Produced by Pedro Saborano MANUEL DE MORAES CHRONICA DO SECULO XVII POR J. M. PEREIRA DA SILVA RIO DE JANEIRO B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR 69, RUA DO OUVIDOR, 69 PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7 1866 MANUEL DE MORAES VENDEM-SE AS SEGUINTES OBRAS DO MESMO AUTOR NAS CASAS MENCIONADAS EM PORTUGUEZ: HISTORIA DA FUNDAO DO IMPERIO BRAZILEIRO. 6 vol. in-8. VARES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIAES. 2 vol. in-8 2. edio. OBRAS POLITICAS E LITTERARIAS, Discursos parlamentares, Viagens, Reminiscencias, Poesias, etc. 2 vol. in-8. JERONYMO CORTE-REAL, chronica do seculo XVI. 1 vol. in-12. EM FRANCEZ: SITUATION SOCIALE, POLITIQUE ET CONOMIQUE DU BRSIL. 1 vol. in-12. LA LITTRATURE PORTUGAISE, son pass, son tat actuel. 1 vol. in-12. PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMO RAON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1. MANUEL DE MORAES CHRONICA DO SECULO XVII POR J. M. PEREIRA DA SILVA RIO DE JANEIRO B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR 69, RUA DO OUVIDOR, 69 PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7 1866 DUAS PALAVRAS AO LEITOR Encontra-se na _Biographia luzitana_ do abbade Diogo Barbosa uma succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em So Paulo (Brazil), pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma _Historia da America_, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pr da acclamao d'el-rei D. Joo IV, publicada em Leyde (Hollanda), no anno de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta una pergunta de un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_; condemnado pelo tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de f de 6 de Abril de 1643, por apostata da religio catholica, e casado com mulher schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer de varias tradies; pela violencia, conforme outras no menos procedentes. Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu _Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro_, accrescenta que pertencra companhia de Jesus em So Paulo, e fra garroteado no auto de f de 15 de Dezembro de 1647. Outros escriptores, que procurro lembrar-lhe tambem o nome, e ns particularmente no supplemento annexo obra dos _Vares illustres do Brazil durante os tempos coloniaes_, repetro smente o que avanra o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos logrro mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido. Parece pois evidente que se no poder jmais esboar um estudo biographico e regular cerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos de um varo to distincto, e cuja existencia todavia incontestavel. No desejo porm de torna-lo conhecido dos leitores, e de pr a limpo a sua original e extravagante personalidade, traamos proceder em relao ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legro todavia menos incompleta os autores passados. A chronica de Cortereal ter assim uma imitao na de Manuel de Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nao e da sociedade portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastio at o jugo castelhano. Encerrar esta a descripo dos successos occorridos durante o seculo XVII em So Paulo e nas misses jesuiticas de Guayr; em Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na emigrao dos judos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento da Inquisio. Confundir-se-ho no mesmo quadro a historia real e a imaginao aventureira. No este o ramo mais popular da moderna litteratura, a formula mais estimada pelo publico da actualidade? MANUEL DE MORAES CAPITULO PRIMEIRO Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous pontos mais interessantes da provincia; e lanar os seus olhos curiosos sobre a capital, assentada doce e preguiosamente nos cimos de serras altanadas, que affronto os ares; bafejada por uma atmosphera encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os lados como uma habitao aerea; coroada de torres de igrejas e de edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confuso do firmamento; regada aos ps pelo riacho Tramandatahy, que a pequena distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas claras e boliosas no seio do rio Tiet, assemelhando-se j na infancia a um monarcha poderoso quando o assorberbo as copiosas torrentes das chuvas: no pde ao certo imaginar o que fra esta povoao nos primeiros annos do seculo XVII. O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm do Cabo de So Thom para o sul at encontrar as ultimas cincoenta leguas reputadas pertencentes cora portugueza, e que havio sido concedidas a seu irmo Pedro Lopes de Souza, edificra o arraial de So Vicente, beira do mar, povora-o de gente laboriosa e aventureira, e passra aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas que encontrassem pelo caminho. Seguio-se a So Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel navegao e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se avistavo, descobrro os Portuguezes planicies immensas e uberrimas, que se estendio voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundro ento ahi a povoao de So Paulo, perto das tabas e residencias da tribu de Tyberi, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e acolhra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que pela parte do Norte commettio assaltos e depredaes incessantes, roubavo e assassinavo os vizinhos sem piedade e nem commiserao, e aterrorisavo com as suas faanhas as raas mansas de Carijs, e Goyanazes, que possuio as terras e florestas da parte meridional da capitania hoje denominada provincia de So Paulo. No se tinho ainda derribado as mattas poderosas, que cobrio o solo, e negavo caminho. No se havio vencido ainda as correntes rapidas e desordenadas dos arroios, que cortavo as communicaes com o largo e fundo das suas aguas possantes. No se encontravo ainda pousos e ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. No estavo ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e jardins, e enfeitadas de flres cheirosas, que alegro os sentidos, e extasio com douras ineffaveis. No apparecia ainda o pittoresco arraial de So Bernardo, brilhando como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos. Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da eternidade, at que se chegasse povoao de So Paulo, fulgurava a s natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extenso dos seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos. Traro-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios da solido. Transpunho-se os arroios a nado, as catadupas com pos agrestes e mal afeioados, que se destruio e atiravo por cima d'ellas para servir de pontes de passagem. Desperdiavo-se dias e noites inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o cho humido, ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario imaginaria n'essa poca que uma estrada de ferro, movida pelo vapor, levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a So Paulo, domando a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento! Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas, esplendores e primitiva magnificencia das localidades, no resplandece porm nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de encantos e vos admiraveis, posto diametralmente differentes? No possuia a povoao de So Paulo nos primeiros trinta annos do seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes, mamelucos ou mestios de branco e gentio, mulatos e pretos escravos. Ero pela maior parte as habitaes simplices choupanas, cobertas de telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e no mais de trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas ruas traadas sem o nivellamento preciso do solo exigio degros para subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos ps pelo riacho Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada, erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie, que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de larangeiras, jaboticabeiras, e varias arvores fructiferas pela quebrada do outeiro at as margens do arroio, e encostada igreja do Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e um cemiterio j bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praa irregular bem que espaosa. As varias classes dos moradores se differenavo igualmente pelos costumes e tendencias. Empregavo-se os escravos nos trabalhos infimos e agricolas. Dedicavo-se os Portuguezes nascidos na Europa ou j no Brazil ao commercio e industria, construco e edificao de propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos defendio a povoao. Algumas ordens monasticas possuio j conventos. Mais numeroso e importante se manifestava porm o Instituto de santo Ignacio de Loyola, ao qual respeitavo as proprias autoridades civis e militares, em obediencia s ordens terminantes e rigorosas que lhes chegavo da metropole europa, recommendando-lhes todo o apoio e proteco aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da catechisao dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se reputavo os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobia dos Portuguezes, que chegavo povoao nos desejos e ancias de correrem atrs de minas de ouro e prata, que dizio existir para as partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Per, e de guerrearem os gentios salvagens, que se reduzio ao captiveiro, segundo as leis existentes, quando apanhados smente nos combates, ou convencidos de crimes. Formavo os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa, devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios, agricultores, musicos e cantores. Apprendio todos os officios, e gostavo de procisses religiosas, festas nos templos e solemnidades apparatosas. Veneravo e obedecio aos padres da companhia de Jesus como a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos tutelares. Ouvio-lhes os conselhos, attendio-lhes aos sermes e predicas, assistio nas suas escolas s lies da lingua e grammatica portugueza, s explicaes do catechismo romano, e ao exercicio do canto e musica, com que particularmente os deleitavo os jesuitas, alimentando-lhes a f, e moralisando-os convenientemente. Applicavo os filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos instrumentos sonoros, e ao servio religioso. Estava a capitania de So Vicente dominada ainda pelos herdeiros do donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha, conhecidas pelos titulos de locotenentes e capites-mres. Prestavo todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se considerava direco politica. No ero raras as lutas em que se envolvio os jesuitas contra as pretenes dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos quantos gentios apanhavo, ainda que as leis no consentissem o captiveiro seno em casos particularisados. Timbravo os padres em defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fros de homens livres. Bastantes conflictos travavo igualmente no intuito de livrar os gentios de attentados e malversaes, que soo praticar os conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades. Valio-lhes o respeito que incutio em animos ignorantes, as crenas catholicas da poca e que chegavo ao gro de superstio, e das quaes os jesuitas se aproveitavo, e o apoio igualmente que prestavo aos padres as autoridades da colonia. Como se alvoroava a populao de So Paulo ao receber noticias de Portugal e Hespanha, unidos ento sob o sceptro dos Felippes de Castella? Quantas dres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas genuflexes perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se havio apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo aps do territorio de Pernambuco, ameaando submergir o Brazil no pelago das calamidades, com levantar sobre as ruinas da religio romana o frio e schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudio povos dos arredores de So Paulo, e corrio todos os moradores, guiados pelos jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e salvao, misturando-se as imprecaes e lagrimas de gentios, mamelucos, brancos e escravos, que batio nos peitos amarguradamente, se infligio castigos corporaes, e apegavo-se aos santos do calendario para lhes conseguir proteco e piedade! Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do mez de Abril de 1628, descro dous vultos o outeiro em que estava situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy. Cobrio-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava j os seus annos para alm do numero de quarenta. Comeava-lhe a cabea a embranquecer e calvejar, cahindo-lhe os cabellos proporo que perdio a cr primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos agradaveis apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o co, e fixava-os a miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto, vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, novio ainda da companhia. Dir-se-hia porm triste, abatido, acurvado por alguma dr do espirito, e mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversao regular e sria. Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumira, por detrs dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clares, que vago indefinida e indecifravelmente depois ainda que o rei dos astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima. Suave virao brincava com as folhas das arvores, perfumando e refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes do sol. De um para outro lado saltavo pelo cho timidas rolinhas, fugindo aterrorisadas sempre que ouvio o menor sussurro, e parecendo procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que encontravo. Soro sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havio j approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirro immediatamente da cabea os seus grandes chapos de abas largas, e cortro toda a conversao para dirigir preces ao Todo Poderoso e benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mo do mancebo, e disse-lhe com pausa estudada: --Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o servio da religio e da companhia? --No me inspira vocao nenhuma para o estado,--respondeu-lhe o joven, tentando beijar a mo do jesuita, o que este lhe no permittio.--No dirige Deos a creatura humana?--continuou depois de alguns momentos de repouso.--Se me no concede vontade e dedicao porque me destina para outros fins. --Sers desgraado, filho!--retorquio-lhe o padre.--Deos no quer violencias. Recommenda apenas a convico para chamar ao gremio da Igreja as ovelhas extraviadas. D-lhes o livre arbitrio, para ficarem responsaveis das suas intenes e feitos. Mas sers desgraado, porque a Igreja catholica a razo divina, a unica salvao da creatura humana, e no encontrar descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias. --E porque me no depositou Deos no espirito ancias e aspiraes intimas para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que exige o santo Instituto?--perguntou o joven, exaltando-se amarguradamente, e manifestando agitao patente do animo. --Para que saibas domar as paixes que borbulho no homem,--repetio-lhe o velho.--Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os instinctos desregrados da natureza e da juventude. --Que vale a devoo contrafeita?--articulou o mancebo. Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento. Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no intuito de arrimar-se n'elle, levando pelo brao e para perto de si o novio angustiado. --Escuta,--disse-lhe com amenidade.--Eu tambem passei pela tua idade. Eu tambem senti ferver-me no peito paixes desencontradas, como em ti prevejo, e que me incitro e arredro do verdadeiro caminho da felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado, viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sdes, perigos, prises e exilios. Apprendi porm minha custa, ensaiou-me a experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razo, para buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi de corao. Oxal seja Deos bondadoso tambem comtigo, e te manifeste na eternidade a sua infinita piedade! --Deixai-me igualmente gozar da mocidade,--exclamou o joven.--Siga comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco. Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos olhos apezar da firme resoluo que denunciavo as palavras do mancebo. No descobrio maldades aonde apparecia a s exaltao de animo verde e inexperiente. Moveu-o a compaixo, e assomou-lhe igualmente ao espirito a reminiscencia do seu proprio passado. Abraou-o apertada e amigavelmente, e disse-lhe: --No lucra a religio com duvidas e lutas do espirito. No agradece o Instituto de santo Ignacio servios involuntarios. Parte. Manda-me a consciencia que te abene na despedida, e rogue a Deos todo poderoso te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e te abra os thesouros da sua ineffavel graa a tempo de salvar-te dos perigos. Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a beno, que lhe lanou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios olhos humedecio, e lhe rolava pela face, que comeava a enrugar-se, pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da cerca, at que no pde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vo esforo! Desapparecra elle completamente. Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja, prostrou-se ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posio, orando em pr do novio infeliz, que as tentaes do mundo arrancavo vocao religiosa. CAPITULO II Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da povoao de So Paulo o novio que se despedira do padre Eusebio de Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do seculo. Destinra-o seu pai, Jos de Moraes, para a vida trabalhosa de membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais feliz, e posio mais brilhante e grata a Deos e sociedade, que podia descobrir para o filho unico varo que lhe concedra a Providencia. Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casra Jos de Moraes com Ignez das Dres, e o obrigra a pobreza a deixar os lares patrios, e procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira. Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente admirador, empregra-se em lavoura na capitania de So Vicente, e ganhra creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de So Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residio. Alm de Manuel de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dres educava piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais salutares e virtuosas. Entregra o proprio Jos de Moraes o filho querido companhia de Jesus. Confira-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo antigo, e protector decidido. Madrugra no moo o engenho, e nem-um estudante o excedia em penetrao e agudeza de espirito, e em desejos de instruir-se, e aproveitar as lies dos mestres. Merecia as sympathias dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposies e resistencias disciplina e devoes mysticas que soo praticar-se no Instituto dos discipulos de santo Ignacio. Procurra Eusebio de Monserrate acurvar essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o novio manifestava claramente. Nada consegura, como acabamos de referir, e se determinra por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas exhortaes e conselhos. Turvra-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra, prognosticava maiores torrentes, pela escurido que cobria o firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavo na atmosphera carregada de grossas nuvens. Graves cogitaes lhe acabrunhavo todavia o espirito attribulado pela importancia do passo que acabra de dar. Como o acolheria seu pai, ao saber da resoluo que tomra? T-lo-hia previamente scientificado e preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que aventuras lhe ero reservadas, agora que, no pertencendo mais ao Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se atirava no seio da sociedade civil, que no conhecia, mas que a imaginao lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu caracter, e s suas aspiraes intimas, que a communho religiosa, que o acolhra e educra at os vinte quatro annos de idade? Ao descer um outeiro ingreme para subir aquelle em que pousava a casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na extremidade da povoao, ouvio no longe de si, e mais em baixo, por detrs de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios. Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. No tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porm coragem, e no hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partio vozes que parecio pedir soccorro. No lhe prestava a roupeta do jesuita uma fora moral que lhe attrahia o respeito? Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escurido as peripecias do acontecimento. Approximou-se porm de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:--Em nome de Deos, cessai, peccadores! Mais poderosa que a espada foi a exclamao resoluta do novio. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitro a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um s dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo cho, proferindo ais angustiados. Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficra, e agradeceu-lhe a sua salvao. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavo ao mesmo tempo, denunciando a sua gratido, e beijando o habito do novio. --Que succedeu?--perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia affeioar a confiana. --Padre!--disse-lhe o homem mais tranquillo--Sou um pobre carij, e minha filha esta menina. Moravamos ahi,--apontando para uma infima choupana--quando tres brancos arrombro a porta, se atirro sobre a cama de minha Cora, arrancro-na d'ahi, e corrro para a rua, carregando-a nos braos. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra elles com os meus braos por unica arma, que os braos de um pai valem as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles, quando chegastes, e nos salvastes! --E que sangue este?--continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a cabea, a face, e a camisa de algodo. --No nada, meu salvador,--repetio o gentio, chegando os labios mo do novio.--Alguma bordoada que apanhei. No nada, que escapou Cora dos seus perseguidores. --E os conhecestes?--interrogou-lhe o joven. --So perros,--tornou-lhe o carij.--No lhes divisei bem os rostos, mas creio que no passo de uns mos vizinhos brancos, que commettem tropelias em So Paulo, sem respeito s vozes dos santos missionarios, e nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os padres ss nos amparo e protegem! Dirigro os seus passos para o casebre miseravel que servia de habitao ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria communicao para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra. Entrro os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o fogo para uns pedaos seccos de po, que se illuminro em um momento. Vio ento Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis seguidores da religio e frequentadores da igreja da companhia. Trazia camisa e calas de algodo branco. Ps no cho, e o aspecto respeitavel. Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na cintura e com mangas largas e compridas. Cahio-lhe em desordem pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirio luzentes como o verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas pestanas da mesma cr, harmonisavo admiravelmente com o vermelho das faces juvenis, com o delicado dos labios e frmas do rosto, e com o esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro nem soalho de madeira. Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles, deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das duas raas de homens que ahi estavo reunidas na mesma povoao e em face uma da outra, e agradecendo a Deos por conservar ao menos a autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da religio, que assoberbavo felizmente os espiritos de todos, as violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soo os conquistadores praticar contra os desgraados gentios. Volvro-lhe pela mente idas favoraveis ao seu regresso para o seio da companhia, destinada salvao de tantas almas desditosas, e proteco de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos, e menos estragados na religio e nos costumes. Ou o pejo, depois do que havia commettido, ou uma aspirao interna e indefinida, que o arrastava para o mundo, e lhe pesava sobre a razo, ordenro-lhe porm que marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos. Absorvido n'estes pensamentos chegou porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietao na alda. Continuava negro o co, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando j com troves assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta. Bateu docemente com a mo na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um co amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa. No era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinho com a satisfao das necessidades da vida, e at com alguma commodidade. Estava o pai, cuja idade orava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de p, e que parecio ouvir-lhe as admoestaes e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castial de po, formavo todo o seu adorno. Parecia que se terminra a merenda habitual da noite, e que a familia attendia s benos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno. --Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,--disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mos do pai e da mi. --Novidades grandes trazeis-nos,--exclamou o velho, percebendo-o.--A taes deshoras fra do convento! Que desgraas nos annunciais? Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina, e que o impressionou como mo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrra to adheso s felicidades da vida ecclesiastica, e to convencido da misso religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua appario, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias no havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria. Em poucas palavras o satisfez Jos de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavo de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigra, e mostrando-se ancioso por saber a razo da sua visita inesperada. Comprehendeu o filho que a narrao devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. No andava j contente Jos de Moraes com a sua conhecida repugnancia de passar na companhia do gro de novio ao de irmo, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe no abria o corao, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardra desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavo aos ouvidos, e profundamente o irritavo. --Antes de responder-vos, meu querido pai--disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mos com affecto extremoso--Antes de responder-vos, peo-vos me perdoeis! A estas expresses arrancou Jos de Moraes as mos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente: --Que crime commettestes? Preciso sab-lo primeiro, porque Deos me no permitte perdoar na ignorancia! Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contra ao pai, e o no prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendio dar passagem s palavras. Foi mister que Jos de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se no evadisse a declarar-lhe toda a verdade. Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou ento vagarosamente Manuel: --Faltei vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos. Levou o velho a mo fronte despovoada quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflico. Chammejro-lhe os olhos, apertro-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira. --Expulsro-te da companhia?--disse-lhe desesperadamente. --No, meu pai,--tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.--Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo diro todos, que no criei nem-um desaffecto. --Mais criminoso foste ento,--retorquio-lhe o velho--porque lanaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fra do claustro attentados talvez horrorosos. --No, meu pai,--continuou Manuel mais tranquillamente.--Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes. --No te entendo,--repetio-lhe Jos de Moraes, bastante alliviado j do peso horrivel de idas disparatadas que lhe apouquentavo o espirito. --No commetti um crime, meu pai,--proseguio Manuel.--No pratiquei uma aco viciosa. Mas faltei s vossas ordens, e desobedeci vossa vontade, por mais que me esforasse em satisfazer-vos; faltro-me as foras! Embrulhava-se cada vez mais o espirito de Jos de Moraes com estas declaraes singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitra Manuel s ordens e desattendra vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemo? Nem-uma ida lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficra todavia, posto inquieto ainda. Conservava-se como uma estatua a mi enternecida. No fizera um movimento, no proferra uma palavra, no praticra um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrio-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de Jos para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braos a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavo um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinho apossado. --Que fizeste pois?--disse mais pausadamente Jos de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mo que o novio parecia implorar-lhe. F-lo todavia na inteno mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto. --Perdoai-me antes, meu pai,--repetio-lhe Manuel.--Promettei-me o vosso perdo e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido. --Confessa primeiro,--continuou o velho, arredando-se de novo do p do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade. Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o no animar Jos de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagao, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias. Appropinquou-se no entanto de Manuel o co amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soa pelo seu animo de animal fiel e agradecido. --Sahe d'ahi,--gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lanando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o p. Comprehendeu-o o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no cho, posto no tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel. Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperana de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabea e balbuciou pausadamente as seguintes palavras: --No encontrei jmais em mim vocao para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixes, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspiraes que d'ella partio, e me convidavo para outros destinos. No posso pertencer companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto, e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai! --Nunca!--retorquio-lhe o velho com violencia.--Dediquei-te vida dos missionarios para bem teu, servio de Deos, amor da religio e arrimo da tua familia. --Deixei-a j, meu pai!--respondeu o filho.--Esta roupeta me no pertence mais. Estes trajos j no so meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos no quer votos contrarios ao corao e ao espirito. To decididos termos exaltro em demasia o animo irritado de Jos de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo sua declarao com outra mais forte e resoluta: --Foge de minha presena, que te no reconheo mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te ser para sempre fechada! Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mi, que cahio em soluos sobre um banco encostado parede; para as irms, que, como pombinhas diante do caador feroz, se apertavo cada vez mais umas s outras. --Minha querida mi!...--escapou-lhe dos labios uma voz dorida. Procurou a mi acolh-lo, mas trepidou, vista do marido, que com o brao estendido mostrava ao filho a porta da rua. --Manuel!--pronunciou sempre a assustada mi.--Obedece a teu pai, volta para os teus deveres. -- impossivel j, exclamou o novio. --Calai-vos, senhora!--cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava ella pronunciar.-- um homem perdido esse que ahi est. No mais nosso filho! Acompanha-o a maldio do pai e o castigo infallivel do co! No pde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posio dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dres, partida pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a submissa e evangelica resignao de que as ss creaturas celestes se revestem. Levantou-se ento Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos. Intentou approximar-se do pai. Foi com fora repellido. Traou proferir algumas palavras. Impz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo. Chegou-se mi e agarrou-lhe na mo. Saltou Jos de Moraes do seu lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo para a tocar com os labios. --Segue o teu destino, infeliz!--disse-lhe o velho. Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dr do pai, e lhe cumpria smente sahir da casa. Dirigio-se para a porta da rua, e abrio-a. Antes de transp-la porm, volveu-se de novo para os parentes, mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiserao e piedade. Soluos repentinos acompanhro uma voz de despedida saudosa, e de adeos dorido. Pz termo o velho scena, correndo para a porta, e fechando-a sobre o filho, que se achou de fra e no meio da rua. CAPITULO III Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogo. Rasgavo os ares os coriscos e raios que esclarecio ss e momentaneamente a povoao de So Paulo. Enlutra-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha no deixava descobrir caminho. Se no fra o relampago, que de quando em quando commettia a sua appario, ter-se-hia perdido de certo o novio no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas e descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia. De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto, apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado e solitario, quando se achou no sitio a que chamo hoje da Luz, por se ter ahi erguido uma ermida sob a invocao da senhora d'este nome. Apezar do mo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a inundavo, enterrados os grossos sapatos nos lodaaes, que uns sobre outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais, at que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com o qual entretinha a maior intimidade. Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua appario inesperada, e quellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da roupeta de novio, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma refeio, para recobrar as foras perdidas. No excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem robusto j, como se mais adiantamentos ganhra sobre o tempo. Possuia imaginao ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia s e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que minguados recursos lhe havio legado. No se applicva a trabalho ou officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e aborrida a sua existencia no mundo. Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passra, e a situao a que o havio elles arrastado. Chamro os successos do novio as reflexes do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica a posio de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente, procurando meios que do mundo em que vivio os arrancassem para novo destino. Em vez de dormirem, gastro os dous moos o resto da noite em mutuos pensamentos e cogitaes. Reflectio, e discutio sobre o que devio fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando comearo a annunciar-se os primeiros arrebes da madrugada. Passra o temporal, e promettia bonana o dia que se levantava. Conversavo ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvro grandes rumores na estrada. Erguro-se, abrro uma janella que dava sobre ella, e prestro sua atteno a vozes alternadas e s vezes conjunctas, e tumultuosas. Descobrro um grupo de cerca de trinta homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados todos de espadas, faces, clavinotes e espingardas, de mochila s costas, vestes grossas de viagem, calas arregaadas, e largos chapos, ou carapuas espessas. Parra o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e commettendo a maior algazarra. --No ha que fallar mais,--disse um com voz de estentor, dominando inteiramente o barulho...--Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os caminhos, est affeito aos perigos do serto, e devemos obedecer-lhe s cegas. Sem chefe no ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas acclamado para nosso chefe. Seguro applausos repetidos, e gritou a maior parte:--Viva Matheus Chagas! Rompeu ento por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou instrumento cortante. Seguravo-lhe as mos calejadas uma grande espingarda, e um enorme faco lhe pendurava cintura. Enrolado capote velho com mochilas que parecio coldres lhe cobria desformemente as costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em commandante do grupo pelas acclamaes dos companheiros. Agradeceu-lhes a prova de considerao que recebia, e lhes prometteu que, como homem de resoluo, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus destinos. --Amigos!--disse-lhes emphaticamente.--Levar-vos-hei caminho direito ao Per. Muita caa encontraremos nas mattas, e muito peixe nos rios para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e carregaremos ouro e prata que elles l tm em abundancia, sendo mais felizes que Aleixo Garcia, que elles roubro escandalosamente, e matro com tanta barbaridade[1]. No sabeis que o cacique Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de So Paulo que havio l muitas riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que s querio tomar os bens aos gentios e assassinar-lhes os filhos e as mulheres[2]? --Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetiro todos com contentamento cada vez mais estridente e progressivo. --Em ordem pois, e andar para adiante!--continuou o fogoso orador.--D'aqui a trinta leguas comeo os nossos trabalhos. At ento viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrs do po, ataques de jagura de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas no tenhais medo. Eu conheo todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhro ao serto em auxilio de Aleixo Garcia ao capito Jos Sedenho, e de que poucos escapro da refrega[3]. Marchemos, amigos! Reconhecro os dous moos, que presenciavo esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como comeavo a organisar ento os Portuguezes de So Paulo, incitados pela ambio de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro. Posto que nas ss tradies, que se referio a Aleixo Garcia e aos Hespanhes do Per, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havio ainda descoberto os Portuguezes, bastava a ida para lhes fallar cobia, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crena geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a cora portugueza a estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistro, e com que alargro as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoaes, que com o tempo prosperro e augmentro, e abrindo communicaes e caminhos para a beira do mar, aonde havio os Portuguezes comeado a estabelecer-se. Findro seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecro sem deixarem noticias. No os poupavo as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavo, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeas dos prisioneiros, cujos corpos devoravo em banquetes horriveis. Resultro porm no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, populao e riquezas. Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo, e disse-lhe:--No pensas que o co nos mostra o que temos de fazer? Porque no acompanhamos estes homens nas suas exploraes? Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.--V feito,--respondeu,--e j! No gastro tempo em colloquios. Tomou o novio a sua roupeta que seccra, e o seu chapo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na cabea um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que possuia. Promptos para a longa peregrinao, sahro ambos da choupana, cuja porta ficou trancada, e apressro os seus passos afim de apanharem a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante. Ao chegar margem do rio Tiet, logrro os moos encontrar os aventureiros, a cuja empreza pretendio associar-se. Requereu Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas, declarou-lhe a sua inteno e a do seu companheiro. --Hum! hum!--vociferro alguns.--Dous rapazolas, que parecem uns fracalhes, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de trabalhos e de fadigas, e no franguinhos, que iro s incommodar-nos! --Silencio!--bradou Matheus Chagas.--Sou eu quem governa, e aceito a companhia. Teremos assim padre e sacristo! Gargalhadas estrepitosas soro d'entre os aventureiros. Apropriava-se de feito o dito do chefe s vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do novio um rubor subito. Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fra abandonar o intento. Disse-lhe porm baixo Antonio da Costa que no fizesse caso das risotas do grupo, e lanado estava o dado do destino. Concordes assim, seguro todos o seu caminho, acompanhando pela margem esquerda a correnteza do rio, at que em um sitio mais baixo deparro com seis canas de toscas e mal afeioadas madeiras, juntas por amarras de corda, e pregos grossos, como as jangadas modernas das costas do norte do Brazil. Embarcro-se nas canas, desatro-lhes as cordas que as seguravo terra, e largro-nas pelo Tiet, para que as suas aguas as levassem. Rolava o Tiet no seio de planicies admiraveis, povoadas de arvoredos gigantescos, jacarands, louro, gurubus, cabiunas e gabirobas possantes, volteando incessantemente como serpente que se enrosca, recuando, avanando como jogo de xadrez, e lanando assim traos argenteos e limpidos atravs da cr verde-escura das mattas, que o cobrio s vezes com o tecto protector e hospitaleiro dos seus galhos numerosos. Pelos troncos e ramos das arvores corpulentas se atracavo igualmente mil tenues fios de parasitas, scintillando com as cres de suas flres deleitosas, que perfumavo a atmosphera e extasiavo os olhos. Rasgavo os ares diversos e copiosos chilros de pequenos passaros, que se erguio e sumio ao rumor que fazio os viajantes. Alli gemia funebremente a juriti, e mais adiante repercutia o som vibrante da araponga, assemelhando-se ao lavrar dos ferros nas forjas das officinas. Via-se s vezes correr assustada a cotia ligeira, e estridentes risadas dos macacos parecio zombarias de gente que chasqueava a viagem dos aventureiros. Amarravo-se de noite as canas s ribas do rio. Acendio-se fogueiras para seccar a temperatura, e afugentar os animaes damninhos dos desertos. Envolvio-se nos seus capotes os homens da bandeira, e dormio ao ar, e luz opaca dos astros. Levantavo-se alvorada, reganhavo as suas embarcaes, e continuavo a sua derrota. Havio navegado oito dias j com esta monotonia, quando percebro o primeiro salto do rio, cavado entre morros, e apertado pelas suas quebradas. Passro as canas para a terra, e as carregro s costas at vencerem o salto, e collocarem aonde o rio offerecia de novo facil navegao. Formava o salto uma verdadeira e perigosa cascata, pela qual rodomoinhavo e se precipitavo as aguas por entre pedras s vezes agudas, que despedaavo tudo quanto rolasse com a corrente atirada do alto. Exigia esta operao grandes trabalhos materiaes dos aventureiros, que a pericia de Matheus Chagas sabia at diminuir para se no cansarem. No poupavo aves e animaes, que lhes apparecio, roncando de quando em quando na solido o tiro das espingardas disparadas. Apanhavo s tardes e ao cahir da noite, ao anzol, peixes exquisitos que lhes variavo o paladar, e lhes deleitavo o gosto. Jacs, tucanos, pacas e capivaras dos mattos, bagres, e surubis do rio, ero tudo regalos, com que os presenteava aquella magestosa solido dos tropicos. Soou-lhes um dia um assobio agudo e penetrante de animal bravio. No lhe prestavo os aventureiros mais atteno, quando minutos depois echoou um segundo. Levantou-se Matheus Chagas, e fazendo signal de silencio, disse meia voz aos companheiros: --Atraca, e quietos e mudos. Temos, pelo que parece, gentio perto. Cuidado com as tocaias. So finos como ls de cagado, e velhacos como lobos. Encostro as canas margem, e o chefe escolheu tres Carijs, aos quaes incumbio de reconhecer os signaes, e vigiar os sitios. No se demorro os caboclos designados. Entranhro-se logo pelo basto arvoredo, marchando sobre folhas seccas sem que fizessem o menor ruido, enfiando pelos galhos das arvores com geito de animaes silvestres, e avanando com a ligeireza da cora. Chegados raiz de um outeiro, que estava a duzentas braas do sitio em que havio ficado os aventureiros, apromptando as suas armas de fogo para o que dsse e viesse, deitro-se ao cho os tres Carijs, estendendo-se ao correr do terreno. Reinava silencio sepulcral. Nem gritos de aves, ou animaes, nem barulho do rio, ou sopro de vento. Ardentissimo o sol vibrava raios abrazadores, que recolhio ao repouso os entes todos que habitavo as florestas. Applicro os Carijs terra os ouvidos, para que a terra lhes communicasse o que sobre ella se passava em distancia. Em dous livros soem os gentios ler com particular atteno, a terra que lhes noticia o que se passa em torno e at distante d'elles, e o co, aonde descobrem as peripecias do tempo. Depois de um quarto de hora de acurada atteno erguro-se vagarosamente, e a um signal expressivo de um respondro os dous com breve abano de cabea. Examinro ento o terreno, para descobrir que especie de entes o havia pisado. Voltro para junto dos aventureiros com as mesmas cautelas, e dissero ao chefe: --Inimigo est perto. So muitas duzias. --Como o podeis saber?--perguntou-lhes um Portuguez curioso. --Calai-vos--retorquio Matheus Chagas.--Sou eu o chefe, e quem governa. Approximou-se dos Carijs, e indagou a distancia em que pensavo estar os inimigos. --Quatro a seis tiros de frexa--respondro-lhe os Carijs.--Ouvimos debaixo da terra o rumor dos seus ps. Apanhmos no cho os signaes de seus passos. Havio acabado apenas de proferir estas palavras, quando cahio de cima das arvores, no muito longe dos aventureiros, um passaro atravessado por uma frexa produzindo um ruido grande por entre as folhas seccas. Correu para alli um dos Carijs, apanhou o passaro, que reconheceu por uma jacotinga, que entregou a Matheus Chagas. No podia haver mais duvida de que tinho perto de si tribus de gentios selvagens. No era porm Matheus Chagas homem de temer. Habitura-se s correrias e luta. -- tocia tocia,--disse elle.--V o padre fallar-lhes, engana-los, e descobrir-lhes o numero. E digo que o padre nos no serve! Nomeou quatro Carijs, dous mamelucos, e dous Portuguezes. Ordenou-lhes acompanhassem em distancia, e escondidos, a Manuel de Moraes. Recommendou ao novio avanasse sem temer, procurasse os gentios, e mostrando-lhes sempre a cruz do seu rosario, lhes fallasse no co, para que elles se persuadissem que no tinho inimigos diante de si, mas missionarios de paz, que os pretendio catechisar. No trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa, deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro. Tomro os dous moos a direco que lhes apontro os tres Carijs que tinho j reconhecido os sitios. Seguro-lhes os passos os oito aventureiros, occultando-se para no serem vistos, e nem pressentidos pelos inimigos. Chegro Manuel de Moraes e Antonio da Costa raiz do outeiro, e subro-no at o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli apparecro, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que lhes annunciou a existencia proxima dos gentios que devio procurar. Levantou os braos o novio, apertando e mostrando nas mos a cruz e o rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de onde partio as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem pessoa alguma adiante e nem atrs de si. Deixado o outeiro, encaminhro-se afoutamente pela veiga, que se abria, e acabava no rio. Terio marchado duzentas braas mais, quando a gritos repetidos, se sentro rodeados de um enxame de gentios ns, tendo apenas na cabea, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicres de passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mos arcos e frexas de tamanhos e feitios diversos. Sentro ambos os moos parar-lhes o sangue nas veias, e arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabea, e erguidas as mos, mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz divina, e comeou um discurso em portuguez, que dero os indigenas mostras de no entender, posto lhe prestassem atteno com ares de curiosidade. Curvado com humildade, e as mos entrelaadas no peito, como penitente, se conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as personagens que lhe havio sido confiadas. Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos. Occupro-se uns com o improvisado Jesuita, pegavo-lhe na roupeta, miravo-lhe o chapo, olhavo-lhe para os grossos sapatos, espantavo-se diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravo outros no seu acolyto, e puxavo-lhe as barbas sem o menor respeito. --Homem de paz,--exclamava Manuel pomposamente,--procuro dar-vos a paz, e ensinar-vos a religio do unico Deos, creador do mundo. Deixai, selvagens, a vida errante e nomade, que vos arrasta para a perdio! Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota... Trocro no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia. Manifestavo os gentios suspeitas de que fosse um lao a scena a que assistio, e parecio desconfiar da veracidade do missionario. Para desviar-lhes as suspeitas, e affeioar-lhes os animos, disse-lhes Manuel em guarany: --Tenho companheiros, sim, mas ficro longe e no vos faro mal. Somos mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos. --Piayas desconfio, e mossacaz so fortes,--respondeu-lhe um d'entre elles.--Os brancos so mos e enganadores. --Socegai-vos,--continuou o novio.--Os que vm comigo so bons e amigos. Trocro-se signaes mutuos os indigenas. Apalpro alguns d'entre elles os dous moos para examinarem se tinho armas escondidas. Reconhecendo que nem-umas trazio, o que parecia cacique da tribu lhes disse com resoluo: --Padre, no vos faremos mal. Somos uma tribu e uma nao poderosa. Temos perto d'aqui as nossas tabas, as nossas mulheres e filhos, e os nossos maracs e uapis. Segu vosso caminho tranquillamente, e no nos procureis mais, que no queremos negocios com brancos. Sumro-se logo em um instante com a mesma velocidade com que tinho apparecido, deixando absortos os dous moos, que sem os verem mais, lhes ouvio todavia estridentes e repetidos assobios pela espessa floresta, os quaes devio corresponder signaes e avisos que se communicassem os gentios. Tratro os moos de voltar para onde estavo os seus companheiros, e descobrro agachados por detrs de uma grande arvore os oito amigos que os seguio. --Cuidado,--disse um Carij.--So muitos centos. Se desconfio, mal de ns. Deixro o sitio e procurro ajuntar-se aos aventureiros, que anciosos os esperavo. Ouvida a narrao do successo, deu Matheus Chagas ordem para se demorarem ahi um dia e uma noite, afim de darem tempo aos gentios inimigos de se afastarem para longe das margens do rio. Passado o prazo marcado, embarcro-se de novo nas suas canas, e proseguro na sua derrota empregando todo o cuidado e vigilancia. Mais de dous mezes terio gasto j, navegando o Tiet sem que outras aventuras os houvessem perturbado, quando comero a aperceber que o rio se alargava desmedidamente, assoberbavo as suas aguas campinas extensas, cobrio parte das florestas, e corrio com maior violencia. Appareceu-lhes pela frente dous dias depois como que uma laga de dimenso extraordinaria, alm de cujas margens se avistavo difficultosamente as terras. -- o grande rio Paran,--disse um dos Carijs.--Entramos agora n'elle. impossivel descrever-se a magnificencia do soberbo rio. Depois de atravessar as terras de Matto-Grosso, Minas e parte superior da capitania de So Vicente, e de se ter engrossado com tributarios no menos possantes, e extremamente caudalosos, absorvia no sitio descoberto pelos aventureiros as aguas do Tiet por um lado, e as do Sucuriu, e mais o Pardo do outro, formando uma vasta e grandiosa bahia. Cosro-se com as suas canas riba esquerda do Paran, para se no exprem ao arrebatamento das aguas. Transpuzero outros arroios importantes, e alguns poderosos, como o Aguapehi e Santo Anastacio. Approximando-se do Paranapanema, ordenou Matheus se desamparasse a corrente do Paran, e se tratasse de subir este seu tributario encostando-se ribanceira do lado esquerdo. Foi ento mister empregar a fora das varas e remos para vencer as aguas que descio. Quatro dias de esforos bastro para se appropinquarem embocadura do Pirap, que se despeja no Paranapanema. Ao descansar das suas fadigas, partro gentios a pesquizar os terrenos em que se achavo. Participro na sua volta a Matheus Chagas, que havio descoberto indicios certos de taba proxima de gentios, galhos de arvores cortados, ausencia de caa e signaes de pisadas humanas. Aproveitou o chefe os avisos e destacou de novo espias para melhor e mais cuidadosamente examinarem as localidades. Dias depois regressro os exploradores, declarando terem encontrado uma aldeia grande e vasta, com igreja, campos lavrados, bois, cavallos e carneiros pastando, e abonos visiveis de que no ero os seus habitadores gentios selvagens e errantes. Pensou logo Matheus Chagas que estavo os aventureiros perto das povoaes castelhanas de Guayr, e raiou de alegria por notar a felicidade com que tinho percorrido todo o Tiet sem a perda de um homem, e nem lutas com os gentios, e chegado a salvo a uma das aldeias de Guaranys catechisados, que, conforme as noticias espalhadas em So Paulo, devio conter immensas riquezas de prata e ouro, que se podio arrebatar aos Castelhanos em paga das que elles havio roubado aos Portuguezes de Aleixo Garcia. Formou logo uma especie de campo militar com a sua pequena tropa, escondendo-o no seio das mattas mais proximas da aldeia. Tomou todas as providencias que reputou precisas, e preparou-se para lhe dar o assalto, almejando encher-se de despojos e carregal-os para So Paulo. CAPITULO IV Chamava-se Loreto a aldeia que tinho em presena os aventureiros paulistas. Fra uma das mais modernamente creadas e edificadas pelos Jesuitas, e a mais conchegada s fronteiras que dividio os territorios conhecidos de Portugal e Hespanha. Havia o governador do Paraguay fundado Villa Real em 1557 na junco dos rios Paran e Piquiri, e em 1577 Villa Rica sobre o Ivahy, chamando para povoal-as os gentios guaranys; No parecendo marchar a catechisao e civilisao dos indigenas com o dominio das autoridades civis, cedeu o governo da metropole aos missionarios jesuitas as duas mencionadas aldeias, e os autorisou a organisarem outras, com que formassem a provincia denominada de Guayr, submeltida cora hespanhola. Tomro conta os Jesuitas da direco das duas povoaes, e augmentando o numero dos indigenas que adoptro a religio catholica, e se declarro promptos a obedecer-lhes, estendro para as margens superiores do Paran a largueza das suas posses, e a dominao da sua provincia. Santa Maria Maior sobre o rio Iguass, So Francisco Xavier na embocadura do Imbiberal, Arcanjos em Tayoba, Santo Ignacio no Iquatemy, So Pedro nos Pinhaes e Loreto no Pirap, devro o seu nascimento aos primeiros annos do seculo XVII, e aos trabalhos exclusivos dos intrepidos discipulos de santo Ignacio. No se poupro os padres a fadigas. Sorria-lhes a ida de attrahir ao catholicismo almas de gentios, e de proteg-los nos seus direitos e liberdade. Encontrando fertilissimo solo, rasgado por numerosos cursos de agua, e collocado nas duas margens do Paran desde o Iguass e o Igurey at o Paranapanema e Pardo, e copiosa quantia de gentios mansos e submissos, que por alli residio, comero o edificio de um Estado independente no proprio centro dos dominios portuguezes e castelhanos da America. Logrro da cora hespanhola prohibir a entrada na provincia de Guayr a Europos, qualquer que fosse a nao a que pertencessem, afim de lhes retirar o contacto dos innocentes indigenas. frente de cada uma aldeia collocro um cura e tanto mais padres e irmos quantos necessarios para a sua administrao e regimen. Era o cura a autoridade principal, e poder executivo da misso, tanto na parte civil como na ecclesiastica. Prestavo-lhe preito diversos funccionarios escolhidos d'entre os gentios, e incumbidos de funces distinctas. Um corregedor, um lugar-tenente, dous alcaides, um porta-bandeira, sete administradores, um secretario e varios caciques possuia cada uma aldeia, alm de officiaes de corpos milicianos, que os padres organisavo e disciplinavo. Dividio-se os gentios em officios. Applicavo-se agricultura, que se compunha da canna de assucar, matte, trigo, algodo, feijo, milho, anil e tabaco; a fabricas de farinha e officinas de serralharia, carpintaria e outros misteres. Aprendio o manejo das armas de fogo. Formavo uma communidade em que ero iguaes os deveres e direitos. Recebio os padres nos seus armazens todos os productos da industria dos habitantes da aldeia. Remettio-nos pelos rios e em balsas para Santa-F, Buenos-Ayres e s vezes directamente para Hespanha, aonde ero vendidos, e aonde se compravo os objectos precisos para as necessidades e commodidades dos gentios. Do saldo tiravo a quantia correspondente ao imposto de um peso annual por cabea de gentio catechisado, o qual competia e se entregava ao governo de Hespanha, segundo a estatistica organisada pelos curas, que para defraudar a cora no incluio nas listas os menores de vinte annos, as autoridades em exercicio, e os proprios doentes. O que restava ainda se remettia ao geral do Instituto residente em Roma. Separavo-se nos trabalhos as mulheres, os homens e as crianas, fixando-se a cada um a parte que lhes cumpria executar no dia. Os ss casados vivio na mesma choupana, formando-se quarteires destacados e particulares para os solteiros e viuvos, para as donzellas e meninos. Dominava sobre os curas das aldeias de Guayr o collegio dos Jesuitas fundado na Assumpo, ao qual prestro obediencia todos os varios nucleos da companhia estabelecidos nos territorios do rio da Prata e seus tributarios at que em Cordova se creou a sde principal do Instituto, e se deliberou a residir ahi o seu principal, assistido por quatro consultores ordinarios e tres extraordinarios, estendendo a sua autoridade sobre os demais collegios espalhados pela America meridional. Existio nos collegios seminarios de instruco primaria e secundaria, e os dominios hespanhes de Buenos-Ayres, Paraguay e Tucuman chegro mais tarde a contar em seu seio cerca de trezentos padres e cem irmos, alm de numerosos novios. Ero semelhantemente, e segundo o mesmo plano, edificadas todas as aldeias. Uma grande praa, quadrilatera na extremidade, terminada na ultima linha pela igreja no centro, tendo ao lado direito uma torre, a casa dos Jesuitas, e os armazens que guardavo as mercadorias, e esquerda o cemiterio, e a habitao das viuvas e donzellas, que se separavo desde a infancia da companhia dos pais e da familia. Quatro cruzes grandes, postadas nos cantos, e uma columna elevada no centro, coroada pela estatua da santissima Virgem, ornavo a praa, qual em linhas regulares e direitas communicavo as differentes ruas em que se partia a aldeia, povoadas de ambos os lados por predios iguaes na architectura exterior e interior, e cobertos de telhas vermelhas. Usavo os vares de camisa, cala, ponche e barrete de algodo, e as mulheres de camisa comprida, chamada tipay, sem mangas, apertada ao pescoo e cintura. Andavo todos de p no cho, e se permittia apenas aos caciques e funccionarios trazerem os bastes designatorios dos seus cargos particulares. Mantinha-se a mais perfeita igualdade nos trajos e objectos concedidos aos gentios, nas raes e trabalhos que se lhes fixavo. Praticavo os corpos milicianos exercicios de guerra aos domingos, ensaiando-se no esgrimir as espadas, disparar tiros, despedir frexas, e atirar com fundas pedras lavradas maneira de bola. Terminado o exercicio, se recolhio as armas aos armazens, e se conservava a populao sem o menor elemento de defesa. Alm da escripta, leitura e arithmetica, ensinavo os padres a musica e o canto, e formavo artistas para as solemnidades e festas da Igreja e da communidade, com a que captivavo os gentios, que se mostravo, em geral, propensos s artes liberaes. Acordavo os gentios ao som do sino da igreja, que lhes annunciava a alvorada do dia. Reunio-se para as preces. Seguio depois para os seus trabalhos respectivos guiados pelos seus fiscaes. Ero os castigos infligidos aos delinquentes por um tribunal composto das autoridades da aldeia, sob a presidencia do cura. Andava assim governada a provincia de Guayr na poca em que Matheus Chagas penetrou em seu territorio com a bandeira ao seu commando, e que foi uma das primeiras dirigidas pelos aventureiros paulistas contra as misses jesuiticas do Paran superior, e cujos assaltos posteriores as destruro por tal frma, que os padres convencro aos gentios da necessidade de abandonal-as inteiramente, retirar-se para territorios inferiores do rio, e formar ahi novas aldeias, aonde escapassem s correrias dos seus inimigos, que elles denominavo de mamelucos. Observmos j que Loreto era a mais afastada reduco dos dominios castelhanos. Conteria oito ruas com uma populao de duas mil almas de ambos os sexos e todas as idades. Estavo cultivados os campos em roda, e offerecio abonos claros de prosperidade. Pastavo tranquillamente animaes domesticos. Vivio quietos os gentios da aldeia, sob o regimen communista dos missionarios, e nem-um acontecimento alterra ainda a paz de Loreto desde a sua fundao. No tinho porm os Portuguezes de So Paulo, e nem portanto os aventureiros exploradores, o menor conhecimento dos feitos dos Jesuitas e da situao e estado das reduces da provincia de Guayr, desde que passro para o poder temporal, espiritual e exclusivo da companhia. Pensavo ainda, dando credito s ultimas noticias espalhadas, que os gentios desejavo soccorros dos Portuguezes para combater os Castelhanos, e estes possuio ahi prata e ouro em quantidade, produzida pelos terrenos proximos sem grande trabalho do homem. No excedio as idas moraes dos colonos portuguezes de ento as idas dos Hespanhes, posto fossem menos crueis e barbaras. Nutrio porm aquelles contra estes grandes sommas de odio, quer pelos interesses contrarios de vizinhana na Europa e America, quer por estar o reino de Portugal avassallado n'esse periodo ao de Castella, e formar uma provincia da monarchia hespanhola desde o anno de 1580, em que Felippe II o acurvra ao seu jugo pela fora e violencia, e o mantivera e legra aos seus successores castelhanos com tradies de terror, que irritava o povo lusitano, e o desesperava cada vez mais contra o dominio do captiveiro, incitando-lhe constantemente os brios para se levantar e recuperar a sua independencia. Repousava portanto a razo principal dos assaltos dos Portuguezes de So Paulo contra as misses de Guayr no desejo de guerrear mais aos Castelhanos que aos gentios, ainda que no poupassem a estes pela cobia de escravisa-los e vend-los, afim de lograrem vantagens proveitosas. Scientificado Matheus Chagas pelos seus espias da situao do Loreto, prohibio aos companheiros dessem o mais pequeno indicio da sua presena, afim de no levantarem suspeitas, e nem alterarem o socego de que os inimigos gozavo. Incitou os aventureiros a atacarem a povoao, que em sua opinio possuia riquezas extraordinarias. Applaudiro-no todos, excepo de Manuel de Moraes, que exigia reconhecer primeiro se ero contrarios ou amigos, pois que o ultimo caso lhe parecia aco m e digna de castigo do co. Desprezro-lhe os companheiros o aviso, e ao amanhecer de um dia, logo que Matheus Chagas notou que a maior parte dos habitantes estava occupada fra da aldeia, e descuidados os que n'ella permanecio, deixou a guardar o campo alguns que lhe parecro mais fracos, e entre elles o proprio novio, e partio com a sua gente aprestada para o combate. Encontrro primeiramente no campo cerca de cincoenta gentios, que reconhecendo inimigos deitro a fugir para a aldeia. Perseguro-nos os aventureiros, e entrro todos na povoao quasi ao mesmo tempo, no meio de um infernal alarido. Tentro os indigenas defender-se, e comquanto resistissem com furor e denodo, achando-se sem armas, por estarem ellas guardadas nos armazens da companhia, cortava vigorosamente o ferro dos aventureiros por seus corpos, e bastro poucas horas aos Portuguezes para se apossarem da povoao, que a maior parte dos gentios abandonou logo. Amedrontra os padres e os Guaranys o inopinado do ataque, e cahira em poder dos aventureiros cpia numerosa de gentios, que foro a pouco e pouco amarrados e trancados nas casas, havendo corrido sangue bastante na luta e na perseguio dos fugitivos. Senhores os aventureiros da povoao, cuidro em examina-la. Descobrro nos armazens mantimentos de boca, armas de fogo, munies de guerra, instrumentos de combate, roupas e vestes, aguardente, e muitos outros objectos de valia. Encontrro na igreja lampadas, castiaes de prata, e preciosidades agradaveis. Saudro com vivas estrepitosos o seu triumpho assignalado. Espantro-se porm de no deparar com Hespanhes, que pensavo dever alli existir igualmente. Passou Matheus Chagas ordens apertadas para que se regularisasse o servio. Mandou vir do seu campo os individuos que l deixra. Contou e separou os prisioneiros, pela maior parte caciques velhos, mulheres e crianas, que se no tinho podido evadir, e dividio os presos por diversos sitios guardados com sentinellas. Tratou de recolher e ajuntar os objectos, e tomou providencias e cautelas para responder aos que ousassem retroceder, e roubar-lhe os fructos da victoria. Conhecendo porm que estava em paiz inimigo, e se no deveria prudentemente alli conservar, applicou toda a sua atteno ao aproveitamento do que pudesse conduzir comsigo, tencionado a desamparar quanto antes a aldeia. Cumprindo partilhar os despojos, consistentes em preciosidades, armas, roupas, animaes, e prisioneiros, manifestro-se pretenes oppostas, que quasi degenerro em uma luta civil, teimando cada um dos aventureiros no desejo e cobia de receber o mesmo objecto. Conseguio o chefe pr cobro s pretenes exageradas, fazendo approvar a ideia de uma especie de loteria ou sorte para a diviso immediata dos prisioneiros, animaes e vestimentas, guardando-se em deposito as cousas de valor para serem rateadas em So Paulo. A cada um tocra um numero correspondente a lote quasi regular e igual. Declarou Moraes que se contentava pela sua parte com os prisioneiros velhos, mulheres e crianas, que ero incapazes de ser transportados, porque nda queria aceitar na partilha, e preferia conceder-lhes a liberdade, e deixa-los em socego. No entrou assim na loteria organisada, e cuidou logo em dar mantimentos e consolar aquelles infelizes, que lhe agradecro fervorosamente a caridade, tanto mais espantados quanto lhes aterrorisavo as imaginaes as noticias que entre elles propalavo os padres de que os mamelucos de So Paulo ajuntavo cobia ferocidade exaltada, e no tinho a menor ida de religio e piedade. Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe pertencia, preparou-se Matheus Chagas para deixar a aldeia. No raiavo ainda os primeiros arrebes da madrugada quando comeou a bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos mamelucos. No tinho ainda sahido de todo da povoao, quando estouros fortes e prolongados se ouvro, e logo aps signaes de incendio que rebentra em varios pontos extremos da aldeia. Crescro os fogos amiudados, e uma nuvem espessa de fumaa encheu ao principio os ares, que se aclarero paulatinamente com as luzes do incendio. Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais pesada e quente. Amedrontro-se os aventureiros, ignorando se o acaso ou deliberada inteno dos gentios causra o incendio ameaador. Apressro-se em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas aos aventureiros se prevenissem de ciladas. Multiplicavo-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que rijamente assoprava. Illuminro-se horrivelmente a aldeia, os campos e florestas adjacentes. Gritos espantosos atroro os ares como se formassem uma infernal orchestra. Estalavo os tectos e portaes das casas, rolavo por terra pedaos dos edificios, telhas soltas, paredes desmoronadas. Atopetavo-se as ruas com destroos, que impedio a livre passagem, e davo immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem. Parte d'elles se semeava j por fra da povoao, e a retaguarda tentava dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavo adiante. A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor produzido pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas chammas, que esclarecio a aldeia e envolvio a parte superior do horizonte em nuvens negras, descortinro os olhos dos aventureiros paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzero por diante; lhes atacro os flancos, apparecro por detrs, e lhes circumdro os caminhos. Travou-se uma peleja sem ordem, sem direco, e nem regularidade. Cada um dos aventureiros tratou de combater como pde, apercebendo-se emfim da cilada que lhes tinha sido traada, e descobrindo que se havio introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de fra, para coadjuvarem os que devio correr em soccorro do arraial. Nem lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda, abrio-lhes as fileiras, zunio-lhes pelos ouvidos, ferio-lhes companheiros, matavo-lhes amigos, ao lado, atrs, adiante, e perto. Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de faca e punhal, succedro ao primeiro ataque, e lhes trouxero a luta de corpo a corpo, e de homem a homem, que a mais cruel e ceifadora de vidas. Terrivel espectaculo, que illuminavo por vezes as chammas estridentes do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em angustias doridas. Echoavo gemidos, exclamaes, algazarras, sons de ferros, e estrepito de fusilaria. Tropeava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com cavallos e mulas carregadas. Cutilavo-se mutuamente Portuguezes e mamelucos, Carijs e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja at que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento. Notou-se ento uma scena tristissima de desolao. Desde as ruas extremas da aldeia at no pequena distancia do campo contiguo, aonde chegra a vanguarda dos aventureiros, cobrio o solo cadaveres de homens e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os proprios combatentes. Poucos aventureiros logrro salvar-se pela fuga. Sua maior quantia ficou estendida e morta no campo da peleja; raros foro os prisioneiros, e todos feridos mais ou menos gravemente. Havio os Guaranys vencido, e vingado a sua anterior affronta. Tratro as suas autoridades de dar fim luta, e de restaurar a aldeia, apagando o incendio, tomando posse d'ella, recolhendo o que pudessem salvar das garras dos aventureiros, pondo ordem no povo, e fazendo enterrar as victimas do combate. Achavo-se numerosos individuos de um e outro partido entre os cadaveres. Matheus Chagas, Antonio da Costa, e varios outros dos principaes aventureiros perecro na peleja. Quatro ou cinco Paulistas feridos se tirro do meio do campo, e se recolhro priso. Era Manuel de Moraes um d'estes ultimos infelizes. Recebra uma frexada no brao, e uma bala de espingarda na perna. No o ameaava perigo, mas soffria dres agudas e penetrantes. Confiro-se os prisioneiros aos fiscaes do hospicio, com instruces para os curarem e guardarem at que se decidisse a sentena dos competentes juizes, incumbidos do seu julgamento. Quando se restabeleceu Moraes das suas feridas, soube com dr e magoa que os proprios companheiros, que tinho ficado igualmente prisioneiros, havio j expirado nas prises respectivas por no poderem resistir gravidade dos seus ferimentos. CAPITULO V No foi longo e nem demorado o processo de Manuel de Moraes. Depuzero em seu favor varios caciques e mulheres, que summariro os seus actos de humanidade durante a occupao da aldeia pelos Paulistas aventureiros. Valro-lhe to significativos testemunhos, e o proprio habito com que se cobrra, e o fizera reconhecer por membro da companhia de Jesus. Determinou a sentena lavrada pelo tribunal respectivo que fosse expulso da aldeia, enviado para Santa-F, e ahi entregue ao provincial dos Jesuitas para lhe impr as penas que julgasse necessarias, attenta a sua qualidade de novio que abandonra o Instituto de santo Ignacio, e se alistra nas bandeiras dos aventureiros paulistas. Acompanhado por Guaranys armados seguio Moraes por terra para Villa Rica, que distava no menos de sessenta leguas de Loreto. Conservro-no ahi preso os padres da povoao por mais de dous mezes, esperando que se apromptassem as balsas que tinho de expedir para Villa Real com generos e objectos de mercancia. Embarcou-se emfim Manuel de Moraes, confiado a um irmo da companhia, por nome Cialdini, e a mais de trinta Guaranys, que servio de guardas, e marinheiros dos barcos numerosos que partio carregados de productos da industria das reduces. Descro o rio Ivahy, povoado de arvoredos frondosos. Penetrro no Paran, e logo que descobrro a ilha grande, tomro a embocadura do Pequiri, e atracro Villa Real, que repousava docemente margem d'este rio, e constituia a reduco mais importante e populosa da provincia de Guayr, governada pelos Jesuitas. No podio ahi as balsas continuar a descer as aguas do Paran, porque comeava um enormissimo salto, conhecido pelo nome de Sete Quedas. Nem-um espectaculo, por mais soberbo e admiravel, extasiava tanto os olhos dos viajantes como o da famosa cascata que n'este sitio formavo as aguas do rio Paran. Dividio-se para deixar erguer-se do seu seio uma ilha espaosa, coberta de florestas espessas e sombrias, que contrastavo magnificamente com a claridade das aguas, precipitadas roda. Reunindo-se de novo as massas poderosas do liquido elemento, recuperavo uma largura e extenso de mais de duas mil braas. Io-se depois estreitando, aprofundando o solo, e aterrorisando com rumores espantosos e roncos estridentes. Apertavo-se em menos de quarenta braas, e arrojavo-se ento de uma altura superior a quatrocentos palmos at cahirem em uma bacia estupenda, que formava um lago de quasi duas milhas de diametro. A oito leguas de distancia se percebia o ruido da cascata. Uma poeira humida levantavo as aguas elevao grandiosa, formando atravessada pelos raios do sol os arcos iris mais harmonica e variadamente coloridos que se podio imaginar. Pullulavo na enormissima bacia coroada de densas e phosphorescentes nuvens de vapor ilhos numerosos, repletos de arvores gigantescas, que matizavo a scena com delicias ineffaveis. Rolavo ainda de novo as aguas por sete precipicios seguidos, carregando comsigo jaguras pardas e pintadas, antas, serpentes hediondas, e toda qualidade de animaes do serto, que se acoutro nas ilhas durante as seccas, e no tivero tempo e nem foras para nadar e evadir-se, apenas comero as aguas a avultar e engrandecer-se. Acolhia-as com gemidos profundos, ecchos dolorosos e repetidos, uma segunda cratera, inada de picos e rochedos, que parecio erguer-se, e pretender, como os Tites antigos, escalar os cos, resvalando-lhes pelos flancos raios repentinos de luz, que produzia o reflexo do sol por entre a fumaa das aguas, e que se afiguravo de longe verdadeiros coriscos durante o dia, e edificios de pedra alvissima atravs da escurido da noite. No se podia ahi fallar, porque se sumia a voz humana ao estrondo rouco, monotono e sombriamente horrivel da cascata portentosa. Mais de tres mezes se demorou Moraes em Villa Real, occupado, pelos padres que a dirigio, no servio da Igreja e das cousas sagradas, posto persistisse em assegurar-lhes que no volveria mais para o Instituto de santo Ignacio, comquanto guardasse no peito as mais gratas e saudosas reminiscencias pelo acolhimento que recebra, instruco que adquirra, e sympathias que alcanra. Seguio ento por terra com copiosa caravana de gentios, e animaes carregados de mercadorias, para a povoao de Santa Maria Maior, edificada margem quasi da barra do rio So Francisco na sua absorpo pelo Paran, e abaixo do salto das Sete Quedas. Tornro todos a embarcar-se n'este sitio em novas e numerosas balsas, que dirigir-se devio directamente para Santa-F, visto que a navegao no offerecia obstaculos mais e nem perigos. Conservava-se Moraes guardado to cuidadosamente como o fra desde o Loreto, gozando comtudo da companhia do irmo Cialdini, cja pratica interessante lhe ganhra cada vez mais o affecto e sympathia. Cerca de um mez gastro na descida do Paran at onde elle recebe o curso do Paraguay engrossado pelas aguas do Vermelho, e cujas barras se denomino das Tres Bocas. Extasira-se Manuel de Moraes diante d'essas scenas variadas e sublimes da natureza, e da magnificencia deslumbrante do rio. De um e outro lado florestas virgens, copadas e gigantescas, que provavo a uberdade do solo; rios poderosos que se vinho ajuntar ao Paran, que j por si assoberbava os olhos e a imaginao com as grossas e caudalosas massas de agua que rolava, e que se dirio de um vasto oceano; aves de todos os tamanhos, frmas e coloridos, guars, anuns, e garas, esvoaando ao rumor dos remos, e grasnando amedrontadas, para se esconderem nos galhos viosos do resplendente arvoredo ou se entranharem nos brejos reconditos; jacars enormes, dormindo ao calor do sol, e que saltavo de subito das ribanceiras, e mergulhavo no vasto pego, como em fortaleza segura. Mais que o dia claro e limpido deslumbravo as noites deleitosas no seio das solides. Que painel primoroso e divino quando os raios merencorios da lua, entornando uma luz melancholica por entre as folhas do arvoredo, que sombreava as aguas do rio, scintillavo phosphorescentemente por cima da sua superficie, formavo espelhos estrellados de ouro e prata, e reflectio o horizonte com todos os seus toques magistraes e voluptuosas ondulaes! Atravessro-se sitios desertos e inexplorados ento, e aonde os proprios Jesuitas fundro depois misses novas, para acolherem os Guaranys atropelados constantemente na provincia de Guayr, que abandonro por fim aos Paulistas aventureiros. Em uma e outra margem existem hoje os povos de Corpus Christi, Candellaria, Itaqui, Santa Clara, Trindade, So Cosme, e outras aldeias edificadas pelos famosos missionarios, quando na poca a que nos referimos formavo apenas esses territorios immensos, escondrijos e asylos de animaes ferozes. Descro os viajantes das Tres Bocas para Santa-F, e acolheu ahi o provincial do Instituto a Manuel de Moraes com carinho paterno, recommendando-lhe penitencias e cogitaes serias afim de decidi-lo a volver para o servio da companhia, que o receberia com os braos abertos, esquecendo-lhe as faltas commettidas. Em despeito porm das exhortaes e conselhos dos padres, apezar de mais de tres annos que foi coagido a demorar-se no convento, persistio Manuel em sua deliberao anterior, e firme proposito, que se no modificava com as circumstancias e eventos. Concordro ento os padres em remett-lo por Hespanha para Roma, esperando que o geral da companhia fosse mais que elles afortunado, e se no perderia assim para o Instituto um moo, cujos talentos variados, e solida instruco, divisavo todos que com elle se entretinho. Seguio portanto de Santa-F para Buenos-Ayres em uma lancha, que praticava regularmente a navegao entre os dous portos do Paran e Prata. Residio na casa da companhia o tempo que necessitro os aprestos de um comboio de embarcaes que se tinha de dirigir para Cadix, acompanhado por dous bergantins de guerra hespanhes, e incumbidos de amparar e defender os vasos do commercio contra as esquadras e corsarios hollandezes, que infestavo os mares. Ajudou aos navegantes um violento pampeiro, que os tirou em pouco tempo das aguas perigosas do rio da Prata, e os precipitou no seio do oceano Atlantico. Achava-se Moraes em face do outro assombro da natureza, o mar immenso, profundo, tranquillo, ou agitado segundo as crises das correntes e as violencias do vento. As florestas virgens, os rios selvagens e inavegados, os animaes bravios, as cataractas estupendas, os sitios pittorescos, as planicies e montanhas, constituia tudo isso o deserto americano, e formava ao certo uma maravilha, em que o bello, o sublime, o grandioso e o infinito se abraavo sem que a arte cooperasse para o quadro magestoso. Contrapunha-se-lhe agora o oceano, que sabia gemer tambem como as mattas reconditas, alvoroar-se como a cratera dos saltos, roncar e enfurecer-se como o jagura, e o surucuc, e mudar constantemente de physionomia, situao, e colorido, como a varia atmosphera que rodeia a creatura humana. Corrro velozmente os navios para o Norte assoprados pelas aragens frescas de galernos favoraveis, posto fossem coagidos os mais veleiros a reter de quando em quando a sua marcha, afim de esperarem pelos mais pesados, e no se desligarem do comboio, que pelo numero e unio dos seus vasos lograria conter piratas e inimigos. Estavo j pela altura da ilha de Fernando de Noronha, semeiados os navios como uma frota, e communicados constantemente por meio de signaes com os dous bergantins de guerra que os escoltavo, quando velas estranhas rasgro o horizonte, e apparecro aos olhos, ainda que a grande distancia. Deu rebate ao corao dos navegantes o inopinado do caso, e sustos geraes se lhes incutro nos animos. Serio inimigos? Pretender reconhec-los no equivaleria a expr-se mais aos perigos? Fugir-lhes no significaria medo, e os no animaria no seu proseguimento? Organisou-se conselho a bordo dos bergantins de guerra, que se approximro um do outro. Decidro os commandantes preferivel evitar o encontro, e afastar-se o comboio, largando todas as velas para que corressem os navios com maior velocidade. Estavo infelizmente a barlavento as embarcaes suspeitas. Percebro a manobra, e suspeitando o comboio, e imitando-lhe o exemplo, se precipitro sobre elles a pannos abertos. Muitos do comboio, por mais veleiros, se foro sumindo, e escapando no seio do oceano e na immensidade do firmamento. Menos felizes, vro outros os seus perseguidores ganhar-lhes a cada momento em distancia, e cerrar-lhes o espao que os havia a principio separado. Figurava entre os ultimos o galeo _Santo Ambrosio_, a cujo bordo se achava Manuel de Moraes. Ao approximar-se, iro os navios desconhecidos bandeira dos Estados Geraes de Hollanda, e apresentro um costado de guerra que mais contribuio para amedrontar os Hespanhes do comboio. Tiros de artilharia disparados logo aps lhes intimro o dever de parar, e sujeitar-se inspeco e visita. O commandante do _Santo Ambrosio_ pensou incutir-lhes sustos descarregando sobre elles a metralha de duas peas que o guarnecio, e esforando-se no entanto em evadir-se. A este signal acompanhro igualmente com tiros outras embarcaes do comboio. Mas infelizmente para ellas no ficou muda a artilharia dos Hollandezes, que posto apenas oito vasos, se mostrro mais bem tripulados e armados. Nuvens de fumo, cortadas s vezes por fuzis de fogo, e o estrondo das peas, assoberbavo inteiramente a atmosphera. Abrio agua pela ppa o galeo _Santo Ambrosio_, despedaado por uma bala certeira. Mandou subito o commandante arreiar a bandeira hespanhola que levantra no comeo da aco, e dar signaes de render-se para no ir ao fundo do oceano. Percebidos os signaes pelos Hollandezes, acudro-lhes incontinente com lanchas ao mar para tomarem conta do navio vencido. Antes que ellas chegassem, rebentou infelizmente a bordo do _Santo Ambrosio_ um incendio do paiol de pra, que ameaou devorar-lhe a tripolao, inquietada assim, e ao mesmo tempo pelas aguas do oceano que pela ppa submergio o galeo desditoso. Achavo-se portanto os navegantes entre dous perigos fataes e horrorosos. Echoro pelos ares gritos estridentes de desesperao, ais sentidos clamando por soccorro e misericordia. Reinou a bordo infernal anarchia, ninguem mais governando, ninguem mais obedecendo. Lanro-se uns desordenadamente no seio das vagas do mar, cogitando salvar-se melhor no meio d'ellas que dentro do navio. Saltro outros nos escaleres pendurados aos lados, cortando-lhes as cordas que os prendio, e arriscando-se a quaesquer eventualidades. Agarrro-se alguns a bancos de madeira, e com elles se deixro resvalar pela superficie do oceano. Conseguro as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraados, posto crescido numero de Hespanhes perecesse nos arrancos da dr, e no jogo sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem presa pde ficar dos Hollandezes o galeo _Santo Ambrosio_, que as labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruro totalmente em pouco tempo. Logrro todavia os Batavos audaciosos colher s mos dez dos outros vasos do comboio, que no tivero a fortuna de evadir-se, e com que applaudro estrondosamente o seu feito e triumpho. Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionra as embarcaes referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630, succedendo a Willekens, Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de navios hespanhes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava destroos inauditos no oceano, apoderava-se de cpia numerosissima de galees adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a immensidade dos mares. Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galees imprestaveis. Dos dez vencidos escapro quatro apenas, para cujo bordo se transferro as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolaes hollandezas. Deu-se ento ainda um espectaculo merencrio e attristador para os que se no havio a elle habituado. Lanou-se fogo s seis embarcaes condemnadas, que ardro no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos dos navios hollandezes, que assistio alegres scena miseranda. Executadas as determinaes do commandante, seguro os quatro galees para Pernambuco. Entrro no porto do Recife, e dero contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza. Foro soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem sua vontade meios de subsistencia e vida, j que havio sido despojados de quantos bens lhes pertencio. Corria o anno de graa de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lanado no meio da povoao do Recife, dominado ento pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirra imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clares sinistros de amarguras e dres physicas. Iniciava assim a sua marcha debaixo das impresses mais crueis e sombrias, j que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparra a quietao e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavo o seu fatal destino e a sua estrella desventurada. CAPITULO VI Desde que a nao portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do duque d'Alva e pelas trahies da nobreza nacional degenerada, fra reunida monarchia hespanhola como sua provincia, timbrro constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e esbroa-la sob seus ps, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vos de regenerao, e sumindo na miseria e na degradao as reminiscencias das passadas glorias e faustos heroicos. Cuidro igualmente os Hollandezes, inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possesses transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe inteiramente o commercio maritimo. Hespanholas se reputavo as terras americanas, asiaticas e africanas, que havio a Portugal pertencido quando constitura um Estado independente. No as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo. Da Asia e Africa lanou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisra-se em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possesses americanas outr'ora portuguezas. Logrra approvao do governo dos Estados Geraes para os estatutos que a constituio sob o titulo de Companhia das Indias Occidentaes, e lhe concedio o direito de invadir, occupar e desfructar os territorios que conquistasse, pelo espao de trinta annos a comear de 1624, com a obrigao de entregal-os no fim do prazo ao governo, e receber em indemnisao o valor dos navios que possuissem, estabelecimentos que lhe pertencessem, e munies de guerra que lhe restassem. Formro-se os capitaes necessarios com a emisso de titulos ou aces, espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um milho de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte navios de guerra para o seu servio. Participava por este motivo da metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas. Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a sde ou conselho director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras e seces de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e Frisa. Competio administrao superior as attribuies politicas e administrativas da Companhia, e d'ella partio as ordens necessarias para expedio de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se fra a Companhia um Estado e governo proprio e independente. Trara a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de 1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de Mendona Furtado. Teve porm de abandona-la no anno seguinte, diante das massas numerosas de gente armada que se formro no reconcavo da capitania, e assediro os invasores entrincheirados nas linhas da sua capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D. Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo. No se desanimra todavia, e expedindo contra o Brazil novas foras em 1630, logrra fazer saltar em terra no Po Amarello o coronel Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda, capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigro Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto, para que no pudessem servir ao inimigo. Estendro-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco, em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque, e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camaro denodadamente dirigia. Reduzra-se a cinzas o glorioso forte de So Jorge, arrasra-se o heroico arraial do Bom Jesus, incendira-se a fermosa Olinda; mas a Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se foro recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomera chefes activos e bravos. Curvavo-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que no pudero ou logrro evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da Companhia a celebrao do seu culto religioso nas igrejas e templos que possuio, e que foro transferidos para o protestantismo, logrando apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas preces no meio dos campos e praas, ao ar livre e publico. Passra-se o commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se unicamente aos Portuguezes o cultivo das terras, e os trabalhos da industria agricola. Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoao em tres quarteires distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio, fortalezas, e habitaes officiaes e particulares, occupavo a lingua de terra que forma o rio Biberibe na sua junco com o Capiberibe. Avassallava o segundo quarteiro a ilha de Antonio Vaz, creada no seio d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Alm do Capiberibe e Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife. Atravessavo-se os rios em canas e jangadas, que conduzio assucares e aguardentes que produzia a lavoura, e que vinho a entregar-se aos agentes da Companhia, que os compravo pelo preo previamente estabelecido nos seus regulamentos e annuncios. No lhe podendo valer a instruco que adquirira no Instituto dos Jesuitas de So Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com que o mimosera a Providencia, comprehendeu Moraes que o s trabalho manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas, alugando os seus servios a um Portuguez que possuia terrenos margem esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o notavel bairro da Boa Vista. Corrro os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com meios de modificar a sua situao e estado miseravel e penoso. A varios generaes e chefes do conselho civil substitura a Companhia em 1656 o principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou nova vida colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios at alm do rio de So Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranho as possesses do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da escola flamenga, que j gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio, guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de augmentar a povoao do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio funccionarios prevaricadores. Pz ordem nas finanas. Melhorou a administrao publica. Reorganisou as foras militares. Acabou com arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judos levantar as suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua religio e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as suas procisses apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda. Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e outros lugares. Traou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo, com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a ilha com o Recife por uma ponte lanada sobre o Capiberibe e Biberibe, que j ahi correm juntos e unidos. nova cidade edificada sobre a ilha deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e predios. Attrahra assim o seu governo cpia numerosa de naturaes do paiz, que no temio j perseguies e vinganas dos invasores, e no raros foro os que aceitro ento o dominio hollandez, notando-se entre elles Joo Fernandes Vieira, que fra um dos bravos defensores do forte de So Jorge, e acompanhra Mathias de Albuquerque ao arraial do Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se at um dos agentes financeiros da Companhia. Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde margem do rio, limpando e arando a terra, quando gritos doridos lhe chamro a atteno para a ilha de Antonio Vaz. Partio de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus corseis corrio aps uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavo longe ainda, e se no podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porm mais o ginete da dama que vinha adiante, percebeu Manuel com susto que fugia o animal redea solta, e no era mais domado pela cavalleira, que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a ameaava se mo estranha no segurasse o freio do cavallo disparado, e lhe no cortasse os impetos fora de brao vigoroso. Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo instante. Atravessar o rio em cana equivalia a perder tempo, e nem cana se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, no hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, venc-las, e transpo-las, vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus intentos. Bastro-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado, agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o ginete de raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitro o corpo. Com um dos braos sacou Moraes de cima dos ares a dama, que desmaiada depositou no cho, e cujos sentidos cuidou em avivar, tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegro no entanto os dous cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e fervorosamente a mo de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome, officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do servio assignalado que prestra sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus sentidos, e quiz ver o homem que a salvra da morte, e exprimir-lhe de viva voz o seu reconhecimento. No tardro em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a dama, e a transportou para a sua casa, emquanto Manuel tratou de recolher-se ao seu mesquinho alvergue. Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservra sobre o corpo, lhe no deixra conciliar o repouso. Com o correr da noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as foras, agitou os membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno. Horas tormentosas se passro para Moraes at que o dia raiou, e linhas quentes do sol lhe rasgro as frestas da janella do seu alvergue, sem que uma mo amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto como s e isolado residia. Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de foras, quando ouvio bater porta, e fallar uma voz meiga posto desconhecida. Pde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito. Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvra na vespera. Com difficuldade pde responder-lhe Moraes s perguntas, reconhecendo-se extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e instruces no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse. Regressado o velho sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia. No sabia Brodechevius recusar-se vontade de sua filha Beatriz. Era o fructo unico que lhe restava da sua finada e querida esposa, e dominava-lhe o animo e o corao com poder extraordinario. Desesperado com a morte da companheira, abandonra Amsterdam, aceitra um emprego no conselho director da Companhia das Indias, passra-se para o Recife, e ahi se estabelecra, vivendo s para Beatriz, e cercando-lhe a vida com todas as delicias, que sem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno. Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde um facultativo se incumbio de trata-lo. Tomou a febre um caracter maligno e propores assustadoras. Visitava a miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o s vezes a tomar os medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao enfermeiro, animando-o com maneiras gentis e expresses doces e sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava cabeceira, e lhe dirigia a vontade. Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e louros cabellos ondeavo-lhe por sobre a cabea altiva, denunciando a sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e expressiva, olhos grandes e feies regulares, lhe davo ares de magestade mais que de delicadeza e doura. Impunha o respeito pela seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertra o catholicismo em santas da sua Igreja, to graciosas na sua dignidade quanto imponentes na sua attitude. Faltavo a doura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das imagens traadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porm uma d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a imaginao. No resplandecio os seus olhos voluptuosamente, inundando-se de paixes deleitosas. Mas dizio admiravelmente que se um dia sentissem os assaltos do amor, no serio estes transitorios e mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hio altura de dedicao firme e permanente. Acostumava-se Moraes direco que lhe dava Beatriz, descobrindo pela primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos. Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavo os seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella queria que elle no morresse. Fallava-lhe j o corao que era Beatriz indispensavel sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixo lhe tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito. No deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moo, as suas maneiras nobres, que lhe no parecio coadunar com a condio em que o achra, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que manifestavo uma educao superior sua profisso, e os pensamentos moraes e religiosos, que soa exprimir, e que abonavo uma alma pura e honesta, e um animo primoroso. O que foi n'elle desde o principio paixo amorosa, iniciou-se em Beatriz como sympathia razoavel. Borbulhavo no peito de Manuel sentimentos fogosos e delirantes, que lhe assoberbro o espirito. Deixou-se arrastar a donzella por uma affeio moral, que lhe descrevia as qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da razo para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o corao, como gottas d'agua, que esbroo a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo razoavelmente, tomou a affeio o caracter de amizade, e este o gro de amor, acompanhando as phases da reflexo em luta com os sentimentos naturaes, at que estes conseguro sobre aquella um triumpho decidido. Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e diminuindo alternativamente at que entrou em plena convalescena. Bastou esse tempo para criar e firmar nos coraes de ambos os jovens o sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre. Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento, e que o s destino cego conservava em trabalhos inferiores sua educao e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego conveniente na administrao da Companhia, em cujo exercicio entrou, sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que suspeitasse o velho os mysterios que lhe escondia o corao, abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais evidentes de verdadeira estima. Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeioava as vontades da donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da paixo, ganhou Moraes relaes com personagens importantes da Companhia, e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto calvinista, e arreigados profundamente s virtudes domesticas, e vida intima e pura do lar e da familia. Resistra sempre o seu espirito altivo e independente disciplina imposta e forada. A instruco que adquirra dos dogmas da religio catholica no lhe havio ganho a razo, como elle proprio o desejra, para que com a razo lhe sorrisse a f que lhe cumpria ter na orthodoxia de Roma. Conservava j o seu culto mais por habito e instincto que por convico, porque se impregnra de duvidas o seu animo, no distinguindo nas religies seno as idas moraes e as virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe parecio em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de So Paulo. A cogitaes to fataes lhe ia seguindo a indifferena espiritual e o scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da alma. Concorreria o amor para esta phase desgraada, que o desprendia da religio pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da creatura diante do supremo autor do mundo? CAPITULO VII Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as obrigaes do seu emprego. Applicava-se s lettras e s artes. Engolfava-se na contemplao do seu amor. Espirito e corao nadavo em prazer e delicias ineffaveis. Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecio comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma, e nas conversaes familiares denunciavo as palavras de ambos os seus intimos sentimentos. Notmos j que o amor de Manuel de Moraes tendia a idas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos dedicado s cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella, porque nascia da convico e da razo que o aceitro, e dos pensamentos sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma aspirao pura e santa. Dominava a paixo de Moraes os sentidos materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinao, curvava-o pelo enthusiasmo, e pertencia mais terra e realidade, fragil e inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus impetos. Amavo-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que percebessem as differenas que os arredario mais tarde. Preparra no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedio para augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem entretinha relaes amigaveis e excellente alliana, e passou ordens para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem fora conta d'esta praa importante. Partra a frota, e penetrra na Bahia, descarregando gente que por terra coadjuvasse os navios na redio da cidade. Foi o assalto terrivel e medonho. Defendro-se com denodo os habitantes da praa. Tomro os Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario. Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalos, fortificado cuidadosamente, soffrro todavia resistencia to azeda e pertinaz, que os compellio a recuar. Tinho perdido j cerca de mil e cem homens, quando conhecro que lhes no restava recurso, para no morrerem todos, seno no levantamento do sitio, e no abandono da praa. Volvro vencidos para o Recife os restos da famosa expedio effectuada pelos Hollandezes em Maio de 1637. Amargurra-se extremamente o principe de Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traou todavia ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, no perdendo a esperana de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de que j estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos Portuguezes. Tramava porm na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo, Christovo Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao servio dos Estados Geraes, e que governra militarmente Pernambuco antes que se tivesse confiado a administrao do paiz a Mauricio de Nassau. Proezas praticra Artichfsky, servios distinctos commettra, fama de valentia e coragem ganhra, durante as guerras em que anteriormente laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e procurava vingar-se da preterio que reputava injusta, e da sua substituio pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em seus territorios de Pernambuco. Aproveitando-se da derrota soffrida plas armas hollandezas diante da Bahia do Salvador, levantou opposies contra Mauricio no conselho director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe das foras militares, com o titulo de mestre general da artilharia. Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua autoridade, e fra da aco superior de Mauricio. Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu conselho secreto e politico. Expz-lhe a impossibilidade da existencia no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia. Manifestou intenes de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife. Ero porm todos os membros do conselho amigos do principe, e justos apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentro unanimemente em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com communicaes francas Companhia a respeito dos motivos que os levavo a adoptar essa anormal resoluo e alvitre. Partra constrangido Artichfsky, e ficra o principe senhor da situao, e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam arrancario por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios concentrados dos naturaes do paiz recomeariam as lutas e guerras nas terras j possuidas pela Companhia, e logrario expellir do solo americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil hollandez com a moderao, experiencia e tino de Mauricio de Nassau. Regimen diverso arrastaria tudo para a perdio. Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a Amsterdam com a sua familia. Communicou sua filha os seus intentos para que se preparasse a seguir na primeira frota que para Hollanda se fizesse de vela. Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas no oppz duvidas resoluo de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos. No escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jmais declarado, elle no deixra de perceber? Que causas lhe teria dado? Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem? Atormentava-se Moraes com serias cogitaes, sem que pudesse rasgar o vo que encobria a dr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o seu procedimento reservado. Corrro alguns dias nebulosos e enlutados aps tantos dias alegres, felizes, perfumados de amores, de estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos. Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. No podia conservar-se n'aquella situao miseranda depois da anterior e aventurada posio. Sentio que a franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado. Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma declarao leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais eloquencia havio os olhos propalado, j que uma nuvem se interpuzera linguagem muda com que mutuamente at ento se correspondio. No lhe faltavo occasies para se achar a ss com a donzella. Tomou foras para a aco, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraa lhe houvera acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz esconder-lhe a verdade. Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse ser satisfeito, arrancou do corao um grito de dr, e disse-lhe estremecidamente: --Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. No sabeis j, com que fora vos amo e adoro! No espantou a confisso donzella. Conheceu porm que aps ella feita to solemnemente, melhor fra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz se lhe embargava s vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre os tremulos labios que a desprendio. Declarou-lhe que seu pai lhe annuncira que pela primeira frota, que do Recife seguisse para a Hollanda, deverio ambos partir, deixando por uma vez as terras de Pernambuco. --Partir! partir!--exclamou elle attonito;--E eu que fico aqui fazendo? que vida posso esperar? Subro-lhe ao espirito todos os impetos da paixo. Fallou mais alto o sentimento do peito que a reflexo, o respeito e a conveniencia. --Para que me apparecestes?--continuou desasocegadamente.--Para que mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era amor, que elles nunca tinho conhecido. Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixo nos gestos, no trato, nos olhos, no fogo, e no enthusiasmo. No escapa a mulher nem-uma o mysterio de um corao apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a fora e vehemencia com que elle fallava. Fingra a principio que o no comprehendra. Empregra esforos para divergir do assumpto do colloquio. No conseguindo porm que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado enternecimento: --Razo maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. No vos quero enganar. Amo-vos tambem, e no menos profundamente do que me asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaos. Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a minha lembrana... Poder talvez o tempo abafar idas que a loucura nos creou, e que a razo condemna... --No vos entendo,--interrompeu-a Manuel de Moraes.--Porque condemnar a razo o que lhe no contrario? --No o pensastes, e nem eu ao principio--repetio-lhe Beatriz, pegando-lhe na mo, erguendo humedecidos os olhos para o co, e empregando um tom de ineffavel ternura.--Deixmos imprudentemente que a paixo se infiltrasse pelos nossos coraes, sem que pressentissemos a impossibilidade de uma unio legitima. Sois catholico, eu protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. No podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrro. Gottejo feridas profundas entre os dous cultos... --Impossivel! impossivel!--prorompeu Moraes.--Emquanto me no convencia de ser correspondido, poderia realisar-se a separao. Tragaria eu s a minha dr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o co diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallo os anjos no paraiso-- impossivel.--Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com a vossa vida, e exhalar o ultimo suspiro da existencia por vs, ou comvosco! --De que serve tudo isso,--replicou-lhe Beatriz agitada igualmente, posto esforando-se em parecer serena,--se jmais podemos unir-nos, se nos separo para sempre os homens, os cultos, as tradies e os costumes? Eu no posso tornar-me catholica. No poderieis renegar a vossa religio, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razo, e vos coagisse a renegar, no vos atormentaria eternamente o perjurio, no ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? No se murcharia com elle o amor que exigio sacrificios superiores alma e f? No o quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous viajores que se encontrro no deserto, repousro ambos sombra do mesmo osis, refrescro os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se despedro depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle de lagrimas em que andamos errantes no eterno. Transpomo-lo apenas. Mais tarde nos encontraremos. Como o filho de Abraho atravessastes a Mesopotamia. No vos seguir porm a filha de Labo. --Quereis que eu morra?--perguntou-lhe Manuel assombrado por essas palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a donzella.--Melhor fra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos cuidados e carinhos me no tivessem salvado! --Deos--repetio-lhe Beatriz--nos concedeu um corao para amar, mas acima do corao collocou o espirito, que a sua emanao divina, e a razo que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudea a paixo diante da reflexo. No nos permittido unir-nos honestamente. Ficai em Pernambuco. Eu parto. Assim devia s-lo, logo que nos descobrmos mutuamente os sentimentos. --No, no,--gritou Manuel.--Mato-me antes. O que a vida? o que vale para o homem solitario e abandonado na terra? o que a religio, quando a creatura no tem f intensa e profunda, e reconhece que pertence igualmente ao mundo, e sociedade humana? Aterrou-se a donzella com esta declarao inopinada. Percebeu logo que a paixo cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas essa paixo se manifestava com uma fora que lisongeava de certo o seu amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores sacrificios. No era todavia Beatriz to sensivel ao arrastamento dos instinctos do seu sexo, que no deslumbrasse ao longe, e no tempo as consequencias fataes que poderio resultar do enthusiasmo. --Mudana de culto,--disse-lhe ella,--exige convico firme, e no subito hallucinamento. Deve ser obra da razo, no do corao. O espirito confirma e garante. O amor passageiro. Quando lhe desapparece o encanto, e murcha-lhe o vio, bate porta o arrependimento. Eu propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraa... --No a temais,--retorquio-lhe Manuel.--Permitti que eu vos acompanhe para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas palavras. Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um momento de socego. Cortou-se a conversao, separando-se na maior agitao do espirito. Dominava a paixo exclusivamente em Manuel de Moraes. Subordinro-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes. Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga s suas cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade, considerando-os como sorte inevitavel e unica que lhe est reservada, e a que o attrahem delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans. Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o corao com o amor profundo de Moraes. Fallava-lhe porm a razo, denunciando-lhe perigos futuros. Luta de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no espirito, e o apouquentou bastante. Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe seria impossivel esquec-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua alma. No deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a sinceridade da declarao do amante, que preferia trocar o catholicismo pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella. Estimava Brodechevius o homem que salvra a sua filha. Prezava-o como intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz dos feitos e aces mais honrosas. No lhe repugnava aceita-lo por genro. No ero para elle distinces a riqueza, e nem o nascimento desigual ou humilde. Arredava-o a s diversidade dos cultos religiosos, que se poderia sanar abandonando Manuel a religio catholica, e adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porm em seu parecer verificar igualmente a convico com que praticaria Moraes a difficultosa mudana. Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado. Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno de 1639. Embarcro-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se Manuel de Moraes da America, na inteno firme de nunca mais rev-la. CAPITULO VIII No decorrra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havio retirado Brodechevius e sua filha, e j havia Manuel de Moraes abjurado a religio catholica, abraado o protestantismo com o consentimento do velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado emfim a sua residencia na nova patria que adoptra. Venturosos dias se passro a principio no seio d'essa familia tranquilla e socegada. Posto nem-uma convico arrastasse Moraes para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactido, e cumpria escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava. No lhe pesavo no espirito, porque no era ainda chegada a hora do arrependimento e dos remorsos, e o prendio com doces e agradaveis laos os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicao admiravel e extremosa. Frequentavo-lhes a casa familias distinctas, affeioavo-lhes a amizade pessoas selectas, attrahio-lhes os cuidados relaes agradaveis. Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judos portuguezes, evadidos de Portugal diante das perseguies do governo e do Santo Officio da Inquisio. Numerosas familias d'essa raa condemnada por injustos preconceitos e prejuizos loucos da opinio publica da poca, abandonro as terras luzitanas, e achro abrigo, e liberdade para os seus cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua industria e fortunas. Primavo entre os judos portuguezes homens de merito notavel. Havio muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religio pela catholica, afim de se lhes consentir a residencia na patria, que no admittia o culto israelita. Bastava porm a mais pequena suspeita, a menor denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrro alguns para as ordens monasticas, tomro habitos de sacerdotes, empregro-se no proprio tribunal da Inquisio, como seus famulos e servidores. No lhes valra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditra na sinceridade da sua abjurao. Aps os que, por no quererem renegar as suas crenas religiosas, foro compellidos a expatriar-se, seguro aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente, adoptro o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de sinceridade e dedicao aos dogmas e disciplina da Igreja romana. Bastava ser judo, t-lo sido, ou descender de sangue judo, para que se lhe no poupassem insultos, prises, miserias, violencias, assassinatos juridicos e barbaros. No os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu Portugal com a sua emigrao um povo rico, industrioso, trabalhador, activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas. Figuravo entre os judos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixro fama nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fra medico notavel em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio graas a um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da communho israelita da Hollanda[4]. Manass ben Israel, oriundo de Arabes e judos, naturalista distincto[5]. Uriel da Costa, que exercra cargos civis em Lisboa, convertendo-se religio de Roma, e que nem por isso fra poupado pelo cruento tribunal, que anciava por purificar a f religiosa nas fogueiras que levantava para queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6]. Perseveravo as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus costumes, e a lingua portugueza, formando uma communho livre e levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos, solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes. Tudo o que vra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e situao dos judos portuguezes exilados, parecio fortifica-lo a principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel arrependimento. Rebentra por esse tempo a revoluo portugueza de 1640. Applaudro todos os judos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha. Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os direitos de Portugal e do duque de Bragana elevado ao throno nacional, com o nome de Dom Joo IV, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado para Hollanda, Diogo de Mendona Furtado[7]. Comero estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes reminiscencias do que fra, e de onde proviera. O proprio escripto que traava lhe insinura saudades da patria, e foro com ellas vindo timidas duvidas a principio cerca da honestidade e dignidade da sua abjurao religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que arrependimento do que praticra, e que condemnava-o no fro interno d'alma. Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa bella, meiga, amorosa, devotada; abastana de meios de fortuna; renome de homem intelligente e serio; amigos que o procuravo, e acolhio com urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na terra? Assim o pensra elle proprio no comeo. No descobrra na existencia seno socego, douras, risos, prazeres, delicias, encantos, flres e perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverio reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da alma, lhe iniciou uma agitao paulatina no espirito, que se foi entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava vio e vida. Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra por quem dera e daria sempre a vida. No escapou porm perspicacia de Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. No tardou muito a adivinhar por si, custa de seu unico trabalho, e sem a menor confidencia de Manuel, posto o interrogasse por todas as frmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformao que se ia operando no seu animo. Estremeceu. Realisra-se o seu pressentimento. Aps o saborear dos prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirio os remorsos posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixo enthusiastica, que correspondra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do espirito. Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel que o acordar interrompra, e a realidade supprimra. E se no podia queixar de ingratido. Elle no professava outro amor; no a abandonra por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino; adorava-a sempre com o corao, mas laborava j em lutas intimas das idas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma contra esse amor e paixo a que sacrificra o que agora lhe ia parecendo no dever e nem poder ser jmais sacrificado, como superior que era razo e vida. Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado to fraca, aceitando o sacrificio, e no apreciando no seu justo valor a sua grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertro ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade approximro, e as paixes latentes separo, como remorsos vivos de crimes, que arredo um do outro os seus complices respectivos. Fugio j s confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico a vida regular, as devio trazer naturalmente, posto as temessem reciprocamente. --Sou eu causa,--disse-lhe Beatriz um dia,--dos tormentos do teu espirito? --Tu?--respondeu-lhe Moraes.--Enganas-te. s antes o unico anjo que me ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lanava-se sobre mim; tinha eu conhecimento da minha critica situao, como se estivera acordado; paralysava-me porm a inercia do somno--chegaste,--fugio o monstro,--salvaste-me! --Sacrificaste por mim tua vida,--continuou ella.--Sei que isso te no peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o que no podia aceitar, e d'ahi provm o arrependimento que te tortura o espirito! --Ama-me sempre,--replicou-lhe Moraes,--e tudo isso nada, porque s vivo para ti, e s dres que me assomem ao espirito, desconhecidas, precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbo s vezes, no vejo remedio ou allivio seno em teu amor. Arranca-m'as tua presena, como a do anjo tutelar e da guarda. --Moraes,--tornou-lhe ella,--conheo-te, admiro-te, adoro-te. Sei que sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e no tua, em que se realisasse. No ha mais remedio; suas terriveis consequencias apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vs como os astros gravito um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um lao ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz no hymno da universal harmonia. Eu porm considero-me discordancia inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante superficie incolor das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flres e do firmamento. Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo sentimento forte da dr e da amargura. -- santa creatura!--exclamou, abraando-a e beijando-a com effuso,--desterra imagens tristes e aterradoras. Se no sou o que fui, se no passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual, s tu podes alliviar-me as dres, e salvar-me, porque s o unico ente que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, d-me a f que a vida, a f no teu amor! --Pensei,--interrompeu ella,--que encarariamos a felicidade sob a mesma feio e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas teu espirito se revolta, e eu considero-me culpada. Dize que sacrificios queres que eu faa para superar os que por mim commetteste! --Nem-um, nem-um,--respondeu-lhe Moraes.--Cumpre-me a mim repetir todos para te provar minha dedicao. Se queres que eu exista, no soffras, minha alma! Perda-me, serena-me estes impetos involuntarios do espirito. No s culpada,--nem eu,--ninguem o . Abandona sonhos e pressentimentos infaustos. Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com a falta de filhos, que so prises no mundo, e tomo pela sua affeio a dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e fora, e obrigando os pais a ligar-se terra, e a applicar-se sorte e felicidade da sua prole querida. Definhavo assim cada um para o seu lado os dous esposos, que se adoravo no entretanto. Excedia a prostrao em que cahra Beatriz ao abatimento que Moraes manifestava. Cifrava-se o sentimento d'este no espirito e n'alma. Provinha do arrependimento, acarretra remorsos, que ralando inteiramente, no lhe offendio todavia as foras physicas. A intensidade da dr de Beatriz se passra porm para o corpo, que minguava a olhos vistos. Empallidecio-se-lhe as faces, outr'ora roseas e rubicundas. Cavavo-se-lhe os olhos, em outro tempo vivos, penetrantes e espirituosos. Quebravo-se-lhe as foras paulatinamente. Tomava aquelle aspecto todo, to esbelto e levantado como a palmeira do deserto, to elegante e primoroso como o cysne deslisando-se gentilmente pelas aguas do lago, propores graves, tendencias decadencia e ruina, ares de soffrimentos physicos, que assustavo a todos que com ella convivio, e a estimavo e amavo. Lamentava-se o velho Brodechevius, percebendo finar-se a filha adorada, sem lhe conhecer o mal que a minava, e adivinhar-lhe a cura necessaria. Chorava Moraes como uma criana, esquecendo quasi diante do seu amor a propria dr, que lhe acabrunhava o espirito. Procurava engana-la, asseverando-lhe que no sentia mais as primeiras impresses que o havio assaltado, e convencido cada vez mais do bem que procurra, e da utilidade moral que lhe proviera dos seus actos, no poderia existir longe d'ella, e sem ella. Esforava-se em chama-la ventura e vida pelo amor que Beatriz lhe consagrava, e por piedade para com aquelle que se lhe dedicra com todas as foras do corao e faculdades d'alma. --Moraes--disse-lhe ella um dia ao cahir da noite, encostando-se a uma janella que dava sobre o brao de mar que banha Amsterdam, e olhando para uma pallida estrella que bruxuleava no horizonte sombrio e tristonho do norte.--Vs aquella estrella merencoria? a minha existencia. Breve se sumir ella no firmamento, e o negro manto da escurido a cobrir de todo. Fui feliz emquanto te senti feliz a meu lado. Causei a tua desventura, e devo receber do co o castigo merecido. Sonho-te pelo pensamento idas de deveres nobres e patrioticos. Rumino-te pelo espirito os insensatos sacrificios que por mim praticaste. Torturo-te a alma os remorsos crueis que acompanho sempre quem abandona o seu culto, e a religio de seus pais. No tardar o momento em que fiques livre de mim para volveres ao gremio da tua Igreja, e recuperares o socego pela penitencia e santidade de vida, desprendendo-te das cousas terrestres, que nos afasto da Divindade. --Por compaixo por ti e por mim--atalhou elle.--Que me importa a religio de Roma, se christo igualmente o culto ensinado por Calvino, e mais consentaneo com a liberdade e o arbitrio do homem! No me arrependi; no soffro remorsos. Asseverei-t'o tantas e repetidas vezes, e porque m'o no acreditas? --Leio melhor que tu no fundo do teu peito--continuou Beatriz.--Fez-me Deos de modo que, ou no devia amar, ou possuindo amor, deveria elle assorberbar-me de sorte que o ente que escolhesse o meu corao me pertencesse inteira e exclusivamente, e no nutrisse ida que se no cifrasse em mim. No dia em que notei que involuntariamente--sei-o bem, no precisas repetir-m'o--te impressionavo sentimentos, reminiscencias, saudades doridas do passado--afastavas de mim um pensamento, que te ia acommettendo, e dominando o espirito, posto me dedicasses o mesmo amor do corao, no mais porm as faculdades d'alma, entendi que devia desamparar a terra, e que meus dias estavo terminados no mundo, para s entregar-me a Deos. Pretendeu Moraes replicar-lhe; ella porm largou-o, e retirou-se para o interior do seu aposento. No durou muito o seu soffrimento. decadencia do corpo ligou-se uma febre nervosa. Inuteis e infructuosos cuidados se lhe applicro. Nem-um medico lhe adivinhou a molestia. Reclamou-a a eternidade. Foro os seus ultimos momentos tristes, mas affaveis, despedindo-se enternecidamente do pai e do esposo, e entregando a sua alma fervorosa nos braos do Deos eterno! CAPITULO IX Achava-se de novo Manuel de Moraes s, e isolado no mundo. Quando se separra do claustro, dos pais e da familia, o fortalecio muito ainda o vio, a imprudencia afouta e audaciosa, e a esperana propria da idade juvenil. Ao faltar-lhe agora a consorte querida, ente unico, por quem se lhe cifrava a ventura no mundo, roavo j os seus annos pelos quarenta, e a vida se lhe annunciava com o peso da experiencia e dos soffrimentos. No guardra reminiscencias profundas na primeira poca. Os acontecimentos repentinos que lhe succedro, as viagens que effectura pelo serto da capitania de So Vicente, as aventuras que encontrra no meio dos gentios errantes, e na provincia de Guayr, os rios poderosos, a natureza esplendida do interior da America, o mar com as suas furias e os seus gemidos estridentes, lhe havio exaltado a mente, em vez de abat-la e curva-la. Diversa physionomia lhe raiava agora, em idade mais avanada, e fulgurava em torno d'elle. Idas differentes o acommettio, e lhe corroio as fibras da alma e os segredos do espirito. Saudades sinceras da esposa mortificavo-no e torturavo-no. Havio corrido em companhia d'ella dias to alegres, to prazenteiros, to socegados, to felizes! Amor puro e sem igual, dedicao primorosa e exclusiva, possuia aquelle ente adorado, que se deixra morrer quando percebra falta de uma inteira correspondencia da sua parte! Longe igualmente da patria, cuja lembrana lhe sussurrava a miudo; sem noticias dos pais e da familia que abandonra, e que agora lhe mortificavo o peito com doridos impetos; abjurado da f catholica, que mitiga as dres humanas, e falla ao corao com mais eloquencia que qualquer outro culto religioso; atirado no seio de uma socidade, na qual no nascra, e nem encontrava parentes e amigos intimos, to necessarios vida, como companheiros leaes e devotados; que miseria o cercava, que esperana lhe poderia sorrir, que futuro devia antever? Deixou a casa em que morava, por se lhe partir o peito com o aspecto que ella lhe offerecia j. Separou-se do desditoso Brodechevius, abandonando-lhe as riquezas, que lhe podio pertencer por direito. Recolheu-se a um sitio solitario, nos arredores de Amsterdam, para com liberdade se entregar expanso da sua dr. Era j Amsterdam uma cidade importante pela industria e commercio. Cortavo-na mil canaes, ornados de magnificos edificios, povoados de numerosos navios. Prosperava com o trato mercantil das colonias que roubra Hollanda a Portugal, durante o tempo do seu captiveiro dos sessenta annos, sob os tres Felippes de Castella. Expedia carregamentos continuos e importantes para a Asia, para o Brazil, para o cabo da Boa Esperana. Agglomerava-se-lhe pelas ruas e dentro dos muros um povo emprehendedor, activo e industrioso, que sabia curvar uma natureza ingrata e um clima agreste, e criar bellezas ficticias, e espantosas riquezas, que lhe davo o aspecto de commodos e magestade. O que admirra Moraes nas obras dos homens comeou a perder os seus encantos e fulgor, proporo que a memoria lhe avivava scenas do passado. No era mais soberba a natureza dos tropicos, e no extasiavo mais aos olhos as florestas virgens da capitania de So Vicente, os rios caudalosos do Paran, Tiet, e Prata, e a physionomia esplendida do firmamento com a sua doce e arrebatadora temperatura? Em concepes e obras no superava a natureza arte? O que valia o panorama de uma Cidade artificial, coagida a oppr diques ao mar, para que o mar a no engolisse e absorvesse, diante da planicie alegre em que assentava o Recife, ou as alturas em que repousava a povoao de So Paulo? terra seguio-se a raa dos homens na comparao que o espirito lhe foi formando. A taciturna gravidade do Hollandez, posto industrioso e emprehendedor, a avareza dos judos, ainda que activos e trabalhadores, no estavo abaixo do caracter jovial e vivo dos Portuguezes, e da innocencia e bondade dos gentios americanos? As virtudes e qualidades dos padres protestantes casados, homens do mundo, dos negocios e do trato mercantil, poderio correr por acaso parelhas com a dedicao mystica e santa dos Jesuitas, que parecio no pertencer terra, mas ao co, e que na terra cuidavo s e exclusivamente em praticar feitos meritorios e exercer a caridade e a philanthropia moral, expondo-se aos maiores perigos e propria morte, em beneficio dos gentios desgraados e nomades? Subio dos objectos mundanos para os espirituaes. Encarou os dous cultos, calvinista e catholico, mais como philosopho que propriamente como religioso. Lobrigou desenhado s claras n'aquelle o orgulho do homem, que, a pretexto de liberdade da razo, queria elevar-se directamente a Deos, dispensando intermediarios, e interpretar a capricho os santos Evangelhos, e os livros da lei divina, emquanto que o catholicismo, organisando uma igreja gradual, e erguendo os homens segundo os seus merecimentos, curvava a creatura na humilhao do creador supremo, e lhe explicava os dogmas do culto e os textos das Escripturas sagradas sob a formula mais simples, a da obediencia a uma intelligencia s, para a unidade e regularidade da f. E quanta ousadia na affrontao da Divindade; quanta arrogancia na excluso das pompas dos templos; quanto desprezo na repulsa dos vares virtuosos, dedicados ao ascetismo e s douras da vida eterna, que com razo se canonisro de santos; quanta rebeldia para com o successor de So Pedro, cuja autoridade negavo os protestantes, que aceitavo no entanto a direco de qualquer ente levantado do p, despido de prestigio, e que se erigia por si em propheta e chefe de seita, como Luthero ou Calvino! Resplandecio-lhe pela imaginao a physionomia e o caracter grave, sereno e attrahente da Igreja Catholica, que com o fausto de suas solemnidades irradiava de jubilo; com a melancolia dos seus canticos lembrava ao homem o nada que era; com a confisso e communho lhe alliviava o peito e a alma; com os sacramentos finaes hora da morte o levava para a vida eterna socegado e contricto, esperando o perdo da misericordia divina, que nunca desampara os seus filhos malaventurados. Agglomeravo-se-lhe os remorsos com a consequencia das suas cogitaes. Vida sem f e sem esperana no era a do animal selvagem e embrutecido? Trocar o catholicismo, que nutre, sustenta e enche de f, pelo calvinismo frio e interessadamente calculado, no constituia um crime, superior ao maior peccado contra a moral universal? No existia mais a esposa para lhe distrahir o pensamento amargurado, quando o martyrisava com agudos espinhos e sangrentas dres. Nem-um amigo lhe apparecia para lhe modificar a direco espiritualista das idas, e attrahi-lo de novo s cousas do mundo. Arrastava-se de dia, estorcendo-se em amarguras. Velava de noite, atormentando-se em reminiscencias crueis e remorsos pungentes. Nem-um instincto o prendia mais terra. Aborrecia a sociedade, e no encontrava allivio na solido. Dias sem repouso, e noites sem somno, lhe avivavo cada vez mais os soffrimentos do espirito, ao passo que lhe arruinavo a saude do corpo. Esforava-se por respirar o ar livre dos campos, e notando-os todos lavrados artisticamente, cortados de canaes artificiaes e monotonos, divididos com regularidade exemplar, despidos de arvores naturaes e de vegetao espontanea, despovoados de passaros que gorgo hymnos de amor, que devem subir agradavelmente ao throno de Deos, como harmoniosa orchestra que proclama e sauda a sua omnipotencia, cahia na maior tristeza e prostrao, recordando-se das planicies e veigas americanas, imagem e symbolo da Providencia divina pela sua grandeza ineffavel, encantos magestosos, e sublimes attractivos. Que das aguas, que corrio com a sua propria fora, se desprendio de rochedos, brincavo com as pedrinhas alvas que lhes interrompio o curso, e engrossando, e recostando-se a leitos de flres e perfumes, extasiavo os olhos, e denunciavo o poder ingente do organisador dos mundos? Marchava assim meditabundo e s pela beira de um canal proximo a Amsterdam. Cahira a noite, e escurecra com o seu manto o firmamento, rodeiando-o de trevas, sem que se apercebesse Moraes de que lhe cumpria suspender o seu passeio. Fendeu os ares de repente uma voz enternecida de mulher, que cantava ao som de um instrumento que elle conhecra na sua infancia, e que desde as plagas do Brazil no ouvira mais tanger. Era uma guitarra portugueza, que, imitando a harmonia da harpa, gemia melancolicamente. Approximou-se Moraes para a casa de campo de onde sahio os melodicos accentos, arrastado por uma sympathia rapida que lhe sahio do peito. Applicando o ouvido s palavras do cantico, estremeceu involuntariamente. Ero portuguezas, e pronunciadas por labios portuguezes. Quem seria o anjo que lhe sussurrava aos sentidos vocabulos da juventude? E que exprimio elles, affectos, paixes, ou delirios amorosos? A pouco e pouco ouvio claramente as palavras, e no pde suster-se em p. Cahio sobre uma pedra, que lhe servio de abrigo. Fra para elle o cantico mais uma orao que uma lettra poetica; mais um estigma que uma rima musical; mais uma imprecao que um hymno. Formava-se dos versos seguintes, que a boca que os proferia soltava com sonora e cadente melodia: doce e sagrado culto, Que com o leite bebemos! Tu nos sorris desde a infancia, Com teus feitios crescemos. Antes carceres, exilios, Antes barbaro tormento, Antes cruentas torturas Que esquecer-te um momento! Antes a triste miseria, A fome e a sde mais dura; Antes a morte em martyrios, Em ancias de crua amargura! legado precioso Confiado ao corao! O penhor sagrado de honra, santa religio! Quem pde a f, que lhe dero, Renegar impunemente? Quem seu Deos e sua crena Se arroja a arrancar da mente? Vagar no mundo inteiro, Como um animal damnado. Nem amigos--nem piedade, S, de remorsos ralado! Ha no espirito do homem uma fibra mysteriosa, que Deos ahi depositou para o fim de impressiona-lo de quando em quando pelo supersticioso, extraordinario e fantastico, abater-lhe a vaidade, e manifestar-lhe a differena das duas naturezas que o compem, uma fragil como o corpo e oriunda do p, e a outra immaterial e eterna, como emanao da chamma divina, qual deve annexar-se no fim da existencia, quando separada dos restos mortaes. Por mais robusto e forte que seja o espirito, alli estremece diante de um cadaver que passa; acol se curva contrito diante de uma sepultura; mais adiante se apodera de pensamentos sombrios ao avistar uma cruz no meio do deserto, ou beira do rio, abandonada como foi pelos povos de Israel o Deos homem, que se sacrificou pela salvao do mundo; um som repentino do sino de igreja; um cantico tristonho a deshoras perdidas da noite; um miserere solemne soltado debaixo das abobadas do templo; quem pde resistir emoo, immediata e dorida que traspassa os membros do corpo, gela o sangue, sobe mente, prostra o espirito, e arrasta a alma mais sceptica para cogitaes philosophicas e reminiscencias merencorias? Avassallro Manuel de Moraes todas estas impresses, causadas pelo cantico e guitarra portugueza, repetidos sem duvida e tangidos por alguma judia expatriada que guardra a sua f, e conservra a lingua pittoresca de seus pais nas ribas do mar do Norte, e sob os frios gelos de Amsterdam. --Renegado, renegado!--parecia clamar-lhe uma voz sahida do seu proprio peito, entornando-lhe pela alma abatida uma nuvem de remorsos crueis e dolorosos!--Renegado, renegado!--era o grito estridente que lhe soava os ouvidos. Sem amigos, nem piedade, ficra s e solitario na terra.--No era este o seu estado? No se diria o verso dirigido e applicado contra o seu procedimento? No era um castigo do co? No teve foras para aturar a violencia dos pensamentos. Perdeu os sentidos, rolou por cima da relva que matizava o cho humido, e horas e horas se passro sem que se percebesse do seu estado, e nem-um individuo caritativo, que por acaso transitou, o descobrio, e cuidou em tira-lo do perigo. Esclarecio-se j os horizontes com os primeiros raios da aurora, desprendendo-se das fumaas escuras da noite, desfazendo-as ao seu sopro vital, e derramando luz por sobre a terra e nas immensidades do firmamento celeste, quando a propria humidade do cho o acordou do lethargo soporifico, e lhe prestou foras para levantar-se, e reconhecer a sua triste situao. Encaminhou-se vagarosa e pausadamente para a cidade, estremecendo ao echoar-lhe ainda aos ouvidos o cantico fatal, que o condemnava, e lembrava a sua situao. --Eu abandonei patria, e reneguei o culto, sem convico nem consciencia!--dizia comsigo.--Aquelles fieis sempre sua religio, e supportando por ella tormentos, mortes, exilios, fome e miseria! Ai, padre Eusebio de Monserrate! No serieis o autor d'esses versos que me lano sobre a fronte o estigma da trahio? No me dissestes igualmente que desgraado seria quem trocasse a Igreja pacifica de Deos pelo oceano tormentoso do mundo? Faltava-lhe o ar para respirar, a luz para allumia-lo; a f para lhe tranquillisar a alma agitada por commoes as mais desesperadas e violentas. Chamou-o o leito a repouso, mas o repouso lhe no appareceu no meio das tormentas do espirito, e o leito se lhe afigurou de espinhos, que lhe rasgavo o corpo, e lhe ferio dorida e profundamente as entranhas todas. Molestia tenaz o assaltou, e levou-o quasi s bordas do sepulcro. Resistio a natureza s, e dir-se-hia que ella o reservra ainda no mundo para provanas mais calamitosas. Quando se ergueu do leito, e logrou sahir de casa, deliberou-se a procurar alguma igreja catholica afim de sentir o effeito que sobre o seu espirito produziria a solemnidade pomposa do culto, que desamparra imprudente, e a que o chamava de novo a agitao do animo. Pde o homem nas primeiras idades da vida ser desdenhoso de crenas religiosas, philosopho sceptico, indifferente ao culto, mofador das cousas sagradas. Rodeio-no tantos encantos sensuaes, tantas ineffaveis delicias e prazeres materiaes, que n'elles se deixa absorver, e por elles domar facilmente. Acena-lhe o mundo com scenas prestigiosas, falla-lhe a natureza com attractivos, doura-lhe o horizonte tantos quadros alegres, canto-lhe to agradavelmente as aves, enfeitio-no as flres com tantos perfumes, sorri-lhe a sociedade com tanta meiguice, extasio-lhe a existencia tantos mysterios e sonhos! Quando porm dobra o cabo de mais da metade do prazo provavel que tem de passar na terra, e para adiante alarga a vista, v estreitar-se o espao, e fulgurar-lhe perto o espectaculo da morte, a sepultura cavada no cho, o somno derradeiro... ai!... infeliz!... Precisa de religio que lhe allivie o peito, de f que lhe alimente esperanas, de crena firme na eternidade e na misericordia divina, que unica pde perdoar-lhe os crimes! Era este j o estado de Moraes, e procurando a Igreja de seus pais, quem sabe--fallava-lhe o seu pensamento--se depararia com algum lenitivo aos seus males pungentes! Custou-lhe a achar uma quasi choupana, sem aspecto e nem perspectiva de templo, aonde se celebrava o culto romano por alguns poucos fieis que residio em Hollanda, e no adoptavo o calvinismo, ou lutheranismo, que predominavo na maioria do povo. Tremulo, convulso e submisso peneirou os umbraes da porta. Achou-se dentro da igreja, em face de tres altares ornados com imagens, cobertos de flres allegoricas, scintillantes de luzes. Appareceu-lhe ao lado a pia com a agua benta para se purificar dos peccados. Celebravo os sacerdotes missas solemnes, com canto, coros e musica de orgo. Exaltavo-se as grandezas e o poder de Deos eterno, e anjos com azas brancas, santos prostrados, e parecendo interceder pelos homens, as vestes sagradas dos padres e assessores, e a linguagem mystica latina, formavo um espectaculo imponente da magestade do culto. Como alegra o viandante cansado e atormentado por sol ardente e areiaes abrazadores a vista de um oasis no seio do deserto da Arabia? Como sorri o encontro de uma fonte crystallina a quem arqueja de sede devoradora? Assomou assim mente de Moraes uma sensao balsamica, deliciosa, salvadora quasi, que lhe borrifou o pensamento com idas mais prazenteiras, com um raio de luz que lhe resplendeu nos arcanos d'alma, e allumiou-lhe o espirito. Prostrou-se contrito como penitente. Raiou-lhe a esperana com as vozes dos sacerdotes, a presena dos altares, a vista dos santos, o aspecto das flres e ornamentos, o som harmonico do orgo. Elevou at o throno de Deos o grito do seu arrependimento, e implorou-lhe a immensidade da sua misericordia. Duas horas ahi passou, de joelhos, firme e mais socegado, parecendo-lhe que durante esse tempo lhe concedia a Providencia divina uma vida nova, e promettia um melhor porvir. Para sahir do recinto do templo foi preciso que os empregados lhe annunciassem que tinho de fechar-lhe as portas. Descobrra porm o balsamo alliviador dos soffrimentos do seu espirito. Que lhe dizia agora a alma que fizesse para completar a cura, e trazer-lhe o socego? CAPITULO X Ao amanhecer do dia immediato deixou Amsterdam, e partio para Haya. Chegado capital dos Estados de Hollanda, indagou aonde residia o emissario e agente diplomatico portuguez, acreditado perante o governo do stathouder, e que era ento o padre Antonio Vieira, Jesuita celebrisado, prgador excelso, e amigo particular de D. Joo IV, rei de Portugal, incumbido de negociar pazes com os Estados Geraes, afim de poder sustentar a guerra da independencia, em que laborava contra Hespanha. Dirigio-se para a sua habitao, e pedio ser levado presena da illustre personagem. Introduzido em uma sala simplesmente arranjada, brilhando mais pela modestia e decencia que pelos ornamentos de luxo to proprios dos agentes diplomaticos, que nas apparencias assento a sua dignidade e cuido realar o seu credito e caracter, descobrio a um canto sentado em uma poltrona um homem, revestido com a roupeta negra e comprida da companhia de santo Ignacio, tendo um pequeno barrete preto coroando-lhe a cabea, e occupado em escrever sobre uma mesa singela e repleta de papeis, a que se encostava absorto, parecendo no prestar atteno ao que em torno d'elle se passava. Contemplou-o Moraes cuidadosamente. Era a sua estatura mais que mediana. Fronte larga, espaosa, manifestando protuberancias salientes. Olhos vivos e scintillantes. Rosto e queixo povoados de barba espessa, que comeava a embranquecer. Aspecto respeitoso e severo. Aquella roupeta, aquelle barrete, que elle nunca mais vra desde que deixra o Rio da Prata, lhe avivro reminiscencias de So Paulo, e anuviro o pensamento com extraordinarios impetos. Fulgurou-lhe mente a ida que estava ainda na companhia de santo Ignacio, e perante esses vares respeitaveis, virtuosos e santos, cuja venerao guardava no intimo do peito. No ousava approximar-se ao Jesuita, e nem perturba-lo nas suas occupaes. Esperou que o padre por si mesmo lhe percebesse a presena, e lhe dirigisse a palavra, o que no tardou em realisar-se, Virando-se por acaso Antonio Vieira, vio de p, em attitude submissa e quieta, aquelle vulto, e perguntou-lhe o que queria, sem fazer um gesto e nem mover-se do assento. --Sou Portuguez, e preciso fallar Vossa Reverendissima,--respondeu-lhe humildemente. --Como vos chamais?--continuou o padre pela mesma maneira com que lhe fizera a primeira pergunta. --Manuel de Moraes o meu nome,--disse-lhe acanhadamente o desgraado. Levantou-se subito Antonio Vieira da sua poltrona, avanou alguns passos para o sitio em que estava Moraes, encarou-o com cuidado e perspicacia, e dirigio-lhe as seguintes palavras: --Conheo-o bem. Tome banco, e communique-me o que deseja. --Nasci em So Paulo,--proseguio de p Moraes, no ousando obedecer ao padre, que lhe ordenra de sentar-se. --Sei, sei,--interrompeu-o o Jesuita.--No precisa desdobrar paginas que o devem amargurar. Sei toda a sua vida. --Pois se o reverendo padre a sabe,--continuou Manuel de Moraes,--inutil que eu o incommode e roube o tempo. E um signal de despeito se espalhou por toda a sua physionomia, o qual Antonio Vieira penetrou immediatamente, e traou de desfazer com certo affecto, e sorriso meigo, que lhe morreu nos labios, apenas elles o denunciro. --No tem razo,--disse-lhe o Jesuita.--Abanque-se, e conversemos. Eu perteno ao Instituto de santo Ignacio de Loyola. Parece que da sua memoria se no varreu ainda o procedimento dos servos de Deos, que o educro em So Paulo. Nutre contra elles algum motivo de queixa? --Oh no!--exclamou Moraes.--Deixro-me gravadas eternamente no espirito e no corao as mais saudosas lembranas. Mas eu reverendo padre, illudi-me, pensando que no nascra para os santos misteres da companhia. Um espirito inimigo me arrancou do seu socegado e glorioso asylo. Aquellas virtudes primorosas, mas asceticas, aquella vida exemplar de sacrificios constantes e de devotao solitaria em pr dos homens, parecro-me superiores s minhas aspiraes e foras. Faltou-me a vocao, a f, a persistencia do animo. Preferia servir a meus pais no lar domestico, coadjuvar minha familia nos meneios da vida, e pertencer ao mundo. Repellio-me meu pai... Entreguei-me s aventuras. Atravessei desertos. Cahi prisioneiro... --Isso nada --cortou-lhe o Jesuita o discurso, carregando o sobrolho; apertando os labios, e reganhando o aspecto da severidade.--Ahi no ha crime ainda... ha desgraas apenas. --Perde-me o reverendo padre,--gritou soluando Moraes, e atirando-se ao cho.--Tem razo. Tem toda a razo. Mas Deos no perda quando ha arrependimento sincero e firme? Arrependo-me, arrependo-me. Passou-se a poca das loucuras. Estou preparado para todos os sacrificios que posso remir os meus crimes. Ancio por confessar-me, fazer quantas penitencias me recommendarem, soffrer as penas que me impuzerem, comtanto que volte minha santa religio, unica que reconheo por verdadeira, e possa regressar para a minha patria, para o seio dos meus parentes, e para a santa companhia, acabando os meus dias no servio de Deos, e esperando o seu perdo na eternidade! Fixou n'elle o padre olhares vibrantes e perscrutadores. Quiz ler-lhe na consciencia, descer-lhe ao fundo d'alma, e descobrir a verdade da retractao e sua espontaneidade. No se tratava de um gentio selvagem, puro e innocente, nomade e ignorante, despido de idas sociaes e religiosas, que Antonio Vieira encontrra em multido errante no seio das florestas brazileiras, e que elle sabia to perfeita e carinhosamente affeioar grei catholica, chama-lo religio santa de Christo, e fazer-lhe abraar de um trago o baptismo com a f, no guardando no corao pensamento adverso ou malicioso. Fra Antonio Vieira um missionario magistral, e se habitura a considerar o indigena das solides da Bahia, do Maranho e do Par como uma criana, que aceita sincera e convencidamente os conselhos do religioso provecto, e se lhe dedica com todo o fervor ingenuo da alma e do espirito. Outra era porm a situao de um Portuguez, que esquecra o seu culto, postergra os seus deveres religiosos, e apostatra da sua f, trocando-a pelas doutrinas dissidentes e schismaticas que perdio o mundo. Mais difficultosa e grave era ainda a sua posio, tendo em presena um homem que elle sabia instruido, intelligente, e atormentado de paixes tumultuosas. --Manuel de Moraes,--disse-lhe o padre, erguendo-se como o sacerdote, e tomando a attitude que cabia a quem no fallava j como homem, mas obrava como representante de Deos e da Igreja.--Como posso dar credito s vossas vozes, quando contra vs proclama uma serie constante de procedimentos indecorosos, uma lista de crimes infamantes? --No proclama s, reverendo padre,--retorquio-lhe Moraes;--condemna-me at com fora e verdade; sei-o eu mais que ninguem. Daria porm este passo por interesse? O que me falta na vida, se a pretendesse continuar como at agora? --Sois ardiloso,--disse-lhe o Jesuita.--Conheo-vos muito pelos vossos escriptos, e pela fama dos talentos que Deos vos concedeu. Como patriota, no nutro a menor duvida, porque a defesa que publicastes da nossa revoluo de 1640 o certifica de sobejo. No basta porm isso... no... A religio superior a tudo. O que patria, sociedade, familia, homem, sem a religio de Christo, dos seus apostolos, dos seus santos canonisados, da sua Igreja universal e eterna, do seu representante na terra, que o Summo Pontifice de Roma? Fragil tudo, barro incolor e imprestavel, materia inerte, selvageria miseranda, animalia bruta. Aos interesses mundanos se antepem as aspiraes sagradas e as cousas divinas. Ao homem a familia, familia a sociedade, sociedade a patria, e patria a religio unica e verdadeira de Deos, que a catholica apostolica romana, da qual so servos humilissimos os socios e discipulos de santo Ignacio, que abandonastes e renegastes! -- sincero, meu padre,--continuou Moraes,-- sincero o meu arrependimento. Torturo-me os remorsos. No me deixe morrer sem retractar-me, e expiar os meus crimes. No me deixe finar nas penas do inferno, que me devasto, assolo e martyriso j. Tenha piedade. Guie-me. Ensine-me o caminho da esperana, que allivia, quando mesmo no salve! Foro estas palavras acompanhadas por to abundantes lagrimas que inundro o semblante de Moraes, e proferidas com accento to enternecido e convencidamente profundo, que o Jesuita se impressionou em pr do penitente, e arrancando do pescoo uma enorme cruz pendida de um rosario que o ornava, apresentou-a a Moraes, que a beijou incontinente com fervoroso affecto, e dando evidentes demonstraes de arrependimento consciencioso. --Levanta-te, peccador!--disse-lhe o padre, e abrindo uma porta, que lhe apontou com a mo, continuou:--Eis alli um oratorio. Alli est a imagem de Deos. Curva-te diante d'elle, dirige-lhe tuas preces, e pede o teu perdo. Ergueu-se Moraes de subito, correu para o oratorio annunciado, transpz a porta, e atirou-se de joelhos diante de um altar allumiado por uma lampada de prata e quatro velas de cra, que lanavo um claro funebre e merencorio. Estava em cima do altar um grande quadro representando Jesus crucificado. Gottejava-lhe o sangue das mos, dos ps, e das numerosas feridas de que tinha o corpo atravessado. Serenidade celeste e magestosa lhe pairava por sobre as faces esbranquiadas. Dos olhos amortecidos partio raios vivazes de innocencia, pureza e santidade ineffavel. Parecia proclamar ainda ao mundo as verdades eternas, a moral e a fraternidade humanitaria. Pintava-se agarrada aos ps da cruz a afflicta Mi, carpindo a dr que lhe dilacerava o peito, e lhe raiava sublime pelas faces enternecidas. De um lado do quadro a grande figura de santo Ignacio de Loyola prgava a disciplina e o enthusiasmo para combater o protestantismo. So Pedro, do outro lado, mostrava as chaves do co, e cingia a tira augusta dos Pontifices de Roma, cabea da Igreja catholica. Sentio Manuel coar-lhe pelas veias como que um lenitivo, seno jubilo, diante d'essas santas imagens. Despio-se a sua alma do sopro frio e secco do calvinismo, aquecendo-se s chammas mysteriosas do culto salvador e misericordioso. No lhe esquecro oraes enternecidas, preces da mocidade, e sinceras demonstraes de convico e f. Sorrio-lhe a esperana, a vida, a eternidade sob nova physionomia. Rasgou-se-lhe aos sentidos, e ao espirito, um vago, diaphano e indefinido futuro, que j no era o da desesperao, como at ento antevia, e com que tanto se assustava. Tempo bastante deixou-o a ss o padre Antonio Vieira na posio de peccador e penitente. Aproveitou Moraes esse espao, saboreando-o a tragos apraziveis, inundando-se de esperanas prazenteiras, e reganhando a f perdida, que se lhe entranhou profundamente, e se apossou de sua mente inteira. Dir-se-hia outro homem, mudado, metamorphoseado, crente, e ancioso de entregar-se ao servio de Deos eterno, e da sua Igreja universal, para remir por meio de todos os sacrificios, que o no aterrorisavo j, os seus peccados e crimes, e alcanar a sua salvao eterna. Chegou-se a passos vagarosos para o p d'elle o celebrisado Jesuita. Percebeu-o absorto na contemplao celeste, raiando-lhe o semblante com uma alegria extraordinaria, dedicado fervorosamente adorao, entregue a pensamentos puros e divinos. Admirou-o na sua contrico, e convenceu-se de que provinha o seu arrependimento de espontaneidade e sinceridade da consciencia, e que o catholicismo e a companhia de Jesus ganhario muito com a abjurao da sua apostasia. Estava o padre acostumado a assistir a arrependimentos serios, e a devoes preciosas e inspiradas subitamente depois de uma carreira lamentavel de crimes, como se a Providencia divina prezasse sacar do mal infindo o prestimoso bem, e mostrar que a retractaco convencida e conscienciosa conseguia o esquecimento de peccados horriveis, e salvava os infelizes que, recuados dos seus impetos de loucura, se soccorrio sua inextinguivel piedade. No inicira o proprio santo Ignacio de Loyola a sua vida tormentosa no turbilho de feitos escandalosos? No se convertro em seus discipulos e se tornro exemplares de virtudes selectas individuos exaltados repentinamente pelas obras meritorias e gloriosas dos padres da companhia? No se recrutra e resplandecra o Instituto algumas vezes com peccadores que se reputavo perdidos, e que uma vida nova de sacrificios attrahira salvao das suas almas, e ao servio heroico e humanitario da companhia? No conseguira Madgalena ser por fim canonisada santa da Igreja, aps enormes aces, que a prostravo na miseria degradante e infima? Era por demais avisado o Jesuita para se enganar em presena de manifestaes to expressivas, e para deixar perder-se uma occasio to propicia, que offerecia ao Instituto recuperar uma intelligencia primorosa, e um sujeito ornado dos mais bellos e distinctos dotes e qualidades. No lhe bastavo os triumphos adquiridos nos sertes do Brazil sobre tribus inteiras de gentios desgarrados e errantes, que chamra ao gremio da igreja santa. No se reputava o Instituto devotado exclusivamente catechisao e civilisao dos selvagens dos desertos americanos, como praticavo ainda os discipulos de santo Ignacio, expondo-se corajosos e enthusiasticamente fome, sede, s perseguies, s frexas envenenadas dos gentios, e morte cruel, que alguns encontravo na solido das mattas virgens; nem tambem a conseguir abjuraes de rajahs e povos idolatras da Asia, como So Francisco Xavier, apostolo das Indias. Mais poderosa aspirao e ambio mais elevada lhe exaltavo e dirigio o animo. Anciava por ver a companhia alar-se em prestigio na Europa, combatendo com denodo os schismas que rasgavo a Igreja Catholica, domando as autoridades civis, superintendendo os soberanos, e impondo-se ao poder temporal, e marcha dos governos. Verdadeiro revolucionario politico e religioso, empregava a penna escrevendo constantemente e publicando umas sobre outras obras primorosas, e no poupava a palavra, fallando dos pulpitos aos reis, aos nobres, ao clero, e ao povo, que se apinhavo nos templos para ouvi-lo prgar, e admirar-lhe a portentosa eloquencia, e a instruco variada e interessante. Convencido de que a companhia de Jesus era um instrumento da Igreja e do Papa, no repousava em seus trabalhos. Conseguira fazer resoar os templos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os chos agradaveis e harmoniosos de sua voz admiravel, e gemer os prelos typographicos com a tarefa ininterrompida de manufacturar os seus livros. Recebra misses secretas e politicas de Dom Joo IV de Portugal para Roma, Frana e Hollanda, e em pr do seu paiz negociava ainda allianas de naes estranhas, que o ajudassem contra Hespanha. Despedia a sua palavra o fogo sagrado. Queimava como incendio, feria como punhal afiado e agudo. Seduzia, arrastava, captivava, e enchia ao mesmo tempo de encantos os ouvintes todos. Manifestava a sua penna uma logica cerrada, um estylo pomposo e correcto, uma cpia espantosa de erudio, e imagens apropriadas, interessantes e arrebatadoras. Alma grande, sublime espirito, eloquencia superior, corpo affeito a trabalhos e fatigas, indifferente a perigos, devia justamente passar o padre Antonio Vieira, nascido em Lisboa, criado e educado na Bahia, por um dos homens mais extraordinarios que tem o mundo produzido: meio Portuguez e meio Brazileiro; meio civil e meio religioso; meio patriota e meio romano; gozou devidamente em sua vida de uma fama universal e legou posteridade um nome de engenho selecto, grandioso e admiravel. CAPITULO XI Notmos j que o padre Antonio Vieira, percebendo a sinceridade dos passos e desejos de Manuel de Moraes, se chegra para elle, posto o no interrompesse na sua adorao mystica. Logo porm que percebeu occasio opportuna, se apresentou-lhe frente, lanou-lhe uma beno paterna com apparatosa solemnidade, e ajoelhou-se igualmente a seu lado, rezando com devoo, e implorando a misericordia divina em pr do acolhimento no gremio da sua Igreja da ovelha desgarrada do rebanho, e que espontanea e convencidamente voltava para viver e morrer no seio d'elle. Erguendo-se depois, disse a Moraes em tom resoluto:--Approxima-te do confessionario, ajoelha-te perante o sacerdote de Deos, e revela-lhe todo o teu corao! Obedeceu-lhe Moraes. Sentou-se o Jesuita no confessionario, e a seus ps se prostrou o penitente. Longa foi a confisso com o summariar de aventuras, erros, peccados e crimes de aco e inteno que formro a vida do renegado. Interrompio-na a miudo soluos magoados, abundantes demonstraes de dr, e jorros de lagrimas que lhe saltavo dos olhos. Quando a terminou Moraes, levantou-se o Jesuita, cravou as suas vistas no altar, como quem lhe pedia conselhos ou auxilio, e balbuciou preces repetidas. Benzeu depois ao penitente, e designou-lhe a penitencia que lhe cabia para encetar a vida nova que se lhe destinava. Deixou-o ainda no oratorio, e retirou-se para o seu aposento enternecido, e ao mesmo tempo contente e satisfeito com o que se passra, como de um feito importante que lhe devia augmentar os servios e a gloria! Mudou inteiramente Manuel de Moraes. Posto conservasse aspecto triste e meditabundo, recuperra o repouso d'alma e do espirito, e com elle o do corpo. Intima alegria lhe proclamava o acerto da sua nova abjurao, que tornou publica, segundo as ordens do padre Antonio Vieira. Cumprindo com os seus deveres religiosos, parecia-lhe que alliviava o animo de um peso insupportavel, que o acabrunhava outr'ora constantemente. Rompeu com o mundo que o rodeiava, cortou as relaes e conhecimentos que possura, e o padre, a igreja e o estudo occupro d'ahi por diante e exclusivamente todos os seus momentos. Estimava-o o Jesuita, prezava-o j, e recommendou-lhe escrevesse uma historia da America portugueza, que elle conhecia perfeitamente, e com referencia em particular s invases e occupaes dos Hollandezes, cuja lingua praticava, e cujos livros lia com facilidade. Quando lhe considerou completa a abjurao, annunciou-lhe a necessidade de partir para Lisboa, afim de ahi reentrando para a companhia de Jesus, e logrando o seu perdo do soberano, e permisso do provincial, passar-se para o Brazil, e dedicar-se com fervor catechisao dos gentios. --Cumpre rehabilitar-te,--disse-lhe,--n'aquella sociedade e n'aquelle governo. Encontras nas capitanias do Brazil trabalhos escabrosos, fadigas superiores, perigos incessantes, e talvez a morte cruel amarrado a algum cepo, ou ao sibillar de uma frexa de gentio selvagem. Mas liquidars as contas dos teus peccados com os sacrificios e feitos honrosos que commetteres. O Deos misericordioso te acolher nos seus braos divinos. No ho de ser s os Brazis que te ho de pr prova de calamidades e amarguras, de resignao e paciencia. Maiores incommodos te causar os brancos europos, e a sua raa americana, que anhelo unicamente accumular riquezas, captivando, roubando e destruindo os infelizes gentios, sem freio moral e religioso. Acima d'elles esto ainda o governador e as autoridades da colonia, insaciaveis, perseguidores, tyrannicos, despoticos, para quem no ha lei humana ou divina, e com quem ters de arrostar, no servio da companhia de Jesus, e na pratica das virtudes christs e dos dogmas e disciplina da Igreja. Precisas encher com feitos heroicos e meritorios do corpo e do espirito as paginas negras que lavraste no livro da tua existencia atormentada e virtiginosa. No basto a f e a convico conscienciosa para com Deos e os homens, volvendo dos erros e crimes para o caminho da verdade. Torno-se indispensaveis muitos exemplos de virtudes e serios sacrificios para te restaurarem no conceito geral, e perante o Eterno. Eu tambem atravessei desertos e mattas virgens, subi montanhas, transpuz rios caudalosos, avassallei distancias abandonadas, s, inerme, confiado na cruz de Christo que trazia ao peito, vigorado pela f, e fortificado pelos desejos de commetter servios em pr da religio. Avistei-me com tribus nomades de gentio desconhecido. Senti armar-se o arco, desprender-se a frexa, roncar a tacape por cima da minha cabea, roando-me os cabellos com sibillos horriveis e aterradores. Achei-me amarrado ao tronco da arvore, despido das vestes e exposto morte mais tormentosa. Vi-lhes as velhas nojentas, chegando-se para mim com as suas cabaas, sequiosas do meu sangue, bezuntando-me o corpo com tintas vermelhas e pretas, dansando horrivelmente em torno como megeras, retorcendo-se como serpentes damnadas, e gritando como espiritos do inferno. Escapei aos perigos por milagre de Deos, e catechisei numerosa cpia de Brazis desgraados, que minha palavra se ameigavo, minha voz abandonro a sua vida errante e seus costumes selvagens, e aos meus conselhos e exhortaes recebio o baptismo, e abraavo a religio catholica e a vida social, sahindo da miseria e da perdio. Formei muitas aldeias de indigenas catechisados, que se tornro to bons ou melhores catholicos e vassallos que os proprios conquistadores do seu paiz e das suas terras. Nada d'isso me curtio de dissabores, e nem me pareceu pesado sacrificio. Mas os Portuguezes aventureiros, e principalmente os governadores, capites-generaes, capites-mres, autoridades, e empregados publicos da metropole, foro,--sim,--a pedra de toque de minha humildade e paciencia. Eis a vida do Jesuita missionario. Homem, no pertence humanidade seno pelo lado espiritual, e sociedade seno pela vida dos sacrificios. Padre, no vive no descanso do claustro e no repouso da communho. propriedade dos desertos, das misses longinquas, dos perigos, das almas perdidas dos gentios, da morte ingloria no meio das brenhas. No so d'este mundo os seus bens e gozos. Lembra-te de Jos de Anchietta ou de Manuel da Nobrega. Caminha em vida para o co atravs de cachopos levantados a cada instante diante de teus passos, e a teu lado, afim de te provarem a devoo, e te apurarem o sentimento humano. Avana sem dobrar o collo, sem perder a resignao evangelica, sem renegar a piedade, sem esquecer a caridade christ, sem conhecer o desanimo, e nem olhar para trs de ti. Envolve-te em manto novo, e regressando para a companhia de Jesus, ennobrece-te e exalta-te no servio da Igreja e na propagao da f catholica com feitos meritorios e gloriosos. Ser a penitencia reservada ao teu arrependimento, e o balsamo que mitigar os teus remorsos. Aprazia a Moraes esta linguagem do padre venerando e insigne. Coincidia com os seus desejos. Nada o apegava mais terra hollandeza. Havio findado os seus amores e os seus deveres sociaes, com o passamento d'aquella creatura humana que o encantra e enfeitira com tamanha fora. No o prendia o tumulo, que lhe cobrira os restos mortaes, posto ahi corresse de quando em quando a lanar-lhe flres doridas de saudade, porque o corao lhe dizia que fra a hallucinao apaixonada, que se havia apoderado de todos os seus sentidos, a causa da primeira e fatal abjurao religiosa, que lhe pesava constantemente sobre a alma. Occorrra alm d'isso que Brodechevius, a quem consagrava affecto filial pelas suas qualidades virtuosas, e pelo acolhimento com que sempre o favorecera, no logrra resistir morte de Beatriz, e conservar-se no mundo. Arrebatra-o a morte mezes logo depois do infausto acontecimento. Que lhe restava em Hollanda, a que mais se chegasse? Soro-lhe os conselhos e exhortaes do padre Antonio Vieira como uma esperana mais para se conciliar com Deos e com a Igreja. Abrindo-lhe a companhia de novo os braos, regressando para o seu gremio, dedicando-se ao seu servio, volvendo para a sua patria, no conseguiria rever os pais e a familia querida, receber o seu perdo igualmente, e gastar os ultimos dias de vida de um modo util, proveitoso e santo? No o aterrorisavo os trabalhos e sacrificios que se lhe reservavo. No temia os perigos da tarefa de missionario, porque elles o exaltario no amor de Deos, e o fortalecerio na f do culto catholico. No poderia commetter feitos que lhe remissem os peccados, e afeioassem a misericordia divina? Preparou-se para partir, abandonando Hollanda para sempre. No podendo seguir por terra e embarcar-se em qualquer porto de Frana, por causa do dominio castelhano na Belgica, tomou passagem em um navio hollandez que seguia de Rotterdam. Recebeu cartas de recommendao do padre Antonio Vieira para o provincial dos Jesuitas em Portugal, para alguns funccionarios importantes e fidalgos distinctos em Lisboa, e particularmente para Dom Francisco Manuel de Mello. Despedio-se do Jesuita seu protector, que tinha de partir para Munster, no servio do seu soberano. No quiz esquivar-se obrigao de dizer o ultimo adeos quella que lhe dominra em vida o corao e o espirito, e o hallucinra a ponto de perder a sua razo e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que lhe recordava acontecimentos que lhe parecro felizes a principio, e se lhe tornro depois to dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavo em torno, e um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e desordenados. Rodeiavo a grade pequenos arbustos, brotando flres merencorias nas estaes competentes. Impressionro-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que reinava, e as reminiscencias que lhe assaltro o animo. Approximou-se com respeito, e rebentro-lhe dos olhos prantos amargurados. Ajoelhou-se, dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima ramos de flres saudosas, exclamou enternecido: --Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixo nos enlaou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas desditas e calamidades. Assim nos perde Deos no mundo da eternidade, para o qual j te passaste, e aonde no tardarei a seguir-te! S Deos grande! Lanou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres. Affrontra a provana cruel, e a dominra com fora. Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa. Atirro os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de Frana e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde os ventos se encrespo com tanta furia, e se desencadeio com espantosa e repetida violencia. Dobrado o cabo de Finisterra, no o poupou o golpho da Gasconha, celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas, correntes de agua, e furaces desordenados, parecio pretender devorar o galeo e os seus hospedes imprudentes. Vencro os nautas todos os perigos. Ao entrarem porm no Oceano, dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellio, enviando-lhes ventos impetuosos de leste, que os arrastavo para o largo. Mais de quarenta dias despendro at que lograssem avistar as montanhas de Cintra. Aproro barra do Tejo, com os mastros do galeo partidos, velas rasgadas, cortado em pedaos, e falta quasi completa de alimentos e aguada. Dobrro felizmente o cabo, e penetrro dentro das aguas mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigio. Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos e minuciosos interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao tomar conhecimento das recommendaes do padre Antonio Vieira, o acolheu com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto. No terio decorrido duas horas depois que se abrigra ao Instituto de santo Ignacio, quando soldados armados, e fmulos cobertos com as insignias do Santo Officio da Inquisio, se apresentro porta da casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no claustro e em todo o povo da vizinhana. Levados presena do veneravel sacerdote, intimro-lhe uma ordem do tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda, e asylado na companhia, ro dos crimes de abjurao e apostasia, e sujeito jurisdico do Santo Officio. Conferenciou o provincial com varios padres respeitaveis e illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em defesa dos seus direitos. Concordro todos unanimemente, que offendia os fros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da Inquisio, mas lhe no podia o provincial oppr resistencia, cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto, e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes dignos de punio e castigo. Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisio. Corria ento o anno de 1645. CAPITULO XII Estava ento o edificio da Inquisio no largo do Rocio, assoberbando a praa com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado. Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavo noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos presos, os quartos dos tormentos e torturas, e os aposentos das penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as massas tranquillas do povo, que o no avistava sem benzer-se devotamente e tirar-lhe o chapo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e castigo. Nem pedras resto hoje do barbaro edificio. Uma por uma foro pela populao exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas fora, e dispersas em desordem, quando as crtes constituintes de 1821 abolro a instituio do Santo Officio, e extinguro para sempre o tribunal execrando. Por cima do palacio da Inquisio levanta-se actualmente o lindo theatro de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos alegres, s scenas de dres e de sangue commettidas outr'ora dentro d'aquelles muros enfumaados, e que nodoro as paginas da historia portugueza. Foi Manuel de Moraes para alli conduzido. Ao penetrar os umbraes da porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a enorme estatua de pedra da F, que resplandecia no topo da grande escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o espirito cogitaes tenebrosas. Atravessou varios pteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas escadas allumiadas apenas pelo frouxo claro de lampadas pregadas no tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrio e fechavo. Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalao de cadaveres. Dir-se-hia que as paredes gottejavo sangue humano, e gemidos de infelizes creaturas echoavo pelos longos corredores abobadados. Trajavo os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma grande cruz pintada de cr amarella, e cobrindo-lhes as cabeas um capuz que lhes escondia as faces. Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos dos entes malfadados que alli penetravo. Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se no adivinharia caminho se o no aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida. Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta priso solitaria, que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. No havia um leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de barro, que parecia cheio de agua, a um canto da cella. O cho de tijollo servia de assento e uma poro de palhas espalhadas formavo a cama. Negra escurido o rodeiava, vasando-lhe s vezes por uma fresta aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavo todas as aces e gestos dos presos, e lhes ouvio os ais e palavras, por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los. S e n'esta penosa posio, se entregou Moraes a um exame minucioso do sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o cho, o tecto, as paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se dirio de sangue borrifado no meio do colorido enfumaado e sujo, e hieroglyphicos sensiveis que se afiguravo traados por mos humanas. Subro-lhe mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria sangue dos ros do Santo Officio que salpicava aquellas paredes? Serio adeoses ao mundo que elles alli escrevro, e que j nem ero decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores? No logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porm todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a historia tenebrosa do tribunal da Inquisio, que lanava o susto por toda a parte, e sobre todo o povo, e era to geralmente execrado pelos seus crimes monstruosos. Trouxe-lhe o cansao o somno, porque a consciencia repousava tranquilla, desde que abandonra o calvinismo, e volvra religio dos seus maiores. O tempo que dormio no apreciou exactamente. As noites se confundiro com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou claridade as deixasse verificar, no seio das trevas constantes que inundavo monotonamente a cella solitaria. Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da priso, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e uns pes seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fra para os receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, no ouvindo resposta alguma pergunta que dirigisse. Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operao, e pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de priso. Mais de quarenta ero j decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos e palavras baixas trocadas fra da cella. --A mim,--disse comsigo,--ou a outra victima vizinha procuro e busco para os tormentos e torturas. Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e achro-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer livremente um gesto, pela estreiteza do aposento. --Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada. Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe dirigra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narraes de imaginarios crimes. Deliberado porm a dizer a verdade inteira, fosse qual fosse o resultado, e a se no deixar enganar com promessas fascinadoras, respondeu ao vulto em tom resoluto. --No ha duvida que me chamo Manuel de Moraes. -- vossa patria a povoao de So Paulo na capitania de So Vicente dos Brazis?--continuou o vulto a perguntar-lhe. -- verdade,--repetio Moraes. --Fostes novio na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o habito?--continuou o vulto. --No posso, no devo, e nem quero nega-lo,--proseguio Moraes. --E me no reconheceis?--disse-lhe o vulto, approximando-se do espao atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabea despida inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido. Encarou-o Moraes em vo. No lhe recordro os seus olhos o homem que tinho diante de si. Traou chamar em seu auxilio reminiscencias passadas. Nem-uma ida o coadjuvou nos seus intentos. --No me possivel,--respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:--Sem duvida querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos envio para interrogar-me? --Afastai do espirito,--replicou-lhe o Jesuita,--idas to erradas quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela persuaso e consciencia. No dobra vontades com a fora physica. No castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou carceres. Deos todo poderoso o unico juiz que reconhece para os delictos dos homens. No estais preso por ordem do Instituto de santo Ignacio de Loyola. Sois ro do tribunal do Santo Officio da Inquisio. Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo as licenas necessarias para penetrar at esta priso. Profunda impresso produzro sobre o desditoso Moraes essas palavras pausadas, e proferidas com uma unco to aprimorada, que lhe levro certeza ao animo de robusta expresso de franqueza e verdade. Mas quem era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a ida de no pod-lo descobrir e conhecer. --Que quereis pois de mim?--disse-lhe meigamente.--Cheguei de Hollanda, trazendo cartas de recommendao do veneravel padre Antonio Vieira, que me protegeu e salvou do precipicio e da perdio eterna. Se sois Jesuita como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e documentos, que l deixei quando os famulos da Inquisio me arrancro da santa morada. --Tomou o nosso provincial conta de tudo--proseguio o vulto com tristeza.--Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de affeioar vontades e dedicaes em pr de vossa pessoa e defesa. Infelizmente porm no vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos os esforos! --Tenho de morrer!--proseguio Moraes.--Sinto-o to cedo porque no expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejra conservar-me no mundo o tempo s preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos ouve o meu sincero arrependimento, e ser de certo misericordioso para comigo! --Ignorais que j vos condemnro?--retorquio o vulto. --Condemnado sem ser ouvido?--perguntou-lhe. --Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e apostata,--continuou o Jesuita.--Formou-se o processo, e lavrou-se a sentena. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado comtudo em estatua no auto de f de 6 de Abril de 1643, e inscripto o vosso nome no livro dos condemnados morte. --Nada me resta portanto no mundo?--exclamou Moraes.--Deixai-me ento rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobro de vida, para que me conceda a sua graa infinita! --Ereis assim um ro j, e sujeito ao tribunal da Inquisio--proseguio o velho--quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjurao, e na proteco do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio que vos havieis recolhido nossa casa, e reclamou-vos com a sua justia. --E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?--murmurou Manuel com indicios visiveis de despeito. --Que pde contra a Inquisio a companhia de Jesus?--repetio-lhe o padre.--So to diversas as funces respectivas das duas oppostas instituies! Aquella cura da purificao da f, e da orthodoxia romana, constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes, guardas, empregados, fora publica, instrumentos de tortura, fogueiras, processos e execues. Limita-se esta ao espiritual, e s cousas sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo. Quantos trabalhos lhe no tem custado salvar os Brazis da inquisio, que desejaria l como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a Inquisio e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta, emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos sos, que podem dar ainda vio e fructos. --Mande-me ao menos--interrompeu Moraes--um padre, um amigo fiel para me ouvir de confisso, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia! --E que vim eu aqui fazer?--perguntou-lhe o Jesuita em tom de queixa--para que penetraria por entre estes negros corredores, e chegaria at aqui, se no houvera recebido encargo particular do nosso provincial, e logrado licena do Santo Officio, para ver-vos, fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que no desampara os seus discipulos? --Obrigado! obrigado!--proferio Moraes, deixando-se cahir aos ps do padre, e esforando-se em abraa-los com fervor. --Levantai-vos, filho--continuou o vulto, tentando erguer o desgraado e apertando-o nos braos--no tempo ainda de confisso e preparativos do ultimo instante. Sou por ora um amigo, que procura consolar-vos, e basta para que me presteis toda a vossa confiana recordar-vos de quem sou... lembrar-vos do passado... Observou Manuel que sahro estas palavras no meio de suffocados soluos, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e copioso. Por mais tratos porm que dsse memoria, no lhe foi possivel ainda assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabea, aquella voz doce e attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencio no entanto de que no o enganavo as expresses sinceras do seu respeitavel interlocutor. Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse interromp-lo, at que o desconhecido, encostando-lhe a face, e imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e sonora: --No me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o vo que o assombrava de todo. --Olha--proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de avivar-lhe a memoria--olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos tortuosos, que trepo e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras, jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabis e pintados gaturamos saudo a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e a grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre abaixo da cerca, que povoa o outeiro at a sua base, esse riacho, que alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo flres sylvestres, que lhe broto das margens alegres e festivas. Lana para mais longe os olhos, e l pairo a planicie com suas mattas poderosas; o grande rio Tiet, que lhe rasga as entranhas; os morros da Penha, que em distancia arrebato os sentidos, e termino em soberbo amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e balouadas pelo brando zephyro, e que se no escapo jmais dos galhos das arvores carinhosas, e nem jorro murchas pelo cho como succede na Europa durante a estao do outono. Nota esses gentios, cr de cobre, que enchem os templos em multido, oro devotamente, respeito e obedecem aos padres da companhia, e formo procisses religiosas. No avistas a povoao de So Paulo pelas lembranas, j que a no vem mais os teus olhos? No me reconheces ainda? --Meu Deos, meu Senhor!--gritou Moraes.--Que feridas me rasga este padre, e no posso recordar-me d'elle! --Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma casinha branca, de telhas vermelhas,--continnou o vulto.--Morava n'ella Jos de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue. --Morto j meu pai!--desgraado!--Basta, basta!--interrompeu-o Moraes.--Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixo! --No descobriste ainda?--repetio o padre.--Conto est obsecado o teu espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!... Lembra-te, filho, do padre que te disse: Desgraado sers, porque a Igreja calholica a razo divina, a unica salvao da creatura humana. No encontrar descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias! --Eusebio de Monserrate!--prorompeu em ancias afflictas Manuel de Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os sentidos, e cahindo sobre o cho frio do carcere. CAPITULO XIII Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paos da Inquisio, encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial. Expz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era sua opinio que a sua converso ao catholicismo se baseava em sinceridade e espontaneidade d'alma, e fra o seu arrependimento verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo de santo Ignacio, e prestar relevantes servios religio e ao Estado. Em relao no entanto s suas pesquizas cerca dos intentos do tribunal do Santo Officio, perseverava em desconfiana de que confirmaria a primeira sentena proferida em ausencia do ro, e no seria poupado o infeliz no primeiro auto de f que a Inquisio designasse. Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforos e empenhos afim de salvar o novio, avocando-o a companhia como sujeito sua jurisdico, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais: Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a cooperao e a autoridade d'el-rei e da rainha. Concordro em procurar todos os seus amigos, e aquelles individuos para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira, summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do proprio soberano o perdo do novio por uma missiva sua directa, empenhando todo o seu valimento. Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de poucos dias em movimento, e trabalhando em pr de Manuel de Moraes. O confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leo, desembargador da casa da Supplicao, Joo Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha, e varios individuos mais de influencia. No pde infelizmente Dom Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o roubara liberdade, e o arrastra aos carceres. Ninguem valra mais que elle sua chegada a Lisboa. Considerado pelos seus escriptos primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e expondo-se a perseguies do governo de Castella, de cujas prises logrra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavo, e recolhendo-se a Portugal, travra por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeo Francisco Cardoso, e o matra exasperado. Estava por esse motivo processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvao que do beneficio alheio. Viro-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porm Dom Joo IV em intrometter a sua autoridade, ainda no solidamente estabelecida em Portugal, em questes inherentes ao tribunal do Santo Officio. Saltra a sua cora do meio de uma revoluo. Sahra o seu throno de um movimento popular, que fra unisono no povo, e em maioria apenas na nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reaces e levantamentos dos que lhe no adherio ao governo, e perseveravo em obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade fidalgos e bispos, que se lhe oppunho, e tramavo contra a sua autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, no alcanavo victorias assignaladas. Cumpria portanto a Dom Joo IV praticar na sua administrao interior uma tal moderao, que no augmentasse a somma de difficuldades e perigos que lhe surgio por toda a parte. Que valia a salvao de um novio dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio, que exercia influencia nos animos populares, e ajudava at o seu governo nacional? Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravo de pertencer Inquisio, e de lhe servir de famulos. E no estremecia o povo todo diante dos seus actos e jurisdico, reputando-a mais divina que humana? Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da propria rainha Dona Luiza de Gusmo, que tomava o partido dos Jesuitas, apezar de quanta affeio e confiana tributava el-rei sua extremosa consorte. Sem a interveno directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate que perdidos serio todos os esforos empregados. Esvoaava por cima da sociedade portugueza da poca o poder aterrorisador do Santo Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a no ser el-rei em pessoa, graas ao seu prestigio pessoal, e necessidade que reconhecio os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir s foras de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia. Espalhavo-se por toda a parte espias da Inquisio, adivinhando aces, gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal execrando. Dir-se-hia que as paredes tinho ouvidos, olhos os trastes das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos segredos, porque chegavo todos ao conhecimento do Santo Officio, que no tardava em expedir mandados de priso, ordenar castigos, applicar torturas, formar processos, lavrar sentenas rigorosas, preparar forcas e fogueiras, espantando a multido supersticiosa com os espectaculos horriveis dos autos de f, acreditados como sacramentos da Igreja. No escapavo sua jurisdico condies, nem classes da sociedade. Era o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecio fros e privilegios, e que curvava sua autoridade velhos, moos, crianas, mulheres, aldees, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades, fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano. No desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades surgio adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se nullificavo, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o amor-proprio de Jesuita, que no queria consentir na affronta de arrancar a Inquisio ao Instituto um seu novio e membro, para o julgar e condemnar livremente. Movia-lhe igualmente os affectos a sympathia que lhe ganhra Moraes desde os seus mais verdes annos. Accrescia a essas duas razes poderosas outra ainda de grande importancia para o padre. No fra sincero o arrependimento de Moraes? No estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe exigissem? No podia prestar servios relevantes religio, companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? No o perdora Deos quando espontaneamente lhe infiltrra no animo a ida de abandonar riquezas e posies honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia, dedicar-se vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver sua antiga f e crenas religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando Deos se mostrra to misericordioso, haveria justia nos homens em condemna-lo? Prosegura no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo summario, passou aos interrogatorios necessarios do ro, que por mais de seis dias seguidos fra tirado do seu aposento e conduzido sala dos juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e geitosamente, lhe foro dirigidas para o apanharem em contradices, e confisses do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel, sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expz com franqueza toda a sua vida, todos os seus erros e hallucinaes, todos os seus peccados e crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria alma gerra, robustecra, e logrra verificar particular e publicamente. Persuadidos os juizes de que conseguirio maiores esclarecimentos, ou factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a applicao dos tormentos usados contra as suas victimas, passro das declaraes voluntarias s arrancadas por meio das dres resultantes dos instrumentos de tortura. Comero pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irriso a ferros que se collocavo aos dedos dos ps e das mos, e os apertavo to cruelmente que causavo soffrimentos horrorosos. Exigro-lhe confessasse que volvra apparente e maliciosamente religio catholica, no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invases e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignao barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvao dos homens padecra martyrios superiores. No alcanando os juizes o seu fim, adiro para mais tarde a applicao de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la custa de soffrimentos agudos. No se apressava a Inquisio nos processos e julgamentos. Annos inteiros se demoravo em seus carceres presos innocentes ou culpados, accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e s vezes mesmo despidos do menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as sentenas! No se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar intenes e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas praticavo ou dizio. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em certos dias; este por soltar uma expresso de raiva ou despeito; um por commetter qualquer gesto que se interpretasse malignamente; outro por no se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de induco e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio. Seguro-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de testemunhas, que declarro ser voz geral e constante que Moraes se convertra ao calvinismo, praticra nos templos protestantes todos os officios religiosos que lhes ero proprios, e se casra com uma mulher schismatica. Anciosos de confisses mais amplas do ro, applicro-lhe novos tormentos para o obrigarem pela violencia s revelaes necessarias. Suspendro-lhe o pescoo a uma argola pregada no muro, chamada gonilha, que levantando o corpo por uma frma perpendicular, produzia-lhe uma posio dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade mdia. Escalro-lhe depois as costas e os peitos com azorragues de arame, que o ensanguentro todo. Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada sua sorte. Repetia constantemente as mesmas declaraes, e no offerecia elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos. Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos agudos, qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima. Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na cpia de sangue que lhe rebentava por todos os pros. Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma esteira de palha mais macia, tratado com mais cuidado para se lhe no esvair a vida antes da execuo da sentena, e no escapar assim ao castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio. Lavrou-se a sua sentena. Confirmava em todas as suas partes a do anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de f, coberto com as insignias do fogo, e a ser garroteado na praa publica por apostata, profitente e obstinado. Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da deciso. Intensa desesperao e despeito violento se apoderro dos padres. Nem-um deixou de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecro proprios a nullificar a sentena do tribunal do Santo Officio. Applicro-se os ultimos esforos para lograr d'el-rei uma ordem terminante em pr do infeliz novio. Cartas do padre Antonio Vieira, conselhos e insinuaes do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus secretarios de estado, e do seu escrivo da puridade, rogos e empenhos dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcanava todavia d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto. Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate uma ida aventurada. Conhecendo uma irm de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnao, viuva de um Portuguez que de So Paulo mudra a sua residencia para Lisboa, e carregada de numerosa familia, preparou-a para se lanar aos ps do soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus filhos o perdo do novio. Concertou com o confessor d'el-rei em facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom Joo IV e Dona Luiza de Gusmo seguissem para o oratorio a receber a communho sagrada. Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os paos reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma porta particular, achro-se na passagem dos soberanos no momento designado. --Piedade! piedade!--gritou toda a familia, arrastando-se aos ps de Dom Joo IV, e de sua augusta consorte, agarrando-os com fora, e molhando-os com pranto acerbo e copioso. Enternecro-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado profundamente, e no pde proferir palavra. A rainha, banhada em lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial escripto, supplicando a graa de Manuel de Moraes. Representou-se a scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra no tinho prerogativa mais bem aceita do co e mais humana que o perdo, que os igualava quasi Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados. No pde ento o monarcha recusar-se s supplicas da sua consorte, e deixa-la faltar sua palavra. Ordenou ao seu escrivo da puridade expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que, declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a entrega do preso companhia de Jesus, como membro que era do Instituto, afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse conveniente. Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pr da religio e do soberano. Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hio os juizes do Santo Officio? No se consideravo superiores a todas as autoridades temporaes, baseando a sua alada nos breves e determinaes do Summo Pontifice de Roma? No responderio a el-rei memorando-lhe a necessidade de expurgar a f catholica, e de salvar o dogma; e se resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua primeira deliberao, que mais ao sentimento intimo que propria convico lhe havia sido arrancada? CAPITULO XIV Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um auto de f para o dia 15 de Dezembro de 1647. Oito condemnados devio ser queimados nas fogueiras; dez se destinvo ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procisso, cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por ausentes e fugidos. Agitou-se e alegrou-se a populao de Lisboa com o aviso do espectaculo que se lhe preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante Deos, abrindo aos crentes as portas do co, e trazendo-lhes pelas indulgencias ganhas a salvao na vida eterna. Quem no tivesse f no sacrificio divino no se arriscava a perseguies e tormentos iguaes aos das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presena, e no apparentar jubilo? Levantro-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras. Prevenro-se os ros que devio figurar na ceremonia. Concedeu-se a alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez ainda antes de abandonar o mundo. Transferro-se todos os condemnados para prises especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que lhes sobrava nos paos do Santo Officio. Intimada a Moraes a sua sentena de garrote, e communicada a noticia de que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o acompanhar nos ultimos momentos, e sua irm Dona Clara da Incarnao para lhe dizer o adeos derradeiro. Foro-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel descrever a sua entrevista com Dona Clara. Quebrantado de foras physicas, martyrisado cruelmente pelas chagas que lhe deixro no corpo os instrumentos terriveis que supportra, decomposta a physionomia pelas dres profundas, brancos os cabellos da cabea e do rosto antes que o tempo lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito ancio que anciava por descer ao tumulo e no pertencer mais ao mundo. O tempo, os trabalhos, as peregrinaes e soffrimentos lhe havio por tal feitio transfigurado a physionomia, que o no conhecra Dona Clara, e para o tratar como irmo necessitra de que lhe affirmassem estar em presena de Manuel de Moraes. Abraando-se ternamente, entretivero-se no meio de soluos repetidos e de lagrimas abundantes, cerca dos pais j fallecidos, das irms, e parentes domiciliados em So Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das reminiscencias da mutua mocidade. Revivro saudades que pungio o corao, e o cortavo dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz passado lhes manifestava a profunda miseria presente. --Meu respeitavel pai! minha querida mi e verdadeira santa,--exclamava a miudo Moraes.--Estais ambos j no seio da eternidade, e em presena de Deos. Breve vos ir ahi encontrar o vosso filho desgraado. Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu sem duvida para os vossos males na terra, mas que padeceu tambem muito! Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel prostrar mais as foras do infeliz novio, que s deixou a irm quando os empregados do Santo Officio a coagro a abandona-lo, e sahir dos paos terriveis da Inquisio. Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto lhe no occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a desattendesse, quanto at aquelle momento lhe no constra haverem os juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal designado para o auto de f e execuo da sua sentena, preferivel era que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a sua alma inteira, e recebendo a sua absolvio para se passar eternidade tranquillo e sacramentado. Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com franqueza os desejos e aspiraes mundanas que lhe havio assoberbado o espirito, os crimes que praticra no seu desvairamento, e as idas e pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento solemne. Orro ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lanou-lhe o padre a beno consoladora, e recommendou-o misericordia do Omnipotente. Estava-se j em vesperas do auto de f annunciado, e nem-uma deliberao tomra ainda o tribunal do Santo Officio cerca do aviso expedido pelo escrivo da puridade d'el-rei em pr de Moraes, posto o provincial dos Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento. No dia porm anterior ao designado para a horrenda ceremonia, quando os aprestos todos se havio j concluido, correu voz emfim que no ousra o tribunal do Santo Officio affrontar o perdo que Dom Joo IV concedra, bem que singular e desusado. Assentro os juizes que dario execuo ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto de f como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir ao cumprimento das sentenas relativas aos demais accusados. Raiou o dia fatal. Cobrro-se desde a madrugada as casas dos habitantes de Lisboa sitas nas ruas e praas que devia atravessar a procisso, e ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas acesas. Guarneceu-se o cho, que nem calado era n'aquelle tempo, com folhas viosas de arvores. Brilhro com velas e lampadas, e ornro-se com flres odoriferas os oratorios, que se semeavo pelos cantos das ruas. Dero signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos templos, que saudavo o triumpho da Igreja catholica, que salvava a f e o dogma, castigando os mos, e amedrontando os tibios e descrentes. Desfilro soldados, occupando varios pontos proximos praa de Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afra as pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado s execues das sentenas. Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os condemnados s chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devio supportar o supplicio do garrote, aterrorisavo as vistas. Vultos cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com grandes cruzes, que se lhes gravro nos peitos, os rodeiavo em copiosa quantidade. hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios e conselheiros de estado, e a crte toda, tomro os seus lugares, occupando um edificio levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da poca. Por toda a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma multido de gente miuda, que no falta a quaesquer espectaculos de dr ou de alegria. Ouvro-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e navios de guerra. Repicro de novo os sinos das igrejas, e girandolas pittorescas de fogos artificiaes subro aos ares, e os partro com mil riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos paos do largo do Rocio o auto de f e se encaminhava para o seu destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavo adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal sanguinolento. Seguio-nos padres e frades de diversas ordens, recitando oraes lugubres, com a cabea descoberta. Guardas a p com clavinotes, espadas e terados, e vultos mascarados, e com os habitos da Inquisio, rodeiavo as numerosas victimas, amarradas umas s outras, de ps no cho, e ornadas as cabeas com capuzes negros manchados de flammas luminosas, que lhes cobrio as faces, permittindo-lhes apenas a vista por dous buracos rasgados. Io depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da Inquisio, que no dizer das tradies se compunho de fidalgos das primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios, capitalistas, industriosos, e gente de todas as condies e classes da sociedade. Fechava o prestito um corpo de cavallaria, com a sua musica e tambores tangendo constantemente. Parava o auto de f diante de todos os oratorios e imagens levantadas na sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna. Levantro-se as bandeiras, e rufro os tambores. Occupra cada pessoa do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devio assistir execuo das sentenas. Figurava entre estes ultimos o nome do desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graa particular de Dom Joo IV. Dirigio um sacerdote uma orao a Deos, ajoelhro-se todos os circumstantes, e manifestro a piedade dos seus sentimentos. Dero-se as ordens derradeiras. Subro s fogueiras por meio de escadas preparadas as victimas reservadas s chammas. Foro amarradas a um poste de po que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotro immediatamente, e logo depois se ouvro gritos doridos, e gemidos pungentes dos desgraados, que se queimavo e desapparecio nas flammas. Succedeu-lhe a operao do garrote, e algozes impedernidos cortro os fios de vida, por meio da suffocao instantanea, aos desventurados ros, cujos restos se lanro nas fogueiras ainda abrazadoras para o fim de se confundirem todos, que se havio condemnado. Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procisso dos penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo Officio, visto como lhes faltavo foras para se sustentarem por seus proprios ps. Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paos da Inquisio. Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes, e restitui-lo aos Jesuitas, que j alli se havio reunido, no intuito de receb-lo, e recolh-lo sua casa. Procedeu-se entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignro as autoridades competentes. No se podendo ter em p o paciente, foi depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprio as formalidades do acto. Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o brao, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paos do Santo Officio, escapou-lhe Moraes das mos, resvalou do assento, e rolou pelo cho. Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio um cadaver. J no pertencia ao mundo. Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente: --Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e perda com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra! FIM [1] O padre Techo na sua obra sobre o Paraguay, e a _Historia Argentina_, L. I, Cap. 5 narro o facto de Aleixo Garcia mandado ao serto por Martim Affonso, e morto por Gaboto, que se apoderou da prata que elle encontrra. [2] Nos citados autores se falla do convite do cacique Taubixi para se defender contra os Castelhanos. [3] O padre Techo conta a historia de Sedenho, que fra em soccorro de Aleixo Garcia com 60 homens, dos quaes a maior parte pereceu com o chefe. [4] Historico--V. Ren Saint Taillandier, _les juifs portugais en Hollande_. [5] Barlius, _de rebus variis_. [6] Taillandier acima citado. [7] Publicada em Leyde, e na lingua castelhana, no anno de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta a una pergunta de un cabalero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_. INDICE DUAS PALAVRAS AO LEITOR CAPITULO PRIMEIRO 1 CAPITULO II 21 CAPITULO III 46 CAPITULO IV 75 CAPITULO V 97 CAPITULO VI 116 CAPITULO VII 138 CAPITULO VIII 158 CAPITULO IX 177 CAPITULO X 198 CAPITULO XI 217 CAPITULO XII 235 CAPITULO XIII 255 CAPITULO XIV 272 PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMO RAON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1. PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMO RAON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1. 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