Produced by Pedro Saborano, Ricardo Diogo and Tiago Tejo, and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional Digital--http://bnd.bn.pt). SONETOS OS SONETOS COMPLETOS DE Anthero de Quental publicados por J. P. Oliveira Martins PORTO LIVRARIA PORTUENSE DE _LOPES & C.^a--EDITORES_ 119, Rua do Almada, 123* 1886 PORTO TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL Rua da Fabrica, 66 Escrevendo estas breves paginas frente dos _Sonetos_ de Anthero de Quental tenho a satisfao intima de cumprir o dever de tornar conhecida do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado. Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem cco no espirito vulgar que faz reputaes e d popularidade, ha-de encontrar um acolhimento amoroso em todas as almas de eleio, e durar emquanto houver coraes afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza. Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico no interessa: a viva amisade, a estreita communho de sentimentos, o affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o nosso desalento. Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo, zangando-nos s vezes e abraando-nos sempre: assim tem decorrido para ns perto de vinte annos. Mas o leitor que nada tem que vr com esses casos particulares, nem com o abrao que trocmos no dia em que primeiro nos conhecemos e que s terminar n'aquelle em que um de ns, ou ambos ns, formos descanar para sempre sob meia duzia de ps de terra fria. I Eu no conheo phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava _alma_ para uma familia inteira. sabidamente um poeta na mais elevada expresso da palavra; mas ao mesmo tempo a intelligencia mais critica, o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheo. um poeta que sente, mas um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa. Inventa, e critca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia, d corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.--O seu temperamento apresenta um contraste correlativo: meigo como uma creana, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente duro e violento. fraco, portanto? No. A vontade, em obediencia qual, e com esforo, se faz colerico, fal-o tambem forte--d'esta fora persistente, raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de bonana. O Oceano, porm, interiormente agitado pelo _gulf stream_ quente e invisvel: tambem s vezes a placidez extrema da sua face encobre ondas de afflico que sobem at aos olhos e rebentam em lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade. d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental no _faz_ versos maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como solluos e agonias. Mas, apezar d'isso, requintado e exigente como um artista: as suas lagrimas ho de ter o contrno de perolas, os seus gemidos ho de ser musicaes. As faculdades artisticas geradoras da estatuaria e da symphonia so as que vibram na sua alma esthetica. A noo das frmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gro eminente: no j assim a da cr nem a da _composio_. Aos quadros chama _paineis_ com desdem, e por isso mesmo tem horror descripo e ao pittoresco. artista, no que a arte contm de mais subjectivo. A sua poesia esculptural e hieratica, e por isso phantastica. exclusivamente psychologica e dantesca: no pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quasi indigno. Os seus versos so sentidos, so _vividos_ como nenhuns; mas o sentir e o viver d'este homem de uma natureza especial que tem por fronteiras phisicas as paredes do seu craneo, mas que no tem fronteiras no mundo real, porque a sua imaginao paira librada nas azas de uma razo especulativa para a qual no ha limites. O poeta por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e a metaphisica, o sentimento e a razo, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a intelligencia, combatem-se, s vezes dilacerando-se. Eis ahi a explicao d'esta poesia que o retrato vivo do homem. O genio, esse _quid_ divinatorio, que no honra para nenhuma creatura possuir, porque s nos d merecimento aquillo que ganhmos fora de intelligencia e de vontade; o genio, que uma faculdade to accidental como a cr dos cabellos, ou o desenho das feies; o genio, que pode andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o no anda no caso de Anthero de Quental-- o predicado particular e a chave do enygma d'este homem. O genio presuppe a intuio de uma verdade visceral ou fundamental da natureza. Essa intuio, essa aspirao absorvente, para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma philosophia onde caibam todas as suas vises. O proprio do genio querer realisar o irrealisavel; ser chimerico, no sentido critico da palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que no pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja realidade se sente, sem se poder ver. Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porm um typo de sinceridade e de rectido mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar d'ella um grande cynico. sobretudo um stoico, sem deixar de ter bastante de sceptico; um mystico, mas com uma forte dose de ironia e humorismo; e um mysanthropo, quando no o homem do trato mais affavel, da convivencia mais alegre; um pessimista, que todavia acha em geral tudo optimo. Intellectualmente a phisionomia mais dubia, complexa e contradictoria por vezes; moralmente o caracter mais inteiro e melhor que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por no querer ao mesmo tempo, sem todavia ter rases bastantes para querer nem tambem para no querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado praticamente humano, est na energia do seu querer moral, e no na lucidez do seu pensamento; embora tenha a preteno de julgar que a sua vontade obedece sempre sua razo. verdade que dentro de si tem permanentemente um espelho facetado que representa e critca as modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, v ou inventa faces de mais s cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca esmorece a bondade luminosa da sua alma. um homem fundamentalmente bom. A complexidade do seu espirito d-lhe uma variedade de aptides singular. Conversador como poucos, facil, espontaneo, original e suggestivo, ironico, humorista, espirituoso, descendo at propria _charge_, no ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia critica na ladeira de uma these, e, explorando-a em todos os sentidos, architectar uma theoria. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa portugueza d'este tempo) tm em geral este caracter. So logicos, so bem deduzidos--sem serem sufficientemente pensados. So fructos da imaginao; so conversas escriptas, d'essas conversas que durante horas seduzem os que o ouvem--porque um _charmeur_. Elle proprio se embriaga, no com as suas palavras, mas sim com aquella theoria passageira que inventou _ad hoc_, e, quando alguem lhe objecta um pequeno seno, todavia essencial ao seu edificio logico, resiste, defende-se, irrita-se s vezes, mas por fim elle proprio que, com um dito, desfaz toda a construco. Seria um orador, um jornalista de primeira ordem, se no tomasse apenas a srio a sua misso de poeta, ou antes de philosopho. Depois de tudo isto diro pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem que Anthero de Quental um assombro. Longe d'isso. A sua fora e a prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito; mas essa fora uma fraqueza. Tem demasiada imaginao para ver bem; e por outro lado o raciocinio critico peia-lhe os vos luminosos da phantasia. V de mais para poder ser activo, ou no tem a energia correspondente sua viso. Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginao e a razo, irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvolues limitadas que contm, so egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer d'ellas domine. Luctam em permanencia, procurando entender-se, combinar-se, penetrar-se, e, no desejo chimerico da synthese, desequilibram o homem, atrophiando-lhe a energia activa. Ainda assim, felizes d'aquelles cuja inercia dsse um livro comparavel a este! Mas que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em lucta comsigo mesmo! O commum da gente, ao ler as paginas d'este volume, dir ento: Quantas catastrophes, que desgraas, este homem soffreu! que singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!--E todavia o mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraa o acabrunhou; a sua vida tem corrido serena, placida, e at para o geral da gente em condies de felicidade. que o geral da gente no sabe que as tempestades da imaginao so as mais duras de passar! No ha dores to agudas como as dores imaginarias. No ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento, nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias dilacerantes da morte com as ancias do stertor, os horrores mais inverosimeis dos crimes monstruosos, as afflices mais pungentes da saudade, as tristezas mais dolorosas da solido, as luctas do dever com a paixo, os gritos do homem arruinado, os ais da orphandade faminta... tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miseria at prostituio, desde o andrajo at ao velludo arrastado pela immundicie, desde o cardo que dilacera os ps at ao punhal que rasga o corao: tudo isso menos, do que a agonia de um poeta vendo passar diante de si, em turbilho medonho, as lugubres miserias do mundo. Todas as afflices tm o seu qu de imaginativas, e por isso ha apenas uma especie de homens que no sentem: so os cynicos, esses que perderam os nervos da moralidade, os anesthesiados do sentimento. Quando se poeta como Anthero de Quental, a imaginao exacerbada vibra como as harpas que os gregos expunham s viraes da brisa nos ramos das arvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma d'essas desgraas do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia essa harpa geme e chora, sollua e grita, porque pelas suas cordas passa o vento agreste das idas, passa o cco ullulante do egoismo dos homens, afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos. II Esta colleco de Sonetos , portanto, ao mesmo tempo biographica e cyclica. Conta-nos as tempestades de um espirito; mas essas tempestades no so os quaesquer episodios particulares de uma vida de homem: so a refraco das agonias moraes do nosso tempo, vividas, porem, na imaginao de um poeta. O primeiro periodo, de 1860-2, contm em embryo todos os successivos, da mesma frma que as flores incluem em si a substancia dos fructos. Denunca uma alma sensivel, mas patenteia j a preoccupao metaphisica na sua phase rudimentar de duvida theologica, e apresenta uns assomos de tristeza que so como os farrapos de nuvens quando velam intermittentemente o sol, deixando antever a tempestade para o dia seguinte. Estes primeiros sonetos so o balbuciar de uma creana. Romantica? De modo nenhum. Este poeta no se filia em escholas, no obedece a correntes litterarias: a sua poesia exclusivamente pessoal. Succedia, porem, que n'esse tempo j os nossos bardos classicamente romanticos tinham passado da moda; e a Coimbra chegavam por via de Paris os ccos do espirito novo, expresso nas obras de Michelet, de Quinet, de Vera-Hegel, etc. Tudo isso fermentava no cerebro de Anthero de Quental, mas a sua personalidade no se deixava absorver pelo optimismo que, depois dos romanticos, se espalhou na Europa, lyricamente ingenuo no Occidente afrancezado, systematicamente philosophico na Allemanha hegeliana. Schopenhauer, ninguem o lia. No era moda. Pois foi essa corrente, dominante hoje, aquella em que o nosso poeta, espontaneamente, por um movimento do seu temperamento, se achou levado. Aos dezoito ou vinte annos, ignorante ainda, mas inquieto e perscrutador, o poeta que desdenha sinceramente da fama e da gloria, v no eterno feminino de que nos falla Goethe a synthese da existencia. Os seus amores j so phantasticos: s tem realidade no ceu. Alli, lyrio dos celestes valles, Tendo seu fim, tero o seu comeo, Para no mais findar, nossos amores. E se ainda o dia, a luz, o sol _esposo amado_, tm o condo de o encher de enthusiasmo, mister desconfiar de um homem mais caprichoso do que todas as mulheres, porque Pedindo forma, em vo, a idea pura Tropeo, em sombras, na materia dura E encontro a imperfeio de quanto existe. Esta nota mais constitucionalmente verdadeira. Seja a terra degredo, o ceu destino diz n'um ponto; e n'outro: Minha alma, Deus, a outros ceus aspira: Se um momento a prendeu mortal belleza pela eterna patria que suspira... No acreditemos tambem demasiadamente n'isto, porque Deus no passa ainda de uma interrogao: Pura essencia das lagrimas que choro E sonho dos meus sonhos! Se s verdade, Descobre-te, viso, no ceu ao menos! As luctas infants d'este primeiro periodo para saber se Deus ou no verdade, bastam, em si mesmo e no proprio modo por que esto expressas, para nos mostrar que o poeta no saiu ainda das espheras da representao elementar dos seres, para a esphera comprehensiva das abstraces racionaes. Os sonetos d'esta primeira serie desenrolam-se no terreno da phantasmagoria transcendente. O trao mais seguro de todos e o mais significativo est n'este verso: Que sempre o mal peior ter nascido. A segunda serie tem a data de 1862-6. Psychologicamente a menos original, artisticamente a mais brilhante. O _Sonho oriental_, o _Idyllio_, o _Palacio da Ventura_, so obras primas, at de colorido. Talvez por isso mesmo que o estado de espirito do poeta o no obrigava a tirar tanto de si, e porque n'esta epocha viveu mais lei da natureza; talvez por isso mesmo a sentiu e pintou melhor nas suas cres, nas suas imagens. A nebulose do primeiro periodo comeava a resolver-se n'uma tragedia mental, que umas vezes tem os sonhos dos que mastigam haschich, outras vezes furias de desespero, ironias como punhaes e gritos lancinantes: Se nada ha que me aquea esta frieza, Se estou cheio de fel e de tristeza, de crer que s eu seja o culpado. Meu pobre amigo, como foi amarga esta epocha! Outros soffreram tambem, outros penaram eguaes dores, sem conseguirem porem estrangular os monstros que defendem os ditos do templo da Sabedoria. Heine e Espronceda, Nerval e Baudelaire viveram vidas inteiras n'esse estado de ironia e de sarcasmo, de desespero e de raiva, de orgia e de abatimento, de furia e de atonia, que para ti representam quatro annos apenas! Mas que no havia em nenhum d'esses homens a semente de abstraco que se descobre no _Palacio da Ventura_: Abrem-se as portas d'ouro, com fragor... Mas dentro encontro s, cheio de dor, Silencio e escurido--e nada mais! Os romanticos, mais ou menos satanistas ou satanisados, ficavam-se por aqui. Achando apenas silencio e escurido onde tinham sonhado venturas, ou davam em bebedos como Espronceda, ou suicidavam-se como Nerval, ou faziam-se cynicos, maneira de Baudelaire, cultivando com amor as _Flores do Mal_. De 1864 a 74, n'esses dez annos em que a tempestade caminha, v-se a onda negra da desolao espraiar-se; v-se o silencio e a escurido que antes surgiam como surprezas medonhas, ganharem um logar apropriado, embora eminente, no regimen das cousas; v-se o espirito do philosopho reagir sobre o temperamento do poeta, e tornar-se systema o que at ahi era furia. Bom prenuncio. N'esta epocha Anthero de Quental nihilista como philosopho, anarchista como politico: tudo o que fr negativo, tudo o que fr excessivo; e -o de um modo to terminante, to dogmatico e to affirmativo, que por isso mesmo hesitamos em crer na consciencia com que o . Da sinceridade no licito duvidar, mas contra a segurana depe a propria violencia. A nevrose contemporanea, que produzira n'elle a terceira epocha, d de si ainda a quarta; mas se poude galgar a saltos por entre a floresta incendiada que devorou e consumiu os satanicos, no poder tambem sair da steppe lugubre onde apodrecem os pessimistas, embriagados na negao universal, sem se lembrarem de que so contradictorios no proprio facto de prgarem o que quer que seja? Ora a isto responde esta propria serie, porque, ao lado dos sonetos crepuscularmente desolados, levantam-se como auroras os sonetos stoicos. Para curar o poeta da vertigem satanica serviu-lhe a methaphisica pessimista; para o curar mais tarde d'essa metaphisica, servir-lhe-ha a reaco do sentimento moral sobre a razo especulativa. Quando pede _Mais luz_, quando chama ao sol O claro sol amigo dos heroes, quando define a _Idea_ acabando por estes versos diamantinos: A Idea, o Summo bem, o Verbo, a Essencia S se revela aos homens e s naes No ceu incorruptivel da Consciencia! sentimo-nos bem distantes das phantasmagorias do principio e das loucuras da viagem, que todavia o poeta no terminou ainda. Luctando furioso contra a desilluso, caindo esmagado pelo anniquilamento, Anthero de Quental _ensimismou-se_ (para usar de uma feliz expresso hespanhola) metteu-se dentro de si, a ss comsigo, apellou para as energias do seu instincto de homem, e foi isso o que lhe inspirou o bello _Hymno Razo_. Porem na lucta entre o temperamento de stoico e a imaginao metaphisica, o seu espirito attribulado no conseguiu manter o equilibrio, porque as suas exigencias de critico e philosopho (alimentadas agora por leituras variadissimas e profundas) contrariavam ou contradiziam as suas vizes de poeta. maneira que a intelligencia se lhe cultivava, que o saber lhe crescia, que a experiencia o educava com mais de um caso doloroso ou apenas triste--apurava-se-lhe a imaginao at ao ponto de ver claramente o que para o commum dos espiritos so apenas concepes do entendimento abstracto. A sua poesia despe-se ento de accessorios: no ha quasi uma imagem; ha apenas linhas, mas essas linhas de estatuas incorporeas tem uma nitidez dantesca. O seu pessimismo torna-se systematico: uma philosophia inteira, a que corresponde, como expresso sentimental, a ironia transcendente. Na _Disputa em Familia_, Deus responde aos atheus: Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil, ridiculas creanas, Sabia eu tudo isso... e muito mais! No _Inconsciente_, este heroe metaphisico, diz assim: Chamam-me Deus ha mais de dez mil annos... Mas eu por mim no sei como me chamo. Na _Divina Comedia_ os homens queixam-se aos deuses do que soffrem, invectivando-os pelos terem creado. Mas os deuses com voz ainda mais triste Dizem:--Homens! porque que nos creastes? Como se v, houve um progresso. No periodo anterior a negao era violenta e terminante; agora tem como expresso a ironia que uma das formas conhecidas do saber, e uma das linguagens da verdade. Eis ahi o que a reaco moral conseguiu, acompanhada pelo esclarecimento da razo, da intelligencia e do conhecimento. O antigo poeta satanico, transformado em um nihilista, vemol-o agora na pelle de um pessimista systematico, sorrindo j bondosamente, com a ironia n'esses proprios labios que, primeiro cobertos de espuma, depois nos appareciam brancos de agonias. No tinha eu razo para chamar cyclica a esta colleco de sonetos? No tem sido este o movimento das idas, a evoluo do pensamento creador na segunda metade do nosso seculo? Quando escreveu o primeiro soneto da quarta serie (1880-4) J socega, depois de tanta lucta, J me descana em paz o corao... Anthero de Quental resolveu destruir todas as suas poesias _lugubres_. Sentia remorsos por alguma vez ter estado n'uma disposio de animo que agora considerava com horror. Entendia que esses versos tetricos no podiam consolar ninguem, e fariam mal a muita gente. Destruiu-os, pois, com aquella violencia propria de um caracter intermittentemente meigo e frenetico como o de uma mulher. D'esse naufragio onde se perderam verdadeiras obras-primas, salvei eu as poesias que vo no fim d'este ensaio; e salvei-as porque as possuia entre os originaes remettidos em cartas, e mais de uma vez como texto de noticias do estado do seu espirito, ou cartas rimadas. Que especie de paz era porem essa em que o seu corao descanava? Era o _Nirvna_: E quando o pensamento, assim absorto, Emerge a custo d'esse mundo morto E torna a olhar as cousas naturaes, bella luz da vida, ampla, infinita S v com tedio em tudo quanto fita A illuso e o vasio universaes. O Nirvna o ceu do buddhismo, a religio mais philosophica e menos phantasmagorica inventada pelos homens. por este motivo que o buddhismo attrae hoje em dia todos os espiritos a um tempo racionalistas e mysticos, d'esta epocha em tudo similhante alexandrina, menos no volume do saber positivo que j se no compadece com muitas das theorias sobre que os noplatonicos especulavam. A theoria da Substancia levou-os a elles a uma concepo do Ser que produziu o mytho do Verbo christo, encarnado popularmente em Jesus-Christo. Ora hoje tudo isso vale apenas como documento historico, e, por paradoxal que isto parea, o No-Ser , segundo a metaphisica contemporanea, a essencia de tudo o que existe. O Absoluto o Nada. O Universo, a realidade inteira, so modalidades, aspectos fugitivos, que s se tornam verdades racionaes quando nos apparecem despidas de todos os accidentes. E como pelos accidentes apenas que ns, distinguindo-as, as conhecemos, a realidade verdadeiramente e em si Nada. Religiosamente, Nada egual a Nirvna; e o buddhismo a nica religio que attingiu esta concluso, summaria do pensamento scientifico moderno. O Nirvna esse estado em que os seres, despindo-se de todas as suas modalidades e accidentes, de todas as condies de realidade, condies que os limitam distinguindo-os entre si, adquirem a no-realidade (o no-contingente) e com ella a existencia absoluta e a absoluta liberdade. Essa liberdade o typo e a essencia da vida espiritual; e o Nirvna, puro No-Ser para a intelligencia, , para o sentimento moral, o symbolo e o vehiculo de toda a perfeio e virtude: radicalmente negativo na esphera da razo, , na esphera do sentimento, absolutamente affirmativo. O pessimismo torna-se d'esta frma um optimismo gigantesco; toda a inercia condemnada, e o systema das cousas, agitando-se, movendo-se na direco do anniquilamento final, move-se e agita-se no sentido de uma liberdade evolutivamente progressiva at attingir a plenitude. O Universo uma grande vida que tem, no termo, o termo de todas as vidas--a morte, idealisada agora e tornada luminosa e appetecivel por essa idealisao. Leiam-se os dois sonetos _Redempo_, talvez os mais bellos de todo o livro, e comprehender-se-ha melhor o que fica dito. Leia-se o _Elogio da morte_ Dormirei no teu seio inalteravel, Na communho da paz universal, Morte libertadora e inviolavel! e ver-se-ha quanto estamos longe do desespero tragico de outros annos. A tempestade acalmou. Na esphera do invisivel, da intangivel, Sobre desertos, vacuo, soledade, Va e paira o espirito impassivel presidindo evoluo dos seres (V. o soneto _Evoluo_) desde a rocha at ao homem, evoluo que seria absolutamente inexpressiva se no tivesse um destino, um fim, um ideal. A theoria do progresso indefinido , com effeito, racionalmente absurda. Esse destino, para os neo-buddhistas, o Nada transcendente; esse ideal a Liberdade. A existencia est pois consagrada racionalmente: falta consagral-a sentimentalmente. Falta ainda ao systema um medianeiro: o Amor. Porm o corao feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente, Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver no foi em vo, se isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor. O Universo est pois construido e sanctificado na mente do poeta e na razo do philosopho. Dir-se-ha portanto que a chimera de que a principio fallmos ficou desvendada, o problema resolvido, conciliada a viso com a razo, e que nos no resta mais do que fazermo-nos todos buddhistas? Supprema illuso! Creia-o embora o poeta: eu, como critico, observando que o pensamento humano, desde que existe e trabalha, progride sempre, com effeito, mas progride em tres estradas parallelas que, por serem parallelas, nunca podem encontrar-se, atrevo-me a affirmar a irreductibilidade do mysticismo, racional ou imaginativamente concebido, e do naturalismo, ponderada ou orgiacamente realisado. Atrevo-me a dizer que estes dois feitios ou temperamentos so constitucionaes do espirito humano, e que da coexistencia necessaria d'elles resulta um terceiro--o sceptico, o critico, o que provm da comparao de ambos, e por isso no tem cr, nem affirmativo; dando-se melhor com a natureza do que com a phantasmagoria, preferindo a harmonia mais ou menos equilibrada, ou mais ou menos claudicante do hellenismo, orgia desenfreada dos orientaes; considerando a existencia como um compromisso, o dever como uma condio da vida, mas tambem a fraqueza como uma condio dos homens. Estes tres temperamentos so correspondentes a typos eternos e irreductiveis da consciencia humana; e, se o buddhismo a melhor religio para um mystico do seculo XIX, saturado de sciencia e derreado de cogitaes, o christianismo, como directo herdeiro do hellenismo, hade eternamente satisfazer melhor os scepticos e os naturalistas, cujo numero e foi sempre infinitamente maior, entre os europeos. Um hellenismo coroado por um buddhismo eis a formula com que mais de uma vez Anthero de Quental me tem exprimido o seu pensamento--a sua chimera! Chimera, digo, por que a cora no nos pde assentar na cabea, sob pena de a crivar de espinhos e de a deixar escorrendo sangue. Fundar o principio da aco na inercia systematica, a realidade no no-ser, a vida no anniquilamento, s praticamente acceitavel para o commum de homens quando acreditem na metempsycose, dogma to infantilmente mythico do buddhismo como v. g. o inferno do christianismo. Ao christianismo, porm, tirando-se-lhe tudo quanto a imaginao semita deu para a sua formao, fica ainda o hellenismo, isto , um idealismo mais ou menos pantheista e uma theoria moral--cousas que eu no affirmo que resistam a uma analyse rigorosamente logica, por isso mesmo que todo o nosso conhecimento racional das cousas assenta apenas sobre axiomas do senso commum--ao passo que, em se tirando a metempsycose ao buddhismo, o buddhismo reduz-se a uma nevoa de abstraces. Pobre humanidade, se se visse condemnada coroao buddhista! Ns europeos, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplao inerte, soffreriamos as agonias, experimentariamos as afflices do poeta que, tendo no peito um corao activo, tem na cabea uma imaginao mystica, e, para obedecer ao pensamento, tortura o corao, sem poder tambem esmagal-o sob o mando da intelligencia. D'este cruel estado vm os documentos que attestam a transformao soffrida pela ironia dos periodos anteriores. Que nome se hade dar ao sentimento que inspira os sonetos _ Virgem Santissima_ e o _Na mo de Deus_ que fecha o volume? Eu por mim chamarei humorismo transcendente a essa liga intima da piedade e da ironia, e declaro que nunca vi cousa parecida posta em verso. Em prosa, ha mais de um periodo de Renan inspirado por um espirito similhante, embora menos agudo. viso, viso triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa, E deixa-me sonhar a vida inteira! A viso a Virgem Santissima, e a poesia to sincera, to verdadeira, to cheia de piedade e unco, que eu sei de mais de um livro de resas onde andam copias escriptas. Dorme o teu somno, corao liberto, Dorme na mo de Deus eternamente! Um monge christo escreveria isto. E Anthero de Quental nem christo, nem cr em Deus, nem na Virgem, segundo o sentido ordinario da palavra crer. Blasphemar era bom n'outros tempos; para a ironia tambem a idade passou; finalmente para o _exercicio litterario_ nunca se inclinou a penna que o poeta molhou sempre no seu sangue. Como explicar, pois, o phenomeno? Por acaso subiu j o leitor ao cume de um monte sufficientemente alto para que toda a paysagem lhe apparecesse vista, fundida a ponto de no distinguir uma arvore de um cazal, nem um rio de um valle sem curso de agua? Pois succede assim nas campinas da historia do pensamento humano, quando as olhamos das cumiadas luminosas da critica. Vem-se as cousas na sua essencia, no importam os accidentes. O fetiche que o selvagem adora, a imagem perante a qual se prostra o commum dos crentes, o architecto universal dos pensadores livres, e finalmente esse _quid_ innominado a que a philosophia moderna chamou Inconsciente--tudo isso egualmente Deus: smente Deus percebido pela imaginao infantil, Deus percebido pela intelligencia vulgar, Deus percebido pelo saber incipiente, e Deus finalmente incomprehendido, mas sentido, pela sabedoria. E todas essas modalidades de uma mesma impresso, recebida e representada de frma diversa, consoante a natureza e o estado de educao dos homens, so egualmente verdadeiras, egualmente santas e egualmente humoristicas, para aquelle que tem corao para sentir as cousas por dentro, e olhos para as ver de fora--objectivamente, como os allemes dizem, e ns diremos criticamente. Eis ahi a suprema liberdade do espirito, o Nirvna apenas intellectual, a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permitte comprehender todas as cousas, analysando-as e classificando-as, sem todavia nos transmittir essa especie de frialdade de corao, propria dos naturalistas quando estudam uma rocha, uma planta ou um animal. O philosopho, impassivel ao analysar e classificar os phenomenos do espirito humano, ha-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e illuses, o amor que merecem todos os sentimentos ingenuos e fundamentalmente bons; hade alliar comprehenso da nullidade extrinseca das cousas, a comprehenso da sua excellencia intrinseca; exigindo que o homem seja activo, porque a actividade boa por ser indispensavel saude do espirito, embora os objectos da actividade sejam as mais das vezes irritos e nullos, quando considerados em si proprios e isoladamente. E eis ahi as razes porque eu no sou buddhista... nem Anthero de Quental o , embora julgue sel-o. A evoluo dolorosa que terminou com o seu ultimo soneto, esta longa e tempestuosa viagem atravez do mar tenebroso da phantasia metaphisica, parece ter concluido. A edade, talvez, acima de tudo, trouxe ao espirito do poeta uma paz illuminada de bondade e sabedoria, e como a sua alma san e a sua intelligencia firme e sempre activa, mais que provavel que o declinar da vida de Anthero de Quental enriquea o peculio por signal bem pobre da philosophia portuguesa com algum trabalho to digno de se conservar na memoria dos tempos, como estes _Sonetos_ que so as amargas flores de uma mocidade. Esse trabalho, porem, no ser um cathecismo buddhista, no pode ser nenhuma revelao milagrosa do _verdadeiro_ systema, porque a sabedoria nos diz que toda a preteno de Verdade illusoria, pois sendo ns, a nossa intelligencia, os nossos pensamentos, simples e fugitivas contingencias, loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento; e sabio aquelle que se limita a registrar as relaes das cousas. III Quem deante d'estes versos no sentir elevar-se-lhe o espirito, como n'uma orao, quella especie de Deus que compativel com o seu temperamento ou com o estado de educao do seu pensamento, por que tem dentro do peito, no logar do corao, um seixo polido e frio. Quem, no meio do lidar da vida, roando os braos pelas arestas cortantes que a erriam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e no sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua limpida, porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo dos montes de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas paginas, e no sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de fallar portuguez. Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero de Quental--e smente o conhece quem com elle viveu largo tempo na intimidade--interroga-me geralmente d'este modo: E _santo_ Anthero, como vae? Dil-o com a convico quente dos artistas, mas eu, que o no sou, tenho a pr embargos, porque a santidade no planta adequada ao clima do nosso tempo. Exige uma poro de sentimento ingenuo que j no ha nos ares que respiramos. A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom, embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a caridade, o amor, a abnegao, as tentaes, as crises, as lagrimas, as afflices, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que, reunido, forma uma alma mystica--tudo isso mra na alma d'este poeta arrebatada pela viso inextinguivel do Bem. S no meu corao, que sondo e meo, No sei que voz, que eu mesmo desconheo, Em segredo protesta e affirma o Bem. E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do borborinho de um seculo activo at demencia, tem tambem uma f ardente--uma f buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem intelligencia e sem consciencia, , para ns outros, a quem so vedados os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma. Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis. No seculo XIX um excentrico, mas d'esse feitio de excentricidade que indispensavel, porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes. _Oliveira Martins_. OS CAPTIVOS Encostados s grades da priso, Olham o co os pallidos captivos. J com raios obliquos, fugitivos, Despede o sol um ultimo claro. Entre sombras, no longe, vagamente, Morrem as vozes na extenso saudosa. Cae do espao, pesada, silenciosa, A tristeza das cousas, lentamente. E os captivos suspiram. Bandos de aves Passam velozes, passam apressados, Como absortos em intimos cuidados, Como absortos em pensamentos graves. E dizem os captivos: Na amplido Jamais se extingue a eterna claridade... A ave tem o vo e a liberdade... O homem tem os muros da priso! Aonde ides? qual vossa jornada? luz? aurora? immensidade? aonde? --Porm o bando passa e mal responde: noite, escurido, ao abysmo, ao nada!-- E os captivos suspiram. Surge o vento, Surge e perpassa esquivo e inquieto, Como quem traz algum pezar secreto, Como quem soffre e cala algum tormento. E dizem os captivos: Que tristezas, Que segredos antigos, que desditas, Caminheiro de estradas infinitas, Te levam a gemer pelas devezas? Tu que procuras? que viso sagrada Te acena da soido onde se esconde? --Porm o vento passa e s responde: A noite, a escurido, o abysmo, o nada!-- E os captivos suspiram novamente. Como antigos pezares mal extinctos, Como vagos desejos indistinctos, Surgem do escuro os astros, lentamente. E fitam-se, em silencio indecifravel, Contemplam-se de longe, mysteriosos, Como quem tem segredos dolorosos, Como quem ama e vive inconsolavel... E dizem os captivos: Que problemas Eternos, primitivos vos attrahem? Que luz fitaes no centro d'onde saem A flux, em jorro, as intuies supremas? Por que esperaes? n'essa amplido sagrada Que solues esplendidas se escondem? --Porm os astros tristes s respondem: A noite, a escurido, o abysmo, o nada!-- Assim a noite passa. Rumorosos Susurram os pinhaes meditativos, Encostados s grades, os captivos Olham o co e choram silenciosos. OS VENCIDOS Tres cavalleiros seguem lentamente Por uma estrada erma e pedregosa. Geme o vento na selva rumorosa, Cae a noite do co, pesadamente. Vacilam-lhes nas mos as armas rotas, Tm os corceis poentos e abatidos, Em desalinho trazem os vestidos, Das feridas lhe cae o sangue, em gotas. A derrota, traioeira e pavorosa, As fontes lhes curvou, com mo potente. No horisonte escuro do poente Destaca-se uma mancha sanguinosa. E o primeiro dos tres, erguendo os braos, Diz n'um soluo: Amei e fui amado! Levou-me uma viso, arrebatado, Como em carro de luz, pelos espaos! Com largo vo, penetrei na esphera Onde vivem as almas que se adoram, Livre, contente e bom, como os que moram Entre os astros, na eterna primavera. Porque irrompe no azul do puro amor O sopro do desejo pestilente? Ai do que um dia recebeu de frente O seu halito rude e queimador! A flor rubra e olorosa da paixo Abre languida ao raio matutino, Mas seu profundo calix purpurino S reuma veneno e podrido. Irmos, amei--amei e fui amado... Por isso vago incerto e fugitivo, E corre lentamente um sangue esquivo Em gotas, de meu peito alanceado. Responde-lhe o segundo cavalleiro, Com sorriso de tragica amargura: Amei os homens e sonhei ventura, Pela justia heroica, ao mundo inteiro. Pelo direito, ergui a voz ardente No meio das revoltas homicidas: Caminhando entre raas opprimidas, Fil-as surgir, como um clarim fremente. Quando ha de vir o dia da justia? Quando ha de vir o dia do resgate? Trahio-me o gladio em meio do combate E semeei na areia movedia! As naes, com sorriso bestial, Abrem, sem ler, o livro do futuro. O povo dorme em paz no seu monturo, Como em leito de purpura real. Irmos, amei os homens e contente Por elles combati, com mente justa... Por isso morro mingoa e a areia adusta Bebe agora meu sangue, ingloriamente. Diz ento o terceiro cavalleiro: Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo. Fiz do seu nome fortaleza e escudo No combate do mundo traioeiro Invoquei-a nas horas affrontosas Em que o mal e o peccado do assalto. Procurei-o, com ancia e sobresalto, Sondando mil sciencias duvidosas. Que vento de ruina bate os muros Do templo eterno, o templo sacrosanto? Rolam, desabam, com fragor e espanto, Os astros pelo co, frios e escuros! Vacila o sol e os santos desesperam... Tedio reuma a luz dos dias vos... Ai dos que juntam com fervor as mos! Ai dos que crem! ai dos que inda esperam! Irmos, amei a Deus, com f profunda... Por isso vago sem conforto e incerto, Arrastando entre as urzes do deserto Um corpo exangue e uma alma moribunda. E os tres, unindo a voz n'um ai supremo, E deixando pender as mos canadas Sobre as armas inuteis e quebradas, N'um gesto inerte de abandono extremo, Sumiram-se na sombra duvidosa Da montanha calada e formidavel, Sumiram-se na selva impenetravel E no palor da noite silenciosa. ENTRE SOMBRAS Vem s vezes sentar-se ao p de mim --A noite desce, desfolhando as rosas-- Vem ter commigo, s horas duvidosas, Uma viso, com azas de setim... Pousa de leve a delicada mo --Rescende amena a noite socegada-- Pousa a mo compassiva e perfumada Sobre o meu dolorido corao... E diz-me essa viso compadecida --Ha suspiros no espao vaporoso-- Diz-me: Porque que choras silencioso? Porque to erma e triste a tua vida? Vem commigo! Embalado nos meus braos --Na noite funda ha um silencio santo-- N'um sonho feito s de luz e encanto Transpors a dormir esses espaos... Porque eu habito a regio distante --A noite exhala uma doura infinda-- Onde ainda se cr e se ama ainda, Onde uma aurora igual brilha constante... Habito ali, e tu virs commigo --Palpita a noite n'um claro que offusca-- Porque eu venho de longe, em tua busca, Trazer-te paz e alivio, pobre amigo... Assim me fala essa viso nocturna --No vago espao ha vozes dolorosas-- So as suas palavras carinhosas Agua correndo em crystalina urna... Mas eu escuto-a immovel, somnolento --A noite verte um desconsolo immenso-- Sinto nos membros como um chumbo denso, E mudo e tenebroso o pensamento... Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto --A noite erma como campa enorme-- Fito-a com olhos turvos de quem dorme E respondo: Bem sabes que estou morto! HYMNO DA MANH Tu, casta e alegre luz da madrugada, Sobe, cresce no co, pura e vibrante, E enche de fora o corao triumphante Dos que ainda esperam, luz immaculada! Mas a mim pes-me tu tristeza immensa No desolado corao. Mais quero A noite negra, irm do desespero, A noite solitaria, immovel, densa, O vacuo mudo, onde astro no palpita, Nem ave canta, nem susurra o vento, E adormece o proprio pensamento, Do que a luz matinal... a luz bemdita! Porque a noite a imagem do No-Ser, Imagem do repouso inalteravel E do esquecimento inviolavel, Que anceia o mundo, farto de soffrer... Porque nas trevas sonda, fixo e absorto, O nada universal o pensamento, E despreza o viver e o seu tormento. E olvida, como quem est j morto... E, interrogando intrepido o Destino, Como reu o renega e o condemna, E virando-se, fita em paz serena O vacuo augusto, placido e divino... Porque a noite a imagem da Verdade, Que est alm das cousas transitorias. Das paixes e das formas illusorias, Onde smente ha dor e falsidade... Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, De que s symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o corao humano Em rede de mil malhas, mysteriosa! Symbolo, sim, da universal traio, D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada, Tu, me da Vida e me da Illuso... Outros estendam para ti as mos, Supplicantes, com f, com esperana... Ponham outros seu bem, sua confiana Nas promessas e a luz dos dias vos... Eu no! Ao ver-te, penso: Que agonia E que tortura ainda no provada Hoje me ensinar esta alvorada? E digo: Porque nasce mais um dia? Antes tu nunca fosses, luz formosa! Antes nunca existisses! e o Universo Ficasse inerte e eternamente immerso Do possivel na nevoa duvidosa! O que trazes ao mundo em cada aurora? O sentimento s, s a consciencia, D'uma eterna, incuravel impotencia, Do insaciavel desejo, que o devora! De que so feitos os mais bellos dias? De combates, de queixas, de terrores! De que so feitos? de illuses, de dores, De miserias, de maguas, de agonias! O sol, inexoravel semeador, Sem jamais se canar, percorre o espao, E em borbotes lhe jorram do regao As sementes innumeras da Dor! Oh! como cresce, sob a luz ardente, A seara maldita! como treme Sob os ventos da vida e como geme N'um susurro monotono e plangente! E cresce e alastra, em ondas voluptuosas, Em ondas de cruel fecundidade, Com a fora e a subtil tenacidade Invencivel das plantas venenosas! De podrides antigas se alimenta, Da antiga podrido do cho fatal... Uma fragrancia morbida, mortal Lhe reuma da seiva peonhenta... E esse aroma languido e profundo, Feito de seduces vagas, magneticas, De ardor carnal e de attraces poeticas, esse aroma que envenena o mundo! Como um clarim soando pelos montes, A aurora acorda, placida e inflexivel, As miserias da terra: e a hoste horrivel, Enchendo de clamor e horisontes. Torva, cega, colerica, faminta, Surge mais uma vez e arma-se pressa Para o bruto combate, que no cessa, Onde vencida sempre e nunca extincta! Quantos erguem n'esta hora, com esforo, Para a luz matinal as armas novas, Pedindo a lucta e as formidaveis provas, Alegres e crueis e sem remorso, Que esta tarde ha-de ver, no duro cho Cahidos e sangrentos, vomitando Contra o co, com o sangue miserando, Uma extrema e importante imprecao! Quantos tambem, de p, mas esquecidos, Ha-de a noite encontrar, ss e encostados A algum marco, chorando aniquilados As lagrimas caladas dos vencidos! E porque? para que? para que os chamas, Serena luz, luz inexoravel, vida incerta e lucta inexpiavel, Com as falsas vises, com que os inflamas? Para serem o brinco d'um s dia Na mo indifferente do Destino... Claro de fogo-fatuo repentino, Cruzando entre o nascer e a agonia... Para serem, no pramo enfadonho, luz de astros malignos e enganosos, Como um bando de espectros lastimosos, Como sombras correndo atraz d'um sonho... Oh! no! luz gloriosa e triumphante! Sacode embora o encanto e as seduces, Sobre mim, do teu manto de illuses: A meus olhos, s triste e vacillante... A meus olhos, s baa e luctuosa E amarga ao corao, luz do dia, Como tocha esquecida que allumia Vagamente uma crypta monstruosa... Surges em vo, e em vo, por toda a parte, Me envolves, me penetras, com amor... Causas-me espanto a mim, causas-me horror, E no te posso amar--no quero amar-te! Symbolo da Mentira universal, Da apparencia das cousas fugitivas, Que esconde, nas moventes perspectivas, Sob o eterno sorriso o eterno Mal, Symbolo da Illuso, que do infinito Fez surgir o Universo, j marcado Para a dor, para o mal, para o peccado, Symbolo da existencia, s maldito! A FADA NEGRA Uma velha de olhar mudo e frio, De olhos sem cor, de labios glaciaes, Tomou-me nos seus braos sepuleraes. Tomou-me sobre o seio ermo e vasio. E beijou-me em silencio, longamente, Longamente me unio face fria... Oh! como a minha alma se estorcia Sob os seus beijos, dolorosamente! Onde os labios pousou, a carne logo Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello, Meus ossos confrangeram-se. O gelo Do seu bafo seccava mais que o fogo. Com seu olhar sem cor, que me fitava, A Fada negra me qualhou o sangue. Dentro em meu corao inerte e exangue Um silencio de morte se engolfava. E volvendo em redor olhos absortos, O mundo pareceu-me uma viso, Um grande mar de nevoa, de illuso, E a luz do sol como um luar de mortos... Como o espectro d'um mundo j defuncto, Um farrapo de mundo, nevoento, Ruina aerea que sacode o vento, Sem cor, sem consistencia, sem conjuncto... E quanto adora quem adora o mundo, Brilho e ventura, esperar, sorrir, Eu vi tudo oscilar, pender, cahir, Inerte e j da cor d'um moribundo. Dentro em meu corao, n'esse momento, Fez-se um buraco enorme--e n'esse abysmo Senti ruir no sei que cataclismo, Como um universal desabamento... Razo! velha de olhar agudo e cru E de halito mortal mais do que a peste! Pelo beijo de gelo que me deste, Fada negra, bemdita sejas tu! Bemdita sejas tu pela agonia E o lucto funeral d'aquella hora Em que eu vi baquear quanto se adora, Vi de que noite feita a luz do dia! Pelo pranto e as torturas bemfazejas Do desengano... pela paz austera D'um morto corao, que nada espera, Nem deseja tambem... bemdita sejas! *1860--1862* IGNOTO DEO Que belleza mortal se te assemelha, sonhada viso d'esta alma ardente, Que reflectes em mim teu brilho ingente, L como sobre o mar o sol se espelha? O mundo grande--e esta ancia me aconselha A buscar-te na terra: e eu, pobre crente, Pelo mundo procuro um Deus clemente, Mas a ara s lhe encontro... nua e velha... No mortal o que eu em ti adoro. Que s tu aqui? olhar de piedade, Gota de mel em taa de venenos... Pura essencia das lagrimas que chro E sonho dos meus sonhos! se s verdade, Descobre-te, viso, ao co ao menos! LAMENTO Um diluvio de luz cae da montanha: Eis o dia! eis o sol! o esposo amado! Onde ha por toda a terra um s cuidado Que no dissipe a luz que o mundo banha? Flor a custo medrada em erma penha, Revolto mar ou golfo congelado, Aonde ha ser de Deus to olvidado Para quem paz e alivio o co no tenha? Deus Pae! Pae de toda a creatura: E a todo o ser o seu amor assiste: De seus filhos o mal sempre lembrado... Ah! se Deus a seus filhos d ventura N'esta hora santa... e eu s posso ser triste... Serei filho, mas filho abandonado! A M.C. Poz-te Deus sobre a fronte a mo piedosa: O que fada o poeta e o soldado Volveu a ti o olhar, de amor velado, E disse-te: vae, filha, s formosa! E tu, descendo na onda harmoniosa, Pousaste n'este solo angustiado, Estrella envolta n'um claro sagrado, Do teu limpido olhar na luz radiosa... Mas eu... posso eu acaso merecer-te? Deu-te o Senhor, mulher! o que vedado, Anjo! Deu-te o Senhor um mundo parte. E a mim, a quem deu olhos para ver-te, Sem poder mais... a mim o que me ha dado? Voz, que te cante, e uma alma para amar-te! A Santos Valente Estreita do prazer na vida a taa: Largo, como o oceano largo e fundo, E como elle em venturas infecundo, O clis amargoso da desgraa. E comtudo nossa alma, quando passa incerta peregrina, pelo mundo, Prazer s pede vida, amor fecundo, com essa esperana que se abraa. lei de Deus este aspirar immenso... E comtudo a illuso impoz vida. E manda buscar luz e d-nos treva! Ah! se Deus accendeu um foco intenso De amor e dor em ns, na ardente lida, Porque a miragem cria... ou porque a leva? Tormanto do Ideal Conheci a Belleza que no morre E fiquei triste. Como quem da serra Mais alta que haja, olhando aos ps a terra E o mar, v tudo, a maior nau ou torre, Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre: Assim eu vi o mundo e o que elle encerra Perder a cr, bem como a nuvem que erra Ao pr do sol e sobre o mar discorre. Pedindo frma, em vo, a idea pura, Tropo, em sombras, na materia dura. E encontro a imperfeio de quanto existe. Recebi o baptismo dos poetas, E assentado entre as frmas incompletas Para sempre fiquei pallido e triste. ASPIRAO Meus dias vo correndo vagarosos Sem prazer e sem dr, e at parece Que o foco interior j desfallece E vacilla com raios duvidosos. bella a vida e os annos so formosos, E nunca ao peito amante o amor fallece... Mas, se a belleza aqui nos apparece, Logo outra lembra de mais puros gosos. Minh'alma, Deus! a outros cos aspira: Se um momento a prendeu mortal belleza, pela eterna patria que suspira... Porm do presentir d-me a certeza. D-ma! e sereno, embora a dr me fira, Eu sempre bemdirei esta tristeza! A FLORIDO TELLES Se comparo poder ou ouro ou fama, Venturas que em si tm occulto o damno, Com aquele outro affecto soberano, Que amor se diz e luz de pura chama, Vejo que so bem como arteira dama, Que sob honesto riso esconde o engano, E o que as segue, como homem leviano Que por um vo prazer deixa quem ama. Nasce do orgulho aquelle esteril goso E a gloria d'elle cousa fraudulenta, Como quem na vaidade tem a palma: Tem na paixo seu brilho mais formoso E das paixes tambem some-o a tormenta... Mas a gloria do amor... essa vem d'alma! PSALMO Esperemos em Deus! Elle ha tomado Em suas mos a massa inerte e fria Da materia impotente e, n'um s dia, Luz, movimento, aco, tudo lhe ha dado. Elle, ao mais pobre de alma, ha tributado Desvelo e amor: elle conduz via Segura quem lhe foge e se extravia, Quem pela noite andava desgarrado. E a mim, que aspiro a elle, a mim, que o amo, Que anceio por mais vida e maior brilho. Ha-de negar-me o termo d'este anceio? Buscou quem o no quiz; e a mim, que o chamo, Ha-de fugir-me, como a ingrato filho? Deus, meu pae e abrigo! espero!... eu creio! A M.C. No co, se existe um co para quem chora. Co, para as magoas de quem soffre tanto... Se l do amor o foco, puro e santo, Chama que brilha, mas que no devora... No co, se uma alma n'esse espao mora. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto... Se ha Pae, que estenda sobre ns o manto Do amor piedoso... que eu no sinto agora... No co, virgem! findaro meus males: Hei-de l renascer, eu que pareo Aqui ter s nascido para dres. Ali, lyrio dos celestes valles! Tendo seu fim, tero o seu comeo. Para no mais findar, nossos amores. A Joo de Deus Se lei, que rege o escuro pensamento, Ser v toda a pesquisa da verdade, Em vez da luz achar a escuridade, Ser uma queda nova cada invento; lei tambem, embora cru tormento, Buscar, sempre buscar a claridade, E s ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento. O que ha-de a alma escolher, em tanto engano? Se uma hora cr de f, logo duvida: Se procura, s acha... o desatino! S Deus pde acudir em tanto damno: Esperemos a luz d'uma outra vida, Seja a terra degredo, o co destino. A Alberto Telles S!--Ao ermita ssinho na montanha Visita-o Deus e d-lhe confiana: No mar, o nauta, que o tufo balana, Espera um sopro amigo que o co tenha... S!--Mas quem se assentou em riba estranha, Longe dos seus, l tem inda a lembrana: E Deus deixa-lhe ao menos a esperana Ao que noite solua em erma penha... S!--No o quem na dor, quem nos canaos, Tem um lao que o prenda a este fadario. Uma crena, um desejo... e inda um cuidado... Mas cruzar, com desdem, inertes braos, Mas passar, entre turbas, solitario, Isto ser s, ser abandonado! A J. Felix dos Santos Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E s farte o desejo um bem ausente! Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperana nos consiste, Chega... presente... e s dor assiste?... Assim, qual a esperana que no mente? Desventura ou delirio?... O que procuro, Se me foge, miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro... Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa. A M. C. Porque descrs, mulher, do amor, da vida? Porque esse Hermon transformas em Calvario? Porque deixas que, aos poucos, do sudario Te aperte o seio a dobra humedecida? Que viso te fugio, que assim perdida Buscas em vo n'este ermo solitario? Que signo obscuro de cruel fadario Te faz trazer a fronte ao cho pendida? Nenhum! intacto o bem em ti assiste: Deus, em penhor, te deu a formosura; Benos te manda o co em cada hora. E descrs do viver?... E eu, pobre e triste, Que s no teu olhar leio a ventura, Se tu descrs, em que hei-de eu crer agora? A Alberto Sampaio No me fales de gloria: outro o altar Onde queimo piedoso o meu incenso, E animado de fogo mais intenso, De f mais viva, vou sacrificar. A gloria! pois que ha n'ella que adorar? Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso... Que vislumbre nos d do amor immenso? Esse amor que ventura faz gosar? Ha outro mais perfeito, unico eterno, Farol sobre ondas tormentosas firme, De immoto brilho, poderoso e terno... S esse hei-de buscar, e confundir-me Na essencia do amor puro, sempiterno... Quero s n'esse fogo consumir-me! A Germano Meyrelles S males so reaes, s dor existe; Prazeres s os gera a phantasia; Em nada, um imaginar, o bem consiste, Anda o mal em cada hora e instante e dia. Se buscamos o que , o que devia Por natureza ser no nos assiste; Se fiamos n'um bem, que a mente cria, Que outro remedio ha ahi seno ser triste? Oh! quem tanto pudera, que passasse A vida em sonhos s, e nada vira... Mas, no que se no v, labor perdido! Quem fra to ditoso que olvidasse... Mas nem seu mal com elle ento dormira, Que sempre o mal peor ter nascido! A M. C. No busco n'esta vida gloria ou fama: Das turbas que me importa o vo rudo? Hoje, deus... e amanh, j esquecido Como esquece o claro de extincta chama! Foco incerto, que a luz j mal derrama, Tal essa ventura: eccho perdido, Quanto mais se chamou, mais escondido Ficou inerte e mudo voz que o chama. D'essa coroa cada flor um engano, miragem em nuvem illusoria, mote vo de fabuloso arcano. Mas coroa-me tu: na fronte ingloria Cinge-me tu o louro soberano... Vers, vers ento se amo essa gloria! AD AMICOS Em vo luctamos. Como nevoa baa, A incerteza das cousas nos envolve. Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraa. O pensamento, que mil planos traa, vapor que se esvae e se dissolve; E a vontade ambiciosa, que resolve, Como onda entre rochedos se espedaa. Filhos do Amor, nossa alma como um hymno luz, liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um presentir divino; Mas n'um deserto s, arido e fundo, Ecchoam nossas vozes, que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo. A um crucifixo Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braos E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaos! Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra ( Verbo!) o som fremente? Morreste... ah! dorme em paz! no volvas, que descrente Arrojras de nova campa os membros lassos... Agora, como ento, na mesma terra erma, A mesma humanidade sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo co, frio como um sudario... E agora, como ento, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar--de que servio o sangue Com que regaste, Christo, as urzes do Calvario?-- Desesperana Vae-te na aza negra da desgraa, Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle... e passa. Que arrojemos de ns quem mais se abraa, Com mais ancia, nossa alma! e quem devora D'essa alma o sangue, com que vigora, Como amigo commungue mesma taa! Que seja sonho apenas a esperana, Emquanto a dor eternamente assiste. E s engano nunca a desventura! Se era silencio soffrer fra vingana!.. Envolve-te em ti mesma, alma triste, Talvez sem esperana haja ventura! BEATRICE Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando, Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida: Depois que vi descer, baixar no co da vida Cada estrella e fiquei nas trevas laborando: Depois que sobre o peito os braos apertando Achei o vacuo s, e tive a luz sumida Sem ver j onde olhar, e em todo vi perdida A flor do meu jardim, que eu mais andei regando: Retirei os meus ps da senda dos abrolhos, Virei-me a outro co, nem ergo j meus olhos Seno estrella ideal, que a luz d'amor contm... No temas pois--Oh vem! o co puro, e calma E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma... A alma! no vs tu? mulher, mulher! oh vem! 1862--1866 AMOR VIVO Amar! mas d'um amor que tenha vida... No sejam sempre timidos harpejos, No sejam s delirios e desejos D'uma douda cabea escandecida... Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser--e no s beijos Dados no ar--delirios e desejos-- Mas amor... dos amores que tm vida... Sim, vivo e quente! e j a luz do dia No vir dissipal-o nos meus braos Como nevoa da vaga phantasia... Nem murchar do sol chama erguida... Pois que podem os astros dos espaos Contra debeis amores... se tm vida? VISITA Adornou o meu quarto a flor do cardo, Perfumei-o de almiscar recendente; Vesti-me com a purpura fulgente, Ensaiando meus cantos, como um bardo; Ungi as mos e a face com o nardo Crescido nos jardins do Oriente, A receber com pompa, dignamente, Mysteriosa visita a quem aguardo. Mas que filha de reis, que anjo ou que fada Era essa que assim a mim descia, Do meu casebre humida pousada?... Nem princezas, nem fadas. Era, flor, Era a tua lembrana que batia s portas de ouro e luz do meu amor! PEQUENINA Eu bem sei que te chamam _pequenina_ E tenue como o vo solto na dana, Que s no juizo apenas a _criana_, Pouco mais, nos vestidos, que a _menina_... Que s o regato de agua mansa e fina, A folhinha do til que se balana, O peito que em correndo logo cana, A fronte que ao soffrer logo se inclina... Mas, filha, l nos montes onde andei, Tanto me enchi de angustia e de receio Ouvindo do infinito os fundos ecchos, Que no quero imperar nem j ser rei Seno tendo meus reinos em teu seio E subditos, criana, em teus bonecos! A SULAMISA Ego dormio, et cor meum vigilat. CANTICO DOS CANTICOS. Quem anda l por fra, pela vinha Na sombra do luar meio cacoberto, Sutil nos passos e espreitando incerto, Com brando respirar de criancinha? Um sonho me accordou... no sei que tinha... Pareceu-me sentil-o aqui to perto... Seja alta noite, seja n'um deserto, Quem ama at em sonhos adivinha... Mas da minha terra, ao meu amado Correi, dizei-lhe que eu dormia agora, Mas que pde ir contente e descanado, Pois se to cedo adormeci, conforme meu costume, olhae, dormia embora, Porque o meu corao que no dorme... Sonho oriental Sonho-me s vezes rei, n'alguma ilha, Muito longe, nos mares do Oriente, Onde a noite balsamica e fulgente E a lua cheia sobre as aguas brilha... O aroma da magnolia e da baunilha Paira no ar diaphano e dormente... Lambe a orla dos bosques, vagamente, O mar com finas ondas de escumilha... E emquanto eu na varanda de marfim Me encosto, absorto n'um scismar sem fim, Tu, meu amor, divagas ao luar, Do profundo jardim pelas clareiras, Ou descanas debaixo das palmeiras, Tendo aos ps um leo familiar. Quinze annos Eu amo a vasta sombra das montanhas, Que estendem sobre os largos continentes Os seus braos de rocha negra, ingentes, Bem como braos colossaes aranhas. D'ali o nosso olhar v to estranhas Cousas, por esse co! e to ardentes Vises, l n'esse mar de ondas trementes! E s estrellas, d'ali, v-as tamanhas! Amo a grandeza mysteriosa e vasta... A grande idea, como a flor e o vio Da arvore colossal que nos domina... Mas tu, criana, s tu boa... e basta: Sabe amar e sorrir... pouco isso? Mas a ti s te quero pequenina! IDYLLIO Quando ns vamos ambos, de mos dadas, Colher nos valles lyrios e boninas, E galgamos d'um folego as colinas Dos rocios da noite inda orvalhadas; Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas, Contemplamos as nuvens vespertinas, Que parecem phantasticas ruinas Ao longe, no horisonte, amontoadas: Quantas vezes, de subito, emmudeces! No sei que luz no teu olhar fluctua; Sinto tremer-te a mo, e empallideces... O vento e o mar murmuram oraes, E a poesia das cousas se insinua Lenta e amorosa em nossos coraes. NOCTURNO Espirito que passas, quando o vento Adormece no mar e surge a lua, Filho esquivo da noite que fluctua, Tu s entendes bem o meu tormento... Como um canto longinquo--triste e lento-- Que voga e sutilmente se insinua, Sobre o meu corao, que tumultua, Tu vertes pouco a pouco o esquecimento... A ti confio o sonho em que me leva Um instincto de luz, rompendo a treva, Buscando, entre vises, o eterno Bem. E tu entendes o meu mal sem nome, A febre de Ideal, que me consome, Tu s, Genio da Noite, e mais ninguem! SONHO Sonhei--nem sempre o sonho cousa v-- Que um vento me levava arrebatado, Atravez d'esse espao constellado Onde uma aurora eterna ri lou... As estrellas, que guardam a manh, Ao verem-me passar triste e calado, Olhavam-me e dixiam com cuidado: Onde est, pobre amigo, a nossa irm? Mas eu baixava os olhos, receoso Que trahissem as grandes magoas minhas, E passava furtivo e silencioso, Nem ousava contar-lhes, s estrellas, Contar s tuas puras irmansinhas Quanto s falsa, meu bem, e indigna d'ellas! AMARITUDO S por ti, astro ainda e sempre occulto, Sombra do Amor e sonho da Verdade, Divago eu pelo mundo e em anciedade Meu proprio corao em mim sepulto. De templo em templo, em vo, levo o meu culto, Levo as flores d'uma intima piedade. Vejo os votos da minha mocidade Receberem smente escarneo e insulto. beira do caminho me assentei... Escutarei passar o agreste vento, Exclamando: assim passe quando amei!-- Oh minh'alma, que creste na virtude! O que ser velhice e desalento, Se isto se chama aurora e juventude? ABNEGAO Chovam lyrios e rosas no teu collo! Chovam hymnos de gloria na tua alma! Hymnos de gloria e adorao e calma, Meu amor, minha pomba e meu consolo! D-te estrellas o co, flores o solo, Cantos e aroma o ar e sombra a palmar. E quando surge a lua e o mar se acalma, Sonhos sem fim seu preguioso rolo! E nem sequer te lembres de que eu chro... Esquece at, esquece, que te adoro... E ao passares por mim, sem que me olhes, Possam das minhas lagrimas crueis Nascer sob os teus ps flores fieis, Que pises distrahida ou rindo esfolhes! APPARIO Um dia, meu amor (e talvez cedo, Que j sinto estalar-me o corao!) Recordars com dor e compaixo As ternas juras que te fiz a medo... Ento, da casta alcova no segredo, Da lamparina ao tremulo claro, Ante ti surgirei, espectro vo, Larva fugida ao sepulcral degredo... E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos E afflictos ais, estenders os braos Tentando segurar-te aos meus vestidos... --Ouve! espera!--Mas eu, sem te escutar, Fugirei, como um sonho, aos teus abraos E como fumo sumir-me-hei no ar! ACCORDANDO Em sonho, s vezes, se o sonhar quebranta Este meu vo soffrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o co a minh'alma sobe e canta. Canta a luz, a alvorada, a estrella santa, Que ao mundo traz piedosa mais um dia... Canta o enlevo das cousas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta... Mas, de repente, um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me accorda.--A noite negra e muda: a dor C vela, como d'antes, ao meu lado... Os meus cantos de luz, anjo adorado, So sonho s, e sonho o meu amor! ME... Me--que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mos piedosas ate o fio Do meu pobre existir, meio partido... Que me leve comsigo, adormecido, Ao passar pelo sitio mais sombrio... Me banhe e lave a alma l no rio Da clara luz do seu olhar querido... Eu dava o meu orgulho de homem--dava Minha esteril sciencia, sem receio, E em debil criancinha me tornava. Descuidada, feliz, docil tambem, Se eu podesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha me! Na capella Na capella, perdida entre a folhagem, O Christo, l no fundo, agonisava... Oh! como intimamente se casava Com minha dor a dor d'aquella imagem! Filhos ambos do amor, igual miragem Nos roou pela fronte, que escaldava... Igual traio, que o affecto mascarava, Nos deu supplicio s mos da villanagem... E agora, ali, em quanto da floresta A sombra se infiltrava lenta e mesta, Vencidos ambos, martyres do Fado, Fitavamo-nos mudos--dor igual!-- Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual Mais pallido, mais triste e mais canado... Velut Umbra Fumo e scismo. Os castellos do horizonte Erguem-se, tarde, e crescem, de mil cores, E ora espalham no co vivos ardores, Ora fumam, vulces de estranho monte... Depois, que formas vagas vm defronte, Que parecem sonhar loucos amores? Almas que vo, por entre luz e horrores, Passando a barca d'esse aereo Acheronte... Apago o meu charuto quando apagas Teu facho, oh sol... ficamos todos ss... n'esta solido que me consumo! Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas, Bem vos entendo a cor, pois, como a vs, Belleza e altura se me vo em fumo! MEA CULPA No duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e v da noite ao dia, E o homem v subindo insecto o seixo. No chamo a Deus tyranno, nem me queixo, Nem chamo ao co da vida noite fria; No chamo existencia hora sombria; Acaso, ordem; nem lei desleixo. A Natureza minha me ainda... minha me... Ah, se eu face linda No sei sorrir: se estou desesperado; Se nada ha que me aquea esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza... de crer que s eu seja o culpado! O Palacio da Ventura Sonho que sou um cavalleiro andante. Por desertos, por ses, por noite escura, Paladino do amor, busco anhelante O palacio encantado da Ventura! Mas j desmaio, exhausto e vacillante. Quebrada a espada j, roda a armadura... E eis que subito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aerea formosura! Com grandes golpes bato porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Desherdado... Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais! Abrem-se as portas d'ouro, com fragor... Mas dentro encontro s, cheio de dor, Silencio e escurido--e nada mais! JURA Pelas rugas da fronte que medita... Pelo olhar que interroga--e no v nada... Pela miseria e pela mo gelada Que apaga a estrella que nossa alma fita... Pelo estertor da chama que crepita No ultimo arranco d'uma luz minguada... Pelo grito feroz da abandonada Que um momento de amante fez maldita... Por quanto ha de fatal, que quanto ha mixto De sombra e de pavor sob uma lousa... Oh pomba meiga, pomba de esperana! Eu t'o juro, menina, tenho visto Cousas terriveis--mas jamais vi cousa Mais feroz do que um riso de criana! IDEAL Aquella, que eu adoro, no feita De lyrios nem de rosas purpurinas, No tem as formas languidas, divinas Da antiga Venus de cintura estreita... No a Circe, cuja mo suspeita Compe filtros mortaes entre ruinas, Nem a Amazona, que se agarra s crinas D'um corcel e combate satisfeita... A mim mesmo pergunto, e no atino Com o nome que d a essa viso, Que ora amostra ora esconde o meu destino... como uma miragem, que entrevejo, Ideal, que nasceu na solido, Nuvem, sonho impalpavel do Desejo... Emquanto outros combatem Empunhasse eu a espada dos valentes! Impellisse-me a aco, embriagado, Por esses campos onde a Morte e o Fado Do a lei aos reis tremulos e s gentes! Respirariam meus pulmes contentes O ar de fogo do circo ensanguentado... Ou cahira radioso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes! J no veria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos, sem uma hora Viver mais que de sonhos e anciedade! J no veria em minhas mos piedosas Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade! DESPONDENCY Deixal-a ir, a ave, a quem roubaram Ninho e filhos e tudo, sem piedade... Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as azas partidas a levaram... Deixal-a ir, a vela, que arrojaram Os tufes pelo mar, na escuridade, Quando a noite surgio da immensidade, Quando os ventos do Sul levantaram... Deixal-a ir, a alma lastimosa, Que perdeu f e paz e confiana, morte queda, morte silenciosa... Deixal-a ir, a nota desprendida D'um canto extremo... e a ultima esperana... E a vida... e o amor... deixal-a ir, a vida! Das Unnennbare Oh chimera, que passas embalada Na onda de meus sonhos dolorosos, E roas co'os vestidos vaporosos A minha fronte pallida e canada! Leva-te o ar da noite socegada... Pergunto em vo, com olhos anciosos, Que nome que te do os venturosos No teu paiz, mysteriosa fada! Mas que destino o meu! e que luz baa A d'esta aurora, igual do sol posto, Quando s nuvem livida esvoaa! Que nem a noite uma illuso consinta! Que s de longe e em sonhos te presinta... E nem em sonhos possa ver-te o rosto! Metempsychose Ausentes filhas do prazer: dizei-me! Vossos sonhos quaes so, depois da orgia? Acaso nunca a imagem fugidia Do que fostes, em vs se agita e freme? N'outra vida e outra esphera, aonde geme Outro vento, e se accende um outro dia, Que corpo tinheis? que materia fria Vossa alma incendiou, com fogo estreme? Vs fostes nas florestas bravas feras, Arrastando, leas ou pantheras, De dentadas de amor um corpo exangue... Mordei pois esta carne palpitante, Feras feitas de gaze fluctuante... Lobas! leas! sim, bebei meu sangue! UMA AMIGA Aquelles, que eu amei, no sei que vento Os dispersou no mundo, que os no vejo... Estendo os braos e nas trevas beijo Vises que noite evoca o sentimento... Outros me causam mais cruel tormento Que a saudade dos mortos... que eu invejo... Passam por mim, mas como que tm pejo Da minha soledade e abatimento! D'aquella primavera venturosa No resta uma flor s, uma s rosa... Tudo o vento varreu, queimou o gelo! Tu s foste fiel--tu, como d'antes, Inda volves teus olhos radiantes... Para ver o meu mal... e escarnecel-o! A uma mulher Para tristezas, para dor nasceste. Podia a sorte por-te o bero estreito N'algum palacio e ao p de regio leito, Em vez d'este areal onde cresceste: Podia abrir-te as flores--com que veste As ricas e as felizes--n'esse peito: Fazer-te... o que a Fortuna ha sempre feito... Terias sempre a sorte que tiveste! Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos, Que no so d'este mundo e onde eu leio Uns mysterios to tristes e infinitos, Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, Tudo me diz a mim, e assim o creio, Que para isto s tinhas nascido! Voz do Outomno Ouve tu, meu canado corao, O que te diz a voz da Natureza: --Mais te valera, n e sem defeza, Ter nascido em asperrima soido, Ter gemido, ainda infante, sobre o cho Frio e cruel da mais cruel deveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza, Como emballou, no bero da Illuso! Mais valera tua alma visionaria Silenciosa e triste ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia, (Sem ver uma s flor, das mil, que amaste) Com odio e raiva e dor... que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!-- Sepultura romantica Ali, onde o mar quebra, n'um cacho Rugidor e monotono, e os ventos Erguem pelo areal os seus lamentos, Ali se ha-de enterrar meu corao. Queimem-no os ses da adusta solido Na fornalha do estio, em dias lentos; Depois, no inverno, os sopros violentos Lhe revolvam em torno o arido cho... At que se desfaa e, j tornado Em impalpavel p, seja levado Nos turbilhes que o vento levantar... Com suas luctas, seu canado anceio, Seu louco amor, dissolva-se no seio D'esse infecundo, d'esse amargo mar! 1864--1874 A IDEA I Pois que os deuses antigos e os antigos Divinos sonhos por esse ar se somem, E luz do altar da f, em Templo ou Dolmen, A apagaram os ventos inimigos; Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos, Seccos mingua de agua, se consomem, E os prophetas d'outrora todos dormem Esquecidos, em terra sem abrigos; Pois que o co se fechou e j no desce Na escada de Jacob (na de Jesus!) Um s anjo, que acceite a nossa prece; que o lyrio da F j no renasce: Deus tapou com a mo a sua luz E ante os homens velou a sua face! II Pallido Christo, oh conductor divino! A custo agora a tua mo to doce Incerta nos conduz, como se fosse Teu grande corao perdendo o tino... A palavra sagrada do Destino Na bocca dos oraculos seccou-se: A luz da sara ardente dissipou-se Ante os olhos do vago peregrino! Ante os olhos dos homens--porque o mundo Desprendido rolou das mos de Deus, Como uma cruz das mos d'um moribundo! Porque j se no l seu nome escrito Entre os astros... e os astros, como atheus, J no querem mais lei que o infinito! III Fora pois ir buscar outro caminho! Lanar o arco de outra nova ponte Por onde a alma passe--e um alto monte Aonde se abre luz o nosso ninho. Se nos negam aqui o po e o vinho, Avante! largo, immenso esse horizonte... No, no se fecha o mundo! e alm, defronte, E em toda a parte ha luz, vida e carinho! Avante! os mortos ficaro sepultos... Mas os vivos que sigam, sacudindo Como o p da estrada os velhos cultos! Doce e brando era o seio de Jesus... Que importa? havemos de passar, seguindo, Se alm do seio d'elle houver mais luz! IV Conquista pois ssinho o teu futuro, J que os celestes guias te ho deixado, Sobre uma terra ignota abandonado, Homem--proscrito rei--mendigo escuro! Se no tens que esperar do co (to puro, Mas to cruel!) e o corao magoado Sentes j de illuses desenganado, Das illuses do antigo amor perjuro: Ergue-te, ento, na magestade estoica D'uma vontade solitaria e altiva, N'um esforo supremo de alma heroica! Faze um templo dos muros da cadeia, Prendendo a immensidade eterna e viva No circulo de luz da tua Idea! V Mas a Idea quem ? quem foi que a vio, Jmais, a essa encoberta peregrina? Quem lhe beijou a sua mo divina? Com seu olhar de amor quem se vestio? Pallida imagem, que a agua de algum rio, Reflectindo, levou... incerta e fina Luz, que mal bruxula pequenina... Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio... Estendei, estendei-lhe os vossos braos, Magros da febre d'um sonhar profundo, Vs todos que a seguis n'esses espaos! E emtanto, oh alma triste, alma chorosa, Tu no tens outra amante em todo o mundo Mais que essa fria virgem desdenhosa! VI Outra amante no ha! no ha na vida Sombra a cobrir melhor nossa cabea, Nem balsamo mais doce, que adormea Em ns a antiga, a secular ferida! Quer fuja esquiva, ou se offerea erguida, Como quem sabe amar e amar confessa, Quer nas nuvens se esconda ou apparea, Ser sempre ella a esposa promettida! Nossos desejos para ti, oh fria, Se erguem, bem como os braos do proscrito Para as bandas da patria, noite e dia. Podes fugir... nossa alma, delirante, Seguir-te-ha a travez do infinito, At voltar comtigo, triumphante! VII Oh! o noivado barbaro! o noivado Sublime! aonde os cos, os cos ingentes, Sero leito de amor, tendo pendentes Os astros por docel e cortinado! As bodas do Desejo, embriagado De ventura, a final! vises ferventes De quem nos braos vae de ideaes ardentes Por espaos sem termo arrebatado! L, por onde se perde a phantasia No sonho da belleza: l, aonde A noite tem mais luz que o nosso dia; L, no seio da eterna claridade, Aonde Deus humana voz responde; que te havemos abraar, Verdade! VIII L! Mas aonde _l_?--Espera, Corao indomado! o co, que anceia A alma fiel, o co, o co da Idea. Em vo o buscas n'essa immensa esphera! O espao mudo: a immensidade austera De balde noite e dia incendeia... Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia A rosa ideal da eterna primavera! O Paraiso e o templo da Verdade, Oh mundos, astros, ses, constellaes! Nenhum de vs o tem na immensidade... A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia, S se revela aos homens e s naes No co incorruptivel da Consciencia! A um crucifixo Lendo, passados 12 annos, o soneto da parte 1.^a que tem o mesmo titulo No se perdeu teu sangue generoso, Nem padeceste em vo, quem quer que foste, Plebeu antigo, que amarrado ao poste Morreste como vil e faccioso. D'esse sangue maldito e ignominioso Surgio armada uma invencivel hoste... Paz aos homens e guerra aos deuses!--poz-te Em vo sobre um altar o vulgo ocioso... Do pobre que protesta foste a imagem: Um povo em ti comea, um homem novo: De ti data essa tragica linhagem. Por isso ns, a Plebe, ao pensar n'isto, Lembraremos, herdeiros d'esse povo, Que entre nossos avs se conta Christo. DIALOGO A cruz dizia terra onde assentava, Ao valle obscuro, ao monte aspero e mudo: --Que s tu, abysmo e jaula, aonde tudo Vive na dor e em lucta cega e brava? Sempre em trabalho, condemnada escrava. Que fazes tu de grande e bom, comtudo? Resignada, s s lodo informe e rudo; Revoltosa, s s fogo e horrida lava... Mas a mim no ha alta e livre serra Que me possa igualar!.. amor, firmeza, Sou eu s: sou a paz, tu s a guerra! Sou o espirito, a luz!.. tu s tristeza, Oh lodo escuro e vil!--Porm a terra Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza! MAIS LUZ! (A Guilherme de Azevedo) Amem a noite os magros crapulosos, E os que sonham com virgens impossiveis, E os que inclinam, mudos e impassiveis, borda dos abysmos silenciosos... Tu, lua, com teus raios vaporosos, Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis, Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis, Como aos longos cuidados dolorosos! Eu amarei a santa madrugada, E o meio-dia, em vida refervendo, E a tarde rumorosa e repousada. Viva e trabalhe em plena luz: depois, Seja-me dado ainda ver, morrendo, O claro sol, amigo dos heroes! These e Antithese I J no sei o que vale a nova idea, Quando a vejo nas ruas desgrenhada, Torva no aspecto, luz da barricada, Como bacchante aps lubrica ceia... Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e socegada Eil-a presa das furias de Medea! Um seculo irritado e truculento Chama epilepsia pensamento, Verbo ao estampido de pelouro e obuz... Mas a idea n'um mundo inalteravel, N'um crystallino co, que vive estavel... Tu, pensamento, no s fogo, s luz! II N'um co intemerato e crystallino Pde habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectaculo divino. Mas o homem, na terra onde o destino O lanou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmo possante... C da terra blasphema ou ergue um hymno... A idea encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar so chamas que crepitam, Paixes ardentes como vivos soes! Combatei pois na terra arida e bruta, T que a revolva o remoinhar da lucta, T que a fecunde o sangue dos heroes! Justitia Mater Nas florestas solemnes ha o culto Da eterna, intima fora primitiva: Na serra, o grito audaz da alma captiva, Do corao, em seu combate inulto: No espao constellado passa o vulto Do innominado Alguem, que os soes aviva: No mar ouve-se a voz grave e afflictiva D'um deus que lucta, poderoso e inculto. Mas nas negras cidades, onde slta Se ergue, de sangue medida, a revolta, Como incendio que um vento bravo atia, Ha mais alta misso, mais alta gloria: O combater, grande luz da historia, Os combates eternos da Justia! Palavras d'um certo Morto Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto, Posto sobre um rochedo, chuva e ao vento: No ha como eu espectro macilento, Nem mais disforme que eu nenhum aborto... S o espirito vive: vela absorto N'um fixo, inexoravel pensamento: Morto, enterrado em vida! o meu tormento isto s... do resto no me importo... Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia, Um dia s--no outro, a Idolatria Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me. Como se eu fosse _alguem_! como se a Vida Podesse ser _alguem_!--logo em seguida Disseram que era um Deus... e amortalharam-me! A UM POETA _Surge et ambula_! Tu, que dormes, espirito sereno, Posto sombra dos cedros seculares, Como um levita sombra dos altares, Longe da lucta e do fragor terreno, Accorda! tempo! O sol, j alto e pleno, Afugentou as larvas tumulares... Para surgir do seio d'esses mares, Um mundo novo espera s um aceno... Escuta! a grande voz das multides! So teus irmos, que se erguem! so canes... Mas de guerra... e so vozes de rebate! Ergue-te pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! Hymno Razo Razo, irm do Amor e da Justia, Mais uma vez escuta a minha prece. a voz d'um corao que te appetece, D'uma alma livre, s a ti submissa. Por ti que a poeira movedia De astros e soes e mundos permanece; E por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroismo medra e via. Por ti, na arena tragica, as naes Buscam a liberdade, entre clares: E os que olham o futuro e scismam, mudos, Por ti, podem soffrer e no se abatem, Me de filhos robustos, que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos! 1874--1880 HOMO Nenhum de vs ao certo me conhece, Astros do espao, ramos do arvoredo, Nenhum adivinhou o meu segredo, Nenhum interpretou a minha prece... Ninguem sabe quem sou... e mais, parece Que ha dez mil annos j, neste degredo, Me v passar o mar, v-me o rochedo E me contempla a aurora que alvorece... Sou um parto da Terra monstruoso; Do humus primitivo e tenebroso Gerao casual, sem pae nem me... Mixto infeliz de trevas e de brilho, Sou talvez Satanaz;--talvez um filho Bastardo de Jehovah;--talvez ninguem! Disputa em familia Dixit insipiens in corde suo: non est Deus. I Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados, Velho Jehovah de longa barba hirsuta, Solitario em teus Cos acastellados: --Cessou o imperio emfim da fora bruta! No soffreremos mais, emancipados, O tyranno, de mo tenaz e astuta, Que mil annos nos trouxe arrebanhados! Emquanto tu dormias impassivel, Topmos no caminho a liberdade Que nos sorrio com gesto indefinivel... J provmos os fructos da verdade... Deus grande, Deus forte, Deus terrivel. No passas d'uma van banalidade!-- II Mas o velho tyranno solitario, De corao austero e endurecido, Que um dia, de enjoado ou distrahido, Deixou matar seu filho no Calvario, Sorrio com rir extranho, ouvindo o vario Tumultuoso cro e alarido Do povo insipiente, que, atrevido, Erguia a voz em grita ao seu sacrario: --Vanitas vanitatum! (disse). certo Que o homem vo medita mil mudanas, Sem achar mais do que erro e desacerto. Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil, ridiculas crianas, Sabia em tudo isso... e muito mais!-- Mors liberatrix (A Bulho Pato) Na tua mo, sombrio cavalleiro, Cavalleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escurido como um luzeiro. Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas... S o gladio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro. --Se esta espada que empunho coruscante, (Responde o negro cavalleiro-andante) porque esta a espada da Verdade. Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas conslo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade. O Inconsciente O Espectro familiar que anda commigo, Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto, Que umas vezes encaro com desgosto E outras muitas ancioso espreito e sigo. um espectro mudo, grave, antigo, Que parece a conversas mal disposto... Ante esse vulto, ascetico e composto Mil vezes abro a bocca... e nada digo. S uma vez ousei interrogal-o: Quem s (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo? Teus irmos (respondeu) os vos humanos, Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos... Mas eu por mim no sei como me chamo... MORS-AMOR (A Luiz de Magalhes) Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me apparece Da noite nas phantasticas estradas. D'onde vem elle? Que regies sagradas E terriveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece No sei que horror nas crinas agitadas? Um cavalleiro de expresso potente, Formidavel, mas placido, no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera extranha sem temor. E o corcel negro diz: Eu sou a Morte! Responde o cavalleiro: Eu sou o Amor! ESTOICISMO (A Manoel Duarte de Almeida) Tu que no crs, nem amas, nem esperas, Espirito de eterna negao, Teu halito gelou-me o corao E destroou-me da alma as primaveras... Atravessando regies austeras, Cheias de noite e cava escurido, Como n'um sonho mau, s oio um no, Que eternamente ecchoa entre as espheras... --Porque suspiras, porque te lamentas, Cobarde corao? Debalde intentas Oppor Sorte a queixa do egoismo... Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores A esperana van, seus vos fulgores... Sabe tu encarar sereno o abysmo! ANIMA MEA Estava a Morte alli, em p, diante, Sim, diante de mim, como serpente Que dormisse na estrada e de repente Se erguesse sob os ps do caminhante. Era de ver a funebre bacchante! Que torvo olhar! que gesto de demente! E eu disse-lhe: Que buscas, impudente, Loba faminta, pelo mundo errante? --No temas, respondeu (e uma ironia Sinistramente estranha, atroz e calma, Lhe torceu cruelmente a bocca fria). Eu no busco o teu corpo... Era um tropheu Glorioso de mais... Busco a tua alma-- Respondi-lhe: A minha alma j morreu! Divina comedia (Ao Dr. Jos Falco) Erguendo os braos para o co distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:--Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante, Porque que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e s gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illuso, luctas horriveis, N'um turbilho cruel e delirante... Pois no era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda no existe, Ter ficado a dormir eternamente? Porque que para a dor nos evocastes? Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:--Homens! porque que nos criastes? Espiritualismo I Como um vento de morte e de ruina, A Duvida soprou sobre o Universo. Fez-se noite de subito, immerso O mundo em densa e algida neblina. Nem astro j reluz, nem ave trina, Nem flor sorri no seu aereo bero. Um veneno sutil, vago, disperso, Empeonhou a criao divina. E, no meio da noite monstruosa, Do silencio glacial, que paira e estende O seu sudario, d'onde a morte pende, S uma flor humilde, mysteriosa, Como um vago protesto da existencia, Desabroxa no fundo da Consciencia. II Dorme entre os gelos, flor immaculada! Lucta, pedindo um ultimo claro Aos soes que ruem pela immensido, Arrastando uma aureola apagada... Em vo! Do abysmo a bocca escancarada Chama por ti na glida amplido... Sobe do poo eterno, em turbilho, A treva primitiva conglobada... Tu morrers tambem. Um ai supremo, Na noite universal que envolve o mundo, Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo No vacuo eterno se esvahir disperso, Como o alento final d'um moribundo, Como o ultimo suspiro do Universo. O CONVERTIDO (A Gonalves Crespo) Entre os filhos d'um seculo maldito Tomei tambem o logar na impia meza, Onde, sob o folgar, geme a tristeza D'uma ancia impotente de infinito. Como os outros, cuspi no altar avito Um rir feito de fel e de impureza... Mas, um dia, abalou-se-me a firmeza, Deu-me rebate o corao contrito! Erma, cheia de tedio e de quebranto, Rompendo os diques ao represo pranto, Virou-se para Deus minha alma triste! Amortalhei na f o pensamento, E achei a paz na inercia e esquecimento... S me falta saber se Deus existe! ESPECTROS Espectros que velaes, emquanto a custo Adormeo um momento, e que inclinados Sobre os meus somnos curtos e canados Me encheis as noites de agonia e susto!... De que me vale a mim ser puro e justo, E entre combates sempre renovados Disputar dia a dia mo dos Fados Uma parcella do saber augusto, Se a minh'alma ha-de ver, sobre si fitos, Sempre esses olhos tragicos, malditos! Se at dormindo, com angustia immensa, Bem os sinto verter sobre o meu leito, Uma a uma verter sobre o meu peito As lagrimas geladas da descrena! Virgem Santissima _Cheia de Graa, Me de Misericordia_ N'um sonho todo feito de incerteza, De nocturna e indizivel anciedade, que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza... No era o vulgar brilho da belleza, Nem o ardor banal da mocidade... Era outra luz, era outra suavidade, Que at nem sei se as ha na natureza... Um mystico soffrer... uma ventura Feita s do perdo, s da ternura E da paz da nossa hora derradeira... viso, viso triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa... E deixa-me sonhar a vida inteira! NOX (A Fernando Leal) Noite, vo para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, luz cruel do dia, Tanto esteril luctar, tanta agonia, E inuteis tantos asperos tormentos... Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exhalam da tragica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descana e esquece, alguns momentos... Oh! antes tu tambem adormecesses Por uma vez, e eterna, inalteravel, Cahindo sobre o mundo, te esquecesses, E elle, o mundo, sem mais luctar nem ver, Dormisse no teu seio inviolavel, Noite sem termo, noite do No-ser! EM VIAGEM Pelo caminho estreito, aonde a custo Se encontra uma s flor, ou ave, ou fonte, Mas s bruta aridez de aspero monte E os soes e a febre do areal adusto, Pelo caminho estreito entrei sem susto E sem susto encarei, vendo-os defronte, Phantasmas que surgiam do horizonte A accommetter meu corao robusto... Quem sois vs, peregrinos singulares? Dor, Tedio, Desenganos e Pesares... Atraz d'elles a Morte espreita ainda... Conheo-vos. Meus guias derradeiros Sereis vs. Silenciosos companheiros, Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda! Quia aeternus (A Joaquim de Araujo) No morreste, por mais que o brade gente Uma orgulhosa e van philosophia... No se sacode assim to facilmente O jugo da divina tyrannia! Clamam em vo, e esse triumpho ingente Com que a Razo--coitada!--se inebria, nova forma, apenas, mais pungente, Da tua eterna, tragica ironia. No, no morreste, espectro! o Pensamento Como d'antes te encara, e s o tormento De quantos sobre os livros desfallecem. E os que folgam na orgia impia e devassa Ai! quantas vezes ao erguer a taa, Param, e estremecendo, empallidecem! No turbilho (A Jayme Batalha Reis) No meu sonho desfilam as vises, Espectros dos meus proprios pensamentos, Como um bando levado pelos ventos, Arrebatado em vastos turbilhes... N'uma espiral, de estranhas contorses, E d'onde sem gritos e lamentos, Vejo-os passar, em grupos nevoentos, Distingo-lhes, a espaos, as feies... --Phantasmas de mim mesmo e da minha alma, Que me fitaes com formidavel calma, Levados na onda turva do escarceo, Quem sois vs, meus irmos e meus algozes? Quem sois, vises miserrimas e atrozes? Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!... IGNOTUS (A Salomo Sragga) Onde te escondes? Eis que em vo clamamos, Suspirando e erguendo as mos em vo! J a voz enrouquece e o corao Est canado--e j desesperamos... Por co, por mar e terras procuramos O Espirito que enche a solido, E s a propria voz na immensido Fatigada nos volve... e no te achamos! Cos e terra, clamai, aonde? aonde?-- Mas o Espirito antigo s responde, Em tom de grande tedio e de pezar: --No vos queixeis, filhos da anciedade, Que eu mesmo, desde toda a eternidade, Tambem me busco a mim... sem me encontrar! NO CIRCO (A Joo de Deus) Muito longe d'aqui, nem eu sei quando, Nem onde era esse mundo, em que eu vivia... Mas to longe... que at dizer podia Que emquanto l andei, andei sonhando... Porque era tudo ali aereo e brando, E lucida a existencia amanhecia... E eu... leve como a luz... at que um dia Um vento me tomou, e vim rolando... Cahi e achei-me, de repente, involto Em lucta bestial, na arena fera, Onde um bruto furor bramia solto. Senti um monstro em mim nascer n'essa hora, E achei-me de improviso feito fera... -- assim que rujo entre lees agora! NIRVNA (A Guerra Junqueiro) Para alm do Universo luminoso, Cheio de frmas, de rumor, de lida, De foras, de desejos e de vida, Abre-se como um vacuo tenebroso. A onda d'esse mar tumultuoso Vem ali expirar, esmaecida... N'uma immobilidade indefinida Termina ali o ser, inerte, ocioso... E quando o pensamento, assim absorto, Emerge a custo d'esse mundo morto E torna a olhar as cousas naturaes, bella luz da vida, ampla, infinita, S v com tedio, em tudo quanto fita, A illuso e o vasio universaes. CONSULTA (A Alberto Sampaio) Chamei em volta do meu frio leito As memorias melhores de outra edade, Frmas vagas, que s noites, com piedade, Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito... E disse-lhes:--No mundo immenso e estreito Valia a pena, acaso, em anciedade Ter nascido? dizei-mo com verdade, Pobres memorias que eu ao seio estreito... Mas ellas perturbaram-se--coitadas! E empallideceram, contristadas, Ainda a mais feliz, a mais serena... E cada uma d'ellas, lentamente, Com um sorriso morbido, pungente, Me respondeu:--No, no valia a pena! Divina comedia (Ao Dr. Jos Falco) Erguendo os braos para o co distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:--Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante, Porque que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e s gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illuso, luctas horriveis, N'um turbilho cruel e delirante... Pois no era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda no existe, Ter ficado a dormir eternamente? Porque que para a dor nos evocastes? Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:--Homens! porque que nos criastes? VISO (A J. M. Ea de Queiroz) Eu vi o Amor--mas nos seus olhos baos Nada sorria j: s fixo e lento Morava agora ali um pensamento De dor sem tregoa e de intimos canaos. Pairava, como espectro, nos espaos, Todo envolto n'um nimbo pardacento... Na attitude convulsa do tormento, Torcia e retorcia os magros braos... E arrancava das aras destroadas A uma e uma as pennas maculadas, Soltando a espaos um soluo fundo, Soluo de odio e raiva impenitentes... E do phantasma as lagrimas ardentes Cahiam lentamente sobre o mundo! 1880--1884 Transcendentalismo (A J. P. Oliveira Martins) J socega, depois de tanta lucta, J me descana em paz o corao. Cahi na conta, emfim, de quanto vo O bem que ao Mundo e Sorte se disputa. Penetrando, com fronte no enxuta, No sacrario do templo da Illuso, S encontrei, com dor e confuso, Trevas e p, uma materia bruta... No no vasto mundo--por immenso Que elle parea nossa mocidade-- Que a alma sacia o seu desejo intenso... Na esphera do invisivel, do intangivel, Sobre desertos, vacuo, soledade, Va e paira o espirito impassivel! EVOLUO (A Santos Valente) Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo, Tronco ou ramo na incognita floresta... Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquissimo inimigo... Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; Ou, monstro primitivo, ergui a testa No limoso pal, glauco pacigo... Hoje sou homem--e na sombra enorme Vejo, a meus ps, a escada multiforme, Que desce, em espiraes, na immensidade... Interrogo o infinito e s vezes chro... Mas, estendendo as mos no vacuo, adoro E aspiro unicamente liberdade. Elogio da Morte Morrer ser iniciado. Anthologia Grega. I Altas horas da noite, o Inconsciente Sacode-me com fora, e accrdo em susto. Como se o esmagassem de repente, Assim me pra o corao robusto. No que de larvas me pove a mente Esse vacuo nocturno, mudo e augusto, Ou forceje a razo por que afugente Algum remorso, com que encara a custo... Nem phantasmas nocturnos visionarios, Nem desfilar de espectros mortuarios, Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte... Nada! o fundo dum poo, humido e morno, Um muro de silencio e treva em torno, E ao longe os passos sepulcraes da Morte. II Na floresta dos sonhos, dia a dia, Se interna meu dorido pensamento. Nas regies do vago esquecimento Me conduz, passo a passo, a phantasia. Atravesso, no escuro, a nevoa fria D'um mundo estranho, que pova o vento, E meu queixoso e incerto sentimento S das vises da noite se confia. Que mysticos desejos me enlouquecem? Do Nirvna os abysmos apparecem, A meus olhos, na muda immensidade! N'esta viagem pelo ermo espao, S busco o teu encontro e o teu abrao, Morte! irman do Amor e da Verdade! III Eu no sei quem tu s--mas no procuro (Tal minha confiana) devassal-o. Basta sentir-te ao p de mim, no escuro, Entre as frmas da noite, com quem falo. Atravez do silencio frio e obscuro Teus passos vou seguindo, e, sem abalo, No cairel dos abysmos do Futuro Me inclino tua voz, para sondal-o. Por ti me engolfo no nocturno mundo Das vises da regio innominada, A ver se fixo o teu olhar profundo... Fixal-o, comprehendel-o, basta uma hora, Funerea Beatriz de mo gelada... Mas unica Beatriz consoladora! IV Longo tempo ignorei (mas que cegueira Me trazia este espirito ennublado!) Quem fosses tu, que andavas a meu lado, Noite e dia, impassivel companheira... Muitas vezes, certo, na canceira, No tedio extremo d'um viver maguado, Para ti levantei o olhar turbado, Invocando-te, amiga derradeira... Mas no te amava ento nem conhecia: Meu pensamento inerte nada lia Sobre essa muda fronte, austera e calma. Luz intima, afinal, alumiou-me... Filha do mesmo pae, j sei teu nome, Morte, irman coeterna da minha alma! V Que nome te darei, austera imagem, Que avisto j n'um angulo da estrada, Quando me desmaiava a alma prostrada Do canao e do tedio da viagem? Em teus olhos v a turba uma voragem, Cobre o rosto e reca apavorada... Mas eu confio em ti, sombra velada, E cuido perceber tua linguagem... Mais claros vejo, a cada passo, escritos, Filha da noite, os lemmas do Ideal, Nos teus olhos profundos sempre fitos... Dormirei no teu seio inalteravel, Na communho da paz universal, Morte libertadora e inviolavel! VI S quem teme o No-ser que se assusta Com teu vasto silencio mortuario, Noite sem fim, espao solitario, Noite da Morte, tenebrosa e augusta... Eu no: minh'alma humilde mas robusta Entra crente em teu atrio funerario: Para os mais s um vacuo cinerario, A mim sorri-me a tua face adusta. A mim seduz-me a paz santa e ineffavel E o silencio sem par do Inalteravel, Que envolve o eterno amor no eterno luto. Talvez seja peccado procurar-te, Mas no sonhar comtigo e adorar-te, No-ser, que s o Ser unico absoluto. Contemplao (A Francisco Machado de Faria e Maia) Sonho de olhos abertos, caminhando No entre as formas j e as apparencias, Mas vendo a face immovel das essencias, Entre ideas e espiritos pairando... Que o mundo ante mim? fumo ondeando, Vises sem ser, fragmentos de existencias... Uma nevoa de enganos e impotencias Sobre vacuo insondavel rastejando... E d'entre a nevoa e a sombra universaes S me chega um murmurio, feito de ais... a queixa, o profundissimo gemido Das cousas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim s presentido... Lacrimae rerum (A Tommaso Cannizzaro) Noite, irm da Razo e irm da Morte, Quantas vezes tenho eu interrogado Teu verbo, teu oraculo sagrado, Confidente e interprete da Sorte! Aonde vo teus soes, como cohorte De almas inquietas, que conduz o Fado? E o homem porque vaga desolado E em vo busca a certeza que o conforte? Mas, na pompa de immenso funeral, Muda, a noite, sinistra e triumphal, Passa volvendo as horas vagarosas... tudo, em torno de mim, duvida e luto: E, perdido n'um sonho immenso, escuto O suspiro das cousas tenebrosas... REDEMPO ( Ex.^{ma} Snr.^a D. Celeste C. B. R.) I Vozes do mar, das arvores, do vento! Quando s vezes, n'um sonho doloroso, Me embala o vosso canto poderoso, Eu julgo igual ao meu vosso tormento... Verbo crepuscular e intimo alento Das cousas mudas; psalmo mysterioso; No sers tu, queixume vaporoso, O suspiro do mundo e o seu lamento? Um espirito habita a immensidade: Uma ancia cruel de liberdade Agita e abala as formas fugitivas. E eu comprehendo a vossa lingua estranha, Vozes do mar, da selva, da montanha... Almas irmans da minha, almas captivas! II No choreis, ventos, arvores e mares, Cro antigo de vozes rumorosas, Das vozes primitivas, dolorosas Como um pranto de larvas tumulares... Da sombra das vises crepusculares Rompendo, um dia, surgireis radiosas D'esse sonho e essas ancias affrontosas, Que exprimem vossas queixas singulares... Almas no limbo ainda da existencia, Accordareis um dia na Consciencia, E pairando, j puro pensamento, Vereis as Formas, filhas da Illuso, Cahir desfeitas, como um sonho vo... E acabar por fim vosso tormento. Voz interior (A Joo de Deus) Embebido n'um sonho doloroso, Que atravessam phantasticos clares, Tropeando n'um povo de vises, Se agita meu pensar tumultuoso... Com um bramir de mar tempestuoso Que at aos cos arroja os seus caches, Atravez d'uma luz de exhalaes, Rodeia-me o Universo monstruoso... Um ai sem termo, um tragico gemido Echoa sem cessar ao meu ouvido, Com horrivel, monotono vaivem... S no meu corao, que sondo e meo, No sei que voz, que eu mesmo desconheo, Em segredo protesta e affirma o Bem! LUCTA Fluxo e refluxo eterno... Joo de Deus. Dorme a noite encostada nas colinas. Como um sonho de paz e esquecimento Desponta a lua. Adormeceu o vento, Adormeceram valles e campinas... Mas a mim, cheia de attraces divinas, D-me a noite rebate ao pensamento. Sinto em volta de mim, tropel nevoento, Os Destinos e as Almas peregrinas! Insondavel problema!... Apavorado Reca o pensamento!... E j prostrado E estupido fora de fadiga, Fito inconsciente as sombras visionarias, Emquanto pelas praias solitarias Echoa, mar, a tua voz antiga. LOGOS (Ao snr. D. Nicolau Salmeron) Tu, que eu no vejo, e ests ao p de mim E, o que mais, dentro de mim--que me rodeias Com um nimbo de affectos e de ideas, Que so o meu principio, meio e fim... Que estranho ser s tu (se s ser) que assim Me arrebatas comtigo e me passeias Em regies innominadas, cheias De encanto e de pavor... de no e sim... s um reflexo apenas da minha alma, E em vez de te encarar com fronte calma, Sobresalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te... Falo-te, calas... calo, e vens attento... s um pae, um irmo, e um tormento Ter-te a meu lado... s um tyranno, e adoro-te! Com os mortos Os que amei, onde esto? idos, dispersos, Arrastados no gyro dos tufes, Levados, como em sonho, entre vises, Na fuga, no ruir dos universos... E eu mesmo, com os ps tambem immersos Na corrente e merc dos turbilhes, S vejo espuma livida, em caches, E entre ella, aqui e ali, vultos submersos... Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei: vivem commigo. Vejo-os, ouo-os e ouvem-me tambem, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na communho ideal do eterno Bem. Oceano Nox (A A. de Azevedo Castello Branco) Junto do mar, que erguia gravemente A tragica voz rouca, em quanto o vento Passava como o vo d'um pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermittente, Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o co pesado e nevoento, E interroguei, scismando, esse lamento Que sahia das cousas, vagamente... Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, fora obscura? Em volta de que idea gravitaes?-- Mas na immensa extenso, onde se esconde O Inconsciente immortal, s me responde Um bramido, um queixume, e nada mais... Communho (Ao snr. Joo Lobo de Moura) Reprimirei meu pranto!... Considera Quantos, minh'alma, antes de ns vagaram, Quantos as mos incertas levantaram Sob este mesmo co de luz austera!... --Luz morta! amarga a propria primavera!-- Mas seus pacientes coraes luctaram, Crentes s por instincto, e se apoiaram Na obscura e heroica f, que os retempera... E sou eu mais do que elles? igual fado Me prende lei de ignotas multides.-- Seguirei meu caminho confiado, Entre esses vultos mudos, mas amigos, Na humilde f de obscuras geraes, Na communho dos nossos paes antigos. Solemnia Verba Disse ao meu corao: Olha por quantos Caminhos vos andmos! Considera Agora, d'esta altura fria e austera, Os ermos que regaram nossos prantos... P e cinzas, onde houve flor e encantos! E noite, onde foi luz de primavera! Olha a teus ps o mundo e desespera Semeador de sombras e quebrantos!-- Porm o corao, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente, Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver no foi em vo, se isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor. O que diz a Morte Deixai-os vir a mim, os que lidaram; Deixai-os vir a mim, os que padecem; E os que cheios de magua e tedio encaram As proprias obras vans, de que escarnecem... Em mim, os Soffrimentos que no saram, Paixo, Duvida e Mal, se desvanecem. As torrentes da Dor, que nunca param, Como n'um mar, em mim desapparecem.-- Assim a Morte diz. Verbo velado, Silencioso interprete sagrado Das cousas invisiveis, muda e fria, , na sua mudez, mais retumbante Que o clamoroso mar; mais rutilante, Na sua noite, do que a luz do dia. Na mo de Deus ( Ex.^{ma} Snr.^a Victoria de O. M.) Na mo de Deus, na sua mo direita, Descanou a final meu corao. Do palacio encantado da Illuso Desci a passo e passo a escada estreita. Como as flores mortaes, com que se enfeita A ignorancia infantil, despojo vo, Depuz do Ideal e da Paixo A forma transitoria e imperfeita. Como criana, em lobrega jornada, Que a me leva ao collo agasalhada E atravessa, sorrindo vagamente, Selvas, mares, areias do deserto... Dorme o teu somno, corao liberto, Dorme na no de Deus eternamente! INDICE A cruz dizia terra, onde assentava [pag. 64] Adornou o meu quarto a flor do cardo [pag. 26] Ali, onde o mar quebra, n'um cacho [pag. 52] Altas horas da noite, o Inconsciente [pag. 103] Amar! mas d'um amor que tenha vida [pag. 25] Amem a noite os magros crapulosos [pag. 65] Aquella, que eu adoro, no feita [pag. 44] Aquelles, que eu amei, no sei que vento [pag. 49] Ardentes filhas do prazer, dizei-me [pag. 48] Chamei em volta do meu frio leito [pag. 96] Chovam lyrios e rosas no teu collo [pag. 35] Como um vento de morte e de ruina [pag. 84] Conheci a belleza que no morre [pag. 7] Conquista pois ssinho o teu futuro [pag. 58] Deixae-os vir a mim, os que lidaram [pag. 120] Deixal-a ir, a ave, a quem roubaram [pag. 46] Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando [pag. 22] Disse ao meu corao: Olha por quantos [pag. 119] Dorme a noite encostada nas colinas [pag. 114] Dorme entre os gelos, flor immaculada [pag. 85] Embebido n'um sonho doloroso [pag. 113] Empunhasse eu a espada dos valentes! [pag. 45] Em sonho, s vezes, se o sonhar quebranta [pag. 37] Em vo luctamos! Como nevoa baa [pag. 19] Entre os filhos d'um seculo maldito [pag. 86] Erguendo os braos para o co distante [pag. 83] Espectros que velaes, em quanto a custo [pag. 87] Esperemos em Deus! Elle ha tornado [pag. 10] Espirito que passas, quando o vento [pag. 32] Esse negro corcel, cujas passadas [pag. 80] Estava a morte ali, em p, deante [pag. 82] Estreita do prazer na vida a taa [pag. 6] Eu amo a vasta sombra das montanhas [pag. 30] Eu bem sei que te chamam pequenina [pag. 27] Eu no sei quem tu s mas no procuro [pag. 103] Eu vi o Amor--mas nos seus olhos baos [pag. 97] Fora pois ir buscar outro caminho! [pag. 57] Fui rocha, em tempos, e fui, no mundo antigo [pag. 102] Fumo e scismo. Os castellos do horizonte [pag. 40] Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braos [pag. 20] Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto [pag. 69] J no sei o que vale a nova idea [pag. 66] J socega, depois de tanta lucta [pag. 101] Junto do mar, que erguia gravemente [pag. 117] L! mas aonde _l_? aonde? Espera [pag. 62] Longo tempo ignorei--mas que cegueira [pag. 106] Me, que adormente este viver dorido [pag. 38] Mas a Idea quem ? quem foi que a vio [pag. 59] Mas o velho tyranno solitario [pag. 77] Meus dias vo correndo vagarosos [pag. 8] Muito longe d'aqui, nem eu sei quando [pag. 94] Na capella, perdida entre a folhagem [pag. 34] Na floresta dos sonhos, dia a dia [pag. 104] Na mo de Deus, na sua mo direita [pag. 121] Na tua mo, sombrio cavalleiro [pag. 78] Nas florestas solemnes ha o culto [pag. 68] No busco n'esta vida gloria ou fama [pag. 18] No duvido que o mundo no seu eixo [pag. 41] No choreis, ventos, arvores e mares [pag. 112] No morreste, por mais que o brade gente [pag. 91] No se perdeu teu sangue generoso [pag. 63] No me fales de gloria: outro o altar [pag. 16] No co, se existe um co para quem chora [pag. 11] Nenhum de vs ao certo me conhece [pag. 75] Noite, irm da Razo e irm da Morte [pag. 110] Noite, vo para ti meus pensamento [pag. 89] No meu sonho desfilam as vises [pag. 92] N'um co intemerato e crystalino [pag. 67] N'um sonho todo feito de incerteza [pag. 88] O espectro familiar, que anda commigo [pag. 79] Oh chimera, que passas embalada [pag. 47] Oh! o noivado barbaro! o noivado [pag. 61] Onde te escondes? eis que em vo clamamos [pag. 93] Os que amei, onde esto? idos, dispersos [pag. 116] Outra amante no ha! no ha na vida [pag. 60] Ouve tu, meu canado corao [pag. 31] Pallido Christo, oh conductor divino! [pag. 56] Para alm do Universo luminoso [pag. 93] Para tristezas, para dar nasceste [pag. 50] Pelas rugas da fronte que medita [pag. 43] Pelo caminho estreito, aonde a custo [pag. 90] Pois que os deuses antigos e os antigos [pag. 55] Porque descrs, mulher, do amor, da vida? [pag. 15] Poz-te Deus sobre a fronte a mo piedosa [pag. 5] Quando ns vamos ambos, de mos dadas [pag. 31] Que belleza mortal se te assemelha [pag. 3] Que nome te darei, austera imagem [pag. 107] Quem anda l por fora, pela vinha [pag. 28] Razo, irm do Amor e da Justia [pag. 71] Reprimirei meu pranto!... Considera [pag. 118] Se das nuvens, levanta a fronte e escuta [pag. 76] Se comparo poder, ou ouro, ou fama [pag. 9] Se lei, que rege o escuro pensamento [pag. 12] Sempre o futuro, sempre! e o presente [pag. 14] S! Ao ermita ssinho na montanha [pag. 13] S males so reaes, s dor existe [pag. 17] S quem teme o No-Ser que se assusta [pag. 108] S por ti, astro ainda e sempre occulto [pag. 34] Sonho-me s vezes rei, n'alguma ilha [pag. 29] Sonhei--nem sempre o sonho cousa v [pag. 33] Sonho de olhos abertos, caminhando [pag. 109] Sonho que sou um cavalleiro andante [pag. 42] Tu, que eu no vejo e ests ao p de mim [pag. 115] Tu, que dormes, espirito sereno [pag. 70] Tu, que no crs, nem amas, nem esperas [pag. 81] Um dia, meu amor, e talvez cedo [pag. 36] Um diluvio de luz ce da montanha [pag. 4] Vae-te na aza negra da desgraa [pag. 21] Vozes do mar, das arvores, do vento [pag. 111] Porto Typographia Occidental. Fabrica 66 End of the Project Gutenberg EBook of Os sonetos completos de Anthero de Quental, by Antero Quental License: Share Alike