Produced by Pedro Saborano ALBERTO PIMENTEL NERVOSOS, LYMPHATICOS E SANGUINEOS PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA 62, Rua da Cancella Velha, 62 1872 NERVOSOS, LYMPHATICOS E SANGUINEOS ALBERTO PIMENTEL NERVOSOS, LYMPHATICOS E SANGUINEOS PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA 62, Rua da Cancella Velha, 62 1872 AO EXC.mo SNR. D. ANTONIO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO EM TESTEMUNHO DE RESPEITOSA AMIZADE Offerece _O author._ PHYSIOLOGIA LITTERARIA I O genio uma nevrose proclamou d'uma vez o doutor Moreau, de Tours, aos quatro ventos do universo. Segundo elle, as esplendidas disposies d'espirito que fazem com que um homem suba acima do nivel commum, procedem das mesmas condies physiologicas que as diversas perturbaes moraes cuja expresso a _loucura_ e o _idiotismo_. Seja isto ou seja que a constante intuscepo dos homens intelligentes os concentra de tal modo que parece viverem exclusivamente para si mesmos, absortos apenas no seu mundo psychologico, o certo que estes homens se nos afiguram a mais das vezes entrados d'uma melancolia excepcional. Ora o doutor Moreau quer que esta melancolia que Aristoteles notou no seu tempo, seja simplesmente alienao mental, e escreve que, por constituio melancolica, Aristoteles entendia a disposio do organismo mais favoravel ao desenvolvimento da loucura. Melancolia,--continua o nosso doutor,--era o termo generico, sob o qual os medicos e philosophos da antiguidade designavam todas as frmas de delirio chronico; corresponde nossa palavra: alienao mental, loucura. Aristoteles escreveu que no havia um grande espirito que no tivesse um grau de loucura. O doutor Moreau aproveita-se d'este dito e abona espirituosamente a verdade da sua these com o testemunho da antiguidade letrada. A excitao cerebral que precede e acompanha a inspirao, pareceu ao doutor de Tours o estado que mais analogia offerece com a loucura real, por isso que da accumulao insolita de foras vitaes n'um orgo,--palavras d'elle--duas consequencias so igualmente possiveis: mais energia nas funces d'esse orgo mas tambem mais probabilidades de aberrao e desvio d'essas mesmas funces. Emilio Deschanel, author d'um interessante livro que temos aberto diante de ns, _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, no deixa sem commentarios as proposies do espirituoso doutor. Se se pde, em verdade,--escreve Deschanel--observar alguma cousa d'involuntario nos momentos sagrados da inspirao, esses momentos fugitivos no so tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a fora adquirida, toda a somma de experiencia humana, de alegrias e dres, que os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,--se que no os acompanha--: porque o que ha de involuntario apenas apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio no perde a sua bussola. Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio Deschanel: Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico, sob uma frma qualquer, influenciou o orgo do pensamento, quer idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que o mesmo que dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condies d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas. Modifica Emilio Deschanel: O que verdade, que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razo, os homens de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato est sobreexcitado incessantemente. A concentrao habitual em que vivem, a fermentao quasi contnua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os. Brilham ardendo. So, a certos respeitos, _meio doentes_; isso incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam ao corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se physicamente medida que se constroem moralmente.--Mas se soubessem conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas, e o seu talento d'elles perderia? No, de certo! Pelo contrario, s tinha a ganhar. Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta contestao, se acreditarmos que elle se prope refutar completamente a these do doutor Moreau. No. Deschanel protesta contra a exagerao do doutor de Tours, mas aceita o _estado-mixto_, quer dizer, um estado que ao mesmo tempo participa da saude e da doena. Emilio Deschanel compartilha pois da opinio d'outro medico francez, o doutor Bouchut, segundo o qual o _nervosismo_ a molestia ordinaria dos homens de letras e dos artistas. A antiguidade chamava-lhe _genus imbecille, genus irritabile vatum_. A sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:--adoptou uma palavra, e eis tudo,--_O nervoso._ _Nervosismo, estado-mixto_, seja como fr, tenha a denominao que tiver, o que certo que parece ser apanagio das pessoas cujo exercicio intellectual est em flagrante desproporo com a despeza d'actividade physica. Os homens de letras esto por via de regra costumados recluso do estudo e vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do continuado labutar, toda a vida se concentra no cerebro, para assim dizer;--d'aqui a excitao nervosa, um excesso d'actividade intellectual que no equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do corpo. A falta de saude, a debilidade, o _estado-mixto_ afigura-se-nos uma consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovao incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que velho e morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a favorecer a transformao da materia, a regenerao da massa do sangue, e a dar um impulso benefico ao acto vital. Os homens de letras descuram porm as conveniencias do organismo. Para elles a vida intellectual tudo e,--dissipadores inconscientes!--vo-se atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua excitabilidade lhes no permitte domar. Abundam n'estas desafinaes do systema nervoso os caprichos, as velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias. Michelet, por exemplo, trabalha de manh, tomando caf em larga cpia. Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem conto d'um caf negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um quarto frio com a cabea coberta; de Schiller conta-se que mettia os ps em gelo para ter uma inspirao feliz. Mozart, a sensitiva da musica, organisao extremamente nervosa, era victima de profunda melancolia. Procurava vencel-a com o trabalho, com o trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir no leito, exhausto de foras. Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro _Le cerveau et la pense_ a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas excentricidades no so provenientes da loucura sublime do genio. Quer-nos parecer porm que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre medico de Tours. Os extremos so por via de regra viciosos, e, n'esta questo especialmente, afigura-se-nos que o meio termo sobremodo aceitavel. Por tal razo propendemos para as modificaes sensatas de Emilio Deschanel. No se estabelece uma lei fatal, no nos referimos totalidade absoluta; falla-se do _maior numero_, o que incontestavel, como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que no fazemos propaganda scientifica, seno que estamos lanando ao papel uns estudos humoristicos para correrem em folhetim. Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande questo do genio e da loucura. O nosso proposito outro;--vejamos. Emilio Deschanel, no menos espirituoso humorista que o doutor Moreau, procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor. verdadeiramente a physiologia applicada critica. Atravs da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso; o seu estylo que nol-o diz. Basta lr Voltaire para comprehender o doutor Raspail: Voltaire o systema nervoso levado suprema potencia. O marquez d'Argensou costumava definir Voltaire em poucas palavras: Todo nervos e todo fogo, era sensivel s moscas. As _Maximas_ de La Rochefoucauld denunciam um nervoso-bilioso; Joo Jacques Rosseau bilioso-melancolico. N'este ultimo escriptor a educao influiu de certo muito sobre o temperamento. Rosseau foi creado com seu pai em cujo corao jmais cicatrisou a ferida dolorosa da viuvez. Escreve Rosseau fallando do pai: Quando elle me dizia:--Joo Jacques, fallemos de tua mi; eu respondia-lhe:--Ah! meu pai, ento vamos chorar? E s estas palavras lhe arrancavam lagrimas. Vem a proposito algumas palavras de Lamartine: Rosseau foi educado pelas arvores, pelas aguas, pelos ventos, pelo co, pelo sol, pelas estrellas; carecia ao mesmo tempo da educao de uma terna mi e d'um pai laborioso: tudo isso lhe faltou[1]. A solido predispe para a meditao, para a melancolia, e Rosseau foi creado pela natureza. Temos visto como Emilio Deschanel desenvolveu galhardamente a these de Buffon,--_O estylo o homem_, encarregando-se de demonstrar que o seculo, o clima, o solo, a raa, o sexo, a idade, o temperamento, o caracter, a profisso, a hereditariedade physica e moral, a saude, o regimen e os costumes,--tudo isso se espelha na superficie ora limpida ora revolta do estylo. impossivel ir mais longe. impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillaes de tal modo deslumbrantes e magicas. A _Physiologia dos escriptores e dos artistas_ um espirituoso livro, e Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos ultimos seres d'inverno. Procuremos ns n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural de Emilio Deschanel. No podemos aventurar-nos, como elle, vasta amplido das aguas. Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da phantasia. Appliquemos tambem a physiologia critica, e estudemos em alguns livros portuguezes a organisao d'alguns escriptores nacionaes. Algumas vezes, possivel, teremos de abrir excepo para um escriptor que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pde dissimular a sua organisao, o seu temperamento, a sua predisposio. Toda a regra tem excepes; esta ha-de tel-as tambem. O que certo porm que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, no pde encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario no chegue a encontrar a verdade com o escalpello da critica. Esto-nos j acudindo memoria algumas excepes. Aproveitemos uma. O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros, escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento mais violento que pde escandecer o corao do homem,--o ciume. A sua bibliotheca tem porm s um livro de tempestades e luctas; todos os outros refulgem serenos como os lagos na primavera. O _estado-mixto_ dos escriptores e dos artistas soffre tambem excepes, e n'ellas deve ter grande parte a hereditariedade. Agora nos occorrem tres: Um escriptor robusto, bem humorado, infatigavel--Alexandre Dumas, pai. Um maestro todo alegria e saude,--Rossini. Um pintor, cheio d'animao e de vida, em cujos quadros tudo louro e rosado,--Rubens. Se estas excepes prejudicam por um lado a regra geral do _estado-mixto_, por outro tendem a provar que o estylo a organisao--a doena ou a saude. O vigoroso estomago de Alexandre Dumas, de cuja propriedade elle tantas vezes se ufanava, est, deixem-me dizel-o, nos seus livros. A _charis phytalmos_, de Pindaro, revela-se no _Guilherme Tell_ de Rossini. De Raphael basta citar as _Virgens_, que mereceram a Michelet estas palavras: Virgens enormes, rosadas, refeitas, escandalosamente bellas. Ponhamos ponto, para comecarmos a fallar de escriptores portuguezes. Principiemos por um que tem um triste direito a ser o primeiro--porque morreu doudo. [1] _J. J. Rousseau_ por A. Lamartine. * * * * * II A. P. Lopes de Mendona Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente assalta o escriptor no remanso do gabinete. A pag. 324 das _Memorias de litteratura contemporanea_, de Lopes de Mendona, encontro eu estas palavras: Ha vocaes, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas. Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta no cantava, smente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma bria e palpitante, lhe accendia a imaginao, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperana. certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a gloria e para o martyrio, _reproduzem os prodigios das sibyllas e prophetisam involuntariamente_. Lopes de Mendona escrevendo as _Memorias d'um doido_ prophetisava tambem. Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as organisaes como a sua resistem corajosamente a lucta social at perderem a vida ou a razo. Mauricio, o seu heroe, o que geralmente se chama um doudo sublime,--que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se sacrifica, que obedece fatalmente excitabilidade do seu temperamento. Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,--escreve Lopes de Mendona--tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profisso, pde entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia moderna, j a sua intelligencia penetrra em todos os problemas da politica, e a aco dos acontecimentos que se succediam com uma variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce experiencia. Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendona. O verdadeiro artista tanto quer sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da propria individualidade. D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe. A politica, a ida fixa e a maxima aspirao de Lopes de Mendona, que transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, no podia ser indifferente a Mauricio. Mostrra a sua vocao,--contina Lopes de Mendona--escrevendo alguns pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lanra-se na critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas, porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que dirigiam os negocios publicos. Apreciando, pelo que lra, o que devia ser um homem d'estado, via os que governavam desperdiando as fras d'uma situao excepcional em questes de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as obras, grandes ou pequenas, da politica. Est claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a aspirao, o espirito de justia e verdade, a coragem, o esforo, a persistencia de Lopes de Mendona. Queria elle,--aquelle espirito poderoso--que sahisse da espuma da revoluo a verdadeira liberdade politica como tinha sahido--Venus moderna,--a verdadeira liberdade litteraria. E propunha-se os graves problemas da administrao, e planeava as grandes medidas que correspondem s grandes necessidades d'um paiz, e queria levantar sobre as bases da justia e da moralidade todo o edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da aco politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e corajosamente a revoluo litteraria que se havia iniciado, e escrevia os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da _Revoluo de Setembro_, e cumpria os encargos litterarios da academia real das sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que s o futuro lhe podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver ruina da propria intelligencia. Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo, meio cadaver. Lia, annotava,--escreve Julio Machado--commentava todos os livros, lidando desde o romper da manh, dormindo duas horas apenas, e lastimando essas duas horas perdidas. Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos os seus oraculos d'outr'ora, e j no acreditava mesmo em si proprio. Tornou-se-lhe tudo escuro em redor. No tinha uma venda nos olhos, mas principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a aco cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem ento se desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos seus haveres, e instava para que aceitassemos. No breve intervallo que mediou da revelao d'esse estado sua recluso, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os livros que encontrou. Mas, a essa hora j estava perdido. As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram como as cordas d'um instrumento[2]. Estava irremediavelmente perdido,--estava louco; tinha morrido para a familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua linguagem s vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento nervoso-sanguineo. A exaltao dos pensamentos, as scintillaes differentes e successivas, a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha variada dos assumptos, e at as mesmas imperfeies revelavam ao physiologista litterario a organisao de A. P. Lopes de Mendona. Nas _Memorias d'um doudo_, tudo febril, tudo escalda, tudo denuncia o homem. Lopes de Mendona era realmente uma organisao de artista que participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animao caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela definio em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista: Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginao fecunda, ao servio d'um corao generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razo elevada. Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendona, apreciando um escriptor contemporaneo, definia o artista: Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, no nos poupamos a repetil-o, em que artista, completa e essencialmente artista. A sua razo philosophica, mais d'uma vez desvairada pelos caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor logico, racional e concludente, em cada uma das posies que alternativamente occupa. Hoje, reflectido e maduro, elevado s austeras e mornas regies do homem de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expe os problemas com a mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos os conflictos da opinio, e apalpando o terreno social como dextro e instruido estrategico. manh, desempedido e solto n'uma questo puramente litteraria, n'um ponto moral ou metaphysico, v-o-heis enthusiasta d'um brilhante paradoxo, comprazer-se em destruir as idas recebidas, em ferir as convices consagradas, e fazendo _taboa rasa_ do _criterium_ publico, pr os recursos do seu talento ao servio da sua impresso instantanea[3]. Eis-aqui Lopes de Mendona, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o artista. A sua vida foi uma serie de congestes, um incendiar-se lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o corao e o cerebro. Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado, era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas primeiras salas, e elle, que tinha resistido lucta, insomnia, ao trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congesto seccou, e para sempre, os louros da sua cora. Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,--foi o ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicao da esposa de Lopes de Mendona, escreve com a mimosa delicadesa que lhe peculiar: Um dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer! No havia j o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica combusto restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte espalhou-as. Acabou-se tudo. Alli agonisou nos braos da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que mais d'uma vez o acclamra festivamente e que mais d'uma vez o apunhalra na couraa onde resvalaram todos os golpes dos detractores impotentes. Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro--_Da loucura e das manias em Portugal_, fallando dos doudos de Rilhafolles: L esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa alli foi todos os dias vl-o e fazer-lhe companhia,--colhendo no co a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicao pelo infortunio! Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta apenas um epitaphio;--pouco , e transitorio. Mas de Lopes de Mendona, do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,--os seus livros, nos quaes o physiologista poder estudar largamente a vida impetupsa d'um temperamento nervoso-sanguineo. [2] _Trechos de folhetim_, pag. 128. [3] _Memorias de litteratura contemporanea_, pag. 328-329. * * * * * III J. C. Vieira de Castro Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais animadas sesses da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexes caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria, que, de triumpho em triumpho, o impellira at s regies do olympo parlamentar. Na sesso do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a que nos referimos: licito perguntar com um notavel estylista da Frana: Que temem os governos da imprensa livre? A guerra da discusso? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor proprio, e a sua dedicao patriotica, porque lhes rasga vastos plainos s victorias de suas doutrinas e de seus principios! Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que para isso que so homens publicos. Se pelas eminencias do poder no houvesse seno estradas de flres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua abnegao e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes arrancasse um grito contra a liberdade? Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de estado devem ser fortes de corao e de cabea, no ter a sensibilidade de nervos d'uma _petite-maitresse_, e fazer mesmo a epiderme robusta para as affrontas! Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua vigilancia. Ella como a mulher de Cesar; est acima de toda a suspeita. E aproveito a primeira occasio do meu discurso em que posso render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da minha patria, com orgulho vejo e com orgulho contemplo as togas da nossa magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado! Mezes antes, na sesso de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de lord Palmerston, e discursava sobre a proposta: Verdadeiros heroes... e perde-me a memoria de Jos Estevo se eu penso que os ha, e perde-me ella ainda mais se exactamente, comparando-os aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes! Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o mais digno de admirao n'aquelle atrevimento oratorio, a modestia sublime de Jos Estevo. que para mim no confronto dos heroes com os rochedos, no perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a irregularidade s vezes monstruosa da sua estructura pde ser um defeito para a arte; ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas fadadas para as grandes tempestades, e dos coraes baptisados desde o primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os _rochedos_, os _heroes_ topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os ps as vagas da opinio humilhada e abatida, e alm canada de se espedaar contra elles; e estendem os seus braos, que no vergam nunca, aos naufragos cuspidos j quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os destinados pela impassibilidade da sua fora, pelo seu contacto com a luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a apontarem o porto de salvao e das novas esperanas aos que a resaca do primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pgo! Tudo isto era tambem Jos Estevo, e porque se arreceasse aquella sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia mal dos rochedos! E depois os rochedos no cahem nunca! E so tambem assim os heroes; nem cahem quando morrem! Os heroes morrem de p! Morrem de p! Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura para o seu partido e para o seu paiz. Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mos inertes de Jos Estevo, era opinio geral da gente portugueza que tarde, ou talvez nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria os echos adormecidos da camara electiva. Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa de Jos Estevo. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo Guimares, _Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar_, que fornece uma prova do que vimos dizendo. Quem lhe herdou--escreve o author do livro citado fallando de Jos Estevo--o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado de rivaes? Por ora elle herana jacente como o , e ser--Deus sabe porque tempo!--o sceptro dourado da eloquencia de que no poderam despojal-o em vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio. Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimares; em 1865 entrava no parlamento Jos Cardoso Vieira de Castro. No intento nosso fazer apreciaes ou discutir personalidades. Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores d'uma esperana. Vieira de Castro no era ainda o successor de Jos Estevo; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisao e da sua idade, julgando de si para si que a melhor lente para estudar os intrincados problemas da administrao era o prisma dourado da sua phantasia ardente. Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se s sinuosidades da replica, sem se desviar do curso natural das idas, tinha-a elle, como Jos Estevo. A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos, aos quaes a opinio publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4] no foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito j de natural fogoso e opulento do author da _Pagina da Universidade_. D'aqui, aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flres variegadas e mimosas que elle espalhou s rebatinhas nas paginas da _Biographia de Camillo Castello-Branco_. N'este livro a imaginao de Vieira de Castro levantou-se em vos alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez bate as azas nos pramos infinitos. Cada pagina um jardim; todo o livro uma primavera. Mas o que verdade que a biographia de Camillo Castello-Branco est por fazer, apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus preciosos livros, como as _Memorias do carcere_, _No Bom Jesus-do Monte_, e outros, similhanca de Garrett, copiosos apontamentos para se escrever a verdadeira noticia de sua vida. Este defeito, que a maioria da opinio notou na Biographia de _Camillo Castello-Branco_, era ainda o seno que o mesmo tribunal encontrava nos seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia no logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano. Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de vegetao esplendida, para se encontrar a ida que se estava affrontando sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roagante. Eis-aqui a razo porque Vieira de Castro se no podia medir ainda com a estatua gigantesca de Jos Estevo. Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas exuberancias de vegetao litteraria, e ento appareceria o pensamento com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma paisagem entre duas arvores em flr, no alto d'uma estrada. esta a meu vr a grande distancia que temporariamente separava Vieira de Castro de Jos Estevo. De resto era congenere a eloquencia,--o temperamento o mesmo. Na sesso do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro defender-se da censura que um deputado imputra camara por se comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra. O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o verdadeiro alvo de similhante accusao, e levantou-se para declamar. So logo do principio do seu discurso estes periodos. Demasias da palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus; e as naes pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado do co, ou um desvairado da terra. E j que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui sim, aqui, na primeira pagina, no ha demasias de palavra, porque este primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres creados: _Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est._ Santas demasias da palavra, que so como as demasias do sangue, ou no corpo de Cato, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador! E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da camara abadas de flres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputao e de gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a engrinaldar-se de festes quando mais a accusavam de perdularia e formosa. O orador havia porm de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo no se enredava j nos antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os seus escriptos, antigos e modernos, do testemunho da exaltao cerebral das organisaes nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna. Mas infelizmente o orador no teve ensejo de se modificar. Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das suas esperanas e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio Machado, escriptas horas depois da catastrophe: Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denuncira muitas vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixes e o enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de corao, ambies quebradas, feridas do orgulho, esperanas illudidas, fortuna exhausta, crenas mortas, figuravam-se-lhe ser doenas da alma a que no era dado resistir, e no podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir vivendo cada um com o seu mal. Ou ainda estas: Todavia, no sei dizer-lhes como, no sei dizer-lhes porque, elle proprio o no sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia ter gosto s vezes em vr desabar o edificio da sua felicidade e da sua gloria. No era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril. O temperamento de Lopes de Mendona levara-o loucura e da loucura morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastra-o ao carcere e do carcere ao desterro. Ambos sobreviveram sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos cr de rosa das imaginaes ardentes, ambos dormiram nos braos da gloria as dces horas da embriaguez terrena, ambos entraram nos sales luxuosos da vida aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava dilatar-se para os deixar respirar mais livremente. Ambos viveram finalmente, porque um est no tumulo e outro no exilio. Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa. Era ainda feliz. Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava affecto aos tribunaes, no fallaria d'elle, mas hoje, que j a posteridade comeou para o homem d'outr'ora, no duvidei aproveitar o seu nome que pertence historia do passado, e a historia indefesa para todos. No offendi a sua memoria, no ri da sua desgraa. Inscrevi o seu nome n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando physiologicamente. Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos d'outros temperamentos que esto convidando a nossa analyse. [4] Vr--_Jos Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do seu julgamento_, por seu irmo Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro, pag. 19 e seguintes. * * * * * IV Camillo Castello-Branco O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a cr da planta sobre que vive, escreveu Stendhal. Seria difficil resumir to profunda verdade em mais formoso conceito. conhecido at onde a critica moderna tem estudado a influencia do clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero a theoria climatologica. Proudhon contrape reflectidamente doutrina de Herder: Todo o systema descana sobre o fatalismo geographico, chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano, a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua historia. Nada temos a censurar; smente perguntaremos o para que servem ento a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a intelligencia? A objeco sensata. Emilio Deschanel no vai to longe como Herder, sem todavia rejeitar a theoria, e tanto no vai to longe, que escreve estas palavras: Esta doutrina de Hippocrates, de Plato, de Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varro, de Montesquieu, de Voltaire, de Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com muita distinco. Tornou-se a base da critica _naturista_, que a critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina, a prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem s. E reciprocamente, sabendo quem tu s, dir-te-hei d'onde vieste. Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no homem, na lingua, na litteratura, na arte, e at na religio um reflexo da natureza que lhes foi bero,--reflexo que a ausencia do torro natal e a identificao com um novo clima pde attenuar, no homem, consideravelmente. O que certo, e tem sido muitas rezes notado, que, por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das articulaes das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se pde contrapr riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a musica do Norte magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do Meio-dia caracterisada pela variedade das inflexes, pela harmonia, e pelo sentimentalismo. Cumpre notar,--aproveitando uma observao de Deschanel,--que umas vezes e pela similhana e outras pelo contraste que o clima se reproduz na litteratura. Ideal de belleza,--diz elle,--ideal de fealdade, que importa! Na religio dos negros, o diabo, dizem, branco. E isto, pela mesma razo que na religio dos brancos--dos brancos que acreditam no diabo--o diabo preto. Porque que os poetas latinos, quando querem pintar a graa e a belleza das mulheres, lhes do mais vezes cabellos louros do que cabellos pretos? porque entre elles, em Italia, quasi todas as mulheres teem cabellos negros.--Reciprocamente, quando os poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que so do Norte, clima das bellezas louras. Isto realmente verdade. Diz o proloquio: S se deseja o que s se no tem. J deixamos dito que Emilio Deschanel no leva a influencia do clima at ao fatalismo geographico. A sua _Physiologia_ no uma theoria absoluta, uma demonstrao didactica, como elle mesmo diz, mas simplesmente uma _causerie_ sobre a litteratura e sobre a arte. Ns, que procuramos seguir o caminho de Deschanel, no podemos acreditar que seja a terra a _prophecia da historia_, mas firmemente cremos que todo o homem tem muito do seu paiz como a flr tem muito do sitio onde desabrochou. E depois o homem,--como notou Lamartine-- planta at certa idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no co que lhe formaram os sentidos. D'aqui a absorpo dos fluidos que andavam espalhados no ambiente da patria. No ser difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam perfeitamente,--_Os Lusiadas_ e a _Menina e moa_. Fomos sempre o povo das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo dizer tambem da saudade. Longe, por esse azul dos vastos mares, Na soido melancolica das aguas Ouvi gemer a lamentosa Alcyone, E com ella gemeu minha saudade. Muita da nossa melhor litteratura so chronicas de viagem e poemas d'amor. Ns, a nao que formamos a monarchia sombra da cruz, herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de Virgilio, que foi o poeta mais christo do paganismo e de quem disse Victor Hugo _Il chantait presque l'heure ou Jsus vagissait._ Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros so d'uma saudosa melancolia, como notou Garrett, as perturbaes subitas da atmosphera, o aspecto suavemente triste da natureza, a solido do navio, do bivaque e do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue, predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que o predominante. O nosso clima favorece as molestias intestinaes--d'aqui o mau humor, a hypocondria, o azedume, a satyra, que est perfeitamente representada em Bocage. Ao contrario, os gregos, cujo co era todo alegria e esplendores, tinham uma palavra propria para designarem o seu estado normal--_Eucolos_, o que diz simplesmente,--_ter bons intestinos_. A Frana representa na civilisao moderna o papel de mediadora e interprete; notou-o Edgar Quinet. Pela sua posio topographica communica com a Italia e com a Allemanha, e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que recebe d'esta communicao--_en belle humeur_; por outro lado est ligada aos paizes de Calderon e Cames, d'onde lhe sopram as auras murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine. A meu vr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente deixa vr a influencia do seu clima natal,-- Camillo Castello-Branco. Basta ll-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento portuguez. que Camillo Castello-Branco primeiro que tudo um escriptor nacional. Nos seus romances anda o idylio triste, suave, sublime de doura e pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do claro-escuro que caracterisa a escla hollandeza. facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye. A educao de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu temperamento como aconteceu com Rousseau. So do livro _No Bom Jesus do Monte_ estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida: Tinha eu nove annos e era orpho. Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro corao fistulado de saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me alma o estertor da agonia de meu pai, que eu, pela primeira vez, entrei no sanctuario do Bom Jesus. Ainda do mesmo livro: Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado, sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz tambem a bocca nas mos glaciaes; senti um frio de que ainda o corao me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem. A irm que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dr e com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das sombras que desciam dos angulos do tecto penumbra do claro oscillatorio das tochas. Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,--para vencer as rebeldias do seu temperamento. O trabalho , para elle, ao mesmo tempo, toxico e remedio. D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco. Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua! Ha um anno tem publicado quatro livros, e j esto traados tres novos romances que so _Celestina_, _Scenas da tragedia humana_ e _Infanta capellista_. condo dos homens de letras o desentranharem-se em flres do espirito quando o corpo mais se nega por enfermio. Assim foi tambem Garrett, que j em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmo: Ha muito que devo resposta tua de 13 de agosto e ters attribuido a demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que no tenho saude para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. No tanto em cousas de meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,--mas tendo de roubar aos padecimentos corporaes e amofinaes d'espirito os proprios momentos que a natureza exhausta pedia para socego,--fico incapaz at para o que alis me daria gosto e ainda allivio. Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande espirito estava sempre moo, sempre acordado, e publicava, depois da data d'esta carta, o _Frei Luiz de Sousa_ em 1844; em 1845 as _Flores sem fructo_ e o _Arco de Sant'Anna_; em 1846 a _Philippa de Vilhena_ e as _Viagens na minha terra_; em 1848 a _Sobrinha do marquez_ e, para dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da sua gentil bibliotheca. Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar que renunciaria vida se o privassem de escrever os seus romances admiraveis de verdade, de analyse, de _cr local_, o que , a meu vr, um dos quilates mais preciosos do seu talento. L-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que est lendo uma novella. O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. S elle sabe temperar a verdade com a fico de modo que no offenda, por falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. que a verdade, como sabem, nem sempre verosimil. Ouamol-o a este proposito: Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido as minhas novellas, disse-me assim uma vez: --Tenho observado que voss inculca verdadeiras todas as suas historias. --E voss duvda? --Duvido porque as acho verosimeis de mais. --Isso um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis? --A pergunta formulada d'esse modo irrespondivel; mas o que eu queria dizer no o que voss entendeu. --Faa favor de se explicar. --L vou. A verdade s vezes mais inverosimil que a fico. O engenho do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o espirito no pde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem to harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se to espontaneamente, que o leitor pde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre ordinario das realidades, isso, meu amigo, o que os torna inverosimeis e inacreditaveis, se voss ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga s verdadeiro o que possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte muito mais verosimil que a natureza, e que os seus romances so inacreditaveis por isso que so verosimeis. este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo Castello-Branco, o serem muitas vezes, para no dizer quasi sempre, mais verosimeis que a verdade. O que certo que no ha ahi author que seja mais lido, mais gostado, mais popular at. A razo d'isto j fica acima apontada,-- que Camillo Castello-Branco , pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente nacional. --Eu j nem temperamento tenho! dizia-me elle outro dia. Creio que sou uma degenerao de todos os temperamentos. Ah! perdo, meu presado mestre, eu que tenho lido os seus ultimos livros e que os estou agora dissecando sobre a minha mesa de physiologista, acho que elles so extremamente eloquentes, sobejamente verdadeiros. A prodigiosa imaginao de Camillo Castello-Branco augmenta-lhe tambem a gravidade dos seus padecimentos; ainda o romancista a fazer-se um romance para si mesmo. D'isto no tem elle culpa, que tambem uma consequencia do seu mesmo temperamento. A excitabilidade nervosa de certas organisaes leva-as muitas vezes a verem os acontecimentos pelo prisma da sua imaginao pessimista. assim que o snr. Alexandre Herculano que, a meu vr, tem o mesmo temperamento, escrevia inspirado pela revoluo de 1836 umas formosas paginas, esplendidamente exageradas, que fazem lembrar as _Ruinas_ de Volney e o _Livro do povo_ de Lamenais. Depois de fallarmos de Camillo Castello-Branco parece-nos ocioso estudar o mesmo temperamento em escriptores differentes, um dos quaes seria, se o houvessemos de fazer, o snr. Latino Coelho, cuja feio peninsular resalta dos seus escriptos politicos, cheios de _verve_, de mordacidade, de energia nervosa. * * * * * V Visconde de Castilho Estamos tratando do estylo e ainda o no definimos siquer. Emende-se a tempo o descuido, e aproveitemos a definio d'um grande estylista portuguez que nos vai preleccionar com maior clareza do que as regrinhas pretenciosamente concisas d'uns compendios de bem fallar que por ahi apparecem. O estylo na opinio de Camillo Castello-Branco a concepo das idas, manifestada em formulas visiveis e transmissiveis; a luz exterior reflectida da luz interna. ainda, em sentido menos lato, a escolha harmoniosa das palavras, congruentes elevao ou simplicidade do assumpto. Que e mais o estylo? E a physionomia distincta da obra, do author, do assumpto, do paiz e do seculo. , finalmente, o que ahi ha menos material na arte de escrever. Anda visivelmente por isto a doutrina de Emilio Deschanel, e a verdade, que eu anteponho a todas as philosophias nebulosas, no fica tambem muito longe da definio de Camillo e da these do escriptor francez. Todo isso o estylo. O estylo o homem na sua dupla existencia. Temol-o provado, pelo que respeita physiologia, e continuaremos a proval-o. Pelo que prende com a pessoa moral basta ler simplesmente um conto de Antonio de la Trueba, intitulado _O estylo e o homem_. Fallemos levemente da formosa historieta do contista hespanhol. Trueba recebe um dia uma carta que o chama urgentemente a Navalcarnero. D-se pressa em partir; parte. Ao chegar a Msteles, um cabo da guarda civil, commandante do posto, exige-lhe o passaporte. No se munra Trueba de documentos officiaes, e contenta-se com dizer o seu nome. O cabo, que tem na algibeira os _Contos campesinos_, duvida da identidade do viajante. Antonio de la Trueba quer sahir-se d'estes apertos, e appella para um expediente extremo. No correr do dialogo insinura o cabo que Antonio de la Trueba devia de ser um homem de bem, porque o estylo o homem; mas que se via obrigado a vedar-lhe a passagem at obter uma prova da sua identidade. Pois se o estylo o homem--replicou Trueba--deixe-me recolher casa da guarda onde escreverei um conto. Est costumado a lr os meus livros; reconhecer o homem no estylo. O alvitre foi aceite. Trueba escreveu o conto, que era simplesmente a historia interessante da sua inesperada jornada, historia admiravel de sentimento e singeleza. O verdadeiro conto est n'essa narrativa. O guarda ouviu attento, e, terminada a leitura, disse apenas estas palavras: --D. Antonio de la Trueba, pde partir. Na opinio do author dos _Contos campesinos_ tres cousas ha que teem uma physionomia unica,--a letra, o rosto e a alma. Procurem disfaral-as; o observador intelligente ha-de sempre conhecel-as. A mascara ha-de cahir perante a observao,--ou vle o espirito ou cubra as faces, tanto importa. O estylo o homem,--a alma o temperamento, o que no se palpa o que se v, o _eu_ subjectivo e o _eu_ objectivo. Por isso o estylo mais perfido do que a onda,--atraia. A alma a luz; o corpo a lampada. O estylo o reflexo que parte da chamma e que ao atravessar o candelabro mostra a transparencia do crystal ou o espelho scintillante do ouro. Que o estylo era o paiz, o clima, mostramol-o no capitulo antecedente, porque o homem, como os rios, reflecte a cr do co sob que nasceu. Diremos tambem, e de passagem, at onde o estylo o seculo. A Frana do seculo XVIII est claramente representada nos romances licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos de Fragonard e Boucher. Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente revelam a poca de maior esplendor que jmais atravessou a patria, assim como os annaes da _Accademia real de historia_ bastam para pregoar, em suas declamaes fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal. _Chaque sicle a son tour d'esprit_, disse Fontenelle, e a historia nos est provando que Fontenelle no mentiu. Emilio Deschanel ponderou que se o estylo era o homem, a litteratura era a sociedade. Outra verdade profunda, outra illao da historia, que no s se deprehende da litteratura propriamente dita, seno que tambem se est revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura. Para o nosso caso, os monumentos so to eloquentes como os livros. J Victor Hugo notou, no romance _Notre Dame_, que o Paris de Luiz XV estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da republica na Escola de Medicina. Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano observou que a Batalha era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,--que uma era grave como o vulto homerico de D. Joo I e que a outra representava uma gerao effeminada que se fingia gente. Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepes que fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em que viveu,--no nos esqueceremos de contrapr que as fabulas de Florian so de 1792 e que em 93 Lgouv dava no _Theatro-francez_ uma tragedia pastoril. Offenbach um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomea tranquillamente as suas operetas. Temo-nos desviado por atalhos que partem do nosso caminho, mas que no seguem a direco que tomamos. Continuemos o nosso estudo sobre temperamentos, e fallemos hoje d'um escriptor, justamente laureado, poeta d'amenidades e branduras, cantor da natureza e do amor. claro que fazemos referencia a Castilho, cujo temperamento exuberantemente se est espelhando nos seus livros. Escreve o author da _Chave do enigma_ fallando da sua infancia: Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creana s para poeta, e poeta unicamente de branduras. Vendo-se ainda nas recordaes longiquas do passado, contina: Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido, rosada, chilreada, alegrissima como quasi todas as auroras. Mas os penates do seu bero haviam sido na cidade, e os passaros cantores no se criam e educam bem seno pelas amenidades tranquillas e scismadoras d'esses campos. A infancia bucolica de Castilho preparou-lhe a alma para os eternos florecimentos com que ainda hoje toda se expande em cadencias e perfumes. Nem siquer lhe faltou no paraiso dos primeiros annos uma creana amiga que lhe inundasse o corao com os alvores matinaes do santo amor da puericia. A sua indole, dil-o elle, foi-se compondo com duas religies que a final se reduzem a uma s: o culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a natureza e a mulher. Um dia appareceu n'este co azulado e crystallino d'uma infancia suavemente idyllica, a primeira nuvem presaga de tempestade. O que aconteceu elle vol-o dir, que ninguem melhor o pode dizer: De repente outra doena, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, no paga com martyrisar-me, no contente de balanar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulchro. Eu respirava: mas os bellos olhos, idolatras das flres e de Amalia, e vangloria de minha mi, no sabiam se ainda havia no co o sol de Deus! Privado de contemplar as paisagens dos seus primeiros amores, comeou a saudade a reproduzir-lh'as na viso interior, a rememoral-as a toda a hora, a contornal-as no horisonte infinitamente suave d'um paraiso perdido. A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro, certo, mas o sepulchro d'um poeta tem sempre flres. Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera invisivel da mocidade. Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que viria saber. Onde lhe faltava a viso, porque as palpebras tinha-as para sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmos, que viam por elle, ahi o soccorria a lio dos poetas bucolicos com que foi creado, ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que no estava menos proximo. O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da primavera e a melopa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se formou a sua alma, por isso no ha ahi melhor poeta do amor, da melancolia, das flres, das aves e das creanas. O livro _Primavera_ caracterisa-o perfeitamente; esto n'elle todas as branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as douras ineffaveis da sua alma. Uma vez s, como j dissemos em outro lugar, cahiram as boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das paixes. Os _Ciumes do bardo_ e a _Noite do castello_ representavam um esforo ao qual se devia seguir, como a claridade da manh aps a negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou depois. Ha d'estas contradices na vida dos escriptores, e ns, que voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepes, no podemos deixar em silencio a seguinte, que flagrante. Gomes Goelho, j gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos soffrimentos, uns versos scintillantes de _verve_ peninsular, que desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor. A poesia de que venho fallando destina-se _Grinalda_ e, por obsequio de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras: Ai, quem me dera em Sevilha, Onde a travessa hespanhola Sob a elegante mantilha As negras tranas enrola. Na arcada da s formosa Vl-a entrar, tal como a sonho; Entre _coquette_ e piedosa, Rosto, entre grave e risonho. Mergulhar na agua benzida A mo pequena e elegante E entre a turba, alli reunida, Distinguir o olhar do amante. ........................................................................ A vida de Castilho tem sido o caminhar emps idas generosas, principios nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade, ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem Poeta ou lhe gritem Utopista. No ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido aggredido e que mais razes tenha para ser respeitado. As vagas que se levantam no esforo de quererem submergir a sua cora litteraria, batem d'encontro ao throno em que a patria j collocou, e para sempre, o cantor da _Primavera_, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se. Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, no ouve siquer o acachoar das aguas impuras que no chegam a macular-lhe as plantas. Est embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas dces affeies. Um dia, desceu do solio litterario e entrou escla, levando comsigo a alegria, a musica, o amor pelo estudo. Cercaram-no umas creanas pallidas e concentradas, que lhe faziam d, e essas creanas, volvidos dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, j no riscavam os seus livros, e do intimo de suas almas immaculadas abenoavam o poeta cego e velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escla. Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de todos os dias. As multides gritavam Utopista e as vozes esmoreciam no ar. No lhe deixaram fazer da escla-cemiterio, cheia de escuridade e tristeza, a escla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que elle depozesse o livro da primeira communho espiritual, mas no lhe poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva escla, s creanas e legio dos seus poetas romanos com os quaes se entende muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino. Arrancaram-lhe das mos o cathecismo preceptor, certo, mas no lhe poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeou a cantar os seus idyllios, a suspirar as suas dces elegias, pedindo aos seus amigos que o deixassem morrer com as mos postas sobre as cabeas de seus filhos e com a lyra encostada ao corao. No quer outra indemnisao em quanto fr do mundo; depois que a morte arrefecer a escurido dos seus olhos, pouco , e de poeta, o que elle deseja para si: Depois que entre os abraos delirantes De todos os que amei, findar meus dias, Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil. Para marcar da sepultura o sitio, Sobre o cadaver, que vos foi to caro, Mangeronas plantai, cuja verdura Em roda fechem variados lirios. Na raiz funda de soberba olaia Pouse a minha cabea, e o tronco amigo Sobre mim curve a copa florecente. Mil piteiras unidas, ostentando Na hastea vaidosa as flres amarellas, Em quadrado no grande me defendam Das incurses das cabras roedoras. Em meu tronco se escreva este epitaphio: _Foi poeta amador da natureza: D'entre as sombras ancioso a procurava, Qual terno amante a bella fugitiva._ Sobre isto pendurai sonora flauta, Que se revolva discrio do vento. No cerque os ossos meus, no mos ensombre Nem teixo nem cypreste; arvores quatro Quizera s no meu jardim de morte. N'um canto a laranjeira graciosa, Que mescla util e dce, a flr e o fructo: N'outro a figueira sob as amplas folhas Modesta occulte seus nectareos mimos: Defronte um pecegueiro em fructos mostre Que amavel pudor, quando enche faces De pennugem subtil inda cobertas: No ultimo canto... (a escolha me confunde) Plantai no ultimo canto uma ginjeira, a arvore da infancia at na altura; D'esta por sua mo colhe um menino A mui ridente baga, e ri de ufano. Alguns tempos depois que a fria terra Meus restos encerrar, minha olaia Vs, meus amigos, vs dareis meu nome, Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella. Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem prevalecido o mesmo e j se tornaram em sazonados pomos de abundante outomno as flres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma conserva-se tranquilla, cheia de luz como o co da Grecia, sob o qual poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu Horacio. O temperamento de Lopes de Mendona era prophecia da fatalidade a que devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e morrer, como o cysne da tradio fabulosa, ainda poeta. * * * * * VI Julio Cesar Machado A photographia o folhetim da optica, assim, como o folhetim a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda j agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim a reproduco dos acontecimentos, comeada e concluida n'um instante, a photographia a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'um _atelier_ elegante. Quem tem pretenes a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificaes de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile. Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeioando um trao, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme teno de mais tarde substituir o carto pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que um retrato incompleto, mas que todavia um retrato. Do mesmo modo, quem se senta mesa de trabalho para traar um esboo dos acontecimentos, para consignar as impresses do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'manh, quem no quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso bailarina nova, atirando um punhado de flres s alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva cr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que sala esplendida e perfumada que o espera. A misso do folhetim pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um s jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: Bem sabe elle como rapido o photographar, e bem sabemos ns que no devemos pedir-lhe mais que o esboo das cousas, aperfeioado depois pelo sexto sentido do talento. Em Portugal, o folhetim comeou grosseiramente no Almocreve das petas e no Barco da carreira dos tolos como notou Rebello da Silva. Jos Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da poca, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graa saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto s combustes da inveja e do odio. Era o embryo do folhetim, preparado portugueza velha e pautado pelos modlos da _Eufrosina_ de S de Miranda e do _Fidalgo aprendiz_ de Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como ns hoje o conhecemos, a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flres como disse tambem Rebello da Silva, veio de Frana junto com os primeiros albuns que de l recebemos, ao tempo que Julio Janin era moo, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar. Garrett, que estudou l fra as mais notaveis evolues da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante, _chic_. O mesmo no aconteceu ao snr. Alexandre Herculano, que estudou tambem na escla do estrangeiro durante o tempo da emigrao, mas cujo temperamento era adverso s amenidades da litteratura ligeira. hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubraes historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o _Cames_, e _flanava_ distrahidamente pelas margens do Sena. Era isto--Garrett, o _flaneur_; Herculano, o philosopho. Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro _flaneur_. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porm o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubraes jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, n de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prlo impaciente. Esse homem appareceu,--foi Lopes de Mendona. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,--o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio d'aquella poderosa imaginao crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Ento appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperana, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o co da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperana. No basta ser feliz para o ser verdadeiramente. preciso, e n'isto est tudo, amar a felicidade. Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar inquestionavelmente a primeira condio para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia no a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, l lhe vinha uma sombra alma, mas as tristezas d'estes temperamentos so dolorosamente suaves. Passava a nuvem;--sonhava de novo com a esperana. Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdem-me este orgulho. O author dos _Contos ao luar_ entrou no mundo ssinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o brao de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, s com extrema difficuldade poderia nortear a minha educao pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de Jos Estevo que lhe franqueou as columnas da _Revoluo de Setembro_. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas do _Jornal do Porto_, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro po da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranas; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos atravs da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,--mais feliz, pelo menos. Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? No sei; o latim de certo no foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nos _Quadros do campo e da cidade_. A esphynge da latinidade tambem me no amedrontou a mim; conservo ainda saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas que foi meu mestre. O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a mathematica sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais que o snr. Albuquerque, do lyceu, um homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem. Mas eu j tinha no corpo a peonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que no pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu. Em razo d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que no vivi bem com a arithmetica, no quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos. N'este horror mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: Teremos ns sepultura com lagea!? Conta com um cmorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me alm da morte! Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que amanh ha-de gritar a maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz nivelar com Julio Machado. No ha tal; previno o commentario. Basta dizer-lhes que ha sete annos,--era eu uma creana,--li pela primeira vz, na Foz, as _Scenas da minha terra_ e que me demorei longo tempo diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mi, no sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era ento j um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes, ainda era uma creana. Applaudi-o ento, applaudo-o hoje e applaudil-o-hei sempre. Mas era d'elle que vinhamos fallando,--era do seu temperamento que queriamos fallar. Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus folhetins, na doura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo. O temperamento de Julio Machado est no _Pedrinho_ dos _Contos ao luar_, na _Marcolina_ das _Scenas da minha terra_, no _Romance d'uma alma_, das _Historias para gente moa_. So tristezas suaves,--deliciosas tristezas! Elle, que foi o successor de Lopes de Mendona, deve inquestionavelmente ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido. Escreve tranquillamente, por isso se no tem gastado. As viagens so uma tendencia do seu espirito. ainda o folhetim em aco o que elle quer. Mas no vai viajar de afogadilho, no pensem, como se lhe fosse na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes. Quando parte, no diz a ninguem onde esto os seus papeis importantes para o caso de no voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,--para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de _touriste_, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos. Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraa pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um _bouquet_. elle mesmo quem nol-o diz: De mais a mais, no sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e at cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle que o barco se no perder. Accusam-n'o de desleixado na linguagem. um defeito. Quem o no tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra esto tambem no caso de ser apedrejados. Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas _Viagens_, que o folhetim mais folhetim que se tem feito entre ns, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim no se est a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! no, o folhetim tem a graa e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz ao acaso, tudo a brincar, tudo para entreter, segundo uma expresso de Julio Machado. Quando elle publicou os _Contos ao luar_, sahiram-lhe ao encontro os grammatices, os nossos graves grammatices--que graa!--por haver attentado contra a virtude da syntaxe, comeando o seu livro por uma conjunco copulativa. Era certo que elle havia escripto--... E depois, eu no sei bem porque chamei ao meu livro _Contos ao luar_! Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, no comprehendiam os grammatices. L estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas no eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras. Os grammatices so como os diccionarios;--o que mais tem so palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vo aularam a critica, e os apostolos da conjunco morderam-se, e o livro teve tres edies, para dizer tudo d'uma vez. J que me referi n'outro lugar ao _Romance de uma alma_ quero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,--um conto adoravel, dce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradies do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. Jos Gomes Monteiro. Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias d'esses gentis _bouquets_ que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanas. Algum dia dir de si a historia da litteratura patria que foi um escriptor sempre moo, que sabia com o seu espirito enganar a idade, quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um bonito _bouquet_, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma ruga e de uma can igualmente traioeiras, tiveram inveja sua mocidade e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flres. Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto folhetinista. Assim devia ser; sobre o pedestal que se colloca a estatua. N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em Portugal o que fez Emilio Deschanel em Frana, com uma unica differena--que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, no na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas ramificaes, o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um certo numero de individuos. Tentei estudar o temperamento no estylo. Mais que nunca se me figura opportuna a occasio para trazer em minha defeza as palavras de Deschanel: Paradoxo! diro uns. Banalidade! clamaro outros. Que se entendam uns com os outros at chegarem a um accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se verdadeira? E no ser sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fr precisa e sincera? E depois, receioso de que supponham que se d ares academicos, acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: Imaginai que folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de photographias; pouco mais ou menos o que vos eu apresento. Isto escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razo. * * * * * EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIA Carta do snr. Alexandre da Conceio ao author _Ill.mo amigo._ Na ultima das suas _Cartas do Inverno_[5], nas quaes o meu amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante questo do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores, vem l uns piparotes mathematica e aos mathematicos que eu no posso deixar passar sem reparos. Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas no so to destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo aprega e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes--veja que ambies de erudio as minhas!--no ha concepes nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas. Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre ns infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginao, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina do _Times_. No ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traduco mascavada, os _Tres Mosqueteiros_ ou a _Menina do 4. andar_, que se no julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impe a obrigao de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto. Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperanosos, de moos cujo talento se no podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria. verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho srio, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassido e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, s ante-camaras dos ministros ou s salas de espera dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos. Assim como ha porm intelligencias com aptido singular e admiravel para a comprehenso das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero a do meu amigo, que tomam conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascena, que no comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstrao d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mo de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1. tomo do _Francoeur_ disse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento no nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente na numerosa ala dos _mergulhadores_, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as ms linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a _loureirice_ com tres rapozas, vr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcanar com a approvao o premio dos seus esforos, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrio aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irms, sem receber d'elle uma reprehenso, o que era o peor de todos os castigos. Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo. Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, at completar a minha educao profissional. Nunca porm me pude vr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para c vindo nos enxurros da litteratura franceza. O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para no exercer a minha profisso do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista. Com a propria experiencia pois lhe afiano que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginao nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestaes do espirito humano s a musica me tem causado to intimas sensaes de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevao. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de ns quando chegamos posse plena d'uma verdade mathematica. ento que se comprehende bem que o homem no vive smente de po mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades. E depois, meu amigo, que ida se ha-de fazer da arte, se frmos apregoar que as sciencias exactas, que onde a verdade mais luminosa se apresenta, so inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia o rigor logico dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de no sei qual dos seus livros que a algebra uma poesia. um acerto isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa do a comer aos filhos corao de leo para os tornar robustos e corajosos. O corao do leo para o espirito o estudo das mathematicas. No ha nada mais sadio nem mais nutritivo. uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida. a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educao, e que nos levanta o entendimento quella altura d'onde se no podem j enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas com os ouropeis da phantasia, e que so to futeis e to ridiculas, como os interesses que sustentam. Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu entender, no pde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; a Astronomia. Galileu, Kepler, Newton e Laplace so poetas de mais alto cothurno que Homero e Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. No grite d'el-rei contra a blasphemia litteraria; olhe que verdade isto que lhe digo. Se tirar aquelles grandes vultos da sciencia a imaginao, o enthusiasmo, a intuio prophetica da verdade, as allucinaes do ideal, este exaltado lyrismo que o amor sofrego da verdade produz nas intelligencias privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens craveira vulgar de quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas no m'os eleva nunca altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente. Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenes de possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepo e em sublimidade de idas com a theoria da attraco universal de Newton ou com a hypothese sobre a formao dos mundos de Laplace? Que nome seno o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se fosse millionario no pagaria por bem maior preo os calculos originaes de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante? E no me diga que esta poesia da sciencia s accessivel aos espiritos iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento e de gosto litterario, la-lhes o melhor trecho do _Hamlet_, o melhor canto do _Inferno_, a melhor composio da _Lenda dos Seculos_, e depois faa-lhes uma exposio singela do systema dos mundos, narre-lhes a historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e ver qual das cousas as deixou mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia. Em si, que um espirito serio e estudioso, no quero eu vr no seu horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas que ns padecemos d'uma profunda doena social que se revela muito n'esse desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o no se contentar to facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasio que trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a consciencia adstricta gleba dos empregos publicos, e toda a alma enfeudada aos preconceitos da opinio do maior numero. Olhe que seria esta questo. D-me Frana mais mathematicos e menos romancistas, mais arithmetica e menos versos, e Sedan impossivel e os incendios de Paris sero irrealisaveis. A victoria o resultado da superioridade dos vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppe a inferioridade dos vencidos. O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais cedo derrotar o genio romantico e futil da Frana contemporanea. Era uma guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna, que talvez o encontre disporto a dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, _apesar_ de saber tambem mathematica como poucos. E, j que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia _O Firmamento_, cuja inspirao elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos numeros, que muita gente suppe arida e esterilisadora como um livro de conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e robusto das verdades scientificas; leve-a pela mo aos grandes templos da vida moral; ensine-lhe a historia, que a epopa da humanidade; ensine-lhe a geologia, que a historia da terra; ensine-lhe a astronomia, que o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que o homem; a alma d'esse homem, essa, que a no procure n'esses restos, mas no proprio espirito d'ella, na memoria das suas boas aces, na recordao, que ella deve ter sempre viva da sua dedicao familia, do seu amor ao trabalho, da sua paixo pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua modestia nas alegrias, do seu respeito virtude, da sua aspirao ao bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e como cidado, pois que n'essa recordao na alma ingenua d'uma filha vai a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar. Creio que abusei muito da sua paciencia, no abusei? Que quer?... custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas. No torne, olhe que eu estou de atalaia, e ento ai da sua paciencia. At l e sempre creia-me seu amigo e admirador, Bragana, 22 de Janeiro de 1871. _Alexandre da Conceio._ [5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins do _Jornal do Porto_, de dezembro de 1871 a maro de 1872. * * * * * Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio _Meu bom amigo:_ Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos folhetins que tenho publicado no _Jornal do Porto_ sob o titulo de _Cartas do Inverno_, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira conservao das nossas relaes amigaveis e litterarias. Sahiu o meu amigo _pela honra do seu convento_, levantando umas ligeiras insinuaes com que eu no esperava offender a mathematica e muito menos melindrar um s mathematico. Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal. Foi seu proposito mostrar que a mathematica no pde deixar de ministrar litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar s convices profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns tites celeberrimos que se levantaram a uma altura a que no poderam chegar os gigantes da fabula. Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. No me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuio souberam deletrear as bellezas infinitas da epopa dos astros. No me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o co. Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar s eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual no ha honras nem grandezas comparaveis. O rei Jorge III, que lhe fez merc d'uma penso da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardo irrisorio ao homem que devia ter o co por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas so as aguias audazes que roaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses no fallava eu, porque os respeito tanto, quanto me vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica. Eu no nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto esse estranho minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;--a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapaso: Em geral estimam-se muito s mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradico, concluses de systema e de concesso, opinies de seitas, conjecturas e paralogismos; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idas, e eram baldas de realidade. Se eu lanasse mo d'esta arma, movido de proposito ou convico, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opinies tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas no passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para ns. No combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que pde. Peo vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. No aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cmoro um ramo de flres. Isto o que o meu amigo no pde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposio, publico. Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de m doutrina e peor linguagem, no so uma creao do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheo muitos, infelizmente. Ora esses nem tem amor litteratura nem sciencia. So uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio at ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitao da saturnal. Eu sei que no escureceu o seu animo a ida de se referir minha pessoa. Fao-lhe inteira justia e correspondo sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma alluso encapotada. A esse, no a si, digo eu que, no tendo merecimentos litterarios para reivindicar, no estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me ento contente, e mais ainda quando, ao romper da manh, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeio matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braos alvejantes. A essa hora, quando ainda no martelam as officinas nem estrondea na rua o prego dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que esto despertos, o moinho e sou eu. Basta isto. Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que so grandes em differentes ramos d'estudo. Esses s sahem incolumes do exame de geometria,--quando sahem--depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinao natural do seu espirito d'elles. Lembra-me citar-lhe um que tenho conta de grandissimo poeta;-- Gonalves Crespo, o author das _Miniaturas_. Bom que haja sempre aptides diversas; s assim poder florescer um estado. Os que como o meu amigo comearam por poetar gentilmente e acabam por combater as influencias do romantismo futil e estouvado so raros. Felicito-o sinceramente pela perseverana com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me no afiguram to nocivos como o meu amigo suppe, antes, a meu vr, eram mais um titulo de respeito para a opinio que geralmente se frma da sua intelligencia. Alguma cousa porm lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,--foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire. No perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso. Voltemos porm aos mathematicos. Em duas classes os divido eu; mathematicos-_artistas_ e mathematicos-_operarios_. Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, so os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeas e que esto narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura. Um s defeito tiveram alguns d'elles, a meu vr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos pramos do co, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram to alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse. Lalande proclamava que tendo estudado o co no encontrara por l vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleo que se no seu systema de mechanica celeste no tinha fallado de Deus, era s porque no urgira d'essa hypothese. So maneiras de vr. segunda classe dos mathematicos, taes como eu os distingo, pertencem os executantes, os que no sabem da sciencia mais do que o que est n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que no dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a v magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicao do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que no fr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes so os que eu detesto, porque matam muita aptido nascente com grandes doses de pastelo algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle no tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento. Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, no pelo que toca a extenso, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,--os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operaes arithmeticas que lhes commettem. Mais nada. A algebra, disse o adoravel Garrett, bom contraveneno para os empeonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, no me pde o estomago com ellas. Ora eu estava empeonhado, mas no me pde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fra. Esta distinco que eu fao entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle no _Genio do Christianismo_: Todavia no ser talvez difficil pr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differena d'opinies vem do erro commum, que confunde um _grande_ com um _habil_ mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverana, um vulgarissimo espirito pde entrar por ella dentro com galhardia. ento uma especie de machina geometrica que executa de per si operaes complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta a razo, porque tal que hoje tido conta de sabio ser acoimado de ignorante pela gerao futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginao; sorriem de compaixo quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religio; _conhecem_, dizem elles, a natureza. No ser para adorar-se a _ignorancia_ de Plato, que chama natureza uma _poesia mysteriosa_? Ha uma applicao da mathematica, que, com quanto se me no afigure poetica, no merece que se maldiga, porque util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto no me parece poetica a convivencia com o jalo e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas _Alvoradas_. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braos com o pantmetro ou annotando o seu livro _Manual do apontador_. Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer. Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta. Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras d'astronomia a mulheres. Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, roda de Maupertuis, no jardim das Tulherias. Ora estas sabenas d'alto cothurno, que se conversavam nas cas do baro d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza ao desvergonhamento, a que s pde ser cauterio a verdadeira religio; no a religio das misses e dos missionarios, mas a religio de Deus. O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da mulher que sabe mais do que latim. Quero instruco para a mulher, grito por ella; mas ha-de ser uma instruco rosada, loura, como as mais formosas tranas, casta, pura, limpida. Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes. Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas as no soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam correntemente as quatro operaes elementares. o que minha filha ha-de saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abenoar algum dia a discrio com que eu a hei-de educar. debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o que seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro Conceio, no lhe hei-de ensinar a ella a historia, que a epopa da humanidade, mas unicamente da historia o preciso para ella no aborrecer a humanidade. No quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio. Eu no entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mi. Isto no dizer que a maxima erudio seja a maxima desmoralidade. No; eu quero que a instruco seja para quem a pde professar, e que se estude quando se deve estudar. meu proposito que minha filha no ande pelas salas a fazer discursos de varia historia s meninas da sua idade. Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lr um dia, no levam doutrina que a faa corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author d'aquellas novellas. No fallemos mais de minha filha, que dorme no bero os sonhos auriluzentes da primeira infancia. No quero passeal-a na imprensa, depois de a ter roubado s caricias de sua mi. Aqui tem, meu caro Conceio, o que se me offerece dizer-lhe. Peo-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e creia-me sempre, amigo dedicado e sincero discipulo, Porto, 1 de fevereiro de 1872. _Alberto Pimentel._ * * * * * Segunda carta do snr. Alexandre da Conceio ao author _Ill.mo amigo._ Uma declarao antes de mais nada: Agradeo ao seu bom senso e sua lealdade o ter-me feito a justia de no vr uma alluso pessoal e indelicada no esboo que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos _originaes_ e impetuosos se no podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. No podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboo, primeiro: porque seria isso uma grosseria incompativel com a minha educao; segundo: porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheo o talento, a elevao do caracter, o amor ao estudo e a dedicao ao trabalho. Posto isto como mordaa aos malevolos ou aos futeis, e no como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeo com a plena consciencia de que as no mereo seno sua amizade e no sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar. Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questes, qual d'ellas mais importante, que eu lhe no posso levantar todas, porque me no sinto com competencia para tanto, porque me no sobra tempo e porque isso tomaria propores assustadoras para a redaco e para os leitores d'este jornal, que no pde ser condescendente commigo at ao ponto de arriscar a sua boa reputao. Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptido e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiserao do seu espirito s vezes to finamente epigrammatica. Assignar-se _meu discipulo_!... Eu, seu mestre!... Em que? No lhe perdo a graa e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que no tenho a consciencia de poder ensinar-lhe regularmente mais cousa alguma; e no me discuta isto, que no soffre discusso seria. Vou pois vr se condenso em dous ou tres periodos umas idas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas no so, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram. A minha sincera admirao pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento at ao ponto de eu no vr mais nada fora d'ellas, de suppr que abaixo das mathematicas tudo futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illuses. Creio que ha salvao possivel fra da minha igreja, e que para divisar uma face verdade no e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151. da _Popa do Navio_ ou para a _alpha do Centauro_. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me no convencer do contrario, que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, no pde por frma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptides intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano s atlantides do ideal, licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento _ priori_, como se diz na logica. O argumento _ posteriori_ est nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginao e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_, theoria que, a meu vr, se pde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginao e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginao e sentimento, esses so espiritos por tal frma privilegiados que resistiram s influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo. Afigura-se-me sophistica esta sua argumentao, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputao; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graa, facilidade e atticismo, que ns todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do _Eurico_ teve forosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco, Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem s alturas, onde ns hoje os contemplamos com admirao, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou l o espirito, nem o talento, nem a graa, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graa, em talento e em originalidade. Um mathematico cabeudo e massador to massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlato e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento. As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres no podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religio. Parece-me, pois, seno demonstrado, pelo menos no destruido pela sua argumentao, que, em principio, o estudo das mathematicas no faz nem pde fazer mal algum ao gosto litterario ou aptido poetica. Deixe-me dizer-lhe ainda: convico minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve vulgarisao dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas. No lhe fallo j da civilizao material do nosso seculo, para cujas maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe notar smente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito scientifico do nosso tempo. A mathematica no inventou por certo nenhuma theoria physiologica, no ditou nenhum tratado de direito publico, no descobriu um unico corpo simples ou a composio de qualquer corpo composto, no acrescentou um s versete aos Evangelhos; mas tem, pela benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras sciencias muito espantalho com fros de verdade; muitas tolices com ambies de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputao de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias, incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de concluses, que so as feies caracteristicas da philosophia contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos eleva, e que nos instrue. porque a poesia ainda se no compenetrou bem d'estas verdades, que ella est representando na sociedade o papel secundario que representa. Como explica o meu amigo este palpavel desamor da opinio publica pela poesia? No nota que a sociedade contemporanea no quer que lhe fallem em versos; e que os no l e que vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appaream? A culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro sociedade ou aos versos?... a sociedade que est acima dos versos, ou a poesia acima da sociedade? Ha depresso no sentimento moral e artistico da sociedade ou ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa, posto que lhe caiba em parte, cabe menos sociedade do que poesia. Isto porm uma questo para largos desenvolvimentos, e eu no quero terminar esta minha carta, que j vai escandalosamente massadora, sem lhe levantar outras duas questes que o meu amigo toca no seu folhetim. A que chama o meu amigo _impiedade_?... s conquistas do espirito analytico do mundo moderno, reforma, revoluo de 93? philosophia raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? critica historica, exagese biblica, a toda esta febre de investigaes que trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmos das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual bispo de Orleans que se arreda de mr. Littr como de um leproso? Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto da palavra e da ida que ella representa, que me no admira vr appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou at o snr. marquez d'Avila e Bolama. O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por excesso de sciencia nas mulheres, e impio--volta a terrivel palavra!--por excesso de philosophia nos homens. Mas onde que est isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o _Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano? Mas quando e onde que a sciencia e a philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e onde que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o absurdo, o preconceito, a _rvrie_? Mas ento voltemos aos cilicios, aos jejuns, aos conventos, inquisio, idade media. Nego com toda a fora das minhas convices, nego com todos os insignificantes recursos da minha intelligencia que a immoralidade to apregoada da sociedade franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego que a impiedade--no me deixa esta maldita palavra!--do tempo dos encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. So absurdas taes supposies perante os principios, so illegitimas perante os factos, so calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia. Agora a questo magna do seu folhetim, a educao da mulher. Sobre este ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom senso e intelligencia eu tanto aprecio, no quer para a mulher a maxima instruco, que d em regra, a maxima elevao moral; no, para todas as mulheres, a instruco professional de que precisa o medico, o jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade, mas esta instruco geral, completa e solida, que d aos espiritos a maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, alma a maxima grandeza moral, ao corao a maxima bondade, pela comprehenso do direito, pelo sentimento profundo do dever. Quer o meu amigo para a mulher uma instruco rosada e transparente como uma meditao suspirosa de Lamartine; no lhe quer ensinar da historia seno o sufficiente para que ella se no faa beata, pelo horror aos seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitao ou por amor aos envenenamentos; no lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou s amigas que a abraam, qual seja n'esse momento a declinao austral do planeta Saturno ou em que phase est o quarto satellite de Jupiter! Eu, francamente, no lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito, clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mi Eva, ignorante como uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma convico, a que eu tributaria todos os respeitos que me merecem as convices sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia instruco, que no vi que dsse nunca mais que petulancia, mau senso e bacharelice s mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade sem lh'a satisfazer, porque as no deixa na completa ignorancia, que as obriga modestia do silencio, nem lhes d instruco regular que produz a sensatez, dizer isto estar a fazer versos quando se trata de formular claramente um principio, e responder com a _aria final_ da _Traviata_ ao X de uma equao algebrica. No posso pois acreditar na solidez das suas convices sobre este ponto, e peo-lhe que, antes de me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de Ernesto Legouv--_Histoire morale des femmes_. Se elle o no convencer, eu perco as esperanas de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da instruco e do espirito da mulher. Creia-me muito seu amigo, Braganca, 7 de fevereiro de 1872. _Alexandre da Conceio._ * * * * * Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio Meu bom amigo: Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares, abundam as palavras e escaca o methodo, a deduco clara, e a argumentao logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta um pouco preoccupado, e eu com mais justa razo o poderia accusar de igual desleixo, o que em si muito mais para sentir attenta a sua intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo. Vejo-me portanto, obrigado a pr nos seus verdadeiros termos esta conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos, foram estes: O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais que o snr. Albuquerque, do lyceu, um homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem. Mas eu j tinha no corpo a peonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que no pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu. Em razo d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que no vivi bem com a arithmetica, no quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos. N'este horror mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: Teremos ns sepultura com lagea!? Conta com um cmorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me alm da morte! Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas no eram to destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida; e finalmente que esta poesia da sciencia no era s accessivel aos espiritos iniciados n'ella, seno que tambem se lhe afigurava muito para ser entendida e afagada pelas mulheres. Esta a summa da sua argumentao. Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas grandes syntheses, nas suas vastas concepes, e que o meu espirito no tinha chegado a este apogeu aonde s podem subir as intelligencias privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o seu esplendor;--que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os outros no vo era j prova mais que sufficiente de que para elles no havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o universo; disse-lhe outrosim que no negava nem discutia que a mathematica fosse um instrumento de verdade, o que no obstante tinham feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto era esse estranho ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que alguns havia que s a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter p nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os regulamentos academicos. Quanlo competencia das mulheres para entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que no era minha opinio dar tamanha latitude instruco feminina. J v que no fui eu que puz esta questo accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu tambem accidentalmente. Deixemos porm isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a unidade das materias que me proponho tratar. Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que expunha as mathematicas elementares na _linguagem hirsuta das cadeiras_, na opinio de Garrett, que amontoava explicaes confusas, citaes nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante. A clareza a primeira condio para nos fazermos entender, e os mathematicos charlates no a podem ter, porque elles mesmos no digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia. Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco preoccupado, diz-me que ha salvao possivel fra da sua igreja, e que para divisar uma face verdade no absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151. da _Popa do Navio_. Isto e o que eu digo simplesmente a mesma cousa; o Conceio est portanto commigo. Se ha salvao possivel fra da sua igreja, o mesmo dizer que se pde ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber grande mathematica. A verdade a crte das idas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas se devem grupar ao servio da intelligencia soberana. A familiaridade com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais curto para chegar verdade, e como o meu amigo observa que ha salvao possivel fra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica no o unico methodo seguro para conseguir tal fim. No sei se ou no, pela simples razo de no saber mathematica. Por isso que eu tinha dito: No nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento de verdade, e mais abaixo: No combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que pde. Peo vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. No aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descanado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cmoro um ramo de flres. Isto o que meu amigo no pde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposio, publico. Como eu no posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo um exercicio de gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do espirito. Mas do que eu no posso duvidar de que as outras sciencias, como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica a unica estrada que leva Roma da verdade, dizendo que ha salvao possivel fra da sua igreja; mais arraigado fico eu pois ao pensamento de que um homem pde ser grande sem a muleta da mathematica. No admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, est apta para abranger todos os conhecimentos humanos. Se porm um limitado peculio mathematico no permitte attingir-se esse grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas respigadas em outros thesouros de sciencia, ento muito para duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha mathematicos seccos de espirito que to pouco se exercitaram n'esse ramo de conhecimentos, que no chegaram perfectibilidade intellectual relativa ou porque a sua intelligencia d'elles pequena, rachitica, tacanha, e assimila pouco, no podendo digerir a variedade de conhecimentos pela sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de cansao e de inepcia porque a cabea se lhes nega a ir mais longe. facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia d'homem para homem segundo as mesmas condies physicas do cerebro. Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos, nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, no ha difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; so como os Alexandre Magno e os Napoleo que no recuam diante da metralha inimiga e vam no corcel impaciente at que a morte lhes arrefea o sangue nas vas. Da theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_ deduz o meu amigo o seguinte argumento: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginao e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginao e sentimento, esses so espiritos por tal frma privilegiados que resistiram s influencias esterilisadoras do numero e do caloulo. Esta maneira de deduzir que a mim me quer parecer extremamente sophistica. Ento o meu amigo acha que se pde sujeitar a influencias materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer ento medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um s grau de desenvolvimento intellectual, no teriam hoje meno especial os Newton, os Galileu e os Laplace. O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua rara intuio todas as difficuldades e devassou os mais reconditos segredos da arte dando ao mundo o _Tractado da harmonia_[6] um verdadeiro monumento que no poderia ser escripto por qualquer executante secundario da orchestra de S. Joo. E porque no poderia? Segundo as suas concluses, porque a musica os fez mirrhados e massadores. Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos quinze annos; logo, ainda segundo as suas concluses, foi porque resistiu s influencias esterilisadoras da poetica. No sophisme, meu amigo; bem sabe que ha aptides excepcionaes e especiaes, que os Newton e os Victor Hugo so grandes porque no so vulgares. Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo ter aptido natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos considerar irms gemeas. Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a geographia e com a historia. Todavia esta affinidade no se d a meu vr entre a mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela sensibilidade, pela imaginao, e a outra pela intelligencia, pela razo. preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta: Parece-me, pois, seno demonstrado, pelo menos no destruido pela sua argumentao, que, em principio, o estudo das mathematicas no faz nem pde fazer mal algum ao gosto litterario ou aptido poetica. E na primeira dizia que dessem Frana mais arithmetica e menos versos, e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradico. Ento foram os versos que mataram o calculo,--foram as demasias do corao que allucinaram a cabea. Portanto uma cousa e outra so incompativeis. Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devra a sua reprovao em mathematica s influencias nocivas da poesia, e que s combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento. A mathematica dilata a razo, como a poesia dilata o corao. Uma vai aps a razo, a outra aps a sensibilidade, e tanto isto verdade, que os grandes litteratos so achacados s irritaes nervosas, ao _genus irritabile vatum_, como diziam os antigos. O melhor poeta ser o que sentir melhor; o maior mathematico ser o que calcular melhor. Portanto, indispensavel uma organisao especialissima para ser tamanho n'uma como na outra. Lopes de Mendona que tentou passar das amenidades da litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administrao, de tudo o que era adverso sua inclinao natural, acabou por se perder para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura. A nossa conversa fica n'isto: No nego que a mathematica fornea processos seguros para a percepo da verdade, nem o meu amigo affirma que s pela mathematica se chegue verdade, o que o mesmo que dizer que sem se ser forte em mathematica, se pde ser grande em qualquer outra cousa,--em litteratura por exemplo. Fao entre os mathematicos, como entre todas as sciencias e artes, a distinco natural que offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo antagonismo natural de modalidade, como se d por exemplo entre as aves e os peixes cujo fim commum a vida, com quanto umas vivam no ar e outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinio mostrando que a poesia no seu proprio espirito s cedeu campo mathematica, depois que a expulsou a ella, a poesia, e que a Frana no attingiu o _fim_ que devia attingir, porque empregou o _meio_-poesia, em vez de empregar o _meio_-mathematica. Vamos agora que o meu amigo chama _magna_ questo da educao da mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase responder com a _aria_ da _Traviata_ ao X de uma equao algebrica. Isto ou gracioso ou serio. Se gracioso, improprio d'uma questo de doutrina, e se serio, colloca-se o meu amigo na posio de no poder continuar uma discusso com um contendor que larga a cantar desgarrada quando o meu amigo lhe est expondo argumentos, e corre alm d'isso o risco de se contradizer porque no se concebe como o Conceio, acreditando que eu estudo, suppe que eu possa cantarolar quando o meu amigo raciocina. Eu chamo _impiedade_, no nosso caso, ao desprezo pela religio e portanto incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais a mulher, roubou-lhe a meu vr a timidez que lhe natural, e portanto a candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questo no _Jesus Christo perante o seculo_. Na minha opinio a mulher deve ter a instruco da preceptora, no a erudio de uma academia. J v que no quero a mulher ignorante mas que tambem a no quero sabia. O Legouv, cuja leitura me recommenda, j era meu conhecido,--estava na minha estante. Acho a _Histoire morale des femmes_ um bonito livro, mas no um livro irrespondivel, irrefutavel. Vejamos o capitulo _Educao_ que friza ao nosso caso, e permitta-me que lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas. Cita Legouv o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada, enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que no o mesmo que comprehender melhor. N'outro relano diz Legouv: Ser esposa e mi simplesmente dirigir um jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude de todos, que sei eu, simplesmente amar, orar, consolar? No! tudo isso; mas mais ainda; guiar e educar, por consequencia saber. Ora guiar e educar saber, mas saber astronomia no guiar e educar. Dando-se to lata instruco mulher, occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes,--o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuio de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funces educativas do esposo. Tinha muito que lhe dizer, mas ns tratamos tantos pontos ao mesmo tempo, que impossivel continuarmos assim. Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia. A Europa est n'uma verdadeira poca de transio. Tudo fluctuante, incerto. No tarda, segundo penso, uma evoluo geral, que se presente atravs dos acontecimentos presentes. A sociedade est em ebullio e por conseguinte falta de instruco; a litteratura resente-se d'este estado geral, e por isso produz pouco e mal. Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se retiraram da arena, e nem a sociedade l, porque no entende, nem a poesia canta, porque no tem voz. O que se d entre ns esta-se dando actualmente em Frana onde o theatro vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros so apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza. Sedan parece-me que no um facto sem proximas consequencias europas. A litteratura e a politica esto n'uma indolencia esterilisadora, e isto assim no pde continuar. A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendona: A nossa decadencia litteraria retrata-se com a mais severa exactido nos factos da nossa historia politica. O mesmo em todos os outros paizes. Estas evolues so fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos corpos no podem subsistir sem a renovao incessante da materia. As naes so corpos collectivos, e esto sujeitas a esta lei de renovao perpetua. A poesia est defecada porque respira no meio d'uma sociedade igualmente defecada;--d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto o que me parece. Deixe-me,--e j me ia esquecendo,--levantar uma phrase sua a respeito de Chateaubriand, o qual se esqueceu de metrificar o _Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano. Eu no esperava isto de si, meu caro Conceio. O _Genio do Christianismo_ afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente. Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes de Mendona tambem, e Garrett escreveu simplesmente no _Tractado da educao_: Mr. de Chateaubriand diz em sua obra _immortal_ do _Genie du Christianisme_, etc. O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendona so uns futeis. Visto que me no permitte que publicamente confesse que tenho muito a aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne seu admirador, Porto, 20 de fevereiro de 1872. _Alberto Pimentel._ [6] Ns vmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento mediocre. Aqui o genio no se pde medir pelo instrumento material. Vmos as leses do instrumento compensadas pelo _genio_ do executante, tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa emoo nas mos d'um _artista_ arroubado e sublime. Vmos um Paganini obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar procuraria em vo n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do mais habil fabricante; vmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos os seus successores. Em todos estes factos, indubitavel que o genio no se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do instrumento de que se serve. PAULO JANET--_Le cerveau et la pense._ O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao _Eurico_: Se a arte fra facil para todos os que tentam possuil-a, no nos faltariam artistas! * * * * * Terceira carta do snr. Alexandre da Conceio ao author _Ill.mo amigo._ Este nosso palestrear leva geitos de no terminar este anno, e estamos apenas em principios de maro. Em cada folhetim seu surgem a par da primitiva questo, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro da _triste figura_, outras questes qual d'ellas mais grave e mais complicada. Vamos mais uma vez primeira questo, a vr se conseguimos entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca. ou no verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim, revela manifestamente a opinio de que o estudo das mathematicas inimigo inconciliavel da aptido poetica, pois que muitas das nossas melhores reputaes litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco, etc., mostraram com o seu muito amor s letras e s musas horror igual pelos numeros e pela algebra? Creio que verdade, e esta opinio j o meu amigo concordou que no segura, pois que me diz na sua ultima carta: No admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, est apta para abranger todos os conhecimentos humanos. Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se _pde_ attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual--o que no implica que esse grau de desenvolvimento se no possa attingir com outra qualquer ordem de estudos--e confessa mais que uma intelligencia chegada a essas luminosas alturas est apta para a comprehenso de todas as verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora isto exactamente o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o comeo, pois que se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o maximo grau de desenvolvimento intellectual no incompativel com o desenvolvimento da aptido poetica, claro que, _em principio_--que, como todos os principios, tem as suas excepes--o estudo das mathematicas no faz nem pde fazer mal algum ao gosto litterario ou inspirao artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que no sou eu que estou de accordo comsigo, mas que o Pimentel que se pz de accordo commigo, no pela fora dos meus argumentos, que so d'uma debilidade lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei a attentar. Depois d'isto ser desnecessario dizer-lhe que eu no chamo aptido poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua accepo mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi nos ministram quotidianamente, no serei eu que o duvide, que com as mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palr da lua, s brisas, alvura dos lirios, modestia das violetas e a outras especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas almas a sublime loucura do genio, no creio, nem o meu amigo o pde crr tambem, porque a poesia assim comprehendida a manifestao da intelligencia no seu estado de graa. Esta questo por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada a apparente contradico que o meu amigo notou nas minhas idas sobre este assumpto, termina aqui, porque isto vai tomando geitos d'uns _dize tu direi eu_ interminaveis. Vou pois responder contradico que me aponta, e passar a conversar comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim. Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos no so contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto litterario, estou em opposio commigo mesmo quando avano que se dessem Frana mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel. Crivei este periodo umas poucas de vezes e, parte o joio dos meus defeitos grammaticaes--com que j me no afflijo porque estou calejado no peccado--no achei cousa que se parecesse com uma contradico. Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questes mais serias com a leviandade que lhes propria, de fazerem romances quando se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de discutir sciencia, de sonharem theorias de governao platonica quando se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem s turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas e defender a patria. Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo no podia deixar de entender assim. Que contradico ha entre isto e a minha these de que o estudo das mathematicas no pde ser prejudicial aptido poetica? Pde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo rebeldes ao senso pratico e comprehenso das questes positivas? Creio que no, porque sendo a litteratura, como no podia deixar de ser, o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma dada poca, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e o que se est vendo em Frana actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda a parte em identicas circumstancias: falta de tino pratico, de seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convices corresponde o abaixamento litterario filho d'essa depresso de espirito e de caracter. Menos contradictorio com as minhas opinies actuaes o facto que me aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas contemplaes astronomicas; j acima lhe disse que foi com as mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_, e eu nunca dei outra. Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim: facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia de homem para homem segundo as mesmas condies physicas do cerebro. Se no se offende peo licenca para lhe dizer que eu estou na innocente persuaso de que a physiologia ainda no chegou a averiguar um facto to importante, a no ser alguma physiologia official _ad usum delplini_. Acredito mais que a physiologia em questes de analyse organica, quantitativa e qualitativa, est ainda muito quem das suas elevadissimas aspiraes, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_ me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente resoluo de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz em S. Bento. Isto porm uma questo incidente, que eu no posso nem sei discutir. Adiante. Apesar de ter o Legouv na sua estante, apesar das minhas amigaveis reclamaes sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a educao litteraria completa faz mal mulher e acrescenta: Dando-se to lata instruco mulher occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuio de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funces educativas do esposo. O meu amigo cr que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me, por graa, a caturrice da distinco mathematica? Mas como quer que haja equilibrio se as duas foras que solicitam a familia so desigualissimas e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que v o meu amigo na familia moderna em geral, e no n'esta ou n'aquella familia especial que honrosa excepo regra? Marido e mulher so duas creaturas que se no conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta, funccionario, politico, deputado, escriptor, poeta, homem de sciencia; a mulher no sabe em que elle trabalha, no conhece o que elle estuda, no comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambies, no o coadjuva nas luctas, no o estimula, no o consola, no o anima, por que no pde, por que no sabe, ou melhor, por que ns lhe no damos a fora, por que ns lhe no damos educao. O casamento actualmente, em geral, no a unio de dous individuos, de duas foras, de duas almas para a constituio da familia, esta instituio verdadeiramente divina, por que sublimemente humana, apenas a junco de dous corpos, cujas almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a indifferena, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a crescente desmoralisao dos costumes privados, o celibato commodo e prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das ambies politicas e argentarias, como compensao esterilidade das ambies domesticas legitimas. Vive-se na rua, por que a casa, o lar s serve para l ir comer ou dormir, quando se no dorme e come pelas orgias. A mulher no uma companheira, um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato, que nos arruma o toucador e que nos pe em ordem a mesa do trabalho. D'ahi estes ares ridiculamente protectores que ns nos permittimos com as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que ns lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos sem convices, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vmos obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de sentimentos, este plebeismo de educao que nos faz tributar uns respeitos hypocritas e convencionaes mulher, quando a encontramos nos sales de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela rua. A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal. Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor dos escravos do Brazil, e por que no havemos de pedir franca e logicamente a emancipao para a ametade do genero humano? Pois acham utopia ridicula a emancipao da mulher e no acham grotesca a emancipao do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e brutalisado pelo chicote instruco, igualdade social, do que a mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza de chamar despotismo e brutalidade ao direito da fora. Parece que temos medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do trabalho intellectual da mulher!... Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos opposio! Parece que nos de a consciencia!... Porque no ha-de a mulher collabolar comnosco na obra da civilisao?... Pois a ethnologia nota as profundas differenas de constituio do craneo que caracterisam as diversas raas de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a perfeita igualdade d'essa constituio entre o homem e a mulher, e ns, pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem distinco de raa, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos mulher porque abusa d'elles? Mas como que a mulher abusa d'esses direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois dmos sempre mulher a ignorancia pr dote, e gritamos que lhe faz mal a instruco? E porque que a instruco faz mal mulher e faz bem ao homem? A muita instruco embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo! Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e com effeito essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa, indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta, que as perde, porque sentir, na accepo cruamente physiologica do termo, o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de aptides, mas que ns lhe circumscrevemos aos estreitos limites do trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico. A mulher muito instruida perigosa, diz ainda o Pimentel, por que usurpa as funces educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a no ser os muitos ricos ou os que tenham uma profisso muito especial, educam seus filhos. As funces educativas do esposo!... Mas ento que quer deixar mulher, se at a esbulha do sublime encargo de primeira preceptora de seus filhos? Ns que somos e temos sempre sido usurpadores de taes funces. Eu creio muito pelo contrario que o principal trabalho destinado na familia e na sociedade mulher o trabalho da educao, e para educar preciso saber, e para saber preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe mulher actualmente. convico minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel Legouv, que a sociedade no chega soluo satisfactoria d'um certo numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a mulher no collaborar com todas as foras de que capaz na resoluo d'essas questes. Por exemplo: as questes de beneficencia, de instituies de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia, com as quaes se prende a magna questo do proletarismo e da miseria, s o concurso do espirito feminino as pde encaminhar para uma soluo completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questo do ensino, em que a mulher pde e deve prestar grandissimos servios. Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questo religiosa, esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da hypocrisia, da duplicidade, da indifferena da tibieza de caracter, da frouxido de convices, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de todas as questes sociaes e para a qual no ha Edipo possivel emquanto a sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos, todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da mulher contemporanea. J v a importancia que eu dou educao da mulher; quero essa educao amplissima e to completa quanto o requeira a aptido especial que cada mulher revelar. Quero a sua emancipao intellectual, moral, civil e politica... e politica, creia n'isto, por que no sei recuar nem me assustam as consequencias legitimas de principios que considero verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de utopista, de exaltado e de revolucionario. Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questo, para que o meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis. Espero-o com o respeito que me impe a sua superioridade, mas com a coragem que me do as minhas profundas convices. Vou terminar por hoje. O Garrett, o Lopes de Mendona e outra gente de cothurno disseram cousas muito boas muito bonitas cerca do _Genio do Christianismo_ de Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice certo que, apesar de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um bom livro apenas como produco meramente litteraria, e n'este caso tenho s a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como livro de historia porm, e elle tem pretenes a isso, permitta-me dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que no fao ao livro grande injustia, creio eu. O meu amigo pensa porm d'outro modo, e eu no lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre seu amigo e admirador, Bragana, 3 de maro de 1872. _Alexandre da Conceio._ * * * * * Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio _Meu bom amigo:_ Conservo-me impenitente. No me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceio ter j comeado a cantar-me piedosamente o _De profundis_. Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellio da margem do imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me com a sua argumentao um pouco sophistica, certo, mas sempre habil e benevola. No acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos contendores, como v; ella que de per si mesma, como o meu amigo deu a entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se est contorcendo nos derradeiros paroxismos, porque realmente no tem vida para mais. Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinio, que se me afigura sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde comecei a pugnar. A mathematica uma sciencia positiva, em que a razo caminha de demonstrao em demonstrao at chegar verdade final,--a concluso. Por conseguinte pde-se ter conta de gymnastica intellectual, que, fora de evolues trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella cultivado as eminencias olympicas, defesas vulgaridade chata. A litteratura caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe, desce, doudeja, vive da imaginao, por ella e s para ella, porque muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira uma fico, uma utopia, um ponto vago, emfim. por isso que os grandes poetas, e os grandes artistas tambem, so uns doudos sublimes, que pensam umas chimeras cr de rosa que a multido no entende; e por isso que antes querem morrer abraados ao seu ideal do que transigir com a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico no phantasia, no devaneia, no sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um calculo. O poeta livre, pde escolher voluntariamente o seu norte, pde amarar a gondola da sua imaginao por aparcellados pgos, como Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia, como Lamartine. Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio, em Dante, em Cames, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo mathematico, a raes de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido e uma lousa funebre. No quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das vezes o que lhe acontece renunciar gloria d'um pergaminho academico para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. como se transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina florida, a uma charneca solitaria, coberta por um co plumbeo. E resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz intima lhe diz que a sua misso cantar como os rouxinoes dos salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansao modulando porfia com o echo melodioso do seu ideal... Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica. Disse eu e repito-o: No admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, est apta para abranger todos os conhecimentos humanos. Ento um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou uma longa educao scientifica, que sujeitou a razo a uma trabalhosa gymnastica intellectual, no estar mais habilitado para comprehender toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que no sabe analysar grammaticalmente uma orao? De certo que sim; isto intuitivo a meu vr. Ora o grande mathematico pde comprehender Homero, tel-o cabeceira como Alexandre, mas o que no pde conseguir de certo, salva uma ou outra rarissima excepo, escrever a _Illiada_, e ser Homero. Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, no comprehender melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton, apesar de reconhecer comsigo mesmo que no nasceu para se nivelar com Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto intuitivo. O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flres, os versos e as mulheres, e de no preverem as funestas consequencias, j realisadas, da ultima crise sociologica. tambem certo que quando a Frana dava ao mundo um grande mathematico, primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque ento? Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que a razo, mata aquillo, a poesia, que a verdadeira liberdade da phantasia e do corao. O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de suffocar em si a chamma vivaz da inspirao com os gelados orvalhos das sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posio social, para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em mathematica. A inspirao de que brotaram as _Alvoradas_ era dce, gentil e donairosa. Todavia o Conceio quiz abafal-a, apagar a chamma, desfolhar no altar da sua mocidade as flres candidas e perfumadas da poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a levantar plantas. Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle j no podia receiar pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para isso nascera, esboou no seu gabinete um quadro, cuja ida formosa, mas que no tem, a meu vr, o colorido mimoso e delicado dos seus primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abenoada esmola_--e desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e que eu tenho comsigo, porque sei que franco, leal e cavalheiro. Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim. Do Alexandre da Congeio, o academico sempre apercebido para celebrar as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado pela presso da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe ha-de dizer isto mesmo. Ah! meu amigo, como eu quizera vr o seu espirito a espannejar-se ainda, livre, alado, inquieto, deixando vr aqui e acol a dce melancolia das suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_ mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas fileiras. Ponho aqui ponto para que isto no enfade mais o bom publico que nos escuta, e que por fim de contas no nos quer mal. No meu proposito, entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu conheo a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta intelligencia. Confesso-me no convencido nem siquer vencido, e sou eu mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispe de meios que lhe permittem resistir minha lastimavel dialectica. Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta. Quanto s relas physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas palavras de Paulo Janet:[7] A experiencia nos ensina, certo, que o cerebro entra por uma certa parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual seja a causa unica e rigorosa medida, o que no est demonstrado. a massa cerebral, a composio chimica, a electricidade, o phosphoro? No est _averiguado_, tem razo, e a isso no era eu estranho. Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do pensamento. Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender. Adiante. Com relao educao da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas convices adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das quaes, e das no menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda no tenho razes para me demover. Quando tiver, confessarei a minha abjurao solemnemente. Se estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens que teem restricta obrigao de estudar pausadamente esta questo so os philosophos e os legisladores. Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa. Na questo da educao da mulher aceito inteiramente as idas do snr. D. Antonio da Costa no seu livro--_A instruco nacional_. Permitta-me, pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a to sympathico escriptor, e que me defenda com elle. preciso, indispensavel, urgente promover a instruco da mulher, que est em Portugal na proporo d'uma escla para 6:000 habitantes, sendo que dos 146:000$000 ris votados para as esclas primarias, apenas 18 revertem em favor das creanas do sexo feminino. Isto est d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de dizer que se no queria a mulher sabia tambem no a queria ignorante. Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mi, e da mi que brota a humanidade, da mi que deriva a felicidade social. Mas note-se, entenda-se bem, quero a mulher educada para as funces pedagogicas que possa exercer na escla ou no collegio, para as attribuies industriaes que precise desempenhar, para as occupaes artisticas que lhe possam caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mi, para directora, no s destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mi e esposa. Dever defender-se e favorecer-se a absoluta emancipao da mulher? Digo que no,--convictamente digo que no. Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, no desejo portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitao que ella tem,--a mulher. No quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque no desejo desmembrar a familia. Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras politicas e scientificas? Vde que esta razo fundada na capacidade igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as funces hoje especiaes da mulher, educao infantil, governo da casa, costurar e bordar, formao dos costumes publicos pela influencia domestica, devessem tambem pertencer ao homem, alis seriamos ns as victimas da desigualdade cujo principio combateis. Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica? Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razes j expostas. Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe disputa essa? que verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_-- evidente, e condio essencial em uma familia completa e feliz. Isto o que eu penso, a convico que eu tenho adquirido n'uns estudos placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e crystallinos, e no se desvirtue a minha opinio, e no se diga que eu quero a mulher analphabeta e s apta para fiar ou coser. Isto penso eu. Mas para que discutil-o, Conceio? Que o discutam philosophos e legisladores, que faam luz no espirito publico, que demonstrem, que provem, que eu ento irei aps a verdade. Para questo de tal magnitude no me julgo habilitado. Poz o meu amigo em duvida as _funces educativas do esposo_! Pois o pai no educa, no dirige a educao do filho! Sabe que eu no quero a mulher ignorante, mas por no a querer ignorante, no deixo de reconhecer que os pais so, como diz o Garrett no tractado _Da Educao_, os mentores e educadores naturaes de seus filhos. Plenamente concordo com Janet, quando expe que o pai esboa com firmeza a estatua do homem futuro, e a mi retoca, aperfeioa e alinda-a. Para isto cumpre no ser ignorante, mas no indispensavel que seja sabia. Aqui tem com franqueza as minhas opinies. Estou firme n'ellas, e estarei sempre, at que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o erro. Agora deixe-me dizer-lhe que no tardam nada as andorinhas e que podemos intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vo cantar os rouxinoes e eu, que merc de Deus no tenho de resolver nenhuma operao arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em que o co azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus dilectos remansos vou saudoso de to socegada obscuridade. No meu lar espera-se a primavera como uma festa, e o que certo que tenho descurado as flres da minha janella por causa d'estes malditos algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, no obstante a honra que me deu o Conceio em descer at pelejar lealmente commigo. Aperto-lhe cordealmente a mo. Creia-me sempre seu amigo e admirador, Porto, 14 de maro de 1872. _Alberto Pimentel._ [7] _La cerveau et la pense._ * * * * * PHYSIOLOGIA HISTORICA Beethoven A biographia uma nova frma dada historia por Plutarcho. Seguindo o methodo seguro da induco, caminhamos da biographia para a synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem para a _poca_. No concordamos portanto com mr. Paul Albert[8] que v n'esta evoluo historica mais uma decadencia que um progresso. A biographia a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na dupla manifestao da sua actividade, e por isso que ultimamente a critica e a historia no prescindem da alliana da physiologia com a psychologia. Por tal razo foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a _Psychologia morbida nas suas relaes com a historia_; que Emilio Deschanel escreveu a _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, e que recentemente o doutor Laborde se entregou s lucubraes medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre _Os homens e os actos da insurreio de Paris perante a psychologia morbida_. Esboando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre em vista a noo de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de Plato, que definiu o homem na expresso d'uma alma que se serve d'um corpo, e porque, segundo uma expresso feliz de Emilio Deschanel, para conhecer o fructo preciso conhecer a arvore. Posto isto como exordio j demasiadamente longo, fallemos d'um grande genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor nervoso, hypocondriaco, melancolico,--Beethoven. Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vr a musica considerada como imperfeita imitao da harmonia que produzem os movimentos dos corpos celestes. Na tradio asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisao do universo. As sete nymphas _Swaras_ so a personificao das sete notas. _Saraswati_, filha, mulher e irm de _Brahma_, representa a primeira nota da escala dos sons[9]. Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas particulares. Seja o que fr a musica, venha ella do co ou da terra, dos astros ou dos homens, bemdita seja, que nos leva aps si a umas paragens ethereas de um paraiso desconhecido. Abenoados sejaes, sacerdotes do bello, que lanaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia. Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de Beethoven. Este nome per si s uma epopa. Tem a grandeza do mar, e a irradiao do sol. Em torno do bero d'este homem sublime quer a nossa imaginao que volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais dces harmonias da musica universal e pelas mais dces gravitaes dos astros melodiosos. Todavia a historia que no admitte hypotheses romanescas e devaneios poeticos; e historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de musica os aprendera elle com violencia, e que s abancava ao piano quando a voz paterna trovejava ameaadora. O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina. um abysmo que se no pde abranger com a vista atravs do vaporoso involucro. Mas ao primeiro raio de sol va desfeito o vo, e arqueiam-se as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e tudo so fremitos, movimentos, prodigios,--e apparece finalmente o mar, pregoando Deus e assombrando os homens. O vo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se rarefaz ao primeiro raio da aurora. Muito moo ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e em Vienna, na presena de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o que todavia no impediu Mozart de suppr que elle reproduzia de memoria. Ento Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: Escutai-o com atteno; dentro em pouco ouvireis fallar d'elle. Luctar o condo do genio; o mar creou-o Deus para a ebullio eterna. Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com o compositor Woelff. Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de Woelff presidido pelo baro Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa _villa_ do baro, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de concepo, e uma imaginao estupenda, que tinha alguma cousa das noites sombrias e mysteriosas das florestas. No obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de Beethoven desde os primeiros annos. Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros signaes de surdez, em plena mocidade. Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia, lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe que no transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de Breuning, outra companheira da adolescencia, que fra de certo a mulher amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por instancias de amigos, tomou o nome de _Leonora_, sendo que depois de reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominao de _Fidelio_. Gustave Bertrand, no seu livro _Les nationalits musicales_, diz que a opera fra cantada n'uma poca politicamente calamitosa, que o libreto era deploravel, e que o desempenho orra pelo libreto, com quanto os mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter de accusar o _maestro_ de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos depois voltou scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada. Ento comeou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven. Minguado de recursos, ameaado de completa surdez, agitado pelas nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma dr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia desposado Wegeler, o amigo do _maestro_, a quem primeiro fizera a confidencia das suas apprehenses, viu-se Beethoven compellido a aceitar o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleo. Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda annual de quatro mil florins, a no sahir do territorio austriaco. Beethoven, grato a esta considerao j ento muito para estranhar, e hoje impossivel, fixou residencia em Vienna. Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do anno. Cortadas as suas relaes com o mundo exterior, doente, melancolico, quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a despeito da opinio geral de que a posio perpendicular a que menos favorece os actos do espirito, e a mais adversa inspirao. Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina dos _Grotesques de la musique_, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso: A posio horisontal evidentemente a mais favoravel ao trabalho da intelligencia, expanso do espirito, e isso concebe-se. O nosso cerebro a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de idas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor; todos os physiologistas vol-o diro. Quanto mais este liquido affluir facilmente caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir idas ou vapores. Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a _Candida_, gozava de vigorosa saude quando poz mo na _Henrieida_. Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede onde gostava de se deitar para compr; foi onde elle pensou as suas deliciosas obras primas, _Paul et Virginie_ e a _Chaunire de la Nature_. Quando em seguida compoz as _Harmonies de la Nature_ e quiz explicar o phenomeno das mares pela liquidao dos gelos polares, j a rede estava velha, e no pde servir-se d'ella.. Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de subito respeito, e crianas, velhos e mulheres no o deixavam de saudar com estas palavras: _Alli vai Beethoven!_ saudao que o _maestro_ no podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admirao. Como n'essas longas horas de excurso campestre ou urbana redemoinhariam na alma de Beethoven as recordaes dolorosas de melhores tempos! A imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor observao dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram dissenes de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos de outr'ora. Todavia a distancia no pde endurecer o corao, porque, na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo: Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se possuisse um collete de pllo de coelho, costurado pelas vossas mos, minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mos, e depois tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha de Bonn. Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora s me resta conserval-o n'um guarda-roupa, como um objecto que me muito caro porque vem de vs... Ah! o corao namorado palpita ainda sob estas formulas respeitosas da epistolographia. manifesto. O collete, costurado pelas mos de Leonor, queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando umas recordaes sempre vivas. Foi satisfeito o pedido? Foi e no foi. Em vez d'um collete, recebeu Beethoven uma gravata, o que no menos significativo, porque uma gravata, dada por uma mulher, o mesmo que dizer-nos ella: Com este delicado esparto estrangula tu todas as palavras que no sejam para mim. Beethoven agradeceu epistolarmente: A bella gravata, obra de vossas mos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordao do tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vr como sois generosa para commigo... Em 1806 o nome de Leonor substituido pelo de Julieta, em tres cartas, das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias, as circumstancias, obrigaram Beethoven a lanar este vo transparente sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia no pde duvidar. Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior, j bruxoleante. De longe a longe descia um raio de sol aos carceres d'aquella alma. Os nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descanavam por momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto. surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro. O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados. Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava s verberaes de Beethoven. Escrevei uma colleco de psalmos de penitencia,--dizia elle a Hummel--e dedicai-os imperatriz. Era ainda a Hummel que elle confidenciava entre afflicto e pensativo: Sois feliz, porque no vos falta uma mulher que vele por vs. Mas eu, ai de mim, _povero_ que sou! N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboou no papel a casa onde nascera Haydn; pendurou o desenho beira do catre, e por mais de uma vez revelou que lhe era consolao estar contemplando as paredes dentro das quaes viera luz do mundo um grande homem. Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava a duas pessoas que acabavam de entrar no seu quarto: _Plaudite, amici, comoedia finita est._ Nas horas que lhe restaram de vida parece que no mais referveu nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como lhe chama Deschanel. E certo que os livros de Goethe e as partituras de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. So como os grandes lagos, que ora se anilam sob um co transparente, ora se revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes. Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes Beethoven costumava sentar-se para descanar dos seus longos passeios, mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o pouso devoluto, no contam s geraes os monologos do _maestro_, nem quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor... [8] _La Prose, leons faites a la Sorbonne._ [9] _Trait complet de la theorie et de la pratique de l'harmonie, par Fetis._ * * * * * Raphael A MR. PELLEREAU Era um talento enorme. O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os primeiros traos, a lanar as primeiras tintas na tela. Mas ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos Apeninos, era pequeno para tamanha aguia. O co d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza at bahia de Napoles. Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doura. Elle era moo e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:--Parte. E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar. Dias depois entrava no _atelier_ de Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro. A recepo foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,--ambicionava ser discipulo. Esboou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moo pintor j o no queria s como hospede nem o quereria j como rival. Tinha dezesete annos. Sorria-lhe a vida e a gloria. Comera pelos retratos, adestrra-se a mo, e Perugino ficra vencido. Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e comeou um quadro de largas dimenses, o celebre _Sposalizio_, cujo assumpto delicado e formoso o _Casamento da Virgem_. O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na _maneira_ do mestre. Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado at ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitao. a poca da liberdade. Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura. Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza. Um talento assim tambem athleta; quer luctar. Florena era ento a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era j pequena para Raphael. Partiu para Florena onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperana era o seu anjo da guarda;--a gloria o sonho de todas as horas. Ah! Florena! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor! Fra do _atelier_, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a _fioraia_; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando no a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente na _Bella Jardineira_, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre. Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas. Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roagante magestade. Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florena para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o corao da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli. O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael. O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se da _fioraia_ e aceitou, entre triste e distrahido, umas flres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florena ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastido do horisonte a epopa do seu destino... Roma foi em todos os tempos a fascinao dos artistas. Tudo l tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo. Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condo que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Comeou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:--a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justia. O papa entrou um dia sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os _frescos_ que os predecessores de Raphael haviam pintado. J era muito e ainda no era tudo;--comeava a realisao do sonho. E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopa da renascena artistica da Italia, e todavia no fraternisavam em amiga communho, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplao dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mos o _Juizo Final_, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformao porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que comea parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista j feito. Corregio, ao relancear os olhos _Santa Cecilia_ de Raphael, exclama arrebatado: _Anch' io son pittor!_--La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspirao. Passados dias, Miguel Angelo entra s salas do Vaticano e no pde conter um grito de admirao. Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito! E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuio artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart. Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano comeado por Dante e Giotto. Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio de _Santa-Maria-del-Fiore_; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;--Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a cora da renascena artistica. Comea o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte. Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raa latina, e portanto eram pagos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religio catholica nasce a poesia moderna. um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos. As madonas de Raphael teem uma belleza pag. A renascena conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascena no viu na religio mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade. Ao tempo que o talento de Raphael comeava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decorao d'um palacio que mandra construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos--_Galathea_ e _Psych_. Era ento um rapaz que se atirava ao turbilho da mocidade, ebrio d'esperana e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opinies; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisao essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven. Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleio, e ns, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vr n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combusto, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e s expanses vehementes. Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe s faces morenas uma expresso de encantadora doura. Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, _fornarina_, a filha do padeiro. Muitas vezes, emquanto pintava a _Galathea_, abandonava a paleta para ir vr _fornarina_, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael. Por uma d'aquellas manhs formosas da Italia, em que todo o co se esbate n'um azul delicioso, _fornarina_, que estava cuidando d'umas flres dispostas na janella, levantra de golpe a cabea, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael. --Raffaelo! exclamra a _fornarina_. --Querida! suspirra Raphael. No ames tanto as tuas flres, que eu tenho ciumes d'ellas. --Que remedio! Se preciso amar as flres para merecer o teu amor! J te no lembras de Florena?... --Ah! sempre cruel e formosa! --Quero vr se, fora de cuidar nas flres, chego a adquirir os encantos da _fioraia_. --Por Deus, querida, que me despedaas o corao! Por Deus te juro, que o meu amor s teu. No falles da _fioraia_, que apenas uma recordao. Todas as flres de Florena no valem essa poeira branca que te cobre as tranas e faz lembrar a neve da manh que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces da _Galathea_ o colorido da _fornarina_! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses a _Galathea_, conhecias-te. s tu mesma, a tua formosura animada pelo meu amor. --Raffaelo, e as flres que trouxeste de Florena? --Seccaram. o destino das rosas que vivem um s dia. --Ah! E o amor da _fornarina_ ha-de extinguir-se um dia como as flres da _fioraia_. De mim, s ficar no teu corao o orgulho de haveres pintado a _Galathea_. O quadro, porque d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrana do modlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta da _fioraia_? A _Bella-Jardineira_. Que ha-de ficar da _fornarina_? A _Galathea_. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;--o esquecimento. O teu amor um capricho de artista; mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu corao. O artista copia, mas o homem no ama. --Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu no quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabea ao teu regao no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido s, de sonho em sonho, de esperana em esperana. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. o cansao. Eu s tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas lava;--queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida... --Raffaelo, como ests triste, como s apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume irmo gemeo do amor; no andam um sem o outro. Perda-me os desvarios do corao. Culpa de te amar tanto... Est formoso o dia, o sol italiano como tu e como eu. No falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, no succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manh entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flres, que so tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. No ha mais dce carmim! Olha... Como formosa! Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio. D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braos de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista. --Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabea de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expresso de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos... --Tenho ciumes, Raffaelo. De quem o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E a _Disputa do Santo Sacramento_? E a _Escola de Athenas_? E _Psych_? E _Galathea_?--a _Galathea_ que sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo--a gloria! Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado s praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolao e as mercadorias, mas o mar respeitra o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio. A _Transfigurao_, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Mdicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. Ha n'esta composio--escreve Valentin no seu livro _Les peintres celbres_--figuras to bellas, cabeas de um estylo e d'um caracter to novos e to variados, que tem sido olhada, e com razo, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael. Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da _Transfigurao_, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorra n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo. Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael. --Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braos, mas no posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que mais que discipulo do amigo,-- amigo do mestre. Deixa-me vr bem os teus olhos; quero recordar-me da _Glycera_. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! o ultimo claro da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios... N'este momento entrava Julio Romano. Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado colhia nos braos Fornarina para a tirar da camara onde ella sentia os ps chumbados ao pavimento. Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma propriedade que possuia perto do Vaticano. Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu ao Creador a grande alma. O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de preferencia costumava trabalhar. cabeceira, erguia-se o quadro da _Transfigurao_. Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro, alteavam-se depois tela onde o pincel do artista havia traado a epopa da sua gloria... [10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte. * * * * * Luiz Rossel Quasi mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 comeava a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte, na mais cruel e dolorosa incerteza com que se pde opprimir um homem dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido pelo coronel Merlin, havia sentenciado pena ultima os communistas Rossel, Ferr e Bourgeois. Os processos foram enviados commisso de indultos e desde ento comeou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E a commisso no se lembrava talvez de que per si mesma impunha uma nova pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia melhorar, confirmando a sentena, sem to deshumanas delongas! Grandes criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da morte durante cento e oitenta dias de carcere! Um d'elles, Luiz Rossel, despertra profundas e geraes sympathias. Durante esses seis mezes de suprema tribulao, era-lhe consolo extremo a dce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaar-lhe o corao. Com que dolorido enthusiasmo no fallava elle de seu pai, de sua mi, das suas pequenas irms, Bella e Sara! O sacerdote protestante que lhe assistia pde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observao foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia commisso d'indultos e ao presidente da republica franceza. De todos os pontos da Frana--escrevia o padre Passa--vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte. De todos os pontos da Frana! escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha ento commettido elle que inspirava tamanha compaixo? Rossel desertra das tropas de Versailles para as tropas da communa. Fra julgado desertor e condemnado morte. Henrique Rochefort, que desertra tambem da republica para a communa, fra simplesmente condemnado a deportao para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperana da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomra parte na revoluo de 18 de maro, era condemnado sem appellao nem aggravo. Porque desertra Rossel? Expliquemos. Rossel no era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperanados em que tudo ser pelo melhor,--embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas. Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, ento ministro da guerra na republica: Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes cerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasio de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisao e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota. E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava: Em nome da nossa f commum na patria e na liberdade, concedei-me um cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de vos expr as razes das vossas derrotas passadas e dos desastres que vs vos preparaes. Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? No. Isto a expansibilidade da nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos ateimem que as flres da mocidade no chegam a ser fructo porque as desfolham sempre os vendavaes da paixo. No. Rossel no estava obcecado pela amaurose da exaltao partidaria, e tanto no estava que comeava a desacorooar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a Gambetta estas palavras: No comprehendi nunca o que vs fazieis no vosso gabinete. Quando me lembro que Napoleo resumia em algumas horas por semana esse trabalho de contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vs. Elle fazia a guerra, e vs, vs, deixastes fazel-a. O vosso governo no foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas secretaras,--e muito pouca policia. O desalento lavrou fundo no corao de Rossel. Em 19 de maro de 1871 escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles: Meu general: Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pr disposio das fras governamentaes que se possam constituir. Instruido por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous partidos em lucta no paiz, _colloco-me sem hesitao do lado d'aquelle que no assignou a paz e que no conta nas suas fileiras generaes culpados das capitulaes_. Tomando uma to grave e to dolorosa resoluo, sinto deixar em suspenso o servio de engenharia do campo de Nevers, que me tinha confiado o governo de 4 de setembro. Entrego este servio, que apenas consiste em assentos d'artigos de despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou s minhas ordens por determinao de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho datado de 5 do mez corrente. Eu vos informo summariamente, por carta dirigida repartio do material, do estado em que deixo o servio. Tenho a honra de ser, Meu general, Vosso muito obediente e dedicado servo _L. Rossel._ Data da expedio d'esta carta a desero de Rossel. Chegado a Pariz, no sentiu revigorar-lhe o corao enfermo de desalento uma esperana vivificadora. Ao lr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Ento foi o succederem-se as intermittencias de esperana e desconforto, e por mais d'uma vez o assaltou a ida de abandonar Pariz. As tropas estavam indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! j no acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na propria dedicao. N'esta conjunctura organisou-se a _cour martiale_, cujo presidente era. O aceitar as funces de presidente d'este tribunal,--escreveu elle-- o maior sacrificio que eu tenho feito e que eu podia fazer causa da Revoluo. Inimigo das revolues, as circumstancias me lanaram n'uma revoluo; aborrecendo a guerra civil, estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um tribunal revolucionario, um tribunal que s pronunciaria sentenas de morte. Se eu tivesse a defender-me da accusao d'ambio, o aceitar dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mos? Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir ensanguentar o meu nome em funces subalternas. Ha apenas uma explicao razoavel para o meu procedimento,-- que eu me sacrifiquei Revoluo. No tinha escolhido nenhuma das funces de que fui successivamente encarregado, mas no recusei nenhuma. N'estes momentos de similhantes crises preciso ter a dedicao d'um sectario. Mal entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a organisao de foras activas. Ento comearam a empecer a sua boa vontade as intrigas e complicaes que elle no podia desviar com o p por serem numerosas e constantes. A recordao de todos estes revolucionarios presumposos,--diz elle--mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um assalto talvez, mas no d'uma vontade e d'um proposito firme, esta recordao, digo eu, para mim um pesadelo. No obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na organisao de tropas activas, medida que era sempre contrariada por obstaculos cada vez maiores. A designao de--regimentos,--que elle adoptra, em vez de--brigadas--, para no augmentar o numero de generaes fez sombra aos chefes de legio, que receiavam vr-se desapossados da sua authoridade por esta combinao, escrevia Rossel de proprio punho. A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados, sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a alda e o forte d'aquelle nome. Em vo tentou Rossel reunil-as de novo, e procurou organisar foras para fazer rosto ao violento bombardeamento do inimigo. Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura reuniram-se os chefes de legio para protestar contra a formao dos regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas immediatamente. O certo que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de que no podiam pr em movimento as tropas que tinham promettido. Rossel, inteiramente desacorooado, demittiu-se, e poucas horas depois fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera pela guarnio, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. No obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demisso, accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para realisar a traio. No pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, no _Diario de Noticias_: E no foi uma desgraa para a Frana a morte de Rossel? Foi, era uma cabea energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambio e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembla entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa, e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr communa! Santa gente! A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere. A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o. Quando me juntei insurreio--escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas--no contava com o successo, no esperava chegar a uma das primeiras posies. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidado deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris. Que no era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo. Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa commisso d'indultos--sempre se sincero em presena da morte. Rossel, antes da desero, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. At no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que no esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revoluo. Era chefe; no quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido voz de seu pai para offerecer mais um brao causa da ordem, que era a causa da patria. Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdo de Rossel. A manifestao foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperana. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,--as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em Frana os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel. Ferr e Bourgeois no mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial. Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,--sua av: A mistress Isabella Campbell: Adeus, madrinha, amo-te. 28 de novembro de 1871. Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abenoou a nossa communho. Posso dizer que a primeira vez que commungo, e estou extremamente agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo. Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos depois de ter recebido a particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religio christ, perante o qual se sentem impressionados os mais duros coraes, ao qual ninguem pde assistir sem chorar,--Rossel no mentia. Depois da patria, como elle amava a familia! No posso supportar--escrevia no carcere--que se faa soffrer meus paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou to pouco preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo pergunto muitas vezes se no ser uma insensibilidade doentia da minha parte. Mas o que no concebo, que differindo sempre uma resoluo, dissimulando a deciso que j esta tomada, faam soffrer uma longa agonia a meus paes, que no commetteram outro crime que no fosse o de me ensinarem a amar o meu paiz. So docemente dolorosas estas palavras: A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mi os passos que deu na vespera; de repente interrompe-se: No posso mais! j nem me lembro! estou douda, vs tu! Minha irm, que estava mais serena, continuou a narrao, que eu no pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mi que estava serena e minha irm que parecia louca. Todavia ns estavamos tranquillos hontem noite. Mr. Passa havia-nos socegado! Mas eu tenho confiana--diz minha mi--eu tenho confiana; elles no te faro nada. Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mi fez-me prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz por fazer alguma cousa para ella. A pequenita no chora, mas tem o corao cheio de lagrimas. Tambem a ti--lhe digo-eu--tambem te fazem soffrer! N'este meio tempo, ella rompe em soluos, por que lhe faltou a coragem. Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia. Est revestido d'uma resignao providencial. Vai morrer, porque deve morrer. No treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irms, dos seus, salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente no tornou a chorar. Quer porm mandar-lhes a ultima palavra de saudade. Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram de o vr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se. Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe do, abraa Alberto Joly, abraa o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e acompanhado pelo padre Passa. Ferr grosseiro e materialista. Despede estultamente o capello Folley e escreve a suas irms,--crentes e nobres coraes de mulher, de certo--que vai morrer como viveu: sem crenas religiosas! Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no seu quarto, embriagando-se para a morte. Pois bem. O mesmo peloto fuzilou Rossel, Ferr e Bourgeois. O governo de Versailles foi injusto. No devia emparceirar estes tres homens. Rossel chega ao lugar da execuo acompanhado pelo seu confessor, como se quizesse que elle o conduzisse at ao limiar da eternidade. O coronel Merlin, seu juiz, est presente. Rossel quer que lhe faam sciente de que no morre odiando-o, e pede ao seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda. Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferena. Ferr no consente que lhe velem os olhos, e, materialista, no se dispensa o ultimo regalo;--morre de cigarro na mo, como quem sahe d'uma taberna. Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o filho. Ao assomar porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na cabea as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade; agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante. Est ainda distincta a pequena cavidade onde descanra a cabea de Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e pousa os labios descorados no travesseiro. O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e, instantes depois, quando aperta nos braos o tremulo corpo do velho, orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que no pde reprimir. Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeas latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,--Bella e Sara, e dizia-lhes commovido: --No choreis, meus anjos, que vosso irmo est no co. Acompanhei-o at que Deus m'o recebesse. No choreis por elle, que de certo feliz. A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanas, levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel. A republica, que o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez justia e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado familia que o reclamra. Famosa ironia da republica! O cesarismo dava a toda a Frana festas ruidosas que deslumbravam o mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de no menos opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe pertencia. A Frana escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava. Mr. Thiers d e recebe condecoraes como Luiz Napoleo. Os jantares e os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes das Tulherias. Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame Napoleo. D'antes a crte era em Pariz; agora est em Versailles. D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se em Satory e Marselha. D'antes applaudia-se Luiz Napoleo; agora applaude-se Adolpho Thiers. Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; manh apedrejar-se-ha o presidente da republica. Ora aqui est porque eu no sou monarchico nem republicano,--porque no quero ser cousa nenhuma. O meu posto do lado da justia; onde ella estiver, estou eu. ainda por esta razo que eu protesto contra as palavras que a _France_ atirou para cima do tumulo de Rossel. A _France_ declara que se absteve de fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. A _France_ fez o que devia; no ha motivo para encarecer-se. Depois, quando o tribunal pronunciou o seu _veredictum_, quando a sentena foi executada, a _France_ enumera as circumstancias aggravantes que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal, sentenceia um cadaver. Recorda a _France_ que Rossel encarregado de julgar o commandante de batalho, Giraud, no dia 19 de abril, fra implacavel para com o ro, accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os debates, apostrophando: --Mas finalmente desobedeceu! Foi ainda Rossel que lera a sentena de morte a Giraud e que escrevera estas palavras ao cidado Laperche: prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo levante a coronha para o ar ou arvre a bandeira parlamentar. prohibido, _sob pena de morte_, continuar o fogo depois de se ter dado ordem para o suspender, etc. Estas lembranas--pondera a _France_--bastam para dizer o que elle foi durante o seu commando, para dar uma ida do que teria sido na victoria. E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar a _France_. Uma vez chefe, Rossel no podia dar exemplo de cobardia, assim como, uma vez vencido, no o deu tambem. No trepidou diante da morte, e se Giraud, que fra julgado traidor aos seus, no teve a coragem de agradecer a justia que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras: --Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me. No satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da ida que o sacrificra a elle. Eu no defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e prender Rochefort. Entre Rochefort e Rossel a desproporo immensa. Rochefort um aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util causa da ida que defendesse. Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel est morto. Mas a republica o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a proteco, dizem! Rochefort est preso, manh ser amnistiado, fulminar o governo que lhe perdoou, por que Rochefort d'estes homens que esto sempre do lado da opposio, e recomear a negociar litterariamente com a _Lanterne_ ou o _Mot d'ordre_. Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de communistas francezes. Como que estes homens poderam enganar a vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras? Fugiram, salvaram-se, esto contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo vivero tranquillamente em Frana. Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas. Estrondearam as espingardas;--a folha cahiu. 10 de dezembro de 1871. * * * * * PHYSIOLOGIA ROMANTICA HISTORIA D'UM NERVOSO I Minha mi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel. Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposio hereditaria; recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affeces dynamicas. Era eu uma creana de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreio dos mortos, do inferno e do diabo. Minha mi, que no assistia a estas praticas quotidianas, no abdicava porm todos os seus direitos educativos. Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude era minha mi. Resguardava-me o peito com flanellas, prohibia-me que comesse fructas, e no me deixava expr ao ar, no quintal. Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fra de casa, oppunha-se, nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico. Todavia, como eu estava sempre ao p de minha mi, cada vez se me arraigavam mais no espirito os seus habitos. N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creana que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos. Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles tempos oppoz-se. Meu pai, que no tinha tempo para estas luctas familiares, desistiu. Estudava eu instruco primaria. O professor dizia a minha mi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lies; noite lia a Biblia mesa do ch. Iamos poucas vezes ao theatro. As noites de nossa casa eram tristes. Meu pai jogava com alguns amigos; minha mi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura. No sei porque, mas eu odiava o theatro. Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se no salvava quem morresse n'um espectaculo... II Fiz exame de instruco primaria e comecei a estudar o latim com um padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns e oraes. O seu contacto dava alma uma tristeza gelida. Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A concentrao do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e do dia de juizo. A ida da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mi. A criada velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer. Comecei a adoecer frequentemente. Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau, que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas feiras, antes de ir para a aula. Esta predileco pelo culto religioso provinha de certo da minha educao biblica e caseira. Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo. O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanas como eu no se vingavam. Eu suppunha o padre muito em relao com as cousas futuras, e tremi da prophecia. III Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu. Estudei francez, e logica nas aulas publicas. Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos. Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus condiscipulos e achava-me rachitico. Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia. Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia. Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a _Menina e moa_ de Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impresso suavissima; pedi mais livros, e li-os todos. Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda; eram simplesmente desastradas. Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava doudamente namorado pela litteratura. Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a ida d'um curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A esse tempo tinha esboado um poemeto no genero archaico. Quando entrei para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu patro era boal. A sua presena exercia no meu animo uma influencia tyrannica. Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia surprehendeu-me nas minhas lucubraes poeticas, quiz ver o meu autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa triste, concentrado, apprehensivel. Tinha ento dezoito annos. A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu j tinha sido convidado para a maonaria. Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular sobre a maonaria. Eu no conhecia bem o espirito d'esta associao, mas sympathisei com a maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram tambem os meus. Comecei ento a pensar na grandeza do problema social que a imprensa se propunha resolver. O jornalismo afigurou-se-me a mais poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio no pensamento humano. Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava. Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das minhas illuses talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai. IV Eu amava. A minha amada era rosada e loura. Tinha nas tranas o que o co tem de mais formoso--o sol; e nas faces o que a primavera possue de mais puro--as rosas. Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia operado em mim. Sentia-me assombrado. Tinha vagas aspiraes, desejos indefinidos. Queria ser grande. Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia politica. O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir ao olympo das grandezas sociaes. Comecei a escrever artigos politicos, e j uma vez por outra se fallava no meu nome. Por esse tempo uma faco militante offereceu-me um circulo. Eu endoudecia de felicidade; comeava a vr realisarem-se os meus desejos. Sahi eleito. Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo. O meu temperamento desvairava-me. Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a cada momento a marcha da governao publica. Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis. Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi os recursos com que vivia modestamente. Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a faco ministerial, sob promessa d'um despacho. Renunciei dignamente, e lancei mo do facto na camara para fulminar o ministro do reino. Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo, na esperana de ser nomeado conselheiro d'estado. A maioria ficou por tanto sendo governamental. Ergui-me para fallar. Fui impetuoso, violento, audaz. O presidente notou-me que eu estava fra da ordem, e retirou-me a palavra. Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a resoluo da presidencia. Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante. Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mi. Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente. Dei-me pressa em partir. Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada tinha morrido. V Vi-a no caixo. Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranas os reflexos da eternidade. As rosas da face tinham desmaiado. Em volta da sala havia crepes. Senti um horror instinctivo d'aquelle luto. Ao longe dobrava um sino. Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre. Se a alma immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para outra vida? Se no , para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas? Notou alguem que eu estava excessivamente pallido. Tiraram-me da sala, quando eu j no dava accrdo de mim. Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel. Estive muito tempo sentado no leito at que me fosse possivel atinar com a realidade. No sahi n'esse dia, no sahi tambem nos immediatos. Comecei a lr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a cabea humana. Queria devassar os mysterios d'alm-tumulo. Tinha vises, dres dilacerantes. Chamei um medico, que me disse que as vises eram gastricas e as dres nevralgicas. Aconselhou-me distraces, passeios, agitao. Desobedeci, e continuei a viver recluso. Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi que a minha pertinacia comeava a aborrecer aos meus amigos. A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco. Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir immediatamente para o campo. Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de administrador d'uma casa no Minho. Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente. Offereci os meus servios, que foram aceites. O rio Lima passa perto da casa que eu administro. O sitio formoso e saudavel. Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a dirigir as maltas. Ao domingo ou cao ou pesco. Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura a do jornal que eu assigno. Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos. Estou d'uma carnao razoavel, sem todavia estar gordo. Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem. Posso rir-me de vs, nervosos esgrouviados, que tendes vises, idiosyncrasias, que viveis n'um inferno. O claro do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo. Dentro em pouco sereis cinzas. O adelgaamento da raa toma um incremento prodigioso. Os vossos filhos so amarellos e intanguidos; j me no parecem creanas, mas futuras congestes visceraes, dyspepsias, catarrhos vesicaes, nevralgias e affeces calculosas. Pobres d'elles, por vossa causa! Um unico meio pde ainda conservar-vos, a vs, e remil-os a elles d'uma catastrophe imminente. Um grande medico que vos pde salvar,--a Hygiene! Vde bem que a questo do temperamento uma questo nacional, porque os nervos da patria comeam a ter contraces dolorosas. Na estatistica dos temperamentos, o nervoso o predominante. Pois bem. Resta um unico meio de salvao, o regimen hygienico. VI Costumai-os desde pequenos gymnastica, no gymnastica violenta do trapezio, mas suave gymnastica de quarto. Mandai comprar-lhes a _Gymnastique de chambre_, escripta em allemo por Schreber e traduzida em francez por Delondre. Chegando a primavera, atirai-os para o campo. Deixai-os correr, saltar, e cahir,--e cahir tambem. Vde bem que preciso desenvolver-lhes o systema muscular. Urge reformar esta raa enfesada que se est eximindo a cada passo de servir o exercito nacional por no chegar ao estalo. No deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se narcotisam com o charuto, que se requeimam com o _grog_, e se desvairam com o romance. E as raparigas! ah! e as raparigas! Como ellas querem ser pallidas e languidas! Aos dezoito annos comeam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem nevroses,--classicas e romanticas--, como as classificou Balzac na _Physiologia do casamento_. Havieis de vr estas mooilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam tardes inteiras na valsa, em dias de romagem! Vs, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro. Tendes uma transparencia etherea. Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da superficie da terra e subir ao ar em vapor. Depois haver uma epidemia europa, porque vs, particulas deleterias, corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem ho-de cahir fulminados. Das alturas de Barroso descer ento uma mocetona que, solidamente organisada, o tufo no logrou empolgar. E da serra da Estrella baixar um beiro que zombou das correntes atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de canap a Viriato. E d'esta mulher e d'este homem nascer a raa futura. E a proposito de vs, gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas mumias que foram desfeitas por um spro... FIM End of the Project Gutenberg EBook of Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos, by Alberto Pimentel License: Share Alike