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Rita Farinha (Mar. 2009) OBRA PREMIADA PELA ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANA DA TERRA LUA VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS Lisboa--Imprensa Nacional--1874 VIAGENS MARAVILHOSAS JULIO VERNE DA TERRA LUA VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS TRADUCO DE HENRIQUE DE MACEDO Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio de marinha BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCO E RECREIO EMPREZA HORAS ROMANTICAS Rua dos Calafates, 102, 1.^o andar LISBOA Traduco auctorisada e reservada --JULIO VERNE-- [Figura] DA TERRA LUA CAPITULO I O GUN-CLUB Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande influencia. notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por entre aquella populao de armadores, de negociantes e de machinistas. Insignificantes mercadores saltaram por cima do balco e acharam-se de improviso transformados em capites, em coroneis e at em generaes, sem terem passado pelas escolas de applicao de West-Point[1]; em curto espao foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho continente, e, imitao d'estes, alcanaram, fora de prodigalisar balas, milhes e homens, brilhantes victorias. Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na sciencia da balistica; e no porque as armas americanas attingissem mais elevado grau de perfeio, seno porque apresentaram dimenses desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e at ento desconhecidos. Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos de escarpa de enfiada ou de revez, j no tem, inglezes, francezes nem prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhes, obuzes e morteiros europeus so apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis machinismos bellicos da artilheria americana. No deve causar espanto o que deixmos dito. Os yankees, que so os primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano nasce musico, ou qualquer allemo, philosopho transcendental; portanto nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicao sciencia da balistica o audacioso engenho de que so dotados. Assim se explicam esses gigantescos canhes, que, muito menos uteis que as machinas de coser, so pelo menos to admiraveis e de certo ainda mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de Dahlgreen e de Rodman so bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os Treuille de Beaulieu no tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos perante os seus rivaes de alem mar. Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da Unio os inventos com enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabea dia e noite a calcular trajectorias impossiveis. Ora quando a uma cabea de americano acode uma ida, busca logo o seu possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a _mesa_; cinco, convocam-se em assembla geral, e est constituido um club. Assim succedeu em Baltimore. O primeiro que inventou um novo canho associou-se com o primeiro que o fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do Gun-Club[3], que um mez depois da sua inaugurao contava mil oitocentos e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e cinco socios correspondentes. A todos que queriam fazer parte da associao era imposta uma condio _sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeioado, um canho; na falta de canho uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a verdade inteira, bem pouca considerao gosavam os inventores de revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas. Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia. A estima de que credor qualquer socio, disse um dia um dos mais entendidos oradores do Gun-Club, proporcional s massas do canho que inventou, e est na raso directa do quadrado das distancias a que alcanam os respectivos projectis! [Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).] Com pequena differena, era a lei de Newton cerca da gravitao universal transportada s cousas do mundo moral. Fundado o Gun-Club, facil imaginar o que produziria n'este genero o engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram propores colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos. Outr'ora bom tempo era esse uma bala de trinta e seis, distancia de trezentos ps, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha progrediram muito os projectis. O canho Rodman, que, com uma bala de meia tonelada[4] alcanava a sete milhas[5], facilmente poria fra de combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se at a discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma experiencia solemne as qualidades d'este canho monstruoso. Porm se os cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de homens nem um s se offereceu. Em todo o caso, o que fra de duvida que o effeito d'estas armas era extremamente mortifero e que por cada tiro caam os combatentes como espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fra de combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758, matou quarenta infantes, e o canho austriaco de Kesselsdorf, em 1742, que por cada tiro derrubava setenta inimigos? Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de Gettysburg, um projectil conico lanado por um canho raiado feriu cento e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze partidarios do Sul. No menos digno de meno um formidavel morteiro inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparao mais mortiferos, visto como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete pessoas; verdade que o morteiro rebentou! Que havemos de accrescentar a estes numeros j de per si to eloquentes? Nada. Assim, por certo, ser admittido sem contradico o seguinte calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que cada um d'estes tinha morto em media, dois mil trezentos e setenta e cinco homens e uma fraco. Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica preoccupao d'aquella sociedade scientifica era a destruio da humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeioamento das armas de guerra, consideradas como instrumentos de civilisao. Era uma reunio de anjos exterminadores, e a fra isto, as melhores pessoas do mundo. Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, no se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no Club officiaes de todas as graduaes, de tenente a general, militares de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos que iam j encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braos articulados, mos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata, narizes de platina... a colleco era completa. O supradito Pitcairn calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um brao por quatro pessoas e smente duas pernas por cada seis socios. Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados. Porm um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonaes, calaram-se os morteiros, os obuzes para largo tempo aaimados e os canhes de cabea pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos parques, foram-se apagando as recordaes sanguinolentas, brotaram com magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o Gun-Club ficou immerso na mais profunda inaco. Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas e obuzes incomparaveis. Mas sem pratica de que serviam theorias vs? Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros do Gun-Club, outr'ora to ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditaes de artilheria platonica. Que desconsolao, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no entretanto ia-lhe o lume do fogo carbonisando as pernas de pau: Nada que fazer! nem uma esperana! Que fastidiosa existencia! Onde vae o tempo em que as alegres detonaes do canho nos despertavam todas as manhs? Esse tempo j l vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiando-se com os braos que j no tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora a Sherman ou recebido um aperto de mo de Mac-Clellan! Mas hoje, os generaes voltaram aos seus balces, e em vez de projectis, expedem inoffensivos fardos de algodo! Ai! por santa Barbara! Est perdido o futuro da artilheria na America! -- verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, so bem crueis estes desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mos nas algibeiras. Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e no eram as algibeiras que lhe faltavam. E nem uma s guerra em perspectiva! disse ento o famoso J.-T. Maston, coando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. No ha uma nuvem no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes estou fallando, terminei esta manh a _pure_, com plano, perfil e elevao de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra! --Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima experiencia do honrado J.-T. Maston. -- verdade, respondeu este. Mas para que ho de servir tantos estudos levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? No ser tudo isto trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se conluiaram para viver em paz, e at o nosso bellicoso _Tribune_[6] chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas pelo escandaloso crescer das populaes. --Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades! --E ento? --Ento! Talvez se podesse tentar por l alguma cousa, e se acceitassem os nossos servios... --Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em proveito de estrangeiros! --Sempre era melhor do que no fazer nada, retorquiu o coronel. --De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale a pena pensar em similhante expediente. --E porque? perguntou o coronel. --Porque no velho mundo tem l umas idas cerca de accesso e promoo, que estariam em opposio com todos os nossos habitos americanos. Imagina aquella gente que se no pde ser general em chefe sem ter servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem pde fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canho! Ora isto nada mais nem menos do que... --Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o bowie-knife[7] os braos da poltrona, e pois que assim , no temos mais remedio do que ir plantar tabaco ou distillar azeite de baleia! --Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois no havemos de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeioamento das armas de fogo! No ha de offerecer-se nova occasio de ensaiar o alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera com o relampago dos nossos canhes! Nem uma s difficuldade internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das potencias transatlanticas! No ha de haver algum francez que metta a pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos nossos! --No, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, no para ns tanta ventura. No! nem um d'esses casos succeder, e que succedesse, nem ao menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando. -- verdade que nos humilhmos! replicou Bilsby. --E que nos humilham! accrescentou Tom Hunter. --Tudo quanto dizeis mais que certo, replicou J.-T. Maston, ainda com maior vehemencia. Pairam na atmosphera mil motivos de guerra e no combatemos! Economisam-se braos e pernas, e em proveito de quem? de gente que no sabe o que lhes ha de dar que fazer! No busquemos mais longe motivos de guerra; pois no verdade que a America do Norte pertenceu outr'ora aos inglezes? --Certamente, respondeu Tom Hunter, espertando furioso o lume com a ponta da moleta. --Pois bem! continuou J.-T. Maston, porque que a Inglaterra no ha de, por seu turno, pertencer aos americanos? --Nada mais era do que justia, retorquiu o coronel Blomsberry. --Pois vo l propor a ida ao presidente dos Estados Unidos e vero como so recebidos! --Havia de receber-nos mal, murmurou Bilsby, por entre quatro dentes que lhe tinham escapado das batalhas. --Por minha f, exclamou J.-T. Maston, nas proximas eleies escusa de contar com o meu voto! --Nem com os nossos, accrescentaram de commum accordo os bellicosos invalidos. --No entretanto, continuou J.-T. Maston, em concluso, se me no fornecerem occasio para ensaiar o meu novo morteiro n'um campo de batalha, dou a minha demisso de socio do Gun-Club, e corro a enterrar-me nos desertos do Arkansas! --Iremos todos comvosco, responderam os interlocutores do ousado J.-T. Maston. Estavam as cousas n'estas alturas, exaltavam-se os espiritos cada vez mais, e o club estava ameaado de proxima dissoluo, quando um acontecimento inesperado veiu impedir a realisao de to lastimosa catastrophe. Logo no dia seguinte quelle em que se realisou a conversao que relatmos, cada um dos membros do club recebia uma circular concebida nos seguintes termos: Baltimore, 3 de outubro.--O presidente do Gun-Club tem a honra de prevenir os seus collegas, que na sesso de 5 do corrente lhes far uma communicao, que muito ha de interessa-los. Em consequencia lhes pede que, pondo de parte qualquer outro negocio, concorram sesso para que so convidados pela presente. De todos mui cordialmente.--_Impey Barbicane_. P. G. C. CAPITULO II COMMUNICAO DO PRESIDENTE BARBICANE No dia 5 de outubro, s oito horas da noite, havia aperto e multido compacta nas salas do Gun-Club (Union-square, 21). Todos os membros d'aquelle club, que residiam em Baltimore, tinham acudido ao convite do presidente. Os socios correspondentes apeavam-se aos centos dos comboios expressos, nas ruas da cidade, e grande como era a hall (salo) das sesses, ainda assim aquella multido immensa de sbios no pde caber l; assim a multido refluia para todas as salas proximas e ainda para os corredores, e at ao meio dos pateos exteriores, onde se encontrava com o simples popular que fazia aperto s portas; cada um procurava alcanar melhor logar; todos avidos de conhecer a importante communicao do presidente Barbicane, apertavam-se, empurravam-se, esmagavam-se com aquella liberdade de aco que peculiar das massas educadas e creadas nas idas do _self-government_[8]. N'aquella noite o forasteiro que o acaso tivesse levado a Baltimore, nem a peso de oiro teria conseguido penetrar no salo grande. Fra este exclusivamente reservado para os socios residentes ou correspondentes; ninguem mais l podia ser admittido, e at os notaveis da cidade e os magistrados do conselho dos _selectmen_[9] tinham tido que misturar-se com a turba dos seus administrados para apanharem de relance alguma novidade l de dentro. Apesar d'isto a immensa hall apresentava um espectaculo verdadeiramente digno de excitar a curiosidade, e o vasto aposento estava maravilhosamente apropriado ao seu destino. Sustentavam-lhe os finos lavores da abobada, verdadeira renda esculpida a saca-bocados no ferro fundido, elevadas columnas compostas de canhes sobrepostos e apoiados em enormes morteiros. Nas paredes agrupavam-se enlaadas em pittorescos flores panoplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas de toda a especie, de armas de fogo antigas e modernas. Rebentava a chamma viva do gaz de um milheiro de revolvers agrupados em frma de lustres, completando aquella esplendida illuminao girandolas de pistolas, e candelabros feitos de espingardas enfeixadas. Modelos de canhes, amostras de bronze, alvos crivados de buracos, placas quebradas pelo choque das balas do Gun-Club, colleces completas de calcadouros e lanadas, rosarios de bombas, collares de projectis, grinaldas de obuzes, n'uma palavra todas as ferramentas do artilheiro se encontravam ali em to surprehendente e admiravel disposio, que levava a crer que o seu verdadeiro fim era mais ornamental do que mortifero. Contemplava-se no logar de honra resguardado por uma esplendida _vitrine_ um pedao de culatra, quebrado e torcido pela fora da polvora. Era uma preciosa reliquia do morteiro de J.-T. Maston. No fundo da sala, sobre uma espaosa esplanada sentava-se o presidente ladeado por quatro secretarios. A cadeira presidencial levantada sobre um reparo esculpido, apparentava no conjuncto das robustas frmas a figura de um morteiro de trinta e duas pollegadas, em pontaria por um angulo de noventa graus e suspensa em munhes, por frma tal que o presidente podia dar-lhe, como a qualquer _rocking-chair_[10], um balano muito agradavel nas occasies de grande calor. Sobre a mesa, grande placa de ferro laminado, aguentada por seis coronadas, estava um tinteiro de gosto delicado: era feito de um biscainho deliciosamente cinzelado. Ao lado estava uma campainha de detonao, que na occasio propria soava como um revolver. E nas occasies de discusso vehemente mal bastava esta campainha de novo genero para superar as vozes d'aquella legio de artilheiros enthusiasmados. Em frente da mesa presidencial estavam dispostos em zig-zags, como as circumvallaes de uma trincheira, formando uma serie de basties e de cortinas, os bancos onde tomavam assento os socios do Gun-Club; e n'aquella noite podia afoitamente dizer-se que estava bastante gente nas muralhas. O presidente era por demais conhecido, para que alguem acreditasse que havia de incommodar os collegas sem motivo de maior gravidade. Impey Barbicane era homem de quarenta annos, impassivel, frio, austero, de espirito eminentemente serio e concentrado, de temperamento a toda a prova e de caracter inabalavel; pouco cavalheiresco, e todavia aventuroso, cingia-se s idas praticas, ainda quando empenhado nos mais temerarios emprehendimentos; era o homem por excellencia da Nova Inglaterra, o colonisador dos estados do norte, o descendente d'aquelles Cabeas Redondas, que to funestos foram para os Stuarts, o inimigo implacavel dos _gentlemen_ dos estados do sul, legitimos representantes dos antigos Cavalleiros da me patria. N'uma palavra, um yankee de antes quebrar que torcer. Barbicane fizera grande fortuna no commercio das madeiras; nomeado durante a guerra director de artilheria, mostrou-se fertil em invenes, e cheio de audacia em todas as suas idas contribuiu poderosamente para os progressos d'aquella arma, communicando s indagaes experimentaes incomparavel actividade. Era homem de corporatura media, e que tinha, rara excepo no Gun-Club, todos os membros intactos. Parecia que as feies accentuadas lhe tinham sido talhadas a esquadro e tira-linhas, e se verdade que, para adivinhar os instinctos de alguem, devemos olha-lo de perfil, Barbicane, examinado assim, apresentava os mais seguros indicios de energia, de audacia e de presena de espirito. N'aquelle instante, estava immovel na cadeira presidencial, mudo, absorto, com o olhar vago e profundo, com o rosto semi-occulto pelo chapu de frma alta, cylindro de seda preta que parece seguro a tarraxa no craneo de qualquer americano. [Figura: A sesso do Gun-Club (pag. 22).] Conversavam em torno d'elle e em voz alta os collegas, sem conseguirem distrahi-lo; abalanavam-se ao campo das supposies, olhavam o presidente, buscando em vo deduzir o X da sua imperturbavel physionomia. [Figura: O passeio luz dos archotes (pag. 28).] Quando deram oito horas no relogio fulminante do salo, Barbicane levantou-se de subito, como que impellido por uma mola; calou-se tudo, e o orador, em tom um pouco emphatico, usou da palavra nos seguintes termos: Estimaveis consocios, de ha muito que a paz infecunda veiu immergir os socios do Gun-Club em lastimosa inactividade. Depois de um periodo de alguns annos, to cheio de incidentes, fomos forados a abandonar os nossos trabalhos e a fazer alto de subito na senda do progresso. No me arreceio de proclama-lo em voz bem alta, uma guerra qualquer que de novo nos pozesse as armas nas mos, seria bem recebida... --Apoiado, guerra! exclamou o impetuoso J.-T. Maston. --Ouam! ouam! disseram de todos os lados. --Porm a guerra, proseguiu Barbicane, a guerra impossivel nas circumstancias actuaes, e por maiores que sejam as esperanas do meu honrado interruptor, penso que muitos annos ho de correr antes que os canhes americanos troem de novo no campo de batalha. portanto necessario que a isso nos resignemos e que busquemos n'outra ordem de idas alimento para a actividade que nos devora! A assembla percebeu que o presidente chegava ao ponto delicado; redobrou a atteno. Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho. Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos resultou a convico de que havemos de sar-nos bem de um emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha communicao: digno de vs, digno do passado do Gun-Club, e no pde deixar de fazer estrondo no mundo! --Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta. --Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane. --No interrompam! disseram muitas vozes. --Peo-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me dem completa atteno. Um fremito percorreu a assembla inteira. Barbicane, depois de, com gesto rapido, ter carregado o chapu na cabea, proseguiu no seu discurso com voz placida: No ha um s de vs, estimaveis collegas, que no tenha visto a Lua, ou que, pelo menos, no ouvisse fallar n'ella. E no vos admireis de que venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para ns reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido, auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispem, e conduzi-los-hei conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir juntar-se aos dos trinta e seis estados que compem este grande paiz da Unio! --Hurrah pela Lua! gritou, como um s homem, o Gun-Club inteiro. --Muito se tem estudado cerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a densidade, o peso, o volume, a constituio, os movimentos, a distancia emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar esto perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeio igual seno superior dos mappas terrestres: pela photographia tem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel. Resumindo, sabemos cerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas at hoje ainda se no estabeleceu meio algum directo de communicao com esse astro. A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembla, que chegou a produzir violenta agitao. --Permittam-me, continuou este, que lhes traga lembrana em poucas palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649, um francez, Joo Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma epocha, deu luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre expedio, que tanto renome teve em Frana. Algum tempo depois, outro francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo uma obra prima; verdade que a sciencia em seu caminhar constante at as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa Esperana para ali fazer observaes astronomicas, tinha conseguido, por meio de um telescopio aperfeioado por illuminao interior, trazer a Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta frma observra distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos, verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas de marfim, brancos cabritos montezes e at habitantes com azas membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que no era seno uma mystificao scientifica, e os francezes foram as primeiras a rir-se d'elle. --Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso um _casus belli_!... --Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de Rotterdam, elevando-se n'um balo cheio de um gaz tirado do azote e trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou Lua, depois de dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem no passou, como as anteriores, de uma tentativa da imaginao; era porm obra de um escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo. como se pronuncira o nome de Pe. --Hurrah por Edgard Pe! exclamou a assembla electrisada pelas palavras do presidente. --Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e absolutamente insufficientes para estabelecer serias relaes com o astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos praticos tentaram j pr-se em seria communicao com elle. Foi assim que ha alguns annos um geometra allemo propoz que se mandasse aos aridos steppes da Siberia uma commisso de homens de sciencia, para que n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes le Pont aux nes. Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se que existem, ho de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez estabelecida a communicao, facil ser inventar um alphabeto, que d meio de conversar com os habitantes da Lua. Assim fallava o geometra allemo; mas tal alphabeto nunca teve execuo, e at hoje nenhuma ligao directa existiu entre a Terra e o seu satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o porem-se em relao com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha proposta. Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de exclamaes e de applausos. No havia um s dos assistentes que no se tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do orador. Ouam! ouam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados. Logoque socegou a agitao, Barbicane continuou em voz mais grave o seu interrompido discurso: Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns annos a esta parte, e a que ponto de perfeio teriam chegado as armas de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem no ignoraes que pde affirmar-se, em geral, que a fora de resistencia do canho e a potencia expansiva da polvora no tem limitao. Pois bem! Partindo d'este principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento adequado, collocado em condies determinadas de resistencia, seria possivel enviar uma bala at a Lua! Ao ouvir a assembla estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil peitos arquejantes, uma exclamao de profundo pasmo; houve depois uma pausa silenciosa, similhante profunda calmaria que precede as tempestades. E effectivamente ribombou o trovo, mas um trovo de applausos, de gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sesses. O presidente queria fallar, e no podia, s passados dez minutos conseguiu fazer-se ouvir. Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questo sob todos os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de necessariamente l chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de propor-vos que tentemos esta pequena experiencia! CAPITULO III EFFEITO DA COMMUNICAO BARBICANE impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do honrado presidente. Que gritos! que vociferaes! que successo de grunhidos, de hurrahs, de hip! hip! hip! de todos aquellas onomatopeas que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma algazarra indescriptivel! Gritavam as bcas, batiam as mos, e os ps abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior violencia as ondas sonoras. Nem o caso para admirar. Artilheiros ha mais ruidosos que os proprios canhes. Barbicane permanecra impassivel no meio de todos estes clamores enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante disparou to violenta como inutilmente. Porm nem sequer o ouviam. Pouco depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho, passando das mos dos fieis camaradas para os braos de uma multido no menos exaltada. No ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas vezes se tem repetido que a palavra impossivel no franceza. Certamente ha n'esta assero troca de diccionario. Na America que tudo facil, tudo simples, e pelo que diz respeito a difficuldades mechanicas, essas esto mortas j antes de nascerem. Nem um s yankee genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisao. Dito e feito. O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma verdadeira marcha luz dos archotes. Irlandezes, allemes, francezes, toda a casta de individuos heterogeneos de que formada a populao do Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel. Por coincidencia a Lua, como se percebra que d'ella se tratava, brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a intensa irradiao todas as luzes terrestres. Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro: saudavam-n'o uns com a mo, outros chamavam-lhe os nomes mais carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaavam-n'a de murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas at meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das lunetas, como se fra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos procediam j para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era j dominio d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da Unio. E todavia mal comera ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um projectil, maneira um tanto aspera de encetar relaes, mesmo com um satellite, porm muito usada entre naes civilisadas. Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo no arrefecia; mantinha-se em igual nivel em todas as classes da populao; magistrados, homens de sciencia, negociantes, logistas e carrejes, tanto os homens de intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta, na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios fundeados nas docas, apinhava-se a multido, ebria de alegria, de _gin_ e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam, approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente recostado no canap de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de _sherry-cobler_[16], at ao aguadeiro, que se emborrachava com _mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point. Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoo, e o presidente Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco evacuando as praas e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em Baltimore, foram lanar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos Estados Unidos, e a cidade comeou de repousar em relativa tranquillidade. Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, s Baltimore fra victima da agitao que descrevemos. Todas as grandes cidades da Unio, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas at ao Massachussets, e desde o Michigan at s Floridas, todas participaram d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do Gun-Club, que j tinham conhecimento da carta do seu presidente, esperavam com igual impaciencia a famosa communicao de 5 de outubro, e portanto n'esta mesma noite, medida que as palavras saam dos labios do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, atravs dos Estados da Unio, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia pde dizer-se, com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que tem dez vezes o tamanho da Frana, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e unanime, e que vinte e cinco mil coraes, entumecidos de orgulho, bateram a mesma pulsao. No dia seguinte lanaram mo do assumpto mil e quinhentos periodicos diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da civilisao. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria ainda em via de transformao. Perguntavam se era similhante terra na epocha em que esta no tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se no tratava na occasio de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia at j quem parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o equilibrio europeu. Discutiu-se verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas possibilidade da realisao d'elle; antes pelo contrario at as revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associaes scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston, a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitao, com offerecimentos promptos de coadjuvao e dinheiro. Pde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcanou to grande numero de adheses; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito d'ella, que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de certo teria succedido na Europa, e particularmente em Frana, responder com mofas, caricaturas ou canonetas epigrammaticas ida de enviar um projectil Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a indignao geral. Ha cousas de que no permittido rir no novo mundo. A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos mais notaveis e maiores cidados dos Estados Unidos, uma especie de Washington da sciencia; um s facto entre muitos bastar para evidenciar a que ponto chegra aquella infeudao subita de um povo inteiro a um homem. [Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).] Passados alguns dias depois da famosa sesso do Gun-Club, annunciou, no theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a representao de _Much ado about nothing_[21]. Ora a populao da cidade, que viu no titulo da comedia uma alluso offensiva aos projectos do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e obrigou o desgraado do director a alterar o cartaz. O director, que era homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter, durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes. [Figura: Movimentos de translao da Lua (pag. 43).] CAPITULO IV RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE Barbicane, apesar de todas as ovaes de que era alvo, no desperdiou um s instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas da mesa nas salas de commisso do Gun-Club, onde, com previa discusso, se accordou que fossem consultados os astronomos cerca da parte astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes, se discutissem ento os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para tornar seguro o exito da grande experiencia. Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira universidade dos Estados Unidos, justamente nomeada pelo seu observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia do mais elevado merecimento. ali que funcciona o potente telescopio, com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este estabelecimento celebre justificavam portanto a confiana do Gun-Club. E com effeito, dois dias depois, chegava s mos do presidente Barbicane a resposta to impacientemente esperada. Era concebida nos seguintes termos: Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club, em Baltimore. Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereada ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e houve por conveniente[23] responder como se segue: As perguntas que lhe foram feitas so as seguintes: 1.^o Ser possivel enviar um projectil at Lua? 2.^o Qual a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite? 3.^o Quanto tempo durar o trajecto do projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que momento dever ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto determinado? 4.^o Em que momento prefixo estar a Lua na posio mais favoravel para ser alcanada pelo projectil? 5.^o A que ponto do cu deve fazer-se a pontaria com o canho destinado a lanar o projectil? 6.^o Que logar ha de occupar a Lua no cu, no momento da partida do projectil? Em relao primeira pergunta: Ser possivel enviar um projectil at Lua? Sim, possivel alcanar a Lua com um projectil, comtanto que se consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade bastante. medida que nos afastmos da terra, a aco da gravidade diminue na raso inversa do quadrado das distancias, isto , por exemplo, para uma distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia o peso da bala ha de decrescer rapidamente, at chegar a ser completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attraco da Lua fizer equilibrio da Terra, isto , quando tiver percorrido 47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil no ter peso algum, e se passar alem d'esse ponto ha de car _para_ a Lua s por effeito da attraco lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar. Com respeito segunda pergunta: Qual a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite? A Lua no descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas sim uma ellipse, n'um dos focos da qual est situado o nosso globo; d'ahi vem por consequencia que a Lua est, ora mais proxima, ora mais afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no perigeo; e a differena entre a maior e a menor distancia relativamente bastante consideravel para que no devamos despreza-la. Com effeito, no apogeo est a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4 kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas smente (88:010 leguas) da Terra, o que d uma differena de 28:895 milhas (11:630 leguas), que mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da Lua que deve servir de base aos calculos. cerca da terceira pergunta: Qual ser a durao do trajecto do projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e consequentemente em que momento dever ser lanado para que v encontrar a Lua em um determinado ponto? Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se, feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou 83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attraces terrestre e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem pois lanar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira. Em relao quarta pergunta: Em que instante prefixo estar a Lua na posio mais favoravel para ser alcanada pelo projectil? Em consequencia do que deixmos dito, deve, em primeiro logar, escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra, isto , de 3:919 milhas, vindo por esta frma a ser o trajecto definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porm a Lua, que passa todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no mesmo instante, e s a largos intervallos satisfaz simultaneamente a estas duas condies. Necessario portanto esperar a coincidencia da passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith. Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de preencher as duas condies indicadas: meia noite estar no perigeo, isto , no ponto da sua orbita d'onde mais curta a distancia Terra, e passar no mesmo instante pelo zenith. Em relao quinta pergunta: A que ponto do cu deve fazer-se a pontaria com o canho destinado a lanar o projectil? Suppondo admittidas as consideraes que precedem, o canho deve ser dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais rapidamente aos effeitos da attraco terrestre. Mas para que a Lua passe pelo zenith de um logar terrestre, necessario que este logar no tenha latitude maior do que a declinao do astro, por outra que o logar esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle 28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da experiencia. A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no cu, no instante da partida do projectil? No momento em que o projectil for lanado ao espao, a Lua que avana em cada dia 13^o, 10' e 35", deve estar afastada do ponto zenithal quatro vezes esta grandeza, isto , 52^o, 42' e 20", espao que corresponde ao caminho que ha de andar durante o percurso do projectil. Mas como se deve tambem attender ao desvio que ha de vir ao projectil do movimento de rotao da Terra, e como, quando a bala chegar Lua, este desvio deve ter attingido uma grandeza igual a dezeseis raios terrestres, que contados sobre a superficie da Lua, do proximamente 11^o, devem juntar-se estes 11^o aos j mencionados, que exprimem o atrazo da Lua, o que d 64^o em numeros redondos. Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no momento do tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de 64^o. Taes so as respostas s perguntas feitas pelos socios do Gun-Club ao observatorio de Cambridge. Em resumo: 1.^o O canho deve ser collocado n'uma regio situada entre o equador e os parallelos de 28 graus de latitude norte ou sul. 2.^o Deve ser dirigido para o zenith do logar. 3.^o O projectil deve ir animado de uma velocidade inicial de doze mil jardas por segundo. 4.^o Deve ser lanado no dia 1.^o de dezembro do anno proximo, s onze horas menos treze minutos e vinte segundos. 5.^o O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias depois da partida, no dia 4 de dezembro meia noite exacta, no momento em que o astro passa pelo zenith. Devem portanto os socios do Gun-Club dar comeo sem demora aos trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento de tal ordem, e prepararem-se para a execuo no momento determinado, porque se deixarem passar a data indicada de 4 de dezembro, s dezoito annos e onze dias depois volver a Lua a entrar nas mesmas condies em relao ao zenith e ao perigeo. O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica inteiramente disposio do Gun-Club para todos os assumptos de astronomia theorica, e aproveita a occasio da presente para juntar as suas felicitaes s da America inteira. Pelo pessoal scientifico do estabelecimento.--_J. M. Belfast_, director do observatorio de Cambridge. CAPITULO V O ROMANCE DA LUA Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo, teria visto, na epocha cahotica do universo, o espao cheio de myriades de atomos. Mas pouco e pouco, com o volver dos seculos produziu-se uma mudana; manifestou-se uma lei de attraco, qual obedeceram os atomos outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo suas affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados nebulosos de que esto semeadas as profundezas do cu. Animaram-se ento estes aggregados de um movimento de rotao em volta do seu ponto central, e este centro formado de moleculas vagas poz-se tambem a girar sobre si mesmo, ao passo que se ia progressivamente condensando. Segundo as leis immutaveis da mechanica, medida que se lhe minguava o volume pela condensao, ia-se-lhe accelerando o movimento de rotao e, persistindo estes dois effeitos, de cada centro, resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado nebuloso. Se o observador olhasse ento attentamente, teria visto succeder com as outras moleculas do aggregado, o mesmo que succedra com a estrella central: condensaram-se adquirindo simultaneamente um movimento de rotao progressivamente accelerado, e gravitaram em torno da central, transformadas em outras tantas estrellas. E assim ficava formada uma nebulosa[25]. No menos de cinco mil nebulosas conhecem, na actualidade, os astronomos. Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via lactea[26], e que contm dezoito milhes de estrellas, cada uma das quaes se transformou em centro de um mundo solar. Se o observador, rodeado por estes dezoito milhes de astros, volvesse especialmente a atteno para um dos mais modestos e menos brilhantes[27], para uma estrella de quarta ordem, que orgulhosamente appellidmos _o Sol_, debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os phenomenos a que devida a formao do universo. Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o trabalho de concentrao, e este movimento, subordinado s leis da mechanica, havia accelerar-se com a diminuio do volume, e um instante havia de chegar em que a fora centrifuga venceria a fora centripeta, que attrahe as moleculas para o centro. Outro phenomeno ento havia de realisar-se diante dos olhos do observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se como a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir formar, em volta do Sol, anneis concentricos como o de Saturno. A estes anneis de materia cosmica, animados de movimento de rotao em volta da massa central, chegaria depois a vez de partir-se e decompor-se em nebulosidades secundarias, o que vale o mesmo que dizer, em planetas. Concentrada ento toda a atteno do observador sobre os planetas havia de ver realisarem-se n'elles os mesmos phenomenos que observra no Sol. De cada um d'elles dimana um ou mais anneis cosmicos, origens dos astros de ordem inferior a que chammos satellites. Subindo assim do atomo molecula, da molecula ao aggregado nebuloso, do aggregado nebuloso nebulosa, da nebulosa estrella principal, da estrella principal ao Sol, do Sol ao planeta, do planeta ao satellite, examinmos a serie inteira de transformaes por que passaram os corpos celestes desde os primeiros dias do mundo. O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar, est todavia ligado pelas ultimas theorias da sciencia nebulosa chamada via lactea. Ainda que no meio das regies ethereas nos parea pequeno, todavia o centro de um mundo, e enorme, poisque o seu volume igual a mil e quatrocentas vezes o volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito planetas, que nos primeiros tempos da creao lhe sairam das proprias entranhas. So estes planetas, progredindo do mais proximo at ao mais remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter, outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de algum astro quebrado em milhares de pedaos; d'estes conta o telescopio no menos de noventa e sete[28]. Alguns d'estes servidores que o Sol mantm nas respectivas orbitas ellipticas por fora da grande lei da gravitao, tambem tem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito, Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra s um; este, que um dos menos importantes do mundo solar, chama-se Lua, e o que o engenho audaz dos americanos pretendia conquistar. O astro das noites, j pela proximidade relativa a que est, j por virtude do espectaculo rapidamente renovado das diversas phases que apresenta, partilhou sempre com o Sol a atteno dos habitantes da Terra; mas o olhar para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar foram os contempladores d'este astro a baixar os olhos. A loura Phoeba mais humana, e cheia de modesta graa deixa-se ver com complacencia; suave para a vista, pouco ambiciosa, e comtudo toma s vezes a liberdade de eclipsar seu irmo, o radiante Apollo, sem que nunca fosse eclipsada por este. Comprehenderam os mahometanos a gratido que era devida fiel amiga da Terra; por isso regularam pela revoluo d'ella a contagem dos mezes[29]. Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa. Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos adoraram-n'a sob o nome de Phoeba, como filha de Jupiter e de Latona, e explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello Endymio. Diz-nos a lenda mythologica, que o leo de Nemea, antes de apparecer na Terra, percorrra as campinas da Lua, e o poeta Agesianax, citado por Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o encantador nariz e a bca amavel, que figuram as partes luminosas da adoravel Seln. [Figura: Vista da Lua (pag. 47).] Porm se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter, o temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista mythologico, no menos verdade, que os mais sabedores d'elles eram extremamente ignorantes pelo que diz respeito a selenographia. [Figura: Barbicane levanta-se para fallar (pag. 58).] Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e se os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em epocha em que ainda no existia a Lua, se Simplicius a julgou immovel e ligada abobada de crystal, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia d'ella um espelho polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se outros finalmente a consideraram como um aggregado de vapores exhalados pela Terra, ou um globo, metade de fogo, metade de glo, que girava sobre si mesmo, alguns sabios por meio de observaes sagazes, e postoque desajudados de instrumentos de optica, suspeitaram pelo menos a existencia da maior parte das leis que regem o astro das noites. Assim que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus Christo, opinou que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos deu verdadeira explicao das phases. Cleomene ensinou que o brilho do disco lunar vinha de luz reflexa. Berosio o chaldaico descobriu que a durao de uma rotao da Lua era igual da sua revoluo, e explicou por esta frma o facto da Lua ser vista da Terra sempre pela mesma face. Finalmente Hipparco, duzentos annos antes da era christ, reconheceu a existencia de desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra. Estas differentes observaes foram confirmadas no decorrer dos tempos e serviram de proveito aos astronomos mais modernos. Ptolomeu no seculo XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X completaram as indicaes feitas por Hipparco cerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua na linha ondulada, que tem por orbita, sob a aco do Sol. Mais proximos de ns, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe no seculo XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que desempenha a Lua no conjuncto dos corpos celestes. N'esta epocha ficaram, com muita approximao, determinados todos os movimentos lunares, mas da constituio physica do astro pouca cousa era conhecida. Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos que succediam em algumas phases, pela existencia de montanhas lunares, a que attribuiu uma altura media de 4:500 toezas. Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade que Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta apreciao, elevando-as a 7:000 toezas. Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes, attribuindo s montanhas mais altas a elevao de 1:900 toezas, e abaixando a media das differentes alturas a 400 toezas, no mais. Mas tambem Herschell se enganava, e s pelas observaes de Shroeter, Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e principalmente pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu resolver definitivamente o problema. Graas a estes homens de sciencia hoje perfeitamente conhecida a elevao das montanhas da Lua. Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada observao a natureza vulcanica d'elle. Concluiu-se da ausencia de refraco nos raios dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi absoluta de atmosphera n'este astro. Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em taes condies, possuir organisao especial e notavelmente differente da dos habitantes da Terra. Finalmente, graas aos methodos novos, empregaram-se em constantes inquiries cerca da Lua instrumentos mais perfeitos; no deixaram os astronomos por explorar nem um s ponto da sua face visivel, devendo notar-se que o diametro lunar mede 2:150 milhas[30]; a superficie 1/13 avos da superficie do nosso globo[31], o volume 1/49 avos do volume do espheroide terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se aos olhos dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda mais longe nas prodigiosas observaes que relatmos. Por esta frma notaram os observadores, que na epocha da lua cheia apparecia o disco do astro, em algumas regies, raiado por linhas brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas negras. Estudando com mais atteno o phenomeno, conseguiram perceber exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram sulcos compridos e estreitos, cavados entre margens parallelas e que em geral iam terminar nos contornos de crateras. O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e a largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o nome de _ranhuras_; mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O problema de saber se estas ranhuras eram ou no leitos seccos de antigos rios no poderam resolve-lo completamente. Os americanos j concebiam a esperana de que, mais dia menos dia, haviam de determinar com exactido aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de Munich, que as reputa um systema de fortificaes levantadas pelos engenheiros selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente muitos outros, nunca podero ser definitivamente regulados, sem que se estabelea primeiro communicao directa com a Lua. Em relao luz lunar nada havia j que aprender: era sabido que era trezentas mil vezes mais fraca que a do Sol, e que o calor que a acompanha no tem aco apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da luz cendrada esse explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol reflectidos na Terra, e que depois da reflexo se dirigem para a Lua. Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas epochas da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a frma de um crescente. O que deixmos dito representava o peculio de conhecimentos adquiridos, em relao ao satellite da Terra, peculio que o Gun-Club tentava acrescentar sob todos os pontos de vista cosmographicos, geologicos, politicos e moraes. CAPITULO VI O QUE NO POSSVEL IGNORAR E O QUE J NO PERMITTIDO ACREDITAR NOS ESTADOS UNIDOS A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela da discusso todos os factos astronomicos, relativos ao astro das noites. Todos se empenharam em estuda-lo com assiduidade. Parecia que a Lua apparecra pela vez primeira acima do horisonte, e que ninguem ainda a tinha visto nos cus. Tornou-se o astro da moda; foi durante algum tempo a _lea_ do dia, sem que por isso parecesse menos modesta, e tomou logar entre as _estrellas_, sem que d'ahi lhe viesse maior altivez. Os jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que desempenhava papel o _sol dos lobos_: trouxeram memoria do publico as influencias que attribuiu Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a emfim em todos os tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito chistoso. A America inteira foi atacada de selenomania. As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto; mas, tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao projecto do Gun-Club, deram publicidade carta do observatorio de Cambridge, commentando-a e approvando-a sem restrices. Por encurtar diremos que no foi desde ento permittido, nem ao mais illetrado de todos os yankees, ignorar um unico facto relativo ao nosso satellite, nem mais crendeira de todas as velhas matronas americanas, continuar agarrada aos erros supersticiosos, que lhe dizem respeito. Entrava-lhes a sciencia em casa sob todas as frmas; penetrava-lhes pelos olhos e pelos ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos astronomicos. At ento muitas pessoas ignoravam como podra calcular-se a distancia que ha entre a Terra e Lua. Aproveitou-se a occasio para lhes ensinar que esta distancia se avaliava pela medida da parallaxe lunar. E a quem a palavra parallaxe causava estranheza dizia-se, que significava o angulo formado por duas linhas rectas tiradas de cada uma das extremidades do raio terrestre para a Lua. A quem punha em duvida a perfeio do methodo, provava-se, sem detena, que no smente a distancia da Terra Lua era na realidade de duzentas e trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330 leguas), mas tambem que os astronomos no erravam n'esta avaliao nem setenta milhas (30 leguas). Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua, demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois movimentos distinctos, o primeiro chamado de rotao, em torno de um eixo; o segundo chamado de revoluo, em volta da Terra, que ambos se completam em tempos iguaes, isto , em vinte e sete dias e um tero [32]. O movimento de rotao o que d origem aos dias e s noites na superficie da Lua, devendo notar-se que no ha seno um dia e uma noite por mez lunar, e que cada dia ou cada noite dura trezentas e cincoenta e quatro horas e um tero. Mas, por felicidade da Lua, a sua face, que est voltada para o globo terrestre, illuminada por este com a intensidade luminosa de quatorze luas. A outra face, que sempre invisivel, tem por isso mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de noite absoluta, apenas temperada pela _pallida claridade que dimana das estrellas_. Este phenomeno provm unicamente da particularidade j citada, de que os movimentos de rotao e de revoluo se completam em tempos rigorosamente iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e Herschell, nos satellites de Jupiter, e provavelmente em todos os demais. Em certas cabeas bem dispostas, mas um tanto duras, custava a entrar, primeira, que a Lua voltava invariavelmente a mesma face para a terra, durante a sua revoluo, pela raso de que no mesmo lapso de tempo fazia um giro completo em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: Entrae na vossa casa de jantar, e dae uma volta completa roda da mesa, olhando sempre para o centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio circular, tereis feito um giro perfeito sobre vs mesmos, visto como o vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da sala. Ora pois! a sala o cu, a mesa a Terra, e a Lua sois vs! E am-se satisfeitissimos com a comparao. Como acabmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma face Terra; todavia, para fallar com rigor, devemos acrescentar, que, em virtude de um certo movimento de oscillao de norte para sul e de oeste para leste, chamado librao, podemos ver um pouco mais de metade da superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente. Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de rotao da Lua, tanto como o director do observatorio de Cambridge, comeou a inquietar-lhes o espirito o movimento de revoluo do satellite em volta da Terra, mas em curto espao acabaram de os instruir vinte e tantas revistas scientificas. Aprenderam ento que o firmamento, com a sua infinidade de estrellas, pde ser considerado como um immenso mostrador, por sobre o qual passeia a Lua, indicando a hora verdadeira a todos os habitantes da Terra, e que n'este movimento que o astro das noites apresenta as suas differentes phases. Mais, que Lua cheia, quando est em opposio com o Sol, isto , quando esto os tres astros na mesma linha recta, estando a Terra no meio; que a Lua nova, quando est em conjunco com o Sol, isto , quando est entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no quarto primeiro ou no ultimo, quando est no vertice de um angulo recto, formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e para o Sol. Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que no podia haver eclipses seno nas epochas de conjunco e de opposio, e no deduziam mal. Na conjunco a Lua pde eclipsar o Sol, e na opposio a Terra que pde eclipsar a Lua, e se em cada revoluo lunar no ha dois eclipses, porque o plano, segundo o qual se move a Lua, inclinado sobre a ecliptica, por outra, sobre o plano no qual se move a Terra. Em relao altura a que o astro das noites pde subir acima do horisonte estava tudo dito na carta do observatorio de Cambridge. Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do logar de observao, e que as unicas zonas do globo nas quaes a Lua passa pelo zenith, isto , vem collocar-se directamente por cima da cabea dos que a contemplam, esto forosamente comprehendidas entre os parallelos de 28^o e o equador. D'ahi vinha a importante recommendao de tentar a experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o projectil podesse ser lanado verticalmente, e escapar-se por isso mais depressa aco da gravidade. Era esta condio essencial para o bom exito da empreza, e no deixava de preoccupar vivamente a opinio. cerca da linha seguida pela Lua na sua revoluo em volta da Terra, tinha o observatorio de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes, para que os ignorantes de todos os paizes ficassem sabendo que esta linha uma curva reentrante, no um circulo, mas uma ellipse, n'um dos focos da qual est situada a Terra. Esta especie de orbitas ellipticas commum a todos os planetas, assim como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na mechanica racional que no podia succeder por outra frma. Bem entendido estava que a Lua no apogeo est mais longe da Terra, e no perigeo mais proxima. Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e o que ninguem decentemente podia ignorar. Porm, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com rapidez, muito mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e illusorios temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem, sustentavam que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua orbita alongada em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra que o retivera no seu circulo de attraco. Pretendiam taes astronomos de sala explicar por esta maneira o aspecto requeimado da Lua, desgraa irreparavel de que accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua pouca ou nenhuma tem, tinham grande difficuldade em responder. Outros, que pertenciam raa d'aquelles que por tudo tremem e se arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito da Lua; tinham ouvido dizer que desde as observaes feitas no tempo dos Califas, o movimento de revoluo do astro se a accelerando em certa proporo; d'aqui deduziam, verdade que com rigorosa logica, que tal accelerao no movimento devia corresponder diminuio na distancia dos dois astros, e que prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a Lua havia de acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia estes animos timoratos, e deixaram de temer pela sorte das geraes futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre mathematico francez Laplace, esta accelerao do movimento lunar est comprehendida entre estreitos limites, e que no ha de tardar que lhe succeda uma proporcional diminuio na velocidade, e que por consequencia no poder, nos seculos futuros, ser alterado o equilibrio do mundo solar. Restava, por ultimo, a classe dos ignorantes supersticiosos, e estes nunca se contentam em no saber; sabem at o que no existe, e, a respeito da Lua, sabiam cousas por ahi alem. Consideravam alguns o disco lunar como uma especie de espelho polido, por intermedio do qual os homens se podiam ver uns aos outros e communicarem-se reciprocamente os pensamentos, ainda que collocados em differentes pontos da Terra; outros affirmavam que por cada milheiro de Luas novas observadas, novecentas e cincoenta tinham trazido comsigo notaveis acontecimentos, taes como cataclysmos, revolues, tremores de terra, diluvios, etc. Acreditavam por isso na influencia mysteriosa do astro das noites sobre os destinos do homem; consideravam-no como _verdadeiro contrapeso_ da existencia; pensavam que cada selenita est ligado a um habitante da Terra por um vinculo sympathico; sustentavam, como o dr. Mead, que o systema vital est inteiramente dependente das influencias lunares, affirmando, sem admittir replica, que os rapazes nascem quasi exclusivamente na Lua nova, e as raparigas no quarto minguante, etc., etc. Mas por fim no houve mais remedio seno renunciar s crendices e erros vulgares, e contentar-se smente com a verdade, e se a Lua, despojada da sua influencia, perdeu a importancia para os espiritos de alguns d'aquelles que so cortezos de todos os poderes, se alguns lhe voltaram as costas, nem por isso deixou de ter por si a manifestao de uma immensa maioria. Consistiu desde ento a unica ambio de todos os yankees em tomar posse d'aquelle novo continente aerio e em arvorar no mais alto vertice d'elle a bandeira estrellada dos Estados Unidos da America. CAPITULO VII O HYMNO DA BALA O observatorio de Cambridge tinha estudado, na memoravel carta de 7 de outubro, o assumpto pelo lado astronomico, mas estava ainda sem soluo o problema mechanico. As difficuldades do caso pareceriam insuperaveis em qualquer outro paiz do mundo, mas na America resolveu-se o negocio como de brincadeira. O presidente Barbicane, sem perda de tempo, tinha escolhido entre os socios do Gun-Club uma commisso executiva. A commisso estava obrigada a elucidar, em tres sesses, os tres grandes problemas do canho, do projectil e das polvoras; compunha-se de quatro membros todos muito sabedores no assumpto, Barbicane, com voto de desempate, o general Morgan, o major Elphiston, e finalmente o inevitavel J.-T. Maston, ao qual foram confiadas as importantes funces de secretario relator. [Figura: A Columbiada Rodman (pag. 61).] No dia 8 de outubro reuniu-se a commisso em casa do presidente Barbicane, rua da Republica n.^o 3, e como fosse de grande importancia que as exigencias do estomago no viessem a perturbar to grave discusso, sentaram-se os quatro socios do Gun-Club em volta de uma mesa coberta de bandejas de sandwiches e de amplos bules de ch. Em seguida atarraxou J.-T. Maston a pena no gancho de ferro que lhe servia de mo direita e abriu-se a sesso. [Figura: O canho da ilha de Malta (pag. 63).] Barbicane encetou a discusso pela seguinte frma: Caros collegas, temos de resolver um dos problemas mais importantes da balistica, a sciencia por antonomasia, a que trata do movimento dos projectis, isto , dos corpos arremessados ao espao, por uma fora de impulso qualquer e depois abandonados a si proprios. --Ai! balistica! balistica! exclamou J.-T. Maston em tom commovido. --Talvez parecesse mais logico, proseguiu Barbicane, dedicar esta primeira sesso discusso do machinismo... --E na verdade, interrompeu o general Morgan. --Todavia, continuou Barbicane, depois de reflectir maduramente, pareceu-me que o assumpto projectil devia ter primazia sobre o assumpto canho, e que as dimenses d'este deveriam depender das d'aquelle. --Peo a palavra, gritou J.-T. Maston. Foi-lhe concedida a palavra com a boa vontade de que se tornava merecedor pelos seus magnificos antecedentes. Meus bons amigos, disse Maston, em tom de inspirao, o nosso presidente tem raso em dar a primazia ao assumpto projectil sobre todos os outros! A bala que ora vamos arremessar Lua um mensageiro, um embaixador, e dem-me licena que a considere pelo lado puramente moral. Esta maneira nova de encarar um projectil excitou singularmente a curiosidade dos membros da commisso; todos se prepararam para prestar a mais solcita atteno s palavras de J.-T. Maston. Caros collegas, proseguiu este; serei breve, porei de parte a bala physica, a bala que mata, para considerar smente a bala mathematica, a bala moral. Para mim a bala a mais esplendida manifestao do poder do homem; na bala resume-se este poder todo inteiro, e foi quando a inventou que o homem mais se approximou do Creador! --Muito bem! disse o major Elphiston. --E na verdade, exclamou o orador, se Deus fez as estrellas e os planetas, o homem fez a bala, que o _criterium_ das velocidades terrestres e uma imitao, em menores propores, dos astros que erram no espao, que no so mais do que outros tantos projectis! Pertence a Deus a velocidade da electricidade, a Deus a velocidade da luz, a velocidade das estrellas, a velocidade dos cometas, a velocidade dos planetas, a velocidade dos satellites, a velocidade do som, a velocidade do vento! Mas a ns os homens a velocidade da bala, cem vezes superior velocidade da locomotiva ou do mais rapido corcel! J.-T. Maston estava exaltado; entoando bala este hymno sagrado, percebiam-se-lhe na voz inflexes lyricas. Querem algarismos? proseguiu elle; ei-los, e que fallam bem alto! Olhem simplesmente a modesta bala de vinte e quatro[33], que corre oitocentas mil vezes menos veloz que a electricidade, seiscentas e quarenta mil vezes menos veloz que a luz, setenta e seis vezes menos veloz que a Terra, no movimento de translao em volta do Sol, e que todavia, quando se do canho, excede em rapidez o som[34], anda 200 toezas em cada segundo, 2:000 toezas em 10 segundos, 14 milhas (6 leguas) em cada minuto, 840 milhas (360 leguas) por hora, 27:100 milhas (8:640 leguas) por dia, ou, o que vale o mesmo, 7.336:500 milhas (3.155:760 leguas) por anno, velocidade igual dos pontos do equador no movimento de rotao do globo. Gastaria portanto 11 dias para ir Lua, 12 annos para chegar ao Sol, 360 annos para alcanar Neptuno, situado no extremo limite do mundo solar. Eis o que fazia to modesta bala, producto de mos humanas! Que ser quando vintuplicando-lhe a velocidade, a arremessarmos com a velocidade de 7 milhas por segundo! Ah! soberba bala! esplendido projectil! Exulto em acreditar que has de ser recebida l em cima com todas as honras devidas a um embaixador terrestre! Com repetidos hurrahs applaudiram os auditores esta altisonante perorao, e J.-T. Maston sentou-se extremamente commovido e recebendo felicitaes de todos os collegas. E agora, disse Barbicane, que j demos largas poesia, atiremo-nos directamente ao assumpto. --Estamos promptos, responderam os membros da commisso, absorvendo ao mesmo tempo meia duzia de sandwiches por cabea. --J tendes conhecimento do problema que temos de resolver, continuou o presidente; trata-se de imprimir a um projectil uma velocidade de 12:000 jardas por segundo. Tenho rases para acreditar que havemos de conseguir bom resultado. Mas, por agora, limitemo-nos a examinar as velocidades obtidas at hoje; o general Morgan pde instruir-nos cabalmente a este respeito. --E com tanta maior facilidade, respondeu o general, que, durante a guerra, fui eu membro da commisso de experiencias. Dir-vos-hei, pois, que os canhes de cem de Dahlgreen, cujo alcance era de 2:500 toezas, imprimiam ao projectil respectivo a velocidade inicial de 500 jardas por segundo. --Bem. E a Columbiada[35] Rodman, perguntou o presidente? --A Columbiada Rodman, ensaiada no forte de Hamilton, proximo a New York, arremessava uma bala, que tinha de peso meia tonelada, distancia de 6 milhas, com a velocidade de 800 jardas por segundo, resultado este a que nunca chegaram, nem Armstrong, nem Palisser, em Inglaterra. --Oh! os inglezes! murmurou J.-T. Maston, apontando para o horisonte leste com o temivel gancho. So portanto essas 800 jardas o _maximum_ de velocidade, proseguiu Barbicane, que se tem podido obter at hoje? -- verdade, respondeu Morgan. --Todavia, replicou Maston, sempre devo dizer, que, se o meu morteiro no tivera rebentado... --Pois sim, mas rebentou, redarguiu Barbicane, acompanhando a resposta com um gesto amigavel. Tomemos pois por ponto de partida a velocidade de 800 jardas. Ha de ser necessario vintuplica-la, e n'estes termos, guardando para outra sesso o estudo dos meios proprios para produzir tal velocidade, chamarei a vossa atteno, caros collegas, para as dimenses que convem dar bala. Bem deveis imaginar que no caso presente no tratmos de projectis que pesem quando muito meia tonelada. --E porque? perguntou o major? --Porque a bala que estamos discutindo, respondeu promptamente J.-T. Maston, deve ser bastantemente volumosa para solicitar a atteno dos habitantes da Lua, se que l os ha. -- verdade, redarguiu Barbicane, e tambem por outra raso ainda mais importante. --E qual ella, Barbicane ? perguntou o major. -- que no me parece bastante mandar um projectil Lua, e ficar s n'isso; julgo necessario que o acompanhemos durante a viagem e at ao momento de bater no alvo. --O que! disseram a um tempo. O general e o major, um tanto surprehendidos com a proposta. --Certamente, continuou Barbicane, como quem est conscio do que diz, de certo, e seno a nossa experiencia no produziria resultado algum. --Mas n'esse caso, replicou o major, haveis de dar ao projectil dimenses enormes? --Nada. Ora tende a bondade de ouvir-me. Sabeis todos que os instrumentos de optica tem alcanado um elevado grau de perfeio; com certos telescopios tem-se conseguido obter augmentos de seis mil por um e trazer assim a Lua distancia proximamente de 40 milhas (16 leguas). Ora a esta distancia so distinctamente visiveis os objectos que tem 60 ps de lado. E se no se tem levado mais longe o poder de augmento dos telescopios que a amplificao cresce na raso inversa da clareza, e porque a Lua, que no seno um espelho de reflexo, no emitte luz bastante intensa para que possa admittir amplificaes que vo alem do limite que indiquei. --E ento! que fazer? perguntou o general. Haveis de dar ao vosso projectil 60 ps de diametro? --Certamente que no! --Tereis ento de tornar a Lua mais luminosa? --Justamente. --Isso l me parece muito! exclamou J.-T. Maston. -- muito verdade, mas muito simples, respondeu Barbicane. Com effeito se eu conseguir que diminua a espessura da atmosphera que a luz da Lua atravessa, acaso no terei tornado essa luz mais intensa! --Evidentemente. --Pois bem! Para obter tal resultado bastar-me-ha estabelecer um telescopio em alguma montanha elevada. E o que havemos de fazer. --Basta, rendo-me, respondeu o major. Tendes uma tal maneira de simplificar as cousas! --E que amplificao esperaes obter por tal expediente? --Uma amplificao de quarenta e oito mil por um, que ha de trazer-nos a Lua a cinco milhas de distancia. N'esta hypothese bastar que qualquer objecto tenha nove ps de lado para que seja perfeitamente visivel. --Perfeitamente! exclamou J.-T. Maston, o nosso projectil ha de portanto ter nove ps de diametro? --Nem mais nem menos. --Todavia, permittam-me que lhes diga, redarguiu o major Elphiston, que ainda assim o projectil ha de ter um peso tal que... --Oh! major, respondeu Barbicane, antes que discutamos o peso do projectil consenti que vos diga que nossos paes faziam n'este genero cousas realmente maravilhosas. Longe de mim a ida de affirmar que a balistica no tem progredido, mas bom que se saiba que j na idade media se obtinham resultados surprehendentes; ousarei at acrescentar, mais para surprehender que os que ns hoje alcanmos. --Ora essa! replicou Morgan. --Justificae o que affirmaes, exclamou com vehemencia J.-T. Maston. --Nada mais facil, respondeu Barbicane; sobram-me os exemplos para apoiar o que asseverei. Assim, no assedio de Constantinopla por Mahomet II, em 1543, lanaram-se balas de pedra que pesavam mil e novecentas libras, e que deviam ser de bonito tamanho. --Oh! oh! disse o major, mil e novecentas libras, j um algarismo elevado! --Em Malta, no tempo dos cavalleiros, um certo canho do forte de Sant'Elmo arremessava projectis que pesavam duas mil e quinhentas libras. --Parece impossivel! --Finalmente, segundo diz um historiador francez, no reinado de Luiz XI, havia um morteiro que lanava bombas do peso smente de quinhentas libras; em compensao estas bombas, partindo da Bastilha, logar onde os loucos encarceravam os de espirito so, iam cahir em Charenton, logar onde os de espirito so encarceravam os loucos. --Muito bem! disse J.-T. Maston. --E depois do que acabo de relatar, em summa, que temos visto? Os canhes de Armstrong que arremessam balas de quinhentas libras, e as Columbiadas Rodman projectis de meia tonelada! O que parece, portanto, que se os projectis ganharam em velocidade, perderam pelo menos em peso. Se dirigirmos pois n'este sentido os nossos esforos, havemos de conseguir, com o auxilio dos progressos da sciencia decuplicar o peso das balas de Mahomet II e dos cavalleiros de Malta. --Evidente, respondeu o major, mas que metal pensaes em empregar para compor o projectil. --Ferro fundido, nada mais, disse o general Morgan. --Ora! ferro fundido! exclamou J.-T. Maston com profundo desdem, cousa bem ordinaria para fabricar uma bala destinada a ir Lua. --Nada de exageraes, honrado amigo, respondeu Morgan; ferro quanto basta. --E ento! replicou o major Elphiston; olhem que sendo o peso da bala proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido que tenha nove ps de diametro ha de ainda ter um tal peso que mette medo! --Assim ser, se for massia, mas no se for oca, disse Barbicane. --Oca! ento um obuz? --Onde podem metter-se correspondencias, replicou J.-T. Maston, e amostras das produces terrestres! --Sim, um obuz, respondeu Barbicane, assim absolutamente necessario; uma bala massia de cento e oito pollegadas pesaria mais de duzentas mil libras, peso evidentemente excessivo; todavia como julgo necessario guardar as condies de estabilidade na construco do projectil, proponho que se lhe d o peso de cinco mil libras. --Qual ha de ser ento a grossura das paredes? perguntou o major. --Se nos cingirmos proporo indicada nos regulamentos, continuou Morgan, ao diametro de cento e oito pollegadas correspondem paredes de dois ps de espessura, pelo menos. --Seriam grossas de mais, respondeu Barbicane; notem bem, que se no trata aqui de uma bala fabricada para furar couraas; basta que a bala tenha paredes sufficientemente fortes para resistir presso dos gazes da polvora. O problema portanto este: qual a espessura que deve ter um obuz de ferro fundido para que no pese mais de vinte mil libras? O nosso habil calculador e bom amigo Maston no-lo dir sem demora. --Muito facilmente, replicou o honrado secretario da commisso. E quando tal dizia ia j traando no papel algumas formulas algebricas; viram-se-lhe sair dos bicos da pena [Grego: p] e _x_ elevados ao quadrado. Pareceu at que, sem lhe pr a mo, extrahia, uma certa raiz cubica, e disse: As paredes ho de ter apenas duas pollegadas de grossura. --E ser bastante? perguntou o major, com ares de quem duvida. --No, respondeu o presidente Barbicane, claro que no. --E ento! que se ha de fazer? continuou Elphiston com ares de grande irresoluo. --Servir-se de outro metal e no do ferro fundido. --Do cobre? disse Morgan. --Nada, o cobre ainda pesado demais, e tenho para vos propor cousa melhor. --Ento que ? disse o major. --O aluminium, respondeu Barbicane. --Aluminium! exclamaram os tres collegas do presidente. --Certamente amigos meus. Sabeis que um illustre chimico francez, Henry-Sainte-Claire-Deville, conseguiu em 1854 obter o aluminium em massa compacta. Ora este precioso metal tem a brancura da prata, a inalterabilidade do oiro, a tenacidade do ferro, a fusibilidade do cobre e leve como vidro; modela-se com facilidade, est espalhado com profuso na natureza, visto como a alumina base da maior parte das rochas, tres vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido expressamente creado para fornecer-nos materia para o nosso projectil. --Hurrah pelo aluminium! exclamou o secretario da commisso, sempre extremamente ruidoso nos momentos de enthusiasmo. --Mas, caro presidente, disse o major, no ser extremamente elevado o preo do aluminium? --Assim era, respondeu Barbicane; nos primeiros tempos depois que foi descoberto, custava a libra do aluminium entre duzentos e sessenta e duzentos e oitenta dollars (approximadamente 1.500 francos[36]); depois desceu a vinte e sete dollars (150 francos), e hoje finalmente, est a nove dollars (48 francos e 75 centesimos). --Mas a nove dollars por libra, replicou o major, que no cedia primeira, vem a dar ainda um preo enorme! --Sem duvida, caro major, mas no inaccessivel. --E, n'esse caso, qual ha de ser o peso do projectil? perguntou Morgan. --O resultado dos meus calculos o seguinte, respondeu Barbicane: uma bala de cento e oito pollegadas de diametro e de doze pollegadas de espessura[37], pesaria, no caso de ser de ferro fundido, sessenta e sete mil quatrocentas e quarenta libras; sendo de aluminium fundido, o seu peso ficar reduzido a dezanove mil duzentas e cincoenta libras. --Muito bem! exclamou Maston, isso agora j cabe no nosso programma. --Muito bem! Muito bem! Mas acaso ignoraes, que a dezoito dollars por libra, esse projectil havia de custar-nos... --Cento e setenta e tres mil duzentos e cincoenta dollars (928:437 francos e 50 centesimos), sei-o muito bem; mas no se assustem amigos, no ha de faltar dinheiro para a realisao do nosso projecto; por isso respondo eu. --Ha de chover dinheiro nos nossos cofres, replicou J.-T. Maston. --Ento! que me dizem ao aluminium! perguntou o presidente. --Est adoptado, responderam os tres membros da commisso. --Quanto frma da bala, proseguiu Barbicane, pouca importancia tem, visto como, logo que o projectil passe para alem da atmosphera, ha de achar-se no vacuo, proponho portanto, que seja redonda, para que gire sobre si mesmo, se o julgar conveniente, ou se porte como melhor lhe ditar a phantasia. Foi este o fecho da primeira sesso da commisso; ficou definitivamente resolvida a questo do projectil, e J.-T. Maston exultou com a ida de mandar aos Selenitas uma Bala de aluminium que havia dar-lhes a entender que os habitantes c da Terra eram uns pimpes! CAPITULO VIII HISTORIA DO CANHO As resolues tomadas na primeira sesso produziram grandissimo effeito no publico. Algum mais timorato l se assustava com a ida da bala que havia de pesar vinte mil libras. Punha-se em duvida se poderia construir-se canho capaz de transmittir velocidade inicial bastante a uma massa d'aquella ordem. A acta da segunda sesso da commisso devia responder triumphantemente a todas aquellas duvidas. No dia seguinte ao cair da noite abancaram em volta da mesa os quatro membros do Gun-Club defrontando com novas montanhas de sandwiches que marginavam um verdadeiro oceano de ch. Atou-se o fio discusso, e d'esta vez sem preambulo. Caros collegas, disse Barbicane, vamos occupar-nos do machinismo que ha a construir, estudando-lhe o comprimento, a frma, a composio e o peso. provavel que havemos de concluir dando-lhe dimenses gigantescas; mas, por maiores que sejam as difficuldades, o engenho industrial dos americanos ha de vence-las com facilidade. Queiram portanto ouvir-me, e no me poupem, venham objeces queima roupa, que as no temo! Estas palavras foram recebidas com um grunhido de approvao. No esqueamos, proseguiu Barbicane, a altura a que fomos levados hontem pela discusso: apresenta-se-nos agora o problema nos seguintes termos: imprimir a um obuz de cento e oito pollegadas de diametro, e que pesa vinte mil libras a velocidade inicial de doze mil jardas por segundo. Com effeito, exactamente esse o problema, respondeu o major Elphiston. Prosigamos, tornou Barbicane. Que factos se passam, quando um projectil arremessado ao espao? Tres foras independentes o solicitam, a resistencia do meio, a attraco da Terra, e a fora de impulso que lhe imprimiram. Examinemos estas tres foras. A resistencia do meio, que aqui a resistencia do ar, ha de ser de pouca importancia; porque a atmosphera terrestre no tem mais de quarenta milhas (16 leguas proximamente) de altura. Ora, com a rapidez de doze mil jardas, o projectil ha de atravessa-la em cinco segundos, tempo bastantemente curto para que a resistencia do meio possa ser considerada insignificante. Passemos attraco da Terra, ou o que vale o mesmo aco da gravidade sobre o obuz. Sabemos que o peso d'este ha de decrescer na raso inversa do quadrado das distancias. Effectivamente ensina-nos a physica o seguinte: quando um corpo abandonado a si proprio ce superfcie da Terra, desce quinze ps[38], e se o mesmo corpo fosse transportado para a distancia de duzentos e cincoenta e sete mil quinhentas e quarenta e duas milhas, ou o que mesmo, distancia a que est a Lua, o seu descenso ficaria reduzido a meia linha, proximamente, no primeiro segundo. Quasi que a immobilidade. Trata-se portanto de vencer progressivamente a aco da gravidade. E como havemos de consegui-lo? Pela fora de impulso. --Ahi que est a difficuldade, respondeu o major. --Ahi est, na verdade, continuou o presidente, mas havemos de supera-la, porque a fora de impulso de que havemos mister ha de resultar do comprimento do machinismo e da quantidade de polvora que empregarmos, e a verdade que esta no tem mais limitao do que a resistencia d'aquelle. Tratemos pois hoje das dimenses que havemos de dar ao canho. Bem entendido est que podemos estabelece-lo em condies de resistencia, por assim dizer, infinita, visto como com tal canho no ha a fazer manobras. --Tudo isso evidente, respondeu o general. --At agora, disse Barbicane, os canhes de maior comprimento, as nossas enormes Columbiadas, nunca excederam o comprimento de vinte e cinco ps, e portanto a muita gente ho de causar espanto as dimenses que havemos de ser forados a adoptar. --Eh! indubitavelmente, exclamou J.-T. Maston; pela minha parte no me contento com menos de meia milha de comprimento, para o canho! --Meia milha! exclamaram o major e o general. --Meia milha sim! e talvez devesse dizer o dobro. --Ora vamos, Maston, isso exagerao. --Certamente que no, replicou o effervescente secretario, nem percebo, na realidade, por que me accusaes de exagero. --Porque ides longe de mais! --Sabei, senhor, respondeu J.-T. Maston, assumindo os seus mais imponentes ademanes, sabei que o artilheiro como a bala, que nunca vae longe de mais! a a discusso tomando caracter de personalidade, mas o presidente interveiu. --Soceguem, amigos, e raciocinemos; evidentemente ha de ser necessario um canho de grande tamanho, visto como o comprimento da pea ha de augmentar a fora expulsiva dos gazes accumulados sob o projectil; mas inutil ir alem de certos limites. --Muito bem, disse o major. --Quaes so as regras applicaveis ao caso? De ordinario o comprimento do canho igual a vinte at vinte e cinco vezes o diametro da bala, e pesa o canho duzentas e trinta e cinco a duzentos e quarenta vezes o peso d'esta. --No bastante, clamou impetuoso, J.-T. Maston. --Convenho n'isso, meu digno amigo, e, na realidade, se nos cingirmos proporo apontada, para um projectil de 9 ps de largura e de 30:000 libras de peso, no ter o machinismo mais do que 225 ps de comprimento e de 7.200:000 libras de peso. -- ridiculo, redarguiu J.-T. Maston. Tanto vale usar de uma pistola! --Tambem penso assim, respondeu Barbicane, e por isso que tenho teno de quadruplicar esse comprimento, e de construir um canho de 900 ps de comprido. O general e o major apresentaram algumas objeces, entretanto a proposta sustentada com animao pelo secretario do Gun-Club foi a final definitivamente adoptada. Decidido este ponto, disse Elphiston, que espessura havemos de dar s paredes? --Seis ps, respondeu Barbicane. --De certo que no imaginaes collocar uma massa d'essa ordem em cima de um reparo? perguntou o major. --Isso que havia de ser soberbo! disse J.-T. Maston. --Mas impraticavel, respondeu Barbicane. Nada, penso que o machinismo deve ser moldado mesmo no solo, guarnecido de arcos de ferro forjado, e apertado n'uma obra bem espessa e solida de pedra e cal, por forma que adquira toda a resistencia do terreno circumdante. Depois de fundida a pea ha de se lhe brocar, calibrar e polir a alma com extremo cuidado, para evitar que exista o vento[39] da bala. [Figura: Vista ideal do canho de J.-T. Maston (pag. 70).] Por esta frma no ha de haver perda alguma de gazes e a fora expansiva da polvora transformar-se-ha toda em impulso. [Figura: O monge Schwartz inventando a polvora (pag. 77).] --Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston, j temos canho. --Ainda no! respondeu Barbicane, acalmando com o gesto a impaciencia do amigo. --E porque no? --Porque ainda lhe no discutimos a frma. Ha de ser canho, obuz ou morteiro? --Canho, replicou Morgan. --Obuz, redarguiu o major. --Morteiro, clamou J.-T. Maston. Nova e vehemente discusso ia encetar-se; cada qual preconisava j a sua arma favorita, quando o presidente a interrompeu de prompto, dizendo: Meus amigos, vou p-los a todos de accordo; a nossa columbiada ha de ter alguma cousa de cada uma das tres bcas de fogo indicadas. Ha de ser canho, por ter a camara da polvora de diametro igual ao da alma. Obuz, porque ha de arremessar obuzes. Finalmente ser morteiro, visto como ha de ser apontada por um angulo de 90^o, e que, sem poder recuar, inabalavelmente ligada ao solo, communicar ao projectil toda a potencia de impulso que se lhe accumular no ventre. --Adoptado, adoptado, conclamaram os membros da commisso. --Permittam-me uma simples reflexo, disse Elphiston, ha de ser raiado esse canh-obuz-morteiro? --No, respondeu Barbicane, no; precismos de uma enorme velocidade inicial, e sabeis muito bem que as balas sem menos velozes dos canhes raiados do que dos canhes de alma lisa. -- exacto. --At que emfim d'esta vez que j temos canho! repetiu J.-T. Maston. --Ainda no tanto assim, replicou o presidente. --Ento porque? --Porque ainda no sabemos de que metal ha de ser feito. --Decida-se isso sem demora. --Era o que eu ia propor-vos. Cada um dos membros da commisso foi engulindo a sua duzia de sandwiches acompanhadas de um bule de ch, depois recomeou a discusso. Meus bons collegas, disse Barbicane, o nosso canho deve ter grande tenacidade e grande dureza, e ser infusivel pelo calor, insoluvel e inoxydavel pela aco corrosiva dos acidos. --Isso no tem duvida alguma, respondeu o major, e como ha de ser necessario empregar uma quantidade consideravel de metal, no havemos de hesitar muito na escolha. N'esse caso, disse Morgan, proponho para a fabricao da columbiada a melhor das ligas que conhecida at hoje, isto , cem partes de cobre, doze de estanho e seis de lato. --Meus amigos, respondeu o presidente, confesso que esta composio tem dado excellentes resultados; mas para o nosso caso, custaria excessivamente cara, e difficilmente poderiamos emprega-la. Cuido portanto que devemos adoptar uma materia excellente, e de baixo preo, tal como o ferro fundido. No ser esta a vossa opinio, major? --Exactamente, respondeu Elphiston. --Com effeito, proseguiu Barbicane, o ferro fundido, custa dez vezes mais barato que o bronze, de facil fuso, molda-se com simplicidade em moldes de areia, manipula-se com rapidez; d pois simultaneamente economia de tempo e de dinheiro. Alem d'isto esta materia excellente, e bem me recordo de que, durante a guerra, no crco de Atlanta, algumas peas de ferro fundido atiraram cada uma mil tiros de vinte em vinte minutos, sem que por isso soffressem alterao. --Todavia, o ferro fundido muito quebradio, respondeu Morgan. -- verdade, mas tambem muito resistente, e de mais asseguro-vos que no havemos de rebentar, por isso respondo eu. --Rebentar no deshonra, replicou em ar de sentena J.-T. Maston. --Est claro, respondeu Barbicane. Pedirei portanto ao nosso digno secretario que nos calcule o peso de um canho de ferro fundido, de novecentos ps de comprimento e com um diametro interior de nove ps, e com as paredes de seis ps de espessura. --N'um instante, respondeu J.-T. Maston. E, assim como fizera na vespera, escrevinhou umas formulas, com facilidade de pasmar, e disse passado um minuto. Esse canho ha de pesar sessenta e oito mil e quarenta toneladas (68.040:000 kilogrammas). --E a dois centesimos[40] (10 centimos) por libra, ha de custar?... --Dois milhes quinhentos e dez mil setecentos e um dollars (13.608:000 francos). J.-T. Maston, o major e o general olharam para Barbicane com ar de inquietao. E ento! Repito-lhes, senhores, o que j lhes disse hontem, estejam descansados, que os milhes no nos ho de faltar. Seguros na palavra do seu presidente, separaram-se os membros da commisso, depois de terem combinado para o dia seguinte a terceira sesso. CAPITULO IX QUESTO DA POLVORA S faltava tratar da questo da polvora. Esperava o publico com anciedade esta deciso final. Dados o volume do projectil e o comprimento do canho, qual seria a quantidade de polvora necessaria para produzir a impulso? Aquelle agente temivel, de que o homem, todavia conseguiu dominar e dirigir os effeitos, ia ser chamado a desempenhar o seu papel habitual, mas em propores nunca usadas. geralmente acreditado, e diz-se vulgarmente, que a polvora foi inventada no seculo XIV, pelo monge Schwartz, que pagou com a vida a grande descoberta que fizera. Mas na actualidade quasi que se pde dar como provado que esta historia merece ser classificada a par de muitas outras lendas da idade media. A polvora ninguem a inventou, deriva directamente dos fogos gregos, como ella compostos de enxofre e de salitre. A differena que os mixtos que em tempos remotos davam apenas polvora de foguete transformaram-se, com o decorrer dos tempos, em mixtos detonantes ou polvoras de tiro. Porm se os eruditos conhecem perfeitamente a imaginaria historia da inveno da polvora, pouca gente ha que saiba devidamente apreciar a sua potencia mechanica, que exactamente o que necessario saber para comprehender a importancia do assumpto sujeito commisso. Um litro de polvora pesa, proximamente, duas libras (900 grammas)[41], e produz quando se inflamma quatrocentos litros de gazes; estes gazes, em liberdade, e sob a aco de uma temperatura elevada at dois mil e quatrocentos graus, occupam um espao equivalente a quatro mil litros. Portanto o volume da polvora em gro est para o volume dos gazes produzidos pela sua deflagrao, assim como um est para quatro mil. Avalie-se por isto a espantosa impulso que ho de produzir estes gazes, quando comprimidos n'um espao quatro mil vezes mais apertado do que o que naturalmente haviam de occupar. Isto tudo sabiam, e perfeitamente, os membros da commisso quando no dia seguinte abriram a sesso. Barbicane concedeu a palavra ao major Elphiston, que tinha sido director das fabricas de polvora no tempo da guerra. Caros camaradas, disse aquelle notavel chimico, vou comear pela citao de algarismos irrecusaveis que ho de ser a base dos nossos calculos. A bala de vinte e quatro, de que em termos to poeticos nos fallou antes de hontem o honrado J.-T. Maston, expellida da bca de fogo apenas por dezeseis libras de polvora. --Estaes seguro d'esse algarismo? Perguntou Barbicane. --Absolutamente seguro, respondeu o major. O canho Armstrong carrega-se s com setenta e cinco libras de polvora para um projectil de oitocentas libras de peso, e a columbiada de Rodman no gasta mais de sessenta libras de polvora para arremessar a seis milhas de distancia a sua bala de meia tonelada. So factos que no podem ter contestao, porque eu proprio tomei nota d'elles nas actas da commisso de artilheria. --Muito bem, respondeu o general. --Ora pois! proseguiu o major, a consequencia que devemos tirar d'estes dados a seguinte: que a quantidade de polvora no augmenta na proporo do peso da bala; e, na verdade, so necessarias dezeseis libras de polvora para uma bala de vinte e quatro; por outras palavras, gastam-se nos canhes ordinarios quantidades de polvora que pesam um tero do peso da bala, mas a proporcionalidade no constante. Se fizessemos o calculo, haviamos de reconhecer que para a bala de meia tonelada, o peso da polvora necessaria, que se reduz a sessenta libras apenas, seria, segundo a proporo, de trezentas e trinta e tres libras. --E a que concluso quereis por ahi chegar? Perguntou o presidente. Levando essa theoria at aos seus ultimos limites, meu caro major, disse J.-T. Maston, haveis de chegar seguinte concluso final: que, se pde dispensar a polvora, toda a vez que a bala exceda um certo peso. --O nosso Maston sempre faceto, mesmo quando se trata de cousas serias, mas esteja descansado que lhe hei de propor quantidades de polvora, capazes de lisonjear o seu amor proprio de artilheiro. O que eu pretendo que fique claramente estabelecido, que, no tempo da guerra, o peso da polvora foi, por experiencia, reduzido para os maiores canhes decima parte do peso da bala. --Nada ha mais verdadeiro, disse Morgan. Lembro entretanto, que ser conveniente que accordemos cerca da natureza da polvora, antes de decidir qual a quantidade d'ella necessaria para a impulso calculada. --Havemos de usar da polvora bombardeira, respondeu o major, porque a combusto total d'esta mais rapida que a da polvora miuda. -- verdade, replicou Morgan, mas muito quebradia, e no fim de tempos vem a deteriorar a alma das peas. --Ora! isso poderia ser um inconveniente para qualquer canho destinado a fazer longos servios, mas para a nossa columbiada no. Perigo de exploso no temos ns que temer, o que essencial que a polvora se inflamme instantaneamente, para que o seu effeito mechanico seja completo. --Talvez se podesse abrir na pea mais de um ouvido, disse J.-T. Maston, e assim dar fogo em muitos pontos simultaneamente. --Pois sim, respondeu Elphiston, mas isso iria difficultar a manobra. Insisto portanto na minha bombardeira, que evita essas difficuldades. --V, respondeu o general. [Figura: O capito Nicholl (pag. 78).] --Rodman, proseguiu o major, usava para carregar a sua columbiada de uma polvora, cujos gros eram do tamanho de uma castanha, e fabricada com carvo de salgueiro mal torrado em caldeiras de ferro fundido. Esta polvora era dura e luzidia, e incendiando-se na mo no deixava vestigios; continha hydrogenio e oxygenio em grandes propores, ardia instantaneamente, e, apesar de ser muito quebradia, no deteriorava sensivelmente as bcas de fogo. [Figura: Nicholl publicou grande numero do cartas (pag. 91).] --Em vista d'isso, respondeu J.-T. Maston, parece-me que no ha que hesitar, e que a escolha est de per si feita. --A no ser que deis preferencia ao oiro _pulverisado_, replicou rindo, o major, riso que o susceptivel secretario pagou com um gesto ameaador do seu gancho. Barbicane conservra-se at aquelle momento estranho discusso. Deixava fallar e ouvia. Era evidente que tinha o juizo formado cerca do assumpto. Por isso limitou-se a dizer o seguinte: Em concluso, meus amigos, que quantidade de polvora, reputaes necessaria? Entre-olharam-se por um momento os tres socios do Gun-Club. Duzentas mil libras, disse por fim Morgan. --Quinhentas mil, replicou o major. --Oitocentas mil! exclamou J.-T. Maston. D'esta vez no se atreveu Elphiston a alcunhar o collega de exagerado. E com raso, que se tratava de arremessar Lua um projectil de vinte mil libras de peso, e de communicar a este uma fora inicial de doze mil jardas por segundo. Seguiu-se portanto um momento de silencio triplice proposta feita pelos tres collegas. Quebrou-o finalmente o presidente Barbicane. Estimaveis camaradas, disse este com voz placida, parto eu do principio, que a resistencia do nosso canho, construido nas condies requeridas, illimitada. Portanto vou causar surpreza ao honrado J.-T. Maston, affirmando-lhe que ainda foi timido nos seus calculos, e proponho que sejam duplicadas as oitocentas mil libras de polvora em que fallou. --Um milho e seiscentas mil libras? disse J.-T. Maston, dando um salto na cadeira. --Nada menos. --Mas, n'esse caso, voltmos ao meu canho de meia milha de comprimento. -- claro, disse o major. --Um milho e seiscentas mil libras de polvora, continuou o secretario da commisso, ho de occupar um espao igual a vinte e dois mil ps cubicos[42] approximadamente; e como o canho em que accordastes tem um volume interno apenas igual a cincoenta e quatro mil ps cubicos[43], ha de ficar cheio at quasi ao meio, sendo por esta forma a alma pequena, para que a fora expulsiva dos gazes imprima ao projectil impulso bastante. Isto no tinha replica. O que J.-T. Maston dizia era a pura verdade. Voltaram-se todos para Barbicane. Apesar de tudo, tornou o presidente, insisto na quantidade de polvora que indiquei. Reflecti que um milho e seiscentas mil libras de polvora ho de transformar-se em seis milhares de milhes de litros de gazes. Ouviram bem? Seis milhares de milhes! --Mas ento o que se ha de fazer? perguntou o general. -- muito facil; havemos de reduzir o volume d'esta enorme quantidade de polvora, sem lhe diminuir por frma alguma a potencia mechanica. --Bem! Mas por que meio? -- o que vou dizer-vos, respondeu sem nenhum entono Barbicane. Os interlocutores devoravam-n'o com o olhar. Com effeito, continuou elle, nada mais facil do que reduzir essa massa de polvora a um volume quatro vezes menor. Todos tendes conhecimento d'essa curiosa substancia que constitue os tecidos elementares dos vegetaes e que se chama cellulose. --Ah! interrompeu o major. Comeo a comprehender, meu caro Barbicane. --Essa substancia, disse o presidente, extrahe-se no estado de perfeita pureza de diversos corpos, e principalmente do algodo, que no seno a penugem das sementes do algodoeiro. Ora o algodo, combinado a frio com o acido azotico, transforma-se em uma substancia eminentemente insoluvel, eminentemente combustivel e eminentemente explosiva. Descobriu esta substancia ha j annos, em 1832, o chimico francez Braconnot, e poz-lhe o nome de xyloidina. Em 1838 outro francez, Pelouze, estudou-lhe as differentes propriedades; e finalmente em 1846, Shonbein, professor de chimica em Ble, propo-la para polvora de guerra. Esta polvora o algodo azotico. --Ou pyroxylo, respondeu Elphiston. --Ou algodo-polvora, respondeu Morgan. --Pois no haver um nome de americano que se possa escrever ao lado d'essa descoberta? exclamou J.-T. Maston, movido por vivo sentimento de amor proprio nacional. --Infelizmente nem um s, respondeu o major. --Apesar d'isso, continuou o presidente, por dar prazer a Maston, sempre lhe direi que pde estabelecer-se proxima relao entre os trabalhos de um nosso concidado e o estudo da cellulose; porque o collodion, que um dos agentes principaes da photographia, no seno pyroxylo dissolvido em ether misturado com alcool, e o collodion foi descoberto por Maynard, que era ento estudante de medicina em Boston[44]. --Pois ento, hurrah! por Maynard e pelo algodo-polvora! exclamou o ruidoso secretario do Gun-Club. --Voltemos ao pyroxylo, proseguiu Barbicane. Conheceis-lhe j as propriedades que no-lo vo tornar precioso: prepara-se com extrema facilidade: mergulhar algodo no acido azotico fumegante durante quinze minutos, lava-lo depois em grande quantidade de agua, secca-lo e nada mais. -- na realidade extremamente simples, disse Morgan. --Alem d'isto o pyroxylo inalteravel pela humidade, qualidade que devemos reputar preciosa, visto como ho de ser necessarios muitos dias para carregar o nosso canho; inflammavel a cento e setenta graus centigrados, em vez de duzentos e quarenta, e arde to subitamente, que pde ser queimado em cima de polvora vulgar, sem que esta tenha tempo de inflammar-se. --Perfeitamente, respondeu o major. --Tem s um inconveniente: caro. --Isso que importa? interrompeu J.-T. Maston. --Em concluso; communica aos projectis velocidade quatro vezes maior que a da polvora. Acrescentarei ainda que, misturado com oito decimos do seu peso de nitrato de potassa, lhe augmenta a potencia explosiva em proporo notavel. --E ser necessario faze-lo? perguntou o major. --Creio que no, respondeu Barbicane. Em concluso, em vez de um milho e seiscentas mil libras de polvora, teremos apenas quatrocentas mil libras de algodo-polvora, e como se podem comprimir sem perigo, em vinte e sete ps cubicos, quinhentas libras de algodo azotico, esta substancia vem a encher a nossa columbiada smente at altura de trinta toezas. Por esta maneira ter a bala a percorrer mais de setecentos ps de alma do canho, sob a aco do esforo de seis milhares de milhes de litros de gazes antes de voar em liberdade para o astro das noites. Ao ouvir o final d'este periodo no pde, de commovido, conter-se J.-T. Maston; lanou-se nos braos do amigo com vehemencia de projectil; mettia-lhe as costellas dentro, se a solida construco de Barbicane no estivera prova de bomba. Terminou com este incidente a terceira sesso da commisso. Barbicane e os seus audazes collegas, a quem nada parecia impossivel, tinham acabado de resolver o problema to complexo do projectil, do canho e das polvoras. Elaborado o plano, restava a execuo. Insignificantes pormenores, bagatella, lhe chamava J.-T. Maston. CAPITULO X UM INIMIGO POR VINTE E CINCO MILHES DE AMIGOS O publico americano encontrava poderosos incentivos de curiosidade at nos mais insignificantes pormenores do emprehendimento do Gun-Club, e seguia passo a passo as discusses da commisso. Os preparativos mais simples para aquella grande experiencia, as questes de algarismos que d'ella nasciam, as difficuldades mechanicas que havia a resolver, n'uma palavra a sua _mise en train_ eram o que preoccupava em grau elevadissimo a opinio. Mais de um anno havia de decorrer ainda entre o comeo e o termo final dos trabalhos preparatorios; mas este intervallo de tempo no havia de ser esteril em emoes; a escolha de logares para a perfurao, a construco do molde, a fundio da columbiada e o perigosissimo carregamento d'ella, tudo era mais que sufficiente para excitar a curiosidade publica. O projectil, apenas expellido, havia de escapar em poucos decimos de segundo ao alcance da vista; depois para poucos privilegiados era verem com os proprios olhos o que lhe havia de succeder, como se haveria atravs do espao, e por que frma havia de alcanar a Lua. Por este motivo que os preparativos para a experiencia e os exactos pormenores da execuo eram, para a maioria, a parte verdadeiramente interessante d'ella. E todavia o attractivo puramente scientifico do emprehendimento recebeu de um subito incidente novo incitamento. J dissemos de quo numerosas legies de admiradores e amigos tinha o projecto Barbicane trazido a adheso ao seu auctor, e comtudo por mais honrosa e extraordinaria que fosse, aquella maioria no tinha de ter unanimidade. Um s homem, um s em todos os Estados da Unio, lavrou protesto contra a tentativa do Gun-Club, que atacou com violencia sempre que se lhe proporcionou para isso occasio; e, tal a natureza humana, que para Barbicane valeu mais aquella opposio de um s do que os applausos de todos os outros. Apesar de que Barbicane bem conhecia quaes os motivos de tal antipathia, e d'onde vinha aquella solitaria inimizade, que era pessoal e de antiga data, e finalmente em que rivalidades de amor proprio crera raizes. Aquelle perseverante inimigo, nunca o presidente do Gun-Club o tinha visto. E felizmente, porque o encontro d'aquelles dois homens havia por certo de trazer consequencias funestas. Aquelle rival era, como Barbicane, um homem de sciencia, natureza altiva, audaz, convicta e violenta, um yankee puro. Chamavam-lhe o capito Nicholl, e habitava em Philadelphia. Ninguem desconhece a curiosa luta que durante a guerra federal se travou entre o projectil e a couraa dos navios blindados; aquelle tinha por fito especial varar esta; esta obstinava-se decididamente a no se deixar varar. D'este facto proveio uma transformao de raiz na marinha dos differentes estados dos dois continentes. Bala e couraa lutaram com obstinao nunca vista; crescia o volume de uma, augmentava logo a espessura da outra, e em constante proporo. Os navios marchavam para o fogo armados de peas formidaveis e abrigados por invulneravel concha. Os _Merrimac_, os _Monitor_, os _Ram-Tenesse_, os _Weckausen_[45] arremessavam enormes projectis, depois de encouraados contra os projectis alheios. Faziam a outrem o que no queriam que lhes fizessem, que o principio immoral sobre que assenta toda a arte da guerra. Ora se Barbicane fra notavel fundidor de projectis, Nicholl no lhe ficra a dever nada como forjador de chapas para couraas. Fundia um de noite e de dia em Baltimore, forjava o outro de dia e de noite em Philadelphia. Cada um d'elles seguia ordem de idas diametralmente oppostas. Barbicane a inventar nova bala, e Nicholl a inventar nova couraa. Passava o presidente do Gun-Club a vida a abrir buracos, e o capito gastava os dias da existncia a impedir-lh'o. D'aqui nasceu uma rivalidade de todos os instantes, que dos factos foi passando s pessoas. Apparecia Nicholl a Barbicane em sonhos sob frma de impenetravel couraa de encontro qual se ia fazer pedaos, Barbicane apparecia nas vises nocturnas de Nicholl qual projectil que o varava de lado a lado. E comtudo, apesar de caminharem por linhas divergentes, estes homens tinham de encontrar-se um dia, apesar de todos os axiomas da sciencia geometrica; mas havia de ser no terreno do duello. Muito felizmente para cidados to uteis ao seu paiz, separavam-nos boas cincoenta ou sessenta milhas, e os amigos de ambos semearam-lhe o caminho de taes e tantos obstaculos, que nunca conseguiram encontrar-se. L qual dos dois inventores levava a palma ao outro, que ninguem sabia ao certo: os resultados obtidos tornavam difficil apreciar com justia. No fim de contas, o que mais plausivel parecia, que a couraa havia de ser a primeira a ceder bala, e todavia para os competentes ainda era caso de duvida. Por occasio das ultimas experiencias feitas, os projectis cylindro-conicos de Barbicane tinham ido espetar-se como alfinetes nas couraas de Nicholl; n'esse dia reputou-se o forjador de chapas de couraa de Philadelphia plenamente victorioso, e o mais profundo desprezo pareceu-lhe ainda sentimento demasiadamente elevado para pagar os merecimentos do seu rival; mas quando este, algum tempo depois, substituiu por simples obuzes de seiscentas libras as balas conicas, teve o capito que descer do alto pedestal das suas pretenses. E na realidade estes projectis, aindaque animados de mediocre velocidade[46], esmigalharam, esburacaram, fizeram voar em pedaos as chapas de melhor metal. Tinham as cousas chegado a estes pontos, e a todos parecia que a bala devia ficar com a palma da victoria, quando terminou a guerra no mesmo dia em que Nicholl dava a ultima demo a uma nova couraa de ao forjado! No seu genero, era esta verdadeira obra prima, e capaz de desafiar todos os projectis imaginaveis. F-la o capito transportar para o polygono de Washington, e mandou cartel ao presidente do Gun-Club, desafiando-o a var-la. Barbicane, como a paz j estava feita, no quiz tentar a experiencia. Nicholl, ento, furioso, offereceu expor a chapa que inventara ao choque das balas mais inverosimeis, massias, cas, esphericas ou conicas. Recusa do presidente, que decididamente no queria arriscar os louros da ultima victoria que alcanra. Nicholl, ainda mais estimulado por aquella inqualificavel obstinao, quiz tentar Barbicane dando-lhe de partido todas as probabilidades favoraveis, e propoz-lhe collocar a chapa a duzentas jardas de distancia do canho. E Barbicane a teimar na recusa. A cem jardas? Nem a setenta e cinco. Pois ento a cincoenta, clamou o capito pela voz dos jornaes, ou a vinte e cinco jardas, e ponho-me eu por detrs da minha couraa! Barbicane mandou responder que no atiraria, nem que o capito Nicholl se pozesse diante em vez de se pr de trs. Ao ler esta ultima replica no pde Nicholl conter-se mais, e arrastou a discusso para o campo das personalidades, insinuando que a cobardia era cousa indivisivel, e que o homem que se recusa a disparar um tiro de canho no est muito longe de ter-lhe medo, que em summa esses artilheiros que nos tempos de agora se batem a seis milhas de distancia substituiam prudentemente a coragem individual por formulas de mathematicas, e que no fim de contas tanta coragem havia em esperar placidamente uma bala detrs de uma couraa; como em arremessa-la com todas as regras da arte. Nem palavra respondeu Barbicane a taes insinuaes; talvez mesmo nem d'ellas tivesse conhecimento, que lhe absorviam por ento todas as foras do espirito os calculos previos do seu grande projecto. Quando Barbicane realisou a famosa communicao ao Gun-Club, que a raiva do capito Nicholl chegou ao paroxysmo. Referviam-lhe com ella n'alma um ciume immenso e um sentimento de impotencia absoluta! Que havia de inventar que fosse superior quella columbiada de novecentos ps! Qual havia de ser a couraa capaz de resistir a um projectil de trinta mil libras! Nos primeiros momentos ficou Nicholl aterrado, aniquilado, esmigalhado por aquelle tiro de canho; mas depois levantou-se, e resolveu esmagar a proposta debaixo do peso da sua argumentao. Combateu por consequencia com grande violencia os trabalhos do Gun-Club; publicou grande numero de cartas, de que os jornaes no recusaram a reproduco. Tentou demolir scientificamente a obra de Barbicane, e uma vez iniciada a guerra, serviu-se de toda a casta de argumentos, que, fora dize-lo, foram as mais das vezes especiosos e de baixo quilate. O ataque a Barbicane comeou, e com summa violencia, pelas questes de algarismos; Nicholl tentou demonstrar por A+B que eram falsas as formulas de que se servia o presidente, e accusou-o de ignorar os principios rudimentares da balistica. Entre outros erros de que lhe fazia cargo, apontava-lhe a impossibilidade, demonstrada, segundo os calculos d'elle Nicholl, de imprimir a um corpo qualquer a velocidade de doze mil jardas por segundo; sustentou com a algebra em punho, que ainda mesmo animado d'essa velocidade, nunca projectil de peso tal havia de ir alem dos limites da atmosphera terrestre! Nem sequer oito leguas havia de percorrer! Ainda mais. Dado, mas no concedido que se podesse conseguir tal velocidade, e ainda reputada esta sufficiente, nem o obuz poderia resistir presso dos gazes, que se haviam de desenvolver pela inflammao de um milho e seiscentas mil libras de polvora, nem que resistisse a essa presso poderia supportar temperatura de tal ordem. Havia sim de derreter-se ao sair da columbiada, e cair em chuva de fogo por sobre os craneos dos imprudentes espectadores. Barbicane nem deu mostras de perceber o ataque, e proseguiu na obra encetada. [Figura: Foi necessario pr sentinellas vista aos deputados (pag. 103).] Nicholl ento discutiu o assumpto por outra ordem de consideraes; no fallando j na provada inutilidade da experiencia sob todos os respeitos, considerou-a como extremamente perigosa, quer para os cidados que viessem auctorisar com a sua presena to condemnavel espectaculo, quer para as cidades que ficassem proximas do deploravel canho; fez tambem notar que se o projectil no alcanasse o alvo, o contrario do que era alis absolutamente impossivel, evidentemente havia de cair na Terra, e que a quda de uma massa d'aquella ordem, multiplicada pelo quadrado da respectiva velocidade, viria a pr em grave risco um qualquer ponto do globo: em concluso que, em circumstancias taes, casos havia em que, sem atacar nem de leve os direitos dos cidados livres, se tornava necessaria a interveno do governo, poisque se no devia pr em risco a segurana de todos por dar satisfao aos caprichos de um s. [Figura: Abriram-se as subscripes (pag. 108).] Do que deixmos dito se deprehende qual o grau de exagerao a que se deixra arrastar o capito Nicholl. Da opinio que professava era o capito sectario unico, e por conseguinte ninguem lhe ligou importancia s agourentas prophecias. Deixaram-no gritar vontade, e que seccasse os bofes, j que o levava em gosto. Fizera-se o capito defensor de uma causa de antemo perdida: ouviam-no, mas ninguem o escutava, e nem um s admirador pde arrancar ao presidente do Gun-Club. Este nem se deu ao trabalho de refutar os argumentos do adversario. Nicholl, mettido n'este beco sem sada, e sem poder ao menos arriscar o corpo em prol da causa que defendia, resolveu arriscar ao menos o dinheiro. Em consequencia propoz publicamente no _Enquirer_ de Richmond uma serie de apostas em proporo ascendente, cujo quadro o seguinte: Apostava o capito: 1.^o Que no chegariam a realisar-se fundos sufficientes para levar a effeito o emprehendimento do Gun-Club 1:000 dollars 2.^o Que a operao de fundir um canho de novecentos ps de comprimento era impraticavel e no podia ter bom exito 2:000 dollars 3.^o Que havia de ser impossivel carregar a columbiada, e que o pyroxylo se havia de inflammar por si proprio s pela presso do projectil 3:000 dollars 4.^o Que a columbiada havia de rebentar ao primeiro tiro 4:000 dollars 5.^o Que a bala no havia de percorrer nem seis milhas de trajectoria, e tornaria a cair na Terra alguns segundos depois de disparado o tiro 5:000 dollars Por aqui se v que importante somma arriscava o capito, s por sustentar a sua invencivel teimosia. Eram nada menos de quinze mil dollars[47]. Apesar da importancia da aposta, recebeu o capito no dia 19 de maio um bilhete lacrado, concebido nos termos de soberbo laconismo que se seguem: Baltimore, 18 de outubro.--Acceito.--_Barbicane_. CAPITULO XI A FLRIDA E O TEXAS Entretanto estava ainda uma questo por decidir; faltava escolher logar propicio para fazer a experiencia. Segundo as recommendaes do observatorio de Cambridge, devia o tiro ser dirigido perpendicularmente ao plano do horisonte, isto , para o zenith; e visto como a Lua no chega ao zenith seno dos logares terrestres situados entre 0^o e 28^o de latitude, ou, por outras palavras, como a declinao lunar maxima apenas de 28^o[48], estava o problema reduzido a determinar exactamente o ponto do globo onde deveria ser fundida a immensa columbiada. No dia 20 de outubro estava reunido o Gun-Club em sesso magna, e Barbicane levra comsigo um magnifico mappa dos Estados Unidos, de Z. Belltropp. Porm J.-T. Maston, sem lhe dar tempo nem para o desenrolar, pediu a palavra com a sua vehemencia habitual, e encetou o debate nos seguintes termos: Honrados collegas, o assumpto que vae hoje aqui ser discutido tem uma importancia verdadeiramente nacional, e vae offerecer-nos occasio de praticarmos um grande acto de patriotismo. Os socios do Gun-Club olharam uns para os outros, sem que ninguem lograsse attingir o ponto de mira do orador. Nenhum de vs, proseguiu este, pensa sequer em transigir em cousa que diga respeito gloria do seu paiz, e se algum direito ha que a Unio possa com justia reivindicar, por certo o de conter em seus flancos o formidavel canho do Gun-Club. Ora, nas circumstancias actuaes... --Caro Maston, interrompeu o presidente. Permitti-me que desenvolva o meu pensamento, proseguiu o orador. Nas circumstancias actuaes somos forados a escolher um logar terrestre sufficientemente proximo do equador, para que a experiencia seja feita em boas condies... --Se me daes licena, tornou Barbicane. --Peo livre discusso das idas de cada um, replicou o effervescente J.-T. Maston, e sustento que o territorio d'onde ha de partir o nosso glorioso projectil deve ser parte integrante da Unio americana. --Isso no tem a menor duvida! responderam alguns socios. --Pois bem! J que nossas fronteiras no so bastantemente amplas, j que pela parte do sul o Oceano nos oppe insuperavel obstaculo, j que nos foroso ir alem dos Estados Unidos e a um paiz limitrophe buscar esse vigesimo oitavo parallelo, considero o facto como um legitimo _casus belli_, e proponho que se declare guerra ao Mexico! --Nada! isso no! exclamaram de todos os lados. --No! replicou J.-T. Maston. essa uma palavra que pasmo de ouvir n'este recinto! --Mas attendei!... --Nunca! No tenho que attender! exclamou o fogoso orador. Mais tarde ou mais cedo ha de vir a realisar-se essa guerra, e o que vos proponho que rebente hoje mesmo. --Maston, disse Barbicane, forando a atteno do orador pela ruidosa detonao da campainha presidencial, retiro-vos a palavra! Maston ainda queria replicar, mas alguns dos collegas conseguiram conte-lo. Concordo, disse Barbicane, em que a experiencia no pde nem deve ser tentada seno em terras da Unio; mas se o meu impaciente amigo me tivera deixado fallar, se tivera sequer volvido os olhos para um mappa, saberia que perfeitamente inutil declarar guerra aos vizinhos, visto como algumas das fronteiras dos Estados Unidos se estendem alem do parallelo vigesimo oitavo. Seno vejam: temos ao nosso dispor toda a parte meridional do Texas e das Floridas. Terminou por aqui o incidente; mas no foi sem custo que J.-T. Maston se deixou convencer. Decidiu-se, em consequencia, que a columbiada havia de ser fundida e moldada no solo do Texas ou no da Florida. Porm esta resoluo estava destinada para fazer nascer uma rivalidade sem exemplo entre as cidades d'estes dois estados. O vigesimo oitavo parallelo corta a costa americana pela peninsula da Florida, que divide em duas partes approximadamente iguaes, lana-se depois no golpho do Mexico, e subtende o arco formado pelas costas do Alabama, do Mississipi e da Luiziania. Passa d'ahi ao Texas, do qual corta uma saliencia, e prolonga-se atravs do Mexico, transpe a Sonora, salta por cima da velha California e vae perder-se nos mares do Pacifico. No havia pois seno as pores da Florida e do Texas, situadas ao sul d'esse parallelo, que estivessem nas condies de latitude recommendadas pelo observatorio de Cambridge. Na parte meridional da Florida no se encontram cidades de importancia, e s por ali pullulam fortalezas levantadas para servir de defeza contra os indios nomadas. S uma cidade, Tampa-Town, podia reclamar em favor da sua situao na lide e apresentar-se com alguns direitos a ser attendida. Pelo contrario, no Texas so mais numerosas e mais importantes as cidades. Corpus-Christi no _condado_ de Nucces, e todas as cidades situadas no Rio Bravo, taes como Laredo, Comalites e Santo Ignacio; no Web, taes como Roma e Rio Grande City; no Stow, taes como Edimburgo; no Hidalgo, Santa Rita, El Panda e Brownsville e as do Camron formaram uma liga imponente contra as pretenses da Florida. Assim, logo que se tornou publica a resoluo chegaram a Baltimore pela via mais rapida os deputados floridenses e texianos, e a partir d'esse momento o presidente Barbicane e os socios de influencia do Gun-Club viram-se cercados dia e noite de reclamaes formidaveis. Na Grecia foram sete as cidades que disputaram a honra de terem sido bero de Homero; aqui dois Estados inteiros estiveram quasi a chegar s do cabo por causa de um canho. Viram-se ento aquelles ferozes irmos passeiar armados pelas ruas da cidade. E sempre que se encontravam era de temer conflicto, que poderia ter serias consequencias. Mas emfim l estavam a habilidade e a prudencia do presidente Barbicane para conjurar o perigo. s demonstraes pessoaes serviu de derivativo a publicidade dos jornaes dos differentes Estados. Foram sustentaculos da causa do Texas o _New York Herald_ e a _Tribuna_, ao passo que o _Times_ e a _American Review_ tomaram decididamente as partes pelos deputados floridenses. Os socios do Gun-Club que no sabiam a quem haviam de dar ouvidos. Apresentava-se altivo o Texas com seus vinte e seis condados, dispostos a modo de bateria; respondia-lhe a Florida, que para territorio seis vezes menor valem doze condados mais do que vinte e seis. O Texas impava com os seus trezentos e trinta mil indigenas; mas a Florida, que tem menor superficie, jactava-se de poder reputar-se mais povoada com os seus cincoenta e seis mil; e no ficava por aqui: chegava a accusar o Texas de possuir certa especialidade de febres paludosas, que uns annos por outros lhe vinham a custar alguns milhares de habitantes, e o caso que no mentia. O Texas, pela sua parte replicava: que a respeito de febres, nada tinha a Florida que lhe invejar, e que era, pelo menos, imprudente quem chamava aos outros paizes insalubres, tendo a honra de ter em casa o _vomito negro_ no estado chronico. E o caso que o Texas tambem fallava verdade. Demais a mais, accrescentavam os texianos pela via do _New-York Herald_, de alguma considerao credor o estado onde nasce o melhor algodo de toda a America, o estado que produz a melhor madeira de carvalho para construco de navios, o estado que tem nas entranhas dos seus terrenos soberba _hulha_, e minas taes, que o seu producto em ferro de cincoenta por cento do minerio puro. A isto replicava o _American Review_, que o solo da Florida, sem ter alis tantas riquezas, offerecia todavia melhores condies para moldar e fundir a columbiada, visto como era composto de areias e terras argillosas. Porm, tornavam os do Texas, antes de fundir seja l o que for n'um paiz qualquer, preciso l ir; e as communicaes com a Florida so difficeis, entretanto que a costa do Texas tem a bahia de Galveston, que mede quatorze leguas em seu contorno, e que era capaz de alojar a um tempo todas as esquadras do mundo. Pois muito bem! essa ento a via de communicao que apresentaes; a bahia de Galveston, que est situada ao norte do vigesimo nono parallelo? E ns no temos a bahia do Espirito Santo, que se abre precisamente no vigesimo oitavo grau de latitude, e pela qual os navios vo directamente at Tampa-Town? --Bonita bahia! respondia o Texas; meia entupida pelas areias! --Entupidos estaro elles! exclamava a Florida. Cuidam que tratam com algum paiz de selvagens? --Verdade , que os seminolas ainda fazem correrias nas planicies da Florida! --E ento! e os apaches, e os comanches, gente civilisada! Proseguia este dize tu direi eu havia j dias, quando os da Florida tentaram arrastar os adversarios para outro terreno. Uma bella manh o _Times_ insinuou surrateiramente, que como o emprehendimento era essencialmente americano, no podia ser tentado seno em territorio essencialmente americano! --Estas palavras fizeram ir aos ares os do Texas: Americanos! e no o seremos ns com tanto direito como vs outros? Pois o Texas e a Florida no foram ambos encorporados na Unio em 1845? --Ninguem o contesta, respondeu o _Times_, mas ns c sempre pertencemos ao numero dos americanos desde 1820. --Bem sabemos, replicou a _Tribuna_; foram hespanhoes ou inglezes por alguns duzentos annos, e depois foram vendidos aos Estados Unidos por cinco milhes de dollars! --E isso que importa! replicaram os da Florida, acaso motivo que nos faa crar? E a Luiziania no foi comprada a Napoleo em 1803, por dezeseis milhes de dollars!?[49] mesmo uma vergonha! clamaram os deputados de Texas. Atrever-se um miseravel bocado de terra tal como a Florida a querer comparar-se com o Texas, que em vez de se vender conquistou por seus proprios esforos a independencia, que expulsou os mexicanos em 2 de maro de 1836, que se declarou republica federativa depois da victoria alcanada por Samuel Houston nas margens do San-Jacinto sobre as tropas de Sant'Anna! Finalmente, com um paiz que se uniu voluntariamente aos Estados Unidos da America! -- porque tinha medo dos mexicanos! respondeu a Florida. Medo! desde o dia em que escapou tal palavra, na realidade um tanto violenta, a _posio tornou-se_ intoleravel. Era crena geral que haveria carnificina dos dois partidos nas ruas de Baltimore. Julgou-se necessario mandar guardar os deputados com sentinellas vista. O presidente Barbicane que no sabia para onde se havia de virar. Choviam-lhe em casa notas, documentos, cartas prenhes de ameaas. Que soluo havia de adoptar? Em relao ao apropriado do solo, facilidade de communicaes, da rapidez dos transportes, no havia differena nos direitos dos dois estados. s personalidades politicas no havia que attender em assumpto tal. Durava esta hesitao, esta perplexidade ha muito, quando Barbicane tomou a resoluo de cortar de vez o n; fez por conseguinte reunir os collegas e propoz-lhes uma soluo profundamente sensata, como vae ver-se. Reflectindo seriamente, lhes disse, no que acaba de passar-se entre a Florida e o Texas, claro que ho de reproduzir-se as mesmas difficuldades entre as cidades do estado que favorecermos. A rivalidade ha de descer do genero especie, do estado cidade, e ns ficaremos na mesma. Ora o Texas possue onze cidades nas condies requeridas, que ho de disputar entre si a honra do emprehendimento, e se escolhermos alguma d'ellas, vamos forjar por nossas proprias mos novos dissabores, entretanto que a Florida s tem uma. Seja pois a Florida o estado, e Tampa-Town a cidade escolhida! Esta deciso, logoque se deu a publico, foi o ultimo golpe nos deputados do Texas, dos quaes se apossou _indescriptivel furia_, chegando a dirigir provocaes pessoaes aos socios do Gun-Club. No tiveram mais remedio os magistrados de Baltimore, e foi d'elle que usaram, do que fazer apromptar um comboio especial, onde por vontade ou por fora obrigaram a embarcar os do Texas, que largaram assim da cidade com a rapidez de trinta milhas por hora. Porm, apesar da velocidade, com que am levados, ainda lhes sobrou tempo para arremessarem aos adversarios um ultimo e ameaador sarcasmo. Alludindo pequena largura da Florida, estreita peninsula apertada entre dois mares, affirmaram que no havia de resistir ao abalo do tiro, e que havia de despedaar-se com a fora d'elle. Pois deixa-la despedaar! responderam os da Florida com laconismo digno dos tempos antigos. CAPITULO XII URBI ET ORBI Vencidas as difficuldades astronomicas, mechanicas e topographicas, vinha naturalmente a pllo a questo de dinheiro. A realisao do projecto exigia uma despeza enorme. No havia particular nem mesmo estado que podesse dispor s por si de tantos milhes quantos eram necessarios. Tomou portanto o presidente Barbicane a resoluo de fazer do emprehendimento, ainda que americano, um negocio de interesse universal, e de pedir a todos os povos a sua cooperao financeira. Era a um tempo dever e direito de toda a terra intervir nos negocios do seu satellite. A subscripo aberta em Baltimore n'este sentido estendeu-se ao mundo inteiro, _urbi et orbi_. Estava esta subscripo destinada a ter um exito superior a tudo que era de esperar, apesar de se tratar de quantias dadas que no emprestadas. A operao era puramente desinteressada, porque no apresentava nem remota probabilidade de lucro. Porm o effeito da proposta Barbicane, e que no tinha parado nas fronteiras dos Estados Unidos; antes tinha saltado por cima do Atlantico e do Pacifico, para invadir a um tempo a Asia e a Europa, a Africa e a Oceania. Os differentes observatorios da Unio pozeram-se desde logo em communicao immediata com os observatorios do estrangeiro; alguns, como o de Paris, de Petersburgo, do Cabo, de Berlim, de Altona, de Stockholmo, de Varsovia, de Hamburgo, de Buda, de Bolonha, de Malta, de Lisboa, de Benars, de Madrasta, de Pekin dirigiram cumprimentos de felicitao ao Gun-Club; outros conservaram-se em prudente expectativa. [Figura: A fabrica de Goldspring, perto de New York (pag. 112).] O observatorio de Greenwich, esse, com approvao dos outros vinte e dois estabelecimentos similares da Gran-Bretanha, foi claro e terminante; e negou com firmeza a possibilidade de bom exito, seguindo sem hesitao as theorias do capito Nicholl. E n'estes termos, ao passo que muitas sociedades scientificas promettiam at enviar delegados seus a Tampa-Town, o pessoal scientifico do observatorio de Greenwich reunido em sesso, apresentada a proposta Barbicane, passou brutalmente ordem do dia. [Figura: Tampa-Town, antes da operao (pag. 117).] Bello ciume de inglez para americano, nada mais. Em geral, foi excellente o effeito produzido no mundo scientifico, e d'ahi se communicou s massas, que, pela maior parte, se tomaram de paixo pelo assumpto. Facto este de magna importancia, poisque estas mesmas massas iam ser convidadas a subscrever para a realisao de um capital consideravel. No dia 8 de outubro j o presidente Barbicane tinha publicado um manifesto cheio de enthusiasmo, no qual appellava para todos os homens de boa vontade da Terra. Este documento, alis traduzido em todas as linguas, deu optimo resultado. Abriram-se as subscripes parciaes nas principaes cidades da Unio, para serem centralisadas no banco de Baltimore, rua de Baltimore n.^o 9, e depois nos differentes estados dos dois continentes: Em Vienna na casa S.-M. de Rothschild; Em Petersburgo, casa Stieglitz e C.^a; Em Paris, no Credito mobiliario; Em Stockholmo, casa Totie e Arfuredson; Em Londres, casa de N.-M. de Rothschild e filhos; Em Turim, casa Ardouin e C.^a; Em Berlim, casa Mendelsohn; Em Genebra, casa Lombard, Odier e C.^a; Em Constantinopla, no Banco ottomano; Em Bruxellas, casa S. Lambert; Em Madrid, casa Daniel Weisweller; Em Amsterdam, no Credito neerlandez; Em Roma, casa Torlonia e C.^a; Em Lisboa, casa Lecesne; Em Copenhague, no Banco privativo; Em Buenos-Ayres, no banco Mau; No Rio de Janeiro, na mesma casa; Em Montevideo, na mesma casa; Em Valparaizo, casa Thoms La Chambre e C.^a; No Mexico, casa Martin Daran e C.^a; Em Lima, casa Thomaz La Chambre e C.^a Tres dias depois da publicao do manifesto do presidente Barbicane estavam subscriptos nas differentes cidades da Unio, quatro milhes de dollars[50]. Com esta somma, por conta de maior quantia, j o Gun-Club podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos telegraphicos America que as subscripes no estrangeiro eram cobertas com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela generosidade da sua offerta. A outros l custava mais a desapertar os cordes bolsa. Questo de temperamento. Em summa, mais eloquentes so os algarismos que as palavras, e eis a descripo official das sommas que foram escripturadas no activo do Gun-Club, logoque se encerrou a subscripo. A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e oito mil setecentos e trinta e tres rublos[51], e s poder causar espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos, devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais importancia, custou dois milhes de rublos. A Frana comeou por se rir das pretenses dos americanos. Serviu ali a Lua de pretexto a mil calembourgs j estafados, e a algumas dezenas de _vaudevilles_ em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias. Porm os francezes, que j de antiga data trazem o habito de cantar e ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram, subscrevendo com a quantia de um milho e duzentos e cincoenta tres mil novecentos e trinta francos[52]. Por este preo realmente assistia-lhes o direito de se divertirem um bocado. A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuio geral, quantia de duzentos e dezeseis mil florins[53], que bem boa conta fizeram. Cincoenta e dois mil rixdales[54] foi o obolo da Suecia e da Noruega. A cifra j era de considerao em proporo do paiz; porm, maior ainda teria sido, se a subscripo se tivera aberto ao mesmo tempo em Christiania e em Stockholmo. Seja l por que raso for, o caso que os norueguezes no gostam de mandar o seu dinheiro para a Suecia. A Prussia deu testemunho, mandando duzentos e cincoenta mil thalers[55], de que prestava tentativa a sua alta approvao. Os differentes observatorios d'esta nao contribuiram de boa vontade com uma quantia importante, e foram dos que com mais ardor animaram o presidente Barbicane. A Turquia portou-se com generosidade, e no admira porque estava pessoalmente interessada n'aquelle assumpto, visto ser a Lua quem lhe fixa o curso dos mezes e a epocha dos jejuns do Ramadan. Nem lhe ficava bem dar menos de um milho trezentas e setenta e duas mil seiscentas e quarenta piastras[56], que foi o que effectivamente deu, e com ardor tal que parecia at dar a entender que houvera certa presso da parte do governo da Porta. A Belgica distinguiu-se entre todos os estados de segunda ordem por um donativo de quinhentos e treze mil francos[57], proximamente treze centimos[58] por habitante. A Hollanda e suas colonias tomaram parte na operao com cento e dez mil florins[59], mas sempre foram pedindo cinco por cento de desconto, visto pagarem de contado. A Dinamarca, um tanto restricta em extenso territorial sempre rendeu novecentos mil ducados de oiro fino[60], o que prova do amor que os dinamarquezes consagram s expedies scientificas. A Confederao germanica cooperou com trinta e quatro mil duzentos e oitenta e cinco florins[61]; no se lhe podia exigir mais, nem que lh'o exigissem o daria. Apesar dos seus grandes apuros a Italia sempre encontrou nas algibeiras dos seus filhos duzentas mil liras[62], mas foi preciso rebusca-las bem. Se a Italia j estivera de posse do Veneto melhor iria o negocio, mas o caso que ainda no possuia o Veneto. Os Estados da Igreja entenderam no dever mandar menos de sete mil e quarenta escudos romanos[63], e Portugal levou a sua dedicao pela sciencia at trinta mil cruzados. O Mexico, esse deu o obolo da viuva, oitenta e seis piastras fortes[64]; verdade que os imperios, nos primeiros tempos da sua fundao, sempre vivem pouco larga de meios. De duzentos e cincoenta e sete francos[65] foi o auxilio modesto prestado pela Suissa obra americana. Fora dize-lo e francamente, a Suissa no percebia o lado pratico da operao; no se lhe afigurava que o acto de arremessar uma bala Lua fosse preliminar adequado para entabolar relaes commerciaes com o astro das noites, e n'este presupposto pareceu-lhe pouco prudente empenhar capitaes em tentativa to aleatoria. E no fim de contas talvez a Suissa tivesse raso. Em Hespanha que foi impossivel juntar mais de cento e dez reales[66], circumstancia a que serviu de pretexto ter a nao que acabar os seus caminhos de ferro. Mas a verdade que a sciencia no cousa l muito bem vista em tal paiz, que ainda est um tanto atrazado. E demais, havia certos hespanhoes, e no eram dos menos illustrados, que no concebiam com exactido que relao havia entre a massa do projectil comparada com a da Lua, e que temiam que o choque fosse alterar a orbita do astro, perturba-lo no seu papel de satellite, provocando-lhe a quda na superficie do globo terrestre. Em casos taes o melhor era abster-se. E foi o que, com differena de alguns poucos _reales_, fizeram os hespanhoes. Falta a Inglaterra. J dissemos com que desdenhosa antipathia fra ali recebida a proposta Barbicane. Os inglezes tem todos uma s e mesma alma para todos os vinte e cinco milhes de habitantes que povoam a Gran-Bretanha. Limitaram-se a dar a entender que o emprehendimento do Gun-Club era contrario ao principio de no interveno, e nem com um ceitil concorreram. O Gun-Club, quando soube tal nova, deu-se por satisfeito em erguer os hombros, e proseguiu na sua grande tarefa. Logoque a America do Sul, isto , Peru, Chili, Brazil, provincias do Plata, Columbia entregaram a sua quota de trezentos mil dollars[67], ficou o Gun-Club de posse do consideravel capital cujo computo detalhado segue: Dollars Subscripo dos Estados Unidos 4.000:000 Subscripes estrangeiras 1.446:675 --------- Somma 5.446:675 --------- Eram portanto cinco milhes quatrocentos e quarenta e seis mil seiscentos e setenta e cinco dollars[68], que o publico tinha despejado nos cofres do Gun-Club. A ninguem deve causar surpreza a importancia de tal somma. Os trabalhos de fundio e brocagem, obra de pedra e cal, transporte de operarios e installao d'estes n'uma regio quasi deshabitada, construco de fornos e edificios diversos, acquisio de ferramenta para officinas, polvora, projectil e despezas perdidas, deviam, segundo os oramentos feitos, absorve-la quasi por inteiro. Houve tiro na guerra federal que ficou por mil dollars, no era pois de admirar que o do presidente Barbicane, unico nos fastos da artilheria, custasse cinco mil vezes mais. No dia 20 de outubro assignou-se um contrato com a fabrica de fundio de Goldspring, perto de New-York, que, durante a guerra, fra a que melhores canhes de ferro fundido fornecra a Parrott. Estipulou-se entre os outorgantes, que a fabrica de fundio de Goldspring se obrigava a transportar para Tampa-Town, cidade da Florida meridional, todo o material necessario para a fundio da Columbiada. A operao da fundio devia concluir-se, o mais tardar, at ao dia 15 de outubro proximo, e at ao mesmo dia ser entregue o canho e em bom estado, sob pena de multa de cem dollars[69] por dia at aquelle em que a Lua se tornasse a apresentar nas mesmas condies, isto , por tantos dias quantos se contam em dezoito annos e onze dias. O engajamento de operarios, ferias e accommodaes necessarias ficavam por conta da companhia de Goldspring. O contrato, feito em duplicado e _bona fide_, foi assignado por J. Barbicane, na qualidade de presidente do Gun-Club, e por J. Murphison, como director da fabrica de fundio de Goldspring, e cada uma das partes deu plena approvao s estipulaes da escriptura. CAPITULO XIII STONE'S-HILL Desde que se tornra notoria a escolha feita pelos socios do Gun-Club em prejuizo do Texas, toda a gente na America, onde tudo sabe ler, se julgou obrigada a estudar a geographia da Florida. Nunca os livreiros venderam tanto exemplar de _Bartram's travel in Florida_, do _Romans's natural history of East and West Florida_, do _William's territory of Florida_, do _Cleland on the culture of the Sugar-Cane in East Florida_, etc. Tornou-se necessaria a impresso de novas edies. Era um verdadeiro delirio. Barbicane no era homem que se contentasse com leituras, queria ver as cousas com os proprios olhos e escolher em pessoa a collocao da Columbiada. Por consequencia, sem perda de um momento, poz disposio do observatorio de Cambridge os fundos necessarios para a construco de um telescopio, contratou com a casa Broadwill & C.^a de Albany a feitura do projectil de aluminium, e partiu logo de Baltimore acompanhado por J.-T. Maston, pelo major Elphiston e pelo director da fabrica de Goldspring. No dia seguinte chegavam os quatro companheiros de jornada Nova Orleans, onde embarcaram sem demora no _Tampico_, aviso da marinha federal, que o governo puzera disposio d'elles. Aquecidas as fornalhas, em poucos momentos deixaram de enxergar as praias da Luiziania. No foi comprida a viagem; dois dias depois da partida, e tendo percorrido quatrocentas e oitenta milhas[70], chegou o _Tampico_ vista da costa da Florida. Ao passo que o navio se approximava da costa, a apparecendo aos olhos de Barbicane um territorio baixo, chato, com apparencias de pouca fertilidade. Depois de costear uma serie de enseadas abundantes em ostras e lagostas, entrou finalmente o _Tampico_ na bahia do Espirito Santo. Divide-se esta bahia em duas barras estreitas e compridas, a de Tampa e a de Hillisboro, cuja apertada embocadura o steamer passou em poucos momentos. Pouco tempo depois j se destacavam por cima das ondas as baterias rasantes do forte Brooke, e apparecia a cidade de Tampa negligentemente recostada no fundo do pequeno porto natural formado pela foz do rio Hillisboro. N'este logar fundeou o _Tampico_, a 22 de outubro, pelas sete horas da noite; os quatro passageiros desembarcaram immediatamente. Barbicane sentiu que lhe palpitava com violencia o corao quando pisou o solo da Florida. Parecia palpa-lo com os ps, como faz o architecto que pretende experimentar a segurana de um edificio. J.-T. Maston, esse excavava a terra com a ponta do gancho. Senhores, disse ento Barbicane, no temos tempo a perder, j manh havemos de montar a cavallo para fazer um primeiro reconhecimento no paiz. No momento em que Barbicane desembarcava, os tres mil habitantes de Tampa-Town, tinham avanado a sar-lhe ao encontro, honra bem cabida no presidente do Gun-Club, que os favorecra na escolha por elle indicada. Receberam-no com formidaveis acclamaes, mas Barbicane escapou-se a todas aquellas ovaes, e conseguiu metter-se n'um quarto do hotel Franklin, onde no quiz receber pessoa alguma. Decididamente no lhe quadrava o papel de homem celebre. No dia seguinte, 23 de outubro, j lhe curveteavam debaixo das janellas uns pequenos cavallos de raa hespanhola, todos fogo e vigor. Mas no eram quatro seno cincoenta, com outros tantos cavalleiros. Barbicane desceu acompanhado pelos tres companheiros, e admirou-se a principio de se achar rodeado de to numerosa cavalgata. Tambem fez reparo em que cada cavalleiro trazia a sua carabina a tiracolo e pistolas nos coldres. Mas foi logo informado por um moo floridense dos motivos de similhante apparato de fora. Senhor, por causa dos seminlas. --Quaes seminlas? --Os selvagens que percorrem a planicie; foi por isso que julgmos prudente escoltar-vos. --Ora qual! interrompeu J.-T. Maston, conseguindo iar-se por escalada ao dorso do animal que lhe fra destinado. --Emfim, volveu o floridense, sempre mais seguro. --Meus senhores, respondeu Barbicane, agradeo-vos as vossas attenes, e agora a caminho! E o pequeno rancho abalou logo, desapparecendo no meio de nuvens de poeira. Eram cinco da manh, o sol j estava resplandecente e o thermometro marcava 84^o[71]; entretanto as frescas viraes do mar moderavam a ardencia excessiva da temperatura. Barbicane logoque sau de Tampa-Town inclinou para o sul, seguindo a costa com o fim de alcanar o creek[72] de Alifia, que um arroio que vae desaguar na bahia de Hillisboro, doze milhas abaixo de Tampa-Town. Continuaram Barbicane e companheiros seguindo a margem direita, subindo para leste. Dentro em pouco foram-se escondendo por detrs de um accidente do terreno as aguas da bahia, e no viram os viajantes seno campinas da Florida. A Florida pde dividir-se em duas partes: uma ao norte, mais abundante em populao, menos abandonada, tem por capital Tallashassa e possue Pensacola, um dos mais importantes arsenaes maritimos dos Estados Unidos; a outra, encerrada entre a America e o golpho do Mexico, que a estreitam entre suas aguas, apenas uma delgada peninsula corroida pela corrente do Gulf-Stream, lingua de terra como que perdida por entre as ilhas de um pequeno archipelago, e que incessantemente dobram os numerosos navios que buscam o canal de Bahama. como que um posto avanado do golpho das grandes tempestades. [Figura: Tiveram de passar a vau muitos rios (pag. 120).] A superficie da Florida de trinta e oito milhes e trinta e tres mil duzentos e sessenta e sete acres[73], dentro dos quaes se devia escolher um situado para quem do vigesimo oitavo parallelo, e em condies convenientes para a tentativa; por isso Barbicane, ao passo que cavalgava, a examinando com atteno a configurao e a particular distribuio do solo. [Figura: Os trabalhos avanavam regularmente (pag. 129).] A Florida, descoberta por Juan Ponce de Leon em 1512, no domingo de Ramos, deveu a esta circumstancia seu primeiro nome de Paschoa-Florida, encantadora denominao bem mal cabida n'aquellas costas aridas e abrazadas. Mas a algumas milhas da praia, a pouco e pouco mudando a natureza do terreno, e o paiz mostrando-se digno do nome primitivo; o solo era cortado por uma rede de creeks, de rios, de ribeiros, de lagoas e de pequenos lagos; mas logo a campina comeou a elevar-se sensivelmente, e dentro em pouco deixou ver plainos onde se davam admiravelmente todas as produces vegetaes do norte e do meio dia, campos immensos, onde todas as despezas e trabalhos da cultura so feitos pelo sol dos tropicos e pelas aguas retidas no subsolo de argilla, e finalmente prados de ananazes, de inhames, de tabaco, de arroz, de algodo, de canna de assucar, que se estendiam a perder de vista, ostentando com descuidosa prodigalidade immensas riquezas. Barbicane mostrou-se muito satisfeito quando verificou que o terreno se a elevando progressivamente, e como J.-T. Maston o interrogasse a tal respeito: --Meu digno amigo, respondeu, temos interesse de primeira ordem em fundir a Columbiada em terreno alto. --Para estar mais perto da Lua? exclamou o secretario do Gun-Club. --No, respondeu Barbicane sorrindo-se; que valem algumas poucas toezas de mais ou de menos? No por isso, mas porque no centro de terrenos elevados ho de proseguir com maior facilidade os nossos trabalhos: no teremos de lutar com as aguas, circumstancia que nos ha de poupar tubagens compridas e caras, o que objecto de vulto quando se trata de abrir um fosso de novecentos ps de profundidade. --Tendes raso, disse ento o engenheiro Murchison, devemos afastar-nos quanto possivel dos lenoes de agua na direco da brocagem; entretanto se encontrarmos nascentes, no mal sem remedio, ou havemos de esgota-las com machinas, ou desvia-las. caso diverso dos poos artesianos[74], estreitos e escuros, onde verruma, cubo e sonda, toda a ferramenta do perfurador, em summa, trabalha s escuras. Aqui no. Havemos de trabalhar com o cu vista, luz do dia, com o alvio e picareta em punho; e com o auxilio de algumas minas, a tarefa ha de ir andando com rapidez. --Todavia, replicou Barbicane, se pela elevao do solo ou pela natureza do terreno podrmos evitar a luta com as aguas subterraneas, mais rapido e perfeito ha de ser o trabalho: tratemos pois de abrir fosso em terreno situado a algumas centenas de toezas acima do nivel do mar. --Tem raso, senhor Barbicane, e se me no engano, dentro em pouco havemos de achar sitio adequado. --Ai! o que eu queria era ouvir j a primeira enxadada, disse o presidente. --E eu a ultima! exclamou J.-T. Maston. --L havemos de chegar, senhores, e acreditem que a companhia da fabrica Goldspring no ha de ter que pagar-lhe a multa por mora. --Por Santa Barbara! que deveis ter raso! replicou J.-T. Maston; cem dollars por dia at que a Lua volte a estar nas mesmas condies, isto , durante dezoito annos e onze dias, vem a dar, como bem deveis saber, seiscentos e cincoenta e oito mil e cem dollars[75]? --No, senhor, nem o sabemos, respondeu o engenheiro, nem havemos de ter necessidade de que no-lo faam saber. Por volta das dez horas da manh; j o pequeno rancho tinha andado a sua duzia de milhas: s campinas ferteis succedra a regio das florestas. Desenvolviam-se ali com profuso tropical as mais variadas essencias. Eram formadas aquellas quasi impenetraveis florestas de romeiras, laranjeiras, limoeiros, figueiras, oliveiras, damasqueiros, bananeiras, e grandes cepas de vinha, cujos fructos e flores rivalisavam em colorido e perfume. fragrante sombra d'aquellas magnificas arvores cantavam e esvoaavam numerosissimas aves pintadas de brilhantes cres, entre as quaes se distinguiam mais particularmente as garas americanas, cujo ninho deveria ser um guarda-joias para ser digno d'aquellas preciosidades empennadas. J.-T. Maston e o major no podiam ter diante de si to opulenta natureza sem lhe admirar as esplendidas bellezas. Mas o presidente Barbicane que era pouco sensivel a tantas maravilhas, e estava com pressa de proseguir, porque regio to fertil por sua mesma fertilidade lhe desagradava. No era hydroscopo[76], mas apesar d'isso presentia a agua debaixo dos ps, porque debalde procurava signaes de aridez incontestavel. Entretanto am avanando; tiveram de passar a vau alguns rios, e no sem perigo, que os camans de quinze a dezoito ps de comprimento abundam por aquelles logares. J.-T. Maston ameaava-os atrevidamente com a temivel ganchorra, mas no conseguia atemorisar seno pelicanos, narsejas e phaetontes, selvagens habitantes d'aquellas margens. T os grandes flamingos cr de rosa o olhavam com ar de estupidez. Por fim aquelles habitantes das regies humidas tambem foram desapparecendo; j as arvores, menos grossas, appareciam rareadas em matas menos espessas; alguns grupos isolados se destacavam nas infinitas planuras onde perpassavam em manadas os gamos assustados. At que emfim! exclamou Barbicane, levantando-se nos estribos, chegmos regio dos pinheiros. --Que tambem a dos selvagens, respondeu o major. E viam-se na verdade no horisonte alguns seminlas; agitavam-se, corriam de uns para os outros nos rapidos corseis, brandindo compridas lanas ou descarregando as espingardas de detonao surda de que costumam usar. Tambem ficaram-se n'estas demonstraes de hostilidade, sem mais inquietar Barbicane e companheiros. Estes estavam collocados no meio de um plaino pedregoso, local vasto e descoberto, de grande numero de acres de extenso, que o sol inundava com raios abrazadores. Era este plaino formado por uma grande entumescencia de terreno, que parecia offerecer aos socios do Gun-Club todas as condies requeridas para a collocao da Columbiada. Alto! disse Barbicane, parando. Este sitio tem nome c no paiz? --Chama-se Stone's Hill[77], respondeu um dos da Florida. Barbicane, sem dizer mais palavra, apeou-se, pegou dos instrumentos e comeou a determinar a posio com grande preciso; o pequeno rancho reunido em volta d'elle olhava-o em profundo silencio. N'aquelle momento passava o sol pelo meridiano. Barbicane, passados instantes, escreveu rapidamente o resultado da observao que fizera e disse: Este logar est situado a trezentas toezas acima do nivel do mar, a 27^o 7' de latitude e a 5^o 7' de longitude oeste[78]; afigura-se-me que a sua natureza arida e penhascosa apresenta todas as condies favoraveis para a experiencia; ser portanto n'esta planura que havemos de construir armazens, officinas, fornos, cabanas para operarios, e ser d'aqui, d'aqui mesmo, repetiu batendo com o p no vertice de Stone's-Hill, que o nosso projectil ha de alar-se para os espaos do mundo solar! CAPITULO XIV ALVIO E TROLHA N'aquella mesma noite voltava Barbicane e companheiros a Tampa-Town, e o engenheiro Murchison tornava a embarcar no _Tampico_ para Nova Orleans. Tinha de engajar ali um exercito de operarios, e de trazer comsigo, no regresso, a maior parte do material. Os socios do Gun-Club ficaram em Tampa-Town, para organisarem os primeiros trabalhos com o auxilio da gente do paiz. Oito dias depois do da partida, voltava o _Tampico_ bahia do Espirito Santo acompanhado de uma esquadrilha de barcos de vapor. Murchison tinha conseguido angariar mil e quinhentos trabalhadores. Nas tristes epochas da escravido todo o tempo e trabalho que se empregasse em tal empenho teria sido perdido. Porm, desde que a America, terra da liberdade, no conta em seu seio seno homens livres, correm estes onde quer que os chama trabalho bem retribuido. Ora dinheiro que no faltava ao Gun-Club, que offerecia aos seus salariados, alem de uma feria elevada, gratificaes consideraveis e em proporo. O operario engajado para a Florida podia contar, concluida a obra, com um capital depositado em seu nome no banco de Baltimore. Murchison pde portanto, sem mais incommodos, escolher vontade e levantar a bitola no que dizia respeito intelligencia e habilidade dos operarios. de crer que alistasse n'aquella legio do trabalho a flor dos machinistas, fogueiros, fundidores, caleiros, mineiros, tijoleiros e trabalhadores de todos os generos, pretos ou brancos, sem distinco de cores. No dia 31 de outubro, pelas dez horas da manh, desembarcou toda aquella multido nos caes de Tampa-Town; imagine-se que movimento e que actividade haviam de reinar na pequena cidade, cuja populao se elevou ao dobro no espao de um s dia. Tampa-Town havia de lucrar enormemente com a iniciativa do Gun-Club, no tanto com os operarios, que immediatamente foram mandados para Stone's-Hill, como com a affluencia de curiosos que a pouco e pouco foram convergindo de todos os pontos do globo para a peninsula floridense. Nos primeiros dias trabalhou-se na descarga da ferramenta que viera na esquadrilha, assim como machinas, viveres e grande numero de casas de ferro, em peas separadas enumeradas, para se poderem armar. Pela mesma epocha ia Barbicane cravando as primeiras bandeirolas de alinhamento de um caminho de ferro de quinze milhas, destinado a ligar Stone's-Hill com Tampa-Town. So bem conhecidas as condies em que so construidos os caminhos de ferro na America: rodeios a capricho, declives arrojados, obras de arte e parapeitos pem-se de parte, collinas sobem-se de escalada, valles saltam-se, e est feito um caminho de ferro que corre s cegas, sem se importar com linhas rectas; nem custa grandes quantias nem grandes trabalhos; tem s um inconveniente, completa liberdade de descarrilamentos e de saltos. O de Tampa-Town a Stone's-Hill foi uma perfeita bagatella, que nem grande dinheiro nem grande trabalho exigiu para ficar prompto. Quanto ao mais, Barbicane era a alma d'aquelle mundo que surgira sua voz. Era elle quem tudo animava, e a todos communicava a propria vida, enthusiasmo e convico; em toda a parte estava, como se possura condo de ubiquidade, e sempre acompanhado de J.-T. Maston, que desempenhava junto d'elle o papel de mosca zumbideira. Com Barbicane, nem havia obstaculos, nem difficuldades, nem hesitaes; era to mestre nos officios de mineiro, de pedreiro ou de machinista como no de artilheiro; tinha sempre resposta prompta para qualquer pergunta, e resoluo para qualquer problema. Sustentava correspondencia activa com o Gun-Club ou com a fabrica de Goldspring, aguardando-lhe as ordens, no molhe de Hillisboro, o _Tampico_, sempre com as fornalhas accesas e o vapor sob presso, a toda a hora do dia e da noite. Saiu Barbicane no 1.^o de novembro de Tampa-Town com um destacamento de trabalhadores, e j no dia seguinte se erguia em volta de Stone's-Hill uma cidade de casas mechanicas, que cercaram de palissadas, e em poucos dias, em relao a movimento e actividade, parecia uma das grandes cidades da Unio. A vida foi ali regulada disciplinarmente, e deu-se comeo aos trabalhos em perfeita ordem. A natureza do terreno fra j reconhecida por via de sondagens cuidadosamente praticadas, e pde-se dar comeo excavao a 4 de novembro. N'aquelle dia convocou Barbicane para uma reunio todos os chefes de officina, e disse-lhes: Meus amigos, conhecido de vs todos o motivo por que vos reuni n'esta regio selvatica da Florida. Trata-se de fundir um canho de nove ps de diametro interior, com seis ps de espessura de parede, e dezenove ps e meio no revestimento exterior de pedra; em summa, o que necessario excavar, , por consequencia, um poo de diametro de sessenta ps e de novecentos ps de profundidade. Mais. Esta obra momentosa ha de estar concluida dentro de oito mezes; tendes portanto dois milhes quinhentos e quarenta e tres mil e quatrocentos ps cubicos de terreno a extrahir, em duzentos e cincoenta e cinco dias, isto , em numeros redondos, dez mil ps cubicos de desaterro por dia. Esta obra que nem difficuldade poderia dizer-se para mil operarios que trabalhassem sua vontade e com os movimentos perfeitamente desembaraados, ha de ser muito mais ardua no espao relativamente apertado em que tendes de trabalhar. Entretanto, j que tal trabalho tem de fazer-se, feito ha de ser, e conto tanto com a vossa habilidade, como com a vossa coragem. s oito horas da manh deu-se a primeira enxadada no terreno da Florida, e desde aquelle instante nem um s momento esteve ocioso o valente ferro nas mos dos mineiros. Os operarios revezavam-se de seis em seis horas. A operao, aindaque collossal, no ia alem do limite das foras humanas. Bem longe d'isso. Quantos trabalhos ha de mais real difficuldade, e nos quaes necessario combater frente a frente os elementos, em que se tem obtido bom resultado! Restringindo-se a obras analogas, bastar citar o _Poo do padre Joseph_, construido perto do Cairo pelo sulto Saladin, e em tempos em que ainda no havia machinas que centuplicassem a fora humana, poo que alcana at ao nivel do Nilo, a trezentos ps de profundeza! E aquell'outro poo aberto em Coblentz pelo margrave Joo de Bade, que entra seiscentos ps pela terra dentro! Pois bem! em summa, aqui o que havia a fazer? Triplicar essa profundidade, mas em largura decupla, circumstancia que alis tornava mais facil a perfurao! Por estas rases no havia contramestre nem mesmo simples operario que tivesse duvidas cerca do bom exito da operao. Houve uma importante deciso tomada pelo engenheiro Murchison, de accordo com o presidente Barbicane, que permittiu ainda maior rapidez no andamento dos trabalhos. Fra estipulado n'um dos artigos do contrato que a Columbiada havia de ser apertada por arcos de ferro forjado e batido quente. Era luxo de precaues inuteis, porque o colossal machinismo podia evidentemente dispensar os taes anneis compressores. Desistiu-se portanto de tal clausula, e d'ahi veiu grande economia de tempo, porque se tornou ento possivel empregar o novo systema de excavao, j agora adoptado na construco de todos os pos, e por meio do qual se vae fazendo a obra de pedra e cal simultaneamente com a brocagem. Graas a este processo extremamente simples, j no necessario aguentar as terras com estroncas; a parede construida que as aguenta com resistencia inabalavel, e que ao mesmo tempo vae descendo pelo proprio peso. Esta manobra no devia comear seno quando o alvio tivesse chegado parte solida do terreno. A 4 de novembro, cincoenta operarios excavaram mesmo no centro do recinto da estacada, isto , na parte mais alta de Stone's-Hill, uma abertura circular de sessenta ps de diametro. A primeira camada que encontrou o alvio era uma especie de terra vegetal preta, e tinha seis pollegadas de espessura. Seguiram-se uns dois ps de areia fina, que se guardou com cuidado, porque tinha de servir para a feitura do molde interno. Depois da areia appareceu argilla branca, bastante compacta, similhante aos marnes de Inglaterra, acamada na espessura de quatro ps. Faiscou por fim o ferro das picaretas de encontro camada dura do terreno, especie de rocha composta de conchas petrificadas, muito secca, muito solida e ultima que at a final o ferro encontrou. N'estas alturas tinha a abertura seis ps e meio de fundo, e deu-se comeo obra de pedra e cal. Construiu-se no fundo da excavao uma _roda_ de madeira de carvalho, especie de disco bem cavilhado e de solidez a toda a prova; era furada no centro, e a abertura tinha diametro igual ao diametro exterior da Columbiada. Em cima d'esta roda que vieram assentar as primeiras bases da obra de pedra e cal, cujas pedras estavam ligadas com inflexivel tenacidade por cimento hydraulico. Feito o revestimento interno, da circumferencia para o centro, ficaram os operarios encerrados n'um poo de vinte e um ps de largura. Acabada esta parte da obra, volveram os mineiros picareta e alvio. Comearam a atacar a rocha mesmo por baixo da roda, com o cuidado de a ir sempre aguentando em _tins_[79] extremamente resistentes. Sempre que o buraco alcanava mais dois ps, tiravam-se successivamente os _tins_; descia a roda a pouco e pouco e em cima d'ella o massio annular de pedra e cal, na camada superior do qual trabalhavam sem descanso os pedreiros, deixando regularmente distribuidos respiradouros por onde haviam de sar os gazes durante a operao da fundio. [Figura: A fundio (pag. 137).] Aquelle genero de trabalho exigia da parte dos operarios extrema habilidade e constante atteno; mais de um foi gravemente e at mortalmente ferido pelos estilhaos de pedra, mas nem por isso affrouxou a actividade um s instante, quer de dia quer de noite: de dia, luz do sol que, mezes depois, irradiava noventa e nove graus[80] de calor por sobre aquellas calcinadas planuras; de noite, ao claro de jactos de luz electrica. [Figura: Tampa-Town depois da operao (pag. 141).] O ruido da picareta batendo na rocha viva, as detonaes das minas, o estridor das machinas, os turbilhes de fumo espalhados no ar, envolviam ento Stone's-Hill n'um circulo tal de terror, que nem manadas de bufalos, nem destacamentos de seminolas se atreveram a transpo-lo. Entretanto iam proseguindo os trabalhos com toda a regularidade, e os guindastes a vapor tornavam rapida a safa do aterro e entulho; obstaculos inesperados poucos, e das difficuldades previstas todos se foram sando com habilidade. Decorrido o primeiro mez tinha o poo chegado profundidade de antemo calculada em proporo do praso, isto , a cento e doze ps. Em dezembro era duplicada e em janeiro triplicada a altura. No decurso do mez de fevereiro tiveram os trabalhadores que lutar com um lenol de agua que surdiu atravs da crusta de terra. Foi necessario recorrer a poderosas bombas e a apparelhos de ar comprimido para estancar as aguas e poder assim betumar o orificio das nascentes, como quem veda a abertura por onde um navio faz agua. Por fim sempre conseguiram vencer-se as malditas correntes. No entretanto, em virtude da pouca consistencia do terreno, a roda cedeu em parte e houve um desabamento parcial. Imagine-se qual seria a espantosa impulso d'aquelle disco de pedra e cal de setenta e cinco toezas de altura! O accidente custou a vida de alguns operarios. Tiveram de se perder tres semanas a escorar e concertar o revestimento de pedra e a tornar a pr a roda nas condies de solidez primitiva. Mas, graas habilidade do engenheiro e potencia das machinas empregadas, volveu ao prumo a edificao, por momentos em risco, e os trabalhos de perfurao continuaram. Nenhum outro incidente interrompeu o andamento regular da obra, e a 10 de junho, vinte dias antes de expirarem os prasos fixados por Barbicane, tinha o poo, completamente revestido do seu paramento de pedras, attingido a altura de novecentos ps. No fundo assentava a obra de pedra e cal n'um cubo massio de trinta ps de espessura; no limite superior vinha nivelar com o terreno. Barbicane e os socios do Gun-Club felicitaram cordialmente o engenheiro Murchison; aquelle trabalho de cyclopes fra realmente concluido em extraordinarias condies de brevidade. No decurso dos oito mezes que levou a obra no deixra Barbicane um s instante Stone's-Hill; seguindo sempre de perto as obras de perfurao, no lhe dava menos constante cuidado o bem-estar e a saude dos operarios. To feliz que conseguiu evitar as epidemias que so vulgares nas grandes agglomeraes de homens e to fataes em regies, como aquella, expostas a todos os influxos do tropico. Verdade que muito operario pagou com a vida as imprudencias inherentes a to arriscados trabalhos; mas desgraas d'essa ordem, alis lamentaveis, no possivel evita-las, so pormenores com que pouco se preoccupam os americanos. Mais cuidado lhes d a humanidade em geral do que cada individuo em particular. Barbicane, todavia, professava, por excepo, doutrinas contrarias, a que em todas as occasies dava applicao. E por esta raso, graas aos cuidados d'elle, intelligencia que demonstrou e interveno que tinha em todos os casos difficeis, prodigiosa e caritativa sagacidade que soube desenvolver, a media das catastrophes no excedeu o que costuma succeder nos paizes d'aquem mar, ainda nos que so citados pelo luxo de precaues, em Frana, por exemplo, em que se conta, termo medio, com um accidente por cada duzentos mil francos de obras. CAPITULO XV A FESTA DA FUNDIO No decurso dos oito mezes que levou a operao da perfurao, tinham-se simultaneamente, e com grande rapidez, realisado os trabalhos preparatorios da fundio; bem surprehendido ficaria qualquer forasteiro, que por aquella occasio viesse a Stone's-Hill, com o espectaculo que se lhe havia de apresentar diante dos olhos. Em disposio circular, em torno do poo como centro, e a seiscentas jardas d'elle, erguiam-se mil e duzentos fornos de reverberao, cada um de seis ps de largura, e separados uns dos outros por um intervallo de meia toeza. A linha, que contornava os mil e duzentos fornos, tinha duas milhas[81] de comprimento. Eram todos construidos pelo mesmo modelo, de chamin alta e quadrangular, e produziam effeito extremamente singular. J.-T. Maston achava soberba aquella disposio architectonica, que lhe trazia lembrana os monumentos de Washington. Para esse que no havia nada mais bello, nem mesmo na Grecia, onde alis, segundo elle proprio confessava, nunca tinha posto os ps. Deve o leitor estar lembrado que, na terceira sesso da commisso, se decidira que a Columbiada havia de ser de ferro fundido, e em especial de ferro fundido gris. E com raso, porque o ferro em taes circumstancias tem maior tenacidade e ductilidade e mais macio, mais facil de polir e apropriado para todas as operaes de molde, e ainda porque, tratado pelo carvo mineral, de qualidade superior para todas as obras de grande resistencia, taes como canhes, cylindros de machinas a vapor, prensas hydraulicas, etc. Mas raras vezes com uma s fuso se consegue obter ferro fundido bastante homogeneo; na segunda fuso que elle se refina e purifica, abandonando os ultimos depositos terrosos. Por este motivo, j o minerio de ferro, antes de ser expedido para Tampa-Town, fra transformado em carbonato, submettendo-o nos altos fornos de Goldspring ao contacto com carvo e silicium levados a uma elevada temperatura[82]. Depois d'esta primeira operao que o metal foi mandado para Stone's-Hill. Mas como se tratava de cento e trinta e seis milhes de libras de ferro fundido, massa cuja expedio pelos caminhos de ferro havia de ficar excessivamente cara, s o preo do transporte vinha a dobrar o preo do material. Pareceu portanto preferivel fretar navios em New York e carrega-los de ferro fundido em barra; foram necessarias nada menos de sessenta e oito embarcaes de mil toneladas, verdadeira esquadrilha, que a 3 de maio largou das paragens de New York, tomou a via do oceano, prolongou-se com as costas da America, embocou pelo canal de Bahama, dobrou a ponta da Florida e, entrando a 10 do mesmo mez na bahia do Espirito Santo, veiu largar ferro, sem avaria, no porto de Tampa-Town. Ahi se fez a descarga dos navios para os wagons da via ferrea de Stone's-Hill, e pelo meado de janeiro estava toda aquella enorme massa de metal no logar para que fra destinada. Facilmente se concebe que no eram de mais mil e duzentos fornos para liquefazer simultaneamente sessenta mil toneladas de ferro fundido. Cada forno podia conter proximamente quatorze mil libras de metal, e todos tinham sido construidos pelo modelo dos que tinham servido para fundir o canho Rodman, que eram de frma trapesoidal e muito baixos de tecto. A fornalha e a chamin eram nos extremos oppostos do forno, por frma que em toda a extenso d'elle havia a mesma temperatura. As paredes dos fornos eram construidas de tijolo refractario, e encerravam apenas uma grelha para fazer arder o carvo mineral e um crysol chato para collocar as barras de ferro, inclinado por um angulo de vinte e cinco graus para deixar escorrer o metal em fuso para as caldeiras destinadas a recebe-lo; d'estas caldeiras conduziam-no mil e duzentas caleiras convergentes para o poo central. No dia seguinte quelle em que finalisaram as obras de pedra e as de perfurao, fez Barbicane dar comeo construco do molde interno. O caso estava em erguer no centro do poo e na direco do eixo d'elle, um cylindro de novecentos ps de altura e nove de largura, que enchesse exactamente o espao reservado para a alma da Columbiada. Foi este cylindro feito de areia e barro argilloso de mistura com palha e feno. O intervallo que ficava entre o molde interno e o revestimento de pedra e cal havia de preenche-lo o metal fundido, que vinha assim a formar em torno do molde uma parede de seis ps de espessura. Para manter em equilibrio o cylindro, foi necessario refora-lo com gatos de ferro e aguenta-lo de distancia a distancia com espeques chumbados no revestimento interno de pedra, o que no apresentava inconveniente algum, porque, depois da fundio, haviam de ficar os espeques como que perdidos no grosso da massa de metal. Concluiu-se esta operao a 8 de julho, e fixou-se o dia seguinte para a fundio. Que bella ceremonia ha de ser a da festa da fundio, disse J.-T. Maston ao amigo Barbicane. --De certo, respondeu Barbicane, mas festa publica que no! --Como assim! pois no haveis de mandar abrir as portas d'este recinto a quem quer que venha? --D'essa me livrarei eu, Maston; a fundio da Columbiada operao delicada, por no dizer perigosa, e prefiro realisa-la porta fechada. Quando o projectil largar, quantas festas quizerem, at l nada. E o presidente tinha raso; a operao podia apresentar perigos imprevistos, a que uma grande affluencia de espectadores estorvaria de occorrer. Era mister conservar inteira liberdade de movimentos. Por consequencia a ninguem se deu entrada no recinto, excepto a uma delegao dos socios do Gun-Club que, expressamente para assistir festa, fizera jornada at Tampa-Town. Figuravam n'ella, entre outros, o fogoso Bilsby, Tom Hunter, coronel Blomsberry, major Elphiston, general Morgan e _tutti quanti_, tomavam a fundio da Columbiada como negocio seu pessoal. J.-T. Maston tinha-se feito cicerone d'estes, e no lhes perdoou nem o mais insignificante dos pormenores; levou-os a toda a parte: aos armazens, s officinas, por entre as machinas, e at os obrigou a fazer visita aos mil e duzentos fornos um por um. Quando chegaram a mil e duzentos j no tinham alma para mais. A fundio estava fixada para o meio dia em ponto, e j de vespera ficra cada forno carregado com cento e quatorze mil libras de metal em barras dispostas em pilhas encruzadas, para que o ar quente podesse circular em liberdade por entre ellas. Desde pela manh que as mil e duzentas chamins arrojavam para a atmosphera torrentes de chammas, e que o solo era agitado por surdas trepidaes. Havia a queimar tantas libras de hulha, quantas eram as libras de metal que se am derreter. Eram portanto sessenta e oito mil toneladas de carvo que arremessavam por diante do disco solar um espesso vu de fumo negro. Dentro em pouco tornou-se o calor intoleravel dentro do circulo dos fornos, cujos roncos pareciam troves; a tudo isto vinha juntar-se o soprar continuo de potentes ventiladores que saturavam de oxygenio todos aquelles focos incandescentes. Dependia essencialmente o bom exito da operao da rapidez. A um signal dado por um tiro de pea deviam todos os fornos simultaneamente dar sada ao metal em fuso e vasarem-se completamente. Tomadas estas disposies, esperavam, tanto os chefes como os operarios, com impaciencia misturada de boa dse de emoo, o instante prefixado. J no estava mais ninguem no recinto, e todos os contra-mestres fundidores estavam a postos, cada um junto a uma das aberturas por onde o ferro em fuso havia de entrar no molde. Barbicane e os collegas assistiam operao situados n'uma eminencia proxima. Diante d'elles estava uma pea de artilheria prompta a dar fogo ao primeiro signal dado pelo engenheiro. Alguns minutos antes do meio dia comearam a correr as primeiras gotas de metal, encheram-se pouco e pouco as caldeiras, e quando o metal chegou a completa liquefaco, deixaram-no assentar por alguns instantes para facilitar a separao das substancias estranhas. Soou meio dia, e no mesmo instante ribombou o canho arremessando pelos ares o fulvo relampago. Abriram-se a um tempo as mil e duzentas aberturas, e alastraram-se na direco do poo central mil e duzentas serpes de fogo, desenrolando-se em anneis incandescentes. Ali foram precipitar-se com temeroso estrepito, na profundidade de novecentos ps. O espectaculo era magnifico e para impressionar. Tremia a terra, e aquelle mar de metal em fuso arrojando ao cu turbilhes de fumo, ao mesmo tempo volatilisava a humidade do molde e a expellia pelos respiradouros do revestimento de pedra, sob a frma de impenetraveis vapores. Desenrolavam-se aquellas nuvens artificiaes em espiraes espessas e erguiam-se para o zenith at quinhentas toezas de altura. Algum selvagem errante para alem dos limites do horisonte podia crer que se estava formando alguma nova cratra nos seios da terra floridense, e comtudo nem era aquillo erupo, nem tromba, nem tempestade, nem luta de elementos, nem nenhum dos phenomenos terriveis que s a natureza capaz de produzir! No! O homem que tinha dado o ser quelles avermelhados vapores, quellas chammas gigantescas e dignas de qualquer vulco, quellas oscillaes estrondosas similhantes ao sacudir dos tremores de terra, quelles mugidos rivaes dos furaces e das tempestades, e a mo do homem que precipitra um Niagara inteiro de metal em fuso n'um abysmo tambem por mos humanas cavado. CAPITULO XVI A COLUMBIADA E teria tido feliz resultado a operao da fundio? O caso s podia apreciar-se por conjecturas. Entretanto tudo levava a crer que o resultado fra bom, visto como o molde absorvra a massa inteira do metal fundido nos fornos. Fosse l como fosse, por muito tempo havia de ser impossivel verificar a cousa directamente. Effectivamente, quando o major Rodman fundiu o seu canho de cento e sessenta mil libras de peso, nada menos de quinze dias levou o metal a arrefecer. Quanto tempo ento haveria de furtar-se s vistas de seus admiradores, coroada de turbilhes de fumo e defendida pelo seu intenso calor, a Columbiada monstro? Era cousa difficil calcula-lo. Durante esse lapso de tempo passou por uma prova real a paciencia dos socios do Gun-Club. Mas no havia outro remedio. J.-T. Maston ia ficando assado por excesso de dedicao. Quinze dias depois da fundio ainda se erguia para o cu immenso pennacho de fumo, e ainda o cho queimava os ps n'um raio de duzentos passos em volta do cume de Stone's-Hill. Passaram-se dias e dias, decorreram semanas e semanas. No havia meio de arrefecer o immenso cylindro; era at impossivel approximar-se d'elle. Era fora esperar, e os socios do Gun-Club mordiam-se de impacientes. Estamos j a 10 de agosto, disse uma bella manh J.-T. Maston. Temos apenas quatro mezes d'aqui at 1 de dezembro! Sacar o molde interno, calibrar a alma da pea, carregar a Columbiada, tudo est por fazer! Nada, j no temos tempo para nos apromptar! Nem ainda a gente se pde approximar do canho! Pois elle nunca ha de acabar de arrefecer. Isso que era uma caoada cruel! Tentavam todos, mas debalde, moderar o impaciente secretario; s Barbicane no dizia palavra, mas o silencio d'este occultava surda irritao. Ver-se absolutamente detido por um obstaculo que s o tempo podia vencer, e ento o tempo, que implacavel inimigo em taes circumstancias, e estar discrio do inimigo, que era to duro para aquella gente bellicosa. Entretanto as observaes quotidianas denunciavam certa mudana no estado do solo. Por volta de 15 de agosto tinham diminuido notavelmente em intensidade e espessura os vapores projectados para o cu. Dias depois j o terreno exhalava apenas ligeira fumaa, ultimo alento do monstro encerrado no seu tumulo de pedra. Pouco e pouco vieram a diminuir as oscillaes do solo, e o circulo de calorico estreitou-se; approximaram-se os espectadores mais impacientes; n'um dia conseguiram avanar duas toezas, no seguinte quatro, e, a 23 de agosto Barbicane, os collegas e o engenheiro, poderam finalmente tomar logar mesmo em cima do jacto solidificado de ferro fundido que nivelava com o vertice de Stone's-Hill, logar seguramente muito hygienico, porque no era possivel ter l os ps frios. At que emfim! exclamou o presidente do Gun-Club, soltando immenso suspiro de satisfao. Recomearam os trabalhos no mesmo dia. Tratou-se immediatamente de extrahir o molde interno para desembaraar a alma da pea; alvio, picareta e ferramenta de brocar, tudo trabalhou sem descanso; o barro argilloso e a areia tinham adquirido extrema consistencia sob a aco do calor; mas com auxilio de machinas, conseguiu-se vencer aquelle mixto ainda inflammado pelo contacto das paredes de ferro fundido; o material extrahido safaram-n'o com rapidez carros movidos a vapor, e tanto fizeram, tanto ardor houve no trabalho, Barbicane apertou tanto com os trabalhadores, e to fortes argumentos empregou, sob frma de dollars, que, a 3 de setembro, tinha desapparecido o ultimo vestigio de molde. Comeou desde logo a operao da calibragem; installaram-se sem demora os machinismos adequados que faziam mover com rapidez potentes brocas de polir, cujo gume cortante mordia nas rugosidades do ferro fundido. Poucas semanas depois estava exactamente cylindrica a superficie interna do tubo, e a alma da pea perfeitamente polida. [Figura: Festim na Columbiada (pag. 146).] Finalmente, no dia 22 de setembro, menos de um anno depois da communicao Barbicane, o enorme machinismo, rigorosamente calibrado, n'uma exactissima posio vertical verificada por via de instrumentos delicados, ficou prompto para funccionar. Faltava s esperar pela Lua, mas essa certo era que no havia de falhar ao ajustado encontro. [Figura: O presidente Barbicane sua janella (pag. 151).] A alegria de J.-T. Maston no tinha limites; esteve at por pouco a dar uma horrorosa quda, quando intentava penetrar com a vista a profundidade do tubo de novecentos ps. Se no lhe acudra Blomsberry com o brao direito, que o digno coronel por fortuna conservra, o secretario do Gun-Club teria, qual novo Erostrato, encontrado a morte nas profundezas da Columbiada. Estava pois terminado o canho; nem j era permittido ter duvidas cerca de sua perfeita execuo; n'estes termos, a 6 de outubro, o capito Nicholl, com vontade ou sem ella, desempenhou-se para com o presidente Barbicane, e este inscreveu no seu livro de contas e na columna das receitas, a quantia de dois mil dollars. Devemos suppor que a furia do capito chegou ao ultimo extremo. No entretanto havia ainda ajustadas mais tres apostas de tres, quatro e cinco mil dollars, e comtantoque o capito ganhasse duas fazia negocio, que sem ser j excellente, ainda no era de todo mau. Porm o dinheiro nem sequer lhe entrava nos calculos; o bom exito obtido pelo rival que conseguira fundir um canho, a que nem chapas de dez toezas de espessura poderiam resistir, que fra para Nicholl terrivel golpe. Desde 23 de setembro que se tornra francamente accessivel ao publico o recinto de Stone's-Hill. Qual foi a affluencia de vizitantes facilmente se comprehender. E na realidade, convergia de todos os pontos dos Estados Unidos para a Florida uma quantidade de curiosos sem conta. A cidade de Tampa tinha augmentado prodigiosamente no decurso d'aquelle anno inteiramente consagrado s obras do Gun-Club, e contava ento cento e cincoenta mil almas. A cidade que comera por entrelaar o forte Brooke n'uma rede de ruas, estendia-se agora por sobre a lingueta de terra que separa os dois molhes da bahia do Espirito Santo; bairros novos, novas praas, uma floresta inteira de casas tinham como que brotado d'aquellas praias ainda ha pouco desertas, pela intensidade do calor do sol americano. Organisaram-se companhias para construir igrejas, escolas e habitaes particulares, e em menos de um anno estava a cidade dez vezes maior. bem sabido que o yankee nasce commerciante; para onde quer que o arremesse o destino, da zona gelida zona torrida, ho de exercer-se-lhe com utilidade os instinctos de negocio. Por esta raso os simples curiosos, a gente que viera Florida com o unico fito de seguir as operaes do Gun-Club, deixou-se arrastar para operaes commerciaes logoque se achou installada em Tampa. Os navios fretados para transportar o material e os operarios tambem tinham trazido ao porto um grau de actividade sem igual, e dentro em pouco muitos outros navios de todas as frmas e tonelagens sulcaram a bahia e os dois molhes; estabeleceram-se vastos estabelecimentos de armador e escriptorios de corretor de navios, e a _Shipping-Gazete_ registava todos os dias novas embarcaes entradas no porto de Tampa. Ao passo que se iam multiplicando as estradas em torno da cidade, mereceu esta a final ser ligada por via ferrea aos Estados meridionaes da Unio, em considerao ao prodigioso augmento que se realisra na sua populao e commercio. Assentou-se um railway entre a Mabile e Pensacola, o maior arsenal maritimo do sul; e em seguida d'este ponto importante para Tallahassee. D'ali j estava construido um pequeno ramal de via ferrea de vinte e uma milhas de comprimento, que punha em communicao Tallahassee com Saint-Marks, localidade do littoral. Foi este ramal que se prolongou at Tampa-Town, e que na passagem veiu despertar ou dar vida s regies adormecidas ou mortas da Florida. Tampa, graas quelles milagres da industria, devidos ida que um bello dia despontra n'um cerebro humano, pde assumir com legitimo fundamento ares de grande cidade. Cognominaram-na _Moon-City_[83]. A capital das Floridas que soffreu ecclypse total e visivel de todos os logares do globo. Toda a gente comprehender agora por que fra to grande a rivalidade entre Texas e Florida, e a irritao dos texianos quando viram indeferidas as pretenes que tinham preferencia do Gun-Club. Com previdente sagacidade tinham os do Texas comprehendido quanto qualquer paiz haveria de ganhar com a experiencia tentada por Barbicane, e de que somma de beneficios havia de vir acompanhado um tal tiro de canho. Perdia o Texas com a deciso que o desfavorecra um importante centro de commercio, varios caminhos de ferro e um augmento consideravel de populao. Estas vantagens todas iam parar quella miseravel peninsula floridense, arremessada qual outro maracho entre as ondas do golpho e as vagas do oceano atlantico. Por isso Barbicane partilhava com o general Sant'Anna todas as antipathias dos texianos. Entretanto, apesar de entregue ao furor do commercio e ao ardor da industria, a populao nova de Tampa-Town no esqueceu por frma alguma as interessantes operaes do Gun-Club. Pelo contrario. Tomavam todos calor e paixo pelos pormenores mais infimos da obra, pela mais insignificante enxadada. Era um constante vae-vem entre a cidade e Stone's-Hill, uma procisso, ou para melhor dizer, uma romaria. J podia prever-se que, no dia da experiencia, a agglomerao de espectadores havia de contar-se por milhes, porque j elles de todos os pontos da Terra iam chegando e accumulando-se na estreita peninsula. Emigrava a Europa para a America. Mas, at quelle ponto, fora dize-lo, pouca e mediocre satisfao tivera a curiosidade dos que, em grande numero, am chegando. Muita gente esperava assistir ao espectaculo da fundio e s lhe viu o fumo. Era pouco para olhos to avidos, mas Barbicane no quiz admittir pessoa alguma a presenciar a operao. Em consequencia no faltou quem praguejasse, murmurasse ou por qualquer outra frma mostrasse descontentamento; censuravam o presidente; accusavam-n'o de absolutismo; declaravam finalmente que o procedimento d'elle era pouco americano. a havendo sedio em volta das palissadas de Stone's-Hill. Barbicane, j se sabe, conservou-se inabalavel na resoluo que tomra. Mas desde o momento em que se deu por inteiramente acabada a Columbiada, que no foi possivel conservar por mais tempo porta fechada; e tambem fechar as portas em tal caso, seria prova de m vontade, ou o que ainda cousa peior, imprudencia que iria tornar hostil empreza o sentimento publico. Barbicane mandou portanto abrir as portas do recinto a toda a gente; entretanto inspirado pelo seu espirito pratico, resolveu fazer dinheiro com a curiosidade publica. J no era pouco contemplar a immensa Columbiada, porm descer-lhe s profundezas, isso que se afigurava aos Americanos ser o _non plus ultra_ das felicidades d'este mundo. Nem um s curioso por consequencia deixou de querer experimentar o goso de visitar o interior d'aquelle abysmo de metal. Os espectadores podiam satisfazer a sua curiosidade por meio de apparelhos suspensos de um sarilho a vapor. A cousa fez furor. Mulheres, creanas, velhos, todos tomaram como obrigao penetrar at ao fundo da _alma_ nos mysterios do colossal canho. Fixou-se o preo da descida em cinco dollars por cabea. E apesar de ser preo alto, tal foi a affluencia de visitantes, que metteu nas burras do Gun-Club, no decurso dos dois mezes que antecederam a experiencia, perto de dois milhes e quinhentos mil dollars[84]. Escusado dizer que os primeiros visitantes da Columbiada foram os socios do Gun-Club, vantagem esta justamente reservada para aquella illustre assembla. Realisou-se esta visita solemne no dia 25 de setembro. Desceu ento uma caixa de honra com o presidente Barbicane, J.-T. Maston, major Elphiston, general Morgan, coronel Blomsberry, engenheiro Murchison e outros socios de distinco do celebre Club. Ao todo seriam uns dez. Fazia ainda um calor menos mau no fundo do comprido tubo de metal! Mal se podia respirar! Mas que alegria! que contentamento! Estava mesa posta para dez convivas em cima do massio que aguentava a Columbiada, e o interior d'esta illuminado _a giorno_, por um jacto de luz electrica. Numerosas e delicadas iguarias, que pareciam descer do cu, vieram successivamente collocar-se em frente dos convivas, e correram com profuso os mais finos vinhos de Frana durante o esplendido banquete servido a novecentos ps debaixo da terra. O festim correu extremamente animado e at extremamente ruidoso; cruzavam-se numerosos os _toasts_; bebeu-se em honra do globo terrestre, do seu satellite, do Gun-Club, da Unio, da Lua, de Phoebea, de Diana, de Selne, do astro das noites, e finalmente do pacifico correio feminino do firmamento! Tantos foram os hurrahs, repercutidos em ondas sonoras dentro d'aquelle immenso tubo acustico que chegaram extremidade d'elle qual trovo, e a multido acampada em torno de Stone's Hill, unia-se pelo corao e pelos gritos aos dez convivas soterrados no fundo da gigantesca Columbiada. J.-T. Maston nem j podia ter mo em si; e ponto difficil de averiguar o que que elle fez em maior escala, se gritar e gesticular, se beber e comer. Em todo o caso, o que elle no largava era o logar, nem a troco de um imperio. No, aindaque o canho estivera carregado, escorvado, prompto a dar fogo por instantes, e a arremessa-lo feito em estilhas aos espaos planetarios. CAPITULO XVII UM DESPACHO TELEGRAPHICO Estavam, pde assim dizer-se, concluidas as grandes obras emprehendidas pelo Gun-Club, e no entretanto ainda tinham de decorrer dois mezes antes de chegar o dia em que o projectil havia de largar vo para a Lua. Dois mezes, que impaciencia universal haviam de parecer dois annos! At ento tinham tido reproduco na imprensa diaria at os mais infimos pormenores da operao, e os jornaes eram devorados com olhos avidos e ardentes; mas era de temer que d'ora vante aquelle dividendo de noticias interessantes, distribuido at ento ao publico, diminuisse notavelmente; e todos se assustavam com a ida de no terem j de receber a respectiva quota de emoes quotidianas. Pois nada d'isto succedeu; um incidente, o mais extraordinario, o mais incrivel, o mais inverosimil dos incidentes, veiu de subito fanatisar os espiritos anhelantes, e lanar novamente o mundo inteiro sob a influencia de uma sobrexcitao pungente. Certo dia, 30 de setembro, s tres horas e quarenta e sete minutos da tarde, chegou com direco ao presidente Barbicane um telegramma transmittido pelo cabo submarino immerso entre Valentia (na Irlanda), Terra Nova e a costa americana. O presidente Barbicane rasgou o sobrescripto, leu o despacho, e, apesar da faculdade que tinha em alto grau de dominar-se, empallideceram-lhe os labios, e turvou-se-lhe a vista com a leitura das vinte palavras do telegramma. Eis o texto do tal despacho, que na actualidade figura entre os documentos do archivo do Gun-Club: Frana, Paris, 30 de setembro, s quatro horas da manh--Barbicane, Tampa, Florida, Estados Unidos.--Substituir obuz espherico por projectil cylindro-conico. Partirei dentro. Chego pelo vapor _Atlanta_.--_Miguel Ardan_. CAPITULO XVIII O PASSAGEIRO DO ATLANTA Se aquella nova fulminante, em vez de ter voado pelo fio electrico, tivera chegado simplesmente pelo correio, fechada e lacrada; se os empregados telegraphicos da Frana, da Irlanda, da Terra Nova e da America no estivessem, por necessidade de officio, no segredo do telegrapho, certamente Barbicane nem por um instante teria hesitado. Calava-se no s por prudencia, mas para no desacreditar a propria obra. Era bem possivel que sob a frma de telegramma ali se, encobrisse uma caoada, demais a mais vindo o telegramma de um francez. Por ventura era de crer que houvesse homem bastantemente ousado para conceber sequer o pensamento de uma viagem tal? E, ainda no caso de existir tal homem, no seria porventura um louco, mais no caso de se encerrar n'uma gaiola do que n'uma bala? Porm o texto do telegramma era de certo j conhecido, porque os apparelhos de transmisso electrica so por sua propria natureza pouco discretos, e a proposta de Miguel Ardan corria j seguramente pelos differentes estados da Unio. Consequentemente Barbicane no tinha motivo algum para se calar; portanto reuniu os collegas que estavam em Tampa-Town, e sem dar mostra do que lhe a no pensamento, sem discutir o maior ou menor credito de que o telegramma era merecedor, leu-lhes friamente o laconico texto. impossivel! Inverosimil! Pura chalaa! Mangaram comnosco! Ridiculo! Absurdo! Em poucos minutos ouviu-se ali uma colleco completa de todas as expresses que servem para exprimir duvida, incredulidade ou qualificar a tolice e a loucura, e com acompanhamento de gestos usuaes em taes casos. Todos sorriam, riam, encolhiam os hombros ou desatavam s gargalhadas, cada um segundo a respectiva disposio e genio. J.-T. Maston foi o unico que teve uma sada soberba: E no m ida, no! -- verdade, respondeu o major; mas se permittido ter de vez em quando idas d'essas, s com a condio de nem por sonhos pensar em leva-las execuo. --E porque no? replicou com vivacidade o secretario do Gun-Glub, j prompto para discutir. Mas no quizeram pica-lo mais. Entretanto j o nome de Miguel Ardan corria de bca em bca pela cidade de Tampa. Forasteiros e indigenas olhavam-se, interrogavam-se e mofavam, no do europeu, especie de mytho ou individualidade chimerica, mas de J.-T Maston, que tinha chegado a acreditar na existencia de tal personagem lendario. Quando Barbicane propozera arremessar um projectil Lua todos acharam o emprehendimento natural, praticavel, pura questo de balistica! Mas offerecer-se um ente racional para tomar passagem dentro do projectil e tentar aquella viagem inverosimil, isso l era proposta de phantasia, zombaria, caoada, ou, querendo usar de um termo que tem traduco exacta e precisa na linguagem familiar franceza, _humbug_![85] At noite sem interrupo durou a risota, podendo at affirmar-se que a Unio inteira desatou a um tempo n'uma casquinada de riso inextinguivel, o que alis no est l muito nos habitos de um paiz em que at as emprezas mais claramente impossiveis encontram com facilidade panegyristas, adeptos e partidarios. Todavia a proposta de Miguel Ardan, como succede a toda a ida nova, no deixou de dar que fazer a certos espiritos. A cousa sempre vinha alterar o curso das emoes habituaes. Ninguem pensra em tal! E o incidente por sua mesma estranheza em breve se tornou como que em pesadelo geral. Caso que j n'elle pensavam. Quantas cousas se negam na vespera, e que o dia seguinte vem transformar em realidades! E porque que tal viagem se no havia de vir a fazer mais tarde ou mais cedo? Em todo o caso, o homem que assim queria arriscar a pelle era forosamente doido, e decididamente j que o projecto que sonhra no podia ser tomado a serio, melhor era ter-se calado, do que vir inquietar um povo inteiro com to ridiculos devaneios. Mas, e antes de tudo; acaso tal personagem existia realmente? Magna questo! Aquelle nome de Miguel Ardan j no era inteiramente desconhecido na America! Seno que pertencia a um europeu muito citado por seus ousados emprehendimentos. De mais a mais aquelle telegramma enviado atravez das profundezas do Atlantico, aquella indicao positiva do navio em que o francez dizia ter j tomado passagem, e a da data proxima em que havia de chegar, tudo eram circumstancias que davam proposta certo caracter de verosimilhana. O que todos desejavam era uma soluo clara e positiva que lhes socegasse o espirito. Pouco a pouco reuniram-se em grupos os individuos isolados; os grupos foram-se condensando por influencia da curiosidade, como os atomos se aggregam em virtude da attraco mollecular, e a final vieram a transformar-se em multido compacta, que tomou em direitura morada do presidente Barbicane. Este, desde que chegra o telegramma, no dera por frma alguma a conhecer o que d'elle pensava; deixra correr a opinio de J.-T. Maston, sem manifestar approvao nem censura; estava mettido ao canto, e na ida de esperar pelos acontecimentos, mas com que elle no contava era com a impaciencia publica; por isso viu com olhos de pouca satisfao accumular-se-lhe debaixo das janellas a populao de Tampa. Em breve o foraram a mostrar-se ao publico, mil murmurios e vociferaes. de ver que o presidente tinha todos os deveres e portanto todos os incommodos attributos da celebridade. Logo que Barbicane appareceu reinou silencio na multido e um cidado que tomou a palavra dirigiu-lhe, sem mais rodeios, a seguinte pergunta: O personagem designado no telegramma pelo nome de Miguel Ardan, seguiu ou no viagem para a America? --Meus senhores, respondeu Barbicane, tanto o sei eu como vs outros. --Pois necessario sabe-lo, exclamaram algumas vozes impacientes. --O tempo que nos ha de desenganar, respondeu friamente o presidente. --Ao tempo no assiste direito para conservar um paiz inteiro em suspenso, replicou o orador. E os planos do projectil j se mandaram modificar, como se pede no telegramma? [Figura: Michel Ardan (pag. 154).] --Ainda no, meus senhores; mas, todos tem muita raso, necessario desenganarmo-n'os; o telegrapho foi que causou todas estas emoes, pois seja o telegrapho quem complete as noticias que trouxe. --Ao telegrapho! ao telegrapho! bradou a multido. [Figura: O meeting (pag. 161).] Barbicane desceu de casa, e tomando frente d'aquelle immenso ajuntamento dirigiu-se para a repartio da administrao dos telegraphos. Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos corretores de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta s seguintes perguntas: Que especie de navio o _Atlanta_? Quando que largou esse navio da Europa? Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan? Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal frma precisos, que nem deixavam logar menor duvida. O paquete _o Atlanta_, de Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro, fazendo-se de vla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan. Quando o presidente viu assim confirmado o contedo do primeiro telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma, cerraram-se-lhe violentamente os punhos, e houve at quem o ouvisse murmurar: Ento, sempre verdade! sempre possivel! existe esse francez! e dentro em quinze dias ha de estar aqui! Mas , por certo, um louco! um cerebro escandecido!... Nunca consentirei... E apesar d'isso, n'aquella mesma noite j escrevia casa Breadwill e C.^a, para lhe pedir que suspendesse at nova ordem a fundio do projectil. Relatar a emoo que se apossou da America inteira; como o effeito da communicao Barbicane foi excedido no decuplo; o que disseram os jornaes da Unio, por que modo acceitaram a nova e em que rythmo contaram a chegada do heroe do velho continente; pintar a febril agitao, em que todos viviam contando as horas, os minutos e os segundos; dar ida mesmo longiqua, da pesada obsesso que se apoderou de todos os cerebros dominados por um pensamento unico; mostrar como todas as occupaes cederam a uma unica preoccupao; os trabalhos parados, o commercio suspenso, navios que estavam promptos a levantar ferro a ficarem ancorados no porto para no faltarem chegada do _Atlanta_, os comboios a chegarem cheios e a sarem vasios, a bahia do Espirito Santo sulcada sem cessar por _steamers_, _packets-boats_, hiates de recreio e _fly-boats_ de todas as dimenses; enumerar os milhares de curiosos que no espao de quinze dias quadruplicaram a populao de Tampa-Town, a ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em campanha, tarefa que excede as foras humanas, e que sem temeridade ninguem poderia emprehender. No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manh, dava o telegrapho semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no horisonte. Duas horas depois um grande _steamer_ trocava com o telegrapho signaes de reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do _Atlanta_. s quatro horas dava o navio inglez entrada na bahia do Espirito Santo. s cinco passava a barra de Hillisboro a todo o vapor. s seis largava ferro no porto de Tampa. Ainda a ancora no tinha mordido no fundo de areia, j quinhentas embarcaes estavam em volta do _Atlanta_, e tomavam o _steamer_ de assalto. Barbicane foi o primeiro que saltou ao convez, e que em voz de que debalde tentra occultar a commoo exclamou: Miguel Ardan!--Presente! respondeu um individuo que estava no castello de popa. Barbicane, cruzados os braos, com o olhar interrogador e a bca silenciosa, olhou fito para o passageiro do _Atlanta_. Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas j um tanto curvado, como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas dos balces. A cabea volumosa, verdadeira cabea de leo, sacudia a cada instante a cabelleira ardente que a adornava como verdadeira juba. A cara curta, larga nas fontes, enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um gato, e com pincelinhos de pellos amarellados que irrompiam mesmo do meio das faces, os olhos redondos e um tanto desvairados, o olhar de myope, completavam-lhe a physionomia eminentemente felina. Mas o nariz era ousadamente modelado, a bca particularmente humana, a fronte alta, intelligente e sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente o tronco robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de compridas pernas, os braos musculosos como possantes e bem articuladas alavancas, faziam do europeu um magano de solida construco, feito na forja, que no no cadinho, como diria quem quizesse ir buscar arte metallurgica termos de comparao. Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais indiscutiveis da combatividade, isto , da coragem na occasio do perigo, e da tendencia para despedaar todos os obstaculos; como tambem os da benevolencia e da _maravilhosidade_, instincto que incita certos temperamentos a tomarem-se de paixo pelas cousas sobrehumanas; em compensao era absoluta a carencia das bossas que indicam os instinctos de posse e acquisio, que os phrenologos designam pela palavra _adquisividade_. Para dar o ultimo toque na descripo do typo physico do passageiro do _Atlanta_, convem notar que o fato que usava era largo de frmas e folgado de cavas. A cala e o _paletot_ eram feitos com tal abundancia de fazenda, que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o _mata-panno_; a gravata desapertada, o colleirinho aberto com largueza, deixavam ver o pescoo robusto; dos punhos invariavelmente desabotoados saiam-lhe as mos febris. Bem se via que era homem que, nem na maior fora do inverno, nem na maior fora do perigo, havia de ter frio, nem mesmo na raiz do cabello. Nunca estava quieto, no tombadilho do _steamer_, no meio da multido, de c para l, sem nunca parar navegando sobre as amarras, como dizia a maruja; sempre a gesticular, tratando todos por tu e roendo as unhas com nervosa avidez. Era um d'aquelles typos originaes que o Creador inventa n'um momento de phantasia, quebrando-lhe desde logo o molde. E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo s observaes do analysta. Aquelle homem espantoso vivia em perpetua disposio para a hyperbole, no passra ainda alem da idade dos superlativos; desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimenses desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma associao de idas gigantescas; via tudo em ponto grande, excepto os homens e as difficuldades. E comtudo isto era de uma natureza luxuriante, artista por instincto, moo de espirito, que sem dar descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na conversao esgrimir como o mais habil atirador. Nas discusses, pouca importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar s proprio d'elle. Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario uns argumentos _ad hominem_ de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em defender com unhas e dentes as causas perdidas. Entre outras manias tinha a de se proclamar um ignorante sublime, como Shakspeare, e fazia profisso do desprezo pelos sabios: Elles, dizia, entretem-se a marcar os pontos, e ns c que jogmos a partida. Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas, aventuroso, mas no aventureiro, uma cabea ca, um Phaetonte que guiava a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se arrojava de cabea levantada s mais loucas emprezas, cortando a si proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathcles quando incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota, car sempre de p como os bonequitos de sabugo com que brincam as creanas. Em duas palavras, tinha por divisa: _d por onde der!_ e por _ruling passion_[86], segundo a bella expresso de Pope, o amor pelo impossivel. Mas tambem era para ver-se como aquelle magano emprehendedor possuia os defeitos inherentes s suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se no aventurou no perdeu nem ganhou. Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha ganho! Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danades. Homem alis perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe dictava o grande corao, como as que lhe insinuava a estouvada cabea; esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o enforque-se do seu mais cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro. Em Frana, na Europa, toda a gente conhecia este personagem brilhante e estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a quem trazia j enrouquecidos de servi-lo e apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a quem vivia como que dentro de uma casa de vidro, e tomava por confidente dos seus mais intimos segredos o universo inteiro. Por estas mesmas rases tambem Ardan possuia uma admiravel colleco de inimigos, de entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho por entre a multido, mais ou menos magura, ferira ou derrubra sem d nem piedade. E no entretanto era geralmente bemquisto e at tratado com excessivo mimo. Era d'aquelles homens a quem pde applicar-se a expresso popular pegar ou largar, e o caso que todos lhe pegavam, todos tomavam interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam com inquietao as peripecias porque j era de todos conhecida a imprudente audacia que o caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe suspender os designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente, respondia sempre Ardan com amavel sorriso: Da lenha das proprias arvores nasce e lavra o incendio da floresta. Quem lhe diria a elle que citava ento o mais bonito de todos os proverbios arabes! Tal era o passageiro do _Atlanta_, sempre em agitao, sempre a ferver, sempre debaixo da aco de um fogo interior, sempre commovido, no pelo que vinha fazer America, que nem em tal cogitava, mas por virtude da ardente organisao de que era dotado. Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia ambos, cada um l a seu modo, eram emprehendedores, atrevidos e audaciosos. Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multido a contemplao a que se entregra o presidente do Gun-Club em presena do rival que viera desterra-lo da posio principal para o segundo logar. E to phrenetica se tornou a gritaria, tornaram-se por tal frma pessoaes as manifestaes do enthusiasmo, que Miguel Ardan, depois de ter apertado um milheiro de mos, em que ia deixando os dez dedos das d'elle, teve que se refugiar no camarim. Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra. Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a ss, e com a intonao de quem fallava a um amigo de vinte annos. --Sou, respondeu o presidente do Gun-Club. --Pois ento muito bons dias, Barbicane. Como vae isso? Excellentemente? Ora vamos; bom que assim seja: tanto melhor! --Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia, sempre estaes decidido a partir? --Absolutamente decidido. --E nada poder impedir-vo-lo? --Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em harmonia com as indicaes do meu telegramma? --Estava espera da vossa chegada. Mas, perguntou Barbicane, insistindo novamente, reflectistes bem?... --Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho occasio de ir dar um passeio at Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem me parece que seja cousa que merea maiores reflexes. Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal projecto de viagem com tanta leviandade, to completo socego e to perfeita ausencia de cuidados. --Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios de execuo. --Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licena que faa uma s observao: o que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma vez s e a toda a gente, e no tratar mais do assumpto. Evitam-se assim as repeties. Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os vossos amigos, vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a America em peso, se vos parecer, e manh estou prompto para expor os meus meios como para responder a todas as objeces, sejam l quaes forem. Descansae que hei de espera-las a p firme. Convem-vos isto? Convem-me, respondeu Barbicane. Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar multido a proposta de Miguel Ardan. Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos poderiam contemplar vontade o heroe europeu. Entretanto um ou outro espectador houve mais cabeudo que no quiz largar o tombadilho do _Atlanta_, e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que tinha atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de ppa; nem um cabrestante de l poderia arranca-lo! um heroe! um heroe! berrava elle em todas as intonaes, ns que somos umas fracas mulheres, em comparao com esse europeu! O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os visitantes, volveu ao camarim do passageiro e no mais o largou at ao momento em que a sineta de bordo tocou o quarto da meia noite. Mas n'essa occasio, j os dois rivaes em popularidade se apertavam reciproca e calorosamente as mos, e Miguel Ardan j tratava por tu ao presidente Barbicane. CAPITULO XIX UM MEETING No dia seguinte levantou-se o astro do dia um tanto tarde para corresponder impaciencia publica. Para desempenhar o papel de Sol na illuminao de similhante festa, acharam-n'o um tanto preguioso. Por vontade de Barbicane, que se arreceiava de perguntas indiscretas para Miguel Ardan, teria o auditorio sido reduzido a um pequeno numero de adeptos, os collegas, por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pr um dique corrente do Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que projectra, e de consentir que o amigo de recente data corresse todos os riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas dimenses colossaes, julgou-se ainda insufficiente para a realisao de tal ceremonia a nova sala da Bolsa de Tampa-Town, porque a reunio projectada assumira propores de verdadeiro meeting. O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fra da cidade, e em poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares; todos os arranjos necessarios para a construco de uma barraca colossal foram ministrados pelos navios surtos no porto, abundantes em velame, cordame, mastros e vergas de sobresalente. Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a defende-la contra as ardencias do dia, um immenso cu de panno debaixo do qual trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem aguentar impunemente por espao de muitas horas, emquanto esperavam pelo francez, uma temperatura de abafar. De toda aquella turba de espectadores s primeira tera parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem palavra ouvia; quanto terceira, essa nada via, e ainda menos ouvia. E nem por isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos. s tres horas, realisou-se a appario de Miguel Ardan, em companhia dos socios principaes do Gun-Club. Dava Miguel o brao direito ao presidente Barbicane e o brao esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi to rutilante como o Sol ao meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do qual se lhe estendia a vista por sobre aquelle oceano de chapus. No se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de impostura; estava ali como quem est em sua casa, alegre, familiar e amavel; depois de responder com uma graciosa inclinao de cabea aos hurrahs com que o acolheram, e de reclamar com um gesto de mo silencio, tomou a palavra em inglez, exprimindo-se, com extrema correco de linguagem, nos seguintes termos: Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a liberdade de abusar dos vossos momentos para dar algumas explicaes cerca de projectos que, segundo parece, vos interessam. No sou orador nem homem de sciencia, e no contava fallar em publico; disse-me porm o meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e tanto bastou para me decidir a esse sacrificio. Consequentemente, escutae-me com os vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de desculpar os erros do auctor. Mereceu grande apreo aos circumstantes aquelle exordio sem ceremonia; um immenso murmurio de satisfao deu prova do contentamento da multido. Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de approvao ou desapprovao so permittidos. Isto posto, comearei Em primeiro logar, no deveis esquecer que estaes tratando com um ignorante, e to longe vae sua ignorancia, que at as difficuldades ignora. Pareceu-lhe portanto cousa simples, natural e facil tomar passagem dentro de um projectil, e partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo se havia de vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de locomoo adoptado, esse no era mais do que simples consequencia da lei do progresso. O homem comeou por viajar com as mos pelo cho, depois, um bello dia, s nos dois ps, depois n'uma carroa, depois em calea, depois em carroo, depois em diligencia, depois em caminho de ferro; pois bem! o projectil a viatura do futuro; que, a fallar a verdade, os planetas no so seno outros tantos projecteis, simples balas de canho arremessadas pela mo do Creador. [Figura: Os comboios de projecteis para a Lua (pag. 163).] Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vs, senhores, poder ter pensado que a velocidade que tem de imprimir-se-lhe, excessiva; pois no assim; todos os astros tem superior rapidez, e a propria Terra, em seu movimento de translao em volta do Sol, nos leva comsigo com triplicada velocidade. Vou apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei permisso para me exprimir contando por leguas, porque no estou muito familiarisado com as medidas americanas e tenho receio de me embarulhar nos calculos. [Figura: Ataque e replica (pag. 174).] Ninguem oppoz difficuldades concesso pedida, que pareceu perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso: Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas. Apesar da minha ignorancia, fora confessa-lo, conheo com muita exactido estas miudezas astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse respeito to instruidos como eu. Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil leguas por hora; Urano, sete mil; Saturno, oito mil oitocentas e cincoenta e oito; Jupiter, onze mil seiscentas e setenta e cinco; Marte, vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil e quinhentas; Venus, trinta e duas mil cento e noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil quinhentas e vinte; certos cometas, um milho e quatrocentas mil leguas no perihelio! Ns c, verdadeiros passeiantes, gente de poucas posses, no havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas de velocidade, e mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu agora, se ha aqui motivo para pasmar, e se todas estas velocidades no ho de ser um dia excedidas por outras ainda maiores, de que provavelmente sero agentes mechanicos a luz ou a electricidade? Ninguem pareceu pr em duvida a assero de Miguel Ardan. Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a uns certos espiritos acanhados,--e exactamente esta a qualificao que melhor lhes cabe--est a humanidade encerrada n'um circulo de Popilius, que alem do qual no pde dar passo, e condemnada a vegetar no globo terraqueo sem esperana sequer de poder abrir vo para os espaos planetarios! Pois no assim! Agora vamos Lua, e ainda havemos de ir aos planetas, ainda havemos de ir s estrellas, como se vae hoje de Liverpool a New-York, com facilidade, rapidez e segurana. Em breve sero atravessados o oceano atmospherico, bem como os oceanos da Lua! A distancia apenas um termo de relao, e havemos de chegar a final a reduzi-la a zero. A assembla, apesar de muito enlevada pelo heroe francez, ficou um tanto attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan pareceu perceb-lo, e proseguiu com amavel sorriso: Parece-me que no estaes l muito convencidos, estimaveis hospedes. Pois bem! Discutmos um pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um comboio expresso para chegar Lua? Trezentos dias. Nada mais. O trajecto de oitenta e seis mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que ? No chega a ser nove vezes um circuito em volta da Terra; no ha marinheiro ou viajante digno d'esse nome que no tenha andado mais do que isso no decurso da vida! Pensae pois, que eu no hei de gastar mais de noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua est a grande distancia da Terra, e que no seria mau reflectir antes de tentar a aventura! Que dirieis ento se se tratasse de ir a Neptuno que gravita a um milho cento e quarenta e sete mil leguas do Sol! Isso que viagem que poucos poderiam intentar, ainda que mais no custasse que a cinco soldos por kilometro! Nem o baro de Rothschild com os seus mil milhes tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e quarenta e sete milhes para no ficar no caminho! Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da assembla. Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como estava do assumpto, deixava-se arrastar ao sabor da argumentao com soberbo enthusiasmo; percebra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com admiravel confiana: Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol no nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente para avaliar o afastamento de taes astros necessario lanar mo de uma classe de numeros deslumbrantes, o menor dos quaes tem nove algarismos, tomar emfim por unidade o milhar de milhes. Peo-vos perdo de me mostrar to sabido no assumpto, mas por ser de um interesse palpitante. Ouvi e julgae. Alpha do Centauro est a oito billies de leguas, Wega a cincoenta billies, Sirius a cincoenta billies, Arcturus a cincoenta e dois billies, a Polar a cento e dezesete billies de leguas, a Cabra a cento e setenta billies, as outras estrellas a milhares de billies e de trillies de leguas! E ainda haver quem falle na distancia que medeia entre o Sol e os planetas! E haver ainda quem sustente que existe tal distancia! Erro, falsidade! aberrao dos sentidos! Quereis saber o que eu penso cerca d'esse mundo que comea no astro radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria? muito simples! Para mim o mundo solar um corpo solido, homogeneo; os planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o espao que entre elles existe como o espao que medeia sempre entre as molleculas do mais compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo portanto ter direito para affirmar, e repito-o com convico, que ha de communicar-se a vs todos: A distancia uma palavra v, a distancia nem sequer existe! --Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou _una voce_ a assembla electrisada pelo gesto, pela accentuao do orador e pelo ousado das concepes. --No, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os outros, a distancia no existe! E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio corpo que mal podia dominar, a cando do alto do estrado no cho. Conseguiu, todavia, retomar a posio de equilibrio, e livrar-se de uma quda que lhe havia de provar brutalmente que a distancia no era palavra de todo v. Em seguida proseguiu no seu discurso o attrahente orador. Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve j agora ter-se como resolvido. Se no logrei convencer-vos a todos, foi de certo porque fui timido nas demonstraes, fraco na argumentao, e a culpa da minha insufficiencia de estudos theoricos. Seja l como for, repito, a distancia da Terra ao seu satellite realmente pouco importante e indigna de preoccupar qualquer espirito grave. Creio que no ser ir muito alem da verdade affirmar que em breve se ho de vir a estabelecer trens de projecteis, nos quaes poder fazer-se com toda a commodidade a viagem da Terra Lua. N'estes que no haver que receiar, nem choques, nem abalos, nem descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da viagem, sem cansao em linha recta, a vo de abelha, para fallar na linguagem dos caadores c da America. D'aqui a vinte annos, de certo j metade da Terra tem ido visitar a Lua! Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes ainda os menos convencidos. --Hurrah por Barbicane! respondeu modestamente o orador. Aquelle acto de gratido para com o promotor da empreza, foi recebido pelos espectadores com applausos unanimes. Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem qualquer pergunta a fazer-me, por certo que embaraar um pobre homem como eu, entretanto farei todos os esforos para responder. At aquelle momento no tivera o presidente do Gun-Club seno motivos de satisfao pela direco que a discusso tomava. Versando esta sobre theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela sua viva imaginao, mostrava-se extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane parecia necessario, era pr impedimento a que se desviasse para questes praticas, de que por certo Ardan se havia de sar menos airoso. Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a habitantes da Lua e dos planetas. um grande problema esse que me propes para resolver, meu digno presidente, respondeu o orador sorrindo; todavia, se me no engano, homens de grande intelligencia, taes como Plutarco, Swedenborg, Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela affirmativa. Olhando a questo pelo lado da philosophia natural, sou levado a pensar em harmonia com a opinio d'elles; a mim proprio digo que cousa alguma inutil existe no mundo, e respondendo tua pergunta, com outra pergunta, affirmarei que se os mundos so habitaveis, porque so habitados, porque o foram, ou porque ainda o ho de ser. Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja opinio tinha fora de lei para com as ultimas. --Com mais logica e a proposito que no ha responder, disse o presidente do Gun-Club. A minha pergunta transforma-se portanto na seguinte: Sero porventura os mundos habitaveis? --Pela minha parte parece-me que o so. E eu c por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel Ardan. --Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que vo de encontro theoria da habitabilidade dos mundos. Para que estes podessem ser habitaveis, era evidentemente necessario, que na maior parte d'elles, fossem modificados os principios da vida. N'estes termos, e no me referindo j seno a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar. --Sinto, respondeu Miguel Ardan, no conhecer pessoalmente o meu honrado contradictor. A objeco que apresenta tem seu valor, mas creio que pde ser combatida com bom exito, assim como todas as que se oppe habitabilidade dos mundos. Se eu fra um physico, havia de dizer-lhe que, se ha menos calorico em movimento nos planetas proximos do sol, e pelo contrario mais, nos planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os mundos supportavel para seres organisados como ns outros. Se fra naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem dito muitos sabios illustres, que a natureza mesmo c na Terra nos fornece exemplos de animaes que vivem em condies bem diversas de habitabilidade; que os peixes respiram n'um ambiente que mortal para os outros animaes; que os amphibios tem uma existencia dupla bastante difficil de explicar; que ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, presses de cincoenta ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos aquaticos insensiveis aco da temperatura, que se encontram tanto nas nascentes de agua a ferver como nos plainos gelados do oceano polar; e finalmente que fora reconhecer na natureza uma diversidade de meios de aco por vezes incomprehensivel, mas que nem por isso menos real, e que chega at omnipotencia. Se eu fra chimico, havia de dizer-lhe que os aerolithos, corpos evidentemente formados fra do mundo terrestre, tem revelado pela analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia s tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das experiencias de Reichenbach, deve necessariamente ter estado animalisada. Emfim, se fra theologo, dir-lhe-a que, segundo S. Paulo, parece que a redempo divina se applicra, no smente Terra, mas a todos os mundos celestes. Mas no sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que regem o universo, limitar-me-hei a responder: --No sei se os mundos so ou no habitados, e por isso mesmo que no sei, vou l ver! Se o adversario de Miguel se abalanou ou no a apresentar outros argumentos que ns no podemos dizer, porque os gritos freneticos da multido tornaram-se ento capazes de impedir que qualquer opinio fosse sequer ouvida. Logoque se restabeleceu o silencio, ainda nos mais afastados grupos, o triumphante orador terminou, contentando-se em acrescentar as seguintes consideraes: Bem deveis pensar, estimaveis Yankees, que apenas toquei de leve to momentosa questo; eu no vim aqui para fazer um curso publico e defender theses cerca de to vasto assumpto. Ha ainda uma colleco completa de argumentos de natureza inteiramente differente a favor da habitabilidade dos mundos. P-los-hei de parte. Dem-me entretanto licena que insista cerca de um unico ponto. quelles que sustentam que os planetas no so habitados, deve responder-se:--Pde ser que tenhaes raso, se que est demonstrado que a Terra o melhor dos mundos possiveis; mas isso que no assim, apesar do que Voltaire disse a tal respeito. A Terra tem um s satellite, emquanto Jupiter, Urano, Saturno e Neptuno tem muitos ao seu servio, vantagem que no para desdenhar. Mas o que, mais que tudo, torna o nosso globo pouco _confortable_, a inclinao do eixo sobre a orbita. D'esta vem a desigualdade dos dias e das noites; d'esta a incommoda diversidade das estaes. No nosso desgraado espheroide faz sempre frio ou calor demasiado; gela-se por c no inverno, e arde-se no estio; o planeta dos defluxos, dos coryzas e das constipaes, emquanto na superficie de Jupiter, por exemplo, cujo eixo tem pequena inclinao[87], os habitantes, se que existem, podem gosar temperaturas invariaveis; ali ha uma zona das primaveras, uma zona dos estios, uma zona dos outonos e uma zona de invernos perpetuos; cada habitante de Jupiter pde escolher o clima que mais lhe convier, e pr-se para toda a vida ao abrigo das variaes de temperatura. Haveis portanto de conceder-me sem difficuldade a superioridade de Jupiter em relao ao nosso planeta, sem fallar j das revolues annuas d'aquelle astro, que duram cada uma doze annos dos nossos! Ainda mais, para mim evidente, que com taes auspicios e em to maravilhosas condies de existencia, os habitantes d'esse mundo afortunado so entes superiores; que ali os sabios so mais sabios, os artistas mais artistas, os maus peiores, e os bons melhores. Ai! e que nos falta a ns, pobre espheroide, para chegar a tal perfeio? Bem pouca cousa. Um eixo de rotao, com menos inclinao sobre o plano da orbita! --Pois bem! clamou uma voz impetuosa, unmos os nossos esforos, inventemos machinas e indireitemos o eixo da Terra! Rebentou ao ouvir-se tal proposta uma trovoada de applausos; o auctor da proposta fra, e nem outro podia ser, J.-T. Maston. provavel que o fogoso secretario se deixasse arrastar a aventar to ousada ida pelos seus instinctos de engenheiro. Fora dize-lo porm, porque a verdade, muitos o applaudiram com enthusiasmo, e por certo se tivessem o ponto de apoio que Archimedes reclamava, os americanos teriam construido uma alavanca capaz de levantar o mundo e de endireitar-lhe o eixo. Mas o que lhes faltava, quelles temerarios constructores, era exactamente o ponto de apoio. Entretanto aquella ida eminentemente pratica teve um exito enorme; suspendeu-se a discusso por um bom quarto de hora, e por muito tempo, por muito tempo ainda, se fallou nos Estados Unidos da America da proposta formulada, com tanta energia pelo secretario perpetuo do Gun-Club. CAPITULO XX ATAQUE E REPLICA Parecia que aquelle incidente devia pr termo discusso. Estava dita a ultima palavra e a melhor no poder ser. Todavia, quando acalmou a agitao, ouviram-se as seguintes palavras, pronunciadas por uma voz forte e severa: Agora que o orador j deu mais do que devra dar phantasia, por certo no se negar a entrar de novo no assumpto, construindo menos theorias, e discutindo a parte pratica da expedio que intenta? Volveram-se todos os olhares para o personagem que fallava d'aquella frma. Era um homem magro, secco, de physionomia energica, com abundantes barbas, talhadas americana, que lhe saam debaixo do queixo inferior. Conseguira pouco e pouco collocar-se nas primeiras filas, sombra dos diversos movimentos que se tinham realisado na assembla. Ali, cruzados os braos, com o olhar ousado e scintillante, fixava-o imperturbavelmente no heroe do meeting. Depois de ter formulado a pergunta, calou-se sem parecer impressionado pelos milheiros de olhares que para elle convergiam, nem pelo murmurio desapprovador, que suscitaram as palavras que pronuncira. E como a resposta se a fazendo esperar, repetiu de novo a pergunta, com a mesma accentuao precisa e terminante, e acrescentando: Estamos aqui para tratar da Lua, que no da Terra. --Tendes raso, senhor, respondeu Miguel Ardan, a discusso desviou-se um tanto do caminho regular. Volvamos Lua. --Senhor, replicou o desconhecido, affirmaes que o nosso satellite habitado. Bem. Mas se existem selenitas, certamente essa especie de gente vive sem respirar, porque--e por interesse vosso que vos vou prevenindo--no ha uma unica mollecula de ar superficie da Lua. Ao ouvir tal assero, sacudiu Ardan a fulva juba: comprehendeu que com aquelle homem que a luta a engajar-se a serio e na parte mais melindrosa do assumpto. Olhou tambem fixo para elle e disse: Ah! Ento no ha ar na Lua! E, se me d licena, quem que o affirma? --Os homens da sciencia. --Na verdade? --Na verdade. --Senhor, replicou Miguel Ardan, fra de qualquer brincadeira, tenho profunda estima pelos homens de sciencia que sabem, mas tambem profundo desdem pelos sabios que nada sabem. --E conheceis alguns que pertenam ultima categoria? --Muito particularmente. Em Frana ha um que sustenta que mathematicamente as aves no podem voar, e outro cujas theorias demonstram que os peixes no foram feitos para viver na agua. --No d'esses que trato, senhor, e para apoiar a minha assero poderia citar-vos nomes que de certo no havieis de recusar. --N'esse caso, senhor, muito havieis de embaraar um pobre ignorante, que, alis, nada deseja tanto como instruir-se! --Ento, se no estudastes as questes scientificas, porque que vos abalanaes a discuti-las? perguntou com bastante rudeza o desconhecido. --Porque? respondeu Ardan. Pela simples raso que sempre arrojado aquelle que nem suspeita tem dos perigos! Nada sei, verdade, mas exactamente n'esta fraqueza que consiste a minha fora. [Figura: Arrancaram o estrado de repente (pag. 184).] --A vossa fraqueza chega a ser loucura, exclamou o desconhecido com intonao de mau humor. [Figura: Irrompeu Maston pelo quarto dentro (pag. 187).] --Sim!? Tanto melhor, replicou o francez, se essa loucura me levar at Lua! Barbicane e os collegas devoravam com o olhar o intruso, que com tanto arrojo vinha apresentar-se em opposio empreza. Ninguem o conhecia, e o presidente pouco seguro cerca das consequencias da discusso to francamente posta, olhava com tal ou qual apprehenso para o seu novo amigo. A assembla mostrava-se attenta e seriamente inquieta, porque a disputa tivera como resultado chamar-lhe a atteno para os perigos, ou talvez verdadeiras impossibilidades da expedio. Senhor, proseguiu o adversario de Miguel Ardan, so numerosas e indiscutiveis as rases que provam a ausencia completa de atmosphera em volta da Lua. At _a priori_ pde affirmar-se que se alguma vez existiu essa atmosphera da Lua, deve ter-lhe sido subtrahida pela Terra. Prefiro entretanto objectar-vos factos irrecusaveis. --Objectae, senhor, respondeu Miguel Ardan com perfeita cortezania, objectae vossa vontade! --Sabeis, disse o desconhecido, que quando os raios luminosos atravessam um meio qualquer tal como o ar, so desviados da linha recta, ou, por outras palavras, que experimentam uma refraco. Pois bem! quando a Lua occulta alguma estrella, os raios luminosos que emanam d'esta, mesmo quando so tangentes peripheria do disco lunar, nunca experimentam o menor desvio nem do o mais leve indicio de refraco. D'ahi flue como consequencia evidente que a Lua no est circumdada por uma atmosphera. Olharam todos para o francez, porque admittida que fosse a observao, as consequencias tiradas eram perfeitamente rigorosas. Em verdade, respondeu Miguel Ardan, esse o vosso mais valioso, por no dizer o unico, argumento, e qualquer homem de sciencia havia de ver-se extremamente embaraado para responder-lhe; eu c direi smente que tal argumento no tem valor absoluto, porque suppe que o diametro angular da Lua est perfeitamente determinado, o que no exacto. Mas passemos adiante, e dizei-me, meu caro senhor, se admittis a existencia de vulces superficie da Lua. --De vulces extinctos, sim; inflammados, no. --Deixar-me-heis comtudo acreditar, e sem transpor de certo os limites da logica, que esses vulces estiveram em actividade em outra epocha? --Isso positivo, mas como tambem era possivel que os proprios vulces fornecessem o oxygenio necessario para a combusto, o facto das erupes no prova de modo algum a existencia de atmosphera lunar. --Passemos adiante, respondeu Miguel Ardan, e ponhmos de parte tal genero de argumentos para chegarmos s observaes directas. Previno-vos porm que vou citar os nomes proprios. --Pois citae. -- o que farei. Em 1715, os astronomos Louville e Halley, na observao do eclipse de 3 de maio, notaram certas fulminaes de natureza singular. Essa especie de relampagos, rapidos e a miudo repetidos, foi por estes observadores attribuida a tempestades que se desencadeavam na atmosphera da Lua. Em 1715, replicou o desconhecido, tomaram os astronomos Louville e Halley por phenomenos lunares phenomenos que eram puramente terrestres, taes como bolidos, aerolithos ou outros similhantes, e que se realisaram na nossa atmosphera. isto o que responderam os homens da sciencia enunciao de taes factos, e o que eu com elles responderei tambem. --Adiante pois, respondeu Ardan, sem se perturbar com a replica. E Herschel, em 1787, no observou um grande numero de pontos luminosos na superficie da Lua? -- certo, mas o proprio Herschel, que alis no deu explicao alguma cerca da origem d'esses pontos luminosos, no tirou por concluso do que observra a forada existencia de uma atmosphera lunar. --Bem respondido, disse Miguel Ardan cumprimentando o antagonista, vejo que sois muito entendido em selenographia. --Verdade que sou bastante entendido no assumpto, senhor; devo porm acrescentar, que os mais habeis observadores, os que mais a fundo tem estudado o astro das noites, os srs. Beer e Moedler, esto commigo de accordo cerca da falta absoluta de ar na superficie d'elle. Houve certa sensao entre os circumstantes, que pareceram impressionados pelos argumentos do singular personagem. Continuemos a passar adiante, respondeu Miguel Ardan com a maior placidez, que chegaremos a final a um facto importante. Um habil astronomo francez, M. Laussedat, na observao do eclipse de 18 de julho de 1860, verificou que as extremidades do crescente solar estavam arredondadas e truncadas. Ora tal phenomeno s podia ser produzido por um desvio dos raios solares que atravessassem uma atmosphera da Lua; outra explicao admissivel no ha. --E esse facto positivo? perguntou com vivacidade o desconhecido. --Absolutamente positivo! Realisou-se ento na assembla um movimento inverso do anterior, e que fez de novo pender os espiritos para o heroe favorito, cujo antagonista ficra silencioso. Ardan retomou a palavra, e sem se ufanar com a decidida vantagem que acabava de obter, disse com simpleza: Vdes por consequencia, meu caro senhor, que no devemos pronunciar-nos de uma frma absoluta contra a existencia de atmosphera superficie da Lua; essa atmosphera provavelmente pouco densa, muito subtil, mas na actualidade a sciencia admitte geralmente a existencia d'ella. --No nas montanhas, em que vos peze, replicou o desconhecido, que no queria dar o brao a torcer. No, mas no fundo dos valles, e sem que a sua altura passe de alguns centos de ps. --Em todo o caso, no ser mau que tomeis todas as precaues, porque esse ar ha de estar terrivelmente rarefeito. --Oh! meu estimavel senhor, sempre ha de haver que farte para um homem s; e demais, depois de l estar em cima, eu tratarei de o economisar o melhor que podr; no respirarei seno nas grandes occasies! Retumbou uma estrepitosa gargalhada aos ouvidos do mysterioso interlocutor, que estendeu a vista por toda a assembla, como que desafiando-a, altivo. Consequentemente, proseguiu Miguel Ardan, visto como estamos de accordo cerca da existencia de tal ou qual atmosphera, somos forados a admittir tambem a presena de tal ou qual quantidade de agua. E uma consequencia esta com que, pela minha parte, me alegro em extremo. Alem d'isto permittir o meu amavel contradictor que lhe submetta ainda mais outra observao. Ns s conhecemos uma das faces do disco da Lua, e se pouco ar pde haver na face que olha para ns, possvel que haja muito na face opposta. --E porque raso? --Porque a Lua, em virtude da attraco terrestre que tomou a frma de um ovo, que ns vemos pelo lado da ponta mais achatada; e d'ahi vem a consequencia obtida pelos calculos de Houven, que o centro de gravidade da Lua est situado no outro hemispherio. E d'ahi tambem por concluso, que todas as massas aereas e aquosas devem ter sido arrastados para a outra face do nosso satellite nos primeiros tempos da sua creao. --Puras phantasias! exclamou o desconhecido. --Isso no! mas sim puras theorias, alis fundadas nas leis da mechanica, e que me parecem de difficil refutao. Appello portanto para o juizo da assembla, e ponho votao a questo de saber se a vida, tal como existe na Terra, ou no possivel na superficie da Lua? Trezentos mil auditores applaudiram simultaneamente a proposio. O adversario de Miguel Ardan ainda quiz fallar, mas nem podia fazer-se ouvir. Cau-lhe em cima como uma saraivada de gritos e ameaas. Basta! Basta! diziam uns. --Fra o intruso! repetiam outros. --Fra! Fra! clamava a multido irritada. O desconhecido porm, firme, agarrado e bem seguro ao estrado, no arredou p e deixou passar a tormenta, que teria assumido propores formidaveis se Miguel Ardan no a tivera apaziguado com um gesto. Ardan era muito cavalheiro para abandonar um adversario em taes extremos. Desejaes acrescentar mais algumas palavras? perguntou Ardan com a mais graciosa intonao. --Um cento! ou um milheiro! respondeu iracundo o desconhecido. Ou, para melhor dizer, no, basta s uma! Se perseveraes na empreza, porque sois... --Imprudente! E com que fundamento me trataes vs por similhante frma, a mim, que at pedi ao meu amigo Barbicane que a bala fosse cylindro-conica, s para no andar roda no caminho como qualquer esquilo? --Mas, desgraado, logo partida ha de fazer-vos em estilhas a horrorosa repercusso do tiro! --Meu caro contradictor, agora sim, agora que pozestes o dedo na chaga, na verdadeira e unica difficuldade; entretanto o conceito que formo do engenho industrial dos americanos muito elevado para que me permitta acreditar que no ho de conseguir resolve-la. --E o calor desenvolvido pela velocidade do projectil ao atravessar as camadas da atmosphera? --Oh! as paredes do projectil so espessas, e depois tanto o tempo que eu hei de levar a atravessar a atmosphera!? --Mas viveres e agua? --J calculei que podia levar commigo provises para um anno, e a viagem dura s quatro dias! --E ar para respirar no caminho? --Hei de fabrica-lo por processos chimicos. --Mas a quda na Lua, dado mesmo que consigaes l chegar? --Ha de ser seis vezes menos rapida do que o seria na superficie da Terra, visto como a gravidade seis vezes menor na superficie da Lua. --Ainda assim ha de ser mais do que sufficiente para vos fazer em pedaos como a um bocado de vidro! --E quem que me ha de impedir de retardar a queda por meio de foguetes convenientemente dispostos e inflammados em occasio opportuna. --Mas, emfim, demos que esto resolvidas todas as difficuldades, aplanados todos os obstaculos, e que se juntam ainda a vosso favor todas as probabilidades, admittamos que chegaes Lua so e salvo, como que haveis de voltar? --No volto! Ao ouvir tal resposta sublime em sua mesma simplicidade, a assembla ficou muda. Mas aquelle silencio era mais eloquente do que quaesquer clamores de enthusiasmo. D'elle se aproveitou o desconhecido para lavrar o seu ultimo protesto. -- um suicidio infallivel, exclamou, e a vossa morte, que ser apenas a morte de um insensato, nem ao menos servir de proveito sciencia! --Continuae, generoso desconhecido, prognosticaes, na verdade, por modo to agradavel! --Ah! isto de mais! exclamou o adversario de Miguel Ardan, nem sei porque tenho estado a perder o meu tempo em discusso to pouco seria! Prosegui vontade n'essa empreza louca. A culpa no a vs que se deve tornar! --Oh! no faa ceremonia! --No! a outrem cabe a responsabilidade inteira dos vossos actos. --Ento a quem, se me faz favor? perguntou Miguel Ardan com voz imperiosa. --Ao ignorante que organisou essa tentativa to impossivel como ridicula. O ataque era directo. Barbicane que desde que o desconhecido interviera na discusso fazia esforos violentos para se conter, e queimar o proprio fumo como as fornalhas fumivoras de certas caldeiras, vendo-se agora claramente designado e com tamanha affronta, levantou-se precipitadamente e a j sobre o adversario que o desafiava cara a cara, quando de subito se viu separado d'elle. Cem braos vigorosos arrancaram n'um momento o estrado, e o presidente do Gun-Club teve que partilhar com Miguel Ardan as honras do triumpho. O broquel era pesado, mas os que o levavam revezavam-se de continuo, disputando, lutando todos e combatendo para prestarem com os proprios hombros decidido apoio manifestao. E todavia o desconhecido no se aproveitra do tumulto para se escapar. E porventura teria podido faze-lo, rodeado como estava por aquella multido compacta? Por certo que no. Caso que se conservra na primeira fila, e de braos cruzados devorava com os olhos o presidente Barbicane. Este por sua parte no o perdia de vista; os olhares d'aquelles dois homens estavam em cruzamento permanente como duas espadas frementes. Os clamores da multido immensa mantiveram-se no _maximum_ de intensidade durante todo o tempo que durou a marcha triumphal. Miguel Ardan deixava-se levar com evidente satisfao ao sabor das turbas. Irradiava-lhe do rosto a alegria. Por vezes o estrado parecia jogar de ppa a proa, e de bombordo a estibordo como um navio batido pelas ondas. Mas os dois heroes do _meeting_ que tinham p de marinheiro, nem vacillavam; e chegou-lhes a nave sem avaria ao porto de Tampa-Town. Miguel Ardan conseguiu, por fortuna, escapar-se aos ultimos amplexos e apertos de mo dos seus vigorosos admiradores; safou-se para o hotel _Franklin_, subiu com presteza para o quarto, e metteu-se rapidamente na cama, emquanto um exercito de cem mil homens velava debaixo das janellas. N'aquella mesma hora passava-se entre o personagem mysterioso e o presidente do Gun-Club uma scena curta, porm grave e decisiva. Barbicane apenas se vira livre, caminhra direito ao adversario. Vinde! lhe disse com voz breve. O outro seguiu-o para o caes e, dentro em pouco, acharam-se a ss entrada de um _Warfe_ que deitava para Jone's-Fall. Chegados quelle logar miraram-se os dois inimigos ainda ento desconhecidos um para o outro. Quem sois vs? perguntou Barbicane. --Sou o capito Nicholl. --J o suspeitava. At este momento nunca o acaso nos proporcionra occasio de nos vermos frente a frente... --Busquei-a eu! --Insultastes-me! --E em publico. --Haveis de dar-me satisfao do insulto! --J. --No. Desejo que se passe tudo secretamente e s entre ns. Ha um bosque situado a tres milhas de Tampa-Town, o bosque de Skersnow. Conheceis-lo? --Conheo. --Ser do vosso agrado entrar l manh s cinco da manh por determinado lado?... --Sim, se mesma hora l entrardes pelo outro. --E que no esquea o _rifle_? disse Barbicane. --Tanto como vs haveis de esquecer o vosso, respondeu Nicholl. Pronunciadas friamente estas palavras, o presidente do Gun-Club e o capito separaram-se. Barbicane voltou para casa, mas em vez de descansar por algumas horas, passou a noite a buscar meios de evitar a repercusso do tiro dentro do projectil, a resolver o difficil problema que Miguel Ardan apresentra na discusso do _meeting_. CAPITULO XXI COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA Emquanto entre o presidente e o capito se discutiam as convenes do duello, duello terrivel e selvagem, em que cada um dos adversarios se transforma em caador de outro homem, repousava Miguel Ardan das fadigas do triumpho. Repousar no na realidade o termo adequado, porque as camas na America podem disputar primazias em dureza com qualquer mesa de marmore ou de granito. Dormia por consequencia Ardan, mas mal, dava voltas e voltas entre os dois guardanapos que lhe serviam de lenoes, sonhando que installava dentro do seu projectil uma camasinha mais _comfortable_, quando um estrepito violento veio arranca-lo da regio dos sonhos. Empurravam-lhe a porta com pancadas desordenadas, que pareciam dadas com instrumento de ferro. De envolta com aquelle tumulto excessivamente matutino, ouviam-se formidaveis berros. Abre! abre, pelo amor de Deus! Ardan no tinha motivo algum para annuir a um pedido feito com tanto arruido. No obstante levantou-se, e foi abrir a porta, no instante em que ella estava para ceder aos esforos do teimoso visitante. Irrompeu pelo quarto dentro o secretario do Gun-Club, que nem uma bomba teria entrado com maior semcerimonia. Hontem noite, prorompeu J.-T. Maston _ex abrupto_, o nosso presidente foi insultado em publico no _meeting_! Desafiou o adversario, que nem mais nem menos que o capito Nicholl! Batem-se esta manh no bosque de Skersnow! De tudo fui informado pela propria bca de Barbicane! A morte d'este a aniquilao de nossos projectos! Por consequencia necessario pr impedimento a tal duello! Um s homem n'este mundo exerce no espirito de Barbicane influencia bastante para desvia-lo de seus intentos, e esse homem Miguel Ardan! Emquanto Maston assim dizia, Miguel Ardan, que logo desistra de o interromper, precipitra-se dentro das vastas calas, e menos de dois minutos eram passados, j os dois amigos chegavam desfilada aos suburbios de Tampa-Town. [Figura: No centro da teia debatia-se uma avesinha (pag. 193).] No decurso d'aquella rapida carreira que Maston foi pondo Ardan mais ao facto da situao. Contou-lhe ento as verdadeiras causas da inimisade de Barbicane e Nicholl, como era de antiga data tal inimisade, e por que rases, nunca at quella occasio, Barbicane e o capito tinham logrado encontrar-se cara a cara, graas aos esforos de communs amigos; disse-lhe tambem que no havia ali mais do que rivalidade de bala e chapa, e finalmente que a scena do _meeting_ fra apenas a occasio de ha muito procurada por Nicholl, para satisfazer antigos rancores. [Figura: Mappa da Florida (pag. 113).] Nada ha mais terrivel que a frma de duello peculiar da America, em que os contendores se buscam por entre as matas, se espreitam pelas abertas das aras, e atiram um ao outro, no meio das devezas, como quem atira a um animal feroz. N'esse momento que ambos os adversarios devem ter inveja das maravilhosas qualidades que caracterisam os indios das planicies, da rapida intelligencia e da engenhosa astucia de que estes so dotados, do faro e da peculiar percepo dos rastos que os distinguem, quando seguem pela pista o inimigo. Em taes occasies que o menor erro, a menor hesitao, um passo s que seja, dado em falso, podem trazer por consequencia a morte. Em taes recontros levam por vezes os yankees de companhia os seus ces, e perseguem-se assim durante horas inteiras, desempenhando a um tempo os papeis de caa e caador. Que diabo de gente so estes americanos! exclamou Miguel Ardan, depois que o companheiro acabou de lhe descrever com extrema energia todas aquellas scenas. --Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos apressando o passo. Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem atravs da planicie, ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e ribeiros, tomando sempre pelo caminho mais curto, no lograram chegar ao bosque de Skersnow, antes das cinco horas e meia. Barbicane j havia boa meia hora que devia ter-lhe passado a orla. Trabalhava ali um velho _bushman_, cuja occupao era desfazer em cavacos as arvores que derrubava com o machado. Maston correu para elle a gritar: Vistes entrar na mata um homem armado de _rifle_, Barbicane, o presidente... o meu melhor amigo?... O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu presidente havia por fora de ser conhecido do mundo inteiro. Mas o _bushman_ no deu mostras de o comprehender. Um caador, disse ento Ardan. --Um caador, sim vi, respondeu o _bushman_. --E ha muito? --Ha de haver uma hora. --J tarde! clamou Maston. --E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan. --Nada. --Nem um s? --Nem um. No me parece que o tal caador tenha feito l muito grande caada! --Que se ha de fazer? disse Maston. -- entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum balasio, que no nos fosse destinado. --Ah! exclamou Maston com accentuao, de cuja franqueza no era permittido duvidar-se, antes eu queria apanhar dez balas na minha propria cabea, de que acertasse uma s na de Barbicane. --Ento vante! replicou Ardan, apertando a mo do companheiro. Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras, tamarindos, carvalheiras e magnolias. Entrelaavam-se as ramadas d'aquellas differentes arvores, em to emmaranhada confuso, que no consentiam que a vista alcanasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras, inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a temivel detonao dos _rifles_. Rasto de Barbicane, na sua passagem atravs do bosque, que no logravam reconhecer. Caminhavam s cegas por aquellas veredas apenas pisadas, em que qualquer indio teria seguido passo por passo a marcha do adversario. Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois companheiros. Redobrra-lhes a inquietao de espirito. porque est tudo acabado, disse Maston desanimado. Barbicane no era homem que jogasse astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laos ou usasse de manobras! franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em frente, direito ao perigo, e por certo a tal distancia do _bushman_ que o vento levou, sem que este a ouvisse, a detonao das armas de fogo! --Mas ns! respondeu Miguel Ardan. Desde que entrmos no bosque no haviamos de ter ouvido alguma cousa! --E se chegmos tarde! exclamou Maston com intonao de desespero. --Miguel Ardan como no tinha replica que dar-lhe proseguiu com Maston na marcha interrompida. De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane, ora por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia s vozes d'elles. Apenas alegres bandos de aves, despertadas pelo ruido, desappareciam por entre as ramadas, ou algum gamo assustado fugia precipitado atravs da mata. Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. J fra explorada a maior parte da mata, e nada que revelasse a presena dos combatentes. Era caso para pr em duvida as asseres do _bushman_, e Ardan pensava j em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil, quando, de subito, Maston estacou. --Chit! murmurou elle. Est acol alguem! --Alguem? respondeu Miguel Ardan. --Sim! um homem! Parece estar immovel. J no tem o _rifle_ nas mos. Que estar fazendo? --Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco servia a vista em tal conjunctura. --Sim! sim! L se volta, respondeu Maston. --E ? --O capito Nicholl! --Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente o corao. Nicholl sem arma! Seria por nada ter j que receiar do adversario? Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos desenganados. Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro estacaram, para mais attentamente examinarem o capito. Cuidavam encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a pensamentos de vingana! Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia, debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede no fra um ser humano, seno uma peonhenta aranha, peculiar d'aquellas regies, de volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de pernas enormes. Mas o horrendo animalejo, no momento em que a arrojar-se sobre a presa, tivera de retirar, buscando asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque por sua vez fra ameaado por temivel inimigo. Effectivamente, Nicholl largra a espingarda e esquecido dos perigos da situao, tratava de desembaraar com extremos de delicadeza a victima enlaada nas redes da monstruosa aranha. E quando concluiu a obra, deu a liberdade pequena avesinha, que bateu alegremente as azas e desappareceu. Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de commoo: Isto que homem valente e de alma bem formada! Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as intonaes: homem que merece ter amigos! --Miguel Ardan! exclamou o capito. Que vindes fazer aqui, senhor? --Apertar-vos a mo, Nicholl, e impedir que mateis Barbicane, ou que sejaes morto por elle. --Barbicane! exclamou o capito, Barbicane, que eu procuro ha duas horas sem lograr encontra-lo! Onde estar elle escondido? --Nicholl, disse Miguel Ardan, isso falta de cortezia! deve sempre prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se Barbicane vivo havemos de encontra-lo, e com tanta maior facilidade que, se que no passou o tempo como vs, entretido em soccorrer alguma avesinha opprimida, deve andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou eu, Miguel Ardan quem vo-lo diz, no de duellos que se ha de tratar. --Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl, ha rivalidades de tal ordem, que s a morte de um dos dois... --Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem formadas como vs outros, possivel que se detestem, mas por certo tambem se estimam. No haveis de bater-vos. --Hei-de bater-me, senhor! --Isso que no. --Capito, disse ento J.-T. Maston com generoso animo, sou amigo do presidente, o seu _alter ego_, outro elle; se desejaes absolutamente matar alguem, disparae sobre mim, que exactamente o mesmo. --Senhor, disse Nicholl apertando com mo convulsa o _rifle_, essas zombarias... --O amigo Maston no est zombando, respondeu Miguel Ardan, e eu c por mim comprehendo perfeitamente a sua ida de se fazer matar em vez do homem de quem amigo! Mas nem elle nem Barbicane ho de cair aos tiros do capito Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta por tal frma seductora, que por certo ho de acceita-la com enthusiasmo. --Que proposta ento essa? perguntou Nicholl com visivel incredulidade. --Haja paciencia, respondeu Ardan, no posso fazer a communicao seno na presena de Barbicane. --Pois vamos por elle, exclamou o capito. No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capito desarmou o _rifle_, po-l'o ao hombro, e caminhou com passo soffreado, sem dizer palavra. Por espao de meia hora ainda, foram inuteis todas as pesquizas. Maston sentia-se dominado por sinistro presentimento, e observava Nicholl com severidade, perguntando a si proprio se no estaria j satisfeita a vingana do capito, e Barbicane jazendo ferido de bala ao p de alguma moita ensanguentada. Miguel Ardan parecia dominado pelas mesmas idas, e ambos inquiriam com os olhos o capito Nicholl, quando Maston estacou de subito. Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as hervas. elle! murmurou Maston. Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do capito, mas este no trepidou. Ardan deu alguns passos, gritando: Barbicane! Barbicane! Nada de resposta. Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento em que a agarra-lo pelo brao, estacou de repente, soltando uma exclamao de surpreza. Barbicane, de lapis em punho, escrevia frmulas e traava figuras geometricas n'uma carteira. A espingarda, essa jazia desarmada no cho. O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte duello e vingana, nada vra nem ouvra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz a mo nas d'elle, levantou-se e olhou com ar de espanto. --Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei! --O que? --Os meios! --Mas que meios? --Meios de annullar o effeito da repercusso do tiro partida do projectil! --Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o capito. -- verdade! agua, agua pura servir de almofada. Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vs! --Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e d-me licena que te apresente tambem por esta occasio o estimavel capito Nicholl! --Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito. Perdo, capito, tinha-me esquecido... mas estou prompto... Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para que se interpellassem. Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira felicidade que dois homens de alma generosa e elevada como vs dois se no tivessem encontrado mais cedo! Tinhamos agora que estar chorando um dos dois! Mas graas a Deus, que se metteu no negocio, j nada ha que receiar. Quando dois homens esquecem os seus odios para se entregarem resoluo de problemas de mechanica ou fazer partidas s aranhas, porque taes odios no so perigosos para ninguem. E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capito. --Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em concluso, se duas boas pessoas como vs outros foram feitas para se esmigalharem reciprocamente a cabea a tiros de carabina? Havia n'aquella situao, um tanto ridicula, alguma cousa de to inesperado, que Barbicane e Nicholl no sabiam como comportar-se um em relao ao outro. Miguel, que bem o percebeu, resolveu precipitar a reconciliao. Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais agradavel dos sorrisos, nunca houve entre vs dois seno equivocos. Nada mais. Pois bem! para dar prova de que todas as contendas esto terminadas, e visto como sois homens que no temem arriscar a pelle, acceitae sem hesitar a proposta que vou fazer-vos. --O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho Lua? --Certamente que sim, replicou o presidente. --E o amigo Nicholl est persuadido que o projectil ha de car na Terra. --Estou seguro d'isso, exclamou o capito. --Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu que no tenho pretenses a pr-vos de accordo, mas smente vos direi mui lhana e simplesmente: Vinde commigo, para vermos assim se ficmos ou no a meio caminho. --Hum! exclamou J.-T. Maston estupefacto. Ao ouvirem to inesperada proposta, os dois rivaes levantaram os olhos um para o outro. Observavam-se attentamente. Barbicane aguardava a resposta do capito. Nicholl estava espreita da primeira palavra do presidente. Ento? disse Miguel Ardan com intonao das mais convidativas. Visto nada haver que receiar da repercusso!... --Acceito! exclamou Barbicane. Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente, tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo. --Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as mos aos dois adversarios. E agora que a pendencia est pacificamente terminada, meus amigos, consintam-me que os trate franceza. Vamos almoar. CAPITULO XXII O NOVO CIDADO DOS ESTADOS UNIDOS N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio de Barbicane com o capito Nicholl, e da aventura singular que lhe puzera termo. O papel que desempenhra n'aquelle recontro o cavalheiroso europeu, a proposta inesperada que viera cortar todas as dificuldades, a acceitao simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente lunar, para emprehender a qual am marchando de accordo Frana e Estados Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de Miguel Ardan. sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por qualquer individualidade. Imagine-se qual seria a paixo desencadeada em favor do audacioso francez, n'aquelle paiz onde at os mais graves magistrados no duvidam puxar carruagem de qualquer dansarina para a levarem em triumpho. Se no desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente porque elle os no tinha, que no demais foram-lhe prodigalisadas todas as provas imaginaveis de enthusiasmo. No houve um s cidado que seno unisse a elle de alma e corao. _Ex pluribus unum_, que a divisa dos Estados Unidos. A partir d'aquelle dia, no teve Miguel Ardan um s momento de socego. Vinham procura-lo deputaes de todos os cantos da Unio, que o attribulavam e que no promettiam ter fim, nem tregua. E o mais que tinha que as receber, com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mo deu, a quanta gente tratou por tu, cousa que nem pde calcular-se. Dentro em pouco tempo estava exhausto de foras, a voz j mal lhe saa dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos innumeraveis _speechs_; a arranjando uma gastro-enterite de tanto _toast_ que se viu obrigado a fazer a todos os condados da Unio. Um triumpho tal teria subido cabea a outro qualquer logo no primeiro dia, mas Ardan teve artes de nunca passar de uma espirituosa e encantadora semi-ebriedade. Entre as deputaes de todos os generos que por aquella occasio o assaltaram, no soube esquecer quanto devia ao futuro conquistador da Lua, a dos lunaticos. Certo dia, alguns d'estes pobres diabos, abundantes na America, vieram ter com elle e pedir-lhe que os levasse comsigo para o paiz natal. Alguns houve que affirmaram saber fallar a lingua selenita e que at a quizeram ensinar a Miguel Ardan. Prestou-se este de bom grado a to innocente mania, e at se encarregou de recados e encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter na Lua. Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os despediu, e loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais agudas. Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de sciencia, que muitas pessoas, alis extremamente sensatas e cautelosas nas suas concepes, se deixam arrastar a grande exaltao e a incriveis singularidades, todas as vezes que se occupam da Lua. E tu no ds credito influencia da Lua sobre as doenas? [Figura: Parti commigo para vermos (pag. 197).] --Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club. [Figura: O gato tirado da bomba (pag. 206).] --Tambem eu no; apesar de que a historia tem registrado factos que, pelo menos, so para causar admirao. Assim em 1693, durante certa epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasio de um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasies de eclipse da Lua, e s voltava a si depois da completa emerso do astro. O rei Carlos VI recau por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre em occasio de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a epilepsia deve classificar-se entre as doenas que acompanham as phases da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que entrava em convulses logo que a Lua entrava em opposio. Gall notou que a exaltao das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no _novi-lunio_, outra no _pleni-lunio_. Finalmente, ha mais de um milheiro de observaes d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenas terrestres. --Mas como? porque? perguntou Barbicane. --Porque? respondeu Ardan. f que te hei de dar a mesma resposta que Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: Talvez seja exactamente por no ser verdade! No meio do seu triumpho, no logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de vogas e celebridades de occasio tentaram p-lo em exhibio. Barnum chegou a offerecer-lhe um milho para adquirir o direito de o transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de _cornac_, e manda-lo a elle Barnum... passeiar. Todavia, recusando-se alis a satisfazer por tal frma a curiosidade publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se tiraram provas de todas as dimenses, desde as de tamanho natural at as da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posies imaginaveis; cabea s, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil, de tres quartos e at de costas. Tirou-se mais de milho e meio de exemplares. A occasio era bem boa para se desfazer em reliquias, mas Ardan que a no soube aproveitar. S a vender os cabellos a dollar cada um, podia fazer uma fortuna, e mais j no eram muitos! A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, no lhe era desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se disposio do publico, e correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam, repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente os que elle nem tinha proferido. Como uso, por isso mesmo que n'essa parte lhe sobrava a riqueza, que mais lhe queriam dar ou emprestar. E no smente soube tornar propicios os homens, seno tambem as mulheres. Bastaria que lhe tivesse passado pela cabea a phantasia de entrar no rol dos homens serios, para ter arranjado um numero infinito de bellos casamentos. Principalmente as velhas _misses_, d'estas que ha bons quarenta annos se mirravam por no casar, todas devaneiavam dia e noite diante das photographias d'elle. Certo que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes impuzesse como condio acompanharem-n'o na aerea viagem; que as mulheres quando lhes no d para de tudo terem medo, so verdadeiramente intrepidas. Porm, como Ardan no tinha intento de fazer estirpe no continente lunar, nem de para l transportar raa atravessada de francez e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces. Ir eu l para cima, dizia elle, fazer o papel de Ado com uma filha de Eva, obrigado! E se l encontrasse serpentes!... Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se s alegrias exageradamente repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita Columbiada, que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto com Barbicane, J.-T. Maston e _tutti quanti_ tinha-se tornado muito sabedor em questes de balistica. O seu maior prazer consistia ento em repetir aos estimaveis artilheiros, que no eram elles mais do que amaveis e sabios assassinos. cerca de tal assumpto nunca se lhe esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada, admirou-a com enthusiasmo e desceu at ao fundo da alma do gigantesco morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites. Este canho ao menos, disse, no ha de fazer mal a ninguem; o que da parte de um canho j no pouco para admirar. Mas no me venham c fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaam, que matam, e ainda menos dizer-me que tem alma, que l isso que eu nunca hei de acreditar! Vem a pllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston. Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam a proposta de Miguel Ardan, resolveu l no intimo juntar-se com elles, e fazer assim uma parceirada de quatro; um bello dia pediu para entrar na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma recusa, fez-lhe ver que o projectil no tinha lotao para tanto passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o convidou a resignar-se, fazendo at valer certos argumentos _ad hominem_. Ora pensa bem, meu velho Maston, e no vs tomar as minhas palavras em mau sentido; mas aqui para ns, a verdade que ests muito incompleto para te apresentar assim na Lua! --Incompleto! exclamou o velho invalido. --Sim! meu estimavel amigo! Ora pe-te no caso de encontrarmos habitantes l em cima. Quererias tu dar-lhes to triste ida do que se passa c por baixo, patentear-lhe o que a guerra, demonstrar-lhes que empregmos por c o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a quebrar-nos reciprocamente pernas e braos, e isto n'um globo que poderia alimentar cem mil milhes de habitantes, e que apenas tem mil e duzentos milhes d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era at caso de nos prem de l fra, por tua causa! --Mas se vs l chegardes feitos em pedaos, replicou J.-T. Maston, estareis to incompletos como eu! --De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade que no havemos de chegar l feitos em pedaos! Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas esperanas. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da repercusso do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75 centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que a bomba viesse a cair no mar e o choque da quda fosse amortecido pela agua, visto tratar-se smente de experimentar cerca do abalo partida e no do choque chegada. Foi preparado com os maiores cuidados para a realisao d'esta curiosa experiencia um projectil co. Estofava-lhe as paredes internas um expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de ao da mais fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado. Que pena no caber eu l dentro! dizia J.-T. Maston, lamentando que o proprio volume lhe no consentisse tentar a aventura. N'aquella encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca, introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T. Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeio. Mas havia desejos de saber como que aquelle animalsinho, pouco sujeito a vertigens, supportaria a viagem de experiencia. Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e collocada a bomba na pea, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou maxima altura de approximadamente mil ps e foi-se abysmar por entre as vagas, descendo por graciosa curva. Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcao para o logar onde caira a bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram cabos s auriculas da bomba que de prompto foi iada a bordo. Nem cinco minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da priso. Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na embarcao e assistiram operao com um sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se abriu a bomba, saltou fra o gato um tanto machucado verdade, mas cheio de vida, e sem ares de quem regressava de tal expedio. Mas a respeito de esquilo que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final no houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato tinha comido o companheiro de viagem. J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da sciencia. Caso que depois d'aquella experiencia desappareceram todas as hesitaes e todos os temores. Demais, os planos de Barbicane ainda haviam de aperfeioar o projectil e annullar quasi completamente os effeitos da repercusso. Portanto nada mais restava a fazer, seno partir. Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da Unio, honra a que se mostrou notavelmente sensivel. O governo, tomando exemplo do que se praticra para com o cavalheiroso marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a este o titulo de cidado dos Estados Unidos da America. CAPITULO XXIII O WAGON-PROJECTIL Depois que ficra concluida a celebre Columbiada, volvra-se immediatamente a atteno publica para o projectil, novo vehiculo destinado a conduzir atravs do espao os tres ousados aventureiros. A ninguem esquecra, que Miguel Ardan tinha pedido, no telegramma de 30 de setembro, que se modificassem os planos combinados pelos membros da commisso. Pensava ento o presidente Barbicane, e com justa raso, que era de pouca importancia a frma do projectil, porque depois de atravessar a atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o resto do percurso no vasio absoluto. Adoptra por consequencia, a commisso a frma espherica, para que a bala podesse girar sobre si propria e comportar-se como lhe acudisse phantasia. Mas logoque a transformavam em vehiculo, o caso era outro. Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem maneira de esquilo; desejava subir, sim, mas de cabea para cima e de ps para baixo, com tanta dignidade e compostura como se viajra na barquinha de qualquer balo; seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a fazer uma serie de cambalhotas menos decorosas. [Figura: Chegada do projectil a Stone's-Hill (pag. 210).] Mandaram-se portanto novos planos casa Breadwill e C.^a de Albany, e com expressa recommendao de os pr sem demora em execuo. [Figura: J.-T. Maston tinha engordado! (pag. 217).] O projectil fundiu-se, com as modificaes apontadas, a 2 de novembro, e foi expedido immediatamente para Stone's-Hill pela via ferrea de leste. A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan, Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia o wagon-projectil em que haviam de tomar passagem para voarem descoberta de um mundo novo. O projectil, fora confess-lo, era uma pea de metal magnifica, um producto metallurgico que dava honra ao engenho industrial dos americanos. Pela vez primeira fra o aluminium obtido em massa to consideravel, e esse resultado s por si merecia com justia ser considerado como um prodigio. O precioso projectil scintillava aos raios do sol. Quem o visse com aquellas suas frmas de metter respeito, coberto com o seu chapu conico, facilmente o tomaria por uma d'aquellas macissas torres em frma de pimenteiro, que os architectos da idade media suspendiam dos angulos dos castellos fortificados. S lhe faltavam grimpa e setteiras. Est-se-me figurando, exclamou Miguel Ardan, que vae d'ali sar um homem de armas com o seu arcabuz e o seu corsalete de ao. Havemos de estar l dentro quaes senhores feudaes. Se levassemos alguma artilheria poderiamos d'ali fazer frente a todos os exercitos selenitas, se que ha exercitos na Lua. --Com que ento agrada-te o vehiculo? perguntou Barbicane ao amigo. --Sim! Sim! de certo, respondeu Miguel que o estava examinando como artista. --Sinto unicamente que no tenha as frmas mais esbeltas e ligeiras, o cone mais gracioso; deviam ter-lhe posto como remate um floro de ornatos de metal lavrado, com uma chimera, por exemplo, uma carranca, ou uma salamandra a sar do fogo com as azas desdobradas e as fauces abertas... --E para que servia tudo isso? disse Barbicane, cujo espirito positivo era pouco sensivel s bellezas da arte. --Para que servia, amigo Barbicane! Ai de mim! s pelo facto de m'o perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender! --Vae sempre dizendo, estimavel companheiro. --Pois ouve l; minha opinio que devemos sempre attender um pouco arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada o _Carro do menino_? --Nem de nome, respondeu Barbicane. --Tambem no admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que n'essa comedia ha um ladro que na occasio em que est para furar a parede de uma casa, cogita se ha de dar ao buraco a frma de lyra, de flor, de ave ou de amphora? Ora responde l, amigo Barbicane, se n'aquella epocha fosses membro do jury, condemnavas o tal ladro? --Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a circumstancia aggravante do arrombamento. --Pois eu c absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui est a raso porque tu nunca me has de comprehender! --Nem trato d'isso, meu valente artista. --Pelo menos, proseguiu Ardan, j que o exterior do nosso _wagon-projectil_ fica quem dos meus desejos, ho de me dar licena que o mobile a meu geito e com todo o luxo que quadra a embaixadores da Terra! --L a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane, fars o que te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o que melhor te aprouver. O presidente do Gun-Club porm, antes de passar ao agradavel, cuidra do util, e conseguira fazer applicar os meios por elle inventados para diminuir os effeitos da repercusso, com perfeita intelligencia. Tinha Barbicane pensado, e com raso, que nenhuma especie de molas teria fora bastante para amortecer o choque, e no decurso d'aquelle famoso passeio da matta de Skersnaw, consegura resolver aquella grande difficuldade por uma frma engenhosa. agua que elle contava ser devedor de to assignalado servio. Eis por que maneira: Encher-se-ia o projectil, at a altura de tres ps, de uma camada de agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil. Em cima d'aquella especie de jangada que haviam de ir collocados os viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por tabiques horisontaes que o choque partida espedaaria successivamente. N'esse mesmo momento todos os lenoes de agua, desde o debaixo at ao de cima, sando por tubos de despejo para a parte superior do projectil, fariam almofada; no podendo o disco, alis guarnecido como era de possantes chapuzes, ir de encontro culatra do projectil seno depois de terem sido successivamente esmagados os differentes tabiques. Por certo que os viajantes sempre haviam de soffrer violenta repercusso depois da sada completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia de ser quasi completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade , que tres ps de altura de agua n'uma rea de cincoenta e quatro ps quadrados haviam de pesar perto de onze mil e quinhentas libras; mas a fora elastica dos gazes accumulados dentro da Columbiada na opinio de Barbicane, havia de ser bastante para vencer mais aquelle augmento de peso; demais o choque havia de expellir aquella agua toda em menos de um segundo, e o projectil de prompto retomaria o peso normal. Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginra, esta a maneira por que pensava ter resolvido o importante problema do amortecimento da repercusso do tiro. De mais a mais, aquelle trabalho fra comprehendido com perfeita intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e expellida a totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraar-se com facilidade dos tabiques espedaados, e desarmar o disco movel que os aguentra no momento da partida. As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino ao, to flexiveis como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam. Tinham-se portanto tomado por aquella frma todas as precaues imaginaveis para amortecer o primeiro choque, e, segundo dizia Ardan, quem ainda assim se deixasse esmagar, porque era de m raa. Media o projectil, pela parte de fra, doze ps de altura sobre nove de largura. E, para que no excedesse o peso calculado, tinham-lhe diminuido um pouco a espessura das paredes, e reforado a culatra que tinha de aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos pela deflagrao do pyroxylo. Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja maior espessura sempre na culatra. A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura reservada nas paredes do cone, similhante aos buracos de homem que tem as caldeiras a vapor, e que fechava hermeticamente por meio de uma chapa de aluminium, apertada da parte de dentro por possantes parafusos de presso. Podiam portanto os viajantes sar vontade da sua movel priso, logoque lograssem chegar ao astro das noites. Mas o caso no estava s em ir, estava tambem em ir vendo pelo caminho. Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das paredes estavam quatro vigias com vidros lenticulares de grande espessura, duas abertas na parede circular do projectil, uma no fundo e outra no chapu conico. Teriam portanto os viajantes toda a facilidade para observarem durante o percurso, quer a Terra que deixavam, quer a Lua que am buscar, quer os espaos constellados do cu. As vigias estavam defendidas do choque partida por chapas fortemente encaixadas, que era facil fazer car para a parte de fra desatarraxando porcas collocadas pela parte de dentro. Tornavam-se por aquella maneira possiveis quaesquer observaes, sem que o ar contido no projectil podesse de l sar. Todos aquelles mechanismos, admiravelmente construidos e collocados, trabalhavam com a maior facilidade; os constructores tambem no deram menor prova de intelligencia na arrumao interna do wagon-projectil. Para a conduco da agua e viveres necessarios para os tres viajantes havia recipientes solidamente seguros, e at aos passageiros era dado obter fogo e luz, porque tambem levavam gaz armazenado em recipiente especial debaixo de uma presso equivalente a muitas atmospheras. Era abrir uma torneira, e tinham gaz para lhes illuminar e aquecer o confortable vehiculo para seis dias. Claro est que no lhes faltava nada do que se pde reputar essencial vida ou mesmo commodidade. Alem d'isto, e graas aos instinctos de Miguel Ardan, veio ainda o agradavel juntar-se ao util, sob frma de obras de arte; Miguel se no lhe faltra espao, fazia do projectil um verdadeiro _atelier_ de artista. Errada seria a supposio de quem imaginasse que tres pessoas no estavam bem larga n'aquella torre de metal. Media-lhe a capacidade interna uma superficie de proximamente cincoenta e quatro ps quadrados por dez ps de altura, espao que j consentia aos viajeiros certa liberdade de movimentos. Nem que fossem no mais _confortable_ wagon dos Estados Unidos estariam tanto sua vontade. Estando resolvida a questo de mantimentos e illuminao, faltava ainda a questo do ar. Era evidente que o ar contido no projectil no podia chegar para a respirao dos tres viajantes pelo espao de quatro dias; effectivamente, cada homem gasta n'uma hora todo o oxygenio contido em cem litros de ar. Barbicane, os dois companheiros e dois ces que tencionavam levar, haviam de consumir s em vinte e quatro horas, dois mil e quatrocentos litros de oxygenio, em peso proximamente sete libras. Foroso era portanto renovar o ar do interior do projectil. Mas como? Por um processo muito simples, o dos srs. Reiset e Regnault, o mesmo a que Miguel alludra no correr da discusso do meeting. vulgarmente sabido que o ar se compe essencialmente de vinte e uma partes de oxygenio e setenta e nove de azoto. E o que que succede no acto da respirao? Um phenomeno muito simples. O homem absorve o oxygenio do ar, gaz eminentemente proprio para sustentar a vida e expelle o azoto intacto. O ar expirado perdeu perto de cinco por cento do seu oxygenio e contm um volume proximamente igual de acido carbonico, que o producto definitivo da combusto dos elementos do sangue pelo oxygenio inspirado. Portanto, em qualquer logar fechado, ha de succeder sempre, depois de certo tempo, transformar-se todo o oxygenio do ar em acido carbonico, gaz que essencialmente deleterio. Como o azoto se conservava intacto, reduzia-se portanto a questo ao seguinte: 1.^o, refazer o oxygenio absorvido; 2.^o, destruir o acido carbonico expirado. E no ha nada mais facil, por meio do chlorato de potassa e da potassa caustica. O chlorato de potassa um sal que se apresenta sob frma de palhetas brancas; aquecido a uma temperatura superior a quatrocentos graus, transforma-se em chloreto de potassium, abandonando todo o oxygenio que contm. Dezoito libras de chlorato de potassa rendem por este processo sete libras de oxygenio, isto , a quantidade d'elle necessaria aos viajantes para vinte e quatro horas. E aqui est como se havia de fazer o oxygenio. A potassa caustica, essa uma substancia muito avida do acido carbonico misturado com o ar. Basta agita-la no ambiente para que elle se apodere do acido carbonico, formando bicarbonato de potassa. E aqui est tambem como havia de ser destruido o acido carbonico. Estes dois meios combinados restituem seguramente ao ar viciado todas as suas qualidades vivificadoras. Prova-o a experiencia feita com bom exito pelos dois chimicos, os srs. Reiset e Regnault. Mas, fora confessar, que as experiencias at ento feitas tinham sempre sido realisadas _in anima vili_. Ignorava-se absolutamente qual seria o effeito d'ellas sobre o homem, apesar da extrema preciso scientifica com que tinham sido executadas. Esta foi a observao que a todos se offereceu na sesso em que foi ventilado to grave assumpto. Miguel Ardan, que nem por sombras duvidava da possibilidade de viver por meio do ar, assim artificialmente preparado, offereceu-se para experimenta-lo antes da partida. Porm Maston reclamou para si proprio com energia a honra de tentar o ensaio. J que me no deixam partir, dizia o valente artilheiro, no ser grande favor deixarem-me ao menos habitar no projectil por uns oito dias. Recusar em tal caso, era prova de m vontade. Satisfizeram-lhe portanto os desejos. Puzeram-se disposio de Maston quantidades de chlorato de potassa, de potassa caustica e viveres bastantes para oito dias: em seguida e depois do aperto de mo aos amigos, encaixou-se o estimavel secretario no projectil, cuja tampa foi hermeticamente fechada, a 12 de novembro s seis horas da manh, recommendando expressamente que lhe no abrissem a priso antes do dia 20 s seis horas da tarde. O que l dentro se passava no decurso d'aquelles oito dias, no era possivel imagina-lo, que a espessura das paredes do projectil impedia que se percebesse c de fra qualquer ruido interior. A 20 de novembro, s seis horas em ponto, desaparafusou-se a chapa: os amigos de Maston sempre estavam um tanto desassocegados de espirito. Mas de prompto lhes serenou o animo uma voz alegre, que soltava formidavel hurrah. Pouco depois appareceu no vertice do cone o secretario do Gun-Club em postura de triumphador. Tinha engordado! CAPITULO XXIV O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS A 20 de outubro do anno anterior, depois de fechada a subscripo, tinha o presidente do Gun-Club aberto um credito a favor do observatorio de Cambridge, no valor das quantias necessarias para construir um enorme instrumento optico. Devia tal apparelho, luneta ou telescopio, ser de fora bastante para tornar visivel na superficie da Lua qualquer objecto de nove ps de largura maxima. Ha uma differena importante entre uma luneta e um telescopio, que conveniente recordar aqui: a luneta compe-se de um tubo, que tem na extremidade superior uma lente convexa, chamada objectivo, e na extremidade inferior outra lente chamada ocular, a que se applica o olho do observador. Os raios que emanam do objecto luminoso atravessam a primeira lente e vo, em virtude da refraco, formar uma imagem invertida do objecto no foco[88] d'ella. Essa imagem que observada por meio do ocular, que a amplifica exactamente como qualquer lupa. Claro est pois que o tubo da luneta fica fechado n'uma e n'outra extremidade pelo objectivo e pelo ocular. O tubo do telescopio, pelo contrario, aberto na extremidade superior. Os raios luminosos que partem do objecto observado penetram livremente no tubo e vo incidir n'um espelho metallico concavo, e portanto convergente. D'ahi partem esses raios depois de reflectidos a encontrar um espelho menor que os envia para um ocular, disposto por frma que amplifique a imagem produzida. Nas lunetas portanto desempenha papel principal a refraco, nos telescopios a reflexo. d'ahi que vem dar-se s primeiras o nome de refractores, e aos segundos o de reflectores. A principal difficuldade de execuo de taes apparelhos de optica est na construco dos objectivos, quer sejam lentes, quer espelhos metallicos. Entretanto na epocha em que o Gun-Club tentou a sua grande experiencia, estavam j estes instrumentos notavelmente aperfeioados, e davam resultados magnificos. Longe ia o tempo em que Galileu observra os astros com a sua pobre luneta, que apenas amplificava na proporo de sete para um, se tanto. Do seculo XVII at ento tinham os instrumentos de optica crescido em comprimento e largura em propores consideraveis, que permittiam explorar os espaos estellares at uma profundidade at quella epocha ignorada. Entre os instrumentos refractores que j ento funccionavam, podem citar-se a luneta do observatorio de Pulkowa, na Russia, cujo objectivo mede quinze pollegadas (38 centimetros[89]), em largura, a luneta do constructor francez Lerebours, que tinha um objectivo igual ao da anterior, e finalmente a luneta do observatorio de Cambridge, com um objectivo de dezenove pollegadas de diametro (48 centimetros). A respeito de telescopios, dois eram j conhecidos de notavel fora e de gigantescas dimenses. O mais antigo, construido por Herschel tinha trinta e seis ps de comprimento e um espelho de quatro ps e meio de largura. Com este instrumento se obtinham amplificaes de seis mil por um. O segundo fra construido na Irlanda, em Kreastle no parque de Parsoastown, a expensas de lord Rosse. O comprimento do tubo d'este ultimo era de quarenta e oito ps, e a largura do espelho de seis ps (1 metro e 83 centimetros)[90]; amplificava na proporo de seis mil e quatrocentos para um, e fra necessario construir uma immensa mole de pedra e cal para dispr os apparelhos necessarios para a manobra do instrumento, que pesava vinte e oito mil libras. Mas, como acabmos de ver, apesar d'estas colossaes dimenses, no podra obter-se amplificao em proporo superior a seis mil para um, numeros redondos; ora uma amplificao na proporo de seis mil para um, apenas trs a Lua distancia de trinta e nove milhas (16 leguas), distancia qual os objectos que tem sessenta ps de diametro so apenas perceptiveis, a no ser que sejam extremamente alongados. [Figura: O telescopio das Montanhas penhascosas (pag. 225).] E como no caso em questo, se tratava de um projectil de nove ps de largura por quinze de comprimento, foroso era trazer a Lua a cinco milhas (2 leguas) pelo menos, e n'esse intuito, realisar amplificaes na proporo de quarenta e oito mil para um. [Figura: Interior do projectil (pag. 231).] Era este o problema proposto ao observatorio de Cambridge, a quem smente incumbia resolver difficuldades materiaes, pois que as pecuniarias lhe no tolhiam o passo. Primeiro que tudo, teve o observatorio de optar entre telescopios e lunetas. As lunetas levam certa vantagem aos telescopios. Com igual objectivo, obtem-se por meio de uma luneta amplificaes em proporo mais consideravel, porque os raios luminosos que atravessam as lentes perdem menos pela absorpo de que pela reflexo no espelho metallico do telescopio. Em compensao a espessura de que possivel construir-se uma lente limitada, porque sendo a lente demasiado espessa, no deixa passar os raios luminosos. Alem d'isto a construco das enormes lentes a que nos vamos referindo extremamente difficil e leva um tempo to consideravel, que se mede aos annos. Conseguintemente, apesar de serem as imagens mais illuminadas nas lunetas, vantagem alis de subido preo quando se trata de observar a Lua que apenas emitte luz reflectida, decidiu o observatorio usar de um telescopio que se podia construir com mais promptido e que permittiria obter amplificaes em proporo maior. E como os raios luminosos perdem grande parte da sua intensidade no atravessar da atmosphera, resolveu o Gun-Club que o instrumento fosse assente n'uma das mais elevadas montanhas da Unio, circumstancia esta que havia de diminuir a espessura das camadas aereas atravessadas pela luz lunar. Nos telescopios, como j dissemos, a lente collocada no olho do observador, o ocular, que produz a amplificao, e o objectivo que maiores amplificaes consente, o que tem mais extenso diametro e maior distancia focal. Para conseguir amplificaes na proporo de quarenta e oito mil para um, foroso era ir nas dimenses muito alem das objectivas de Herschell e de lord Rosse. E exactamente ahi que estava a difficuldade, porque a fundio dos espelhos de tal grandeza operao estremamente delicada. Por fortuna, inventra poucos annos antes, um homem de sciencia do instituto de Frana, Lon Foucault, um processo que tornra muito facil e muito rapida a operao de polir os objectivos telescopicos, substituindo os espelhos metallicos por espelhos prateados. Por este processo basta fundir um pedao de vidro do tamanho requerido, metallisar-lhe depois a superficie por meio de um sal de prata, e est construido e polido o espelho. Foi este o processo, de resultados alis excellentes, que se empregou na fabricao do objectivo. Acrescente-se a isto, que o espelho objectivo foi collocado em harmonia com o methodo que Herschell imaginra para os seus telescopios. No grande apparelho do astronomo de Slough vinha a imagem dos objectos reflectida pelo espelho inclinado formar-se no fundo do tubo, na outra extremidade d'elle onde estava collocado o ocular. Por esta disposio o observador, em vez de estar collocado na parte inferior do tubo, iava-se a parte superior d'elle, e d'ali, munido da respectiva lupa, que mergulhava a vista dentro do enorme cylindro. Esta combinao tinha a vantagem de supprimir o espelho pequeno cuja funco reenviar a imagem para o ocular. A imagem passava assim por uma reflexo unica em vez de duas. Por consequencia, menor era a quantidade de raios luminosos extincta, e menos enfraquecida ficava a imagem, obtendo-se portanto maior clareza, vantagem preciosa especialmente na observao que havia a fazer[91]. Tomadas estas resolues, comearam os trabalhos. Segundo os calculos do pessoal do observatorio de Cambridge, o tubo do novo reflector devia ter duzentos e oitenta ps de comprido, e o espelho dezeseis ps de diametro. Por mais colossal que fosse tal instrumento, nem sequer era digno de comparar-se com um telescopio de dez mil ps (3 kilometros e meio) de comprimento, cuja construco o astronomo Hooke propunha ha poucos annos. E no entretanto as difficuldades que apresentava a construco e assentamento, tal como era, j no eram pequenas. A questo da collocao, essa foi de prompto resolvida. Tratava-se de escolher uma elevada montanha, e as montanhas de grande elevao no abundam nos Estados Unidos. Effectivamente, o systema orographico d'aquelle grande paiz reduz-se apenas a duas cadeias de montanhas de mediana altura, entre as quaes corre o magnifico rio Mississipi que os americanos appellidariam o rei dos rios se para elles no fra inadmissivel uma realeza qualquer. A leste, esto os Apalaches, cujo vertice mais elevado, no New-Hampshire, no vae alem de cinco mil e seiscentos ps, altura na realidade extremamente modesta. A oeste, pelo contrario, encontram-se as Montanhas penhascosas, immensa corda que comea no estreito de Magalhes, acompanha a costa occidental do sul com o nome de Andes ou Cordilheiras, transpe o isthmo de Panam e corre atravs da America do Norte at s praias do mar polar. No so muito elevadas estas montanhas; os Alpes ou o Hymalaya podiam com justa raso olha-las de alto da propria grandeza com supremo desdem. Com effeito, o mais alto vertice d'ellas tem apenas dez mil e setecentos ps de altura, ao passo que o monte Branco mede quatorze mil quatrocentos e trinta e nove, e o Kintschindjinga[92], vinte e seis mil setecentos e setenta e seis, acima do nivel do mar. O Gun-Club, porm, visto ter empenho em que o telescopio assim como a Columbiada fossem assentes nos Estados da Unio, teve de se contentar com as montanhas Penhascosas, e mandou dirigir todo o material necessario para a cumiada de Long's Peak, no territorio do Missouri. Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi um verdadeiro _tour de force_. Foi necessario levantar pedras monstruosas, pesadissimas peas forjadas, pilastras de ingente peso, os pedaos enormes do cylindro, o objectivo, que s por si pesava trinta mil libras, e levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais de dez mil ps de altura, e isto depois de ter transposto planicies desertas, florestas impenetraveis, temerosos saltos em torrentes impetuosas, longe dos centros de populao, em meio de regies selvagens em que cada um dos pormenores da existencia se transformava em problema quasi insoluvel. Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube triumphar. Menos de um anno depois do comeo dos trabalhos, pelos ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares o seu tubo de duzentos e vinte e quatro ps de comprido suspenso de um enorme andaime de ferro, manobrando com facilidade por meio de engenhosos machinismos em direco a todos os pontos do cu, e podendo seguir os astros de um a outro extremo do horisonte no decurso da sua marcha atravs do espao. Custra este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A primeira vez que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores uma sensao mixta de curiosidade e inquietao. Que iriam descobrir no campo d'aquelle telescopio que amplificava na proporo de quarenta e oito mil para um as dimenses dos objectos observados? Populaes, rebanhos de animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? No, nada que sciencia no fra j conhecido: a natureza vulcanica da Lua verificou-se com absoluta preciso em todos os pontos do disco. Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao Gun-Club, prestou immensos servios astronomia. Graas ao poder de penetrao de tal instrumento, sondaram-se at aos ultimos limites as profundezas do cu, poderam medir-se com rigor os diametros apparentes de muitas estrellas, e at M. Clarke, membro do pessoal technico de Cambridge, decompoz a _crab nebula_[93] de Taurus, que o reflector de lord Rosse no logrra reduzir. CAPITULO XXV ULTIMOS PORMENORES Contava j vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito n'uma unica operao, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas precaues, e contra o bom resultado da qual ajustra o capito Nicholl a sua terceira aposta. Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil libras de algodo-polvora. Pensra Nicholl, e com justo fundamento talvez, que da manipulao de to formidavel quantidade de pyroxylo haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior no succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se por si mesma sob a presso do projectil. Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bca para carregar uma bomba. Mas l estava Barbicane, que tinha a peito chegar a bom resultado e no naufragar j dentro do porto; que escolheu por consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das suas proprias vistas, no os largando de olho um s momento, conseguindo assim fora de prudencia e de precauo, pr a seu favor todas as probabilidades de bom exito. Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em no mandar a carga inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill, seno a pouco e pouco e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixo tinha capacidade para dez cartuchos, e os caixes am chegando uns aps outros pela via ferrea de Tampa-Town; por esta frma nunca havia a um tempo mais de cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixo que chegava era logo descarregado por operarios descalos, e cada cartucho transportado para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de guindastes manobrados a brao. Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio. J era mais que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro, aquellas massas de algodo-polvora. O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao claro de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que ministrava uma illuminao artificial que chegava ao fundo da Columbiada. Dentro do canho ficavam os cartuchos arrumados com perfeita regularidade e ligados uns aos outros por meio de um fio metallico destinado a conduzir instantaneamente ao centro de cada um d'elles a faisca electrica. E effectivamente por meio da pilha, que se havia de dar fogo aquella massa de algodo-polvora. Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora, iam reunir-se em um s n'um estreito orificio aberto na altura em que o projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a espessa parede de ferro fundido, subindo depois at ao solo por um dos respiradouros do revestimento de pedra, especialmente reservado para este fim. A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo espao de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen munida do competente apparelho de interrupo. Por consequencia logoque que se carregasse no boto do apparelho a corrente electrica restabelecia-se instantaneamente e a dar fogo s quatrocentas mil libras de algodo-polvora. Claro est que a pilha s tinha de funccionar no ultimo momento. A 28 de novembro, j os oitocentos cartuchos estavam arrumados no fundo da Columbiada. Logrra bom exito esta parte da operao. Mas quantos incommodos, quantas inquietaes, quantas luctas tinha soffrido ou sustentado o presidente Barbicane? Debalde prohibra a todos a entrada de Stone's-Hill; todos os dias um ou outro curioso subia por escalada as palissadas, e alguns houve que, levando a imprudencia at loucura, foram pr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de algodo-polvora. Barbicane tinha ataques de furor todos os dias. J.-T. Maston fazia quanto em si cabia para o auxiliar, dando caa aos intrusos com grande vigor, e apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os yankees deitavam para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais de 300:000 pessoas faziam crco em volta das palissadas. Verdade que Miguel Ardan tambem se offerecra para escoltar os caixes at bca da Columbiada; mas o presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria pessoa com um enorme charuto na bca, ao tempo que ia perseguindo alguns imprudentes a quem dava assim to funesto exemplo, logo percebeu que no podia contar com to intrepido fumista, e viu-se obrigado a faze-lo vigiar a elle, e com muita especialidade. Emfim, como certo que ha um Deus especial para os artilheiros, no houve a menor exploso, e conseguiu-se a final pr a carga inteira a so e salvo. Muito duvidosa estava portanto a terceira aposta do capito Nicholl. Faltava s introduzir o projectil na Columbiada e colloc-lo em cima da espessa camada de algodo-polvora. Antes porm de se dar comeo a esta ultima operao, foram collocados e arrumados no wagon-projectil todos os objectos necessarios aos viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado fazer a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo o espao reservado para as pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel francez queria levar para a Lua. Uma verdadeira carregao de inutilidades. Interveio porm Barbicane, e no houve mais remedio de que reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos instrumentos a grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance. Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo mundo, um excellente mappa de Beer e Moedler, o _Mappa selenographico_, publicado em quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de verdadeira obra prima de observao e paciencia. Reproduz este mappa com escrupulosa exactido os mais insignificantes pormenores da face do astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos, crateras, picos, ranhuras, tudo ali se encontra com exactido nas dimenses e fidelidade na orientao e denominaes, desde os montes Doerfel e Leibnitz, cujas altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco at ao _Mare Frigoris_, que se estende pelas regies circumpolares do norte. Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de l porem os ps. Levavam tambem os viajantes tres _riffles_ e tres carabinas de caa do systema de bala explosiva, e alem d'isto grande quantidade de chumbo e polvora. Dizia a este respeito Miguel Ardan: Ns no sabemos com quem vamos l haver-nos; sejam homens ou sejam animaes podem levar a mal que lhes vamos fazer uma visita! Por consequencia convem que cada qual tome as suas precaues. Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de picaretas, alvies, serras de mo e a mais ferramenta indispensavel, sem fallar dos vestuarios adequados para todas as temperaturas, desde o frio das regies polares at aos calores da zona torrida. Miguel Ardan desejava levar na expedio certo numero de animaes, que se no chegava a ser um casal de cada uma das especies conhecidas, porque Ardan no reputava cousa necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem tigres, nem crocodilos, nem quaesquer outros animalejos damninhos. Tanto no, dizia elle a Barbicane, mas alguns animaes de carga, por exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos, no s haviam de fazer bello effeito na paizagem, como nos haviam de servir de grande utilidade. Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do Gun-Club, mas o nosso wagon-projectil que no nenhuma arca de Ne. Nem tem capacidade que chegue, nem para isso foi destinado; por consequencia fiquemo-nos nos limites do possivel. Finalmente, depois de longa discusso, concordou-se em que os viajantes tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de caa que pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de fora prodigiosa. Entraram tambem no numero dos objectos uteis muitas caixas de sementes das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua vontade levaria tambem alguns sacos de terra para as semear. Em todo o caso, sempre foi mettendo a um canto do projectil uma duzia de arbustos embrulhados em bainhas de palha. Restava ainda a questo de viveres, porque necessario era ir prevenido para o caso de arribar a alguma regio da Lua completamente esteril. Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil provises para um anno. necessario acrescentar, para que ninguem d'isto se admire, que estes viveres consistiam em conservas de carnes e legumes, reduzidas ao minimo volume pela aco da prensa hydraulica, que todavia continham grande abundancia de elementos nutritivos; a variedade que no era grande; mas tambem n'uma expedio d'aquellas no era occasio propria para alguem se mostrar niquento. Levavam tambem os viajantes uma reserva de aguardente, que montaria a uns cincoenta galles[94], e agua para dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas observaes astronomicas, j ninguem punha em duvida a existencia de certa quantidade de agua superficie da Lua. Quanto a viveres, reputar-se-a at insensato quem suppozesse que habitantes da Terra no haviam de l encontrar farto alimento. Miguel Ardan no conservava sombra de duvida a tal respeito. Se a conservra por certo no estaria decidido a partir. E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas c da Terra de certo nos no ho de abandonar completamente, antes tero todo o cuidado em nos no esquecer. [Figura: Desde pela manh uma multido... (pag. 236).] --Certamente, respondeu J.-T. Maston. --Como se entende isso? perguntou Nicholl. [Figura: Fogo! (pag. 241).] --Muito simplesmente, respondeu Ardan. Porventura no continua a Columbiada a estar no mesmo logar? Pois ento! no podero mandar-nos obuzes carregados de viveres que ns esperaremos em dias prefixos, por exemplo, todas as vezes que a Lua se apresentar em condies favoraves de zenith, seno de perigeo, isto , quasi uma vez por anno? --Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston como quem l tinha a sua ida; isso que bem dito! De certo, estimaveis amigos, de certo que vos no havemos de esquecer! --Conto com isso! E assim teremos, como acabaes de ver, e com toda a regularidade novidades do globo, e pela nossa parte tambem, s se formos muito pouco habilidosos que no havemos de conseguir pr-nos em communicao com os nossos bons amigos da Terra! Respirava n'estas palavras to grande confiana, que Miguel Ardan com o seu ar resoluto e soberbo denodo teria levado atrs de si o Gun-Club inteiro. Tudo quanto Ardan dizia parecia simples, elementar, facil, de bom exito seguro; era preciso que alguem estivesse na realidade agarrado com muito apoucamento a este miseravel globo terraqueo, para que ouvindo-o se no promptificasse a ser companheiro dos tres viajantes na sua expedio lunar. Logoque ficaram collocados e arrumados no projectil os diversos objectos, introduziu-se entre os respectivos tabiques a agua destinada a amortecer a repercusso, e no recipiente proprio o gaz de illuminao. De chlorato de potassa e de potassa caustica mettra Barbicane, que se arreceiava das demoras imprevistas no caminho, no projectil, quantidade tal d'estas substancias que chegava para renovar o oxygenio e absorver o acido carbonico por espao de dois mezes. A restituio ao ar das suas qualidades vivificadoras e a purificao completa d'elle, estavam a cargo de um apparelho extremamente engenhoso, que funccionava automaticamente. Conseguintemente estava prompto o projectil, e nada mais restava a fazer seno po-lo no fundo da Columbiada, operao alis cheia de difficuldades e de perigos. Conduziram o enorme obuz ao cume de Stone's-Hill, onde ficou seguro e suspenso de possantes guindastes por cima do poo de metal. Aquelle momento foi palpitante! Se succedesse quebrarem-se as cadeias com o enorme peso, a quda de similhante massa seguramente teria produzido instantanea inflammao do algodo polvora. Felizmente no succedeu assim, e algumas horas depois, o wagon-projectil que descra lentamente pela alma do canho, descansava em cima da sua cama de pyroxylo, verdadeiro _dredon_ fulminante. O unico resultado que veio da presso do projectil foi ficar mais atacada a carga da Columbiada. Perdi, disse o capito, entregando ao presidente Barbicane a quantia de tres mil dollars. Barbicane no queria receber dinheiro de um companheiro de viagem; teve porm que ceder perante a obstinao de Nicholl, que tinha empenho em satisfazer quantos compromissos contrahra, antes de deixar a Terra. vista d'isso, disse Miguel Ardan, s uma cousa tenho a desejar-vos, meu estimavel capito. --Qual? perguntou Nicholl. --Que vos dem igual proveito as outras duas apostas. Se assim succeder, estaremos seguros de no nos ficarmos no caminho. CAPITULO XXVI FOGO! Chegra o primeiro dia de dezembro, dia fatal, porque se a partida do projectil se no effeituasse n'aquella mesma noite s dez horas quarenta e seis minutos e quarenta segundos da tarde, mais de dezoito annos haviam de decorrer antes que a Lua volvesse a apresentar-se nas mesmas condies simultaneas de zenith e perigeo. O tempo estava magnifico; apesar da proximidade do inverno, o sol resplandecia e banhava com seus radiantes effluvios aquella mesma Terra que tres dos habitantes d'ella am abandonar em troca de um mundo novo. Quanta gente mal dormiu durante a noite que precedeu aquelle dia com tanta impaciencia desejado! Quantos peitos opprimidos pelo pesado fardo da anciedade! Todos os coraes palpitaram de inquietao, excepto o corao de Miguel Ardan. Este personagem impassivel andava de c para l com o seu ar habitual de quem tem muitos affazeres, mas nada denunciava n'elle preoccupao insolita. Dormira a somno solto, como dormia Turenne antes da batalha, encostado ao reparo de um canho. Desde pela manh innumeravel multido cobria as planicies que se estendem a perder de vista em torno de Stone's-Hill. De quarto em quarto de hora chegava pela via ferrea de Tampa-Town um comboio carregado de novos curiosos; em breve espao assumiu aquella emigrao propores fabulosas; segundo a estatistica do _Tampa-Town Observer_, pisaram, n'aquelle dia memoravel, o solo da Florida cinco milhes de espectadores. Havia j um mez que a maior parte d'aquella multido acampava em volta do recinto, dando comeo fundao de uma cidade que depois se chamou Ardan's-Town. A planicie estava coberta de abarracamentos, cabanas, choupanas e tendas, habitaes ephemeras que davam guarida a uma populao bastantemente numerosa para causar inveja s maiores cidades da Europa. Ali tinham representantes todos os povos da Terra, fallavam-se ali a um tempo todos os dialectos do mundo. Dir-se-a que reinava l a confuso das linguas como nos tempos biblicos da torre de Babel. Ali se confundiam em absoluta igualdade as diversas classes da sociedade americana. Banqueiros, lavradores, maritimos, moos de recados, corretores, cultivadores de algodo, negociantes, barqueiros, magistrados, tudo ali se acotovelava com sem cerimonia primitiva. Fraternisavam os creoulos da Luiziania com os fazendeiros da Indiana; os _gentlemen_ do Kentucky e do Tenessee, os virginienses elegantes e altivos mettiam conversa com os caadores semi-selvagens dos Lagos, e com os contratadores de gado de Cincinnati. Usavam na cabea chapu de castor branco de aba larga ou o classico panam, vestiam cala de guinguamp azul, das fabricas de Opelousas, envolviam o corpo nas dobras de elegantes blusas de cotim cru, e os ps em botins de cores brilhantes, trazendo em exposio extravagantes bofes de fina cambraia, e fazendo scintillar nos peitos das camisas, nos punhos, nas gravatas, nos dez dedos, e at nas orelhas, um sortimento completo de anneis, cadeias, argolas e _breloques_, cujo mau gosto corria parelhas com o subido preo. Outras tantas mulheres, creanas e creados, em trajes no menos opulentos acompanhavam, seguiam, precediam ou rodeiavam aquelles maridos, paes ou amos, que mais pareciam chefes de tribu cercados das innumeraveis familias. Era cousa digna de ver-se aquella gente toda s horas de refeio deitar-se s iguarias peculiares dos Estados Unidos e devorar, com appetite ameaador para o abastecimento de viveres da Florida, alimentos que causariam repugnncia a qualquer estomago europeu, taes como rs de fricass, macacos estufados, fish-chowder[95], sarigua assada, opossum ainda em sangue, ou racoon na grelha. Mas em compensao tambem, que variada serie de licores e de bebidas para facilitar a digesto d'aquelles indigestos alimentos! Que gritos excitantes, que vociferaes convidativas echoavam nos _bar-rooms_ ou nas casas de pasto profusamente adornadas de copos, cangires, frascos, garrafas brancas e pretas de frmas inverosimeis, de almofarizes para pisar o assucar, e de mlhos de palha! Aqui ha o julepe de hortel! gritava o dono de um estabelecimento em tom retumbante. --Prompta! a _sangaree_ de vinho de Bordus! replicava outro em voz de pipia. --E o _gin-sling_, repetia o segundo. --E o _cocktail_! e _brandy-smash_! gritava o primeiro. --Quem quer provar do verdadeiro _mint-julep_, ultima moda? gritavam alguns destros vendedores, fazendo passar com rapidez de um para outro copo, como qualquer prestidigitador faria a uma noz muscada, o assucar, o limo, a hortel verde, o glo partido, a agua, o cognac e o anans de que se compe aquelle refresco. Habitualmente, repetiam-se e cruzavam-se no ar, produzindo infernal barulho, aquelles incitamentos dirigidos s guellas seccas pela aco abrasadora das especiarias. Mas n'aquelle dia, no primeiro de dezembro, eram raros os gritos. Tambem bem poderiam os vendedores enrouquecer a provocar os freguezes, que todos os seus esforos seriam baldados. Ninguem pensava em comer nem beber; quantos espectadores circulavam por entre a multido, que s quatro horas da tarde ainda nem tinham comido o seu _lunch_ do costume! Symptoma ainda mais significativo, a paixo violenta dos americanos pelo jogo fra vencida pela emoo. Quem visse os paulitos do _tempins_ deitados no cho, os dados do _creps_ a dormir nos copos, a _roleta_ immovel, o _cribbage_ abandonado, as cartas do _whist_, do vinte e um, do _rouge et noire_, do _monte_ e do _faro_ socegadamente fechadas em seus envolucros intactos, logo comprehendia que o acontecimento do dia absorvra qualquer outra necessidade, e no deixra logar para distraces. At noite correu pela multido anhelante uma agitao surda, sem clamores, como a que precede as grandes catastrophes. Dominava os espiritos uma ancia indescriptivel, um torpor pesado, um sentimento indefinivel que opprimia o corao. O que todos desejavam era que j estivesse tudo acabado. Entretanto, por volta das sete horas, dissipou-se repentinamente aquelle pesado silencio. Nascia ento a Lua no horisonte, e muitos milhes de _hurrahs_ lhe saudaram a appario. Era exacta ao _rendez-vous_. Subiram os clamores at aos cus, rebentaram applausos de todos os lados, e a loura Phoeba brilhava serena no cu admiravel acariciando com os mais affectuosos de seus raios a multido innebriada. N'aquelle momento appareceram os tres intrepidos viajantes. Ao v-los, redobraram em intensidade os clamores. Unanimemente, instantaneamente, soltou-se de todos aquelles peitos anhelantes a cano nacional dos Estados Unidos, e o _Yankee doodle_, repetido em cro por cinco milhes de cantores, ergueu-se como uma tempestade sonora at ao extremo limite da atmosphera. Depois, passado aquelle primeiro e irresistivel arranco de enthusiasmo, emmudeceu o hymno, extinguiram-se pouco e pouco as derradeiras harmonias, os echos perderam-se no espao, e vagueou por sobre a multido to fundamente impressionada um rumorejar silencioso. No entretanto, o francez e os dois companheiros tinham transposto o recinto reservado em torno do qual se apertava a multido immensa. Acompanhavam-nos os socios do Gun-Club e as deputaes enviadas pelos differentes observatorios europeus. Barbicane ia frio e sereno e dava tranquillamente as ultimas ordens. Nicholl, de beios apertados e mos encruzadas atrs das costas, caminhava com passo firme e pausado. Miguel Ardan, sempre despreoccupado, em traje de perfeito viajante, polainas de coiro nos ps, bolsa de viagem a tiracolo, mochilla s costas, a nadar dentro do amplo fato de velludo castanho, de charuto na bca, distribuia na passagem cordeaes apertos de mo com prodigalidade de principe. Prosa e alegria nunca lhe faltavam; ria, chalaceava e fazia ao digno J.-T. Maston partidas de garoto, n'uma palavra mostrava-se francez, e, o que peior , parisiense at ao ultimo segundo. Soaram dez horas. Era chegado o momento de tomar logar dentro do projectil, porque a manobra necessaria para descer, o aparafusar da chapa-tampa, e a safa dos guindastes e andaimes que pendiam dentro das fauces da Columbiada, sempre haviam de levar ainda algum tempo. Barbicane regulra o seu chronometro, com erro inferior a um decimo de segundo, pelo do engenheiro Murchison, encarregado de dar fogo polvora, por meio da fasca electrica; d'esta maneira os viajantes podiam, encerrados dentro do projectil, seguir com os olhos o ponteiro impassivel que havia de marcar o instante exacto da partida. Chegra o momento das despedidas. Foi uma scena tocante. Miguel Ardan, apesar de toda a sua febril alegria, sentiu-se commovido. J.-T. Maston logrra encontrar sob as aridas palpebras uma velha lagrima que estava como de reserva para aquella occasio, e que o bom do secretario verteu na fronte do seu caro e estimavel presidente. E se eu tambem fosse? disse elle, ainda estmos a tempo! -- impossvel, meu velho Maston, respondeu Barbicane. Poucos instantes depois, estavam os trs companheiros de viagem installados no projectil, cuja chapa-porta tinham aparafusado pela parte de dentro, e abria-se livremente para o cu, inteiramente desembaraada a bca da Columbiada. Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan estavam definitivamente entaipados no wagon de metal. Quem poderia pintar a anciedade universal, que ento attingra ao seu paroxysmo? A Lua a caminhando n'um firmamento de limpida pureza, e apagando na passagem os lumes scintillantes das estrellas; percorriam aquelle momento a constellao dos Gemeos e estava a igual distancia do horisonte e do zenith. Para todos era facil de comprehender que a pontaria era feita adiante do alvo, como a faz o caador que aponta adiante da lebre que quer ferir. Pesava por sobre aquella scena toda um silencio atterrador. Nem um sopro de vento na terra! Nem um suspiro de tanto peito. Nem os coraes ousavam palpitar. Os olhos fixavam-se todos como que assustados nas fauces abertas da Columbiada. Murchison seguia com os olhos o ponteiro do chronometro. Faltavam apenas quarenta segundos para soar o instante da partida. Cada segundo parecia um seculo. Ao bater do vigesimo segundo tudo estremeceu; que accudra ao pensamento d'aquella multido que tambem os audaciosos viajantes encerrados no projectil contavam aquelles segundos terriveis! Soltaram-se ento gritos isolados que diziam: Trinta e cinco! trinta e seis! trinta e sete! trinta e oito! trinta e nove! quarenta! Fogo!!! No mesmo instante, Murchison, carregando com o dedo no interruptor do apparelho, restabeleceu a corrente electrica e lanou a fasca para o fundo da Columbiada. Instantaneamente produziu-se uma detonao horrorosa, inaudita, sobrehumana, de que cousa alguma poderia dar ida, nem o ribombar do trovo, nem o estampido das erupes. Das entranhas do solo, como de uma cratera, surgiu um jacto immenso de fogo. A terra tremeu e abriu-se, e apenas um ou outro espectador pde por instantes entrever o projectil que fendia victoriosamente os ares envolto em chammejantes vapores. CAPITULO XXVII CU ENCOBERTO No momento em que se ergueu para os cus, at prodigiosa altura, o jacto incandescente, a effuso de labaredas illuminou a Florida inteira; por inapreciaveis instantes, tornou-se a noite em claro dia n'uma extenso consideravel de territorio. Aquelle immenso penacho de fogo viu-se a cem milhas de distancia no mar, tanto no Atlantico como no golpho, e mais de um capito de navio notou no diario de bordo a appario d'aquelle gigantesco meteoro. A detonao da Columbiada foi acompanhada de um verdadeiro tremor de terra. A Florida sentiu-se abalada at s entranhas. Os gazes da polvora, dilatados pelo calor, repelliram com violencia incomparavel as camadas atmosphericas, e aquelle furaco artificial, cem vezes mais rapido que o furaco das tempestades, passou como um cyclone atravs dos ares. Nem um s espectador ficou de p; homens, mulheres, creanas, todos foram deitados ao cho, como espigas pela borrasca; houve um inexprimivel tumulto, e grande numero de pessoas que ficaram gravemente feridas. J.-T. Maston, que de encontro a todos os dictames da prudencia estava perto de mais, foi arremessado a vinte toezas de distancia, e passou por sobre as cabeas dos seus concidados como uma bala. Trezentas mil pessoas ficaram por alguns momentos surdas, e como que tocadas de estupor. A corrente atmospherica depois de ter derrubado os abarracamentos, de ter virado de pernas ao ar cabanas, de ter desarreigado arvores, n'um raio de vinte milhas, de ter impellido os comboios do caminho de ferro at Tampa, caiu sobre a cidade como uma _avalanche_, destruindo um cento de casas, entre outras a igreja de Saint-Mary, e o novo edificio da Bolsa, que abriu fendas em toda a sua extenso. Algumas das embarcaes surtas no porto, abalroando umas de encontro s outras, foram a pique, e uns dez navios fundeados no molhe foram at costa, partidas as amarras como fios de algodo. Mas o circulo das devastaes estendeu-se muito mais ao largo, ainda alem dos limites dos Estados Unidos. O effeito da repercusso, auxiliado pelos ventos de oeste, fez-se sentir no Atlantico a mais de trezentas milhas das praias da America. Arremessou-se por sobre os navios com inaudita violencia uma tempestade artificial, uma tempestade inesperada, que nem o almirante Fitz-Roy podra prever; muitas embarcaes envolvidas n'aquelles horrorosos turbilhes, sem tempo sequer para colher panno, sossobraram a panno largo, entre outros o _Childe-Harold_, de Liverpool, catastrophe esta muito para lamentar, que deu origem a recriminaes violentas por parte da Inglaterra. Finalmente, para tudo relatar, aindaque o facto no offerea maior garantia do que a affirmao de alguns indigenas, asseguram os habitantes da Gora e de Serra Lea ter ouvido, meia hora depois da partida do projectil, um abalo surdo, derradeiro fremito das ondas sonoras, que depois de terem atravessado o Atlantico, vinham morrer nas plagas africanas. Mas volvmos Florida. Passados os primeiros instantes do tumulto despertaram os surdos, os feridos, emfim a multido inteira, e ergueram-se at aos cus clamores freneticos de: hurrah por Ardan! hurrah por Barbicane! hurrah por Nicholl! Milhes de homens de ventas para o ar, armados de telescopios, de lunetas, de oculos de alcance, interrogavam o espao, esquecidos de contuses e emoes, para se occuparem exclusivamente do projectil. Mas debalde pesquisavam, que o projectil j no podia ver-se, e fora era resignar-se a esperar pelos telegrammas de Long's-Peak. [Figura: Effeito da detonao (pag. 243).] O director do observatorio de Cambridge[96] estava no seu posto, que a elle, astronomo habil e perseverante, que tinham sido confiados os trabalhos de observao. Porm um phenomeno imprevisto, alis facil de prever, e contra o qual nada havia a fazer, veiu dentro em pouco submetter a dura prova a impaciencia publica. [Figura: O director estava no seu posto (pag. 245).] O tempo at ali to bello, mudou do repente, o cu de subito toldado cobriu-se de nuvens. Nem podia deixar de assim succeder, depois da terrivel deslocao das camadas atmosphericas e da disperso de to enorme quantidade de vapores, producto da deflagrao de quatrocentas mil libras de pyroxylo. A ordem natural fra completamente perturbada. Nem cousa que cause admirao, visto como, nos combates navaes, por vezes se tem observado repentinas modificaes do estado atmospherico, exclusivamente causadas pelas descargas de artilheria. No dia seguinte surgiu o sol de um horisonte carregado de espessas nuvens, pesado e impenetravel vu estendido entre o cu e a terra, e que por desgraa alcanava at s regies das montanhas Penhascosas. Foi uma fatalidade. Ergueu-se de todos os cantos do globo um concerto de reclamaes. A natureza porm pouco se commovia; decididamente j que os homens tinham perturbado a atmosphera com a detonao, justo era que lhe soffressem as consequencias. No decurso do primeiro dia todos diligenceavam penetrar o opaco vu de nuvens; baldados esforos! Deve tambem notar-se que todos se enganavam levantando os olhos para o cu, porque em consequencia do movimento diurno do globo, o projectil corria n'aquelle momento pela linha dos antipodas. Fosse como fosse, quando a Lua volveu acima do horisonte, envolvida como estava a Terra em noite impenetravel e profunda, foi impossivel distinguir o astro das noites; era caso para dizer que a Lua de proposito se furtava s vistas dos temerarios que lhe tinham atirado. Consequentemente no havia possibilidade de observao, e os despachos de Long's-Peak no fizeram mais do que vir confirmar aquelle desagradavel contratempo. Entretanto, se que a experiencia logrra feliz exito, os viajantes que tinham partido no 1.^o de dezembro s dez horas quarenta e seis minutos e quarenta segundos da tarde, deviam chegar no dia 4 meia noite, e portanto at quella epocha, e visto como, por fim de contas, sempre havia de ser muito difficil observar em taes condies corpo to pequeno como o obuz, todos se mostraram pacientes sem grande alarido. A 4 de dezembro, das oito horas da tarde at meia noite devia ser possivel seguir o rasto do projectil, que devia apparecer qual ponto negro no disco brilhante da Lua. Mas o cu conservou-se encoberto sem piedade, facto que levou a exasperao publica ao paroxysmo. Chegaram at a injuriar a Lua, s porque se no mostrava. Triste compensao das cousas d'este mundo! J.-T. Maston, desesperado, partiu para Long's-Peak. Desejava observar por seus proprios olhos. No lhe restava duvida de que os amigos deviam ter chegado ao termo da viagem. E tambem a ninguem constava que o projectil tivesse tornado a car em qualquer ponto das ilhas ou dos continentes terrestres, e J.-T. Maston no queria admittir nem por instantes a possibilidade da quda nos oceanos que cobrem as tres quartas partes da extenso do globo terraqueo. No dia 5, tempo, o mesmo. Os grandes telescopios do velho mundo, o de Herschell, o de Rosse, o de Foucault estavam invariavelmente apontados para o astro das noites, porque o tempo na Europa estava exactamente n'aquella occasio magnifico; mas o pouco alcance relativo de taes instrumentos, impedia qualquer observao util. No dia 6, tempo, o mesmo. Mordiam-se de impaciencia as tres quartas partes do globo. Chegaram a propor-se os meios mais insensatos para dissipar as nuvens accumuladas no ar. No dia 7, pareceu que o estado do cu se modificava um tanto. Renasceu a esperana, mas no durou por muito tempo; noite, j as nuvens de novo acastelladas defendiam a abobada estrellada contra todas as inspeces. O caso ento tornou-se serio. Effectivamente no dia 11, s nove horas e onze minutos da manh devia a Lua entrar no ultimo quarto. Passado esse momento havia de ir declinando, e aindaque o cu limpasse diminuiriam notavelmente as probabilidades de observao; com effeito a Lua havia de mostrar ento uma parte sempre decrescente do disco, at tornar-se em Lua nova, isto , at que nascesse e se pozesse simultaneamente com o Sol, cujos raios a tornariam absolutamente invisivel. Seria portanto necessario esperar at 3 de janeiro at ao meio dia e quarenta minutos para que voltasse a Lua cheia, e se podessem recomear as observaes. Os jornaes publicavam estas reflexes com mil commentarios, e no occultavam ao publico, que era necessario armar-se de angelica paciencia. No dia 8, nada. No dia 9 o sol appareceu por um instante como para zombar dos americanos. Cobriram-no de vaias, e offendido, certamente com tal acolhimento, mostrou-se avaro de seus raios. No dia 10, nada de mudana. J.-T. Maston ia enlouquecendo, chegou a haver suas apprehenses em relao ao cerebro daquelle estimavel cavalheiro, to bem conservado at ento, pelo seu craneo de gutta-percha. No dia 11 porm desencadeou-se na atmosphera uma d'aquellas horrorosas tempestades privativas das regies inter-tropicaes. Varreram fortes ventaneiras de leste as nuvens ha tanto tempo encastelladas, e noite o disco meio corroido do astro das noites ostentou-se magestoso por entre as limpidas constellaes do cu. CAPITULO XXVIII UM ASTRO NOVO N'aquella mesma noite, a palpitante nova com tanta impaciencia esperada rebentou como um raio nos Estados da Unio, e d'ali correndo atravs do oceano, percorreu todos os fios telegraphicos do globo. O projectil fra visto, graas ao gigantesco reflector de Long's-Peak. Eis a nota redigida pelo director do observatorio de Cambridge, que contm as concluses scientificas da grande experiencia do Gun-Club. Long's-Peak, 12 de dezembro.--Aos ex.^{mos} srs. membros do pessoal technico do observatorio de Cambridge. O projectil arremessado pela Columbiada de Stone's-Hill foi visto pelos srs. Belfast e J.-T. Maston, no dia 12 de dezembro, s oito horas e quarenta e sete minutos da tarde, j a Lua entrra no ultimo quarto. O projectil no deu no alvo, passou-lhe ao lado, mas todavia bastantemente proximo para ficar retido pela attraco lunar. Chegado ali, transformou-se-lhe o movimento rectilineo em movimento circular de rapidez vertiginosa, e actualmente percorre uma orbita elliptica em volta da Lua, da qual se tornou verdadeiro satellite. Os elementos do novo astro no poderam ainda determinar-se. Nem conhecida a sua velocidade de translao, nem a de rotao. A distancia a que est da superficie da Lua, pde avaliar-se em duas mil oitocentas e trinta e tres milhas approximadamente. N'estes termos, uma de duas hypotheses pde realisar-se, que ha de ter por consequencia modificao no actual estado de cousas. Ou vencer a attraco da Lua, e n'este caso chegaro os viajantes ao termo da sua viagem; Ou o projectil mantido n'uma ordem immutavel, gravitar at final dos seculos em volta do disco lunar. o que nos ho de dizer um dia as observaes; at agora porm, a tentativa do Gun-Club no colheu outro resultado seno enriquecer com um astro novo o nosso systema solar.--_J. T. Belfast_. Quantos problemas surgiram d'esta inesperada soluo! Que situao cheia de mysterios reservava o futuro s investigaes da sciencia! Graas coragem e dedicao de tres homens, aquella empreza apparentemente asss futil, de arremessar uma bala Lua, acabava de ter um resultado immenso, e cujas consequencias eram incalculaveis. Os viajantes encerrados no novo satellite, se no tinham realisado o seu fim, faziam pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em torno do astro das noites, cujos mysterios o olho do homem a pela vez primeira penetrar. Os nomes de Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan devem portanto para todo o sempre ser celebrados nos fastos da astronomia, porque estes ousados exploradores, avidos de alargar o circulo dos conhecimentos humanos, lanaram-se audaciosamente atravs do espao, e jogaram a vida na mais notavel tentativa dos tempos modernos. Como quer que fosse, logoque foi do dominio publico a nota de Long's-Peak, apossou-se do universo inteiro um sentimento de surpreza e de espanto. Acaso seria possivel prestar auxilio quelles ousados habitantes da Terra? No, por certo, que se tinham collocado fra da humanidade, logo que transpozeram os limites impostos por Deus s creaturas terrestres. Ar podiam elles obte-lo pelo espao de dois mezes. Viveres, levavam-n'os para um anno. Mas depois?... Ao formular-se tal pergunta palpitavam at os coraes mais insensiveis. S havia um homem, um s, que no podia admittir que a situao fosse para desesperar. Um s tinha confiana, e era esse o amigo dedicado dos tristes, e tanto como elles audaz e resoluto, era o estimavel J.-T. Maston. E tambem no os largava de olho. Assentra definitivamente os penates no posto de Long's-Peak, onde tinha por unico horisonte o espelho do immenso reflector. Logoque a Lua surgia acima do horisonte, fixava-a no campo do telescopio e no a perdia de vista nem um momento, seguindo-a com assiduidade na sua marcha atravs dos espaos estellares; observava com eterna paciencia a passagem do projectil pelo disco de prata; na realidade podia dizer-se que o estimavel secretario estava em perpetua communicao com os tres amigos, que ainda, um dia esperava tornar a ver. Havemos de nos corresponder com elles, dizia a quem queria ouvi-lo, logoque as circumstancias o permittam. Havemos de ter novidades de l, e elles tambem as ho de ter de c! E demais, eu conheo-os, so homens engenhosos. Juntos os tres, levaram comsigo para o espao todos os recursos da arte, da sciencia e da industria. Com taes elementos faz-se tudo quanto se quer. Ho de sar-se da difficuldade, e seno veremos! FIM DE DA TERRA LUA. INDICE DOS CAPITULOS Capitulos Pag. I O Gun-Club 5 II Communicao do presidente Barbicane 16 III Effeitos da communicao Barbicane 27 IV Resposta do observatorio de Cambridge 34 V Romance da Lua 40 VI O que no possivel ignorar, e o que j no permittido acreditar nos Estados Unidos 49 VII Hymno da bala 55 VIII Historia do canho 68 IX A questo da polvora 76 X Um inimigo por vinte e cinco milhes de amigos 86 XI A Florida e o Texas 95 XII _Urbi et Orbi_ 103 XIII Stone's-Hill 112 XIV O alvio e a trolha 122 XV Festa da fundio 132 XVI A Columbiada 137 XVII Um despacho telegraphico 147 XVIII O passageiro do _Atlanta_ 148 XIX Um _meeting_ 161 XX Ataque e replica 174 XXI Como um francez arranja uma pendencia de honra 186 XXII O novo cidado dos Estados Unidos 198 XXIII O wagon-projectil 207 XXIV O telescopio das montanhas penhascosas 217 XXV Ultimos pormenores 226 XXVI Fogo! 235 XXVII Cu encoberto 242 XXVIII Um astro novo 249 */ Notas: [1] Escola militar dos Estados Unidos. [2] Papalvo. [3] Litteralmente, club-canho. Pelo sentido, club dos artilheiros. [4] Quinhentos kilogrammas. [5] Cada milha vale 1:609 metros e 31 centimetros. Sete milhas valem approximadamente tres leguas kilometricas. [6] O jornal abolicionista mais enthusiasta dos Estados Unidos. [7] Navalha de folha larga. [8] Governo de si proprio. [9] Administradores da cidade eleitos pelo povo, vereadores. [10] Cadeiras de balouo, muito usadas nos Estados Unidos. [11] De [Grego: seln] (selne), palavra grega, que significa Lua. [12] A jarda vale approximadamente 91 centimetros. [13] Este folheto foi publicado em Frana pelo republicano Laviron, morto no assedio de Roma em 1849. [14] Habitantes da Lua. [15] Approximadamente 11:000 metros. [16] Mistura de rhum, sumo de laranja, assucar, canella e noz moscada. uma bebida de cr amarellada. [17] Bebida horrorosa do povo mais baixo; em inglez litteralmente: _thoroug knoch me down_. [18] Cognome da Nova Orleans. [19] Cem mil leguas. a velocidade da electricidade. [20] _Guarda-vida_ (life-preserver). Arma de algibeira, formada de um feixe de barbas de baleia, ligadas n'uma das extremidades por uma bola de metal. [21] _Muita bulha para nada_, comedia de Shakspeare. [22] _Como vos aprouver_, outra comedia de Shakspeare. [23] Est no texto a palavra _expedient_, que absolutamente intraduzivel em portuguez. [24] O zenith o ponto da abobada celeste, situado na vertical que passa pelo observador. [25] A nebulosa , como se deprehende do texto, um aggregado de alguns milhes de soes ou estrellas que esto entre si a grandissimas distancias. Estes aggregados, por virtude da enorme distancia de cada uma das suas partes terra, apparecem-nos vista simples, como se fossem corpos continuos, nuvens, d'ahi lhes vem a denominao. Exemplo notavel de nebulosa a _via lactea_ ou estrada de S. Thiago, da qual o nosso sol estrella componente. (_Nota do traductor._) [26] Da palavra grega [Grego:galachtos], que significa leite. conhecida vulgarmente pelo nome de estrada de S. Thiago. [27] O diametro de Sirius , segundo Wolaston, doze vezes maior que o do Sol, isto , igual a 4.300:000 leguas. [28] Alguns d'estes astros so to pequenos, que se poderia fazer n'um dia a passo gymnastico uma volta completa em volta d'elles. [29] Vinte e nove dias e meio approximadamente o que dura uma revoluo lunar. [30] Oitocentas e sessenta e nove leguas, um pouco mais da quarta parte do raio da terra. [31] Trinta e oito milhes de kilometros quadrados. [32] Esta a durao da revoluo sideral, isto , intervallo de tempo que ha entre duas passagens consecutivas da Lua pela mesma estrella. [33] Isto de calibre vinte e quatro, que pesa vinte e quatro libras. [34] por esta raso que depois de termos ouvido a detonao da pea j no podemos ser feridos pela bala. [35] Columbiadas chamaram os americanos quellas enormes machinas de destruio. [36] Duzentos e setenta mil ris ao cambio medio de cento e oitenta ris por franco. (_Nota do traductor._) [37] Trinta centimetros: a pollegada americana vale 25 millimetros. [38] Isto , 4 metros e 90 centimetros. distancia a que est a Lua o descenso seria smente de 1 millimetro e 1/3 ou 590 millesimos da linha. [39] Intersticio que existe s vezes entre a bala e a alma da pea, e que provm de no serem exactamente iguaes os diametros. [40] Centesimos do dollar, 36 ris approximadamente. [41] A libra americana vale 453 grammas. [42] Pouco menos de oitocentos metros cubicos. [43] Dois mil metros cubicos. [44] N'esta discusso reivindica o presidente Barbicane para um compatriota seu a inveno do collodion. Em que pese ao estimavel Maston, diremos que ha aqui erro, que vem da similhana de nomes. Em 1847, Maynard, estudante de medicina em Boston, teve, verdade, a ida de applicar o collodion ao tratamento das chagas; mas o collodion j era conhecido desde 1846. a um francez, espirito distincto, homem de sciencia, a um tempo pintor, poeta, philosopho, hellenista e chimico, Luiz Mnard, que cabe a honra d'esta grande descoberta. [45] Navios de guerra americanos. [46] O peso de polvora empregado era apenas um duodecimo do peso do obuz. [47] Oitenta e um mil e trezentos francos ou quatorze contos seiscentos e trinta e quatro mil ris, a cento e oitenta ris o franco. [48] A declinao de um astro a sua distancia ao equador celeste medida no seu meridiano. A ascenso recta o arco do equador comprehendido entre o meridiano do astro e o ponto vernal. [49] Quatorze mil setecentos e sessenta contos de ris ao cambio de novecentos e dezoito ris o dollar. [50] Tres mil seiscentos setenta e dois contos de ris. [51] Duzentos sessenta e cinco contos e quinhentos mil ris. [52] Duzentos e vinte e cinco contos setecentos e sete mil e quatrocentos ris. [53] Noventa e tres contos e seiscentos mil ris. [54] Cincoenta e dois contos novecentos e setenta e oito mil cento e quarenta ris. [55] Cento e sessenta e oito contos setecentos e cincoenta mil ris. [56] Sessenta e dois contos trezentos e oito mil e oitocentos ris. [57] Noventa e dois contos trezentos e quarenta mil ris. [58] Vinte e tres ris e quatro decimos. [59] Quarenta e dois contos trezentos e setenta e dois mil ris. [60] Vinte e um contos cento e trinta e quatro mil quinhentos e vinte ris. [61] Doze contos novecentos e sessenta mil ris. [62] Trinta e seis contos de ris. [63] Seis contos oitocentos e quarenta e dois mil oitocentos e oitenta ris. [64] Trezentos e dez mil oitocentos e sessenta ris. [65] Quarenta e seis mil duzentos e sessenta ris. [66] Cinco mil cento e setenta ris. [67] Duzentos e noventa e dois contos seiscentos e oitenta mil ris. [68] Cinco mil trezentos e treze contos setecentos e setenta e sete mil e doze ris. [69] Noventa e sete mil quinhentos e sessenta ris. [70] Proximamente duzentas leguas. [71] 84^o do thermometro Fahrenheit, que equivalem a 28 do thermometro centigrado. [72] Riacho. [73] 15 365:440 hectares. [74] Gastaram-se nove annos para abrir o poo de Grenelle, que tem quinhentos e quarenta e sete metros de altura. [75] Seiscentos quarenta e dois contos, quarenta e dois mil trezentos e sessenta ris. [76] Em termo vulgar, vedor. (_Nota do traductor_.) [77] Collina das pedras. [78] A contar do meridiano de Washington. A differena para o meridiano de Lisboa de 67^o 56' 31",35. Esta longitude portanto, em relao ao meridiano de Lisboa 73^o 3' 31",35 O. (_Nota do traductor_.) [79] Tin, especie de cavalete. [80] 40 graus centigrados. [81] Tres mil e seiscentos metros, proximamente. [82] Em portuguez chama-se vulgarmente ferro fundido (traduco do termo francez fonte de fer) no ao ferro puro em fuso ou depois de ter sido fundido, mas a um carbonato silicioso de ferro que se obtem submettendo o minerio de ferro a differentes operaes. (_Nota do traductor_.) [83] Cidade da Lua. [84] Quatrocentos e trinta e tres contos e seiscentos mil ris. [85] Mystification. Mystificao. [86] Paixo dominante. [87] A inclinao do eixo de Jupiter, sobre a sua orbita, apenas de 3^o 6'. [88] Ponto onde se reunem os raios luminosos depois de refractos. [89] Custou oitenta mil rublos, isto , cincoenta e sete contos e seiscentos mil ris. [90] De muitas outras lunetas reza a chronica que tinham bem maior comprimento, entre outras uma construida por iniciativa de Domingos Cassini, no observatorio de Paris, que tinha trezentos ps de foco; convem todavia saber que taes lunetas no tinham tubo. O objectivo estava suspenso nos ares por meio de mastros, e o observador collocava-se com a possivel exactido no foco do objectivo, com o ocular na mo. bem patente quo pouco commodo haveria de ser o emprego de taes instrumentos, e a difficuldade que haveria em ajustar os centros de duas lentes collocadas em similhantes condies. [91] Esta especie de reflectores chamam-se front view telescope, isto telescopios de viso directa. [92] O mais alto cume do Hymalaya. [93] Nebulosa que tem a frma de um carangueijo. [94] Duzentos litros approximadamente. [95] Comida composta de diversos peixes. [96] J. M. Belfast. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correco | +----------+---------------------+----------------------+ |#pg. 106| briram-se | Abriram-se | |#pg. 107| trinte | trinta | |#pg. 111| surpeza | surpreza | |#pg. 202| todos as dimenses | todas as dimenses | |#pg. 223| annos annos | annos | |#pg. 236| falubosas | fabulosas | | | | | |#nota 9| eleito | eleitos | +----------+---------------------+----------------------+ Os nomes prprios foram mantidos tal e qual como surgiram impressos. License: Share Alike