Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens de material em domnio pblico, disponibilizadas pelos Servios de Documentao da Universidade do Minho) ALBERTO PIMENTEL Poetas do Minho I JOO PENHA BRAGA CRUZ & C.--EDITORES MDCCCXCIV POETAS DO MINHO BRAGA TYP. MINERVA COMMERCIAL Jos Maria de Souza Cruz 1893 ALBERTO PIMENTEL Poetas do Minho I JOO PENHA BRAGA LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C. EDITORES Aquelle meu espirito opulento, Que vivia na luz dos sonhos bellos, Jaz ha muito nas ruinas dos castellos, Que no ar edifica o pensamento. _Joo Penha._ ... Quem publica um livro no o faz para o ler, publica-o para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em todo o caso, no pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil. _Joo Penha._ I Ha quinze dias, Joo Penha e eu, sentados no mesmo banco do _americano_, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordaes dispersas, do tempo em que elle redigia a _Folha_ em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na precipitao tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido pelas paragens do _tramway_, pela entrada e saida de passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico: --Bai cheio. Num ha logar. Tendo Joo Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a constellao academica da _Folha_, para entrelembrar casos e anecdotas da bohemia coimbr, disse-lhe eu de repente: --Por que no escreve as suas memorias de Coimbra? --No tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes. Tres volumes, de certo, porque Joo Penha foi o chefe de um cenaculo numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada com prestigio na tradio academica. Elle, erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multido da academia, que o adorava, observava todas as evolues caprichosas d'essa legio gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma gerao, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e no seriam de mais. Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstruco historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente o corao saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no phonographo litterario da _Folha_ e de uma boa dezena de poemas, eu que senti rolar at mim a lava candente do vulco sem assistir s tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na prosa da burocracia, do fro, do professorado e do parlamento, os poetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por Joo Penha. E, mais infelizes ainda, os que hoje no fazem leis, nem minutas, nem aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apothese serena, sem invejas, mas tambem sem desilluses, d'aquelles que, como Gonalves Crespo, brilharam pelo claro do seu talento, e passaram como um meteoro fugitivo. Tive Gonalves Crespo por companheiro na Redaco da Camara dos Pares. O seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradio academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente, sem tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira c. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois braos de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, so como as arvores no outomno, que dia a dia vo sendo sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno. difficil adivinhar hoje na melancolica indiferena de Simes Dias, que passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das _Peninsulares_, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego. Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora no fosse das mais vulcanicas, canado de repartir os restos da sua mocidade entre a cthedra de professor e a Secretaria da Justia, correu ao encontro da velhice, denominou-se voluntariamente _Caturra_, atirou-se s questes de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem _aereonauta_ com um e superfluo. Este correctissimo poeta da _Folha_ hoje um suicidio ambulante. Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a no quer saber. J um ministerio lhe receitou, como distraco, o Governo Civil de Villa Real. Candido de Figueiredo viu o Maro resplandecente de neve, e no o cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar _Novas lices praticas da lingua portugueza_. No era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse comeado por ahi, como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginao quando romantisava na _Folha_ as lendas do alto Alemtejo, um que s doutorou em direito, e estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braos de Minerva na Universidade para os braos do senhor Jos Luciano no Parlamento. Esse, Jos Frederico Laranjo, to amante de fallar nos palratorios de Coimbra, vai estando to mudado hoje, que j ninguem treme de medo quando elle pede a palavra na camara. --E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho. Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehenses pathologicas, est precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da vida.[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir esta apprehenso. Mas Guerra Junqueiro, meus senhores, era na Coimbra d'aquelle tempo, na _Folha_ principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vr atormentado, pela preoccupao constante de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeio suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, so os _Simples_. E talvez no sejam. Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como todos os outros, um satellyte que gravitava em torno de Joo Penha, o chefe incontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da _Folha_. O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illuses d'esses rapazes que eram ento a fina flr da gerao academica. D'elles, os que no esto ainda velhos por fra, comeam a descair na tristeza, no direi do occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo. Joo Penha, o primaz da tribu, advogado em Braga, trabalha honestamente para sustentar a sua familia. Est ao corrente de todas as novidades litterarias que a Frana inventa e exporta, porque as recebe directamente de Pariz em primeira mo, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusma de clientes, que s vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, j depois d'elle ter fechado o seu escriptorio s duas horas da tarde, invariavelmente. Outro dia, Joo Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em servio--disse-me elle--s sete horas da manh. A seu lado, no _tramway_, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado. --O que eu quero, berrava o cliente, ganhar a queston do rego. Porque, snr. doutor, no rego que est a grande maroteira d'ella. (Ella era a parte contraria, uma mulher). Questo d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho. Joo Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfaradamente das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, Joo Penha era, n'aquella hora, sob o cu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;--do Direito que elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos publicados na _Folha_, com a bohemia alegre das _Camllas_ e do _Homem do gaz_. Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia d, fazia pena vr Joo Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a quem elle no podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma vingador. No me atrevi a arrancar Joo Penha das garras do cliente. Mas volta do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo _americano_, interpuz-me ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,--muralha da China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brcaro Chicaneau, que parecia recortado dos _Plaideurs_ de Racine. Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos! salgueiraes do Mondego, lamentai-o! musa alegre da tasca das _Camllas_, cobre de luto a tua face msta! fina flr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e.... por vs! Colhi em Braga informaes sobre o viver de Joo Penha transformado. Tem, como advogado, uma grande clientella posto no v nunca ao tribunal. Mas a sua competencia em questes do civel no soffre rivalidade. Escrevendo nos processos, um jurisconsulto de primeira ordem. s duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes voltaro, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre. noite, Joo Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, frequenta a confeitaria do Anacleto rua de S. Marcos. Uma coincidencia leva-me a suspeitar que Joo Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o glorioso Sampaio da _Revoluo_, de veneranda memoria. Vindo todos os annos Povoa de Varzim, na epoca de banhos, na confeitaria contigua ao _Caf Chinez_ que elle apparece s noites, sempre de luvas, correctamente vestido, sobraando s vezes um pacotinho de doces. Que ao menos o saboroso blo de cco possa adoar as horas amargas da sua banca de advogado! --Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do _americano_ no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a avandone. E Joo Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me: --No se esquea de lr a _Nature_ de Hollinat. soberba! salgueiraes do Mondego, lamentai-o! musa alegre da tasca das _Camllas_, cobre de luto a tua face msta! fina flr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e... por vs! II Na individualidade litteraria de Joo Penha ha a distinguir o poeta da bohemia, e o poeta do amor. So dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro o estudante que frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libaes e nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que v formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o applauso e a admirao da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisao pessoal. Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na tradio universitaria, impregnados d'esse fugitivo _sachet_ de vida antiga, que a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos. A baiuca da Camlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio. Os que foram da gerao de Joo Penha ainda de certo o recordam hoje de monoculo no olho, capa traada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de Belvedre, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool. Oh vs, que do canto sois velhos freguezes, Ouvi d'estas lyras o mlico emprego! Ns somos as gmas, os bifes inglezes, Os paios das filhas do claro Mondego. Sorri-nos a vida nos calices cheios. Dos roixos falernos das parras da Beira; Sorri-nos a Cres dos tmidos seios; Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira. Nos mostos papyros da sciencia moderna A droga se encontra que ao somno convida; Queimmol-os todos, que s na taberna Os livros se encontram da sciencia da vida. Ao vento os cabellos! por montes e valles Corramos no passo das gregas choras! Bachantes das praas, vibrae os cymbales! Abri-nos as portas, gentis Galathas! A lenda das noites das Camllas, personificada em Joo Penha, subsistiu como uma das seduces tradicionaes da vida academica. Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que tem mais poderosas faculdades para traduzir as impresses da alma moderna, torturada pela nevrose, confessa a suggesto d'essa lenda bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos toneis impantes: ......... A Tasca das Camllas Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas. Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos, espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camllas a pessoa do doutor Joo Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas libaes; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela solido tenebrosa, teve esta exploso de desespero truculento: Tia Camllas... s ficou a camellice. O que lembra uma situao analoga cantada por Delille nos _Jardins_: ......... Telle jadis Carthage Vit sur ses murs dtruits Marius malheureux. Dir-se-ia que tinham desapparecido com Joo Penha e com o seu tempo essas tlas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camllas; paineis pagos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do _Vinho e fel_: D-me esse onagro de vigor silvestre, E os dres fundos, oh Sileno antigo: Ensina-me na dor: s tu s mestre. Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaado algum marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braos de um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado de evohs e de beijos, e de que s restava, inscripto no scco da esculptura mutilada, um sonetilho de Joo Penha: Oh poetas d'agua fria! Dizei-me: a vossa musa. Ser como a andalusa Que as noites me abrevia? Olhai-a: que poesia! Na drna da Arethusa L enche agora a infusa De classica ambrosia, E aos labios de cereja Eleva, airosa e rindo, O copo de cerveja! Oh quadro novo e lindo! Musas, chorai de inveja, Musas, descei do Pindo! Ainda rescaldam nos cavacos da academia as anecdotas, os episodios das noites das Camllas no tempo de Joo Penha. capitosa a tradio d'essa bohemia extincta, que sa ao longe, e que exalta a imaginao dos rapazes. Para Antonio Nobre era um sonho, que o attraiu a Coimbra, como a devoo de Meca attrae o arabe. Elle tinha de certo ouvido contar que Joo Penha, entrando na Tasca sem perder a donairosa compostura de um _gentleman_, que jamais esquecia as luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma taa, nome aristocratico com que nas Camllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, Joo Penha, com o ar de uma discrio cheia de orgulho e de mysterio, segredava: --Repita a dse para um envergonhado, que est ali fra... Na sombra do limiar, entreaberta a porta, Joo Penha esvasiava a segunda taa, simulando passal-a mo de um embuado de melodrama. Antonio Nobre conhecia a tradio, a anecdota, o pittoresco da lenda, mas, quando chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de Joo Penha, na Tasca das Camllas e na Via Latina, a lembrana de que passra outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou. Tia Camllas... s ficou a camellice. A tradio em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de Joo Penha bohemio. Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das geraes. Todos elles sabem de cr o famoso caso do incendio, que Joo Penha noticiava para Braga, ao irmo, como tendo sido uma calamidade biblica, um castigo do ceu, que o deixra despojado de todos os seus escassos haveres de estudante: Foi um incendio voraz! Parecia a propria Gomorra! E os manes do doutor Adrio Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na chalaa de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma bca impeccavel, onde s os eufemismos floriam como lirios brancos. Conheci em Lisboa, de o vr no parlamento, o irmo de Joo Penha, tambem advogado, e n'esse tempo deputado por Braga. Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmo, costumava dizer d'elle: --O seu unico vicio sou eu. De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou at raia do Minho e at raia do Algarve, como uma lenda nacional. Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o _Zabumba_ e a _Gaita de folles_, que Joo Penha publicou na _Sebenta_, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradio, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de Coimbra. Quantas vezes no tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos epigrammas de Joo Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do Pinto Lambaa! Em p, diante do Brito, D lio Pinto Lambaa: Parece a voz do Infinito A sair d'uma cabaa! E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnao? Tamagnini Encarnao Tem na ponta do nariz O colorido feliz De uma rosa do Japo. E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes: A lettra dos teus assumptos Bem nos demonstra quem s: Vale dois _nn_ bem juntos, lettra de quatro ps. Ha poucos dias, no _In illo tempore_ das _Novidades_, li o epigramma com que Joo Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama: Dizem que o Sanches embirra Que lhe vo pedir dispensa. Forte asneira! --Imagina que lhe pedem A despensa Onde tem a salgadeira... Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto _A um doutor Pedro_, que pde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na profundidade do conceito. Pelo que toca ao doutor, a tradio universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura; E vimos uma forma horrenda e bruta Surgir do ldo vil com gesto iroso, Como out'rora, no Cabo Tormentoso, O velho Adamastor de barba hirsuta. --Quem s tu? eu lhe disse.--Bardo, escuta, (Bramiu com voz ingente e desdenhoso) Eu sou no espao infindo e luminoso O verbo ideial da estupidez corrupta. Na terra sou Penedo: e o mar violento, O mar das sciencias vs da humanidade, J quiz vencer-me, e foi baldado o intento! Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade O cantico d'um tremulo jumento: --Era o preito da terra Immensidade. Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as geraes subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. Antonio Nobre tambem molhou a sua spa no capllo que encima o zingamcho do cathedratico zangaralho: Pedro da minh'alma! meu amigo! Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo! Mal diria eu em pequenito, quando a ama, Para eu me callar, vinha fazer-me susto cama Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo, Que eras tu o _Papo_! A ama, de olhos em fogo Imitava-te o andar, que no era bem de homem... Eu tinha birras:--Ahi vem o lobishomem! Dizia ella.--Bate porta! Truz! truz! truz! E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus! Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de Joo Penha era a sara ardente que prendia todos os olhares, attraia todas as attenes pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto _A uma rabequista_: Eu dera um litro do meu sangue azul, (Oh meus avs, no fulmineis o hereje!) S por beijar-te, no chapim taful, O pequenino p, que orchestras rege![6] A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me ha pouco Joo Penha: --O Manoel da Assumpo queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse intento... por ciumes. Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como Joo Penha foi, na phrase de Gonalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra. N'aquella quadra, como na organisao artistica de Joo Penha, incluindo a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de _vieille roche_ das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain, elle ama a tradio da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lio classica dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que no chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha roixa da brra. E se passa da tasca das Camllas para o salo nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rta pela casaca broslada, um cortezo de Luiz XIV quando empunha a taa, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas delicadas: D'este copo de vinho generoso Dai-me que eu tire o alento que desejo, Para que o novo canto, sonoroso, Desfira na guitarra em doce arpejo; E j que estou devras amoroso, Aproveito apressado um tal ensejo Para erguer leitora, que me escuta, Um brinde que me deixe a taa enxuta. Tal , rapidamente tracejado, o perfil lendario de Joo Penha bohemio, do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do _Homem do gaz_, do _Varo do Luxemburgo_, do _Conselheiro Rodrigo_, e da _Tia Maria Camlla_. Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, no descalava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista de raa, que adorava o primor da frma. Sob este ponto de vista Joo Penha e a _Folha_ exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana, to abandonado como antiqualha rcade depois de Bocage, resurgiu no acuro parnasiano de Joo Penha. E todos os da _Folha_, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas no cinzelamento esculptural da frma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simes Dias, Candido de Figueiredo, etc. III Para Joo Penha, como poeta lyrico, o amor parecia no ser mais que uma idealisao, uma phantasia de artista. Eu no encontrava, nos sonetos do _Vinho e Fel_, a abstraco absorvente de Petrarcha, a paixo abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o corao, reduzindo-o a cinzas. A Ironia andava de brao dado com o Amor, no lyrismo de Joo Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua expresso da Verdade. No descobria atravez das _Rimas_ o typo constante, persistente, de uma mulher, embora se me affigurasse que de recordaes avulsas e de perfis differentes crera o poeta o elemento feminino dos seus poemas. Nunca os versos de Joo Penha me deram, na taa do _Vinho e Fel_, a impresso de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma na voragem do scepticismo. Parecia-me que a sua musa obedeceu orientao romantica, que se comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente ornamental, a corolla das flres ideiaes do Sentimento. verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu considerava-a, se me permittem a expresso, um retrato de phantasia: Um rosto encantador, quasi moreno, De uns grandes olhos verdes animado: Negro o cabello, em tranas ennastrado; Correcto o supercilio, iris sereno; Vermelho o labio, sorridente e ameno; Breve a cintura; o collo, assetinado; Um donaire, das outras invejado; Magras as mos; o p, leve e pequeno: Eis a dama por quem chorando anhlo! Rival das graas do cinsel inio, Mas fria como a neve: o meu flagello! Eis a minha Nathercia, o cruel demonio Por quem vivo perdido, mas to bello Que nem lhe resistira Santo Antonio! Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepo artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio com a inspirao sentimental do lyrico. Assim no tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o retrato da primeira pagina o peso de um paio rolio de Lamego, que se esborrachava em rbidas gorduras sobre a miniatura delicada: Mal pode phantasiar-te a mente accsa To gentil como quando, venturoso, Te vi a vez primeira, brio de goso, Estatico de pasmo e de surpreza. Que prodigio de esplendida bellesa! Que labios, que sorrir, que olhar piedoso! Que opulento cabello... um mar undoso Onde escondras a gentil nudeza! Assentada n'um banco de verdura, Junto margem do mrmuro Mondgo, De um Corregio vencras a pintura. Ai! perdi, desde ento, paz e socego: Se estavas to graciosa em tal postura, E comias um paio de Lamego! E logo, como na travao logica de um poema, cuja traa foi gisada calculadamente, o paio continuava a materialisar a desilluso do poeta, que no encontrava na realidade da vida a mulher ideial das suas noites de phantasia romantica. O paio parecia-me na obra de Joo Penha um symbolo de salutar desengano para os que criam na espiritualidade ethrea da mulher e que, regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar rehabilitao salvadora na despensa, no _rstaurant_, e na cava. s minha, s minha, oh venturoso fado! Cedeste chamma que em meu peito alento! Chegou por fim o divinal momento, O dia de meus sonhos anhelado! O ceu, ha pouco trvo, eil-o azulado: Sussurra esmorecido ao longe o vento; Esplende o sol no ethereo firmamento; Recende aromas o florente prado. Quando ha pouco a teus ps (oh quadro lindo!) Te disse o meu amor, em doce esmaio Senti volupias de um prazer infindo. Oh camnas agricolas, cantai-o! Ella, a minha formosa, ella fugindo, Deixou-me o corao, deixou-me o paio. Desfeito o sonho, fica nas mos do poeta como um refem da sua esperana perdida, das suas illuses derrotadas, o paio,--a poro mais subjectiva do _eu_ espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia, como o porco do rebanho de Epicuro, _Epicuri de grege porcus_. Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretao d'este symbolo culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecl-a a clara exegse d'este soneto: Aquella Rosa branca, a flor mais viva Dos jardins olorosos de Granada, J no parece a flor enamorada, Triste por viver s, viver captiva. Outr'ora, em seu mirante, pensativa, Muitas vezes a luz da madrugada A via entre boninas, enlevada, Nos sons d'uma guitarra fugitiva. Agora, a Beatriz do Poeta abstruso, A Elleonora das canes do Tasso, A Nathercia gentil do cantor luso, Sol perdido em nevoeiro escuro e bao, A citharas prefere a roca e o fuso, Aos meus cantos,--presuntos de Melgao! Sente-se na symbolica de Joo Penha a alma alegre de uma gerao que teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar. Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaa, que ainda hoje, apesar de vasia, d a impresso do apetite saluberrimo da ordem de Cistr. Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangires bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras. Um brao invisivel parece encaminhar o nosso espirito vasta mesa do refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de comesana macissa, que o apetite voraz ha de em breve vencer e desmoronar. Sbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um prgador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem f e sem unco, da diabolica attraco dos sete peccados mortaes, que os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar. E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria... Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dir para o fundo do prato com os seus botes:--Que mulher conheci eu por l que valesse esta bella petisqueira d'Alcobaa? Assim Joo Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto: Cantai-me a vida, e o sonho transitorio! Cantai, emquanto dor busco remedio Nos vastos caldeires do refeitorio. A raa, no breve lapso de vinte annos, hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos poetas modernos. Vede bem! Joo Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no symbolismo tetrico da _Velha_ (a morte) e do _Hotel da Cova_ (a sepultura). E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolr auctoritario, a Pandecta ranosa falla ainda mais alto que toda a concepo do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha s uma coisa que falla mais alto que a Universidade,-- a _Cabra_. Continuando o _meio_ a ser o mesmo, sendo mesmissima a atmosphera social onde a mocidade academica respira, claro que a variedade das impresses recebidas se ha de explicar pelas condies especiaes, tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe. Assim, pois, temos em Joo Penha a musa viva que floresce o amarantho, rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que desabrocha a pllida cecm, perfumada, mas branca como a neve. Depois de haver escripto a _Carta a Manoel_, Antonio Nobre, sedento de ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no Bairro Latino, e l mesmo se encontra _s_ e desgraado. Joo Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo, por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taa repleta de phalerno. No ha dr que resista a um vinho ardente, Nem ao facil amor de uma hespanhola. Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppr de longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de Joo Penha, a verdade que elle amou, embora no andasse lutuosamente vestido de almfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos melodramaticos, que alis caricaturou. Os humoristas levam s vezes a estes erros de apreciao, porque, em vez de fazerem da sua dr um poema, segundo a expresso de Goethe, fingem que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a... No fundo da biographia de Joo Penha est effectivamente a memoria de um amor, que inspirou _O Vinho e Fel_ e _O Tancredo_, poema no genero do _Onofre_, e que, como muitas outras composies, perdidas, ou publicadas em jornaes, no sahiu nas _Rimas_. --Ns em Coimbra, dizia-me Joo Penha, bebiamos, no para apagar a sde ou para afogar paixes,--mas para dar tom aos nervos e activar os movimentos do machinismo intellectual. Todavia no deve esquecer-se que o vinho o grande consolador dos tristes: _date vinum moerentibus et ltobunt..._ Esta phrase rasga o vo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taa da bonomia. Mas ri-se como quem chora, O bardo das scenas varias, Qual ri o mocho sombrio Sobre as loisas funerarias. A noite na adega esconsa, D'uns cands luz escassa, Quantas vezes no procura O esquecimento na taa! ....................... Que j li sobre uma lage, Occulta, n'umas cavernas, Este sinistro epitaphio Do phantasma das tabernas: Aqui jaz o bardo triste Junto bella Carolina: Riu-se a bella do rapaz, Riu-se o rapaz da menina. Mais de um rugido de paixo leonina estruge na adga esconsa, luz fumenta dos candis, emquanto a tia Camlla despeja do pichel um gorgolo vermelho de phalerno: Venho pedir-te o retrato Que te dei por amisade: No quero servir de ornato Nos alcouces da cidade. Quero laval-o nas ondas, Que gemem na praia agreste, D'aquellas manchas hediondas Dos beijos que tu lhe dste. Quero arrancar-lhe a moldura, O teu cabello, e trocal-o Por uma trana mais pura Das crinas do meu cavallo. Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazo plena de romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro face de Margarida Gautier. _s da raa dos Borgias!_ vocifera o poeta, mas traa a capa de estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixo ... nos bjos da amphora vetusta. Diz Gonalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o p no estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade que quem partiu foi elle, deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga. Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que no conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta no tardava, prompta e cabal: Mais frio que Blondin sobre o Niagra, Julgas minh'alma em vis paixes accesa; E comtudo nas ostras da bellesa Eu s procuro o amor, perola rara. Mas, no encontrando a perola rara, tomava o partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limo, e com o sorriso tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel. Convm notar que Joo Ponha deu o titulo de _Lyra de Pangloss_ a uma das subdivises das suas _Rimas_. Sahindo de Coimbra, no chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos, das suas illuses perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito, Aquelle meu espirito opulento, Que vivia na luz dos sonhos bellos, vira morrer os ultimos anhelos, mas resistira, graas ao sabio formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer ... em to doce obesidade, Que dentro em pouco me vereis no transe De tomar ordens e fazer-me abbade. A gente sahe da leitura das _Rimas_ to bem disposta como Joo Penha sahiu de Coimbra. Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no nosso espirito a impresso de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes e chores, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore. Pelo contrario, as _Rimas_ de Joo Penha so como um pomar do Minho, uberrimo e cantante, onde a cr dos fructos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viosa espuma em borbotes sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma bambochata feliz de collegiaes em liberdade. com a impreso de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das _Rimas_. IV Em litteratura, Joo Penha hoje, como hontem, um conservador convicto, um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de originalidade saudavel. As suas opinies so conhecidas.[7] Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e determinada philosophia, porque no ha relao proxima ou remota entre os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistir a todos os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, ser eterna, porque eternamente o homem perseguido pela realidade, se refugiar, pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illuses. Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, a obra em si mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento de observao. Joo Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella, licito admittir personagens excepcionaes, casos que no sejam communs; n'esta, os modelos so vulgares, as cousas so descriptas, no como o artista as possa vr, mas como a multido as v. Notarei, de passagem, que n'esta subdiviso, Joo Penha parece ir mais longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo. O famoso auctor do _Roman exprimental_ adoptou como formula generica o naturalismo, que velho, porque data de Homero, e que define: o regresso natureza e ao homem, a observao directa, a anatomia exacta. Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo. Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du sens rel. Qu'il soit dans un foss ou dans les toiles, en bas ou en haut, il m'est galement indiffrent. La verit a un son auquel j'estime qu'on ne saurait se tromper. Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos e dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos girem no azul ou na terra. Eu no estabeleo differena entre naturalismo e realismo, que considero synonimos: acho que procurar a realidade investigar a natureza, seja nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha s vezes, seja nos modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias. Tornando, porm, ao ponto, Joo Penha no admitte, nas obras do espirito humano, seno dois effeitos: o de instruir e o de commover. A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientao da medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que pretende guiar o espirito na investigao da verdade. No sensibilisa, no evola a alma at regio do sonho; pelo contrario, prende-a terra, realidade, como uma algema, um Prometheu. Portanto est fra da esphera da arte, que fundamentalmente suggestiva e emotiva. Por isso Alexandre Dumas ser eternamente lido, ao passo que os editores franceses se tem visto na necessidade de ir alijando as edies dos copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada. A profisso de f litteraria de Joo Penha, exposta no prefacio da _Tristia_, no abrange a moderna escola poetica, chamada, entre ns, dos _nephelibatas_. Mas a sua opinio sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que defende as tradies do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias no ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de Joo Penha sobre a obra recente dos novissimos: --No transijo com essa escola, disse-me elle. No admitto poesia sem rythmo, como no admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, prosa. E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convico com que Theophilo Gautier escrevera: Vouloir sparer le vers de la posie, c'est une folie moderne qui ne tend rien de moins que l'anantissement de l'art lui-mme. Quando eu estava ouvindo as palavras de Joo Penha, lembrava-me da phrase de Junqueiro nos _Simples_: A frma poetica encaminha-se soluo final. Horisonte immenso. Horisonte immenso, sim, porque j no ha medida para o verso, que vai at onde quer ir. De outro modo no percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da metrificao portugueza esto definidos e marcados, no h por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na frma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela nacionalisao dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no _D. Jayme_ e na _Delphina_, percorreu todos os metros admissiveis na versificao portugueza, empregando o de treze syllabas, que j era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medio latina e resuscitar a toante castelhana,[8] Mas os poetas que vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a respeitaram at certo tempo, acharam que no valia a pena experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vr no era menos monotona que o _refrain_ dos nephelibatas): nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fuso de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido. Percebe-se que Joo Penha, que j em Coimbra dizia a um renegado do romantismo Prosa e verso tm balizas, exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto pureza da lingua, Joo Penha no se mostra menos intransigente. Ainda o anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre Boileau: Sans la langue... l'auteur le plus divin Est toujours, quoi qu'il fasse, un mchant crivain. Assim, pois, no lhe regalaro decerto o ouvido puritano as innovaes barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel valor, parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio Brando, quando diz: E citharas balana um cro vago de _pucellas_. Rostos morenos, _brunos_, pallidos, divinos. Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos modernos poetas portugueses. Ver-se-ha ento que admiro a concepo genial de uns, e que fao justia a todos. Mas encontro-me com Joo Penha no que reputo a disciplina indispensavel da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer--da arte. E estou em opposio a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima evoluo poetica rasga horisontes inditos, sobretudo no ponto de vista da frma e da expresso.[9] P. de Varzim--Novembro de 1893. FIM Preo 250 reis A colleco de monografias que hoje encetamos patrioticamente, no obstante a apathia do mercado litterario, abranger, do modo mais completo possivel, a larga e gloriosa lista de _todos_ os poetas modernos do Minho. O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a JOO PENHA e ALMEIDA BRAGA, que nasceram na capital da provincia, mas traar, seguidamente, o perfil de outros poetas brilhantes, nascidos em Guimares, Vianna do Castello, Barcellos, Ponte do Lima, etc. [1] Palavras suas em annotao ao volume dos _Simples_. [2] D'uma viso mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoes, e portanto _uma nova arte_. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e no apenas uma evoluosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie. [3] Emquanto technica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota no fosse escripta rapidamente, com o impressor espera. --Notas aos Simples. [4] _Morte de D. Joo._ [5] _A Velhice do Padre Eterno._ [6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantao da _Folha_ para as _Rimas_. Dra um quartilho do meu sangue azul (Oh meus avs, estremecei na campa!) Por dar-te um beijo no chapim taful, Que esconde um p, de se gravar na estampa. Tal era, na _Folha_, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os bachareis em direito so os primeiros a desacatar a lei! [7] Expostas no prefacio _Tristia_ de Anthero de Figueiredo. [8] _Vesperas_; pag. 219. [9] Prefacio ao _Livro de Aglas_. 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