affecto Rebentar como um volco! De repente os olhos teus Se volveram para os meus. Quizemos fallar, a voz Nenhum a poude soltar; Mas que no dissemos ns Naquelle inspirado olhar!... Uma s vez na existencia O diz a muda eloquencia! ........................ ........................ Entrei no baile! a alegria Saltava no teu semblante, Quando a valsa delirante Rompeu no vasto salo! Era aquella melodia, Que tanta vez a teu lado Me fez batter agitado De enthusiasmo o corao! Ergueste a fronte animada, E em teu rosto se trocou A pallidez namorada Pelo fogo da paixo! Como o teu olhar fallou Antes que dissesse a voz: Oh! tua outra vez eu sou! Depois no giro veloz Da dana vertiginosa, Como a tua voz formosa Sobresaltada tremia! Como em tua alma eu vivia!... que nesse instante Deus Quiz unir as nossas vidas Por um amplexo dos ceos! No horisonte esmorecidas As estrellas desmaiavam Co'os resplendores da aurora Que j no ceo despontavam. Naquella encantada hora Expirou nos labios teus Um suspiro, e um adeus! Um adeus, que promettia... Mas quem pode revelar O que nelle se dizia! A aurora vinha a riar E os clares da manh fria Acaso viram jmais To felizes dois mortaes? ......................... ......................... Desde ento ao teu poder, Submisso, humilde, sugeito Existe todo o meu ser. Em ti palpita o meu peito, E a razo que me delira, Em ti vive, em ti respira, Com teu imperio a rendeste, Sou teu: venceste, oh! venceste! Setembro da 1861. XXVI RECORDAES Como foi, e ha quanto tempo Que esse to feliz momento, Da minha vida acabou?! No sei, que importa? Era um dia Que o sol vivido inundava A luxuriante campina. Intensa, glacial frieza O corao me gelava, Quando subito sentira Um raio de luz divina Que minh'alma illuminou. Deslumbrado em vo buscava Ver donde essa luz partia, A mente me delirava Co'a ventura que sentia! Oh! depois vi claramente, Que de teu rosto innocente Partira o raio de luz, To suave e to sereno, Como esse que nas pupillas, Azuladas e tranquillas Do anjo da nossa infancia Melancolico reluz! Parmos naquella estancia, Dize, lembras-te, Luiza, Como vinha fresca a brisa, E que suave fragrancia Rescendia a virao? Tu firmavas-te ao meu brao, E eu mal respirar podia Que no sei qu me opprimia, Mas com que doce oppresso! Parava, no de canao, Por que o peito mais valente, De mais vigor no se anima, Nem com mais fora se sente Do que eu me sentia ento! Foi fatal aquelle instante, Para ti fatal, embora, Tu viveste numa hora, Inteira toda uma vida Do mais delirante amor; Porque a tua alma, querida, Quando deveras se inflamma, Devora co'a sua chamma O prazer at dor! Duas lagrimas brilhantes De teus olhos deslisaram, Quando nos meus se cravaram Formosos e scintillantes. A expresso que eu nelles via, Devra ser semelhante que o justo v no dia Do seu supremo juizo, Nos do anjo fulgurante Que lhe aponta o paraizo! Como foi que tal encanto A fatal mo do destino Para sempre nos quebrou!? Da noite o sombrio manto, O teu semblante divino A meus olhos occultou! Oh! no foi nesse momento, Porque inda no firmamento O lampejo d'uma estrella, As tuas pallidas faces De um reflexo illuminou, E inda um beijo, longo, ardente Na tua boca innocente A minha boca estampou! Oh! no foi!! Depois ainda, Na mesma noite encantada, Te vi fulgurante e linda, De brancas roupas trajada, No turbilho delirante Do baile veloz passar; Inda ali tanta esperana, Tanto amor, tanta ventura, Veiu minh'alma inundar Inda ouvindo aquella valsa De enthusiasmo estremecemos, E desvairados corremos Ao som da doida cadencia. Oh! que fogo nesse instante Nos inflammava a existencia!! Eu cingia-te anhelante Entre meus convulsos braos, E com teus ligeiros passos Tu mal tocavas o cho! Aquella doce harmonia De instante a instante augmentava. Oh! como ento nos battia Agitado o corao! Augmentava, e de repente, Como cortada torrente, A melodia parou; E nos meus braos, querida, Extenuada, abatida, Por momentos te deixou. A aurora vinha rompendo Quando teus olhos aos meus, Proferiam eloquentes Aquelle saudoso adeus. Ao longe o vasto Oceano, Da brisa fresca agitado, Ante ns bramia ufano. Tu, volveste horrorisado O rosto co'a vista d'elle!... que em breve a todo o pano, O meu baixel correria Sobre aquellas ondas torvas, E de ti me apartaria! Janeiro de 1851. XXVII S FELIZ S feliz! Hontem ainda Contemplando o teu semblante, Na sua innocencia infinda, Porm triste nesse instante, Roguei a Deus do mais fundo Mais puro do corao, Que uma lagrima, um desgosto, Uma sombra de amargura, Jmais viesse no mundo, Turbar teu candido rosto. S feliz: toda a ambio Que por ti minh'alma encerra ver-te feliz na terra! Nada mais. O amor profundo, O mais violento embora, Tem sempre na vida um'hora De egoismo, e esta affeio, Que uma s vez na existencia No meu peito se accendeu, Que jmais se ha de extinguir, Tem a pureza do ceo, Proveiu da tua essencia! Se no presente ou porvir, Alguem que te encante a vida Existe ou tem de existir... No terei zelos... Unida, Para sempre a outro affecto Passars junto de mim, Embora, direi ento: S feliz: toda a ambio, Que por ti minh'alma encerra ver-te feliz na terra! E sabes?... ao Creador Dou graas por me haver dado Este puro sentimento Em vez do fogo do amor. Ai! se um dia, no momento De ver-te, te houvesse amado!... Se em vez da chamma suave, Que em meu corao se inflamma, Se ateasse aquella chamma, Se houvesse emfim rebentado Aquelle fatal volco!... Ai! de mim! quanta amargura! Quanta angustia o corao No teria j passado! Porem assim!... no, ai! no! S feliz: toda a ambio Que por ti minh'alma encerra, ver-te feliz na terra! Maio de 1854. XXVIII A FOLHA DESBOTADA Volve folha desbotada, Outra vez mo nevada Que do tronco te ceifou, Volve, e dize sem receio, Que te apertei contra o ceio, Que o meu olhar te adorou: Vai discreta confidente, Dize tudo quanto sente, E calla o meu corao! Vai, que a tua voz sentida, Ha de ser por ella ouvida Com ternura e compaixo. Dize que ao ver um instante Anuviado o seu semblante, Pensativo o seu olhar, De sobresalto e receio, Sinto o corao no seio De repente a palpitar! Que a sonhei antes de vel-a, Como bem fadada estrella, Mensageira do Senhor! Que ao vel-a a voz da consciencia Disse: esta na existencia A tua estrella de amor! De amor puro, intenso, ardente, Mas que occulto eternamente No meu peito ficar! Que no infortunio nascido, S commigo tem vivido, E commigo morrer! Ai! folhinha desbotada! Outra vez mo nevada Volve de quem te ceifou! Volve, e dize, sem receio, Que te apertei contra o seio, Que o meu olhar te adorou! Maio de 1854. XXIX NUM ALBUM Venham ver este retrato, E respondam se o pintor, Que desenhasse melhor, O tirava mais exacto. Eil-a! saltando da tela, Viva, inteira, palpitante! Pallido um pouco o semblante, A boca graciosa e bella, Quando o sorriso a desflora, como a rosa da aurora Abrindo ao sopro de abril! mais! ver num momento, Quanto pode o pensamento Sonhar de casto e gentil! O cabello ondado e fino, Negro como a noite escura, Cai no collo alabastrino, E faz resair a alvura Do rosto fascinador. Os olhos... oh! neste instante, Tremo, hesito, no ha cor, No ha luz por mais brilhante, Que possa emfim imitar O reflexo scintillante Da chamma do seu olhar! Chamma que s vezes traidora, Se occulta na sombra escura, espera que chegue um'hora, Hora de morte ou ventura!, Em que possa deslumbrar, Com mais fogo e com mais vida, O desvairado que ousar, Miral-a sem recear, Pela ver assim sumida! Terminou?... e eu que julgava Cobrir-me de eterna gloria, Quando tanto me esmerava Na minha copia ideal! Agora que na memoria, (Ou antes no corao) Tenho vivo o original, Vejo bem que no ha mo, Por mais que saiba pintar, Capaz de estampar na tela A expresso graciosa e bella D'essa face, e d'esse olhar! Abril de 1859. XXX ONDE SE ENCONTRA A VENTURA? Onde se encontra a ventura, Esta encantada viso, Que tantas vezes procura, Mas debalde, o corao? Nas pompas da formosura? Nos esplendores da gloria? No poder de conquistar A mais difficil victoria Com o mais timido olhar? Oh! como ento s feliz, Porque tudo te revela, Que no ha face mais bella, Nem existencia tecida De mais flordo matiz! Porm responde, na vida, Quando tu passas radiante D'essa luz que emfim s Deus, Concede a um anjo dos seus!... Quando ouves a cada instante Dizer com voz anhelante: L chega, l passa, ella, Que to feliz como bella! Uma sombra de amargura, Um sentimento profundo No te opprime o corao E no te diz que a ventura Se no encontra no mundo?! Uma vez, sereno o ceo, Como os teus olhos brilhava! Airosa ante mim passava Essa forma, esse ideal Que no pode ser mortal! Atravez do raro veo, Que o semblante te encobria, Uma lagrima descia; Era de prazer ou dor! Oh! de angustia parecia, Pelo agitado tremor Com que o peito te battia! O mundo no sei se a via, Porque a meu lado exclamava: L chega, l passa, ella, Que to feliz como bella! Mas quem sabe se acertava?! Porque a ventura real Se existe, s no momento Em que livre o pensamento Se eleva ao mundo ideal! E noss'alma a outra unida, Foje terra, se illumina De um raio de luz divina, E se esquece emfim da vida! Julho de 1859. XXXI QUEM DIR? Quem dir, vendo a expresso Que brilha no teu olhar, Que tu no tens corao? Bem haja a mo tutelar, Que beira me suspendeu Do abismo da perdio! Que delirio foi o meu Naquelles to curtos dias Que passei ao lado teu? Oh! como tu respondias Com o silencio eloquente s palavras que partiam Do meu corao ardente! E depois, se num momento Os labios j no podiam Expressar o sentimento, O fogo do meu affecto, Como o teu olhar inquieto A minh'alma interrogava E todo paixo jurava, Que era meu o teu amor! Oh! que dias de ventura!... Nos campos, abria a flor; Por entre a tenra verdura, Inda fraca, inda infantil, Se escutava a voz das aves Que saudavam abril. E tu, como ellas, ditosa, s suas notas suaves Juntavas a voz formosa! Ah! como eu vivia ento! Como de novo sentia Rebentar no corao Essa infinita alegria Que nos desvaira a razo! Por quanto tempo durou O sonho que me encantava? Breve foi, maldicta a mo Que d'elle me despertou. Quando mais certo julgava Que era emfim minha a ventura, No momento em que acabava, De escutar dos labios teus Aquelle estremoso adeus! Adeus, que nesse momento Com a esperana sorria E tanto me promettia!... Foi, oh Deus! que de repente, Uma palavra maldicta, Fez que eu visse claramente, Cobrindo minh'alma afflicta De espessa nuvem sombria! ........................ Quem dir vendo a expresso Que brilha no teu olhar, Que tu no tens corao Ou tem-lo para enganar?! Abril de 1859. XXXII UM BRINDE (Improviso) Amigos, formosura Que nos cerca neste instante, Erga-se a taa escumante De purpurino licor. Vivo enthusiasmo rebente Agora de nossas almas, Caiam palmas sobre palmas Cada vez com mais ardor! Aqui floresce na horta A viosa laranjeira, Corre o Champanhe e o Madeira Que offertara nivea mo, Aqui no chegam as garras De tanta velha lea Que esfaimada por Lisboa Se atira a tanto leo. Aqui livre em nosso peitos Pula impaciente alegria, Porque ao sol de um bello dia Tudo vemos reflorir! Que importa pois que os ministros Resonem no parlamento, E que os homens de So Bento Nem sequer nos faam rir? Para ns sorri-se o mundo, Para ns a vida esta, Hoje festa, amanh festa, Gloria, encantos, illuses! Junto a ns temos as bellas Mais fragrantes do que as rosas, Longe... o mundo das preciosas, E o mundo dos papelles! Eia pois! formosura Que me cerca neste instante Erga-se a taa escumante De purpurino licor. Vivo enthusiasmo rebente Agora de nossas almas, Caiam palmas sobre palmas Cada vez com mais ardor! Abril de 1859. XXXIII AQUELLE DIA! Jmais me ha de esquecer aquelle dia! Do meigo outono a pallida folhagem Inda os troncos do bosque revestia. Sereno estava o ceo; doce a bafagem; De toda a natureza Infinita saudade respirava; Mas por essa tristeza Feliz o corao se dilatava! Feliz, ai! to feliz qu'inda lembrana, D'esses dias de amor e de ventura, De paz e de esperana, Se anima, e v sorrir na noite escura, Um reflexo da estrella resplendente Que uma vez lhe brilhou serena e pura; Inda a sombria nevoa do presente Se rarefaz, se esvai, e se illumina Tudo a seus olhos de uma luz divina! Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia! Nem o lento correr de tantos annos, Nem as tardias horas que vieram Depois cheias de amargos desenganos, O encanto desfizeram Da inspirada, divina poesia, Que elle continha em si, que elle nos deu, E ns guardmos como um dom do ceo! Era ermo o logar, ermo, mas bello! Profunda a solido! De quando em quando, Escutava-se o cantico singelo, Da estrangeira avesinha que buscando O sol do nosso inverno, A voz desfalecida ia soltando Com saudades do _ninho seu paterno_. No extasi ideal do sentimento, Tu volvias os olhos silenciosa, Para o sereno azul do firmamento; E da boca formosa, Reprimir um suspiro em vo tentavas! que nesse momento, Exausta a escala do prazer, anciosa Uma nota na dor emfim buscavas! Nas nossas almas existia um mundo De indefenito amor; Do pelago profundo Onde ruge o furor Insano, concentrado, atroz, maldicto, D'esta cruenta guerra Das ambies da terra, Nem uma maldio, um som, um grito Nos vinha perturbar! Era a amplido do ceo, a solido da serra, Ao longe... a voz do mar! Depois como se a mo da Providencia Inundasse meu ser naquelle instante Da luz de outra existencia, Julguei ter visto a origem fulgurante, De onde provm a chamma D'este immortal amor que nos inflamma! ideia ento da morte Sentia-me sorrir; porque na hora, Que nol-a desse a sorte, Brilhava para ns serena e pura Essa immortal aurora, Que reluz nos umbraes da sepultura! Iriam nossas almas, J livres de martirio, Colher as flores e mimosas palmas Que vicejam no empyreo! Tudo em fim acabou! a noite escura, Envolvera em seu manto aquelle dia! E de tanta poesia Que resta para ns? uma saudade, E a esperana que um dia essa ventura Nossa outra vez ser na eternidade! Agosto de 1858. XXXIV PARA RECITAR AO PIANO (Primeira) Era no outono quando a imagem tua A luz da lua seductora vi. Lembras-te ainda nessa noite Eliza, Que doce brisa suspirava ali? Toda de branco, em tua fronte bella, Rosa singela se ostentava ento, Vi-te, e perdido de te ver buscava Se me apartava da gentil vizo! Era debalde; quanto mais te via, Mais me perdia delirante amor; Magicas fallas proferiste incerta, Toda coberta de infantil pudor! Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo Louco desejo pois fugir-te vi! Vendo-me triste para mim voltaste, No me fallaste; mas eu bem senti! Fresca, arrobada de perfume a brisa, Lembras-te, Eliza? suspirava ento; Tu nos meus braos reclinaste a frente, E meigamente me disseste: No! Setembro de 1852. XXXV (Segunda) De luz, de encanto, de alegria infinda, Aquelle rosto seductor esplende, Brilha a ventura em sua face linda, E vivo fogo o seu olhar accende! Como a existencia para ns bella Entre a verdura d'esta amena estancia! Aqui suspira a virao singela, E esparge a rosa virginal fragrancia. Livres, immunes neste doce enleio, Dos gratos dias do saudoso abril, Ouvir das aves o infantil gorgeio, Gosar da sombra do enredado til... Ella a meu lado, sobre os meus cravando, Aquelles olhos cuja densa rama, Agora occulta, logo vai deixando, Brilhar o fogo da traidora chamma! Se entro no baile onde o prazer se agita, Eil-a, a formosa, no veloz passar, Louca os seus olhos nos meus olhos fita, E mil affectos me traduz no olhar! De luz, de encanto, de alegria infinda, Aquelle rosto seductor esplende; Brilha a ventura em sua face linda, E o ceo no fogo que esse olhar accende! Abril de 1854. XXXVI (Terceira) Lembras-te, Elisa, quando a face pallida, Da casta lua despontou no ceo, E d'entre a balsa suspirada, e languida, Mavioso canto o rouxinol rompeu? Naquella noite em que o perfume vvido De mato agreste rescendia no ar, Em que as estrellas fulguravam timidas Nas doidas ondas do ceruleo mar! Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me, Com todo o fogo de infantil paixo, Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_ E me apertavas docemente a mo! E que eu perdido de ventura olhando-te Da meiga lua ao divinal fulgor, Teu rosto de anjo contemplava estatico, Candida pompa de inspirado amor! Nesse momento fervorosa supplica Do intimo dalma murmuraste a Deus, Que amor, que encanto nos teus olhos humidos, Quando os cravastes na amplido dos ceos! Depois sentada nos degraus de marmore Sombra encantada, celestial viso, Que meigas fallas proferiste tremula, Que mil protestos me juraste ento! Depois as rosas que animavam vvidas Teu bello rosto, desmaiar eu vi E vaga sombra de tristeza subita Cerrar-me forte o corao senti! Maio de 1853. XXXVII CIUMES DO PASSADO Quando teu rosto adorado, Da luz do amor se illumina, Resplandecente a meu lado, No sabes por que anuviado O meu semblante se inclina? Por que um amargo sorriso Pelos meus labios deslisa, Quando teus labios, Luiza, Me proferem anhelantes, Tantos protestos de amor! que minh'alma se opprime lembrana do passado, Em que j outro a teu lado Escutou essas palavras, Que me repetes agora Cada vez com mais ardor; E que esses mordidos beijos Que me perdem de ventura, Dados co'a mesma ternura J perderam de desejos Neste mundo outro tambem! E tu no sabes, querida, Os zelos que me devoram, lembrana que na vida, J quizeste a mais alguem?! Janeiro de 1851. XXXVIII NUM ALBUM (Improviso) Se eu fsse um vate inspirado, Cantor das rosas singelas, Ah! quantas coisas to bellas Tinha aqui para dizer! Mas eu tenho horror brisa, Odio ao prado, odio s estrellas, E ento aos vates das _ellas_ Nem sequer os posso ver. Tu tambem, posto que a vida Para ti sorria agora Como sorri uma aurora Dos puros dias de abril, No morres pela aucena, Nem deliras contemplando A lua que vai passando _Pelos vastos ceos d'anil_. E inda bem que a Providencia Te livrou de tal abysmo; terrivel romantismo, Quando has de um dia acabar? Eu conheo uma menina, Bella, gentil, seductora, Mas, meu Deus, to doutora Que se no pode aturar! Arranja umas taes carinhas, Toma umas taes posies, Falla em sonhos e illuses No seu romantico ardor!... Pois pena, que bonita, Talvez seja at formosa; Se no fosse _preciosa_ Era um ente encantador. Se lhe dizem que feliz, Solta um suspiro profundo, Porque ninguem neste mundo At hoje a comprehendeu! Salvo um ente idolatrado Porm esse... oh! desventura! Para a fria sepultura Na flor da vida desceu! Emfim, se alguem lhe protesta Que inda ha de viver tranquilla, Ergue em extasi a pupilla Pondo a mo no corao! Imagina o desgraado Que tenha a louca mania De ir batter comsigo um dia Neste abysmo de paixo! Oh! Bem hajas tu que s bella, Gentil, graciosa, elegante; A alegria em teu semblante Co'a innocencia anda a saltar: Bem hajas tu que detestas Todos os vates das _ellas_, E as romanticas donzellas, Que andam sempre a declamar! Janeiro de 1862. XXXIX AMOR E DUVIDA Quando essa pallida frente Por momentos pensativa Cai s vezes de repente, E se amortece a luz viva Que nos teus olhos resplende, Sinto que est'alma se accende De um fogo, de uma paixo, Que me desvaira a razo! A terrivel incerteza, Esta duvida constante, Desapparece um instante! Creio em ti:--foge a tristeza Que todo o meu ser domina; Torno vida, e livre aspiro Num mundo que se illumina Da encantada luz do amor! Depois, se um flbil suspiro Vem de teus labios flor, Oh! como ento s amada! Como tens aos ps rendida Toda a fora d'esta vida Que por ninguem foi domada! Mas s por um instante! Volta depois a incerteza, Quando assume o teu semblante, Aquella glacial frieza, Que desalenta, que opprime, Que faz profunda tristeza, E destroe quanto sublime! Um dia no firmamento O sol vvido brilhava, E a aragem com brando alento Entre as ramas suspirava! Era ali, naquelle val, Que parece destinado, Para esconder na espessura Os segredos da ventura! O corao agitado Nesse instante te pulsava, E uma tristeza mortal O semblante te anuviava. Allucinado buscava A causa d'onde nascia, Quando um gesto, uma expresso Me disse que eu s podia Tirar-t'a do corao! Sem mais ver, nem mais pensar Com que delirio a teus ps Me viste rendido ento!... Quem podia duvidar Vendo a ingenua timidez Do teu inspirado olhar?! Os labios no revelaram O que havia em nossas vidas, Mas as vistas confundidas Com que eloquencia fallaram! Chegra a noite; do ceo Vi scintillar uma estrella; Era brilhante, e era bella, Mas um presagio mortal, Um cruel presentimento Me disse nesse momento: No fites os olhos nella, Porque essa luz fatal. Amanh, espesso veo de nuveus ha de envolvel-a; E se de novo surgir Ser para te illudir. E esta duvida cruel Este constante hesitar Quem m'o pode terminar Quem, seno um teu olhar? Junho de 1859. XL NUM ALBUM No vs tu como inconstante Num instante, Ruge o sul, e turba o ceo, E que o mar, quedo, azulado, Brame irado, Sacudindo alto escarceo? No tens visto na manh, Flor lou, Junto s aguas rebentar, E tarde, murcha, pendida, J sem vida, Sem perfume, a desfolhar? Pois ento queres, amiga, Que eu te diga Que o amor no assim? Quando tudo empallidece, Se emmurchece, Se desbota, e morre emfim?! Essas illuses doiradas, Encantadas, Do primeiro albor da vida, So como a rosa lou, Da manh, tarde n'haste pendida; So como o ceo azulado, Que doirado Pelo sol de ameno dia, Se escurece de repente Tristemente Por uma nuvem sombria! E tu no queres, amiga, Que eu te diga Que o amor no assim? Quando tudo empallidece, Se emmurchece, Se desbota, e morre emfim?! Agosto de 1848. XLI SE CORAS NO CONTO. Tu queres que eu conte um sonho que tive No sei se acordado, no sei se a dormir? Foi todo singelo, foi todo innocente: Tu cras, sorriste, tens medo d'ouvir? No cres, escuta, no fujas de mim, Que o sonho foi sonho de casta paixo: J crs, no duvdas, vers como lindo O sonho innocente do meu corao: Eu via em teus labios um meigo sorriso, Em tens olhos negros um terno mirar, Teu seio de neve a arfar docemente, Sentia nas faces o teu respirar. E tu no fallavas, mas eu entendia; E tu no fallavas, mas eu bem ouvi! Amor! na minh'alma a voz me dizia, E um beijo na fronte no sei se o senti. J vs que o meu sonho foi sonho innocente; O resto eu te conto; como has de gostar! todo singelo, de amores somente; Vers que ao ouvil-o no has de crar. Depois apertando teu corpo flexivel, Cingindo teu collo no brao a tremer, Ouvi uma falla, e o que ella dizia Agora acordado no posso eu dizer. No posso contar-te, s pude sentil-a; No posso contar-t'a seno a sonhar: No sonho innocente, no sonho d'amores, Do qual, duvidosa, julgavas crar. No posso contar-t'a, nem sei se acordado O que ella dizia se pde entender; Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, E agora acordado a no posso esquecer. Mas tu porque escondes a face crada? No tem nada o sonho que faa crar, todo singelo, todo innocente; Que importa um abrao, se dado a sonhar? Mas tu no te escondas, que eu fico em silencio; No quero offender-te a casta iseno; No torno a contar-te depois de acordado O sonho innocente do meu corao. Janeiro de 1847. XLII ANJO E VIRGEM. Virgem, que era o que sentias Quando ao vento desferias Essas frouxas harmonias De um incerto murmurar? Virgem, que era o que sentias Teu santo seio agitar? Achavas o mundo um ermo, Onde ao corao enfermo Dos horisontes sem termo No vinha uma aura de amor? Achavas o mundo um ermo, Fertil s de fel e dor? Ou teu suspirar sentido Era por ver desmentido De amor o sonho querido, Que sonhaste, alma gentil? Ou teu suspirar sentido Foi dor ligeira, infantil? Era o teu anjo innocente Que passra mansamente A sorrir divinamente, Mas que outra vez no volveu? Era o teu anjo innocente, Que vras subir ao ceo? E ficaste pensativa Sobre esta terra captiva D'esperana, e d'amor esquiva, Coberta com veo de d; E ficaste pensativa Ao ver-te perdida e s. Oh! esse tenue gemido Do seio teu despedido, Qual anhelito sumido Que a morte veiu cortar, Oh! esse tenue gemido, Que no pudeste occultar... Foi longo adeus de saudade Aos dias da tenra edade, Que envoltos na eternidade Ligeiros viste fugir; Foi longo adeus de saudade Ao teu primeiro sorrir! Do ceo terra baixaste, E quando nella te achaste, Tristemente suspiraste Ao ver-te perdida e s; Do ceo terra baixaste, terra de pranto e d. Virgem, virgem, mal pensavas, Quando triste suspiravas, E num gemido enviavas Longo e doloroso adeus; Virgem, virgem, mal pensavas Que eras um anjo de Deus. Maro de 1849. XLIII A M.ME LOTTI Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo de infancia desvallida. Canta oh! canta alma inspirada, Que jmais na tua vida Tiveste a fronte cingida Dos loiros que hoje vais ter. Canta: os prantos da orfandade, tua voz seductora, Se vo convertendo agora Em sorrisos de prazer! Oh! jmais em teus triumphos Quando erguendo o rosto altivo, A teus ps tinhas captivo O poder da multido, Jmais sentiste no peito Entre o rumor delirante, Batter, como neste instante, De enthusiasmo o corao! Cada nota que desprendas Ter um eco no empyreo, Por que as palmas do martyrio Em rosas vais transformar. Oh! bem haja a Providencia Que na tua voz divina Poz a graa que fascina, E o condo de consolar! Quando no giro brilhante Da tua crescente gloria, Te venha um dia memoria Esta noite triumphal, Pra, escuta, e docemente Sentirs no teu ouvido, Um murmurio agradecido De ternura filial. So elles os desherdados, Os que j sem lar paterno Erguem preces ao Eterno, E benos por teu amor; So elles a quem um dia Com teu inspirado canto Tornaste em sorriso o pranto, Em pura alegria a dor! 1860. XLIV PRIMAVERA Contempla este ceo esplendido, Ouve aquellas melodias De tanta ingenua avesinha, Que alegre, os serenos dias Da primavera adivinha. No vs a olaia? vaidosa! S por vr que a amendoeira, Mais cedo desabrochou, Vermelha como uma rosa, De repente se tornou. Oh! bem vinda primavera! Ao vr o sorriso terno Da tua boca divina, O prado, o monte, a campina, Que o triste e gelado inverno Sem piedade devastou, Num momento se animou! Em teu regao a abundancia, Esperanosa floresce; sombra de teus verdores, Entre a suave fragrancia De tuas variadas flores, Contente o pobre adormece. E tu, minha vida, ao vr-te Ssinha a meu lado agora, Nesta estao, nesta hora, Neste encantado logar, sombra d'essa verdura Onde frouxa a luz desmaia, Ante o mar que alm suspira Na loira areia da praia, No vs que a razo delira, Que dentro do corao No cabe tanta ventura?! Falta a vida, sim, a vida, Para esta alegria immensa, Das nossas almas, querida! Viva, ardente, pura, intensa, Nesses olhos brilha a chamma Do amor que tua alma incerra; Alma que ao sopro de Deus Em divino amor se inflamma, Alma que veiu dos ceos, E que no cabe na terra. Fugaz, tranzitorio, vo, Ser para ns o encanto Que nos enche neste instante De ventura o corao? Ser! que importa? constante Vir depois a saudade, Abraar essas memorias De infinda felicidade; Como ao templo aonde as glorias, De paz, de amor, de alegria, Se celebraram um dia, Mas templo que ao cho tombou, Se abraa a hera viosa, Reveste as pobres ruinas, Amparando carinhosa Esse resto que ficou! Uma lagrima extremece, Vem de teus olhos flor! Minha vida, esquece, esquece, Que pde haver na existencia Momentos de acerba dor! O sopro da Providencia, Vivo est, vivo respira, Neste ceo desassombrado, Na corrente que suspira, Neste cantico inspirado, Que as aves soltam no val, E d'elle provm a essencia Do nosso amor immortal! Contempla o vasto horisonte Que o sol vivido illumina; Olha as flores da campina; Escuta as aguas da fonte; Respira esta aragem pura, Embalsamada, e suave; Ouve o cantico d'essa ave, Que improvisa na espessura! Recolhe n'alma o perfume, D'esta encantada poesia. D'este sol, d'esta alegria, Que em torno de ns fulgura, E responde, minha vida, Se a nossa alma neste instante Pde com tanta ventura! Abril de 1856. XLV VOLTAS (Improviso) Entre as flores da campina Correm uns certos rumores. Que tu, rosa purpurina, s a inveja das mais flores. F. C. M. s rosa, bem vs; o aroma Que do teu seio rescende, A cor que a folha te accende, A inveja que ao rosto assoma De todas as outras flores, No t'o diz, quando no prado, Aos primeiros resplendores Do sol que tem despontado, Ergues a fronte singela, Mas ah! quo graciosa e bella?! O lyrio que sombra nasce, Quando te sente e te aspira, No sabes como delira!! No tens visto tanta vez Naquella timida face Redobrar a pallidez? E o rouxinol namorado Que, assim que a lua derrama Seu doce claro no val Por entre a viosa rama, Desprende a voz immortal Improvisando inspirado O seu hymno nupcial noiva que Deus lhe ha dado! Por quem suspira anhelante? Por quem trmulo se inclina Sobre a veia cristalina? Quem procura nesse instante? --s tu, rosa purpurina! s tu, sim; porm a cor Que tinhas to viva outr'ora, Porque a vais perdendo agora? Dize, oh rosa, a occulta dor Que te faz to tristemente Pender a encantada frente! Agora entre as outras flores Correm uns certos rumores... Quaes so, no sei; mas ouvi Que as mais bellas da campina (Por quem s to invejada) Quando hoje chamam por ti, Dizem--rosa namorada, E no--rosa purpurina. 12 de Maio de 1860. XLVI LELIA O POETA Musa: o dia rompeu chuvoso e frio, Eu no tenho um real, nem tu to pouco, Que s pobre como Job; por conseguinte Que havemos de fazer? A MUSA Ficar em casa, Discutindo as miserias d'este mundo. Apraz-te a ida? Vamos, meu poeta, Em que ests a pensar? O POETA Numa aventura. A MUSA No se pde contar? O POETA De certo pde. A MUSA Nesse caso aproxima-te do lume, Accende este charuto, e principia. O POETA Ha dois annos, um dia, ou mais exacto, Uma noite em que a lua resvalava No firmamento azul, em que os modilhos Do inspirado cantor da primavera D'entre a balseira em flor se desprendiam, Achava-me aspirando a branda aragem Sentado no portal de uma vivenda Da modesta apparencia, e collocada Num sitio encantador. Naquella noite, De que me hei de lembrar eternamente, Tinham vindo esperar-me de emboscada Alguns contrabandistas do parnazo, D'entre os quaes destacava a face lvida De certo esguio e pesaroso vate Que te inspira notavel sympathia. Fugi! elles ficaram declamando As primeiras estrophes de uma nenia! Vinha rompendo abril: como j disse, Sereno estava o ceo, doce a bafagem, E a rosa, a favorita, a bella noiva, Por quem o rouxinol desde a alvorada Solta a voz em prodigios de harmonia, Corando abria o pudibundo seio Aos doces carmes do adorado amante. Passado pouco tempo esta cabea Comera a enredar-se em mil chimeras. De repente uma voz sonora e fresca Chegara ao meu ouvido. Era to simples, To suave, to meiga a melodia, To infantil a voz! Voltei os olhos, E descobri um vulto na janella. Que figura ideal! alta, mas fragil, Como hastesinha de um arbusto novo. A innocencia e virtude respiravam Naquelle rosto candido e formoso. Numa das mos firmada a face tmida, E na outra a madeixa loira escura Que vinha em pittoresco desalinho Espargir-se nos hombros de alabastro. Como o cantor da selva que inspirado Improvisava no florido bosque, Cantava ella tambem; ave innocente, Juntava mais um trilo ao hymno eterno, Que aos ps de Deus a natureza erguia. Oh! quo feliz seria quem no mundo Alcanasse as primicias d'aquella alma! Lembrei-me de as colher, e decidi-me A apparecer-lhe no seguinte dia. Com effeito assim fiz. Era sol posto: Canada de correr pela campina, Tinha vindo sentar-se pensativa Nos degraus de uma cruz que se elevava No adro estreito de modesta ermida. Chegava emfim ess'hora em que saudosa A mente se dilata em magos sonhos; Hora em que alma absorta em gostos intimos Perde a consciencia do exterior da vida. Diversas nuvemsinhas esmaltavam Para o lado do poente o firmamento. O bronze deu signal d'_Ave-Maria_. Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios A singela orao; passado instantes, A pomba estremeceu, mas de alegria. A viva chamma de amoroso affecto Brilhou no puro azul d'aquelles olhos, Quando nos meus attentos se fitaram; E um sorriso de angelica ternura Entreabrira os seus labios purpurinos. Eu peguei-lhe nas mos alvas de neve, Que estremeciam apertando as minhas, E pronunciei mansinho estas palavras: --Sim, sou eu, que tu tens visto, Tanta vez naquelles sonhos Bellos, candidos, risonhos, Da tua idade infantil. s minha. Sou teu. A vida Para ns vai ser agora Mais alegre do que a aurora, Mais florda do que Abril! Oh! que longas confidencias Nos esperam nestes prados! Que dias to descuidados! Que instantes de tanto amor! Buscando ao crescer do dia Entre o bosque a sombra densa, Sentindo a alegria immensa Do sol, do campo e da flor! s minha: do ceo proveiu O poder que a ti me prende, Mas diverso fogo accende O teu e meu corao: Tu no mundo s a innocencia, Eu sou na terra a poesia; Tu ds-me a tua alegria, Eu dou-te a minha paixo! Dou-te as sombras da tristeza Que acertam sobre teu rosto, Como as sombras do sol posto Na rosa agreste do val. Recebes num meigo abrao Meu profundo sentimento, E ds-me o contentamento Do teu seio virginal.-- Indisivel prazer brilhou nas faces Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas Que ancioso proferi, e com ternura Disse, cravando em mim seus olhos bellos: --Orph de paes, s tenho neste mundo Apenas uma irm; ns habitamos Naquella casa que d'aqui se avista Entre a verdura d'esse val ameno. J mil vezes em sonhos encantados Eu ouvi tua voz, vi tua imagem. Agora emfim s meu e para sempre. No verdade? dize.--perguntava Com extremo, firmando-se ao meu brao. Os pallidos clares do astro saudoso Despontavam no ceo; por entre as ramas A aragem susurrava brandamente, E o rouxinol occulto nas balseiras Soltava algumas rapidas volatas, Experimentando a voz que dentro em pouco Iria improvisar o hymno da noite. Caminhmos ao longo da alameda Que terminava em frente da vivenda Onde Lelia (era este o nome d'ella) Passra os dias da ditosa infancia. entrada do portal dei de repente Com a vista no pallido semblante De uma bella mulher. Cumprimentei-a. Ergueu-se e veiu a ns sorrindo alegre. -- Julia, minha irm--me disse Lelia. Segundei um rasgado cumprimento, A que ella respondeu com a gentileza De uma senhora de elevada classe. Convidou-me a subir, eu dei-lhe o brao, E acceitei promptamente este convite, No que fiz um chapado disparate! Tibia luz, temperada para amantes, Illuminava uma pequena sala, Onde o luxo e bom gosto respiravam. Em primeiro logar necessario Que eu te faa um retrato a largos traos (Como agora se diz) da encantadora E provocante dona d'essa casa, Era alta, sorriso malicioso, Boca fresca, e vermelha como a rosa, ( velha a imagem mas sempre boa!) Cabello basto, fino, muito escuro, Olhos da mesma cor, e quasi sempre Por doce morbidez meio cerrados. Quando porm s vezes dardejavam Por entre a negra sombra das pestanas Um s raio da luz que os inflammava... Ai d'aquelle que ousava descuidado Mirar de leve essa traidora chamma! Que te direi do p pequeno e curvo, Que na estreita priso de uma botinha De setim preto estava clausurado? No sei; mas sei que ao vel-o me esquecra A poesia da lua e das estrellas, Do Tejo de cristal, da mansa brisa, De tudo o mais que tenho por mil vezes, Estafado em mau verso e peior prosa, Para s contemplar os mil encantos, Que tinha aquelle p! E a pobre Lelia, A meiga appario que nos meus braos Tinha vindo entregar-se sem receio, Onde estava? calada e pensativa, Contemplando o meu rosto, onde subia O sangue accezo em ondas de desejos. Em presena d'aquella peccadora, Esqueceu-me de todo o sentimento Que me inspirra o anjo de innocencia. Sou poeta; bem sabes que os poetas No so de certo os entes mais constantes! Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo Podera resistir? Se nesse instante A visses no _fauteuil_ reclinada! O vestido entre _roxo e cor de rosa_, Apesar da invaso das _crinolines_, Deixava perceber divinas frmas. No cabello uma rosa perfumada, E no turgido seio, que ondulava Atravez da finissima cambraia, Vioso ramo de singelas flores. Ella viu a impresso que produzira No pobre peccador que a contemplava, E descerrando a boca num sorriso Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios, E a eloquencia do olhar disse-me tudo. Pouco a pouco nas faces desmaiadas Se accendra o rubor; nos olhos negros Scintillou por instantes uma lagrima, Precursora de languido deliquio. Meiga, sonora ento, como seria A voz do archanjo que descesse terra, Junto a mim murmurou a voz de Lelia: --Vou deixar-te; amanh, no mesmo sitio, mesma hora, de novo nos veremos; Vou resar a orao que me ensinra, Minha me quando eu era pequenina. Vou resal-a por ti!--Oh! por instincto; A innocencia fugia do peccado. Quiz seguil-a tambem, mas por encanto, Por encanto fatal, senti-me preso Ao supremo poder d'aquelles olhos Que nos meus se reviam com ternura. De novo aquelle p que me perdera, Se firmou num pequeno tamborete, E d'essa vez deixando a descuberto, Um fragmento de perna, que faria Morrer de desespero uma andaluza. Esvaeceu-se ento completamente A meus olhos o anjo da candura, Das commoes divinas, da virtude, E achei-me s, perdido, face a face Ante o demonio das paixes terrestres! Dei-lhe a mo, e senti num paroxismo De desejo e de amor fugir a vida. Quando a razo voltou, como o murmurio Da fresca virao da primavera, O sopro perfumado de seus labios Vinha affagar-me docemente a fronte. Os anneis do cabello ondado e negro, Espargindo-se, avaros procuravam Occultar-me da vista aquelle seio! Impaciente os affasto devorando, Num beijo, em mil, um mundo de delicias! Oh! como ento no peito me pulava O corao vaidoso e triumphante! No languido quebranto que succede Ao febril desvario dos sentidos, Julia estava a meu lado; amortecida, Por entre densa rama das pestanas, Partia a luz das languidas pupillas. Desmaira de amor a rosa esplendida, E voltava de novo quella face, A pallidez do lyrio das campinas. Abatida e indolente, ergura a fronte; Caminhmos os dois para a janella: Os primeiros clares da madrugada, Vinham rompendo j no firmamento. Chegava emfim a hora, era foroso Dizer adeus seductora imagem! II ................................... ................................... ................................... Casta filha do ceo, pura innocencia, Como o sorriso alegre de teus labios Me torna aos dias da ditosa infancia, E me faz existir algumas horas No doce enlevo de passados sonhos! Quantas vezes porm ao ver-te, rosa, Nas agruras da terra, eu te contemplo Com viva compaixo! To facilmente Se evapora o perfume de teu seio, Se perde o vio de teu meigo rosto! Caes subito no cho pallida e triste! E porque? porque o sopro envenenado Do mundo te crestou. Alheia ao crime, s fulminadada pelos crimes de outros! Eram estes, musa, os pensamentos Que vinham em tropel ao meu espirito, Quando estava disposto a dirigir-me Ao sitio que na vesp'ra me indicra A ingenua irm da tentadora Julia. Comeava a morder-me na consciencia O remorso de haver atraioado Aquelle anjo de amor e de candura. Nisto sinto parar um trem porta; Olho, e vejo saltar de uma caleche, Elegante e veloz como a gazella, A minha irresistivel peccadora. Quantos protestos at'li fizera, S com sentir-lhe a voz se evaporaram! Corro porta, ella sbe, e com ternura Aos meus tremulos braos se arremea: --Tardavas tanto!... as horas d'este dia No terminavam nunca!... vim buscar-te; Perdoa se fiz mal; mas o desejo De te ver e abraar era to forte... Vamos dar um passeio pelo campo, E depois... sers meu, e eu serei tua!-- Terminado este rapido discurso, Mas cabal, eloquente, e peremptorio, Peguei no meu chapeo, e em continente Descemos e partimos na caleche. No podes duvidar que possuia A mais commoda amante d'este mundo. Quando o carro passou pelo Chiado, Mais de vinte lunetas se assestaram A um tempo sobre ns; e bem provavel Que mais de vinte bocas honradoras Me ficassem na sombra remordendo; Tanto melhor; bom ser invejado. Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando, Illuminava de clares suaves O firmamento azul; nos verdes prados A flor estremecendo de alegria Aos doces beijos da travessa aragem, Como offrenda enviava ao ceo propicio A pura essencia do virgineo seio. Scintillava o prazer nos olhos negros Da mulher que apesar de peccadora Era bella, oh! to bella como os anjos Que o tentador Satan despenha ao mundo! Formosuras fataes qu'inda conservam Na frma o que do ceo para illudir-nos! Ai de ns se encarmos descuidados A morbida expresso de certas frontes, Onde a candura nos occulta o crime! Alva era a face da elegante Julia; Vivo o rubor que lhe animava os labios; Adoravel a tinta fugitiva Que lhe tocava levemente as palpebras; Muda a boca; no olhar toda a eloquencia! Entrmos na allameda. Era sol posto. Ao chegarmos porta, appareceu-me Um personagem que d'ali saa, Baixo, gordo, rolio, impertigado, Sorriso de baro, cara opulenta, E ar de um homem contente de si proprio. -- de certo baro ou brasileiro.-- --Brasileiro e baro--disse-me Julia. --Visita d'esta casa ha muito tempo?-- --Ha muito tempo sim--respondeu ella Com certa hesitao--No lhe fallaste?-- --Felizmente escapei de tal desgraa!-- Subi; cheguei sala; ella deixou-me Por algum tempo s junto janella. Sentei-me a respirar o vivo aroma Da fresca virao da noite amena. Mudra tudo em mim completamente: Resfrira-se o fogo dos desejos, E o sentimento despontava n'alma! Vaporosa, ideal, dentro de pouco A meus olhos surgra uma figura Cuja forma gentil me arrebatava! No purissimo azul dos olhos castos, Tremiam, scintillando, algumas lagrimas; O sorriso, gelado flor dos labios, Como gela o sorriso da virtude Quando pra assustada ante o peccado. Tirando a cora de virgineas flores, Que lhe cingia a fronte immaculada, Olhra para mim! Oh! Deus supremo! A expresso d'esse olhar era a do anjo Ao contemplar um infeliz na terra! Depois, soltando a voz, estas palavras Com doura e tristeza proferra: --Parto, e deixo-te no mundo! Fujo, timida innocencia, Ouvindo o rumor profundo D'esta agitada existencia! Vi-te um dia; era na hora Em que a briza mais saudosa, Em que a luz do sol descora, E d mais perfume a rosa! Est'alma toda candura, tua alma se rendia; E com que immensa ternura Os teus protestos ouvia! Protestos de um corao Que sem susto, e sem tremor, Respondia co'a traio s provas do meu amor! A grinalda qui'inda vs Nesta fronte desbotada, Vai cair-te em breve aos ps, Mas vai cair desfolhada! Na minha ingenua innocencia, Aspiro tambem ao ceo, Como aspira a grata essencia Da flor que no val nasceu! Fragil flor que em pura aurora, Vendo o sol sorrindo, amou; Mas d'esse amor numa hora O vivo fogo a matou!-- A voz emmudeceu. O olhar sereno Sobre mim se cravou com mais ternura! Era Lelia, ou seria a imagem d'ella Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados? Tudo era incerto e vago no meu animo, Como vaga a impresso d'um bello sonho! Aureola de luz resplandecente Veiu ento inundar aquella fronte. Reconheci emfim, oh! era Lelia, Que desprendra a voz, que proferra Com to profundo affecto aquellas fallas! A seus ps nesse instante allucinado Num extasi de amor me precipito, Repetindo anhelante estas palavras: --Resurge outra vez das sombras Da tristeza em que vivia Est'alma, toda alegria, Volve tua alma infantil. s minha. Sou teu. A vida Para ns vai ser agora Mais risonha do que a aurora, Mais florda do que abril! Oh! se um dia, desvairado, Ouzei trair-te, innocente, Como o remoro pungente Te veiu depois vingar! Como agora, arrependido, O meu corao procura Dar-te emfim quanta ventura, Quanto amor se pode dar!-- Nesse momento uma infernal risada Me fez estremecer. Subito acordo Da suave impresso do mago sonho, E que vejo ante mim?! uma figura Ironica e fatal! Era o Diabo! Tranzido de terror em vo procuro Meus olhos desviar d'aquelles olhos, Cuja sinistra luz me fascinava! Suspendendo na mo livida e fria A mesma c'roa de virginias flores, Que eu tinha visto na graciosa fronte Da celeste viso que me encantra, Disse emfim com satanica ironia: --Olha: esta a grinalda immaculada, Da tua ingenua e seductora Lelia! Agora, aqui a tens; custou cem libras, No ha muito, ao rotundo brasileiro Que viste porta d'esta nobre casa! Julia commigo contractra a venda. Se vens mais cedo um'hora inda podias Das garras do falco salvar a pomba!-- No ouvi nada mais: tinha perdido A consciencia da vida nesse instante! Quando, e como acordei d'aquelle estado, No t'o posso dizer; sei que a meus olhos O espirito infernal se convertra Na figura gentil de um bello moo Alto, airoso, elegante, e delicado. --Olha bem para mim, tornou sorrindo; Inda te inspira horror o meu aspecto? J vs, meu caro amigo, que o Demonio No sempre to feio como o pintam.-- --_Vade retro Satan_--disse eu, buscando Uma pequena cruz que havia muito Costumava trazer pendente ao peito, E j forte de mim ia mostral-a, Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde A mo fallaz de Julia m'a roubra. Puz os olhos no cho desalentados; O remorso cruel naquelle instante A turvada consciencia me pungia! --Deixa escrupulos vos, pobre poeta! Olha em roda dos teus, encara o mundo, Como o deve encarar quem tem bom senso. Eu cheguei de Paris, e tinha medo De perder o meu tempo nesta terra; Mas, ah! que me enganei! tenho comprado Um par de figures quasi de graa! Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva, Nunca tens um real, desgraado! No faas versos mais; faze politica; Improvisa um jornal; morde, abespinha, Sem consciencia e sem d, a honra alheia! Hoje quiz apalpar a culta imprensa, Famosa instituio que me tem dado Ha tempos para c milhares d'almas. Entre um grupo de illustres publicistas, Quasi todos cates, foi-me indicado O primeiro cato dos nossos dias. Uma palavra s fra bastante Para tudo explicar entre ns ambos. Homem da situao, ou mais exacto, Homem das situaes, sabe de quanto Se agita em torno a si nesta republica. O que mais me espantou foi que no mundo Podesse haver mortal to venturoso! Pasmam todos ao vr o que elle come Desde a meza do opr'ario meza opipara, De opulento negreiro ou potentado De mais alto valor se acaso existe! Pde zumbir a inveja em volta d'elle, Morder-lhe a fama a cavilosa intriga, Exaltado rugir o odio implacavel, Nada d'isto consegue perturbal-o, Nem cortar-lhe o seu acto digestivo! nedio, luzidiu, recebondo, Como um gallo capo! Perdoa a imagem. Crava os olhos attentos neste exemplo De solida moral; segue as pizadas Deste egrejeo varo, e eu te asseguro Que has de em breve alcanar um nome illustre. Tudo agora me corre s maravilhas; Nunca pensei que em terra to pequena Se podessem fazer to bons negocios. Hoje fui contratar com certa empreza De um moderno jornal que se atirava, Como lobo esfaimado, ao ministerio. Era o mimo, era a flor, era o portento Da incorrupta e briosa mocidade! Essa, comprei-a ento por attacado; Escaparam s dois, pobres diabos, Que nunca ho de passar da cepa torta! Que dia to feliz! a toda a pressa Fui depois assistir ao desembarque De um nobre titular, victima imbelle, Do veneno infernal da torpe inveja. O honrado cidado vinha entregar-se Nas mos severas da imparcial justia. Fazia gosto vr a comitiva Dos invictos heroes que o circundavam. Algum rano burguez inda entre dentes Se atrevra a dizer que no passava De um cadmo ladro o illustre conde; E se eu no chego a tempo, era filado Quando saltasse ao caes por quatro guitas. V tu pois quanto pde o meu imperio! Com raras excepes, a livre imprensa No soltou nem sequer uma palavra! tempo de voltar bella Julia: Esta linda mulher era beata Da esplendida edico que existe agora. Encontrei-a uma vez num dia santo De grande devoo, quando acabava De pr aos ps de um padre os seus peccados. Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo, A singela espresso d'esta innocente, Soprou-me o fogo de infernaes desejos. Como vs, distincto o meu aspecto, E apesar do terror que ao mundo inspiro, Muitas mulheres ha que intimamente Se agradam mais de mim que dos janotas. Oh! que austeras virtudes nesse dia Me caram nas mos! Lelia, embebida Nas suas oraes, passou, cravando Com modestia no cho os olhos bellos. No fez reparo em mim; mais forte ainda, Me ficra a vaidade remordendo. Lembrei-me ento da irm como instrumento Para alcanar o fim que ambicionava. Por entre o raro veo que lhe encobria O rosto seductor, de espao a espao Se viam scintillar os olhos negros Com mais fogo e mais luz do que as estrellas Quando as nuvens do ceo se rarefazem. (A imagem vulgar, porm confessa Que tu proprio tens feito outras peores.) Ella olhou para mim, aproximei-me, Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde Perfeito accrdo havia entre ns ambos. Precisava ostentar-lhe luz do mundo O esplendido poder dos seus encantos. Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta, Joias, vestidos, trens apparatosos, Quanto emfim d realce formosura, Lhe augmenta a seduco e a faz mais bella. Nada d'isto porm causra effeito No joven corao da casta Lelia. Olhava para a irm como assustada, Quando a via ostentar tanta grandeza. Por mil vezes tentei ver se podia Aproximar-me d'ella; era impossivel. Adivinhas porque? trazia ao peito Pendente a cruz que a me lhe havia dado Pouco antes de soltar o extremo alento. Quando na flor da vida e da innocencia Vejo a meu lado encauta formosura, Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo Presa tanto como eu uma alma ingenua, Mas para a perder! Desculpa ao menos Em nome da franqueza este teu servo. Um sacerdote ancio que alem habita, Naquella ermida que d'aqui se avista, Teima em no m'a deixar; tu s podias Ajudar-me a vencer nesta batalha. Inda ha pouco menti quando te disse Ser tarde j para salvar a pomba. tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias D'aquelle corao que te idolatra. Tudo luz, seduco, amor, encanto, Na voz, no olhar, na languida ternura Da rosa virginal que tu despresas! Anhelantes te esperam j seus labios, O seu peito infantil por ti suspira, No ouvido sente a voz dos teus protestos, O subito rubor lhe affronta as faces! No a vs hesitar, tremer, fugir-te, Acercar-se outra vez, sorrir a furto, Escondendo nas mos a fronte bella? De novo inda luctar, mas j sem foras Car por fim num languido deliquio? Oh! corre a ser feliz nos braos d'ella!-- Um momento depois d'estas palavras, Em doce consonancia extranhas vozes De improviso romperam neste canto: --Seja a breve passagem da vida Uma serie de ardentes delirios; Quem procura colher os martyrios Quando existem as rosas em flor? Venturosos ergmos as taas Onde brilha o licor purpurino, E soltemos as vozes num hymno Consagrado aos deleites do amor! Vem poeta: as tristezas do mundo No comprimem jmais nossas almas; Ns cercmos de flrdais palmas A existencia votada ao prazer! O que importa que a noite succeda Aos sorrisos do astro diurno? Para ns o seu manto nocturno Mil delicias nos torna a trazer!-- Apossou-se de mim o immundo espirito. --Sou teu, tentador, emfim lhe disse; Ao teu fatal poder entrego est'alma! Dize, dize, onde est essa que eu vejo, Mas que procuro em vo cingir nos braos!-- --Onde est? vais sabel-o, e num momento A seus ps cairs ebrio de gosto!-- Ao secreto aposento onde jazia A virgem dos meus sonhos, me dirige O torpe embaidor. Entro em delirio, E ardendo em chammas de brutaes desejos, No casto ninho onde vivia a pomba! De repente uma luz serena e branda Veiu alegrar as trevas da minh'alma. Outra vez razo volto, e que vejo! Ante mim venerando sacerdote, Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde A enganadora Julia me roubra. Lelia, a seu lado, com as mos erguidas, E os olhos postos no sagrado emblema, Estas doces palavras me dizia: --Deixou-te o negro espirito! Feliz de novo agora, Sorri tua alma em extasi Ao ver a pura aurora, Da qual smente nuncia Na terra a humilde cruz! S ella, eterno simbolo De amor e de piedade, Brilha no mundo esplendida, E diz humanidade: Surge das trevas lugubres; Ascende etherea luz! S ella quando rapida A morte nos alcana, Diffunde em nossos animos O lume da esperana, Que nos descobre a patria Da gloria perennal! Perde a tristeza o tumulo; O sepulcral cipreste, Deixando o aspecto funebre, De flores se reveste! Soam divinos canticos Em coro angelical! Oh! quem podra pintar A expresso que nesse instante Tinha o candido semblante Do meu anjo tutelar! Como a pomba da arca santa Que um dia terra desceu, Vinha dizer-me: Acabaram As tempestades do ceo! Deixa o mundo, antro medonho Onde smente fulgura Nas curtas horas de um sonho A branda luz da ventura! Vers a meu lado agora Sorrir eternos amores, Como sorriem as flores, luz da punicia aurora!-- Julguei-me nesse instante transportado manso do Senhor. Caindo em extasi, Disse, rompendo em delicioso pranto: --Em nome d'esta cruz, doce imagem, Jura que para sempre has de ser minha.-- --Juro--disse ella ento. Nesse momento Aproximou-se a ns o sacerdote, Cuja fronte senil resplendecia Co'a luz celeste que illumina o justo; E unindo as nossas mos, com voz solemne A sacrosanta beno proferra! * * * * * Aqui termina, musa, a minha historia. Acordei do meu sonho, e depois d'elle Tenho visto o demonio algumas vezes; No menos vezes a traidora Julia; Porem Lelia, a gentil graciosa virgem, A predilecta noiva da minh'alma, Essa apenas em sonhos me apparece! Maio de 1862. XLVII HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA Desherdados no bero de heranas, Desvalidos dos braos de me, Quem nos crca o viver de esperanas, Nos educa, nos veste, e mantem? CORO O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem so nossos cantos de amor; Desherdada smente a existencia, Do infeliz que descr do Senhor! Onde o bem? Onde o mal? ns no mundo Como iremos a vida encontrar? Neste valle enredado e profundo Quem nos ha de o caminho apontar? O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem so nossos cantos de amor; Desherdada smente a existencia, Do infeliz que descr do Senhor! Quem vir ser-nos pae na orphandade? Consolar nossos dias de dor? Circundar-nos depois noutra edade, De delicias, de sonhos, de amor? O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem so nossos cantos de amor; Desherdada smente a existencia, Do infeliz que descr do Senhor! Dos thesouros de affecto que encerra Entre vs maternal corao, Quem vos faz a ns orphos na terra, Repartir d'esse affecto um quinho? O bom Deus que proteje a innocencia, De quem so nossos cantos de amor; Desherdada smente a existencia, Do infeliz que descr do Senhor! E esse affecto ideal que illumina O existir de um reflexo do ceo, Que a soffrer e que a amar nos ensina, Quem no peito materno o accendeu? O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem so nossos cantos de amor; Desherdada smente a existencia, Do infeliz que descr do Senhor! Mas ns crmos, sentimos, ammos, A Deus grande na terra e nos ceos, E do intimo da alma exclammos: Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus! 1850. XLVIII GRATIDO E SAUDADE (Recitada no Theatro) De candidos sonhos, de luz, e de flores, Cercada a existencia comea a sorrir; Alegre o presente nos falla de amores, De amores nos falla brilhante o porvir! Depois no horisonte sereno, e risonho, Carregam-se as sombras, perturba-se a luz, Esvae-se a ventura veloz como um sonho, Que apenas instantes na vida reluz! Assim penetrando no mundo das artes, Ao tmido lume de frouxo claro, Olhava, e s via por todas as partes, A meiga esperana sorrindo em boto! De lyrios e rosas grinalda fragrante, Cuidei mais ainda: cuidei vl-a ahi; Nos braos a aperto, convulsa, anhelante, Aos labios a levo, na fronte a cingi! Foi breve este sonho de amor, e de encanto; Acordo, e procuro debalde uma flor; Inundam-se os olhos de angustia e de pranto, Ao ver que s restam espinhos e dor! S restam espinhos das pallidas rosas, A quem pobre artista no ousa pedir Os loiros frangrantes, as palmas viosas, Que a fronte de genio s devem cingir! S restam espinhos? ai, no! Se a ventura, No quiz que durasse to meiga illuso, Em paga deixou-me no peito a doura. De terna, suave, leal _gratido_! Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, Sincera tributa nest'hora o dever! Embora outras palmas morressem,--a palma De gratas memorias no pde morrer! Desfeitos os sonhos, fanadas as flores, Quebrado o encanto da pura illuso, Que resta ao artista?--espinhos e dores, Saudades! mais nada no seu corao! Saudades da gloria, da luz, da ventura, Dos magicos sonhos, presente dos ceos, Saudades que attestam a funda amargura, Que sente ao dizer-vos agora um adeus! 1853. XLIX Diante do tumulo de Salvador Corra de S (Visconde d'Asseca) e de sua filha.[1] No sabe o que padecer, Quem o filhinho que adora No viu ainda morrer! (A. Garrett) --Bem sei que era exilio a terra Para ti, anjo do ceo! Porm, filha, abandonar-me Quando toda a minha vida Era a luz d'um olhar teu! Ouvir essa voz infante, Ver a impaciente alegria De teu candido semblante! Deixar-me assim na existencia Triste, s, desamparado, Aquella flor de innocencia! Que lhe fiz? tinha-a cercado De quanto amor neste mundo Pela mo da Providencia A peito de homem foi dado! Oh! que affecto to profundo! E tu pudeste partir? Pois no tiveste piedade D'esta solemne amargura, D'esta infinita saudade? Vi-te inda olhar-me, e sorrir, Erguer os olhos aos ceos, No instante de proferir, O fatal e extremo adeus!... ........................... ........................... Oh! volve outra vez a mim, Desce terra, anjo do ceo, Vem dar-me a ventura emfim! ........................... ........................... Olha: o vivo sol de Abril J nestes campos rompeu; As rosas desabroxaram; O rouxinol desprendeu A voz em saudosos cantos; Os sitios onde passaram Os teus descuidados annos, No os vs cheios de encantos? So estes! a mesma fonte, Ferve alem; naquelle outeiro O mesmo casal alveja; As ramas do verde olmeiro, Do sombra modesta igreja Onde tu vinhas resar, Quando o som da Ave-Maria, N'hora meiga do sol posto, De vaga melancolia Toldava teu bello rosto! Tudo o mesmo!?... esta inscripo!... Este nome!... anjo do ceo, Este nome, filha, teu!! Oh! meu Deus, por compaixo, Na mesma pedra singela, Juntae o meu nome ao d'ella!-- ............................... ............................... ............................... E Deus ouviu a orao... O mesmo tumulo encerra Filha e pae. Na mesma lousa Onde repousam na terra, Uma lagrima saudosa Vem hoje depr tambem A esposa, a viuva, a me! 1854. [1] Quem tratou de perto Salvador Corra de S (Visconde d'Asseca) conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos dedicados sua memoria so um testemunho de saudade bem humilde, mas bem sincero. Um dia o brao da Providencia arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo ao ceo levava o corao d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae! L CANO DOS PIRATAS (Traduzido do Corsario de Byron) Sobre as ondas do mar azul ferrete, Sem limites so nossos pensamentos, E como as ondas nossas almas livres, Por quanto alcana a doidejante briza Cobrindo a vaga de fervente escuma Ns temos uma patria! Eis os dominios Onde fluctua o pavilho que nosso, Sceptro a que devem humilhar-se todos! Turbulenta e selvagem quando passa! Da lucta ao ocio em taes alternativas A vida para ns tem mil encantos! Mas estes, oh! quem pde descrevel-os? No sers tu, escravo dos deleites, Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente Das alterosas vagas desmairas! No sers tu, vaidoso aristocrta, Educado no vicio e na opulencia, Tu que nem pdes repousar no somno, Nem achar attractivos nos prazeres. Oh! quem pde no mundo compr'endel-os? A no ser o incanavel peregrino, D'estes plainos que ficam sem vestigios; Do qual o corao affeito aos p'rigos Pula orgulhoso em delirante jubilo Quando se v sobre o revolto abismo! S elle prsa a lucta pela lucta E espera ancioso a hora do combate. Quando o fraco esmorece apenas sente No mais profundo do agitado seio A esperana que vvida desponta E o fogo da Coragem que se accende! No nos assusta a morte, oh! no; comtanto Que a nossos ps succumba o inimigo, E comtudo mais triste que o repouso Inda parece a morte! mas embora, Embora, oh! pde vir! ao esperl-a Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida; E quando ella se acaba, pouco importa! Car pela doena, ou pela espada! Haja um ente que prese inda algum resto D'existencia senil! viva aspirando Sobre o leito da dor um ar pesado, Erguendo a custo a trmula cabea! Para ns so as relvas florescentes! Emquanto ess'alma expira lentamente, Foge a toda a presso d'um salto a nossa! Possa ainda ufanar-se esse cadaver, Da cova estreita e do marmoreo tumulo Que a vaidade dos seus lhe consagrra! So raras, mas sinceras, nossas lagrimas, Quando o oceano, abrindo-se, sepulta No vasto seio os nossos camaradas! Inda mesmo no meio dos banquetes Funda tristeza nos rebenta d'alma Quando a purpurea taa erguendo aos labios A memoria dos nossos coramos. E o seu breve epithaphio redigido, Ao por do sol do dia da batalha, Ao dividir as presas da victoria, Quando a exclamam os rudes vencedores Com a fronte anuviada de saudades: Ai, de ns! como os bravos que morreram Folgariam ditosos nesta hora! Julho de 1861. LI NUM ALBUM Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos. No reverso da folha onde escrevo, Um cantor jovenil pulsa a lyra, E magoado, e sentido, suspira, Com saudosas memorias d'amor! Na cadencia da lettra singela, Qual murmurio de branda corrente, Transparece sua alma innocente, Toda vida, perfume, e calor! Variegado, risonho, brilhante, Inda agora na flor da innocencia Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia Atravez do seu prisma gentil: Cuida extinctas fices encantadas, Cr perdido o seu sonho d'amores, Julga vr desbotadas as flores Que adornavam sua harpa infantil!... ................................ Ai! poeta! ai de ti! que saudade, Que saudade to funda e sentida Has de ter d'esses annos da vida, Quando os vires ao longe ficar! Que saudade to funda do tempo Em que tinhas sentido saudade, Has de ter quando a triste orfandade Dos affectos tua alma enluctar! Ouve pois joven bardo que a lyra Pulsas hoje com tanta amargura; De illuses, de poesia e ventura, Enche agora teus annos em flor. Que so estes ephemeros sonhos, Os que vem derramar grata essencia Sobre a tarde da nossa existencia Dar-lhes vida, perfume, e calor! Agosto de 1854. LII memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha. Na hora melancolica, Do despedr do dia, Quando se escuta o cantico, Ou extranha melodia, Que na deveza languido Desprende o rouxinol; Quando desponta pallida No firmamento a lua, E que inda incerta e trmula, No mar azul fluctua Co'a viva cor da purpura A frouxa luz do sol!... Quem passe pelo tumulo Que encerra a virgem bella, Quebre o silencio tetrico A orar prece singela Por essa que a existencia Deixra inda em boto! Por ella!? ai, no! a supplica Ao nosso Deus erguida, Seja por quem, perdendo-a, Perdeu parte da vida, E que no mundo estatico A filha busca em vo! Ella este val de lagrimas Abandonou, subindo Ao ceo que lhe era patria!... Ella, feliz, sorrindo, Brilha no mundo ethereo Ao lado do Senhor! Por ns, oh, sombra angelica, Implora a Deus piedade! Anjo das azas candidas, Consola a saudade, D'aquelles que, adorando-te, Te viram morta em flor! Outubro de 1852. INDICE A Helena I--A convalescente do outono II--Feliz de amor! III--Vaes partir! IV--A Julia V--Improviso VI--A um retrato VII--Quien no ama, no vive VIII--Amanh IX--Anjo caido X--Piedade XI--Belleza e morte XII--Orao da manh XIII--Caridade XIV--Bella sem corao XV--Perdoaste XVI--Tres retratos XVII--Adeus XVIII--A viso do baile XIX--Receios XX--Lembras-te? XXI--Pois ser pallida defeito? XXII--Dever XXIII-- morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez XXIV--Parisina XXV--A valsa XXVI--Recordaes XXVII--S feliz XXVIII--A folha desbotada XXIX--Num album XXX--Onde se encontra a ventura XXXI--Quem dir XXXII--Um brinde XXXIII--Aquelle dia XXXIV--Versos para recitar ao piano (primeira) XXXV-- (segunda) XXXVI-- (terceira) XXXVII--Ciumes do passado XXXVIII--Num album XXXIX--Amor e duvida XL--Num album XLI--Se coras no conto XLII--Anjo e virgem XLIII--A M.me Lotti XLIV--Primavera XLV--Voltas XLVI--Um sonho XLVII--Hymno da infancia desvalida XLVIII--Gratido e saudade XLIX--Diante do tumulo de Salvador Corra de S e de sua filha L--Cano dos Piratas LI--Num album LII-- memoria da Ex.ma Sr.a D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha End of the Project Gutenberg EBook of Versos de Bulho Pato, by Raymundo Antonio de Bulho Pato License: Share Alike