Produced by Pedro Saborano Pinto da Rocha TALITHA EVANGELHO EM TRES ACTOS Segunda Edio LIVRARIA CHARDRON DE LELLO & IRMO Carmelitas, 144-Porto 1909 TALITHA Pinto da Rocha TALITHA EVANGELHO EM TRES ACTOS Segunda Edio LIVRARIA CHARDRON DE LELLO & IRMO Carmelitas, 144-Porto 1909 O _accordo_ assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1889, entre o Brazil e Portugal, assegurou o direito de propriedade literaria e artistica em ambos os paizes. A presente edio est devidamente registada nas _Bibliothecas Nacionaes_, de Lisboa e Rio de Janeiro. Imprensa Moderna, de Manoel Lello R. da Rainha D. Amelia, 61--PORTO Grande premio na Exposio do Rio de Janeiro de 1908 PERSONAGENS TALITHA, cga 18 annos JOO FULGENCIO, cura da aldeia 80 " DR. RUY DE ORNELLAS, medico 25 " JOAQUINA, irm do cura 65 " MARQUEZA DE RILMA 50 " Um escudeiro--Camponezas--Lavradores A aco passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal ACTUALIDADE INTERPRETAO NO RIO DE JANEIRO EM 1906 Talitha Maria Falco Joaquina Jesuina Saraiva Marqueza de Rilma Barbara Wolckart Joo Fulgencio Chaby Pinheiro Ruy de Ornellas Henrique Alves NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907 Talitha Maria Falco Joaquina Maria Pinheiro Marqueza de Rilma Olivia de Almeida Joo Fulgencio Chaby Pinheiro Ruy de Ornellas Joo Lopes A _Talitha_ subiu scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria Falco. E tomando a mo da menina disse-lhe: --Talitha cumi:--Filhinha levanta-te. _Novo Testamento._ S. Marcos, V. 41. PRIMEIRO ACTO Jardim, na residencia do Cura.-- direita, um banco de pedra junto a um poo: esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com porto.--Vista de estrada e campo. SCENA I Joaquina e Ruy Joaquina Louvado seja Deus! Como est bello e forte! Ruy verdade, Joaquina, o clima aqui da terra encheu-me novamente o corao de alento. Posso dizer que entrei neste bondoso lar vigiado, sem d, pelos olhos da morte. E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra, as aguas desta fonte, o sadio alimento, o seu cuidado santo, amigo e tutelar, fizeram-me robusto. Joaquina E Deus no lhe fez nada? Ruy Foi elle quem salvou a minha mocidade, porque a divina mo que fez os cos e os montes, que deu flores terra e deu frescura s fontes, que faz vibrar a luz e a voz da passarada, que impelle a nuvem branca em plena immensidade, um dia vos creou as almas caridosas que vivem nesta casa, humildes e serenas, felizes com o Bem, suaves como as rosas, mais simples do que o trigo, a neve e as aucenas! Joaquina Ento, menino, cr tambem que Deus existe?! Ruy De certo, minha amiga. Joaquina E no um hereje, dessa raa maldita e negra que desmente as obras do Senhor? Ruy Ingenua creatura! to alegre a crena e no crr to triste, que mesmo sem querer o corao da gente acredita num Deus que todo o mundo rege, num Pae que assim te deu alma simples e pura! Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus e adormecer noite abrindo a consciencia aos beijos do luar, sorrir de madrugada frescura que vem do azul ethereo e vasto, que o nosso olhar ascende s amplides dos cos sem esforo nenhum, como a espiral da essencia que se evola da flr, se a abelha delicada lhe poisa na corolla o vo leve e casto! Joaquina Bemdito seja Deus! No pde imaginar como eu fico contente ouvindo assim fallar!... Ruy Mas que ida fazia ento de mim? Julgava talvez que eu fosse atheu? Joaquina, _benzendo-se_ Deus me perde... pensava! Ruy Como poude a sua alma angelica e to boa fazer-me, sem motivo, essa enorme injustia? Joaquina Ah! mas no foi por mal, nem o pensei ta: eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa... E a gente v s cara e no v coraes... Ruy E se o visse, Joaquina!... Joaquina E que que me servia o ver-lhe o corao? Ruy Nada, certo. Entretanto conheceria bem as minhas intenes, a esperana que faz brotar, em cada dia que passa, um pensamento alegre, puro e santo... Joaquina, _interrompendo_ , mas diz o rifo que est o inferno cheio de boas intenes!... Ruy Tem razo; mas no minto se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto: s vezes mais parece um verdadeiro inferno este peito infeliz... Joaquina, _benzendo-se_ Abrenuncio, menino!... Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!... Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno, em Deus Nosso Senhor, no diz tal desatino!... Virgem Maria! Credo! Ruy Alma boa de santa!... A tua vida inteira adormeceu. A aurora j para ti no tem aquelle brilho vivo que a primavera, em luz, alastra pelos campos... Tudo se transformou em outra vida; agora a fonte j solua, a brisa j no canta; aos teus olhos a lua d'um fulgor esquivo, o sol no tem calor, o co j no glastro, as estrellas febris parecem pirilampos; trazes o teu olhar constantemente a rastro; smente a f te anima; por isso que extranhas o inferno abrasador que muita vez domina a minha mocidade. Joaquina, _com sorriso_ Isso me bacoreja algum amor perdido ahi por essas eiras... Ruy possivel, quem sabe? Os ares das montanhas tem caprichos assim, pde bem ser, Joaquina! Joaquina, _cariciosa_ E diga-me, que olhar esse que negreja a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!... Ruy, _enleiado_ Que olhar? Joaquina, _interrompendo_ Mas segredo? Ruy , por ora segredo... Joaquina Ah! no confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo que eu descubra o mysterio, a princeza encantada que assim lhe traz a vida em tantas amarguras... Ruy No mysterio, no. ... cousa complicada!... Joaquina Faz muito bem zelar a flr dos seus amores; no os conte a ninguem; se acaso as desventuras lhe roubarem o somno agarre-se com Deus... _tomando-lhe a mo e fallando-lhe ao ouvido_ Reze constantemente Senhora das Dres. Acceite este rosario e tenha-o por bordo. bemaventurado aquelle que padece, porque delle, menino, o reino azul dos cos... E Deus a quem promette estende sempre o po; reze e ser feliz... Essa alma bem merece... Ruy Santa velhinha, santa... Joaquina, _tapando-lhe a bocca_ E nem um ai, silencio... Olhe quem vem ali... Ruy, _voltando-se_ O Padre Joo Fulgencio e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!... Joaquina, _a Ruy_ Parece que ficou um tanto atrapalhado... Ruy, _encobrindo a verdade_ Sempre que a vejo, assim to cheia de bondade e cga... Joaquina Ento, que sente?... Ruy Uma dr inaudita, que reveste de luto as minhas alegrias: Ha tanta luz espalhada na concha astral dos espaos! E os olhos della to baos! E a fronte to macerada! SCENA II Os mesmos, Padre Joo e Talitha _Talitha vem apoiada ao brao de padre Joo_ Padre Pois Deus Nosso Senhor nos d muitos bons dias. _assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mo_ Como passou a noute? Ruy Assim; mais descanado... Sonhando... E o Senhor Cura?... Padre Eu? Ah! na minha idade j se no dorme; eu passo a noute toda em claro, de rosario na mo, pedindo a Deus por ns! E quando surge o dia e mal o Sol desponta, dando o brao a Talitha, encaminho-me Egreja. Talitha Diz a missa que ou ouo... Padre E raro, muito raro, voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, ss. s vezes vem comnosco esse infeliz sargento que arrasta por ahi o longo soffrimento, velho e cego tambem, e eu, mortia candeia, a conduzir os dois pelas ruas da aldeia! Talitha Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta, nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja! No emtanto est comnosco ha sete mezes, no? Joaquina Isso mesmo eu j disse... Ruy Eu dei a explicao... Talitha E poder-se- saber? No curiosidade? Padre Talvez seja, talvez... Ruy No ! Talitha Ento ouamos!... Ruy Eu rezo no silencio o santo sacrificio, no fundo de minh'alma elevo o meu altar, sob o docel azul das minhas esperanas!... Padre E eu sem conhecer mais essa novidade!... Talitha Qual? Padre Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos... Ruy Padre no smente aquelle que a rezar esgota uma existencia ao peso do cilicio e vae pelas manhans, feliz como as creanas, curvar humildemente a fronte e a consciencia, na sombra da capella, aos ps do Redemptor... Talitha Mas ha d'outros, ento? Padre Eu no conheo, filha! Ruy Sacerdote tambem aquelle que tem culto ao qual offereceu toda a sua existencia. Padre, quem se dedica um dia com fervor a amar alguem na terra a cujos ps se humilha, tambem sacerdote... Padre E eu, sacerdote, exulto ouvindo do seu labio esta expresso severa. Joaquina, _que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy_ Bemdito seja Deus! menino, quem me dera conhecer a mulher que tem um filho assim... Talitha S eu no posso vl-o!... Ruy, _entre alegre e enleado_ Obrigado, Talitha! Talitha No tem que agradecer, disse-o sinceramente! Que pde desejar mais uma cga, diga?... Padre Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor, ouvindo-me a orao, tenha pena de mim e acuda com remedio ao mal dessa desdita! Ruy Como eu fra feliz... Joaquina E eu seria contente!... Ruy Se pudesse voltar, minha boa amiga, aos seus olhos de cga o perdido fulgor!... Talitha Nunca mais, nunca mais... Padre Porque que te condemnas se toda a nossa vida uma esperana apenas?... Talitha Se toda de esperanas esta vida, j me fugiu aquella que voava bem junto do meu seio e que roava sobre a minh'alma a aza foragida. Nem sei onde ella vae, talvez perdida nao volte a mim por no morrer escrava na escurido da noite immensa e cava dos meus olhos sem luz e sem guarida... Nunca mais fulgirs, dce promessa, na minha treva densa e prematura, como o branco luar em noite espessa. Se vive, o olhar dos cgos no fulgura, dorme na sombra e de sonhar no cessa na tristeza sem fim da noite escura! Ruy No descreia, Talitha, as suas illuses no fugiram, por ora, esparsas na lufada! Quem foi que lhe roubou a ultima esperana, que braos sem caricia, ou duras privaes lhe puderam vibrar to rude punhalada? Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalana a dizer-lhe, Talitha:--o seu formoso olhar to cheio de fulgor, um dia ha de voltar... Joaquina S milagre de Deus! Padre E Deus pde fazel-o: Pae de todos ns! Talitha, _com desanimo_ Tenho rezado tanto! Ruy Implore mais ainda, espere, tenha crena! Talitha Tenho pedido muito e tanto me flagello que banho as oraes nas bagas do meu pranto e aqueo-as ao calor da minha dr immensa. A mesma escurido tremenda me apavora, nem um raio do luz, nem um vago lampejo; nunca mais hei de vr o campo que se inflora nem do luar terei um luminoso beijo... Padre A tua redempo ainda no surgiu... Joaquina, _pondo as mos_ Eu tenho tanta f! Ruy O meu presentimento no sei o que me diz... Talitha Que o corao sentiu, que a sua alma pensou nessa dce ventura, eu creio porque sei quanto nobre e bondoso. Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento smente acabar no cho da sepultura, onde tudo tem fim, embora tenebroso!... Padre, _olhando o co_ Perda-lhe, Senhor, ella ignora o que diz... Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!... Talitha Eu sei bem o que disse; a minha crena essa. Ha muito que eu imploro ao co a proteco e rezo com fervor dce Conceio, pedindo-lhe, a chorar de dr, que no esquea a minha noite escura e tristemente agreste como a sombra que faz a copa de um cypreste. Aos ps do seu altar curvei-me como escrava e emquanto pela igreja o incenso espiralava, e as simples oraes subiam na espiral, fechei-me na mudez do meu fervor mental e fiz uma promessa... Ruy, _com interesse_ E ento qual foi, Talitha? Talitha Votar a minha vida ao divino servio, se um dia terminasse o meu padecimento; nem peo mais a Deus, tudo o que cubio. Ruy E se tornar a ver? Talitha Entrarei num convento a vestir o burel de freira Carmelita. Padre, _crente, pondo as mos_ Se Deus te ouvisse, filha! Joaquina, _com unco religiosa_ E o Bom Jesus quizesse!... Ruy, _com amargura_ Se tivera valor a minha humilde prece!... Talitha, _curiosa_ Se tivera valor, que lhe faria, Ruy? Ruy No pediria a Deus esse milagre extremo... Talitha Porque? Ruy Porque seria arrancal-a da treva e lanal-a de novo em mais cruel negrura. Juntando toda a f que de minh'alma fle eu iria pedir, como um favor supremo, que as almas alevanta e os coraes eleva, que me guiasse a mo na lucida aventura de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora que faziam inveja ao proprio olhar de Flra! Padre E seria capaz? Joaquina Credo! _Sae_ SCENA III Padre Joo, Ruy e Talitha Ruy E to convencido estou de que o Senhor a mo me guiaria nesse instante feliz, que no hesitaria um momento sequer... A simples catarata facil de operar e em dez dias exactos Talitha voltaria luz que o co desata e que d vida terra, aos fructos e aos regatos!... Pense, Talitha, pense e permitta que eu faa esse dce milagre. Talitha E eu tornarei a vr o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves, as abelhas sugando o mel dos jasmineiros? Ruy Os seus olhos vero a luz da eterna graa no sorriso gracil da alvorada, ao nascer nas bandas do oriente em nuvens to suaves, como um rebanho astral de timidos cordeiros! Talitha E que mais hei de vr? Ruy Que mais? Ver tambem um velhinho a sorrir com lagrimas na face, e uma velhinha branca e trmula a chorar, e ao p delles, alegre, o olhar de mais alguem, numa dce orao to leve e to feliz, como se a propria brisa aqui se demorasse um momentinho s tambem para rezar! Talitha, _alegre_ E eu voltarei de novo aos encantos da luz? E hei de vr tambem o jardim do mosteiro onde floresce a f que a nossa vida arrima, as rosas enfeitando a Virgem que as anima, o corpo de Jesus exanime e trigueiro, entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?... E ento assim feliz... Ruy, _interrompendo_ E ento, Talitha, e ento? Talitha Rezarei pelo Ruy, to bom, to generoso, que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso a esmola angelical d'um lucido claro! SCENA IV Os mesmos e Joaquina Joaquina, _entrando_ Padre Cura, uma carta. Padre Uma carta? Mas donde? _recebe-a e examina_ Hum! e de quem ser? Talitha Joaquina, d-me o brao... _Joaquina d-lhe o brao. A Ruy_ Dr. Ruy, at j. _ao cura_ At j, meu Padrinho... Ruy, _que se tem conservado triste_ Talitha!... Talitha, _voltando-se_ Meu Senhor!... Ruy, _indo a ella_ Perdo, Talitha... nada! Talitha Arrependeu-se, no? E tambem no responde... Desconfia de mim?... Outro tanto eu no fao Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho... Ruy, _com interesse_ Que foi que adivinhou? Talitha, _com malicia_ Uma coisa adorada... que s tres coraes conhecem bem: o seu, o della, e o Senhor que tudo v do co... Ruy, _admirado_ Della, Talitha, quem? Joaquina, _com inteno_ Daquella princesinha d'olhos da cr do co, vestida de andorinha... Talitha Ouviu, Doutor, ouviu? Ruy Juro... Talitha, _interrompendo_ No jure falso!... _a Joaquina_ Vamos, Madrinha, embora: tempo de almoar. _sahem_ SCENA V Padre Joo e Ruy _Desde que recebe a carta, Padre Joo l com a maior atteno. Pela sua face corre toda a expresso de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se._ Padre Esta agora que foi! Ruy E que foi, Senhor Cura? Padre Quem sabe? Pde ser um pequeno precalo, mas pde ser tambem que venha de mistura alguma dr maior. E no posso evitar!... Ruy O que essa carta diz deixou sua alma afflicta: um segredo talvez que vive no seu seio?!... Padre Foi, sim, mas ja no . Agora s receio que m'a levem daqui... Ruy Que a levem? quem? Padre Talitha... Ruy E quem a levar deste remanso augusto? O convento, a promessa?... Padre Oh! no... Ruy No tenha susto! E quem mais poder, nesse caso, arrancal-a do lar em que nasceu? Padre A Me... Ruy, _surprehendido_ Ah! mas... ento... Padre, _baixinho_ Ento... j percebeu?! Ella foi engeitada... Eis aqui o segredo em que esta vida abrao. _baixa a cabea, scismando_ Ruy, _depois de uma pausa_ Oh! meiga creatura! Padre E no poder salval-a!... Ruy Engeitada!... Padre Sim, sim. Ao romper da alvorada. Ha muito tempo j. Inda no co brilhava a estrella da manh; vieram procurar-me; bateram ao portal com desusado alarme... Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava os campos e eu pensei que um pobre moribundo, no momento supremo em que deixava o mundo, quizesse receber da minha propria mo o balsamo final da santa extrema-unco, e abri desta choupana a porta sempre franca. Parecia o jardim uma toalha branca. Era um frio cruel, cortava como fsse o gume de uma faca e o fio de uma fouce... Sahi, olhei em roda e j no vi ninguem. No co luzia s a estrella de Bethlem! No sei porque a fitei nesse feliz momento. Um silencio profundo amordaava o vento; dormia a natureza um somno indefinido, vibrou ento no espao um timido vagido... Estremeci de horror... Ruy, _com anciedade_ Era a pobre Talitha?! Padre Approximei-me e vi, aqui junto do banco um cestinho de verga envolto em panno branco. Banhou-me o corao uma dr infinita. Na tragica mudez da alvorada deserta tomei nas mos, tremendo, a delicada offerta e agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a como quem agasalha o corpo de uma estrella que tombasse do co... Ruy, _com mais anciedade_ E esse penhor amigo?!... Padre A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro, alma rica de luz, feita de amor e d'oiro. Parece que ao romper daquella madrugada to fria, to cruel, mas to abenoada, que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo, teve o banho castalio, o baptismo de luz da mesma estrella exul que baptisou Jesus. Por isso que minh'alma agora no sopita a magua de perdel-a... Ruy E quem ter coragem energica e viril de arrebatar Talitha ao seu amor leal e bom, dce miragem, no deserto feliz desta velhice austera? Padre A me que a vem buscar... Ruy A me no tem direito... A me que engeita a filha peior que uma fera! Padre Mas me!... Ruy Sim, ser, sem corao no peito. Padre Engana-se, doutor, a me que hoje a reclama, depois de tanto tempo, que lhe tem amor... Ruy Como a engeitou, ento? Padre A fera tambem ama... Quem sabe o que ter soffrido essa mulher? Sabe-o smente o co, calcule-o quem puder. E diz-me o corao que vou perdel-a em breve. _Erguendo as mos ao co_ No me tires, meu Deus, esse gentil penhor! Repara que j tenho os cabellos de neve, to tremulas as mos, e os labios descorados, como sonhos que vo batidos e levados num extremo soluo... O que eu tenho no mundo, pouco mais que um ai e o golpe agora fundo! _Enxuga os olhos e se_ SCENA VI Ruy e Talitha _Ruy v sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no cho, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, at junto delle._ Talitha Padrinho, ento no vem? Ruy, _sobresaltado_ Ah! Talitha... Talitha Perdo! Pensei que estava aqui... Ruy J se foi... Talitha Obrigada... _Vae retirar-se_ Ruy Talitha! Talitha Senhor Ruy! Ruy O seu bom corao inda no lhe contou, baixo, muito baixinho, quasi a tremer de medo e susto, um segredinho, diga, no lhe contou? Talitha, _com muita simplicidade_ Que pergunta engraada! Ruy E vive ento sereno? Talitha Ah! Sim, tenho certeza! Ruy bem feliz, Talitha, a sua singeleza! Outro tanto, porm, ao meu j no succede que o sinto palpitar acceleradamente, como quem vae fallar e o soffrimento impede. Talitha Eu bem lh'o disse ha pouco... Ruy Entretanto eu lhe juro... Talitha, _interrompendo_ No jure que peccado a jura de quem sente que no diz a verdade. mais bello e mais puro no negar. Ruy Tem razo, mas eu no disse, ainda qual era o juramento... Talitha, _ingenua_ E qualquer que elle seja... Ruy Diga, diga o que sente... Talitha Ha de ser... Ruy, _curioso_ Ha de ser? Talitha No digo... Ruy Diga, sim, a sua voz bemvinda ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja que a minh'alma sem luz precisa de viver. E do seu labio casto apenas um sorriso vale mais que uma estrella e rasga um paraiso. Talitha Assim o quer, direi; jamais o seu protesto pde ser verdadeiro... Ruy E porque no, Talitha?... Talitha No sei, no sei porque. A jura como o gesto que abala fortemente, a nossa vida agita, mas passa e foge... Ruy Ah! sim, quando falla smente o labio, sem fallar tambem o corao... Ah! de certo que assim o labio sempre mente. Mas quando o sangue esta e faz tremer a mo de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza, apenas num momento, empallidece e tomba, bem como se a rora a ponta fria da aza feita de gelo e dr de alguma extranha pomba, quando um homem que sempre olhou de frente o sol tem medo de encarar o olhar de um rouxinol, e treme at de ouvir-lhe a voz encantadora, quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora do vento e dos troves... Talitha, _interrompendo_ Ento?... Ruy Assim revela que grande, generoso e casto o sentimento que apenas se traduz e que to mal se vela na gaze pueril d'um simples juramento! Talitha, _ingenua_ Quem foi que o ensinou a fallar assim? Ruy, _timido_ Digo?... Talitha, _ingenua_ E porque no? Quem foi?... Ruy, _timido_ Nem mesmo eu sei, Talitha! Talitha, _insistido_ Nem sabe onde aprendeu? Ruy, _sorrindo_ Quer aprender commigo? Talitha, _ingenua e triste_ No me quer responder, nem confessa, nem nega... Se eu pudesse aprender, de que valera cga saber fallar assim? Ruy, _triste_ cga? Talitha, _simples_ E Carmelita?... Ruy, _ancioso_ Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos recuperando a luz, como duas estrellas, iro illuminar as fragas e os escolhos das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas? Quer sepultar-se em vida? Talitha E no cemiterio maior a escurido deste pavor funereo, sem vr o sol que doira as nuvens do poente, sem vr a lua assim como um bero dolente embalando no azul um sonho que no morre, no vr duma colmeia o mel que filtra e corre como um rio de luz nascendo num enxame, sentir e adivinhar a suprema belleza da madrugada em flr, das noites constelladas, dos mares e do co, de toda a natureza, ter olhos e no vr, inda haver quem chame vida a tal vida? No! Mais negras, mais cerradas do que esta noite immensa e triste, sem estrellas, no pde ser, de certo, a solido das cellas, e o sol que tudo aquece, aquecer de leve a macerada fronte monja que no teve nem um seio de me que um dia a amamentasse, nem a luz d'um olhar na pallidez da face, e nem um corao... Ruy Talitha! Talitha, _ingenua_ Meu doutor! Ruy, _com inteno_ Um corao? Talitha, _ingenua_ Qual foi? Ruy, _tomando-lhe a mo_ O meu... Talitha, _comprehendendo, envergonhada_ O seu? _Retira a mo_ Ruy, _enleiado_ Perdoe. _Pausa prolongada_ Talitha, _implorando_ Que mal lhe fiz? Ruy Rasgou-me o corao, Talitha; e pensar, talvez, que no me fere a dr de vl-o assim rasgar? Talitha, _humilde, implorando_ Mas creia, Ruy, que foi sem que eu desse por isso. E se o mal est feito seja agora gentil e no me rasgue o peito. Esquea a minha falta, esquea esta maldita, no se lembre da cga e deixe-a definhar na torva escurido desta noite polar... Ruy E se eu no conseguir tirar do pensamento o seu casto perfil, celeste e macilento, se a minh'alma quizer viver escravisada unindo o meu destino corrente doirada que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio, se o meu olhar prefere esse apagado cirio dos seus olhos de cga lucida manhan do amor sentimental de alguma castellan, como esquecel-a ento? _Joaquina apparece ao fundo_ Talitha, _triste_ No creio... Ruy Mas porque? J to cedo a sua alma angelica descr da minha que, arrastada fimbria azul da sua, por toda a parte a segue e a seu lado fluctua? No recorda, Talitha, o dia amargurado em que eu entrei aqui perdido e quasi morto? No se lembra da noite em que eu fui condemnado? No se lembra talvez das horas de conforto que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flr me trouxeram a rir, como um remedio santo da minha vida enferma cruciante dr? No recorda talvez que esse supremo encanto, essa graa divina, aligera e bemdita a vida me salvou? Talitha No creio... Ruy, _curioso_ to cruel! Porque razo no cr, a minha alma fiel simplesmente traduz o que a sua entendeu? Talitha, _com inteno_ S porque a sua mo na minha no tremeu. Ruy Entretanto, Talitha, eu amo-a... Talitha, _tremula_ Ruy!... Ruy, _apertando-lhe a cintura_ Talitha! _Beija-lhe docemente a mo_ Talitha Ah! E eu sem poder vr o labio que me beija!... Que destino fatal, que desgraada eu sou! Ruy No foi a minha bocca ardente que a beijou. Foi o dce rumor da abelha que voeja sugando sua mo de branca flr de liz o magico licr, o aroma delicado, que vem do rosicler florido e perfumado, no sangue que palpita em vibraes subtis!! Talitha Mas, Ruy, o seu amor no ve como eu sou pobre!! Ruy, _interrompendo_ Pobre sou eu que peo a esmola angelical desse affecto gentil que a vida transfigura. Talitha To pobre que no tenho um Pae que me conforte, nem caricias de me que veja esta tortura... Ruy A sua alma divina essa tortura encobre... Talitha To pobre que este olhar perdido glacial como um floco de neve, e a desfazer flucta... Ruy Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua. Talitha Engeitada ao nascer vivo esperando a morte... Ruy Alma branca de luz que illuminaste a ventura das minhas esperanas, bemdito seja o vo de negras tranas que sobre a minha vida desnastraste! Bemdito seja nesse dce engaste das palpebras subtis brancas e mansas o mesto olhar que cobre de bonanas a vida deste amor que tu salvaste! s para mim a linha do horisonte, curva do co, noite, constellada, agua lustral de uma sagrada fonte, toda a ambio dest'alma allucinada, e a nuvem que circumda a minha fronte como um disco de treva avelludada... Talitha, _de mos postas_ Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vl-o!... Ruy Sim, Talitha, ver; o meu maior desvelo ha de ser o fulgor do seu formoso olhar. SCENA VII Os mesmos e Joaquina Joaquina, _que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com lentido e junto de ambos exclama:_ Caia a beno de Deus neste formoso par... _Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se_ Ruy, _recuperando a serenidade_ Talitha assim o quiz! Talitha, _perturbada_ A culpa no foi minha... Joaquina, _sorrindo e acariciando-a_ A culpada fui eu que te deixei ssinha! CAE O PANNO SEGUNDO ACTO Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam. SCENA I Joaquina e Padre Joo _Conversando alegremente_ Joaquina Graas a Deus, chegou por fim o grande dia... Padre verdade, verdade! irm, quem nos diria que a linda pequenita... Joaquina A formosa engeitada... Padre Que Deus nos enviou naquella madrugada inclemente de inverno... Joaquina, _interrompendo_ E parece-me ainda vr a neve a cahir num p macio e branco no cestinho de vime, ali, ao p do banco... Padre E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu depois de ter mamado... Joaquina E, lembras-te, que fina! To branquinha, to loira, a rir, to pequenina! Padre Se me recordo, irm!?... Pois ento, se fui eu quem primeiro velou, durante o dia inteiro, o somno encantador da candida innocente!... Se me recordo, ento?!... Joaquina, _sorrindo_ Mansa como um cordeiro!... Mas uma coisa eu sei que esqueceste... Padre, _curioso_ Qual ? Joaquina No te digo, adivinha... _Pausa prolongada_ do primeiro dente... Padre, _alegre_ Joaquina! verdade! O que se fez!... At parece que a alegria andava tentao; e ns a rir, a rir, a rir perdidamente... Sempre ha coisas, meu Deus!... Joaquina A vida uma illuso, ligeira como o vento, s vezes nem se sente, no verdade? _Pausa_ Falla?... Padre , de certo, Joaquina. Joaquina Pois ento que mal faz que a gente esteja agora a rir do que l vae por essa vida fra?!... Pois agora que rir, que passou a desgraa, quando a gente feliz t na morte acha graa. Padre Por causa desse dente esteve a pequenina tres dias por um triz... Joaquina, _triste_ Bem s portas da morte... Padre Valeu-lhe a vela benta... Joaquina Inda foi uma sorte eu ter guardado aquella... Padre, _rapidamente alegre, interrompendo_ ! mana, e o baptisado?... Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado, com rodellas de paio; inda me esto lembrando aquelle arroz de forno e aquelle vinho brando... Recordas? Joaquina, _com malicia_ Bem me lembro, at nesse jantar o vinho comeou a subir e a trepar... Padre, _interrompendo, com gravidade_ mana... Joaquina, _saudosa_ E j l vo uns bons dezeseis annos... Padre, _pensativo_ Mas como corre o tempo! Joaquina, _nostalgica_ E como a gente muda!... Padre A vida no nada! A magua, os desenganos, a enfermidade e a dr fazem a gente velha; e no ha santo algum no co que nos acuda! Joaquina Pois sim, sim, mas depois os filhos vo crescendo e os paes a cada instante, a rir, vo-se revendo na luz do seu olhar em que tambem se espelha o tempo que passou... Padre, _interrompendo_ Como o tempo cruel! E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?... Recordas? Que manh! Mais amarga que o fel! Joaquina, _olhando o co_ Se me lembro, Senhor, quando ella ficou cga, que s podia andar guiada por alguem!... No hei de recordar? Recordo muito bem! Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediu que lhe fsse comprar dois olhinhos melhores para trocar os della... Padre, _limpando os olhos_ At se me despega o corao de dr!... Joaquina E nenhum dos doutores atinou de a curar, nem sequer as promessas deram com ella a vr... Padre Quantas vezes subi os tres degros do altar e rezando pedi ferventemente a Deus, por amor de Jesus, que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luz a viso que perdera... Joaquina E agora tu confessas que a sorte a perseguiu sem d nem piedade, apezar de ella ser um mimo de bondade? Padre Confesso. At que Deus mandou a desventura da sua juventude a alvorada feliz desse primeiro amor... Joaquina E se Elle assim o quiz!... Padre Que seja feita a sua energica vontade, nos cos como na terra e que um dia a tortura tenha fim! Joaquina Pois no teve, afinal?... Padre Eu no sei... Dizem vocs que teve e a operao deixou o melhor resultado... Joaquina Elle diz que a curou! O que elle fez no sei, nem mesmo perguntei mas que ella torne a vr... Padre isso o que deseja a minh'alma sincera, vl-a venturosa! Entretanto, meu Deus, por que Talitha o seja preciso, talvez, que a vara da desgraa me toque o corao e a fonte caprichosa das lagrimas estale. A dr que me ameaa enche-me de pavor. Tenho um presentimento que me no abandona um dia, um s momento! Joaquina Isso no vale nada... Padre Entretanto eu medito naquelle casamento. Joaquina, _interrompendo_ O casamento?... Padre Sim; o casamento, sim, que vae arrebatal-a nossa pobre vida... Est, porm, escripto, e Deus que o destinou ha de por fim leval-a e nunca mais trazel-a aqui, junto de mim. Joaquina E quem nos diz a ns que essa desconfiana no seja apenas medo? Padre O corao, irm!... Joaquina Ah! Sim o corao... o corao tambem cana! J no regula o teu, nem serve de evangelho, corao de padre e padre muito velho... Padre Pois bem, no servir, mas inda esta manh, por occasio da missa, as lagrimas vertidas tombaram-me da face ao calix consagrado, ao recordar, ento, que um dia, angustiado, hei de vl-a partir! Como fram sentidas essas bagas leaes que, em silencio, chorei e que juntas ao vinho eu mesmo consagrei! Eu creio em Deus e espero o golpe do destino como um favor do co purissimo e divino! Joaquina Descana, meu irmo! O Ruy bom rapaz, tem muito amor gente, ha de ficar, vers! Parece alma de santo e s pensa no bem. Padre Pde ser, pde ser, mas recorda tambem a promessa que fez a nossa pequenita e, se ella conseguir outra vez a viso, l se nos vae embora a meiga Carmelita... Joaquina Ah! disso eu no receio; ento crs que o convento tenha fora capaz de virar-lhe a razo o fazel-a esquecer, assim, o casamento? Padre Mas se no a levar o voto de novia ha de a levar o amor que quanto v cobia. De certo a chamar, talvez para bem longe, a palavra inspirada e convicta do monge que nos fez o milagre e deu olhos cga... por isso, meu Deus, que est'alma no socega! SCENA II Os mesmos e Ruy Ruy, _entrando_ Bons dias, Senhor Cura. _A Joaquina_ E a me Joaquina, ento, como passou a noute? Aposto que sonharam muito commigo, sim? Padre Foi tal qual!... Joaquina Pois eu, no; tive mais que fazer, dormi regaladinha durante a noite inteira... Ruy E bem conchegadinha? Joaquina Nem mais!... Ruy E claro ento que nem, sequer, cuidaram de Talitha... Joaquina Cuidei, sim senhor... Ruy, _prazenteiro_ No entendo... se dormiu toda a noite... Padre, _a rir_ , eu no comprehendo tambem como se possa, a um tempo s, dormir e velar!... bem certo o rifo: mais depressa se agarra um mentiroso... Ruy, concluindo Exacto; do que um coxo... _Ambos riem muito_ Joaquina Mas eu que no sei que tanto tem que rir! _A Ruy_ Nem da sua conta _ao Padre_ e nem da sua! Pea a Deus Nosso Senhor que d mais tento aos dois: _batendo com um dedo na testa_ talvez haja por l um parafuso frouxo... Padre, _com gravidade comica_ mana, isso demais... Ruy, _abraando-a_ No v subir serra; deixemos essa historia a resolver depois e vamos conversar da luz que se descerra e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria... Padre Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada. Joaquina E quer saber, menino, o que elle me dizia?... Ruy Pois diga, francamente, e no esquea nada... Padre No havia segredo, era to natural e to simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco... Joaquina Deixe-o fallar, menino, anda que mesmo um louco; no diz coisa com coisa, a tudo julga mal e j pelo peior! _Contando pelos dedos_ Primeiro, que a pequena breve nos deixar, que o Ruy vae desposal-a, e depois, o convento: ora veja se cabe uma cantiga assim na cabea d'alguem? Se ella ha de preferir aquella quarentena casa dum marido!... A mim j no abala essa ideia!... _Ao Padre_ Voc nunca soube, nem sabe um marido bonito os encantos que tem... _A Ruy_ Finalmente, receia... Padre, _interrompendo_ Eis onde pega o carro!... E sabe Deus, Doutor, que se no fsse a crena!!... Ruy Pois bem, Joaquina, diga, em que que o Cura pensa? Joaquina Que depois de casada... Padre, _interrompendo_ Oua-me ento, eu narro: Receio, natural, que ella siga o marido, e venha a solido morar nesta choupana onde eu mesmo no sei como tenho vivido! E que ser de mim e que ser da mana, diga-me, Ruy, tambem o que ser de ns, dois velhos, nesta casa, enfermos e to ss?... vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos da saudade e da dr, sem ter no dia extremo aquella mo leal que feche os nossos olhos?!... Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo... Ruy Sim, mas no tem razo, pensemos na ventura, nessa immensa ventura... Joaquina, _interrompendo_ mesmo assim que eu penso... Ruy Que vae sentir Talitha ao vr a luz do sol, tantos annos depois de longa noite escura, envolto o dce olhar num vo pesado o denso! Vamos fallar de ns, deste novo arrebol que nos ha de banhar o corao e a alma, como um luar de outomno, uma alvorada calma, quando ella abrir luz a languida pupilla dos olhos ideaes, to doces e to flavos, que so como um casal de abelhas que assimilla, nas flres dos jardins, o loiro mel dos favos. Pensemos na expresso que o seu olhar vae ter quando ella vir ao sol to brancos os cabellos do Senhor Cura... Padre Assim como a neve a descer sobre a minha cabea, em flcos e novellos... Joaquina, _saudosa_ E ns dois a curvar ao peso da nevada, o corpo j pendido, a procurar a estrada que ve eternidade... Ruy, _interrompendo alegremente_ E j pensou, Joaquina, no famoso jantar? Joaquina No, depois se combina. Como faltam ainda uns dias ao Natal vamos tratar primeiro... Padre, _atalhando_ Isso! do nosso almoo, porque eu j estou sentindo um enorme alvoroo c por dentro. _A Ruy_ Que diz? Ruy Tudo quanto fizer a me Joaquina, est bem feito. Joaquina, _ironica_ Agradecida! Eu j volto. _Sae_ SCENA III Padre e Ruy Padre Ento, Ruy, pensou no resultado que vae ter para ns a sua operao? Ruy Tenho pensado muito e s me felicito: parece que se abriu um vasto rosicler, enchendo de perfume o lar da minha vida; descanta-me no peito o corao alado to viva, to alegre e limpida cano, que me parece ouvir palpitar o infinito e a dce voz de Deus abenoar-me o nome... Padre Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome os meus dias; medito e tenho muito medo de uma lucta que vae ser travada, em segredo, no seio de Talitha... Ruy E ento que lucta essa? Padre O encontro, luz do Sol, do amor e da promessa. Conheo-a muito bem. Alma branca de prola, possue alguma coisa assim divina e crula. Foi creada por mim, na dce regio em que repoisa a crena sombra da orao... e sei que a pobresinha, um dia, prometteu professar e vestir o burel carmelita, se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar. A Me de Deus ouviu a prece, mas agora que um novo dia aponta a curva azul do co, mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora de amor e de ventura, a angelica Talitha ver, na sua frente, erguer-se e fluctuar, constante, pertinaz, energica e severa, a promessa que fez, a consciencia austera a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor a sorrir e a tental-a... Ruy Esse mesmo receio tambem me preoccupa. Eu j presinto a dr que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio. Assim a Providencia s vezes desconhece o proprio mal que faz e como que se esquece da victima innocente e nessa lucta enorme a desgraa feroz que no cana, nem dorme, de certo vencer, se ns que a divisamos ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer to alto, que domine aquelle pobre ser. E preciso pensar e vr bem se afastamos da sua intelligencia a ideia do convento, como se afasta a flr dos impetos do vento. Padre E quem ter prestigio e fora de arrancar quella consciencia, a dce, a delicada, a candida expresso da promessa sagrada que ella espontaneamente ergueu junto ao altar? Ruy Nao desejo arrancar essa illuso formosa crena da sua alma... A raiz dessa rosa no muito profunda, apenas esbraceja flr do corao, por isso no viceja ainda como o seio altivo e perfumado de uma corola aberta!... Um boto delicado agora principia a despertar luz... Dessa casta misso, que mover Jesus, smente, Senhor Cura, a sua phrase austera se pde encarregar; o prestigio da idade, a alvura de luar das cans alabastrinas, a palavra de amor, piedosa e severa, do seu conselho bom, to cheio de amizade, a sua consciencia e as affeies divinas que avizinham do co o seu viver de santo, a f que o seu olhar inspira a quem o fita, ho de estancar, por certo, a dr, fonte do pranto, nos olhos virginaes da mimosa Talitha. Padre Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos, nas duras provaes, na dr, nos desenganos, sem nunca haver mentido uma s vez na vida, tenho medo que a voz de commoo me trema, que me fuja o valor hora assim blasphema de entregar mentira esta fiel guarida... Ruy Caridosa mentira, culpa dce e casta que salva uma esperana e mais um anjo afasta amargura cruel de um grande sacrificio! Responda, Senhor Cura, em sua consciencia, acredita que Deus condemne uma existencia purissima de flr, a tamanho supplicio? Que peccados ter Talitha a redimir que precise descer em vida sepultura, agora que brilhou a estrella do porvir aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura? No mente, Senhor Cura, o labio quando salva: aspera a mentira e tem a cr terrena, ao passo que a sua alma branca, de aucena, e a sua phrase s, redemptora, alva! Em vez de sacerdote, a confessar a freira, seja Pae que dirige o corao da filha! Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira, desviou-lhe a razo para diversa trilha. Estenda-lhe o seu brao, ampare-a no caminho, traga de novo a rola ao palpitar do ninho! Padre E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia, deva pedir que a filha afaste da lembrana a promessa que fez, com tanta segurana, quando implorava a Deus piedade e clemencia?... Ruy Meu amigo, nao v que esse immenso fervor nascia do tropel da magua e do pavor? Que, assim feita, a promessa, alm de no ser santa, as almas enlanguece e os coraes quebranta? No v que faltou luz quella intelligencia? Que aquella alma vergou estolida exigencia do desespero intenso e brbaro, que a ancia de revr inda o sol da sua alegre infancia envolver-lhe a cabea em nimbos de ventura a levaram, talvez, nessa hora de tortura, extrema tentao de dar a mocidade por um dia feliz de viva claridade? Levita, cuja mo diariamente eleva ao throno do Senhor a hostia consagrada, levanta esse sacrario curva constellada, a flr que pede sol no viver na treva!... Padre, _depois de uma pausa_ Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vs perda, porque ha no meu peccado uma inteno to boa, to pura e to leal, que eu sinto adormecido o velho corao por nunca haver mentido... SCENA IV Os mesmos e Joaquina Joaquina, _entrando_ Que grandes trapalhes, aqui a badalar numa palrice enorme e toda a gente espera que o doutor mais o cura acabem de fallar... Ruy Por que ha de ser assim to m e to severa? Padre Rabugice de velha!... Joaquina s meu o proveito... Ruy, _abraando-a_ Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo tudo inveja... da sua mocidade!... _Riem ambos_ Joaquina, _entre risonha e severa_ Ai, ai! o malcreado! Esquece a obrigao e falta-me ao respeito! E a culpada sou eu! Ora no ha! Pois veja que emquanto est gastando o seu palavreado, seria bem melhor que cuidasse da enferma, que vive ali no escuro abandonada e erma. Padre E voc que fazia? Joaquina Eu fui tratar do almoo; no andei de conversa espera que o man nos cahisse do co. Ruy Por isso falla grosso! Joaquina No da sua conta, ouviu? Ruy, _com a maior gravidade_ Ouvi... Joaquina Pois v tratar do seu dever porque no faz favor... Padre Ento que succedeu? Joaquina, _amenisando a voz_ que a pobre pequena j canou de esperar e quer vr se o doutor lhe permitte que venha at aqui sala. Padre Que diz, Senhor Doutor? Ruy Que se Talitha ordena... Padre Pois faa-se a vontade... Joaquina Ento, eu vou buscal-a... _Joaquina sae.--O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy, encostado meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.--Pausa cheia de anciedade._ SCENA V O mesmos, Joaquina e Talitha _Talitha entra de olhos vendados, pelo brao de Joaquina. Ruy e Padre vo ao seu encontro e tomam-lhe as mos para conduzil-a a uma cadeira. Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha e conversam um pouco._ Padre Como te sentes, filha? Talitha Afflicta, muito afflicta por ver a luz do dia... Ruy, _tomando-lhe a mo_ A mesma curiosa de sempre!... Talitha Se parece sua intelligencia que no tenho razo!... Ha tantos annos cga!... Joaquina Deixa-o fallar, Talitha, isto mais tagarella do que as creanas, vs? Ruy Pois no creia, Talitha!... Padre, _tomando Ruy parte_ Prepare o corao e veja que anciosa aquella vida est... tenha a maior prudencia! Ruy muito natural; s emquanto no chega o instante de tirar a venda que lhe vela o dulcissimo olhar... _A Talitha_ Diga, Talitha, ainda sente alguma dr? Talitha No! apenas a impresso do leno que me causa a maior afflico, a vontade feliz, viva, crescente, infinda de vr de novo a luz... Ruy E no ha quinze dias que lhe descubro a vista? Talitha Ha, sim, mas l no escuro, onde eu no vejo nada... Padre Assim que convem... Depois de tanto tempo, ento, j pretendias vr livremente o sol? Seria prematuro... Joaquina muito perigoso!... Ruy E sentia-se bem? Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto ou a forma geral de qualquer um objecto? Talitha Muitas vezes, pois no; primeiro vagamente, depois com nitidez. Padre, _alegre_ Mas ento a doente Recuperou a vista!? Joaquina Abenoada a hora em que o menino entrou nesta pobre choupana!... Ruy Agradeam a Deus! Talitha Doutor, porque demora esta venda cruel que o meu olhar empana? Ruy Pois diga-me primeiro o que pensa de mim. Talitha Que muito feio e mo... Joaquina Bem feito! Ruy E da Joaquina?... Talitha Penso della que santa e que tem de setim cr da neve o cabello, a pelle muito fina, como eu creio que so as santas da capella. Ruy E o nosso Padre-cura? Talitha Um velhinho bondoso, que vive para o bem e sobre os pobres vela! Supponho que elle tenha a cabea bem branca, o olhar muito suave e d'expresso to franca, que apparea na face enrugada e senil a dce candidez da sua alma infantil... E, cogitando assim, parece-me que vejo, dos altos de uma torre, a uma enorme distancia, como um jardim florido, a minha dce infancia vicejando a sorrir, a sombra do seu brao, e o seu olhar de Pae enchendo todo o espao de luz, de muita luz, to dce e to leal, como o luar banhando as ondas de um trigal numa noite estreitada, e o sangue me palpita no seio, e o corao ardentemente agita na immensa anciedade afflicta e pressurosa de poder innundar a sua mo rugosa de lagrimas febris e de beijos sem fim. Ruy Tantas coisas ao Cura e nada para mim!... Talitha Exactamente, Ruy; a saudade de vl-o augmenta a cada instante o meu triste flagello, porque nos braos delle um dia adormeci e no despertei mais... e ao Ruy... _baixando a voz_ eu nunca vi... Ruy, _com caricia_ Pois vae tornar a vr a boa da Joaquina que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina. _Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda_ Vae vr o Padre-cura e matar os desejos de lhe cobrir a face e as mos de muitos beijos... E vae me conhecer... _Tira-lhe a venda_ _Silencio. Commoo geral. Talitha, acostumada treva, no supporta a luz; tapa os olhos com as mos; depois habitua a vista, levanta-se, olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos._ Talitha, _ luz, correndo janella_ Cos! Vejo novamente a luz que me faltou durante a meninice! Sol da minha infancia, a sorrir de contente torno a vr-te de novo. Azul do co, meiguice que ha muito no beijava o meu perdido olhar, como deves ser lindo ao dce despontar da madrugada clara! _Ao oratorio_ Oratorio velhinho, junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei, como sinto vontade, agora que revejo o teu branco Jesus, do amor e do carinho com que pela manh e noite eu te beijei, e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo! _Passa as mos nos olhos, como para certificar-se que v bem_ Mas parece-me um sonho! _Pausa. De novo esfrega os olhos_ Eu j no sou a cga... _Pausa_ Eu vejo tudo... _Estaca; olha as paredes_ Sim, sim tudo... _Olha para o tecto, baixa os olhos ao cho, volta-se para os lados, palpa as cadeiras, palpa a meza, corre commoda_ Eu no me engano. Eu vejo a minha mo! _Olha para as mos_ Mais branca do que o panno _pega o avental e examina_ do meu lindo avental! _Pe a mo sobre o peito, como que desmaiada_ Ah! corao, socega... _Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para amparal-a, dizendo_ Joaquina Credo! Jesus, Senhor! Talitha, _como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vl-a tem uma commoo e exclama_ Joaquina! boa e santa velhinha, dce me que tanta dr e tanta lagrima derramaste, aos ps do meu bercinho!... _Vendo o Cura, lana-se a elle, soluando; abraa-o, beija-o, v-o, chora, ri, torna a abraal-o, doida de alegria_ Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avsinho! _Deixa afinal o Cura e corre para Ruy_ E Ruy que me salvou... _Vae para abraal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio_ Ah!... Ruy... eu nunca o vi!... Padre, _soluando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a mo e leva-a junto de Ruy_ Beija-o, Talitha; beija, elle digno de ti, emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha, graas por essa luz que nos teus olhos brilha. _Sae, enxugando os olhos_ Joaquina, _a Ruy_ Virgem prometti uma lampada accsa durante uma semana, e por sua inteno, se Ella daqui levasse as dres e a tristeza, fazendo este milagre. Hei de accender o azeite e rezar a seus ps, com toda a devoo, pedindo Virgem Me que este meu voto acceite. Louvado seja Deus! O Co vos abene! _Sae_ SCENA VI Talitha e Ruy _Depois de uma pausa prolongada_ Talitha, _sempre pudica_ Porque me encara assim? Offendi-o? Perde. Ruy, _caminhando para ella_ Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar, como um rio de luz suavissima, innundar a minha mocidade inhospita e sombria, num banho redemptor de dce calmaria. E parece-me vr a sombra avelludada da sua fronte branca, e pura, e macerada, fugir espavorida luz desse claro... Talitha Que eu devo to smente sua compaixo... Ruy Esquea que fui eu... Talitha, _interrompendo_ No sei como se esquece... Ruy Ento recordar, por toda a sua vida, o nosso amor feliz? Talitha A sua alma duvida? Ruy Eu no duvido, eu peo, e vae na minha prece quanto minh'alma tem de puro sentimento... Talitha, _curiosa_ Na sua prece? Ruy Sim, to cheia de fervor como a casta orao que a sua crena augusta solua de manh, mais triste que um lamento, que vae, azul em fra, ao throno do Senhor, no murmurio subtil dessa bocca venusta. Talitha Eu nunca olvidarei a dulcida ventura daquella noite densa, atormentada, escura, em cujo manto negro a sua mo bondosa rasgou a dce aurora alegre e luminosa... O caridoso amor, que os seus labios deixaram gravado nesta mo que tanta vez beijaram, foi um sonho feliz numa noite polar, sonho de primavera em noite sem luar: nunca mais sahir d'entre as minhas lembranas. Como um beijo de me na face das creanas, a primeira affeio nunca se desvanece, como a flr da lenda: a todo o instante cresce! Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata! Ruy Talitha, minha vida, a densa cataracta no poude escurecer a lucidez suprema da sua alma christ, que vale um diadema de rainha e de santa, a cujos ps se inclina a minha alma que vae sobre a esteira argentina que o seu vestido traa ao longo da jornada, como no azul do mar as velas da jangada... Talitha E se a vela, batida ao vento da desdita, levar sombra eterna essa infeliz Talitha que a sua mo salvou da mesma sombra eterna? Ruy Irei onde ella v. Se a aragem fr galerna e o nosso amor levar a gondola encantada, sobre o dorso da vaga em branca espumarada, eu seguirei, sonhando, pra, na epopa que o seu divino olhar de candida sereia ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou. Se o vento arremessar a vela que enfunou rude penedia e sossobrar a barca, hei de salvar, ento, a pequenina arca, onde vive encerrada a pomba da alliana, que faz do nosso amor uma alegre esperana! Talitha Apenas esperana, e nada mais! A vida um sonho que passa e foge; perseguida, occulta-se a esperana sombra de um asylo, to occulto tambem que, para descobril-o, desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaos a nossa f mais pura e a crena, em estilhaos, desapparece e vae, por esse mundo fra, como nuvens no co ao despontar da aurora... Ruy Porque razo, Talitha, os nossos pobres sonhos no podero florir, alegres e risonhos, plena luz do Sol? Talitha Sonhos so illuses que a madrugada esbate em limpidos clares, e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas iro fazer o ninho sombra... As andorinhas tem que mudar de clima ao comear o inverno, levando para longe o seu amor materno... A minha acostumou-se sombra da cegueira: se na sombra passou quasi uma vida inteira! Na sombra adormeceu, na sombra soluou e na sombra sorriu... A sua mo rasgou este sulco de luz no meu perdido olhar, e a triste, acostumada sombra tumular, fugiu espavorida ao lucido lampejo e to distante foi, que nem sequer a vejo... Ruy o receio infantil que vem da escurido! A esperana, Talitha, ainda um s instante no sahiu do calor que faz do corao o ninho aconchegado, o bero palpitante e o sacrario fiel do nosso casto amor! Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flr sem perder o perfume!... E a esperana, Talitha, o perfume do amor, a essencia que dormita serena e s desperta ao carinhoso afago dum beijo a murmurar em sonho dce e vago... Talitha Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus e aos ps de sua Me ella havia ajoelhado no fervor da orao, em dia torturado, prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar. Entre ns dois agora eleva-se um altar, e eu vejo-me prostrada e envolta no burel, sorrindo para o co, por ter sido fiel promessa que fiz... Ruy E o nosso amor, Talitha, no foi uma promessa? Talitha Ah! foi, mas a desdita lanou-lhe a maldio no dia em que nasceu e o nosso puro amor agora feneceu. Ruy E a tua mo divina, angelico floro de algum ciborio astral, a tua mo de rosa e jaspe que me vem ferir esta affeio que banhava em frescor a vida bonanosa deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia, sombra do mosteiro, a tua phantasia volver para o passado esse formoso olhar to cheio de candura e te fizer sonhar; quando a espiral do incenso curva do docel subir da tua mo occulta no burel, como a dce expresso duma saudade immensa; quando noite o luar, vencendo a treva densa, entrar na tua cella e fr beijar-te a face, como se por ventura envolta nelle entrasse a minh'alma saudosa a visitar a tua: quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua a pureza vestal da tua castidade, sorrindo, remontar dce claridade das estrellas no co, minha gentil Talitha, recorda o nosso amor, formosa cenobita, e pensa na tortura intermina e profunda desta vaga de fel que a minha vida innunda, medita nesta noite atroz, que me apavora, e tu me ds em paga a fulgurante aurora que o meu amor te deu, sorrindo de ventura... Bemdita seja a treva, a noite de amargura, bemdita seja a dr, para sempre bemdita, que vem da tua mo, angelica Talitha! _Talitha, em lagrimas, solua. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy._ SCENA VII Os mesmos e Padre Padre, _junto de Talitha_ Porque choras, creana? _Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluar de Talitha._ O teu silencio abala toda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla... _Silencio. A Ruy_ A sua commoo... Ruy! Mas que succedeu? Ruy Foi mais uma illuso que se desfez... morreu! _Sae_ SCENA VIII Padre e Talitha Padre, _abraando Talitha_ No te apoquentes, filha! A dr que te devora eu j previra ha muito. A noite tambem chora no calice da flr, e o co que tem a luz das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus abriu por sobre a terra a sombra dos seus braos, abenoando a dr que vaga nos espaos... Mas os teus olhos, ha pouco illuminados, no devem, por emquanto, andar annuviados que se pdem cegar de novo, sem remedio... Talitha, _rapidamente, entre alegre e chorosa_ Ento se eu lhe pedisse... Padre O quer que seja, pede-o... Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar... Talitha, _lacrimosa_ Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar! Padre No te apavora a noite immensa e tenebrosa?! Talitha No me amedronta mais! A lua carinhosa vive na escurido. Fui to feliz na treva que chego a ter saudade e o corao me leva a pedir que me deixe ind'outra vez banhar na sombra eterna e msta a luz do meu olhar... Padre Que blasphemia, Talitha! Talitha O meu labio no erra, e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra. Padre Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor envolva a tua crena em seu divino amor! Talitha Pois oua-me um instante a confisso singela da incomparavel dr que a minha vida gela: _Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado_ Tinha soffrido muito; o immenso desespero de um dia de tortura, afflictivo e severo, me fez allucinar e, erguendo para os cos as mos de quem supplica, eu implorei a Deus clemencia a tanta dr. A noite de flagicio, que dava minha vida o aspecto de um supplicio, parecia sem fim, sem luz e sem aurora. E, como a flr que noite exhala, espao a fra, o aroma delicado e puro do seu seio, vencendo o meu temor e o natural anceio, eu dei, como penhor da luz que supplicava, a minha mocidade e o porvir que eu sonhava; e prometti santa e casta Samarita votar-me para sempre ao burel carmelita... Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma despontava, sorrindo, uma esperana calma que innundava de luz o corao da cga, e commigo pensei:--Deus, de certo, no nega que veja agora a luz quem sempre foi escrava: e nesse pensamento a vida concentrava. Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa de uma dce affeio que tem a cr da rosa; e, sem pensar, jmais, em vr de novo o mundo, o meu amor cresceu e fez-se to profundo que para desprender-lhe as tumidas raizes eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes... Depois a mo de Ruy abriu para os meus olhos o vo da madrugada e eu vi sobre os escolhos, toda em pedaos feita, a minha pobre herana, perdida para sempre a querida esperana que eu havia sonhado em dias de cegueira... Se sacrifico o amor pelo burel de freira eu deso sepultura em plena mocidade; se no cumpro a promessa e minto santidade do voto que levei pedra de um altar, no devo conservar a luz do meu olhar e rogo novamente a Deus que m'a desfaa e Virgem que conceda a pequenina graa de receber de novo esse penhor to puro, deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro! Padre Escuta, minha filha.--A Providencia, s vezes, se manda aos coraes as dres e os revezes no que se compraza em opprimir as almas para lhes dar mais tarde as viridentes palmas do martyrio, no! No, minha ingenua Talitha. Eras ainda tu mimosa e pequenita quando ficaste cga. Abrira para o mundo, apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo sorria para a luz. Assim, innocentinha, tu ias de manh commigo capellinha e, emquanto eu murmurava as oraes da missa, tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa, Virgem que te ouvia, a Salv Magestosa, bem como se a rezara o labio de uma rosa... Desse labio subia um fervor to intenso como a espiral azul e timida do incenso... Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste mesma hora de sempre, missa. E que contraste; tu, pequenita e cga e o Sol com tanta luz! Muitos annos pediste Madre de Jesus que te restituisse um dia o teu olhar, como se a Virgem fsse autora da desdita que te ferira assim, minha meiga Talitha... Pois creana, tu crs que a Me que soffreu tanto no dia em que perdeu o filho casto e santo te pudesse roubar dos olhos transparentes a luz que illuminava as pupillas ardentes? Pois ella que te viu de rastros, a rezar, em todas as manhs, aos ps do seu altar, levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flres, podia assim voltar a crueldade e as dres sobre a tua cabea ingenua e piedosa, Ella que foi a Me mais dce e generosa!? Escuta, minha filha:--o livro do Senhor descreve que, uma feita, andava na Juda o divino Jesus prgando a sua ida... Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta a quem a dr matara a filha pequenita, e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse vida o cadaver da filha extremosa e querida. Abenoando a me que aquella dr humilha disse Jesus ento: a tua pobre filha estava adormecida e agora est acordada; volta que a encontrars a rir, j levantada. E a pobre me, que vira a pequenina morta, depois, ao regressar, foi encontral-a porta, sorrindo alegremente, entre as demais creanas, como um bando gazil de cordeirinhas mansas! Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu smente, no morreu. Quando a cga pediu, Virgem Me de Deus, que um dia t'o salvasse, o seu divino olhar fitava a tua face e despertou do somno o teu formoso olhar que nunca fra cgo e, apenas a sonhar, adormecera. E agora, agora que acordou pde fitar a mo de quem lhe descerrou, em nome de Jesus, a noite que o toldava, que te fazia triste e lacrimosa, escrava... Talitha E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti votar-me ao seu burel, por tanto que soffri, querer perdoar a minha negra falta? Padre Escuta-me, Talitha: _Ruy surge ao fundo e escuta_ O corao exalta, pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa muito, muito, em silencio, indaga a tua crena e faze o que disser a tua consciencia, mas no esqueas, filha, a dce confidencia de Ruy que illuminou o teu escuro olhar, e lembra-te, depois, que, s por muito amar, o Christo perdoou pobre Magdalena. E agora, que a tua alma est bem mais serena, attende-me!--Rezando adormeci. A aurora despertou-me, sorrindo, e entrevi, quella hora, um sonho que fugia, em busca de outros lares! Subia docemente, ao claro azul dos ares, o vulto da Senhora, abrindo pelo Co o palio virginal do seu materno vo, desnastrado o cabello, um manto de rainha recamado de ses; a nuvem que a sustinha, toda cheia de luz, deixava atraz de si um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti... Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas, ao peso esmagador das longas invernadas; e assim, postas as mos, olhando para o vulto da Virgem que eu adoro em fervoroso culto, pedi-lhe que mandasse um raio de luar s lagrimas de fel da tua dr sem par... _Talitha comea a sorrir_ E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito, baixou por sobre o meu um dce olhar bemdito e eu vi rolar no azul da immensa vastido, no fulgor de uma estrella, o beijo do perdo... Talitha, _correndo para a porta_ Ruy! _Encontra-se com Ruy e pra, pudibunda, de olhar no cho_ Padre, _s, frente da scena, mos postas, a olhar para o co_ Perda, Senhor, se lhe menti, perda; o meu labio peccou, mas a inteno foi boa! CAE O PANNO TERCEIRO ACTO Modesta sala de jantar em casa do Cura. direita, um oratorio sobre uma commoda antiga; esquerda, entre portas, um orgam. SCENA I Joaquina, s _Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do oratorio, accende-lhe as velas, comea a pr a meza para a ceia; tudo em silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy._ SCENA II Joaquina e Ruy Ruy, _entrando_ Boas noites, Joaquina! Joaquina As mesmas Deus lhe d! Inda bem que chegou; pensei que no voltasse aqui nossa casa! Ruy Essa agora... e porque? Joaquina boa! Inda pergunta? Esteve l por fra durante todo o dia e sem que se lembrasse que neste pobre asylo ainda vive e mora gente boa e christ... Ruy, _interrompendo_ E quem lhe disse tanto? Vo vr que foi intriga ou treta de algum santo!... Joaquina Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo e ha de vr se feliz! No sabe que o Natal a noite sagrada? Ruy , sei! No foi por mal que faltei. Pela vez primeira no assisto missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos que falleceu meu Pae: rompia a madrugada. Comearam-me assim os tristes desenganos e a lucta da existencia abriu-se amargurada. Desde ento, minha Me, boa e santa velhinha, recorda tristemente, apenas se avizinha a noite do Natal, a dr daquella aurora, e emquanto tudo ri, ella solua e chora... Joaquina Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della. Ruy E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela. Creio que neste instante os seus labios de crente envolvem numa prece encantadora e mesta, num templo illuminado, ao celebrar da festa, o esposo que morreu e o proprio filho ausente. Joaquina Devera ser ento mais um grande motivo de no faltar missa. Ruy E creia que bem vivo o meu pezar. Entanto a razo dessa falta foi sagrada e vae vr como ella tanto exalta a minha consciencia. Joaquina, _ironica_ Eu imagino bem! Ruy No posso vr soffrer o corao de alguem... Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia negar-me, sem peccar, ao dever que exigia de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termo duma longa existencia asperrima e deserta, onde apenas a dr tinha uma entrada aberta. Conhece aquelle atalho escuro e retirado que vae dar capella? Joaquina, _benzendo-se_ Onde foi enforcado O marido da Emilia? Ruy Exactamente, ahi. Mesmo nesse logar em que ficou a cruz existe uma choupana qual me recolhi para fugir chuva. O caminho conduz, pela esquerda, Capella; a direita, ao moinho do velho reformado! Entrou-me na choupana a neta do sargento a dizer que o avosinho quasi estava a expirar. Fra maldade insana deixar morrer o velho mingoa de cuidados. Fui. Mas antes no fsse. Em nada lhe valeu a visita que fiz, o velho falleceu... Como devem morrer os bravos e os soldados assim elle expirou, fitando bem a morte, firme como um leo e simples como um forte. Uma miseria extrema; os netos quasi ns, com fome e sem comida ha dois dias! Joaquina, _benzendo-se_ Jesus! E aqui tanta fartura! Ruy A Patria bem madrasta! Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta, tem no peito e na face algumas cicatrizes das lanas do inimigo. Joaquina Ah! so bem mais felizes os soldados que vo guerra e que l morrem no campo da batalha. Ruy Exacto. Os outros correm o perigo maior de morrer desprezados, como esse pobre velho. Joaquina E esto abandonados os netos, Sr. Ruy? Ruy No esto; felizmente fallei ao regedor e tudo se arranjou; demais a mais tambem, segundo me informou, tm direito penso que o velho Av doente no poude receber. Joaquina E quem receber essa triste penso, se o velho que serviu no poude recebel-a e nem sequer a viu? Ruy Tambem j pensei nisso e tudo se far, minha boa Joaquina. Assim, o moribundo me obrigou a faltar missa do Natal. Se um pobre que estivesse a deixar este mundo lhe pedisse um amparo, a sua alma leal negaria essa esmola? Joaquina Ainda m'o pergunta? Ruy sombra desse olhar tudo se abriga e junta e eu leio na pupilla esmaecida e pura, num misto de mudez, de pranto e de ternura, que o seu bom corao tambem acudiria. E por isso faltei; tenho, porm, certeza que Talitha por mim, ao menos, rezaria. E quando assim se tem to lucida pureza a interceder por ns aos ps da Divindade, parece que a nossa alma, em dce alacridade, mergulha no baptismo, em aguas de um Jordo todo feito de amor, de beijos e perdo! Joaquina Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado depois que aqui chegou!... Como isto est mudado! Ruy Tudo to natural que no nos vale a pena gastar tempo a pensar em cousa to pequena. Joaquina Ento cousa pouca uma pobre engeitada, ha tanto tempo cga, e sem me, desprezada, encontrar quem lhe d de novo o seu olhar, e quem lhe tenha amor e a queira desposar!? Ruy Engeitada, que importa? O corao no pensa, ama smente e assim no indaga a nascena da mulher que o inspirou. Mas no desprezada a formosa Talitha; esta manso amada serviu de lar paterno sua dce infancia e, se aqui respirou a magica fragrancia de uma alma aberta, em flr, se a sua mo, Joaquina, materna, a acompanhou desde assim pequenina, pouco importa que a me a tivesse engeitado; amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado o sonho do porvir... Joaquina Diga, e quando casar vae leval-a d'aqui? Ruy Seria derrancar o santo corao do velho Padre-Cura; nem tanto necessita a completa ventura das minhas illuses, nem teria coragem para tamanho mal; seria mais selvagem que a propria malvadez _abraando-a_ tirar ao seu amor o prazer de aspirar o aroma dessa flr, que ao seu lado cresceu, to branca e to fagueira, como um lyrio do valle ao p de uma roseira! Joaquina Sim; isso diz agora e depois de casado ha de pensar, de certo, em sua me saudosa, e para que ella veja, alegre e carinhosa, o filho salvo e bom, to robusto e crado, o Ruy tem de levar comsigo a pequenita que nos serve de filha e que nos faz felizes!... Ruy Descance, boa amiga; este amor tem raizes que eu nunca poderei arrancar de Talitha, nem penso em perturbar a paz do vosso azylo que a propria mo de Deus formou assim tranquillo. Joaquina Se Deus que nos dou a innocentinha, agora mandasse a Me aqui para leval-a embora, onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem, porque a trouxe no collo e quero tanto bem que passo a minha vida olhando o azul dos cos, para vr se descubro a Santa Me de Deus e pedir-lhe que deixe tremula velhice dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice, daquelle corao que eu vi desabrochar... Ruy E o co que lhe responde? Joaquina O co?... Nada! A rezar tenho passado a vida e, nesta idade, a gente j no pde chorar, as lagrimas seccaram e por isto se soffre, a dr mais pungente quando se quer chorar e os olhos j canaram. _Ouve-se a voz de Talitha, fra_ Taitha Joaquina! Ruy, Ruy... Joaquina Ahi vem a traquina; E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina... Ruy, _corre porta_ Mas como vem alegre... _Entra Talitha_ SCENA III Os mesmos e Talitha Talitha, _ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:_ Eu bem disse ao padrinho... Ruy, _tomando-lhe a mo_ Que foi que tu disseste, alma da cr do linho? Talitha Que ninguem pde crr na jura... Ruy, _interrompendo com meiguice_ Das mulheres?... Talitha, _ralhando com carinho e retirando a mo_ Dos homens... atrevido, ainda tens coragem de rir?... Ruy, _alegremente_ Ou de chorar, se tu assim preferes... Talitha Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem da noite de Natal? Ruy Pois pergunta Joaquina... Joaquina, _intervindo_ A mim? no sei de nada... Ruy, _a Talitha_ Ella est gracejando; sabe tudo to bem como eu, mas imagina que tu s ciumenta e ento, de vez em quando, a recordar o tempo em que era rapariga, faz pirraas gente, armando alguma intriga... Talitha A verdade, porm, que faltaste e eu no. Ruy Pois bem, faltei; mas tive uma forte razo: o velho reformado estava agonisante e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante assistir-lhe agonia. Expirou-me nos braos: ia o sol a fugir na curva dos espaos, hora em que solua o sino das trindades o Angelus sagrado envolto nas saudades que a terra balbucia, agradecendo ao co a luz que lhe mandou na flacidez do vo crepuscular e dce, oiro tecido em gaze, sem brilho de offuscar e sem calor que abraze. Talitha E nunca mais o vi, nem o verei jamais!... Foi cgo como eu fui. Nas manhs estivaes muita vez o encontrei, canado dos trabalhos, pedindo esmola ahi por todos os atalhos. Elle ia pela mo da neta, uma creana! Era um velho senil sombra da esperana! Eu a recostada ao brao do padrinho e, ao sentir-me, dizia: ampare-me esse anginho --amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja --como um velho soldado, a mendigar, rasteja --neste mundo de Christo--. E ficava a pensar naquelle desgraado. O meu perdido olhar novamente voltou, quando o delle se apaga na escurido mortal que tudo cobre e alaga... Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas! Ruy No faltar calor s meigas andorinhas. Joaquina E quem lhes ha de dar? Ruy Quem? Talitha Deus, Jesus e ns! Ruy, _com ingenuidade_ Ns seremos os paes: _a Joaquina_ tu e o Cura, os avs... Joaquina Valha-te Deus, tontinha! Ruy, _a Talitha_ Encantadora e casta; Virgem Conceio, flr, ingenua madrasta, bemdito seja o dia em que te amei, formosa, sonho feito mulher, sorriso feito em rosa... Talitha, _admirada_ Que tem isso de mal? Tambem elle era cgo, no podia cuidar da neta que o guiava e agora, felizmente, eu tenho no aconchego da minha mocidade a luz que me faltava e posso olhar por ella. A minha desventura no teve neste asylo o amor do Padre-Cura? Depois no tive ainda?!... _Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se_ Joaquina, _beijando-a_ Ah! minha tagarella!... Ruy Depois tiveste ainda o teu formoso olhar que andava l no co illuminando a estrella d'alva. E agora tambem tens muito que narrar do que viste na igreja... Talitha Ah! na missa do gallo? Eu vinha exactamente aqui para contal-o... O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura dizia aquella missa!... Inda agora fulgura, sobre a minha retina, a vivida impresso do seu olhar to dce e manso, de perdo... Inda agora o sorriso, angelico e furtivo, do seu labio de rosa, orvalhado e festivo, innunda de frescor a minha vida inteira, como o rcio da noite flr da amendoeira. Ruy Quem foi que te sorriu com tamanha affeio, que fez vibrar tu'alma em tanta commoo? Talitha Um milagre de Deus! Se tens f, acredita no que te vou dizer. Ruy Dize, minha Talitha! Joaquina, _approximando-se_ Conta, conta o que foi. Talitha Pois nesse caso, ouvi: Quando eu entrei no templo um borborinho enorme encheu toda a capella; ento foi que eu senti como triste ser cgo e ter olhar que dorme tantos annos de vida, em funda lethargia, sem a beno gentil de vr a luz do dia! Toda a gente fallava, olhando para mim, e eu muito satisfeita a caminhar assim... _Imita o andar magestoso_ Ruy Como tu s vaidosa! Joaquina, _sorrindo e pondo as mos_ E como ella catita... Talitha, _a Ruy, ingenua_ Mas se eu fsse a teu lado, inda era mais bonita!... Deram-me tanto abrao e beijaram-me tanto! A capellinha estava alegre, era um encanto. entrada muita flr, o altar com muita luz, e num bercinho branco o menino Jesus, to lindo, to mimoso e to engraadinho, que parecia mesmo um rouxinol no ninho. Uma velha fitou-me e disse: que princeza! Um velho lavrador olhou-me com surpreza e bem alto fallou: Que Deus Nosso Senhor te d um bom marido... Ruy E que disseste, amor? Talitha Nem uma palavrinha! Eu a bem calada, entre muito contente e muito envergonhada. Joaquina E depois? Talitha E depois... fui ento ajoelhar, ssinha, nos degros que sbem ao altar, espera que viesse, a meia noite, a missa. Rezando ali, a ss, com fervor de novia, lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram, subindo-me do seio aos olhos que as choraram. Eu sentia uma dr immensa, por fugir ao voto que fizera e, em vo, quiz resistir, minh'alma affluia um extranho remorso e embora eu despendesse o mais sincero esforo, para conter o pranto, o corao vergava e, numa agitao convulsa, palpitava acabrunhado e triste... _Ouve-se o repicar dos sinos_ Joaquina, _interrompendo_ Ai! que acabou a festa e a ceia por fazer, mas que cabea esta!... _Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa_ Ruy Mas no te lembras j que, em nome do Senhor, o Cura abenou o nosso casto amor? No te lembras tambem da lucida viso que te trouxe do co a estrella do perdo? Talitha De tudo me lembrei; no sei que fora extranha pesava sobre mim, como immensa montanha, e no deixava erguer o meu olhar medroso para encarar de frente o vulto magestoso da Virgem Me de Deus! Mas quando o Cura entrou parece que a minha alma _torna o sino a repicar_ alegre despertou... Senti uma esperana illuminar-me o seio e dissipar-se ento esse cruel receio! Rezei muito, rezei com tanta commoo, pedi com tanto ardor, com tanta devoo, que a minh'alma subiu, to leve e to submissa, aos ps da Me de Deus, durante aquella missa, como se fsse presa a hostia consagrada que o Cura levantava cruz abenoada... Com ella o meu olhar de supplica subiu. E fitando, sem medo, a face alabastrina da candida judia, eu vi que Ella sorriu com to dce expresso de placidez divina que me banhou de luz amortecida e calma a minha santa crena e fez vibrar minh'alma! Senti que era o perdo que vinha, n'um sorriso, abrir minha vida um novo paraiso... Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella e, beijando-lhe a mo que sobre o mundo vela, ouvi, como um soluo, a sua voz to pura, dizendo-me em segredo, em intima ternura: Que lindos olhos, Talitha, os olhos que o Ruy te deu: tem uma luz infinita, parecem feitos no co... _Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narraro de Talitha, enlevada, abraa-a, lacrimosa, beija-a..._ Ruy, _emquanto Joaquina abraa Talitha_ Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena? Talitha, _desprendendo-se de Joaquina_ Ouvi perfeitamente; a voz era serena, to serena e subtil que a mim se affigurava ser o proprio silencio assim que me fallava. _Ouve-se o repicar dos sinos e comea-se a ouvir as primeiras vozes dos cros distantes._ Estremeci de alegre e acreditei ento que surgira, afinal, o dia do perdo; _Approximam-se as vozes_ desci do altar, corri, deixei a missa e vim, como se o corao cantasse dentro de mim, para dizer-te, Ruy, que a minha vida tua. _Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos timida, brincando com o avental: pausa e silencio._ Joaquina, _percebendo_ Filhos, no serei eu quem assim vos destrua as santas illuses... _ouve-se o cro muito perto_ Se Deus as abena!... _Sae_ Talitha, _vendo-a sahir_ Ruy! _Corre para elle_ Ruy, _recebendo-a nos braos_ Ah! minha Talitha! Talitha, _abraada, beija-o_ Oh! meu amor! Ruy, _beijando-a_ Perda! _As vzes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de fles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem._ SCENA IV Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes _O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois que se beijam e Joaquina que est estupefacta, junto porta._ Padre, _fingindo que no v e fallando alto_ Raparigas, entrai, a noite de alegria... Talitha, _surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz_ Tem razo, meu padrinho, nossa phantasia deve expandir-se agora... Padre, _com caricia, baixo a Talitha_ Assim, aos beijos, no... Talitha Quem poder conter o nosso corao? _s raparigas_ Raparigas, cantae! A cga j tem vista; que a Virgem Me de Deus a todas vs assista; a freira, que devia entrar para o convento, teve hoje a redempo do seu cruel tormento! Um rapaz Viva a cguinha! O grupo Viva! Outro rapaz E mais o Padre Cura! Viva! Uma rapariga Viva quem fez este milagre! O grupo Viva! Um rapaz E a me Joaquina, ento, que mesmo uma ternura?! Todos Viva! Joaquina Muito obrigada! Ruy Olha como altiva! Padre Raparigas, danae! Ruy, _a uma rapariga_ Pois cante a cotovia, e vibre essa garganta at romper o dia... _As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com Talitha e Ruy frente, danam a Ciranda. O Cura, sentado em uma cadeira, observa alegremente a scena._ Uma rapariga Quem deu espinho s roseiras no teve muita razo, antes dsse ao corao, como deu s Tarangeiras. Deus que creou tantas flres fez as estrellas aos centos: no dorme quem tem amores, que os amores so tormentos. Segunda rapariga Toda tu pareces feita com a cra das abelhas, quando alguem d'aqui t'espreita ficam-te as faces vermelhas. Primeira rapariga Quem ao p do Sol caminha anda sempre com calor, Quem lua se avizinha pde at crear bolr. As tuas tranas so pretas, pareces de cra mol, no te abeires muito ao sol, olha l no te derretas... _O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e encaminha-se para o grupo:_ Padre Tambem eu quero entrar na dana, raparigas, e ser como a papoila em meio das espigas! Primeira rapariga Viva, viva o Sr. Cura, que o paesinho desta aldeia, que tem a alminha mais pura, mais alva que a lua cheia. _Neste momento ouve-se bater porta violentamente, ao mesmo tempo que cessam os guizos denunciativos de um carro que parou porta. Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformao de physionomia que todos os circumstantes percebem._ Padre Um carro, Santo Deus! _Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, pe as mos em orao._ Ruy, _acudindo_ Senhor Cura, que tem? _Ouve-se bater de novo_ Padre, _pensativo_ Ha tantos annos j! _Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae porta e abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente._ SCENA V Os mesmos, Marqueza e Escudeiro Padre Perdo! Procura alguem? Marqueza O Cura Joo Fulgencio! Vossa Senhoria? Padre Sou eu mesmo, Senhora! Marqueza Inda bem, obrigada! Eu j tinha certeza, o co me conduzia. No quero perturbar a alegria da noite: Viajante, ssinha, e quasi desviada pela neve que tomba, eu peo onde me acoite. Talitha Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tecto encontrareis conchego e o mais sereno affecto. Marqueza, _olhando-a_ Obrigada, creana! Talitha A Noite de Natal e o nosso corao no sabe fazer mal... Padre Deveis estar canada, o inverno vae to duro! Marqueza Pensei que no chegava sua residencia. A nevada cruel, o caminho coberto, o frio de cortar, o co est escuro, nem um astro se v, perde-se a consciencia da nossa propria vida, a estrada um deserto... Nem sei como cheguei... Talitha Jesus a protegeu... Marqueza Eu creio bem que sim e dou graas ao co! Padre E no quer repousar? Marqueza Antes, porm, quizera, Senhor Cura, dizer o que me traz aqui... Padre Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouvera que eu pudesse remir a dr que presenti... _a Talitha e Ruy, fingindo alegria_ Ide com Deus, cantae! _O grupo retira-se em silencio, curiosamente_ Talitha, _a Ruy_ Quem ? Quem te parece? Ruy No sei, mas esta voz a minh'alma conhece. _sahem_ SCENA VI Marqueza e Padre Padre Senhora, estamos ss! Vossa Excellencia ordene! Marqueza Oua-me, Senhor Cura! oua e no me condemne! Padre E condemnar por que? Se tem algum peccado, o corao de Deus no estar fechado! Marqueza Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto, estaria acabado este immenso desgosto que me tortura a vida; a asperrima inverneira embaraou-me o passo e augmentou-me a canceira. Padre E vem de muito longe? Marqueza Ah! sim, de bem distante, anciosa, esperando este feliz instante. Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada, alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada... Padre verdade, Senhora! Marqueza Uma carta pedia ao Cura desta alda a esmola caridosa de guardar a creana, at que a me chorosa, depois, a procurasse. Afinal esse dia felizmente chegou e a me que a dr humilha, Senhor Cura, a seus ps, vem procurar a filha... Padre E como poderei saber se esta senhora que se confessa me, embora peccadora, realmente a me da creana engeitada ha tantos annos j, naquella madrugada tristissima d'inverno? Marqueza A carta igual quella que o Senhor Cura achou no bero, junto della... Padre, _tomando a carta_ Mas falta alguma cousa... Marqueza A prola? est aqui... _D-lhe a prola_ Pois desde aquella noite eu jmais a perdi de vista e a conservei com cuidadoso afan, como alguem que resguarda um rico talisman. Padre Seija feita de Deus a sagrada vontade, embora se me parta o corao de dr... Marqueza Essa dr, Senhor Cura, ha de fugir vencida! Eu no quero quebrar to dce piedade que fez de minha filha o seu risonho amor, nem desejo apagar a luz da sua vida num soluo de magua. Padre Ento no vem buscal-a? Marqueza No, no, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a. A minha desventura, emfim, se condoeu dest'alma cruciada e triste que viveu reclusa na saudade, apenas na esperana de vr um dia ainda essa gentil creana... Se nunca procurei saber dessa existencia no que se apagasse em minha consciencia, como um sonho infeliz, a lembrana dorida dessa flr do peccado em anjo convertida. Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus smente! Que lagrimas chorei por conserval-a ausente, e quanto passei eu por causa desta filha dil-o, com eloquencia, a dr que me polvilha a cabea de cans. Amal-a com ardor e ter de estrangular todo esse immenso amor!... Vl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto, mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto as faces lhe banhava e no poder sorvel-o, que tormento cruel, que duro pesadello... Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir, que at para soffrer preciso mentir! No me pergunte, Padre, a origem desse amor ninguem perguntaria ao seio de uma flr como foi que nasceu o aroma que elle exhala. Bastar que lhe diga: a dr que me avassalla a amiga fiel que me segue ha vinte annos, que nunca me deixou; que os tristes desenganos dessas horas sem luz foram os companheiros da minha mocidade e os filhos feiticeiros que encheram o meu lar de pranto e de amargores, como um dia sem sol, como um jardim sem flres. Um dia, Sr. Cura, em confisso, no templo, diante do seu olhar que eu agora contemplo humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia da minha desventura e desta dr ingloria, mas no exija, Padre, agora, que eu recorde o passado infeliz, que o corao acorde do somno em que repousa, e desvende o segredo que a vida me cobriu de sombras e de medo. Padre Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas; mas a minha velhice acostumou-se a vr em to meiga creana uma filha extremosa junto de mim crescer, florir como uma rosa ao p dum castanheiro, e fazer-se mulher. Aos dez annos cegou... Marqueza, _interrompendo, afflicta_ cga a minha filha? Padre Foi: ha dias, porm, a luz de novo brilha no seu formoso olhar. Emquanto a escurido durou, eu sempre a trouxe unida ao corao, apoiada ao meu brao. Marqueza E quem foi que a curou? Padre Alguem que a soube amar. Um dia despontou na sua alma de flr um novo sentimento e a pobre cga amou e foi tambem amada. Queria dedicar-se vida enclausurada na casta regio da cela de um convento, mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve o vago mysticismo e a Virgem que a fadou, condoendo-se della, o seu amor salvou... De modo que, feliz, dentro de pouco, deve desposar um rapaz, formoso corao... Marqueza, _interrompendo_ Ruy de Ornellas, talvez? Padre, _admirado_ Mas como adivinhou? Marqueza, _depois de uma pausa_ No importa saber; prosiga, Senhor Cura, eu contarei mais tarde essa alegre aventura, to simples e feliz. Padre, _proseguindo_ A mim, pobre ancio, uma alegria basta: a de morrer contente por haver feito bem candida innocente. Do mundo nada espero, esta gentil creana era a minha formosa e unica esperana: arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola dessa flr, que me dava a encantadora esmola do seu perfume agreste, arrasta a minha vida derradeira estancia, ultima guarida... Marqueza E quem lhe disse, Padre, as minhas intenes? Padre Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os coraes carinhosos das mes no querem a partilha das caricias, do amor, dos beijos de uma filha. Talitha vae partir; que o Senhor a conduza e que uma boa estrella ao seu porvir reluza. Marqueza Attenda, Sr. Cura! A me que ora lhe falla tambem sabe que a dr o corao estala e no lhe vem roubar a luz dessa velhice to cheia de bondade e simples de meiguice. A dr me fatigou e eu quero repousar de tantas afflices, e venho procurar, nesta aldeia tranquilla e sem perversidade, a paz que no frui na minha mocidade. Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho onde acaba a existencia: , talvez, um capricho... Mas quero aqui viver ao lado desta filha que a sua alma de santo, alvissima, perfilha e nunca mais sahir deste sereno azylo to suave e to bom, to feliz e tranquillo, onde mora a virtude. A filha que eu procuro tambem muito rica e tem porvir seguro. Se a desventura um dia a separou de mim a minha vida agora ha de chegar ao fim, aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre. E o dce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre, abrindo sobre ns o pallio da ventura, ha de envolver na sombra o corao do Cura que fez de minha filha a filha da sua alma, extremosa e leal. E Deus que tudo acalma ha de extinguir a dr de todo esse passado que eu vejo, felizmente, agora terminado... Padre, _alegremente_ Obrigado, Senhora. O corao que sente a alheia desventura e lana boamente o seu conforto amigo a quem j nada espera, tem, nas benos do co, eterna primavera... E agora que sabeis que a vossa filha viva, attendei-me, Senhora, santa rogativa: Talitha esteve cga. O homem que salvou o seu formoso olhar o amor lhe conquistou. Ella, uma encantadora e formosa creana, concentra nesse amor toda a sua esperana: tiral-a ser dar-lhe o mais cruel supplicio. Marqueza No preciso pedir to duro sacrificio ao seu bom corao. Eu quero-a vr feliz, se quem serviu de Pae o consentiu e quiz. Procurava uma filha, encontrei um casal: para mim, que sou me, jmais este Natal feliz esquecerei. E agora que conhece a Me da sua filha, attenda minha prece e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a. Padre Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a. _Entra e volta com Talitha pela mo_ SCENA VII Os mesmos e Talitha Padre, _entrando, a Talitha_ Recordas que uma vez, em lagrimas banhada, disseste que a tu'alma andava amargurada a pensar que jmais a tua me verias? Recordas a palavra alegre, de conforto, que te disse a sorrir quando tu me pedias a luz do teu olhar que tu suppunhas morto? Talitha Nem eu posso esquecer. Padre Pois, filha, a Providencia abriu tua vida a sua immensa graa. Talitha, _curiosa_ E ento? Padre Ento responde: em tua consciencia que mais desejas tu que o Santo Deus te faa? Talitha Que eu possa vr um dia a minha Me querida! Marqueza, _correndo para ella e abraando-a_ Talitha, minha filha! Amor da minha vida! Talitha, _surprehendida_ Minha Me! Minha Me! _Abraam-se em pranto_ Padre Obrigado, Senhor; abenoado seja este Natal de amor! Marqueza, _desprendendo-se de Talitha_ Mas como eu sou feliz! Como tu s bonita! Que lindo nome o teu! Quem te chamou Talitha? _Beija, abraa-a, encara-a sorrindo e soluando. Senta-a nos joelhos_ Quero ver bem de perto o teu formoso olhar. _Fita-lhe os olhos_ Talitha E j sabes, mam, que de tanto chorar com saudades de ti, um dia fiquei cga? Marqueza Com saudades de mim? Talitha, _agitada_ No crs, mam? Marqueza Socega; eu acredito em tudo, a tua alma no mente... Talitha Mam, como eu te quero! _Abraa-a_ Olha-me bem de frente! Tanto tempo sem vr a imagem dos meus sonhos, agora que te encontro, eu desejo risonhos os teus olhos de Me que nunca vi mais bellos; quero beijar, sorrindo, os teus alvos cabellos e sentir palpitar o seio teu, amigo, e o meu seio de filha, a palpitar comtigo. _O Cura, que se tem enlevado a contemplar a scena, sae p ante-p, olhando o grupo e chama para dentro. Entram Joaquina e Ruy._ SCENA VIII Os mesmos, Joaquina e Ruy Marqueza Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes com tua me? Talitha Sonhava! Marqueza E o sonho que dizia? Talitha Tanta coisa, mam! Quando os nossos revezes nos vinham perturbar, desde o romper do dia at o anoitecer, pensava em ti, mam, e, sem dormir, sonhava at pela manh. Marqueza Mas revezes de quem? Talitha Desta immensa tristeza que vinha atormentar a vida de pobreza _baixo, quasi em segredo_ do nosso Padre Cura... Marqueza E o Padre Cura pobre? Talitha Muito, muito, mam, mas to bom e to nobre que nunca pude ouvir um lamento, sequer! Marqueza D'hoje em diante, porm, no faltar mais nada: ser de todos ns aquillo que eu tiver. Tu s rica, Talitha, e d'alma bem formada, por certo acudirs de todo o corao por que no faltem mais nem ventura, nem po a quem te fez gentil, to boa e generosa... Talitha Muito rica, mam? Marqueza Que te serve saber? Talitha que o velho sargento acaba de morrer deixando na miseria immensa e dolorosa os netinhos com fome. O velho era cguinho! muita vez o encontrei mendigando, ssinho, para matar a fome e, se eu hoje sou rica, s este pensamento a dr me purifica e, se tu ds licena, o Ruy vae procural-os. Marqueza Pois sim, minha Talitha, irs tambem buscal-os; que sejam teus irmos j que assim o quizeste. Mas dize, o Ruy quem ? Inda no m'o disseste... _Durante este dialogo as duas no podero vr as demais pessoas, enlevadas como esto. Ha sorrisos em todos._ Talitha, _perturbada_ O Ruy?... _Baixa os olhos, sorri e cala-se_ Marqueza Sim, sim o Ruy... Talitha, _enleada_ O Ruy um doutor... Quando eu estive cga... Eu era to cguinha!... Elle tratou de mim e fez a operao... Marqueza S?! Talitha O resto no conto... Marqueza E porqu? Talitha Adivinha! Marqueza E no furtou tambem o teu primeiro amor? Talitha Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar, eu dei-lhe o corao... Marqueza Mas depois de casar deixars tu ssinho o velho Padre Cura? Talitha Nem eu quero pensar em tamanha loucura. Viveremos aqui juntinhos da Joaquina que sempre me guiou, do tempo de menina. Marqueza Pois vae dizer ao Ruy que tua me quer vl-o. Talitha, _soltando-se do pescoo da me, sorrindo alegremente._ Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello... Ruy! Ruy! _Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraada e cobre o rosto com as mos._ Meu Deus, que susto! Padre Ouvimos tudo, tudo!... Marqueza, _voltando-se_ Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo... A culpada fui eu... Ruy, _surprehendido_ Ah! Senhora Marqueza! Marqueza Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza o vl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou em busca deste co to puro que o salvou. Previ toda esta scena e quando aconselhei que viesse at c, senti que palpitava o meu seio de me. J v que adivinhei e o meu presentimento o bem me segredava... Talitha, _admirada_ Mam, tu s Marqueza? _Silencio prolongado_ Marqueza A Marqueza morreu... Agora sou a me da mimosa Talitha que vem pedir perdo a quem assim soffreu dessa magua sem par, dessa dr infinita, que tanto fez chorar a tua mocidade, as lagrimas febris e negras da saudade. Agora sou a Me que um dia te engeitou e que uma vida inteira a dr acabrunhou, que vem pedir perdo ao velho Padre-Cura do quanto padeceu para te dar ventura, que vem agradecer santa da Joaquina, os beijos que te deu quando eras tamanina, que vem pedir a Ruy o supremo favor de dar sua filha o seu primeiro amor... Ruy Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola do casto corao da candida Talitha, como um beijo de luz que conforta e consola a dr da minha vida. O peito me palpita na suprema alegria e eu penso na alvorada desta noite feliz, de lucido natal, bemdizendo, Senhora, a dce madrugada que vae surgir em breve. Talitha Ao despontar o dia vamos todos buscar os netos do sargento... Tu concordas, mam? _Ao Cura_ Acha que fao mal? Padre Para ti, minha filha, a madrugada fria. O Ruy ir commigo e apenas num momento as creanas viro: descana, pequenita. Marqueza, _a Joaquina_ Repare bem, Joaquina: este casal catita como envelhece a gente! Joaquina E Deus Nosso Senhor lhe d por toda a vida o seu sagrado amor! Padre J toca missa d'Alva... Ruy, _a Talitha_ Estrella d'Alva, pura, immaculada estrella, o co desta ventura estende sobre ns a cupula sagrada e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada que faz de ti, creana, a dce Conceio do meu culto feliz, purissimo e christo. _A Joaquina_ Um dia, bem me lembro, a sua mo amiga mais trmula e subtil do que uma branca estriga s aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario da sua alma de santa, entregou-me um rosario. Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflico esse rosario amigo encheu-me o corao duma frescura immensa e assim se dissipou essa nuvem cruel que sobre ns passou... Quero beijar a mo da santa que me deu nesse rosario astral uma viso do co: a flr que se banhou na sua f divina, bondosa creatura, alvissima Joaquina! _Beija-lhe a mo. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental._ Padre O dia vae surgir, o sino da capella convida-nos missa. Ali pela janella j vem a madrugada entrando alegremente num baptismo de luz que brota do nascente. Talitha Meu Deus, como feliz a minha mocidade! Rasgou a mo de Ruy a dce claridade ao meu perdido olhar, depois a me de Deus envia-me o perdo do fundo azul dos cos: e, dando luz cga e vida condemnada, entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada do Natal de Jesus, a minha Me distante. Meu Deus, como feliz neste sereno instante _a Ruy_ a nossa mocidade ao p desta velhice to boa e to leal! Antes que alguem cobice esta aurora de amor que ao co nos avizinha eu vou rezar por ns uma Salv-Rainha: _Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio; ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de p._ Talitha Salv, Rainha Me, cu de misericordia, vida e doura, amor, luz da nossa esperana, lanae por sobre ns o manto da concordia. Salv, Rainha, Me serena de bonana! A vs, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos, por vs que estaes no co, gemendo, suspiramos, neste valle de magua e dr. Eia, Senhora! Sde a divina Me, a dce protectora da nossa vida inteira e para ns volvei esse olhar piedoso e to cheio de luz! Sobre o nosso destino a vossa mo pendei, rasgae a nossa dr, mostrae-nos a Jesus, fructo do vosso ventre, sagrada e clemente, Virgem dce e casta, candida innocente! Santa Me de Deus, ouvi a nossa voz to simples e fiel, rogue no cu por ns, por que sejamos bons e dignos da promessa do moreno Jesus. Que a nossa vida aquea o materno calor da estrella de Bethlem, luz do vosso olhar, por todo o sempre. Padre Amen! CAE O PANNO RESPOSTA CRITICA INDIGENA _Toute l'operation critique se borne ainsi a constater un fait, depuis la cause qui l'a produit jusqu'aux consquences qu'il produira. Sans doute, un pareil travail contient une leon, et se voir dans un miroir aussi fidle, un crivain peut reflchir, connitre ses infirmits, tcher de les marquer le plus possible. Seulement, la leon vient de haut, sort de la verit mme du portrait el n'est plus l'enseignement gourm d'un professeur. La critique expose, elle n'enseigne pas. Elle a compris elle-mme que son influence sur le niveau litteraire tait peu prs nulle, car les tempraments restent indociles; et elle a prfr jouer le beau rle d'ecrire l'histoire litteraire contemporaine, explique et commente._ E. Zola. _Documents litteraires_, pag. 334. _Est critique, notre jugement, celui qui fait effort pour comprendre et qui juge avec sympathie._ Nolet. _La vie et l'oeuvre de Chateaubriand_, pag. 673. _...si nous possedons quelques talents, nous nous empressons de les dprcier. Aprs les avoir levs au pinacle, nous les roulons dans la bosse; puis nous y revennons, puis nous les mprisons de nouveau. Nous ne pouvons souffrir de reputation; il nous semble qu'on nous vole ce qu'on admire: nos vanits prennent ombrage du moindre succs, et s'il dure un peu, elles sont au supplice._ Chateaubriand. _Essai sur la litterature anglaise_. pag. 171. _Que la scne soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la mme distinction entre l'motion relle et l'motion esthtique. Il faut de toute necessit, pour que cette dernire soit possible, que l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre; c'est surtout au thtre que cette distinction entre le rel et le fait poetique est essentielle. L'illusion complte, loin d'tre le suprme degr de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la ngation._ Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408. RESPOSTA CRITICA INDIGENA A _Talitha_ uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo corao mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira das paixes pretendeu ferir. Devo, quero e vou defendel-a. * * * * * Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu: Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant d'ecrire, et quand on a crit une page, on l'affirme, on la dfend. _La critique contemporaine_, pag. 356. A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_ no uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor no nasceu em Portugal, nem brazileira porque a aco se passa em terra estrangeira, entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da provincia de Traz-os-montes. * * * * * A censura futil. A critica esquece que Portugal a patria da nossa patria; que o nosso idioma nacional ainda no sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a lingua de Cames foi a lingua de Gonalves Dias e ainda hoje a lingua de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de Jos de Alencar vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello Branco o atravs das quaes se impoz grandeza do seculo que passou a individualidade singular e forte de Ea de Queiroz, ao mesmo tempo que se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de Machado de Assis. Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine: Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu. H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11. O homem um producto do meio, este infle poderosamente na formao de seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente. A mocidade mais docil em receber essa influencia natural e espontanea do ambiente--do clima, das tradies, dos costumes, da religio, da arte. na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se arrancam. Spencer, na Educao moral, intellectual e physica, affirma que a influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro. A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna. Com os portuguezes, moos como eu, senti os pezares d'aquelle grande povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente. sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor daquelle sol aqueci as minhas esperanas; no gelo daquellas neves murcharam-me as mais perfumadas illuses; ao luar opalescente daquellas noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas estrellas peneirou no meu corao a voz dolentissima dos rouxines; com a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flres das suas aspiraes incipientes; com a lithania religiosa dos orgos ruraes nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no perfume das flres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e at no merencorio soluar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias. Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella terra santa que a patria da saudade, e, quando o meu corao comeou a sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza o delicioso pungir de acerbo espinho, que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixra, do bero que me embalra as horas da infancia, da voz materna que me acalentra a puericia, do co que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue, sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. d'este sangue abenoado, fortemente oxygenado, que me d energia para as luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia, limpida e superior, as investidas da injustia e da critica. E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da minha vida? E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito annos se vincularam ao meu espirito, minha intelligencia, minha vontade, minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para fazer germinar as sementes, com que a palavra das mes penetra na alma dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de prata a agua dos lagos e dos rios? * * * * * A _Talitha_ uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna; _Talitha_ no uma creao da minha phantasia, a copia do modelo vivo que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa redempo do seu primeiro amor. _Ruy de Ornellas_ foi meu irmo de lettras, foi meu amigo, meu companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida academica, nem o nome lhe occultei. O velho cura _Joo Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa affeio evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancio de oitenta invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moos de alma nova mas precocemente corrompida ao contacto das descrenas enervadoras e fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafs, vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras, quando mais facil, mais dce, mais humano, mais confortante, mais nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e das dedicaes. A velhinha _Joaquina_, a irm desse honrado e justo sacerdote, o retrato fiel, copiado intimidade da minha propria familia, em cujo seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de meu Pae. A _Marqueza de Rilma_ no um personagem ficticio, viveu, foi a me de Talitha, no com o titulo de to elevada condio aristocratica, mas de nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos. Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, alm de absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da aco dramatica: a mais rudimentar educao, a mais vulgar delicadeza de sentimentos mandavam occultar essa circumstancia, inutil fidelidade da observao e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem. Que representa, pois a _Talitha_? O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que no esqueceu o passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar uma divida de gratido, para abrir no seio um longo e profundo sulco de reconhecimento terra sagrada em que dormem seus avs o somno ultimo e perptuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do ancio que me deu o sr, onde eu deixei as geraes irmans que me acompanharam na peregrinao astral das illuses academicas. A perversidade incuravel dos zoilos, porm, occultou, de proposito deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e cos estranhos, j estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A Fara_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio em que vive. E esse drama foi levado scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico Ribeiro e dr. Sebastio Leo. Se no teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por artistas, no pode caber ao autor a culpa de faltar entre ns uma companhia dramatica nacional constituida de profissionaes. A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se no sabe, ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, no pde exigir considerao nem respeito do meio litterario em que pretende pontificar. Il y a mme, au fond de la grande majorit des critiques, un producteur manqu, qui se regisne parler des oeuvres d'autrui, quand il voit que personne ne parle des siennes. Zola, oeuvre cit., pag. 349. A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que Taine, o mestre supremo, havia pontificado: La mthode moderne que je tche de suivre, et qui commence s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des faits et des produits dont il faut marquer les caractres et chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique. H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14. Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre invocado: condemnou, no explicou. Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significao, sem sondar a alma que o crera, fulminou a obra e insultou o espirito que a produzira. Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que portuguez e o estylo que no brazileiro... E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que Shakespeare fra buscar nevoenta Dinamarca a figura culminante de Hamlet, sorridente Italia dos laranjaes em flr, as suaves imagens de Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo. Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da Frana foram pedir Grecia e Roma antigas, Hespanha medieva e aos Barbaros a quasi totalidade dos seus heres e das suas heroinas, deixando na obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza pica de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos immortaes filhos da Frana e as imagens delicadas e formosas das mulheres gaulezas. De Corneille, _Meda_ uma simples imitao de Lucio Seneca, romano, que a seu turno pedira inspirao ao theatro grego; _Cid_, que uma obra-prima, alm de ser puramente hespanhola a sua aco de altissima tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro, que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_ um assumpto romano que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos so _Polyeucte_, _Cinna_ e _Pompe_, este inspirado por Lucano; _Mentor_ o velho personagem da legenda grega de Ithaca, j reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_, que so lampejos da constellao de decadencia de um genio, pertencem, a primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles j havia immortalisado na scena grega, a segunda pura historia da Iberia em que o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador da nacionalidade lusitana. Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_ e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de Corneille vibrou pela patria, o seu talento no procurou conforto na historia assombrosa da Frana: o seu corao voltou-se ainda para o oriente, foi Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e deixou na _Imitao de Christo_ a ultima expresso do seu genio, como o raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso. De Racine, pde-se affirmar que escreveu as suas tragedias inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia. Assim o ensina um sabio mestre brazileiro: deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade da concepo, porm mais tocante na pintura dos accessorios e que maior conformidade offerecia com o seu talento. So d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phdre_, _Iphignie_. So inspiradas na Biblia, a _Thbade_, _Esther_ e _Athalie_. Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a comedia _Les Plaideurs_, que uma _charge_ temivel de espirito e de genio, foi pedir s _Vespas_ de Aristophanes, no s a inspirao, mas o exemplo, o paradigma. Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao Theatro da Frana que no as repudiou, que as ama, que as admira, cultuando a memoria dos genialissimos poetas, no obstante o haverem elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas figuras orientaes. Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a soberba grandeza de Danton! Para dar Escola romantica a sua data inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi buscar Hespanha a inspirao dos versos maravilhosos do _Hernani_ e deixou litteratura dramatica da Frana as figuras esculpturaes de _Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata Ruy Gomez. Mas onde o genio do grande filho de Besanon attingiu a altitude suprema a que no chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phdre_, foi no _Torquemada_, a epopa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo, illumina-a com as fulguraes do seu genio, como se em torno da cariatide monstruosa da Inquisio ardessem as fogueiras dos autos-da-f, e liga litteratura dramamatica da Frana a figura barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja. No emtanto, na historia da Frana havia a linha cruel de Luiz XI, algoz do duque de Alenon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime. Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_, _Dryade_, _Fille de Jepht_, _Femme adultre_, _Dolorida_, _Deluge_. Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton, cujo here o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos, procurou no suicidio a soluo para a vida das amarguras e tristezas que arrastava o seu genio incomprehendido. E Alfred de Vigny, to admirador de Andr-Chnier que n'este procurou inspirao para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba e tragica do poeta da revoluo, cuja cabea rolou no cadafalso como uma cabea vulgar, no obstante: avoir quelque chose l dedans E a Frana no engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a _Comedie-Franaise_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo, no obstante a opinio do Zola que a reputa: la negation du thatre. A critica, severa para mim, devra ter vergastado primeiramente a memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua espada de guerreiro a obra politica da emancipao da Grecia; devra anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a reconstituio da vida romana poca da decadencia cesarista de Nero; devra ter condemnado morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herana paterna, preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japo e na China; devra ter amaldioado e reduzido a p o sublime poeta contemporaneo da Frana--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na _Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da filha da Juda, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna d'Arc; devra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos d'Italia_, sem ter jmais escripto uma pagina de viagem pela propria Hespanha, sua patria; devra ter castigado os despojos funebres de Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspirao hombrea com as de Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial , depois de Shakespeare, a creao mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao bero da tradio adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_. E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devra censurar amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura pica do riograndense Tamandar, lobo dos mares como o piloto de Palos, alm de guerreiro como Patterson. E a censura devra estender-se tambem a Gonalves de Magalhes que, em vez de cantar o here dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi que vive na tradio da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de Joo Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi historia de Milo pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia _Olgiate_, em cuja aco se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo Visconti e o assassinato do tyranno. E a critica, to rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a citar a sentena do divino Almeida Garrett para aquelles que se abalanam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devra comear pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_, _Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Cato_, antes de se lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fra uma das heroinas de sua terra. * * * * * Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, no tem sinceridade nos seus conceitos. Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta s emoes do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um encanto, uma joia. A aco do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se claramente na escola de Massenet, sbe scena no Rio de Janeiro interpretada por artistas italianos, sbe scena em Porto Alegre interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio, extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_ italiana pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense no se julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o co, a aventura da gloriosa e divina Italia da arte... A critica emmudeceu. Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento intellectual e moral... A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas... _passons l dessus_. Ds lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier... Zola--_Documents litteraires_, pag. 418. * * * * * Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_, condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada, superior modestia das suas condies de aldeos. A critica futil e no sabe o que diz. _Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura. A sua linguagem simples, ingenua e lyrica. Mas simples, ingenua e lyrica a linguagem do povo portuguez, desde a sua infancia at hoje. As imagens que o autor lhe pe nos labios so as mesmas que borbulham na phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade, affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto Ansures at Antonio Fogaa. Pois a uma creana de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta, intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura, pde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou aos oito annos? Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cgo que escreveu a _Noite do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a _Primavera_, o _Outono_ e cgo o anonymato popular que produz ha oito seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que andam na tradio oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o _Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ at o _Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e Gualdino de Campos. So da poesia popular, so do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu, cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro, Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam. I Nessas tuas mos pequenas como no vi em ninguem no sei como as minhas penas couberam nellas to bem. II Perdes mais em me perder do que eu perco em te deixar: perco quem sabe offender, tu perdes quem sabe amar. III Dizes que deixo saudades, no me posso conformar: pois se eu as levo commigo, como t'as posso deixar? IV Acostumei tanto os meus olhos a namorarem os teus que de tanto confundil-os nem j sei quaes so os meus. V Se os meus olhos te incommodam quando esto na tua frente hei de arrancal-os um dia para te amar cegamente. VI Se eu soubesse que voando alcanava o que desejo mandava fazer as azas que as penas so de sobejo. VII Eu jurei que no tornava a dar adeus a ninguem: quem parte saudades leva quem fica saudades tem. VIII Essas tuas sobrancelhas como nunca vi mais bellas so laos de fita preta unindo duas estrellas. IX No sei que quer a desgraa que atraz de mim corre tanto, hei de parar e mostrar-lhe que de vl-a no me espanto. X Vae alta a noite, vae alta, mais alto vae o luar, mais alta vae a ventura que Deus tem para me dar. XI tua bocca ideal um palacio com jardim: as portas so de coral os degros so de marfim. XII Aguas passadas no tornam; deixae fallar o dictado: saudade, s um moinho mes com aguas do passado. XIII Pra tu, meu corao! onde estou eu, onde vim? triste caminho de lagrimas tem comeo e no tem fim. XIV Ouo cousas que no ouo, vejo cousas que no vejo: olhos da minha saudade, ouvidos do meu desejo! * * * * * E a um povo que assim traduz to lyricamente, com tanta philosophia, com tanto sentimento, todas as impresses da sua alma dce, que assim vibra essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas, nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera, pde-se, com justia, arrancar essa linguagem que caracteristica? O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus personagens, para que estes no paream superiores ao seu meio, mentiria propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria. A um velho cgo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua desgraa, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a tradio religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria popular estuava nas danas e folguedos; o rapazio espantado escutava-o com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza das suas lamentaes havia verdade de conceitos e a revolta justissima de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza. Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle, que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raa, filtrada na ara branca e pura de uma tradio de oito seculos. Diz toda a gente e eu no nego que Deus pae de bondade, mas se isso pura verdade como foi que eu nasci cgo? L que Deus tirasse a luz a quem rouba ou assassina, era a justia da sina que todo o mundo conduz. Mas a mim, no foi clemente porque eu no tinha nascido; que Deus tinha o sentido de cegar um innocente. Aos lobos que andam na serra matando ovelhas e anhos, dizendo mal aos rebanhos Deus no castiga na terra. No ha lobo que no veja, todos so filhos de Deus, s nos tristes olhos meus a eterna noite negreja. No tocaria viola se eu fosse fera damnada, mas no andava na estrada soffrendo e pedindo esmola. * * * * * Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, no curou de saber se no Paraiso a Me dos homens fra educada pela serpente nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem alcandorada, nem cogitou de saber se j naquelle tempo, no pincaro da cordilheira industanica, se fallava o inglez. A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poo de Jacob, j se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta, brilhante, artisticamente disposta sob a frma severa que Boileau, Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois. A critica, porm, mais cga que a minha desventurosa _Talitha_, mais ingenua que a alma primitiva, mais ignorante que a Samaritana e mais perfida que a Serpente, a sogra feroz de Ado, occultou o preceito de Taine: Par cet excs de l'imitation litterale, l'artiste arrive a produire, non pas le plaisir, mais la rpugnance, souvent le dgut, et quelque fois l'horreur. Il en est de mme dans la litterature. La meilleure moiti de la poesie dramatique, tout le thatre classique grec et franais, la plus grande partie des drames espagnols et anglais, loin de copier exactemente la conversation ordinaire, altrent la parole humaine de propos deliber. Chacun de ces potes dramatiques fait parler ses personnages en vers, impose a leurs discours le rythme et souvent la rime. Cette falsification est elle nuisible a l'oeuvre? En aucune faon. L'experience en a t faite de la maniere la plus frappante dans une des grandes oeuvres de ce temps, l'_Iphignie_ de Goethe, ecrite d'abord en prose et ensuit en vers. Elle est belle en prose, mais, en vers, quelle diference! Ici, visiblement, c'est l'alteration du langage ordinaire, c'est l'introduction du rythme et du mtre qui communique l'oeuvre son accent incomparable, cette sublimit sereine, ce large chant tragique et soutenu, au son duquel l'esprit s'lve au-dessus des vulgarits de la vie ordinaire et voi reparaitre devant ses yeux les hers des anciens jours, la race oublie des mes primitives, et, parmi elles, la vierge auguste, interprte des dieux, gardienne des lois, bienfaitrice des hommes, en qui toutes les bonts et toutes les noblesses de la nature humaine se concentrent pour glorifier notre espce et pour relever notre coeur. H. Taine--op. cit., vol. I, pag. 28 et 29. E a critica indigena censura ao obscuro autor da modesta _Talitha_ a ousadia de ter observado o preceito que Taine, o grande mestre da Frana e do mundo, ordena que se faa, exactamente o que fez Goethe para dar maior valor e mais gloriosa belleza sua _Iphigenia_; exactamente o que fez Rostand para poder impr civilisao parisiense, na compleio nevrotica de Sarah Bernhardt, a inferioridade da mulher da Biblia, a hetara da Samaria condemnada ao supplicio da lapidao pelos heliastas da Juda. * * * * * Diante da bondade e em face das virtudes caracteristicas dos personagens que se movimentam nos tres actos da _Talitha_, a critica sentiu arrepios de indignao e abespinhou-se: intelligencia dos censores inconcebivel a coincidencia de um encontro simultaneo de cinco almas igualmente boas, simples, generosas, quasi santas; a sociedade repelle essa pureza, os factos demonstram o contrario: o autor da _Talitha_ no observou, phantasiou; o seu drama um trabalho de gabinete, no ambiente do mundo real essa hypothese no existe. A critica pontificou _ex-cathedra_, infallivel como o successor de S. Pedro, Vigario de Christo na terra. Taine escreveu: Aprs avoir examine devant vous la nature de l'oeuvre d'art, il reste etudier la loi de sa production. Cette loi peut, au premier regard, s'exprimer ainsi: _L'oeuvre d'art est determine par un ensemble qui est l'tat gnral de l'esprit et des oeuvres environnentes._ H. Taine.--op. cit., vol. I, pag. 55. a influencia do meio na produco artistica: consequentemente, para apreciar a obra d'arte, quando sincera, a critica necessita de conhecer o meio em que ella foi produzida, o estado geral dos espiritos e dos costumes em cujo seio o pintor, o esculptor ou o escriptor, pintou o quadro, esculpiu a estatua, ou escreveu o poema. E dos criticos indigenas que se lanaram _Talitha_, como San Thiago aos moiros, apenas um viveu temporariamente em Portugal, mas nunca se perdeu em terras trasmontanas, gastou o tempo nas ruas das cidades populosas: a aldeia lusitana, se a viu no a estudou, se a estudou ou no a comprehendeu ou... tresleu. De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o meio que influiu na produco da _Talitha_, no tem noo, sequer, do estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, ignorante e, como todo os ignorantes, pretenciosa, balofa e petulantissima. Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a sublime pastoral--_Os Velhos_--de D. Joo da Camara, cuja aco se passa em uma aldeia do Alemtejo. Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu representao dessa obra prima, extasiou-se e no viu que na formosa comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, no cinco, mas nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a aco da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade. Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. Joo da Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles personagens, aquella aco, aquelle ambiente correspondiam realidade objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisao occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras, virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento mo, sem uma palavra rude, sem uma aco menos digna. Ha nos dois primeiros actos da _Talitha_ uma profunda tristeza, a amargura solua em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma exploso de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso que vae ao exaggero, diz a critica. A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento religioso, o culto catholico, a tradio christan, porque nunca viveu na intimidade daquelles lares; o que lobrigou, atravs da obra suspeita e viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos grandes centros, envenenou-lhe a alma j preparada para receber a semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos gabinetes, acceitou as indicaes da alma perversa de algum mentor sem sinceridade, explorador da inexperiencia de creanas talentosas e esqueceu a lio de Taine: Pour plus de clart, nous prendrons un cas trs simple, simplifi exprs, celui d'un tat d'esprit dans lequel la tristesse est predominante. .................................................................. Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public attristent aussi l'artiste. Comme il est une tte dans le troupeau, il subit les chances du troupeau. .................................................................. Sous cette pluie continue de misres personelles, il deviendra moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste. Voil--un premier effet du milieu. .................................................................. Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les objets le caractre essentiel et les traits saillants: les autres hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit. Et comme ici le caractre saillant est la tristesse, c'est la tristesse qu'il aperoil dans les choses. H. Taine--Op. cit., pag. 68 e seguintes. Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras: O que deu nascimento, entre elles, noo de fatalidade uma concepo que se refere, no ao futuro, mas unicamente ao passado; o que , , e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto concluido no existisse. _A poesia e a arte no ponto de vista philosophico._--Cap. II, pag. 50. O modesto autor da _Talitha_ no podia fugir aco do meio em que se encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia oppr verdade: _o que , , e um facto concluido, poder algum o annulla_. Se o autor transformasse medida do seu desejo, pensando em ser agradavel critica, mentiria sua consciencia, deturparia as leis da arte: os zoilos pdem maldizer, vontade, o autor fica tranquillo e contente com a fiel observancia das lies de Taine e do escriptor brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau. O facto verdadeiro, era sufficiente que fsse verosimil: o autor da _Talitha_ dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras e a redempo dos seus personagens pelo amor, l'amor che muove il sole e l'altre stelle. O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitao da critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do elogio mutuo e a paixo, a animosidade e malquerena politicas. Zola pontificou: Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rve de distribuer des coups de frule. Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux ides nettes dans la tte. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De l les jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue de verit et de justice qu'il faudrait y parler. Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens. Le vent qui les apporte, les emporte. _Documents litteraires; la critique contemporaine._--pags. 346, 347. * * * * * O assumpto da _Talitha_ portuguez, portuguezes so os seus personagens, portuguez o meio em que a aco se desenvolve, portugueza foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua mocidade: o drama no podia deixar de reflectir l'tat gnral de l'esprit et des moeurs environnantes. De profundas amarguras, de lacerantes provaes para o povo portuguez foi a poca dolorosa em que o modesto autor da _Talitha_ aprehendeu em flagrante o desenrolar da aco dramatica do seu poema lyrico: e essa ra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge, a sua maxima intensidade. Portugal acabava de receber o _ultimatum inglez_ na questo pungentissima das possesses africanas, a natureza fra de uma dureza extrema: s innundaes dos invernos succedeu a crise agricola que esmagou a produco vinicola pela invaso phyloxerica, as agitaes politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos ameaando as instituies monarchico-religiosas de sete seculos e, em meio dessas provaes a Providencia, esquecida da immensa piedade d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em que no soffre soluo de continuidade o culto da divindade catholica, fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo: Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro, Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d'Avila, Ea de Queiroz, Alexandre da Conceio, Raphael Bordallo Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a luminosa regio dos seus cerebros geniaes com a inferioridade crudellissima de uma bala. Da nova gerao, Antonio Fogaa, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz Barreto seguiram a estrada da morte. A crise economica era pavorosa, a emigrao clandestina assustava os espiritos mais fleugmaticos, questo ingleza, seguiu-se a revolta de 31 de Janeiro e a situao geral era to delicada e complexa que nem o genio de Jos Dias Ferreira, nem as combinaes politicas de homens como Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver. Ao desequilibrio financeiro succederam a questo monetaria e o augmento da divida publica, fortemente aggravadas as condies do credito publico pela questo internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos escreve: Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade portugueza estrebuchando no esphaclo, ha quem tenha perdido de todo a esperana de regenerao; ha quem se persuada que esto chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em grande parte este excesso de pessimismo. Portugal, como todas as naes contemporaneas, em maior ou menor gro, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos variadissimos. uma crise politica, financeira, economica, mas sobre tudo social e moral. Teixeira Bastos--A Crise, pag. 435. Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu poderosamente na produco artistica e litteraria d'aquelle tempo e na que se seguia. Na esculptura destaca-se a estatua de _Hermengarda_ em que o talento de Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos. Na architectura no surge cousa alguma que atteste a sublimidade do caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herana do passado, soffre a influencia do desanimo, da indefferena, da tristeza geral que domina. de Ramalho Ortigo o que se vae lr: Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos architectonicos da nao... Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dr e a vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a cumplicidade official. Os primeiros so uma consequencia do desdem: os segundos so um resultado de incapacidade. Ramalho Ortigo.--_O culto da Arte em Portugal_, pags., 19 e seguintes. Quanto vida e a produco litteraria, o autor da _Talitha_ invoca o depoimento do grande critico portuguez; elle quem affirma: Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver egreja que os reuna, e j evidente esta enorme catastrophe: que na arte de portugal faltam coraes portuguezes. Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual. .................................................................. A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de applicao e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas. Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue vermelho da raa, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixes mais profundas, todo de imposio e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventureiro e destemido. Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimentos. Ram. Ortigo.--op. cit., pag. 110 e seguintes. * * * * * Embora modesta a _Talitha_, embora sem merecimento o seu autor obscuro, como poderiam ambos--drama e escriptor--fugir a esse estado geral do espirito e dos costumes, de que falla Taine? Necessariamente deveriam obedecer lei, e por isso apparece nos dois primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que o reflexo da situao geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade. D'autre part, l'artiste a t lev parmi des contemporains mlancoliques; partant, les ides qu'il a reu et celles qu'il reoit encore tous les jours sont mlancholiques. La religion regnante, qui s'est accommode au lugubre train des choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir H. Taine--op. cit., vol. I. pag. 65. Alis profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza desse tempo, muito principalmente na poesia. um soluo de magua--o _Espirito Gentil_--de Luiz Ozorio; formam um rosario de amarguras--as _Oraes do Amor_ de Antonio Fogaa; um gemido crudellissimo o _S_ de Antonio Nobre; como um echo de Necropole--_Nada_--de Julio Dantas. No theatro, Marcellino de Mesquita lana a _Noite do Calvario_, reproduco profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da vida de um lar que o dramaturgo generalisa s condies da vida social, alis j cruelmente desvendada nos _Castros_. Para fugir influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado, chronica, a historia e no consegue eximir-se impresso da desventura: _O que morreu de amor_ uma resurreio esmagadora de magua; a _Severa_ um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; _O sero nas larangeiras_ uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que occulta, mascra, e pinta um immenso abatimento moral. Gervasio Lobato passa nesse meio espalhando gargalhadas, ridiculo e _troa_ sobre a sociedade carcomida pela crise e acabrunha de pilherias a burguezia e a classe media no _Commissario de Policia_, no _Solar dos Barrigas_ e na _Lisboa em Camisa_, passando do palco ao romance. A _Velhice do Padre Eterno_ uma _charge_ monumental sobre o ultramontanismo da sociedade religiosa: a _Patria_ uma objurgatoria tremenda, um raio de colera olympica; os _Simples_, constituem um colar de lagrimas de uma jeremiada genial e as _Oraes ao Po e Luz_ so as aspiraes tantalicas do genio ao seio da excelsa divinisao da arte, como refugio extremo de uma alma que foge s revoltas da terra para no cahir na lama das decomposies sociaes. A _Rosa engeitada_, de D. Joo da Camara, a dr vivendo e esmagando as almas; os _Velhos_, apezar do seu encanto bucolico e purissimo, um crepusculo de sombras dces. A _Cruz da Esmola_, de Eduardo Schwalbach, a photographia nitida da tortura e do desespero... E tudo isso a reproduco conscienciosa de um estado de pathologia social... a menos que a critica no attribua tudo isso phantasia dos artistas pelo gozo requintado de esmagar a propria patria ao peso de calumnias... Mas neste caso como comprehender o collossal successo das obras extraordinarias de Ramalho Ortigo na critica, de Ea do Queiroz ao romance e de Raphael Bordallo na caricatura, profligando esse estado geral de espirito e de costumes como Alphonse Karr, Gavarni e Flaubert na alta cultura genial da Frana, em plena florao artistica e litteraria? O terceiro acto da _Talitha_ no desta dos anteriores, a unidade no se quebra, transmitte-se, completa-se: a mesma suave melancolia dos primeiros conserva-se na narrativa da morte do sargento que _Ruy_ communica a _Joaquina_ e no _raconto_ que das suas desventuras, faz a _Marqueza de Rilma_ ao velho cura Joo Fulgencio. A mesma serenidade christan dos primeiros actos paira no terceiro atravs da descripo em que _Talitha_, ao som dos sinos distantes da missa do gallo, conta a _Ruy_ e a _Joaquina_ a sua allucinao passageira e termina com a _Salve-Rainha_ rezada ao soluar do orgam e ao repique da alvorada annunciando a missa d'alva. A alegria que vibra n'este acto mais intensa, realmente, mas n'elle se encontram trez factos culminantes: a confirmao do noivado de Talitha pelo perdo da Virgem na viso da missa; a cura radical e milagrosa da sua cegueira e o apparecimento da me tanto tempo perdida. Mas a alegria no surge alli de surpresa, repentinamente: no primeiro acto ella vibra na scena final de amor em que as duas almas que se comprehendem recebem a beno da velha Joaquina surprehendendo-as na ventura do seu idyllio, e no segundo acto a primeira scena succede naturalmente a essa e os dois velhos ligam, plas recordaes, a passada alegria de outros tempos, a que se vae em breve descerrar quando _Ruy_ levantar definitivamente a venda aos olhos da redimida. Ahi a alegria vae intensidade das lagrimas, a tristeza que nasce das extremas emoes da felicidade que no triste e, se momentaneamente desapparece quando _Talitha_ se deixa vencer pela f religiosa e rompe o juramento de amor para cumprir o juramento do voto de clausura, de novo se reata e estala em um sorriso de supremo arrebatamento, quando a piedosa e santa mentira do _Cura_, depois da confisso, lhe relata o sonho da madrugada anterior em que elle viu rolar no espao no fulgor de uma estrella o beijo do perdo. * * * * * A virtude daquellas almas!... E porque razo de alta monta o autor da _Talitha_ devia quebrar a verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle no phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio da crise social moral que caracterizava aquella poca dolorosa de provaes populares? Introduzir um personagem que no tivesse as mesmas qualidades de caracter seria deturpar os factos para obedecer ao _mtier_, a carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez. Alm de tudo, inutil: a emoo dramatica, o effeito theatral so completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as zonas e latitudes da terra. Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras: O artista que emprega suas faculdades ao servio de uma ida generosa no menos artista por isso, se bem que no seja por isso que elle artista. O amor e a intelligencia do bem suppem uma concepo superior das condies da vida individual e social que preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens... .................................................................. Entretanto ha uma observao a fazer neste ponto, que parece mais facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre quando era atacado pelos homens pudicos. To verdadeiros e vivos so os seus libertinos da alta o baixa sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, so ternos e mal acanhados. Op. cit. pag. 32. Ainda mesmo quando o autor da _Talitha_ houvesse faltado verdade dos factos que observou, teria tentado o problema, na opinio do estheta brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretao da Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em scena a aco do seu obscuro poema lyrico. A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se com as proprias armas. * * * * * Que o autor da _Talitha_, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a liberdade de escrever um drama em verso, frma litteraria que est totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa. outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das anteriores: a critica vesga e no sabe o que diz. Do theatro moderno ainda no foi banida a frma alta e pura do verso: semelhante vandalismo seria uma violencia feita arte, belleza, ao bom gosto, suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem naturalmente todas as manifestaes da vida e a linguagem da poesia do metro e da rima, a altissima elegancia. Moderno Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em verso: _Esmeralda_, _Burgraves_, _Ruy Blas_, _Cromwell_, _Torquemada_, _Grandmre_, _L'pe_, _Mangerontils?_, _Sur la lisire d'un bois_, _Les gueux_, _tre aim_, _La Fort-mouille_. Modernos so Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramas _Garin_, _Jean Dacier_ e _Marquis de Kenilis_ que Zola critica asperamente na sua obra--_Naturalisme au Thtre_. Moderno Banville e produziu _Hymnis_, _Riquet la houpe_ e _Socrates et sa femme_, tres comedias em verso. Moderno Alphonse Daudet e entre as suas obras figura _Char_, comedia em verso, em um acto. Moderno Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria: _Les marrons du feu_, comedia; _A quoi rvent les jeunes filles_, comedia; e _La coupe et les lvres_, drama, todos em verso. Moderno Ed. Pailleron e no seu theatro figuram _Narcotique_, comedia em um acto, e _Hlne_, drama em quatro actos, ambos em verso. Moderno Ludovic Halvy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso, a _Phryn_ e _Nina, la Tueuse_. Modernissimo Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas peas. So em verso: _Cige_, _Paul Forestier_, _Homme de bien_, _Aventurire_, _Gabrielle_, _Joueur de flte_, _Philiberte_ e _Jeunesse_. Moderno Catulle Mends e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em verso, _La Part du Roi_, em um acto; em 1888 fez representar a sua formosa phantasia, tambem em verso--_Isoline_, em tres actos; e em 1889 produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos--_Fiammete_; em 1906, punha em scena no Odon, o seu drama _Glatigny_, tambem em verso. Modernissimo Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comdie Franaise o seu _D. Quichote_, em verso. Modernissimo tambem Andr Arnymede, que em 1906 assombrava a critica parisiense com a representao triumphal de _La Courtisane_, em cinco actos e em verso. Modernissimo Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos sensacionaes do Paon que subiu scena na Comdie Franaise. Modernissimo Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro actos de _Embarquement Pour Cythre_, no palco do Theatro des Bouffes Parisienne. Modernissimo Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta da _Porte St. Martin_, os soberbos alexandrinos da _Majorlaine_, em cinco actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis da _Reine de Tyr_, no theatro Sarah Bernhardt. Moderno Franois Coppe, e em 1878, em collaborao com Armand d'Artois, produziu o drama em cinco actos _Guerre des Cent ans_; em 1879, _Le Trsor_, comedia em um acto; em 1881, _Madame Maintenon_, drama em cinco actos e um prologo: em 1883, _Severo Torelli_, drama em cinco actos; em 1885, _Les Jacobites_, drama em cinco actos; em 1880, _Le Passant_, em um acto; e em 1888, _La Grve des Forgerons_, em um acto, e em 1905, _Scarron_, em cinco actos: e todos esses trabalhos so em verso. Rostand escreveu todos os seus dramas em verso: _Princesse Lointaine_, _Romanesques_, _Cyranno de Bergerac_, _Samaritaine_, _Ayglon_ e ultimamente os tres primeiros actos do _Chant-clair_... Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo genio de Sarah Bernhardt, _Les Boufons_, em verso alexandrino, obra prima que a critica europea colloca, seno acima, ao lado do _Cyrano_. E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou de uma outra obra prima do talento de Catulle Mends, em soberbos alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitula _Sainte Thrse_. Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historica _Strafford_ e os dramas _Mancha no Brazo_ e _Regresso dos Deuses_, todos em verso. Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos da _Filha de Jorio_, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumento _Francesca da Rimini_, em verso, como em verso havia escripto pouco antes o seu extraordinario _Nerone_, o genio brilhante de Boito, e Cavalloti o seu formosissimo idylio _Cantico dei cantici_, em 1882. Na Hespanha, deixando de parte o _D. Juan Tenorio_, de Zorrilla: o _Trovador_, de Gutierres; a _Roda de la Fortuna_, de Thomaz Rubi, todos de 1850: Hartzemburch produziu mais recentemente _Los Amantes de Terruel_; _Alfonso, el Casto_ e _La Madre de Pelagio_, e Echegaray o seu conhecidissimo _Gran Galeoto_. E todos esses dramas so escriptos em verso. Em Portugal, Joo de Deus, o lyrico sublime, escreveu _Horacio e Lidia_; Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor da _Belkiss_ e de _Constana_, acaba de publicar o _Annel de Polycrates_; Henrique Lopes de Mendona, o _Duque de Vizeu_ e a _Noiva_: Fernando Caldeira, a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_; Marcellino de Mesquita, a _Leonor Telles_; Julio Dantas, a _Ceia dos Cardeaes_; Francisco Palha, a _Fabia_; Luiz de Magalhes, o _D. Quixote_, os dois ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; smente para citar os escriptores da actualidade, deixando de parte _O Cato_ e a _Merope_ de Almeida Garrett e o _Cames_, de Antonio Feliciano de Castilho. Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonalves de Magalhes, o _Olgiato_; Arthur Azevedo, o _Badejo_; Zeferino Brasil, o _Outro_ e Coelho Netto, _As estaes_. A critica, portanto, ou ignorante ou mentiu propositalmente. * * * * * Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepo: o verso em theatro s se admitte para as tragedias historicas. Outra cincada. Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_ que nem so tragedias, nem tem filiao alguma historica. Na Italia, Cavallotti legou lilteratura dramatica um primor de lyrismo: o _Cantico dei cantici_ que no tragico, nem historico. Em Frana, Catulle Mends escreveu, em verso, os tres actos de _Isoline_ e os seis do _Fiammette_ que nada tem a vr com a historia, nem com a tragedia. Franois Coppe produziu _Le Trsor_, _Le Passant_, _La Grve des Forgerons_, todos em um acto e que no tem a minima relao com a tragedia, nem o menor vestigio de historia. No Brasil, o _Badejo_, de Arthur Azevedo, uma comedia, o _Outro_, de Zeferino Brasil, um drama; _As estaes_, de Coelho Netto, uma phantasia, todos em verso, sem relao alguma com a historia ou com a tragedia. A critica indigena appartient ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande oeuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil et ne trouvent pas le temps d'crire la grande oeuvre. La vie se passe, l'ge arrive, ils restent des debutants. Zola, _La critique Contemporaine_, pag. 351. Entretanto, Ren Doumic, um mestre da critica, escreve na _Revue des Deux Mondes_: Je voudrais seulement que les potes qui se sentent une vocation d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succs ne peut tre obtenu par eux, la scne, qu'en nous narrant des histoires romantiques ou des feries. E Gaston Sorbets concle: M. Ren Doumic assurment raison: la poesie dramatique est faite anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre coeur ou les aspirations les plus hautes de notre me. Il suffit de voiler de poesie la Verit nue pour faire de cette divinit une muse nouvelle. Deixemos vociferar os maldizentes: ns ficamos com os criticos que sabem sentir e... lr. * * * * * Os zoilos que se lanaram modestissima _Talitha_, censuraram ao seu autor o atrevimento inaudito de no observar a regra do Theatro francez de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades. Mas a critica, absolutamente no tem competencia para impr aos escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam, as leis e as regras da arte poetica franceza. Se a obra d'arte portugueza ou brazileira, o auctor no se submette s leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes. E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor da _Talitha_ affirma: no ha poeta algum na lingua de Cames, quer no theatro, quer fra delle, que obedea s exigencias das prescripes francezas, que, alis, o proprio Corneille, invocado pela critica, no seguiu nem adoptou na _Imitation de Christ_: Le desir de savoir est naturel aux hommes: il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec eux mais, Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes, que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux? Liv. I, Chap. II. Vanit d'entasser richesses sur richesses, Vanit de languir dans la soif des honneurs, Vanit de choisir pour souverains bonheurs de la chair et des sens les damnables caresses. Liv. I, Chap. I. Vraiment grand est celui qui dans soi se ravale qui rentre en son nant pour s'y connaitre bien, qui de tous les honneurs que l'univers tale craint la pompe fatale, et ne l'estime en rien. Liv. I, Chap. III. Victor Hugo, o mestre supremo, tambem no obedeceu invariavelmente a esta regra que a critica pretende impr dogmaticamente, como immutavel. Vejamos na _Esmeralda_, acto I: Nous irons au clair de lune danser avec les esprits... Vive Clopin, roi de Thune! Vivent les gueux de Paris! Au milieu de la ronde infame qu'importe le soupir d'une ame? Je souffre! oh! jamais plus de flamme au sein d'un volcan ne gronda. Em _La Fort mouille_, Scene II: Les moutons promis aux fourchettes Passent l-bas; j'entends leurs voix Sonnez, clochettes, au fond des bois. Le beau Narcisse est en manchettes; Silne a mis toutes ses croix. Rostand, o impeccavel, na _Samaritaine_, tambem no se subordinou absolutamente a essa regra, como se v logo na primeira scena: Pouss par la brise des nuits, et vagabond jusqu' l'aurore, je viens pour des fins que j'ignore, comme un fantme que je suis. D'une sandale sonore je viens, je glisse et je m'enfuis... Mais, Jehovah que j'adore! quelle est cette grande ombre encore qui se tient debout prs du puits? e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compe de cento e nove versos. E para que no diga a critica perversa que n'esses exemplos no ha alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V, em que Photina declama: Mon bien aim--je t'ai cherch--depuis l'aurore, Sans te trouver,--et je te trouve,--et c'est le soir; Mais quel bonheur!--il ne fait pas--tout a fait-noir: mes yeux encore pourrent te voir. e assim por toda a _fala_ de Photina, gue se compe de mais de vinte nove versos. Na lingua portugueza, porm, no ha um poeta sequer que obedea regra da metrica franceza, nem no drama, nem no poema. Junqueiro, na _Morte de D. Joo_, na _Musa em ferias_, na _Velhice do Padre Eterno_, na _Patria_, ou nos _Simples_ usa indistinctamente as rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas. O pensamento humano mergulhou como um Deus nas grutas do oceano, embebeu-se no azul, andou pelo infinito, interrogou a historia, os ventos, o granito, todas as creaes, todas as creaturas, vermes, religies, abysmos, sepulturas, e disse-nos: Jesus, Socrates, Plato fallaram a verdade. Existe uma raso, uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea, que rege o movimento e as formas da materia... _Morte de D. Joo._--Introduco, pag. 31. * * * * * Hediondo! assassinar um homem que assassina! Collocar o direito ao p da guilhotina. Resolver a questo do crime--um cemiterio! Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio! Um carrasco de guarda nossa segurana! O peloto--juiz e o tribunal--vingana! E uma coisa que indigna, um facto que comove, que quasi ao terminar o seculo dezenove pensem como Marat, pensem como Cain as leis no velho mundo e o tigre em Bombaim! _Musa em frias_; Idilios e Satiras, pag. 137. Julio Dantas, o brilhante poeta da _Ceia dos Cardeaes_ tambem no adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar. Xerez. Roma! Roma que viu, pela primeira vez, Beneditto XIV, um papa,--a receber Conselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire! ............................................ As cartas de Voltaire, honram! ... natural fala como francez. ... Fala como cardeal! ............................................ Mas perdo... No ser politica de mais para uma ceia alegre? Emfim trez cardeaes no salvam Roma... Como se v, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos. E esse arrojo do eminente poeta portuguez no impediu que a _Ceia dos Cardeaes_ tivesse oito traduces em allemo, francez, italiano, hespanhol e no dialeto catalo, nem evitou que fsse representada mais de quatrocentas vezes. Entre os poetas brasileiros bastar citar dois nomes de primeira grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette exigencia franceza da critica indigena. A _Cruz da montanha_ do primeiro um poemeto de 126 alexandrinos. Em toda essa obra prima no ha dois versos agudos e apenas se encontra uma parelha de esdruxulos. Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composies como--_A Enchente_, com 76 alexandrinos; a _Lagarta_, com 124 versos de vario metro, onde apenas ha 14 rimas agudas: _Atmo_, com 88 alexandrinos, entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo. * * * * * _Asceno perigosa_, de Goulart, uma poesia composta de 44 alexandrinos, dos quaes apenas quatro so esdruxulos e nem um agudo. _Apocalypse_ formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, smente dois esdruxulos. * * * * * E a razo simples, natural, formidavel: o idioma francez abundantissimo de agudos e o portuguez , relativamente, pauperrimo. Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e ftua pretende impr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas agudas e o poeta incidiria na repetio das consoantes, o que constite o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica. Alm disso, os francezes no conhecem as palavras esdruxulas, ao passo que a lingua vernacula riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e Racine, os poetas lusitanos e patricios vr-se-iam obrigados a escrever alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas, graves e agudas, o que seria, alm de fatigante e exhaustivo, de um rebuscamento torturado, monotono, somnolento. O obscuro autor da _Talitha_ preferiu deixar expandir-se naturalmente o pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a rima j de si so condies impostas pela exigencia artistica, apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel, equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na aco dramatica. O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente seguida por outros poetas modernos--o emprego alternado de dois agudos e dois graves, no evita a monotonia, principalmente quando se traduz o pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida real ninguem se exprime por essa frma. Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas no so excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo. O proprio autor da _Talitha_ verificou praticamente o que acaba de affirmar quando escreveu a _Viso de Colombo_, em um acto, obedecendo systematicamente regra da poetica franceza e emparelhando os alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a extenso do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, sem repetio de rimas. Ramalho Ortigo ensina: no so as academias que pautam as proposies e os limites da creao artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte no um producto de escola: a livre expresso individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibrao nova de sentimento. A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percusso ella determina. Op. cit., pag. 145. Adherbal de Carvalho doutrina: no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso. A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppresso de regras no racionadas: liberdade fecundidade. Op. cit., pag. 282. E depois d'essas duas sentenas, atreve-se o autor da _Talitha_ a perguntar critica indigena como ser possivel arvorar em preceito obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e Corneille, quando a tendencia moderna para supresso da rima e para a cultura extremada do rythmo no verso branco? A falla de _Cacambo_ e o episodio da morte de _Lindoya_ no _Uruguay_ de Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: o _Colombo_ de Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, na _Harpa do Crente_ deixou primorosos lavores em verso solto. Anthero Quental, cujas _Odes modernas_ arrancaram a Michelet uma soberba exploso de espanto Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta das _Odes modernas_, Portugal continuar a ser um grande paiz vivo. Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco. E para no fallar na _D. Branca_ de Garrett, todo escripto em versos soltos, bastar citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira: _Ara_ e _Raiz_, demonstrao brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende a desapparecer cedendo liberdade do pensamento. O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica, escreveu: Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem elasticidade, sem vibrao, se assim o podemos dizer, teem o que quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como os graves nos apparecem, sem nos canarem: demais por isso mesmo que os vocabulos agudos so menos frequentes, d'ahi tiram os versos agudos um quid de exhibio e exquisitice que no parece frisar seno com as idas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas. Do expendido por boa razo se infere: l. que em toda e qualquer especie de metro so os versos graves que devem, predominar. A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor da _Talitha_ adopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos em parelhas alternadas. O autor da _Talitha_ no adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes Junqueiro, Feij, Luiz de Magalhes, Lopes de Mendona, Julio Dantas, Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonalves Crespo, Marcellino de Mesquita, Fernando Caldeira que no a observaram, nem se submetteram lei de Corneille e Racine, e, o que tudo, do proprio Antonio Feliciano de Castilho que no adoptou a regra franceza na composio dos alexandrinos emparelhados. Isso em Portugal, porque no Brasil o autor da _Talitha_ encontra apoio para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de Andrada, Martins Fontes, Guimares Passos, Luiz Murat, Machado de Assis, Valentim Magalhes, Lucio Mendona, Oscar Lopes, Pereira da Silva, Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho Netto que no consideram a technica franceza como adaptavel ao verso portuguez, se bem que discretamente observem a opinio de Castilho, relativamente proporo das rimas agudas e graves. Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da primeira infancia, ha de permittir que o autor da _Talitha_ prefira as autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de autoridade litteraria, no chegou ainda se quer categoria de trintanario do _Pegaso_, na estrebaria de Augias. * * * * * A critica indigena censura a pobreza de rima da _Talitha_: no tem razo. A _Ceia dos Cardeaes_ uma obra prima: assim o prgou a critica, assim a considera a opinio. Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da _Talitha_ compe-se de 492. A _Ceia dos Cardeaes_ tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da _Talitha_ dispe de 127 rimas differentes: a proporo naquella de 5%, nesta de 25%. Na _Ceia dos Cardeaes_ ha apenas 31 rimas que no foram repetidas; no 1. acto da Talitha ha 80. Na primeira, a obra prima, essa proporo de 9%, na _Talitha_, a condemnada, a proporo de 17%. A critica indigena tem cabellos na lingua e fel no corao. A _Samaritana_ a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica europea, assim a julga o proprio poeta. O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos. Pois bem: entre esses ha 322 repeties, apenas em 17 rimas. Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que pobreza ou riqueza de rima. A opulencia de rima pde ser exigida em composies poeticas esparsas, que no tenham grande extenso, mas em um poema dramatico essa exigencia da critica despotica, absurda, principalmente quando os personagens que o movimentam so da especie daquelles que figuram no entrecho da _Talitha_. Collocar nos labios de _Joaquina_ versos de rima escolhida, apurada, sem repeties de termos que andam constantemente na conversa commum, substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, smente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo rimador, o sentimento pela paciencia. A opulencia da rima importaria necessariamente na elevao da linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa frma o que j condemnra, considerando alcandorada em demasia para personagens de aldeia a linguagem que o autor da _Talitha_ confiou a cada um d'elles. Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras so simples, corriqueiras; o vocabulario dos aldeos pouco extenso e tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto da vida, pde-se dizer, um termo que no se substitue, um conceito consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros termos, em phrase diversa, no comprehendido. O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o notavel mestre da lingua vernacula, Snr. Jos Verissimo, doutrina superiormente: O grande escriptor em todas as linguas o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, no s do povo--que realmente pobre--mas da litteratura do seu tempo. Citao de Elysio de Carvalho no livro--_As modernas correntes estheticas_, pag. 27. Em taes condies, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, quanto possivel, as condies normaes da vida e do personagem, attribuir a este a expresso dos seus affectos, das suas dres, das suas alegrias, dos seus desejos ou das suas esperanas, por meio de palavras em rima opulenta, ser desnaturar o personagem, ser mentir realidade, ser phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, no creou na vida real. Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem pde e deve ser alcandorada sem inverosimilhana, os personagens vem distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que substituem toda a realidade objectiva. A admirao, a f e a idolatria pdem crear os maiores absurdos: Esopo, Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, terso, brilhante, sonro, de rima opulentissima. Zola escreveu: C'est, je le rpte, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est l en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y chapper a toutes les realits de ce bas monde. .................................................................. Jamais les auteurs ne se trouvent acculs par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille. .................................................................. La comdie et le drame, au contraire, sont tenus tre vraisemblables. Zola. _Le Naturalisme au thtre_, pag. 357, 358. Mas Joo de Deus, que foi em Portugal a mais completa encarnao do lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupaes estylisticas visando erudio, que foi sentimento singelo, o amor, esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida simples e estylo simples, Joo de Deus que cantou a simpleza rural da sua terra, a alma dce do povo e dos campos, esse que o lyrico mais portuguez como considera Fidelino Figueiredo, um grande scismador e um grande artista, que no tem artificios na sua poesia, singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creana, suave e consoladora como uma parbola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Plato, no dizer profundo de Alexandre da Conceio, Joo de Deus no se preoccupou com a opulencia da rima, nem mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um acto _Horacio e Lydia_, romana pelo assumpto, grega pela technica. Ora, a _Talitha_ composta de 1873 versos de varios metros, predominando o alexandrino. Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor da _Talitha_ reservou as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura a _Ode s Arvores_, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compe de 312 alexandrinos, e no tem sequer uma rima repetida, alm da grande abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima conhecida. Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos d'esse evangelho so indigentes de rima, nota que no 2. acto a palavra enferma rima com erma e no 3. acto tambem enfermo rima com ermo. E o zoilo exclama: Para _Enfermo_ o poeta encontrou apenas a rima _ermo_, uma rima pobrissima. Mais pobre de espirito o critico. A _Talitha_ compe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente encontrou a rima em _erma_, ainda assim uma vez no masculino e outra no feminino, e fulmina a censura: o poeta s encontrou a rima _ermo_ para _enfermo_, rima pobrissima. Ignorante, perverso, futil, ou lorpa. Pois bem, o autor da _Talitha_ consultou os diccionarios de rima de Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e para _enfermo_ apenas encontrou _ermo_, _termo_ e _estafermo_. As duas primeiras foram applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto. Quanto terceira--_estafermo_--o poeta da _Talitha_ s a poderia utilizar se fizesse referencia ao critico. Para agradar sua opinio e corresponder sua exigencia, o zoilo pretende que o autor da _Talitha_ deveria forgicar palavras, neologismos, smente com o fim de no repetir a rima! Mas se essa rima pobrissima, que culpa tem o autor da _Talitha_, se a lingua apenas lhe faculta, alm dessa, mais duas, uma das quaes pertencente ao calo? Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima de _enferma_ _erma_; no terceiro acto palavra _enfermo_ foi dada a rima--_termo_. 2. acto, pag. 64: seria bem melhor que cuidasse da enferma, que vive ali no escuro abandonada e erma 3. acto, pag. 89: de acudir pressuroso ao leito dum enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termo d'uma longa existencia... Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: mentira. * * * * * Por ultimo a critica indigena censura o autor da _Talitha_ por ter escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente, no terceiro, a _marqueza_, me da heroina. E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que apparea tambem o Pae de _Talitha_. O autor no teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo mais dois actos para apresentao da sogra de _Talitha_, se tambem a critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, no houvesse solicitado a redaco dos tres actos simplesmente aos dois primeiros para que esse obscuro trabalho seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais o milagre e a orao; assim _Talitha_ ser um primor litterario... Critica da _Tribuna do Rio_. O drama magnifico. E porque no dizer o melhor drama que se tem escripto no Brazil? Critica da _Gazeta de Noticias_, do Rio. Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha do a quem os ouviu a satisfao rara e salutar que s produzem as obras de arte, erguidas severamente com a segurana de que s capaz a sinceridade. Critica do _Paiz_, do Rio. ...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na pea, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura. ... pois nao ha muito disso por toda essa America afra. Arthur Azevedo--Critica da _Noticia_, do Rio. critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixo politica, o autor da _Talitha_ contrape a critica da imprensa do Rio. Ser vaidosa a citao d'essas opinies, mas o obscuro autor da _Talitha_ tem orgulho do seu trabalho e esse orgulho como a soberbia das mes que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os no corao como as imagens incomparaveis da suprema formosura. A _Talitha_ no ser brasileira porque o assumpto e os personagens so portuguezes; no ser portugueza porque o seu autor no teve a felicidade de nascer em Portugal, mas... Mas a _Talitha_ mais que portugueza, mais que brazileira, humana. Mas a _Talitha_ minha... o producto do meu espirito, do meu trabalho, filha da minha mocidade... modesta, pauperrima, e futil, mas minha. E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada; pde viver noventa annos, como Srah, no haver Abraho na terra que lhe arranque um Isaac das entranhas... Os zoilos so admiraveis, sabem tudo e no fazem cousa alguma. Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do co; desde a constituio intima da familia grandeza fulgurante da historia. Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com o typo legendario do gacho, a formosura das mulheres inspirando os altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que d o aspecto profundo alma do povo, a vastido das campinas que modela a franqueza limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo isso a critica dos zoilos conhece... _ merveille_. Sabe ella que o verso est banido do theatro moderno e s admittido nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser emparelhados maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas; sabe ella que o rythmo do verso no deve ser apenas o junqueireano para evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor s exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir no so os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac: que os modelos acceitaveis so Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente. Alm disso a critica tem talento, tem erudio, tem admiradores, tem bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro publico, tem o apoio da sociedade, no sabe o que seja a amargura da lucta pela existencia... Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flem, os annos se succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e no produz absolutamente nada. Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a colorao garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o figurino do fato, empanturrando-se da leitura _ la diable_, maldizendo do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos alveja, fere, offende e babuja. Vive para gozar e maldizer. A critica indigena dos zoilos como o Sahra: esterilidade completa, beduinos e camellos. caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel. Pinto da Rocha Livraria Chardron De LELLO & IRMO RUA DAS CARMELITAS, 144--PORTO GARCIA REDONDO Salada de fructas, 500 Atravez da Europa, 500 Cara alegre, no prlo A mulher--manias e cacoetas, no prlo MANOEL ARO Transfigurao, 1 vol., 1$000 COELHO NETTO Esphynge, 600 Serto, 600 Agua de Juventa, 700 A Bico de penna, 700 Romanceiro, 500 Theatro, 400 Jardim das Oliveiras, 500 Quebranto (theatro), 1 vol, 800 Fabulario, 500 Miragem, romance, 1 vol., 600 Apologos, no prlo F, no prlo Theatro, 1. vol., no prlo Mysterios do Natal, no prlo JOO GRAVE Os famintos, 500 A eterna mentira, 600 O ultimo fauno, 500 O Passado, no prlo SHAKESPEARE Sonho d'uma noite de S. 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