Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search) O MARQUEZ DE POMBAL LUZ DA PHILOSOPHIA ANGELINA VIDAL O MARQUEZ DE POMBAL LUZ DA PHILOSOPHIA LISBOA IMPRENSA DA VIUVA SOUSA NEVES 65, Rua da Atalaia, 67 1882 A CAMILLO CASTELLO BRANCO ESCRIPTOR ILLUSTRE Estamos em pleno jubileo. Cada poca traz o seu cunho caracteristico de exagero, e tristes dos que se affoutam a soltar qualquer nota discordante no concerto da lisonja publica. No meio d'este anemico paiz vibra ainda uma corda vocal, a ultima-- a maledicencia. Este facto pathologico porm de modo tal inoffensivo, que minuciosamente estudada a sua etiologia, conclue-se que por unica therapeutica deve applicar-se-lhe o despreso. Insultar uma necessidade to inherente ao organismo patrio, que se o indigena no houvera a quem fazel-o, insultar-se-hia a si mesmo. No se combatem principios; oppem-se abusos a abusos; communho da Liberdade no se admittem cerebros livres; tem de annullar-se a consciencia, em honra do opportunismo. Para ser-se _immortal_ pedem-se as credenciaes aos monarchas da opinio, e inscreve-se o pretendente nos clubs do elogio mutuo; no economico, porque importa a dignidade dos candidatos; mas custa menos do que fazer-se eleger deputado de qualquer partido. Eu porm affasto-me dos microscopicos fetiches, para venerar to s os privilegiados do talento, e tenho bastante valor para arrostar com os desdens do enfatuamento ignaro. Democrata convicta, e evangelisadora do livre exame--em ethica, sciencia, e politica, manifesto amplamente as opinies do meu espirito, com a altiva independencia de quem se habituou a superar os diques verminosos da srdida mesquinhez. Por isso estendo fraternamente a mo ao glorioso mestre da patria lingua, e saudando o fecundo engenho do athleta da litteratura portugueza, offereo-lhe despretenciosamente estes humildes versos. Lisboa 30 de abril de 1882. _Angelina Vidal._ I Um cro de ovaes se eleva norte a sul; No seio do paiz, palpita a festa ingente, Mil eccos de alegria ondulam pelo azul, E a vaga popular circula vivamente. Que enorme vibrao aos tristes galvanisa? Que fado deslumbrante a Patria considera? Una rasgo de valor que um mundo synthetisa? Um estro que irradia a Gloria pela esphera? Um Genio que assombrasse o corao do mundo? Talvez Dante ou Cames, talvez um Diderot, Ou Bacon, ou Voltaire o destructor profundo, Feurbach ou Galileo, Danton, Goethe, Rousseau? Oh no! A Patria canta o athleta da Realesa, O Hercules pujante, o pulso sem rival Que punha at por terra as leis da Naturesa, Mas que tambem erguia a fama Nacional. Thuribulisem pois o nome do gigante, Incensem sem descano o esteio da cora, O facho da instruco, o genio penetrante, Que de um monto de cinza ergueu nova Lisboa! Cantae, Democracia; o espirito do bravo, Que o nivel fez rolar por sobre a Sociedade, Prostrando o jesuitismo, ou libertando o escravo, Quebrando inquisio as garras da maldade. Lisonja, ergue a Pombal um hymno de louvores! Reala o que brilhante, esconde o que medonho! Cerrae a porta Historia, novos pensadores! O mal no existiu; falsidade, sonho! II Nove horas; a cidade acorda sob um ceu De christalino azul, de transparente veu; Movimenta-se a pouco a gente nas viellas, Adornam-se com arte as donas e donzellas, E os sinos vo chamando os fervidos catholicos Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos. Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito Se curvam brandamente; habita em cada peito A prece fervorosa, os orgos gemem notas Que fazem palpitar as candidas devotas. Ha como que um sereno e doce mysticismo Que leva os coraes, em nuvens de idealismo, Aos pramos do ignoto, aos vagos paradisicos, Onde a crena cultiva os lirios metaphisicos. Nas praas, os pees, laboram tristemente, E n'uma gelosia um vulto sorridente Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos. Passa s vezes um nobre envolto em bons arminhos, E alinham-se na rua, porta dos conventos, Os novos com preguia, e os velhos sem proventos. De repente porm, um intimo ruido Se escuta assustador na entranha da cidade! Depressa lhe succede horrivel alarido, E um turbido baquear, em toda a extensidade. Oscilla cada predio, e cahem pelo slo Desfeitos como em p os rijos edificios; E a misera Lisboa, afflicta, plo a plo Vomita o seu terror, por igneos orificios. Fogem as mes tremendo, os filhos junto ao seio, E correm a acolher-se aos templos do Senhor; Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio Ahi se expe um quadro escuro e aterrador. Abobadas cahindo em cima dos altares, E o padre surpreendido em meio dos cantares, Sem voz, sem movimento, a par de uma madona Que ha muito se ostentava em seu painel de lona. Creanas a chorar, columnas em pedaos, Soluos do estertor, e aqui e alm uns braos Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!... Nas ruas e jardins no menor o susto. Rodou rapidamente o nivel da desgraa! S resta enorme entulho onde era alegre praa, E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes, Erguem linguas de fogo, em clidos queixumes. Estala o velho tronco ao cedro gigantesco, E paira em tudo o horror mortifero e dantesco. E para cumular o quadro de afflices, O Tejo, saccudindo os pardos turbilhes, Devora febrilmente as ruinas rescaldantes, E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes, E abrindo o corao, sedento de vingana, Abysma o forte, o fraco, o velho, a me, a creana! E como se o terror gerasse a crueldade, Para opprobrio veraz da cra humanidade, No cahos tumulento anda essa immunda plebe Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe, Sob as nuvens de fumo e pulsaes do fogo. E o rei e o seu ministro? Accaso n'esse jogo Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo Ousaria esquecer um rei que _fidelissimo_? Quem sabe se tero cahido do vaivem? Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem? ........................................... Depressa chega ali a nova deploravel; Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel Envolve em lucto e pranto innumeros vares. Entreolham-se a tremer, e logo as oraes Se elevam para o ceu como espiraes de dr. El-rei branco de susto, os filhos com pavor Percorrem os sales, idiotas e perplexos. Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos, E um vulto erecto e firme encara D. Jos; Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus O horrivel cataclysmo! E agora, que afflico! Que havemos de fazer em tal destruio? Arde toda a cidade, e esto vasios os portos --Salvemos quem viver, demos terra os mortos.-- Responde friamente o imigo da utopia. E longe de invocar a Deus ou a Maria, Expede ordens de cunho e toma arduas medidas, Alenta sem delonga as perigadas vidas, Corta os braos chamma, e tolhe o passo fome; Liberta o infeliz da angustia que o consome, E ahi onde o devasso um roubo perpetrava, Ahi a forca bruta morte o condemnava. ......................................... Annos depois surgia a nova capital N'um throno que assentava em bases de christal. III Que borburinho esse? O Porto anda revolto? Que foi que se passou? Como que invade a praa o povo irado e solto, Se tanto laborou El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto? Se ha tanto beneficio, exforos to visiveis Em prol da causa publica, Como podem brotar reprovaes sensiveis, Como que a ideia nublica No acha na Raso um dique d'impossiveis? O povo desgraado, affirma a humana Historia, Mataram-lhe o Direito, E forara-n'o a seguir a negra sorte ingloria, Calado, contrafeito, Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria! Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar; A ignara populaa. O monopolio rouba-a, era mister luctar! E logo, a plebea raa Reclama valorosa, em vez de supplicar. Mas o ministro excelso havia j disposto Das cousas do alto-Douro; Vivesse embora a Patria em noute de desgosto. Os cofres tinham ouro... Que importa se a Raso traz lagrimas no rosto? Por isso se indignou o esteio da Realesa, E os raios da vingana Fabrica muito pressa, e envia com prestesa popular esp'rana Fundada na intuio das leis da Naturesa. E aps, hrrido insulto crena humanitaria! Por um delicto falso Estende-se no Porto a rede sanguinaria, E o torpe cadafalso Arranca friamente a vida ao triste paria! Creanas sem vigor, rojadas sobre a rua, Foraram-se a seguir O sacrificio immano, onde o valor recua, E a ver a me subir A via da amargura, e escarnecida e nua! E um homem venerando, um martyr impolluto Que a Consciencia chora, O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto, Sereno como a aurora, L foi tambem lanado morte, ao cho do lucto! O que ha que justifique o horror de taes supplicios? Que espirito medonho, No treme ao ver a morte, aoutes, e os exicios? No julga quasi um sonho Que um homem s, profunde infindos precipicios? Quem ha que no palpite em plena indignao Olhando um nobre velho Manchado pela affronta, exposto impia aco. Pondo um lastro vermelho, Na terra onde semeia a intima afflico. Quem ha que no suspire, ao ver a mulher casta, Violada em seu pudor, Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta Nas ancias do terror, Maldita pelo algoz, que sepultura a arrasta? Se o Homem fra um monstro, um tigre em sangue absorto, Comquanto fra filho, Havia de exprobar ao potentado morto O mortuario trilho Que abriu com turvo affan no corao de Porto! Se a Me fosse mais fera ainda que a lea, Comquanto fosse Me, Havia de olvidar o astro de Lisboa, Para escutar alm, O brado perennal que plo a plo sa! Ahi tens, Povo Luso, o heroe que agora incensas; Proclama-o democrata! Mas pesa-lhe a injustia, os odios, e as sentenas E dize se arrebata Um nome que traduz as mais crueis offensas! ............................................ E o titan que esmagava assim, rude e febril, Os braos da nao, os braos productores, Os ferros destruia ao escravo no Brasil, E baixava ao commercio os olhos protectores! Infando laborar! Contradico tamanha, Que pe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo, E nos traz memoria a flrida montanha Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo! Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo Quando s synthese s das leis da creao! s tu quem ds a luz, e ests na sombra immerso, Proclamas o Progresso, e ds a Destruio! Exhaures toda a fora em busca da Verdade, Penetras com valor nos seculos remotos, E quando julgas ver a eterna claridade Surge-te frente a frente um turbilho d'ignotos! Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja! Que infrene marulhar na logica dos factos! E quando a Aspirao em nuvens de ouro viaja, Ha de chegar emfim aos desenganos latos. Buscae por toda a esphera a perfeio preclara; O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo; A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara, A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto! A Ideia rasga a entranha me commum, Terra, E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento; Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra, E pe um muro espesso em face ao Pensamento. Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro, Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade; E o Homem preso rocha, destructor e obreiro Que agora incensa treva, e logo Liberdade! Nos dramas do Universo ha sempre imitaes O fado perennal, a frma transitoria; Cada poca produz idoneas mutaes E ha pontos de contacto a escurecer a Historia. Se um dia a raa humana attinge os lisos portos De seus nobres ideaes, ento, forte e sublime, Escalpellando luz, heroes, fetiches mortos, Ver-lhe-ha nos coraes crescer a flor do crime. E ento, em vez de honrar ministros, generaes, Em vez de pr n'um templo os grandes assassinos, Dar seu preito eterno s leis universaes, E Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos! IV Vem rompendo a manh, dizem as aves Seus canticos tranquillos e suaves. As perolas da aurora, sobre as flres, Parecem lamentar ignotas dres; E a voz do pegureiro, nas collinas, De envolta com as phrases purpurinas Com que o espao sada a Humanidade, Tem um cunho supremo de saudade, Tem um ecco de angustia to sentida, Como a corda de uma harpa, que, partida Expande pelo ether seus lamentos. Vem rompendo a manh, nos movimentos Dos multiplos anceios luminosos Que agitam sem cessar a humana arteria, E transformam as lides da Materia, Parecem destacar-se uns sons dolosos, Que a Naturesa arranca das entranhas, E que vibram no valle e nas montanhas. E comtudo nos floridos caminhos Balouam brandamente os doces ninhos, E reflectem nas limpidas correntes As nuvens azuladas, transparentes, Como um espelho brilhante da Consciencia, E as varzeas em virente florescencia Espalham pelo ambiente seus perfumes. Mas escutam-se ao longe alguns queixumes, Mas um grande alvoroto se aproxima, E parece que a aurora desanima, Que os doces rouxinoes tremem de susto, E pende a Naturesa o roseo busto! Quem que vem ento por essa estrada, Quando apenas desperta a madrugada? Que significa pois tanto tropel, Que quer dizer a angustia to cruel Que pulsa ahi no seio universal? talvez um factor do negro mal, Algum gigante audaz, filho da noute, Algum Attila ou Nero, rijo aoute Das coleras divinas, e illusorias, Que vem correndo as turvas trajectorias Do vicio, do rancor, do odio insano, At rasgar o peito ao ser humano! ................................. um cortejo que segue... quem ser!? J passam muito perto... Que numerosos so! Que vejo!... Ah! Com passo frouxo e incerto Caminha uma mulher, em desalinho, Mais pallida que arminho. De um lado traz o padre, e de outro o algoz De ventas dilatadas E a estupida expresso de um ser feroz. As brancas mos ligadas, Veem roxas das auras matutinas, E das correntes finas. Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante Dos tristes condemnados, E s vezes solta um ai to lancinante, Que tremem magoados Os proprios coraes mais rancorosos, E os monstros mais odiosos. Vem seguida dos filhos e do esposo, Santissima cohorte Que vae cahir tambem no seio iroso Da vingativa morte, Que o ministro do rei, fero e iracundo, Arroja sobre o mundo. Chegam junto do poste; ahi pra tudo. O algoz, sem mais respeito Bate no hombro martyr; fica mudo O feminino peito, Varado pela intima agonia Da infrene tyrannia. Levanta essa cabea, infiel traidora! Ordena-lhe o carrasco; Tu sers a primeira, que s senhora! E com medonho chasco Procura, um por um, os instrumentos Que servem aos tormentos. V marqueza de Tavora--era a triste! Que esplendidas tenazes! Sabes quanta virtude aqui persiste? So para os teus rapazes. Applico-lh'as na cara, mesmo em braza, E fao--taboa raza! E as torquezes? So rijas de uma vez! Agarram como o bro! Ho de arrancar os olhos ao marquez, _Meu amo e senhor meu;_ E emquanto lhe correr o pranto amargo Protesto que o no largo! Fidalga sem vergonha, olha os cutellos Com que eu lhe parto as pernas. Agarro-lhes depois pelos cabellos, E, lano-os nas cisternas. Porm seu corao traidor, e infausto, Dos corvos ser pasto. V! Morre descanada, morre em paz, Que eu mato os teus tambem! Vo todos para o monstro Satanaz! E tu, que s boa me, Deves nutrir os jubilos eternos Por vel-os nos infernos! Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado, Sou eu que o amortalho Nos farrapos do opprobrio e do peccado, E em cinzas o retalho. E para mr despreso demonstrar Atiro-as logo ao mar. Recae-a em tua fronte todo mal, Infamia e maldio! Sepulte-se n'um torpe lodaal Teu limpido brazo, E fique para sempre o nome teu Mais vil que o de um judeu! A martyr, com a vista erguida ao espao Soffria silenciosa. Rodeia-lhe o pescoo o frio lao E a victima formosa E ao ver fugir da vida os aureos brilhos S diz Filhos, meus filhos!... mes! Que dr suprema isto traduz! Que turbida epopeia! povo soffredor, fco de luz De onde irradia a Ideia, Medita; o que ha de mais cruento e fro No corao de um Nero?! Como que desce tanto a raa humana? Como que um Povo culto Supporta resignado a mo tyranna Que lhe arremessa o insulto, E deixa ir esmagando sob as lousas As filhas, mes, e esposas? .................................... Horas depois os martyres morriam s mos do indigno algoz; Boatos na cidade percorriam Porm a plebea voz Produz-se eternamente no vazio... Por isso... no se ouviu! El-rei dava audiencia; ao seu ministro Fel-o marquez e conde; O premio era brilhante mas sinistro, E a Historia ainda esconde Os prantos que verteu, porque o terror Suffoca os ais Dr! Comtudo alguma cousa se levanta A protestar com ancia; Alguma aspirao sublime e santa, Em firme reluctancia Descobre s geraes os negros rastros Dos portentosos astros. E chama-se Consciencia eterna fora, Que os seculos correndo, Sem que a linha traada alguem contora, Pharoes vae accendendo Nos angulos do turvo precipicio, Onde faz ninho o vicio. Em nome d'essa fora que defende O fraco, o pobre, a creana, Gigante luminoso que se estende Da morte loura esp'rana, que eu reprovo a impia atrocidade Da velha sociedade. Sou democrata e me; procuro um norte De Liberdade e Gloria; Acceito essa revolta ardente e forte Que faz tremer a Historia, Porm condemno o immano desvario Que mata a sangue frio! ........................................... Que a lei arvre o facho augusto do Direito, E v depois cravar nos intimos do peito As garras da Inclemencia, Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame, Revolta a s Consciencia! Se o misero infeliz que pelas praas dorme Calcado pela dr, medita o _crime enorme_ De procurar viver; Se presa da afflico divaga pelas ruas, Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas, E os prantos a correr; Se a esposa que implorou sociedade honesta Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta, Se encontra repellida; E para alimentar um filho, irmo ou pae, Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae Manchar-se, prostituida. Se o orpho que vegeta a par do vicio ignobil, Mais tarde para o vicio o nauseabundo mobil, Se rouba e prostitue, Como ousa revoltar-se a sociedade vil, Se ella quem provoca, e desbragada e hostil, Perverte e no instrue? Que pensamento assiste aos monstruosos codigos? Se os papas, deuses, reis, no crime ho de ser prodigos, Como que a lei castiga Um ser vidente e bom, que aclara a escurido Com o facho viril da leal Revoluo? Como que a Lei intriga? Como que ella protege o roubador agiota, E arrasta na enxovia o desgraado illota Que a fome fez baquear Nos pelagos do mal? sociedade absurda! voz da Naturesa, a lei ha de ser surda E o odio ha de julgar! ......................................... Matar uma mulher que me, que democrata, Assassinar sem d a esposa aristocrata, Junto dos filhos seus, por egual cruel, por egual maldito! E havia de fazer chorar todo o infinito, Se acaso houvera um Deus! Por mim, que offerto o culto ao que sereno e puro, Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto duro, Que no conheo a f, Protesto contra a morte infausta de Antonietta, De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta, De Tavora e Corday! A mo que referenda o crime da injustia, Quando podia erguer da deleteria lia Um sol ou um jasmim, Assigna, sem pensar, o perennal deslustre De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre, Da Humanidade emfim! V Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante, Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime? Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante E logo gera um mal que a Gloria no redime? Elle era um diplomata, um patriota, um merito, Podia ser tambem um nobre benemerito Levando o Povo Luso s concepes do Justo, Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto Voltasse ao sentimento um corao suave. Julgou que ser tyranno era o mister mais grave Do ministro de um rei! Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei, Poz um manto de lucto aos hombros da Justia, Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa, E como affirmao da ideia monarchista Dos nobres ao plebeu traou a rubra lista. Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado? Pesando com criterio os factos do passado, Seguindo passo a passo o luminoso accesso Da Sciencia e do Progresso. ........................................ Ha muito que na Europa o sopro percorria Da clara discusso da s philosophia. Desde o seculo doze, a duvida christ, Buscava escalpellar o craneo de Satan. Pierre d'Abelard examinara a crena, E via j na f uma utopia immensa. Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Raso, Antepunha ao Progresso a fera inquisio. Mas Bacon, um titan, repelle a f-cahotica, E dando luz Optica Recebe uma intuio da Sciencia positiva. Ento larga a rotina, e s na lide activa Depoz a base firme ideia demonstravel. Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel, Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor Meditava o progresso enorme do vapor; Mas como em sua frente a infamia no assoma, Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma, A eterna desbragada, a eterna prostituta Que as geraes enlucta. Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa, Excelso meteoro, a realidade immensa Que faz de Guttemberg um centro luminoso! Ia baquear em terra um deus medonho e iroso; Ia a Ideia pulsar na mente e fora do Homem! E como as trevas somem Os raios de um bom sol, assim o novo invento Abria par em par a estrada ao Pensamento! O Genio eternisava em breve a Pomponace, E o forte Rabelais batia face a face A escolastica, e a lei theocratica e politica, Bem como o abuso annexo concepo juridica. A Patria lusitana, a joia do Occidente Europa mostra ento o poeta Gil Vicente, Que aouta o clero hostil com ltegos de risos, E nem sequer poupando os _santos paraisos_. Na praa era o judeu sujeito a atrocidades; Na crte, D. Manuel escarnecia os frades. Havia pois de um lado a fora da rotina E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina. Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode, Roma chega raivosa, e v que nada pde. Copernico affirmava a terrea rotao, Perdia o seu prestigio a _santa_ religio! Foroso era impedir a affronta d'essa Ida! O sabio ponderou, que outr'ora na Chalda Se havia j mostrado o movimento Terra; Porm a Curia segue em furibunda guerra, E condemnou-lhe a obra. Mas eis um luctador que a fora audaz redobra, E com coragem fria Procura no infinito as leis da astronomia. Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu. E o mundo olha assombrado o insigne Galileu, Que segue passo a passo O trajecto eternal dos mundos pelo espao. Se ha nome que de Gloria esplenda no universo, o d'esse velho nobre Que o clero punge e arrasta, em dr, e pranto immerso, Mas que ao Genio descobre A esteira do futuro, a via dos heroes Que pem no Progresso os rubidos pharoes! A quda do Oriente, estremecer convulso Havia dado Ideia um vigoroso impulso, Civilisando a mente e pondo em toda a parte O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte. Ento o aureo paiz dos inclitos vares Produz um sol gigante o esplendido CAMES, A synthese do Genio, um estro democrata Assombro dos Ideaes, talento que arrebata! Que bella actividade! Um cyclo era uma escola De sublimado intento!... Porm v-se descer o manto de Loyola Por cima d'esse advento, E logo a aurora cae nas garras do terror, E logo a humana gloria exprime no estertor Que a prostra um assassino! Comtudo avana o Bem! Luthero, Huss e Calvino Feriram mortalmente O abuso, a tyrannia e o repugnante agente Das penas infernaes, Geradas no rancor das hyenas clericaes. A lucta assim travada turbulenta e audaz! De um lado impera altivo o monstro Satanaz. E do outro a aspirao das comprovadas cousas. A aurora veste lucto, a terra veste lousas, E o sangue corre a flux no precipicio escuro... Mas elle fecundou os germens do Futuro! ....................................... Keppler, Newton, Brah, tinham desfeito o mytho Da creao divina; os livros do infinito J tinham revelado, em phrases de planetas Da grande lei sidrea as deslumbrantes metas. Descartes amplira as lucidas conquistas E profundra o abysmo s vs fices deistas; E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal, Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal, Com satyra cortante e lucido criterio, Traando-lhe no Tempo o eterno cemiterio. Desfibrava-se a pouco a lenda theologica, E punha-se a atteno na historia geologica, Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha No valle, e na montanha, esphera onde se agita o Genio e o desatino. Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino, E todos, sem sentir, Fizeram o passado esmorecer, ruir. A antiga historia china oppunha-se utopia Da lenda de Moyss; a sciencia cada dia Os cerebros levava nova experiencia, Que em breve provaria forte intelligencia A historia da Materia No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea. ................................................ Brotava na Consciencia a aspirao politica; Deixara a Inglaterra a frmula mephitica, E em todos os sentidos Se pressentiam j os turbidos ruidos. Voltaire e Diderot entravam no futuro. Desmoronando o muro Que ainda protegia a treva e o fanatismo. Ficou pois fulminada a crena e o mysticismo! Nenhum abrigo havia aos golpes do alvio Vibrados pela firme e rija Evoluo. Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo, Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo, Sem verem que aluida a base do edificio Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio, Desaba fatalmente em multiplas bastilhas. Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas, E o genio dos heroes deixara esteiras certas bella explorao das ricas descobertas. No clima luxuriante, e terras do Equador Eram a flra e fauna os ninhos do esplendor, E o Homem que estudava, o Homem j sabia Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia. .............................................. N'este mar revoltoso que se eleva o homem Que uns coroam de luz, outros na campa somem! VI O marquez de Pombal, producto do seu meio, Trazia na Consciencia o salutar anceio Das santas cousas bellas. Mas um facto mental, o facto do attavismo, Acorrentava-o sempre ao velho despotismo Dos thronos e das cellas. A corrente soprada alm, da heroica Frana, Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rana Das creaes mais caras; Porm n'esse combate imigo do Direito, Cedia tristemente voz do Preconceito, E s perverses ignaras. Demonstra-o fartamente o proceder confuso Com que arrojava ao Povo um turbilho diffuso De mortes e afflico, Curando juntamente, e com visivel gloria, De lhe aplainar a rude e fria trajectoria, Por meio da instruco. Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho Do seculo passado, Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas, Expostos com vigor, e com profundas vistas De um espirito avanado. Comprova-o a friesa usada com Fylinto Que longe do seu ninho, o doce riso extincto, Chorava, em lyra de ouro, As ruinas da ventura, o azul do patrio lar, As aguas do Mondego, e as vibraes do luar Entre os jasmins e o louro. A ethopa social dos seculos transactos, Reflecte-se e vigora em seus funestos actos. Fluctua sem cessar seu espirito viril, Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil. Mas n'elle transparece uma tendencia rude Que punge a leal Virtude! A statica mental aperta-a pelos pulsos; E a dynamica ento imprime-lhe os impulsos Da progressiva lida; E assim n'este vaivm lhe corre toda a vida. Porm quando abordou estancia derradeira Deixava atraz de si a sanguinosa esteira, Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creana Reclamam com vigor criterio e segurana Ao tribunal da Historia, onde sero julgados Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados. .............................................. Tenho attacado o clero, aspiro excelsa luz, Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus O affecto que daria a irmo, se irmo tivera, Venero o positivo, e nunca a van chimera. Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso, Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso, As heras infantis que enleio na Consciencia, A fora que me impelle lucta da inclemencia Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas Odeia a quem cultiva as rosas christalinas No corao do Bem, Progresso e Liberdade, Seguem a religio do Justo e da Verdade, a sua crena ideal, Resume-se no amor do seu sentir filial. Mas tendo a mente forte e despresando os idolos, E combatendo firme os monumentos frivolos, Politico-sociaes, Revoltam-me a Consciencia os actos to brutaes Da vida do marquez, E vejo com tristesa o nome portuguez Coberto pelo horror, Quando podia ser um foco de explendor. A queda do jesuita justa, rasoavel; Expulsa essa barreira imiga insuperavel, Podia a sociedade erguer-se da ignorancia, Dormir em paz a Me, sorrir a loura infancia Ao Pensamento novo, a santa aspirao! digno de louvor quebrar inquisio Os braos da vingana a ira da torpesa. Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa, Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente, Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente, Rojado pelo cho, manchado pela lama! E pelas naes clama A Ideia humanitaria, amena, e justiceira, Vendo arrojar um ente estupida fogueira! E embora fosse um padre, embora um jesuita, Embora fosse irmo da raa atroz, precita, A minha voz sentida Protesta contra a morte imposta a Malagrida! Protesto! E emquanto houver Um corao de luz em peito de mulher, Meu brado ha de correr nos angulos do mundo, E em todo o mar fecundo! VII Que se ha de ento fazer aos grandes luctadores, Que lanam sobre a Historia as olorosas flores, E regam com seu sangue os fructos do porvir? Que fontes de esplendor iremos ns abrir Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui, O martyr que sorri Por entre a cerrao da noute do tormento? Que havemos de offertar aos soes do Pensamento? Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia! Detesto a immanidade, e a vingativa astucia... O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa, Formaram no silencio a fulgida cabea Da indomavel revolta! O monstro que commanda, em meio de uma escolta As manobras crueis que geram a orphandade, mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade, E deve ter na mente A infamia de Javheh, e os odios da serpente. Como hei de eu incensar a monarchista treva? Como hei de ento louvar um ser de fronte seva? Pombal beijou a patria, e espedaou-lhe o seio; Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio Dos crentes do porvir! Levou seu nome Gloria, e fel-o aps cahir. No sangue inda escorrega Quem segue a lusa historia. A s Justia nega Um preito, a quem desdenha a humanitaria via, E lana a Liberdade s palhas da enxovia. Fique acima de tudo o limpido criterio; Formar uma cidade onde era um cemiterio Seria expr a vida aos morbidos prejuizos. Vasar em molde infiel historicos juizos Ser viciar tambem o pensamento ao Povo. Justia! Ha de o vindouro escalpellar de novo A nossa actividade; e ento... tremendo encargo! Ou ha de ter no peito um sentimento amargo Ou ha de achar mesquinha a obra dos avs! Salvemos o Futuro, e que elle creia em ns! FIM End of the Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal luz da Philosophia, by Angelina Vidal License: Share Alike